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ARTIGOS

DA POBREZA QUÍMICA À SUSTENTABILIDADE E QUÍMICA VERDE


ADÉLIO A. S. C. MACHADO*

Este artigo teve duas fontes inspira- das desigualdades entre os países utensílios, etc., que os habitantes dos
doras de natureza muito diferente: pouco desenvolvidos e os países países afluentes usam diariamente,
por um lado, o conceito de pobreza afluentes, com respeito pela conser- proporcionando comodidade, confor-
energética, que se refere à situação vação do ambiente e biosfera, implicar to, etc., enfim, qualidade de vida, não
de quase um terço da população quer o crescimento da produção de existiriam, pelo menos na sua forma
mundial não ter acesso a serviços de químicos pela Química Industrial, quer actual, se a Indústria Química não
fornecimento de energia (para uma a necessidade de inovar este campo produzisse uma grande variedade de
visão global do alcance actual deste de actividade da tecnosfera no senti- produtos químicos.
problema ver [1])1; por outro, alguns do de o compatibilizar com a ecosfera
dados estatísticos sobre a actividade – o que exige uma prática crescen- Se o leitor ainda não está convencido
da Indústria Química e a produção te e voluntariosa de Química Verde. da extrema importância para a civiliza-
de produtos químicos nos EUA, a ní- ção industrial dos produtos químicos,
vel mundial e em países de nível de IMPORTÂNCIA DOS PRODUTOS QUÍMI- olhe em volta e procure encontrar um
riqueza diferentes, divulgados pelo COS NA VIDA DIÁRIA DOS CIDADÃOS objecto ou qualquer coisa que tenha
American Chemical Council (ACC ou sido feita sem a intervenção, óbvia ou
Os produtos químicos são omnipre- não, de produtos químicos. Se nada
AC2), a associação das empresas da
sentes na vida diária das populações encontrar no sítio onde está, não de-
Indústria Química daquele país [2].2
dos países desenvolvidos, como tal sespere – e, sempre que mudar de sí-
ou incorporados na maior parte dos tio, continue a procurar. Eventualmen-
O artigo tem os seguintes objectivos:
bens que são usados, real ou virtu- te, quando chegar a noite, se estiver
primeiro, discutir brevemente a impor-
almente3 – um facto tão trivial que é luar, poderá ver a Lua, que está ainda
tância que a Indústria Química tem
frequentemente esquecido pelas pes- isenta de produtos químicos – só que
para o funcionamento da civilização
soas comuns e mesmo pelos profis- não é algo que tenha sido fabricado
industrial em vigor nos países avança-
sionais da química: os produtos quí- pelos humanos.6
dos – à qual aspiram também as po-
micos acabam por ter um “estatuto de
pulações dos países em desenvolvi-
clandestinos”, só sendo lembrados Em suma, os habitantes dos países
mento – e para os respectivos econo- afluentes conseguem ter qualidade
quando causam problemas.
mia e emprego; segundo, fazer sentir de vida graças a uma utilização
que há diferenças marcadas entre a intensiva dos produtos fabricados pela
Na Tabela 1 (inspirada em [3]) ilustra-
produção e consumo de produtos quí- Indústria Química em grande número
-se esta situação, enumerando bens
micos entre os países avançados e os e, em muitos casos, em tonelagens
com que os habitantes dos países
países em desenvolvimento – o que elevadas, e que são utilizados para
afluentes lidam todos os dias, quando
conduz ao conceito de pobreza quími- estão em casa, ou vão às compras, os mais diversos fins, a nível pessoal
ca; terceiro, como consequência dos ou saem nos tempos livres, etc. – es- ou colectivo. A discussão a seguir
anteriores, chamar a atenção para o ses bens ou são produtos químicos (a mostra o importante papel económico-
facto de o Desenvolvimento Susten- maior parte deles, produtos formula- -social daquela indústria nos países
tável, quando prescreve a eliminação dos4), ou objectos em cujo fabrico ou avançados e analisa como a produção
produção foram adicionados, incorpo- de químicos está relacionada com o
rados ou utilizados produtos quími- nível de riqueza – que, como se sabe,
* Depa
Departam
Departamento
rtamento
rtamento de Química
Q ímica da Faculdade
Quím F
Faaculd de Ciências
da Universidade do Porto
Porto, R
R. Campo
Cam Alegre, 687, cos, em maior ou menor extensão.5 A é um dos principais factores que
4169-007 Porto
amachado@fc.up.pt grande maioria dos bens, materiais, proporciona qualidade de vida.

QUÍMICA 114 - JUL/SET 09


Tabela 1 Bens de consumo feitos, conservados, embalados, etc., com químicos* actividades do país através do uso
de produtos químicos [4]. Esse indi-
cador pode ser calculado para as di-
Casa
versas indústrias e serviços, classes
Quarto Lençóis, almofadas, mobílias, candeeiros, roupas, etc.
de produtos ou o consumo (ver a Ta-
bela 2).8 Por exemplo, o ChemFactor
Quarto de banho Sabonete, pasta de dentes, creme de barbear, desodorizante, cosméticos,
toalhas, remédios, etc. para uma indústria é a percentagem
do total de compras por essa indústria
Cozinha Fogão, frigorífico, máquinas de lavar, tachos e utensílios, alimentos, detergentes, que são produtos químicos, materiais
etc.
constituídos por produtos químicos
ou seus derivados fabricados pela In-
Garagem Carro, bicicleta, escada, detergente, polimento, tintas, solventes, etc.
dústria Química; na Tabela 2 (parte 1)
apresentam-se exemplos de valores
Supermercado
para diversos sectores industriais e
Alimentos Leite e bebidas derivadas, pão, sumos, queijos, iogurtes, carne, etc.
tipos de produtos. Por exemplo, para
o fabrico de tintas de impressão, o
Limpeza Sabões e detergentes (sólidos e líquidos), lixívias, tira-nódoas, ceras (soalho e
mobília, etc.), etc. indicador tem o valor 100 – todos os
materiais usados no fabrico provêm
Higiene pessoal Produtos dentários (pasta, líquidos para bochechar), produtos de barbear (gilete, da Indústria Química; para o fabrico
creme, loções), sabonetes e champôs, desodorizantes, etc.
de pranchas de madeira aglomerada,
o valor do indicador é 31 – 31%, em
Automóvel Pneus, lubrificantes e aditivos, anticongelantes, ceras de polimento, etc.
valor, dos materiais usados são pro-
Centro comercial
dutos químicos, as resinas sintéticas
usadas na aglutinação dos pedaços
Roupas Vestidos, fatos, camisas, malhas, roupa interior, etc.
de madeira e outros.
Couros Sapatos, carteiras, cintos, graxas, etc.
Semelhantemente, podem-se calcu-
Brinquedos Carros, bonecas, jogos, peças de lego, etc. lar valores para classes de produtos
com funções especializadas – por
Utensílios para casa Colheres, facas, tachos, abre-latas, etc. exemplo, a Tabela 2 (parte 2) inclui
valores para diferentes produtos usa-
Farmácia Analgésicos, antiácidos, xaropes para a tosse, líquidos para os olhos, etc. dos em embalagens. A embalagem é
quase sempre algo imprescindível na
Praia venda de qualquer objecto ou bem e
Água Pranchas de surf, barcos, bóias, óculos de natação, etc. a quantidade de químicos gastos nela
é frequentemente dominante. A tabe-
Areia Guarda-sol, toalhas, colchão, bolas, etc. la mostra, por exemplo, que os valo-
res do ChemFactor para embalagens
Bar Sanduíches, bolos, bebidas (cocacola, cerveja, etc.), gelados, etc.
plásticas são da ordem de 70-80: Ma-
teriais plásticos para embalagem, 77;
Banho Protectores solares, loções, fatos de banho, T-shirts, chapéus, óculos de sol, etc
Garrafas de plástico, 74. O valor 77,
Pesca Cana, linhas, anzóis, etc. à primeira vista anormalmente baixo
para materiais plásticos, que são es-
*) Inspirada em [3] sencialmente produtos químicos, tem
como provável explicação a elevada
ALCANCE ECONÓMICO-SOCIAL ensível, o papel essencial da Indústria
voracidade energética da Química
DA INDÚSTRIA QUÍMICA Química na economia do país – algo
Industrial Orgânica, nomeadamente a
que a indústria sabe muito bem, mas
dos produtos de base dos plásticos (o
Em 2005, o ACC encomendou a uma que o público ignora ou, pelo menos, decréscimo ligeiro de 77 para 74 para
consultora económica estudos que a que não presta atenção. Os resulta- as garrafas corresponde à manufactu-
permitissem quantificar, mais incisi- dos obtidos, muito elucidativos da om- ra mecânica destas a partir do material
vamente do que as estatísticas de nipresença dos produtos químicos na plástico, um processo relativamente
venda, o alcance para a economia da actividade económico-social dos EUA simples, que consome relativamen-
actividade da Indústria Química nos e, por semelhança, dos outros países te pouca energia quando comparado
EUA – por outros palavras, em que avançados, são sumariados a seguir. com os que o precedem na cadeia de
extensão o uso de produtos químicos valor daquele produto final).
atingia o estilo de vida da população, Os indicadores ChemFactor. Os
as outras actividades industriais, in- estudos envolveram a definição e O ChemFactor calculado para as di-
cluindo os serviços, etc., enfim, a so- cálculo de um indicador económi- versas facetas do consumo mede o
ciedade em globo, e contribuía directa co, o ChemFactor – um indicador de grau de contribuição dos produtos
e indirectamente para o PIB e o em- toque,7 cujo objectivo é aferir e mos- químicos para os bens de consumo.
prego. O objectivo final era mostrar ao trar até que ponto a Indústria Quími- A Tabela 2 (parte 3) mostra que mui-
público, de forma facilmente compre- ca tem efeitos (“toca”) nas restantes tos dos bens que permitem qualidade

QUÍMICA 114
de vida às pessoas incorporam uma Tabela 2 Exemplos de valores dos índices ChemFactor*
grande ou razoável contribuição rela-
tiva de produtos químicos. Aliás, sen-
do o valor do indicador para os servi- Actividade Valor do índice
ços veterinários igual a 65 (o quarto
1.Produtos da actividade industrial e serviços
valor da tabela), é de presumir que
Tintas de impressão 100
também para qualidade de vida dos
animais os produtos químicos sejam Serviços de design especializados 48
importantes!9 Revestimento electrolítico 42
Aglomerados de madeira 31
O ChemFactor foi calculado ao longo Manufactura de sinais e tabuletas 30
das cadeias de fornecimento de ma-
Semicondutores 30
teriais para mais de 400 categorias de
Fotocopiadores e equipamento fotográfico 27
produtos industriais e de consumo. A
análise global dos resultados mostrou Botões 26

que 96% dos bens fabricados “são Envelopes 24


tocados” directamente pela Indústria Fabrico de tijolos e telhas cerâmicas 17
Química – a sua manufactura envolve Extracção mineira de metais 15
o uso de produtos químicos; e que 6% Tratamento de águas 10
do valor total dos produtos comprados
Computadores 10
pela economia provém da Indústria
Aviões 7
Química (excluindo as compras no
interior da própria indústria). Definin- 2. Produtos de embalagem
do indústria dependente de produtos Materiais plásticos para embalagem 77
químicos como toda a indústria com Garrafas de plástico 74
ChemFactor igual ou superior a 10 (20 Embalagens de papel forrado 37
para as indústrias de serviços, que
Caixas de cartão 22
usam menos materiais), calculou-se
Embalagens de vidro 17
ainda que a contribuição do conjunto
destas indústrias para o PIB dos EUA Latas de metal 7

correspondia a 25,2% deste. 3. Bens de consumo


Tintas 100
IMPORTÂNCIA DOS PRODUTOS QUÍMI- Laminados e revestimentos de vinilo (para o chão) 77
COS NO EMPREGO
Alcatifas e carpetes 68
Serviços veterinários 65
Um outro aspecto que interessa consi-
Pneus 62
derar para aferir a importância econó-
mico-social da Indústria Química é a Artigos de cabeleireiro 46
sua contribuição para o emprego. Na Serviços fotográficos 45
Tabela 3 apresenta-se dados (EUA, Serviços hospitalares 43
2004)10 [2] que permitem sentir a im- Brinquedos, bonecas e jogos 38
portância da Indústria Química como
Fraldas descartáveis 37
força motriz de criação de emprego.
CDs/DVDs/Cassetes de vídeo 34
Aquela indústria era responsável por
882 mil postos de trabalho, mas en- Artigos desportivos 31

volvia directamente, a montante e a Pilhas 37


jusante, mais quase cinco milhões de Sapatos 26
empregos. O total de postos de traba- Livros 25
lho directamente ligados à Indústria Produtos para cirurgia 25
Química, quase 5,8 milhões, corres-
Sofás e estofos 24
pondia a cerca de 4% da força de
Produtos de desenho, pintura, etc. 23
trabalho do país. Um cálculo simples
a partir dos valores anteriores mostra Jornais e revistas 21

que, por cada emprego na Indústria Louças e talheres 21


Química, se geram directamente 5,6 Lavandaria e limpeza a seco 20
empregos na economia em globo – Mobílias de madeira 17
ou seja, o factor multiplicativo11 do Construção de casas 15
trabalho na Indústria Química é muito
Veículos a motor 14
elevado, da ordem de 6,6. Os 5,8 mi-
lhões de postos de trabalho gerados *) Dados respigados de [4]

a partir daquela indústria distribuem-


-se por sectores de actividade muito
diversificados.

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Tabela 3 Dados sobre o emprego ligado
directamente à Indústria Química (EUA, 2004)*
QUANTIFICAÇÃO DA IMPORTÂNCIA DOS estes usam presentemente o mesmo
PRODUTOS QUÍMICOS NA QUALIDADE DE sistema estatístico,12 permitem anali-
Número de VIDA sar quantitativamente a importância
postos de
Sector dos produtos químicos para a maior
trabalho
(milhares) ou menor qualidade média de vida
Na Tabela 5 apresentam-se dados so-
Indústria Química 882 bre valores da produção de produtos dos respectivos habitantes – já que
Fornecedores 676 químicos no mundo, segundo o ACC são todos países com grandes econo-
Sectores a jusante 4.226 [2]. Uma simples divisão do valor to- mias, embora com grau de desenvol-
Total 5.784 tal pela população mundial [5] mostra vimento e nível de riqueza diferente.
% do Total de postos de trabalho 4% que o valor médio da produção anu- A partir dos valores da Tabela 5 e de
no país al por habitante é superior a $350 / dados sobre a população e Produto
Factor multiplicativo 6,6 pessoa / ano, mas este valor, como Interno Bruto (PIB) para os três paí-
*) Dados de [2] quase todas as médias, é enganador. ses [5], pode-se calcular o valor de
Um relance à tabela evidencia que produção de produtos químicos por
O cálculo dos ChemFactors permitiu
a produção ocorre maioritariamen- habitante para cada um dos países,
verificar que o alcance dos produtos
químicos no mercado de emprego era te na Europa (36,9%) e América do verificando-se que esse valor cresce
muito mais amplo do que o evidencia- Norte (25,4%) e na Bacia do Pacífico com o desenvolvimento económico,
do pelos valores da Tabela 3: as em- (28,4%), sendo que mais de dois ter- ocorrendo um fosso entre o México
presas com actividade dependente de ços deste último valor diz respeito ao ($184/habitante), país em desenvolvi-
produtos químicos empregavam 36 Japão – ou seja, cerca de 80% dos mento, e os outros dois, países afluen-
milhões de trabalhadores ou 26,1% produtos químicos são fabricados nos tes (mais de $1.000/habitante): Méxi-
da força de trabalho total dos EUA continentes ou países desenvolvidos co << Canadá < EUA (ver a Fig. 1).
(ver na Tabela 4 a distribuição deste e, naturalmente, beneficiam mais di-
número pelas diversas actividades rectamente os seus habitantes. Para analisar melhor a relação, é útil
que manipulam produtos químicos).
Tabela 5 A produção de produtos químicos no mundo (2004)*
Se se comparar este número com os
882 milhares de trabalhadores da pró-
pria Indústria Química, obtém-se um País/região Produção
Valor %
“factor de toque” (dado pela razão dos
dois valores) de quase 42 vezes. Con- (109 US$)
siderando a soma dos números de tra-
EUA 516 23,0
balhadores na própria Indústria Quí- Canadá 36 1,6
mica e nas indústrias dependentes, México 19 0,8

conclui-se que quase 27% do empre- Total parcial – América do Norte 571 25,4
go nos EUA (2004) tinha alguma coi-
América Latina 120 5,3
sa a ver com produtos químicos. Esta
percentagem é bem elucidativa da im- Europa Ocidental 748 33,3
Europa Central e Oriental 81 3,6
portância da Indústria Química para o
emprego nos países industrializados. Total parcial – Europa 829 36,9
África e Médio Oriente 89 4,0
Tabela 4 Empregos “tocados” pela
Indústria Química (EUA, 2004)* Ásia/Bacia do Pacífico 637 28,4

Número de Total – Mundo 2246 100,0


Sector de actividade empregos
(milhares)
*) Dados de [2]
Indústria Química (emprego directo) 882
Agricultura 1.031 A maioria da população dos numero- representar o Produto Interno Bruto
Indústria mineira e utilidades* 404 sos países pouco desenvolvidos da por habitante (PIB/hab) em função
Construção 6.062 África e da Ásia, e mesmo dos países do valor de produtos químicos produ-
Fabrico de bens duráveis 6.230 em desenvolvimento destes continen- zidos por habitante (ver a Fig. 2) – a
tes e da América Latina, tem um aces- representação mostra uma forte cor-
Fabrico de bens não duráveis 3.669
so deficiente aos produtos químicos relação entre as duas grandezas.
Comércio grossista 372
usados directamente (detergentes,
Informação 1.299
remédios, fertilizantes, etc.) ou incor- A Fig. 2 inclui um ponto referente ao
Serviços 4.877 porados em bens – esta situação é Mundo, baseado no valor global da
Saúde 12.055 análoga à da energia, podendo falar- produção de químicos (Tabela 5) di-
Total 35.998 se, por semelhança, em pobreza quí- vidido pela população mundial e no
(% do Total de empregos no país 26,1%) mica. A análise seguinte suporta este PIB médio por habitante para o mun-
Total global 36.880 conceito. do, ponto esse que fica próximo do do
(% do Total de empregos no país 26,6%) México – denota valores baixos quer
Os valores apresentados para os três para a produção de químicos quer
Factor de toque 41,8
*) Dados de [4] países da América do Norte, como para a riqueza por habitante do pla-

QUÍMICA 114
neta. Por outro lado, se se introduzi- Na Fig. 3 apresenta-se as percenta- está associado a uma maior quota de
rem naquela figura, como ordenadas, gens dos valores dos químicos pro- importância da Indústria Química na
valores do PIB/habitante da ordem de duzidos relativamente ao PIB para economia de um país. Note-se, ainda,
$1.000/pessoa, vulgares para os paí- cada um dos três países. A figura que nos países avançados, como os
ses pouco desenvolvidos [5], estimam- mostra que essa percentagem sobe EUA e o Canadá, a Indústria Química
-se valores irrisórios para o consumo pela ordem México < Canadá < EUA, representa mais de 4% da economia
de produtos químicos por habitante isto é, sobe com o nível de desenvol- (medida pelo PIB).
– o que evidencia a extensão do pro- vimento – pode-se, assim, concluir
blema da pobreza química no mundo. que o aumento da qualidade de vida Em suma, embora os raciocínios
anteriores envolvam incertezas
decorrentes, por exemplo, de se
ignorar as exportações e importações
de químicos, os resultados obtidos
mostram quanto a Indústria Química
é um factor fulcral para obter riqueza
e proporcionar qualidade de vida.
Mais precisamente, usando o PIB por
habitante como medida da qualidade
de vida, conclui-se que quanto maior
é o valor da produção de produtos
químicos maior é a riqueza e a
qualidade de vida que dela resulta.

A POBREZA QUÍMICA, O DESENVOL-


Figura 1 Produção de produtos químicos por habitante para os três países da América do Norte VIMENTO SUSTENTÁVEL E A QUÍMICA
VERDE

Uma prescrição do Desenvolvimento


Sustentável, avançada logo no Re-
latório Brutland [6], é a diminuição
do fosso da qualidade de vida entre
os países pouco desenvolvidos e os
afluentes – o que implicará melhorar
a dos primeiros e, por isso, em face
da discussão anterior, arrastará au-
mentos acentuados na quantidade de
produtos químicos fabricados (e não
só). Em consequência, o futuro da
Indústria Química é promissor – é de
prever que, em termos globais, tenha
de continuar a crescer.

Figura 2 A qualidade de vida dos habitantes de um país, medida pelo PIB/habitante, Por outro lado, o fabrico e uso de
apresenta uma forte correlação com valor de produtos químicos produzidos produtos químicos têm dado origem
a enormes quantidades de resíduos
e provocado a dispersão de variados
poluentes, ocasionando problemas di-
versificados para a saúde humana e
ecológica (para uma visão global, ver
[7]), não admissíveis pelo Desenvolvi-
mento Sustentável, e que não podem
continuar a ocorrer. A pressão social
e legislativa para a sua eliminação e
atenuação tem vindo a crescer (por
exemplo, na Europa, o REACH [8]),
o que impõe que a química seja re-
formatada para que possa suportar
a Sustentabilidade [9] – sendo assim
inevitável o desenvolvimento progres-
Figura 3 O valor dos produtos químicos fabricados cresce com a riqueza do país sivo da Química Verde e a intensifi-
(medida pelo PIB/habitante) cação do seu uso pela Indústria Quí-

QUÍMICA 114 - JUL/SET 09


mica. Em suma, a pobreza química tria do seu fabrico contribui para um ção de produtos químicos e a quali-
constitui, afinal, um poderoso estímu- entrosamento denso e resiliente do te- dade de vida significa que a melhoria
lo para a mudança profunda no modo cido industrial, ao contrário de instala- das condições de vida nos países em
de praticar a química que a Química ções pontuais de fábricas com outras desenvolvimento, e das populações
Verde constitui. actividades menos invasivas, isto é, menos favorecidas dos desenvolvi-
cujos “factores de toque” são mais li- dos, continuará a requerer um cres-
DISCUSSÃO FINAL E CONCLUSÕES mitados (para já não mencionar que a cimento da referida produção. Este
instalação de tais fábricas por multina- facto augura bom futuro à Indústria
As estatísticas sobre a produção da cionais é frequentemente temporária, Química, desde que ela seja capaz de
Indústria Química dos países indus- ao passo que as grandes instalações introduzir mudanças adequadas para
trializados evidenciam quanto os pro- da Indústria Química pesada, dados que o fabrico e utilização dos seus
dutos desta indústria contribuem para os vultuosos investimentos de capital produtos sejam feitos com menores
a qualidade de vida da sua população que requerem, têm de ser construídas danos para o ambiente e a saúde hu-
– não esquecendo, porém, que as es- com um alcance temporal longo). mana e ecológica – para o que tem de
tatísticas globais escondem o fosso mudar a sua actividade para a rota do
entre ricos e os pobres: num mesmo Por outro lado, em face do papel ful- Desenvolvimento Sustentável. Nes-
país, como o nível de vida varia com cral dos produtos químicos na civiliza- te contexto, a análise da importância
os estratos populacionais, nem toda ção industrial é também preocupante económico-social da Indústria Quími-
a gente beneficia igualmente com o o percurso que o ensino da química ca suporta, portanto, a premência de
fabrico e uso dos produtos químicos, no Ensino Secundário tem vindo a desenvolver a Química Verde e de
aliás como sucede com todos os ou- seguir no nosso país, por exemplo: concretizar a sua implementação por
tros factores que determinam o nível a progressiva diminuição do tempo meio de Engenharia Química Verde, o
de vida. lectivo dedicado à disciplina, que su- mais rápida e extensivamente que for
gere uma tendência perigosa para o possível.
Os dados apresentados e a sua dis- seu eventual banimento a curto prazo;
cussão demonstram a importância ou a organização de programas tendo
que a Indústria Química tem para a como base o difuso tema “moléculas NOTAS
economia das sociedades industria- no espaço”, em vez da importância
lizadas, algo de que os profissionais societal da química ou do valor econó- 1
O conceito de pobreza energética (“ener-
da Química Industrial têm plena cons- mico da Indústria Química, temas po- gy poverty”) aplica-se geralmente aos
ciência mas que o público em geral tenciadores de um ensino da química países menos desenvolvidos e países
ignora – e mesmo alguns químicos dirigido ao papel dominante desta ci- em desenvolvimento, onde se estima
académicos, por vezes, parecem es- ência no funcionamento da tecnosfera haver cerca de 2.000 milhões de pesso-
quecer. Em particular, os indicadores e na nossa vida diária – “moléculas na as, na maior parte rurais, sem acesso a
ChemFactor construídos por iniciativa Terra”(!). serviços de fornecimento de combustí-
do ACC revelam a penetração mais ou veis [1]. No entanto, o conceito também
menos extensa dos produtos quími- A análise apresentada mostra que há tem cabimento para os países desenvol-
cos na grande maioria das actividades lugar para se falar de pobreza quími- vidos, onde se considera ocorrer (“fuel
económicas – indústria, serviços, con- ca, que tal como a pobreza energé- poverty”) quando uma família tem de
sumo, etc. – dos países avançados, tica, é uma componente da pobreza despender mais de 10% do rendimento
onde a civilização industrial atingiu um tecnológica, que, por sua vez, é uma disponível nas contas de electricidade,
elevado nível de desenvolvimento. das variadas facetas da pobreza gás e outros combustíveis que conso-
em geral. Embora não seja possível me (esta definição data dos fins dos
Em face desta situação, o progressivo apresentar dados que suportem a anos oitenta do século passado, tendo
desaparecimento da Indústria Quími- afirmação, dada a importância que a sido introduzida por Boardman [10]). No
ca no nosso país é um aspecto muito energia tem para a Indústria Química, Reino Unido, a erradicação deste pro-
preocupante quanto ao modo como o é de presumir que as duas referidas blema foi contemplada por via legislativa
desenvolvimento industrial tem sido pobrezas tecnológicas estejam forte- (Warm Homes and Energy Conserva-
implementado. Sendo aquela indús- mente correlacionadas. Outro aspec- tion Act, 2000), mas o encarecimento
tria extremamente importante como to a investigar será a correlação entre dos custos de energia nos últimos anos
suporte de quase toda a actividade a diminuição da pobreza química e o tem-no acentuado [11]. Uma busca com
industrial e de serviços, bem como do crescimento da riqueza global (p. ex., o Yahoo (em 2009.06.06) conduziu a
emprego em geral,13 o seu esvazia- PIB/habitante) ao longo do tempo, 399.000 páginas para “energy poverty”
mento implica consequências negati- para as sociedades desenvolvidas ou e 1.760.000 para “fuel poverty”, mas
vas de amplitude brutal para a activi- em desenvolvimento. Em suma, a po- apenas a 57 para “chemicals poverty”
dade económica nacional, que trans- breza química parece ser um concei- (sem que nenhuma destas últimas se
cendem em muito a própria Indústria to suficientemente interessante para referisse ao conceito tal como forma-
Química. Como os produtos químicos merecer estudos mais aprofundados. tado no presente artigo). Uma busca
são incorporados nos mais diversos na Wikipedia (em 2009.06.06) mos-
bens de consumo, quer duradouros Finalmente, em termos mais globais, trou que esta não continha a entrada
quer precários, a existência da indús- a correlação existente entre a produ- “chemicals poverty”, ao contrário das

QUÍMICA 114
duas referentes à pobreza energética. (por exemplo, ácido sulfúrico usado no são fidedignas, pelo menos em princí-
2
O autor deste artigo tem usado, na ca- fabrico do aço) [12]. pio.
6 13
deira sobre Química Industrial que vem Em rigor, como a Lua já foi visitada por Para já não falar do emprego profissio-
leccionando desde meados dos anos humanos e foi enviado para lá variado nal dos químicos.
oitenta do século passado, dados esta- equipamento de observação, apesar das
tísticos sobre a Indústria Química dos precauções tomadas para não deixar REFERÊNCIAS
EUA e sua produção, como exemplo da lixo, não se pode garantir que não exis-
situação dos países avançados quanto tam lá resíduos de químicos artificiais! [1] A. D. Sagar, “Alleviating Energy Po-
7
ao fabrico e uso dos produtos químicos. Tradução literal de “touch indicator”. verty for the World’s Poor”, En. Pol. 33
8
Como se trata de um grande país, com Os valores da tabela são os referentes a (2005) 1367-1372.
uma Indústria Química muito diversifica- 2004, ano em que os indicadores Che- [2] American Chemistry Council (ACC), em
da, os dados estatísticos, relativamente mFactor começaram a ser obtidos pelo http://www.americanchemistry.com/s_
fáceis de obter e uniformes, evidenciam ACC [4]. Valores aparentemente mais acc/index.asp.
muitos aspectos importantes daquela recentes, embora menos completos, po- [3] P. R. Seidl, M. N. Magalhães e C. R.
indústria. Entretanto, com o desenvol- dem ser obtidos na respectiva página [2] Augusto, “An Introductory Course in
vimento do resto do mundo, particular- (as diferenças nos valores são peque- Industrial Chemistry for Freshman”, J.
mente dos países da Bacia do Pacífico nas). Chem. Ed. 78 (2001) 218-222.
9
(mas não só), e mais recentemente, com Não se pode esquecer, porém, que a [4] M. G. Moore e T. K. Swift, “Driving the
o avanço da Globalização, a importância quase totalidade dos animais são hoje Economy”, American Chemistry (2005)
económica dos EUA e da sua Indústria criados para acabarem no prato dos hu- 24-26 de Setembro.
Química tem-se vindo a esbater – nos manos! [5] The Economist, “Pocket World in Figu-
10
meados dos anos oitenta a economia Neste artigo, usaram-se dados de fabri- res”, 2006.
dos EUA representava cerca de um ter- co de produtos químicos, emprego, etc., [6] G. H. Brutland (Chairwoman), “The
ço da economia mundial, presentemente referentes a 2004 por duas razões: por World Commission on Environment
já representa menos de um quarto. Em um lado, os valores dos ChemFactor and Development”, Our Common Fu-
2007, a Indústria Química dos EUA pro- foram obtidos para este ano; por outro, ture, Oxford UP, 1987.
duziu 21% dos produtos químicos fabri- naquele ano, após a crise do início da [7] OECD Environmental Outlook to 20030,
cados no mundo [2]. década e antes do encarecimento do pe- OCDE, 2008.
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Um componente virtual dum produto tróleo que ocorreu mais recentemente, a [8] Royal Society of Chemistry, A Brief
é algo que, não existindo fisicamente economia atravessava um período de Guide to Reach, RSC, 2008.
no produto, foi utilizado no seu fabrico relativa estabilidade. [9] A. A. S. C. Machado, “Química e De-
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ou obtenção, por exemplo, o conteúdo O factor multiplicativo é a razão entre o senvolvimento Sustentável – QV, QUI-
virtual de água em 1 kg de cereal é de número de postos de trabalho totais e o VES, QUISUS”, Química - Boletim
1.000 L. número de postos de trabalho na Indús- SPQ 95 (2004) 59-67.
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Ou “fórmulas” – misturas de compostos tria Química. [10] B. Bordman, Fuel Poverty: From Cold
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que, além do composto funcional para a Os três grandes países da América do Homes to Affordable Warmth, Wiley,
utilização, incluem outros, destinados a Norte (Canadá, EUA e México) adop- 1991.
potenciar a actividade dele, estabilizá-lo, taram, em 1997, no âmbito do acordo [11] T. Webb, “Fury as Fuel Poverty Soars
etc. comercial NAFTA (“North America Free Close to a 10-Year Record”, The Ob-
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Por exemplo, em 2007, um automóvel fa- Trade Agreement”), um sistema esta- server (2008) 20 de Janeiro.
bricado nos EUA incorporou, em média, tístico de actividades económicas uni- [12] A. Tullo, “Impact of GM’s Bankruptcy”,
$2.664 de produtos químicos, mais de formizado, conhecido pela sigla NAICS Chem. Eng. News 87(23) (2009) 8 de
10% do seu custo de fabrico – produtos (“North American Industry Classification Junho, 8.
químicos reais (por exemplo, plásticos, System”), pelo que as comparações dos
espumas, borrachas, etc.) ou virtuais dados estatísticos para os três países

ACTUALIDADES CIENTÍFICAS
RESERVAS NATURAIS DE FOSFATOS EM de haver uma contínua descoberta de ou não razões para alarme.
PERIGO DE EXAUSTÃO ? novas reservas (embora com custos
crescentes de exploração e/ou purifi- Embora as estimativas que se fazem
Os fertilizantes à base de fosfatos cação), mas não podemos esquecer do consumo e das reservas existentes
ajudaram o forte aumento da produ- que todas elas são limitadas e as nos- estejam sujeitas a erros não quantifi-
tividade agrícola verificado no século sas necessidades não param de cres- cáveis, inerentes à falta de informação
passado, mas discute-se se corremos cer a ritmos impressionantes. (intencional ou não, por exemplo no
o risco de, num futuro próximo, esgo- que respeita a estratégias de concor-
tar-mos as reservas disponíveis. Tal Num artigo publicado na revista Natu- rência e de constituição de reservas
como a discussão em torno das reser- re do passado dia 8 de Outubro, Na- estratégicas), vale a pena apresentar
vas de petróleo, pode dar-se o caso tasha Gilbert procura esclarecer se há e pensar nos números que se conse-

QUÍMICA 114 - JUL/SET 09