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A HISTÓRIA SOCIAL INGLESA – Prof.

Regina Célia Gonçalves

• Últimos anos: (Fenelon, 1985:22)


- Expansão das preocupações com o social na historiografia
brasileira/mundial;
- Superação das visões limitadoras/compartimentadoras da realidade;
- História social do trabalho que busca compreender como essa relação se
traduz na vida em todos os seus momentos – dimensão da totalidade.

• Vínculos entre Trabalho-Cultura-História Social: (Fenelon, 1985:24)


- novas maneiras de apreensão da realidade econômica do poder político
(alargamento da visão sobre o vínculo entre exploração e dominação);
- ampliar a compreensão de que outros movimentos sociais e populares
(além do movimento operário) podem se constituir em alternativas na
construção de um contra-poder popular (o que não significa excluir/
recusar o movimento operário, mas reconhecer no social uma
diversidade mais ampla);
- disposição para examinar as “lutas reais” dos trabalhadores e não apenas
suas organizações oficiais.

• Definição de História Social: (Hobsbawm (1971) apud Fenelon, 1985:25-26).[ver meu


texto, p.1].
1) Como a história dos pobres, dos desfavorecidos e mais especificamente a
história do trabalho, das idéias e das organizações socialistas. Nesta direção foi uma
historiografia que atraiu militantes; 2) De um outro ângulo, o termo foi usado para se
referir a estudos sobre uma série de atividades humanas tais como hábitos, costumes,
vida quotidiana. Neste caso, não necessariamente voltada para as classes
despossuídas, até pelo contrário, quase sempre às dirigentes. Esta abordagem
correspondeu ao que se convencionou chamar de uma ‘visão residual da história
social’, porque era entendida como a ‘história com a política deixada de lado’. E,
finalmente, 3) o termo social foi sempre usado em combinação com a história
econômica, para ser dita uma história econômica e social. A expressão traduzia uma
concepção estreita da história social, considerada como uma simples apêndice da
história econômica”.

• Momento de valorização do político: caminho do historiador não deve ser nem o


de encarar/cair, de um lado, na autonomia relativa ou não do político, ou de
qualquer outra instância, e de outro lado, no fundamentalismo economicista.
Buscamos compreender as relações de dominação como “o real que se constitui
historicamente, através da experiência do homem, no refazer a sua própria
natureza e não apenas como o resultado de determinações estruturadas dadas”.

• Perceber que a subordinação gera: insubordinação/resistência – necessário,


portanto, ampliar a noção de política (ela ultrapassa o campo do institucional, do
Estado, abarca a multidisciplinaridade das formas de poder) para o cotidiano da
experiência de luta; (Fenelon, 1985:28).
- importância dos trabalhos de Foucault e seus seguidores: Estado e as
instituições não são um ponto de partida necessário ou o foco absoluto de
toda a origem do poder/dominação social – há que se atentar para os
poderes “moleculares”;

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- Investigar, portanto, o todo social não é fazê-lo exclusivamente pelas
determinações estruturais, mas atentar também para a necessidade de se
reorganizar, para controlar, todos os aspectos da existência do
trabalhador/reorganizar os próprios saberes sobre estas condições.

• O avanço em direção a essa História Social (que persegue a totalidade, no


entrecruzamento entre trabalho/cultura/política) operou-se por diferentes
caminhos, em diferentes lugares:
- França: os Annales (em suas três gerações + Foucault, por exemplo);
- Inglaterra: a História Social Inglesa.

• A História Social Inglesa (História Social do Trabalho; História Vista de


Baixo):

O grupo de historiadores do Partido Comunista Britânico (1946): (também


conhecidos como “marxistas humanistas”).

Sob a influência de Maurice Dobb estavam: Christopher Hill, John Saville,


Raphael Samuel, Raymond Williams, Eric Hobsbawm, Dorothy e Edward
Thompson.

Suas ferramentas teórico-metodológicas para o desenvolvimento do projeto


de construção de uma visão sobre o desenvolvimento do capitalismo na
Inglaterra:

a) resgate e aprofundamento de problemas históricos presentes nas obras de


Marx, engels e Lênin, especialmente no que se refere às questões relativas ao
papel da ação humana no processo histórico diante do peso das
determinações estruturais, formuladas especialmente por Engels;

b) o grupo se considerava seguidor da longa tradição da historiografia


liberal-radical inglesa, a exemplo de Tawney (um dos formuladores da teoria
da importância da ética protestante na ascensão do capitalismo) e os
Hamonds (pioneiros da história do movimento operário inglês);

c) influenciados pelos debates no âmbito da crítica literária: sua visão de


“organicidade” entre cultura e civilização (associada a uma vaga noção de
“cultura popular”) + denúncias dos malefícios da massificação – essa relação
com o debate literário e a problemática cultural teria servido como uma garantia
contra o determinismo econômico e contribuiria para o desenvolvimento de uma
“história social das idéias” (em especial da relação entre valores, crenças e
representações e as formas de ação histórica dos setores populares).

1956
- Thompson e Saville: Reasoner
- Nova Esquerda: dissidentes do PCGB (Raymond Williams, Raphael Samuel,
Doris Lessing, Saville, os Thompson, entre outros) – New Reasoner (espaço
aberto tanto de debate e divulgação de reflexões da dissidência comunista
quanto de crítica ao stalinismo e à política social-democrata).

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1959
- New Reasoner funde-se com a Universities and Left Review (de estudantes
socialistas de Oxford) = New Left Review. Objetivo: que o marxismo deixasse de
ser uma discussão teórica, vazia e abstrata dos conceitos, e que pudesse também
entrar nos processos sociais. Engajamento em movimentos como o anti-
colonialismo, a Campanha pelo Desarmamento Nuclear ou outros movimentos
democráticos + criação, ao redor da revista, de centros de trabalho e de agitação
socialista dando origem a grupos e clubes (junho de 1960 havia 30 desses
clubes).

- Após um rápido crescimento no final dos anos 50, a Nova Esquerda entrou em
declínio, não conseguindo firmar-se como forte alternativa política na esquerda
britânica.

1963
- Nova geração de intelectuais marxistas assumiu a direção da revista (Perry
Anderson editor) e a maioria dos membros do antigo grupo fundador
experimentou, a partir de então, um forte isolamento e afastamento de uma vida
política mais ativa;

- É o período da chamada “segunda” Nova Esquerda: inflexão no debate político


e alterações na linha editorial da revista. Passam a predominar os debates
teóricos no campo do marxismo. Constante participação de autores estrangeiros:
Althusser, Mandel, Balibar, Colletti e outros.

- Cresce a influência do estruturalismo marxista de Althusser – predomínio de


uma “atração geral pela teorização pura” que contrastava abertamente com o
rumo adotado pelos principais participantes do grupo de historiadores do PCGB
(projeto de articulação de uma história popular inglesa tendo como referencial
político não mais a identificação de uma organização – o PC – como herdeira
desta trajetória de lutas, mas as múltiplas experiências que expressam a classe
trabalhadora em seu processo de constituição);

- Em A Formação da Classe Operária Inglesa Thompson busca resposta a um


legado de problemas historiográficos herdados do grupo de historiadores do PC:
a noção de experiência como chave para superar a contradição entre
determinação e agência humana no interior da historiografia marxista. A
continuidade da longa tradição de lutas populares (desde o século XVII)
expressa-se não mais em uma organização singular, mas numa gama de formas
organizativas permeadas por tradições e valores reelaborados pela experiência.

1964
- Publicação de uma série de artigos de Anderson (Origins of the Present Crisis)
e Tom Nairn (Anatomy of the Labour Party) em que buscavam compreender a
nova conjuntura (vitória do partido Trabalhista nas eleições de 1964) a partir de
uma análise sistemática da história britânica do ponto de vista marxista,
buscando abordar o desenvolvimento do capitalismo, a formação e estrutura das
classes sociais, bem como a trajetória das ideologias no país;

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- Sua tese: condenação da incapacidade da classe trabalhadora inglesa tornar-se
uma classe hegemônica (posição oposta a dos historiadores da “primeira” Nova
Esquerda).

• Além dos grupos do PC e da NLR - O Grupo da History Workshop


(Universidade de Oxford, Raphael Samuel) – Revista socialista/feminista -
preocupação com as “pessoas comuns”.

• Posições teóricas comuns: afastamento do determinismo econômico,


buscando uma abordagem do social com um amplo leque de preocupações/
temas: infância, mulheres, crimes, vida urbana, cotidiano + ampliação da
noção de fontes (com destaque para a história oral).

Fabianismo
A Fabian Society, esboçada em Londres em 1882-1883, é organizada em 1884 e
dura até 1930. Tem como objectivo inicial contribuir para a reconstrução da
sociedade de acordo com as mais altas possibilidades morais. Entre os fabianos,
George Bernard Shaw, Graham Wallas, Edward Pease, Annie Beasant, H. G. Wells e
o casal Sidney e Beatrice Webb (com o nome de solteira de Beatrice Potter). O
termo apenas se consagra em 1889 com a publicação dos Fabian Essays in
Socialism, organizados e prefaciados por Shaw. Cimentam-se em 1895 quando
promovem a fundação da London School of Economics com o objectivo de dar uma
instrução nas ciências políticas e económicas e de constituirem um centro de
pesquisa sistemática nas ciências sociais. Distanciando-se de Marx, e influenciados
por Proudhon e John Stuart Mill, reinventam um socialismo democrático que esteve
na origem do trabalhismo britânico, influenciando o programa de 1918, Labour and
Social Order, esboçado por Sidney Webb, que se manteve até aos anos conquenta,
quando foram publicados os New Fabian Essays, de 1952. Baseiam-se nos
anteriores radicais utilitaristas, mas, ao contrário da perspectiva de Bentham, que
punha acento tónico nas reformas legislativas, vão, sobretudo, defender reformas
de carácter económico e social, a inevitabilidade do gradualismo. Defendem a
meritocracia e o recurso a peritos competentes para a gestão dos negócios
públicos. Preferem o reformismo ao radicalismo. Assumem-se como defensores da
eficácia da gestão. Utilizam como título o nome do general romano Quintus Fabius
Maximus Verrucosus (morto em 203 a.C), o cuntactor, que venceu Aníbal, apenas o
atacando quando chegou o momento propício, através de uma táctica que tanto foi
subtil como eficaz.

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EDWARD PALMER THOMPSON (1924-1993)
• Filho de família liberal ingressou no Partido Comunista Britânico aos 17 anos;
• Lutou na II Guerra e, posteriormente, participou da reconstrução da Iugoslávia e
da Bulgária na recuperação de ferrovias e construções em geral;
• Morte do irmão (assassinato por fascistas búlgaros) o marcou profundamente.
• Formou-se em História, mas tornou-se professor universitário tardiamente. Foi
professor de escola noturna (para adultos) e ativista político (inclusive no
Movimento pelo Desarmamento Nuclear, especialmente nos anos 80).

 1963: A Formação da Classe Operária Inglesa.

- 3 partes: 1ª) A árvore da liberdade: analisa as tradições populares e a


influência jacobina nas agitações de 1790, apontando a dívida da
sociedade contemporânea para com o primeiro proletariado inglês. 2ª) A
maldição de Adão: analisa as tradições de lutas e as experiências de
grupos de trabalhadores desenvolvidas durante a primeira revolução
industrial inglesa e as possíveis mudanças introduzidas pelos metodistas.
Nesta parte, o autor defende a tese de que havia uma tradição que
antecedia a luta e uma cultura radical que antecedia o metodismo, ou
seja, não havia um espaço vazio que teria sido preenchido pelo
metodismo. 3ª) A força dos trabalhadores - analisa o surgimento e
enraizamento das organizações políticas e as experiências dos jacobinos
ingleses: aí, ele retoma a questão do radicalismo plebeu, do
desenvolvimento do ludismo e do fim das guerras napoleônicas. Destaca
a experiência das sociedades de correspondência, a construção das
primeiras organizações operárias e a influência radical jacobina nestas
organizações.

- Um novo marco na historiografia contemporânea. Buscou “refazer” a


história do primeiro proletariado inglês, penetrando nos meandros do que
denominou o “fazer-se” da classe operária. [making = poesia escrita e
também processo de construção]. Remeteu classe e cultura para o centro
dos debates na história, como nunca haviam sido antes. Radical revisão
na nossa compreensão do processo político. Uma sofisticada concepção
de resistência política.

- Objeto e fontes abordados de forma pouco convencional: não se


restringia a sindicatos e organizações socialistas, mas abrangia um vasto
campo que compreendia a política popular, tradições religiosas, rituais,
conspirações, baladas, pregações milenaristas, ameaças anônimas, cartas,
hinos metodistas, festivais, danças, bandeiras, etc.

- Mexia com toda uma tradição (tanto conservadora como “progressista”)


de apologia da revolução industrial e das suas consequências econômicas
e sociais. [alguns críticos o acusam de construir uma imagem idílica da
Inglaterra pré-industrial].

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- É uma história escrita a partir do ponto de vista dos vencidos. Reescreve
a história da virada do século XVIII a partir da experiência das vítimas
do progresso.

- Questiona as categorias da historiografia dominante, impregnada pela


ideologia do progresso linear, benéfico e inevitável.

- Rejeita a perspectiva conformista de muitos historiadores econômicos


que identificam o progresso humano com o crescimento econômico. Não
teme evocar “a natureza realmente catastrófica da revolução industrial”.

- Nesse contexto procura entender as reações das camadas populares e sua


nostalgia de um estilo de trabalho e de lazer anterior às disciplinas
impiedosas do industrialismo. Recusa-se a qualificá-las como
reacionárias, e aponta o potencial subversivo de suas críticas.

- Conceito de classe: fenômeno social e não uma categoria analítica ou


estrutura. Classe implica na ação humana como condicionante. Opõe-se
aos economicistas e historiadores sociais que reduziam a ação humana à
obscuridade. Classe não é mero produto do desenvolvimento das forças
produtivas. [seu debate é com a tradição do modelo base/superestrutura e
sua tendência geral ao determinismo econômico que estavam
profundamente enraizados no conceito marxista de classe].

- No livro Thompson retoma a agitação ocorrida na Europa em


decorrência da Revolução Francesa. Na Inglaterra as Sociedades de
Correspondência foram reprimidas, mas sua tradição penetrou nas
comunidades operárias É um equívoco pensar que a repressão foi o fim
dessa experiência, pois aí teria ocorrido exatamente um novo início.

- Em sua narrativa busca estabelecer o caráter coletivo da experiência de


exploração e opressão dos trabalhadores ingleses, mas também abre
espaço para as experiências individuais de artesãos e trabalhadores não
qualificados (texto – movimento entre a fala individual e a experiência
coletiva e vice-versa).

- O processo de constituição da classe está diretamente ligado, de um lado,


à experiência (conceito central) de exploração, repressão, carestia,
desigualdade e, de outro, à solidariedade, partilha e comunidade).

 1965: As Peculiaridades dos Ingleses


- Thompson arremete contra vários pressupostos do marxismo ortodoxo
(republicado em 1978 como complemento à edição de “A Miséria da Teoria”,
sua crítica a Althusser).
- Sentido de “As Peculiaridades...”:
a) Tentativa de resgatar e atualizar o conjunto do projeto historiográfico dos
historiadores do PCGB (discussões historiográficas sobre a Revolução Inglesa, o
século XVIII, a formação e o desenvolvimento das classes sociais ao longo de
três séculos e suas principais ideologias);

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b) Sistematizações sobre sua concepção de história e de temas centrais de sua obra,
como o conceito de classe social e a crítica ao modelo de base-superestrutura;
c) Preocupação com o desenvolvimento da pesquisa sobre as formas nacionais
particulares de dominação de classe e de resistência popular (baseadas na
experiência humana concreta) para fundamentar um projeto socialista
democrático e humanista;
d) Foi escrito para polemizar com teses que buscavam no passado as origens da
crise estão vigentes: moderação do Partido Trabalhista, burocratização das
instituições da classe trabalhadora, o conservadorismo e a acomodação com a
estrutura social inglesa (fortemente ancorada no imperialismo e na hierarquia de
classes e, também, a exaustão da Nova Esquerda).
- O que revela sobre Thompson:
a) Sua inflexão em direção ao século XVIII (o que o faria “teorizar” sobre a luta de
classes sem classes), o recurso recorrente ao conceito de “economia moral”, os
primeiros movimentos da sua polêmica com o estruturalismo;
b) A questão da relação entre pesquisa empírica e modelo;
c) A questão da relação entre a parte e o todo, o particular e o universal.

• 1975: Senhores e Caçadores


- Analisa a estratégia de resistência de caçadores, predadores, e de outros
homens e mulheres que viviam da coleta e da caça nas florestas e
parques da nobreza, no século XVIII.

• 1991: Costumes em Comum


- “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII” (1967) e “O
Tempo e a disciplina do trabalho no capitalismo industrial” (1971) –
forte impacto sobre a historiografia social anglo-saxã.

- Realiza pesquisa histórica sobre o costume e sobre a destruição, pelo


capitalismo moderno, dos modos de vida “pré-industriais” e
“tradicionais”. Confronto crescente entre a economia de mercado
inovadora e uma economia moral das plebes assentada nas tradições e
costumes em comum. Nesse conflito ele enxerga o embrião da formação
de classe e consciência de classe.

- Não se limita só a tentar compreender as razões da plebe: vê na


resistência – seja passiva, seja ativa e mesmo violenta, como nos motins
da fome – desses vencidos da história o germe possível de um porvir
diferente. Rompia com o mecanicismo e o economicismo de muitas
análises marxistas que viam nesses movimentos a pré-história do
movimento operário, caracterizada por ausências sucessivas: classe,
partido, vanguarda e consciência.

- A atualidade desse tipo de pesquisa está vinculada a duas questões do


mundo contemporâneo:
a) A experiência vivida pelas populações da Europa nos séculos XVIII e
XIX está se reproduzindo, num contexto diferente, nos países do “sul”;
b) A definição das necessidades humanas em termos de mercado e a
submissão de todos os recursos do globo à lógica mercantil ameaçam a

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própria espécie humana com uma catástrofe ecológica. O motor dessa
catástrofe é o “homem econômico”.