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Literatura Brasileira

1 anos médios e técnicos

Humanismo e Classicismo

DORÉ, Gustave. Demônios confrontando Dante e Virgílio. Ilustração para o livro A divina Comédia (Inferno), de Dante
Alighieri, publicado em 1885 – Biblioteca de Artes Decorativas (Paris, França). A ilustração reflete a confiança dos
humanistas. Dante e Virgílio enfrentam os demônios por meio da razão, que os ajuda a afastar as “trevas” do
pensamento vinculado à Idade Média.

[...] os humanistas consideravam a Antiguidade


afastada deles no tempo (tudo o que fosse velho
tinha para eles um interesse especial), mas espiritualmente
próxima, ao passo que a Idade Média
estava mais próxima no tempo, mas extremamente
distante em muitos aspectos [...].
DRESDEN, Sem. O Humanismo no renascimento.
Tradução de Daniel Gonçalves. Porto: Inova. p. 55.

Contexto

O Humanismo foi um movimento artístico e intelectual que se estabeleceu como uma


transição entre o teocentrismo da Idade Média e o pensamento antropocêntrico do
Renascimento, que surgiu na Itália no final da Idade Média (século XIV). A organização social
passou por uma reformulação, e nas áreas mais longínquas aos feudos medievais passaram a
surgir pequenas cidades que funcionavam de forma independente do poder absoluto dos
monarcas, eram os burgos e seus habitantes, os burgueses.
A lógica dos humanistas era colocar em primeiro plano o próprio ser humano, o que os
afastava do teocentrismo medieval. Muitos camponeses, atraídos pelas promessas de
prosperidade, transferiram-se para os burgos, estas cidades ou vila medievais normalmente
muradas e associadas a um mosteiro ou castelo, onde começaram a trabalhar como pequenos
mercadores.
Em função da substituição da sociedade do escambo e das trocas pelo surgimento do
comércio e, primordialmente, da moeda, o homem se viu rompendo com a lógica feudal das
castas imóveis. Diante da possibilidade de ascensão social passaram a investir mais em si, num
individualismo que colocava o próprio homem e sua busca por poder e acúmulo em primeiro
plano, surgindo, assim, a burguesia. Essas transformações que começaram a ocorrer na Europa
do fim da Idade Média fizeram com que a vida nas cidades fosse retomada e o comércio
intensificado, provocando maior interação entre pessoas de diferentes segmentos da sociedade.
A riqueza passou a ser associada ao capital obtido pelo comércio e não mais à terra, como
ocorria na sociedade feudal.
Com o enriquecimento da burguesia, em função do comércio, surge a necessidade de
um investimento na própria formação cultural, para que se pudesse administrar a riqueza
acumulada. A arte ganha com isso, pois com a formação intelectual, fruto da lógica comercial, o
burguês passa a investir em cultura, aprende a ler e a contar, algo que, até então, só era feito
pela Igreja e pelos grandes soberanos. Aos poucos, os leigos começam
a conquistar um papel importante na produção e, principalmente, na circulação de cultura.
A busca por uma formação levou à redescoberta de textos e autores da Antiguidade
Clássica, considerada uma fonte de saber a respeito do ser humano, resgatando, assim, a visão
antropocêntrica, característica da cultura greco-latina.

Projeto literário

O abandono da subordinação ao Clero e o resgate dos valores clássicos fazem com que
ganhe força um olhar mais racional sobre o mundo, buscando na Ciência uma explicação para
os fenômenos até então atribuídos a Deus. O contexto de produção é o mesmo do
Trovadorismo, mas em função do desenvolvimento intelectual vindo da ampliação cultural
promovida pela burguesia, os textos passam a ser escritos para ser lidos e não mais cantados,
como seguia a tradição oral das cantigas.
A partir do início da produção de livros na Europa, sobretudo com a invenção da gráfica,
por Johann Gutenberg, por volta de 1450, a Literatura ganha com obras que permitem ao
escritor se valer de novos recursos técnicos de escrita e linguagem, sem ficarem presos à
oralidade e à memória, como faziam até então. Para se ter uma ideia, surge na Alemanha em
1455, o primeiro livro impresso por Gutemberg, a Bíblia.

Portugal e sua produção

Os reis e nobres da Dinastia de Avis (1385-1580) tornaram Portugal mais poderoso e rico
com o início da expansão marítima em Portugal, que surge ao mesmo tempo em que se funda a
Torre do Tombo, em 1418, que foi um importante centro de registro e documentação da época.
Destaca-se a figura de Fernão Lopes, nomeado o cronista-mor da Torre do Tombo, em 1434,
sendo responsável por escrever e catalogar as Crônicas historiográficas.
Surge uma poesia desvinculada da música, chamada de Poesia Palaciana, com Garcia de
Resende e sua compilação de poetas no “Cancioneiro Geral”, de 1516. Destaca-se, também, a
figura de Gil Vicente na produção teatral, sendo um importante representante da cultura e
sociedade da época.
O teatro de Gil Vicente

O grande nome do teatro no Humanismo é Gil Vicente, considerado o pai do teatro em


Portugal. Escrita em 1502, sua primeira peça foi Auto da Visitação, em homenagem à rainha D.
Maria pelo nascimento de seu filho, o futuro rei D. João III. Em seus 71 anos de vida, Gil Vicente
se manteve em cena durante 34 anos e testemunhou muitas modificações ocorridas em
Portugal, viu, por exemplo, seu país sair de uma sociedade agrária e tornar- -se uma potência
naval, comercial e militar. Acredita-se que ele tenha nascido por volta de 1495.
Pouco se conhece de sua vida particular e acredita- se que tenha se mantido distante de
exageros e modismos, mas sabe-se que ele legou à sociedade uma vasta obra teatral, com forte
caráter moralizante, em que a religião aparece como padrão e referência de comportamento, a
partir da qual se julgam as virtudes e os erros dos humanos. Viveu a transição dos valores
medievais para os renascentistas, trazendo, de um lado, a crença teocêntrica na providência
divina e, de outro, a crítica de costumes, como a audácia humanista fundindo o antigo ao
moderno.
Ridendo castigat mores
A arte teatral vicentina tem caráter moralizante, pois enfoca os desvios
comportamentais inseridos num contexto em que a religião católica era o padrão de
comportamento. No entanto, sua crítica sempre se voltava para os sujeitos e não para as
instituições, principalmente as religiosas.
A evidente intenção na maioria de suas obras é criar o riso crítico, usando a máxima
latina ridendo castigat mores, ou seja, rindo castiga-se a moral sem fazer distinção de classe,
seja rico, pobre, plebeu ou nobre, todos eram sua matéria-prima e recebiam a mesma força de
suas críticas.
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O teatro vicentino coloca no centro da cena erros de ricos e pobres, nobres e plebeus.
O autor denuncia os exploradores do povo, como o fidalgo, o sapateiro e o agiota no Auto da
barca do inferno; e ridiculariza os velhos que se interessam por mulheres mais jovens na
farsa O velho da horta. Um recurso muito explorado por Gil Vicente é o uso de alegorias, ou
seja, de representações por meio de personagens ou objetos, de ideias abstratas, geralmente
relacionadas aos vícios e às virtudes humanas.
Assim, no Auto da barca do inferno, o agiota traz consigo uma bolsa cheia de moedas que
representa, alegoricamente, a sua ganância. Outro recurso são os tipos sociais, nos quais são
elencadas figuras que formam um quadro da sociedade portuguesa da época, como papas,
fidalgos, juízes, onzeneiros, alcoviteiras, prostitutas, espertalhões, tolos, mulheres ambiciosas,
clérigos, frades etc.
Afastou-se totalmente dos gêneros de grande prestígio no teatro da Antiguidade
Clássica, ou seja, a tragédia e a comédia são caracterizadas por três unidades: ação, tempo e
lugar. Gil Vicente, ao contrário, caracteriza sua obra pela amplitude temática, maior duração da
ação cênica, maior número de atores em cena e despreocupação com grande cenário para que
possa justapor espaços com mais facilidade. Além disso, misturava no registro de fala tanto o
erudito como o popular, o dito “elevado” com o “baixo”. As obras de Gil Vicente costumam ser
divididas em três tipos:
▪ Autos pastoris (éclogas): gênero a que pertencem algumas das primeiras obras do autor.
Algumas dessas peças têm caráter religioso, como o auto pastoril português;
▪ Autos de moralidade: gênero em que Gil Vicente se celebrizou. Suas peças mais conhecidas
são os da trilogia das barcas (Auto da barca do inferno, Auto da barca do purgatório e Auto da
barca da glória) e o Auto da alma.
▪Farsas: peças de caráter crítico, utilizam como personagens tipos populares e desenvolvem-
se em torno de problemas da sociedade. As mais popularessão a Farsa de Inês Pereira, história
de uma jovem que vê no casamento a sua chance de ascensão social, e O velho da horta, que
ridiculariza a paixão de um velho casado por uma jovem virgem.
Auto da barca do inferno (1514)

O Auto da barca do inferno representa o juízo final católico de forma satírica e com forte
apelo moral. O cenário é uma espécie de porto, onde se encontram duas barcas: uma com
destino para o inferno, comandada pelo diabo, e a outra, com destino para o paraíso,
comandada por um anjo. Ambos os comandantes aguardam os mortos, que são as almas que
seguirão para o paraíso ou para o inferno. Os mortos começam a chegar e um fidalgo é o
primeiro. Ele representa a nobreza, e é condenado ao inferno por seus pecados, tirania e luxúria.
O diabo ordena ao fidalgo que embarque. Este, arrogante, julga-se merecedor do paraíso, pois
deixou muita gente rezando por ele. Recusado pelo anjo, encaminha-se, frustrado, para a barca
do inferno; mas tenta convencer o diabo a deixá-lo rever sua amada, pois esta “sente muito”
sua falta.
O diabo destrói seu argumento, afirmando que ela o estava enganando. Um agiota
chega a seguir e é condenado ao inferno por ganância e avareza. Tenta convencer o anjo a ir
para o céu pedindo ao diabo que o deixe voltar para pegar a riqueza que acumulou, mas é
impedido e acaba na barca do inferno. O terceiro indivíduo a chegar é o parvo (um tolo,
ingênuo). O diabo tenta convencê-lo a entrar na barca do inferno; quando o parvo descobre qual
é o destino dela, vai falar com o anjo. Este, agraciando-o por sua humildade, permite-lhe entrar
na barca do céu. A alma seguinte é a de um sapateiro, com todos os seus instrumentos de
trabalho. Durante sua vida enganou muitas pessoas, e tenta enganar também o diabo. Como
não consegue, recorre ao anjo, que o condena como alguém que roubou do povo. O frade é o
quinto a chegar cantarolando com sua amante. Sente-se ofendido quando o diabo o convida
a entrar na barca do inferno, pois, sendo representante religioso, crê que teria perdão. Foi,
porém, condenado ao inferno por falso moralismo religioso.
Brísida Vaz, feiticeira e alcoviteira, é recebida pelo diabo, que lhe diz que seu o maior
bem são “seiscentos virgos postiços”. Virgo é hímen, representa a virgindade. Compreendemos
que essa mulher prostituiu muitas meninas virgens, e “postiço” nos faz acreditar que enganara
seiscentos homens, dizendo que tais meninas eram virgens. Brísida Vaz tenta convencer o anjo
a levá-la na barca do céu inutilmente. Ela é condenada por prostituição e feitiçaria. A seguir, é a
vez do judeu, que chega acompanhado por um bode. Encaminha-se direto ao diabo, pedindo
para embarcar, mas até o diabo recusa-se a levá-lo. Ele tenta subornar o diabo, porém este, com
a desculpa de não transportar bodes, o aconselha a procurar outra barca.
O judeu fala, então, com o anjo, porém não consegue aproximar-se dele: é impedido,
acusado de não aceitar o cristianismo. Por fim, o diabo aceita levar o judeu e seu bode, mas não
dentro de sua barca, e, sim, rebocados. Durante o reinado de Dom Manuel, de 1495- 1521,
muitos judeus foram expulsos de Portugal, e os que ficaram tiveram que se converter ao
cristianismo, sendo perseguidos e chamados de “cristãos novos”. Ou seja, Gil Vicente segue,
nessa obra, o espírito da época. O corregedor e o procurador, representantes do judiciário,
chegam, a seguir, trazendo livros e processos.
Quando convidados pelo diabo a embarcarem, começam a tecer suas defesas e
encaminham-se ao anjo. Na barca do céu, o anjo os impede de entrar: são condenados à barca
do inferno por manipularem a justiça em benefício próprio. Ambos farão companhia à Brísida
Vaz, revelando certa familiaridade com a cafetina – o que nos faz crer ter havido trocas de
serviços entre eles. O próximo a chegar é o enforcado, que acredita ter perdão para seus
pecados, pois em vida foi julgado e enforcado. Mas também é condenado a ir para o inferno por
corrupção. Por fim, chegam à barca quatro cavaleiros que lutaram e morreram defendendo o
cristianismo. Estes são recebidos pelo anjo e perdoados imediatamente.
O bem e o mal

Todos os personagens que têm como destino o inferno chegam trazendo consigo objetos
terrenos, representando seu apego à vida; por isso, tentam voltar. Os personagens a quem se
oferece o céu são cristãos e puros. O mundo aqui ironizado é maniqueísta: o bem e o mal, o
bom e o ruim são metades de um mundo moral simplificado. O Auto da barca do inferno faz
parte de uma trilogia (Autos da barca da glória, do inferno e do purgatório). Escrito em versos
de sete sílabas poéticas, possui apenas um ato, dividido em várias cenas. A linguagem entre os
personagens é coloquial – e é através das falas que podemos classificar a condição social de
cada um dos personagens.

Leia um trecho:
[Vêm Quatro Cavaleiros cantando, os quais trazem cada um a Cruz de Cristo, pela qual Senhor e
acrescentamento de Sua santa fé católica morreram em poder dos mouros. Absoltos a culpa e
pena per privilégio que os que assi morrem têm dos mistérios da Paixão d’Aquele por Quem
padecem, outorgados por todos os Presidentes Sumos Pontífices da Madre Santa Igreja. E a
cantiga que assi cantavam, quanto a palavra dela, é a seguinte:
Cavaleiros: À barca, à barca segura, barca bem guarnecida, à barca, à barca da vida! Senhores
que trabalhais pela vida transitória, memória, por Deus, memória deste temeroso cais! À barca,
à barca, mortais, Barca bem guarnecida, à barca, à barca da vida! Vigiai-vos, pecadores, que,
depois da sepultura, neste rio está a ventura de prazeres ou dolores! À barca, à barca, senhores,
barca mui nobrecida, à barca, à barca da vida!
[E passando per diante da proa do batel dos danados assi cantando, com suas espadas e
escudos, disse o Arrais da perdição desta maneira:
Diabo: Cavaleiros, vós passais e não perguntais
onde vais?
1o CAVALEIRO: Vós, Satanás, presumis? Atentai
com quem falais!
2o CAVALEIRO: Vós que nos demandais? Sequer
conhece-nos bem: morremos nas Partes d’Além, e não
queirais saber mais.
DIABO: Entrai cá! Que cousa é essa? Eu não
posso entender isto!
CAVALEIROS: Quem morre por Jesus Cristo não
vai em tal barca como essa!
[Tornaram a prosseguir, cantando, seu caminho
direito à barca da Glória, e, tanto que chegam, diz o
Anjo:]
ANJO: Ó cavaleiros de Deus, a vós estou esperando,
que morrestes pelejando por Cristo, Senhor dos
Céus! Sois livres de todo mal, mártires da Santa Igreja,
que quem morre em tal peleja merece paz eternal.
[E assim embarcam.]
Classicismo
Cronologia do Classicismo

Início (1527): chegada de Sá de Miranda à Portugal, com a Medida Nova.


Fim (1580): morte de Camões e união da península
Ibérica.
Contexto Histórico
Nos séculos XV e XVI, a visão teocêntrica do mundo, que caracterizou a Idade Média,
cede lugar ao antropocentrismo, ou seja, o Homem e a Ciência vão para o centro dos
acontecimentos e do universo. O Renascimento marca o apogeu dessa era, que se propõe a
iluminar com a razão as trevas da civilização medieval.

Comércio

O fascínio pela vida nos meios urbanos fez com que a sociedade buscasse cada vez mais
os prazeres que o dinheiro podia propiciar. O comércio entre as nações da Europa cresceu e a
burguesia mercantil não aceitava que a produção agrária estivesse voltada apenas para a
subsistência e desejava buscar o comércio exterior entre as nações.

Renascimento

O Renascimento foi uma decorrência natural do Humanismo. O seu significado nas artes
é reflexo de transformações radicais sucedidas no Oriente, ao se emancipar do velho sistema
feudal. A certeza de que o ser humano é uma força racional, capaz de dominar e de transformar
o Universo, levou o europeu a uma identificação com a cultura clássica, que valorizava a vida
terrena. O mundo, as pessoas e a vida passaram a ser
vistos sob o prisma da razão.

O palco

A Itália foi onde essa tendência renascentista apareceu com mais intensidade, sendo o
palco deste retorno ao mundo da Antiguidade Clássica, ou seja, fez renascer os ideais de
valorização dos gregos e latinos, desde meados do século XIII, dos esforços individuais, da
perfeição, da superioridade humana e da razão como parâmetro de observação e interpretação
da realidade.

Pintura, escultura e arquitetura

Na pintura, um dos principais traços do Renascimento foi a noção de perspectiva e a


tematização de elementos da Antiguidade Clássica, bem como a humanização do tema sacro. A
técnica era levada em conta acima de tudo, o sombreado realçava a ideia de volume dos corpos.
Também teve início a utilização da tela e a tinta a óleo. Na escultura, o que mais chama a atenção
é a busca pela representação ideal do homem, normalmente retratado nu a fim de exaltar as
formas humanas.
A arquitetura também teve influência dos traços clássicos, retratando a figura humana
e o conceito de beleza dos templos construídos de maneira harmônica, normalmente coberta
por uma cúpula. Entre os artistas mais importantes da arte renascentista estão Leonardo da
Vinci (1452-1519), Michelangelo( 1475-1564) e Rafael Sanzio (1483-1520).

Literatura
O poeta Dante Alighieri, autor da Divina comédia, introduziu o verso decassílabo –
chamado de “a medida nova”, em contraponto à redondilha, considerada como “medida
velha”. O poeta Francesco Petrarca, criador do soneto, influenciou vários poetas europeus,
entre o quais o inglês William Shakespeare e os portugueses Luís Vaz de Camões e Sá de
Miranda.
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Leia um soneto de Francesco Petrarca:

Se a minha vida do áspero tormento


E tanto afã puder se defender,
Que por força da idade eu chegue a ver
Da luz do vosso olhar o embaciamento,

E o áureo cabelo se tornar de argento,


E os verdes véus e adornos desprender,
E o rosto, que eu adoro, empalecer,
Que em lamentar me faz medroso e lento,

E tanta audácia há de me dar o Amor,


Que vos direi dos martírios que guardo,
Dos anos, dias, horas o amargor.

Se o tempo é contra este querer em que ardo,


Que não o seja tal que à minha dor
Negue o socorro de um suspiro tardo.

Sá de Miranda
Em Portugal, considera-se como marco inicial do Classicismo o ano de 1527, data em
que o poeta Sá de Miranda regressou da Itália, de onde trouxe as inovações literárias do
Renascimento italiano, introduzindo- -as em Portugal. O encerramento desse primeiro período
clássico ocorre em 1580, ano da morte de Camões e do domínio espanhol sobre Portugal.
Além do Classicismo, há dois outros períodos clássicos: o Barroco, momento em que Portugal é
dominado e governado pela Espanha, e o Arcadismo, que avança até a segunda década do
século XIX.

Características do Classicismo
O Classicismo queria recuperar a “classe” dos autores antigos a partir do cultivo dos
valores greco-latinos, inclusive da mitologia pagã, própria dos antigos. Isso levou os poetas
renascentistas a recorrer às entidades mitológicas para pedir inspiração, simbolizar emoções,
exemplificar comportamentos. Pastores, deuses, deusas e ninfas estão presentes nas obras de
arte e na literatura renascentista de forma natural, convivendo até mesmo com tradições
cristãs, herdadas da época medieval.
É hora de o ser humano se orgulhar de suas conquistas terrenas. O homem descobre
que a Terra é redonda e passa ter um olhar universalista sobre a realidade. O marco de seu
início se dá em 1527, quando o poeta Sá de Miranda retorna de sua incursão pela Itália
renascentista e introduz em Portugal novas formas de composição. Ele trouxe a postura
amorosa, o soneto e, principalmente, a forma fixa do verso decassílabo chamado de Medida
Nova, o Dolce Stil Nuovo (o doce estilo novo) criado pelo escritor italiano Francesco Petrarca.

Tendências fundamentais
▪ Criação e imitação
Retomado do princípio aristotélico da mimese, ou seja, da reprodução os comportamentos
humanos por intermédio da arte.
▪ Racionalismo
O desenvolvimento de um raciocínio completo sobre os temas abordados, inclusive o amor. Na
poesia, essa tentativa de conciliar razão e emoção se apresentou por meio de uma figura de
linguagem chamada “paradoxo”.
▪Humanismo e ideal de beleza
Recriação da natureza humana por meio de um ideal de beleza, proporção, harmonia e
simetria.
▪Universalismo
A busca por novos territórios, expansão marítima. O homem quer se colocar acima da natureza
e, automaticamente, acima de Deus. O planeta Terra passa a ser um espaço de dominação