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unidade 2 | capÍtulO 6

VOcÊ já pensOu nistO?


Nossa vida em sociedade depende de funções que depende do vendedor de seguros, do vende-
exercidas por outras pessoas. A sociedade con- dor de carros, do programador de software, que
temporânea cria funções cada vez mais especia- depende do pedreiro, do carpinteiro, e assim por
lizadas e das quais dependemos cada vez mais. diante. Ou seja: as funções sociais que desempe-
Com isso, forma-se uma rede de interdependên- nhamos criam laços de interdependência social.
cia entre os indivíduos. Dependemos do pedrei- Tente observar em sua escola como se dão essas
ro, do carpinteiro, do jornalista, que por sua vez relações de funcionalidade e interdependência
depende do lojista, do comerciante, do industrial, profissional.

Exemplos de fatos sociais são as leis, a educação, a divisão do trabalho, as


crenças religiosas e políticas, os esportes. O futebol, por exemplo, é um fato so-
cial porque está presente em toda a sociedade brasileira; é externo aos indiví-
duos, pois sua existência não depende da vontade individual; é também coercitivo,
pois impõe aos brasileiros um padrão esportivo. Além disso, muitos meninos bra-
sileiros desejam ser, em primeiro lugar, jogadores de futebol. Esse “desejo” pode
ser visto como coerção externa, propriamente social.
Nos termos de Durkheim, a Sociologia é a ciência que estuda os fatos sociais.
Aqueles fenômenos que não estiverem dentro de sua definição serão considera-
dos do domínio de outras ciências.

3. maX Weber: açãO sOcial e tipOs ideais


As principais obras de Max Weber foram escritas entre a primeira e a segunda
décadas do século XX e estabeleceram um novo estágio para as Ciências Sociais.
Ele também se empenhou em sistematizar a Sociologia, mas sua análise difere
muito da de Durkheim, sobretudo no que se refere à importância do indivíduo e
de sua ação social. Diferentemente de Durkheim, Weber não considerava a socie-
dade algo exterior e superior aos indivíduos. Para ele, a sociedade deveria ser
analisada com base nas ações sociais.

perfil
Archives Charmet/The Bridgeman Art Library/

maX Weber
Keystone. Foto de c. 1896.

Nascido em Erfurt, na ses onde essa religião era mais forte. Isso não
Alemanha, Max Weber significaria que o capitalismo se desenvolveria ape-
(1864-1920) foi um dos mais nas nos países protestantes, mas que, no contexto
importantes cientistas sociais europeu, algumas ideias de origem religiosa podem
de todos os tempos, e seus ter favorecido a formação e expansão do capitalismo.
trabalhos tiveram grande influência sobre o estudo da Por outro lado, Weber via na sociedade moderna
sociedade moderna. um processo crescente de racionalização: na econo-
Embora reconhecesse, como Marx, a importância mia, por exemplo, as formas tradicionais de trabalho
do trabalho e da economia sobre a vida social, Weber foram substituídas pela fábrica e pela gestão cientí-
se interessou mais pelo modo como a economia era fica da produção; na política, a obediência à tradi-
influenciada por outros aspectos da sociedade, em ção foi substituída pelo respeito à lei e pela burocra-
especial pela religião. Em sua obra mais famosa, A cia. Embora todos esses aspectos favoreçam a
ética protestante e o espírito do capitalismo (1904- eficiência, Weber temia que, com o tempo, a racio-
-1905), Weber analisou a maneira pela qual algumas nalização causasse uma deterioração dos valores
ideias do protestantismo, como a valorização do tra- (não só religiosos, mas também os valores liberais
balho como sinal de predestinação à salvação, favo- ligados à liberdade individual, à democracia) que
receram o desenvolvimento do capitalismo nos paí- produziram a sociedade moderna.

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pensandO a sOciedade

Para ele, qualquer ação individual é orientada por outras ações, ou seja, quan-
do agimos, levamos em conta e nos orientamos pela ação de outras pessoas.
Com base na expectativa de como nossa ação será recebida, agimos de uma ou
de outra maneira. Nossa ação individual é considerada social porque está inseri-
da em um contexto social e histórico que qualifica todas as ações individuais.
Não haveria, assim, oposição entre o indivíduo e a sociedade, pois só seria
possível compreender a sociedade nas manifestações da ação individual. As-
sim, o indivíduo não seria considerado produto de um todo coercitivo, mas
pelo contrário, responsável por seus atos. A sociedade não tem um sentido
próprio, mas é reproduzida pelos indivíduos, que lhe conferem sentido com
suas ações. Portanto, a Sociologia de Weber considera que um dos principais
fundamentos da compreensão de fenômenos sociais estruturais — como o ca-
pitalismo, o Estado, as religiões, os regimes políticos e as formas de poder e
dominação — residiria na análise das ações individuais ou de um conjunto des-
sas ações.


assim falOu... Weber
[a Sociologia é a] ciência que tem como meta a compreensão interpretativa da ação social de maneira
a obter uma explicação de suas causas, de seu curso e de seus efeitos. Por “ação” se designará toda a
conduta humana, cujos sujeitos vinculem a esta ação um sentido subjetivo. Tal comportamento pode
ser mental ou exterior; poderá consistir de ação ou omissão no agir. O termo “ação social” será reserva-
do à ação cuja intenção fomentada pelos indivíduos envolvidos se refere à conduta de outros, orien-
tando-se de acordo com ela.
WEBER, Max. Conceitos básicos de Sociologia. São Paulo: Moraes, 1987. p. 9.

Como o método de análise weberiano parte do indivíduo e da ação individual para


explicar os fenômenos sociais, não seria possível explicar, por exemplo, o aumento do
número de suicídios pela crise econômica em dado país, como faria Durkheim. Ao
contrário, seria necessário partir da análise empírica das ações individuais que motiva-
ram esse aumento de suicídios. Podemos, portanto, entender que a ação social é o
objeto de análise central da sociologia de Weber.
Mas o que é, na prática, uma ação social? Um exemplo são as eleições. O eleitor
vota, orientando-se pelos comentários, pela intenção e até mesmo pelo voto de
outros eleitores. Ou seja, a ação é individual, mas só se torna compreensível socio-
logicamente na medida em que a escolha de determinado candidato tem como re-
ferência o conjunto dos demais eleitores.
Partindo da análise de ações individuais
Luciana Whitaker/Pulsar Imagens

subjetivas, Weber pretende compreender


questões sociais mais gerais, que afetam e
definem a sociedade como um todo. O co-
nhecimento sociológico só poderia ser objeti-
vo se tivesse como objeto de estudo a ação
individual.
Mas o que deve ser analisado? Para Weber, a
realidade é infinita e, por isso, deve ser recortada
para ser compreendida sem que se comprometa
a objetividade científica. O cientista faz uma
seleção (subjetiva) dos fatos que vai estudar.

Idosa votando em urna eletrônica


durante eleições de 2014,
Rio de Janeiro (RJ).

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Ivan Cabral/Acervo do artista


Ele decide o que analisar com base em julgamentos
fundamentados em seus valores pessoais. A partir
desse momento subjetivo, Weber constrói um método
de análise para atingir a objetividade científica. Os re-
sultados são considerados objetivos se os procedi-
mentos de análise da ação social forem efetivamente
aplicados. Quanto mais distante do objeto de análise o
sociólogo se colocar, mais objetivos serão os resulta-
dos de sua pesquisa.
Os procedimentos de análise, que garantem a
objetividade dos resultados, estão diretamente re-
lacionados à construção de tipos ideais ou tipos
puros. O tipo ideal é uma “ferramenta” que o pes-
quisador usa para se aproximar da realidade. Com-
parando com a Física, podemos dizer que o tipo
ideal é uma régua para medir determinado elemento em seu estado mais “puro”. Ao votar, o eleitor pratica
uma ação individual que
Trata-se de um recurso para medir a realidade, para compreender o conteúdo é orientada pela ação dos
dessa realidade. outros indivíduos. Charge
de Ivan Cabral, de 2010.

VOcÊ já pensOu nistO?


Nossas escolhas têm relação com as que prefere uma certa marca de tênis,
escolhas que outras pessoas fazem. você está se orientando subjetivamen-
Estamos sempre imersos em contex- te pela ação de outros indivíduos. Pro-
tos sociais que nos influenciam e que cure refletir sobre seus últimos atos
orientam nossas ações individuais. de consumo e em que medida eles
Quando você diz que gostou de um podem ter sido motivados pela ação
filme, que escolheu um candidato ou de outros indivíduos.

Como a realidade é múltipla e impossível de ser descrita em sua totalidade,


Weber construiu a noção de tipos ideais para se aproximar o máximo possível da
realidade analisada. Esses tipos ideais são formulados com base em regularida-
des sociais por ele observadas. Note que a construção de um tipo ideal, apesar
de amparada na realidade, é apenas uma elaboração teórica do pesquisador. É
necessário escolher certas características regulares de determinada sociedade e
construir um tipo ideal, por exemplo, de pai de família, de empresário, de Estado,
de escola, de religião, de esporte. Quando o pesquisador for analisar uma socie-
dade específica, esses tipos ideais, apesar de não se encaixarem exatamente na
realidade, servirão de base para compreender como, por exemplo, alguns pais
estabelecem relações com suas famílias em determinada comunidade, como o
empresariado administra suas atividades financeiras, como o Estado organiza
suas várias instâncias políticas e burocráticas, como a escola reproduz sua peda-
gogia, como as igrejas fomentam o culto religioso, como o esporte estabelece
processos educativos e motivacionais, além dos propriamente físicos.
Weber construiu quatro tipos ideais de ação social:
1. a ação social racional com relação a fins: tem como base a expectativa de al-
cançar fins racionalmente esperados. Por exemplo, investir dinheiro para ter
um rendimento futuro.
2. a ação social racional com relação a valores: é determinada pela crença em
algum valor, que pode ser ético, religioso, político ou estético. A motivação
não tem relação direta com o resultado da ação, mas com o valor que dá sen-
tido à ação. Por exemplo, a doação de dinheiro ou trabalho para determinada
causa religiosa ou política, por princípios de fé e crença.
3. a ação tradicional: se orienta pela tradição, que pode ser familiar, cultural, social. O
indivíduo orienta sua ação com base na forma tradicional de agir dos membros de
seu grupo social: todos costumam comprar determinado produto, por exemplo.

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pensandO a sOciedade

4. a ação afetiva: se fundamenta em emoções e afetos, isto é, não se refere


prioritariamente a fins ou valores, mas a sentimentos. Como em uma briga de
trânsito motivada pela raiva, por exemplo.
Diego Padgurschi/Folhapress
Por serem tipos ideais, essas ações não
são observadas em sua forma pura na reali-
dade. Mas com base nessas construções
teóricas, é possível observar a realidade e
constatar algumas ações individuais caracte-
rizadas por um ou mais tipos ideais de ação.
O importante aqui é entender que esse me-
canismo favorece o entendimento da socie-
dade na medida em que aproxima o pesqui-
sador da realidade estudada.

Candidatos buscam emprego


durante a Semana do
Trabalho, Emprego e Renda,
em São Paulo (SP). Em termos
weberianos, a escolha do
empregador pode envolver
mais de um tipo puro de ação
social. Foto de 2015.

4. karl marX: trabalhO e classes sOciais


A principal obra de Karl Marx, O capital, veio a público em 1867, ano de lança-
mento do primeiro volume. Os outros dois volumes foram publicados após a mor-
te do autor em 1883. Marx foi um dos maiores pensadores de seu tempo. Sua
análise foi marcada pela investigação das relações capitalistas e pela formação e
relação das classes sociais. Para ele, a questão-chave para explicar as transfor-
mações sociais é a relação conflituosa entre forças sociais, isto é, entre classes
sociais distintas com interesses antagônicos.
Coleção Particular/Arquivo da editora. Foto de c. 1880.

perfil

karl marX
Karl Marx nasceu em Trier, no obra de Engels A situação da classe trabalhadora na
Reino da Prússia, atual Alemanha, Inglaterra influenciou decisivamente Marx, sobretudo
em 5 de maio de 1818, em uma fa- pela análise das condições concretas da vida do pro-
mília judaica. Morreu em Londres, letariado inglês.
em 14 de março de 1883. Em O capital, Marx expõe a lógica do processo de
Sua teoria foi marcada principalmente por três valorização do capital, isto é, como o capital se re-
correntes de pensamento de sua época. A primeira produz com base na exploração do trabalho. Mostra,
delas foi a Filosofia Idealista Alemã, que teve como assim, o objetivo do capital de, ao se reproduzir como
referência central o filósofo Georg Friedrich Hegel a relação social hegemônica, ampliar sua dominação
(1770-1831). A segunda foi a Economia Política Clás- com base no aumento dos lucros capitalistas.
sica, sobretudo o economista escocês Adam Smith Teórico, militante político revolucionário e um
(1723-1790) e o inglês David Ricardo (1772-1823), e a dos maiores pensadores críticos da sociedade capi-
terceira foi a Historiografia Socialista, que tem entre talista, Marx escreveu várias obras sobre a relação
seus principais nomes os franceses Saint-Simon de exploração e dominação social do capital em re-
(1760-1825), Charles Fourier (1772-1837) e o galês lação ao trabalho. Ele pode ser considerado um au-
Robert Owen (1771-1858). Além desses autores, Frie- tor atual, já que as relações de produção capitalistas
drich Engels (1820-1895) foi uma referência central e a exploração do trabalho assalariado são ainda
para Marx, tendo escrito várias obras com ele. A questões centrais nas sociedades contemporâneas.

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