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“JOGANDO” LOGÍSTICA NO BRASIL

DOI: 10.5700/rege483 ARTIGO – PRODUÇÃO E OPERAÇÕES

Marco Aurélio Carino Bouzada Recebido em: 10/5/2011


Professor da Universidade Estácio de Sá (mestrado em Administração), da ESPM,
do COOPPEAD/UFRJ e de outras instituições (de gradução e MBA) – Rio de Aprovado em: 26/06/2012
Janeiro-RJ, Brasil
Doutor e Mestre em Administração pelo COOPPEAD/UFRJ
E-mail: marco.bouzada@estacio.br

RESUMO

Este trabalho descreve um Jogo de Empresas sobre Logística Empresarial denominado BR-LOG. O jogo
é simulado em uma realidade brasileira com cidades e distâncias reais. Com o intuito de explorar algumas
lacunas deixadas por obras similares – pesquisadas e apresentadas na revisão bibliográfica –, exercitando
novos conceitos e variáveis, ele procurou ser o mais realista possível, dentro da viabilidade operacional. A
ideia foi criar uma ferramenta que pudesse proporcionar um bom treinamento ao executivo de Logística
brasileiro. Por isso, ele é totalmente voltado para a nossa realidade. A revisão bibliográfica compara
brevemente os Jogos de Empresas com outras ferramentas de ensino e treinamento, além de apresentar um
painel que resume os jogos de Logística disponíveis no Brasil. Logo após, são descritas as características do
BR-LOG, ilustrando-se os conceitos, variáveis e trade-offs envolvidos. Um tópico especial é dedicado à
exemplificação de algumas telas do jogo, com o intuito de ilustrar as possibilidades, decisões envolvidas e
conceitos explorados. Também são descritas, sucintamente, quatro experiências de aplicação do jogo a
diferentes públicos, e as principais impressões e feedbacks então obtidos são relatados. A conclusão do
artigo abre portas para novas ideias que poderiam ser implementadas no próprio (ou em outros) jogo(s), com
o objetivo de aperfeiçoá-lo(s).
Palavras-chave: Jogo de Empresas, Logística, Treinamento.

PLAYING LOGISTICS IN BRAZIL

ABSTRACT

This work describes the business game about business logistics named BR-LOG. The game is simulated
in the Brazilian situation now with real cities and distances. In order to explore some of the gaps existing in
similar works - researched and presented in the bibliographic review – dealing with new concepts and
variables, it was designed to be as realistic as possible, within operational viability. The intention was to
create a tool that could provide good training for the Brazilian logistics executive. So it is entirely focused
on our situation today. A bibliographic review briefly compares the business games with other teaching and
training tools, in addition to presenting a summary of logistic games available in Brazil. Then the
characteristics of BR-LOG are described, illustrating the concepts, variables and trade-offs involved. A
special topic is dedicated to examples of some screens of the game, for the purpose of illustrating the
possibilities, decisions involved and concepts explored. Also briefly described are four game, application

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experiences with different publics and a report of the main impressions and feedbacks then obtained. The
conclusion of the article opens doors for new ideas that could be implemented in this game or in others for
the purpose of improving them.
Key words: Business Games, Logistics, Training.

“JUGANDO” LOGÍSTICA EN BRASIL

RESUMEN

Este trabajo describe un Juego de Empresas sobre Logística Empresarial denominado BR-LOG. El
juego es simulado en una realidad brasileña con ciudades y distancias reales. Con la intención de explorar
algunas lagunas dejadas por obras similares –, investigadas y presentadas en la revisión bibliográfica –
ejercitando nuevos conceptos y variables, él intentó ser lo más realista posible, dentro de la viabilidad
operacional. La idea fue crear una herramienta que pudiese proporcionar un buen entrenamiento al
ejecutivo de Logística brasileño. Por eso, él es totalmente volcado para nuestra realidad. La revisión
bibliográfica compara brevemente los Juegos de Empresas con otras herramientas de enseñanza y
entrenamiento, además de presentar un panel resumiendo los juegos de Logística disponibles en Brasil.
Enseguida son descriptas las características del BR-LOG, ilustrándose los conceptos, variables y trade-
offs involucrados. Un tópico especial está dedicado a la ejemplificación de algunas telas del juego, con la
intención de ilustrar las posibilidades, decisiones involucradas y conceptos explorados. También son
descriptas, sucintamente, cuatro experiencias de aplicación del juego a diferentes públicos, y las
principales impresiones y feedbacks que fueron obtenidos son relatados. La conclusión del artículo abre
portas para nuevas ideas que podrían ser implementadas en el propio (o en otros) juego(s), con el objetivo
de perfeccionarlo(s).
Palabras-clave: Juego de Empresas, Logística, Entrenamiento.

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próxima da real. A maioria das aplicações utiliza


1. INTRODUÇÃO
localidades fictícias, o que exige uma boa
capacidade de abstração (LIMA, 2004;
As transformações pelas quais o mundo
AZEREDO; ORNELLAS; RAMOS, 2006; ILOS,
empresarial vem passando têm tornado cada vez
2011).
mais evidente a necessidade de aprendizagem,
Bonocielli Jr. e Lopes (2008) observam que
treinamento e reciclagem para estudantes e
muitos dos jogos de empresas utilizados no Brasil
executivos na área de gestão de empresas.
são adaptações de jogos importados de outros
Existem muitas ferramentas de treinamento para
países.
tal fim: aulas expositivas, palestras, visitas a
Tais carências dificultam que os participantes
empresas, o método do caso e Jogos de Empresas
de fato treinem e se tornem capazes de “fazer
(Business Games), entre outras. Apesar do mérito
logística” no Brasil. A assimilação dos conceitos
das quatro primeiras, nelas a prática – segundo
genéricos de Logística ocorre, mas o aprendizado
Vieira Filho (2008) – é deixada de lado e os
das características específicas do mercado
alunos não conseguem obter conhecimentos
brasileiro fica prejudicado.
suficientes da dinâmica e da realidade
Além disso, a maioria dos jogos de logística
empresariais.
existentes não contempla a possibilidade de
A construção do conhecimento, segundo
transporte intermodal, a utilização dos modais
Piaget (1973), é resultado de uma interação na
aéreo e marítimo, a escolha da localização da(s)
qual o sujeito é sempre um elemento ativo, que
fábrica(s), a programação diária da produção, o
aprende basicamente por meio de suas próprias
transporte paletizado, o tratamento de produtos
ações ao invés de esperar que alguém que possui
frigorificados, dentre outros aspectos críticos da
um conhecimento o transmita a ele por um ato de
gestão logística de uma empresa (LIMA, 2004;
bondade.
AZEREDO et al., 2006; ILOS, 2011).
Alinhado a essa filosofia, o Jogo de Empresas
O objetivo deste trabalho foi desenvolver,
procura inserir o participante em um ambiente
aplicar e apresentar um business game voltado
empresarial simulado (e, portanto, prático). Sua
especificamente para Logística, um Jogo de
utilização revela-se de grande valia na preparação
Logística que contemplasse todas essas
dos futuros tomadores de decisão por permitir que
possibilidades, de forma a explorar boa parte dos
situações do cotidiano empresarial sejam
desafios estratégicos e operacionais com que o
experimentadas nesse ambiente
profissional de logística costuma se deparar.
(BERGAMASCHI FILHO; ALBUQUERQUE,
Dessa forma, o BR-LOG é baseado em um
2009). Esse é o formato a ser explorado neste
modelo matemático relativamente complexo,
trabalho.
porém invisível ao jogador, que deve tomar
Especificamente em relação à Logística no
decisões empresariais de dificuldade média. A
Brasil, cabe ressaltar a importância de treinar
ferramenta procura ser útil e didática no que diz
profissionais no assunto. O país apresenta
respeito à assimilação de custos, distâncias,
dimensões continentais e ainda conta com um
conceitos, técnicas, trade-offs.
nível baixo de profissionalismo no assunto.
Muitos trade-offs são explorados: diversidade
Portanto, muita ineficiência e desperdícios
de modais; centralização x descentralização de
ocorrem e há um evidente potencial de
estruturas; custos de estoque x custos de
crescimento na área, que possibilitará enormes
transporte x custo de aquisição de matéria-prima;
economias para o país caso se converta em
preço x serviço prestado; transporte paletizado;
realidade.
produtos com diferentes pesos e volumes;
Atualmente, há alguns jogos de logística que
produtos com maior margem e de tratamento
são utilizados como ferramenta de treinamento
diferenciado (frigorificado); produtos com
gerencial. Uma parcela muito reduzida deles é
demanda mais estável e de menor margem;
aplicada no cenário brasileiro. Dentre os que se
localidades distantes e/ou de pequena expressão
aplicam não foi possível descobrir algum em que
econômica com custos atrativos; produtos de alto
as distâncias entre as localidades fossem
verdadeiras e a disponibilidade dos modais fosse

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valor agregado transportados por modais mais transmitir uma grande quantidade de conceitos.
rápidos. Além disso, possuem a vantagem de não
A ideia consiste em explorar bastante o setor comprometer a operação normal da empresa, uma
de Logística e todos os seus conceitos, e pouco vez que são realizados geralmente em um
outras áreas. Naturalmente, conceitos de outras ambiente independente e isolado (CARLSON;
áreas (que mantêm uma interface com a Logística, MISSHAUK, 1972; KOPITTKE, 1989;
como Produção e Finanças) também são tratados, MIYASHITA, 1997; SCHAFRANSKI, 2002;
só que superficialmente. ROSAS; SAUAIA, 2006; ARCANJO;
Adicionalmente, o jogo tem por objetivo o CARVALHO; VIEIRA, 2009).
treinamento de executivos brasileiros do setor de O objetivo é criar um cenário predefinido, no
Logística, apresentando custos e distâncias reais qual os participantes serão submetidos a um
no país, assim como disponibilidade dos modais ambiente simulado, onde tomarão decisões
(ferrovia, cabotagem) e variáveis como tamanho e baseadas em informações que receberem. Tais
importância econômica das cidades condizentes simulações podem revelar-se uma poderosa
com nossa realidade. ferramenta de ensino, pois forçam a dinâmica em
A importância deste trabalho está, assim, no sala de aula a assumir outro ritmo, exigem muito
fato de tratar de um jogo realizado no cenário mais dos alunos, estimulando-os a pensar em
brasileiro. As cidades são reais e as distâncias todas as variáveis ao mesmo tempo e a construir
entre elas verdadeiras. A disponibilidade dos ferramentas para resolver os problemas propostos,
modais se aproxima da realidade, permitindo que e os coloca em um ambiente de pressão similar ao
os participantes realmente treinem e pratiquem da vida real. Curiosamente, essas simulações
Logística no Brasil. Assim, para um executivo também costumam persuadir, divertir e fascinar
brasileiro talvez seja mais importante verificar se os alunos já interessados em jogos, e despertar
é viável transportar matéria-prima de trem de curiosidade nos demais. O público discente
Belém para Brasília ou se compensa costuma enxergar como principais contribuições
economicamente abastecer de produtos acabados dos jogos: (i) o auxílio no treinamento para o
uma cidade de tão difícil acesso como Manaus, do processo decisório; (ii) a vivência simulada das
que saber quanto custa transportar, de caminhão, atividades empresariais; (iii) o desenvolvimento
um produto do “mercado 12” para o “mercado de habilidades interpessoais para o trabalho em
27”. equipe; e (iv) a aplicação dos conhecimentos
adquiridos ao longo do curso (VICENTE, 2005;
2. REVISÃO DE LITERATURA
GEORGES, 2009; MOTTA; MELO; PAIXÃO,
Os jogos buscam retratar – de forma 2009).
simplificada – a realidade complexa das De acordo com Sauaia (2008), o conhecimento
empresas, delimitando algumas variáveis acadêmico individual, apreendido e certificado
trabalhadas e restringindo o impacto de outras no deve ser praticado coletiva e sistematicamente
modelo. Dessa forma, procuram simular o para construir significados dinâmicos, preparando
ambiente empresarial, colocando os jogadores o gestor para um desempenho superior nas
diante de situações similares àquelas vividas organizações. Por isso, Bonocielli Jr. e Lopes
pelos executivos em sua rotina de trabalho. São (2008) dizem que os Jogos de Empresas são uma
métodos alternativos de treinamento de importante ferramenta de auxílio na consolidação
executivos e possuem algumas vantagens em dos princípios complexos e dinâmicos que regem
relação aos métodos tradicionais, como o as decisões gerenciais. Segundo Kopittke (1989),
treinamento no exercício de um cargo específico. são ferramentas de ensino eficazes, cujo objetivo
Usualmente, os jogos auxiliam no processo de pedagógico está vinculado ao ganho de
ensino-aprendizagem dos empregados, compreensão desses princípios e das relações de
possibilitam maior integração entre as pessoas – causa e efeito entre os subsistemas da organização
incitando a colaboração em equipe – e são muito e do ambiente. Além desse ganho, Motta,
mais econômicos no tempo de aprendizado, pois Armond-de-Melo e Paixão (2009) perceberam
em pequeno espaço de tempo conseguem outro benefício: o desenvolvimento de

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habilidades humanas e técnicas (até mais do que Yoshizaki. (2003), Lima (2004) e Orlandeli e
das conceituais) por parte dos envolvidos. Novaes (2004), vem se tornando cada vez mais
Em comparação com outros métodos de ensino frequente, até mesmo em um formato mais lúdico,
(aulas expositivas, casos, leituras), que têm – não como o de um jogo de tabuleiro (GEORGES,
obstante o fato de deixarem a prática um pouco de 2009).
lado – uma abrangência de conteúdo muito maior Essa área envolve, segundo Miyashita (1997),
do que os jogos, estes últimos costumam revelar grande quantidade de elementos matemáticos e
competências não captadas pelos métodos financeiros: coordenação de estoques, avaliação
tradicionais e proporcionam ao participante uma de tempos de transporte e espera, cálculo de
oportunidade de descobrir – por conta própria! – custos, etc. O processamento dessas informações
as variáveis que realmente importam e o envolve uma razoável complexidade, pela grande
relacionamento entre elas, já que o ambiente de quantidade de dados numéricos e pelo
um jogo de empresas costuma oferecer variada equacionamento exigido. Esse fato fortalece o
gama de dados quantitativos. Além disso, o poder do business game enquanto instrumento de
formato em questão possibilita uma maior fixação treinamento para a Logística.
de conceitos e procedimentos, pois conta com a O primeiro jogo computacional – o
consolidação que só a prática proporciona. Isso é Monopologs Game – foi desenvolvido pela Rand
muito interessante porque antecipa a oportunidade Corporation para a Força Aérea Americana em
de o executivo aplicar, na prática, os conceitos 1955. Era um Jogo de Logística e simulava um
aprendidos na teoria. Normalmente, o palco dessa sistema de abastecimento e gerenciamento de
aplicação seria o cotidiano profissional e, até que materiais (LIMA, 2004).
o fosse, os conceitos poderiam ser “esquecidos” Pinheiro (1983) apresenta um jogo (de
(CARLSON; MISSHAUK, 1972; MARTINELLI, Planejamento da Produção e Controle de
1987; SAUAIA, 2006; VIEIRA FILHO, 2008; Estoques) que dispensa o uso de computador e
HONAISER; SAUAIA, 2008). aborda problemas como o de programação da
Mas seus modelos, de acordo com Lopes et al. produção e de armazenagem, bastante
(2009), geralmente envolvem um grande número relacionados à problemática da Logística.
de elementos e variáveis interrelacionadas que Carlson e Misshauk (1972) relacionam três
dificultam sua compreensão e desafiam seu jogos de logística, todos “manuais” e ambientados
desenvolvimento e uso por parte de pesquisadores nos Estados Unidos: (i) AZTEC TRUCKING
e professores. COMPANY, que requer que os participantes
Outra grande desvantagem dos jogos, para coordenem uma frota de caminhões, competindo
Martinelli (1987), é a quantidade de tempo que para vender e entregar um produto em várias
eles ocupam, mas isso é inerente ao seu processo cidades; (ii) HOLIDAY TREE COMPANY, cujo
de aplicação, porque uma redução no número de principal desafio é comprar árvores de Natal no
rodadas da partida pode prejudicar a capacidade oeste norte-americano e despachá-las para o
do aluno de aprender mediante erros e acertos, mercado em cinco diferentes cidades; e (iii)
além de inibir o exercício do planejamento de DORN CORPORATION, que estimula os
longo prazo. Miyashita (1997), porém, acrescenta jogadores a otimizar a política de estoques de
que a força da tecnologia da informação vem peças sobressalentes, de forma a atender
impulsionando cada vez mais estes jogos, que satisfatoriamente a demanda por elas,
podem ser cada vez mais complexos, executados geograficamente espalhada pelo país.
em menos tempo e contar com participantes que O Jogo da Logística é outro exemplo que
estejam em locais diferentes. A cada dia os jogos utiliza localizações reais ao invés de fictícias –
melhoram, tornando-se mais úteis como cidades do Estado de São de Paulo, no caso – a
instrumentos de treinamento e mais adequados à serem abastecidas durante a aplicação deste jogo
área de interesse. de tabuleiro. Nele, as empresas precisam planejar
Especificamente na área de Logística, a e executar a operação de distribuição semanal de
difusão dos jogos é grande e sua aplicação, produtos dos centros de distribuição para seus
conforme sugerem Miyashita, Oliveira e clientes. O realismo do jogo inclui até a

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consideração das rodovias que realmente existem padrões de demanda, tomando decisões que
e de quais delas são duplicadas ou simples, de envolvem o projeto da cadeia de suprimento,
pedágios e da importância relativa das cidades. previsão de demanda, controle da produção e de
Diferentes tipos de produtos e veículos são estoques, gestão do transporte, dentre outros
contemplados, todos com suas particularidades. aspectos logísticos. Também no formato web-
As incertezas estão presentes na demanda (através based, o LINKS Supply Chain Management
de dados) e nos transportes e operação interna das Simulation (LINKS, 2009) está disponível em três
empresas (através de cartas com eventos versões (fundamental, standard e entendida), nas
aleatórios). Diversos conceitos logísticos são quais as empresas – com diferentes níveis de
explorados, como a localização de instalações, a complexidade envolvida em razão da versão
seleção do modal de transporte, a parametrização utilizada – precisam gerenciar a cadeia de
do sistema de reposição de estoque, a roteirização suprimentos de ponta a ponta para atingir o
e programação de veículos, o dimensionamento equilíbrio entre oferta e demanda.
das instalações, entre outros (GEORGES, 2009). Já no SC Logistic, o produto trabalhado é real
Outro jogo “manual” é o Simchip, explicado – o tabaco – e, segundo Peixoto (2002), o objetivo
no apêndice de Bowersox e Closs (1996). Nele, é desenvolver conceitos básicos de logística e
empresas tentam atender à demanda de cinco envolver decisões também sobre o investimento
mercados fictícios e seu propósito é demonstrar em propaganda. Estas últimas também estão
apenas as inter-relações básicas dos elementos presentes no LOG, um Jogo de Logística de
logísticos. Dessa forma, diversas premissas mecânica razoavelmente simples apresentado por
simplificadoras foram adotadas. Mais um Miyashita (1997). Nele, os participantes não
exemplo de jogo manual pode ser encontrado no podem decidir sobre a infraestrutura logística da
Jogo da Cadeia de Prestação de Serviços, empresa, que é predefinida. As decisões se
desenvolvido por Favaretto, Oliveira e Souza referem a aspectos mais táticos e operacionais
(2009) para explorar diferentes formas de (como compra de matéria-prima, escolha de
transmissão de informações e de organização da modais, planejamento da produção e entrega do
cadeia de serviços a ser analisada (centro de produto final). Sua versão mais avançada (o LOG
convenções, hotel, restaurante e empresa de RH) Advanced) trabalha mais os conceitos de logística
e o conceito de Efeito Chicote. integrada, explorando os trade-offs entre as
Nessa mesma linha de simplicidade bem funções logísticas, de forma similar à encontrada
estruturada – mas em ambiente computacional –, no Supply Chain Game (ILOS, 2011).
Ornellas (2005) apresenta o LOG IN, que também O Beer Game (Jogo da Cerveja) também
valoriza o recebimento de informações ao longo procura evidenciar a importância da integração e
do tempo. da troca eficiente de informações em uma cadeia
O Simulador Logístico LOGA (ILOS, 2011), de suprimentos. Mas, assim como o Collaborative
desenvolvido pela Universidade de Michigan Planning (ILOS, 2011), o jogo tem um caráter
(EUA), é um Jogo Logístico um pouco mais colaborativo e simula o processo de administração
complexo, no qual quatro empresas vendem dois de estoques de empresas que compõem os
diferentes produtos fictícios em 36 mercados diversos estágios de uma cadeia produtiva de
(também fictícios). Existem várias matérias- cerveja (varejo, distribuidor, revendedor e
primas e diferentes fornecedores e modais de fábrica), processo que busca minimizar o custo
transporte. O Marketing e a Produção também são total da operação (JACOBS, 2000).
explorados neste jogo, em um sentido mais Adaptado deste último, o Jogo da Cadeia de
coadjuvante. Foi um dos poucos exemplos Suprimentos utiliza a representação física da
encontrados – juntamente com o LOGSIM cadeia de suprimentos em sala de aula,
(CAVANHA, 2000) – de jogo capaz de simular a objetivando – de acordo com Mury (2002) e
ocorrência de potenciais problemas (como Cunha e Lima (2004) – ser mais tangível e
atrasos) no transporte dos bens. explorar a dinâmica de grupo e a metodologia
No Supply Chain Game (RESPONSIVE.NET, vivencial. É um dos poucos jogos que
2009), as equipes têm que lidar com diferentes disponibiliza, como alternativa, o modal aéreo de

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transporte, além do GameF61 (ORLANDELI, acerca de sua construção – podem ser encontradas
2001), que tem como um segundo diferencial a na seção 3.2 (p. 10) da dissertação de mestrado de
utilização de regiões reais (Ásia, Europa, México, Bouzada (2001).
Brasil) em sua aplicação.
3.1. Limitações
Outra adaptação do Beer Game é Novo Jogo
O BR-LOG procura “imitar” a realidade, mas
da Cerveja, onde os conceitos mencionados
não passa de uma simulação. Por isso, não
anteriormente são assimilados com a ajuda de
corresponde exatamente a ela e não prevê
peças lúdicas, tabuleiros e palmtops em rede
algumas situações que podem acontecer na vida
(ILOS, 2011).
prática. Os custos foram estudados e procuram
Também tendo como motivação a produção e
refletir a realidade, mas podem existir algumas
comercialização de um produto real – um
distorções.
eletrodoméstico, no caso –, o GI-LOG pode ser
classificado como um jogo funcional, que As distâncias são verdadeiras, embora algumas
privilegia os setores de suprimento, produção e aproximações e simplificações tenham sido feitas
distribuição física, mas envolve decisões também para tornar o jogo mais viável e de maior
na área de marketing, administração financeira e conteúdo didático. Exemplificando, no jogo é
gerenciamento contábil. O jogo testa as principais possível ir de navio de Curitiba para outros
habilidades gerenciais necessárias para uma boa portos, mediante a simplificação de considerar
administração logística, procurando fornecer ao que Curitiba estaria no litoral do Estado, o que
participante uma visão clara do papel que a não é tão distante da realidade. Priorizando a
Logística desempenha na administração didática e o aprendizado, o modal ferroviário não
empresarial (VIEIRA FILHO et al., 2008). considera alguns trechos existentes na realidade e
No InterPlanning, as empresas disputam os disponibiliza alguns que não existem realmente.
mesmos mercados e são subdivididas nas áreas de Algumas decisões têm suas consequências
suprimento/produção, logística/distribuição e realizadas instantaneamente ou em um prazo de
marketing. O grande desafio é gerir o conflito tempo muito curto, bem menor do que na
interno provocado pelos indicadores de realidade (como, por exemplo, a contratação de
desempenho das três áreas envolvidas (ILOS, operários e o aumento da capacidade dos
2011). armazéns). Novamente, tudo é feito com o intuito
De acordo com Simchi-Levi (2003), os grupos de tornar o jogo mais viável e de evitar aumentar
participantes do Risk Pool Game gerenciam sua complexidade, sem benefícios.
sistemas com estoque centralizado e com estoque O jogo não prevê incertezas (presentes na
descentralizado e tentam entender o impacto da realidade) nos prazos e na execução dos
(des)centralização dos estoques nos indicadores transportes. As demandas são razoavelmente
de custos e serviços. Tal trade-off também pode previsíveis, caso seja feito um estudo detalhado,
ser encontrado, segundo Azeredo (2004), no embora envolvam alguma incerteza. A interação
Supplier Game, além de em outros, como os que entre os jogadores e a influência dessa interação
envolvem a política de produção e estoque e o nos resultados do jogo trazem outro componente
planejamento da capacidade. de incerteza para os participantes, já que é difícil
O objetivo do Forecast Game é treinar os prever o que os concorrentes vão fazer.
participantes nas técnicas de gerenciamento da
3.2. Conceitos e Variáveis do Jogo
demanda. Seu grande diferencial é o fato de
utilizar dados reais. A outra ponta da cadeia pode No BR-LOG, quatro empresas convivem em
ser trabalhada no Sourcing Game, no qual a um oligopólio, disputando o mercado brasileiro
seleção e a contratação de fornecedores são por meio da venda de cinco diferentes produtos
exploradas (ILOS, 2011). (um deles perecível e exigindo tratamento
especial: armazenagem e transporte
3. METODOLOGIA frigorificados). Cada empresa é administrada por
A inspiração e as informações necessárias para uma equipe que, exercendo o papel de diretoria,
a elaboração do BR-LOG – além de detalhes

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tomará decisões logísticas e de outras áreas de Os produtos finais podem ser vendidos (os
interface (como, por exemplo, Produção e preços são de escolha da empresa, dentro de certa
Marketing). faixa) a 25 atacadistas, espalhados pelas
O objetivo de cada equipe é administrar da principais cidades brasileiras (um por cidade).
melhor maneira sua empresa, de modo a Essas 25 cidades correspondem às possibilidades
conseguir o maior lucro possível. A equipe de localização das fábricas e CDs, e é em um
vencedora será aquela que, ao final do jogo, tiver subconjunto delas que os fornecedores estão
acumulado o resultado financeiro mais positivo. localizados.
Não se sabe, a priori, quando o jogo terminará, Na fase de setup inicial, cada equipe deve
pois sua duração fica a critério do árbitro. Isso decidir: (i) quantas fábricas haverá (de 1 a 4) e as
evita que as equipes utilizem “táticas de fim de suas características (localização, quantidade de
jogo” para ganhá-lo e faz com que as empresas máquinas e de operários e área dos armazéns
sejam administradas com continuidade. anexos); e (ii) quantos CDs haverá e as suas
Em um primeiro momento, as equipes decidem características (localização e área dos armazéns).
sobre a macroestrutura logística e fabril da Cada fábrica deve ter armazéns anexos de
empresa (localização e tamanho dos centros de matéria-prima e produto acabado. Nesta fase
distribuição − CDs; localização e capacidade inicial, devem ser determinadas as suas
produtiva das fábricas). Após o setup inicial e no capacidades volumétricas (os produtos acabados e
decorrer do jogo, cada equipe deverá tomar as matérias-primas têm diferentes densidades).
decisões semanais (do ponto de vista da Cada máquina pode funcionar até 24 horas por
cronologia da empresa) estratégicas (alteração de dia, limitadas pelo número de operários
capacidade) e operacionais (determinação dos (remunerados), que trabalham em turnos de 8
preços, aquisição de matéria-prima, programação horas nos dias úteis da semana; há a possibilidade
da produção e transportes), após receber o de horas-extras.
resultado da interação de suas decisões com as de Cada empresa pode ter até oito CDs
outras equipes na semana anterior. Custos de espalhados pelo país. Neles só podem ser
manutenção das instalações e de carregamento de armazenados produtos acabados. A matéria-prima
estoque – além dos relacionados às decisões só pode ser armazenada junto às fábricas. Toda
citadas – ocorrem, como na “vida real”, e devem estrutura (fábrica, armazéns anexos e CDs)
ser bem administrados. construída ocupa uma área, e um terreno na
Para uma melhor orientação estratégica, cada localidade escolhida deve ser adquirido. O custo
equipe recebe, antes do início do jogo, uma de aquisição dos terrenos varia em função da área
planilha contendo dois tipos de informação: (i) e de sua localização.
um histórico (dos dois últimos anos, por semana) Após serem tomadas essas decisões, os
de demanda de cada um dos cinco produtos em terrenos são adquiridos, as fábricas e armazéns
cada um dos 25 atacadistas; e (ii) uma matriz de são construídos, as máquinas são instaladas e os
distâncias (em km) entre as 25 cidades para cada operários são contratados. A partir desse
um dos quatro modais de transporte: navio, trem, momento, o jogo entra em um regime mais
caminhão e avião. As equipes devem utilizar o dinâmico. A cada semana as equipes recebem
histórico de demanda a fim de projetar as relatórios de informação sobre o desempenho na
demandas futuras e a matriz de distâncias para semana anterior:
embasar a confecção da macroestrutura logística. Vendas: mostra as unidades vendidas de
Para produzir os cinco produtos são cada produto para cada atacadista, assim
necessárias cinco matérias-primas (em proporções como a receita financeira;
diferentes em cada produto) e algumas horas de DRE: mostra o resultado financeiro
fabricação por unidade. As empresas podem (receita e custos) da semana anterior e o
adquirir cada uma das matérias-primas com, acumulado;
geralmente, dois diferentes fornecedores, situados Ativos: mostra todas as instalações
em cidades diferentes e que trabalham com preços (fábricas e armazéns) da empresa e suas
diferentes (com descontos por quantidade). capacidades (de produção e de

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armazenagem, respectivamente), além das custos e com a possibilidade da


matérias-primas e produtos acabados intermodalidade – de qual item será
armazenados no momento; transportado, da quantidade transportada,
Encomendas: mostra quanto cada do dia e da cidade de origem do
atacadista encomendou, para a empresa, transporte, da cidade-destino e sobre se o
de unidades de cada um dos cinco transporte será paletizado –, situação que
produtos acabados. Essa encomenda deve reduz os custos de manuseio, mas diminui
ser entregue até o terceiro dia da semana a capacidade de carga).
corrente, caso contrário não será aceita; Mais detalhes a respeito do funcionamento do
Pesquisa de Preço: os atacadistas jogo podem ser encontrados no Manual do
reativam a concorrência, revelando os Jogador, que constitui o apêndice A (p. 83) da
preços praticados por cada empresa (para dissertação de mestrado de Bouzada (2001).
os cinco produtos) uma vez por mês, Após a simulação de uma quantidade de
mostrados neste relatório (de quatro em semanas determinada pelo moderador, este roda o
quatro semanas, a partir da sétima: na 7ª, programa para obter os resultados finais,
11ª, ...). apresentando-os – na forma de relatórios e
gráficos – aos participantes, com o objetivo de
Baseadas nos relatórios e nas próprias
discutir as estratégias de cada equipe e consolidar
estratégias, as equipes devem tomar suas
o processo de aprendizado experimentado durante
decisões semanais:
a condução do jogo. Dentre os principais
relatórios e gráficos apresentados aos
Preços para cada produto (o mesmo preço
participantes ao final da experiência, destacam-se:
será praticado por todos os atacadistas).
número de instalações; ocupação das instalações;
Estes preços influenciarão – juntamente
custos (detalhados por natureza); preços
com o nível de atendimento às
praticados; nível de serviço de cada fábrica junto
encomendas anteriores – as quantidades
aos principais atacadistas; market-share; receita
de cada produto que os atacadistas irão de vendas; lucro.
solicitar a cada empresa, para a semana
seguinte; 3.3. Ilustração das telas do jogo
Alteração da infraestrutura (aumentar ou A comunicação entre as equipes e o
diminuir a área comum ou frigorificada moderador (árbitro) do jogo nos dois sentidos
de cada armazém − anexo ou CD − e (inputs e outputs) é realizada por meio de
aumentar ou diminuir o número de planilhas Excel.
máquinas e operários em cada fábrica); A seguir são apresentadas, nas figuras 1 a 12,
Programação da Produção (alocação das algumas telas que aparecem durante (e após) o
horas de produção disponíveis em cada jogo, preenchidas aqui com valores fictícios, com
fábrica em cada um dos cinco dias da objetivo meramente ilustrativo.
semana);
Transportes (escolha do modal − com
diferentes velocidades, capacidades e

REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012 655
Marco Aurélio Carino Bouzada

Figura 1: Decisões iniciais de setup


CONFIGURAÇÃO DAS FÁBRICAS

Área dos armazéns (em m2)


Número de Matéria- Produtos Produtos Número de
Fábrica Localização
máquinas prima acabados acabados (F) operários
1 91 819 555 83 273
2 86 812 532 80 258
3 79 804 498 76 237
4

Checa
CONFIGURAÇÃO DOS CDs

(em m2)
Área Área
CD Localização
comum frigorificada
1 131 20
2 152 23
3 193 30
4
5
6
7
8

Fonte: Elaboração própria.

Figura 2: Definição dos preços

Fonte: Elaboração própria.

656 REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012
“Jogando” Logística no Brasil

Figura 3: Alteração da infraestrutura

Fonte: Elaboração própria.

Figura 4: Programação da produção

Fonte: Elaboração própria.

REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012 657
Marco Aurélio Carino Bouzada

Figura 5: Agendamento dos transportes


Carga Origem Destino
Número do Quantidade (em
Modal Natureza Dia Cidade Cidade Dia Entrega
transporte toneladas ou unidades)
final ?
1 60,000 24
24 palletizada ?

final ?
2 58,000 24
24 palletizada ?

final ?
3 211,000 24
24 palletizada ?

final ?
4 405,000 24
24 palletizada ?

final ?
5 1.420,000 25
25 palletizada ?

final ?
6 1.433,000 25
palletizada ?
25
final ?
7 4.573,000 25
palletizada ?
25
final ?
8 10.239,000 25
palletizada ?
25
final ?
9 200,000 23
palletizada ?
23
final ?
10 212,000 23
palletizada ?
23
final ?
11 1.036,000 23
23 palletizada ?

final ?
12 1.556,000 23
23 palletizada ?

final ?
13 96,000 24
24 palletizada ?

final ?
14 97,000 24
24 palletizada ?

final ?
15 295,000 24
24 palletizada ?

final ?
16 392,000 24
24 palletizada ?

final ?
17 185,000 23
22 palletizada ?

final ?
18 184,000 23
22 palletizada ?

final ?
19 614,000 23
palletizada ?
22
final ?
20 1.301,000 23
22 palletizada ?

final ?
21 314,000 23
22 palletizada ?

final ?
22 307,000 23
22 palletizada ?

final ?
23 1.071,000 23
22 palletizada ?

final ?
24 2.155,000 23
22 palletizada ?

final ?
25 46,000 23
22 palletizada ?

Fonte: Elaboração própria.

658 REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012
“Jogando” Logística no Brasil

Figura 6: Relatório de vendas (output semanal)

Fonte: Elaboração própria.

Figura 7: Demonstrativo do Resultado do Exercício (output semanal)

Semana 0 1 2 3 4 Acumulado

Receita de Vendas - - - - 959.408,40 959.408,40

Aquisição de terrenos 357.926,00 - - - - 357.926,00


Contratação/demissão de operários 122.880,00 - - - - 122.880,00
Alteração de capacidade - - - - - -
Salário dos operários - 30.720,00 30.720,00 30.720,00 30.720,00 122.880,00
Horas extras - - - - 6.563,75 6.563,75
Transportes - 28.804,40 1.787,68 17.803,56 31.426,49 79.822,13
Handling - 69,32 12,75 39,12 56,92 178,10
Custo fixo dos armazéns - 4.535,25 4.535,25 4.535,25 4.535,25 18.141,00
Handling nos armazéns - 483,24 67,55 338,61 343,59 1.232,98
Custo fixo das fábricas - 15.800,00 15.800,00 15.800,00 15.800,00 63.200,00
Fabricação - 18.409,00 30.720,00 21.668,50 28.712,50 99.510,00
Aquisição de matéria-prima - 194.517,00 6.072,00 29.808,00 41.400,00 271.797,00
Carregamento de estoque - 14.254,21 33.082,68 50.174,75 54.287,73 151.799,37

Total de custos 480.806,00 307.592,41 122.797,90 170.887,79 213.846,23 1.295.930,33

Resultado (480.806,00) (307.592,41) (122.797,90) (170.887,79) 745.562,17 (336.521,93)

Fonte: Elaboração própria.

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Marco Aurélio Carino Bouzada

Figura 8: Fotografia dos ativos (output semanal)

Fonte: Elaboração própria.

Figura 9: Encomendas (output semanal)

Fonte: Elaboração própria.

660 REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012
“Jogando” Logística no Brasil

Figura 10: Ocupação média das instalações (report pós-jogo)

Fonte: Elaboração própria.

Figura 11: Custos acumulados (report pós-jogo)

Fonte: Elaboração própria.

REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012 661
Marco Aurélio Carino Bouzada

Figura 12: Resultado acumulado (report pós-jogo)

Fonte: Elaboração própria.

4. ANÁLISE DOS RESULTADOS de recebimento, etc.) para verificar a flexibilidade


O jogo foi aplicado a quatro diferentes plateias das estratégias.
entre os anos de 2001 e 2003. A experiência Dois dos quatro grupos demonstraram bastante
gerou diversos feedbacks para o aplicador, alguns interesse e empenho. Sua motivação pareceu ter
dos quais foram percebidos por ele próprio e sido suficiente para que superassem as
outros foram indicados pelos participantes de dificuldades do jogo e evidenciou-se no fato de
forma voluntária e por meio do preenchimento de terem apresentado – voluntariamente – um
um questionário de feedback. Todas as aplicações relatório comentando a estratégia adotada, a
foram muito válidas, um breve parecer sobre cada divisão das tarefas, as ferramentas de apoio
uma delas será apresentado a seguir. utilizadas, a maneira de lidar com os imprevistos
e as lições e conceitos aprendidos com a
4.1. Graduação em Engenharia de Produção atividade. Os outros dois grupos deixaram a
(UFRJ) – cadeira de Logística desejar no comprometimento.
A atividade poderia ter obtido melhores
A turma tinha 26 alunos e estava tendo seu
resultados se tivesse sido realizada após o término
primeiro contato com a Logística, embora já
da disciplina de Logística (ao invés de durante).
tivesse passado pela disciplina de Gestão de
Faltou um pouco de embasamento teórico por
Operações. Os alunos estavam cursando a
parte de alguns participantes, mas a atividade, de
disciplina Logística simultaneamente à aplicação
uma forma geral, agradou.
do jogo.
As equipes tinham um intervalo de uma
4.2. Curso de Formação de Oficiais (Escola de
semana para tomar as decisões de cada rodada.
Guerra Naval) – módulo de Logística &
Foram introduzidas algumas modificações no
Administração
decorrer do jogo (corte das horas extras, aumento
do preço das matérias-primas, mudanças na data A turma possuía 20 alunos e não havia tido
nenhum contato acadêmico com Logística no

662 REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012
“Jogando” Logística no Brasil

curso, embora alguns alunos tivessem uma dúvidas por telefone e por e-mail durante todo o
pequena experiência profissional na área. período.
Essa aplicação ocorreu de forma O público demonstrou bastante embasamento
“concentrada”: os participantes e o aplicador teórico, embora tenha deixado um pouco a desejar
ficaram “confinados” por 7 dias (7,5 horas por em disciplina e aplicação. Duas equipes
dia), imersos na atividade. As equipes tinham um abandonaram o jogo temporariamente. Todos os
intervalo de 2,5 horas para tomar as decisões de grupos apresentaram um relatório ao final da
cada rodada (esse intervalo foi sendo reduzido à atividade, mas a atividade parece não ter agradado
medida que os grupos demonstravam maior muito os participantes, que se queixaram da
familiaridade com o jogo, chegando a 45 minutos combinação “complexidade do jogo/distância do
no final). Foram introduzidas muitas aplicador”.
modificações no decorrer do jogo para verificar a
flexibilidade das estratégias. Esse formato 4.4. Mestrado em Administração
surpreendeu e revelou-se bastante interessante (COPPEAD/UFRJ) – cadeira (eletiva) de
porque o aplicador estava disponível full time Tópicos Especiais em Logística
para dirimir as dúvidas e porque os participantes A turma possuía 8 alunos e já havia tido
estavam focados na atividade, o que praticamente contato com a disciplina Logística no curso; a
eliminava qualquer dispersão. maior parte deles também havia tido contato com
O público demonstrou disciplina e aplicação a disciplina nos seus cursos de graduação. Além
irretocáveis, e acabou conseguindo – apesar de disso, alguns alunos tinham experiência
certa carência de embasamento teórico – superar profissional na área. Os alunos estavam cursando
as dificuldades do jogo. Todos os grupos a disciplina Tópicos Especiais em Logística
apresentaram um relatório ao final da atividade, simultaneamente à aplicação do jogo.
sumarizando a gestão das empresas. As equipes tinham um intervalo de uma
Esta aplicação gerou uma heterogeneidade de semana para tomar as decisões de cada rodada. O
estratégias bastante rica, com empresas público, de forma geral, demonstrou bastante
restringindo-se geograficamente, outras embasamento teórico. A aplicação por parte dos
produzindo apenas alguns produtos, outra jogadores foi grande, mas foi trabalhoso e
apresentando fábricas dedicadas e outra decidindo demorado superar as dificuldades do jogo em
por uma compra concentrada de matéria-prima. razão da pequena quantidade (dois) de integrantes
Apesar de algumas queixas sobre a complexidade por equipe, que se revelou insuficiente e
do jogo, a atividade agradou bastante os inadequada.
participantes. A aplicação gerou certa heterogeneidade de
estratégias, com equipes trabalhando de forma
4.3. MBAuto (in company) na fábrica da mais “enxuta” (poucas instalações) e outras de
Daimler Chrysler (COPPE/UFRJ) – maneira mais abrangente. Apesar das queixas
cadeira de Gestão de Cadeias de referentes à complexidade do jogo e da
Suprimentos sobrecarga de trabalho, o jogo parece ter
A turma possuía 31 alunos e já havia tido agradado bastante, de uma maneira geral.
contato com a disciplina Logística no curso. Além
disso, alguns alunos tinham experiência 5. CONCLUSÃO
profissional na área. Os alunos estavam cursando Além de descrever completa mas sucintamente
a disciplina Gestão de Cadeias de Suprimentos o funcionamento do BR-LOG, este artigo
simultaneamente à aplicação do jogo. procurou mostrar as lacunas existentes no
As equipes tinham um intervalo de uma mercado de jogos de logística no Brasil. A
semana para tomar as decisões de cada rodada concepção do jogo apresentado foi idealizada de
(esse intervalo foi sendo reduzido, chegando a forma a tentar encontrar um nicho nesse mercado
quatro dias no final). O aplicador esteve presente e preencher as lacunas observadas e apresentadas
no início e no final da atividade, e disponível para na revisão bibliográfica. Seu ineditismo
(principalmente no que diz respeito à utilização

REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012 663
Marco Aurélio Carino Bouzada

de localizações reais ao invés de fictícias) é o mercado consumidor por tempo de entrega (com
principal argumento para justificar sua relevância preços diferenciados); uso de diferentes preços de
junto ao meio acadêmico. venda dos produtos em cada região; produtos com
Assim, o BR-LOG procurou ser o mais realista diferentes elasticidades (quanto ao preço e nível
possível, dentro da viabilidade operacional. A de serviço); existência de pesquisas de marketing
ideia foi criar uma ferramenta que pudesse para informar o market-share dos concorrentes.
proporcionar um bom treinamento ao executivo Para finalizar, vale lembrar o grande potencial
de Logística brasileiro. Por isso, ele é totalmente do uso dos jogos na área de gestão de empresas,
voltado para a nossa realidade. No entanto, pelo enquanto ferramenta de treinamento, sobretudo
fato de apresentar uma razoável dose de em áreas que envolvam raciocínio e manuseio de
complexidade (que implica muitas decisões a variáveis quantitativas, como a Logística; e
serem tomadas e muitas ferramentas de apoio a também o quanto é importante treinar executivos
serem utilizadas), o jogo em questão não é muito neste assunto, em um país com as dimensões do
adequado para iniciantes no assunto. O ideal é nosso e que convive com tantos desperdícios e
que seja utilizado por executivos especialistas (ou subutilização de ativos, principalmente no que diz
que venham a ser) em Logística e que tenham respeito a transportes e armazenagem.
uma boa quantidade de tempo que possa ser
dedicada à atividade. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Os resultados das aplicações do jogo no ARCANJO, F.; CARVALHO, M.; VIEIRA, F. O
público-alvo foram satisfatórios e revelaram que o Papel dos Jogos como Recurso Didático em
instrumento apresenta uma boa capacidade Programas de Educação Corporativa. In:
didática, já que os participantes puderam ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL
assimilar os conceitos envolvidos. O DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM
entendimento e a importância dos trade-offs ADMINISTRAÇÃO, 33., 2009, São Paulo.
presentes foram quase sempre capturados pelos Anais... São Paulo: ANPAD, 2009.
jogadores. O nível de complexidade do jogo
pareceu adequado, de uma maneira geral, às AZEREDO, S. Jogos de empresas aplicados à
plateias nas quais foi aplicado. logística empresarial. Dissertação (Mestrado em
Essas aplicações contribuíram com valiosos Engenharia de Produção) – Programa de Pós-
feedbacks para o incremento da qualidade do graduação em Engenharia de Produção,
jogo. Algumas melhorias já foram incorporadas, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2004.
mas diversas outras ideias podem ser deixadas
como sugestão para outros pesquisadores AZEREDO, S.; ORNELLAS, A.; RAMOS, R.
implementarem em seus jogos de logística ou Jogos de empresas aplicados à logística
para, em conjunto e a convite do autor deste empresarial: um panorama dos modelos
artigo, darem sequência ao processo contínuo de disponíveis no país. In: ENCONTRO
aperfeiçoamento do BR-LOG. NACIONAL DE ENGENHARIA DE
Dentre essas ideias, destacam-se: existência de PRODUÇÃO, 26., 2006, Fortaleza. Anais...
operadores logísticos; uso de frota própria (com Fortaleza: ABEPRO, 2006.
motoristas terceirizados ou não); uso de
caminhões com diferentes capacidades, BERGAMASCHI FILHO, E.; ALBUQUERQUE,
velocidades e preços; variação na disponibilidade A. Atitudes Tomadas Durante um Jogo de
de transportes em cada região; existência de Empresas e seu Impacto na Tomada de Decisão:
incerteza nos transportes; planejamento do espaço Estudo de Caso Aplicado em uma Turma de
de armazenagem e da política de handling; Contabilidade. In: ENCONTRO DE ENSINO E
ocorrência de setup para a troca de produtos nas PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO E
máquinas; limitação na disponibilidade de CONTABILIDADE, 2., 2009, Curitiba. Anais...
matéria-prima, que gera concorrência entre as Curitiba: ANPAD, 2009.
empresas; existência de diferença entre os salários
dos operários de cada cidade; segmentação do

664 REGE , São Paulo – SP, Brasil, v. 19, n. 4, p. 647-668, out./dez. 2012
“Jogando” Logística no Brasil

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