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Algumas Notas sobre “Medo” e “Ansiedade”

 2 de agosto de 2010  admin  Teoria
 
(2 de agosto de 2010)
O medo e a ansiedade são duas palavras que fazem parte de nossas vidas. Na medida que nosso cultura se vê
assolada pelo terror, que se manifesta com diferentes faces, como o assalto repentino, o fantasma do desemprego,
a violência doméstica,  o abuso do poder, epidemias, desastres naturais, ataques terroristas, dentre outras, torna
nossa cultura uma cultura do medo(e da ansiedade). Em nosso dia a dia, somos bombardeados por esse terror nas
várias as formas de mídia, entretanto, a cultura impõe que devemos enfrentar o medo e ansiedade a todo custo,
como se todo medo e a ansiedade fosse patológico.
Essa patologização do medo/ansiedade junto com o excesso de informação duvidosa que circula na internet agrava
o problema, pois, muitas pessoas se identificam com os relatos e acabam por ficar mais ansiosas achar que tem
algum transtorno, quando na verdade pode estar em um nível de ansiedade dentro da normalidade. (Eu chamo de
“normal” ou de “normalidade” uma ansiedade que corresponda a realidade ou ao estresse que o individuo de fato
atravessa.)
Nesse contexto, é importante percebermos que ansiedade e o medo são funções naturais do psiquismo,
intimamente relacionados a uma função de preservação da vida, por meio de ambos, evitamos ou nos preparamos
melhor para situações de pode representar risco a integridade tanto física quanto psíquica do individuo. Mas, qual a
diferença entre eles?
Ansiedade, Angustia e Medo
Percebemos o  Medo como uma reação  a um objeto bem definido que represente um risco real ou imaginário ao
individuo. Frente a essa situação automaticamente o individuo produzirá a resposta de medo que prepara o individuo
para lutar ou fugir, que podemos perceberemos em nosso corpo como  taquicardia, suores, alteração respiratória
dentre outras. Para ilustrar, podemos imaginar uma pessoa está andando por uma rua estreita quando se depara
com um pit bull sem coleira, a resposta imediata é o medo.
Por outro lado, percebemos a ansiedade é uma reação semelhante ao medo, contudo não há uma definição do
objeto. Por exemplo, um individuo passa por uma rua, onde ele ouviu dizer que ronda um pitbull, mesmo sem ver o
cão, seu organismo emite um sinal(ou reação) de alerta para o  “possível” encontro, o corpo já entra em estado de
estresse mesmo se ocorrer o encontro.  A ansiedade não possui um objeto claro, é um medo sem foco, o que faz
com que seja persistente.
Tanto no medo quanto na ansiedade as sensações corporais(cansaço, insônia, sensação de sufoco, tensão
muscular, tremores, dificuldade de se alimentar, taquicardia/palpitações, por exemplo) e psicológicas (pensamentos
de inferioridade, a crença que não vai “dar conta”, fantasias de que “tudo vai dar errado”, ou que vai ser insultado,
abandonado pelos amigos,  superdimensionado os problemas, por exemplo) se tornam freqüentes ou mesmo 
permanentes. O que gera uma série de problemas físicos(doenças)  e sociais para o individuo.
Por outro lado, temos ainda o termo angústia, que muitas vezes, gera alguma confusão.

Tal problema não se coloca – ou pelo menos não é tão agudo – no inglês e no alemão e nas
línguas a estas aparentadas. Pichot lembra que os termos latinos correspondentes
à angustia e à ansiedade derivam do verbo grego agkhô: eu aperto, eu estreito. Dele, surgem,
no latim, os verbos ango e anxio, que significam respectivamente aperto, constrição física e
tormento. (…) No português, como no francês e nas linguas românticas em geral, surgem dois
termos técnicos : “angustia” e “ansiedade”. Em inglês, tem-se apenas anxiety(o
termoanguish tem uso quase exclusivamente literário, sem significação técnica); no alemão,
aparece apenas Angst, do qual deriva o adjetivo ängstlich. (PEREIRA, 2003, p.87)
Durante algum tempo, tentou-se convencionar angústia para os sintomas físicos e a ansiedade para os sintomas
psicológicos.  Mas, por fim concluiu-se que não dá para fazer esta separação, de modo que a psiquiatria/psicologia
passou a considerar ansiedade e angústia como sinônimos.  
Medo, Ansiedade, Complexos
O medo e ansiedade se manifestam como uma defesa a um risco em potencial ao Ego.  Esse risco pode ser um
risco externo e objetivo (uma longa viagem, p. ex.) ou uma ameaça interna e subjetiva (pensamentos obsessivos).
No modelo junguiano da psique, o Ego é o mais importante dos complexos, que atua mediando as relações do
individuo com o meio externo,  sendo o centro da consciência. Duas características que distinguem o Ego dos
demais complexos são a sua energia psíquica diferenciada e sua capacidade de auto-reconhecimento.
A energia diferenciada do Ego permite que o mesmo crie um “campo de referencia” em torno de si, isto é, um campo
energético que funciona como uma “membrana semipermeável” que permite a relação do Ego com conteúdos que
lhe são próprios e salutares como elementos de identidade e conteúdos externos direcionados ao Ego e símbolos; e
repele conteúdos que apresentem algum risco ao Ego como conteúdos do inconsciente ou mesmo do meio externo,
essa função protetora é justamente desempenhada pelos mecanismos defesa que foram descritos por Freud.
O autorreconhecimento é a capacidade de se remeter a si mesmo. O Ego é o único complexo capaz se reconhecer
como algo distinto tanto dos conteúdos psíquicos quanto do mundo externo. Reunindo, assim, as características
imediatas do indivíduo que chamamos de identidade, isto é, a possibilidade de diferenciar entre “o que me pertence”
e o que “não me pertence” ou do que “sou” ou “não-sou”.
De forma geral, o Ego possui duas fontes de referência que permitem que ele se adapte e enfrente as situações são
elas: os complexos e a persona.
Os complexos podem ser compreendidos como um conjunto de representações (idéias, lembranças) unidas por
uma forte carga afetiva/energética. Na dinâmica psíquica, os complexos funcionam aglutinando as memórias,
percepções etc.  em torno de um núcleo arquetípico comum.

Podemos dizer que um complexo funciona como um magneto, que atrai vivências similares,
relacionadas a situações arquetípicas. No complexo materno, por exemplo, as vivências se
relacionam com a experiência e a imagem da mãe. (SAIANI, 2000, p.51)
Os complexos possuem um caráter dinâmico e histórico, que agrega as informações acerca da história pessoal do
individuo, disponibilizando-as ao servir ao Ego, essas referencias são necessárias a enfrentar as vicissitudes da
vida. Entretanto, como foi dito, os complexos são estruturas dinâmicas, isto é, são dotados de uma certa autonomia, 
que só os percebemos quando estes estão em “descompasso” com a dinâmica psíquicada consciência, ou seja,
estão dissociados da estrutura psíquica, atuando de forma independente e, às vezes, contraria ao Ego. Segundo
Jung, são dotados

(…) de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau
relativamente elevado deautonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da
consciência até um certo limite, e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como
um corpus alienum [corpo estranho], animado e de vida própria. (…)
Regra geral, há uma inconsciência pronunciada a respeito dos complexos e isto naturalmente
lhes confere uma liberdade ainda maior. Em tais casos, a sua força de assimilação se revela
de modo todo particular, porque a inconsciência do complexo ajuda a assimilar inclusive o eu,
resultando daí numa modificação momentânea e inconsciente da Personalidade,
chamada identificaçãocom o complexo. (JUNG, 2000b, p. 31-3)
Dependendo da capacidade do Ego em lidar com a com o inconsciente/complexos poderá ou não se instaurar para
o desenvolvimento de uma patologia. Considerando um individuo com uma estruturação egóica saudável (isto é, que
não psicótico ou limítrofe) os complexos podem gerar ansiedade por duas vias distintas:
1 – Unilateralidade da Consciência: A psicologia analítica compreende que a unilateralidade da consciência uma
atitude do Ego voltada unicamente para o mundo exterior. Na medida que o Ego se identifica com os valores do
mundo exterior, ignorando as necessidades interiores, o inconsciente age de forma compensatória de modo a
reorganizar/equilibrar a relação entre a consciência e o inconsciente. Nesse processo o inconsciente pode se
manifestar através de sonhos (pesadelos), pensamentos obsessivos,  visões, atos falhos, esquecimentos,
somatizações. Todas essas manifestações tendem a prejudicar a adaptação do Ego e a realidade exterior, quanto
maior for as tentativas do Ego negar, ou se defender dessas manifestações do inconsciente, maior serão as reações
contrarias do inconsciente, gerando o sentimento de ansiedade/angústia.
O ego tende a reconhecer o inconsciente como algo grande e poderoso que se impõe, esse grande desconhecido
ameaçador chamamos de Sombra. Essas reações são naturais, correspondendo ao principio de entropia, onde a
dinâmica psíquica se desenvolve em busca de um equilibro sistema psíquico.  A unilateralidade da consciência
corresponde sobretudo a uma relação inadequada com o mundo interno, gerando uma situação neurótica.
2 –  Experiências vividas: Esse segundo aspecto não corresponde necessariamente a uma atitude patológica ou
neurótica. Por um lado, muitas pessoas desenvolvem ansiedade ou são “medrosas” simplesmente porque
aprenderam assim. Muitos pais excedem em sua proteção e cuidado privando os filhos de experiências que vão se
possibilitar o desenvolvimento da auto-segurança dos filhos. assim, os filhos se tornam inseguros e aprendem a
temer o mundo. Essainsegurança pode se mascarar através de relações de dependência (seja dos pais, dos
amigos, namorada), muitas vezes a ansiedade só se manifesta quando eles se percebem numa situação que
depende deles. Toda vez que individuo se vê numa dada situação ele não possui referências de enfrentamento,
nesse caso, seu complexo de poder se manifestará pela a inferioridade, indicando que o individuo “não é capaz” ou
“não dá conta” de enfrentar as adversidades. Impondo sempre a mesma resposta de evitação e fuga. A ansiedade é
uma expressão desse “despreparo” frente a vida.
Patologia e Psicoterapia
Na grande maioria das vezes, nos grande parte das pessoas tentam conviver com a ansiedade, vivendo num estado
de apreensão constante, buscando nos antecipar em tudo, se prevenindo todas as formas contra a possibilidade de
um futuro negativo ou mergulhados em insegurança e dúvidas, se apoiando em pessoas próximas.
Como dissemos no inicio, a nossa cultura ou nossa vida cotidiana propiciam o medo e a ansiedade. O problema se
agrava por nossa cultura não nos oferecer os elementos necessários para enfrentarmos essa ansiedade. A
ansiedade se torna patológica quando há uma perda de controle, isto é, a ansiedade passa a dominar a vida. O
individuo perde a liberdade se tornando escravo da ansiedade ou do medo.
As principais formas de transtornos de ansiedade  são:
Transtorno de Ansiedade Generalizada : Se caracteriza, basicamente, pelo excesso de preocupação com as
diversas situações da vida. No geral, a preocupação é desproporcional a realidade do problema. Isso gera uma série
de sintomas físicos como tensão e dores musculares; boca seca; suor excessivo; náusea e diarréia; freqüência
urinária aumentada; dificuldade para engolir dentre outros; e psíquicos como inquietação, irritabilidade, nervosismo, 
falta de concentração dentre outros.
Síndrome do Pânico:Se caracteriza por ataques(ou crises de pânico), que é um estado/periodo extrema ansiedade,
que se manifestam de forma repentina.Alguns sintomas presentes no ataque tremores, calafrios, 
despersonalização, confusão, dificuldade em respirar, palpitações do coração, sensação de morte iminente,  tontura.
Uma crise não caracteriza a síndrome.
Transtorno Obsessivo-compulsivo: Se caracteriza pela presença de obsessões e compulsões. As obsessões são
pensamentos, idéias ou imagens que invadem o individuo. Geralmente, esses pensamentos/idéias/imagens são
relacionados a situações ruins (doenças, contaminação, dúvidas, agressividade, dentre outras), que geram
ansiedade. Essas obsessões, tendem a gerar as compulsões que são comportamentos/ações repetitivos (como
lavar as mãos, ordenar, verificar, rezar, dentre outras)  e excessivos. As compulsões tem como objetivo aliviar a
ansiedade e evitar as obsessões. As compulsões podem ou não ter uma relação lógica com as obsessões.  
Fobia Social: Se caracteriza por um extremo desconforto em situações sociais e um excesso de preocupação com
o julgamento dos outros(que imagina que sempre será negativo). Isso faz com que o individuo se esquive de
situações comuns como beber, ler, conversar em público.
Fobias específicas: Se caracteriza por uma reação de extremo medo a determinados objetos, animais/insetos e
situações. O individuo sabe que sua reação é excessiva, mas, não consegue controlar. 
Estresse Pós-traumático: Esse transtorno ocorre como conseqüência de uma situação que ofereceu um risco a
integridade física ou a vida do individuo(como violência física/sexual, assaltos, acidentes). Alguns dos sintomas são:
ansiedade/temor que o evento se repita; reexperimentação do evento traumático (como lembranças, pesadelos);
irritabilidade, dificuldade em se concentrar, distúrbios do sono,
A terapia junguiana não tem por finalidade “apagar” ou “ignorar” as experiências passadas do individuo, mas,
possibilitar que o individuo  se afirme frente a doença, para que enfrente tanto os aspectos históricos que
contribuíram para o desenvolvimento da doença quanto os fatores que mantém que a ansiedade na atualidade. De
modo a favorecer que o individuo se permita novas experiências, criando novos parâmetros  que possibilitem que
ele enfrente o futuro, para que seja desenvolvido a segurança necessária para uma vida saudável.
A psicoterapia  compreende tanto um processo de auto-conhecimento, de avaliação das escolhas feitas, dos
caminhos que levaram ao desenvolvimento do transtorno quanto um processo prático de aprendizado do
enfrentamento da ansiedade(e da própria vida), do modo a iniciar de uma nova relação consigo mesmo e com o
mundo.
REFERÊNCIAS
PEREIRA, M.E.C. PSICOPATOLOGIA DOS ATAQUES DE PÂNICO, Editora Escuta: São Paulo, 2003.
JUNG, C.G. O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, Vozes: Petrópolis, 2006
______________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.
SAIANI, C. Jung e a Educação: Uma análise da relação professor/aluno. São Paulo: Escrituras, 2000.

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