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IRMÃOS DE ARMAS

Cesar Campiani Maximiano e José Gonçalves

Capítulo 1 – Ombro, Armas!


Capítulo 2 – Para o Além Mar.
Capítulo 3 – Antes do Combate.
Capítulo 4 – As Primeiras Patrulhas.
Capítulo 5 – Contra-ataque Alemão.
Capítulo 6 – Inverno na Montanha.
Capítulo 7 – Sangue nos Fox-holes.
Capítulo 8 – De Novo em Boscaccio.
Capítulo 9 – A Queda do Gigante.
Capítulo 10 – Fim de Guerra
Apêndices:
Fotografias
Relação dos integrantes do pelotão -
Dados relativos à FEB
Fontes consultadas
Bibliografia
Ficha técnica

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Dedicatória
Dedico este livro aos meus soldados, pessoas de origem humilde que
lutaram com bravura e honraram o Exército Brasileiro.
Quero homenagear os oficiais R/2 oriundos do CPOR que levaram para
o Exército uma nova maneira de comandar (pelo exemplo e menos
autoritária) e que na hora do combate nada ficaram a dever aos seus colegas
oriundos da Academia Militar.
Gostaria também de fazer justiça à brilhante participação do 6º R.I. na
Campanha da Itália, que foi o responsável pela maior conquista da FEB: o
aprisionamento da 148ª Divisão Alemã (16.000 homens, inclusive dois
generais), fato que contribuiu decisivamente para o término da guerra na Itália
e que jamais teve o reconhecimento merecido.
Por último, destaco o comportamento de toda a tropa brasileira que,
com seu jeito simples e humano, conquistou a amizade e a admiração da
população dos lugares onde o Exército Brasileiro combateu.
Passados sessenta anos do término da II Guerra Mundial, qualquer
brasileiro que visitar esta região será recebido com enorme carinho pelas
pessoas que viveram aqueles momentos e pelos seus descendentes.

José Gonçalves

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Apresentação

Eu havia deixado para trás o local onde a tropa brasileira havia


estabelecido suas posições. Encontrava-me no sopé da linha de alturas
ocupada pelos alemães.
Não corria mais nenhum perigo naquele momento: era maio do ano de
2000, um dia ensolarado e a vegetação cobria as encostas outrora pontilhadas
de buracos de granadas e armadilhas mortais. Estava frustrado por não
conseguir identificar precisamente a posição de Boscaccio, de quem tanto eu
ouvira falar da parte de meus amigos José Gonçalves, Vicente Gratagliano,
Armando Ferreira, Epapharol Silveira e tantos outros.
No começo do barranco que beirava a estrada, um senhor acompanhado
de um cão dava tratos à tarefa de cortar feno. Os dois eram únicos seres que
eu havia encontrado depois de horas de caminhada morro acima. Pela idade,
era óbvio que o homem certamente passara pela guerra.
Desanimado com a procura do ponto exato, dei-lhes bom dia e
perguntei, para amenizar minha insatisfação com a possibilidade de ter
viajado dez mil quilômetros e ter de voltar para casa sem ao menos fotografar
o local exato que tanto assombrava a memória de meus amigos:
-O senhor conhece o Tenente Gonçalves, de São Paulo?
-Il Tenente Gonçalves! Claro que conheço – exclamou o homem.
Meu queixo caiu. Eu estava próximo ao ponto que procurava.
Naquele momento eu não sabia, mas estava falando com Mario,
conhecido pelos veteranos como Mario de Boscaccio. Cinquenta e cinco anos
haviam se passado. Mario ainda habitava a mesma casa, com sua esposa.
Aquele dia era o aniversário de 89 anos de Mario. Ele estava a centenas
de metros de distância de sua sólida habitação de rochas, situada morro acima
e isolada de qualquer contato mais próximo da tímida urbanização que até
hoje foi incapaz de incomodar o sossego dos antigos campos de batalha da
FEB.
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Mario se lembrava de vários dos ex-combatentes brasileiros que
conhecera no inverno de 1944-45. Gonçalves ainda costumava visitá-lo
anualmente, desde que começara a viajar à Itália no pós-guerra, a partir de
1966.
Naquele dia voltei feliz para o hotel. Depois de uma obrigatória parada
em seu rústico casarão de pedras para conhecer sua esposa e alguns copos de
vinho, Mario me fornecera as indicações precisas para alcançar as antigas
posições de Boscaccio. Na localidade, os vestígios da guerra eram amplos. Os
velhos fox-holes de Gonçalves e seus homens ainda podiam ser facilmente
delineados no terreno. O velho barracão de dentro do qual Gonçalves vira a
patrulha alemã vinda do Soprassasso se aproximar sobre a neve continuava de
pé. Não foi nem mesmo difícil encontrar cartuchos de fuzil e várias latas de
ração C americana, ainda espalhadas sobre o solo e lentamente se
decompondo. Curioso como a guerra ainda desejava vociferar sua presença,
tantos anos depois.
Gonçalves fazia parte de um grupo bem maior de veteranos da Força
Expedicionária Brasileira. Seu grupo básico de companheiros de campanha
era bastante coeso, e no pós-guerra estreitou amizade com veteranos de outras
subunidades de seu próprio regimento e de outras unidades expedicionárias.
Um dos amigos mais próximos de José Gonçalves foi Gérson Machado Pires,
oficial de carreira da arma de Infantaria e comandante de um pelotão de
fuzileiros do III Batalhão do Sexto. Os dois nunca se conheceram durante a
guerra, mas seus itinerários se cruzaram em alguns momentos da campanha.
A edição original deste livro foi publicada em 2005 e nem Gonçalves nem
Gérson chegaram a vê-lo concluído. Estou certo de que Gonçalves não se
incomodaria com algumas inserções adicionais em relação à edição original,
tratando de algumas das ações em que Gérson se viu envolvido nos combates.
Este livro foi baseado principalmente no diário que José Gonçalves
redigiu durante a campanha. Suas memórias escritas foram completadas com
uma série de depoimentos, colhidos com o próprio comandante do pelotão e
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vários veteranos ainda remanescentes, durante o ano de 2002. A bibliografia
mais recente sobre a história da FEB, das tropas Aliadas e das unidades
inimigas enfrentadas também serviu de subsídio para completar, corrigir e
elaborar pontos menos conhecidos de alguns dos episódios narrados no livro.
Agradeço ao meu amigo José Gonçalves por ter idealizado este livro e
ter me concedido a honra e a confiança de ser o coautor da narrativa sobre o
pelotão de fuzileiros que liderou na II Guerra Mundial. Obrigado a Paulo
Gonçalves, por ter gentilmente concordado, de imediato, em que eu
produzisse esta versão digital da obra originalmente impressa em 2005.
Eu voltaria a Boscaccio três anos depois de minha primeira visita,
acompanhado de Gonçalves e outros veteranos da FEB. Vi-os encarando o
Soprassasso imenso, que os encarou de volta, menos ameaçador, mas de
forma imponente.
Aquela história merecia ser contada.

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IRMÃOS DE ARMAS

Capítulo 1: Ombro, Armas!

Eles chegavam pela estação ferroviária de Caçapava. Vinham de todos


os pontos do Estado de São Paulo. Desciam da composição e venciam a
pequena distância até o quartel na caminhada.
Alguns já eram soldados. Outros tinham acabado de receber a notícia
da convocação. Eram, em sua maioria, jovens de origens humildes, gente que
estava acostumada a trabalhar duro para sobreviver. Na vida civil, suas
profissões eram as mais variadas. Operários, lavradores, estudantes,
empregados do comércio e funcionários públicos, entre outros, iriam trocar
suas vestimentas paisanas por uniformes verde oliva.
Dia a dia, o efetivo do 6o Regimento de Infantaria aumentava. A
unidade fora designada para compor a 1a Divisão de Infantaria
Expedicionária, que iria dar aos alemães e italianos uma resposta aos ataques
de submarinos contra os navios brasileiros.
***
Voltemos a alguns anos antes da chegada dos convocados aos quartéis
brasileiros.
Em 1939, explodia a guerra na Europa.
A Alemanha, numa rapidez incrível, avançara sobre a Polônia. Ao redor
do planeta, desde o fim da sangrenta revolução espanhola era possível intuir a
breve eclosão de um conflito de grandes proporções. A guerra que estourava
vinha sendo germinada desde 1918.
A herança da I Guerra Mundial pusera o planeta num estado de
turbulência.
Revoluções, crise financeira internacional e conflitos localizados
pontilharam os anos 30. O crash da bolsa de 1929 havia atirado os países
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capitalistas em profunda depressão econômica. A Alemanha, que teve seu
poderio militar e industrial dilacerado com a imposição do Tratado de
Versailles após o fim da I Guerra Mundial, viabilizava a saída para sua
complicada situação com a escolha Hitler para o cargo de chanceler, que em
1933 rapidamente tratou de se empossar como Führer da nação alemã tão
cedo faleceu o chanceler Hindenburg. Mussolini liderava a Itália desde o
golpe fascista de 1922. No extremo oriente, o imperialismo japonês promovia
a invasão da China demonstrando seus intentos expansionistas. A União
Soviética, relativamente isolada do resto do mundo, tentava se recuperar da
destruição causada pela I Guerra e pela Revolução de Outubro de 1917.
Legiões de desempregados vagavam pelos Estados Unidos em busca de
oportunidades. Na África, Mussolini procurava delirantemente restabelecer o
vasto império romano atacando covardemente as tribos da Abissínia, com o
uso de armas químicas contra a população civil.
Enquanto isso, o Brasil evitava sofrer os efeitos colaterais mais graves
da depressão financeira com a política de substituição de importações e
compra de excedentes de café, recursos para impedir a queda demasiada do
preço do produto. Mas enquanto tentava salvar a economia do país, Vargas
empreendia o fechamento de seu regime por meio de um aparato legal e
institucional muito semelhante ao de alguns países fascistas. Esse processo
culminou com um golpe de estado em 1937 e que até 1945 compreendeu o
período do Estado Novo.
Um malfazejo prelúdio do que estava por vir em breve pôde ser
observado na Espanha republicana: o general Francisco Franco, apoiado
abertamente pela Alemanha de Hitler e pela Itália de Mussolini, se
insurrecionou contra um governo eleito por sufrágio universal, dando início a
um cruento conflito que durou entre 1936 e 1939. A Guerra Civil Espanhola
serviu como uma breve amostra da destruição causada por uma guerra
moderna, com a utilização de aviação em massa, carros de combate e a
propaganda política como arma, adicionada de total indiferença quanto às
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conseqüências da guerra para a população civil. Uma das mais famosas
pinturas do século XX, Guernica, de Pablo Picasso, retrata o sofrimento dos
civis indefesos sob um bombardeio aéreo nazi-fascista. Em comum com a II
Guerra Mundial, a guerra da Espanha teve o embate entre duas ideologias
antagônicas como fator preponderante.
O Nazismo teve seu período de gestação na Alemanha logo após 1918.
Veteranos das trincheiras, inconformados com a derrota na I Guerra, que
julgavam ser obra de sabotagem interna maquinada por judeus, centralizaram
suas tendências políticas de extrema direita em torno do Partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães – ou de forma abreviada, Partido
Nazista. Propostas como a supremacia racial alemã, a intrínseca inferioridade
étnica e cultural de povos como latinos, negros e eslavos, a necessidade do
“espaço vital” para a Alemanha, a negação dos direitos de expressão, religião
e pensamento eram apregoadas pelos nazistas. Ademais, a função daqueles
que os nazistas consideravam “subumanos” seria a de mão de obra escrava
para a presumível “super raça” germânica.
A favor do povo alemão pode ser dito que a resistência ao nazismo foi
duramente reprimida. A existência de partidos nazi-fascistas não foi
exclusividade da Alemanha: organizações do gênero existiam na maioria dos
países, inclusive o Brasil, e eram especialmente fortes na França e Inglaterra.
Hitler considerava que a Alemanha merecia reparações pela
humilhação a que havia sido submetida em 1918. Entre o que pleiteavam os
nazistas, estava a reintegração de territórios perdidos para nações da Europa
oriental e a restauração de áreas que, segundo os nazistas, historicamente
pertenciam à Alemanha, como a região dos Sudetos na Checoslováquia, a
Alsácia e a Áustria, que foram anexadas ao território alemão em 1938.
A desonestidade da política externa nazista ludibriou todas as tentativas
de manutenção da paz almejadas pelas nações ocidentais nas mesas de
negociações.

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Em acordo prévio com a União Soviética, Hitler e Stalin invadiram e
dividiram a Polônia em setembro de 1939. Honrando os compromissos
assumidos de se opor ao nazismo, França e Inglaterra entraram em guerra
com a Alemanha.
Para duas nações que viviam sob regimes totalitários antagônicos como
a União Soviética e Alemanha, entrar em guerra era questão de tempo. Hitler
desencadeou a Operação Barbarossa em 22 de junho de 1941, rompendo o
pacto de não agressão URSS/Alemanha assinado por Ribbentropp e Molotov
em 1940.
O Japão, continuando seus planos de supremacia no continente asiático
e Oceano Pacífico, atacou traiçoeiramente a base americana de Pearl Harbor
no Havaí em 7 de dezembro de 1941, trazendo para a guerra os Estados
Unidos, país que começava a se restaurar dos efeitos da crise de 29 com o
New Deal de Roosevelt. O mundo vivia novamente uma guerra de proporções
globais.
Houve quem duvidasse que o Brasil entraria para valer na guerra. As
lideranças do país não tinham uma posição clara a respeito de qual lado iriam
apoiar no conflito.
Embora a tendência favorável à Alemanha Nazista fosse evidente no
Brasil de fins dos anos 30, os Estados Unidos estavam atentos para os
caminhos trilhados pelo governo de Vargas. Além do país de ser uma
importante fonte de materiais estratégicos (principalmente borracha), o
nordeste brasileiro era ponto vital para o controle das vias de abastecimento
aéreo e para o controle do Atlântico Sul, rota de comboios navais que supriam
a demanda de tais materiais. No início da guerra, era temida a invasão do
continente americano a partir do nordeste brasileiro, ponto mais próximo em
relação à África do Norte, e que poderia servir de cabeça de ponte para um
desembarque alemão.
Vargas tomou máximo proveito da posição que o Brasil oferecia: como
o país era motivo de grande interesse tanto da Alemanha como dos Estados
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Unidos, obteve o que pôde dos dois países em termos de importações e
exportações, até o ponto em que o desenrolar da guerra permitiu. O projeto de
governo do Estado Novo, além de outros pontos, consistia no
reaparelhamento e modernização das Forças Armadas, no incremento da
capacidade industrial da nação e no estabelecimento de uma condição que
capacitasse o Brasil como país líder da América do Sul, projetando seu poder
numa maior área de influência.
Os americanos investiram pesadamente na aproximação com o Brasil,
mas principalmente pela proximidade com os Estados Unidos e pelos tratados
de solidariedade continental, a entrada do Brasil no rol dos países aliados foi
uma conseqüência inevitável do estágio em que a guerra havia chegado.
Na verdade, a decisão em prol da causa aliada já havia sido colocada
em prática informalmente: mesmo antes da declaração de guerra, o Brasil
permitia aos Estados Unidos o uso de suas bases no saliente nordestino e
fornecia materiais vitais para a indústria bélica americana.
Com a mobilização do Exército, a intenção era de aumento do efetivo,
visando uma defesa adequada do país e a eventual formação de um
contingente para combater no além mar, vingando os ataques de submarinos
alemães e italianos que impossibilitavam a navegação de cabotagem e o envio
de matérias primas aos países aliados.
Além da oportunidade de modernização do Exército com o material
recebido dos americanos, a participação de um contigente brasileiro nos
combates na Europa faria surgir um núcleo de veteranos experimentados em
ação, para o treinamento do grosso do Exército no pós guerra e alçaria o
Brasil a uma posição de maior relevância internacional.
A Marinha Alemã empreendia uma violenta campanha de submarinos
no Atlântico Sul, para torpedear embarcações que se acreditava estarem
suprindo os aliados ou que o faziam de fato. Algumas dezenas de navios
brasileiros foram perdidos nas investidas de submarinos italianos e alemães.
Há diversos registros alemães da autoria de tais torpedeamentos, embora a
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propaganda Quinta Colunista tenha propagado que os submarinos
responsáveis pelos afundamentos teriam sido americanos – um recurso para
evitar a decisão a favor dos aliados. Informação e desinformação são armas
importantes em tempo de guerra.
O Brasil aliara-se às nações democráticas para combater o totalitarismo
nazi-fascista. Mesmo então, muitos membros da Força Expedicionária
Brasileira perguntavam-se sobre o sentido de defender a democracia no além
mar uma vez que em seu próprio país não existia liberdade política.
A II Guerra Mundial já se apresentava uma realidade muito próxima
dos brasileiros desde o início da década de 1940. A Marinha e a recém criada
Força Aérea já participavam dos combates contra as flotilhas de submarinos
do Eixo nas costas do Brasil, ao lado da Força Aérea do Exército dos Estados
Unidos.
***
Era 1943, e na altura em que a maior parte dos convocados chegava
para completar os efetivos das unidades expedicionárias, o Brasil ultimava os
preparativos de envio da FEB para combater na Europa.
Mobilizadas as forças armadas, jovens de todo o Brasil eram
convocados para se apresentar nas circunscrições militares de suas regiões.
As baixas dos soldados que estavam servindo o Exército haviam sido
canceladas desde 1942, quando o país, depois de extensivas negociações com
os Estados Unidos e de consecutivos torpedeamentos de navios no litoral,
havia inicialmente rompido as relações diplomáticas com a Itália e Alemanha
e no dia 22 de agosto do mesmo ano, declarado o estado de beligerância.
De início, o governo do Brasil tinha se proposto a organização de um
Corpo Expedicionário, composto por três divisões de infantaria e uma divisão
blindada. As dificuldades de organização de um contigente de tais dimensões
resultaram no envio de somente uma das divisões ao teatro de operações. A
unidade escolhida foi a 1a Divisão de Infantaria Expedicionária, composta dos
seguintes elementos:
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Infantaria – Comando e Estado Maior-Cmte. Gen. Euclides Zenóbio da
Costa.
1o R.I. (Regimento Sampaio) – Vila Militar – RJ.
6o R.I. – Caçapava – SP.
11o R.I. – São João Del Rey – MG

Artilharia – Comando e Estado Maior-Cmte. Gen. Oswaldo Cordeiro de


Faria.
1o, 2o e 4o Grupos de Obuses Auto-Rebocados do Rio.
3o Grupo de Obuses Auto-Rebocados de Quitaúna, São Paulo.
1o Grupo de Artilharia Pesada Curta, do Rio.

Engenharia – 9o Batalhão de Engenharia de Aquidauana, de Mato


Grosso.

Saúde – 1o Batalhão de Saúde, do Rio e São Paulo.

Tropa Especial – Cia. do Quartel General, Cia. de Manutenção Leve,


Cia. de Transmissões, Cia. de Intendência, Pelotão de Polícia e Banda de
Música.

Em 1943, após a escolha dos três regimentos de infantaria que


formariam a Força Expedicionária Brasileira, os primeiros praças e conscritos
começavam a se apresentar, ao lado dos oficiais e graduados enquadrados nas
unidades expedicionárias.
Mas o Exército Brasileiro não se encontrava adequadamente preparado
para organizar uma expedição à Europa. Os poucos oficiais e graduados com
experiência de combate tinham lutado pela última vez em 1932. A instrução
do Exército era baseada na doutrina militar francesa de 1914, já de muito
tempo ultrapassada em alguns aspectos e não adequadamente enraizada no
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treinamento dos soldados. Um problema adicional foi reunir homens em
quantidade suficiente para preencher os quadros da Força Expedicionária.
Naquele tempo, a seleção para o serviço militar era feita por sorteio.
Por exemplo, o soldado Artemiro Botossi foi sorteado em 1941, e permaneceu
no Exército até retornar da Força Expedicionária Brasileira. Para Botossi, a
situação era resolvida de maneira muito simples: “fazer o quê? A gente tem
que agüentar tudo o que vier, não é?”
A partir de 1942, milhares de reservistas foram reconvocados para o
Exército, com a intensificação da mobilização militar em escala nacional.
Havia falta aguda de oficiais como capitães e tenentes.
Para o problema da escassez de oficiais combatentes, a solução foi
engajar um grande número de oficiais oriundos dos Centros de Preparação de
Oficiais da Reserva, que preencheram as vagas nos três regimentos de
infantaria em proporção considerável, fazendo com que o papel destes oficiais
fosse de primordial importância na preparação dos quadros de tropa.
Algumas dezenas de oficiais do CPOR, advindos das mais variadas
profissões na vida civil, seguiam para servir no I Batalhão do 6 o R.I., unidade
para a qual haviam sido designados desde fins de 1942: havia médicos,
advogados, arquitetos, engenheiros e professores, que deixavam seus lares
para preencher vagas como comandantes de pelotões de infantaria no quartel
de Caçapava.
O rápido entrosamento e denodo na execução das tarefas provou
cabalmente que os oficiais R/2 desempenhariam seu papel a contento. Após
pouco tempo de serviço nas unidades expedicionárias, tornava-se difícil
distinguir quem era da reserva ou da ativa. Como nos demais batalhões do 6 o
Regimento de Infantaria aquele grupo de “pica-fumos” nutria um apurado
espírito de corpo. Dedicavam-se de corpo e alma às tarefas de preparação da
tropa, procurando através do desvelo com o treinamento, aprontarem-se para
as duríssimas provações do combate. Formava-se um ambiente de

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camaradagem que era insuperável em comparação com qualquer das outras
unidades em que aqueles homens haviam servido.
Um dos oficiais do I Batalhão desenvolvera de imediato fortes laços de
companheirismo com o grupo dos oficiais R/2: o 1 o tenente José Maria Pinto
Duarte, natural do Distrito Federal. Era um oficial que impunha respeito, tanto
pelo porte físico avantajado e postura marcial, como pelo entusiasmo com a
profissão, embora às vezes se mostrasse um tanto severo com a tropa. Pinto
Duarte comandava o 1o Pelotão de Metralhadoras da Companhia de Petrechos
Pesados do I Batalhão, unidade que nos combates, viria em apoio dos pelotões
de fuzileiros com suas metralhadoras pesadas refrigeradas a água ponto 30
1917 A1, as poderosíssimas M2 Browning ponto 50, e os morteiros mais
pesados de 81mm. Duarte costumava dizer que desejava ir para a guerra e
retornar como instrutor da Escola Militar. Uma vez na Escola, pretendia
ensinar aos cadetes coisas que não lhe haviam sido ensinadas, e deixar de
ensinar o que lhe haviam ensinado. Duarte era considerado um oficial
perfeito. Era excelente nos treinos de educação física e demonstrava soberbo
manejo de seus soldados no comando de seu pelotão. Nas competições
esportivas da 2a Região Militar, o 6o R.I. se distinguia vencendo as provas
graças às habilidades atléticas de Pinto Duarte. Transmitia a todos completa
certeza e segurança de que iria se portar com distinção nos combates.
Na verdade, a combinação de convocados e profissionais das armas nas
fileiras rendeu um resultado interessante, que acabou por moldar uma
identidade singular nas unidades expedicionárias: o profissionalismo dos
jovens tenentes influenciou os oficiais da reserva, que por sua vez
modificaram as maneiras usuais de trato com os praças então vigentes no
Exército Brasileiro.
Cada uma das companhias do 6o Regimento de Infantaria recebeu sua
parcela de novos oficiais que chegavam para completar o efetivo de guerra
regimental. A maioria dos expedicionários paulistas serviu no regimento


Apelido dado aos tenentes de Infantaria.
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sediado em Cacapava, cidade situada no Vale do Paraíba, estado de São
Paulo.
Na 1a Companhia, comandada pelo capitão Alberto Tavares da Silva, o
1o Pelotão de Fuzileiros ficou a cargo do 1o tenente R/2 José Gonçalves. O 2o
Pelotão tinha à sua frente o 2o tenente Murilo Victor Halbout Carrão, oficial
de carreira. O comandante do 3o Pelotão era o 2o tenente R/1 Manoel Barbosa
da Silva, militar antigo que tinha sentado praça e ascendido ao oficialato.
Chefiando o Pelotão de Petrechos da 1a Companhia estava o 1o tenente
Benedito Félix de Souza, também formado na Escola Militar do Realengo. O
subcomandante da companhia era o 1o tenente Ignacio de Oliveira. Nas outras
companhias do Sexto havia uma distribuição similar do comando dos pelotões
entre os oficiais R/2 e os militares da ativa.
Para a preparação da tropa, foi necessário partir quase que da estaca
zero: convocar e inspecionar milhares de recrutas para completar o efetivo de
guerra do regimento, atualizar a instrução e finalizar a formação da unidade
de acordo com as orientações americanas, que o Brasil adotara.
Na vida militar, não se considera se um oficial é da reserva ou da ativa.
A incumbência dos tenentes, tanto convocados como os de carreira, foi
árdua: era necessário aprender rápido, principalmente com iniciativa e afinco
pessoais, para transmitir os novos ensinamentos aos soldados que deveriam
seguir para os campos de batalha.
Para dar a instrução dos dias seguintes, os tenentes punham-se a estudar
a partir de manuais que ainda datavam dos tempos da Missão Militar Francesa
ao Brasil.
Como os demais batalhões dos regimentos expedicionários, desde o
início do convívio no quartel, o I/6o R.I. gerou um arraigado espírito de corpo
que irmanava suas quatro companhias. Na organização americana, o efetivo
de batalhão consistia em uma unidade que podia operar de forma quase
independente, e havia uma competição saudável entre os demais batalhões do
regimento a fim de saber qual se sairia melhor em combate. No papel, um
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batalhão de infantaria de tipo americano totalizava 871 homens, mas essa
quantidade raramente era mantida durante o emprego em linha.
Uma vez que o aquartelamento de Caçapava não era suficiente para
alojar o regimento em efetivo de guerra, o comando optou por distribuir a
unidade por três cidades: Estado-maior e II Batalhão se encontravam em
Caçapava, o I Batalhão em Taubaté e o III em Pindamonhagaba. Assim sendo
o treinamento do 6o Regimento de Infantaria não pôde ser desempenhado com
toda a unidade realizando exercícios táticos em maior escala, com a
coordenação do comando e ligações entre todas suas companhias de
fuzileiros.
Em Taubaté, o I Batalhão do 6o se alojou num velho barracão
transformado em quartel, conhecido como “Casa da Laranja”, lugar
desconfortável e improvisado.
O então comandante do I Batalhão, major Celso Lobo de Oliveira,
residia na mesma república onde haviam se alojado os oficiais da reserva,
aderindo ao grupo e incentivando-os no empenho para a preparação do 6 o
Regimento. Habitando as mesmas instalações (o famoso “505” da 15 de
Novembro em Taubaté), estavam Demócrito Cavalcanti de Arruda e Roger de
Carvalho Mange, advogados na vida civil; Massaki Udihara, Werhter Pinto,
Mendes Leite e José Alfio Piason, médicos; e Eurípedes Simões de Paula,
historiador. Compartilhavam ainda as instalações os tenentes Irany de
Oliveira e Almenor Pereira Guimarães. Eram visitados com freqüência por
Pinto Duarte, que posteriormente viria a dividir o endereço com os
companheiros. O grupo conservaria a amizade por décadas após a guerra,
sempre lembrando com saudades dos meses vividos em Taubaté.
Lobo acabou sendo substituído no comando do I Batalhão. Fora vítima
de um acidente de equitação na Escola Militar e tinha placas de platina
alojadas na cabeça. Temia-se que a campanha pudesse agravar seu estado de
saúde. Extremamente dedicado, o major Lobo era considerado um intelectual
por seus companheiros de caserna da reserva, com quem se desdobrava em
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prestatividade, facilitando sua adaptação à vida militar. Ávido leitor, Lobo
tinha uma visão diferenciada dos problemas do Exército e acreditava ser
necessário empreender uma série de mudanças relativas à organização da
Força.
Numa daquelas jornadas de serviço, o tenente Gonçalves estava como
oficial de dia em Taubaté. Calhou que um soldado da CPP I, comandada pelo
capitão Atratino Cortes Coutinho, apareceu embriagado no quartel. Era um
sujeito forte e parrudo. Armou briga dentro da Casa da Laranja, e estava
destroçando as camas do alojamento. A guarda sozinha não foi capaz de
segurar o soldado. No meio da madrugada, acordaram Gonçalves, que com
muito tato, conseguiu apaziguar o homem: “volte para sua cama, amanhã é
outro dia”. E assim o soldado, aparentemente acalmado, deitou-se em seu
leito.
Pouco antes do alvorecer, soldados correm novamente para o oficial de
dia: “tenente, o homem está lá, quebrando tudo de novo”.
“Chamem a guarda”.
Dentro da Casa da Laranja, quatro soldados montados sobre o
arruaceiro não conseguiam imobilizá-lo. O homem esperneava e xingava,
arrastando consigo os outros na contenda. Nesse ponto, a paciência dos
presentes se esgotou, e o ferrabrás acabou levando algumas traulitadas de seus
colegas. Foi necessário amarrar o homem e submetê-lo a um banho de
chuveiro frio na madrugada. A operação não estava no regulamento, mas foi a
solução mais adequada ao momento.
No dia seguinte, frente ao comandante do batalhão, Gonçalves se
apresentava, relatando as alterações ocorridas na noite. Já inseridos no
ambiente expedicionário, a camaradagem da república não interferia na
manutenção da disciplina e obrigações corriqueiras da vida militar. Quando
em serviço, a costumeira deferência da cortesia militar era sempre respeitada.
Gonçalves reportou o vandalismo no alojamento, o entrevero com a guarda e

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as providências tomadas. Estava receoso das implicações do procedimento
adotado para apaziguar o desordeiro, que não estavam no regulamento.
Lobo começou a esboçar um sorriso, dizendo: “serviço sem alteração!”
Apesar da devoção ao regimento, o major Lobo acabou sendo
destituído do comando do I Batalhão. Durante uma manobra, um general lhe
perguntou sobre o curso de uma situação. Lobo emitiu a resposta: “se o
senhor não sabe, eu menos ainda”.
Lobo perdeu o comando imediatamente, o que foi motivo de
lamentação entre os demais oficiais da unidade. Mas o I Batalhão acabou
recebendo um substituto à sua altura na pessoa do major João Carlos Gross.
Coincidentemente, Gonçalves e Gross já se conheciam desde os idos da
Revolução de 1932. Pertenciam à categoria dos poucos oficiais
expedicionários que possuíam experiência prática em combates. O tenente
Eurípedes Simões de Paula, comandante de um pelotão de morteiros da CPP I
era outro dos veteranos de 32 no 6o R.I.
Os anos de 1931 e 1932 foram particularmente difíceis para a
manutenção de Vargas no poder. O presidente havia alcançado o cargo pela
Revolução de 1930, deflagrada para reverter o cenário político nacional da
República Velha.
Desde os primeiros anos do Século XX, as oligarquias produtoras de
café e laticínios dos estados de São Paulo e Minas Gerais alternavam seus
candidatos na presidência do Brasil – prática que se tornaria conhecida como
“política do café com leite”. Os presidentes eram escolhidos a partir dos
governadores desses dois estados, em eleições que tinham a apuração de votos
duvidosa, além do que, naquele tempo, apenas os homens alfabetizados
tinham o direito de votar. Mulheres e analfabetos, que à época consistiam em
grande parte da população brasileira, ficavam totalmente excluídos do
processo político nacional.
Entrava mandato e saía mandato, paulistas e mineiros invariavelmente
se sucediam na presidência do Brasil.
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Um setor em especial da sociedade brasileira manifestou seu
descontentamento com essa situação pela via das armas: era um grupo de
jovens oficiais do Exército, que se notabilizou pelo nome de Tenentes, já que
os membros do movimento provinham em sua maioria dos postos de oficiais
subalternos do Exército. Embora o movimento tenha crescido de forma súbita,
seu componente ideológico nunca foi claramente definido. Os Tenentes eram
jovens oficiais de vários matizes de pensamento político diferentes que
tinham em comum a ambição de transformar o país.
Alguns episódios promovidos pelos tenentistas causaram particular
turbulência no Brasil dos anos 20 e 30. Os mais conhecidos são a célebre
revolta do Forte de Copacabana, em 1922, e a Revolta Tenentista de 1924 em
São Paulo. Um historiador foi feliz ao definir os tenentistas como pessoas que
não sabiam o que queriam, mas que tinham apurada noção do que não
desejavam: a continuação da condução dos destinos do país sob o mando das
oligarquias rurais, que consideravam fator de estagnação do desenvolvimento
industrial e econômico e principal motivo do acirrado regime discricionário.
Apesar do relativo atraso do país em relação a São Paulo, esse estado e sua
capital despontavam com seu incipiente desenvolvimento econômico,
movimentos de caráter social e agitada vida cultural, consolidando sua
posição como centro de referência que influenciava uma variedade de
acontecimentos da vida nacional.
As revoltas tenentistas ocorridas na década de 20 foram drasticamente
sufocadas pelo governo federal. A cidade de São Paulo foi bombardeada por
peças de artilharia pesada e aviação do governo de Artur Bernardes na revolta
liderada pelo general Isidoro Dias Lopes em 1924, que acabou destruindo
grande parte dos bairros do Pari, Cambuci, Brás, Móoca e Campos Elíseos e
matando indiscriminadamente centenas de civis. Parte do grupo de revoltosos
fugiu para o sul do país sob o comando e juntando-se ao contingente de Luís
Carlos Prestes, capitão do Exército e líder tenentista, dando origem à famosa

19
marcha da “Coluna Invicta”. Mesmo com a derrota do movimento de 1924, os
tenentistas ainda iriam desempenhar papéis importantes nos rumos do Brasil.
Em 1930, o candidato apontado pelos paulistas para a sucessão do
presidente Washington Luís era o paulista Júlio Prestes, subvertendo o acordo
de sucessão entre os estados. O candidato da oposição era o gaúcho Getúlio
Vargas, representante da elite agrária de seu estado de origem, que
encabeçava a chapa da Aliança Liberal, partido organizado em torno das
lideranças de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Júlio Prestes venceu
a eleição em meio a acusações de fraude eleitoral partidas da Aliança Liberal.
O estopim da revolução foi o assassinato do candidato a vice-presidente
da oposição João Pessoa em Recife, no dia 26 de julho de 1930. Embora
aparentemente a morte de João Pessoa não tenha nenhuma relação com a
sucessão presidencial – ele foi mais provavelmente assassinado em virtude de
uma desavença pessoal com opositores da região – o assassino estava ligado
ao grupo que apoiava Washington Luís.
Com o amparo de lideranças militares que se identificavam com os
ideais tenentistas, Vargas seguiu de trem desde o Rio Grande do Sul até o
então Distrito Federal do Rio de Janeiro. O pretexto para o desencadeamento
da revolta foi a morte de João Pessoa.
A Revolução de 30 seria o suposto ponto de partida para a renovação
do sistema político nacional, visando principalmente impulsionar a
modernização do Brasil. Para termos um exemplo, durante a década de 1920,
70% da força de trabalho nacional estava no setor rural. A grande maioria dos
bens manufaturados provinha do exterior, sendo o Brasil quase que
exclusivamente uma fonte de produtos agrícolas. Havia grande clamor social
pelo melhoramento das condições de vida no campo e cidades, tema que
tornaria Washington Luís célebre por considerá-lo “assunto de polícia”.
Entretanto, o movimento de 3 de outubro de 1930 nunca foi tido como
legítimo pelos paulistas que haviam perdido a supremacia do poder após a
deposição de Washington Luís. Vargas assumiu o comando do chamado
20
“Governo Provisório” que acabaria por se desdobrar em regime presidencial e
Estado Novo, durando no total quinze anos, uma longa ditadura que precedeu
e sobreviveu ao III Reich. O discurso empregado por Vargas para justificar o
golpe de estado de 1930, como a pretensão de ampliar a participação política
e melhoria de condições sociais não teve vazão prática.
O estado de São Paulo rejeitava os interventores federais, nomeados
pelo presidente, que acabou sucumbindo aos protestos e indicando um
paulista, Pedro de Toledo, para governador do estado. Manifestações
populares contra o governo federal eram freqüentes. Antevendo
complicações, o Exército havia retirado o grosso do armamento dos arsenais
localizados em São Paulo. A centelha que incendiou o início do movimento
armado no ano de 1932 foi a morte de quatro jovens manifestantes no dia 23
de maio: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, cujas iniciais deram origem
à sigla MMDC, organização de apoio aos revolucionários paulistas.
Com a declaração do movimento armado a 9 de julho de 1932,
unidades da Força Pública, batalhões de voluntários e parte do Exército que
havia decidido apoiar a causa paulista seguiram para as frentes de luta.
Paris Belfort, a marcial marcha militar francesa, ressonava pelas rádios
paulistas anunciando o chamado às armas.
A contenda, entretanto, foi desigual. Apesar de o número de voluntários
para as frentes de combate ter sido grande, São Paulo conseguiu mobilizar
cerca de 100.000 homens, devido à escassez de armamento e todo tipo de
material de guerra. A Marinha Brasileira bloqueava os portos do estado,
impedindo a entrada de armamentos e todo tipo de abastecimento necessário
para a manutenção das linhas de frente. Alimentos começaram a se tornar
itens escassos, de alto preço.
A luta foi breve, porém encarniçada. O estado de São Paulo tentou
compensar a insuficiência de material bélico por meio da capacidade
produtiva de suas indústrias: improvisaram-se carros de combate, trens
blindados, peças de artilharia e munição. Granadas de mão e capacetes de aço
21
foram projetados pela Escola Politécnica e fabricados pela indústria civil.
Mulheres paulistas costuravam uniformes e fabricavam explosivos. Aviadores
civis tiveram seus aparelhos armados de metralhadoras para fazer frente à
Aviação do Exército.
As interpretações dadas ao movimento de 1932 são bastante
contraditórias. Os paulistas alegavam a luta pela elaboração de uma
constituição – outro dos nomes pelo qual o movimento tornou-se conhecido é
“Revolução Constitucionalista”. Os partidários de Vargas e parte dos
historiadores consideram o episódio como uma mera tentativa desesperada de
reivindicação do poder das elites que haviam sido preteridas em 1930.
Qualquer que seja a versão mais próxima da verdade, uma característica da
Revolução de 32 é inegável: a maciça e ampla participação popular ao
movimento. Milhares de jovens acorreram aos postos de alistamento imbuídos
de idealismo sincero, acreditando tomar parte de um evento que iria colaborar
para a melhoria geral das condições do país, ao pretender o restabelecimento
do regime democrático.
Foi assim que o jovem José Gonçalves, aluno de 20 anos do segundo
ano do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, se encontrou arvorado
ao posto de 2o sargento de Infantaria.
Como inúmeros de seus contemporâneos que serviam o Exército,
Gonçalves foi convocado para um batalhão de voluntários: o 10o BCR, a
última unidade a partir do quartel do 4o Regimento de Infantaria sediado em
Quitaúna. Um dos oficiais era o 1o tenente João Carlos Gross, famoso na
ocasião pois, embora não fosse paulista, tinha vindo do Rio de Janeiro
atravessando as linhas por mar para bater-se pela causa de São Paulo.
Mesmo com a convocação, o 2o sargento Gonçalves estava disposto a
seguir para a linha de frente, motivado a vindicar a insolente forma pela qual
os soldados que participaram da Revolução de 30 haviam se comportado
durante a ocupação da cidade de São Paulo. Como aluno do CPOR, tinha a
oportunidade de concretizar uma de suas maiores aspirações. Vencera de
22
sobejo as contingências que sua modesta condição obstava para a
permanência no curso de oficial da reserva. Como os alunos deviam pagar
pelo próprio fardamento, fora excluído do curso, pois, embora trabalhasse e
estudasse, carecia de recursos para custear a confecção do uniforme junto a
um dos ateliês de alfaiataria militar. Mas as dificuldades não o demoveram de
seu propósito de um dia tornar-se oficial do Exército Brasileiro, e conseguiu
arduamente economizar o dinheiro necessário para a confecção de seu
dispendioso uniforme, o que lhe possibilitou a reinclusão no CPOR.
O 10o Batalhão de Caçadores da Reserva ficaria conhecido pelo nome
de “Coluna Adauto de Mello”, batizado com o nome de seu oficial
comandante.
Apesar de ser uma unidade regular do Exército, a organização do
batalhão foi bastante problemática, pois o 10o BCR formou-se com o
rebotalho indesejado de outras unidades. Muitos elementos causadores de
alterações foram enviados para completar o corpo de tropa. Eram excedentes
da formação de outros batalhões, homens recusados por oficiais que tudo
faziam para evitar a presença de soldados desordeiros e indisciplinados nas
fileiras sob seu comando. Coube a Gonçalves, na época aluno praticamente
sem experiência, o quinhão um tanto ingrato de manter sob seu controle um
grupo que inspirava pouca confiança.
Com vinte anos, aluno do 2o ano do CPOR, Gonçalves se viu no
comando de uma tropa organizada de maneira pouco ortodoxa. Sua função de
comando não era definida com precisão: não sabia se estava à frente de um
pelotão ou grupo de combate. A situação era enfrentada com receio: como
uma unidade de soldados com histórico de desordeiros reagiria quando
submetida a situações de tensão na linha de frente, como acataria as ordens de
seus superiores e como se portaria sob fogo? A composição da tropa era a
mais heterogênea possível: gente de todos tipos e idades, incluindo alguns
homens que se achavam em dívida com a lei, algo que procuravam saldar por
meio do serviço em linha de frente.
23
Não foi possível aos estados de São Paulo e Mato Grosso fazer frente
ao poderio dos contingentes de todas as unidades da federação que sitiavam as
fronteiras do território de onde havia partido o movimento de insurreição
contra Vargas. Fosse em combate, por desintegração ou desmoralização, as
unidades paulistas sucumbiam à frente dos bem armados e equipados
soldados legalistas.
Um problema freqüente durante a revolta foi o abastecimento dos
soldados constitucionalistas. Além da escassez de suprimentos, havia a
dificuldade de envio da pouca comida e munição existentes a um grande
número de soldados espalhados por vários setores da linha de frente, em
posições nem sempre bem estabelecidas nas cartas militares. Eram lugares
distantes das estradas, alcançados por picadas abertas na mata, na beira de rios
como o Paranapanema, onde não se chegava a não ser a pé ou no lombo de
cavalos e burros. Comida e munição, quando chegavam, eram recebidos como
se fossem preciosidades.
Na frente guarnecida pelo 10o BCR, algumas posições estavam
localizadas na contra encosta das elevações que visavam as linhas adversárias.
A chegada ou partida de qualquer soldado paulista era saudada com uma
rajada de metralhadora dos adversários. Balas zuniam por rente ao solo onde
Gonçalves e seus companheiros procuravam se abrigar nas vias de acesso às
trincheiras. O crepitar das armas inimigas era quase instantâneo em relação ao
ruído dos projéteis resvalando nas rochas que serviam de abrigo momentâneo
entre um ponto e outro do caminho.
Entre os silvos diários dos projéteis que passavam mais próximos, a
vida em tempo de revolução ia prosseguindo. Mas não sem que ocorressem
alguns acontecimentos já prenunciados pela incomum formação da tropa em
que Gonçalves servia.
Vez por outra, as posições paulistas eram sobrevoadas por um
“vermelhinho”, apelido dado aos aviões pilotados por legalistas. Os homens
mais indisciplinados pouca importância davam ao fato, sem se preocupar com
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a ocultação adequada que evitasse aos inimigos divisar a localização da tropa.
Ordens de se esconder no terreno eram respondidas por alguns soldados de
forma ameaçadora:
“Não grita comigo, hein? Olha lá que eu já levei dois...”
Não eram ameaças em vão. Em um caso, um dos sombrios avisos
emitidos por um dos soldados mais indisciplinados se fez concretizar.
Sentindo-se aviltado por haver sido repreendido por um sargento, um dos
soldados escondeu-se em um barracão de sapé, espreitando a passagem do
sargento seu desafeto. Sentado sobre a cama de tábuas no interior do barraco,
o soldado passou horas até poder enquadrar o sargento em sua pontaria. Isso
ocorreu precisamente no momento em que o sargento se encontrava entretido
em conversa com Gonçalves. No instante em que o sargento se encurvou para
alcançar um tição com a intenção de acender seu cachimbo, Gonçalves ouviu
o estampido do disparo.
Foi um tiro certeiro e mortal. Assistir a uma morte violenta é uma
experiência desagradável para qualquer pessoa. Neste caso, o fato foi ainda
mais chocante, por se tratar de um assassinato cometido à traição entre
militares que combatiam no mesmo lado, de forma covarde.
Mostrando idêntico calculismo com o qual havia planejado a tocaia, o
atirador saiu da barraca com o fuzil à mão, ainda fumegante. De pronto
admitiu a autoria do crime, justificando-o por não admitir que lhe dirigissem
gritos.
Coube a Gonçalves a incumbência de deter o criminoso e levá-lo à
autoridade superior. Naquele instante, isso significava o comandante da
companhia.
Foram encontrar o capitão nu da cintura para cima, lavando-se em uma
bacia. “Ele matou?” – perguntou o oficial – “então também vai morrer.”
O veredicto dado pelo capitão surpreendeu a todos. De forma
draconiana, o capitão decidiu resolver a questão imediatamente, determinando

25
o fuzilamento sumário do assassino. Gonçalves sentiu o chão desabar sob seus
pés. Custava a acreditar no desenrolar que os eventos estavam tomando.
Caído de joelho em prantos, o homem suplicava por misericórdia, com
a boca e os olhos espumando de horror. Apesar do mal estar geral causado
pela cena, o capitão não se abalou. Encarregou Gonçalves de preparar os
soldados para o grupo de tiro. Três se apresentaram voluntariamente. Os
outros quatro foi necessário escalar.
Gonçalves tomou o rumo de um grotão formado pela convergência de
algumas colinas, entre o posto de comando do capitão e o local onde havia
ocorrido o crime. Do fundo do pequeno vale, o jovem sargento observava a
aglomeração de homens que se haviam juntado no alto das elevações ao redor
do local do fuzilamento. Os vultos tinham suas silhuetas projetadas pelo sol
forte, adicionando um tom ainda mais lúgubre ao acontecimento. A impressão
era que toda aquela cena tinha sido composta de maneira intencional.
Mostrando-se mais resignado e recomposto da cena desenrolada na
presença do capitão, o autor do crime chegou à pequena ravina escoltado.
Perguntado se desejava uma venda ou se tinha algum último pedido, recusou.
Queria somente abraçar cada um dos sete homens que faria parte do grupo de
fuzilamento. Após tê-lo feito, pôs se em posição, à frente dos atiradores.
Nervoso e desconcertado, Gonçalves recebera o encargo de comandar a
execução. Era algo que não desejava fazer, embora não pudesse recusar a
ordem.
Quando tudo parecia prestes se consumar, um sargento mais antigo, já
com muitos anos de serviço, desceu de um dos barrancos oferecendo-se para
o ingrato comando do fuzilamento. Certamente havia percebido o desgosto
que o sargento Gonçalves deixava transparecer em ter que cumprir a ordem da
execução. Foi uma intervenção no momento preciso. Tinha reparado que
Gonçalves não desejava começar sua carreira militar cumprindo aquela
ordem.

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Menos de uma hora após haver assassinado o sargento, o autor do
homicídio já havia sido enterrado.
Quando a frente sul desmoronou perante o avanço das tropas legalistas,
a solução foi marchar com destino à capital paulista, para escapar da
humilhação de verem-se prisioneiros de guerra. Embrenhado no mato por dois
dias até atingir a estação ferroviária de Itapetininga, Gonçalves conseguiu
embarcar numa composição que o trouxe de volta para casa, percorrendo os
lugarejos de Capão Bonito, Capela do Turvo, Rio das Almas, Aracassú e
Capela do Ferreira.
A memória dos episódios vividos na linha de frente acompanhou
Gonçalves pelos anos subseqüentes à revolução. Uma idéia estranha de que
aquela não seria a última vez em que ele se veria em situação de comando
voltava a sua mente com uma recorrência inquietante. Com o passar dos anos,
Gonçalves descobriria que seu receio iria se tornar uma realidade ainda mais
intensa do que os já duros e dramáticos dias vividos no ano de 1932.
Em 1944, a inquietação de Gonçalves se concretizava.
Sob o comando do coronel João de Segadas Vianna, o efetivo completo
do regimento era de cerca de 3.500 homens. Isso não quer dizer que a FEB na
Itália enfrentou batalhas com milhares de inimigos se digladiando frente a
frente.
A geografia da península italiana, ao contrário de outras frentes da II
Guerra Mundial, fazia com que fosse necessário que os pelotões de fuzileiros
permanecessem isolados em setores inóspitos da linha de frente por alguns
dias, ou até semanas e meses. A guerra que os brasileiros enfrentaram na
Itália foi guerra de capitães, tenentes, sargentos e soldados, com embates
decididos à base de metralhadoras, morteiros, bazucas e granadas de mão.
Foram combates caracterizados pelo emprego que pequenos grupos de
homens: companhias, pelotões e grupos de combate.
Os tenentes e seus subalternos, ao receberem suas missões, tinham que
se desincumbir a partir da confiança que depositavam nos soldados. Era
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importante estabelecer laços de amizade com todos aqueles que lutariam lado
a lado na guerra, e se certificar que na hora em que fosse necessário, o
treinamento que havia sido investido na tropa resultasse num retorno eficaz
dos ensinamentos.
O núcleo formador do I Batalhão do 6o R.I. foi aos poucos
desenvolvendo forte coesão em torno da tarefa de aprender para treinar os
soldados. Na guerra, ficaria provado o que todos já sabiam: se o tenente não
avançar na frente, o soldado também não avança.
Mas a tradição francesa dentro do Exército Brasileiro havia legado sua
marca: em geral, os oficiais mais graduados, que estavam servindo por mais
tempo, eram extremamente ríspidos com seus subordinados. Castigos
corporais ainda ocorriam, embora não previstos nos regulamentos, e os praças
recebiam prisões disciplinares pelos motivos mais insignificantes. A
alimentação dos praças (cabos, soldados e sargentos) era parca e de má
qualidade. Os uniformes dos oficiais eram diferentes: mais vistosos e bem
confeccionados, contrastavam com o fardamento dos praças, fabricado de
tecidos baratos que se rasgavam e descosturavam com facilidade. Muitos
oficiais começaram a se perguntar se seria possível obter um bom
desempenho na guerra com os soldados submetidos a tais condições.
Em especial, a situação chamou a atenção dos oficiais da reserva.
Provenientes de ambientes civis, e de formação mais liberal, a chegada dos
reservistas foi transformando a parte do Exército que formaria a FEB,
acrescentando características próprias ao contingente expedicionário. Houve
quem pensasse que a camaradagem entre oficiais e praças pudesse resultar em
prejuízo da manutenção da disciplina e hierarquia, sendo indício de uma
benevolência excessiva que redundaria na perda de respeito aos graduados.
Na verdade, o estreitamento do convívio de oficiais e subalternos nos quartéis
antecipou a realidade que a FEB vivenciaria na linha de frente: a disciplina de
guerra era muito diferente da vida de quartel, lição que seria absorvida no

28
decorrer da campanha, e introduzida no seio do Exército Brasileiro após a
guerra.
Todos os soldados e graduados eram também convocados, que
prestavam o serviço militar. O 6o R.I. tinha recebido um contingente muito
grande de soldados de todas áreas do estado de São Paulo, em especial da
capital paulista e regiões do Vale do Paraíba, e também das regiões da Alta
Mogiana, como Brodowski, Batatais, Cravinhos e Ribeirão Preto. Por final, o
recompletamento foi feito com praças vindos de Minas Gerais, Paraná, Santa
Catarina, Goiás, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. O 6o R.I. recebeu um
reforço substancial de reservistas de 2a categoria proveniente de Campinas no
dia 21 de janeiro de 1943. O contingente consistia principalmente de
convocados que tinham prestado o serviço militar nos tiros de guerra, em sua
maioria estudantes, com bom nível de instrução. No total, 209 campineiros
fizeram a campanha da Itália engajados no regimento paulista.
Os elementos dos pelotões passaram a se conhecer melhor enquanto
trabalhavam juntos na fase de treinamento. Como em todo exército de toda
guerra, alguns soldados se destacavam pelas habilidades de que dispunham e
a personalidade que revelavam à medida em que os laços entre os homens se
estreitavam. Pelo 1o Pelotão, haveriam de passar homens como o soldado
Armando Ferreira, desembaraçado e cheio de expedientes, responsável pela
bazuca e sempre em busca de artifícios para melhorar a dureza de condições
da vida dos soldados; o lavrador de Taubaté Artemiro Botossi, rapaz alto e de
físico bem desenvolvido, acostumado à rudeza da vida ao ar livre e que na
Itália seria um dos observadores e esclarecedores do pelotão; Maud Araújo de
Campos, o sensível e inteligente professor de matemática em Campinas; os
mato-grossenses Paulino Patrício, exímio mateiro, e Amaurelino Padilha;
Vicente Gratagliano, filho de imigrantes italianos do Brás; os 3 o sargentos
Ferdinando Piske, convocado de Santa Catarina e Francisco Pereira da Silva,
marceneiro em Pindamonhangaba; o pernambucano Guttemberg Mello,
também 3o sargento; o 3o sargento paulistano Caetano Tanese; o campineiro
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Ferdinando Palermo, alfaiate na vida civil, e que apesar de pertencer à seção
de comando da 1a Companhia vivia grudado junto com os fuzileiros do 1o
Pelotão. A maioria não tinha pedido para ir para a guerra, mas estavam
preparados para o que viesse: a grande parte não se queixava de haverem sido
encarregados de cumprir o dever de lutar pelo Brasil. Representavam o
Exército formado por cidadãos.
Ao contrário de muito jovens de condição melhor, não procuraram
subterfúgios para escapar ao alistamento na FEB. Legiões de conscritos das
classes mais altas, mais bem instruídos e em melhor estado de saúde logo
trataram de arrumar pistolões que lhes garantissem a exclusão da FEB. O
mesmo valeu para uma quantidade considerável de oficiais da ativa, que
arrumaram meios escusos de fugir da obrigação. Foi uma passagem triste do
período de formação da FEB: infindáveis transferências de oficiais da ativa
para o 6o Regimento eram publicadas no Estado de São Paulo aos domingos.
Na semana posterior, publicava-se “ultima forma” e as colocações destes
oficiais na unidade expedicionária tornavam-se inefetivas.
Aqueles a quem o país mais havia proporcionado privilégios, que mais
tinham boa posição social, foram os que menos devolveram o tributo de
combater pelo Brasil. Quem permaneceu na unidade foram os idealistas,
voluntários, resignados ou simplesmente quem não conseguiu ser excluído.
Em alguns casos, houve quem fez força para ficar.
Em Pindamonhangaba passara a funcionar uma grande junta médica. A
ela seriam submetidos todos os elementos integrantes do regimento e quem
não apresentasse condições satisfatórias de saúde era automaticamente
eliminado. Em outras palavras: estava dispensado do regimento e livre de ir
para a guerra.
Entretanto, pela precariedade do tempo, esse exame de saúde, apesar de
sua vital importância, não foi feito com a devida eficiência. Elaborado às
pressas, acabou por gerar falhas gritantes. Em alguns casos, elementos com
condições de saúde satisfatórias para integrar a FEB ficaram no Brasil,
30
enquanto outros que não apresentavam boas condições acabaram indo,
acarretando depois, já na Itália, sérios transtornos.
Não foram poucos os que se beneficiaram dessa confusão toda. Assim,
muita gente acabou dando graças a Deus, por essa dádiva de última hora. Não
seria porém o caso do 1o tenente Eurípedes Simões de Paula. Surpreendido
com o resultado negativo de sua inspeção de saúde, reagiu prontamente. Não
podia acreditar que tivesse sido reprovado. A deficiência cardíaca citada no
laudo só poderia ser fruto de engano dos médicos.
Estava diante da possibilidade de não poder ir para a guerra, o que para
Simões seria uma tremenda frustração. Foi tomado de imenso pânico a
apreensão. Não podia em absoluto, aceitar pacificamente aquela situação de
incapacidade, após meses de sacrifício e abnegação vividos no quartel.
Algo teria que ser feito para possibilitar uma outra situação. Como
reagiriam seus amigos e alunos quando soubessem do seu “desligamento”,
exatamente nas vésperas de embarcar?
Muitos poderiam acreditar. Outros não teriam dúvidas em imaginar que
se tratava de mais um caso “acomodado”.
Assim foi que, não se conformado com a delicadeza de sua situação,
procurou imediatamente o comandante do 6o RI, o coronel João de Segadas
Vianna, expondo-lhe o que ocorria e ao mesmo tempo solicitando novo
exame de saúde.
Compreendendo sua preocupação e elogiando seu gesto patriótico, o
coronel recomendou que se submetesse a uma junta de médicos civis em São
Paulo, e que voltasse ao assunto se o novo parecer fosse favorável.
Seu desligamento, que seria irreversível, permaneceu adiado por mais
uma semana, para que Simões pudesse nesse ínterim tratar de seu caso.
Ao cabo de alguns dias, não cabendo em si de contente, Simões voltava
ao quartel, portando um laudo de uma junta de médicos civis, que o julgara
suficientemente “capaz” para o serviço militar.

31
Assim, graças à interferência de seu comandante, Simões conseguiu
submeter-se a nova inspeção de saúde na junta militar, que desta vez acabou
por julgá-lo apto para a guerra.
A alegria não foi exclusiva de Simões. Seus companheiros e o próprio
comandante se rejubilaram.
Ainda em relação ao tempo de formação da FEB, merece destacada
menção a figura de Raul Didier. Esse personagem procurou por meio de
rematados esforços ser incorporado em alguma das unidades expedicionárias.
Didier fez de tudo para ir para a guerra. Ele, no entanto era um homem de
meia idade, veterano de 32 e já além do limite aceitável para incorporação no
Exército. Profissional liberal de boa situação financeira, estava disposto a
pagar do próprio bolso os custos da viagem para poder tomar parte na
Campanha da Itália. Mas apesar de suas insistentes tribulações para ombrear-
se com seus camaradas da FEB, Didier não foi aceito nas fileiras do Exército.
Permanecendo no Brasil, Didier escrevia com freqüência para seus amigos
que serviam na Itália, e no pós-guerra, participava dos encontros e
comemorações dos veteranos da FEB, recebendo o respeito e a consideração
daqueles a quem tanto desejara acompanhar nos combates.
Embora o regimento estivesse em estado de mobilização para a guerra
desde 1942, foi a partir do final de 1943, com a certeza do embarque que se
aproximava, que a unidade foi incorporada de seu efetivo completo e teve sua
fase de instrução final intensificada.
O general Euclides Zenóbio da Costa liderava o esforço de aprimorar a
capacidade combativa do contingente de expedicionários, na função de
comandante da Infantaria Expedicionária da 1a DIE. O impetuoso general
Zenóbio era uma personalidade controvertida. Seus hábitos representavam a
velha e rígida tradição francesa no Exército Brasileiro. Natural do antigo
estado de Mato Grosso, também tinha participado da Revolução de 1932,


1a Divisão de Infantaria Expedicionária.
32
combatendo do lado das tropas federais, onde fora promovido por ato de
bravura.
Certa vez durante o período de preparação, Zenóbio determinou que o
6o Regimento se apresentasse numa demonstração de educação física
apresentando a “Balalaika”, uma ginástica coordenada cujos exercícios eram
extremamente laboriosos para os músculos. Durante uma semana, o
regimento treinou de forma excruciante, mas a aclamação do público após a
exibição compensou o esforço.
No dia 7 de março de 1944, o 6o Regimento de Infantaria recebeu de
um grupo de senhoras da sociedade paulistana uma bandeira nacional, que foi
conduzida na Campanha da Itália. Essa bandeira, ofertada pela esposa de Raul
Didier, pode atualmente ser apreciada no Museu do quartel do 6 o Batalhão de
Infantaria Leve em Caçapava, juntamente a outros troféus de guerra da
unidade.
No dia da partida do I Batalhão para o Rio de Janeiro, todo o comércio
de Taubaté fechou suas portas. Segundo Armando Ferreira, “o povo todo
acompanhou nosso desfile para pegar o trem. Todo mundo chorando. Todo
soldado namorava lá.” Vicente Gratagliano também recordou-se da despedida
com saudades: “Taubaté queria bem a gente”.
Eh Taubaté! Taubaté! Essa frase ainda seria repetida com profundas
saudades durante a Campanha da Itália.
Partindo da estação de trem de Taubaté, o I Batalhão rumou para o Rio
de Janeiro, para se reunir às outras unidades do 6o Regimento de Infantaria.
Do contingente vindo da 5a região militar, do sul do país, o 1o Pelotão
recebeu mais alguns elementos complementares. Um deles foi Piske,
enquadrado na função de sargento orientador, novidade introduzida com a
reorganização nos moldes americanos. Até então o sargento auxiliar do
pelotão era o 2o sargento Murillo, que logo foi substituído pelo sargento
Pontes.

33
A pequena subunidade era completada, e ia adquirindo sua
personalidade própria dentro do ambiente de rápida aprendizagem dos
conceitos de guerra que seriam utilizados na Itália. Os manuais técnicos e de
instrução de combate americanos foram pressurosamente traduzidos e
absorvidos e em seguida distribuídos aos instrutores, e à medida em que os
integrantes do pelotão fortaleciam a amizade, iam se entrosando com os novos
ensinamentos.
A certeza do embarque era maior a cada dia. Em 19 de março, o
regimento completo já se havia reunido no Rio de Janeiro, no aquartelamento
do Batalhão Escola, na Vila Militar. No pavilhão onde se abrigou o I Batalhão
do 6o R.I., havia espaço para cerca de 100 homens. Àquela altura, 400
expedicionários tinham suas acomodações sob o mesmo teto.
Cada pelotão de fuzileiros, comandado por um tenente, tinha três
grupos de combate de 12 homens. Os grupos eram compostos por um 3 o
sargento, um cabo e dez soldados. Nos combates, a função do tenente
consistia em regular e orientar as ações dos grupos. Cabia aos 3 o sargentos
comandantes de grupos de combates coordenarem o emprego dos fuzileiros
atiradores e das armas.
Cada companhia de infantaria possuía três pelotões de fuzileiros e um
pelotão de petrechos. Três companhias de fuzileiros adicionadas de uma
companhia de petrechos pesados (com morteiros e metralhadoras de maior
calibre) formavam um batalhão. Por fim, três batalhões com mais unidades de
apoio perfaziam um regimento de infantaria.
A unidade básica de cada pelotão era o já mencionado grupo de
combate. A principal arma do grupo era um fuzil metralhadora* (FM),
utilizado por um soldado fuzileiro atirador. A instrução americana pregava o
desbordamento das posições adversárias, ou seja, o cerco ao inimigo. Durante
os combates, o FM fixava o inimigo com seu fogo automático para que os

*
Na Segunda Guerra Mundial, o fuzil metralhadora utilizado pela FEB foi o Browning Automatic Rifle,
conhecido no Exército Americano como BAR Alimentado por carregadores de 20 tiros, seu calibre era o .30-
06, equivalente ao 7.62mm.
34
volteadores, que eram os soldados armados de fuzis e granadas, manobrassem
pelo flancos do adversário para aniquilar as resistências inimigas.
Antes da II Guerra, a tradição francesa no Exército ditava que as
resistências inimigas deveriam ser assaltadas em ataques frontais, progredindo
de frente para o fogo inimigo.
Pelo menos na teoria, era dessa forma que um pelotão de fuzileiros
deveria funcionar. A organização de uma unidade militar é complexa, e cada
homem dispõe de uma função bem definida. Dependendo da situação, os
grupos podiam ser fragmentados ou adicionados de mais elementos,
principalmente os homens dos pelotões de petrechos.
Na prática entretanto, o emprego de um pelotão de infantaria não seria
tão simples como durante os treinamentos. Embora os manuais ditassem que o
desbordamento devesse ser feito pelos flancos, num combate nunca havia a
certeza da localização exata do flanco inimigo. Um caminho aparentemente
desenfiado (não protegido por arma automática) podia esconder uma
metralhadora bem posicionada. Há uma enorme diferença entre manobrar um
pelotão numa área de instrução e numa colina ocupada por soldados alemães.
O terreno é quem ensina o curso de uma ação de combate, assim como os
meios disponíveis ao comandante do pelotão e sua maneira de encarar os
eventos.
Não se pode dizer de antemão se um assalto a posições inimigas será
feito frontalmente ou pelos flancos; as decisões são tomadas dentro das
opções que a ocasião proporciona. Durante o combate, os deslocamentos dos
soldados acontecem naturalmente, não sendo preciso que se criem regras
rígidas numa ação de choque, dentro das exigências determinadas pelos
acidentes do terreno. Caso a topografia não ofereça proteção para um avanço,
as decisões e soluções encontradas nos manuais de combate tornam-se
inválidas. Num terreno plano, a melhor escolha era se apresentar com todo o
efetivo de combate de frente para o inimigo, pois este não tem sua atenção
presa a uns poucos elementos. As rajadas de metralhadora do inimigo não
35
fariam muito estrago porque com os grupos de combate espaçados, o tiro das
metralhadoras não podia ser concentrado.
As regras rígidas eram úteis para manobras ou instruções, onde os tiros
não são de verdade, não têm conseqüências para os soldados que avançam.
Mas quando o negócio era para valer, o terreno se tornava o senhor da
situação.
O treinamento da tropa expedicionária foi continuado no campo de
instrução de Gericinó, altura em que foram introduzidas mais algumas das
novidades da doutrina militar americana, com o recebimento de uma parcela
do armamento e material americanos: pequenos morteiros de 60mm e
metralhadoras de calibre ponto 30; a introdução de um grande número de
veículos motorizados, como jipes e caminhonetes para o transporte de armas e
homens; uma série de materiais até então desconhecidos no Brasil, como
pequenos canhões anti-tanque de calibre 57mm, detetores de minas, lança
rojões (mais conhecidos como “bazucas”) e um grande número de
equipamentos de transmissão: pequenos rádios, telefones e rádios maiores que
ficavam à disposição dos comandantes de companhias e batalhões.
Novas funções também foram introduzidas, como os pequenos estados-
maiores em nível de batalhão, à semelhança do Estado-Maior divisionário. O
tenente Piason, que era fluente em inglês e italiano, passou do comando de
um pelotão de fuzileiros à função de oficial S2 do I Batalhão, encarregado do
serviço de informações.
As armas que a FEB utilizaria na Itália eram todas de procedência
americana, que substituiriam o material de fabricação francesa, checa e alemã
empregado no Exército Brasileiro.
Durante o treinamento no Brasil, 50% do material indispensável para a
instrução da divisão foi enviado ao país. O grosso dos equipamentos foi
recebido apenas após algum tempo de estada na Itália.
Além das armas e apetrechos, uma infinidade de itens de uso cotidiano
era de distribuição exclusiva aos expedicionários: uniformes de inverno e
36
verão, estojos de higiene pessoal, gorros sem pala, equipamento de lona
individual e placas de identificação.
O material criado para a FEB era inspirado no equipamento individual
americano. Mochilas, marmitas, bornais, cinturões e cantis foram
confeccionados no Brasil especialmente para equipar a Força Expedicionária
Brasileira, que começava a se diferenciar do restante do Exército também pela
aparência. Uma distinção adicional no fardamento dos expedicionários era um
escudo verde que usado na manga esquerda das túnicas. Trazia a inscrição
BRASIL bordada em linha branca.
Dependendo da necessidade para uso, o material era acondicionado em
dois sacos. O saco “A” para itens de uso imediato, e o saco “B” para as peças
de reserva.
A função de atirador de bazuca coube ao paulistano Armando Ferreira,
que imediatamente criou grande apego à arma. Assim como o comandante do
1o Pelotão, Ferreira era um dos poucos homens já casados na 1a Companhia.
Vinha servindo o Exército há alguns anos, pois necessitava pagar “na forma
da lei” um fuzil que deixara cair de uma ponte durante uma instrução. A
rígida disciplina do Exército de instrução francesa determinava que qualquer
material da Fazenda Nacional que fosse perdido ou danificado deveria ter seu
valor descontado aos poucos do soldo de um militar. Mesmo que quisesse
saldar sua dívida de imediato, a lei não permitia a Ferreira que o fizesse. Era
mais uma característica da inflexível forma com que se tratavam os praças no
Brasil.
Na Vila Militar, a instrução era continuada. Um dos treinamentos
consistia em transpor uma vala coberta por uma rede de arame, rastejando em
direção a metralhadoras que disparavam. Um ou outro soldado hesitava,
revelando um pouco de medo, mas esse tipo de treinamento ajudava a
acostumar a tropa com o zunido das balas por sobre a cabeça. Marchas com
equipamento completo por dezenas de quilômetros eram corriqueiras, e os

37
exercícios de embarque e evacuação de navios escalando redes de corda,
estafantes.
A propósito das marchas, merecem destaque as que foram realizadas
após os desfiles pelas ruas do Rio e pela praia do Flamengo, nos dias 31 de
março e 24 de maio, quando a tropa foi aplaudida pela população. A do dia 24
foi em comemoração à batalha de Tuiuti, quando a divisão desfilou com o
novo uniforme de campanha (o “Zé Carioca”), que seria usado no front. O
retorno aos quartéis da Vila Militar nessas duas marchas foi feito a pé num
percurso de mais de 30 quilômetros. Frente a um dos palanques, a tropa
prestava continência ao chefe de estado. Para todos os efeitos, a parada serviu
como uma despedida dos primeiros soldados que estavam prestes a embarcar
para o além mar, pois em pouco mais de um mês, o 6 o Regimento de
Infantaria adentraria em sigilo os compartimentos do navio transporte de
tropas americano “General Mann”.
Apesar de resultar na melhoria do vigor físico dos soldados e na maior
familiaridade entre os componentes das pequenas unidades, o treinamento
deixaria muito a desejar. Posteriormente, oficiais e comandados viriam a
constatar a iniquidade entre instrução e os combates de fato. Na frente de
batalha, sucessivos imprevistos se revelam: falha no abastecimento de
munição, ações inesperadas do inimigo, informações contraditórias,
interrupção das comunicações, aspectos que podem ainda ser coroados pela
reação psicológica incerta dos soldados durante o contato com o inimigo.
Depois da experiência de guerra, até mesmo o mais duro treinamento era tido
como brincadeira.
Havia forte receio entre as autoridades responsáveis pela formação da
FEB a respeito da motivação dos soldados. Muitos convocados oriundos das
regiões rurais tinham pouca noção a respeito das razões que haviam levado o
Brasil a entrar em guerra. Poucos soldados conheciam algo a sobre a
Alemanha, e um número menor ainda sabia claramente os motivos pelos quais
se fazia necessário entrar em guerra contra o nazismo. Mesmo assim, os
38
conscritos não se furtaram ao cumprimento de seus deveres: deixaram suas
famílias nos mais longínquos pontos do Brasil, e se reuniram com a 1 a
Divisão de Infantaria Expedicionária no Rio de Janeiro aguardando os
preparativos para o embarque. Em razão das dúvidas em torno da motivação
dos soldados, muitos não recebiam permissão para uma visita final a seus
familiares. Isso foi especialmente válido para os expedicionários do 6 o R.I.,
quase todos provenientes do Estado de São Paulo.
Vivendo em localidades distantes, sem possibilidade de telefonar, pois
os aparelhos telefônicos eram comodidades ainda raras no Brasil dos anos 40,
muitos soldados tornavam-se cada dia mais angustiados pelo fato de não
poderem despedir-se de seus entes queridos. Ademais, uma despedida em
massa de expedicionários provocaria fortes suspeitas nos espiões nazistas de
que a data do embarque estaria próxima. Os agentes pró-alemães poderiam
colocar os submarinos inimigos na espreita, ocasionando uma tragédia se o
navio transporte fosse torpedeado.
Dentre os praças do 1o Pelotão, um havia se tornado especialmente
afeito ao comandante, o soldado Francisco Gomes de Souza. Gomes era
ordenança do tenente e antes da convocação residia com seus pais em
Barretos, no interior do estado de São Paulo. Preocupado por não poder se
reunir com sua família numa derradeira ocasião antes de partir para a guerra,
o soldado Gomes pediu um favor especial ao tenente: a permissão de uma
rápida visita para tranqüilizar seus pais e aliviar um pouco as saudades de
casa, uma semana antes do embarque.
A proximidade do embarque não era comentada, mas pelas
providências tomadas e distribuição de material extra, a partida para a guerra
parecia iminente. Gomes abordou o comandante do pelotão. “Tenente, eu
moro em Barretos. A minha família está lá. O senhor não dá um jeito de eu
dar um pulo até lá?”
Gonçalves sabia que as licenças para visita estavam suspensas. A
medida era drástica, porém necessária para manter as precauções de
39
segurança. Além do mais, era necessário que Gomes saísse do Rio de Janeiro,
viajasse até São Paulo para depois conseguir uma composição que se
destinasse a Barretos.
Mas o fato de ver seu soldado amargurado, ansiando por uma chance de
despedida, também causou consternação no tenente, que decidiu dar a Gomes
um voto de confiança. Gonçalves sabia como andavam os sentimentos e
pensamentos mais íntimos de seus comandados. Afinal, ele mesmo deveria
deixar sua esposa no Brasil junto com seus dois pequenos filhos. Levando em
consideração a dedicação daquele soldado, Gonçalves levou o caso ao tenente
Ignacio, subcomandante da 1a companhia. “Você sabe que as baixas estão
suspensas. Se o seu soldado não retornar da licença, ele será enquadrado
como desertor”. Foi essa a resposta de Ignacio à inquirição de Gonçalves.
Mas o próprio Ignacio se mostrou sensível ao pedido do soldado, e finalmente
acedeu: “ele vai por conta dele”.
Os três combinaram não informar a ausência de Gomes, que tratou de
se encaminhar a sua terra para uma visita final.
Gomes não desmereceu a confiança que seu comandante de pelotão lhe
havia depositado. O soldado manteve sua palavra exatamente como
prometido, e após uma breve viagem a sua cidade natal, retornava ao Rio de
Janeiro, para juntar-se a seus camaradas e partir para o desconhecido. Sua
atitude foi de consideração aos dois oficiais, pois Gomes poderia ter agido
como faziam outros soldados do batalhão, que em vez de pedir licença para
visitas, fugiam sem dar aviso.
A ansiedade de rever familiares não era exclusividade de ninguém no 6o
R.I.: diversos soldados, revoltados com a inexistência das autorizações de
visita, empreendiam fugas do quartel da Vila Militar e acorriam às estações de
trens que os levariam para casa. Na gíria dos alistados, essas rápidas
escapadas não autorizadas ficaram conhecidas como “tochas”. Os soldados
diziam: “este fim de semana vou acender uma tocha até Sorocaba”. Grupos de
homens saíam do quartel durante a noite, embarcavam nos trens da Central do
40
Brasil e se dirigiam até suas cidades de origem. Era muito difícil passar
despercebido, pois as vestimentas civis eram de uso vetado entre os praças.
Os soldados saíam do quartel no sábado, passavam o fim de semana com suas
famílias e namoradas e retornavam na segunda-feira. Eram enviados direto
para o xadrez. No sábado seguinte, o procedimento era repetido.
No decorrer do caminho, procuravam evitar as escoltas formadas por
soldados de outras unidades do Exército, empenhadas em caçar os
“tocheiros”. Em algumas ocasiões, bandos de tocheiros acabavam cruzando
com patrulhas, e o saldo era de feridos ou presos, já que alguns soldados
buscavam escapar da patrulha “no muque”. Um número de soldados que
acabaram presos foi transferido para o 1o Regimento de Infantaria, que se
acreditava ser a unidade que teria primazia em embarcar. Na verdade, a
vontade dos soldados em reverem suas famílias foi mal interpretada. Apesar
das tochas, o número de desertores dos três regimentos da FEB foi irrisório.
Na medida em que a arte da tocha foi se refinando, alguns estratagemas
foram desenvolvidos pelos soldados. Os trens para São Paulo paravam em
quase todas as estações da linha ferroviária, e nessas paradas os tocheiros
arriscavam topar com patrulhas.
Antes de atingir uma destinação, alguns soldados pulavam para fora da
composição, no que contavam com a compreensão dos maquinistas, que
diminuíam a velocidade dos trens para que os expedicionários pudessem
desembarcar sem se ferirem. Os trens vinham desacelerando antes da estação,
a tropa embarcada saltava fora e vinha correndo pela mata até um trecho além
da parada. No local combinado, o trem desacelerava novamente, os soldados
voltavam a embarcar e prosseguiam a viagem obedecendo a este
procedimento até a chegada aos locais desejados pelos expedicionários.
Outros, mais ousados, preferiam arriscar e procuravam se esconder
entre os passageiros. Por diversas vezes, as pessoas que viajavam nos trens
sentiam pena dos soldados e os acobertavam. Era só o trem se afastar da

41
estação, e debaixo ou por detrás de um amontoado de populares, saíam dois
ou três expedicionários!
Talvez tivesse sido mais fácil conceder as tão desejadas autorizações
para visita aos soldados, mas nem sempre existe a possibilidade de se
combinar bom senso e as necessidades de tempo de guerra.
Oficiais que tinham condições financeiras algo melhores puderam
trazer suas famílias até o Rio de Janeiro, amenizando a sofreguidão causada
pelo isolamento. Gonçalves, percebendo que iria se demorar um tempo na
capital, acomodou sua família numa pensão no bairro carioca da Tijuca. Ia,
como seus companheiros, se amoldando ao estado de coisas presentes,
aceitando a realidade de ter que seguir para a guerra.

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Capítulo 2: Para o Além Mar

Os rígidos exercícios continuavam, e o dia do embarque para todos


parecia cada vez mais próximo.
Em função disso, o comando da 1a DIE, visando maior facilidade de
ação, resolveu flexionar a divisão em três grupamentos táticos com base nos
três regimentos de infantaria.
Essa providência, que veio tornar o comando mais versátil e operante,
permitiu melhores condições do uso e emprego dos grupamentos,
naturalmente visando o embarque – preocupação maior – que teria que ser
feito com toda a segurança e sigilo possíveis. Só se tomaria conhecimento do
primeiro grupamento a embarcar no mesmo dia do embarque e numa manobra
envolvendo os três grupamentos.
Dentro dessa finalidade, o comando da 1a DIE previu um plano de
manobras que seria executado em fins de junho:
O 1o Grupamento (1o R.I.) partiria para a região de Santa Cruz; o 2o
Grupamento (6o R.I.), para a região de Nova Iguassú e o 3o (11o R.I.), para o
Recreio dos Bandeirantes.
Os exaustivos exercícios de preparação decorriam normalmente até que
chegou a manhã de 29 de junho de 1944, quando houve formatura geral e o
comandante do 6o R.I., coronel João de Segadas Vianna, ao mesmo tempo em
que exaltava os seus comandados, comunicava também que naquela noite o
começo do embarque seria empreendido pelo I Batalhão. Embora esse
embarque fosse esperado a qualquer momento, a notícia não deixou de causar
uma certa surpresa e preocupação também.
Todos os capitães e tenentes do I Batalhão foram chamados para uma
reunião com o major Gross. O oficial confirmou o início dos procedimentos
de embarque para o anoitecer daquele mesmo dia, e finalizou dizendo,

43
“tratem de pôr seus assuntos pessoais em ordem, que às 18:00 horas todo o
regimento deve estar preparado para partir aqui na Vila Militar!”
A partir daquele momento, a tropa foi liberada para que seus homens,
ainda naquele dia, pudessem tomar providências a respeito dos seus
problemas particulares. No final da tarde haveria a entrega das plaquetas de
identificação e em seguida, formatura geral para embarque, com cada um dos
homens portando seu “saco A”.
O comandante do 1o Pelotão telefonou para sua esposa na Tijuca às três
da tarde. Encontraram-se brevemente na estação Dom Pedro II. Ambos
estavam angustiados pela incerteza do futuro. Na mesinha de um bar, em 15
minutos o casal se despediu rapidamente. O tenente deveria retornar logo ao
quartel para distribuir as plaquinhas individuais de identificação.
De volta à Vila Militar, uma confusão infernal reinava. Nas companhias
do regimento, alguns soldados haviam se revoltado e rasgado os colchões.
Homens choravam, outros se lastimavam. Um dos soldados soluçava:
“Eu nunca tive nada na vida, e agora vou para a guerra!”
As reações dos soldados eram contraditórias. Quase ninguém queria ir
para a guerra, mas no dia do embarque, todos estavam presentes. Houve
mesmo quem criou caso para ser incluído no 1o Escalão da FEB, como os
homens detidos por ocasião das tochas.
No deslocamento em direção ao trem, a 1a Companhia passou pelo
xadrez do quartel. Os presos estavam em polvorosa, pois queriam seguir
juntamente aos companheiros.
Às oito da noite, no horário estipulado, o I Batalhão entrou em forma
para embarcar. Uma composição adentrou pelos trilhos do quartel, com todas
as janelas cerradas. O I Batalhão teria precedência sobre as outras unidades do
6o Regimento. O 1o Pelotão embarcou seguido dos outros.
Sob o atroz calor da cabina reservada para os oficiais, o coronel
Segadas Vianna se regozijava:

44
“O pessoal todo embarcou. Não faltou nenhum homem no 1o Pelotão!
Tenho muito orgulho disso.”
Enquanto o trem dirigia-se ao porto, vez em quando um fuzileiro naval
de sentinela com fuzil e baioneta calada era visto ao longo da linha pelas
frestas dos vagões. A composição entrou no cais, e o I Batalhão desembarcou
por volta de meia noite no armazém 10, com os arredores semi encobertos
pela cerração.
As colunas de soldados marcharam passando por vários navios, até
chegarem a uma enorme embarcação de casco cinzento, com a parte superior
de seu convés envolta na neblina.
O transporte estava a cargo da Marinha de Guerra Americana, de
acordo com o combinado pela comissão mista brasileira e americana que
supervisionou a organização da FEB. O USS General W. A. Mann AP 112,
recentemente chegado ao Rio de Janeiro, iria transportar o 1 o Escalão até os
campos de batalha na Europa. Desde novembro de 1943, o General Mann era
comandado por Paul S. Maquire, da reserva da US Navy. A embarcação, nova
em folha, tinha sido lançada ao mar de Nova Jersey, em 18 de julho de 1943.
Sua velocidade máxima era de 21 nós, e a capacidade total de
deslocamento era de 20.270 toneladas. O General Mann comportava até 6.800
homens embarcados em seus compartimentos de viagem.
Do chão até as portas de entrada, uma prancha levaria os soldados até
seus compartimentos. Daí em diante os soldados separaram-se de seus
oficiais. Quebrando a circunspecção da ocasião, um marinheiro americano
chegou ao cais cambaleando, completamente embriagado. Tentou subir a
rampa, mas não conseguiu, terminando por fazê-lo de quatro. Fora de serviço,
os militares americanos podiam se consumir álcool à vontade, desde que não
se envolvessem em problemas.
Três dias passaram com o navio atracado no porto até que o regimento
fosse completamente acomodado nos compartimentos. Em cada uma das três

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noites, um dos batalhões do regimento embarcou. Para completar o espaço
vago, tropas de outras unidades juntaram-se ao 6o R.I. na embarcação.
Até que o General Mann partisse, razões de sigilo não permitiam a
subida ao no convés, e quem embarcou primeiro permaneceu mais tempo
encerrado nos porões, submetido a um calor abrasador. Antes da partida, o
Chefe de Estado visitou a tropa dentro do navio. Com seu chapéu
característico, era uma figura que não inspirava muita simpatia ou
popularidade. Disse que aos soldados estava sendo proporcionada a honra de
ir para a guerra, e que estariam de volta pelo Natal. Mas não esclareceu de
qual ano seria esse Natal.
Depois de três dias de espera, os soldados sentiram o navio balançar.
Correndo para o convés, constataram que a embarcação já começava a se
afastar da barra. Vão aos poucos deixando para trás o Rio de Janeiro. Vêem o
Corcovado envolto pelas nuvens, com o Cristo Redentor sobressaindo-se
iluminado pelo sol.
A imagem do Cristo sumindo no horizonte é uma constante nas
memórias dos expedicionários. Joaquim Borges de Souza ainda se lembra
nitidamente da partida do navio: “nós estávamos embaixo, no 5 o
compartimento. Eu subi para o café da manhã, antes de eu perceber algo, eu
vomitei. O navio já estava balançando, eu não tinha notado. Aí subimos no
convés, o Cristo Redentor estava bem pequeno.”
Enquanto o navio rumava para o alto mar, a última visão do Brasil foi o
horizonte delineado pelos edifícios de Copacabana. Para centenas de
soldados, aquela seria a derradeira paisagem de sua pátria que teriam à frente
de seus olhos. Era o dia 2 de julho de 1944, um domingo.
O navio era dividido em compartimentos estanques, cada qual
comportava 400 homens. Nas passagens entre os compartimentos, havia
sempre um oficial armado junto às pesadas portas de aço. Na eventualidade
de um torpedeamento, o local era isolado com o tenente junto. Caso contrário,
o caos ocasionado acarretaria uma tragédia maior, pois a água se infiltraria de
46
um compartimento para o outro. A embarcação conseguia suportar impactos
em até três compartimentos, com o sacrifício dos homens em seus interiores.
A organização do cotidiano do navio impressionou a tropa pela sua
exatidão. Era extraordinária a eficácia dos serviços de bordo. Para a
alimentação da tropa, na parte inferior do navio havia um grande salão
retangular, cujo acesso era feito por diversas escadas. De forma
cronometrada, uma companhia que estava em seu alojamento recebia
orientação de se apresentar para uma refeição num horário previamente
estabelecido. Nem um minuto de atraso era tolerado. Preparada em um dos
corredores, uma companhia descia para o salão. Entrando em um balcão ao
lado da escada, pegava-se um canecão de louça branca para café e leite.
Continuava-se andando, sem prejuízo de quem vinha atrás.
Em seguida, entravam numa divisória onde pegavam as bandejas de aço
estampado para a comida. Sentavam-se nos locais previamente designados e
após a refeição, punham-se os utensílios e os restos em lugares próprios,
depois do tempo determinado para a alimentação. Imediatamente após a
refeição, enquanto os soldados subiam por uma das escadas, podia-se ver a
próxima companhia descendo sincronizadamente por outra. Cada soldado
recebia um cartão que era perfurado a cada almoço e jantar, para controlar o
acesso ao refeitório. A quantidade de comida a bordo era criteriosamente
calculada para a duração da viagem, de acordo com o número de homens
embarcados.
Normalmente, duas refeições eram servidas por dia. Quem trabalhasse
no navio podia servir-se três vezes, e ao contrário da vida em quartel, os
serviços de cozinha e faxina eram disputados. No entanto, nem sempre era
possível desfrutar da alimentação oferecida, pois o enjôo ocasionado pelo
balouçar e o estranhamento inicial da comida americana, de sabor agridoce,
puseram parte dos expedicionários em indisposição. Muitos soldados,
acostumados ao paladar típico brasileiro estranhavam quando lhes serviam
carne recoberta de doce de abacaxi ou porco com purê de maça.
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As frutas servidas como sobremesa eram avidamente procuradas. Quem
tentasse, após as refeições, retirar mais que uma pêra ou laranja era
repreendido por um marinheiro negro americano, cioso de sua tarefa de
controlar os alimentos e que ia dizendo:
“No more, no more!”
Em alto mar, foi concedida a autorização para a visita ao convés. O
espaço foi dividido em um setor para oficiais e outro para praças. Medida
inócua, pois por seguidas ocasiões, oficiais e subalternos iriam dormir dentro
dos mesmos buracos no front italiano.
Quem sentasse no tombadilho via a proa do navio se movimentando em
relação à linha do horizonte no mar. Os olhos calcados naquele quadro
causavam grande enjôo, especialmente para os soldados do interior do país,
muitos dos quais nunca tinham visto o oceano até então.
No decorrer da viagem, alguns alarmes de aproximação de submarinos
inimigos foram disparados. A tropa, não sabendo tratar-se de treinamento ou
aviso real, seguia o procedimento de praxe. Todos recebiam ordens de
retornar a seus alojamentos e aguardarem o fim do alerta ao lado de seus
leitos. No caso de um torpedeamento, todos os homens tinham seus lugares
nos botes pré determinados. Interessantes eram as duplas funções da
tripulação do navio. Cozinheiros tornavam-se atiradores de metralhadora
ponto 50 antiaérea, faxineiros manejavam os lançadores de cargas de
profundidade. Para os expedicionários que estavam nos compartimentos,
suando em bicas com os salva-vidas de uso obrigatório, não havia como saber
se o alarme se tratava de fato de um ataque ou de treinamento. O General
Mann estava comboiado por dois navios brasileiros, que se despediram do 1 o
Escalão no limite das águas brasileiras. Nesse ponto, a escolta passou a
encargo da Marinha Americana. Um dos navios americanos que permaneceu
ao lado do USS General Mann por toda a viagem tinha uma catapulta da qual
era disparado um pequeno avião de observação, que por algumas horas
diárias, sobrevoava o comboio a grande altitude. Ocasionalmente, o
48
aviãozinho rebocava um balão de ar, que servia como alvo para as baterias
antiaéreas do navio. Também foram organizadas lutas de boxe entre os
brasileiros e os marinheiros americanos. Segundo o cabo Felipe dos Santos,
“o vencedor da luta ganhava um pacote de cigarros.” Eram esporádicas
distrações que ajudaram a amainar a monotonia da viagem.
Fazia-se questão de limpeza absoluta nos alojamentos. Concursos para
premiar os alojamentos mais organizados eram disputados, e os prêmios eram
geralmente chocolates e cigarros – artigos que durante a campanha, provaram
muitas vezes ser mais úteis que o dinheiro.
Na passagem pelo estreito de Gibraltar, a notícia de que uma
esquadrilha alemã se dirigia para atacar o comboio do General Mann alertou a
todos. Novamente o navio foi posto em alerta, e supostamente a esquadrilha
foi detida pela RAF antes de alcançar o 1o Escalão.
A fortaleza britânica em Gibraltar foi uma visão espetacular. Aviões de
caça Spitfire se projetavam de dentro do rochedo para patrulhar a entrada no
Mediterrâneo. A partir de Gibraltar, a escolta americana foi substituída por
dois navios ingleses, que acompanharam o General Mann até o porto de
destino final do 1o Escalão da FEB.
Até então o teatro de operações para onde estavam se deslocando era
ignorado. Os militares embarcados especulavam e apostavam nas tentativas
de matar a tormentosa curiosidade que a todos afligia.

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Capítulo 3: Antes do Combate

Na manhã de 15 de julho, a tropa avistou o Vesúvio e finalmente a baía


de Nápoles. Finalmente souberam que iriam combater na Itália. O
desembarque só foi iniciado a partir do dia 16, um dia depois do General
Mann aportar.
Do alto do convés, o 6o R.I. observava a agitada movimentação no
porto. Destroços dos navios da Marinha de Guerra italiana pontilhavam as
águas ao redor do navio. O casario napolitano estava em escombros,
devastado pelos bombardeios aliados e as demolições que os alemães haviam
promovido antes de abandonar a cidade. Muitas ruínas e casas ainda estavam
infestadas de minas com detonadores de retardo e armadilhas, que explodiam
esporadicamente.
Oficiais e praças do 1o Escalão desceram do navio transportando suas
próprias bagagens, vestindo túnicas de brim verde oliva e os gorros sem pala.
Antes de aportar em terra, todos encheram seus cantis a bordo do navio.
Um grupo chefiado pelo tenente coronel Castello Branco, oficial da 3 a
Seção do Estado-Maior da 1a Divisão de Infantaria Expedicionária, tratou do
reconhecimento preliminar da zona de desembarque .
No horário designado, os microfones do navio foram chamando os
homens sucessivamente de acordo com o número de seus compartimentos.
Antes que a tropa descesse, uma seção do Pelotão de Polícia Militar da FEB
garantia em terra a organização do contingente brasileiro que deixava o navio
pelas três pontes de desembarque.
Continuavam vigorando as precauções de segurança já conhecidas da
tropa desde a partida do Rio de Janeiro. Os soldados receberam a orientação
de não divulgarem informações sobre os efetivos da tropa, destino ou
procedência e nome das unidades e navios de transporte e comboio. Mesmo
numa região controlada pelos Aliados, havia o risco da existência de espiões
50
inimigos infiltrados entre os estivadores e civis vistos ao longo do trajeto.
Enquanto o comandante do 1o Pelotão desembarcava, viu um soldado atirar
uma ponta de cigarro sobre o cais. Imediatamente, uma multidão se acercou
do ponto onde o cigarro tinha caído para disputá-lo.
Ajudando o pessoal de porto americano estavam alguns trabalhadores
italianos contratados. Não havia nenhum resquício de autoridade civil no país
ocupado e depauperado pela guerra. Filas e filas de balões Blimp, atracados ao
solo em diversas alturas, preveniam vôos rasantes de aviões inimigos. Mesmo
em situação de inferioridade no Mediterrâneo, a Luftwaffe ainda arriscava
reides aéreos visando à destruição do mais importante porto Aliado naquele
teatro de operações.
Fileiras de navios de todos os tipos estavam atracados no porto. A visão
ajudou os primeiros soldados brasileiros a chegarem na Itália a entender a
dimensão do conflito em que se envolviam. Muito em breve, o 7o Exército
Americano partiria da Itália para dar continuidade à invasão da Europa pelo
sul da França. O desembarque foi empreendido no mês de agosto de 1944, na
região da Provença.
O 5o Exército Americano, que combatia na Itália sob o comando do
general Mark Wayne Clark, tinha cedido um número grande de divisões
americanas e francesas ao 7o Exército. Combatendo no norte da África desde
1942, o 5o Exército tinha passado pelas campanhas da Sicília, enfrentado as
terríveis batalhas pelos rios Rapido e Volturno e a longa campanha por Monte
Cassino, que resultaram em dezenas de milhares de baixas em combates,
acidentes e doenças.
Pela altura em que o primeiro contingente brasileiro desembarcou na
Itália, Clark precisava desesperadamente de reforços. Recebeu o 1o Escalão da
FEB de bom grado, embora também soubesse que a presença brasileira na


Força Aérea Alemã.

* Um “Exército” era formado por vários corpos de exército. Um “Corpo de Exército” era formado por
algumas divisões.
51
Itália estava relacionada a um contexto mais amplo de solidariedade
continental das Américas.
O Estado-maior do Exército Americano tinha decidido concentrar o
máximo de seus esforços para a derrota da Alemanha Nazista pela Europa
ocidental. Em termos táticos, a Itália oferecia por demais vantagens
geográficas aos defensores. O marechal Kesselring, que comandava os grupos
de exército alemães na Itália, tinha a sua disposição duas dezenas de divisões
bem treinadas e com ampla experiência em combate.
Toda a campanha travada na Itália se caracterizou por tomada de
colinas e montanhas das mãos dos alemães, conhecedores do terreno, que
dispunham de um complexo defensivo de fortificações nos Apeninos formado
por várias linhas sucessivas. Assim sendo, tornava-se muito mais fácil para os
alemães a tarefa de impedir o avanço aliado, pois a guerra de montanha
favorece a defensiva. Adicionalmente, a luta em montanhas possui algumas
peculiaridades. Alemães, italianos e americanos dispunham de tropas
especializadas, compostas de soldados oriundos de regiões montanhosas
treinados nos equipamentos adequados para a sobrevivência nas elevações:
agasalhos acolchoados, botas com sola ferrada, capas de neve, fogareiros de
montanha, sacos de dormir térmicos, grampos e cordas de escalada. Além de
combatente, o soldado se tornava um alpinista.
Mesmo as tropas alemãs e americanas que não tinham treinamento
adequado para montanha tinham passado por exercícios básicos de combates
em elevações.
Não era o caso da FEB: no Brasil, nunca se realizou nenhuma instrução
sobre guerra de montanha, mesmo apesar de o Vale do Paraíba oferecer
inúmeros locais apropriados para este tipo de adestramento. Os agasalhos
trazidos do país não se mostraram adequados para suportar o inverno apenino,
que chegou a –25ºC. Os brasileiros tiveram que aprender na prática como
sobreviver e combater na cordilheira apenina.

52
Era sob esses prognósticos que o 6o R.I. juntava-se aos aliados na Itália,
ao chegar no porto de Nápoles.
Depois de um tempo de espera no cais do porto, o 1 o Escalão começou
a marcha a pé pelas ruas da cidade.
O tráfego era exclusivo de viaturas militares. Soldados de várias
nacionalidades que combatiam na Itália vestiam os mais diferentes uniformes
e ostentavam uma infinidade de insígnias. Marroquinos, ingleses, canadenses,
franceses livres, italianos que apoiavam os aliados, sul africanos, americanos,
que desde o início de 1943 vinham se batendo contra os alemães península
acima. Agora, recebiam o reforço da Força Expedicionária Brasileira.
Passando por uma feira, os brasileiros viram as mulheres napolitanas
com saias extremamente curtas, o que abrandou um pouco os ânimos depois
de duas semanas embarcados. De forma geral, o universo de promiscuidade
advindo da guerra chocou inúmeros expedicionários. A prostituição campeava
pelas ruas da cidade de Nápoles. Faltavam comida, água, moradia e
vestimentas aos italianos. Crianças maltrapilhas acossavam os soldados pela
marcha nas ruas esmolando por sigarette e caramelli. A situação de penúria
causou uma impressão brutal, mas não passaria de uma amostra frente ao
horror do front.
Correspondendo ao interesse nas exíguas saias das italianas, o uniforme
brasileiro despertou a curiosidade de alguns italianos, pois tinha algumas
semelhanças com o fardamento alemão. Como a tropa marchasse desarmada,
foi tomada por um contingente de prisioneiros inimigos. Chegando-se mais
próximos, os populares viram soldados negros e o escudo escrito BRASIL na
manga esquerda das túnicas. Logo descobriram que aquela tropa desarmada e
de uniforme desconhecido não podia se tratar de alemães. Das vaias aos
supostos prisioneiros, os napolitanos passaram aos pedidos de latas de ração,
chocolates e cigarros.
Na enorme estação central de Nápoles, na Pizza Garibaldi, um trem
levou o 1o Escalão até o subúrbio de Bagnoli. Nova descida do trem e marcha
53
numa estrada em aclive pela encosta de uma elevação em Agnaro, em cujo
interior a tropa foi alojada pelo anoitecer. Tratava-se da cratera de um vulcão
extinto, o Astroni.
Dentro da cratera, em meio a uma densa floresta, o destacamento
precursor da FEB passaria sua primeira noite no além-mar ao ar livre. Só
receberiam o material de acampamento no decorrer dos dois dias seguintes.
Liderando as providências de preparação do acantonamento, o coronel
chefe do Estado-maior do General Zenóbio da Costa, tomava algumas
medidas que se antipatizavam com a tropa, como a construção de um xadrez
na cratera. Muitos interpretaram a providência como um acinte. Tinham vindo
à Itália para combater, e não receber xadrez por causa de questões irrelevantes
como uma túnica desabotoada.
Nos primeiros dias, os oficiais do 6 o R.I. reuniam-se com o capitão
Barbosa Pinto, oficial de operações do batalhão. Procuravam estabelecer as
providências de adestramento no teatro de operações enquanto não se recebia
o armamento.
Para preencher os primeiros claros causados por doenças e acidentes de
instrução, a Companhia de Obuses do 6o R.I. foi distribuída pelo regimento. A
Companhia de Obuses do 11o R.I. passou para o Sexto, junto com a 5a
companhia do 11º. Ambas tinham navegado para a Itália junto com o 1 o
Escalão, para ocupar o espaço ainda disponível no navio.
Ao chegar em Nápoles, a FEB ainda não havia recebido seu armamento
e equipamento. Ocuparam-se em marchar, e marchar, no período inicial de
estada na Itália. O solo ao redor do vulcão era fino e esbranquiçado, e o suor
causado pelas marchas encobria os homens de uma camada de poeira
misturada à transpiração.
Além das marchas, nas primeiras semanas na região de estacionamento,
pouca atividade ocupava o regimento. Era necessário entreter a tropa com
algo. Zenóbio decidiu que a melhor opção era fazer com que os homens
cantassem. Foi mais uma medida mal recebida pelos soldados.
54
A primeira coisa que os soldados inventaram para chatear o general foi
não se colocarem em forma corretamente. Zenóbio ficava desesperado,
gritando da sacada da casa de onde tentava fazer com que o regimento
cantasse.
Na cratera do vulcão extinto, o 6o Regimento de Infantaria reunia-se em
frente do comandante da Infantaria Divisionária, o general Euclides Zenóbio
da Costa. Regendo a banda regimental, o tenente Irany de Oliveira, autor da
canção símbolo da unidade. Desgastados com os dias de treinamento, ao fim
do expediente, os soldados tinham pouca paciência para mais uma atividade
que não resultaria em conhecimentos úteis a serem aproveitados na
campanha.
Tentando exortar a tropa, o general ordenava euforicamente para que os
soldados acompanhassem os acordes entoados pela banda do 6 o R.I. Mas sua
voz era contemplada com o resoluto silêncio de oficiais, graduados e soldados
formados à sua frente. “Formados” não seria a palavra adequada para
caracterizar a disposição das fileiras dos homens no vulcão. Como protesto
pela impopular medida de cantar após o expediente de rigoroso treinamento,
as companhias colocavam-se propositadamente no terreno de forma a que as
fileiras não se constituíssem simetricamente. Alguns soldados tinham se
balizado para que algumas das companhias formassem em diagonal, outras na
transversal. E além disso, todos continuavam em silêncio.
Do alto da sacada, Zenóbio gritava, quase apoplético:
“Canta, Sexto!”
Mas o pouco ânimo da tropa em cantar resultava em gradual evasão
sorrateira dos soldados. “Eu não vim aqui para cantar”, pensavam muitos
expedicionários, exaustos e pouco afeitos a solidarizarem-se com a veleidade
inventada pelo general.
Do alto do patamar, Zenóbio avistava praças que, por iniciativa própria,
se esgueiravam para fora das fileiras. O general berrava:
“Olha lá, um soldado fugindo! Pega!”
55
Os sargentos e tenentes permaneciam impassíveis em suas posições.
Pouco depois, mais um soldado corria das fileiras frontais, bem sob as
vistas de Zenóbio. E os tenentes iam murmurando pelo canto da boca. “Cai
fora, rapaz. Vai, cai fora”.
Zenóbio ficava alucinado. O coronel chefe do Estado-maior da
Infantaria Divisionária era extremamente apegado ao general, o que chegava a
beirar uma adulação constrangedora. Do alto do palanque, o coronel do
Estado-maior juntava-se a Zenóbio, exasperando-se para que a canção
regimental fosse entoada.
Pode-se dizer que o general e seu lugar tenente não eram exatamente
recebedores das boas graças de parte de seus comandados. Como resposta à
insistência dos dois oficiais, um espontâneo apupo uníssono, violento, de todo
o regimento, foi dirigido aos dois oficiais superiores. Como pode ser pensado
à primeira vista, a negativa dos soldados em cantar não era manifestação de
indisciplina ou motim. Era o primeiro sinal de que na guerra, os soldados não
aceitariam o mesmo tratamento usual dos quartéis.
No dia 2 de agosto, o 6o R.I. deslocou-se de trem para Littoria de onde
embarcaram em um comboio de caminhões americanos que os transportaram
ao novo acampamento na região de Tarquinia pela Via Appia. Por onde quer
que a tropa passasse, confrontava-se com assombrosos cenários de destruição.
Ruínas e destroços que sobravam da passagem da guerra haviam
transformado a Itália num gigantesco amontoado de escombros. À beira da
estrada, o comboio passou por um grande campo pontilhado de cruzes de
malta negras feitas em madeira. Era um cemitério de combatentes alemães.
Prosseguiram pela estrada asfaltada que passou por Roma e Civita Vecchia. A
viagem durou um dia inteiro.
O Exército Americano tinha montado uma rede de escolas de
aprimoramento da instrução no teatro de operações. Havia escolas de
patrulhas, de limpeza e assentamento de minas, de contra-informações, de
transposição de cursos d’água, e de liderança de pelotões.
56
Parte dos oficiais do Sexto foi para Caserta, assistir a um curso
intensivo de comando de pelotão. Outros foram enviados a um estágio no
front em unidades americanas. Gonçalves passou três dias junto ao 442o
Regimento de Infantaria americano, unidade integrada exclusivamente por
soldados de origem japonesa. Dentro em breve o 442o seria enviado para a
França, para a operação Anvil, o desembarque na Provença.
Durante a II Guerra Mundial, o Exército Americano ainda tinha
unidades segregadas. Os americanos de origem japonesa não eram tidos como
confiáveis, e tiveram suas famílias internadas em campos de concentração nos
Estados Unidos enquanto combatiam na Europa, engajados no 442 o. Esse
regimento foi a unidade mais condecorada dentre todo o Exército Americano
na II Guerra Mundial, pois os descendentes de japoneses desejavam
ardentemente provar sua lealdade. Os soldados negros eram direcionados
principalmente para os serviços de retaguarda, como estivadores e motoristas.
A única exceção na Itália era a 92a Divisão de Infantaria, composta de praças
e graduados negros, mas enquadrados sob a esmagadora maioria de oficiais
brancos, provenientes do sul dos Estados Unidos.
A acirrada diferenciação racial vigente no Exército Americano causou
espécie aos expedicionários. O desempenho da 92a em combate acabou
ficando abaixo das expectativas, principalmente em virtude da pouca
motivação dos negros para combater em razão das humilhações a que estavam
sujeitos no Exército Americano e em seu país de origem. Nos Estados Unidos,
os soldados da 92a não podiam trafegar nos mesmos ônibus e freqüentar as
mesmas escolas que os americanos brancos. Não eram bem aceitos por seus
companheiros de armas americanos, que na maioria se recusavam a aceitá-los
em unidades racialmente integradas. Era portanto compreensível que muitos
negros americanos tivessem lá seus motivos para não desejarem se esvair em
sangue por um país que lhes prescindia da cidadania.
Em seguida, os sargentos e oficiais brasileiros alocados para estagiar
com unidades americanas foram acompanhar a 34a Divisão de Infantaria,
57
cujos homens provinham principalmente dos estados do Texas e Novo
México. A experiência foi contrastante em relação à disciplina reinante entre
os nipo-americanos. A 34a Divisão estava em ação contínua desde a
Campanha no Norte da África. Era uma tropa cansada, se bem que experiente.
O contínuo emprego na linha de frente, apesar de produzir combatentes
veteranos, colaborava para a gradual diminuição do moral dos soldados.
Para ajudar a passar o tempo no estacionamento de Tarquinia, foi
organizado um concurso de construção de barracas. No 1 o Pelotão, Armando
Ferreira conseguiu providenciar até uma lâmpada para a competição: “minha
barraca tava bem montada, a gente andava de pé dentro, era alta, bem larga,
tinha tapetinho, tinha uma cama de cada lado, feitas por mim e meu parceiro,
tinha luz elétrica.” A barraca de Ferreira e Palermo acabou vencendo o
concurso, mas expedientes inventados por Ferreira seriam de maior valia na
linha de frente.
Em um dos dias de acampamento, o sargento auxiliar tinha posto o
pelotão em forma. A alguns metros de distância, Gonçalves observava de
dentro de sua barraca os modos que o 2o sargento auxiliar do pelotão
empregava no trato com a tropa. Vituperava abrutalhadamente, maltratando
os soldados com rudeza desnecessária. O 2o sargento Pontes, ainda imbuído
do velho espírito autoritário, acreditava que tratar a tropa de forma cordata e
respeitosa redundaria em desleixo nos padrões disciplinares. Quando o
sargento terminou, Gonçalves chamou-lhe na entrada de sua barraca.
“Pontes. Não fique tesando os soldados. Nós vamos entrar em combate
dentro de alguns dias. Isso aqui não é o Exército de Caxias. Não é necessário
tratar os homens dessa forma.” Meio que contrariado, o sargento aquiesceu à
orientação de seu comandante.
Causava curiosidade nos soldados brasileiros a profusão de periódicos
produzida e distribuída entre os combatentes americanos. O órgão oficial de
notícias do Exército Americano era a revista Yank, que publicava matérias de
correspondentes de guerra e artigos e poesias de autoria dos soldados, que de
58
seus abrigos e fox holes enviavam seus trabalhos à revista. Existia também o
jornal Stars & Stripes, que era uma publicação de responsabilidade exclusiva
da tropa. O diretor, redator e repórteres eram todos militares de baixa
graduação, como cabos, soldados e sargentos. O chefe do Estado-maior
americano, geral George Catley Marshall, tinha incentivado a criação da
publicação. Marshall achava que era um meio útil de os soldados exercerem
sua liberdade de expressão, extravasarem as angústias da guerra e da distância
do lar, e darem voz a suas queixas e reivindicações. Assim sendo, o teor do
Stars & Stripes era de um conteúdo crítico inusitado.
Não demorou para que a tropa brasileira se inspirasse nos tablóides
americanos para produzirem seu próprio material de leitura. Nesse aspecto, o
I Batalhão do Sexto foi pioneiro, com a edição “jornal de trincheira” “... E a
Cobra Fumou!” Adicionado à primeira página, por sugestão do comandante
da 2a Companhia, o capitão Ayrosa, o dístico proferido pelo general Osório na
Guerra do Paraguai: “É fácil conduzir homens livres, basta indicar-lhes o
caminho do dever”.
A idéia era condizente com a situação da FEB, que combatia um
conjunto de idéias substanciado na anulação das liberdades. Mas “... E a
Cobra Fumou!” ia um pouco mais longe: sob o cabeçalho, os responsáveis
pelo jornal decidiram incluir a frase “não registrado no D.I.P.” O
Departamento de Imprensa e Propaganda, controlado por Filinto Müller, era o
órgão do governo de Vargas que supervisionava todos os veículos da
imprensa brasileira, controlando eventuais manifestações de
descontentamento com o regime.
“... E a Cobra Fumou!” – ou simplesmente “Cobra” para os soldados -
era o divulgador semi-oficial de notícias do I Batalhão. A publicação era
dirigida pelo tenente campineiro José Alfio Piason, oficial de informações do
I Batalhão, e o redator era o soldado paulistano Geraldo Vidigal, depois
substituído pelo cabo Higino Corrêa, também da capital paulista. Piason


Do inglês: toca de raposa. Abrigo individual dos soldados de infantaria.
59
dividia sua função de coletar informações sobre tropas e disposições inimigas
nas posições oponentes com a de editor.
O tenente Manoel Barbosa da Silva acabou ganhando fama de “poeta
do batalhão”. Na 5a edição de “...E a Cobra Fumou!”, publicou uma poesia a
respeito do convívio dos oficiais da 1a Companhia no acampamento de
Tarquinia:

A PROLE DA 1ª Cia.
(Quando em Tarquinia)

Numa barraca de lona


Seis membros de uma família,
Moram com certo conforto,
Sem louça ter, nem mobília.

É uma família cuja


Curiosidade consiste
no pai não ser o mais velho
e a mãe, também não existe.

Tavares, Gonçalves, Félix,


Barbosa, Ignacio e Carrão,
São os membros da família,
Componentes da União.

Quando uma chuva qualquer,


Põe em perigo a barraca,
Sai Barbosa, sai Ignacio
Substituindo a estaca

Sem ter dó dos seis irmãos,


Quase sempre, a enxurrada
Por ordem do grande Deus,
Tem sido de madrugada.

Tavares – o maioral
quando chove mais se encolhe
Dizendo que a sua estaca
De todas é a mais mole.

Ignacio, em segundo plano


(De todos o mais gordinho)
Em proveito da barraca
Trabalha sempre um pouquinho.

Embora longe de casa,


Gonçalves na guerra, engorda;
60
Dando bom dia ao Paulinho
É assim que sempre acorda.

O mais peralta é o Félix,


Querendo ser motorista,
Na direção é “barbeiro”,
Tem pouco golpe de vista.

Barbosa, vovô de todos,


No fundo, bem conselheiro;
Tem poupado aqui na Itália,
O total do seu dinheiro.

Carrão – o sempre criança,


Fez à mãe grande pedido,
Do doce todo do Rio,
Para comê-lo escondido.

A obrigação todos cumprem


fazendo promessas mil
Que a guerra logo termine
Para voltar ao Brasil.

A obra de Barbosa foi publicada no dia 12 de outubro de 1944. Dez


dias depois, seu desejo de retornar à casa expresso na poesia seria
inapelavelmente interrompido. O texto do tenente Barbosa revela um pouco
mais sobre a vida dos oficiais da 1a Companhia nos dias iniciais da campanha.
Junto com a tropa, ainda estavam instalados nas barracas, aguardando a
finalização do treinamento e instrução nos mais variados tipos de armamento,
tanto americano como dos modelos utilizados pelo inimigo. Assim como seus
comandados, eram todos muito jovens. Barbosa, que em relação aos outros
homens da companhia era considerado “vovô”, tinha 40 anos. Gonçalves
tinha completado 32 anos recentemente, mas a maioria dos soldados e
sargentos tinha menos de 25 anos.
No estacionamento de Tarquinia o 6o Regimento de Infantaria recebeu
os armamentos e demais equipamentos do serviço de intendência do 5o
Exército Americano. Em parte, o recebimento dos fuzis consistiu numa
decepção: foi pequena a quantidade de fuzis M1 Garand, que eram de dotação
normal entre as unidades americanas de infantaria. A maioria dos brasileiros

61
seguiu para o combate armada de fuzis Springfield 1903 A3, cujo modelo
datava de antes da I Grande Guerra! Quando possível, na linha de frente os
brasileiros obtinham outros exemplares do Garand de americanos feridos ou
mortos.
Outras armas recebidas foram a excelente submetralhadora Thompson;
a não tão eficiente M3, de fabricação grosseira e com baixa cadência de
disparos por minuto; algumas submetralhadoras inglesas Sten; e as carabinas
M1 de calibre ponto 30, leves, eficazes e precisas, fornecidas aos
comandantes de pelotão.
A 19 de agosto, já equipado, o regimento foi transferido para a região
de Vada, juntando-se a outras tropas vindas com o 1o escalão. Nesta
localidade a tropa brasileira foi honrada pela visita do então primeiro ministro
britânico Winston Churchill, de onde o 6o Regimento e as demais unidades do
1o escalão da FEB, como o 1o Esquadrão de Reconhecimento e a 2a
Companhia do 9o Batalhão de Engenharia, tomaram parte no grande exercício
teste de Vada, realizado no dia 25 de agosto de 1944, para coincidir com a
data em que os brasileiros comemoram o Dia do Soldado.
Naquela ocasião, o Destacamento FEB foi formalmente enquadrado
como uma unidade do 5o Exército. Os generais passaram o 1o Escalão em
revista, seguida do desfile do grupamento em frente a um palanque de onde
Mascarenhas de Moraes, Zenóbio da Costa e o general Mark Wayne Clark
apreciaram a passagem das unidades brasileiras.
Os hinos brasileiro e americano foram tocados por uma banda do 5 o
Exército, enquanto a bandeira recebida em São Paulo era desfraldada. À testa
do 1o Pelotão em posição de sentido, o tenente foi tomado por uma mistura de
sentimentos: emoção por ver a bandeira brasileira hasteada num país distante,
tristeza por recear nunca mais se encontrar com sua família juntamente à
angustiante saudade. Por trás dos óculos escuros, seus olhos marejaram.
O general americano, proferindo um discurso de saudações aos
expedicionários, acrescentou finalmente, “grandes dias vos esperam.”
62
Grandes dias haveriam de ser, sem dúvida. Em breve, o 6o Regimento
de Infantaria estrearia em combate, ao lado de americanos, britânicos,
indianos e soldados de dezenas de outras nacionalidades, contra um inimigo
que se aferrava ao terreno desde o desembarque Aliado em Salerno no ano
anterior. O 5o e 8o Exércitos tinham enfrentado campanhas duríssimas em
Anzio, Cassino e Roma. As próximas etapas da guerra na península italiana
não deixariam dificuldades a dever para as batalhas anteriores travadas no
país.

63
Capítulo 4: As Primeiras Patrulhas

No dia 15 de setembro de 1944, o 6o R.I. entrava em linha, substituindo


uma tropa americana. Assumiram o setor de Ospedaletto, junto ao lago de
Massaciucoli, no Vale do rio Arno.
Em sua estréia no front, o 1o Pelotão ocupou uma casa assobradada,
com uma plantação de videiras ao redor. Dentro da casa, descansando sem
tomar nenhum cuidado extra, estava um pelotão americano, sem contato com
os alemães. A única providência dos americanos foi assestar uma
metralhadoras em uma das janelas.
Seriam uma presa fácil para um golpe de mão inimigo, que poderia
pegá-los enquanto relaxavam despreocupadamente no interior da casa.
Embora os alemães se tivessem posicionado algo distantes, não era
aconselhável descurar das precauções. O 6o R.I. foi inicialmente enviado para
um setor mais tranqüilo do front, para finalizar a instrução frente ao inimigo,
mas como se tratava da estréia em linha, o 1o Pelotão estava decidido a levar
as coisas a sério. Poucos dias antes, uma circular havia chegado aos
comandantes dos pelotões prestes a entrar em linha:

1. O COMBATE É A REUNIÃO DE UM GRANDE NÚMERO DE AÇÕES


INDIVIDUAIS SIMULTÂNEAS. VOCÊ DESEMPENHA UM PAPEL
IMPORTANTE NESSAS AÇÕES, EMBORA A MISSÃO PAREÇA
PEQUENA. CUMPRA A SUA MISSÃO E FAÇA ISSO BEM.
2. VOCÊ É UM CHEFE. ESTEJA CERTO DA SUA
RESPONSABILIDADE.
3. SEJA AGRESSIVO.
4. ERROS OCASIONAM MORTES.
5. BRAVURA NÃO É LOUCURA.
6. ESTEJA PREPARADO PARA O IMPREVISTO TÃO BEM QUANTO
PARA O PREVISTO.

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7. SUA MISSÃO EXIGE BOM SENSO, DISCERNIMENTO TÁTICO E
ESPÍRITO COMBATIVO.

Tratava-se de um aviso enfático a respeito da seriedade das condições


no front. Como se costumava dizer na Itália, o momento não era adequado
para se “dar sopa no morro.”
O pelotão se abrigou ao redor da casa, cavando trincheiras e fox holes
na plantação. Estariam mais capacitados a se defenderem de um eventual
assalto inimigo do lado de fora da construção.
No meio da noite, um mensageiro alcançou as posições do pelotão.
Trazia uma ordem de patrulha, em efetivo de grupo de combate, para
reconhecer as posições alemãs num raio de dois quilômetros. A patrulha
deveria ser comandada pelo tenente. Transmitindo a ordem, o mensageiro
esclareceu algo a respeito da região adiante da posição. “Você deve encontrar
uma ponte adiante, e deve ter um grande armazém do lado esquerdo. Vá até
lá. Quando a patrulha ultrapassar esse último objetivo, vocês podem voltar.”
No que deve ter sido uma das primeiras patrulhas realizadas pela FEB,
senão a primeira, o grupo escolhido aventurou-se pela escuridão da noite,
temendo defrontarem-se com campos de minas pelo caminho.
O assentamento de campos minados foi um dos mais freqüentes
recursos utilizados pelos alemães na Itália. Estando na defensiva, não tinham
sequer a preocupação de desenhar mapas dos terrenos onde se localizavam as
minas. Embora a ausência de campos com minas assinaladas fosse um claro
sinal de que não pretendiam retomar tais áreas, a colocação de minas em
disposição irregular dificultava enormemente o trabalho dos “mineiros” e dos
fuzileiros que se vissem detidos por campos minados. Os campos de minas
com colocação esquematizada eram relativamente mais fáceis de neutralizar:
uma vez identificado o padrão de colocação, bastava seguir a disposição das
minas divisadas, porém mantendo-se alerta para as irregularidades

65
propositais, como minas interpostas nos espaços e booby traps que detonavam
durante o desarmamento de uma mina.
Marchando pela estrada, a única coisa que se enxergava era o vulto do
homem que caminhava ao lado. Na frente da patrulha seguia um esclarecedor,
e o comandante do pelotão imediatamente atrás. Com seis homens em um
flanco e sete de outro, o grupo de combate caminhou com o máximo de
prudência para a frente, na tormentosa incerteza de encontrar o terreno à
frente minado.
Estampada no semblante dos homens, a apreensão era bastante
perceptível. Sentiam paura por não saber o que seria encontrado adiante, de
levarem repentinamente uma rajada, ou de caírem desapercebidamente em um
campo minado. Não sabiam se teriam retas, curvas, aclives ou declives pela
frente. Marchavam na escuridão da noite e escuridão de conhecimentos.
Beirando a estrada, o grupo de combate e o comandante do pelotão
prosseguiram até perceberem que estavam pisando sobre um terreno fofo,
ideal para colocação de minas. A cada passo, os soldados pressentiam a
terrível expectativa do solo explodir sob seus pés, matando ou arrancando
uma perna... nesse momento, desejavam ter a capacidade de flutuar sobre o
chão, medindo escrupulosamente os passos e sentindo o terreno com a ponta
das botas de combate. O cuidado na progressão era tanto que pareciam sentir
uma força ascendente, que os impelia para cima enquanto caminhavam.
Os ferimentos causados por esse tipo de explosivo eram horríveis.
Geralmente amputações traumáticas, por muitas vezes não ocasionavam a
morte do soldado que tivesse a infelicidade de detonar uma mina. A intenção
primordial das minas era causar ferimentos. Sob uma ínfima pressão de 10
quilos, algumas explodiam arrancando os órgãos genitais, outras cortavam o
terço inferior da perna e um dos tipos mais comuns saltava do solo detonando
uma carga secundária e espalhando centenas de balins de aço. Se um soldado
pisasse numa mina anticarro ajustada para explodir sob pressão mais leve, seu
corpo se desintegrava.
66
Os apelidos dados pelos expedicionários às minas alemãs sugerem um
pouco dos estragos causados: a “capadeira” e a “quebra canela” eram
constantes motivos de preocupação. Alguns do invólucros das minas eram
feitos de baquelite, plástico ou madeira, dificultando ainda mais sua
localização pelos aparelhos magnéticos. A quantidade desses engenhos
espalhados era tão grande que os campos da Itália ficariam infestados de
minas por décadas após a guerra.
Com os nervos à flor da pele por todo o trajeto, depois de mais algumas
centenas de metros, a patrulha divisou os arcos da ponte, à distância. Um
pouco além da ponte, a silhueta do armazém também foi avistada. Já tinham
marchado os dois quilômetros, sem nenhum sinal de presença do inimigo. Às
04:00 da madrugada, decidiram:
“Ok, pessoal, vamos voltar”.
Fazendo a conversão para voltar, o homem à testa da patrulha tornava-
se o primeiro no caminho de retorno. O cerra fila retornaria em último lugar, e
o retraimento foi iniciado.
Marchando no sentido inverso, o soldado cerra fila ouvira passos em
sua retaguarda. Os homens à frente da patrulha escutaram de repente gritos de
“alto, alto!”
Todos pararam imediatamente, e foram averiguar quem os estava
seguindo. Cautelosamente se aproximaram, descobrindo um soldado do grupo
de combate que tinha se atrasado na conversão, marchando atrás do cerra fila.
Após o sobressalto final, a patrulha retornou para o casarão sem novidade.
Mesmo sem a tomada de contato com o inimigo, as missões desse tipo
contribuíam para o desgaste dos soldados. Aos poucos a tensão acumulada
culminava num estado de grande fadiga física e mental. O sossego do front só
existia como aparência enganadora. E isso, como viriam a saber dentro em
pouco, era só o começo gradual de dificuldades que iam crescendo enquanto o
regimento avançava.

67
Nova missão para a 1a Companhia. As missões isoladas do 1o Pelotão
eram determinadas segundo rodízios.
Prosseguindo na perseguição ao inimigo, o 1 o Pelotão reforçado pelo
Petrechos marchou na direção de Bozzano, o 2o Pelotão foi até Chiesa, e o 3o
executou reconhecimento em Massarosa. Cada pelotão avançou para direções
diametralmente opostas, abrangendo grandes frentes em formato de leque.
De início, a população procedia com desconfiança. Mas os soldados
foram recebidos festivamente pelos habitantes de Bozzano, embora não
soubessem como aquela tropa iria se portar em relação aos civis. Qualquer
necessidade dos italianos tinha que ser requisitada aos brasileiros de antemão.
Nenhuma autoridade local permanecia sendo exercida.
Vários italianos se acercaram de Gonçalves e Félix, procurando obter
informações sobre o Brasil. Era gente que tinha vivido em nosso país, e
retornado para a Itália. Muitos eram fluentes no português; estavam ansiosos
por notícias dos familiares que tinham deixado no Brasil.
O padre de Bozzano pediu que o copre fuoco fosse estendido. Em vez
da restrição de circular nas ruas após as seis, o religioso gostaria que os civis
pudessem ficar fora de suas casas até as sete da noite. O tenente Gonçalves
estava na casa das irmãs Battore, que procuravam amenizar o cansaço que
todos soldados sentiam. Antes que saísse para verificar as condições dos
pelotões em palestra com os outros oficiais da companhia, as duas irmãs
perguntaram se podiam fazer algo pelo tenente.
Seu desejo era dos mais simples: ele gostaria de tomar um banho, coisa
que para os combatentes a guerra havia transformado em luxo.
“Va bene, nos vamos preparar um banho para o senhor.”
Prosseguindo nas medidas de instalação, Gonçalves determinou aos
soldados que procurassem edificações para o abrigo da tropa. Não demorou
muito para que um dos homens retornasse à presença do tenente, relatando


Do italiano: toque de recolher.
68
que o proprietário de uma das residências de Bozzano se negava a receber os
brasileiros em sua casa.
O tenente tomou o caminho da casa em questão. Batendo à porta,
encontrou uma surpresa: o italiano era justamente um daqueles que havia
vivido no Brasil, e para incredulidade geral, recusava-se em ceder um dos
quartos de sua residência a soldados provenientes da nação em que havia
trabalhado e prosperado. Indignado, Gonçalves botou o italiano para fora da
confortável casa, onde pôde instalar alguns dos fatigados homens do pelotão.
Quando o tenente voltou para a casa das irmãs Battore no final da tarde,
ouviu das italianas: “seu banho está preparado, lá em cima”.
Pensando em encontrar um pequeno chuveiro para se aliviar dos dias de
linha de frente, o que o teria deixado mais que satisfeito, o tenente subiu para
alcançar o banheiro no piso superior, deparando-se com um aparato de banho
completo. Uma banheira fumegante, com sabonetes e várias toalhas, num
banheiro de verdade! Para quem estava no front, resignado a permanecer
vários dias sem nenhum vestígio de urbanidade, aquele apetrecho para o
“banho de um rei” era um conforto inimaginável.
Com o pelotão aguardando novas ordens, a 1a Companhia permaneceu
três dias em Bozzano esperando pela resolução do comando.
As irmãs Battore tinham um irmão no Brasil. O homem era alfaiate na
vila Pompéia, em São Paulo. Gonçalves escreveu para sua esposa, pedindo
que visitasse o irmão das Battore, com quem haviam perdido o contato há
anos. Famílias que viviam separadas pela guerra em cidades vizinhas não
tinham nenhuma idéia do que ocorria do outro lado da linha de frente, uma
vez que toda comunicação havia sido interrompida. O alfaiate italiano em São
Paulo, por intermédio de uma carta vinda do front, pôde então saber que suas
irmãs estavam bem.
Algumas centenas de descendentes de italianos estavam servindo no 6 o
R.I., sendo constantemente acossados pelos civis a respeito de notícias de seus
parentes vivendo em São Paulo. Houve até gente do Sexto que aproveitou
69
para visitar parentes na região da Toscana. O receio inicial em relação ao
comportamento dos brasileiros não demorou para ser desfeito.
A pedido de outra família, Gonçalves levou um recado até o archiprete
da cidade seguinte, informando que tudo estava bem. Muito agradecido, o
religioso o convidou para o jantar. Sentados nas extremidades opostas de uma
longa mesa à luz de velas, o comandante do 1o Pelotão desfrutou de mais uma
comodidade rara para os combatentes, ao postar-se numa mesa com pratos e
talheres. A hospitalidade dos italianos atenuou um pouco da vida rude levada
no front, onde não existia lugar certo para dormir, nem horário para comer e
muitas vezes até mesmo a impossibilidade de tomar banho ou se barbear.
Até então, os contatos com os alemães tinham sido esporádicos. Em
ocasiões isoladas, alguns poucos soldados do 1 o Pelotão já haviam se
envolvido em escaramuças com o inimigo. Haviam sido bombardeados
algumas vezes, e já tinham empreendido patrulhas. O Destacamento FEB
tinha sido no começo da campanha alocado a um setor “tranqüilo” da linha de
frente, o Vale do rio Arno, para a adaptação ao combate. Mas já começavam a
conhecer uma amostra das situações que precisariam enfrentar nas semanas
seguintes, quando o 6o R.I. foi enviado para um setor mais bem defendido da
Linha Gótica, depois de finalizada a instrução na linha de frente.
No dia 15 de setembro de 1944, a primeira localidade italiana foi
liberada por soldados brasileiros, numa ação eletrizante comandada pelo
capitão Ayrosa, da 2a Companhia. Sob uma barragem de morteiros, soldados
da 2a Companhia montados em Jeeps do Pelotão de Reconhecimento
dispararam em alta velocidade debaixo das granadas que o inimigo lançava
das fortificações em Monte Prano. Acelerando ao máximo, os motoristas
ganharam as ruas centrais de Camaiore permitindo aos soldados tomarem
posição em locais abrigados do fogo inimigo. Há poucos relatos detalhados
desta operação, que envolveu uma companhia de fuzileiros e um pelotão de
Jeeps do Esquadrão de Reconhecimento.

70
A Ocupação de Camaiore pelo 6º Regimento de Infantaria

A 2ª Companhia de Fuzileiros do 6º Regimento de Infantaria estava a


postos. Quase duzentos homens, organizados em três pelotões de fuzileiros
mais o apoio de um pelotão de petrechos, equipado com três morteiros M2 de
60 mm e uma seção com duas metralhadoras Browning .30 refrigeradas a ar
da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão. Iriam estrear em combate
naquilo que o jargão militar resolveu chamar de um setor “tranqüilo” da linha
de frente – mais precisamente, no norte da Toscana, em setembro de 1944.
Nos dias anteriores, o 6º Regimento havia ocupado sem resistência as
localidades de Massarosa, Bozzano e Quiesa. Até então, os soldados
brasileiros eram celebrados como liberatori e recebidos com vinho e a típica
extroversão italiana. A próxima missão seria a ocupação da pequena
Camaiore, uma cidade da região da Versilia que começa no litoral e se
prolonga adentro dos Alpes Apuanos, e que no tempo da guerra tinha cerca de
oito mil habitantes.
No dia 18 de setembro de 1944, o comando do Destacamento FEB
designou o Capitão Ernani Ayrosa da Silva para comandar o grupamento
encarregado de entrar em Camaiore, que ficava a 16 quilômetros de
montanhosa distância da linha de cidades que a FEB vinha ocupando desde o
dia 15. Dos três pelotões disponíveis, Ayrosa escolheu aquele comandado
pelo Tenente Cabral, junto com uma seção de metralhadoras Browning .30 do
Pelotão de Petrechos. A linha de partida seria Massarosa.
A operação não era de grande porte, embora fosse muito significativa
para a história da FEB: Camaiore seria a primeira das cidades a ser capturada
que oferecia possibilidades de apresentar resistência alemã mais decidida.
Ciosos da importância da missão, a operação teve apoio cuidadosamente
planejado por parte dos oficiais brasileiros. Além da tropa de infantaria
brasileira, a força de ataque também incluía um pelotão de carros de combate
americanos; um grupo de bazuqueiros, uma seção de metralhadoras pesadas e
71
outra de morteiros 81 mm da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão
do 6º Regimento, sob o comando do Tenente Grossi; os jeeps do Esquadrão
liderados pelo Tenente Belarmino; uma esquadra de homens especializados
em limpeza de minas da Companhia de Comando do I Batalhão, a cargo do
Tenente Paulo, e uma esquadra de padioleiros, com o Tenente Bicalho. Os
atacantes podiam contar também com uma bateria da artilharia britânica –
excelente apoio de veteranos do 8º Exército que já vinham combatendo os
alemães há anos.
Capacetes de aço na cabeça, os fuzileiros do pelotão do Tenente Cabral
conferiram a munição e saltaram na caçamba dos caminhões de 2,5 toneladas.
A longa coluna de jeeps e caminhões prosseguiu até o vilarejo de Luciano,
para estabelecer ligação com os tanks americanos.
À frente da coluna, os jeeps do 1º Esquadrão de Reconhecimento
avançaram junto com os fuzileiros da 2ª Companhia na direção de Camaiore.
Ao atingirem Luciano com os homens embarcados nos caminhões, as viaturas
fizeram alto. Os fuzileiros desembarcaram rapidamente, galgaram os carros
de combate americanos e prosseguiram no avanço. Vários pontos da estrada
estavam interrompeidos por crateras de granadas alemãs. A cada buraco de
explosão, os “mineiros” da Companhia de Comando desciam dos caminhões e
verificavam a existência de armadilhas explosivas. Então, um carro bulldozer
americano que seguia à frente da coluna tapava o obstáculo para que o avanço
pudesse continuar.
Por volta das 18:00 horas, a coluna alcançou o vilarejo de Nocchi, onde
recebeu as boas-vindas por parte da artilharia alemã. O comandante do
pelotão de tanks americanos informou que não poderia prosseguir, pois era
grande o risco de serem atingidos fogo direto de armas anti-carro. Os
americanos ficariam na área de Monte Nocchi, apoiando o avanço com o fogo
dos blindados.
Da retaguarda, o General Zenóbio da Costa observava o encontro de
brasileiros e americanos, pelo binóculo. Sem entender a razão do alto em
72
Nocchi, Zenóbio deslocou-se de jeep até o ponto onde se encontrava Ayrosa.
Como foi descrito pelo capitão, Zenóbio gritou, de longe, ao avistá-lo:
“-Capitão, o que é que o senhor vai fazer?”
“Senti um ímpeto de quase raiva e respondi-lhe, no mesmo tom, com
outra pergunta:
“-Qual é a missão general?”
“-Tomar Camaiore.”
“-Pois vou cumprir a missão.”
O Capitão Ayrosa ordenou então que os soldados da esquadra de minas
e os fuzileiros subissem nos cofres dos Jeeps do Esquadrão e da CPPI, que
traziam os morteiros e as metralhadoras. Soltaram-se os reboques com o
armamento pesado e a munição, que seriam trazidos posteriormente. Os Jeeps
avançariam com os soldados de armas em punho e as metralhadoras .30
fixadas nas torres.
Ayrosa então pediu que seu motorista, o soldado Werther Perrenoud, se
afastasse para o lado, e o capitão seguiu em alta velocidade e serra abaixo ao
volante de seu jeep, batizado de “Eliana-Maria-Dulce”, que ia à frente da
coluna em um total de 19 viaturas leves. Enquanto o capitão e seus
comandados avançavam, os generais e coronéis brasileiros observavam, de
longe, pelos binóculos.
Mantendo a distância de segurança de 100 metros entre si, as viaturas
da FEB continuaram na estrada, e fizeram alto quatro quilômetros antes do
limite urbano de Camaiore. Na descida da serra, tinham topado com mais uma
ponte dinamitada pelos alemães.
A esta altura, a noite já chegara. Os soldados brasileiros apearam das
viaturas pela última vez. O resto do percurso deveria ser feito a pé. Nesse
meio tempo, Ayrosa determinou que os Jeeps voltassem ao Monte Nocchi
para trazer os demais pelotões que tinham ficado para trás.
O grupamento se reorganizou, com os “mineiros” da CCI à frente,
seguidos de perto pelos fuzileiros do pelotão sob o comando do Tenente
73
Cabral. Um pouco mais atrás, vinha o Capitão Ayrosa com as metralhadoras
leves do Pelotão de Petrechos e as metralhadoras pesadas da CPPI. Estavam
acompanhados dos homens dos morteiros e dos padioleiros e enfermeiros da
seção de saúde do I Batalhão.
Prosseguindo com cautela, às 19:30 os brasileiros entraram em
Camaiore sem oposição da infantaria inimiga, mas sob fogo de seus
morteiros. Embora a ocupação de Camaiore não possa ser considerada um
combate de grandes proporções, o comportamento dos alemães prenunciava a
tática defensiva que seria utilizada nos meses seguintes, nas operações de
maior vulto: abandonar posições mais baixas, e procurar ocupar e defender
locais cuja topografia dificultasse os ataques.
Os soldados colocaram-se em disposição de combate nas vias desertas
de robustas casas datadas dos séculos XVI e XVII, de típica construção da
Versilia. Em seguida à penetração dos fuzileiros da 2ª Companhia, mais
reforços de homens da 7ª Companhia chegaram em Jeeps. Até então, nenhum
indício visual da presença do inimigo.
Os alemães, no entanto, estavam próximos. Disparos da artilharia e de
morteiros inimigos faziam-se ouvir explodindo em diversos pontos da cidade.
Cinco granadas caíram nas proximidades do Posto de Comando da 2ª
Companhia, instalado no Palazzo Tori, a antiga sede do Partido Fascista que
havia em Camaiore. A regulação dos tiros era precisa, e só poderia ser feita do
cume do Monte Prana, uma elevação ao norte da cidade que oferecia um
ótimo ponto de observação sobre o avanço da tropa brasileira. De fato, a
ocupação de Camaiore não podia ser considerada como uma operação
concluída enquanto os alemães não fossem expulsos do Monte Prana.
A primeira das granadas causou o primeiro ferido em combate da FEB.
Um soldado que estava nas proximidades do P.C. foi atingido pelos
estilhaços. De imediato, o 1º Tenente João Evangelista Mendes da Rocha,
subcomandante da companhia, notou que não havia ambulâncias nem
padioleiros por perto. Rocha colocou o homem dentro de seu Jeep, e o levou a
74
toda velocidade para a casa onde o pessoal do de saúde havia instalado o
posto de socorro. Depois, o tenente verificou o local de impacto das demais
granadas para conferir se havia mais vítimas. Por sorte, as explosões não
feriram mais ninguém.
No entanto, nos dias seguintes, os alemães de Monte Prana dispararam
mais 35 granadas sobre a tropa brasileira, que explodiram sem atingir
soldados, mas que causaram ferimentos em mulheres e crianças. A virada da
noite do 19 para 20 foi chuvosa, e, nessas jornadas, os avanços do
Destacamento FEB possibilitaram consolidar a posse da rodovia que liga
Camaiore a Lucca. Durante a retirada, os alemães dinamitaram seis pontes na
estrada, que foram rapidamente recuperadas com o trabalho da companhia de
Engenharia que havia embarcado para a Itália junto ao 1º Escalão. Infantes e
engenheiros combatiam e trabalhavam na lama, que iria se provar uma
constante característica do front daquele momento em diante.
Instalado em Camaiore, o Capitão Ayrosa decidiu empreender uma
patrulha para a localidade de Casoli, para explorar o êxito da ocupação.
Outras companhias do regimento também executaram missões de
reconhecimento à frente da linha ocupada pelos brasileiros.
Assim, os primeiros quatro desertores alemães foram pegos no dia 20
de setembro, e no interrogatório prestaram informações sobre o pequeno
efetivo que defendia o Monte Prana. Pouco depois, mais dois soldados
italianos foram trazidos. Os seis jovens estavam maltrapilhos e mal
alimentados, mas mesmo assim eram os primeiros soldados inimigos que os
brasileiros viam de perto. Todos foram efusivamente fotografados, e as
imagens publicadas na revista Em Guarda, que era impressa nos EUA em
português e distribuída no Brasil. Esses homens foram apresentados à
imprensa como os primeiros prisioneiros de guerra feitos pela FEB. No
entanto, não foram capturados após um entrevero aproximado de armas de
infantaria; em vez disso tratavam-se de quatro jovens alemães e dois italianos
das novas divisões de Mussolini que, cansados de guerra e com medo de
75
morrer, desgarraram-se de suas unidades e perderam-se na terra de ninguém
aguardando uma oportunidade de passar para as linhas dos Aliados. As
fotografias da Em Guarda, se estudadas com calma, apresentam os
prisioneiros trajando paletós civis sobre os restos de uniforme que ainda
usavam – um subterfúgio utilizado para ajudar a despistar os próprios nazi-
fascistas que eventualmente pretendessem frustrar a tentativa de deserção.
Obviamente, nem todos alemães estavam tão mal motivados como os
quatro jovens pegos pela FEB nas proximidades de Camaiore. A 16ª Divisão
da Waffen-SS, a Reichsführer-SS, encontrava-se no setor do front confiado à
Task Force 45, que havia sido substituída justamente pelos brasileiros no dia
15. Os homens da 42ª Divisão Jäger, em especial, ainda levavam a sério a
tarefa de guerrear pela Vaterland e não mostravam nenhuma disposição de
permitir que a infantaria da FEB conseguisse galgar as alturas do Monte
Prana.
Embora a quantidade de alemães entrincheirados no morro fosse exígua
(metralhadoras, morteiros e um grupo de combate de fuzileiros), era adequada
para garantir a segurança da posição. Essa foi mais uma rápida lição
aprendida pelos brasileiros que estreavam no front: bastava assestar a pontaria
de armas como metralhadoras e morteiros em pontos que possibilitassem fogo
de barragem sobre os itinerários a serem utilizados pelos atacantes para que a
captura de uma elevação se tornasse difícil e custosa. Esses fogos que batiam
as áreas mais prováveis de avanço podiam ser efetuados por reduzidas
quantidades de homens que dispusessem do armamento adequado. Portanto, a
eficácia das fortificações alemãs não deveria ser julgada pela quantidade de
homens que as guarneciam, mas pelo tipo de armamento do qual dispunham e
pela forma com que tais armas eram empregadas no terreno.
Armas como morteiros e metralhadoras existiam em profusão nas
divisões de infantaria alemã. Ao travar os primeiros combates contra os
alemães nos Apeninos, os brasileiros aprenderam a respeitar duas armas: as
metralhadoras e morteiros dos inimigos.
76
Em suas unidades de infantaria, os alemães dispunham de dois tipos
mais comuns de morteiros: um de 5 e outro de 8 centímetros. Os números
indicam a medida da boca do cano da arma e o calibre das granadas. Os
morteiros eram especialmente úteis na guerra de montanha, pois disparam
suas granadas em trajetórias curvas, fazendo com que a tropa que é alvejada
pela arma não possa divisar de imediato a origem dos disparos e vice versa: a
guarnição da peça não precisava ver um alvo para efetuar o disparo – estes
podiam ser regulados a partir de cálculos antecipadamente preparados nas
cartas do terreno, ou por intermédio de um observador avançado que
transmite as coordenadas de tiro por rádio ou telefone. Em ambos os casos, os
defensores de Monte Prana estavam preparados: tinham um bom
conhecimento do lugar, além de poderem visualizar o avanço brasileiro de
cima da elevação. Assim, protegidos nas encostas dos morros, os alemães
fustigavam a tropa brasileira a centenas de metros de distância. As granadas
eram principalmente de fragmentação, que se repartiam em dezenas de
estilhaços pontiagudos ao atingir o solo. Um dispositivo de tempo podia ser
adaptado às granadas fazendo com que explodissem ao longo da trajetória,
causando a letal chuva de shrapnel – que os brasileiros pronunciavam como
sirape. Caso fosse requisitado pelos fuzileiros, os morteiros podiam também
disparar granadas fumígenas, que alastravam cortinas de fumaça úteis para
proteger avanços ou retiradas. No jargão da tropa brasileira, tanto as granadas
de artilharia como as de morteiro foram indistintamente apelidadas de
“mechas”.
No dia 21, o Destacamento FEB foi incumbido de prosseguir no
avanço e conquistar a linha de elevações dos montes Prana, Pedone e
Rondinaja. No avanço de 21 de setembro, o 6º Regimento de Infantaria
perdeu seus primeiros homens mortos em combate: o soldado Antenor
Ghirlanda (São Paulo, SP), da 9ª Companhia, Attilio Piffer (Amparo, SP) e
Constantino Marocchi (Campo Largo, PR), ambos da CPPII, vitimados por
estilhaços de morteiro disparados do Monte Acuto. Os nomes de filhos de
77
imigrantes e as cidades de origem revelam as características procuradas pelo
Exército Brasileiro na fase de organização da FEB: a tropa expedicionária foi
composta, principalmente, por jovens de áreas urbanas das regiões sul e
sudeste do Brasil. Era um contingente de homens com boa instrução escolar, a
vasta maioria alfabetizada, e em excepcionais condições de saúde.
A campanha nos Apeninos iria cobrar um preço alto da saúde dos
praças, graduados e oficiais que estivessem servindo nas unidades de
Infantaria: ainda no início do outono, os soldados brasileiros já começavam a
sentir os efeitos das intempéries do hemisfério Norte e as imposições de se
alimentarem principalmente com as rações em lata do tipo C durante os
avanços. Não que as rações americanas distribuídas à FEB fossem ruins –
pelo contrário, eram sempre superiores ao intragável rancho fornecido antes
da guerra.
As rações americanas traziam porções substanciosas de alimentos
calóricos, algumas saborosas até, mas o problema estava nos métodos de
conservação utilizados na década de 40, cujos ingredientes, insalubres para o
sistema digestivo, arrasavam o homem que passasse algumas semanas à base
de alimentação enlatada. Os bombardeios tornavam cada vez mais difícil o
fornecimento de ração preparada nas cozinhas das companhias de fuzileiros
para os homens empenhados nos avanços na linha de frente. E a cada
aproximação com o inimigo, os bombardeios alemães se tornavam mais
intensos.
Nas investidas seguidas à ocupação de Camaiore, a tropa brasileira
defrontava-se com os postos avançados da Linha Gótica, o sistema defensivo
de fortificações alemãs fincado entre a Itália central e o vale do rio Pó, que se
estendia por centenas de quilômetros em corte transversal sobre os montes
Apeninos.
O plano de ataque do dia 21 compreendia um avanço até os montes
Pedona e Rondinaja, em seguida um desbordamento pelo leste, que consistia
em contornar os dois montes pelo lado esquerdo e na seqüência progressão
78
diretamente até o Monte Prana, o que evitaria um avanço frontal sobre a
elevação. Coube à 7ª Companhia realizar essa manobra, entretanto, seus
fuzileiros foram detidos por fogo bastante pesado de uma elevação que
dominava parte do trajeto. O comando do Destacamento FEB então lançou
mão da 1ª e 2ª Companhias de Fuzileiros, que tentaram fazer um percurso até
o Monte Prana pela direção oeste. Após ocuparem mais alguns vilarejos, as
duas companhias fizeram alto nas proximidades do monte que era o objetivo
do ataque brasileiro desde a conquista de Camaiore. A guarnição de Monte
Prana continuava a fustigar tanto Camaiore como outros pontos agora em
mãos da tropa brasileira.
No dia 23 de setembro, a 6ª Companhia recebeu ordem de executar um
reconhecimento no vilarejo de Fiano. Um grupo de combate é destacado para
a missão, e, na exploração conduzida à frente, acaba trocando tiros com tropa
alemã e retorna com dois homens feridos.
Essas pequenas escaramuças cumpriam o papel de “estágio de
inoculação de combate”, para utilizar a terminologia asséptica dos manuais
militares. Os soldados feridos e mortos neste setor do front teriam objeções a
fazer quanto à classificação de “tranqüila” que a região recebeu por parte dos
comandos militares, mas é fato que o avanço do 6º Regimento de Infantaria
coincidiu com uma situação de retração geral dos alemães na Versilia.
A intensidade das reações alemãs aumentava em proporção aos avanços
brasileiros. No dia 24, a 7ª Companhia do regimento recebeu entre 70 e 80
granadas de morteiro em suas tentativas de avanço, e a 8ª Companhia recebeu
ordem de avançar sobre o Monte Prana. O 2º Tenente Gerson Machado Pires,
militar profissional recém saído da Escola do Realengo, estava à frente do 3º
pelotão da 8ª, escolhido para a missão.
Além da ordem verbal, Gerson recebeu do Capitão Los Reis,
comandante da 8ª, a confirmação escrita da orientação de galgar a encosta do
Monte Prana e ocupar o terreno. Pelo conteúdo da ordem, entendia-se que o
itinerário de avanço estaria livre da presença inimiga.
79
Gerson partiu liderando seus três grupos de combate. Contava também
com o apoio de uma seção de metralhadoras Browning M1917 A1, sob o
comando do 3º Sargento Samuel Silva, da CPPIII. Na vanguarda do III
Batalhão do 6º R.I., o grupamento prosseguiu pelas encostas das montanhas.
Depois de algumas centenas de metros, o grupo avistou dois homens de
uniforme cáqui, de calças curtas, que os observavam do cume de uma
elevação adjacente ao percurso do avanço brasileiro. Eles desapareceram
rapidamente por detrás da crista, ao perceberem que haviam chamado a
atenção dos brasileiros. A próxima coisa que o pelotão de brasileiros pôde
enxergar foi uma série de objetos incandescentes avermelhados, que se
cortavam o ar velozmente em sua direção.
A primeira rajada da Lurdinha atingiu um patamar de pedras frente a
uma das casas do pequeno povoado de montanheses que os soldados haviam
alcançado. A segunda caçou o Tenente Gerson, que teve tempo de correr para
trás de uma árvore com os projéteis levantando terra bem atrás de seu rastro.
O Sargento Samuel dava ordens para assestar suas metralhadoras nos
reparos, enquanto as rajadas das armas automáticas inimigas atingiam a
porção de terreno ocupada pelos expedicionários. Elas podiam ser nitidamente
discernidas no ar, que era cortado bruscamente por centenas de projéteis
traçantes. Samuel pôde ver claramente o Tenente Gerson escapar por
centímetros da rajada que o buscava, ao se abrigar atrás do grosso tronco da
árvore.
Os pelotões de fuzileiros e os de petrechos pesados retraíram ao
provocarem uma aguerrida reação inimiga. Embora ninguém tenha
comentado abertamente, houve certo incômodo em relação ao Tenente
Gerson, pois as aparências sugeriam que ele havia se desgarrado do percurso,
ou deliberadamente conduzido a tropa a um ponto além do estabelecido na
ordem de avanço. “Acharam que eu era maluco”, lembrou-se Gerson, ao
descrever seu retorno para as posições do III Batalhão. “Queriam me mandar
de volta para o Brasil, esse foi o comentário.”
80
Pouco depois de retornar, Gerson topou com o Major Silvino,
comandante do III Batalhão do 6º R.I. O oficial estava intrigado a respeito de
sua iniciativa de se deslocar além das linhas da vanguarda brasileira. Parecia
estar convicto de que o comandante do grupamento destacado para o avanço
tinha demonstrado falta de cuidado com sua tropa e uma disposição de correr
riscos que suscitava dúvidas sobre sua sanidade mental.
Gerson de imediato percebeu que havia se tornado foco de curiosidade
a respeito de sua competência para o comando. O Major Silvino inquiriu-o
sobre o itinerário percorrido, mas calou-se ao receber o papel emitido pelo
comandante da Oitava ordenando que o grupamento avançasse por locais à
frente da terra de ninguém. Silvino guardou a ordem escrita no bolso superior
da túnica e deu o caso por encerrado.
Mas para o soldado Artur Napolitano, um dos fuzileiros do 3º Pelotão,
a história ainda não chegara ao fim. O jovem paulistano do bairro do Ipiranga
sentiu-se exausto logo ao alcançar o objetivo do avanço, e deu um jeito de se
esgueirar para dentro de um estábulo assim que os pelotões se estabeleceram
no terreno. Incrivelmente cansado pelos dias de ininterrupta progressão,
Napolitano logo caiu em um sono pesado, indiferente aos companheiros que
aguardavam por ordens adicionais para o complemento da ação. O soldado
ignorou por completo os primeiros disparos das armas alemãs e a reação
brasileira, e permaneceu dormindo. Sua falta só foi sentida com o recuo do
grupamento à zona ocupada pelo III Batalhão.
Napolitano acordou depois de algumas horas. Saiu do estábulo e deu-se
conta de que estava só. Acabou passando dois dias a pão e água, fornecidos
pelos camponeses italianos que o abrigaram da tropa alemã e o avisaram
sobre o momento oportuno para voltar às posições de seu batalhão. A história
de Napolitano acabou virando uma espécie de folclore de guerra entre os
veteranos de São Paulo, que por anos a fio repetiram alegremente a narrativa
sobre a desventura do companheiro perdido atrás das linhas inimigas.

81
***

Camaiore tinha sido evacuada pela 2a Companhia, que avançara em


demanda de outro objetivo, e o 1o Pelotão recebeu ordem de ocupar a cidade
de imediato. O capitão Tavares recomendou que o pelotão providenciasse
locais para alojar o remanescente da companhia que viria em seguida. Félix e
Gonçalves foram encarregados de providenciar as acomodações, e
precederam a chegada de seus soldados.
Entrando na cidade, os dois oficiais caminhavam pelas ruas desertas de
Camaiore, sob um silêncio absoluto. Passando defronte a uma casa, escutaram
o som de um piano, que contrastava com o ar fantasmagórico da cidade
abandonada. Aproximaram-se da origem do som e verificaram que se tratava
de um solitário soldado brasileiro dedilhando o instrumento, interrompendo
insolitamente a lúgubre impressão de aridez que imperava na cidade.
Prosseguindo na missão de localizar um lugar para abrigar a tropa, os
dois tenentes cruzaram com um partigiano, um guerrilheiro irregular italiano.
Melhor dizendo: o homem ao menos estava vestido como um guerrilheiro,
com uma bandeira italiana enrolada em volta do pescoço e um arsenal de
armas: punhal, faca, pistola, metralhadora e granadas de mão penduradas pelo
corpo. De calça curta, roupa suja e cabelos compridos, representava bem a
figura típica dos partigiani, beirando um aspecto folclórico. Inquiriram o
homem a respeito do local para acolher a companhia.
“Você conhece algum armazém onde possamos abrigar nossa
companhia essa noite?”
“Não sei. Mas venha comigo. Vamos falar com o chefe de nossa
unidade.”
Acompanharam o guerrilheiro por uma das travessas, até o comando
dos partigiani que estava instalado na prefeitura da cidade. Subindo por uma
escada, depararam-se com os guerrilheiros que estavam sentados ao redor de
uma grande mesa no salão da prefeitura. Em torno da mesa, os partigiani se
embriagavam, com seu armamento espalhado ao alcance da mão.
82
Metralhadoras, granadas, pistolas e fuzis de todos os tipos imagináveis
compunham o arsenal daquele bando. Mais do que uma tropa combatente, a
impressão passada era que o local se tratava de um covil de criminosos.
Sentido-se pouco a vontade no ambiente, Félix e Gonçalves levantaram a
tampa de seus coldres e empunharam suas pistolas 45, para palestrar com o
chefe do grupo.
Era um homem de personalidade obtusa e burlesca, mas disse poder
providenciar solução para quaisquer necessidades da tropa, caso os brasileiros
pudessem fornecer rações em troca. “Se o comando brasileiro me der comida,
eu darei vinho”, sugeriu. Os tenentes retrucaram dizendo que a proposta
estava fora de suas atribuições naquele instante. Como as negociações não
renderam frutos, os dois tenentes trataram rapidamente de deixar o QG dos
guerrilheiros, ainda receando serem atacados pelo bando.
No retorno em direção ao pelotão, foram seguidos pelo partigiano que
os recebera nas ruas da cidade. O homem os chamou - “quero mostrar uma
coisa para vocês.”
Entrando em uma das vielas do pátio da prefeitura abandonada, os três
caminharam até um beco com um grande portão de ferro trancado em uma
das paredes. O partigiano pegou uma chave, abrindo o portão. A cena que se
seguiu chocou os dois tenentes. Os partigiani haviam encarcerado vários dos
habitantes de Camaiore dentro da prefeitura. “São todos fascistas”, disse o
guerrilheiro. “Amanhã, todos serão fuzilados”.
Dentro do galpão, os cidadãos se ajoelhavam, implorando por
clemência, negando as acusações de serem fascistas. O comportamento e
intenções do italiano causavam repulsa nos dois oficiais brasileiros.
Prosseguindo pelo corredor do prédio, no próximo cárcere improvisado
o partigiano disse: “agora vou lhes mostrar o outro”, abrindo mais uma porta.
Eram mulheres. Esposas, filhas e mães dos homens detidos no outro recinto.
“Isso aqui nós vamos oferecer para os brasileiros,” disse o partigiano com um
sorriso subserviente, pensando obsequiar os dois tenentes. Por serem
83
elementos precursores que se infiltraram antes da ocupação, Félix e
Gonçalves naquele momento não puderam tomar nenhuma providência para
impedir os partigiani de efetivarem o massacre.
Félix e Gonçalves retornaram imediatamente ao PC do batalhão,
informando ao comando sobre o que estava para acontecer em Camaiore.
Mostravam-se aflitos para impedir a atrocidade prestes a se consumar.
Informados pelo comando brasileiro, rapidamente os americanos enviaram
uma coluna até a cidade, resgatando os cidadãos, que foram levados a um
campo de triagem. Naquele local, as acusações de militância no partido
fascista seriam averiguadas, e os fascistas de fato seriam internados. Mas por
diversas vezes, os aliados não conseguiram agir a tempo de evitar as
execuções sumárias e indiscriminadas promovidas por algumas unidades dos
partigiani. Vivendo em um regime totalitário, qualquer funcionário público
italiano era obrigado a se inscrever no partido fascista para poder trabalhar.
Até mesmo as crianças eram obrigadas a participarem da Gioventú Italiana di
Littorio, um grupo de doutrinação infantil de caráter pára-militar. Assim
sendo, qualquer um podia ser acusado de fascista.
Depois da rendição parcial da Itália em 1943, as costumeiras
aclamações populares a favor de Mussolini vistas até então foram
repentinamente trocadas pelo entusiasmo em apoio à causa aliada. Diversas
unidades de partigiani existiam, como as Brigadas Garibaldi, Democrazia
Cristiana, Giustizia e Libertá e Stella Rossa.
Muitos italianos que desejavam escapar da conscrição do novo exército
republicano de Mussolini acabavam fugindo para as montanhas, onde se
agregavam às unidades guerrilheiras. Outros o faziam na plena convicção da
necessidade de libertar a Itália dos nazi-fascistas, tendo existido grupos de
partigiani que de fato ajudaram a libertação da Itália de forma significativa.
Mas um grande número de oportunistas e fanáticos políticos estava
envolvido com essas organizações. Outros eram ainda criminosos comuns
evadidos das prisões, que se aproveitavam da suposta condição de
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guerrilheiros para servir de fachada a suas atividades. Diversos ainda
abandonaram suas casas e se juntaram aos grupos de partigiani tão somente
escutaram o ruído das viaturas aliadas que se aproximavam para liberar suas
cidades, tornado-se combatentes de última hora.
Era vexaminoso presenciar as atitudes de alguns desses irregulares, que
covardemente espancavam e raspavam as cabeças de mulheres que tinham se
envolvido com soldados alemães. Mostravam-se corajosos contra mulheres
indefesas, mas era uma valentia que não se manifestava quando era necessário
engajar o adversário alemão bem armado e experiente em combates.
Enquanto o inimigo estava por perto, permaneciam indiferentes no conforto
de seus lares. Quando os aliados chegavam, penduravam todas as armas que
pudessem na cintura e promoviam a mais brutal violência contra seus próprios
compatriotas.
Sob acusações indiscriminadas de militância fascista contra muitos
cidadãos inermes, alguns dos grupos de partigiani perpetraram chacinas e
abusos por todo o norte italiano. Calcula-se em 100.000 o número de pessoas
assassinadas por essas organizações somente no ano de 1945, cifra superior ao
de italianos fuzilados por alemães em represálias ou mortos em bombardeios
aliados.
Camaiore continuava sendo bombardeada por morteiros alemães
posicionados em Monte Prano. Passando por Camaiore debaixo das granadas,
um grupo chefiado por Ferdinando Piske buscou contato com o inimigo na
montanha. No comando da a patrulha, Piske subiu os 1.220m de Monte Prano
à procura de alemães, no primeiro contato mais cerrado com o inimigo em
que o 1o Pelotão tomou parte. Foram hostilizados por metralhadoras postadas
em diversas casamatas escondidas na elevação, e Piske e seus companheiros
foram forçados a despencar para baixo sob o acirrado fogo. Monte Prano seria
conquistado dentro de alguns dias depois de uma série de escaramuças com os
alemães.

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Os alemães estavam recuando, deixando o Vale do rio Arno para trás
em favor da linha defensiva mais organizada no Vale do Serchio. Avançando
em busca de contato com o inimigo, a tropa brasileira ocupava cidades,
vilarejos e vilas recentemente abandonadas pelos alemães.
A 1a Companhia ocupava Camaiore, que tinha sido tomada numa
arrojada ação comandada pelo capitão Ayrosa, da 2a Companhia.
Ocupando a região de Buchignano, no dia 20 de setembro o 1 o Pelotão
reforçado pelos homens do Petrechos foi encarregado de tomar posição sobre
o Monte Pedona, a 1011 metros de altitude. A missão consistia em estabelecer
ligação com a 8a Companhia do III Batalhão.
Dando início à marcha, o efetivo se alongou montanha acima,
escalando as encostas por sete horas até que alcançassem o cume. Volta e
meia o tenente, à testa da coluna, virava para trás para olhar a longa coluna de
soldados que conduzia para uma posição que oferecia perigos ignorados. Era
um terreno desconhecido e inóspito.
Enquanto subiam, ao atingir a orla de um bosque, Gonçalves
determinou que um soldado se postasse de sentinela. Após cruzarem o
bosque, mais um sentinela foi colocado em posição na outra extremidade do
matagal.
Assim, com os sentinelas em pontos bem separados da encosta do
morro, teriam certeza de retornar pelo mesmo caminho da vinda, com a
vantagem adicional de os sentinelas garantirem a segurança contra patrulhas
inimigas.
Os dois pelotões chegaram ao ponto culminante do Monte Pedona às
18:00 horas. Apesar de constatarem tiros de armas automáticas que pareciam
vir do Monte Valimona, não localizaram na região ou circunvizinhanças
nenhum sinal de tropa amiga. Não foi possível estabelecer ligação com
nenhuma das companhias brasileiras na área. Tomando posição no cume do
morro, Félix e Gonçalves abrigaram-se num bangalô cheio de feno para
verificar a posição nas cartas. Era um fim de tarde e a noite se aproximava. A
86
escuridão caía com inesperada rapidez no outono europeu. Por volta de 18:30,
uma barragem de artilharia começou a fustigar o pelotão caindo a 80 metros
das posições. Foi necessário retornar antes que o inimigo conseguisse regular
a alça dos tiros.
Mas a noite já havia caído, surpreendendo aquela fração da 1 a
Companhia em terreno hostil. Apesar de contarem com as cartas do terreno,
os dois tenentes não podiam identificar o caminho de retorno em meio à
escuridão. Era impensável denunciar a localização da tropa acendendo as
lanternas em campo aberto. Nesse momento, a responsabilidade sobre a vida
daqueles 80 soldados recaía inteiramente nos dois oficiais que os chefiavam.
A preocupação em garantir o êxito do retorno era grande, e não havia outra
alternativa senão dar início à marcha de volta às posições brasileiras.
Fiando-se em seu senso de orientação, Gonçalves persignou-se em
regressar, ainda temendo tomar um caminho que os levasse na direção do
inimigo.
Ao começarem a descida para uma posição de menor risco, o soldado
Paulino Patrício se aproximou do tenente. “Pode deixar que eu oriento o
retorno do pelotão. Conheço o caminho.” Patrício era mato-grossense e tinha
familiaridade com deslocamentos em matagais. Destacando-se em sua atitude,
Patrício identificou as trilhas de acesso por entre um emaranhado de atalhos,
conduzindo o pelotão pelo caminho certo de regresso. Como Patrício
conhecia o caminho é uma pergunta que até hoje todos se fazem. Fato é que o
soldado guiou os dois pelotões para a segurança.
Depois de caminharem por algumas dezenas de metros, Félix mostrava-
se desesperado. Com a retirada já iniciada, percebera que tinha perdido sua
aliança de casamento dentro do paiol de palha. Recém casado, o oficial estava
resoluto: “Não vou voltar sem a aliança!”
Pediu a ajuda de Gonçalves para que o acompanhasse de volta até o
cimo do morro. Os dois tenentes voltaram para a posição há pouco

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abandonada, procurando o anel apressadamente. E conseguiram localizar a
aliança, no meio de uma pilha de feno sob a luz esmaecida dos flash-lights!
À meia encosta do morro, encontraram com o primeiro sentinela que
lançou a senha: “Alarm!”
“Clock! É o 1o Pelotão que está voltando!”
Em plena escuridão, desciam pelas escarpas difíceis e inexploradas em
fila indiana. Patrício ia na frente, identificando o itinerário do grupo. Para que
ninguém se perdesse no escuro, cada homem da coluna pegava a coronha da
arma do companheiro da frente enquanto trazia sua própria arma pelo cano.
Lembrando-se dos bons tempos passados em Taubaté no aquartelamento
inicial do I Batalhão, um soldado exclamou: “Eh, Taubaté, Taubaté!” Naquele
momento penoso vivido na linha de frente, aludia com saudades à cidade que
os acolhera com tanto carinho.
Continuando a descer, conseguiram, em meio a alívio geral, alcançar
uma posição de relativa segurança. “Muito bem, pessoal!” – exclamou o
tenente Gonçalves – “a guerra acabou por hoje.” A tropa acantonou por entre
o matagal, e na manhã seguinte, estavam todos de volta às linhas do I
Batalhão.
Logo nos primeiros dias de front, o pelotão recebeu o reforço de novos
integrantes. Os soldados Vicente Gratagliano e Maud Araújo de Campos
juntavam-se ao 1o Pelotão, em troca de soldados cujas habilidades eram
necessárias na retaguarda. Um dos homens do pelotão, que era barbeiro na
vida civil, passou a exercer sua antiga profissão no Posto de Comando da 1 a
Companhia. Para Gratagliano e Maud a barganha foi bem aceita, pois estavam
cansados do ambiente do PC. Além do mais, achavam maçante a função de
perambular com o Jeep da companhia em busca de aprovisionamento.
Gratagliano ficou encarregado do fuzil metralhadora do 3o Grupo de
Combate, e Maud foi enquadrado como um dos fuzileiros do pelotão.
Partindo de Buchignano, localidade vizinha a Camaiore, a 1 a
Companhia deslocou-se para Bagni de Lucca, onde 1o Pelotão recebeu a
88
missão de executar reconhecimento na região de Monte Cardoso, elevação
situada muito além das linhas brasileiras. Por baixo de chuva, o pelotão em
efetivo completo marchou por todo o dia em terreno desconhecido em busca
da localização do inimigo. A água escorria pela borda dos capacetes,
encharcava os uniformes e vazava pelas frestas dos combat boots.
Uma senhora de idade serviu de guia para a patrulha até onde o pelotão
não corresse perigo. Ao se despedir ganhou duas scatolettas da ração C, e
avisou que a partir do ponto em que deixava os soldados havia o risco de se
deparar com os alemães.
A um quilômetro de atingir o ponto assinalado, o pelotão se reuniu no
interior de uma capela abandonada, procurando abrigo temporário da chuva.
Enquanto planejavam o avanço, perceberam com surpresa a aproximação de
uma caminhonete. Devia ser um dos poucos veículos circulando em mãos de
civis pela Itália, pois além da escassez de combustível, os alemães haviam
requisitado todos os automóveis aos italianos.
Ao ver os soldados, o motorista parou e dirigiu a palavra ao tenente.
Sabendo que o objetivo da patrulha era o Monte Cardoso, o italiano alertou
sobre a presença de alemães na posição. Na hora das refeições, os alemães
desciam o morro para pegar comida com os italianos. O motorista fez uma
sugestão:
“O senhor deixe os homens aqui, quem couber dentro do caminhão vai
até lá para vermos qual é a situação”. Um dos grupos de combate subiu na
caçamba com o tenente ao lado do italiano na cabine.
Ainda sob chuva, no fim da tarde o grupo de combate alcançou um
casario ao pé do Monte Cardoso.
Os habitantes do vilarejo confirmaram as informações fornecidas pelo
proprietário do caminhão. Mostraram-se preocupados, pondo as mãos na
cabeça e exclamando, “I tedeschi arrivano!”
Em breve, os alemães desceriam para receber a alimentação. Se aquela
pequena fração do pelotão permanecesse para dar combate, o mais provável
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era que desaparecesse na linha de frente, já que todos estavam a vários
quilômetros das posições brasileiras, além de desconhecerem o efetivo do
inimigo na região.
Isolado e sem comunicação por rádio ou telefone, o pelotão seria presa
fácil. Escolhendo entre engajar o inimigo ou evitar o contato, a segunda
alternativa foi uma decisão adequada à circunstância. Dar combate aos
alemães naquela ocasião poderia resultar em perda desnecessária de homens,
ou até a captura e aniquilação do pelotão.
De qualquer forma, a finalidade da missão já tinha sido atingida, com a
confirmação da presença de alemães em Monte Cardoso. O grupo retornou no
pequeno caminhão, após aceitarem vinho quente oferecido pelas famílias do
local. Voltar para as linhas era a melhor opção que a situação apresentava.
No dia 12 de outubro, numa das casas dinamitadas pelos alemães em
Camaiore o pelotão se reuniu para uma fotografia. Chamando os soldados
para que se ajeitassem frente ao fotógrafo, o tenente se pôs no centro do
pelotão. Contrariado, Ferreira se negou a colocar-se ao lado de seus
companheiros pois outro soldado já tinha a bazuca em mãos. Ferreira
considerava a arma sua propriedade particular, e sendo um tanto genioso,
decidiu ficar de fora da imagem.
Animados pelo espírito de aventura, dois garotos italianos que se
agregaram ao pelotão também saíram na foto. Como muitos outros garotos,
gravitavam em torno dos soldados, fascinados pelas armas, uniformes e
equipamentos. Assemelhavam-se a mascotes do pelotão, vestindo alguns
restos de uniforme que tinham recolhido. Quando o pelotão precisou seguir
para uma frente mais perigosa, foi uma choradeira geral: os dois não se
conformavam com a necessidade de deixar a companhia dos brasileiros.
O patrulhamento era empenhado aos pelotões de acordo com uma
disposição de revezamento. No dia 22 de outubro, coube ao 3o Pelotão uma
missão de patrulha. Deveriam empreender reconhecimento nas proximidades
de Castel di Cascio. Às duas da madrugada, Barbosa saiu com seu pelotão,
90
completo com os três grupos de combate. Contavam com reforço no
armamento, tendo levada emprestada uma das metralhadoras de mão
Thompson do 1o Pelotão.
A preocupação com o 3o Pelotão era grande entre os soldados da 1a
Companhia. Pelas 9:00 horas, a patrulha já deveria ter retornado. Meia hora
depois, era possível escutar um intenso tiroteio nas imediações da região
explorada pela patrulha.
Todos na 1a Companhia aguardavam o retorno da patrulha com grande
aflição. O tempo ia passando, e até as 14:00 horas, nenhum sinal do 3 o
Pelotão regressar. Enquanto a preocupação com a volta dos companheiros
aumentava, os soldados vêem dois soldados alemães capturados sendo
conduzidos por um homem de outra companhia.
Interrogado sobre o destino da patrulha, o soldado relata que os
prisioneiros tinham sido feitos por outra patrulha. Mas acrescentou: “eu soube
que um tenente acabou de morrer lá na frente.”
Seria possível? Todos recusavam-se a acreditar nas informações dadas
pelo soldado. Mas pouco depois, o capitão Ventura, da Companhia de Obuses
do regimento, aproximou-se a bordo de um Jeep. Consternado, Ventura
confirmou a versão prestada pelo soldado: o 2 o tenente Barbosa, da 1a
Companhia, havia morrido num serviço de patrulha!
Eram três horas da tarde quando um caminhão parou em frente ao
prédio onde alguns dos homens da 1a Companhia se abrigavam. Correndo até
o sargento Arlindo que descia do caminhão, Gonçalves o inquiriu sobre o
tenente Barbosa. Dessa vez, não havia mais dúvidas. Barbosa realmente tinha
sido morto num tiroteio. Tomados por desgosto e abatimento, os patrulheiros
que conseguiram retornar então relataram o desenrolar dos acontecimentos.
A progressão da patrulha foi lenta e cuidadosa, mas ultrapassou o
objetivo assinalado. Passando pela vila de Cascio, Barbosa se deteve em uma
das casas. Vendo uma garotinha que lhe lembrava sua filha, brincou com a
criança enquanto conversava com a família. Antes de se despedir, tirou do
91
bolso uma foto de sua filha, mostrando-a aos pais da menina. Beijou a foto
antes de guarda-la no bolso e prosseguiu.
Às sete da manhã, o 3o Pelotão entrou na vila de Gallicano. Deram de
cara com um grupo de mulheres que se apavorou com a visão dos brasileiros.
“I tedeschi sono vicini! Attenzione! Sono molto vicini!”
Estavam surpresas em ver soldados aliados ali, tão próximos das
posições alemãs. Histericamente, tentavam avisar o pelotão brasileiro que
havia uma grande unidade alemã acantonada nas redondezas. Mas o
comandante do 3o Pelotão optou por ignorar os avisos, e meteu as caras na
direção do adversário com desassombro. Esbravejando imperiosamente com
os soldados que relutavam em prosseguir, pôs o pelotão em formação de
combate, com os três grupos formando um triângulo com o vértice recuado.
Nessa disposição avançaram mais 200 metros, completamente às vistas do
inimigo. Na total claridade da manhã, os alemães perceberam a aproximação
do 3o Pelotão com muita antecedência. Barbosa destacava-se à frente de seus
homens, sem o capacete de aço e vestindo uma capa de lã gaúcha sobre o
uniforme.
O alemães não se manifestaram, permitindo o avanço do 3o Pelotão até
uma garganta em forma de ferradura no vale de Castel di Cascio. Sem que os
brasileiros pressentissem, com o 2o tenente Barbosa na vanguarda, o pelotão
foi cercado por trás, para barrar a tentativa de recuo.
Entrando num celeiro de pedra, o tenente Barbosa colocou-se numa
janela. Puxou o binóculo, vasculhando o território em frente. Até que parou,
abaixando o binóculo e pegando sua carabina. Havia decidido fustigar os
alemães em suas posições.
Da janela da velha construção, Barbosa apontou e disparou na direção
do inimigo. Ao baixar a arma, foi instantaneamente atingido por uma bala de
fuzil no centro do rosto, disparada por um atirador de elite. Deve ter morrido
antes de chegar ao chão.

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Rapidamente o pelotão foi cercado pelos flancos. Rajadas de
metralhadoras e fuzis eram disparados de todos os lados. Parte dos homens se
abrigou numa cocheira, da qual foi expulsa à base de granadas incendiárias.
Percebendo o combate travado na região onde a patrulha deveria se encontrar,
a artilharia brasileira lançou uma barragem para proteger a retirada do
pelotão.
Mesmo desgastada ou ferida, a maior parte dos homens do 3 o Pelotão
conseguiu escapar do cerco, embora outros não tenham tido a mesma sorte. O
cabo Amynthas Pires de Carvalho havia se separado do pelotão e foi pego por
um oficial alemão. Foi levado para dentro de uma casamata, onde o
revistaram.
Enquanto era conduzido para a retaguarda, presenciou uma cena que
dizia muito a respeito do inimigo a quem os brasileiros estavam combatendo.
Um estilhaço de granada de morteiro se cravou na sola ferrada da bota
de um dos tedescos que escoltava o grupo de prisioneiros brasileiros.
Inopinadamente o homem se abaixou, retirou o pedaço de metal da bota,
examinando-o. Deu de ombros e jogou fora o estilhaço casualmente. “Eles
eram de uma fibra invejável”, recordaria Amynthas.
Pouco depois, Amynhtas juntou-se a outros homens da 1a Companhia
que também foram capturados na patrulha: o 3o sargento José Ferreira de
Barros Filho, e os soldados Mario Gonçalves da Silva e Guilherme Barbosa
de Mello. Os quatro foram levados para a Alemanha, e terminaram a guerra
como prisioneiros no Stalag VII/A. Na 1a Companhia, seus companheiros
ignoravam o destino dos integrantes do 3o Pelotão que não haviam retornado
da patrulha. O fim do tenente Barbosa só foi confirmado quando descobriram
sua arcada dentária e placa de identificação, dentro da construção incinerada
pelas granadas incendiárias.

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Capítulo 5: Contra-Ataque Alemão!

29 de outubro de 1944. A coluna de caminhões Ford e GMC fez alto às


portas da cidade medieval de Barga, desembarcando a infantaria do I
Batalhão. Em longa coluna por um, as companhias marcharam pela cidade
adentro.
Ao I Batalhão fora confiada a missão de dar continuidade ao esforço do
Destacamento FEB para, após a conquista de Barga pelo III Batalhão do
regimento, aumentar a pressão na direção da cidade de Castelnuovo di
Garfagnana, importante centro nervoso da defesa alemã na Linha Gótica.
Barga, de construção fortificada, é inteiramente circundada por muros
de pedra, material usado também na edificação dos seculares casarões da
localidade. Ferdinando Palermo, ao conversar com os italianos em Barga,
recebeu um recado que os alemães desejavam passar aos brasileiros. “Os
tedescos disseram que no inverno estarão de volta aqui!” - disse um
camponês.
No portal da entrada principal de Barga cruzaram com elementos do III
Batalhão que tinham ocupado a cidade. Eram soldados do pelotão do tenente
Túlio Campello de Souza, um dos companheiros da república em Taubaté, e
dos pelotões dos tenentes Gérson Machado Pires e Nestor Corbiziano.
Ainda sob pesada chuva, no interior intrincado da cidadela, a 1 a
companhia alcançou o posto de comando da 8a, pertencente ao III Batalhão do
regimento. O comandante da 1a Companhia inquiriu o capitão Los Reis, da 8a,
sobre as condições do front. Los Reis respondeu com um misto de rispidez e
indiferença. Não se dava com o capitão Tavares. A tropa prosseguiu na
direção da base de partida do ataque, em Sommocolonia.
Cada avanço ou operação de ataque do regimento era coordenado por
ordens gerais de operações, emanadas do IV Corpo de Exército Americano,
ao qual o Destacamento FEB estava subordinado.
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A O.G.O. número 15 determinava em primeira instância a conquista de
Lama di Sopra. Segundo a O.G.O. 15, o 6o R.I. recebera a missão “de
conquistar a linha Calomini – C. Casela – San Quirico – Cole – Cota 906 –
Lama di Sopra e cobrir-se fortemente na direção Leste. Este ataque deveria
ser feito em uma frente de 4 kms. 500 ms. continuando o R.I. a manter sua
frente de 12 kms.”
Passando por Barga, os homens da 1a Companhia passaram a noite em
Catagnana. Durante todo o percurso, foram visados pela artilharia alemã.
Marcha cansativa e perigosa. Recebem notícia de que haveria dificuldade no
suprimento de munição. Uma ponte estava rompida, o trajeto não permitia o
tráfego de veículos. O jeito era carregar o que se podia nas costas, e contar
com o remuniciamento dos soldados alpinos italianos, que com suas mulas de
carga, auxiliavam os aliados.
Os sargentos Guttemberg Melo, Caetano Tanese e Francisco Pereira da
Silva, comandantes dos grupos de combate do 1o Pelotão, comunicaram ao
tenente que os três GC estavam prontos para partir. Munição, armas
individuais e os fuzis-metralhadoras estavam em ordem. Poderiam começar o
avanço.
A quantidade de equipamento e munição que um soldado é capaz de
transportar num ataque é suficiente apenas para um breve combate e
manutenção do objetivo a ser conquistado. Além do peso de sua arma,
capacete de aço, fardamento, cantil, munição e ração de combate, o soldado
de infantaria tem que vencer encostas de elevações lamacentas e
escorregadias. Ao mesmo tempo deve se preocupar com o inimigo à espreita,
e se jogar apressadamente ao chão para escapar dos tiros de inquietação.
Alguns soldados sofriam ainda mais com o material que precisavam carregar:
eram os telefonistas e homens do pelotão de petrechos, transportando armas
que, desmontadas, pesavam até 20kg, além dos cerca de 30kg do equipamento
normal de cada infante. Armando Ferreira explicou a dificuldade de
transportar os rojões da bazuca do pelotão: “é uma arma que você não pode
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levar muita munição. Você tem que procurar um ponto crítico para usá-la,
porque são umas granadas um pouco compridas, e pesam um pouco”.
Os municiadores das armas automáticas e morteiros traziam pesados
cunhetes de aço com granadas e cintas de munição para metralhadora ponto
30 e carregadores para os pesados fuzis Browning.
Pouco se conversava. Extenuados pela marcha, às 04:00 da manhã os
atacantes começaram a galgar as íngremes escarpas que levam em direção ao
vilarejo de Sommocolonia, a 2,5 km de distância de Barga. Uma chuva forte
ininterrupta caiu por toda a noite e parte do dia seguinte. Espesso nevoeiro
dificultava a identificação das vias de acesso aos objetivos.
Pela primeira vez, o 6o Regimento de Infantaria tinha soldados da
República Social Italiana pela frente. Em setembro de 1943, o Rei da Itália
havia assinado um armistício em separado com os Aliados. Parte da Itália, no
entanto, permaneceu fiel a Mussolini e os alemães. Mussolini estabeleceu sua
nova sede do governo fascista republicano na cidade de Saló. Os fascistas
italianos tiveram que reorganizar seu exército, formando quatro divisões que
foram treinadas na Alemanha, além de ainda poderem contar com porção
significativa das forças armadas italianas que não tinham aceitado o
armistício. A maior parte dos soldados destas novas divisões era de jovens
conscritos, nascidos nos anos de 1924-25, mas um número relevante de
sargentos e oficiais haviam feito as campanhas da Abissínia, África e Rússia.
Acompanhando os soldados italianos do novo exército de Mussolini estavam
sargentos alemães experimentados em combates, ajudando a finalizar a
instrução ainda na linha de frente. As novas divisões italianas eram a
Monterosa, de soldados especializados em guerra de montanha; a Divisão San
Marco, de fuzileiros navais; a Divisão Littorio, de Granadeiros, e a Divisão
Itália, de Bersaglieri, uma espécie de infantaria de elite tradicional das
formações militares italianas. De todas, a Monterosa era a mais numerosa:
tinha 20.600 homens.

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Guarnecendo as posições circunvizinhas a Castelnuovo di Garfagnana,
estava parte da Monterosa (Batalhão Brescia), junto a um batalhão da divisão
de fuzileiros navais, que haviam chegado à região entre os dias 26 e 28 de
outubro. A tropa que defendia as posições atacadas pelos brasileiros pertencia
ao Batalhão Aosta da Monterosa. No total, eram 270 homens guarnecendo
4km de linha de frente. Os postos avançados dos italianos estavam diluídos
pela extensão da linha de defesa. Isso facilitou a infiltração e o cerco das
posições da Monterosa.
Os soldados italianos haviam substituído uma divisão de infantaria
ligeira alemã. O grosso dos alemães começava a se deslocar para o setor de
Bolonha, mas alguns elementos permaneceram junto aos italianos para
facilitar o reconhecimento do terreno.
A cidade de Barga tinha sido conquistada pelo III Batalhão do 6 o R.I.
nos dias anteriores. O efetivo inimigo era relativamente desconhecido na
região, e foi necessário empreender patrulhas para melhorar as informações
disponíveis sobre as tropas oponentes no setor. Artemiro Botossi, que tinha a
função de esclarecedor de seu grupo de combate, foi escalado para uma das
missões de patrulha no setor.
Na noite do dia 29, Botossi partiria sozinho das posições do pelotão
para reconhecer as posições inimigas. Como a missão se tratava de
observação, um número grande de homens em deslocamento poderia atrair a
atenção do inimigo pondo mais vidas ainda em risco.
Quando Botossi preparava-se para deixar as linhas brasileiras, o
sargento Pontes se aproximou, tomando-lhe o fuzil Garand, apoiando a arma
contra uma árvore. “Botossi, deixe o Garand encostado. Vai só com granada.
Assim se pegarem você, não matam.”
Acatando a estranha ordem do sargento Pontes, Botossi progrediu pela
terra de ninguém, mas sem perceber atravessou a linha principal de resistência
inimiga. Se deu conta de um movimento às suas costas, e voltando-se por
entre os arbustos, viu um soldado italiano sair de um abrigo para render um
97
companheiro em seu posto avançado. Assustado pela proximidade do
inimigo, Botossi pisou num galho de árvore ao tentar voltar velozmente para a
segurança das linhas brasileiras.
Os italianos e alemães abriram fogo em cima do soldado.
Ao escutar as rajadas, das posições do 1o Pelotão, seus companheiros
pensaram: “o Botossi já foi.”
Mas o esclarecedor conseguiu se abrigar nas curvas de nível feitas na
encosta do morro pelos agricultores italianos. Como os postos avançados
inimigos eram distanciados, Botossi conseguiu retornar, trazendo informações
sobre a disposição inimiga.
Naquele mesmo dia, uma outra patrulha do 6o Regimento de Infantaria
havia saído em busca de informações sobre as forças inimigas na região de
Treppignana. Vasculhando um bosque de castanheiros, a patrulha brasileira
conseguiu cercar um tenente e um sargento italianos do batalhão Intra da
Monterosa, que cumpriam missão de ligação. Os italianos, confundindo os
brasileiros com alemães, tentaram explicar que estava ocorrendo um engano.
Mas a resposta em ítalo-português da patrulha encerrou todas as dúvidas. O
tenente italiano disse que outra patrulha da Monterosa se aproximava, e o
sargento brasileiro destacou quatro homens para averiguar. Com os dois
prisioneiros sendo guardados por quatro brasileiros apenas, o tenente italiano
empurrou o soldado que o vigiava, conseguindo fugir. O sargento também
tentou escapar dos guardas, mas recebeu uma coronhada que o pôs
desacordado. Só iria despertar num hospital da retaguarda. Defronte a outra
das companhias do 6o R.I., mais quatro prisioneiros italianos se entregaram. O
comando já dispunha assim de algumas informações sobre o dispositivo
inimigo no setor.
Do Posto de Comando partiu a ordem de ataque para os três pelotões da
1a Companhia que seriam empregados, emitida no dia 29 de outubro:

98
“A 1a Cia. vai atacar no dia 30 as 07,00 h. as elevações, cota 906, ao
SW de La Rochette.
Dispositivo: 1o Pel. à direita.
2o Pel. à esquerda.
Petrecho leve e petrecho pesado: apoiando de cotas à frente
de Sommocolonia.”

O apoio de artilharia ficou a cargo da Companhia de Obuses do 6o


Regimento, 16 peças de artilharia pesada de uma bateria do Grupo de Obuses
de 105mm brasileiro, e dos morteiros de 81mm da CPP I. A base de partida
seriam as encostas a oeste de Sommocolonia. A ligação com o Posto de
Comando da companhia seria feita com os “hand talks” até onde fosse
possível, e depois por telefone e mensageiros. Naquela época, os rádios de
combate eram ainda incipientes, e a comunicação era dificultada pelos
acidentes do terreno.
Na base de partida, o coronel chefe do Estado-maior da Infantaria
Divisionária, intempestivo como o general que assessorava, esbravejou com
os tenentes da 1a Companhia. “Vocês ainda estão aqui? Nós estamos
atrasados! Vocês estão com medo de meia dúzia de vagabundos. A pau eles
saem de lá!”
Era fácil insinuar que os combatentes sentiam medo, proferindo
bravatas da segurança de um posto de comando. Na linha de frente, quem não
tinha “paura”? Os pelotões estavam sujeitos a baixas e contra-ataque.
Confrontariam um inimigo de efetivo e capacidade combativa desconhecidos.
O medo na guerra era uma reação normal e freqüente, advindo do instinto de
preservação e bom senso, mas não era sinônimo de ausência de coragem.
Seria presunçoso supor que a admissão da existência de tal sentimento fosse
motivo de vergonha. Quem desejava permanecer vivo sempre sentia medo e
agia de forma prudente em situações de combate. “Tinha que se controlar”,
recordou Botossi. “O medo também mata.”
99
Lembrando da orientação passada aos fuzileiros pouco antes da entrada
em linha, “bravura não é loucura.”
O desrespeito com o bem estar dos soldados foi adicional ao qualificar
os defensores da região como “meia dúzia de vagabundos”. Decerto,
menosprezar os inimigos de dentro de um confortável abrigo na retaguarda
era a noção de conduta em comando mais apropriada na concepção daquele
oficial.
A falta de tato dos responsáveis pela operação não se limitaria à
cômoda atitude do coronel. Enviaram o I Batalhão para a conquista da cadeia
de elevações sem um escalão de apoio e sem uma linha constante de
remuniciamento. Nem mesmo o comboio da comida foi mandado para as
posições nas cristas. Foi uma ação pautada pelo planejamento inconseqüente,
e a sensação era de que os oficiais superiores estavam mais preocupados com
seu prestígio pessoal e em fazer sala para os observadores recém chegados do
Brasil do que com a segurança dos homens que comandavam.
Os mais elementares preceitos de condução de um ataque foram
descurados pelos responsáveis pelo planejamento. Agiram como se
estivessem conduzindo uma manobra em Gericinó. Não providenciaram a
substituição da tropa atacante, que deveria ser ultrapassada por um outro
batalhão do 6o Regimento para dar prosseguimento ao avanço na direção da
cidade de Castelnuovo di Garfagnana. Era óbvio que um batalhão
imediatamente após ser empregado no ataque estava extenuado por um dia
inteiro de marcha morro acima, e tendo combatido, não seria capaz de
sustentar as posições e manter o esforço do avanço na direção de Castelnuvo.
Pelo contrário, o I Batalhão foi praticamente abandonado à própria
sorte.
Da base de partida, o 1o e 2o Pelotões de fuzileiros, junto ao Pelotão de
Petrechos da 1a Companhia mergulharam na ribanceira que os conduziria até
seu objetivo. Logo no começo, o caminho era uma acentuada queda de 300
metros atravessando o profundo vale por entre uma floresta espessa. Depois,
100
mais 700 metros de subida até chegar à cota 906. Sommocolonia era base de
partida também para a 2a Companhia, que executou um longo desbordamento
da crista para atingir a localidade de Lama di Sotto.
Chuva e frio se abateram sobre o 1o Pelotão enquanto galgavam
penosamente as escarpas. Ao se aproximarem do objetivo, a tensão era total.
Sabiam com certeza que encontrariam o inimigo pela frente. Mas ignoravam
quase totalmente seu efetivo, armamento e disposição para o combate. Nas
proximidades da crista, foi dada ordem de abandonar os caminhos mais fáceis
que levavam até o ponto culminante da elevação.
Embrenhados no mato para evitar as trilhas existentes na encosta da
montanha que certamente estariam minadas e enfiadas pelas metralhadoras
inimigas, os três grupos avançavam. “Você ia sempre pelo caminho mais
difícil, porque nos caminhos mais fáceis, você podia encontrar minas”,
lembrou Ferdinando Palermo. A vegetação era de pequeno porte mas cerrada,
o que oferecia boa cobertura.
Grupos de combate em posição, os homens do 1 o Pelotão se acercaram
do cume da cota 906.
Pouco antes do pelotão ganhar a crista da elevação, gritos de
alerta foram ouvidos pelos soldados que estavam mais à frente do
dispositivo de ataque. O soldado João Antônio da Silva gritava “alto!”
apontando seu fuzil para um ponto entre alguns arbustos. A
movimentação adiante causou expectativa nos integrantes do pelotão.
O sargento Tanese e os soldados Nelson Wood (conhecido como
“Sebinho”) e Gratagliano haviam surpreendido um ninho de
metralhadora dos italianos. Dois soldados alpinos da Divisão
Monterosa se projetaram de pé em meio aos arbustos e castanheiros,
com as mãos para cima e gritando: “cameratti! Cameratti!”.
Guarneciam uma metralhadora pesada. Com folhagens camuflando


Do italiano: Camaradas! Camaradas!
101
seus capacetes de aço enterrados nas cabeças, eram dois soldados
jovens e de físico avantajado, mas a sua reação à captura foi próxima
ao pavor. Os italianos tremiam e pediam para não serem mortos,
comportamento comum nos prisioneiros feitos em combate. A
perspectiva do tratamento após captura causava terror a qualquer
combatente. “Os italianos estavam a meio metro das nossas caras,”
lembrou Tanese.
Aproveitando o estado de ânimo combalido causado pelo
aprisionamento, Gonçalves inquiriu os prisioneiros em italiano.
“Quantos são?”
“Somos em sete na posição. Os outros estão próximos e não
devem demorar.”
Os grupos de combate continuaram subindo a montanha,
caminhando mais 50 metros até atingirem o cume.
De fato, poucos instantes após haverem feito os dois primeiros
prisioneiros, cinco outros soldados inimigos são surpreendidos em
outra posição, uma vez que pensavam ainda estar em segurança com a
cota em mãos de seus camaradas.
Novamente, os soldados italianos mostravam-se apavorados.
Um dos prisioneiros chegou a implorar: “pelo amor de Deus! Não me
mate! Quero voltar para minha mãe!” Eram garotos de 18 ou 19 anos
que Mussolini tinha arrancado de casa, para morrerem por uma causa
perdida em uma guerra que estertorava.
Armas, munição e equipamento caíram em poder dos brasileiros.
O tenente Gonçalves se apoderou de uma bela pistola alemã Walther
P-38, que passaria a usar na cintura até o fim da guerra.
Vicente Gratagliano, um dos homens que assaltou o abrigo dos
adversários, lembra-se ter invadido a posição inimiga com seus
102
camaradas e caído em cima do grupo de inimigos, pegos
repentinamente enquanto se entretinham num jogo de cartas,
resultado da bem empreendida infiltração do 1o Pelotão, que fez com
que os italianos acreditassem que os brasileiros haviam sido guiados
por gente do local.
Mais cinco prisioneiros caíram em mãos do pelotão, incluindo dois
graduados alemães da companhia que auxiliava a Monterosa. Do lado
esquerdo da cota 906, o 2o Pelotão sob o comando do tenente Halbout Carrão
assaltava um posto avançado inimigo, matando três dos defensores e se
aferrando ao terreno. Carrão registrou os acontecimentos em seu diário:
“O meu Pelotão chegou ao seu objetivo às 11:30 horas fazendo 10
prisioneiros alpinos italianos e matando outros 3 fascistas. Mandei pedir
munição e reforço.”
A 906 se encontrava finalmente ocupada, sem que houvesse baixas no
1o Pelotão. Já o tenente Carrão perdera um homem ferido. De acordo com seu
diário, “até às 17:00 horas a minha posição não era boa. Com um homem
gravemente ferido na cabeça (Sd 4539 - Alcebíades). Sob muita chuva e sem
reforço. Por isso resolvi retrair mais para baixo da elevação, onde passei a
noite numa casa, completamente guardado por uma seção de metralhadoras da
CPP I., que chegou finalmente às 17:30 horas. A munição ficou prometida
para o dia seguinte...”
Nos arredores da cota 906, as outras companhias do I Batalhão
também assenhoravam-se dos objetivos assinalados. Pelas 12 horas do
dia 30, parecia que a operação terminaria sem maiores contratempos.
Um sargento italiano, comandante de uma seção de morteiros
relatou a maneira com que o ataque brasileiro foi desencadeado:
“O Segundo Pelotão foi pego de surpresa, ao amanhecer. Não
pôde oferecer muita resistência: escutamos disparos, ordens gritadas, e
depois, o silêncio.”
103
Na tarde do dia 30, as outras duas companhias davam
prosseguimento à segunda fase da operação, partindo horas depois em
relação à 1a e 2a Companhias.
No flanco esquerdo da crista de elevações, os pelotões da 3a
Companhia – “A Melhor do Mundo”, segundo os soldados que nela
serviam - iniciaram a progressão ao redor das 15 horas na direção de
Colle e Battosi. Secundados por mais dois pelotões da 7a Companhia,
dirigiram-se para o Monte San Quirico. Em vez de permanecerem na
base de partida, o capitão Aldenor, da 3a Companhia, e Atratino, da
CPP I, participaram no ataque juntos a seus comandados.
O avanço do I Batalhão do 6o R.I., com o apoio da 7a companhia do
regimento, foi avassalador, levando os soldados alpinos italianos que
defendiam a cota 906 e adjacências de roldão. Atacando simultaneamente, as
duas companhias do regimento procederam a infiltração de forma perfeita,
surpreendendo vários postos avançados italianos. A avaliação emitida pelos
combatentes da Monterosa a respeito da ação brasileira julgou erroneamente
que todo o regimento tinha participado do ataque, pela forma eficaz e arrojada
com que o I Batalhão se portou na conquista da linha principal de resistência
inimiga.
Durante o avanço da 3a Companhia, o pelotão do centro foi
alvejado por homens de um pelotão do Batalhão Aosta. Tiros de armas
automáticas dominaram o cenário do combate. Ao ouvir a fuzilaria,
um grupo comandado por um tenente italiano do 1o Pelotão da 1a
Companhia do Batalhão Aosta, organizou-se rapidamente para ir ao
auxílio de seus camaradas que resistiam ao ataque da 3 a Companhia
do 6o R.I. O tenente italiano manejava uma metralhadora de mão,
disparando contra os expedicionários até ser fatalmente atingido por
um tiro de fuzil. Depois de abaterem o oficial italiano, os homens da 3a

104
e 7a Companhias prosseguiram na direção do Monte San Quirico.
Numa manobra de pinça, as duas companhias tomaram as elevações
circunvizinhas das mãos dos alpinos italianos, que combateram bem,
mas terminaram subjugados. Com mais algumas rajadas trocadas de
ambos os lados, outro dos objetivos caía nas mãos dos expedicionários.
O ímpeto do ataque custou 80 baixas à companhia italiana do
Batalhão Aosta, entre mortos, feridos e prisioneiros. A linha defensiva
inimiga começava a se desarticular, o que de pronto chamou a atenção
dos oficiais superiores italianos e alemães encarregados da região.
Apesar do êxito relativamente fácil em atingir o objetivo do
ataque, a situação estava longe de se apresentar tranqüila. Havia a
necessidade de organizar os pelotões para a defesa das montanhas,
pois as chances de um contra-ataque eram bastante iminentes. A
progressão do Destacamento FEB havia provocado uma brecha de três
quilômetros de profundidade por dois de largura no esquema
defensivo italiano.
Enquanto isso, no ponto culminante da cota 906, com os
soldados exauridos pelo dispêndio de energia na escalada das
íngremes encostas da montanha e elevações que tinham precedido a
chegada ao objetivo, ordenou-se aos prisioneiros que cavassem os
primeiros abrigos individuais. Ferramentas de sapa foram
rapidamente providenciadas e os italianos e um ou dois graduados
alemães enquadrados no grupo iniciaram a escavação no solo duro de
terra rochosa. Depois foram orientados a retirar os cinturões e
permanecerem deitados com as calças abertas, para impedir tentativas
de fuga, sendo vigiados por três soldados. Ainda tremiam de medo de
serem mortos.

105
Era comum que os soldados procurassem escapar de todas as
formas à tarefa de escavar seus abrigos quando percebiam que não
iriam permanecer por muito tempo numa posição. Inúmeras vezes,
apenas terminada a escavação de abrigos, o que levava pelo menos
uma hora de trabalho muito cansativo e ininterrupto, as unidades no
ataque recebiam ordem de proceder, o que fazia o árduo trabalho
haver sido executado em vão.
Não foi esse o caso na cota 906. A organização do pelotão, bem
enquadrado e protegido num plano de fogos que cobria as vias de
acesso às posições, foi preponderante no desenrolar dos eventos
subseqüentes. Os homens haviam se colocado pouco abaixo da crista
da montanha, no lado que se desdobrava em direção às linhas alemãs
e italianas, para dificultar serem atingidos por impactos diretos de
artilharia. O pelotão dispunha de um bom campo de tiro. À frente dos
abrigos escavados na contra encosta da 906, havia cerca de 50 metros
de terreno aberto, mas mesmo assim o campo livre à frente dos fox
holes ainda oferecia algumas dobras no terreno para a vantagem dos
eventuais atacantes. Espalhadas pela crista, muitos castanheiros e
árvores grossas, já desgalhadas pelos bombardeios, ofereciam eventual
proteção tanto para uma progressão inimiga como para a defesa da
elevação. O terreno era acidentado e cheio de obstáculos, tornando
ainda mais dificultosa a manutenção daquelas posições. Com os
abrigos principais postados na contra encosta oposta a Sommocolonia
e com o abrigo do telefone na outra extremidade do cume da cota 906,
no total a frente guarnecida pelo 1o Pelotão se estendia por 500 metros.
Providenciados os primeiros abrigos, os sargentos Piske e Tanese
escoltaram os prisioneiros de volta para a base de partida do ataque
em Sommocolonia junto a um pequeno grupo de soldados.
106
Após a consolidação das posições na cota 906, o Pelotão de
Petrechos da 1a Companhia deslocou-se para a frente com o tenente
Félix, reforçando a organização dos defensores sobre a elevação. A
curtos intervalos, o comandante da companhia entrava em contato
com os dois tenentes que se encolhiam dentro do raso buraco coberto
por duas lonas de barraca. Brincava dizendo piadas pelo telefone, que
não chegavam a animar ninguém. Noite adentro, puderam escutar
pelo telefone o som de uma sanfona tocada dentro do PC, onde
parecia estar em curso uma divertida festa.
Tomadas as medidas de segurança, o pelotão se preparava para
a passagem da noite sobre a cota 906. Já nos últimos dias de outubro, o
início do inverno apenino se fazia sentir. A noite foi passada em alerta,
e poucos homens conseguiram dormir. Fazia um frio “de bode”;
expressão que os integrantes do 1o Pelotão acharam adequada para
definir a temperatura enfrentada, que era ademais piorada por uma
torrencial tempestade de granizo. Em quatro homens num exíguo fox
hole onde mal cabiam dois, Félix, Gonçalves, Gomes e Borges passaram
a noite batendo os queixos por entre os pedriscos de gelo e acordando
sobressaltados de hora em hora. “Era um frio cortante”, recorda-se
Borges, “pois o inverno já estava começando.”
A brecha aberta na linha de frente causava preocupação no
comando inimigo. A doutrina defensiva alemã estabelecia que uma
Linha Principal de Resistência deveria ter postos avançados
esparsamente interligados, com pouco número de homens que
entretanto deveriam estar supridos de armas anticarro e
metralhadoras pesadas em profusão e bem municiadas. O
comportamento tático dos alemães consistia em contra-atacar o mais
rápido possível quando alguma posição importante na Linha Principal
107
de Resistência era perdida, para não permitir que seus adversários
articulassem um sistema defensivo a tempo de rechaçá-los. Para que
isso fosse possível, a parte mais forte do efetivo alemão sempre seria
encontrada numa linha secundária, disponível para que os oficiais
encarregados da defesa os alocassem as missões de reconquista da
linha principal.
Os oficiais inimigos responsáveis pelo setor, o general Carloni e
o coronel alemão Schirowsky, de pronto providenciaram os
preparativos para a tentativa de recuperar o terreno tomado pelos
brasileiros.
Chamaram rapidamente de volta ao setor tropa da 42a Divisão
Jäger alemã, que se preparava para seguir para o front de Bolonha,
assim como tropa da 232a Divisão de Infantaria que era a reserva tática
no setor. No planejamento do contra-ataque, informaram ao Batalhão
Brescia da Monterosa, uma companhia do Batalhão Aosta, um
batalhão do 25o Regimento Jäger da 42a Divisão e um batalhão do
1044o Regimento de Granadeiros da 232a Divisão Alemã de Infantaria
os objetivos que deveriam ser reconquistados aos brasileiros.
O batalhão da 232a atacaria o saliente do dispositivo brasileiro ao
lado do batalhão Brescia da Monterosa, entrando em contato com a 3a
e 7a Companhias. O ataque frontal ficaria a cargo do batalhão da 42 a
Divisão Jäger e de uma companhia de alpinos do batalhão Aosta,
engajando a 1a Companhia do 6o R.I. e depois se dirigindo para as
posições da 2a. Mesmo tendo em vista o efetivo reduzido dos batalhões
alemães, que possuíam entre 300 e 400 homens, o inimigo dispunha de
superioridade numérica avassaladora. Esses três batalhões inimigos
concentraram seus esforços sobre as quatro companhias brasileiras
incompletas, duas das quais tinham deixado um de seus pelotões na
108
base de partida. Do lado brasileiro, havia a vantagem de terem sido
acompanhados pela Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão,
que se fragmentara no apoio ao escalão de ataque.
Enquanto os oficiais inimigos davam prosseguimento à
preparação do contra-ataque, um tenente da 1a Esquadrilha de Ligação
e Observação, recém chegado à Itália, estava desejoso para começar a
exercer sua função. Os pequenos aviões Piper Cubs, teco-tecos usados
para a observação aérea das posições inimigas, ainda não haviam sido
fornecidos à esquadrilha brasileira. O único avião disponível para
auxiliar na ação era o aparelho pessoal do general Mascarenhas.
No posto de comando na retaguarda, o tenente de artilharia que
cumpria a função de observador aéreo inquiriu ao general se seria
possível utilizar a aeronave para auxiliar na missão de observação do
ataque do I Batalhão. Fosse por egoísmo, ciúmes ou medo de perder o
aparelho, o pedido do tenente esbarrou no desdém do comandante da
FEB. A resposta do general foi lacônica e categórica:
“Não.”
O tenente observador, no entanto, não desistiu de seu intento, e
conseguiu embarcar em um avião de observação americano. Teve que
contar com a generosidade dos aliados em vez da compreensão do
comandante da divisão que a essa altura já se completava na Itália,
embora os dois outros regimentos até então não houvessem sido
empregados na linha de frente.
Sobrevoando a região de Castelnuovo di Garfagnana, o tenente
avistou do céu um fremente movimento de viaturas atrás da linha de
contato inimiga. Caminhões iam e voltavam para a retaguarda
imediata dos alemães e italianos, descarregando tropas em efetivo
considerável, fazendo com que o tenente observador comparasse a
109
movimentação a um formigueiro. O tenente chegou mesmo a
identificar a tropa pelo binóculo:
“Era tropa alemã com a cor cinza característica de seus
uniformes,” conforme escreveu em suas memórias de guerra.
Ao retornar, o tenente observador transmitiu sua observação,
alertando o comando brasileiro a respeito do reforço inimigo enviado
para o setor. Um dos coronéis que acompanhava a operação retorquiu
ao tenente, espezinhando-o:
“Deixe de sonhar acordado.”
Enquanto o comando brasileiro da operação subestimava o alerta
do tenente da 1a ELO, toda a artilharia e morteiros inimigos
disponíveis no setor aprontavam-se para concentrar seus fogos sobre a
tropa brasileira na preparação do contra-ataque.
A operação inimiga foi iniciada às 2:30 da madrugada do dia 31
de outubro.
Na escuridão da noite, o receio dos homens se fez efetivar ao
escutarem os disparos na área de Colle-Battosi, setor confiado à 3a
Companhia do 6o R.I.
A frente do ataque era demasiado extensa para ser guarnecida
por apenas quatro companhias. Com os pelotões brasileiros muito
distanciados entre si, dois pelotões da 1a Companhia do Batalhão
Aosta, um pelotão do Batalhão Brescia e o batalhão do 1044o
Regimento 232a Divisão fizeram frente à 3a Companhia.
Quem primeiro sofreu o impacto do contra-ataque foi o pelotão
do tenente Fagundes, que ocupava a localidade de Battosi. O pelotão
se retirou depois de breve troca de tiros, por volta das 3 horas da
madrugada.

110
No Monte San Quirico, para a esquerda da área atacada no
decurso da madrugada, estavam os pelotões da 7a companhia que
acompanharam o I Batalhão. Atacado pelo flanco por tropa italiana, o
tenente Rui também decidiu se retirar, e o inimigo procedeu na
direção do pelotão do aspirante José Jerônimo de Mesquita, que trocou
tiros com os atacantes.
Para a direita do dispositivo brasileiro, ultrapassando as
posições da 3a, os atacantes chegariam a se entrechocar com o casarão
onde o posto de comando da companhia havia se estabelecido. A esta
altura, o flanco esquerdo da linha organizada no ataque se havia
desintegrado. Não havia uma clara divisão de onde se localizavam os
alemães e italianos e os fuzileiros das 3a e 7a Companhias. Patrulhas de
ligação brasileiras se chocavam com elementos inimigos ao percorrer a
distância entre um e outro pelotão.
Cercada pela tropa inimiga, depois de violento combate, o
restante da 3a companhia retraiu para Albiano.
Na cota 906, o 1o Pelotão e os demais homens da 1a companhia
escutaram então a eclosão do estampido de dezenas de armas automáticas
misturados a explosões de granadas de mão. Para o lado direito da crista de
elevações, a 1a e 2a Companhias estavam melhor posicionadas no terreno.
Firmes nas posições, esperavam seu quinhão do contra-ataque.
Os pelotões de fuzileiros da 3a retraíram depois de sobrepujados
no combate, restando apenas duas seções de metralhadora do pelotão
de petrechos abrigadas dentro de uma casa 300 metros à frente do
posto de comando onde se encontravam os oficiais. Dois soldados do
petrechos retornaram ao posto de comando para buscar mais
instruções. Sem ligação telefônica e com o rádio destruído, os oficiais
aconselharam os dois homens a chamarem o pessoal do petrechos de
111
volta para a base de partida. Sob bombardeio e rajadas esporádicos, os
dois homens do petrechos da 3a Companhia retornaram para a frente.
Preferiram voltar para o lado dos companheiros e avisá-los da retirada
do que abandoná-los. Logo mais, todo o grupo seria cercado, tiroteado
e capturado.
No decorrer da noite, enquanto verificava a instalação de seus
grupos de combate, o aspirante Mesquita tombou morto ao pisar
numa mina. O 2o sargento Romano o substituiu no comando do
pelotão e sustentou a situação.
O avanço alemão prosseguiu durante a noite. Pelo final da
manhã, um grupo se deparou com o posto de comando da 3a
Companhia instalado no casarão.
A construção de rochas, com uma das paredes embutida no
barranco, facilitou a entrada dos inimigos. Conseguiram invadir a casa
subindo na encosta do morro e penetrando pelo telhado. Ocuparam o
piso superior da casa onde estavam os oficiais e alguns soldados.
Ao escutar o ruído, o capitão Atratino foi verificar do que se
tratava. Sua recepção foi uma rajada de metralhadora que transfixou a
parede, disparada do cômodo da casa já dominado pelos alemães. No
andar de cima, outros inimigos procuravam alargar uma brecha pelo
teto, por onde tentavam jogar granadas de mão, no que conseguiram
matar um sargento. O combate foi travado dentro do próprio posto de
comando da 3a companhia!
Mas os capitães Aldenor, Atratino e o tenente Pinto Duarte junto
a um pequeno grupo de comandados continuaram sitiados dentro do
casarão. Vendo-se sem possibilidade de prosseguir combatendo,
procederam na evacuação do posto de comando. A única rota de fuga
era uma janela, e enquanto os praças saltavam para fora, os oficiais se
112
encarregaram da cobertura. Os dois últimos a saltar foram Pinto
Duarte e Atratino, que disparavam suas Thompson para que os
soldados se afastassem com segurança. Saltando enfim pela janela,
Duarte foi atingido por uma rajada nas pernas. Foi socorrido
imediatamente pelo capitão Atratino, que arriscando-se a levar balas,
arrastou-o até um ponto fora de vista do inimigo. Duarte sangrava
copiosamente e dava sinais de estertor. Temia perecer sem o conforto
de um companheiro. Atratino acomodou o tenente Duarte o melhor
que pôde numa dobra do terreno e prometeu retornar para resgatá-lo.
O tenente Pinto Duarte tinha sacrificado a própria vida para garantir a
evacuação segura de seus subordinados. Atratino não ficou atrás na
sua demonstração de consideração pelos comandados, arriscando-se
igualmente para salvar Duarte e proteger a retirada dos soldados que
defendiam o posto de comando.
O armamento e a tropa de especialistas utilizados pelos alemães
na operação merecem atenção especial. A infantaria alemã era
organizada de forma diferente da doutrina americana, tanto
esquematicamente como em questões de comando.
Em primeiro lugar, todo o poder de decisão tática estava
centralizado nas mãos de graduados e oficiais subalternos. O escalão
superior alemão se preocupava apenas em assinalar o objetivo e
prover os meios de combate.
Os alemães levavam grande vantagem no que diz respeito ao
armamento de infantaria. Privilegiavam o uso de armas automáticas,
que eram relativamente limitadas nas mãos dos exércitos aliados se
comparados com as armas disponíveis aos grupos de combate
alemães. Em 1944, a Wehrmacht dispunha de fuzis de assalto, capazes
de disparar rajadas. Cada grupo de combate de 9 ou 10 homens
113
contava com uma metralhadora MG-42 (que os brasileiros apelidaram
de “Lurdinha”, sabe-se lá por quê). Era uma arma versátil e de alta
cadência. Dependendo do tipo de reparo podia ser usada como
metralhadora anti-aérea, leve ou pesada. Para comparação, enquanto
as Browning ponto 30 e os fuzis automáticos BAR usados pelos
brasileiros disparavam cerca de 650 tiros por minuto, as metralhadoras
alemãs dos modelos MG-34 e 42 chegavam aos 1.200 disparos por
minuto.
Além do vasto poder de destruição, essas armas tinham um
efeito psicológico muito arrebatador sobre os homens que alvejavam.
Sem exagero, uma rajada certeira decepava um membro ou cortava
um homem pelo meio. Além das Lurdinhas, os alemães usavam as
metralhadoras de mão MP-40, também de alta cadência, e uma
variedade de fuzis de repetição do modelo Mauser 98K e semi-
automáticos, como os modelos G41 e G43.
A principal tropa empregada no contra-ataque provinha de uma
divisão ligeira. Isso significa que era uma tropa especializada para luta
em montanhas ou em qualquer outro tipo de terreno difícil, como no
caso da cota 906. Essas unidades eram preferencialmente equipadas
com os melhores armamentos de infantaria disponíveis. Embora os
alemães estivessem na defensiva em todo o fronte europeu, tinham
conservado várias divisões intactas na Itália. Os Aliados não haviam
infligido grandes baixas aos adversários, que desfrutavam sempre das
melhores e mais protegidas posições a cavaleiro dos atacantes. Embora
muitos soldados alemães estivessem alquebrados depois de quatro ou
cinco anos de guerra, sabiam combater com maestria. Haviam tido
pela frente poloneses, franceses, russos, ingleses, americanos e agora
iriam se embater com os brasileiros.
114
Enquanto os homens do 1o pelotão eram alertados para a
situação que se complicava para os lados da 3a companhia, o 3o Pelotão
da 1a companhia permanecia na base de partida junto ao capitão. O
sargenteante da 1a Companhia, 1o sargento Bento Manuel, tinha
assumido o comando a título provisório, e os soldados ainda não
tinham se refeito moralmente do combate do dia 22 de outubro que
ocasionara a morte do tenente Barbosa.
Preocupado pelo pequeno número de combatentes disponíveis
para defender adequadamente a área da iniciativa inimiga em
reconquistá-la, o tenente Gonçalves até então não tinha conseguido
convencer, pelo telefone de campanha, o comandante da companhia
da necessidade de enviar o 3o Pelotão para reforçar o dispositivo que
brevemente seria alvo do contra-ataque. Pelas 10 da manhã, a fuzilaria
ainda pipocava no setor à esquerda, com os tiros da “rasga papel”
alemã sobressaindo-se.
Em concomitância com os pedidos de envio do 2o e 3o Pelotões,
os alemães desencadearam um pesado bombardeio à retaguarda da
cota 906, para impedir o envio de ajuda. Felizmente a alça dos tiros
tinha sido calculada para além dos fox holes. Botossi observou o efeito
das granadas alemãs que explodiam: “você olhava para as árvores, era
a mesma coisa que formigas tivessem cortado as folhas. Tremia até o
chão rapaz!”
A essa altura pela uma da tarde, por detrás das copas das
árvores e telhados visíveis nas elevações a algumas centenas de metros
à frente dos pelotões da 1a Companhia, vislumbravam-se alemães
pulando das carrocerias de veículos.
Desesperadamente, tiros eram pedidos da cota 906 visando o
local de reunião do inimigo em sua base de partida. A próxima ação
115
do inimigo já estava clara e delineada na cabeça dos oficiais da 1 a
Companhia que ocupavam a crista. Sabiam dos acontecimentos da
madrugada com a 3a companhia e que o inimigo matara alguns e
prendera outros. Estavam pressentindo que os alemães deveriam
proceder na limpeza do espigão frente a Castelnuovo di Garfagnana.
As posições do 1o Pelotão e do Pelotão de Petrechos haviam sido
melhoradas na expectativa da continuação da ação. Naturalmente,
Félix e Gonçalves esperavam o recebimento de munição e reforços
para os dois pelotões. Mas receberam informação de que a caravana de
munição trazida pelos alpinos italianos tinha sido bombardeada,
perdendo sua carga e condutores. Isso não justificava a inoperância do
comando em não enviar mais munição previamente ao contra-ataque.
Foi então que a algumas centenas de metros da cota 906, do lado
das posições alemãs, os expedicionários avistaram foguetes de
iluminação atravessando o céu. Sinais luminosos verdes, azuis e
amarelos se entrecruzavam coordenando a progressão da tropa
atacante.
De um ponto mais elevado no cume da cota 906, o 3 o sargento
Epapharol Silveira, no comando de uma seção de morteiros de 60mm no
pelotão de petrechos do tenente Félix, avistava uma incessante movimentação
de tropa em meio à vegetação de pinheiros e castanheiros a algumas centenas
de metros à frente. Organizada em formação de ataque, a infantaria que
avançava em direção às posições em mãos do I Batalhão, de vez em quando
desaparecia, protegida pelas ondulações do terreno. Um pouco atrás da linha
de soldados que avançavam, Silveira divisou guarnições de morteiros e
metralhadoras pesadas montando suas armas sobre os reparos.
A tropa que progredia na direção dos brasileiros vestia uniformes de cor
muito semelhante aos seus, de um tom cinza esverdeado. Oficiais e

116
graduados vinham à frente, agitando pistolas e submetralhadoras para
incentivar o restante dos atacantes. No lugar dos capacetes de aço recortados
em torno das orelhas, traziam à cabeça bonés de lã com abas que se estendiam
sobre os olhos. Na manga direita dos uniformes e na aba dos bonés, tinham o
distintivo das três folhas de carvalho das tropas de infantaria de montanha.
Pertenciam a um batalhão do Jäger-Regiment 25, da 42a Divisão Jäger.
A tensão era crescente entre os soldados da 1a companhia. Com o suor
escorrendo pela fronte, alguns faziam as últimas verificações em suas armas,
apertando com grande expectativa em suas mãos as coronhas de suas
metralhadoras, carabinas e fuzis.
Percebendo a aproximação do combate, o 2o Pelotão, posicionado na
encosta abaixo da cota 906, reiniciou a escalada em direção aos fox holes
situados na crista. O capitão Tavares, depois de reiterados pedidos, tinha
acedido o retorno do tenente Carrão e seus soldados. Gonçalves enviou o 2o
sargento Pontes, auxiliar do pelotão e seu eventual substituto, na missão de
ligação com pelotão de Carrão. Mas o homem não cumpriu a missão,
enfiando-se num buraco até o fim da ação. Depois do combate, Pontes acabou
na cozinha.
O assalto aos postos avançados brasileiros foi precedido de uma
barragem dos morteiros alemães há pouco instalados. Granadas de 50 e 81mm
chegavam silvando e explodiam ao atingir o solo e os galhos e troncos dos
castanheiros. Uma das granadas atingiu um dos fox holes em cheio,
projetando a lona de barraca que servia como cobertura a vários metros de
altura. Os expedicionários, protegidos em seus fox holes, se abaixavam para
evitar os estilhaços mais próximos e permaneciam atentos aos lances
seguintes da refrega.
Por deliberação do acaso, o pelotão do tenente Carrão atingiu suas
posições na cota 906 justamente ao mesmo tempo em que a primeira vaga de
ataque inimigo se aproximava para dar combate. De forma célere e em meio a

117
apuros, o 2o Pelotão se pôs em posição no terreno, ao lado esquerdo do 1o
Pelotão e o Pelotão de Petrechos.
Com o retorno do 2o Pelotão para a cota 906, dois esclarecedores foram
à frente, verificando a existência de inúmeros abrigos inimigos aparentemente
abandonados na contra encosta. Suspeitando da presença dos inimigos, Carrão
mandou que o soldado Lauro, um dos esclarecedores, examinasse o interior
dos abrigos sob a proteção dos três FM do 2 o Pelotão para tirar as dúvidas.
Enquanto Lauro voltava para observar o interior dos abrigos, granadas
inimigas começaram a silvar por cima do pelotão. Um bombardeio de
morteiros 81mm alemães começara a ser disparado na direção de
Sommocolonia.
Lauro foi o primeiro elemento do 2o Pelotão a tomar contato com o
inimigo. O soldado prosseguiu rastejando por 30 metros, até se avizinhar de
uma posição inimiga. Foi surpreendido por um soldado alemão que surgiu de
um abrigo, apontando-lhe o fuzil e chamando-o para que se aproximasse da
posição. Mas o soldado Ramão, que observara o avanço de seu companheiro
Lauro, pôs o inimigo por terra com um certeiro tiro de fuzil.
Segundo escreveu o tenente Carrão em seu diário, “este tiro de fuzil
serviu para a abertura de um violento fogo de armas automáticas sobre toda a
companhia na cota 906. Tratava-se de um violento contra-ataque alemão com
granadas de mão, fuzil, metralhadoras pesadas, metralhadora de mão e
morteiros. O inimigo atirava e progredia rastejando. Concitei o pelotão com
energia, para não se retirar e abrir fogo, no que fui atendido prontamente.”
Pouco a pouco, frente aos pelotões da 1a Companhia, os vultos iniciais
divisados ao longe, em meio à fumaça das explosões e terra deslocada,
transformavam-se em figuras nas quais de tão próximas que estavam
deixavam ver até mesmo detalhes de uniformes e feições faciais.
No 1o Pelotão, o sargento Piske percorria recurvado as posições
de abrigo em abrigo, aconselhando os soldados. “Cuidado! Deixem os
homens chegarem perto antes de atirar.”
118
Os tedescos, veteranos experimentados, comportavam-se de forma
temerária. Progrediam em lances procurando ocultar-se no relevo, encurvados
e disparando metralhadoras e fuzis semi-automáticos em apoio mútuo aos
demais grupos que avançavam. As rajadas passavam sibilando, atirando
torrões de terra e lascas de pedra para cima, atingindo pontos ao redor do
pelotão bem abrigado no terreno. Quando parte da tropa chegava mais
próxima dos brasileiros, era a vez de atirar para proteger o lance do resto dos
atacantes. Uma das visões mais marcantes da ação foi uma dupla de alemães
que carregava uma metralhadora Lurdinha nas mãos. Enquanto o atirador
avançava, outro soldado o acompanhava lado a lado alimentando as cintas de
munição da arma.
Até então, nenhum tiro havia partido das posições brasileiras.
Segundo Tanese, “não tinha condições de levantar a cabeça. Era bala
por tudo quanto é lado.”
Quando a primeira vaga de ataque alcançou 30 metros de
distância dos fox holes, o 1o Pelotão abriu fogo.
Palermo definiu o efeito da abertura do fogo entre a tropa alemã:
“Foi uma carnificina.”
Tanese gritou para que Gunha e Botossi começassem a jogar suas
granadas de mão contra os alemães. O 3o sargento pegou a primeira granada
de mão e pensou: “seja o que Deus quiser!” Juntamente com o sargento, os
dois soldados lançaram uma barragem de granadas em frente aos inimigos. O
FM do 1o Grupo de Combate estava com o soldado Benedito Vieira da Silva
Filho.
“Dito! Mete bala nesses filhos das putas!” Meio na gozação, o soldado
molhou a ponta do dedo com saliva e passou na alça de mira do FM. Dito
mirou para a frente e abriu fogo. Os soldados Padilha e Alvino também
atiravam com seus Springfields. Os alemães não conseguiram acessar aquela
parte da crista.

119
De cada abrigo na cota 906 partiam tiros cuidadosamente mirados
contra os atacantes. Debaixo de alentada pressão os soldados deveriam manter
a calma: esperar a aproximação do inimigo, mirar e ter certeza de disparar as
armas para acertarem. Não se podiam dar ao luxo de utilizar a preciosa
munição restante para simplesmente barrar as possíveis vias de avanço: cada
tiro disparado deveria causar uma baixa no lado alemão.
Tropas com disciplina de fogo tão bem regulada são geralmente
experientes, com anos de combate nas costas que permitem o controle dos
nervos em situações extremas, como sustentar uma posição com pouca
munição frente a um assalto de infantaria inimigo em superioridade numérica.
Naquele dia, os homens da 1a companhia combateram como se fossem
veteranos de várias campanhas.
Piske, Gonçalves e Félix revezam-se na regulação dos disparos
de artilharia. Com o torso para fora do fox hole e a carta da região
aberta sobre as pernas cruzadas, Félix se arriscava para direcionar o
bombardeio. Cumpria a função do tenente observador da artilharia,
que preferira permanecer longe da linha de frente, junto com o
comandante da 1a Companhia...
Mas segundo Piske, os disparos estavam sendo ineficazes, pois
os alemães haviam chegado muito perto das posições brasileiras: “os
tiros caíam muito atrás do morro lá adiante, e por mais que eu
mandasse encurtar, de nada adiantava.”
Gritos frenéticos de “auf, auf” dos graduados alemães podiam ser
distinguidos em meio à fuzilaria. Era impressionante assistir o modo
desassombrado com que avançavam, aparentando não temer terem seus
corpos retalhados pelas rajadas e estilhaços. Foi como se os alemães
estivessem tentando pegar seus adversários à unha.
Sentindo o impacto do fogo brasileiro, a primeira vaga de ataque alemã
foi rechaçada, e os Jägers retraíram para além da linha de visão das posições
120
brasileiras na contra encosta da 906. Enquanto se refaziam, mais foguetes
luminosos foram lançados para chamar reforços.
Atento aos próximos lances, o comandante do 1o Pelotão movia-se de
abrigo em abrigo para encorajar a tropa e dirigir o fogo das armas
automáticas. Entre um lance e outro, tentava restabelecer o contato com o
comando da companhia pelo telefone de campanha, pedindo mais munição.
Dividindo-se entre as tarefas de regular a alça da artilharia, manter o
contato com o posto de comando e orientar a tropa, sargentos e tenentes
percorriam os fox holes gritando energicamente.
“Deixa os homens chegar! Atirem para matar! Não atirem à toa!”
Sob novos alentos a segunda vaga de assalto se iniciou em meio a novo
bombardeio inimigo.
Deitado atrás de uma touceira de arbustos, o sargento Epapharol
Silveira regulava os disparos da seção de morteiros. Repentinamente, um
enorme estilhaço podou os galhos da planta a sua frente. De acordo com
Silveira, “aquilo parecia o facão do Caxias”.
Os soldados alemães que atacavam a cota 906 subiam as escarpas em
pequenos grupos. De início, viam-se suas cabeças e à medida em que subiam,
colocavam-se de corpo inteiro sob as vistas dos expedicionários
entrincheirados. Enquanto os alemães cobriam seu avanço pelo volume de
fogo, os soldados brasileiros aguardavam tensa e nervosamente a
aproximação dos inimigos, sem efetuar disparos. Os gatilhos só eram
comprimidos quando a proximidade do soldado alemão garantia a certeza de
um disparo inequívoco. Via-se então, por entre a fumaça, a figura do inimigo
encurvado desfalecer sobre ao chão.
Disparando com cuidado na pontaria e economizando a munição, pela
segunda vez o contra-ataque alemão foi estancado pelos três pelotões da 1 a
Companhia.

121
Pedidos de munição e reforços solicitados ao posto de comando da
companhia eram redundantes. Em pequenos intervalos, o capitão tornava a
ligar para os pelotões desejando pôr-se a par da situação.
Enquanto os expedicionários contavam seus derradeiros cartuchos e
granadas, a terceira onda de assalto se dirigia para mais uma tentativa de
desalojar a 1a companhia da cota 906.
Novamente uma vaga de ataque se aproximava das posições fazendo o
tiroteio recrudescer. Imagine-se a dramaticidade da situação enfrentada pela
1a companhia: as várias dezenas de alemães que se aproximavam eram alvos
fáceis, mas a munição escasseava, chegando próxima ao fim. A vontade de
atirar e manter os alemães distantes era grande, mas o que ocorreria se o
inimigo se aproximasse dos brasileiros já sem munição? O problema tinha
sido percebido por todos. Maud se aproximou de Gonçalves rastejando.
Empunhando o fuzil desmuniciado, perguntou:
“Tenente, a minha munição acabou. O que é que eu faço?”
“Pegue pelo cano e dê na cabeça do primeiro que chegar.”
No fragor do momento, essa foi a resposta que ocorreu ao tenente,
imbuído da determinação de não abandonar as posições.
Parte dos assaltantes tentava desbordar os flancos da posição brasileira.
Grupos de alemães surgiam por todos as vias de acesso. Enquanto serviam as
peças de morteiros, a equipe do pelotão de petrechos disparava suas pistolas e
carabinas ponto 30 até mesmo na direção da retaguarda da posição, onde se
percebia movimentação de alemães. Um pano de barraca colocado atrás do 1 o
Pelotão tinha sido furado por tiros de armas individuais, indício de que o
inimigo estava envolvendo a posição. Imediatamente, um dos grupos de
combate foi retirado da frente e posicionado à retaguarda do dispositivo na
cota 906.
Abrigados em seus fox holes, os homens do 1o Pelotão demonstraram
sangue frio a ponto de abater alemães a distâncias tão curtas como dez ou
quinze metros das beiradas das posições. Era um tiro ou uma rajada e um
122
alemão que caía. De um ou outro ponto situados pouco mais adiante dos
brasileiros, granadas de bastão alemãs cruzavam o ar e explodiam fazendo
voar estilhaços e detritos. Algumas foram atiradas de volta ao inimigo antes
que detonassem. “Você via a trajetória da granada de mão dele, onde ela ia
cair”, recorda Palermo.
Do lado dos brasileiros, Vicente Gratagliano tinha trazido doze
granadas de mão em seu bornal. Deu algumas granadas para Nelson Wood,
José Ramos de Araújo e outros soldados, e conservou seis, que atirou contra
os alemães quando a munição de seu FM acabou. Segundo Gratagliano, “foi a
única vez que nós tivemos vantagem com eles. Nós estávamos em cima e eles
embaixo. Quando eles avançaram, foi de uma maneira que ninguém esperava.
Eles atacaram feio em cima de nós, e nós metendo fogo em cima. Aquela
plantação foi arrasada. O campo ficou limpo, com as rajadas de metralhadora
e morteiro e tudo.”
Os alemães sabiam precisamente onde se localizava a tropa do 6o R.I.,
mas só o que conseguiam ver era um ou outro capacete que subia e se
abaixava e os clarões da chama de boca das armas dos soldados que se
esquivavam das rajadas que passavam rentes ao chão em torno de seus
abrigos. Quem ousou chegar mais perto dos fox holes brasileiros teve sua
participação na guerra encerrada no cume da cota 906.
Novamente o capitão Tavares chamou o 1o Pelotão pelo telefone.
“O que se passa por aí? Ainda estou escutando tiros...”
Tomado de repulsa pela leviandade do capitão, o tenente
Gonçalves respondeu de forma ríspida. “Senhor capitão, de onde o
senhor está, o senhor não comanda a companhia.” “O senhor por favor
não me chame mais”, continuou Gonçalves, “que eu não vou mais
atender o telefone, a não ser que seja uma ordem de retirada.”
Respondendo aos chamados do comandante da companhia, o tenente

123
se expunha ao fogo inimigo, no deslocamento entre os fox holes e o
abrigo onde estava instalado o telefone.
Era impossível disfarçar a animosidade entre o comandante da 1a
Companhia e seus subordinados. Sem paciência com as inquirições
inoportunas de seu comandante, Gonçalves encerrou a ligação e
voltando sua atenção para o comando do pelotão.
Tedescos alcançavam o cume da 906 esgueirando-se pelas
depressões no relevo e colocando suas armas automáticas em posições
de vantagem no terreno. Varriam a frente com rajadas em direção aos
brasileiros, que respondiam com os fuzis metralhadora e as duas
metralhadoras leves do pelotão de petrechos. As saraivadas dos
alemães revolviam o solo lançando terra e detritos para o ar, mas sem
acertar ninguém. Os expedicionários tinham aprendido rapidamente o
motivo que tornava a escavação dos fox holes algo tão importante.
Numa porção mais alta da 906, a bazuca do 1o Pelotão disparava
parte dos poucos rojões restantes em defesa dos homens do tenente
Carrão postados a 100 metros, atirando em diagonal por cima das
próprias posições.
Entre os graduados que lideravam a terceira vaga de assalto, um
enorme oficial vinha à testa de seus homens, impulsionando-os com gestos de
encorajamento. Segurava uma pistola em uma das mãos e uma granada de
bastão em outra. Novamente os gritos de “auf, auf” do alemão eram audíveis.
Todas as armas automáticas concentraram seus disparos sobre aquela
figura impressionante, rasgando o homem ao meio com várias rajadas
simultâneas e desorientando momentaneamente os atacantes.
Na direita da cota 906, uma das metralhadoras ponto 30 permanecia
silenciosa. Gonçalves gritou: “ponha essa arma para funcionar!” O cabo
Assis, que manejava a metralhadora não respondeu. Estava sozinho operando

124
a arma, após ter seu municiador ferido. Assis pegou um cunhete de 250 tiros e
colocou a cinta de munição na arma.
Ainda mais para a direita da metralhadora Browning guarnecida por
Assis, um outro grupo de alemães se aproximava. Alertado por alguns
companheiros, o cabo Assis limitou-se a responder por meio de um aceno de
espera com a mão. Quando percebeu que os tinha enquadrado sob sua mira,
Assis abriu fogo esgotando a cinta sobre o grupo de alemães, destroçando-os.
A trinta metros das posições do 1o Pelotão, um outro grupo começava a
assestar uma metralhadora com reparo por detrás de uma árvore. A arma tinha
um campo de tiro privilegiado sobre os fox holes, e se iniciasse disparos, iria
causar grande número de baixas. Cada vez menos tiros partiam das armas
brasileiras. Grande parte dos soldados já tinha esgotado todos seus cartuchos.
Na derradeira tentativa de evitar o combate aproximado que fatalmente
seria seguido do corpo a corpo, Ferreira apontou o lança-rojões na direção do
castanheiro disparando sua penúltima granada. Em meio ao turbilhão do
impacto, estilhaços, pedaços de vegetação e restos humanos se projetaram
para todas direções. Anos depois, Ferreira relatou os lances finais que
desbarataram a terceira vaga do contra-ataque alemão:
“Quando começou a feder o negócio, eles vieram de monte pra
cima de nós, eles tavam avançando, avançando, avançando. Quando
eles chegaram perto, eu podia dizer quem que tava comandando a
tropa, porque eu observei um pouco antes o lance que eles deram, os
três caras, né. Eu percebi que um daqueles era o comandante. Aí eles
se jogaram atrás do castanheiro. Eu falei: daqui a pouco eles tão se
levantando pra dar outro lance. Então, apontar em um só não adianta.
Então eu já vou firmar a pontaria na árvore que eles se jogaram atrás.
Fiquei apontando no tronco, a árvore era grossa. A hora que ele vai
levantar a gente mete mecha. Chegou a hora, eles levantaram para dar
outro lance, e o comandante levantou o braço e gritou puxei o gatilho.
125
Quando tavam os três de pé, a bomba estourou. Os três, no mesmo
lugar, caíram no chão. Dali desnorteou o troço. Eu tinha seis granadas
e fiquei com uma só”.
O último disparo de Ferreira deve ter atingido o oficial que coordenava
a terceira onda do ataque. Com o ânimo alquebrantado, os alemães
arrefeceram a progressão. De tanto atirar com a bazuca, Ferreira andou por
muitos anos com ambos os olhos avermelhados, conseqüência das faíscas
emanadas do lançamento dos foguetes. Não tinha lhe ocorrido vestir a
máscara de proteção que acompanhava a arma. A intensidade do combate foi
tanta que Gonçalves nem pôde disparar sua carabina, pois teve que fazer as
vezes de municiador da bazuca do soldado Ferreira entre os pedidos de tiros
de artilharia e comunicação com o PC da 1a Companhia.
Finalmente o silêncio pairava sobre a cota 906. Entrando em contato
pelo telefone novamente, o capitão Tavares emitiu ordem de retraimento para
os três pelotões da 1a Companhia, tão logo a terceira onda de assalto
esmaeceu sob o fogo. O combate tinha sido travado por mais de uma hora e
meia, dividido em três lances! Restavam aos três pelotões meros 123
cartuchos de fuzil!
Até que fosse dada a ordem de retraimento, nem um soldado, cabo ou
sargento dos pelotões hesitou em permanecer na posição.
O 3o sargento Epapharol Silveira recorda que os soldados tinham
perdido a refrega, mas não a presença de espírito: quando foi recebida a
ordem de retraimento, os três cabos que comandavam as peças de morteiros
gritaram simultaneamente:
“Putada, debandar!”
Abandonando a cota 906, a 1a Companhia despencou para a baixada,
levando as armas mas deixando o excesso de peso como mochilas e outros
equipamentos individuais. O tenente Gonçalves acabou deixando o estojo de
seu binóculo pendurado em um galho. Ainda durante a descida, escutaram um
dos soldados gritar em tom gaiato: “quero o número do último filho da puta
126
que chegar lá em baixo!” Mas naquele momento ninguém teve tempo de
achar graça da pilhéria.
Atirando-se morro abaixo, os homens iam se escorando como podiam
na vegetação. Esperavam ser engajados em perseguição pela tropa alemã, que
acreditavam vir atrás dos pelotões, mas nada ocorreu. No caminho de retirada,
chegaram a ver muito sangue e cadáveres de alpinos e mulas que tinham sido
incumbidos de levar munição aos pelotões.
Subindo a elevação anterior à cota 906, o pelotão ainda esperava ser
alvejado pelos alemães. Mas não recebeu nenhum disparo. O inimigo não se
tinha posto no encalço da tropa que retornava à base de partida. Embora a
topografia dificultasse o acesso, em linha reta a distância entre as duas
elevações era pequena, dentro do alcance prático de um tiro de fuzil. Os
homens não entenderam o porquê de não haverem sido perseguidos. Àquela
altura, a 1a Companhia era uma presa fácil, com menos de três cartuchos de
munição por homem.
Na elevação oposta à cota 906, Gonçalves subiu uma escada de madeira
para saltar do outro lado do muro onde poderia encontrar maior segurança. Ao
passar as pernas por cima do muro, tinha quase certeza que seria alvejado por
um tiro de fuzil. Mas todos conseguiram passar para o lado oposto do muro
sem que o inimigo efetuasse nenhum disparo.
O mais provável é que os atacantes alemães também tenham consumido
toda sua munição, ou perdido um número de homens que não permitisse a
continuação do combate.
Inacreditavelmente, o 1o Pelotão não tinha nem só um morto ou ferido
mais grave a lamentar. Todos tinham obedecido à risca a determinação de se
entrincheirar no terreno e só disparar com certeza de atingir o alvo.
De onde os soldados encontraram o vigor necessário para resistir frente
às mais terríveis adversidades? Como foi possível que nenhum vacilasse em
permanecer nos abrigos, só retraindo depois que a ordem foi dada?

127
Do alto da cota 1048, só restava à 2a companhia a opção de
também retornar para a base de partida, ou ser envolvida pela fração
de tropa atacante que convergia em sua direção. O grande interstício
entre as companhias do I Batalhão tornara demasiado fácil a infiltração
dos inimigos. Sem ligação com o comando do batalhão, pois o cabo
telefônico havia sido cortado por uma granada, a 2a companhia estava
isolada no alto da elevação que tinha sido seu objetivo na operação,
embora não tivesse sido engajada no combate.
A operação foi dada por encerrada com o retraimento da 2a
companhia ao cair da noite. Foi a menos infortunada das unidades a
participar do ataque, sem ter sido atingida pela infantaria inimiga.
A respeito da ocasião, o 1o tenente Evangelista, subcomandante
da 2a Companhia, escreveu:
“Após 40 minutos de descida forçada e sujeito a envolvimento
por tiros inimigos, em Sommocolonia entrei em contato com o
comandante do batalhão, que já recebera ordem do comandante do
R.I. para o retraimento à base de partida. A companhia, aproveitando
a escuridão da noite, recuou das posições, por pelotão, e só um cabo
foi ferido e transportado em uma manta na falta de padiola. Noite
nada tranqüila, com alguns casos de nervosismo. Eu mesmo assisti a
dois”.
Quando os pelotões da 1a Companhia voltaram para as imediações da
base de partida, o tenente Carrão ainda não tinha retornado do local do
combate, pois havia se separado do 2o Pelotão na confusão da retirada. Todos
temiam que Carrão tivesse sido capturado pelos alemães. Durante o
retraimento desordenado, os soldados não tinham retornado exatamente para o
ponto de onde o ataque havia partido. Portanto, o tenente Carrão desconhecia

128
a nova e imprecisa localização de seus homens e companheiros dos outros
pelotões, que demonstravam uma generalizada preocupação com sua sorte.
Para a surpresa de todos, quando a noite caiu por completo, um vulto
surgiu frente às novas posições. Um sinal de alerta foi dado e os sentinelas
colocaram-se em prontidão.
Cambaleante, o homem se aproximava, embora sua fisionomia fosse
indistinguível. Mas à medida em que se acercava, o vulto ia se assemelhando
à silhueta de Carrão. Exultando em rever seu companheiro, Gonçalves desceu
de supetão a ribanceira, indo de encontro à figura que de fato se revelou ser o
comandante do 2o Pelotão, com quem se cumprimentou efusivamente.
Abraçaram-se e beijaram-se felizes em saber que ambos estavam vivos.
Carrão tinha alcançado as mesmas posições por acaso. Mesmo ferido, depois
de cinco horas Carrão assomou sozinho, numa coincidência quase milagrosa,
pela mesma estrada trilhada pelo 1o Pelotão para a nova posição.
Infelizmente, poucos homens do I Batalhão tinham motivos para
exultação.
O fato de haver abandonado o tenente Duarte moribundo
assombrou o capitão Atratino por toda a campanha. No dia seguinte, o
comandante da CPP I organizou patrulhas com homens da 3a
Companhia, que não conseguiram atingir o local provável onde Pinto
Duarte havia sido visto pela última ocasião. Somente após o fim da
guerra, depois que os alemães desocuparam a região de Barga, foi
possível retornar ao local.
A 3a Companhia foi a subunidade mais duramente atingida pelo
contra-ataque, que lhe custou dois mortos, cinco feridos e 15
desaparecidos, que caíram prisioneiros. No total, quatro brasileiros
perderam a vida no dia 31 de outubro. Reunidas na base de partida, a
3a Companhia e a CPP I foram recebidas pelo general Zenóbio da
Costa. Vociferando, o general descompôs os homens atirando-lhes a
129
pecha de “covardes”. Há testemunhas do episódio que alegam que foi
necessário que Atratino segurasse o capitão Aldenor para que não
partisse para cima do general, por causa de seu temerário juízo a
respeito da “Melhor do Mundo.”
Depois de 45 dias de ininterrupto avanço, o 6o R.I. tinha sido
barrado. Não era uma situação à qual estivesse acostumada a tropa
brasileira, e que acabou por gerar vários desentendimentos e rancores
entre o alto comando do Destacamento FEB e os escalões combatentes.
Acusações foram trocadas de cima abaixo em todos os níveis
hierárquicos envolvidos na operação. Soldados, cabos, sargentos e
tenentes manifestaram seu repúdio pelo desleixo de parte do comando
e pela falta de coragem moral em admitir as que o revés foi causado
pela deficiência da preparação do ataque.
Para muitos dos que combateram naquele dia, o motivo do
sucesso alemão foi uma patente manifestação de incompetência do
comando, que agiu de forma incauta e irresponsável para com seus
subordinados. Ao contrário do exemplo dos grandes comandantes
militares, que chamavam a si toda a responsabilidade pelo curso dos
acontecimentos, atiraram a culpa do retraimento à suposta
“negligência” dos pelotões de fuzileiros.
Mas os responsáveis pelo planejamento em alto escalão
procuraram se eximir da responsabilidade ao omitir que haviam
descurado do remuniciamento, a mais elementar medida de
continuação do combate.
Preferiram atribuir as falhas aos tenentes e sargentos, que já
tinham muito com que se preocupar, dando tiros de dentro de buracos
nos alemães a poucos metros de distância.

130
Ademais, não foi por falta de aviso que o escalão de ataque
inimigo conseguiu se aproximar da linha mantida pelos brasileiros,
como provou o depoimento do tenente que observou a preparação do
contra-ataque do avião americano.
Talvez o mais apurado juízo a respeito do episódio tenha sido
registrado por um sargento alemão que combateu no setor de Sommocolonia
em dezembro de 1944. Hans Burtscher, comandante de um grupo de combate
do IV Batalhão de Alta Montanha alemão, foi enviado ao setor da cota 906
para a operação Wintergewitter, que acabou conquistando a cidade de Barga
das mãos dos americanos, de acordo com o recado que os alemães haviam
mandado os italianos transmitir.
Muitos anos após a guerra, Hans escreveria a respeito do combate:
“opondo-se a nós pela direita, na vila de Lama estão as tropas brasileiras com
uma reputação de bravura, mas nosso avanço está direcionado contra os
elementos da 92a Divisão Americana.”
O destacado conceito de que desfrutavam os brasileiros entre tropas de
elite alemãs como os famosos soldados de montanha, os Gebirgsjäger,
certamente derivou do grande combate dos dias 30 e 31 de outubro de 1944.
O avanço do Destacamento FEB na região havia até então sido o mais
significativo contato dos brasileiros com as tropas alemãs. Comprometido no
setor de Sommocolonia, Hans tomara conhecimento da denodada resistência
sustentada pelos homens do I Batalhão do 6o R.I.

131
Capítulo 6: Inverno na Montanha

No primeiro dia de novembro de 1944, a 1a Companhia havia


retornado para o vilarejo de Catagnana. Adotando um dispositivo
defensivo, os soldados do I Batalhão passaram a jornada sob constante
preocupação e trabalho. Por todo o dia, foram ativas as patrulhas de
vigilância. Ainda eram alvo de um cerrado bombardeio inimigo que
caiu junto com a noite, visando atingir as posições do 1o Pelotão. Era o
dia de aniversário da esposa do tenente Gonçalves, que atribulado
entre a vistoria das posições e supervisão das medidas de segurança,
nem teve tempo de escrever uma carta. À meia noite do dia 1 de
novembro, a frente alemã continuava ativa com disparos de vários
foguetes de sinalização.
Prostrados e acabrunhados pelos acontecimentos do dia anterior,
de seus fox holes os brasileiros não podiam distinguir se os italianos e
alemães estavam simplesmente restabelecendo as posições retomadas
ou se preparavam uma temida tentativa de envolvimento.
Mas nos primeiros dias de novembro, a 1a Divisão de Infantaria
Expedicionária foi rocada para o Vale do rio Reno, deixando o setor de
Barga sob a responsabilidade da 92a Divisão de Infantaria americana,
os Buffalo Soldiers.
O 1o Regimento de Infantaria, sediado no Rio de Janeiro, e o 11o
R.I., lotado em São João Del Rey estreavam em linha, completando a
divisão brasileira. O 6o R.I. deveria guarnecer o setor situado à direita
da linha expedicionária. Substituíram tropa americana, que havia em
primeiro lugar ocupado aquelas mesmas posições. Os homens do
regimento paulista tinham pela frente o 1045o Regimento de
132
Granadeiros alemães, que pertencia à 232a Divisão de Infantaria, a
“Divisão Tridente”, que do alto das fortificações dominavam a rodovia
64. Dos soldados daquela divisão alemã, 90% tinham feito a campanha
da Rússia. Eram combatentes experimentados, e se lhes faltavam
meios de transporte e cobertura aérea, tinham a vantagem das
posições defensivas e longa vivência na guerra. Contavam com
superioridade em termos de armas de infantaria. Suas metralhadoras e
fuzis eram muito mais eficazes do que os modelos americanos usados
pela FEB.
Do alto de suas fortificações que faziam frente ao novo setor do
front guarnecido pela divisão brasileira, os alemães tinham uma visão
muito privilegiada do campo de batalha. A aproximação de qualquer
tropa atacante era percebida com muita antecedência, antes que os
atacantes pudessem ter conta que estavam sendo observados.
A situação era muito desigual. Os alemães eram mestres em
camuflagem. Mesmo os pequenos aviões de observação aérea da 1 a
DIE tinham dificuldade em localizar as posições inimigas bem ocultas
nos montes da cordilheira Apenina.
Ao tomar as novas posições, o II Batalhão foi enviado para o
setor da Torre di Nerone, o III posicionou-se nas proximidades de
Africo e Volpara. Na extrema direita da divisão brasileira, o I Batalhão
ocuparia as posições ao redor de Vaiarana, Montecavalloro e
Boscaccio, a partir da rampa do pequeno Vale do rio Marano, que
ascendia desde a cidade de Riola situada à beira da rota 64. Antes de
seguir para a frente, o I Batalhão concentrou-se nas imediações de
Porreta Terme para refazer-se do combate do dia 31 de outubro.
Até os dias de hoje, a estrada 64 é uma via de acesso principal
entre as cidades de Pistoia, Porreta Terme, Vergato e Bolonha. Durante
133
a guerra, o Exército Alemão preocupava-se principalmente em se
estabelecer no domínio das elevações que possibilitassem interromper
o tráfego nas estradas. Foi a mesma tática utilizada nas duras batalhas
por Cassino no começo do ano de 1944.
Quem passar pela rota 64 na altura de Riola, vai reparar numa
elevação que se protubera transversalmente da cadeia de elevações
que se estendem entre a Torre di Nerone e Castelnuovo di Vergato. É
um maciço de rocha semi encoberto por vegetação esparsa, que
segundo os soldados do I Batalhão, possuía aparência suficiente de um
nariz humano para merecer o apelido de “narigão”. A metáfora é
adequada também pelo fato de possibilitar aos alemães que ocupavam
o espigão a invejável capacidade de esmiuçar, a olho nu, o interior e
retaguarda imediata das posições da infantaria brasileira.
Entre os italianos, a elevação havia recebido o nome de
Soprassasso, cuja tradução aproximada significa “pedra sobre pedra”.
A saliência frontal do Soprassasso é inatingível a pé. Do alto da
ponta do rochedo até o solo, a queda é de cerca de 200 metros de
altura, o que oferece um panorama do Vale do Reno capaz de
deslumbrar qualquer turista. Os alemães se interessavam pelo mirante
por outras razões no entanto. A única via de acesso ao Soprassasso é a
junção traseira da montanha às cotas 702 e 722, que durante a guerra
eram ocupadas pela Wehrmacht. Embora a crista principal do
Soprassasso se destaque quando vista de seu sopé, o espigão consistia
num contínuo amálgama de elevações com a defesa interligada pelas
cotas 670, 644, 674 e 702.
Por todo o inverno até o fim do degelo, em março de 1945, os
alemães caçaram os homens do I Batalhão a tiros de fuzil a partir da
ponta e encostas laterais do rochedo. Quem expunha a cabeça durante
134
o dia tinha morte certa. Embora o maciço tenha sido impiamente
bombardeado, os defensores estavam bem protegidos nos abrigos e
casamatas escavados a picareta no interior da rocha. Além de fornecer
um privilegiado local de tiro, o Soprassasso servia também aos
observadores de artilharia e guarnições de morteiro alemães. As
posições foram tão bem construídas que resistiram ao tempo. Quem
sobe hoje em dia no Soprassasso ainda vê trincheiras de comunicação
alemãs em zig-zag e as seteiras projetando-se das rochas. No tempo da
guerra, as únicas construções eram duas casinholas de pedra de
camponeses italianos. Visto pela retaguarda, em direção às linhas
brasileiras, o Soprassasso tem o formato aproximado de uma sela de
montaria.
A disposição das pequenas unidades de infantaria naquele
terreno montanhoso tipificava a maneira que se combatia na Itália.
Diluídas numa frente ampla, as companhias e pelotões tinham grandes
brechas entre as posições, que favoreciam as atividades de patrulha e
infiltração inimigas. Ao perceber uma patrulha inimiga que tentava o
cerco, era necessária calma para não atirar. Permitia-se a aproximação
dos alemães, para depois engajá-los em tiroteio. Durante as noites,
havia os bombardeios de inquietação, tiros esporádicos que
desenganavam os soldados da aparente calma da guerra em montanha
nos meses de inverno. “A metralhadora deles é um perigo. À noite eles
davam aqueles tiros de inquietação, com balas traçantes, aquilo
irritava a gente. Dava para ver a bala traçante, você via aquela corrente
assim”, relatou Joaquim Borges de Souza. Borges refere-se à contínua
linha de projéteis luminosos que uma rajada de metralhadora formava
quando disparada na escuridão.

135
Além das rajadas das metralhadoras de alta cadência do inimigo,
a maior preocupação era causada pelos morteiros alemães.
Porém, a permanência no front ensinava algumas artimanhas aos
combatentes, como afirmou o cabo Felipe dos Santos: “era fácil para a
gente sair fora, pois elas vinham assobiando. Você pula no chão, tem
que ficar com a barriga para baixo e de boca fechada.”
No dia 10 de novembro, o 1o Pelotão substituiu uma tropa americana da
1a Divisão Blindada em Vaiarana. Contavam agora com alguns recém-
chegados, para substituir os claros causados no front do rio Serchio, entre os
quais o 2o sargento João Duperron, na função de auxiliar do pelotão.
Tomando posição no novo setor designado, Gonçalves reparou no
comportamento de seus soldados. Sabiam onde instalar as armas automáticas
dos grupos de combate, escolhendo criteriosamente o melhor campo de tiro.
Nos deslocamentos, preferiam os níveis mais baixos do terreno. Todos tinham
cuidado. Não acendiam luzes ou fumavam nos postos avançados. Estavam
agindo de forma espontânea, a vida na linha de frente já estava arraigada nos
modos daqueles homens. O tenente percebeu que já estava comandando
veteranos. Quem visse aqueles homens nunca poderia imaginar que há pouco
tempo ainda se ocupavam com suas atividades da vida civil, que eram as mais
variadas e o mais diferentes o possível das atribuições de um combatente. Os
soldados adequavam-se ao duro inverno que estava por vir aprendendo como
minorar as vicissitudes da guerra pela experiência que adquiriam no dia a dia.
Conheceram o valor do feno, ótimo para isolar as galochas e abrigos do frio.
Aprenderam a dormir sem retirar uniformes e botas, e a se protegerem da
temperatura enrolados em mantas e panos de barracas. Depois de dois meses
de front, estavam perfeitamente adaptados às suas funções.
Armando Ferreira relatou como a experiência no front modificara o
comportamento dos soldados: “Quando passava uma canhonada a gente já

136
sabia se era longo alcance, que distância ia cair, sabia o calibre da arma, pelo
zunido dela.”
Até então nenhum homem do 1o Pelotão tinha morrido em
combate. Tinham sofrido alguns baixas por ferimento, e alguns dos
soldados já haviam matado ou ferido alemães.
Haveriam de sofrer mais feridos e mortos, e de matar
novamente.
A P-38 que Gonçalves trazia na cintura era extremamente
cobiçada. Vez ou outra, oficiais que não tinham funções na linha de
frente, em viagens de reconhecimento ou estágio, perguntavam sobre
a procedência da arma. Numa das ocasiões um oficial demonstrou
grande interesse na P-38.
“Você tem uma pistola, é pistola alemã isso aí?”
“É, é uma pistola alemã.” – respondeu Gonçalves.
“Pô, como é que você conseguiu?”
O oficial aparentava querer propor um negócio na arma.
Gonçalves apontou para as posições alemãs e respondeu:
“Lá em cima do morro tem uma porção de pistolas dessas. Você
vai lá e vê o que é preciso.”
O inverno europeu se agravava e a divisão brasileira recebeu
fardamento de inverno de origem americana, que era usado sobre os
uniformes de lã verde acinzentada trazidos do Brasil. O material americano
alcançou os brasileiros no front em um momento importante. Reforçaram seus
agasalhos com pesados capotes de lã, capas brancas com forro de pele,
galochas de feltro revestidas de lã. Por fim, no mês de novembro, foi
autorizado um novo distintivo para substituir o velho escudo verde trazido do
Brasil. Era um retângulo amarelo com as bordas vermelhas. Ostentava uma
tarja azul na parte de cima com o nome Brasil bordado em linha branca. No

137
centro do retângulo, uma belicosa cobra verde com um cachimbo fumegante
pendurado na boca. A cobra estava fumando! O emblema simbolizava a
disposição para o combate da divisão brasileira.
Afortunadamente, em Vaiarana foi possível ao pelotão a rara
oportunidade de se abrigar em uma casa de contadini italianos. Como
muitas outras construções vistas nos Apeninos, era uma centenária
casa de pedras, com uma parte embutida em um barranco e o resto no
nível de uma estrada.
Fora das posições da linha de contato com o inimigo, a vida do
soldado em campanha é um tanto enfadonha. O tempo passava sem
que os soldados tivessem noção de datas. Não se importavam em
saber em qual dia da semana estavam. A passagem tempo era
determinada pela seqüência de dias e noites, e noites para dias. Isso
era o que bastava saber. As atividades consistiam na constante
manutenção do armamento e nas tentativas de amenizar o efeito do
frio. E tratar de aproveitar dos momentos de maior quietude, para se
desafogar do contínuo esgotamento da permanência em posição. Pelo
menos em Vaiarana, os soldados podiam dormir sobre o providencial
conforto de um teto. Mesmo assim, as camas não eram suficientes para
todos. Camas... uma comodidade impensável para soldados do front.
Havia um leito disponível na casa. Enquanto dois homens dormiam
sobre o colchão, outros dois metiam-se sob o estrado para aproveitar
um pouco do calor. Era interessante ver a forma abnegada, fraternal,
com que todos procuravam se ajudar mutuamente quando a situação
apertava. Tornava-se impensável negar qualquer favor a um
companheiro. Por que não dividir uma cama? Tudo era compartilhado
como em uma grande família de 40 irmãos.

138
Quando era necessária uma patrulha de reconhecimento ou
vigilância, ninguém se recusava a acompanhar os companheiros. A
visão de um soldado adoentado, com gripe ou febre, fazendo esforço
para se juntar a uma patrulha que partia era comovente. E a
preocupação com o estado dos companheiros, recíproca. “Olha lá
Silva. Você não tá legal. Não precisa ir junto com a gente,” replicavam
em vão os patrulheiros. Mas quem conseguia convencer um
companheiro a ficar para trás, na relativa segurança de um fox hole
enquanto os amigos arriscavam o pescoço na terra de ninguém?
Na linha de frente, a maior alegria consistia na chegada de cartas
e encomendas do Brasil. Seu recebimento era bastante irregular, e o
serviço de correio da FEB não é lembrado com muita afabilidade pelos
veteranos. Semanas e semanas se passavam sem que nenhuma carta
fosse entregue.
Então, inesperadamente aparecia o tenente Ignacio,
subcomandante da 1a Companhia num Jeep que trazia a
correspondência. As cartas chegavam muito atrasadas, e muitas vezes,
cartas de data mais recente vinham antes que envelopes carimbados
vários dias atrás. Mas pelo menos, chegavam.
O conteúdo das cartas era drasticamente limitado pelas
imposições da censura. Era inacreditável receber uma carta toda
retalhada pela tesoura do censor, deixando o destinatário amargurado
e tentando entender que lhe diziam seus parentes num texto todo
entrecortado. David Arsiufi, que não sabia escrever, pedia a seus
companheiros, geralmente Zé Alves ou Gratagliano, que lhe
redigissem suas cartas. Zé Alves recebia uma incrível quantidade de


Do italiano: camponeses.
139
cartas das garotas de Taubaté. O vistoso soldado era também popular
entre as garotas italianas.
Numa das tardes em Vaiarana, um soldado limpava seu fuzil na
parte inferior da casa, tarefa diária para a garantia do impreterível
funcionamento das armas quando preciso.
Dentro da casa, o quarto de baixo tinha sido aproveitado para o
descanso dos soldados, e o tenente costumava se alojar no quarto
imediatamente acima. Naquele instante, Gonçalves descansava na
cama no aposento do primeiro andar da casa. Gomes mantinha-se na
escuta telefônica, ao lado da cama, distraindo-se em conversas com os
outros telefonistas que aguardavam o contato com seus pelotões.
O auxiliar do tenente a certa altura escutou chamarem pelo
código do 1o Pelotão ao telefone:
“Arma Um!”
Gomes avisou Gonçalves.
“Tenente, o capitão quer falar com o senhor.”
No momento exato em que o tenente se pôs de pé, o estampido
de um fuzil foi escutado no andar de baixo, ao mesmo tempo em que
um projétil varava assoalho, estrado e colchão, saindo pelo teto. O tiro
tinha passado precisamente na depressão formada na cama por
Gonçalves, que escapou da morte por questão de segundos.
“O que foi isso?”
Gonçalves e Gomes saíram da casa dando de cara com o soldado
que limpava o fuzil, transfigurado pelo nervosismo.
Acidentalmente, o homem disparou um tiro enquanto
manuseava a arma. O cano estava voltado para cima e atravessou o
grosso forro de toras de madeira, saindo pelo telhado. A munição

140
ponto 30 tinha longo alcance e varava facilmente madeira e
construções de alvenaria a algumas dezenas de metros de distância.
Ainda em Vaiarana, passados mais alguns dias, um soldado
correu à procura do tenente Gonçalves, que naquele instante
inspecionava os postos avançados do pelotão. Quando localizaou o
tenente, o soldado exclamou muito excitado: “tenente, os partigiani
estão levando embora o seu Pio! Estão levando ele preso! Dizem que
ele é fascista!”
Pio era um octogenário, um camponês italiano de cabelos
brancos que mal podia se locomover. Habitava o casarão de Vaiarana
com sua esposa, o filho e a nora.
Todos sabiam que tipo de intenções tinham os partigiani em
relação àqueles que acusavam indiscriminadamente de fascistas.
Imediatamente, o tenente saiu correndo à procura do idoso.
Encontrou-o em meio a um grupo de cerca de dez partigiani, bem lá
embaixo na estrada.
Sozinho, o comandante do 1o Pelotão interpelou os guerrilheiros.
Já estava fluente no idioma italiano.
“O que está acontecendo?” – interpelou o tenente.
“Este aqui é um grosso fascista. Ele vai ser levado para o
comando dos partigiani.” À maneira dos outros partigiani que o 1o
Pelotão tivera a oportunidade de cruzar, este era também um
excêntrico grupo similar a um arsenal ambulante. Arrogavam-se da
mesma presunção de autoridade corriqueira entre alguns partigiani,
cometendo os costumeiros desmandos de prender, condenar e
executar sentenças contra seus desafetos.
Gonçalves tentava impedir a todo custo que os integrantes da
milícia levassem o camponês.
141
Entremente ao diálogo, alguns homens do pelotão se acercaram
do grupo. A situação mudava de configuração naquele momento. Os
partigiani não estavam mais lidando apenas com um civil desarmado.
Teriam que se ver de igual para igual com combatentes armados, coisa
a que não estavam acostumados ao praticarem suas contumazes
arbitrariedades.
Já vacilando na determinação de levarem o idoso frente à
resolução dos brasileiros, os partigiani argumentavam que tinham
recebido ordens de seu comandante. Era necessária uma medida
drástica para salvar a vida de Pio. Gonçalves cansou-se da conversa, e
irrompeu entre o grupo. Voltou-se para os partigiani dizendo de forma
incisiva: “Vocês não tem ordem de ninguém! Aqui ninguém dá
ordens!” Dirigindo-se a um soldado, pediu: “leve-o para a casa dele.”
Trazendo o nonno delicadamente pelo braço, o soldado o devolveu à
família. Conseguiram salvar a vida do ancião, que nunca mais haveria
de ser molestado pelos partigiani.
Um garoto de cinco anos costumava freqüentar a casa de
Vaiarana. Chamava-se Bruno, era sobrinho da família. Fascinado pelo
convívio com os brasileiros, misturava-se ao pelotão, impressionado
pelo armamento, uniformes e histórias que os soldados lhe contavam.
O pai de Bruno contrariava o gosto do menino, e toda vez que o via
entre os membros do pelotão costumava estapeá-lo violentamente,
ralhando para que não continuasse a permanecer entre os soldados.
Dentre os integrantes do 1o Pelotão, Gratagliano tinha se
afeiçoado especialmente ao garoto, e um dia presenciou o pai dando
cascudos na cabeça de Bruno. Não gostou do que viu. Chegou-se ao
pai da criança fazendo uma ameaça que sabia que jamais seria
cumprida:
142
“A próxima vez que você bater no menino”, pronunciou
Gratagliano, “te amazzo!” O homem tomou aquilo como coisa séria, e
Bruno não voltou a apanhar.
Outro grande amigo de Gratagliano era o soldado José Alves de
Abreu. Os dois andavam sempre juntos. Zé Alves tinha se apoderado
de uma baioneta alemã de fuzil Mauser, tomada de um prisioneiro. O
soldado passou a usar a arma inimiga pendurada na cintura como
uma faca de trincheira. Passava grandes períodos de tempo amolando
a lâmina de aço de primeira qualidade, que tinha um corte
excepcional. Gratagliano alertara o amigo sobre o perigo de cair
prisioneiro com uma peça inimiga, o que era ainda mais perigoso por
se tratar de uma lâmina afiada. Mas como a baioneta era uma
ferramenta útil no dia a dia das montanhas, Alves não levou o
conselho de Gratagliano em consideração.
Nem todos os comandantes de pelotões tinham o hábito de
liderar pelo exemplo. Havia no I Batalhão, um tenente que costumava
apregoar sua intenção de desertar. Mesmo que o fizesse em tom de
troça, isso acabava influenciando o desempenho de seu pelotão. Na
frente de seus soldados e de outros comandantes de pelotões, esse
tenente bradava sem o menor constrangimento:
“Eu vou desertar!” E perguntava ao Alemão, seu auxiliar: “Hei
Alemão, se eu desertar você deserta comigo?”
Alemão, que era um soldado negro, respondia
cerimoniosamente:
“Eu deserto sim senhor, seu tenente!”
Meio a sério, meio em tom de brincadeira, o comportamento
amalucado do tenente servia de pouca inspiração àquele pelotão.

143
As tribulações da guerra não se desenrolavam apenas nos
combates no front. Foi vívida a atividade de espionagem e contra-
espionagem por todo o período estático da linha de inverno. Muitos
italianos tinham sido forçados a deixar suas casas, e tentavam cruzar
as linhas em busca de abrigo e familiares perdidos. Entre os italianos
desabrigados, conhecidos como sfolatti, os alemães introduziam
agentes incumbidos de recolher informações sobre as tropas aliadas.
Esses agentes, imiscuídos entre os civis, faziam-se passar por sfolatti.
Agindo a soldo dos alemães e fascistas italianos, os espiões
colhiam as informações desejadas ou sabotavam linhas de
comunicação, além de transmitirem sinais luminosos na escuridão das
noites pondo o inimigo a par de ataques, de deslocamento de tropas e
postos de comando que seriam posteriormente alvo da artilharia
alemã. Cada pelotão recebia periodicamente uma circular avisando
quais as características dos agentes que estavam operando nas áreas
do front sob sua responsabilidade. Quando os soldados dos postos
avançados encontravam um sfolatto que correspondia à descrição das
circulares do serviço de Contra Informação de Combate (CIC), o
suspeito era posto sob jurisdição da autoridade competente, os oficiais
S2 dos batalhões, regimentos e divisão. No dia 20 de dezembro, um
ofício secreto advindo da 2a Seção do 6o R.I. alertava para os espiões
que se acreditava tentarem cruzar as linhas brasileiras nos dias
subseqüentes. Eis uma amostra:

“SECRETO”
“ELIO – Ex-sargento da Aeronáutica – 24 anos – 1 metro e 70 centímetros
de altura, compleição fraca, cabelos castanhos claros, olhos castanhos, magro,
nativo de Roma, vive em Veneza.

144
ZIROTE MARIO – 22 anos, baixo, moreno escuro, olhos castanhos,
cabelos castanhos claros, não é magro nem gordo. Nascido em Vergato,
residência provável em Veneza.
FERNANDA – 20 anos, altura média, cabelo louro, oxigenado, olhos
castanhos, não é gorda nem magra, nascida em S. Quirico D’Ostia, província de
Siena.
IVANA – 20 anos, cabelo vermelho, constituição normal, bonita,
inteligente.”

Como esses indivíduos eram bem treinados, procuravam evadir-


se da captura pela argumentação astuta ou espetáculos que apelassem
ao sentimento dos soldados. Os agentes eram escolhidos pelos seus
perfis, que preferencialmente não tendessem a levantar suspeitas, e
suas fileiras incluíam belas jovens que pelo recurso da simpatia
procuravam ludibriar os soldados quanto à sua verdadeira condição
de espiãs.
Pelos riscos que corriam esses agentes inimigos e pelas régias
quantias com que eram remunerados, pode-se inferir o valor que a
informação acurada sobre o dispositivo inimigo tem durante uma
guerra. Uma vez que durante o inverno não havia grandes ataques ou
avanços onde se pudesse capturar inimigos, a atividade de patrulhas e
golpes de mão era predominante. Essas pequenas ações das
subunidades de infantaria visavam, entre outras finalidades, a captura
de prisioneiros de guerra para fornecer informações sobre posições e
valor combativo da tropa inimiga. Uma vez na retaguarda, esses
prisioneiros de guerra eram habilmente interrogados por oficiais de
inteligência.
Em meados de dezembro, Gonçalves foi informado que deveria
preparar-se, juntamente com seu pelotão, para um golpe de mão sobre
145
a cota 702, um dos contrafortes que se estendia do maciço do
Soprassasso.
Durante essa patrulha de combate, o 1o Pelotão, reforçado de
uma fração de tropa de partigiani, deveria investir sobre as posições
inimigas naquela elevação, e retornar com o maior número de
prisioneiros possível. O Comando do I Batalhão proporcionou ao
tenente, com alguns dias de antecedência à ação, a oportunidade de se
familiarizar com o relevo da cota 702.
Por três dias, o comandante do 1o Pelotão postou-se em um
observatório avançado nas imediações da Torre di Nerone para
estudar o percurso que o pelotão enfrentaria para o golpe de mão à
cota 702.
Baseado na carta topográfica e observação da cota 702 a área foi
reproduzida em um caixão de areia para o estudo do terreno. Não
seria possível levar todo o pelotão às posições de observação para
mostrar o itinerário e acidentes do relevo. O resultado do uso do
caixão de areia foi que todo soldado estava a par da função que
desempenharia no combate e familiarizado com o terreno.
Originalmente, a ordem determinava que a ação do pelotão fosse
executada sob a proteção da noite. O planejamento havia sido feito
com cuidado e detalhamento, uma vez que a missão oferecia grande
perigo. O 1o Pelotão contaria com o apoio dos partigiani armados com
metralhadoras alemãs. Em um lance simultâneo, o pelotão completo
devia correr da base de partida do golpe de mão para as posições
alemãs, e tentar capturar um ou dois prisioneiros. Enquanto o grupo
com os prisioneiros retornava às posições do II Batalhão da maneira
que lhes fosse possível, o resto do efetivo do golpe de mão que
permaneceria apoiando com o fogo de armas automáticas correria
146
para um fundão de morro que beirava a cota 702, de onde poderia
encontrar o caminho de volta para as linhas brasileiras por seus
próprios meios. Traduzido para os termos usados pelos soldados, após
a captura dos alemães, o procedimento seria “despinguelar e bater lá
embaixo.”
Nos meses de inverno uma cerrada neblina encobre os Apeninos.
Em virtude da parca visibilidade que impedia o controle dos tiros de
apoio da artilharia, o comando houve por bem adiar a execução da
ação em três oportunidades. Isso colaborava para aumentar a tensão
entre os soldados. A expectativa criada antes de uma ação de patrulha
de combate era terrível e incômoda. Quando recebiam a ordem de
empreender o golpe de mão, os membros do 1o Pelotão preparavam-se
física e psicologicamente. A cada vez que a missão era abortada, a
tensão e desconforto cresciam entre os soldados, e o tenente ia
novamente ao observatório para estudar o roteiro até a cota 702.
Na primeira, segunda e terceira noites inicialmente escolhidas
para a ação, os soldados esperavam, amargurados. Sabiam que um
golpe de mão contra as fortificações inimigas não estava muito
distante do suicídio.
No quarto dia, o comandante do pelotão foi chamado ao
comando do I Batalhão. O capitão Barbosa Pinto disse-lhe que a
missão não podia mais ser postergada, devido à necessidade premente
de colher informações com prisioneiros de guerra. Gonçalves reportou
ao capitão que concordava em executar a espinhosa missão com a
maior urgência possível, pois há dias a ansiedade não deixava os
homens do pelotão dormir ou descansar. Nem mesmo conseguiam se
alimentar corretamente. Gonçalves terminou dizendo ao comandante

147
que daria o golpe de mão durante o dia se preciso. “Assim, quem
escapar vai poder dormir.” Foi essa a expressão que o tenente utilizou.
O dia era 21 de dezembro. Uma incomum tarde quente, de sol
bonito no inverno Apenino.
No posto de comando da companhia, uma coluna de dez Jeeps
com reboques aguardava o 1o Pelotão para o transporte até as
proximidades da base de partida do golpe de mão.
Da relativa calma das posições de Vaiarana, subitamente os
soldados se viram de armas em punho, sobrecarregados pelas correias
do equipamento e peso da munição, marchando em direção às
viaturas que os levariam para um destino ignorado. Nessas horas,
todos eram tomados de profunda ansiedade: qual seria o resultado do
golpe de mão? Quem seria mutilado, cegado ou permaneceria para
sempre naquela encosta de montanha, cuja existência há pouco tempo
era ignorada por todos que ali estavam? Cada soldado se fechava em
seus pensamentos enquanto saltavam para os cofres e reboques dos
jipes: “neste momento estou caminhando, respirando, pensando, com
duas pernas, dois braços e dois olhos. O que será de mim dentro de
dez ou quinze minutos?”
A lógica da guerra era absurda: um pedaço de montanha da
Itália, tão igual a tantas outras vistas nos Apeninos, teria importância
crucial para o resto das vidas de todos os homens daquele pelotão.
Embarcado nas viaturas, o 1o Pelotão partiu até a “mulateira”
que levava para os lados da Torre di Nerone. Alcançaram os fox holes
da 4a Companhia. Partiriam das posições do pelotão do tenente Pérsio
Ferreira. Pela baixada, o pelotão ia ganhando a base de partida, que


“Mulateira”: corruptela da palavra italiana “mulattiera”. Trata-se de uma trilha aberta em montanhas, para a
condução de víveres no lombo de mulas.
148
era um barranco entrecortado por uma velha “mulateira” utilizada
pelos camponeses italianos. Às “quatro menos dez”, ou seja, dez
minutos antes das 16:00 horas, um bombardeio de obuses 105mm
começou a cair sobre as posições alemãs na cota 702. A intenção era
que a preparação de artilharia pudesse atordoar os alemães
permitindo o assalto às posições. Mas o bombardeio tinha um
resultado impreciso: tanto podia servir como auxílio à ação, como para
colocar o inimigo de sobreaviso.
Em plena luz das quatro da tarde, o 1o Pelotão começou o avanço
em direção à cota 702 assim que a barragem da artilharia brasileira foi
suspendida.
O terreno ligeiramente ascendente era cortado na transversal
pela “mulateira”, que formava um pequeno patamar atrás do
barranco na junção com o terreno, oferecendo uma sumária proteção
aos soldados. Tinham atrás de si uma suave queda para a baixada
existente na direção oposta às posições alemãs.
Detiveram-se abrigados atrás do estreito barranco por parcos
instantes, até receberem a ordem de início para avançarem.
Tão pouco o grupo de soldados começou a andar, foram
enquadrados sob uma violenta barragem de artilharia inimiga. Bem
regulados e calculados de antemão no terreno, os tiros caíam em fila a
intervalos regulares, impedindo totalmente a progressão. As granadas
caíam entre o barranco e o despenhadeiro abaixo, e o bombardeio
alemão cortou as possibilidades de avanço e retirada do pelotão,
encurralando os soldados na terra de ninguém.
Recebiam disparos de morteiros, artilharia e “shrapnel”,
granadas que explodiam a alguns metros de altura antes de atingir o

149
solo reguladas por fusos de proximidade, espalhando um chuveiro de
estilhaços que arrancavam as cascas dos castanheiros ao redor e
projetando-se para todos os lados.
Ferdinando Palermo, que acompanhava o pelotão estendendo a
bobina de fios telefônicos lembra-se bem dos efeitos do bombardeio
inimigo: “você não podia levantar a cabeça, se levantasse a cabeça, ela
seria decepada”.
Por entre à confusão de poeira levantada pelas explosões e
fumaça das granadas, o sargento Silveira divisou um homem que caíra
ferido à sua frente. Apesar de pertencer ao Pelotão de Petrechos,
Silveira tinha participado da patrulha por estóico companheirismo. O
sargento avançou na direção do vulto indistinguível em meio à
fumaça, e o arrastou para um local menos exposto aos morteiros
inimigos, trazendo o homem pelo cinturão. Seu esforço foi em vão,
pois reparou que o soldado já tinha morrido antes de qualquer chance
de socorro. Não estava desfigurado, mas morrera instantaneamente ao
ter o coração perfurado por um diminuto estilhaço. Olhou para a face
do morto, que era o soldado Francisco Gomes da Silva.
O soldado Nelson Wood, - “Sebinho” para os companheiros -
recebera um estilhaço que raspou-lhe a pele entre os olhos, fazendo-o
sangrar em profusão e confundindo-lhe a visão. O soldado José Barca
também foi ferido na primeira tentativa de avanço.
Um grupo de homens acudia o soldado Maud, que se contorcia
no chão. Fora atingido pela mesma granada que vitimara Gomes.
Maud estava em estado deplorável, havia sido despedaçado. Com o
pulmão perfurado, pernas, braços, e costelas quebradas, suas costas
estavam retalhadas. Recebera 42 estilhaços pelo corpo, seis dos quais

150
de tamanho grande. O comandante do pelotão se aproximou do
homem ferido junto com alguns soldados. Abatido pelo choque porém
consciente, Maud foi dizendo a Gonçalves. “Tenente, estão fazendo
curativo, eu já vou para a posição!”
“Diabo!” – pensou o tenente. “O pobre não dura nem mais dez
minutos!”
Maud mostrava a fibra de que era feito. Seus colegas lembraram-
se do jeito calmo e comedido do rapaz que era professor de
matemática na vida civil. Durante as noites na linha de frente, Maud
costumava passar horas de costas, com as mãos atrás da cabeça a
observar o firmamento. Apontava as estrelas e dizia seus nomes.
Seus modos nada tinham das características normalmente
identificadas como próprias de guerreiros. Tinha provado ser um dos
mais bravos soldados do pelotão. Muito pelo contrário, os valentões e
briguentos dos tempos de Taubaté não tinham feito jus à fama que
possuíam uma vez na linha de frente.
Reajustando-se no terreno, o pelotão procedeu novamente para a
frente, apesar das baixas sofridas. Deslocam-se por mais 150 metros.
Na segunda tentativa de avanço, começaram a ser alvejados por armas
automáticas do inimigo, que mataram dois dos partigiani que
reforçavam o efetivo do golpe de mão.
À frente do grupo o soldado Nelson Conceição dos Santos
Carvalho corria freneticamente procurando um lugar para se abrigar.
Em meio à fumaça e detritos que as explosões remexiam, avistou o
cano de uma metralhadora alemã, por trás de uma barreira de arame
farpado que protegia a posição adversária. Nelson recebeu uma rajada
mas conseguiu se abrigar numa pequena capela de onde respondia o
fogo. O pelotão tinha se aproximado bastante dos alemães, que
151
esperaram os soldados do golpe de mão chegarem a pequena distância
de seus abrigos para começar os disparos das armas automáticas.
Dessa vez, rajadas de MG 42 disparadas à queima roupa detiveram a
segunda tentativa de execução do golpe de mão.
Novamente o pelotão se reorganizou no terreno, avançando pela
terceira vez. Respondendo ao fogo inimigo com suas armas
individuais, os homens do 1o Pelotão ao lado do grupo de partigianni
travaram um cerrado tiroteio com os tedescos a curta distância, sem no
entanto conseguirem se aproximar das posições para um assalto e
captura de prisioneiros. Encontravam-se novamente detidos em meio
à terra de ninguém.
Diante da nova tentativa de avanço, o bombardeio alemão
persistiu. Deitados frente a frente um para o outro, Palermo e
Gonçalves colavam-se ao solo para evitar os estilhaços. Com os
capacetes quase encostados, o tenente confabulava com o comandante
da companhia pelo telefone.
Tavares ainda insistia na continuação do golpe de mão.
Gonçalves retrucava nervosamente pelo telefone de campanha:
“Capitão, não dá. Isso aqui tá um inferno! Não se pode levantar a
cabeça. O Gomes morreu, o Maud tá ferido e alguns partigiani foram
atingidos!”
Enquanto Gonçalves falava ao telefone, um estilhaço passou
silvando pelo espaço de poucos centímetros que existia entre sua
cabeça e a de Palermo, cravando-se fumegante no solo coberto de neve
com um ruído estridente. O capitão ouviu o estalido pelo telefone.
“O que foi isso?” - perguntou Tavares.

152
“Foi o que você ouviu. Isso aqui não tem como! Eu vou retirar
essa tropa daqui. Eu não quero ser assassino de 40 homens! Vou sair
pela minha conta e respondo pelos meu atos.”
Tavares ainda consultou o major Gross, e finalmente concedeu a
ordem de retraimento. O pelotão chegou ao Posto de Comando com a
moral gravemente abatida. Grande pesar pelos mortos e feridos era
sentido entre os homens do 1o Pelotão. Os pensamentos voltavam-se
especialmente para Gomes. Caíra morto sem gritar um “ai” sequer,
colhido por um estilhaço enquanto corria para enviar uma mensagem
a um dos grupos de combate.
Maud, embora gravemente atingido, sobreviveria aos
ferimentos. O corpo de Gomes, no entanto, estava intacto. Foi
necessário um longo período de tratamento em hospitais nos Estados
Unidos para que Maud fosse reabilitado.
Entre as patrulhas e vigilância dos postos avançados, a
enganadora calmaria do front era interrompida pelos bombardeios de
inquietação inimigos.
Próximo ao Natal, pela primeira e única vez a 1a Companhia foi
hostilizada por um avião inimigo. Felizmente os explosivos lançados
atingiram inocuamente um pelotão nas circunvizinhanças sem causar
baixas
Em compensação, alguns dias antes, nove aviões P-47 tinham
sido vistos mergulhando sobre as posições alemãs, disparando suas
metralhadoras ponto 50 e bombas de 250 quilos ao assinalarem os
alvos. Assistindo ao ataque aéreo com o binóculo, Gonçalves
conseguiu ver as listras verde-amarelas na cauda dos caças-
bombardeiros. Eram os pilotos brasileiros do Senta a Púa!

153
No dia de Natal chegaram cartas e encomendas do Brasil.
Alguns tinham recebido fotografias mais recentes de seus familiares.
As imagens eram o melhor presente que o soldado podia esperar na
linha de frente. Haviam deixado o Brasil há mais de seis meses, e
naqueles dias de fim de ano voltavam seu pensamento para casa,
lembrando dos Natais anteriores passados em companhia de suas
famílias. A saudade apertava mais a cada dia que se passava, e cada
soldado se perguntava: quando chegaria a tão esperada paz?
Mas guerra trazia todos de volta de seus devaneios com sua
inclemência. O profundo sentimento de perda causado pela morte de
Gomes e pelas baixas por ferimentos ainda se fazia sentir intensamente
entre todos os integrantes do 1o Pelotão.
Na frente italiana, a situação se complicava com a ofensiva alemã
de inverno na região de Barga, que preocupou todo o 5o Exército.
Tropas frescas alemãs e italianas tinham obtido sucesso na reconquista
das posições da cota 906, Sommocolonia, Barga e vilarejos adjacentes,
ao empurrar a 92a Divisão de Infantaria americana para a retaguarda.
O avanço alemão complicou seriamente a frente do 5o Exército,
impedindo novos ataques em outros setores pois esgotara as reservas
aliadas disponíveis. Para a manutenção do setor de Barga, a 8a Divisão
Indiana foi deslocada da frente do 8o Exército Britânico a fim de
rechaçar a investida ítalo-alemã. Como garantia adicional para a
segurança no setor, o 442o Regimento de Infantaria americano,
composto por nisseis, foi chamado de volta da França.
No flanco esquerdo do setor da linha defensiva de inverno da 1a
Divisão de Infantaria Expedicionária, o III Batalhão do 6o R.I., o
Regimento Sampaio e o 11o R.I. haviam investido contra a elevação de
Monte Castello em consecutivos ataques que não lograram expugnar
154
os alemães de suas fortificações e que causaram milhares de baixas à
FEB.
No noroeste da Europa, os ingleses e americanos batiam-se
desesperadamente para conter a avassaladora ofensiva alemã lançada
na floresta das Ardenas, um setor tranqüilo da Bélgica que era
utilizado para o descanso de unidades veteranas e gradual emprego
de unidades novatas no front. Essa ofensiva surpreendeu os Aliados, e
desestabilizou toda a linha de frente no noroeste da Europa.
As notícias do recrudescimento da iniciativa alemã ecoaram no
Teatro de Operações do Mediterrâneo. Temia-se que os alemães
tivessem se recuperado das derrotas de 1944 e tentassem reconquistar
setores perdidos também na frente do IV Corpo.
Na virada do ano a neve continuava a cair por todos os
Apeninos, acompanhada pelos constantes duelos de artilharia. O Ano
Novo, mais uma data que até então todos tinham passado junto a suas
famílias, trouxe lembranças que eram compartilhadas nas conversas.
Na linha de frente, a camaradagem entre os combatentes servia, em
alguma medida, como um substituto para o convívio familiar. Vários
expedicionários de São Paulo recordaram-se do costume de soar as
sirenes das fábricas que apitavam em conjunto anunciando a chegada
de mais um ano na capital paulista.
Entre os soldados mostravam-se fotos, as mesmas cartas eram
lidas e relidas por incontáveis vezes, um ou outro soldado pedia ajuda
para escrever uma carta para casa. À cada noite, o tenente
ensimesmado costumava voltar seu pensamento para o Brasil, no
horário combinado que coincidia com a parte do dia que sua esposa
guardava para rezar e meditar por seu marido que combatia na Itália.

155
Pela última vez no ano de 1944, Gonçalves e Láu cruzaram suas
mentes.

156
Capítulo 7: Sangue nos Fox Holes.

Com grande calma passara-se o primeiro dia de 1945. Mas a


virada do ano novo traria ao pelotão uma das mais duras missões
enfrentadas na guerra. Às 04:00 da madrugada do dia 2 de janeiro,
Gonçalves foi chamado ao telefone. Era o capitão Tavares, informando
que a 2a Companhia tinha sido expulsa da posição de Boscaccio pelos
alemães.
Gonçalves recebeu ordem de deslocar-se com o pelotão para
Riola, sede do posto de comando regimental do novo comandante do
Sexto, o coronel Nelson de Mello, onde deveriam se reunir os pelotões
da 1a Companhia a fim de retomar a posição perdida durante o ataque
alemão.
Um cabo e um soldado da 2a Companhia permaneceram isolados
em Boscaccio. Estavam num abrigo mais distante da maioria dos
soldados e não foram contagiados pelo pânico.
O inimigo, pensando que a posição tinha sido totalmente
abandonada, tratou novamente de sondar o terreno. Quando um
grupo de alemães penetrava na posição, recebeu uma rajada de
metralhadora ponto 30 dos dois soldados que não haviam corrido. No
dia seguinte, foi publicado um extenso elogio aos dois homens. O
pelotão retornou à posição, juntando-se aos dois homens que tinham
ficado e oferecido resistência.


Uma determinação proveniente do Brasil estabeleceu um rodízio de oficiais após seis meses de
permanência em campanha. Em janeiro de 1945, o coronel Segadas Vianna foi substituído por Nelson de
Mello no comando do 6o Regimento de Infantaria. Entretanto, o rodízio foi amplamente criticado pela
oficialidade da FEB, resultando em sua suspensão.
157
Porém ao anoitecer, uma patrulha de combate alemã atacou
Boscaccio novamente. Dessa vez, o cabo e o soldados foram os
primeiros a despinguelar. Daí a manchete de “...E a Cobra Fumou!”:
“Herói por um dia!”
Em razão das recentes ofensivas desencadeadas pelos alemães,
tanto na Bélgica como no setor do IV Corpo, havia sérios motivos para
preocupação na frente da 1a Divisão de Infantaria Expedicionária. As
condições nestes fronts levavam a crer que as incursões dos alemães no
setor do I Batalhão do 6o R.I. poderiam ser manifestações preliminares
de uma iniciativa de retomar as posições Aliadas no Vale do Reno.
Rápidas providências para prevenir a linha de frente contra essa
hipótese foram empreendidas pelo comando do batalhão.
Gross e Ayrosa consultaram Piason a respeito de sua opinião
sobre qual pelotão enviar a Boscaccio. Piason acredita que acabou
ajudando a “fazer a caveira” do comandante do 1o Pelotão, uma vez
que Gross sugeriu que fossem esses homens os próximos a ocupar
Boscaccio, escolha que foi endossada por Piason.
Não há espaço para ponderar ou tergiversar numa guerra.
Quando uma missão era “paga” a algum pelotão, esperava-se que seu
cumprimento fosse feito sem discussão. Isso não significa que ao
aceitar uma missão ingrata, os combatentes o faziam de bom grado:
ninguém relutava em cumprir os objetivos estabelecidos pelo
comando na Itália, mas a atribuição de ocupar uma posição inóspita
não era ardorosamente desejada por nenhum pelotão.
Assim sendo, a notícia do envio para Boscaccio foi recebida com
pouco entusiasmo no 1o Pelotão. Todos estavam fartos, muito fartos da
guerra. Sabiam que a missão lhes seria inevitavelmente atribuída, e

158
que a chamada dos outros pelotões da companhia era simplesmente
uma pantomima.
Enquanto os soldados da 1a Companhia seguiam em direção ao
posto de comando do regimento em Riola, tendo à frente o
comandante do 1o Pelotão possesso de rancor e com cara de poucos
amigos, os homens cruzaram com o tenente Piason, que se projetou
para fora da construção de pedras onde estava instalado o PC do I
Batalhão. Piason emitiu um gracejo para animá-lo:
“Aí, Portuga, essa mamata vai acabar hein!”
A espirituosidade de Piason provocou os brios do amigo.
Gonçalves não assimilou a tirada, permanecendo sério. Continuou
andando e encarando Piason com o semblante agravado. Até que, à
medida em que se afastava, começou a proferir um torvelinho de
impropérios. Sua reação foi uma verborragia de todas as ofensas que
lhe vieram à mente no momento, botando para fora toda a raiva e
revolta momentâneas que sentia. Andava mais um pouquinho, à testa
da coluna de soldados, e a cada passo se virava para xingar
novamente. Expulsando a raiva, Gonçalves conseguiu desanuviar um
pouco as idéias.
“Esse é o Gonçalves que eu conheço”, pensou Piason, sem levar a
mal as injúrias desfiadas pelo amigo.
Os pelotões da 1a Companhia alcançaram a cidade de Riola
Vecchia, a beira da rota 64, situada bem abaixo da linha de contato
com os alemães.
Do lado de fora do posto de comando, cada um dos pelotões
havia tomado posição em lados opostos da rua. Encostados na parede,
os homens aguardavam taciturnos a determinação dos superiores.
Perguntavam-se se seriam novamente designados para outra missão
159
ingrata. Tristes lembranças do golpe de mão do dia 21 de dezembro
estavam frescas nas memórias de todos. Além do mais, tinham
combatido na cota 906, e feito as arriscadas patrulhas dos montes
Cardoso e Pedona.
Enquanto esperavam a decisão sobre qual dos pelotões haveria
de ser escolhido, por volta das 07:00 da manhã, os soldados viram o
general Zenóbio descer de uma viatura e subir rapidamente as escadas
do posto de comando regimental acompanhado de seus oficiais mais
próximos.
Pouco depois, o comandante do 1o Pelotão foi chamado para
dentro, confirmado suas suspeitas que a chamada dos três pelotões
não passava de uma encenação. Subiu a passadas largas a escada que
levava para a grande sala onde o Estado-maior regimental se reunia.
O tenente entrou pisando duro, de cara fechada. Prestou uma
rígida continência estritamente dentro do regulamento, e se pôs
preparado para notícias desagradáveis, frente a frente com o
comandante da Infantaria Divisionária. Lutava consigo mesmo para
não deixar que se extravasasse toda a cólera desencadeada pelo teatro
montado. Olhando de soslaio para uma das mesas, o tenente reparou
num amontoado de armas e apetrechos alemães: capacetes,
Panzerfaust e duas metralhadoras de mão MP 40; material tomado de
dois soldados inimigos mortos dentro da posição de Boscaccio. Os dois
mortos e as peças que carregavam tinham sido recolhidos por uma
patrulha ida ao local especialmente com essa finalidade.
Atmosfera tensa sufocava o ambiente no interior do casarão. A
missão era tão abjurada ao ponto do general Zenóbio ter a desfaçatez


Granada de carga oca de alto poder explosivo lançada por um tubo, usada pelos alemães tanto como arma
anti-carro como para destruir fortificações. Era uma arma descartável, altamente eficiente e de baixo custo.
160
de iniciar sua palestra com rodeios, proferindo discurso apaziguador
sobre o valor do 1o Pelotão. Tentava romper a sisudez da situação com
manifestação de falso apreço.
Ao redor de Zenóbio, os demais oficiais permaneciam em
silêncio, com fisionomias rigidamente consternadas. A impressão era
que o general se via constrangido em designar o mesmo pelotão para
ainda mais uma missão que oferecia extremo perigo. Antes de dar a
ordem, prosseguiu em sua alocução, “rasgando” todos os elogios
possíveis para aquele pelotão e seu comandante. Gonçalves
permanecia com a expressão imutável, pétrea, não transparecendo ser
afetado pela arenga do general. Quando Zenóbio concluiu, o tenente
perguntou:
“É isso, senhor general?”
“É.”
Gonçalves limitou-se a bater uma continência friamente. Girou
nos calcanhares, e com passadas firmes deixou o recinto sem dizer
mais nada. A fala do general não havia causado a impressão
pretendida. O tenente foi para junto de seus homens. Deveriam seguir
para Monzone e de lá para Montecavalloro, posição em mãos da 2 a
Companhia de onde partiriam para ocupar Boscaccio.
Às três da tarde, em Montecavalloro finalmente chegava a ordem
de enviar um dos grupos de combate para Boscaccio, para junto de um
GC da 2a Companhia que se acreditava ainda estar resistindo aos
alemães na posição. O restante do pelotão permaneceria em Monzone,
pronto para apoiar os dois grupos de combate na vanguarda.
Duas horas depois, o telefone do 1o Pelotão soava novamente.
Era o capitão Ayrosa, comunicando que o grupo de combate se
recusava a subir e ocupar seu objetivo. Ao mesmo tempo, o capitão
161
Ayrosa dava ordem para que Gonçalves se preparasse com outro
grupo e seguisse junto aos soldados para a posição!
Logo após encerrada a ligação, surgiu um mensageiro trazendo
uma ordem escrita de próprio punho pelo capitão Ayrosa:

“V Exército Em 2 de Janeiro de 1945


1a DIE Do Cmt. da 2a Cia.
6o R.I. Ao Tenente Gonçalves
2a Cia. Assunto: - Ordem

I – O grupo que devia ocupar Boscaccio encontra-se na casa rosa de


Montecavalloro e nega-se a prosseguir para o objetivo.
II – Deveis providenciar nova tropa que deverá se deslocar com
urgência a fim ocupar Boscaccio.
III – A fim de que não se repita o que se deu com o primeiro, este
grupo deverá ser levado pelo Ten. Cmt. do Pel. que só deverá deixar Boscaccio
quando a tropa se achar instalada no terreno. Cap. Ayrosa”

Decididamente, as coisas estavam se complicando. Lançando


mão do 1o Grupo de Combate (3o sargento Tanese), o tenente seguiu
para Montecavalloro, posição mais avançada da 2a Companhia e
passagem obrigatória para Boscaccio.
Durante o deslocamento pela estrada, o grupo foi por diversas
vezes enquadrado na mira dos morteiros alemães, mas felizmente sem
nada de anormal. Chegaram a Montecavalloro às 18:00 horas, onde o
tenente se pôs a par da situação.
Na tentativa de seguir para Boscaccio, o 3o Grupo de Combate
deu de cara com sete homens da 2a Companhia que corriam
desesperadamente para a baixada, em direção a Monzone.
Influenciados pelo comportamento dos soldados acometidos de
162
pânico, todos desceram de roldão, e alguns acabaram se machucando
num despenhadeiro.
Procurando informação sobre as condições de Boscaccio, o
tenente foi ter com o grupo que abandonara a posição. Os homens
transbordavam de pavor. Tinham entrado em pânico, contagiados
pela conduta dos homens da 2a Companhia.
O tenente tomou o cuidado de separar os homens que haviam
corrido da posição do novo grupo de combate que deveria seguir para
Boscaccio, para não disseminar o pânico. Essa emoção se alastra
rapidamente numa situação complicada, podendo influenciar de
maneira irracional aqueles que estão em primeira linha.
O 2o sargento Duperron, que havia acompanhado o 3o GC,
conseguiu convencer Zé Alves, Gratagliano, Araújo, Mineirinho, o
cabo Felipe e o sargento Melo a tentarem pela segunda vez a ida a
Boscaccio. Mas foram atacados novamente e dispersaram-se,
retornando a Montecavalloro consecutivamente.
A cada instante, o capitão Ayrosa ligava para o 1o Pelotão
insistindo com o comandante:
“Porra! Você vai subir ou não? O que você está esperando?”
Maus prognósticos cingiam-se em torno do pelotão. “A paúra”
estava estampada indistintamente nos homens do grupo do sargento
Melo e do grupo da 2a Companhia. Não se falava em outra coisa a não
ser que ninguém seria capaz de ocupar Boscaccio.
Pressionado pelo comandante da 2a Companhia assim como pela
necessidade de cumprir a missão, o tenente e um grupo de combate
tomaram a resolução de subir para a posição definitivamente. Dos
homens do 3o Grupo, somente três estavam em condição de voltar:
Gratagliano, Zé Alves e o sargento Melo. Juntamente ao tenente, o 1o
163
Grupo de Combate e os dois sargentos da 2a Companhia, totalizavam
17 soldados.
Deveriam cumprir, com o reduzido efetivo de apenas 17
homens, uma missão na qual tinha falhado um pelotão reforçado de 60
soldados! O tenente olhou para as estrelas que tinha bordadas nas
platinas do uniforme, que lhe colocavam em posição onde o titubeio
era inaceitável.
Vencer a porção de terreno descampado que levava a Boscaccio
foi muito perigoso. Os soldados ganharam a parte do caminho que
ficava exposta aos tiros de precisão do inimigo por infiltração homem
a homem, em lances rápidos e individuais enquanto o restante do
grupo de combate reforçado se protegia, aguardando sua vez de
progredir.
O tenente Gonçalves foi seguindo os dois sargentos da 2 a Companhia
que já conheciam a posição. Começaram a subir a encosta esbranquiçada pela
neve que levava a Boscaccio, demorando-se cuidadosamente para escolher os
ângulos mortos do terreno, evitando os snipers alemães que das escarpas do
Soprassasso espreitavam alvos incautos.
Com os dois sargentos da 2a Companhia à sua frente, Gonçalves subia
o intrincado caminho para Boscaccio, desta vez com a determinação de
ocupar a posição. Continuaram subindo as escarpas até alcançar o objetivo.
O cenário de Boscaccio colaborava para agravar adicionalmente a fama
ingrata que a localidade havia granjeado. Entrando na posição, os três deram
de cara duas enormes poças de sangue. Deviam ser dos dois alemães que
tinham sido mortos pela 2a Companhia. O tom vermelho do sangue escorrido
sobre a neve oferecia um lúgubre e chocante contraste, capaz de abalar o mais
equilibrado dos soldados.
Para que os homens não fossem impressionados por aquele quadro, o
tenente ordenou que os sargentos cobrissem as manchas com suas pás de
164
trincheira. Executaram a tarefa na medida do possível, pois o sangue ainda
assomava por baixo da neve translúcida.
O tenente então voltou-se aos seus arredores para examinar melhor a
posição. Aqui e ali, crateras de granadas pontilhavam a sinistra paisagem.
Fuzis, metralhadoras e marmitas fincados na neve projetavam-se para o céu
carregado de nuvens cinzentas sobre o panorama assombroso e estéril,
traduzindo naquele quadro grotesco a desolação da linha de frente. Quem
ocupara Boscaccio anteriormente havia corrido, largando todo o equipamento
e armamento. De fato, aquele panorama inspirava pavor.
Os troncos de árvores estavam desgalhados e dilacerados por
estilhaços. Tudo contribuía para que Boscaccio tivesse um ar espectral.
Voltando-se para a baixada da Rota 64, a imensidão do vale encoberto de
neve oferecia a visão de impactos pretos de granadas a perder-se de vista.
Era um lugar tétrico!
Logo depois, os catorze soldados do pelotão juntaram-se ao tenente e os
dois sargentos. Tomando posição na área, o tenente e um dos sargentos da 2 a
Companhia correram para dentro de uma casinhola de pedra na esquerda de
Boscaccio, separada do Soprassasso por um vale suave. Era um pequeno paiol
ou estábulo para armazenamento de palha de feno.
Afastaram a palha das paredes abrindo uma fresta na janela de frente
para o inimigo. A primeira coisa que viram foram sete soldados alemães,
vestidos em capas brancas de neve que subiam em formação de semi círculo
na direção da casinhola.
“Deixa eles chegarem. Quem sabe a gente faz uns prisioneiros aqui,”
comandou o tenente.
Mas o sargento da 2a Companhia não se conteve. Apontou sua
Thompson, disparando uma longa rajada na direção da patrulha.
Imediatamente os alemães fizeram “frente para a esquerda” e dispersaram-se,
sumindo pelas dobras do vale.

165
Com a precipitação do sargento, os alemães tinham novamente se
inteirado da presença de brasileiros em Boscaccio. A perspectiva de sofrer um
golpe de mão em força do inimigo apavorava a todos.
Dirigindo-se a Gonçalves, o 2o sargento exclamou:
“Bom tenente, o senhor já está aqui, o senhor já tomou posição, eu vou
embora!”
“Não senhor!” – retrucou o tenente – “Você não vai embora coisa
nenhuma, você vai ficar aqui comigo. O senhor não vai sair daqui.”
“Não, eu tenho ordens pra retornar.”
“Quem manda aqui sou eu, não é o capitão. Você vai ficar aqui, a
posição foi de vocês, vocês correram daqui, já tou pegando esse abacaxi, você
quer se pôr ao fresco, você vai ficar comigo aqui!”
O sargento ainda insistia - “Não senhor, eu vou embora.” Gonçalves
acabou cansando-se da ponderação e perdeu a paciência com o sargento:
“Teu buco é este aqui, tua frente é aquela, e se você fizer menção de
sair daqui eu te passo fogo!” – ameaça que não hesitaria em cumprir naquela
situação. Esse argumento acabou convencendo o sargento.
O homem então resignou-se: “tá bom.”
“Pega uma arma de vocês, que vocês correram aí, largaram as armas,
pega umas armas, tua frente é essa aí!”
O outro sargento da 2a Companhia demonstrou estar mais propenso a
colaborar: “não tenente, eu fico aqui com o senhor, aqui não tem problema
nenhum.”
Os dois sargentos passaram a primeira noite de Boscaccio com o
tenente e os 14 homens do grupo de combate reforçado.
Boscaccio é um pequeno patamar mais ou menos plano à beira de um
precipício. Está situado exatamente no meio de duas elevações, o
Soprassasso, do lado esquerdo; e pelo flanco direito o povoado de Precaria,
um ajuntamento de três ou quatro casinholas de pedra, anteriormente
habitações de camponeses italianos. As duas localidades ficam a menos de
166
150 metros de Boscaccio, e tem dominava a posição ocupada pelos
brasileiros. Em relação à estrada 64 e a cidade de Riola Vecchia, Boscaccio
fica a 600 metros de altura. A posição era completamente isolada. O platô,
uma pequena colina que já há 15 metros dos postos caía em ângulo morto. À
direita existe uma estrada estreita, margeada por um renque de vegetação
espinhosa, que dava acesso ao que restava das casas de Boscaccio. Essa
estrada vinha de Montecavalloro, contornando uma elevação que tem
comandamento sobre esta última e que depois de um entroncamento 100
metros abaixo entra em linha reta até a posição.
Pelo lado esquerdo de Boscaccio, um estreito vale se estendia entre o
lugarejo e o morro Soprassasso. Do lado oposto estava Precaria, depois de um
pequeno aclive de cerca de 80 metros. A distância é idêntica à de um campo
de futebol. Era o que separava brasileiros de alemães na posição.
Era inegável a situação de vantagem de que dispunham os tedescos em
relação a quem ocupasse Boscaccio. Em primeiro lugar, enquanto os
brasileiros deveriam permanecer em buracos, os alemães ocupavam casas e
abrigos preparados no terreno com alguma antecedência. O segundo aspecto
era o domínio que os alemães possuíam sobre a posição, em nível inferior e
facilmente controlada praticamente a olho nu. O resultado era que os fox holes
localizados no platô só podiam ser ocupados na escuridão da noite. Ao
chegar, Botossi, Benedito, Emílio e Gunha estabeleceram uma posição de
metralhadora ponto 30 no flanco esquerdo do dispositivo. Com o gradual
clarear do dia, perceberam que estavam completamente expostos aos olhares
hostis do inimigo. Vivendo sempre na escuridão, era raro ter uma noção
completa dos perigos que a linha de frente reservava. Não há quem não se
lembre das terríveis condições daquela posição. Para Botossi, “Boscaccio foi
o pior front nosso. Não podia levantar a cabeça que eles atiravam.”
“De dia, você não podia ficar na posição porque o alemão via. E
ele metia artilharia, ele sabia que tinha gente lá, mas não sabia a
quantidade, e ele queria descobrir”, segundo Palermo. “O Gonçalves
167
sempre falava: nunca dê um tiro. Se der um tiro, vai denunciar a
posição.”
No barranco um pouco abaixo do platô de Boscaccio, haviam seis
buracos forrados de palha, escavados horizontalmente. Cinco ou seis homens
se abrigaram em cada um dos pequenos túneis, que apelidaram de
“apartamentos”. Eram buracos de 80cm de altura por 70cm de largura, com
três ou quatro metros de profundidade. Os buracos tinham sido escavados por
americanos ou brasileiros que haviam ocupado Boscaccio anteriormente.
Volta e meia, os homens saíam dos buracos para retirar a neve que se
acumulava nas aberturas de entrada, que ficavam semi encobertas em poucos
minutos de nevasca. Janeiro é o mês mais rigoroso do inverno na Europa, e
com freqüência a temperatura caía abaixo do 20ºc negativos. O forte vento dos
Apeninos trazia consigo neve que se desprendia do solo, açoitando os rostos
dos homens em posição, chegando a esfolar a pele, e tamborilando nos
capacetes de aço como chuva de grazino sobre a capota de um carro. O frio
era rigoroso ao ponto de tornar insensíveis as mãos dos soldados após um
curto tempo de vigilância em um fox hole.
Para alcançar Boscaccio, a trilha utilizada era a mesma empregada
pelos alemães. Não havia uma separação clara do terreno entre alemães e
brasileiros. A posição estava precisamente no meio da terra de ninguém. O
único flanco de Boscaccio que os alemães não ameaçavam era o abismo
pedregoso situado na retaguarda, logo abaixo do barranco onde tinham sido
cavados os “apartamentos,” únicos locais que ofereciam segurança durante a
luz do dia.
Em meio às altas horas da primeira noite em Boscaccio, passos de
alguém que chafurdava na neve foram escutados ao redor das posições. Os
alemães se aproximaram, disparando suas rajadas de metralhadoras que
passaram rentes por sobre os abrigos brasileiros. Pela ligação telefônica, o
major Gross conseguiu comunicação com o comandante do pelotão para lhe
animar o espírito, lembrando a campanha anterior da qual haviam participado.
168
“Gonçalves, não se esqueça que você foi do 10o BCR!”
O major aludia aos dias da Revolução de 1932. Mas o comentário não
surtiu o efeito desejado.
“Ô major, o tedesco aqui não quer saber disso.”
Era a noite de 2 de janeiro de 1945. Muito frio, muita neve caindo,
temperatura em torno de – 18o C. Passava da meia noite e as posições com
defesa em 360o estavam sendo bombardeadas. O tenente logo pensou num
contra-ataque alemão como seqüência lógica do bombardeio. De repente,
cessam as granadas, e a interrupção do bombardeio foi seguida de um longo e
inqüietante silêncio. Preocupado, Gonçalves correu ao telefone para pedir ao
1o tenente Eurípedes Simões de Paula uma barragem de tiros de morteiro em
frente das posições. A pedido do tenente, os morteiros da CPP I e a artilharia
brasileira atiraram por toda a frente do 1o Pelotão.
Quando amanheceu, o grupo viu à esquerda o narigão imenso
do Soprassasso, a uma centena e meia de metros de distância.
No segundo dia em Boscaccio, chegava enfim o providencial
reforço composto do restante do pelotão: Duperron, Araújo, Xisto
(“Mineirinho”) e o cabo Felipe foram os primeiros a alcançar os
abrigos, ao lado de uma metralhadora ponto 30 e uma peça de
morteiro 60mm do Pelotão de Petrechos.
Após o cair da noite, todos na posição se sobressaltaram ao ouvir
violentas rajadas de Lurdinha partindo das posições inimigas à direita
de Boscaccio, visando primeiramente Montecavalloro e depois se
voltando sobre as posições do 1o Pelotão. Ao verificar as baixas, o
tenente descobriu que o soldado Garcia, que guarnecia a metralhadora
ponto 30, fora ferido por uma das rajadas.
Durante as noites e madrugadas, os soldados do pelotão
precisavam se revezar de hora em hora nos fox holes ao redor dos
apartamentos. Além da preocupação com o inimigo, o frio intenso
169
também colaborava para piorar a situação da posição. Problemas como
pé de trincheira e congelamento não demoraram para acontecer,
como narrou Vicente Gratagliano:
“Uma vez eu dei sentinela, tinha o Mineirinho, era um negrinho
magrinho, coitado. E ele tava dentro do buraco lá. Quando eu saí, eu tava no
FM em cima da neve, no posto, ele pegou e veio. Veio o sargento, ele tava
morrendo de frio, acho que tava com gripe. Ele falou, Gratagliano, você não
quer fazer a ronda para mim, eu não agüento mais. Fui fazer a ronda para ele,
fiquei com pena dele. Depois de dez minutos, chamo o Mineirinho, e ele não
responde. Ô Mineirinho, como é que tá a situação? O homem estava duro,
congelado! Fui chamar o sargento”.
Chegando ao buraco, Piske perguntou: “será que ele morreu?”
“Tiramos ele duro, ele estava encolhido, levamos ele para dentro,”
relatou Gratagliano.
O cabo Cruz, padioleiro do pelotão, depois de um breve exame
concluiu: “ele está congelado, mas tá vivo!”
Ainda segundo Gratagliano, “aí chamei o Araújo, e disse para ele tomar
o lugar do Mineirinho. Esquentamos aquelas latas em que nós fazíamos as
castanhas, com água, e demos um banho nele e ele voltou. Se eu não fizesse a
ronda, ele morria lá”.
Num dos outros dias em Boscaccio, Piske não sentia os pés.
Estava com um começo de pé de trincheira. Tirando as botas, Piske viu
as meias apodrecidas por debaixo das galochas. Seus pés estavam
arroxeados. A cura improvisada consistiu em esfregar gelo nos pés,
para que a circulação retornasse. Mas o cabo Cruz surgiu com um
remédio inesperado para o mal que abatia Piske: alguns goles de


A baixa circulação nos pés dos soldados, agravada pelo frio, causava o “pé de trincheira”, que por muitas
vezes resultava em gangrena e amputação.
170
whisky, que causavam uma reação que ajudava a reverter o pé de
trincheira.
Os serviços prestados pelos padioleiros e enfermeiros nos
pelotões de infantaria foram de valor inestimável. Os combatentes de
todos os exércitos envolvidos na guerra guardavam especial carinho
por seus padioleiros – medics no Exército Americano, Sanitäter no
Alemão – a providencial figura do padioleiro ou enfermeiro era
sempre vista junto à mais imediata linha de frente, sempre correndo os
mesmos riscos e acompanhando os soldados nos ataques. Eram
identificados pelo símbolo da Cruz Vermelha internacional em
braçadeiras e capacetes, e tanto alemães como brasileiros procuravam
cessar os disparos quando uma equipe de padioleiros levantava a
bandeira e partia em busca dos feridos na terra de ninguém. Não há
integrante do 1o Pelotão que não se recorde da prestatividade e
abnegação do cabo Cruz, que exerceu a função durante a guerra.
Um dos piores encargos que cabia aos soldados era permanecer
de sentinela dentro dos fox holes gelados. Cobertos com o capotão
americano, field jacket e agasalhos de lã, capacete de aço e arma
automática apontada na direção do inimigo, pondo só a cabeça para
fora do buraco, os homens passavam os turnos de sentinela vigiando a
linha de frente na escuridão das noites nevosas. O soldado tinha que
dar mais atenção à proteção da arma do que ao seu próprio conforto,
pois se o fuzil-metralhadora ficasse descoberto, seu mecanismo de
manobra se congelava rapidamente. Cada fox hole abrigava três
soldados. Enquanto um mantinha-se na observação, os outros dois
dormiam na parte de descanso do buraco, escavada sob a terra.
Quando calhavam de obter palha ou feno, forravam o fundo dos
buracos para conseguir um pouco mais de calor. Mesmo assim, a baixa
171
circulação sangüínea dos membros locomotores agravada pelo frio
ainda dava muita margem de preocupação para o problema de pé de
trincheira. Depois de uma ou duas horas de turno de serviço de
sentinela, o homem que iria ser substituído na parte de combate do fox
hole acordava seu companheiro com um chute:
- Vamos Mário! Vamos!
Porém as duras condições de Boscaccio começavam a afetar o
ânimo dos homens. Para a garantia da segurança, a posição requeria
um número bem maior de homens do que os 17 soldados do grupo de
combate reforçado que tinham retomado a posição. Em conseqüência
das constantes atribuições de vigilância, todos estavam combalidos.
Ninguém conversava. Não se dormia. Com a idéia de
permanecer por um tempo indefinido na terrível posição, o moral do
pelotão começou a cair. Gonçalves resolveu que os soldados
precisavam de algum incentivo. Deixou um homem de sentinela, e
reuniu o restante do 1o Pelotão atrás do barranco.
Em torno do tenente, os homens, abatidos, aguardavam a
palestra.
“Escuta aqui, negada,” começou dizendo o tenente. “Nós não
viemos aqui fazer pique nique. Isso aqui é guerra! Guerra! Vocês estão
aí com a língua de fora. Eu estou na mesma situação que vocês,
passando pela mesma coisa. Estou sofrendo a mesma situação! Vocês
tem que levantar a cabeça. Nós precisamos vencer isso aqui. Não
podemos nos entregar.”
Segundo Palermo, “ele deu uma puta lição de moral na gente.”
O pelotão teve seu moral refeito pela conferência com o tenente,
embora a gravidade da situação não tivesse se atenuado. O
desempenho de um pelotão em combate é resultado direto da
172
inspiração de seu comandante, e o tenente sabia que precisava dar
uma injeção de ânimo nos soldados.
“A preocupação era grande”, narrou Ferreira. “Eu encontrei
uma cesta de vime cheia de booby-traps. Aí eu tive uma idéia: isso
aqui é bom para cercar a nossa posição.”
Ferreira foi ter com o tenente dentro de seu “apartamento”.
Levantou o pano de barraca que cobria a entrada do abrigo,
chegando metido dentro de uma capa branca de neve. Carregava a
cesta com a parafernália necessária para cercar a posição de “booby-
traps”: granadas de mão, fios de arame, dispositivos de iluminação à
base de magnésio e mecanismos metálicos de disparo, que eram
presos ao solo.
“Tenente, o senhor dá licença de eu colocar esses “booby-traps”
em torno da posição?”
“Você vai arrumar encrenca, rapaz. Esse troço vai estourar aí na
tua mão, o alemão vai saber que nós estamos com este negócio e eles
vão te acertar.”
Uma armadilha de magnésio produz uma luz fortíssima, mesmo
durante o dia. “Aquilo ali tem 7.000 volts de potência”, lembrava
Ferreira. O clarão se apresenta forte por alguns segundos o que não
permite tempo nem de que um soldado se jogue ao chão caso tropece
num fio disparador de armadilha. Se um dos dispositivos se ignisse
por acidente, isso chamaria a atenção dos tedescos em Precaria ou no
Soprassasso, e Ferreira e qualquer outro que estivesse junto se veria
rapidamente transformado em alvo. Mas Ferreira era insistente, e
junto com Piske, Palermo e Mário Alberti, partiram para os arredores
da posição instalando as armadilhas. De cócoras, foram arrastando os

173
baldes cheios de apetrechos para “booby-traps”. Os quatro cercaram a
posição num raio de 50 metros.
“Começamos a amarrar as granadas nos tocos de árvores”,
narrou Palermo. “Fizemos uma distribuição ali de umas 20 ou 30
granadas e booby traps.” Para alcançar Boscaccio, a mesma trilha era
utilizada por brasileiros e alemães. Pouco antes do fim da trilha, na
entrada da posição, havia uma cancela, que Ferreira armadilhou com
granadas e very lights.
“Agora estamos seguros”, disse Ferreira. “Quando os bichos
vierem, eles vão se denunciar”.
No dia 5 de janeiro, o coronel Nelson de Mello visitou
rapidamente a posição, para se inteirar das terríveis condições de
Boscaccio. Todos se admiraram da disposição do comandante do 6o
R.I., que se apresentou numa das mais difíceis posições da linha
defensiva da 1a DIE. O coronel recomendou a Gonçalves para que
abrisse o dispositivo do pelotão, para melhorar o comandamento sobre
as vias de acesso à posição. Mas embora o coronel Nelson de Mello
tivesse razão, o trabalho era impraticável, devido aos movimentos que
o pelotão teria que fazer às vistas do inimigo. Apesar disso o tenente
postou dois sentinelas em fox holes ainda mais avançados.
Logo que o coronel partiu, Gonçalves determinou ao grupo de
Tanese que construísse um fox hole na estradinha, de maneira a
flanquear o ângulo morto na frente da posição. Uma vez terminado o
trabalho, o tenente sentiu pena dos homens que guarneciam aquela
posição em completo isolamento.
Para melhorar o plano de fogo, Gonçalves colocou um FM
flanqueando a posição. Ao todo, o pelotão dispunha de duas
metralhadoras de mão e um FM naquele flanco de Boscaccio, que se
174
voltava para a direção de Precaria; mais uma metralhadora de mão na
estrada; outra metralhadora de mão à direita, o FM do grupo do
sargento Pereira à retaguarda e o FM do sargento Melo enfiando a reta
da estrada de acesso. Além de todas essas armas, o pelotão ainda tinha
uma metralhadora “ponto 30” com a missão de barrar toda a baixada à
frente e à esquerda da estradinha.
A noite caiu, trazendo de volta a rotina e a monotonia dos
quartos de sentinela nos postos avançados. Destas posições, duas
metralhadoras de mão e um Garand começaram a atirar
repentinamente. Os sentinelas tinham pressentido a aproximação de
um vulto indistinto. Depois dos disparos, o vulto gritou,
identificando-se: era o sargento Melo, que se salvou por um triz.
Saindo em patrulha para vasculhar a vanguarda de Boscaccio e
analisar a possibilidade de colocar mais um posto avançado, o
sargento Melo havia se esquecido de avisar os postos e o resultado foi
que os sentinelas abriram fogo sobre o sargento!
Do outro lado do rio Reno, os sul-africanos disparavam os tiros
compassados de suas armas automáticas, dando o sinal de vida como
faziam todas as noites.
À meia noite, os tedescos apareceram novamente, atirando como
sempre com suas metralhadoras sobre o 1o Pelotão. Provavelmente, o inimigo
preparava mais um golpe de mão contra Boscaccio. Seria necessário requisitar
uma barragem de morteiros para conter o assalto alemão.
Mas o fio telefônico que ligava o 1o Pelotão com a CPP I e o comando
da 1a Companhia tinha sido cortado por estilhaços ou deslocamento de ar
causado por uma granada alemã. Pelo resto da madrugada, os homens de
Boscaccio permaneceram sem comunicação. O aparelho de rádio, devido à
diferença de altura também não funcionava Aquela fração do 1 o Pelotão

175
estava completamente isolada, sem qualquer ligação. Diante das posições,
ouviam-se passos à distância, pisando na neve movediça, e que se
aproximavam cada vez mais. Um ataque inimigo era iminente.
Eis que quando já não restava outra esperança senão resistir a qualquer
custo, uma saraivada de granadas de morteiros 81 começou a cair na frente
dos homens de Boscaccio, que acabou por dispersar algo que tinha tudo para
ser um ataque inimigo! Novamente voltou o silêncio, mas desta vez,
felizmente o perigo passara.
A inesperada barragem de morteiros da CPP I foi uma agradável
surpresa.
Logo pela manhã, depois de reparadas as linhas, Gonçalves
comunicou-se com o tenente Simões, que lhe informou: “Zé Gonça,
depois do bombardeio às suas posições, percebi que estávamos sem
ligação. Resolvi como precaução dar aquela ‘caqueirada’ em cima dos
tedeschi!” Formidável!
Na noite seguinte, Botossi e Gratagliano davam sentinela na
parte direita de Boscaccio, na direção de Precaria. Naquela noite iam
deixar o serviço às 24:00 horas, embora os dois costumassem pegar o
turno da 01:00 até 03:00 da madrugada, talvez o mais propício a
iniciativas do inimigo, pois era hora em que todos estavam muito
cansados. Enquanto Gratagliano mantinha-se em alerta no fox hole,
Artemiro Botossi rondava pela parte de trás da posição, prevenindo as
tentativas de desbordamento. Junto com Vicente Gratagliano em seu
fox hole estavam Mário Alberti e José Alves de Abreu, descansando no
fundo do abrigo.
Palermo e Ferreira, como lembrou esse último, ocupavam postos
avançados na outra extremidade da posição: “um dia, eles vieram pelo
lado esquerdo. Esse dia, eu tava de sentinela com um colega meu, com

176
as armas assim, e cobrimos com um oleado, um pano de barraca.
Fizemos uma valeta, eu fiz um banquinho dentro, nós ficamos os dois
sentados, só do pescoço pra cima aparecendo, e o pano da barraca caía
para trás.”
Quando faltavam vinte minutos para terminar seu quarto de
sentinela Gratagliano foi sobressaltado pela detonação de uma das
armadilhas de iluminação de magnésio exatamente na frente de seu
fox hole. Ferreira tinha ajustado o booby trap para explodir tão logo a
cancela se abrisse.
O clarão do booby trap iluminou a área à frente de seu buraco. A
visão que Gratagliano teve o acompanharia para toda sua vida na
memória. Camuflados com capas brancas, metralhadoras de mão em
punho, uma patrulha de cinco ou seis soldados alemães tinha sido
surpreendida sob a mira de seu Browning Automatic Rifle.
Com a adrenalina correndo a mil pelo corpo Gratagliano
disparou todo um carregador do FM sobre os três alemães que vinham
mais à frente da patrulha. Viu que dois caíram ao serem atingidos
pelos projéteis. Escutou gritos de espanto e berros de feridos.
Conseguiu ver também mais quatro soldados alemães que se
infiltravam pela esquerda, de frente para o fox hole de Palermo e
Ferreira. Da posição de ronda atrás de Gratagliano, Botossi também
abriu fogo contra a patrulha. Viu os inimigos atirarem-se ao chão
procurando abrigo no terreno.
Subitamente Palermo e Ferreira escutaram as rajadas disparadas
no lado direito da posição. Logo após os disparos de Gratagliano,
Palermo percebeu a aproximação dos tedescos vindos de Precaria: “eu
tava com o Ferreira no outro lado,” relatou Palermo. “Recebemos uma
rajada de metralhadora, a Lurdinha é um serrote, com o deslocamento
177
de ar o banco desmontou, caímos no buraco, tinha um toco de árvore
ali, voaram pedaços de cavaco que bateram em mim, eu pensei que
tinha sido ferido. E o fogo comendo nas nossas costas. Metralhadora e
granada de mão. Para não denunciar, eu fiz um carnaval de granadas
de mão.”
“Eu senti as balas passarem chiando”, relatou Ferreira. “O tiro
passou entre a nossas cabeças e a barraca. Se fosse um pouco mais
baixo, pegava nós.”
Tudo isso se passou em dez ou quinze segundos. Nessa altura o
very light de iluminação já se apagava, mas Gratagliano ainda gastou
mais um carregador de sua arma na direção do ruído causado pelos
passos dos quatro alemães que corriam após terem mandado rajadas
sobre o outro fox hole. Em seguida atirou mais duas granadas de mão
onde pensava que ainda pudessem haver inimigos.
Depois da breve ação, um silêncio absoluto reinava sobre
Boscaccio. O tenente Gonçalves começou a correr os postos para
verificar se o pelotão havia sofrido alguma baixa. Ninguém sabia o
que tinha se passado nos abrigos.
Em busca de informações, o sargento Tanese e Gonçalves
correram até o posto avançado do qual haviam escutado partir as
primeiras rajadas. Acudiram Gratagliano, que sofria uma reação
nervosa muito comum após ações de combate ocorridas de maneira
tão inesperada. Os dois levaram Gratagliano até um dos apartamentos,
enquanto Mário e José Alves assumiam a posição.
“Que aconteceu Gratagliano?”
O soldado relatou o que tinha se passado ao tenente. Em
seguida, o oficial tratou de verificar a situação nos outros postos
avançados.
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No fox hole de Palermo e Ferreira, os dois começaram a escutar
passos de alguém que se aproximava na neve. Prepararam-se para
jogar mais granadas de mão no vulto que se avizinhava do buraco.
Puxaram as argolas das granadas que tinham nas mãos. A dois metros
da dupla, uma voz os chamou pelos nomes.
“Ferreira! Palermo!” Reconheceram a figura do tenente
Gonçalves. Aliviados, puseram os grampos de volta nas granadas. Por
pouco, o comandante do pelotão não havia sido recepcionado com os
explosivos.
Gonçalves se acomodou no buraco e narrou os acontecimentos
passados no flanco direito da posição. “Tem uns alemães gemendo. O
padioleiro quis ir lá mas eu não deixei. Deixem que os padioleiros
deles os peguem.”
No outro buraco, Botossi chegou a ver os padioleiros alemães
retirando seus feridos. Ao amanhecer, quando os fox holes eram
deixados e os soldados voltavam para o “hotel”, Ferreira e Palermo
contaram nove furos no oleado de barraca que cobria seu abrigo. Mais
alguns centímetros abaixo e teriam sido atingidos. Foram examinar a
posição ocupada por Gratagliano e constataram grandes manchas de
sangue, já coagulado e cristalizado na neve. A chegada do dia foi
saudada pelos tedescos com tiros de franco atiradores vindos do
Soprassasso, que visavam atingir Gunha e o carioca Wilson, que
embora camuflados com as capas brancas, não eram completamente
invisíveis.
Ferreira correu até o apartamento onde Gratagliano ainda se
recuperava do choque nervoso. “Gratagliano, venha ver o prejuízo que
você deu neles.”

179
Mas o fuzileiro atirador Gratagliano preferiu não ver os estragos
que havia causado na ação da noite anterior.
Para dar patrulha em Boscaccio, ninguém resmungava. Como
sempre o profundo sentimento de solidariedade irmanava a todos
fosse para o que vier. Duas vezes por noite, patrulhas de segurança e
vigilância eram lançadas das posições de Boscaccio. Eram pequenos
grupos de três a cinco soldados, acompanhados pelo tenente até os
abrigos mais expostos naquele platô. Depois de alguns metros da
partida, os soldados desapareciam na escuridão. O único sinal de sua
presença era o som dos passos abafados pela neve, que diminuíam à
medida em que a patrulha ganhava distância.
Gonçalves aguardava o retorno dos soldados ansiosamente, na
terrível expectativa de ouvir o som dos passos dos patrulheiros
entrecortados por rajadas dos choques com patrulhas inimigas.
Enquanto o tenente esperava, os patrulheiros passavam a rastejar
quando percebiam a proximidade das posições dos alemães em
Soprassasso e Precaria. Colavam-se à neve deitados, esfregando a
barriga por intermináveis horas sobre o solo gelado. Levavam duas ou
mais horas para percorrer 80 metros de terreno e retornar, rastejando
armados de Tommy Guns e granadas de mão. Comunicavam-se por
gestos e sussurros, evitando ao máximo atrair a atenção do inimigo.
Chegavam a poucas dezenas de metros da boca das metralhadoras
alemãs. Detinham-se então para observar a movimentação no lado
inimigo. Na volta, o tenente respirava aliviado quando tornavam-se
audíveis os passos dos soldados que com todas as precauções
voltavam para o interior do perímetro defensivo.


Apelido genérico dado às submetralhadoras, em especial às do modelo Thompson.
180
Nos postos avançados, a situação do 1o Pelotão era dramática.
Durante o dia, um franco atirador alemão postado no Soprassasso
vigiava permanentemente o acesso à posição. A linha de comunicação
com o posto de comando da companhia era constantemente partida,
tanto pelos bombardeios como pelas patrulhas alemãs que rondavam
Boscaccio nas noites de inverno.
Sendo impossível acionar o telefone pela campainha, pois o
ruído despertaria a atenção do inimigo, a escuta telefônica era
permanente. Era preciso que um homem ficasse sempre com o fone
colado ao ouvido, em ligação direta com o PC da companhia e os
outros pelotões. Geralmente a função ficava a cargo de Palermo ou
Borges, que tinha substituído Gomes. O destinatário da chamada era
identificado quando se pronunciava o código da subunidade que se
desejava contactar. O código da 1a Companhia era ARMA, e os
pelotões, ARMA 1, 2, 3 e 4.
Numa noite, durante seu quarto de escuta, Palermo escutou um
estalo na linha. Estava junto com Piske e Gonçalves em um dos
apartamentos.
Tentou chamar o PC do capitão.
“Alo? Alo?” Não obteve resposta. Por mais uma vez, o inimigo
tinha cortado a linha. “Esses filhos da puta”, pensou Palermo.
“Trata do negócio aí”, ordenou o tenente. Ficar sem comunicação
eqüivalia ao suicídio. Depois de reparar a linha pela enésima vez,
Palermo descobriu uma solução para o problema: atirou uma bobina
pelo precipício, conectando-a diretamente com o fio que saía do PC e
se ligava aos demais pelotões da 1a Companhia.
As preocupações com golpes de mão do inimigo eram
plenamente justificadas pela forte atividade alemã. No dia 9 de janeiro,
181
um pelotão reforçado do IV Batalhão de Alta Montanha tinha
desferido um violento golpe de mão sobre a 8a Companhia do Sexto
em Africo. O golpe foi contido pelos pelotões dos tenentes Gérson,
Ubirajara (que se encontrava substituindo o tenente Nestor) e Túlio.
Mesmo os hábitos mais corriqueiros do cotidiano eram
radicalmente mudados na linha de frente. Alimentação, higiene
pessoal e sono eram confortos muito distantes da realidade de um
combatente. Palermo aludiu à dificuldade de realizar uma tarefa
básica em Boscaccio:
“O problema era fazer as necessidades fisiológicas. Aí que era o
negócio! Quando você podia se segurar até a noite, você saía, cavocava
o chão com a ferramenta de sapa e depois cobria, senão causaria uma
epidemia ali. Isso o americano nos ensinou, porque daqui nós não
levamos nada.”
Quem precisasse ir ao “banheiro” durante o dia tinha que
recorrer aos canudos de papelão que envolviam as granadas. A
operação era feita dentro dos apartamentos, que não tinham circulação
de ar, e na presença dos companheiros.
Os soldados fartaram-se de comer as rações K e C, que vinham
enlatadas ou empacotadas em caixas de papelão encerado. O
abastecimento em Boscaccio era garantido por soldados que traziam
alimentos e munição no lombo de mulas, sob a proteção da noite.
Onde não chegavam os Jeeps, chegavam as mulas de carga, muitas
vezes conduzidas por soldados de tropa alpina italiana que
colaboravam com os aliados.
Depois de sete dias em Boscaccio, foi anunciada a ansiada substituição.
A satisfação de todos era incomensurável. Um grupo de oficiais do 1 o R.I.
visitara a posição na véspera, para inspecionar a posição. O 1 o Pelotão deveria
182
repousar por alguns dias em Porreta Terme, na retaguarda, refazendo-se da
semana passada na linha de frente. Um pelotão da 6 a Companhia do 1o R.I.
efetuou a substituição dos exaustos homens do pelotão do tenente Gonçalves.
Ainda no mês de janeiro, uma patrulha do 1o R.I. foi aniquilada pelos alemães
em Precaria. Três dos soldados morreram e o sargento comandante da
patrulha feito prisioneiro depois de ferido. Do field jacket de um dos soldados
mortos em Precaria, os alemães retiraram uma prece, escrita por sua noiva,
que aguardava seu retorno em Minas Gerais. A correspondência trazida pelo
soldado morto foi aproveitada em um panfleto de guerra psicológica, lançado
sobre as linhas brasileiras dentro de estojos disparados por obuseiros.
No retorno de Boscaccio, a neve continuava a cair fortemente. Depois
de uma hora de marcha, os soldados do pelotão foram apanhados por Jeeps
que os levaram até Vaiarana. A viagem foi lenta e cuidadosa, em vista da
estrada encontrar-se escorregadia, o que causava freqüentes derrapagens dos
veículos resultando em mortes e ferimentos. Os perigos da guerra não se
limitavam à linha de frente apenas...
O pelotão alcançou Vaiarana às 13:00 horas. Não demorou muito para
que o capitão Tavares também chegasse, anunciando que ao cair da noite,
todos seriam mandados para Porretta Terme, onde ficariam por alguns dias
como reserva do IV Corpo. Ocorria que Porretta vinha sendo bombardeada
pelo inimigo há vários dias, por ser um entroncamento de rotas de
abastecimento e de recompletamento, e afinal, o esperado descanso não seria
tão tranqüilo quanto se acreditava. Tavares concluiu o discurso com uma
recomendação inoportuna, o que culminou numa acirrada discussão entre o
tenente e o capitão, na presença de todos os soldados do pelotão.
Uma vez em Porretta, a 1a Companhia teria suas baixas recompletadas
com novos elementos vindos do Depósito de Pessoal. Homens tinham sido
perdidos em combate, mas também baixados ao hospital por doenças
contraídas em decorrência da vida nos fox holes. Chegando na cidade, foram

183
saudados por companheiros de outras unidades do regimento. “Como é? O
tedesco ainda não descontou vocês?”
Um poema de publicado em março de 1945 em “...E a Cobra Fumou!”
traduzia o estado de espírito daqueles soldados:

Profissão de Fé

“Adeus, adeus Soprassasso,


Cabeça longa que a estrada,
Numa contínua emboscada,
Como serpente vigia.

Adeus, ó reta da morte,


Onde não foi por esporte
Que o Mestre Praça corria...

Noventa dias - que etapa!


Noventa dias no morro,
Mais sujo do que um cachorro
Mais frio que o gelo. E atente
Que mais que ambos desgraçado:
Pois gelo não é ‘chupado’,
E há também cachorro quente.

Que etapa - noventa dias!


Coçando a pele irritada,
’Disguiando’ de granada,
Contando os dedos da mão...
Passando um dia ‘chateado’,
Dormindo um sono assustado,
Bem nas barbas do alemão.

Três meses vivendo a ‘peixes’


Vivendo sempre de engodos:
- ‘Será que vamos nós todos?’
– ‘Você sabe o que eu ouvi?’
Conversas de camas-sacos,
Que vêm dos frios buracos
Onde descansa o R.I.

São vozes muito sumidas,


São vozes entrecortadas
Pelo fragor das granadas
Sobre as linhas brasileiras,
São homens sujos cansados,
Barbudos e enregelados
Na lama - luz das trincheiras.
184
São vozes de Camaiore,
Da Linha Gótica, vozes
De Nerone que os ferozes
Bombardeios não calaram.
São homens de Soprassasso
Castelnuovo - cujo passo
No próprio sangue marcaram.”

Essa “Profissão de Fé” foi escrita por um soldado da 5 a Companhia do


6o R.I., que adotou o pseudônimo de “Saco A” para submeter sua obra ao
jornal. Ao longo da linha de frente, a infantaria brasileira irmanava-se
sustentando as posições sob as piores condições imagináveis. Medo, frio,
alimentação inadequada. Doenças causadas pelo convívio em buracos
gelados. E o fantasma da morte dolorida e precoce que rondava seu dia a dia,
a milhares de quilômetros da família e de casa. No entanto, agüentaram firmes
seu quinhão da guerra.
Com o fardamento endurecido pela sujeira e puído pelo uso
consecutivo por entre a lama e o gelo, todas peças de uniformes do 1o
Pelotão foram descartadas e incineradas ao alcançarem Porretta. As
roupas estavam imprestáveis. Aproveitando apenas os capacetes de
aço e borzeguins, a tropa recebeu novo material na intendência da 1a
Companhia instalada em Porretta.
Desembarcando dos caminhões que os trouxeram à cidade que abrigava
o Quartel General da 1a DIE, os homens progrediram em acelerado,
encostando-se às paredes para se abrigarem do bombardeio que caía, para o
local de abrigo designado pelo comandante da 1 a Companhia, o subsolo de
uma velha igreja. Entraram correndo para dentro da escuridão do salão.
Esperando um tratamento que compensasse os dias de penúria, a 1 a
Companhia foi alojada num porão infecto, que tinha sido utilizado como
latrina por outra unidade. Porretta é uma estância termal, com vários hotéis,
mas o comando achou que o lugar adequado para abrigar uma tropa que
provinha da linha de frente era um porão imundo.
185
Dava pena ver os soldados arrancando portas e janelas da construção,
para cobrirem o chão a fim de não se deitarem sobre os excrementos.
Félix, Gonçalves e Carrão estavam inconformados. Discutiram entre si
qual seria a melhor forma de sair daquela imundície.
- “Vamos falar direto com o major Gross. Pediremos a autorização
dele para arrumar outro alojamento.”
Os três subiram no jipe da companhia e rodaram a cidade em busca do
comandante do I Batalhão, que se encontrava todo em reserva em Porreta
Terme. Acabaram cruzando com o major, que se exercitava correndo pela
avenida principal de Porreta em uniforme de ginástica.
Ao ver os três avizinhando-se no jipe, o major Gross exclamou: “Félix,
Carrão e Gonçalves! Não pode ser coisa boa o que vocês querem!”
Explicando a situação ao major, os três sugeriram que os cerca de 180
homens da 1a Companhia se instalassem distribuídos em pequenos grupos por
alguns apartamentos. Gross recomendou apenas que buscassem abrigo nos
edifícios postados nos ângulos mortos de Porreta, pois a cidade era
constantemente bombardeada pela artilharia pesada alemã.
Coube aos tenentes bater de porta em porta nas casas e apartamentos de
Porretta determinando: “Boa tarde. Você vai abrigar estes soldados.” Os
italianos tinham que aceitar.
Os tenentes conseguiram um apartamento vago no segundo andar de
um edifício de Porretta. Como o descanso era de duas semanas, Gonçalves,
Carrão e Vilhena, o novo comandante do 3o Pelotão, conseguiram um passe
para uma visita de sete dias à cidade de Firenze. Viajaram em um Jeep que
serpenteava pela deslumbrante paisagem, deixando para trás o horror do front,
mesmo que fosse por poucos dias. Depois dos sete dias em Firenze, os oficiais
retornaram a Porretta.
Logo depois da chegada, não demoraram 15 minutos para que um
incêndio se iniciasse no apartamento ocupado pelos tenentes. O quarto tinha
um fogareiro que alimentava a calefação do prédio. Desejando aumentar o
186
calor no ambiente, o tenente Vilhena decidiu atirar um camburão de gasolina
para dentro da fornalha. O líquido atingiu as brasas explodindo e atirando
uma labareda de volta ao recipiente de combustível. Para escapar do fogo,
Vilhena jogou o camburão para o chão, cheio de gasolina inflamada que se
alastrou pelo quarto, causando um incêndio que levou de embrulho camas,
quadros e cortinas, para o total desespero do proprietário do edifício, um
coronel do Exército Italiano.
Rapidamente uma corrente de soldados transformados em bombeiros
baldeou água para o terceiro andar, extinguindo o fogo. A água rescaldada
escorria pelos degraus abaixo, deixando o coronel italiano em prantos. Entre
mortos e feridos, Gonçalves perdeu seu pesado capote americano, incinerado
até a altura do peito.

187
Capítulo 8: De Novo em Boscaccio

Os dias de descanso passaram-se rapidamente, e logo após das duas


semanas a 1a Companhia retornou ao front no dia 10 de fevereiro, na antiga
frente ocupada pela 3a Companhia em Monzone.
A habitação principal de Monzone era um velho casarão de
pedras, que datava do século XIII. Feito de grandes blocos de rocha de
cor amarelada, o casarão tinha uma torre e grandes portas de madeira
com pesados gonzos de ferro, que faziam a edificação se assemelhar a
um castelo. A espessura das paredes centenárias variava entre 1 e 1,5
metros. Os soldados se espalharam pelos cômodos do casarão,
improvisando camas com feno, mochilas e lonas de barraca. Ficariam
por mais de um ano sem saber o que era o conforto de uma cama.
Tiraram os capacetes de aço, encostaram as armas nas paredes e
trataram de descansar dentro dos limites que a situação permitia.
Quaisquer minutos de pausa eram convertidos em sono, coisa rara na
linha de frente.
Após os rígidos meses de inverno, o 5o Exército se preparava para dar
continuidade à ofensiva final sobre Bolonha e o Vale do Pó. O 6 o Regimento
de Infantaria ainda deveria esperar mais alguns dias antes que seu setor do
front reiniciasse a ofensiva para o norte. No flanco esquerdo da divisão
brasileira, o 1o R.I. apoiava a 10a Divisão de Montanha dos EUA nas
sucessivas arremetidas contra os alemães, que os desalojaram dos montes
Serrasciccia, Belvedere, Gorgolesco, Ronchidos, Castello e Torraccia.
Os dez primeiros dias em Monzone decorreram sem maiores alterações.
Em cada uma dessas jornadas, os grupos de combate do 1o Pelotão foram
enviados em patrulhas para as cotas 535 e 722. Como essas patrulhas visavam

188
primordialmente a segurança e observação da linha de frente, os contatos com
o inimigo foram esporádicos e sem maiores conseqüências.
A grande novidade para os homens do 1o Pelotão chegou no dia 20 de
fevereiro. Gonçalves percorria as posições do 3o Pelotão junto com o tenente
Vilhena quando o telefone soou. Quem ligava era o capitão Tavares, que
solicitava a urgente presença do tenente Gonçalves no P.C. do major Gross.
Depois de uma hora, Gonçalves chegava ao posto de comando.
Cumprimentando o tenente, o major foi logo pondo-lhe a par do que se
tratava: Gonçalves havia sido transferido para a Companhia de Obuses do 6 o
R.I. Iria deixar o comando do 1o Pelotão de Fuzileiros, ocupando-se da função
de observador avançado de artilharia.
Gross, como comandante dedicado e responsável que era, achou por
bem ouvir a opinião de Gonçalves antes que a transferência se efetivasse. O
major sugeriu ao comandante do 1o Pelotão que assumisse o comando do
Pelotão de Petrechos da 1a Companhia, o que resultaria na ida do 1o tenente
Félix para a Obuses em seu lugar.
A Companhia de Obuses do 6o Regimento sofria aguda carência
de oficiais àquela altura. O tenente cuja vaga estava em disposição era
Mário Márcio Cunha, campeão sul-americano de corrida sobre
barreiras, gravemente ferido por estilhaços ao lado do capitão
Travassos. Mário Márcio sofreu fraturas em todos os ossos dos
membros e perda de 80% da musculatura em uma das coxas, e
Travassos teve uma perna amputada.
De certa forma esperada pelo tenente Gonçalves, a transferência
não foi uma surpresa absoluta. Familiarizado com os trâmites da vida
militar, Gonçalves havia pressentido que depois das inúmeras e
sucessivas atribuições que lhe exigiram enorme obstinação, fosse-lhe
oferecida a chance de se empenhar numa missão que oferecesse a
chance de se atarefar um pouco menos e uma segurança que existia
189
apenas em relação a perigos maiores. A verdade é que Gonçalves
substituía um tenente que havia sido despedaçado pelo inimigo
naquela exata função.
Assim sendo, embora estivesse de certa forma contente em se
afastar do comandante da companhia que nunca se preocupara em
estreitar relações com os comandados, Gonçalves ressentia-se em ter
de deixar os soldados do 1o Pelotão, a quem amoldara e habituara-se a
conviver por dois anos. O tenente conhecia e estimava a fundo aqueles
homens, e o sentimento era recíproco por parte dos sargentos e
soldados. Haviam vivido juntos todo tipo de tribulações e vicissitudes
que a guerra lhes confrontara. Mais do que um pelotão de fuzileiros, a
pequena unidade engendrara uma familiaridade invulgar entre seus
integrantes, uma camaradagem insuperada por qualquer outro tipo de
relação. Todos faziam parte da seleta irmandade dos combatentes do
front, forjada sob o ferro e fogo das armas do inimigo.
O 1o Pelotão sempre tinha despontado como o mais ativo da 1a
Companhia, recebendo diversos elogios dos superiores por cumprir a
contento as missões que lhe tinham sido confiadas. Não obstante, o
cuidado e comedimento na condução dos soldados resultara num
número de perdas pequeno, se levados em consideração os riscos
corridos.
Pelejando com seus sentimentos mais íntimos, que o levavam a
relutar na aceitação da transferência para a Companhia de Obuses, o
argumento final da consciência do tenente foi a preocupação com o
destino de sua família caso não voltasse da guerra. Não fossem a
esposa e os dois filhos, Gonçalves teria permanecido à frente do
pelotão, pois considerava uma honra digna de qualquer oficial a

190
distinção de comandar homens com o quilate dos membros do 1o
Pelotão.
Ainda no dia 20, o novo comandante do 1o Pelotão se apresentou
nas posições de Monzone. Seu nome era Aldyr Araújo Quadrado,
natural do Rio de Janeiro. Oficial da ativa com curso de comando de
pelotão tirado nos Estados Unidos, tinha excelente qualificação.
Revelou de imediato ser um homem dedicado e compreensivo com os
soldados, ao manifestar sua preocupação em dar continuidade ao
espírito de camaradagem até então cultivado entre o pelotão cujo
comando assumia. Quadrado chegou dizendo que tudo faria para
seguir o caminho já traçado.
Para os soldados no entanto, a surpresa foi grande, e a notícia da
transferência foi recebida com tristeza no 1o Pelotão.
Gonçalves e Quadrado mantiveram-se lado a lado por quatro
dias, para habituar os homens à mudança e para que o tenente recém-
chegado pudesse absorver rapidamente os costumes tanto do convívio
com os comandados quanto da rotina da linha de frente, que o tenente
Quadrado não demorou a conhecer.
Decorridos quatro dias da chegada do tenente Quadrado,
quando Gonçalves ainda se encontrava no 1o Pelotão, a casa principal
de Monzone foi atingida por dois petardos de artilharia pesada alemã
pouco antes da alvorada. O tenente Gonçalves correu para alertar os
sargentos: “acordem o pessoal! Vamos sair daqui que estamos
recebendo um ataque.” Tanese, que foi despertado pelo tenente,
levantou-se rapidamente do canto onde descansava. Saiu do quarto na
ocasião exata em que uma granada alemã caía contra a parede onde o
sargento havia se acomodado, atirando alguns blocos de pedra sobre

191
seu leito improvisado. Tanese escapara por pouco de ser esmagado
pelas pedras, graças ao chamado de Gonçalves.
Os soldados correram para escapar do bombardeio mais pesado,
afastando-se rapidamente das granadas que podiam estar equipadas
de espoletas de tempo. Tais espoletas faziam com que o trotil
explodisse após algumas horas ou dias da queda. A área em torno do
casarão passou então a ser bombardeada por morteiros, procurando
alvejar os soldados que haviam saído em busca de melhor abrigo e
para avaliar os danos.
O material foi retirado pelo serviço de Material Bélico da divisão.
Como os alemães haviam sido informados da presença de tropa
brasileira em Monzone, se a ocupação foi feita na segurança da noite?
Provavelmente a informação sobre a presença de brasileiros em
Monzone havia sido passada por espiões ou simpatizantes fascitas. Era
claro que os tiros estavam sendo regulados do Soprassasso. Alguns
dos obuses caídos em Monzone não tinham sido detonados pelo
impacto, cravando-se nos paredões do castelo ou ricocheteando sem
explodir sobre o calçamento de pedras.
Apesar dos 15 minutos de contínuo bombardeio e o sobressalto
que trazia o receio de um golpe de mão inimigo, a calmaria voltou à
posição de Monzone. As granadas de artilharia pesada tinham
rompido até mesmo as paredes mais espessas da construção, que ficou
inteiramente esburacada. Devido à experiência de linha de frente dos
soldados, que instintivamente deixaram a casa em favor dos fox holes
escavados ao seu redor, ninguém havia se ferido no violento
bombardeio alemão.
No front, os boatos correm de soldado para soldado com uma
velocidade incrível, a informação boca a boca supria em parte as
192
necessidades de notícias. Poucos dias após o bombardeio em
Monzone, os homens do 1o Pelotão souberam que as granadas que não
haviam explodido estavam recheadas de panfletos, com a seguinte
redação em francês:

“Igual a essa há milhares”.

Tratava-se de material bélico que os alemães produziam na


França ocupada. Certamente, os trabalhadores da fábrica de munição
colaboravam com os aliados sabotando as granadas alemãs. As
granadas utilizadas pelos aliados, por sua volta, raramente falhavam.
Enquanto os alemães confiavam sua produção de munição aos países
ocupados, muitas vezes fabricadas por trabalhadores em regime que
beirava a escravidão, a munição dos Aliados era feita por
trabalhadores livres, muitos dos quais tinham parentes nas linhas de
frente Aliadas.
Com o cair da noite no dia 26 de fevereiro, o capitão Tavares e o
major Gross compareceram ao casarão para a passagem de comando.
Depois de abraçar cada um dos soldados numa emocionada
despedida, Gonçalves retirou-se da posição acompanhado do sargento
Piske.
Sob o comando do tenente Quadrado, o pelotão se reagrupou e seguiu
para Montecavalloro, a fim de retomar as posições em Boscaccio.
Enquanto isso, na nova atribuição na Companhia de Obuses do
6o R.I., Gonçalves sentia-se como se tivesse retornado à escola. Em
lugar de comandar fuzis metralhadoras, passara a ter de lidar com
transferidores, complicadas tabelas, duplo decímetros e manuais sobre
conhecimentos técnicos necessários ao observador avançado.
193
Introduzido pelos capitães Ventura e Antorildo no universo dos
artilheiros de um regimento de infantaria, Gonçalves não demorou a
se ambientar.
Com seu novo comandante, o 1o Pelotão de Fuzileiros recebeu
ordem de retornar a Boscaccio. Substituindo elementos do 11o R.I. que
vinham guarnecendo a posição, constataram o abrandamento da
atividade inimiga no setor.
Caberia ao 3o Grupo de Combate do sargento Melo a execução
de uma patrulha de observação no lugarejo de Precaria. O grupo
deixou os fox holes prosseguindo com cuidado. Haviam recebido do
setor de informações a notícia de que Precaria provavelmente tinha
sido abandonada pelo inimigo. Aproximaram-se das três ou quatro
casinhas de pedra que formavam o vilarejo.
Repentinamente, uma aterradora rajada de Lurdinha cortou o ar. Todos
se jogaram ao chão, mas os projéteis alcançaram Zé Alves antes que o
soldado pudesse se abrigar nas dobras do terreno. Um disparo atingiu as
costas de Zé Alves, fazendo com que suas pernas perdessem a sustentação e
levando-o a se estatelar pesadamente contra o terreno em frente às casinholas
de Precaria, enquanto soltava um grito lancinante. O sargento Melo quase foi
atingido em cheio pela rajada, mas ao buscar proteção no solo feriu-se na
perna. Como se encontrava próximo dos companheiros, pôde ser rapidamente
socorrido.
Separados do soldado atingido por alguns metros de distância, os outros
companheiros da patrulha ignoravam se Zé Alves estava morto ou apenas
ferido. Tinham visto o corpo se movimentar com debilidade após a queda, ao
esticarem brevemente os pescoços para tentarem divisar o que acontecera com
o amigo. Mas foram alvejados por rajadas vindas das janelas das construções
de pedra do vilarejo. Arrastando o sargento ferido, os soldados da patrulha

194
conseguiram retrair sob o fogo cerrado das metralhadoras de Precaria.
Contudo, Zé Alves tinha ficado para trás, num ponto inacessível do terreno.
No dia seguinte, o 1o Pelotão de Fuzileiros partiu retirado de Boscaccio
para tomar parte na captura do Soprassasso.

195
Capítulo 9: A Queda do Gigante

Às 06:00 da manhã de 5 março de 1945, o ataque final contra o


Soprassasso foi desencadeado. Partindo da retaguarda, granadas de artilharia
apoiavam a progressão dos batalhões do 6o R.I, que deveriam conquistar as
elevações entre o Soprassasso e o Monte Della Croce, no setor do III
Batalhão. Morteiros, rajadas da rasga papel e rojões alemães eram disparados
contra as companhias que avançavam. De lado a lado, mortos e feridos
alemães e brasileiros juncavam o chão.
No início de março, o 6o R.I. dava continuidade ao plano Encore,
desencadeado em meados do mês anterior, que estabeleceria as bases de
partida para a tão esperada ofensiva final da primavera de 1945, a derradeira
tentativa de por a termo a guerra na península italiana. O 1 o R.I. haviaa
conquistado Monte Castello e La Serra, apoiando a 10a Divisão de Montanha
americana nos espetaculares combates de Serrasciccia, Monte Belvedere e
Gorgolesco. Os brasileiros tinham se destacado especialmente nos combates
de La Serra, barrando um feroz contra-ataque empreendido pela 29a Divisão
Panzer Grenadier, enviada em vão para restabelecer a frente alemã no setor.
Os tenentes Quadrado e Carrão partiram para o ataque da localidade de
Turziano.
Fogos inimigos vindos das cotas 670, 702 e 674 do Soprassasso
continuavam a barrar o avanço do I Batalhão.
Para forçar o retraimento daquela resistência, um pelotão de fuzileiros
da 2a Companhia avançou sobre a cota 670, neutralizando seus defensores.
Porém, bombardeio da artilharia brasileira estava alcançando os
próprios elementos do I Batalhão à frente da progressão, que foi continuada
sem esperar que a barragem fosse estendida para mais avante. As granadas
brasileiras continuavam a cair em terreno que já tinha sido conquistado. O
sargento Pereira foi atirado para o alto pelo deslocamento de ar de um obus de
196
105mm, mas por sorte não se feriu com gravidade. Um pouco atordoado,
Pereira manteve-se junto com o 2o GC. Bem na frente desses homens, outra
granada ricocheteou sem explodir por entre as pedras. Mais um tremendo
golpe de sorte.
O tenente Quadrado checou a localização do 1o Pelotão na carta
topográfica pedindo o ajustamento dos tiros para cotas mais elevadas do
Soprassasso. A progressão foi reiniciada.
Os três grupos de combate continuaram avançando em demanda do
cocoruto do Soprassasso. À frente do 1o GC estavam Tanese e Botossi, com
seus fuzis Garand e um bom suprimento de granadas de mão. O soldado se
acercou de uma casamata alemã ainda ocupada. Progredindo em pé, era um
alvo convidativo. Da casamata, cinco tiros de fuzil automático disparados a
queima roupa passaram ao seu lado. “Não pegou. Foi sorte,” recordou
Botossi. “Aí eu fiz o mesmo: abri fogo.” Mas transtornado pelo nervosismo
surgido com o turbilhão do combate, Botossi não conseguiu abater nenhum
inimigo com os tiros disparados quase a esmo de seu Garand. Botossi decidiu
então assaltar a casamata alemã com suas granadas de mão.
Sob a chuva de granadas de mão e percebendo a aproximação dos
demais homens da 1a Companhia, cinco dos defensores da casamata
resolveram se render. Foram feitos prisioneiros pelo grupo do 3 o sargento
Caetano Tanese.
Dentro da posição, alguns soldados alemães ainda permaneciam
resistindo bravamente. Botossi se aproximou rastejando da seteira da
casamata e descarregou seu estoque de granadas de mão pela abertura.
“Cinco saíram para fora e eu soltei granadas e aí, sabe como é. Tinham
mais dentro. Aí eles não saíram de dentro e eu comecei a atirar.” Quando a
poeira das explosões baixou, outros cinco alemães tinham perecido dentro da
posição.
Em outra das casamatas, Tanese atirou mais uma granada de mão pela
abertura. Pela fresta, um alemão levantou um bastão de madeira com uma
197
cueca branca amarrada à extremidade. Era a coisa mais próxima de uma
bandeira branca que pôde providenciar na ocasião. O homem agitava a
bandeira improvisada gritando: “Kamerad! Kamerad! Nicht schiessen!”
Aproximando-se de Tanese, o soldado Dito com o FM do 1o Grupo de
Combate auxiliou seu sargento a capturar mais cinco ocupantes daquela
casamata.
Depois de resistir com alguns disparos de fuzil, a guarnição de outra
casamata decidiu render-se quando avistou o bazuqueiro do 1o Pelotão que
assentava a arma na sua direção. A 1a Companhia conseguiu consolidar a
posse da cota 702, que tantas baixas e tristezas tinha infligido àqueles
homens.
O 3o Grupo de Combate, entretanto, ainda estava detido na base de
partida. Estavam sendo alvejados por uma metralhadora alemã escondida nas
encostas do Soprassasso. Os homens não identificaram a origem dos tiros que
barravam sua progressão. Colados às concavidades das encostas do
Soprassasso, os soldados observavam com cuidado o topo da elevação,
procurando divisar passagens que permitissem o avanço ou uma maneira de
neutralizar os tiros da arma automática. O dia estava muito claro, e ninguém
conseguiu avistar a chama de boca da arma. Até que um soldado do grupo de
combate reparou na tênue linha de fumaça que emanava do cano da
metralhadora. Avisou Gratagliano, que portava seu BAR.
Com o pesado fuzil Browning nas mãos, Gratagliano estudou
rapidamente o panorama em frente e identificou um caminho que oferecia
abrigo dos tiros. Chamou Araújo para ajudá-lo com a munição, e os dois, de
iniciativa própria, avançaram sozinhos na direção do ninho de metralhadora
inimigo.
“Você tá maluco”, sentenciou Araújo. Mas foi junto com o amigo na
tentativa de por a posição inimiga fora de combate.


Do alemão: Camarada! Não atire!
198
Araújo seguia logo atrás de Gratagliano, transportando nas mãos
cunhetes de aço cheios de carregadores para o BAR. Avançando por entre as
explosões de morteiros, os dois foram contornando os grotões do Soprassasso
semi ocultos entre a baixa vegetação e rochedos. Chegaram até uma clareira
na crista do morro, sem cobertura que oferecesse proteção. O local estava
cheio de tedescos em abrigos e casamatas, mas os dois soldados tinham se
infiltrado sem que o inimigo se apercebesse.
Levantado ligeiramente a cabeça, Gratagliano viu que tinha conseguido
chegar num ponto elevado à retaguarda da metralhadora que detia seu GC. A
partir daí, conseguiu com facilidade localizar também os dois alemães que
guarneciam a arma. Achava-se num ponto de onde poderia atingir os dois
inimigos pelas costas.
Assestando o FM sobre o bipé, Gratagliano regulou a alça e apontou,
mandando rajadas na direção do inimigo. Araújo estava ao seu lado
fornecendo carregadores. Esvaziaram três carregadores na direção da posição,
equivalentes a 60 tiros. Os dois alemães levantaram as mãos. Gratagliano e
Araújo, ainda protegidos no terreno, acenaram para que os dois soldados
descessem. Os dois tedescos deram de cara com o grupo de combate do
sargento Gutemberg Melo, que os fez prisioneiros. Sem o avanço barrado pela
Lurdinha, o Grupo de Combate tornou a subir as escarpas do Soprassasso.
Embora atrasados pelas rajadas da Lurdinha posta fora de combate por
Gratagliano, estabeleceram contato com os dois outros grupos de combate do
1o Pelotão, explicando ao tenente Quadrado as razões do atraso.
No flanco direito do Soprassasso, os dois outros pelotões da 2 a e 3a
Companhias já tinham tomado a elevação e capturado 80 prisioneiros antes
que o 1o Pelotão da 1a Companhia avançasse pela encosta esquerda, voltada
para a Torre di Nerone.
Partindo à frente da 2a Companhia, um pequeno grupo de
esclarecedores prosseguia sondando o terreno para averiguar o grau de
tenacidade dos defensores ainda entrincheirados nos contrafortes do maciço.
199
Os quatro caminhavam encosta acima espaçados. Ao atingirem o terço
superior da elevação, uma rajada partiu de uma das casamatas no cume do
morro, pegando em cheio as pernas do soldado Rosário D’Amico, que se
encontrava mais ligeiramente adiantado. D’Amico caiu rolando morro abaixo,
horrivelmente ferido na coxa. Um dos soldados se atirou pelo declive
enquanto os dois remanescentes ocultaram-se nas dobras do terreno, detidos
pelo fogo inimigo.
Outras posições alemãs ainda continuavam a resistir. Os disparos que
atingiram D’Amico haviam sido efetuados de um amontoado de feno de
formato cônico. Vistos à distância, os montes de feno verdadeiros eram
indistingüíveis das posições disfarçadas. Uma das “ponto 30” do Pelotão de
Petrechos disparou algumas rajadas de munição traçante que fizeram com que
o feno se incendiasse. “Nós começamos a dar tiros lá, começou a pegar fogo e
eles foram embora,” recorda Felipe dos Santos.
Às 18:05 do dia 5 de março, o II Batalhão ultimou a limpeza do espigão
722.
De ambos os lados, as metralhadoras ainda funcionavam, mas o
Soprassasso tinha sido enfim dominado.
Tanese se encarregou de acompanhar os prisioneiros para a retaguarda.
Enquanto o grupo descia, um soldado do 3 o Grupo de Combate possuído de
fúria gritou: “alemão filha da puta!” - ao mesmo instante em que disparou
uma rajada contra um dos alemães que se rendera. O homem caiu fulminado
no local, sob o olhar de horror dos outros alemães capturados.
Imediatamente, Tanese chutou a metralhadora das mãos do homem
antes que este voltasse a pontaria para o restante do grupo de prisioneiros.
“Não mata o cara! Não vê que o coitado se entregou?” – berrou o sargento.
Os companheiros censuraram duramente aquele soldado por sua
atitude. Botossi voltou-se para o soldado exclamando: “Você não devia fazer
isso. Ele não tem culpa. É igual a nós, a mesma coisa. Nós estamos aqui
obrigados.”
200
O homem foi repreendido especialmente por Botossi e Ferreira, dois
soldados que já haviam matado alemães em combate, mas que conservaram o
equilíbrio para não se deixarem levar pela emoção momentânea.
Tomando posição sobre o Soprassasso, os soldados começaram a
examinar as fortificações alemãs que os tinham fustigado por tantos meses.
Uma das posições de metralhadora no cocoruto esburacado de crateras
do Soprassasso estava oculta sob um monte de feno, que encobria um grande
buraco com oito ou nove alemães. Debaixo do amontoado de feno de forma
cônica, os inimigos tinham um excelente abrigo. A posição era indivisável
tanto pelos aviões de observação quanto do nível da terra, vista das
proximidades. Os alemães faziam a camuflagem de sua organização de
terreno com maestria. Vasto armamento foi apreendido na operação: fuzis
automáticos de último tipo, metralhadoras 34 e 42, os temidos panzerfaust e
panzerschreck, armas anti-carro similares à Bazooka americana que eram
empregadas contra a infantaria e centenas de granadas de mão.
Os alemães possuíam abrigos dotados de todo o conforto possível.
Dentro de uma das escavações havia até um belíssimo piano! Uma vaca havia
sido morta pelos alemães pouco antes do ataque brasileiro, mas acabou sendo
consumida pelo pessoal da 3a Companhia, inclusive o tenente Gonçalves, que
acompanhara a inspeção dos abrigos alemães.
Pelas 18:00 horas, um pelotão da 3a Companhia entrou em Castelnuovo
di Vergato apoiado pelo II Batalhão do 11o R.I., finalizando a operação do 6o
Regimento de Infantaria. Ainda em Castelnuovo mais seis prisioneiros foram
feitos de uma maneira pouco usual: o grupo de soldados alemães chegou a
Castelnuovo sem sequer saber da presença de brasileiros, e entrando numa das
casas como tantas vezes haviam feito antes, foram subitamente agarrados
pelos homens da 3a! Os que assistiram a cena disseram que a estupefação dos
alemães foi inacreditável.
Enquanto perambulavam pelo cocuruto do morro, os soldados da 1 a
Companhia viram um corpo que os padioleiros tinham acabado de cobrir com
201
uma lona. Não distinguiram a nacionalidade ou identidade do soldado, mas
foi possível perceber que o corpo tinha sido terrivelmente desfigurado. Parte
da cabeça do homem era visível sob a coberta, revelando um emaranhado de
cabelos ensangüentados sobre sua face encoberta pela lama.
Passadas algumas horas, o corpo foi transferido para os cuidados do
Pelotão de Sepultamento e sua identidade tornou-se conhecida. Era José
Alves de Abreu, que tinha morrido há alguns dias na patrulha de Precaria.
Como seu corpo tinha ido parar no Soprassasso era um mistério.
Zé Alves tinha levado várias pancadas de coronha de fuzil na cabeça, e
o sabre alemão que carregava na cintura foi encontrado cravado em seu peito.
Seus membros tinham sido perfurados com estocadas da baioneta, e foi
preciso chamar os soldados do Pelotão de Minas da Companhia de Canhões
Anti-Carro para retirar seu corpo, que estava armadilhado com booby traps.
No final do dia, 72 prisioneiros tinham caído nas mãos do I e II
Batalhões do 6o R.I., juntamente com abundante quantidade de armamento.
No conjunto da operação para a conquista do Soprassasso, o 6o R.I. tinha
sofrido perdas de três mortos e 21 feridos, dentre os quais um oficial. Como
recompensa pelas suas ações no dia 5 de março de 1945, Botossi, Gratagliano
e Tanese seriam condecorados com a Cruz de Combate de 1a Classe. A
citação conferida a Gratagliano é digna de menção:

“O Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil resolveu conceder a


Cruz de Combate de Primeira Classe ao Soldado VICENTE GRATAGLIANO, por
ter, na região de Boscaccio, após um contra-ataque alemão que obrigou o retraimento
da tropa amiga que ocupava as posições, sido um dos elementos que, com seu
comandante de grupo e sargento auxiliar, se destacou, demonstrando uma resistência
física fora do comum, aliada a bravura pessoal e coragem, subindo a íngreme encosta
que dava acesso às posições abandonadas e as ocupando em tempo oportuno para
perceber uma patrulha alemã de infiltração, atirando e matando dois dos seus
componentes que já se encontravam a 20 metros de distância. No dia 5 de março de
1945, no ataque ao Soprassasso, mais uma vez demonstrou coragem e sangue frio,

202
tendo localizado uma resistência inimiga que atirava na sua direção, lançou-se
resolutamente para a frente, debaixo de cerrado bombardeio de artilharia e, posto
seu FM em posição, metralhou a arma que hostilizava a progressão do seu pelotão,
permitindo assim que prosseguisse o movimento.”

Dois dias após a conquista do Soprassasso, o I Batalhão ainda fazia


prisioneiros alemães que haviam se refugiado nas ravinas e encostas do
maciço. Assistindo aos interrogatórios dos prisioneiros no PC do batalhão,
Gonçalves teve a oportunidade de ver um dos presos atender com muito
prazer o pedido de um correspondente de guerra de tirar uma fotografia, para
a qual chegou até a ajustar o cinto.
Acompanhando o avanço que visava o estabelecimento das bases de
partida para a Ofensiva da Primavera, o III Batalhão do Sexto ocupou a cota
882 e Morro della Croce. Na subida para a crista da elevação, o pelotão do
tenente Túlio caiu num campo de minas, causando ferimentos graves em
diversos soldados e a perda de uma das pernas do próprio tenente. A guerra
cobrara mais um severo tributo de outros companheiros.
Em janeiro de 1945, o comando da 1a D.I.E. decidiu que precisava de
seu próprio veículo de notícias. Depois de “... E a Cobra Fumou!”, outros
periódicos tinham surgido no seio da tropa. Havia o “Zé Carioca”, “A Tocha”,
“Vem Rolando” e outros, publicados no Regimento Sampaio, no 11 o R.I. e no
1o Esquadrão de Reconhecimento.
Foi requisitada ao Serviço Especial da F.E.B. a edição de um
jornal que representasse a voz do comando, o que se materializou na
publicação do “Cruzeiro do Sul”. Entretanto, os homens do Sexto
começaram a perceber que um grau de favoritismo definia o teor do
material publicado pelos cronistas oficiais. Acreditavam que as ações
de combate do 6o R.I. eram preteridas, e os feitos dos outros
regimentos sobressaíam-se em relação a combates importantes

203
enfrentados pelo regimento paulista. Por exemplo, a conquista do
Soprassasso quase não recebeu destaque no jornal do Serviço Especial.
Por esse motivo, na edição de 31 de março 1945, um integrante
do I Batalhão conseguiu publicar uma crítica um tanto atrevida
dirigida a “O Cruzeiro do Sul”:

Eh! Eh! Cruzeiro do Sul

Colegas do Regimento,
Do velho Sexto de guerra,
É das mais interessantes
A justiça nesta terra.

Os Cronistas do Cruzeiro,
Que gostam só da verdade,
Têm critérios diferentes:
Não usam imparcialidade.

Uma vitória estrondorosa


Quando o Castelo caiu.
Ao Primeiro Regimento
Com justiça se atribuiu.

Depois, escalou-se o Sexto


(Já mostrou que braço é braço)
Prá tomar Castelnuovo,
Em seguida ao Soprassasso.

E a missão sendo cumprida


(Tal fato não se concebe)
O Cruzeiro publicou:
“A Vitória foi da F.E.B.”

Se o Castelo é do Sampaio
- escrito está em qualquer texto -
Por que da nova vitória,
Não dão glórias ao Sexto?

Ninguém aqui quer cartaz


Mas, tenham dó, “seus” cronistas.
Isso tudo é porque o Sexto
É uma unidade paulista?
Cabo Everaldo Santos
(2ª Cia.).

204
Para recompensar suas ações no Soprassasso, Botossi e
Gratagliano foram premiados com oito dias de descanso em Firenze.
Hospedados num hotel para soldados americanos, sentiram-se
deslocados ao serem privados do convívio de seus companheiros do
pelotão. Preferiam estar ao lado de seus grupos de combate do que no
conforto da retaguarda. Quando prêmio de repouso acabou,
retornaram satisfeitos para o front no Vale do Rio Reno, entediados
pelo sossego e estranhamento do ambiente da retaguarda.

205
Capítulo 10: Fim de Guerra

A atividade dos dias subseqüentes à finalização da conquista das


elevações que dominavam a Rota 64 consistiu na consolidação das
posições ocupadas e patrulhas de segurança e ligação com a 10a
Divisão de Montanha - na terminologia militar, o chamado
“reajustamento do dispositivo.”
O inverno chegara ao fim. Ainda assim, a temperatura das
montanhas continuava caindo muito durante as noites, embora, a
título de novidade, já se pudesse apanhar um pouco de sol pelas
manhãs. O degelo da neve acompanhava o início da primavera,
transformando o barro congelado em poças de água barrenta que
escorriam em torrentes montanha abaixo. Depois de meses encoberta
sob a neve, a paisagem Apenina tinha agora como principal
característica os imensos lamaçais.
Ao I Batalhão do 6o R.I. foi empenhada a missão de reforçar a
linha de resistência na região do Monte Belvedere, que tinha caído sob
o ataque americano de meados de fevereiro. O 1o Pelotão, com o
tenente Quadrado no comando, foi enviado para os arredores daquilo
que restava da Capella di Ronchidos, construída com recursos
fornecidos por cidadãos de Gaggio Montano que haviam imigrado
para as Américas. O pelotão se estabeleceu em meio ao denso
pinheiral, ainda pleno de sinais da luta recentemente terminada por
ali: casamatas, abrigos, postos avançados e trincheiras alemãs, que
foram ocupados pelos soldados brasileiros.
Embora a essa altura o foco principal da luta já tivesse se
deslocado em direção ao nordeste, no eixo de Bologna, por onde a 10a
206
Divisão de Montanha e o 6o Regimento de Infantaria já haviam tomado
as elevações de onde partiriam os ataques da ofensiva final, a presença
alemã nas cotas logo à frente dos montes Belvedere, Torraccia,
Gorgolesco e Castello ainda se manifestava. Esporádicas patrulhas
eram executadas de lado a lado, como se servissem ao propósito de
lembrar a todos que a guerra ainda não acabara. Independente da
situação tática ou estratégica, a condição do soldado da linha de frente
continuava idêntica: noites mal dormidas, completa falta de conforto,
alimentação muitas vezes fria, quartos de hora nos postos avançados,
bombardeios de inquietação e patrulhas.
Por coincidência, o tenente Gonçalves se encontrava por perto do
1o Pelotão, orientando as peças da Companhia de Obuses de dentro
do porão da capela sobre o monte.
Nos primeiros dias de abril, intermináveis esquadrilhas da
aviação Aliada sobrevoavam as posições em direção ao norte da Itália.
Passavam bem alto no céu, em impenetráveis formações escoltadas
por caças. O ruído de seus motores trazia de alguma forma esperanças
do término da guerra para os combatentes. Todos se indagavam em
qual dia chegaria a hora do Tedesco “pedir água!”
Indiferente aos vaticínios dos soldados, o 6o R.I. continuava em
reserva da 1a DIE enquanto o 11o R.I., inicialmente apoiado pelo
Regimento Sampaio, desencadeava o ataque principal contra o
objetivo da divisão brasileira para a Ofensiva da Primavera: Montese.
O Sexto deveria se encontrar de prontidão para apoiar o ataque
na região de Montese, Montello e Monte Maiolo e depois progredir na
direção de Montalto e Zocca. Antevendo as dificuldades do combate, o
III Batalhão do Sexto foi posto à disposição da DIE na véspera do
ataque.
207
Enquanto isso a Companhia de Obuses do 6o R.I. se achava
alocada ao III Grupo de Obuses para poder, com suas bocas de fogo,
reforçar a Artilharia no ataque a Montese.
Dias antes, em missão de reconhecimento, o tenente Gonçalves
havia encontrado um excelente posto de observação para regular os
tiros da Obuses. Era uma velha casa no alto do morro de Sassomolare.
O local oferecia uma vista tão privilegiada que acabou sendo escolhido
como observatório do general Mascarenhas, que acompanhou toda a
operação pelo binóculo. Também de Sassomolare, a Companhia de
Petrechos Pesados do III Batalhão do 1o R.I. apoiou o avanço brasileiro
com seus morteiros de 81 milímetros.
Pelo rombo em uma das paredes da casa de Sassomolare, o
panorama se descortinava como se os homens estivessem num balcão
de teatro. Lá na baixada, com uma porção de casas isoladas, a terra de
ninguém. Mais em cima, nas elevações da direita e em frente, as
posições do inimigo. A vista era maravilhosa. No fundo e bem em
frente do observatório, no cimo de uma elevação isolada e quase
circular, destacava-se um soberbo castelo. A elevação era contornada
pelo grande casario da cidade de Montese. À sua direita estavam as
elevações de Serreto, Paravento, Monte Buffone e Montello, numa
escalada crescente de alturas.
O ataque do I Batalhão do 11o R.I. foi iniciado na manhã do dia
14 de abril de 1945.
Deitado no forro da casa de Sassomolare, Gonçalves assistiu ao
avanço do pessoal do 11o R.I., matando e se deixando matar pelo
inimigo, enquanto se esgueiravam pela baixada que leva a Montese.
Via somente os homens que se expunham para assaltar as posições

208
inimigas, percorrendo apressadamente os grotões da baixada que
antecedia a cidadela.
Atento por detrás do binóculo, Gonçalves regulava os tiros para
que os obuseiros de 105mm da Companhia de Obuses pudessem
acertar as peças alemãs colocadas nas elevações atrás de Montese. A
artilharia alemã da 114a Divisão Jäger, postada em Montello, Monte
Buffone, e Serreto batia violentamente todo o avanço brasileiro.
Acirrada resistência da infantaria alemã também impedia a
progressão do I Batalhão do 11o R.I. Em todas as escarpadas encostas
das colinas nos arredores de Montese, o fogo das casamatas alemãs
continuava a fustigar os pelotões e grupos de combate detidos, que
procuravam se proteger dos tiros e das minas ocultas em toda a
extensão do vale. Rajadas das Lurdinhas eram disparadas das cotas
circunvizinhas visando atingir a infantaria brasileira.
A preparação da artilharia começou às 09:10 da manhã, na frente
da 10a Divisão de Montanha. A aviação também tomou parte,
sobrevoando e metralhando as posições inimigas. Pesadas granadas
levantavam para o céu imensas colunas de fumaça negra. Às 09:45, o
grosso da artilharia se concentrou sobre o objetivo do 11o R.I. Todas as
elevações que compunham o sistema defensivo em torno de Montese
foram pesadamente bombardeadas. Pouco depois, todo o casario até
então visível tornou-se envolto pelo fumo das explosões
ensurdecedoras. Volta e meia, a torre do castelo, cada vez mais
danificada pelos impactos, surgia por entre a fumaça.
Depois de meia hora de bombardeio, à medida em que a fumaça
ia sumindo, pouco a pouco podia-se distinguir o que restara das casas.
Em algumas, nem mesmo os alicerces haviam permanecido. Em

209
outras, apenas pedaços de paredes que pareciam querer se equilibrar.
Pouquíssimas casas permaneciam em melhores condições.
Os tanques americanos avançavam tentando evitar as estradas.
Alguns conseguiram chegar até Serreto, recebendo disparos de
bazucas e granadas de mão dos alemães entrincheirados em Monte
Buffone. Respondem ao fogo inimigo com disparos diretos de seus
canhões.
No final da tarde, alguns pelotões da 2a Companhia do 11o R.I.
conseguiram penetrar no casario arruinado de Montese. Ainda no dia
14 e jornadas subseqüentes, tanto o 6o R.I. quanto o Regimento
Sampaio foram empenhados para coroar a operação que expulsou os
alemães de Montese. Uma das companhias do Sexto foi tão
violentamente bombardeada no avanço ao ponto de perder 80 homens
percorrendo apenas 100 metros de terreno. Depois de sofrer pesadas
baixas, o III Batalhão do 6o R.I. foi substituído pelo II Batalhão do
mesmo regimento. O velho Sexto não podia ficar ausente...
Mesmo nos últimos dias da guerra que estertorava, a Wehrmacht
ainda oferecia um grau de resistência inacreditável. Entre os dias 14 e
18 de abril, o 6o R.I. perdeu 14 homens mortos, 125 feridos, 6
acidentados e 6 desaparecidos.
Estacionado na localidade de Cannevaccia, o I Batalhão do 6o R.I.
repousava do longo período passado na linha de frente enquanto
aguardava a ultimação da limpeza do objetivo da 1a D.I.E. na Ofensiva
da Primavera.
No dia 20, o I Batalhão foi novamente empregado na linha de
frente avançando na direção de Zocca. Nesta mesma data, a
Companhia de Obuses reverteu ao comando do 6o R.I.

210
Antes de avançar com o regimento, a Companhia de Obuses se
deteve nos arredores de Tole para passar a noite antes da progressão
do dia seguinte. Pouco antes, os caça-bombardeiros da FAB haviam
atingido em cheio uma coluna alemã que tentava escapar ao cerco da
1a D.I.E. e da 10a Divisão de Montanha. Enquanto tomavam as
providências de segurança, os homens da Companhia de Obuses
voltaram suas atenções para o cenário em seus arredores.
Os destroços e carcaças de veículos pontilhavam toda a estrada e
os campos adjacentes. Corpos carbonizados de alemães e dos cavalos
de tração estavam espalhados por entre os restos de viaturas e
material. Um odor insuportável de putrefação já começava a se
disseminar pelo local, impregnando as narinas e nauseando os
presentes. Aquela cena grotesca chocou a todos. Era, como outras
visões que surgiam no campo de batalha, mais um panorama do
sinistro resultado que a guerra trazia. Mesmo se tratando de mortos
inimigos, a brutalidade do combate calou fundo no âmago dos
soldados que testemunharam aquela cena dantesca. O quadro fez o
tenente Gonçalves mergulhar em pensamentos sobre a fragilidade da
vida em tempo de guerra. Em seu íntimo, o tenente refletia sobre a
estupidez e desperdício de vidas que havia presenciado na Itália.
Estava definitivamente enojado da guerra.
Mais adiante, podia-se divisar na luz do entardecer os panos e
lençóis brancos que a população estendia sobre os peitorais e telhados
de suas casas para anunciar que o território já se encontrava livre da
presença alemã.
Na frente onde se encontrava o 1o Pelotão, a cidade de Zocca
podia ser vista a meio quilômetro de distância. Logo receberam ordem

211
de apoiar uma patrulha da 3a Companhia que tinha a missão de
verificar a presença inimiga na cidade.
Aparente quietude dominava as ruínas da cidade de Zocca. No
pelotão do tenente Quadrado, os grupos de combate iniciaram uma
cuidadosa progressão para os arredores da pequena cidade. Com
todas as portas trancadas e janelas fechadas, a impressão era que o
objetivo seria conquistado sem maiores dificuldades. Mas como
sempre, os alemães esperaram a aproximação da tropa brasileira para
começar a disparar. Quando a 3a e demais companhias penetraram no
interior da cidade, rajadas de metralhadora impediram a continuação
do avanço daqueles pelotões do I Batalhão.
Várias das casas de Zocca eram defendidas pelo inimigo. Da
torre da igreja um alemão atirava contra os soldados brasileiros. A 3a
Companhia estava numa situação de extremo risco, pois tanto os tiros
que partiam de dentro da própria cidade como das elevações
circunvizinhas impediam que os soldados, colados ao pavimento das
ruas, buscassem proteção dos tiros das armas automáticas.
Em meio aos projéteis que ricocheteavam nas ruas pavimentadas
com pedras, um cabo da 3a Companhia correu para o centro da praça
com uma bazuca nos ombros, ajoelhou-se e disparou um certeiro
foguete, que atingiu a torre da igreja em cheio. Isso permitiu que os
soldados da 3a pudessem se abrigar dentro de algumas das casas, e
solicitar apoio pelo telefone de campanha. As resistências
remanescentes foram postas fora de combate pelos morteiros da CPP I.
Assim, o pelotão do tenente Quadrado penetrou na cidade numa cena
memorável: Ferreira tinha achado um violão em meio aos escombros
das casas, e com a bazuca presa pela bandoleira às costas, entrou em
Zocca tocando o instrumento, enquanto os companheiros ao redor
212
empunhavam suas armas, para a surpresa de todos os habitantes da
cidade.
Depois de Zocca, a infantaria do I Batalhão deixava para trás as
montanhas dos Apeninos avançando em direção a terreno que aos
poucos se tornava menos acidentado, o que indicava o começo da
extensa planície do Vale do Rio Pó, que havia ganho seu nome pela
baixa umidade característica da região. Nos avanços sobre as viaturas
nos lances finais da guerra na Itália, as nuvens de poeira levantadas
pelas colunas de veículos revestiam a tudo e todos de uma fina
camada de poeira esbranquiçada.
Nos derradeiros dias do mês de abril, tudo levava a crer que a
guerra chegaria ao fim naquela sucessão de vilas e cidades ocupadas
em meio a pequenas escaramuças e inimigos que se rendiam. O 6o R.I.,
junto aos outros dois regimentos da 1a DIE vinham libertando uma
série de localidades com a estrondosa receptividade dos italianos que
festejavam o fim da guerra e a chegada dos soldados que
representavam o término do domínio fascista. Nas pequenas cidades
liberadas pelo 6o R.I. e outros regimentos, os italianos recebiam os
soldados brasileiros de forma delirante. O vinho corria
abundantemente, em garrafas e mais garrafas de todas qualidades
imagináveis. Não há quem não se lembre do “capitoso Lambrusco.”
Os sinos das igrejas das pequenas cidades eram soados, as viaturas
saudadas com palmas e flores e as “ragazzas” italianas, generosamente
hospitaleiras para com a rapaziada da FEB.
Contudo, uma última operação ainda seria empreendida. A
notícia da missão chegou com certa surpresa ao comando brasileiro,
pois não se esperava que ainda existisse tropa alemã bem organizada

213
ao sul da linha Aliada que avançava em direção ao norte industrial da
Itália.
Avançando na região de Parma, o Esquadrão de
Reconhecimento tinha estancado frente à inusitada resistência
oferecida pelos alemães na cidade de Collechio. No dia 26 de abril, o II
Batalhão do 11o R.I., que se encontrava nas proximidades de San Polo
D’Enza, foi enviado para conter a tentativa de ruptura alemã, no que
foi imediatamente seguido pela 8a Companhia do 6o R.I. Às 21:00 horas
do dia 26, foi a vez da 2a Companhia do 6o R.I. ser escalada pelo
combate.
Os combates continuaram em Collechio pela madrugada do dia
27 adentro. No fim do dia, os brasileiros tinham conquistado a cidade
com 588 prisioneiros, e barrado a vanguarda da 148a Divisão alemã
que se dirigia para Parma, na tentativa de escapar ao cerco Aliado.
A notícia da resistência alemã preocupou o comando do 5o
Exército. Caso a 148a conseguisse romper o cerco, os alemães iriam
prejudicar seriamente a finalização da conquista do norte italiano. O
general Crittenberger, comandante do IV Corpo de Exército tomou um
avião de transporte para se reunir com o general Mascarenhas de
Moraes. Recomendou o movimento da divisão brasileira para o
noroeste, a fim de impedir que a forte tropa alemã transpusesse o rio
Pó. Mas nem mesmo o alto comando Aliado dispunha de informações
satisfatórias sobre o real efetivo que se opunha aos brasileiros àquela
altura. Crente da inferioridade alemã, Crittenberger acreditava que o
total de soldados alemães estivesse em torno dos 3.100 homens. Assim,
o coronel Nelson de Mello partiu com o 6o Regimento de Infantaria
para tentar capturar os alemães que se achavam em torno do eixo das
cidades de Felegara – Gaiano – Neviano di Rossi e Fornovo. Nelson de
214
Mello contava com o apoio de duas baterias de artilharia brasileira, do
III e IV Grupos de Artilharia, uma companhia do 9o Batalhão de
Engenharia brasileiro e da Companhia “A” do 760o Batalhão de
“Tanks” americano.
O combate com a 148a foi continuado a partir da virada dos dias
27 para 28 de abril. Ultrapassando o II/11o R.I., o I/6o Regimento de
Infantaria cerrou a frente atacando na direção de Ponte Scodogna,
Gaiano e Fornovo.
Os alemães, indiferentes à conjuntura dos acontecimentos,
reagiram como sempre: desferiram um violento contra-ataque com
apoio de artilharia sobre o I Batalhão. O II Batalhão do 6 o R.I., mais
afortunado, subjugou o inimigo na região de Respicio, a 2,5 km de
Fornovo. Pelo outra margem do rio Taro, o III Batalhão do Sexto, mais
o Esquadrão de Reconhecimento conseguiram ocupar a localidade de
Felegara, a 3,5 km de Fornovo.
O fechamento do cerco brasileiro ao inimigos resultou na
contração de seu dispositivo para o interior da cidade de Fornovo.
Restava ao coronel Nelson de Mello a alternativa de atacar os
alemães e italianos que ocupavam a cidade.
Todo o peso dessa decisão recairia sobre o 6o Regimento de
Infantaria e tropas que apoiavam o regimento paulista naquele fim de
guerra. Embora a disposição para o combate fosse geral, tanto alemães
como brasileiros se perguntavam do sentido de se esvaírem em sangue
na derradeira batalha de uma guerra cujo desfecho todos eram
conhecedores.
Àquela altura, com a convergência de informações que
chegavam ao comando do 6o Regimento de Infantaria, tinha ficado
claro que o efetivo total de alemães e italianos em Fornovo
215
ultrapassava em vários milhares de homens a expectativa inicial a
respeito do contingente inimigo que os brasileiros tentavam cercar.
Caso os alemães tivessem consciência da sua enorme superioridade
numérica, os acontecimentos teriam tomado outros rumos.
Às 9:00 horas da manhã do dia 28 de abril, o comandante alemão
recebeu a seguinte intimação:

“Ao Comando da tropa situada na região de Fornovo e Respicio:


Para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos
incondicionalmente ao comando das tropas regulares do Exército Brasileiro que
estão prontas para vos atacar.
Estais completamente cercado e impossibilitado de qualquer retirada.
Quem vos intima é o comandante da Vanguarda da Divisão Brasileira que vos
cerca.
Aguardo dentro do prazo de duas horas a resposta do presente ultimatum.
(a) Nelson de Mello – Coronel”

Cerca de duas horas depois, um oficial alemão compareceu ao


comando do regimento brasileiro trazendo a mensagem:

“Depois de receber instrução do comando superior seguirá a resposta.


(a) Major Kuhn”

A inconclusiva resposta alemã levou o comando do 6o R.I. a


persistir na ofensiva. Às 13:00 horas do dia 28 de abril, os três
batalhões do Sexto continuaram o ataque. Montada sobre os tanques
americanos, a infantaria do I Batalhão, com o apoio da Companhia de
Obuses atacou na direção de Collechio – Fornovo di Taro, a cavaleiro
da estrada que circundava a baixada onde o inimigo se concentrava.
Com 2a Companhia na vanguarda do ataque – a esta altura sob o
216
comando do capitão Evangelista, os carros de combate alemães
apoiados por infantaria italiana barraram a progressão dos tanques
americanos ao sul da localidade de Ponte Scodogna. Os infantes
brasileiros rapidamente saltaram dos blindados e continuaram a
avançar por baixo dos tiros diretos dos canhões dos tanques alemães.
Os pelotões dos tenentes Vargas, Eugênio e Hélio travaram
violento combate aproximado no interior do vilarejo contra os alemães
e italianos que demonstraram acirrada disposição de resistirem. A
vanguarda da 2a Companhia, que consistia no grupo de combate do 2o
sargento Andirás, foi pega num fogo cruzado de metralhadoras
pesadas. O sargento caiu morto sob os tiros, junto com outros mortos
de feridos.
Os brasileiros continuavam a sofrer baixas nas tentativas de
cerco. Em Felegara, os alemães puseram um dos blindados M-8 fora de
combate com um disparo de Panzerfaust. Em missão de
reconhecimento, o capitão Ayrosa passou com seu jipe sobre uma
mina anti-tanque, fazendo com que o veículo fosse lançado a várias
dezenas de metros de distância. O capitão e o sargento Ápio foram
resgatados das ferragens distorcidas pelos alemães e feitos
prisioneiros. O soldado Hilário Diecimo Zanesco, motorista do jipe,
pereceu na explosão. Mas após sofrer pesadas baixas com quatro
homens mortos e alguns feridos, a 2a Companhia recebeu o apoio da
1a, que se encontrava em segundo escalão, visando as alturas do
vilarejo de Gaiano.
Informado da ordem de apoiar a 2a Companhia, o tenente
Quadrado reuniu os sargentos do pelotão na longa estrada que levava
em direção a Gaiano. Apontou os objetivos na carta topográfica, e com
ar de gravidade, esclareceu as missões dos grupos de combate.
217
- “Preparem seus homens que nós vamos atacar nessa
madrugada. Nós vamos partir entre as cinco ou seis da manhã.”
Enquanto o tenente Quadrado orientava o pelotão, um caminhão
carregado com os brasileiros mortos no combate de Gaiano passou
pela estrada a caminho da retaguarda, causando arrepios nos
soldados. Depois de oito meses de linha de frente, quando a guerra
parecia estar próxima do fim, a visão dos cadáveres ensangüentados
dos soldados da 2a Companhia praticamente acabou com as
esperanças que todos mantinham em sair dos últimos combates ilesos.
Mesmo com as notícias dos avanços dos russos na frente oriental, que
deixavam todos em êxtase, e apesar da investida que subjugou a
resistência alemã na campanha final, o inimigo ainda dava sinais de
fôlego.
A noite caiu com um acirrado duelo entre as duas artilharias. Às
21:00 horas, a 3a Companhia recebeu mais um forte contra-ataque
alemão em Selegara, mas que foi repelido sob um violento combate
aproximado de armas automáticas e morteiros.
Finalmente, uma hora depois de encerrado o contra-ataque
alemão, três parlamentares da 148a Divisão cruzaram as linhas
brasileiras. Levados ao posto de comando regimental em Collechio, os
alemães procuravam se inteirar das condições da rendição. O coronel
Nelson de Mello replicou dizendo que a rendição deveria ser
incondicional. Garantiu contudo que todas as regras estabelecidas
pelas convenções internacionais seriam respeitadas. O major Kuhn
respondeu que se referia às condições de “execução” da rendição:
entrega das armas, viaturas e animais de tração. Nelson de Mello
perguntou então ao major alemão qual o efetivo total de soldados que
se encontravam em Fornovo. A resposta do major Kuhn:
218
- Cerca de 16.000 homens, 4.000 animais e 2.500 viaturas, das
quais 1.000 são motorizadas.
Impressionado pelo vulto da tropa e material inimigo que estava
prestes a cair nas mãos do regimento, o coronel Nelson de Mello
dirigiu-se ao comando da 1a DIE em Montecchio, para comunicar ao
general Mascarenhas o importante acontecimento.
Nelson de Mello retornou ao palco dos eventos acompanhado do
coronel Lima Brayner e do tenente-coronel Castello Branco.
À 01:00 da madrugada, um novo contra-ataque alemão foi
repelido pela 3a Companhia. Quando todos no I Batalhão ultimavam
os preparativos para o ataque a ser realizado nas horas finais da
madrugada, foi retomado o contato com os parlamentares alemães.
Ficou estabelecido que a artilharia brasileira cessaria seus disparos às
05:20 da manhã do dia 29, o que para a felicidade geral, eqüivalia à
reversão da ordem de atacar ao clarear do dia.
Mas a artilharia alemã e parte dos carros de combate, sem
informações sobre as negociações por falta de ligação, continuavam a
disparar sobre as linhas brasileiras. O decorrer do dia 29 foi tenso com
eventuais escaramuças entre brasileiros e alemães. A cidade de
Fornovo, à beira do rio Taro, era avistada das alturas ao seu redor
onde se entrincheirara a infantaria do 6o R.I., decidida a barrar as
iniciativas alemãs de romperem o cerco.
Naquela noite, dois oficiais alemães cruzaram as linhas
brasileiras para propor a rendição incondicional da infantaria inimiga,
a partir das 24:00 horas do dia 29 de abril. Daquele momento em
diante, os primeiros prisioneiros alemães começaram a passar para o
lado das linhas do 6o Regimento de Infantaria. Jogavam suas armas na
beira da estrada, que aos poucos se transformaram em infindáveis
219
pilhas de todo tipo de material. “O armamento deles jogado num
monte parecia lenha,” lembrou Botossi.
Tedescos e mais tedescos prosseguiam marchando em direção ao
cativeiro. Os soldados brasileiros começaram então a se dar conta da
dimensão da tropa cuja escapada tinham conseguido barrar. Os
alemães dispunham de meios de combate que os capacitava a resistir
com firmeza. Carros de combate, milhares de armas automáticas,
canhões rebocados por veículos com lagartas e dezenas de canhões
anti-carro, com farta munição. A 148a Divisão de Infantaria tinha
conseguido se retirar do Vale do Rio Serchio bastante intacta.
Afortunadamente, a rendição ocorreu a tempo de evitar maior
derramamento de sangue. Mesmo assim vários soldados do I Batalhão
perderam suas vidas naquela véspera de fim de guerra.
Em pleno Vale do Pó, depois de meses de intensa ação na linha
de frente, os soldados brasileiros enfim conheciam de perto seus
inimigos alemães e italianos. A curiosidade de Gratagliano levou-o a
se aproximar de um grupo de soldados alemães que terminava de
depor as armas. Um dos tedescos, dirigindo a palavra a Gratagliano
disse-lhe no idioma italiano:
“Avete vinto la guerra” – “Vocês venceram, e nós agora somos
prisioneiros.” Cético em relação ao futuro, Gratagliano retorquiu:
“E noi?” – “E nós?” – perguntou Gratagliano, “o que será de
nós?”
O desfile de viaturas e batalhões a pé durou todo dia 29 e parte
do dia 30. Toda a 148o Divisão de Infantaria, o IV Batalhão de Alta
Montanha, o Batalhão Intra da Monterosa, o 361o Regimento de
Panzergrenadier da 90a Divisão Motorizada alemã, junto a frações das
divisões San Marco e Italia, do Exército Republicano Italiano.
220
Renderam-se aos brasileiros por fim os generais Otto Fretter-Pico e
Mario Carloni, este último, comandante do contra-ataque de 31 de
outubro de 1944 em Sommocolonia. No total, a operação tirou de
combate 14.000 soldados inimigos. Até os dias de hoje, os prisioneiros
alemães e italianos são gratos pelo cavalheirismo demonstrado pela
FEB durante a grandiosa Rendição de Fornovo. Além de atender os
feridos, o comando brasileiro determinou a apresentação de armas por
parte de um pelotão do 6o Regimento de Infantaria, além de
impedirem energicamente que os partigiani consumassem atrocidades
contra os soldados desarmados.
Nas outras frentes da Europa, os exércitos Aliados avançavam
pela Alemanha adentro. Na mesma época, chegara à frente italiana a
notícia do suicídio de Hitler dentro de seu bunker subterrâneo na
capital do Reich, e do fuzilamento de Mussolini e seus gerarcas na
cidade de Milão.
Nos primeiros dias de maio, o Exército Soviético combatia em
Berlim. Finalmente, tropas russas e americanas se encontraram no rio
Elba. No dia 7 de maio, os sinos das igrejas soaram por toda a Itália.
Depois de anos de combate ininterrupto, a II Guerra Mundial chegara
ao fim, ao custo de 55 milhões de seres humanos mortos.
Quando o tenente Gonçalves recebeu a notícia da rendição
incondicional de todo o Exército Alemão, não se conteve: sacou de sua
pistola Walther disparando toda a carga para o ar!
Terminada a guerra, o I Batalhão foi enviado para a cidade de
Voghera, na região de Gênova. Ocuparam um antigo quartel do
Exército Italiano, ainda com pinturas e frases nas paredes que aludiam
ao fascismo e à cega obediência a Mussolini. Uma edição especial do
“Cobra”, impressa em Voghera a cores, foi publicada no dia 8 de maio
221
de 1945 para comemorar o fim das hostilidades na Europa. Trazia
mensagens dos oficiais do batalhão para seus comandados, e a lista
dos mortos em combate do I Batalhão, dentre os quais Francisco
Gomes de Souza e José Alves de Abreu.
Naquela cidade, o batalhão celebrou a Vitória Final com um
garboso desfile no dia 14 de maio. O major Gross proferiu um discurso
sobre a grande significatividade do feito de armas das Nações Unidas,
e ressaltou enfaticamente a importância de se prevenir para o futuro,
evitando a existência de contextos políticos que pudessem dar origem
a novas aberrações como o nazi-fascismo. Gross também falou em
homenagem aos mortos na campanha, e o I Batalhão guardou um
minuto de respeito em homenagem aos camaradas. Em seguida, um
clarim ressonou vibrante o toque da Vitória, e todo o batalhão desfilou
em continência a seu comandante.
Também retornaram à 1a Companhia os quatro homens
capturados na patrulha do dia 22 de outubro, que resultara na morte
do tenente Barbosa.
Quando terminou a guerra, a primeira providência do capitão
Atratino foi se dirigir ao setor de Barga para tentar encontrar o corpo
do tenente Pinto Duarte.
Atratino localizou o tenente Duarte no exato local onde o havia
deixado, ainda reconhecível. Fora conservado pela neve. A primeira
grande geada caíra na noite de 31 de outubro, e Pinto Duarte ficara
sepultado sob o gelo. O tenente Lúcio Marçal, da 7a Companhia,
também retornou à área para recuperar o corpo do aspirante Mesquita.
A família de Pinto Duarte não dispunha de informações seguras
sobre o destino do tenente. Sua carteira tinha sido recolhida pelos
alemães que transmitiram pela estação de rádio de propaganda a
222
informação de que o oficial tinha caído prisioneiro. Os parentes de
Pinto Duarte, ansiosos por notícias mantinham contato com outros
oficiais do I Batalhão.
Nos primeiros dias de junho, alguns tenentes do 6o R.I. foram
informados que poderiam retornar ao Brasil por via aérea. Entre eles
estavam Piason, Ubirajara, Gonçalves, Massaki, Simões, Mange,
Demócrito, entre outros, que haviam feito a campanha com o
regimento desde os dias no Vale do Serchio até a rendição final no
Vale do Pó.
Em meados de julho, os tenentes partiram do aeroporto de
Nápoles, a bordo de um DC-3 da Força Aérea Americana.
Tão cedo chegou ao Brasil, Piason tomou a determinação de
contatar a esposa do tenente Pinto Duarte para esclarecer o desenlace
do episódio que cercava seu desparecimento em combate. Consultou-
se com seus companheiros para que ajudassem-no a resolver o dilema
de encerrar a esperança que a família mantinha. Não tinham certeza
ainda que Pinto Duarte se encontrava realmente morto.
Piason visitou a esposa de Pinto Duarte em Santa Catarina,
revelando-lhe o real destino do marido. Foi uma ocasião traumatizante
porém necessária para findar as tristíssimas falsas expectativas.
Em julho a tropa do 6o R.I. aguardava o navio para retornar ao
Brasil no árido acampamento de Francolise.
Até que um dia, o 6o Regimento foi levado em caminhões até o
porto de Nápoles.
Os soldados do 6o Regimento de Infantaria começaram a galgar
as rampas de embarque do navio transporte. Alguns dos homens se
viraram para trás, para apreciar uma derradeira vista da Itália.

223
Repentinamente, foram arrebatados por uma sensação que os
deixou algo perplexos. Era estranho, mas pareciam desde já sentir
saudades do país onde haviam combatido. A partida significava o fim
da guerra e o reencontro com a família, mas também se ressentiam do
rompimento da veemente amizade forjada no decorrer da luta.
Tinham ido para o além mar sem pedir nada em troca. Não se
preocuparam em receber vantagens ou benefícios por haver
combatido. Continuaram vivendo da mesma maneira quieta, dedicada
e despretensiosa com que enfrentaram a guerra.
Junto com seus companheiros, o 1o Pelotão voltava para casa.
***
A recepção do 6o Regimento de Infantaria no Rio de Janeiro já foi
descrita como tendo sido apoteótica.
Logo depois da chegada, quando o regimento ainda estava
alojado na Vila Militar, Botossi e Gratagliano foram chamados para
uma solenidade na embaixada americana. Chegando no imponente
palacete, oficiais de alta patente brasileiros e americanos
recepcionavam os generais Clark e Truscott. Depois de uma cerimônia
de condecoração de oficiais da FEB, Clark assumiu a distribuição das
medalhas. Passara então a condecorar praças do 6o Regimento de
Infantaria que haviam se distinguido em combate. Gratagliano e
Botossi receberam cada um a Silver Star das mãos do general Clark.
Depois de prender a medalha na túnica de Gratagliano, Clark
bateu-lhe continência, apertou-lhe a mão e acrescentou a frase:
“São soldados como vocês que ganham as guerras!”
Os dois soldados do 1o Pelotão não cabiam em si de orgulho.
Depois de chamado, Botossi foi até Gratagliano e disse: “olha só, o
homem me deu uma medalha!” – “pois é, acho que a gente deve
224
merecer, não é?” – comentou Gratagliano. A humildade e modéstia
dos dois soldados não lhes criara a expectativa de receberem tal
distinção, mesmo depois de haverem ido além e para cima do
cumprimento do dever. Dos 30 exemplares da Silver Star distribuídos
entre toda Força Expedicionária Brasileira, dois tinham sido dados a
soldados do 1o Pelotão de Fuzileiros da 1a Cia. I/6o R.I. Gratagliano e
Botossi figuram na seleta galeria dos praças mais condecorados do
Exército Brasileiro.
Infelizmente, suas medalhas da Cruz de Combate de 1a Classe,
outorgadas pelo Exército Brasileiro, só lhes seriam entregues muitos
anos depois da guerra.
Nem sempre a outorga de medalhas obedecia a critérios claros.
Recomendado para a Cruz de Combate de 1a Classe ainda antes do fim
das hostilidades na Itália, o texto referente à condecoração de
Gonçalves continha os seguintes dizeres:

“RECOMENDAÇÃO PARA CONDECORAÇÃO – 6O REGIMENTO DE


INFANTARIA –
É recomendado JOSÉ GONÇALVES, identificado sob o número 2G
62974, 1o tenente R/2, do 6o Regimento de Infantaria, da Arma de Infantaria,
natural de São Paulo, Capital, a ser recompensado com a Medalha de Combate
de 1a Classe. II – No ataque nosso e contra-ataque alemão à região de
Sommocolonia demonstrou ser dotado de bravura e coragem, aliados a forte
moral, quando combateu com elementos inimigos de tropa “S.S.” a uma
distância de 15 metros quando a todo custo, o inimigo pretendia ocupar as
posições de seu pelotão. O tenente GONÇALVES só se retirou depois do
esgotamento de todos os seus meios e quando para isso recebeu ordem. Na cota
702, na região do morro SOPRASSASSO, no golpe de mão efetuado àquela cota
destacou-se pela bravura e audácia, ao receber uma forte concentração de fogos
de morteiros e armas automáticas inimigas, apesar de seu pelotão ter tido
225
inúmeras baixas entre mortos e feridos, o tenente GONÇALVES ainda tentou
cumprir a sua missão por duas vezes, só se retraindo depois de verificar ser
humanamente impossível continuar e depois de receber ordem de regressar. Na
região de BOSCACCIO, pela coragem e bravura com que colocou em posição
seu pelotão, num momento crítico para o batalhão, dando provas de sua
excepcional bravura, o referido oficial não se intimidou perante a grave situação
que aquela posição oferecia, incentivando sempre pelo seu exemplo todos os
seus comandados. Na ofensiva da primavera, transpondo os terrenos mais
variados possíveis, sempre à frente de seus homens, enfrentando a grande
fadiga, bombardeios inimigos, revelou bravura, espírito de sacrifício,
desprendimento e amor à responsabilidade.”

Mas quando a medalha afinal chegou para o tenente Gonçalves,


apesar da primorosa recomendação, entregaram-lhe a Cruz de
Combate de 2a Classe. Sem desmerecer o valor da medalha de 2a
Classe, Gonçalves sabia que a medalha sugerida na recomendação
original tenha sido tolhida por complicações burocráticas impostas por
um desafeto que nunca chegou a ver a linha de frente de perto.
Enfim, no primeiro dia de agosto de 1945, parte do 6o Regimento
de Infantaria já se retornara para o quartel de Caçapava. Naquele
mesmo dia, um contingente de mil homens dos três batalhões do
regimento desembarcava na Estação da Luz. De ambos os lados da
avenida, em frente ao Parque da Luz, uma coluna de soldados do
Exército montava uma guarda de honra aos expedicionários que
voltavam dos campos de batalha da Europa.
À testa da coluna, logo atrás do pavilhão nacional que ia sendo
conduzido pela guarda da bandeira, o 1o Pelotão de Fuzileiros abria a
coluna do desfile, seguido dos outros homens da 1a Companhia.

226
Uma multidão de populares cercava os homens do Sexto, que
começaram a marchar pela Avenida Ipiranga. À medida em que os
soldados marchavam na direção da São João para tomar o rumo do
Estádio do Pacaembu, mais e mais cidadãos se acercavam da tropa.
Por fim, o entusiasmo da calorosa acolhida dos paulistanos, que
literalmente se empilhavam sobre as calçadas para conseguir ver de
perto os veteranos que desfilavam, impedia a progressão dos pelotões
formados pelas avenidas centrais da capital paulista. Um magnífico
arco do triunfo, montado no início da Avenida General Olímpio da
Silveira, servia como portal para uma das retas do desfile. A partir
daquele ponto a exultante massa de populares acotovelava-se
abraçando e beijando euforicamente os expedicionários, que em
coluna por um em meio à multidão, sob ovações estonteantes e chuvas
de papel picado atiradas dos arranha céus do centro de São Paulo,
marcharam até a praça defronte ao estádio.
Ali, pela última vez, reunia-se o 6o R.I., veterano da Campanha
da Itália.
***
Uma guerra consiste no maior número de tragédias imagináveis
que podem acometer uma nação. Mais do que o sofrimento dos
soldados e destruição generalizada da propriedade particular, a maior
vítima de uma guerra é a população civil. Sob um país ocupado, não
há nenhuma autoridade que zele pelo bem estar de seus cidadãos.
Na II Guerra Mundial, os europeus testemunharam a contínua
invasão e ocupação de seus países. Na Itália, não restava nenhuma das
estruturas e instituições de garantia do bem estar de seu povo.
Hospitais, escolas, indústrias, atividades econômicas que geravam os

227
meios de subsistência estavam todos interrompidos ou
irreversivelmente arruinados.
Numa guerra, a degradação moral, espiritual e física corrompe
até o âmago os valores que pautam a organização de uma sociedade.
A sobrevivência a qualquer custo torna-se a motivação principal dos
seres humanos envolvidos em um conflito. Todos aqueles que
estiveram na guerra testemunharam as populações fazendo fila após o
rancho dos soldados, para se alimentar de restos. Viram mulheres
oferecerem seus corpos por uma lata de ração ou um maço de cigarros,
que valiam mais do que qualquer moeda.
Lembram-se das crianças maltrapilhas e subnutridas, naquele
continente que hoje rivaliza com outras pouquíssimas nações a
primazia de potência econômica global.
Esse estado de coisas faz com que uma tropa de ocupação
desfrute de um grau de autoridade e mando com autonomia
comparável ao mais despótico regime de governo. Desde o mais
graduado general até o mais simples dos soldados dispõem de poder
praticamente absoluto sobre qualquer civil.
Quando um ex-combatente retorna à Itália, surpreende-se com o
contrastante progresso que hoje reina pelos antigos campos de batalha
por onde passou. Atualmente, aquele povo está numa situação
invejável. A Itália tem um dos mais elevados padrões de vida em
termos mundiais.
Perambulando pelos campos de batalha de outrora, um ou outro
dos veteranos da FEB em viagem de rememoração à Itália costuma
visitar a região em que combateram. É uma outra Itália, distante dos
tumultuados centros industriais e turísticos nos quais a guerra não

228
passa de uma memória apagada em livros ou em monumentos
esquecidos nos cantos das praças.
Uma visita à antiga linha de frente é uma viagem de volta ao
passado, uma experiência inteligível somente para quem vivenciou
aqueles terríveis dias.
Felizmente, hoje em dia aquele povo humilde e trabalhador não
depende mais da ajuda de soldados de um país estrangeiro para
sobreviver. Mas sua gratidão será eterna.
Em cada uma daquelas centenárias habitações, onde permanecem
vivendo alguns dos camponeses do tempo da guerra ou seus descendentes,
qualquer brasileiro poderá sentir-se em casa. Será convidado para entrar,
sentar-se e prendere un bicchiere di vino. Escutará histórias de coragem,
medo, desespero e bravura por horas a fio. Ainda hoje, os italianos sabem o
quanto poderiam ter sido submetidos aos excessos e desregramento de uma
tropa mal intencionada.
Não foi o que ocorreu. Hoje os veteranos voltam para a Itália de cabeça
erguida, não como guerreiros, mas como amigos de longa data. É o maior
sinal que demonstra a digna honradez e decência humanas com que se
portaram, enquanto outros tripudiavam sobre a desgraça dos vencidos.
O afeto e carinho com que são recebidos os veteranos da FEB ainda vão
ecoar por muitas gerações ao longo dos Apeninos. A grandeza daquela época
é atemporal.
Nos anos que se sucederam à guerra, os membros do 1 o Pelotão de
Fuzileiros da 1a Companhia do 6o R.I. tomaram em suas vidas direções tão
diferentes como as origens que tinham antes de se conhecerem no Exército.
Alguns retornaram a seus estados de origem e deles nunca mais se teve
notícia. Mesmo há décadas sem contato, aquele grupo de homens, que a
guerra transformou em irmãos é lembrado com profunda saudades por cada
um dos que participaram da epopéia. Boa parte dos integrantes do 1 o Pelotão

229
ainda mantém contato, assim como outros veteranos do I Batalhão do 6 o
Regimento de Infantaria e outras unidades expedicionárias.
Retornando a São Paulo, Gonçalves assumiu a gráfica de seu pai, que
saiu pela porta da frente do pequeno negócio para descansar das décadas de
labuta assim que o filho chegou da guerra. Em sua vida particular, Gonçalves
demonstrou o mesmo afinco com que havia liderado seus soldados no
combate.
Quadrado, Félix e Piske permaneceram no Exército, onde se
aposentaram. Piske prosseguiu na carreira de jornalista em seu estado natal de
Santa Catarina, e no início dos anos 80, publicou um vívido relato de seu
pelotão na guerra. Tanese trabalhou por vários anos em companhias de papel
e desfrutou de sua aposentadoria, retornando à Itália sempre que possível.
Ferreira, depois de muitos percalços em sua vida particular, casou-se
pela segunda vez, finalmente entrando de acordo com a vida. Gratagliano
casou-se com Maria, sua namorada de antes da guerra, teve dois filhos e
morou a vida toda no bairro da Móoca. Borges foi trabalhar no Departamento
de História da Universidade de São Paulo, assistindo o professor Eurípedes
Simões de Paula na secretaria da faculdade. Piason, Maud e Palermo
residiram em Campinas. Bottosi retornou a Taubaté e sua ocupação de antes
da guerra, aposentando-se, como seus demais camaradas, com a dignidade
peculiar a quem sempre cumpriu seu dever.

Formação Original do 1o Pelotão

Seção de Comando:
Comandante:
1o Tenente José Gonçalves
2o Sargento Murillo Santana
3o Sargento Ferdinando Piske
230
Soldados:
Francisco Gomes de Souza
Joaquim Borges de Souza

1o Grupo de Combate:
3o Sargento Caetano Tanese
Cabo Getúlio Ferreira
Soldados:
Benedito de Paula Silveira
José Benedito Rodrigues
Nelson Wood
Alvino Costa Barbosa
Armando Ferreira
David Arsiufi
Benedito Vieira da Silva Filho
Emílio Rodrigues da Silva
José Ramos de Araújo
Vitório Gunha

2o Grupo de Combate
3o Sargento Francisco Pereira da Silva
Cabo Luiz Virgínio
Soldados:
Geraldo Moreira Damasceno
Antonio Jordão
Alfredo Gomes Sobrinho
Romeu Batista
Marcílio Nascimento
Marcelo Caldara
Amaurelino Padilha
231
Antonio Candido dos Santos
José Maria Lopes
Paulino Patrício

3o Grupo de Combate
3o Sargento Gutemberg de Melo
Cabo Felipe dos Santos
Soldados:
Jorge Alves de Oliveira
José Barca
José Alves de Abreu
Nelson Conceição dos Santos Carvalho
Antonio Benedito Ferreira Filho
Avelino Alves Pires
Nelson de Almeida Pereira
João Antonio da Silva
Antero Alves
Pedro Américo Loretti

Reservas:
Antônio Gomes dos Santos
José Ferreira de Almeida

Substituições:

1o Tenente Aldyr Araújo Quadrado


2o Sargento Mário Pontes de Araújo
2o Sargento João Duperron Siqueira

232
Cabo José Alves Cabral
Sd. Maud Araújo de Campos
Sd. Vicente Gratagliano
Sd. Artemiro Botossi
Sd. Mário Alberti
Sd. Lázaro Martins Ferreira
Sd. Jorge Aleixo
Sd. Xisto
Sd. Tibúrcio

Baixas do 6o Regimento de Infantaria na Itália


Mortos: 102
Desaparecidos em combate: 5
Feridos: 833
Aprisionados: 21

Baixas da Força Expedicionária Brasileira na Campanha da Itália


Mortos em ação: 354
Mortos em acidentes: 60
Mortos por doenças: 9
Mortos por motivos diversos: 10
Desparecidos em combate: 27
Total: 460

Feridos em combate: 1.577


Feridos em acidentes (dos quais 487 em ação de combate): 1.145
Extraviados (dos quais 35 foram recuperados dos campos de prisioneiros
alemães): 62

233
Embora o número oficial de mortos da FEB seja citado acima, a cifra
não inclui os expedicionários falecidos em decorrência de ferimentos de
guerra que expiraram durante tratamento em diversos hospitais militares,
tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Mesmo nos anos subseqüentes à
guerra, outros veteranos da FEB faleceram devido aos ferimentos recebidos
em campanha.

Bibliografia

Arruda, Demócrito Cavalcanti (organizador). Depoimento dos Oficiais da


Reserva sobre a FEB. São Paulo: IPE, 1949.
Burtscher, Hans. Report from the other side. Seegonk: John Imbrie, 1994.
Cornia, Carlo. Monterosa. Udine, 1971.
Del Giudice, Davide. Penne Nere Sulle Alpi Apuane.
Força Expedicionária Brasileira – 1a Divisão de Infantaria Expedicionária – 6o
Regimento de Infantaria – S – 3 Relatório das Atividades do Regimento –
Campanha da Itália 1944-1945
Fiaschi, Cesare. La Guerra Sulla Linea Gotica Ocidentale. Bolonha: Lo
Scarabeo, 1999.
Henriques, Elber de Melo. A FEB 12 Anos Depois. Rio de Janeiro: Biblioteca
do Exército, 1957.
Mascarenhas de Moraes, J.B. A FEB Pelo Seu Comandante. São Paulo: IPE,
1947.
Maximiano, C.C. Barbudos, Sujos e Fatigados. São Paulo: Grua Livros,
2010.
Piske, Ferdinando. Anotações do Front Italiano. Florianópolis: FCC Edições,
1981.

Entrevistas e arquivos pessoais


234
Amynhtas Pires de Carvalho
Armando Ferreira
Artemiro Botossi
Caetano Tanese
Epapharol Silveira
Felipe dos Santos
Ferdinando Palermo
Gérson Machado Pires
Joaquim Borges de Souza
José Alfio Piason
José Gonçalves
Samuel Silva
Vicente Gratagliano
Vicente Pedroso da Cruz

Outras fontes

Jornal “...E a Cobra Fumou!”


Diário de José Gonçalves
Relatório das Atividades do 6o R.I.
Documentação da 1a Companhia do 6o R.I.

Ficha Técnica
Idealização: José Gonçalves
Redação, pesquisa e revisão: José Gonçalves e Cesar Campiani Maximiano

235
Major Gross, entre o General Mascarenhas e Marechal Alexander, revistam
tropa do I Batalhão do 6.o RI.

236
Marcha para a cratera do Astroni após desembarque do 6.o RI em Nápoles.

237
1.o Pelotão da 1.a Cia. de Fuzileiros do 6.o Regimento de Infantaria.
José Gonçalves está ao centro da foto, segurando a bandoleira da
submetralhadora Thompson. Foto feita em Camaiore em outubro de 1944.

Os autores:
José Gonçalves nasceu em São Paulo em 1912, participou da Revolução de
1932 como voluntário, à frente de um pelotão de fuzileiros, como aluno do
CPOR/SP. Oficial da Reserva, participou da Força Expedicionária Brasileira
no 6.o Regimento de Infantaria. Diretor presidente da Gonçalves S/A, uma
das mais importantes empresas do setor gráfico das Américas. Foi também
um dos autores do livro Depoimento dos Oficiais da Reserva Sobre a FEB,
publicado em 1949. Gonçalves faleceu na cidade de São Paulo em 2003,
ainda conduzindo sua vasta empresa.
Cesar Campiani Maxmiano é historiador e empresário. Nasceu em São
Paulo em 1971.

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