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Material de Apoio

Filosofia
Prof. Daniel Gomes

BACON, HUME, HOBBES, LOCKE E ROUSSEAU

Empirismo: Francis Bacon (1561-1626)

A. Francis Bacon: considerado, junto a Descartes, um dos fundadores da filosofia moderna graças
a sua defesa do método experimental contra a ciência especulativa clássica. Suas principais obras
são Novum organum (1620), no qual critica a concepção de ciência do Órganon aristotélico, The
Advancement of Learning, ampliado posteriormente com o título De augmentis, e New Atlantis, em
que representa, tal como Thomas More, um reino utópico. Sua contribuição filosófica está contida
na concepção de pensamento crítico, contida na teoria dos ídolos, e na sua defesa do método
indutivo no conhecimento científico, integrado com a técnica.

B. Pensamento Crítico: tal como Descartes, Bacon visava uma reforma filosófica radical que
garantisse o progresso das ciências contra a escolástica, com um método cientifico que evitasse o
erro e conduzisse o homem ao caminho correto e verdadeiro para atingir o conhecimento. Assim,
seu pensamento crítico tinha como objetivo libertar o homem de preconceitos, fantasias e
superstições que impediriam a construção do verdadeiro conhecimento. Nesse contexto
encontramos sua teoria dos ídolos. Os ídolos seriam obstáculos, distorções ou ilusões que
“bloqueiam a mente humana”, conduzindo o homem ao erro e nos impedindo de conhecer o mundo
como ele realmente é. Tais erros resultariam da perversão da natureza humana pelo pecado
original. Haveria os ídolos da tribo, ou seja, os que resultam da natureza humana, a qual, imperfeita,
distorce e corrompe as coisas devido aos limites naturais da própria razão; o homem não é um
microcosmo que reflete em si as características do macrocosmo, não possui um lugar privilegiado
no universo e, por isso, não há nada no universo que lhe permita conhece-lo. Já os ídolos da caverna
resultam das características individuais, ou seja, a constituição física e mental de cada um, sua
experiência de vida, sua educação e seu meio, os quais prejudicariam o processo de conhecimento
da realidade. Os ídolos do foro (ou do mercado) são resultados da linguagem, comunicação e do
discurso, ou seja, as palavras poderiam perturbar o intelecto e arrasta-lo a diversas controvérsias,
ambiguidades e fantasias, designando realidades inexistentes. Finalmente, os ídolos do teatro são
aqueles resultantes das doutrinas filosóficas e científicas, as quais criam mundos fictícios e teatrais,
que muitas vezes aceitamos (Bacon referia-se, principalmente, à escolástica). Obviamente, seria
impossível desfazer-se de todos os ídolos, mas conhecendo sua natureza, poder-se-ia combate-los.
Dessa forma, Bacon analisou os diferentes tipos de ídolos e desenvolveu sua crítica aos sistemas
filosóficos tradicionais, sobretudo o escolástico-aristotélico.

C. Indução: tendo consciência dos ídolos que bloqueiam a mente humana, seria necessário ao
homem despir-se de seus preconceitos, tornando-se uma “criança diante da natureza” para, assim,
alcançar o verdadeiro saber. A partir de então, Bacon propôs um novo método científico. O método
é a indução, a qual, baseada nas observações e na experiência, permite ao homem conhecer a
regularidade, o funcionamento e as relações entre os fenômenos da natureza, formulando, assim,

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as leis científicas. A partir desse método os cientistas transformaram suas observações em leis
gerais. Esta ciência permitiria o controle total da natureza para, assim, beneficiar o homem, fazendo
previsões e desenvolvendo instrumentos técnicos – extensões de nossos membros que ajudam a
superar nossas limitações. Dessa maneira, o progresso do conhecimento significaria o progresso do
homem, por isso sua famosa frase: “saber é poder”. Assim, Bacon foi um defensor da ciência ativa,
prática, aplicada e de um pensamento crítico, que combateria as superstições e permitiria o
progresso do conhecimento e a melhora da condição humana. A razão instrumental defendida por
Bacon e sua glorificação da técnica serão fortemente questionadas na filosofia contemporânea, em
particular pela Escola de Frankfurt e por Heidegger.

Empirismo: David Hume (1711-1776)

A. Hume: O escocês David Hume , o mais radical dos empiristas, foi um dos maiores filósofos da
Inglaterra Iluminista do século XVIII, assumindo uma posição cética e atuando como principal fonte
de inspiração para a obra de Nietzsche e Kant. Apesar de empirista, em suas obras (como o Tratado
sobre a natureza humana, de 1739, e a Investigação sobre o entendimento humano, de 1748), o
ceticismo (entendido, como foi visto em outras aulas, como suspensão de julgamento diante de
questões sem verdade) foi levado ao extremo, suspendendo as certezas até mesmo diante daquilo
que parecia ser experimental.

B. Empirismo radical: para ele, todo o processo de pensamento se principia com impressões, quer
dizer, não se pode conceber o pensamento desvinculado das sensações: “quando entro mais
intimamente nisto que eu chamo de eu mesmo, sempre tropeço em uma ou outra percepção
particular, de calor ou frio, luz ou sombra, amor ou ódio, dor ou prazer”. A ideia de Deus não
corresponde à existência de Deus, como outros disseram, mas tão somente ao exagero sem limites
de qualidades advindas das nossas sensações. Hume levou o empirismo às últimas consequências:
as nossas sensações são os únicos fatos comprováveis e, quanto mais próximas no sentido
cronológico estiverem as sensações, mais nítidas e fortes essas ideias serão.

C. Crítica do princípio da causalidade: Hume chegou a questionar inclusive um pressuposto


fundamental de toda tradição científico-filosófica: Hume questionava o principio da causalidade. É
aqui que reside sua reflexão mais conhecida. A questão de Hume não é saber a eficácia da chamada
"relação causa-efeito", mas compreender como esse conceito – existente desde os pré-socráticos –
tornou-se tão forte na mente humana. Hume, como outros empiristas, acreditava que nossas ideias
derivavam da experiência sensorial. Porém,, observando regularidades na natureza, o homem
acreditou que existiam leis, do mesmo modo que, vendo um evento suceder-se ao outro, o
homem inventou a relação de causa e efeito. Ao observar o nascer diário do sol com nossos
sentidos, por exemplo, dizemos que esse fenômeno ocorre graças a uma lei interna que rege os
corpos celestes e, assim, acreditamos veemente que o sol nascerá todos os dias. Porém, esse
conceito de “lei” ou de “causa” deriva tão somente da nossa limitada experiência, do costume, da
repetição e do hábito: o que nos garante que o sol se levantará amanhã? O que nos garante que a

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maçã sempre caíra? Outro exemplo: a chamada lei da gravidade é derivada justamente do hábito,
da observação constante de que a os corpos se atraem. Nada garante que isso seja uma lei e que
vai se repetir eternamente. Num jogo de sinuca, vendo uma bola branca bater numa vermelha,
fazendo-a cair na caçapa, acreditamos que o primeiro evento (a bola branca batendo na vermelha)
“causou” o segundo (a bola na caçapa), quando na verdade observamos isso ocorrer
frequentemente e acreditamos ser algo que sempre ocorre. Tudo que sabemos é que uma bola bate
na outra: nada sabemos sobre a tal "causa", conceito que inventamos para relacionar um com o
outro. A experiência nos mostra que um evento acompanha outro, mas não mostra nenhuma
relação concreta entre eles. Apesar de essa filosofia ser radical, nos levando a acreditar que
“qualquer coisa pode produzir qualquer coisa”, é importante notar que nada disso demonstra que
nossas expectativas em relação às leis ou às causas não sejam corretas (Hume não quer provar que
amanhã o sol pode não nascer ou as maças podem cair para cima, ele, inclusive, reconhece a
necessidade que temos de criar leis e causas). O que ele visa provar é: o fundamento de nossas
expectativas não está na razão, mas sim no hábito, no costume, na repetição. Em consequência
toda ciência é apenas resultado de indução, não havendo conhecimento certo e definitivo, de
modo que a única certeza que podemos ter é a probabilidade. Eis os pés-de-barro de toda a ciência
ocidental. Mas, é claro, Hume diz que a causalidade e a aceitação da existência do mundo ao nosso
redor, embora não possam ser provadas, são instintivamente impostas: “qualquer que seja a
opinião do leitor agora, daqui a uma hora ele estará persuadido de que existe tanto o mundo interno
quanto o externo”.

D. Questão da Identidade Pessoal: Hume estende sua crítica da noção de causalidade à ideia de
identidade pessoal, o "eu". Para entendermos essa nação, vejamos a ideia a partir de um exemplo.
Quando, na escola, estudamos história, utilizamos um determinado recorte e damos a ele coerência,
ou seja, escolhemos alguns fatos de algumas poucas partes do mundo ("Grécia", "Roma", "Egito",
"Europa Medieval"), e, assim, criamos a ideia de que a história possui uma "regularidade", uma
"coerência" ou uma "lógica". Entretanto, ao considerar todas as épocas e lugares que simplesmente
ignoramos na história, veremos que aquilo que estudamos na escola é muito mais uma seleção e
uma construção do que "toda a história", como muitas vezes se pensa. Essa seleção, evidentemente,
se liga a alguns propósitos ou conceitos do que é história. O mesmo se dá com nossa identidade
pessoal, e essa é a crítica de Hume. Por mais que acreditemos que exista uma identidade pessoal,
um "eu" (self), o que temos é uma série de percepções diferentes, desconexas e caóticas em nossa
memória. Dessa memória, selecionamos algumas, engrandecemos outras, diminuímos algumas e
manipulamos outras; a partir dessa manipulação e desse recorte de nossa própria memória criamos
a ideia de "eu", damos a ele uma coerência que, em si, não existe. O "eu", portanto, não é algo puro,
mas uma criação a partir do hábito, de nossas experiências. Com Hume, cai por terra a concepção
cartesiana de subjetividade. Essa crítica de Hume é absolutamente perturbadora. Por isso, Kant
formulará, em resposta, sua concepção de sujeito transcendental.

Thomas Hobbes (1588-1679) – O Leviatã

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➢ O Leviatã (1661): novo paradigma político, que difere de Aristóteles (pois não vê o homem como
um animal político ou social) e de Maquiavel (pois pensa o Estado a partir do indivíduo, diferente
do florentino)
➢ Contexto: Guerra Civil Inglesa
➢ Ideia básica:

Estado de Natureza: desejo de se conservar (interesse primordial que nos move) -> Medo -> afã
de poder -> Bellum omnium contra omnes, “guerra de todos contra todos” (natural condition of
mankind) -> condição natural = SOLITARY, POOR, NASTY, BRUTISH AND SHORT -> muito medo da
morte.1 homo homini lupus

Contrato Social: Fruto de um cálculo (quanto da minha liberdade eu abdico para manter a
segurança?) cujo motor é o interesse (de preservar-se), de modo que os desejos de riqueza e
domínio são superados pelo medo da morte e o desejo de paz e conforto:
Abjurar de seu poder de decisão política em favor de um homem ou um conjunto de homens os
quais, detendo a soberania e estando acima da lei, utilizam de nossa paixão maior (o medo da
morte) para, enfim, nos proteger e dar segurança: covenants without the sword are but words. A
vontade do monarca, nesse sentido, identifica-se com a do súdito.

Estado Absoluto (pode ser uma monarquia, ou uma assembleia com poderes absolutos): por
mais que tire de nós a liberdade política, garante as liberdades advindas pela paz, como a
segurança, buscar riqueza, ter filhos; para Hobbes, no fim das contas, gozamos de mais liberdades
(e das mais importantes), no Estado absoluto. Afinal, poucas coisas são proibidas; “no silêncio da
lei”, todas as outras são garantidas.

➢ Hobbes afirma que é legítimo ao súdito resistir, quando a ordem atenta à vida: a garantia de
autodefesa e liberdade são direitos do Estado de natureza que permanecem.

➢ Novidades: primeiro de nossos filósofos a pensar com clareza o indivíduo a partir dos interesses,
separar Estado e Sociedade, erigir a sociedade a partir de um contrato (contratualismo como
fonte da legitimidade do poder) e dizer que a função do governo é preservar os indivíduos. Dessa
maneira, apesar de absolutista, suas ideias serão, posteriormente, utilizadas por liberais e/ou
democratas para criticar (!!) Hobbes e o absolutismo.

➢ Hobbes não agrada a maioria dos reis, pois não diz que o poder deles provém de Deus, mas sim
de um contrato. Na verdade, ele é, na época, um defensor do absolutismo pouco importante
(Filmer e Boussuet eram muito mais lidos);

John Locke (1632-1704)

1 Hobbes NÃO diz que o homem é naturalmente mau. Ele é naturalmente medroso; e, por isso, prejudica o próximo.

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A. 2º Tratado Sobre o Governo Civil: o 2o Tratado sobre o Governo Civil, do médico e professor de
Oxford John Locke, inaugura o chamado liberalismo político. Ele foi escrito ao final do processo da
Revolução Inglesa, embora suas ideias sejam muito mais radicais que o pensamento whig (vale
lembrar que o texto, queimado publicamente em Oxford na última queima de livros da história
inglesa, só foi assumido por Locke em seu testamento). A obra foi traduzida para o francês, alemão,
italiano, russo, espanhol, sueco, norueguês, hebraico, árabe, japonês, hindi, português e,
provavelmente, outros idiomas. Vejamos, abaixo, algumas ideias desse texto.
B. Estado de Natureza (Jusnaturalismo) e Direitos Naturais: para Locke, o estado de natureza não
poderia ser uma guerra de todos contra todos (como faz Hobbes), mas um estado de perfeita
liberdade, sem qualquer forma de subordinação ou sujeição, sendo todos os homens iguais em
poder. Este estado de liberdade estaria regido por uma lei natural, que ensina que ninguém deve
prejudicar o próximo na vida, na saúde, na liberdade e nas posses, ou seja, os chamados direitos
naturais do homem: vida, liberdade, igualdade e propriedade (por vários séculos, os direitos
naturais serão incansavelmente defendidos). Para Locke, o indivíduo, portanto, é entendido como
proprietário de si mesmo. A propriedade privada seria um direito natural, inalienável ao homem: a
partir do momento em que o ser humano aplica seu esforço sobre o que a natureza lhe dispôs
(labour-mixing), ela, sem qualquer necessidade de pacto, lei ou consentimento, deixa de ser um
bem comum e torna-se sua propriedade. Segundo Locke, "seja o que for que ele remova do estado
em que a natureza o proveu e deixou, mistura-lhe seu trabalho, acrescenta-lhe algo que lhe é
próprio e assim o converte em sua propriedade".

C. Passagem para o Estado de Sociedade: No estado de natureza, não existindo polícia ou leis para
impedir que os indivíduos se molestem, põe-se nas mãos de todos os homens o poder de preservar
sua propriedade contra os danos de outros homens e também de julgar e castigar as infrações dos
outros. É claro que, numa situação onde todos têm o direito de castigar um infrator surgem
inconvenientes: sendo os homens juízes de seus próprios casos, o amor próprio, a paixão e a
vingança os levariam longe demais na punição de outrem, daí seguindo a confusão e a desordem.
Além disso, caso um homem não tenha força para punir ou defender-se de seu ofensor, não há
apelo a se fazer senão aos céus. Por causa desses inconvenientes, os decidiram reunir-se fazendo
um pacto para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens, criando o governo. Nasce o
governo, “por necessidade e conveniência.”

C. Estado de Sociedade: assim, a sociedade política (seja ela monarquia, democracia ou oligarquia)
nasce quando os indivíduos renunciam ao seu poder natural de justiça, passando-o às mãos do
governo com o objetivo único de conservar a si próprio, sua liberdade e sua propriedade. O governo
não surge para restringir liberdades individuais, mas para preserva-las. A preservação da liberdade,
da igualdade jurídica e da propriedade dos indivíduos é o objetivo principal de todo o governo. Todo
governo que não atuar nesse sentido pode ser derrubado pelos indivíduos, uma vez que todo o
poder político tem origem no consentimento da maioria. Eis o direito de resistência de Locke. O
pensamento liberal crê que o Estado não pode se impor sobre o indivíduo: a religião, as escolhas
políticas e o pensamento são escolhas individuais. Governo nenhum, nesse sentido, pode impor
uma crença ou opinião sobre os homens. Em outras palavras: o indivíduo é maior que o Estado.

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D. Poder Legislativo: para Locke a primeira necessidade de todas as comunidades consiste em
estabelecer o poder legislativo. O legislativo não poderia, de maneira alguma, governar por
decretos arbitrários, devendo sempre obter a aprovação do “povo”. Quando ele fala povo, é no
sentido romano de populous, referindo-se exclusivamente a homens que tenham independência
financeira e não precisem trabalhar para os outros, seja como escravo, seja como assalariados.
Portanto, cuidado: Locke não defendeu a democracia ou a soberania popular como entendemos
hoje. O legislativo não tem outro objetivo senão a preservação dos direitos naturais dos indivíduos,
não podendo destruir, escravizar ou propositalmente empobrecer os súditos. O legislativo também
não poderia atuar de maneira parcial, devendo instituir a mesma regra para ricos e pobres, favoritos
da corte ou camponeses no arado. Nesse sentido, o absolutismo seria a negação da sociedade civil,
uma vez que, ao invés dos indivíduos protegerem-se dos egoísmos e paixões alheias, se submetem
a um único e gigantesco egoísmo, o do monarca absoluto, o qual, como se não fosse também um
homem, não se submete às mesmas leis que os demais: “se perguntarmos que segurança, que
proteção existe em semelhante estado [absolutismo] contra a violência e a opressão desse governo
absoluto, nem mesmo se poderá admitir a pergunta”.

D. Tratado sobre a Tolerância: é o principal texto moderno acerca da tolerância religiosa. Quando
Locke afirma que a religião deve permanecer livre, como um direito próprio da esfera individual,
desde que não prejudique os direitos naturais dos outros – o que é, aliás, um dos baluartes do
pensamento liberal – ele cria a fórmula fundamental do ocidente para evitar as guerras religiosas.

Jean Jacques Rousseau (1712-1778) – Um Iluminista diferente


• Iluminista, mas romântico avant la lettre:
• Critica: progresso, usos da razão, civilização e propriedade privada – não é socialista, mas
influencia o pensamento socialista do século XIX.
"Os homens jamais passariam de monstros se a natureza não lhes tivesse conferido a piedade para
apoio da razão"
• Morreu paranoico, em 1778. Pouco mais de dez anos depois, sua obra seria muito influente
na Revolução Francesa

A. O Estado de Natureza: Homme Naturel: Jusnaturalismo: se eu retirasse do homem tudo que ele
aprende socialmente (antropologia negativa), o que sobraria2?
I) Amoral, pois a moral é uma convenção criada socialmente: não pratica bondades, nem maldades
(no Discurso, ele NÃO fala em “Bom Selvagem”, embora fale no Emílio. Pode-se falar em “Bom
Selvagem” apenas no sentido negativo, isto é, de não fazer maldades). Hobbes, quando disse que o
homem era "egoísta por natureza", errou, pois colocou no homem natural o que é, na verdade,
característico da civilização: "evitemos, pois, confundir o homem selvagem com os homens que
temos diante dos olhos", diz Rousseau.
II) Natureza é estado de abundância: a população era menor, então há espaço e comida suficiente
para todos, e o homem, por um lado, não possui predadores naturais e, por outro, pode imitar os
instintos de outros animais.
III) Ausência de linguagem

2 Rousseau não acredita que existiu um “estado de natureza”; trata-se apenas de uma hipótese filosófica útil para explicar seus pontos de vista.

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IV) Não há progresso ou história: não havendo linguagem nesse estado, o homem também não
conseguiria abstrair ideias, não conseguiria se comunicar, e, portanto, as gerações passavam uma
atrás das outras iguais, sem transformação, sem mudança no comportamento
V) Ausência de propriedade privada
VI) O amor físico é uma virtude da natureza; o amor moral, nascido de noções socialmente criadas
(beleza, casamento, propriedade), é o verdadeiro produtor do ciúmes, dos duelos e da discórdia.
Não há ciúmes na natureza, posto que não há nela a noção de propriedade
VII) Sem tecnologia (e, por isso, homem tem seus instintos de sobrevivência mais desenvolvidos).
O instinto supre nossas necessidades; razão, portanto, é uma necessidade social, e não natural: “foi
nossa indústria que nos privou da força e da agilidade que a necessidade obrigou o selvagem a
adquirir” A razão, assim, é também uma criação e uma necessidade social (Locke, portanto,
enganara-se em pensar um homem natural que é racional)
VIII) As leis da natureza, a subsistência (“o amor de si”), a liberdade e a reprodução regem a vida
humana. Liberdade = a capacidade de dispor de sua vida de conformidade com seus instintos sem
nenhuma limitação além daquela imposta pela própria natureza
IX) No estado de natureza, o homem só tem duas coisas a temer: a velhice e a doença. A ideia
hobbesiana de homens em permanente “medo” é falsa. São os homens sociais que são medrosos.
X) Se Rousseau não diz que o homem é “bom” no sentido de fazer bondades, ele diz que o homem
não tem uma natural propensão de faz o mal – o que o homem possui é o dom da perfectibilidade,
isto é: os seres humanos não permanecem para sempre em seu estado primitivo, mas ambicionam
supera-lo; não se satisfazem com a extensão e o tipo de existência que receberam de imediato da
natureza, e não desistem antes de terem criado e construído uma nova forma própria de existência
– mas o homem não é passivo em relação a sua natureza; ele precisa produzi-la, dar-lhe forma. O
ser humano, assim, é o único animal que não se contenta com o que recebeu da natureza; portanto,
é o único capaz de sair do estado de natureza

B. O Estado de Sociedade: Homme Artificiel:


- Natural crescimento da população implica no nascimento da linguagem – para Rousseau, a razão
nasce das paixões
- Em certo momento na história, alguém quis se sobressair, e passou a escravizar outros homens,
utilizando a força, criando a propriedade privada, o Estado e suprimindo a liberdade natural do
homem. A passagem a seguir, na qual Rousseau explica isso, é uma das mais famosas e belas da
história do pensamento humano:

"O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se
de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes,
guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando
as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse
impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a
ninguém (...) Fora preciso muito menos do que o equivalente desse discurso para arrastar homens
grosseiros, fáceis de seduzir, que aliás tinham questões para deslindar entre si, que não podiam
dispensar árbitros e possuíam demasiada ambição para poder por muito tempo dispensar os
senhores. Todos correram ao encontro de seus grilhões, crendo assegurar sua liberdade, pois, com
muita razão reconhecendo as vantagens de um estabelecimento político, não contavam com a
suficiente experiência para prever-lhe os perigos: os mais capazes de pressentir os abusos eram

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precisamente aqueles que contavam aproveitar-se deles, e até os prudentes compreenderam a
necessidade de resolverem-se a sacrificar parte de sua liberdade para conservar a do outro, como
um ferido manda cortar um braço para salvar o resto do corpo. Tal foi ou deveu ser a origem da
sociedade e das leis, que deram novos entraves ao fraco e novas forças ao rico, destruíram
irremediavelmente a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade,
fizeram de uma usurpação sagaz um direito irrevogável e, para lucro de alguns ambiciosos, daí por
diante sujeitaram todo o gênero humano ao trabalho, à servidão e à miséria"

- Com a propriedade privada, surge a desigualdade (opondo ricos e pobres), a pobreza, a miséria, a
escravidão e a exploração: "A ambição devoradora, o ardor de aumentar sua relativa fortuna [...]
inspira a todos os homens numa terrível propensão no sentido de se prejudicarem reciprocamente
[...] numa palavra, concorrência e rivalidade, de um lado, e do outro oposição de interesses e sempre
o desejo oculto de tirar proveito a expensas de outrem. Todos esses males constituem o primeiro
efeito da propriedade e o inseparável cortejo da desigualdade nascente"
- O dinheiro – símbolo da decadência humana – trazia infelicidade tanto para os pobres, que não
possuem o que gostariam de ter, quanto para os ricos, que estariam sempre no meio da cobiça, do
medo e do tédio, já que estaria sempre querendo mais e as satisfações materiais não o tornaram
mais feliz. Os pobres, lançados à miséria, passam a pilhar para assegurar sua sobrevivência; os ricos,
no afã de ampliar suas posses, pilhavam violentamente os pequenos proprietários.
- O homem social é um homem que, a todo momento, compete e se compara. O homem que se
compara e compete é sempre infeliz – haverá sempre alguém mais rico e, se for eu o mais rico,
então não serei o mais belo ou o mais inteligente. O pecado: o homem que se compara está sempre
corrompido ou em vias de estar: “o homem que se compara é o homem que, nas suas relações com
os outros, só pensa em si próprio, e nas suas relações consigo, só pensa nos outros”.
. Numa vida movida pela vaidade e pelo amor-próprio, buscando sempre uma posição de destaque,
todos acabam como escravos do amor próprio. Como o homem civilizado pensa em termos
progresso, ele nunca está satisfeito: sempre será possível ser mais rico, mais inteligente ou mais
bonito. Nas sociedades atuais o homem nunca atingiria a felicidade, um sonho, uma meta
inalcançável, além dele próprio.
- O homem em sociedade se encheu de futilidades, ocupações, diversões vazias e bens ilusórios
para, assim, cegar sua pobreza interior com uma miserável riqueza aparente. Todas essas bagatelas
da civilização só contribuem para aumentar nossa pobreza interior. Numa multidão de
divertimentos fúteis, o homem foge de si mesmo: ele não suporta a própria presença, pois
contemplar a si mesmo o enche de medo. Se o homem moderno pudesse ficar quieto um instante
a fim de adquirir consciência de si mesmo, de saber o que realmente é, com certeza entregar-se-ia
ao desespero. Por isso, o repouso causa pavor ao homem moderno.
- Veja que, para Rousseau, ao contrário de Locke, a propriedade privada não é natural, mas, pelo
contrário, uma criação social, fonte de muitas de nossas mazelas. A sociedade é o verdadeiro pecado
original. A desigualdade e a competição, longe de serem simplesmente naturais e benéficas, são
fontes de muitos problemas. E, para você, a competição e a comparação possuem mais vantagens
ou desvantagens?
- Se outros filósofos diziam que a natureza era algo negativo, que deveria ser superado pelo
"progresso", Rousseau enfatiza as mazelas que a civilização e o progresso trouxeram. Apesar de
iluminista, ele critica a ideia de progresso.
“Tudo está bem ao sair das mãos do Autor das coisas; tudo degenera nas mãos do homem” Emílio

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“O homem nasce livre e por toda parte encontra-se a ferros” (L’homme est né libre, est partout il
est dans les fers) Contrato Social

C. Como mitigar as mazelas da Civilização? Como nos reconciliarmos com a natureza? Como
resolvermos esses problemas advindos da civilização? Um tripé responde a essa pergunta: 1)
limite à propriedade privada 2) vontade geral 3) educação.
- Cuidado: Rousseau não queria, de forma alguma, "voltar para a natureza" (o que é impossível, pois
“La nature humaine ne retrograde pas”, isto é, a natureza humana não pode regredir), mas queria
uma reconciliação entre o homem social e o homem natural, ou seja, um mundo em que as benesses
da civilização fossem conciliadas com as benesses da natureza que perdemos. Um verdadeiro
reencontro de dois seres humanos distintos, que fundaria, assim, o homem integral.

- Limitar a propriedade e a desigualdade:


Se para Locke a liberdade deveria ter um limite, isto é, o ponto que afetasse a liberdade do outro,
para Rousseau a propriedade deveria ter o mesmo limite, qual seja, ninguém pode ter uma
quantidade de propriedade suficientemente grande para que se gere desigualdade e, com isso, os
outros homens sejam prejudicados.
Para Rousseau, é inadmissível que um homem ou um povo se assenhoreasse de um território
imenso e dele privasse os outros homens, tirando-lhes o abrigo e o alimento que a natureza
concebeu em comum. A grande propriedade coloca alguns homens em situação de dependência e
dominação perante os outros. Para Rousseau, assim, o homem tem direito a ser proprietário apenas
daquilo que pode ser justificado pela sua real utilização. Ele idealiza, assim, um mundo de pequenos
proprietários, que favoreceria a igualdade moral e legítima. Rousseau postulava uma sociedade de
pequenos produtores, que, garantindo a pequena propriedade baseada no trabalho próprio,
movesse implacável guerra à grande propriedade
“São necessárias as seguintes condições para autorizar o direito de primeiro ocupante de qualquer
pedaço de chão: primeiro, que esse terreno não esteja ainda habitado por ninguém; segundo, que
dele só se ocupe a porção que se tem necessidade para subsistir; terceiro, que dele se tome posse
não por uma cerimônia vã, mas pelo trabalho e pela cultura, únicos sinais de propriedade que devem
ser respeitados pelos outros, na ausência de títulos jurídicos” O Contrato Social

O que é igualdade para Rousseau? “Se quisermos saber no que consiste, precisamente, o maior de
todos os bens, qual deva ser a finalidade de todos os sistemas de legislação, verificar-se-á que se
resume nestes dois objetivos principais: a liberdade e a igualdade (...) quanto à igualdade, não se
deve entender por essa palavra que sejam absolutamente os mesmos os graus de poder e de
riqueza, mas, quanto ao poder, que esteja distanciado de qualquer violência e nunca se exerça
senão em virtude do posto e das leis e, quanto À riqueza, que nenhum cidadão seja
suficientemente opulento para poder comprar um outro, e não haja nenhum tão pobre que se veja
constrangido a vender-se”
O Contrato Social

- Vontade Geral:
Para existir harmonia e bem-estar aos indivíduos de determinada sociedade, deveria haver uma
nova sociedade, na qual cada um, ao invés de submeter-se a vontade de outrem, obedecerá apenas

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a assim chamada vontade geral, que o homem conheceria e reconheceria como sua própria
vontade. Como isso ocorrerá?
Deve haver um livre e racional acordo entre os homens, um pacto social, o Contrato Social. Nessa
democracia, a soberania, portanto, não residiria no rei, como dizia Hobbes, mas nos cidadãos, os
quais escolheriam seu governante segundo as próprias necessidades. É a chamada soberania
popular. Importante: a Vontade Geral (volonté générale) não deve-se confundir com a Vontade de
Todos ou da Maioria os cidadãos:
"Há muitas vezes, uma grande diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta olha
somente o interesse comum, e a outra coisa não é senão a soma de vontades particulares; mas, tirai
dessas mesmas vontades as que em menor ou maior grau reciprocamente se destroem, e resta como
soma das diferenças a vontade geral" A vontade geral é, assim, depois de eliminados os aspectos
conflitantes e destrutivos das vontades particulares, a soma daqueles aspectos que dizem respeito
ao interesse geral dos cidadãos.
Nessa sociedade, o Estado deveria tutelar pela liberdade e pelo bem-estar da população, evitando
atitudes autoritárias, e lutando para que não houvesse extremos de pobreza e de riqueza. Alguns
estados podem ser democráticos ou aristocráticos (para Rousseau, a democracia representativa é
uma forma de aristocracia) – o importante, entretanto, é serem guiados pela vontade geral.
Assim, os homens abdicam todos os seus direitos naturais em favor da comunidade, recebendo
desta, em troca, a garantia de suas liberdades no limite estabelecido pela lei: "o que o homem perde
pelo Contrato Social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo o que tenta e pode alcançar;
o que ganha é a liberdade civil e a garantia da propriedade de tudo o que possui".
Para Rousseau, é um contrato, um acordo, que cria a sociedade e o Estado. Quando esse acordo
não é feito em liberdade (pacto de submissão), entre partes desiguais, constrói-se um Estado
autoritário; quando é feito em liberdade (pacto de liberdade), por livre vontade, entre partes que
estejam em pé de igualdade, e é isso que defende Rousseau
Esse Estado garantiria, por um lado, a liberdade dos homens, pois esse é seu propósito, e, por outro
lado, a obediência, já que todos participaram da elaboração das leis, todos reconhecem as
autoridades como legítimas, e, sobretudo, todos percebem que o propósito do Estado é garantir o
bem comum: "convenhamos, pois, que a força não faz direito, e que não se é obrigado a obedecer
senão às autoridades legítimas". Livremente, todos devem submeter-se ao império da vontade
geral; em outras palavras, como todos concordam com a legitimidade desse Estado, obedecê-lo é
como obedecer a si mesmo. A lei somente é legítima quando expressão da vontade geral e a
autoridade somente é válida quando escolhida pelo povo. Se, na natureza, o limite da liberdade do
homem é sua própria força, na sociedade o limite da liberdade do homem é a liberdade geral,
garantida pela lei.
Eis porque Rousseau é chamado "pai da democracia moderna", muito embora ele tenha afirmado
várias vezes que uma democracia perfeita é impossível em grandes países, os quais sempre terão
traços de aristocracia(a democracia perfeita seria uma democracia direta, na qual a vontade geral
seria perfeitamente realizável): “Quando, pois, se pergunta, de modo absoluto, qual é o melhor
Governo, faz-se uma pergunta tão insolúvel quanto indeterminada ou, em outras palavras, ela tem
tantas boas soluções quantas combinações possíveis há nas posições absolutas e relativas dos
povos” O Contrato Social.

- Educação

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Em sua obra Emílio, Rousseau pensa a educação nessa nova sociedade, e, assim, faz uma defesa que
revolucionou as concepções sobre a humanidade: a natureza humana pode perfeitamente ser
transformada pela educação. Devemos obedecer à vontade geral pelo mesmo motivo que
obedecemos à natureza: porque entendemos sua necessidade.

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