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Apontamentos sem fronteiras

António Filipe Garcez José


Olá
maralhal !!

Teoria Geral do Direito Civil


Universidade Autónoma de Lisboa

Regente do curso………………Prof. Doutor Fernando Pinto Monteiro


Aulas Práticas…………………….….………………………………. Dra. Nídia Antunes
Apontamentos e resumos das aulas, realizados por António Filipe Garcez José, aluno n° 20021078

Manual de estudo
Teoria Geral do Direito Civil………………………….DR.Carlos Alberto da Mota Pinto

2° semestre

TEORIA GERAL DO FACTO JURÍDICO

Facto jurídico
Todo o acto humano ou acontecimento natural jurídicamente relevante
que se traduz na produção de efeitos jurídicos). Receptícios
Lícitos
Unilaterais
Ilícitos Não receptícios

Negócios jurídicos
(efeitos ex-voluntate)
Voluntários Unilaterais
(actos jurídicos) Bilaterais
(Contratos) Sinalagmáticos

Factos jurídicos Quase-negócios jurídicos


Simples actos jurídicos
(efeitos ex-lege)
Operações jurídicas ou actos
reais,materiais ou exteriores
Involuntários
(naturais)

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Factos jurídicos voluntários (actos jurídicos)


Os que resultam da vontade como elemento jurídicamente relevante.

Factos jurídicos involuntários (factos naturais)


Aqueles que são estranhos a qualquer processo volitivo.

Actos ilícitos
Os factos jurídicos voluntários contrários à ordem pública e por ela
reprovados.

Actos lícitos
Os factos jurídicos voluntários conformes à ordem pública e por ela
consentidos.

Negócios jurídicos
São factos jurídicos voluntários, cujo núcleo essencial é integrado por
uma ou mais declarações de vontade, a que o ordenamento jurídico
atribui efeitos jurídicos concordantes com o conteúdo da vontade das
partes, tal como este é objectivamente apercebido.
(os efeitos dos negócios jurídicos produzem-se ex voluntate) Ex: o testamento e os contratos

Negócios jurídicos unilaterais


Aqueles onde há uma só declaração de vontade, ou várias, mas formando um só
grupo (ex: o testamento, a renúncia à prescrição, etc)

Negócios jurídicos unilaterais receptícios


Aqueles em que a declaração só é eficaz quando for dirigida e levada ao
conhecimento de certa pessoa. (ex: revogação do mandato)

Negócios jurídicos unilaterais não receptícios


Aqueles cuja eficácia se efectiva pela simples emissão da declaração de
vontade, ( ex: testamento )

Características dos negócios unilaterais :

• É desnecessária a anuência do adversário


• Vigora o princípio da tipicidade (art. 457°)

Negócios unilaterais
ARTIGO 457º
(Princípio geral)
A promessa unilateral de uma prestação só obriga nos casos previstos na lei.

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• Distinção entre negócios unilaterais receptícios e não receptícios

Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida(art.458°)


Ratificação dos negócios ineficazes (art.268°)
Revogação do mandato (art. 1170°)
Revogação dum contrato em favor de terceiro (art. 448°)
Receptícios Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida (art. 458°)
Declaração de nomeação no contrato para pessoa a nomear
Negócios (art;453°)
Denúncia do arrendamento (arts. 1055° a 1096°)
Jurídicos
Unilaterais
Testamento (art. 2179°)
Acto de instituíção das Fundações (arts. 185° e 186°)
Não Promessa Pública (art. 459°)
receptícios Aceitação ou repúdio de herança (arts 2050° e segs. e 2062° e ss)
Renúncia a direitos reais limitados
Renúncia à prescrição (art. 302°)
Confirmação dos negócios anuláveis (288°)

Negócio unilateral receptício - (ex: revogação do mandato)


SECÇÃO IV
Revogação e caducidade do mandato
SUBSECÇÃO I
Revogação
ARTIGO 1170º
(Revogabilidade do mandato)
1. O mandato é livremente revogável por qualquer das partes, não obstante convenção em contrário
ou renúncia ao direito de revogação.
2. Se, porém, o mandato tiver sido conferido também no interesse do mandatário ou de terceiro, não
pode ser revogado pelo mandante sem acordo do interessado, salvo ocorrendo justa causa.

Negócios jurídicos unilaterais não receptícios - (ex: testamento)


TÍTULO IV
DA SUCESSÃO TESTAMENTÁRIA
CAPÍTULO I
Disposições gerais
ARTIGO 2179º
(Noção de testamento)
1. Diz-se testamento
o acto unilateral e revogável pelo qual uma pessoa dispõe, para depois da
morte, de todos os seus bens ou de parte deles.
2. As disposições de carácter não patrimonial que a lei permite inserir no testamento são válidas se
fizerem parte de um acto revestido de forma testamentária, ainda que nele não figurem disposições
de carácter patrimonial.

Negócios jurídicos bilaterais (contratos)


Aqueles onde há duas ou mais declarações de vontade, de conteúdo
oposto, mas convergente na comum pretensão de produzir resultado
jurídico unitário, embora com um significado para cada parte. Há por um lado uma oferta ou
proposta e por outro uma aceitação que se conciliam num consenso.

Contratos unilaterais

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Os que geram apenas obrigações para uma das partes (ex: a doação)

Contratos bilaterais ou sinalagmáticos


Geram obrigações para ambas as partes, ligadas entre si por um nexo
de causalidade e correspectividade. (ex: compra e venda, etc.)

Simples actos jurídicos


São factos jurídicos voluntários, cujos efeitos se produzem, mesmo que
não tenham sido previstos pelos seus autores.

Os efeitos dos simples actos jurídicos produzem-se ex lege

interpelação do devedor, (art. 805°/1)


gestão de negócios (arts. 464° e segs.)
Simples actos jurídicos fixação de domicílio voluntário (art. 82°)
descoberta de um tesouro (art. 1324°),
criação duma obra artística (art. 1303°).

Quase-negócios jurídicos
Os simples actos jurídicos que se traduzem na manifestação exterior de
uma vontade.
(ex: a interpelação do devedor)

ARTIGO 805º
(Momento da constituição em mora)
1. O devedor só fica constituído em mora depois de ter sido judicial ou extrajudicialmente interpelado
para cumprir.

Operações jurídicas ou actos reais


Os simples actos jurídicos que se traduzem na efectivação ou realização
de um resultado material ou factual a que a lei liga determinados efeitos
jurídicos.
(ex: a descoberta de um tesouro)

ARTIGO 1324º
(Tesouros)
1. Se aquele que descobrir coisa móvel de algum valor, escondida ou enterrada, não puder
determinar quem é o dono dela, torna-se proprietário de metade do achado; a outra metade pertence
ao proprietário da coisa móvel ou imóvel onde o tesouro estava escondido ou enterrado.
2. O achador deve anunciar o achado nos termos do nº 1 do artigo anterior, ou avisar as autoridades,
excepto quando seja evidente que o tesouro foi escondido ou enterrado há mais de vinte anos.
3. Se o achador não cumprir o disposto no número anterior, ou fizer seu o achado ou parte dele
sabendo quem é o dono, ou ocultar do proprietário da coisa onde ele se encontrava, perde em
benefício do Estado os direitos conferidos no nº 1 deste artigo, sem exclusão dos que lhe possam
caber como proprietário.

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Aquisição, modificação e extinção de relações jurídicas

Os factos jurídicos desencadeiam efeitos jurídicos que consistem


fundamentalmente numa aquisição, modificação ou extinção de
relações jurídicas.

AQUISIÇÃO DE DIREITOS

Conceito e modalidade de aquisição de direitos

Aquisição de direitos
É a criação de um laço de pertinência de um direito, a uma pessoa.

Constituíção de direitos
É a criação de um direito (ex-novo) que não existia anteriormente. (implica
sempre uma aquisição)

Aquisição originária
Quando o direito adquirido não depende da existência ou da extensão
de um direito anterior.
Ex: ocupação de coisas móveis (arts. 1318° e segs.) , a usacapião (arts. 1287° e segs)

ARTIGO 1318º
(Coisas susceptíveis de ocupação)
Podem ser adquiridos por ocupação os animais e outras coisas móveis que nunca tiveram dono, ou
foram abandonados, perdidos ou escondidos pelos seus proprietários, salvas as restrições dos
artigos seguintes.

ARTIGO 1287º
(Noção)
usucapião.
A posse do direito de propriedade ou de outros direitos reais de gozo, mantida por
certo lapso de tempo, faculta ao possuidor, salvo disposição em contrário, a
aquisição do direito a cujo exercício corresponde a sua actuação: é o que se chama
usucapião

Aquisição derivada
Quando o direito adquirido se funda ou se filia na existência de um
direito na titularidade de outra pessoa.
Ex: a aquisição de direito de propriedade, ou de outro direito real, por força de um contrato, a
aquisição de um crédito ou de uma relação contratual por cessão, aquisição de direitos por sucessão
"mortis causa", etc.

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Distinção segundo o critério da causalidade

Aquisição originária Aquisição derivada


 Não existe qualquer ligação causal entre  O direito adquirido funda-se ou filia-
a perda ou diminuíção de um direito e a se na existência de um direito na
aquisição titularidade de outra pessoa.
 O direito adquirido não depende do  É consequência da extinção
direito pré-existente subjectiva ou da limitação de um direito
anterior.

Compra de imóvel
Translativa Doação ou sucessão mortis causa
Cessão da posição contratual

Constituíção de direito real a favor de outrém


Aquisição derivada Constitutiva
sub-contrato

Quando o titular do direito real se demite dele


Restitutiva por acto unilateral

Aquisição derivada translativa


Aquela em que o direito adquirido é o mesmo que já pertencia ao
anterior titular.

Ex: aquisição do domínio de um prédio por compra, doação ou sucessão "mortis causa",
legítima ou testamentária.

Cessão da posição contratual (art.424° e segs.)


É uma aquisição derivada translativa da posição contratual
SUBSECÇÃO IV
Cessão da posição contratual
ARTIGO 424º
(Noção. Requisitos)
1. No contrato com prestações recíprocas, qualquer das partes tem a faculdade de transmitir a
terceiro a sua posição contratual, desde que o outro contraente, antes ou depois da celebração do
contrato, consinta na transmissão.
2. Se o consentimento do outro contraente for anterior à cessão, esta só produz efeitos a partir da sua
notificação ou reconhecimento.

Aquisição derivada constitutiva


Aquela em que o direito adquirido se filia num direito do anterior titular,
limitando-o ou comprimindo-o.

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Ex: o proprietário dum prédio que constitui uma servidão ou outro direito real (de gozo ou de
garantia) a favor de outrém.
Subcontrato (ex: sublocação, arts. 1060° e segs)
É uma aquisição derivada constitutiva, pois um contratante, concede a
outro a possibilidade de usar a posição contratual que para o primeiro
resulte de um contrato principal, ao qual este último continua ligado.

Secção VI
Sublocação
ARTIGO 1060º
(Noção)
A locação diz-se sublocação, quando o locador a celebra com base no direito de locatário que lhe
advém de um precedente contrato locativo.

Aquisição derivada restitutiva


Aquela que advém, quando o titular de um direito real se demite dele
por acto unilateral (renúncia verdadeira e própria), recuperando ipso facto o
proprietário a plenitude dos seus poderes.

Distinção entre aquisição derivada e sucessão

Sucessão
É o subingresso de uma pessoa na titularidade das relações jurídicas de
outrém ( total ou parcialmente)

Herdeiro
Aquele que sucede na totalidade ou numa quota parte do património do
"de cujus"

Legatário
Aquele que sucede em relações jurídicas determinadas.

A sucessão refere-se tanto às dívidas como aos direitos

A aquisição derivada refere-se exclusivamente aos direitos

As dívidas não se adquirem, assumem-se

Princípio caracterizador da aquisição derivada


A extensão do direito do adquirente dependende do conteúdo do facto
aquisitivo e da amplitude do direito do transmitente. ( não podendo em regra ser
maior que a deste direito)

"Nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse habet"

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Excepções ao princípio " nemo plus juris…"

• Institutos do registo (predial, automóveis e similares)

 Os diiversos actos inerentes à aquisição de direitos reais sobre bens


imóveis e similares, devem ser registados.
 O registo não é um meio de aquisição dos direitos, mas sim um
requisito de eficácia do acto em relação a terceiros. (arts. 4° e 5° do C. R.
Predial
 O acto de aquisição é plenamente eficaz "inter partes", seus
herdeiros ou representantes, mesmo na falta de registo.
 O registo estabelece apenas uma presunção, "juris tantum" , ilidível de
existência da propriedade da pessoa a favor de quem o prédio está
registado.
 O registo predial destina-se a assegurar que, se o direito existiu na
titularidade desta pessoa, então ela ainda o conserva.

Noção de terceiros (para efeitos de registo predial)


São terceiros entre si as pessoas que do mesmo autor ou
transmitente adquiram direitos incompatíveis (total ou parcialmente)

 Se A vende um prédio a B e depois vende o mesmo prédio a C , B e


C são terceiros entre si.

 Prevalece a venda que foi primeiramente registada. Se C foi o


primeiro a registar, é ele que por aquisição derivada translativa tem a
titularidade do direito de propriedade. (verificando-se assim uma excepção ao
princípio, segundo o qual na aquisição derivada o adquirente não pode adquirir um direito , se
este não existia na titularidade do transmitente)

• Inoponibilidade da simulação a terceiros de boa-fé

 Os negócios simulados são nulos


 Aquele que adquire a propriedade por acto simulado e que depois a
vende , por acto verdadeiro a um terceiro e este ignorar a simulação,
o terceiro adquire válidamente esse bem (art. 243°)(Constitui outra excepção ao
princípio "nemo plus juris…", dado que o vendedor tinha adquirido a propriedade por acto
simulado e , portanto, nulo, o terceiro adquire de quem não é proprietário.)

ARTIGO 243º
(Inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé)
1. A nulidade proveniente da simulação não pode ser arguida pelo simulador contra terceiro de boa
fé.
2. A boa fé consiste na ignorância da simulação ao tempo em que foram constituídos os respectivos
direitos.

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3. Considera-se sempre de má fé o terceiro que adquiriu o direito posteriormente ao registo da acção


de simulação, quando a este haja lugar.
• Inoponibilidade das nulidades e anulabililides a terc. de boa fé

Se A transmitiu, por negócio nulo ou anulável um prédio a B e este o


transmitiu a C, declarado nulo ou anulado o primeiro acto, o segundo
seria também nulo, segundo o princípio "nemo plus juris…" e C devia
restituir o prédio. O Código Civil (art.291°) estabelece um regime de
inoponibilidade a terceiros de boa fé, adquirentes a título oneroso, das
nulidades e anulações de negócios respeitantes a imóveis ou móveis
sujeitos a registo .

ARTIGO 291º
(Inoponibilidade da nulidade e da anulação)
3. A declaração de nulidade ou a anulação do negócio jurídico que respeite a bens imóveis, ou a
bens móveis sujeitos a registo, não prejudica os direitos adquiridos sobre os mesmos bens, a
título oneroso, por terceiro de boa fé, se o registo da aquisição for anterior ao registo da acção de
nulidade ou anulação ou ao registo do acordo entre as partes acerca da invalidade do negócio.
2. Os direitos de terceiro não são, todavia, reconhecidos, se a acção for proposta e registada dentro
dos três anos posteriores à conclusão do negócio.
3. É considerado de boa fé o terceiro adquirente que no momento da aquisição desconhecia, sem
culpa, o vício do negócio nulo ou anulável.

Esta é mais uma excepção ao princípio geral da aquisição derivada: "nemo plus juris…."

MODIFICAÇÃO DE DIREITOS

Modificação de direitos
Tem lugar, quando alterado ou mudado um elemento de um direito,
permanece a identidade do referido direito.

Modificação subjectiva
Quando tem lugar uma substituíção do respectivo titular, permanecendo
a identidade objectiva do direito.
Modificação subjectiva em actos "inter vivos":

 Cessão de créditos
Modificação do lado activo
 Sub-rogação de créditos

 Assunção de dívida
Modificação do lado passivo
 Cessão da posição contratual

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 Assunção cumulativa
Modificação do lado passivo
 Co-assunção de dívida Por adjunção (Multiplicação de
sujeitos)
 Adesão à dívida

Modificação subjectiva por sucessão "mortis-causa"


Modificação quer do lado activo como do lado passivo

Modificação objectiva
Se muda o conteúdo ou o objecto do direito, permanecendo este
idêntico.

Mudança de conteúdo
Ex: concessão pelo credor ao devedor de uma prorrogação do prazo
para o cumprimento.

Mudança de objecto
Ex: não cumprindo o devedor culposamente a obrigação, o seu dever de
prestar é substituído por um dever de indemnizar

EXTINÇÃO DE DIREITOS

Extinção de direitos
Tem lugar quando desaparece a relação de pertinência entre um direito
e a pessoa do seu titular.

Extinção subjectiva (perda de direitos)


Se o direito sobrevive em si, apenas mudando a pessoa do seu titular
(verifica-se sempre que tem lugar uma sucessão na titularidade dos direitos; o sucessor adquire ou
subingressa na titularidade do direito e este extinguiu-se para o autor ou transmitente )

Extinção objectiva
Se o direito desaparece, deixando de existir para o seu titular ou para
outra pessoa qualquer. ( ex: destruíção do objecto do direito, se um direito de crédito é
exercido e cobrado, etc)

Prescrição e caducidade (prescrição extintiva)


Se o titular de um direito o não exercer durante certo tempo fixado na lei,
extingue-se esse direito.

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!!!! Segundo o critério do Código Civil …quando um direito deva ser


exercido durante um certo prazo, aplicam--se as regras da caducidade,
salvo se a lei se referir expressamente à prescrição (art. 298° / 2)

ARTIGO 298º
(Prescrição, caducidade e não uso do direito)
1. Estão sujeitos a prescrição, pelo seu não exercício durante o lapso de tempo estabelecido na lei,
os direitos que não sejam indisponíveis ou que a lei não declare isentos de prescrição.
2. Quando, por força da lei ou por vontade das partes, um direito deva ser exercido
dentro de certo prazo, são aplicáveis as regras da caducidade, a menos que a lei se
refira expressamente à prescrição.
3. Os direitos de propriedade, usufruto, uso e habitação, enfiteuse, superfície e servidão não
prescrevem, mas podem extinguir-se pelo não uso nos casos especialmente previstos na lei, sendo
aplicáveis nesses casos, na falta de disposição em contrário, as regras da caducidade.

Diferenças de regime entre a caducidade e a prescrição

Caducidade Prescrição
 Admitem-se estipulações  Regime inderrogável (art. 300°)
convencionais (art. 330°)

 Apreciada oficiosamente pelo tribunal  Tem de ser invocada, não podendo o


(art. 333°) tribunal supri-la de ofício (art. 303°)

 Não comporta causas de suspensão  Suspende-se e interrompe-se nos


nem de interrupção ((art. 328°) casos previstos na lei (arts.318°e ss e
323°e ss)

 Só é impedida pela prática do acto  Interrompe-se pela citação ou


(art.331°) notificação judicial de qualquer acto
que exprima, directa ou
indirectamente, a intenção de exercer
o direito (art. 323°).

 Só o aspecto objectivo da certeza e  Visa também satisfazer a necessidade


segurança jurídica dos direitos é social de segurança e certeza,
tomado em conta, o que explica que a protegendo o interesse do sujeito
caducidade seja apreciada passivo, mas é um instituto
oficiosamente pelos tribunais endereçado fundamentalmente à
realização de objectivos de
conveniência ou oportunidade

O prazo ordinário da prescrição é de vinte anos (art. 309°)

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Negócio jurídico

Negócios jurídicos
São actos jurídicos constitudos por uma ou mais declarações de
vontade, dirigidas à realização de certos efeitos práticos, com intenção
de os alcançar sob tutela do direito, determinando o ordenamento
jurídico a produção dos efeitos jurídicos conformes à intenção
manifestada pelo declarante ou declarantes.

Função do negócio jurídico


Meio de autogoverno pelos particulares da sua esfera jurídica própria.

Efeitos do negócio jurídico

3 teorias

Teoria dos efeitos jurídicos


Os efeitos jurídicos do negócio, tais como a lei os determina, são
perfeitamente correspondentes ao conteúdo da vontade das partes.

Crítica :
Esta teoria não fornece o correcto critério, pois a ser correcta, só os
juristas completamente informados sobre o ordenamento podiam
celebrar negócios juridicos

Teoria dos efeitos práticos


Para esta teoria as partes manifestam apenas uma vontade de efeitos
práticos ou empíricos, normalmente económicos, sem carácter ilícito; a
estes efeitos práticos ou empíricos manifestados, faria a lei
corresponder os efeitos jurídicos concordantes.

Crítica:
Esta concepção também é inaceitável, pois então o negócio jurídico não
se distinguiria dos compromissos ou convenções celebradros sob o
império da cortesia, da moral, praxes sociais , etc.

Teoria dos efeitos prático-jurídicos


Segundo esta teoria, os autores dos negócios jurídicos visam certos
resultados práticos ou materiais e querem realizá-los por via jurídica.

Crítica:
Decisivo para existir negócio jurídico é a vontade de os efeitos práticos
queridos, serem jurídicamente vinculativos Ponto de vista correcto !!!

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Classificações dos negócios jurídicos


Negócios unilaterais
Há uma só declaração de vontade, ou várias, mas paralelas, formando
um só grupo.

Negócios bilaterais
Há duas ou mais declarações de vontade, de conteúdo oposto, mas
convergente na sua comum pretensão de produzir resultado jurídico
unitário (embora com um significado para cada parte)..

Nos negócios bilaterais,


há uma oferta ou proposta e uma aceitação, que se conciliam num
consenso.

Características do regime dos negócios unilaterais

• É desnecessária a anuência do adversário


• Vigora o princípio da tipicidade (art. 457°)

Negócios unilaterais
ARTIGO 457º
(Princípio geral)
A promessa unilateral de uma prestação só obriga nos casos previstos na lei.

• Distinção entre negócios unilaterais receptícios e não receptícios

Negócios jurídicos unilaterais receptícios


Aqueles em que a declaração só é eficaz quando for dirigida e levada ao
conhecimento de certa pessoa. (revogação do mandato)

Negócios jurídicos unilaterais não receptícios


Aqueles cuja eficácia se efectiva pela simples emissão da declaração de
vontade, ( testamento )

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Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida(art.458°)


Ratificação dos negócios ineficazes (art.268°)
Revogação do mandato (art. 1170°)
Revogação dum contrato em favor de terceiro (art. 448°)
Receptícios Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida (art. 458°)
Declaração de nomeação no contrato para pessoa a nomear
(art;453°)
Denúncia do arrendamento (arts. 1055° a 1096°)
Negócios
Jurídicos Testamento (art. 2179°)
Unilaterais Acto de instituíção das Fundações (arts. 185° e 186°)
Não Promessa Pública (art. 459°)
receptícios Aceitação ou repúdio de herança (arts 2050° e segs. e 2062° e ss)
Renúncia a direitos reais limitados
Renúncia à prescrição (art. 302°)
Confirmação dos negócios anuláveis (288°)

Negócio unilateral receptício - (ex: revogação do mandato)

SECÇÃO IV
Revogação e caducidade do mandato
SUBSECÇÃO I
Revogação
ARTIGO 1170º
(Revogabilidade do mandato)
1. O mandato é livremente revogável por qualquer das partes, não obstante convenção em
contrário ou renúncia ao direito de revogação.
2. Se, porém, o mandato tiver sido conferido também no interesse do mandatário ou de
terceiro, não pode ser revogado pelo mandante sem acordo do interessado, salvo ocorrendo
justa causa.

Negócios jurídicos unilaterais não receptícios - (ex: testamento)

TÍTULO IV
DA SUCESSÃO TESTAMENTÁRIA
CAPÍTULO I
Disposições gerais
ARTIGO 2179º
(Noção de testamento)
1. Diz-se testamento o acto unilateral e revogável pelo qual uma pessoa dispõe, para depois
da morte, de todos os seus bens ou de parte deles.
2. As disposições de carácter não patrimonial que a lei permite inserir no testamento são
válidas se fizerem parte de um acto revestido de forma testamentária, ainda que nele não
figurem disposições de carácter patrimonial.

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Negócios bilaterais ou contratos

Os contratos

• Cada uma das declarações (proposta e aceitação) é emitida em vista do


acordo.

• A proposta do contrato é irrevogável depois de chegar ao


conhecimento do destinatário (art. 230°).

ARTIGO 230º
(Irrevogabilidade da proposta)
1. Salvo declaração em contrário, a proposta de contrato é irrevogável depois de ser
recebida pelo destinatário ou de ser dele conhecida.
2. Se, porém, ao mesmo tempo que a proposta, ou antes dela, o destinatário receber a
retractação do proponente ou tiver por outro meio conhecimento dela, fica a proposta sem
efeito.
3. A revogação da proposta, quando dirigida ao público, é eficaz, desde que seja feita na
forma da oferta ou em forma equivalente.

Qual o momento da "perfeição" do


contrato?

Várias doutrinas:

• Doutrina da aceitação
O contrato está perfeito quando o destinatário da proposta declarou
aceitar a oferta que lhe foi feita.

• Doutrina da expedição
O contrato está perfeito quando o destinatário expediu, por qualquer
meio a sua aceitação.

• Doutrina da recepção
O contrato está perfeito quando a resposta contendo a aceitação
chega à esfera de acção do proponente.

• Doutrina da percepção
O contrato só está perfeito quando o proponente tomou
conhecimento efectivo da aceitação

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Miguel !! Eu já te disse que o nosso Direito consagra a


Teoria da recepção e não volto a repetir, ok? Bom !

Art. 224° !!!!!!!!!!!!!


Do artigo 224° consagra o nosso Direito a doutrina da recepção

SUBSECÇÃO III
Perfeição da declaração negocial
ARTIGO 224º
(Eficácia da declaração negocial)
1. A declaração negocial que tem um destinatário torna-se eficaz logo que chega ao seu
poder ou é dele conhecida; as outras, logo que a vontade do declarante se manifesta na
forma adequada.
2. É também considerada eficaz a declaração que só por culpa do destinatário não foi por
ele oportunamente recebida.
3. A declaração recebida pelo destinatário em condições de, sem culpa sua, não poder ser
conhecida é ineficaz.

Contratos unilaterais
Geram obrigações apenas para uma das partes ( ex: doação )

Contratos bilaterais ou sinalagmáticos


Geram obrigações para ambas as partes, obrigações essas que estão
ligadas entre si por um nexo de causalidade e correspectividade
( ex: compra e venda )

Contratos bilaterais imperfeitos


Inicialmente há apenas obrigações para uma das partes, surgindo
eventualmente mais tarde obrigações para a outra parte, em virtude do
cumprimento das primeiras e em dados termos (ex: mandato e depósito)

Importância desta distinção?

• A excepção de não cumprimento do contrato (art. 428°) aplica-se


exclusivamente aos contratos bilaterais.
SUBSECÇÃO V
Excepção de não cumprimento do contrato
ARTIGO 428º
(Noção)
1. Se nos contratos bilaterais não houver prazos diferentes para o cumprimento das
prestações, cada um dos contraentes tem a faculdade de recusar a sua prestação enquanto
o outro não efectuar a que lhe cabe ou não oferecer o seu cumprimento simultâneo.
2. A excepção não pode ser afastada mediante a prestação de garantias.

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• A faculdade de resolução com fundamento em inadimplemento (não


cumprimento de um contrato) ou mora, existe nos contratos bilaterais,
resolução tácita (art. 801°/2 e art. 808°) e pode ter lugar em contratos
unilaterais , resolução do comodato (art. 1140°) , mútuo oneroso
(art. 1150°)

Impossibilidade do cumprimento
ARTIGO 801º
(Impossibilidade culposa)
1. Tornando-se impossível a prestação por causa imputável ao devedor, é este responsável
como se faltasse culposamente ao cumprimento da obrigação.
2. Tendo a obrigação por fonte um contrato bilateral, o credor, independentemente do direito
à indemnização, pode resolver o contrato e, se já tiver realizado a sua prestação, exigir a
restituição dela por inteiro.

ARTIGO 808º
(Perda do interesse do credor ou recusa do cumprimento)
1. Se o credor, em consequência da mora, perder o interesse que tinha na prestação, ou
esta não for realizada dentro do prazo que razoavelmente for fixado pelo credor, considera-
se para todos os efeitos não cumprida a obrigação.
2. A perda do interesse na prestação é apreciada objectivamente.

ARTIGO 1140º
(Resolução)
Não obstante a existência de prazo, o comodante pode resolver o contrato, se para isso tiver
justa causa.

• Nos contratos bilaterais imperfeitos, não tem lugar a condição


resolutiva tácita, nem a excepção de não cumprimento . Ex: mandato
(arts. 1157°, 1158°, 1161°, 1167°), depósito (arts. 1185°, 1186°, 1187°, 1196°,
1199°)

CAPÍTULO X
Mandato
SECÇÃO I
Disposições gerais
ARTIGO 1157º
(Noção)
Mandato é o contrato pelo qual uma das partes se obriga a praticar um ou mais actos
jurídicos por conta da outra.

ARTIGO 1158º
(Gratuidade ou onerosidade do mandato)
1. O mandato presume-se gratuito, excepto se tiver por objecto actos que o mandatário
pratique por profissão; neste caso, presume-se oneroso.
2. Se o mandato for oneroso, a medida da retribuição, não havendo ajuste entre as partes, é
determinada pelas tarifas profissionais; na falta destas, pelos usos; e, na falta de umas e
outros, por juízos de equidade.

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Negócios entre vivos e negócios "mortis causa"

Negócios "inter vivos"


Destinam-se a produzir efeitos jurídicos em vida das partes.

• A esta categoria pertencem quase todos os negócios jurídicos.

• É relevante nesta disciplina, a tutela das expectativas da parte que se


encontra em face da declaração negocial, por força dos interesses
gerais do comércio jurídico.

Negócios "mortis causa"


Destinam-se a só produzir efeitos, depois da morte da respectiva parte
ou de alguma delas.

• São negócios "fora do comércio jurídico", pois os interesses do


declarante devem prevalecer sobre o interesse na protecção da
confiança do destinatário dos efeitos respectivos.

Testamento

• Acto livremente revogável pelo testador (art. 2179°)


• Não é renunciável a faculdade de revogação (Art. 2311°)
• A transferência dos bens hereditários a favor dos herdeiros e
legatários só se opera após a morte do testador (arts. 2031° e 2179°)

• Os herdeiros ou legatários não podem, em vida do testador, renunciar


à sucessão ou dispor dela (art. 2028°/1 /2)

A lei proíbe os pactos ou


Art. 946° contratos sucessórios,
Ok? sob pena de nulidade.

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ARTIGO 946º
(Doação por morte)
1. É proibida a doação por morte, salvo nos casos especialmente previstos na lei.
2. Será, porém, havida como disposição testamentária a doação que houver de produzir os
seus efeitos por morte do doador, se tiverem sido observadas as formalidades dos
testamentos.

Excepções à regra de proíbição dos pactos sucessórios

Disposições por morte feitas em convenção nupcial

Dois tipos:

• Instituíção contratual de herdeiro ou legatário em favor de qualquer


dos esposados, feita pelo outro esposado ou por terceiro(art. 1700°/1/a).

• Instituíção contratual de herdeiro ou legatário em favor de terceiro,


feita por qualquer dos esposados (art. 1700°/1/b)

ARTIGO 1700º
(Disposições por morte consideradas lícitas)
1. A convenção antenupcial pode conter:
a) A instituição de herdeiro ou a nomeação de legatário em favor de qualquer dos
esposados, feita pelo outro esposado ou por terceiro nos termos prescritos nos lugares
respectivos;
b) A instituição de herdeiro ou a nomeação de legatário em favor de terceiro, feita por
qualquer dos esposados.
2. São também admitidas na convenção antenupcial cláusulas de reversão ou
fideicomissárias relativas às liberalidades aí efectuadas, sem prejuízo das limitações a que
genericamente estão sujeitas essas cláusulas.

As disposições em favor dos esposados,


feitas por terceiro ou pelo outro esposado, são negócios híbridos

Negócios híbridos

• Por um lado
têm características de negócio "mortis causa", pois só se verifica a
transferência dos bens parra o instituído, depois da morte do
disponente;
• Por outro lado
Têm características de negócio "inter vivos", pois restringem ao
disponente os seus poderes de disposição, não podendo este revogá-
los unilateralmente depois da aceitação, nem prejudicar o beneficiário
por actos gratuítos de disposição (art. 1701°).

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ARTIGO 1701º
(Irrevogabilidade dos pactos sucessórios)
1. A instituição contratual de herdeiro e a nomeação de legatário, feitas na convenção
antenupcial em favor de qualquer dos esposados, quer pelo outro esposado, quer por
terceiro, não podem ser unilateralmente revogadas depois da aceitação, nem é lícito ao
doador prejudicar o donatário por actos gratuitos de disposição; mas podem essas
liberalidades, quando feitas por terceiro, ser revogadas a todo o tempo por mútuo acordo
dos contraentes.
2. Precedendo, em qualquer dos casos, autorização do donatário, prestada por escrito, ou o
respectivo suprimento judicial, pode o doador alienar os bens doados com fundamento em
grave necessidade, própria ou dos membros da família a seu cargo.
3. Sempre que a doação seja afectada nos termos do número anterior, o donatário
concorrerá à sucessão do doador como legatário do valor que os bens doados teriam ao
tempo da morte deste, devendo ser pago com preferência a todos os demais legatários do
doador.

As disposições dos esposados a favor de terceiro,


em convenção antenupcial …

qual a sua natureza?

Duas hipóteses :

• Se o terceiro não interveio no acto como aceitante


Prescreve-se que a disposição tem valor meramente testamentário
(art. 1704°), sendo um negócio "mortis-causa" dada a sua
revogabilidade.

• Se o terceiro interveio na convenção antenupcial como aceitante


A disposição não é livremente revogável, estando sujeita ao regime das
disposições entre esposados (art. 1705°), pelo que se trata de um
negócio híbrido.

Doações por morte para casamento


Doações feitas em vista dum casamento, a um dos esposados, pelo
outro ou por terceiro. (art. 1755°/2)
ARTIGO 1755º
(Regime)
1. As doações entre vivos produzem os seus efeitos a partir da celebração do casamento,
salvo estipulação em contrário.
2. As doações que hajam de produzir os seus efeitos por morte do doador são havidas como
pactos sucessórios e, como tais, estão sujeitas ao disposto nos artigos 1701º a 1703º, sem
prejuízo do preceituado nos artigos seguintes.

Trata-se duma manifestação particular dos pactos sucessórios e


também de negócios jurídicos híbridos.

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Negócios formais e negócios consensuais

Negócios não solenes (consensuais, tratando-se de contratos)


São os que podem ser celebrados por quaisquer meios declarativos,
aptos a exteriorizar a vontade negocial.

Negócios formais ou solenes


São aqueles para os quais a lei prescreve a necessidade da
observância de determinada forma.

Quando o negócio é formal…

• A declaração negocial, deve realizar-se através de certo tipo de


comportamento declarativo imposto pela lei (documento escrito, mediante uma
cerimónia, etc.)

Hoje o formalismo traduz-se por ser…

• Exigido apenas para certos negócios jurídicos.

• Uniforme

• Documento escrito

• Simplificado

Princípio geral em matéria de formalismo negocial

Art. 219°
Princípio da liberdade declarativa ou liberdade de forma

SUBSECÇÃO II
Forma
ARTIGO 219º
(Liberdade de forma)
A validade da declaração negocial não depende da observância de forma especial, salvo
quando a lei a exigir.

• Quando nos casos em que a lei prescrever uma certa forma, esta não
for observada, a declaração é nula.

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Negócios formais

Para os quais a lei …


Testamento (arts. 2204° e segs.)

Venda de imóveis (art. 875°)

Doação de imóveis (art. 947°)


• Exige documento autêntico
Certos arrendamentos (art. 1029°)

Actos constitutivos ou translativos de


direitos reais sobre imóveis (art. 89° do
Cód. do Notariado)

Doação de móveis não acommpanhada


de tradição da coisa (art. 947°/2 )

Mútuo (art. 1143°)

Contrato promessa (art. 410°/ 2)


• Obriga documento particular
Pacto de preferência (art. 415°)

Renda vitalícia (art. 1239°)

Transação (art. 1250°)

Modalidades dos documentos escritos


( art. 363° e segs )

ARTIGO 363º
(Modalidades dos documentos escritos)

1. Os documentos escritos podem ser autênticos ou particulares.

2. Autênticos
são os documentos exarados, com as formalidades legais, pelas autoridades públicas
nos limites da sua competência ou, dentro do círculo de actividades que lhe é
atribuído, pelo notário ou outro oficial público provido de fé pública; todos os outros
documentos são particulares.

3 Os documentos particulares
são havidos por autenticados, quando confirmados pelas partes, perante notário, nos
termos prescritos nas leis notariais.

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Negócios reais
São os negócios em que se exige, além das declarações de vontade
das partes, formalizadas ou não, a prática anterior ou simultânea de um
certo acto material, (entrega da coisa).

Este acto material de entrega da coisa é considerado como elemento


estrutural do negócio (arts. 1185°, 1129°, 1142°)

Depósito
SECÇÃO I
Disposições gerais
ARTIGO 1185º
(Noção)
Depósito é o contrato pelo qual uma das partes entrega à outra uma coisa, móvel ou imóvel,
para que a guarde, e a restitua quando for exigida.

Exemplos :
Depósito
Comodato
Negócios reais Mútuo
Penhor

Negócios obrigacionais,reais,familiares,sucessórios
Princípio da liberdade contratual (art° 405°)

Disposições gerais
ARTIGO 405º
Liberdade contratual
1. Dentro dos limites da lei, as partes têm a faculdade de fixar livremente o conteúdo
dos contratos, celebrar contratos diferentes dos previstos neste código ou incluir
nestes as claúsulas que lhes aprouver.
2. As partes podem ainda reunir no mesmo contrato regras de dois ou mais negócios,
total ou parcialmente regulados na lei.

A importância desta classificação resulta da diversa extensão que o


princípio da liberdade contratual reveste em cada uma das categorias

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Negócios sucessórios (ex: testamento, pactos sucessórios, renúncia à herança)


O princípio da liberdade contratual sofre importantes restrições,
resultantes de algumas normas imperativas do direito das sucessões
(sucessão legitimária, proíbição dos pactos sucessórios, etc).

Negócios familiares pessoais (ex: casamento, perfilhação, adopção)


A liberdade contratual está práticamente excluída, podendo apenas os
interessados celebrar ou deixar de celebrar o negócio, mas não
podendo fixar-lhe livremente o conteúdo, nem podendo celebrar
contratos diferentes dos previstos na lei.

Negócios familiares patrimoniais (ex: convenções antenupciais)


Existe com alguma largueza a liberdade contratual (art.1698°), sofrendo
embora restrições (arts. 1699°, 1714°)

Negócios reais (ex: venda ou doação de coisa certa e determinada, negócio constitutivo de
hipotaca, renúncia à hipoteca)
O princípio da liberdade contratual sofre considerável limitação, derivada
do princípio da tipicidade ou do "número clausus" , pois nao é permitida
a constituíção com valor real , de restrições ao direito de propriedade,
senão nos casos previstos na lei (art. 1306°).

ARTIGO 1306º
("Numerus clausus")
1. Não é permitida a constituição, com carácter real, de restrições ao direito de propriedade
ou de figuras parcelares deste direito senão nos casos previstos na lei; toda a restrição
resultante de negócio jurídico, que não esteja nestas condições, tem natureza obrigacional.
2. O quinhão e o compáscuo constituídos até à entrada em vigor deste código ficam sujeitos
à legislação anterior.

Negócios obrigacionais (venda ou doação de coisa indeterminada, arrendamento,


denúncia de arrendamento)
• Quanto aos contratos, vigora o princípio da liberdade negocial quase
sem limites.

• Quanto aos negócios unilaterais, vigora o princípio da tipicidade


(art.457°)

SECÇÃO II
Negócios unilaterais
ARTIGO 457º
(Princípio geral)
A promessa unilateral de uma prestação só obriga nos casos previstos na lei.

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Negócios patrimoniais e negócios pessoais

Importância da distinção :

• Quanto à amplitude do princípio da liberdade contratual

• Quanto às expectativas dos declaratários e aos intereses gerais


da contratação.

• Quanto à vontade real, psicológica do declarante.

Negócios pessoais (casamento, perfilhação, legitimação, adopção)


Atendem apenas à vontade real, psicológica do declarante, sem atender às
expectativas dos declaratários e aos interesses gerais da contratação

Negócios patrimoniais
A vontade manifestada ou declarada, triunfa sobre a vontade real,
psicológica do declarante, por exigência de tutela da confiança do declaratário e dos
interesses do tráfico

Negócios onerosos e negócios gratuítos

A importância desta distinção, manifesta-se em matéria de :

• impugnação pauliana (art.. 612°)


ARTIGO 612º
(Requisito da má fé)
1. O acto oneroso só está sujeito à impugnação pauliana se o devedor e o terceiro tiverem
agido de má fé; se o acto for gratuito, a impugnação procede, ainda que um e outro agissem
de boa fé.
2. Entende-se por má fé a consciência do prejuízo que o acto causa ao credor.

• protecção do terceiro adquirente de boa fé "a non domino", por


força da declaração de nulidade ou anulação dum negócio (art.
291°/1)
ARTIGO 291º
(Inoponibilidade da nulidade e da anulação)
1. A declaração de nulidade ou a anulação do negócio jurídico que respeite a bens imóveis,
ou a bens móveis sujeitos a registo, não prejudica os direitos adquiridos sobre os mesmos
bens, a título oneroso, por terceiro de boa fé, se o registo da aquisição for anterior ao registo
da acção de nulidade ou anulação ou ao registo do acordo entre as partes acerca da
invalidade do negócio.
2. Os direitos de terceiro não são, todavia, reconhecidos, se a acção for proposta e
registada dentro dos três anos posteriores à conclusão do negócio.
3. É considerado de boa fé o terceiro adquirente que no momento da aquisição
desconhecia, sem culpa, o vício do negócio nulo ou anulável.

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• poderes de disposição do doador, no caso de pactos sucessórios


contidos em convenção antenupcial (art. 1701°)
ARTIGO 1701º
(Irrevogabilidade dos pactos sucessórios)
1. A instituição contratual de herdeiro e a nomeação de legatário, feitas na convenção
antenupcial em favor de qualquer dos esposados, quer pelo outro esposado, quer por
terceiro, não podem ser unilateralmente revogadas depois da aceitação, nem é lícito ao
doador prejudicar o donatário por actos gratuitos de disposição; mas podem essas
liberalidades, quando feitas por terceiro, ser revogadas a todo o tempo por mútuo acordo
dos contraentes.
2. Precedendo, em qualquer dos casos, autorização do donatário, prestada por escrito, ou o
respectivo suprimento judicial, pode o doador alienar os bens doados com fundamento em
grave necessidade, própria ou dos membros da família a seu cargo.
3. Sempre que a doação seja afectada nos termos do número anterior, o donatário
concorrerá à sucessão do doador como legatário do valor que os bens doados teriam ao
tempo da morte deste, devendo ser pago com preferência a todos os demais legatários do
doador.

• Responsabilidade do cônjuge administrador dos bens comuns


(art. 1682°/4)
ARTIGO 1682º
(Alienação ou oneração de móveis)
1. A alienação ou oneração de móveis comuns cuja administração caiba aos dois cônjuges
carece do consentimento de ambos, salvo se se tratar de acto de administração ordinária.
2. Cada um dos cônjuges tem legitimidade para alienar ou onerar, por acto entre vivos, os
móveis próprios ou comuns de que tenha a administração, nos termos do nº 1 do artigo
1678º e das alíneas a) a f) do nº 2 do mesmo artigo, ressalvado o disposto nos números
seguintes.
3. Carece do consentimento de ambos os cônjuges a alienação ou oneração:
a) De móveis utilizados conjuntamente por ambos os cônjuges na vida do lar ou como
instrumento comum de trabalho;
b) De móveis pertencentes exclusivamente ao cônjuge que os não administra, salvo
tratando-se de acto de administração ordinária.
4. Quando um dos cônjuges, sem consentimento do outro, alienar ou onerar, por negócio
gratuito, móveis comuns de que tem a administração, será o valor dos bens alheados ou a
diminuição de valor dos onerados levado em conta na sua meação, salvo tratando-se de
doação remuneratória ou de donativo conforme aos usos sociais.
(Redacção do Dec.-Lei 496/77, de 25-11)

• Tem como critério, o conteúdo e a finalidade do negócio…

Negócios onerosos (arrendamento, aluguer, compra e venda, empreitada, etc.)


Os negócios onerosos pressupõem atribuíções patrimoniais de ambas
as partes, ligadas por nexo ou relação de correspectividade.

Negócios gratuítos (doações, depósito, mandato gratuíto, mútuo gratuíto, etc.)


Caracterizam-se pela intervenção de uma intenção liberal.
Cria-se, de mútuo acordo das partes, uma vantagem patrimonial para
um dos sujeitos sem nenhum equivalente.

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Contratos unilaterais onerosos (mútuo oneroso - art.1145°)


Nos contratos unilaterais onerosos a correspectividade estabelece-se
entre uma prestação contemporânea da formação do negócio (a entrega de
uma soma em dinheiro para ser utilizada) e uma obrigação (a de restituir o capital e pagar os
juros)

ARTIGO 1145º
(Gratuidade ou onerosidade do mútuo)
1. As partes podem convencionar o pagamento de juros como retribuição do mútuo; este presume-se
oneroso em caso de dúvida.
2. Ainda que o mútuo não verse sobre dinheiro, observar-se-á, relativamente a juros, o disposto no
artigo 559º e, havendo mora do mutuário, o disposto no artigo 806º.

Mútuo oneroso
Mútuo para cuja retribuíção foram convencionados juros.

Mútuo usurário
Quando foram estipulados juros anuais que excedem os juros legais,
acrescidos de 3 ou 5 por cento, conforme exista ou não garantia real
(art. 1146°)
ARTIGO 1146º
(Usura)
1. É havido como usurário o contrato de mútuo em que sejam estipulados juros anuais que excedam
os juros legais, acrescidos de 3% ou 5%, conforme exista ou não garantia real.
2. É havida também como usurária a cláusula penal que fixar como indemnização devida pela falta de
restituição de empréstimo, relativamente ao tempo de mora, mais do que o correspondente a 7% ou a
9% acima dos juros legais, conforme exista ou não garantia real.
3. Se a taxa de juros estipulada ou o montante da indemnização exceder o máximo fixado nos
números precedentes, considera-se reduzido a esses máximos, ainda que seja outra a vontade dos
contraentes.
4. O respeito dos limites máximos referidos neste artigo não obsta à aplicabilidade dos artigos 282º a
284º.
(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16-6)

Usura e negócio usurário


Designações reservadas para os negócios jurídicos em que alguém,
aproveitando conscientemente da situação de necessidade,
inexperiência, dependência, ou deficiência psíquica de outrem, obteve
deste a promessa ou concessão de benefícios manifestamente
excessivos ou injustificados (arts. 282°, 283°, e 284°)

ARTIGO 282º
(Negócios usurários)
1. É anulável, por usura, o negócio jurídico, quando alguém, explorando a situação de necessidade,
inexperiência, ligeireza, dependência, estado mental ou fraqueza de carácter de outrem, obtiver
deste, para si ou para terceiro, a promessa ou a concessão de benefícios excessivos ou
injustificados.
2. Fica ressalvado o regime especial estabelecido nos artigos 559º-A e 1146º.
(Redacção do Dec.-Lei 262/83, de 16-6)

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ARTIGO 283º
(Modificação dos negócios usurários)
1. Em lugar da anulação, o lesado pode requerer a modificação do negócio segundos juízos de
equidade.
2. Requerida a anulação, a parte contrária tem a faculdade de opor-se ao pedido, declarando aceitar
a modificação do negócio nos termos do número anterior.

ARTIGO 284º
(Usura criminosa)
Quando o negócio usurário constituir crime, o prazo para o exercício do direito de anulação ou
modificação não termina enquanto o crime não prescrever; e, se a responsabilidade criminal se
extinguir por causa diferente da prescrição ou no juízo penal for proferida sentença que transite em
julgado, aquele prazo conta-se da data da extinção da responsabilidade criminal ou daquela em que a
sentença transitar em julgado, salvo se houver de contar-se a partir de momento posterior, por força
do disposto no nº 1 do artigo 287º.

Contratos comutativos e contratos aleatórios

Contratos aleatórios
Neste contratos as partes submetem-se à possibilidade de perder ou
ganhar. (a onerosidade consiste na circunstância de ambas as partes estarem sujeitas ao risco de
perder)

Nestes contratos, pode haver…

• Uma só prestação - arts. 1245° e segs.(apostas, certos tipos de jogo)

• Uma prestação certa e outra incerta (seguro de responsabilidade civil, de


incêndio)

• Duas prestações certas na sua exigência, sendo uma delas


incerta no seu "quantum" (seguro de vida)

Negócios parciários
São uma subespécie dos negócios onerosos

Negócios parciários
Caracterizam-se pelo facto de uma pessoa prometer certa prestação em
troca de uma qualquer participação nos porventos que a contraparte
obtenha por força daquela prestação.

Parceria pecuária (art. 1121°) ex: o contrato de consignação

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Uma das partes remete à outra tantas unidades de certa mercadoria,


para que esta as venda, com o direito a uma participação nos lucros e a
obrigação de restituir as unidades não vendidas.

Negócios de mera administração e negócios de disposição

Utilidade da distinção :

Restrição por força da lei ou de sentença dos …

• Poderes de gestão patrimonial dos administradores de bens


alheios, de bens próprios e alheios.

• Dos actos de mera administração ou de ordinária administração


de bens próprios, nalguns casos de inabilitações..

Exemplos de disposições:

• Direitos do curador provisório (Art. 94°/3)

• Direitos e deveres do administrador (arts 1967° e 1971°)

• Regime de administração de bens do menor (art. 1922 /a/b)

ARTIGO 1922º
(Administração de bens)
Será instituido o regime de administração de bens do menor previsto nos artigos 1967º e seguintes:
a) Quando os pais tenham sido apenas excluídos, inibidos ou suspensos da administração de todos
os bens do incapaz ou de alguns deles, se por outro título se não encontrar designado o
administrador;
b) Quando a entidade competente para designar o tutor confie a outrem, no todo ou em parte, a
administração dos bens do menor.

• Poderes do tutor (art. 1938° /d)

• Efeitos das inabilitações (arts. 153° e 154°)

Artigo 153º
(Suprimento da inabilidade)
1. Os inabilitados são assistidos por um curador, a cuja autorização estão sujeitos os actos de
disposição de bens entre vivos e todos os que, em atenção às circunstâncias de cada caso, forem
especificados na sentença.
2. A autorização do curador pode ser judicialmente suprida.
ARTIGO 154º
(Administração dos bens do inabilitado)
1. A administração do património do inabilitado pode ser entregue pelo tribunal, no todo ou em parte,
ao curador.

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2. Neste caso, haverá lugar à constituição do conselho de família e designação do vogal que, como
subcurador exerça as funções que na tutela cabem ao protutor.
3. O curador deve prestar contas da sua administração.

• Admin. dos bens do casal pelo marido ou pela mulher(art. 1678°)

• Poderes do usufrutuário (art. 1446°)

Actos de mera administração


São os correspondentes a uma gestão comedida, limitada e prudente,
dirigida a manter o património e a aproveitar as suas virtualidades
normais de desenvolvimento.

Actos de disposição
São os que dizendo respeito à gestão do património administrado,
afectam a sua substância, alteram a forma ou a composição do capital
administrado, atingem o fundo, a raíz, o casco dos bens.

São actos de mera administração …

Tudo quanto diga respeito a :

• Prover a conservação dos bens administrados

• Promover a sua frutificação normal.

Actos de conservação dos bens administrados


Destinados a fazer quaisquer reparações necessárias nesses bens,
tendentes a evitar a sua deterioração ou destruíção.

Actos tendentes a prover à frutificação normal


Os destinados a prover a frutificação pelo modo habitual para os bens
administrados
Negócios tendentes a prover à frutificação anormal
Exemplos: converter um pinhal em vinha, etc.

Actos tendentes a prover ao melhoramento do património administ.


Exemplo: abrir um poço, aquisição duma servidão não indispensável.

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Attenzione, attenzione !!!!!


• Os actos de conservação e frutificação normal, acima mencionados
só são actos de administração ordinária se não forem financiados
através da alienação de partes do capital administrado, mas através
do rendimento, eventualmente, acumulado.
• Só são considerados actos de disposição, as alienações dos
elementos componentes do capital, mas não as alienações dos frutos
do património, nem as que se integrem nas finalidades assinaladas à
mera administração.
• As doações não sendo actos de administração nem de disposição,
não podem ser realizadas pelo mero administrador (mesmo com
consentimento das entidades competentes para autorizarem os actos de disposição (conselho de
família, tribunal)

Elementos essenciais do negócio jurídico


A declaração negocial

• É um elemento verdadeiramente integrante do negócio jurídico.


• É uma realidade componente ou constitutiva da estrutura do
negócio jurídico.
• A sua falta conduz à inexistência material do negócio.

Conceito da declaração negocial

2 elementos :

• Elemento externo :

o comportamento declarativo ou a …

Declaração de vontade negocial


É o comportamento que , exteriormente observado, cria a aparência de
exteriorização de um certo conteúdo de vontade negocial.

• Elemento interno :

31
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António Filipe Garcez José

Uma vontade real, efectiva, psicológica ou a …

Vontade negocial
A intenção de realizar certos efeitos práticos, com ânimo de que sejam
jurídicamente tutelados e vinculantes.

Elementos constitutivos da declaração negocial

Distinguem-se os seguintes elementos :

• A declaração própriamente dita (elemento externo)

• A vontade real (elemento interno)

A vontade real pode decompôr-se em…

3 subelementos :

• Vontade de acção
Consiste na voluntariedade (consciência e intenção) do comportamento
declarativo.

- pode faltar a vontade de acção (gesto inadvertido considerado como uma


declaração negocial, num leilão; o caso da coacção ou violência absoluta, coacção física )

• Vontade de declaração
Consiste em o declarante ter consciência e vontade que o seu
comportamento declarativo tenha significado negocial vinculativo,
produza efeitos negociais no campo do direito.

- pode faltar a vontade da declaração (alguém subscreve um contrato, julgando


assinar uma carta de felicitações)

• Vontade negocial
Consiste na vontade de celebrar um negócio jurídico de conteúdo
coincidente com o significado exterior da declaração.

-pode haver um desvio na vontade negocial (é o caso de o declarante ter


atribuído aos termos da declaração um sentido diverso do sentido que exteriormente é captado.
Uma pessoa quer comprar a quinta do Mosteiro e declara querer comprar a Quinta da Capela)

Declaração negocial expressa e declaração negocial tácita


Como já sabemos, nos negócios
jurídicos, quanto ao seu conteúdo Sim, e quanto à forma é
vigora o princípio da liberdade reconhecido o princípio
32
negocial (art. www.cogitoergosun.
405°) no.sapo.pt
da liberdade declarativa
(arts 217° e 219°)
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António Filipe Garcez José

OK ! Mas por vezes a lei


exige que a declaração seja
expressa(art.957°, 731
1681°/3) outras vezes esta
pode ser tácita (arts. 302°,
2056° )

Os termos da distinção
O critério da distinção entre declaração tácita e declaração expressa
consagrada pela lei (art. 217°) …

SECÇÃO I
Declaração negocial
SUBSECÇÃO I
Modalidades da declaração
ARTIGO 217º
(Declaração expressa e declaração tácita)
1. A declaração negocial pode ser expressa ou tácita: é…
expressa,
quando feita por palavras, escrito ou qualquer outro meio directo de manifestação da
vontade, e …
tácita,
quando se deduz de factos que, com toda a probabilidade, a revelam.
2. O carácter formal da declaração não impede que ela seja emitida tacitamente, desde
que a forma tenha sido observada quanto aos factos de que a declaração se deduz.

é o proposto pela teoria subjectiva :

Declaração expressa
quando feita por palavras, escrito ou quaisquer outro meios directos,
frontais, imediatos de expressão da vontade.

Declaração tácita
Quando do seu conteúdo directo se infere um outro.
Critério de interpretação dos negócios jurídicos no C. Civil
(art. 236°)

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SUBSECÇÃO IV
Interpretação e integração
ARTIGO 236º
Sentido normal da declaração
1. A declaração negocial vale com o sentido que um declaratário normal, colocado na
posição do real declaratário, possa deduzir do comportamento do declarante, salvo se
este não puder razoavelmente contar com ele.
2. Sempre que o declaratário conheça a vontade real do declarante, é de acordo com ela que vale a
declaração emitida.

teoria objectiva :

A concludência dum comportamento negocial, não exige a consciência


subjectiva, por parte do seu autor, desse significado implícito, bastando
que, objectivamente, de fora, numa consideração de coerência, ele
possa ser deduzido do comportamento do declarante.

O valor do silêncio como valor declarativo

Quem cala, consente?


"Qui tacet consentire videtur"?

O Código Civil responde no artigo 218° :

ARTIGO 218º
(O silêncio como meio declarativo)
O silêncio vale como declaração negocial, quando esse valor lhe seja
atribuído por lei, uso ou convenção.

Por outras palavras …

• O silêncio não vale como declaração negocial, excepto quando esse valor
lhe seja atribuído por lei, convenção ou uso.

• Do silêncio de alguém, que devia falar e não o fez, só se pode


concluir de um incumprimento do dever de falar .

Declaração negocial presumida

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Tem lugar quando a lei liga a determinado comportamento, o significado


de exprimir uma vontade negocial, em certo sentido (podendo ilidir-se tal
presunção "juris tantum", mediante prova em contrário)
Exemplos : arts. 926°; 2225°; 2187°/ 2; 2315° /1 /2; 2316°/ 3.

Declaração negocial ficta


Tem lugar sempre que a um comportamento seja atribuído um
significado legal tipicizado, sem admissão de prova em contrário
(presunção "juris et de jure")
Exemplos: arts. 923°/ 2; 1054°; art. 484°/ 1, do Cód. Proc. Civil.

O regime-regra é o de as presunções legais poderem ser


Ilididas, mediante prova em contrário, só deixando de ser
assim quando a lei o proíbir (art. 350°/ 2)
ARTIGO 350º
(Presunções legais)
1. Quem tem a seu favor a presunção legal escusa de provar o facto a que ela conduz.
2. As presunções legais podem, todavia, ser ilididas mediante prova em contrário, excepto nos
casos em que a lei o proibir.

Protesto
Contradeclaração, do autor dum certo comportamento declarativo, que
visa impedir que lhe seja imputado, por interpretação, um certo sentido
que não corresponde ao seu intuito.

Reserva
O protesto, quando consiste na declaração de que um certo
comportamento não significa renúncia a um direito próprio, ou
reconhecimento de um direito alheio.

Forma da declaração negocial


Vantagens do formalismo negocial
• Assegura uma mais elevada dose de reflexão das partes.
• Separa os termos definitivos do negócio da fase pré-contratual
(negociação)
• Permite uma formulação mais precisa e completa da vontade das
partes.
• Proporciona um mais elevado grau de certeza sobre a celebração do
negócio e os seus termos.
• Possibilita uma certa publicidade do acto.
Inconvenientes do formalismo negocial

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• Redução da fluência e celeridade do comércio jurídico


• Eventuais injustiças, derivadas de uma desvinculação posterior de
uma parte do negócio, com fundamento em nulidade por vício de
forma.

Posição do Código Civil (art. 219°)


O princípio da liberdade de forma (ou da consensualidade,tratando-se dos
contratos)

Forma
ARTIGO 219º
(Liberdade de forma)
A validade da declaração negocial não depende da observância de forma especial, salvo
quando a lei a exigir.

Forma legal
O formalismo imposto pela lei.

Forma convencional (art. 223°)


O formalismo que resulta de uma estipulação ou negócio jurídico das
partes

ARTIGO 223º
(Forma convencional)
1. Podem as partes estipular uma forma especial para a declaração;
presume-se, neste caso, que as partes se não querem vincular senão
pela forma convencionada.
2. Se, porém, a forma só for convencionada depois de o negócio estar concluído ou no momento da
sua conclusão, e houver fundamento para admitir que as partes se quiseram vincular desde logo,
presume-se que a convenção teve em vista a consolidação do negócio, ou qualquer outro efeito, mas
não a sua substituição.

Quais as cláusulas ou estipulações


negociais a que a forma legal é aplicável,
quando exigida?

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O Código Civil …
estatui, em princípio, que as estipulações acessórias anteriores ao
negócio ou contemporâneas dele, devem revestir a forma exigida pela
lei para o acto, sob pena de nulidade (art. 221°)

ARTIGO 221º
(Âmbito da forma legal)
1. As estipulações verbais acessórias anteriores ao documento legalmente exigido para a
declaração negocial, ou contemporâneas dele, são nulas, salvo quando a razão determinante
da forma lhes não seja aplicável e se prove que correspondem à vontade do autor da
declaração.
2. As estipulações posteriores ao documento só estão sujeitas à forma legal prescrita para a
declaração se as razões da exigência especial da lei lhe forem aplicáveis.

Restrições a este princípio :

Estipulações verbais anteriores ou contemporâneas ao documento


exigido para a declaração negocial desde que se verifiquem cumulativamente as
seguintes …

condições :

• Que se trate de cláusulas acessórias.


• Que não sejam abrangidas pela razão de ser da exigência do
documento.
• Que se prove que correspondem à vontade das partes.

Tendo em atenção o disposto no art. 394°…

• O conteúdo dos documentos é defendido contra os perigos da


precária prova testemunhal.

ARTIGO 394º
(Convenções contra o conteúdo de documentos ou além dele)
1. É inadmissível a prova por testemunhas, se tiver por objecto quaisquer convenções
contrárias ou adicionais ao conteúdo de documento autêntico ou dos documentos
particulares mencionados nos artigos 373º a 379º, quer as convenções sejam anteriores à
formação do documento ou contemporâneas dele, quer sejam posteriores.
2. A proibição do número anterior aplica-se ao acordo simulatório e ao negócio
dissimulado, quando invocados pelos simuladores.
3. O disposto nos números anteriores não é aplicável a terceiros.

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SUBSECÇÃO III
Documentos particulares
ARTIGO 373º
(Assinatura)
1. Os documentos particulares devem ser assinados pelo seu autor, ou por outrem a seu
rogo, se o rogante não souber ou não puder assinar.
2. Nos títulos emitidos em grande número ou nos demais casos em que o uso o admita,
pode a assinatura ser substituída por simples reprodução mecânica.
3. Se o documento for subscrito por pessoa que não saiba ou não possa ler, a subscrição só
obriga quando feita ou confirmada perante notário, depois de lido o documento ao
subscritor.
4. O rogo deve igualmente ser dado ou confirmado perante notário, depois de lido o
documento ao rogante.

ARTIGO 379º
(Valor dos telegramas)
Os telegramas cujos originais tenham sido escritos e assinados ou somente assinados, pela
pessoa em nome de quem são expedidos, ou por outrem a seu rogo, nos termos do nº 4 do
artigo 373º, são considerados para todos os efeitos como documentos particulares e estão
sujeitos, como tais, ao disposto nos artigos anteriores.

… e coordenando o art. 221° com o 394° resulta que …

• As estipulações adicionais não formalizadas, anteriores ou



contemporâneas do documento, não abrangidas pela razão determinante da forma,
produzirão efeitos, se tiver lugar a confissão ou se forem provadas
por documento, embora menos solene do que o exigido para o negócio.

Formalidades "ad substanciam" (art.364°/1)


Insubstituíveis por outro género de prova, gerando a sua falta a nulidade
do negócio jurídico.

Formalidades "ad probationem" (art. 364°/2)


A sua falta pode ser suprida por outros meios de prova (confissão)

ARTIGO 364º
(Exigência legal de documento escrito)
1. Quando a lei exigir, como forma da declaração negocial, documento autêntico, autenticado
ou particular, não pode este ser subtituído por outro meio de prova ou por outro documento
que não seja de força probatória superior.
2. Se, porém, resultar claramente da lei que o documento é exigido apenas para prova da
declaração, pode ser substituído por confissão expressa, judicial ou extrajudicial, contanto
que, neste último caso, a confissão conste de documento de igual ou superior valor
probatório.

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Consequências da inobservância da forma


Inobservância da forma legal

• O Código Civil sanciona com a nulidade a inobservância da


forma legal.

… excepto…

• Sempre que em casos particulares, a lei determine outra


consequência (art. 220°)

ARTIGO 220º
(Inobservância da forma legal)
A declaração negocial que careça da forma legalmente prescrita é nula, quando outra não
seja a sanção especialmente prevista na lei.

… mas … há … um mas…

…será que a possibilidade de invocação da


nulidade por vício de forma, não pode ser
excluída por aplicação da cláusula geral "de
boa fé" ou do "abuso de direito" ? (art. 334°)

ARTIGO 334º
(Abuso do direito)
É ilegítimo o exercício de um direito, quando o titular exceda
manifestamente os limites impostos pela boa fé, pelos bons
costumes ou pelo fim social ou económico desse direito.

R:
Claro!!. Será verdadeiramente escandalosa, excedendo manifestamente
os limites impostos pela boa fé, bons costumes, fim social ou económico
desse direito (art. 334°), a arguição da nulidade, com fundamento em
vício de forma, por um contratante que a provocou !!! .

Claro, claro … mas não para toda a gente …

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A "Doutrina" divide-se…

… a aplicação das regras de forma pode


conduzir a soluções de menor equidade, mas a
criação e tutela do valor da segurança jurídica,
só pode ser plenamente realizado, sacrificando
o critério de "justiça de cada caso".

Mau, mau… vamos lá a ver… mas 'atão' onde é que ficamos ?

Tonybrussel explica ( ah! ah! ah! ah!) :

O intérprete, desde que aceite como regra geral a


norma que prescreve a nulidade dos negócios feridos
de vício de forma, está legitimado para, nos casos
excepcionalíssimos do artigo 334°, afastar a sua
aplicação. Fora destes casos, se uma das partes
actuou com má fé nas negociações, o negócio é nulo,
mas surgirá uma indemnização (art. 227°)

Perceberam ??? Não ??…


Olhem, eu também ando um pouco
às aranhas com esta matéria !!

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António Filipe Garcez José

Outros artigos para a compreensão desta matéria :

ARTIGO 289º
(Efeitos da declaração de nulidade e da anulação)
1. Tanto a declaração de nulidade como a anulação do negócio têm efeito retroactivo,
devendo ser restituído tudo o que tiver sido prestado ou, se a restituição em espécie não for
possível, o valor correspondente.
2. Tendo alguma das partes alienado gratuitamente coisa que devesse restituir, e não
podendo tornar-se efectiva contra o alienante a restituição do valor dela, fica o adquirente
obrigado em lugar daquele, mas só na medida do seu enriquecimento.
3. É aplicável em qualquer dos casos previstos nos números anteriores, directamente ou por
analogia, o disposto nos artigos 1269º e seguintes.

Enriquecimento sem causa


ARTIGO 473º
(Princípio geral)
1. Aquele que, sem causa justificativa, enriquecer à custa de outrem é obrigado a restiuir
aquilo com que injustamente se locupletou.
2. A obrigação de restituir, por enriquecimento sem causa, tem de modo especial por objecto
o que for indevidamente recebido, ou o que for recebido por virtude de uma causa que
deixou de existir ou em vista de um efeito que não se verificou.

ARTIGO 479º
(Objecto da obrigação de restituir)
1. A obrigação de restituir fundada no enriquecimento sem causa compreende tudo quando
se tenha obtido à custa do empobrecido ou, se a restituição em espécie não for possível, o
valor correspondente.

ARTIGO 482º
(Prescrição)
O direito à restituição por enriquecimento prescreve no prazo de três anos, a contar da data
em que o credor teve conhecimento do direito que lhe compete e da pessoa do responsável,
sem prejuízo da prescrição ordinária se tiver decorrido o respectivo prazo a contar do
enriquecimento.

Inobservância da forma convencional (art. 223°)

• Estipulada antes da conclusão do negócio


A forma tem carácter constitutivo, consagra-se uma presunção de
essencialidade, isto é, presume-se que sem a observância da forma, o
negócio é ineficaz.

• Estipulada simultâneamente ou após a conclusão do negócio


Presume-se que as partes não quiseram substituir o negócio, mas
apenas visaram consolidá-lo, dar-lhe mais clareza, tornar a prova mais
segura, dar-lhe fé em face de terceiros , etc.

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ARTIGO 223º
(Forma convencional)
1. Podem as partes estipular uma forma especial para a declaração; presume-se, neste
caso, que as partes se não querem vincular senão pela forma convencionada.
2. Se, porém, a forma só for convencionada depois de o negócio estar concluído ou no
momento da sua conclusão, e houver fundamento para admitir que as partes se quiseram
vincular desde logo, presume-se que a convenção teve em vista a consolidação do negócio,
ou qualquer outro efeito, mas não a sua substituição.

Perfeição da declaração negocial (art. 224°)

ARTIGO 224º
(Eficácia da declaração negocial)
1. A declaração negocial que tem um destinatário torna-se eficaz logo que chega ao seu
poder ou é dele conhecida; as outras, logo que a vontade do declarante se manifesta na
forma adequada.
2. É também considerada eficaz a declaração que só por culpa do destinatário não foi por
ele oportunamente recebida.
3. A declaração recebida pelo destinatário em condições de, sem culpa sua, não poder ser
conhecida é ineficaz.

• Nos negócios unilaterais


o negócio está completo quando a declaração for emitida.

• Nos negócio bilaterais (doutrina da recepção)


O negócio está perfeito quando a resposta, contendo a aceitação,
chega à esfera de acção do proponente

• A proposta contratual
Só existirá proposta contratual se for suficientemente precisa, dela
resultar a vontade de o seu autor se vincular e houver consciência de se
estar a emitir uma verdadeira declaração negocial.
Depois de recebida pelo destinatário ou dele ser connhecida, é
irrevogável. A proposta contratual mantém-se durante os prazos
referidos no art. 228°/1
.
ARTIGO 228º
(Duração da proposta contratual)
1. A proposta do contrato obriga o proponente nos termos seguintes:
a) Se for fixado pelo proponente ou convencionado pelas partes um prazo para a aceitação,
a proposta mantém-se até o prazo findar;
b) Se não for fixado prazo, mas o proponente pedir resposta imediata, a proposta mantém-
se até que, em condições normais, esta e a aceitação cheguem ao seu destino;
c) Se não for fixado prazo e a proposta for feita a pessoa ausente ou, por escrito, a pessoa
presente, manter-se-á até cinco dias depois do prazo que resulta do preceituado na alínea
precedente.
2. O disposto no número anterior não prejudica o direito de revogação da proposta nos
termos em que a revogação é admitida no artigo 230º.

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• Convite para contratar


Quando se dirige uma proposta a pessoas indeterminadas, não há ainda
oferta de contratar (anúncio num lornal envianddo uma lista de preços)

• A retractação
A proposta só fica sem efeito, se o destinatário receber uma retractação
do proponente ou dela tiver conhecimento, antes de receber a proposta
ou ao mesmo tempo que esta. (art. 230°/2)

ARTIGO 230º
(Irrevogabilidade da proposta)
1. Salvo declaração em contrário, a proposta de contrato é irrevogável depois de ser
recebida pelo destinatário ou de ser dele conhecida.
2. Se, porém, ao mesmo tempo que a proposta, ou antes dela, o destinatário receber a
retractação do proponente ou tiver por outro meio conhecimento dela, fica a proposta sem
efeito.
3. A revogação da proposta, quando dirigida ao público, é eficaz, desde que seja feita na
forma da oferta ou em forma equivalente.

• Rejeição da proposta
Uma proposta é rejeitada, se foi aceite com aditamentos, limitações ou
outras modificações.
Se a modificação for suficientemente precisa, a aceitação vale, em
princípio, como nova proposta.

Artigo 235º
(Revogação da aceitação ou da rejeição)
1. Se o destinatário rejeitar a proposta, mas depois a aceitar, prevalece a aceitação, desde
que esta chegue ao poder do proponente, ou seja dele conhecida, ao mesmo tempo que a
rejeição, ou antes dela.
2. A aceitação pode ser revogada mediante declaração que ao mesmo tempo, ou antes
dela, chegue ao poder do proponente ou seja dele conhecida.

• Responsabilidade pré-contratual (art. 227°)


Esta responsabilidade tanto vale no caso de ruptura de negociações,
como no de o contrato se concluir e vir a ser nulo ou ineficaz.

ARTIGO 227º
(Culpa na formação dos contratos)
1. Quem negoceia com outrem para conclusão de um contrato deve, tanto nos preliminares
como na formação dele, proceder segundo as regras da boa fé, sob pena de responder
pelos danos que culposamente causar à outra parte.
2. A responsabilidade prescreve nos termos do artigo 498º.

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ARTIGO 498º
(Prescrição)
1. O direito de indemnização prescreve no prazo de três anos, a contar da data em que o
lesado teve conhecimento do direito que lhe compete, embora com desconhecimento da
pessoa do responsável e da extensão integral dos danos, sem prejuízo da prescrição
ordinária se tiver decorrido o respectivo prazo a contar do facto danoso.
2. Prescreve igualmente no prazo de três anos, a contar do cumprimento, o direito de
regresso entre os responsáveis.
3. Se o facto ilícito constituir crime para o qual a lei estabeleça prescrição sujeita a prazo
mais longo, é este o prazo aplicável.
4. A prescrição do direito de indemnização não importa prescrição da acção de reivindicação
nem da acção de restituição por enriquecimento sem causa, se houver lugar a uma ou a
outra.

• Dano da confiança
É o dano a ser ressarcido pela responsabilidade pré-contratual,
resultante de lesão do interesse contratual negativo

• Interesse contratual negativo


Dever de colocar o lesado na situação em que estaria, se não tem
chegado a depositar uma confiança, afinal frustada, na celebração dum
contrato válido e eficaz.

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Interpretação dos negócios jurídicos


Interpretação
Actividade dirigida a fixar o sentido e alcance decisivo dos negócios,
segundo as respectivas declarações integradoras

Hermenêutica negocial

A teoria da interpretação dos negócios, pretende dar resposta às …

seguintes questões :

Qual o tipo de sentido negocial decisivo,


cuja determinação constitui o fim da
actividade interpretativa?

Quais os elementos, os meios que o


intérprete deve tomar em consideração
na busca do sentido negocial
relevante ?

A hermenêutica negocial deu lugar a concepções distintas

Posições subjectivistas (interpretação psicológica)


O intérprete deve buscar através de todos os meios adequados, a
vontade real do declarante.
O negócio valerá com o sentido subjectivo, isto é, como foi querido pelo
autor da declaração.

Posições objectivistas (interpretação normativa)


O intérprete não vai pesquisar a vontade real do declarante, mas um
sentido exteriorizado através de certos elementos objectivos.
O objecto da interpretação é a declaração como acto significante

Doutrina geral

Teoria da impressão do destinatário (posição objectiva) (art. 236°)


A declaração deve valer com o sentido que um destinatáriio razoável
(pessoa normalmente esclarecida, zelosa e sagaz), colocado na posição concreta do
real declaratário, lhe atribuiria.

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SUBSECÇÃO IV
Interpretação e integração
ARTIGO 236º
(Sentido normal da declaração)
1. A declaração negocial vale com o sentido que um declaratário normal, colocado na
posição do real declaratário, possa deduzir do comportamento do declarante, salvo se este
não puder razoavelmente contar com ele.
2. Sempre que o declaratário conheça a vontade real do declarante, é de acordo com ela
que vale a declaração emitida.

Limitação (da teoria da impressão do


destinatário)

Artigo 236°/2
• Sempre que o declaratário conheça a vontade real do declarante, é
de acordo com ela que vale a declaração emitida.

Falta de consciência da declaração (artigo 246°)


• Não há declaração negocial se falta a vontade de acção
• A declaração negocial é ineficaz se falta a consciência da declaração

ARTIGO 246º
(Falta de consciência da declaração e coacção física)
A declaração não produz qualquer efeito, se o declarante não tiver a consciência de fazer
uma declaração negocial ou for coagido pela força física a emiti-la; mas, se a falta de
consciência da declaração foi devida a culpa, fica o declarante obrigado a indemnizar o
declaratário.

Erro na declaração (art. 247°)

ARTIGO 247º
(Erro na declaração)
Quando, em virtude de erro, a vontade declarada não corresponda à vontade real do autor,
a declaração negocial é anulável, desde que o declaratário conhecesse ou não devesse
ignorar a essencialidade, para o declarante, do elemento sobre que incidiu o erro.

Casos duvidosos (art. 237°)


Quando a interpretação leve a um resultado duvidoso, o problema deve
ser resolvido nos termos deste artigo.

ARTIGO 237º
(Casos duvidosos)
Em caso de dúvida sobre o sentido da declaração, prevalece, nos negócios gratuitos, o
menos gravoso para o disponente e, nos onerosos, o que conduzir ao maior equilíbrio das
prestações.

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Dúvida insanável
Quando a dúvida é insanável, por aplicação analógica com o artigo
224°/3, ela é ineficaz

SUBSECÇÃO III
Perfeição da declaração negocial
ARTIGO 224º
(Eficácia da declaração negocial)
1. A declaração negocial que tem um destinatário torna-se eficaz logo que chega ao seu
poder ou é dele conhecida; as outras, logo que a vontade do declarante se manifesta na
forma adequada.
2. É também considerada eficaz a declaração que só por culpa do destinatário não foi por
ele oportunamente recebida.
3. A declaração recebida pelo destinatário em condições de, sem culpa sua,
não poder ser conhecida é ineficaz.

Desvios (da Doutrina geral)

• Que se traduzem num maior objectivismo

Nos negócios solenes ou formais


O sentido correspondente à doutrina da impressão do destinatário, não
pode valer se não tiver um mínimo de correspondência, no texto do
respectivo documento (art. 238°/1)

ARTIGO 238º
(Negócios formais)
1. Nos negócios formais não pode a declaração valer com um sentido que não tenha
um mínimo de correspondência no texto do respectivo documento, ainda que
imperfeitamente expresso.
2. Esse sentido pode, todavia, valer, se corresponder à vontade real das partes e as razões
determinantes da forma do negócio se não opuserem a essa validade.

… excepto se se verificar um duplo condicionalismo :

• Corresponder à vontade real e concordante das partes

• Não oposição a essa validade das razões determinantes da


forma do negócio.

• Que se traduzem num maior subjectivismo

No caso das disposições testamentárias

• Consagra-se, quanto à sua interpretação, o sentido subjectivo, com o


limite do "contexto do testamento" (art. 2187°/1)

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• Na pesquisa da vontade do legislador é admitido o recurso à prova


complementar ou extrínseca (art. 2187°/2)

ARTIGO 2187º

Interpretação dos testamentos


1. Na interpretação das disposições testamentárias observar-se-á o que parecer mais
ajustado com a vontade do testador, conforme o contexto do testamento.

2. É admitida prova complementar, mas não surtirá qualquer efeito a vontade do


testador que não tenha no contexto um mínimo de correspondência, ainda que
imperfeitamente expressa.

O erro na forma não pode ser corrigido por via interpretativa e o testamento será nulo

Integração dos negócios jurídicos

Qual a regulamentação das questões não


previstas pelas partes, ao proverem à elaboração
do ordenamento negocial das suas relações ?

• O critério a utilizar para o efeito de realiizar a integração…


dos negócios jurídicos lacunosos é enunciado no artigo 239°

ARTIGO 239º
(Integração)
Na falta de disposição especial, a declaração negocial deve ser integrada de harmonia
com a vontade que as partes teriam tido se houvessem previsto o ponto omisso, ou
de acordo com os ditames da boa fé, quando outra seja a solução por eles imposta.

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Apontamentos sem fronteiras
António Filipe Garcez José

… Estou com tanto medo


dos exames ! e tu ?
Soccorrrroooooo !!!!!!!!!!!!

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