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SILVA, Ivanda Maria Martins.

Literatura em sala de aula: da teoria literária à prática


escolar. In: Anais do Evento PG Letras 30 Anos, Recife: Programa de Pós-
Graduação em Letras da UFPE, v. I, n. 1, p. 514-527. Disponível em:
https://pibidespanholuefs.files.wordpress.com/2015/07/texto-para-o-encontro-de-
amanhc3a3.pdf. Acesso em: 7 de setembro de 2020.

RESENHA1

O artigo de Ivanda Maria Martins Silva apresenta algumas questões que


concernem ao ensino de literatura e à prática de leitura dentro e fora da sala de aula
cujo ponto central desta discussão está na falta de articulação e inadequação da
teoria literária, apreendida pelo professor no decorrer de sua formação profissional,
aplicada às práticas de leitura. A autora é professora associada da Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e docente nos cursos de Licenciatura em
Letras/Língua Portuguesa e Licenciatura em Pedagogia EAD/UFRPE. É especialista
em Educação Continuada e a Distância, possui experiência como professora autora
na elaboração de materiais didáticos para cursos EAD, além de ter publicações
várias sobre educação e letramento literário e digital.
Em um primeiro momento, Ivanda Martins Silva elenca alguns dos
“desencontros” entre leitura e literatura na sala de aula como o artificialismo
recorrente das atividades e exercícios escolares que não contemplam uma leitura
crítica do mundo, do contexto sócio-histórico no qual o aluno está inserido. Nesse
sentido, a autora afirma que não há uma experiência verdadeira do ato de ler, uma
vez que a leitura na escola é dada como mera decodificação. Os textos literários
dos livros didáticos vêm fragmentados e acompanhados por esquemas
interpretativos preestabelecidos, por fichas de interpretação contendo algumas
informações sobre o autor, a obra e as personagens, com o intuito de ser utilizado
como estratégias avaliativas, o que induz a um insuficiente entendimento do texto
por parte do aluno. Esse processo de escolarização ensina a literatura de maneira
autoritária, como uma obrigação, desconsiderando qualquer conteúdo interpretativo
distinto que o aluno venha a fazer, como se o texto apresentasse uma única forma
correta de interpretação. Nesse sentido, Ivanda também aponta a ênfase que a
escola coloca em cima dos textos clássicos, construindo, assim, um mito de que a
leitura literária é complexa. A autora não desqualifica a leitura dos clássicos, mas o
1
Resenha elaborada para fins avaliativos da disciplina Literatura e Ensino, ministrada pelo Prof. Dr.
Danglei de Castro Pereira, no ano de 2020.
modo como esses textos são impostos aos alunos, além de defender a leitura de
textos mais contemporâneos e daqueles que rompem com as estruturas discursivas
tradicionais.
Para Ivanda, o ensino de literatura deveria estimular o aluno a preencher as
lacunas do texto e a reconstruí-lo a partir de sua própria compreensão. A autora
também enfatiza que a escola deveria articular o ensino com o papel estético e com
a função social da literatura para que, deste modo, o aluno compreenda que existe
uma ligação da literatura com o seu cotidiano. Muitas vezes o aluno não entende
qual a relevância em ler os textos literários para a sua realidade imediata, não
havendo, assim, verdadeira aprendizagem, o que leva o aluno apenas a reproduzir
informações e decorar características linguísticas de cada período ou escola literária
para responder questões avaliativas. Por esse ângulo, a autora defende a escolha
livre do aluno em selecionar seus próprios textos para que ele possa experenciar e
descobrir o prazer da leitura.
Em um segundo momento do artigo, Ivanda estabelece, segundo Beach e
Marshall, a distinção entre leitura da literatura e ensino de literatura, no qual aquele
corresponde à compreensão do texto e à experiência do leitor no ato de leitura e
este corresponde ao estudo da obra literária, ou seja, sua organização estética.
Apesar de essas duas competências estarem imbrincadas, a autora afirma que a
escola as separa, priorizando o ensino da literatura cuja leitura feita pelo professor é
diferente daquela dos alunos. Para a autora, o professor deve ajudar o aluno a
construir suas interpretações e não somente apresentar leituras já prontas.
Por fim, é nítido que, por todo o texto, a autora critica as práticas pedagógicas
vigentes na maioria dos espaços escolares, as quais tendem a formar um “leitor
reprodutor” com um senso crítico atrofiado. Portanto, há uma necessidade da escola
e dos professores de literatura em interagir com aluno e envolvê-lo na prática de
leitura de modo que ele perceba que os textos literários possuem relação não só
com a organização estética de uma língua, mas também com outras disciplinas das
ciências humanas. De modo geral, a autora defende que a literatura deve ser
compreendida como um fenômeno cultural, histórico e social, no qual as tensões e
contradições da realidade sejam desveladas por meio do universo ficcional e como
ela pode levar os alunos a perceberem as diferentes significações que um texto
literário pode conter.
Ainda que as exposições dos problemas que circundam a teoria da literatura,
a leitura, o ensino e a escola tenham sido bastantes claras e bem desenvolvidas
pela autora e que suas considerações sejam extremamente pertinentes para que
uma transformação do ensino de literatura possa ser alcançada, falta ainda um
aprofundamento nos exemplos e na devida maneira de como os professores podem
ancorar-se nas soluções apresentadas pela autora. Há muito do “futuro do pretérito”
nas palavras de Ivanda em detrimento da elaboração de exemplos concretos para
que o ensino de literatura seja mais eficaz.

Campo Grande, 07 de setembro de 2020.


Mariana Alice de Souza Miranda2

2
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (PPGEL) da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), campus de Campo Grande/MS.

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