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12/08/2020 Piero Leirner: militares acabarão por criar 'anomia' da qual tanto falam - Revista Opera

Piero Leirner: militares acabarão por criar ‘anomia’ da


qual tanto falam
Para antropólogo, militares buscam espécie de "conversão cultural" de corações e mentes
do povo brasileiro - por Pedro Marin | Revista Opera
Por Pedro Marin - maio 31, 2020

(Foto: Foto: Marcos Corrêa/PR)

Q uando o antropólogo Piero Leirner, sob a insistência de sua


orientadora, Maria Lúcia Montes, decidiu estudar o Exército, o Brasil
vivia seu primeiro governo eleito por voto direto em 21 anos. A ideia
de Leirner era fazer um estudo de campo em pelotões de fronteira na
Amazônia, tema comum do discurso público dos militares nos idos dos anos
90. Acabou parando na Escola de Comando e Estado Maior do Exército
(ECEME) no começo de 1992, onde, diz ele, foi “tratado como uma espécie de
orientando ou estagiário”, posto para ler textos e fazer chamentos, enquanto
se preparava para estudar o que realmente queria. Acabou cando lá por três
anos, sem conseguir o tão desejado acesso aos pelotões de fronteira. “Um dia
pensei ‘caramba, eu estou há anos aqui, indo toda hora para a Escola de
Comando, e isso não é campo?’ Notei que eu tinha feito um campo; que muitas
coisas sobre esse campo eram regidas pelas ideias de hierarquia militar”, diz.
Transformou a experiência em um trabalho de mestrado, segundo estudo
antropológico feito no Brasil sobre o tema, defendido em 1995 e publicado em
1997 pela FGV: “Meia volta volver: um estudo antropológico sobre a hierarquia
militar”.

23 anos depois, num momento em que se diz cansado do Exército, o professor


da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) volta mais uma vez os olhos
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aos militares, dessa vez em um cenário em que retornam ao centro do poder


político, no trabalho “O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida: militares,
operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográ ca”, publicado
pela editora Alameda.. Em entrevista à Revista Opera, Piero Leirner explica
sua pesquisa e a forma como vê a ascensão militar.

***

Revista Opera: Peço que você fale dessa sua nova tese, do porquê decidiu
escrevê-la e porque escolheu essa abordagem, da Guerra Híbrida.

Piero Leirner: É uma tese que z para o cargo de professor titular da


Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que é onde dou aula, onde estou
há 22 anos. Depois do doutorado eu tinha trabalhado um monte de coisas, mas
o tema do Exército tinha me enchido o saco. Tinha me afastado dessa
conversa toda. 

Em 2010 eu fui para a Amazônia, fui para a área dos pelotões de fronteira, e
voltei em 2013 – morei lá durante um semestre, em São Gabriel da Cachoeira
(AM). Mas eu estava mais interessado em etnologia indígena do que nos
militares; queria estudar os índios que estavam servindo lá, no Exército, mas
de novo foi muito difícil, simplesmente o comandante “sumiu”. Então decidi
partir para outra, disse que não queria nunca mais saber desse assunto. Fui
estudar parentesco e hierarquia entre os índios Tukano da região do Alto Rio
Negro.

Mas em 2016, quando começa a história do impeachment e todas aquelas


agitações, a Maria Lúcia começou a demandar que eu passasse a fazer uma
leitura sobre o que estava acontecendo com os militares. E nós entramos em
um grupo de discussão por internet, no blog do Romulus – que tinha acabado
de conhecer quando ele ainda era comentarista do GGN –, e fui puxado de
novo para a discussão sobre os militares. E de fato comecei a suspeitar que
eles estavam mexendo os pauzinhos de uma maneira muito estranha – porque
você deve se lembrar bem, vocês na Opera provavelmente foram os primeiros
a detectar isso, ninguém mais falava que eles iriam agir como atores primários
nesse processo. O que o general [Eduardo] Villas Bôas transmitia o tempo
inteiro é que eles se mantinham absolutamente neutros e distantes de todo o
processo político. Foi aí que eu comecei a olhar um pouco a essa literatura
sobre Guerra Híbrida, mais como uma curiosidade – mas nessa época
começou a cair no meu colo textos em que os próprios militares descreviam o
que eles consideravam ser uma Guerra Híbrida. Tinha alguma noção do que
eles falavam pois por volta de 2008 acabei estudando, em um pós-doutorado,

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justamente manuais de operações psicológicas, contrapropaganda, etc. Isso


porque havia nos EUA um uso institucional de antropólogos nas Forças
Armadas, no Iraque e Afeganistão. E eu comecei a perceber, nesse processo,
que os textos que eles escreviam aqui eram instrumentos de produção de
desinformação, típicos de uma Guerra Híbrida: ou seja, eles estavam
produzindo uma Guerra Híbrida interna.

Então, sobre a Guerra Híbrida, vejo muito mais como conceito nativo do que
como uma realidade concreta e autoexplicativa, entende? Mas o conceito
nativo começa a ser tão usado que passa a fazer sentido por ele próprio,
quando os atores começam a acreditar demais naquilo que eles escrevem. Foi
a partir disso que eu resolvi reunir as coisas que estava pensando de 2016 para
cá e, em junho de 2019, comecei a escrever essa tese; terminei ela em
setembro e defendi em dezembro.

Revista Opera: Na sua tese você cita algo que é um pouco desconhecido, no
geral; essa aproximação que os militares têm mantido, pelo menos desde a
redemocratização, com intelectuais, jornalistas, empresários, etc. Como você
vê esse tipo de aproximação?

Piero Leirner: Logo depois do Plano Collor, eles estavam extremamente


decepcionados com os rumos que o Collor tinha tomado, porque depositavam
uma fé muito grande nele. Isso me era falado o tempo inteiro nessa época – e
eles foram sucateados, era impressionante como às vezes eu pegava carona
em viatura que servia coronel ou até general, e a porta da viatura não tinha
tranca, o soldado ia segurando com o braço para fora. Estavam realmente
muito preocupados e descon ados com os rumos que a democracia estava
tomando, o que casava um pouco com aquelas teorias sobre as ONGs e o
interesse internacional na Amazônia, que estava começando a virar um
protoplasma ideológico e algo doutrinário entre eles. Por que? Porque nesse
momento, com o m da Guerra Fria, falavam claramente que não ganharam
nada no processo de alinhamento com os Estados Unidos, que na verdade
saíram prejudicados, ao contrário do que aconteceu com a Europa depois da
Segunda Guerra. Então pensavam que era necessário procurar um
alinhamento nosso, próprio, autóctone – é daí que veio toda essa mitologia da
Amazônia associada a Guararapes, ao nascimento da nacionalidade, etc.
“Invenção do Exército Brasileiro” é um livro interessante de Celso Castro, no
qual ele mostra como eles criam, a partir de coisas mais ou menos dispersas,
essa história de Guararapes e sua associação à Amazônia.

Bom, nesse ínterim eles identi caram que não havia um projeto nacional;
diziam “somos uma Força Armada procurando a nossa raiz e o nosso norte,

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mas a gente não tem na sociedade o mesmo tipo de movimentação. Então nós
é que temos que fazer isso”. E o que fazem? Tiram da cartola, de novo, a ideia
de que eles são a ossatura da nacionalidade, que vão conduzir o processo de
gestão e formação da Nação. É nesse momento que eles começam a trazer,
para dentro da Escola de Comando, um monte de gente; mas uma coisa meio
sem critério, que ia de José Genoíno a Olavo de Carvalho. Então o que eu acho
que eles estavam fazendo nessa época? Sondando as teorias que se
encaixavam ali, produzindo a cacofonia que nós estamos vendo hoje, uma
coisa absolutamente maluca. Juntar a ideia de soberania na Amazônia com a
entrega da EMBRAER, sei lá eu. Parece algo completamente esquizofrênico – e
é mesmo [risos]. Essa é a minha opinião: eles passaram por um processo de
dissonância cognitiva, é o que acho que aconteceu durante anos ali dentro.

A partir disso eles começaram a armar essa rede, nos anos 90. Mas ela ca
mais sólida quando eles acionam uma reação ao “comunismo” que estava
voltando pro Brasil. Foi isso que galvanizou, a partir dos anos Lula, mas que
aumenta para valer a partir de 2010, com a Dilma, que é quando eles procuram
fazer costuras mais efetivas – sobretudo com empresários, por meios desses
institutos, “Instituto Liberal”, “Mises”, etc., – mas também, sobretudo, botando
lenha na ESG (Escola Superior de Guerra), chamando gente do próprio Estado
lá para dentro. Você olha as listas a partir de 2010 dos frequentadores dos
cursos da ESG e vê um monte de procurador e juiz entrando lá. O que é isso?
De novo a formação daqueles complexos tipo IPES/IBAD (Instituto de
Pesquisas e Estudos Sociais e Instituto Brasileiro de Ação Democrática) no
pré-64. Igualzinho; a mesma coisa.

Revista Opera: Na tese você diz que se por um lado eles fazem esse
movimento para dentro, isto é, esse processo de dissonância, há também um
movimento de “domesticação do mundo de fora a partir do mundo militar”. 

Piero Leirner: Sim, é um pouco do que vi como experiência etnográ ca na


Amazônia. Essa noção, de que eles têm de carregar o País nas costas, no fundo
ela é acompanhada pela noção de que eles são uma espécie de
administradores de uma fazenda que têm como tarefa domesticar animais
selvagens. O que signi ca isso? De certa maneira, trazer todo o campo de
diferenças sociais para uma conversão, uma espécie de digestão e projeção, a
respeito do que eles entendem como sendo parte da realidade. Que é uma
realidade muito monótona (no sentido “narcísico” do termo), não é? Então não
acho que seja um processo de tutela – tutela se faz com uma criança, na tutela
você pressupõe que a criança estará sempre na mesma condição – o que eles
querem é a conversão da população a uma outra forma, acho que há um
projeto “cultural” de transformação da realidade, de corações e mentes

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alteradas. Por isso acho que é um projeto que embute, em seu interior, muito
dessas operações psicológicas. Não é su ciente dizer que é só um interesse
por cargos que faz eles irem nessa direção nos últimos anos.

Revista Opera: Você mencionou essa relação que os militares mantêm com
setores do Judiciário. Cita na tese as relações que mantinham com gente do
TRF-1, TRF-2 e TRF-4 – o que chama atenção. Como você vê agora, com esses
militares do governo, essas relações? Como você vê isso tudo, levando em
consideração a recente saída do Moro do governo?

Piero Leirner: A primeira coisa a se fazer é procurar escapar de uma visão


trivial a respeito da posição deles em relação ao governo e a política. No
processo que podemos recuar desde 2016 para cá, tudo é produzido em um
movimento de pinça; sempre com estruturas mais ou menos duais. Se
fôssemos resumir, eu diria o seguinte: eles usam um para-raios, tocam fogo
em uma situação, e eles mesmos são os bombeiros que vão apagar o fogo que
eles criaram. Em certo sentido o Bolsonaro representa esse papel. Uma coisa é
falar em Bolsonaro, outra em governo – eu diria que ambos são governo, mas
o governo em si é algo meio dualista.

Leia também – Bolsonaro e os militares: não há saída institucional para um governo da força

O que eu vejo, por exemplo, em situações como a saída do Santos Cruz, que
virou esse personagem imaculado que a imprensa toda mima. Creio que a
saída do Santos Cruz, que pareceu ser uma saída por conta de con itos com o
governo, é uma válvula de escape do próprio governo – não que ele não tenha
saído do governo, mas o governo, lato sensu, botou ele em uma posição de
oposição controlada, compreende? Porque agora ele assume uma voz na
oposição, de sensatez – sei lá como poderíamos chamar isso – mas não deixa
de ser operado pelos mesmos agentes que era antes; os militares. É a válvula
de escape dos militares operando como se fosse oposição, mas não é. Eles
controlam ambas as posições. 

E eu acho que, em certa medida, o Moro entra nessa chave. Eles sempre vão
estar batendo com um porrete e amansando com a outra mão. Interessa para
eles uma posição que é de confronto, sempre, entre o Bolsonaro e uma outra
posição, e eles aparecem como mediadores mais ou menos equidistantes
disso. Não sei ainda qual vai ser o desfecho da questão da Polícia Federal, mas
me parece que será exatamente essa posição: não vão nem pegar o Moro, nem
o Bolsonaro, e vão pegar os dois ao mesmo tempo. Esse é meu palpite. Quer
dizer, deve se repetir a mesma forma de Santos Cruz; Moro passa para uma

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“oposição” – bem entre aspas. [A entrevista foi realizada no dia 13 de maio,


portanto antes de ser revelado o vídeo da reunião ministerial de Bolsonaro].

Então eu acho que, primeiro, todas essas manifestações do Bolsonaro são


provocadas, não são acidentais, estão dentro de um esquema que foi pensado
– não precisa fazer muito plano para elaborar, basta bater nas costas do sujeito
e dizer “vai lá, Jair, vai na manifestação e faça o que você faria normalmente”.
A provocação para criar um dualismo com o Judiciário é evidente, mas ao
mesmo tempo o Judiciário é refém deles faz tempo. Quem está lá? O general
Ajax [Porto Pinheiro]. Olhe o vídeo do general Ajax a quinze dias das eleições.
Todas as teses que estão no “Carta no Coturno” estão lá, todas, pode conferir.
De que os comunistas estão prestes a transformar o Brasil na Venezuela, que o
PT quer mexer dentro da sua casa, com seus valores, toda aquela paranoia.
Quinze dias depois ele estava no STF, dizendo o que pode e o que não pode.

Então eu acho que o STF entrou agora nessa chave que eles estão produzindo:
o STF estica a corda de um lado, o Bolsonaro estica do outro, e os militares vão
aparecer como solução de ordem para algo que parece cada vez mais caótico.
Porque vai chegar um ponto em que a tese que eles estão pondo, de que o
Brasil está para entrar em uma situação de anomia, vai acontecer. Mas é uma
anomia que foi provocada por eles mesmos. E aí eles vêm e se oferecem,
“somos a solução para isso”. Você junta isso com um cenário de pandemia.

Veja bem se essa “sinergia” que eles falavam ter com o TRF-4, se acabou. Outro
dia mesmo eu vi, Heleno passou a tarde tomando chá com duas
desembargadoras – isso estava na agenda dele. Continuam distribuindo
medalhas a torto e a direito para procuradores e juízes. Então como é essa
história? Não brigou de fato com o Judiciário. Pelo contrário. Estão causando a
cismogênese dentro dele, é isso que está acontecendo.

Revista Opera: Na tese você identi ca um ponto-chave, entre 2013-2014, e diz


perceber uma certa euforia dentro do Exército, com o ciais perdendo a calma
sobre a Comissão Nacional da Verdade (CNV), a partir de 2011. Como você vê
essa aparente virada, mobilizando o velho tema do anticomunismo e a
Comissão Nacional da Verdade?

Piero Leirner: A virada foi um pouco antes. O que aconteceu na verdade foi
que, no último ano do governo Lula, em 2010, a Casa Civil – cuja ministra era a
Dilma – começou a esboçar a Comissão da Verdade. E o que acontece nessa
época? Começa a ter um zum-zum-zum de militares, e temos também o
primeiro militar da ativa que sai para falar a questão da Comissão da Verdade.
Quem é esse camarada aí? É o general Maynard Santa Rosa, que estava no

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governo até pouco. O general Maynard foi exonerado da função em que estava
em 2010, foi jogado para escanteio – já houve aí uma pequena reação,
entende? Eles caram incomodados com a Dilma. Quando ela se torna o
projeto do Lula para a continuação do Partido dos Trabalhadores no governo,
esses caras cam de cabelo em pé. Essa história já tinha se espalhado.

E aí ela se elege em 2010 e, no nal de 2011, o cializa a CNV. Já começa a


tensão entre a CNV e os militares porque, entre outras coisas, um monte de
o ciais da ativa, especialmente do Exército, eram parentes de militares que
tiveram participação na ditadura. Se não era algo que atingia a pessoa física
deles, no mínimo atingia a “pessoa familiar”, vamos dizer. E dentro desse
conceito de família militar que eles têm, que é algo complicadíssimo.

Seja como for, isso vai pegando, e quem vai se manifestando são os de sempre
– sempre ao redor do Clube Militar. E aí há de considerar outro processo, que
são aqueles grupos que tinham cado de escanteio logo na abertura, que
tinham passado por um processo de “limpeza” produzido pelo Geisel, que
pegou todo o porão da máquina de repressão e informação e jogou para fora
da hierarquia – nenhum deles subiu para general, Brilhante Ustra, etc. Muitas
dessas pessoas caram nesses grupelhos, associações “civis” – TERNUMA,
Incon dência, Guararapes. Cada vez que acontecia de um militar entrar em
atrito com a política, ele corria para esses grupos. Quando houve aquela briga
do general Heleno com o Lula em 2008, por causa da Raposa Serra do Sol –
que é uma briga prototípica, digamos, quase um arquétipo – Heleno correu
para o TERNUMA. E esses grupos todos orbitando o Clube Militar, desde
sempre, que passa a ser uma espécie de válvula de escape, um lugar onde se
começa a expressar uma contrariedade em relação à Comissão Nacional da
Verdade, e eles lançam um manifesto, acho que no início de 2012.

A Dilma fala para o Celso Amorim, ministro da Defesa na época, que tire esse
manifesto do Clube, o Amorim ordena ao general Enzo Martins Peri fazer isso,
e o general passa um pito no Clube Militar, que é uma associação da reserva,
entende? Eles refazem o manifesto, agora com a indignação de terem sido
“calados” por uma ordem “autoritária” – percebe como começa a inversão do
jogo? – e hospedam um novo manifesto na página da internet do Ustra, “A
Verdade Sufocada”. Esse movimento do porão da ditadura sempre existiu, mas
era marginal – Ustra, coisas que o Olavo de Carvalho escrevia. Eles até podiam
ter uma entrada dentro dos militares, mas não era algo assumido. São 800
coronéis que assinaram esse manifesto, não sei quantos generais, da reserva,
da ativa, de tudo que é lugar. Aí você percebe que, bom, a guerra estava
declarada.

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Mas não foi só isso. Foi uma série de preocupações que eles estavam nutrindo.
Por que? Somava-se isso a coisa das ONGs, da Amazônia, da “dissolução da
família, dos valores”, por coisa de gays, etc. Aí vão começando a fabricar uma
meleca, é assim que começam a ativar uma teoria interna, que parece ser algo
que compram, mas na verdade fazem um rearranjo dela para os próprios
propósitos, que é essa ideia da Guerra Híbrida. De que na verdade o centro
emissor da Guerra Híbrida no Brasil eram o PT e o Governo Federal. Não é
doido um negócio desses? Uma Guerra Híbrida produzida pelo núcleo do
poder de um Estado? Mas é o que eles diziam: que o objetivo nal do PT era
dividir o País e aniquilar as Forças Armadas. E é isso o que eles pensam até
hoje.

Revista Opera: Isso tem muitas semelhanças com certas leituras que eles
faziam na década de 90 em relação a 1964. E é algo na verdade até anterior,
porque na década de 50 eles falavam disso, usavam um termo engraçado pra
quem seria pró-Getúlio, que era “Gregórios”, em referência ao Gregório
Fortunato, chefe da guarda do Getúlio. Em 1964, há uma continuação, esses
“Gregórios” agora chegam ao poder com João Goulart, e eles querem
“comunizar o Brasil”, etc. Você vê essas semelhanças?

Piero Leirner: Sempre fazendo microatualizações, mas a coisa vem sempre


em uma linha de continuidade. Em 1935, por exemplo, a Intentona Comunista
vira uma espécie de “mito de origem” na cabeça deles. Em 1961 eles começam
a falar de Guerra Revolucionária, e conseguem plasmar o anticomunismo
nessa história. Aí vem 1964, depois a coisa esfria – mas a Amazônia está ali,
entendeu? Ressuscitam a questão, mas invertendo o sinal: dizendo que o
Exército teria que agir como uma resistência colonial contra os interesses das
grandes potências. E o que fazem a partir de 2010? Começam a inventar a
ideia de que o comunismo internacional estaria plasmado com o globalismo,
que é um pouco essa ideia do Olavo de Carvalho. Então a resistência teria que
ser contra esse comunismo que estaria embutido, “invisível”, eles gostam de
dizer “homiziado” – têm uns termos assim – no interior da ideologia
globalista, mas com os propósitos de fazer um “comunismo 2.0” vingar aqui
no Brasil.

Então eles vêem a Dilma, o aspecto direto, e o aspecto indireto na ideia de que
ela estaria disposta a vender o Brasil para a China. O que eles tiram do chapéu,
para dar conta dessa realidade? A história da Guerra Híbrida. Pegam os
paladinos das Forças Especiais, como o general Álvaro Pinheiro, que foi na
Comissão da Verdade, porque participou no Araguaia, e que é alguém que
estava introduzindo essa ideia sobre a Guerra Híbrida. Como eles lêem a
Guerra Híbrida? Pensam como algo que gera a dissolução entre as fronteiras

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da guerra e da política, e que dilui militares e civis, galvanizando terrorismo,


organizações criminosas e interesses anti-nacionais globalistas. Vira tudo uma
coisa só, e eles começam a dizer que há uma suposta associação entre PT,
FARC, Hezbollah e PCC, como um “grande projeto” de transformação do Brasil
em uma espécie de Colômbia sob domínio chinês, onde as oligarquias
instituiriam um comunismo chinês 2.0. Então tem essa história toda que
começa a ganhar corpo. Um comunismo difuso, ressuscitando várias teorias, e
agora pondo esse verniz novo da Guerra Híbrida, como se adicionassem um
personagem numa historinha, para dar consistência a ela. Quando cruza a
ideia de que o PT seria uma organização criminosa, é tudo que eles
precisavam, porque casa com a teoria que eles estavam lendo a partir de
Washington.

Revista Opera: Sobre esse cenário caótico, de vários acontecimentos que por
vezes sequer conseguimos recompor, uma coisa que me chamou atenção na
sua tese é que você menciona como o general Heleno diz que ao longo da
carreira ele consolidou uma “longa experiência” trabalhando com a imprensa,
foi até consultor de um grupo, parece. Isso é interessante porque aquela briga
com o Congresso, que começou pouco antes da chegada da pandemia, foi
justamente por causa de um “vazamento” de uma conversa em que ele dizia
que o Congresso estava chantageando o governo. A senha para esse con ito
entre governo e Congresso, que agora chega até o STF, foi dada por ele.

Piero Leirner: Claro. E ele soube o momento certo de recuar e parar de


aparecer. Antes o que ele estava fazendo? Assumiu o protagonismo, estava
sempre à direita do Bolsonaro, sentado, dando a palavra nal. Quando a corda
começou a esticar para valer, ele recuou. Botam o Braga Netto em uma
chamada posição de “presidente operacional”, e o Bolsonaro começa a elevar o
grau de tensão dos raios que caem na própria cabeça. É impressionante o jogo
do Heleno. Há uma entrevista para estudantes de jornalismo em que ele diz
que “tomou muito gosto por esse negócio de comunicação”.

Agora, a bomba mesmo eu vi recentemente, algo que eu nunca tinha me dado


conta. O discurso de saída do general Rego Barros para assumir como porta-
voz da Presidência da República, em fevereiro de 2019. A frase é simplesmente
inacreditável: “Coube ao Exército mergulhar de cabeça no submundo das
mídias sociais – Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp, portal responsivo, e-
blog, etc., e se tornar o órgão público com maior in uência no mundo digital
no Brasil. Exigiu sangue frio e interlocução sem rosto, típica da internet […]”.
Literalmente dizendo que o Exército foi para o submundo do Whatsapp. Esse
negócio do “gabinete do ódio” é uma lorota. Botam o Bolsonaro e os lhos
como os bois-de-piranha. Para mim cou claríssimo que esse problema todo,

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que está no STF agora por conta das fake news do Whatsapp, em que o
Bolsonaro aparece querendo proteger os lhos, no fundo interessa a quem?
Interessa ao Exército. Porque os camu a de terem feito uma operação nessa
coisa do Whatsapp. Está claro no discurso do Rego Barros, é impressionante.

Revista Opera: A despeito das diferenças pessoais que cada militar tem em
relação a outro militar, eles têm uma noção de espírito de corpo que é bastante
diferente do que vemos em partidos, por exemplo. Me pergunto se para eles é
necessário realmente que conquistem a presidência, porque não precisam
disso em última instância para operacionalizar a política. Como você vê as
demissões de militares, que muitos argumentam ser uma derrota deles? E
precisamos de fato ter o Mourão como presidente para ter um “governo
militar”?

Piero Leirner: Primeiro as demissões: como disse sobre Santos Cruz, eles têm
um mecanismo de válvula de escape, que já está um pouco pré-programado;
com ou sem os demitidos terem ciência disso. Eu não sei por exemplo se o
Santos Cruz é esse gênio todo, como dizem, para saber que ele estava indo em
direção a uma fogueira que já estava armada. Aos poucos eles vão enxotando
alguns militares e colocando outros em posições-chave – como se estivessem
na oposição, para acentuar a ideia de que têm um aspecto técnico e neutro.
Essas pessoas viram uma oposição controlada e potencial, para o futuro – sabe
Deus se em 2022 ou o quê. Esse é o primeiro ponto: Moro e Santos Cruz são
quase duas faces da mesma moeda.

E aí lucram nessa operação, jogando no colo do Bolsonaro e na família dele a


ideia de que são completamente irascíveis, de que a loucura parte deles, que
há um problema de personalidade, de que é tudo re exo de uma chamada “ala
ideológica” que é incontrolável e irracional, enquanto, por contraste, os
militares são iluminados como salvadores da Pátria.

O que engata na segunda pergunta: agora estão em uma posição em que não
aparecem como os emissores do caos, mas como a solução de ordem – como
se eles não estivessem lá. E para isso eles têm de ocupar todas as posições do
cenário.

Qual é o plano, então? Se eu fosse pensar em uma metáfora, que é aquela com
a qual eu nalizo a tese, é que se isso fosse um sistema de computação, eles
farão uma espécie de reinicialização, em que o computador é reiniciado em
modo de segurança, são os administradores, que dizem o que pode e o que não
pode operar no sistema. Não é todo programa que está instalado que vai rodar,
entende? Primeiro a tomada do aparelho do Estado – aparelhar o Estado o

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máximo possível, isso eles já estão fazendo. Segundo, o processo – que é mais
complicado – de “conversão ideológica” das pessoas. Algo mais complexo, mas
considerando que eles tentam se colocar como elementos de mediação, de
meio-termo, de bom senso, sensatos, nós vamos ver crescentemente eles
aparecendo como “meio” entre dois polos radicais. Não é à toa que há quem
esteja nesse esforço desesperado em dizer que Bolsonaro e Lula são a mesma
coisa, para sugerir que o Brasil tem de “sair dos extremos” e eles se colocarem
como força de coesão ideológica.

Então eu acho que é isso: primeiro um processo de aparelhamento de fato e


depois vão para uma solução cultural de estilo “gramsciana” (falo
ironicamente). Acho então que, a princípio, era melhor para eles manter o
Bolsonaro até o m do mandato, porque esse edifício continua todo de pé.
Agora, é óbvio que em um campo cheio de incertezas, como a gente está,
talvez não dê para segurar ele. As pessoas me perguntam: “Ele vai cair? Vai ter
golpe?” – essa é a pergunta mais absurda, se vai ter golpe. Eu sempre falo:
“Amigo, você acha que aconteceu o que? Recua aí na tua cabeça e se pergunte
se teve!”. Então tendo a achar, sim, que o melhor seria manter a solução como
está – mas concordo com você, meio que tanto faz. O ponto para eles é
controlar o processo todo, como administradores do sistema; quem entra e
quem sai. Aí, de fato, a posição de presidente é a que menos conta.

Revista Opera: Um outro ponto abordado na tese é a posição que o general


Etchegoyen manteve dentro do governo Temer. Porque quando o Temer entra,
ele reergue o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e o Etchegoyen ca
responsável por isso. No meio de uma crise gerada por aquela gravação do
Joesley, algo que no mínimo seria um descuido do GSI, é justamente
Etchegoyen quem sai como homem forte e, até certo ponto, mantém o governo
em pé.

Piero Leirner: Sim. Isso em 2017, até que eles arrematam isso em 2018 com a
intervenção no Rio. Aí não sobra nada em pé, porque neutralizam
completamente o governo Temer, e toda possibilidade do PSDB, por exemplo,
conduzir uma transição para uma eleição em que eles estariam capitalizados.
Porque durante a intervenção não tem mais Congresso para fazer votação de
Reforma da Previdência, e esse era o grande ativo. Essa enorme psy-op
(operação psicológica) no Rio de Janeiro serve para eles irem testando a ideia
de intervenção militar como solução. Isso já está colocado no inconsciente das
pessoas. E não é à toa que o Braga Netto, que era interventor, esteja hoje na
posição que está. Interessantíssimo também o discurso de despedida do cargo
do Villas Bôas, algo que não tinha me dado conta, onde ele diz que o Brasil tem
três heróis nacionais: Bolsonaro, que tinha permitido nos livrarmos do

https://revistaopera.com.br/2020/05/31/piero-leirner-militares-acabarao-por-criar-anomia-da-qual-tanto-falam/ 11/13
12/08/2020 Piero Leirner: militares acabarão por criar 'anomia' da qual tanto falam - Revista Opera

comunismo, o Moro, que estava limpando a corrupção, e o Braga Netto – que


ele deixa suspenso no ar. Ninguém deu bola para isso, quando ele falou isso o
Braga Netto não era ainda o chamado “presidente operacional” do Brasil
[risos]. Isso sugere que foi parte da armação, realmente começaram a
construir isso, viram a janela de oportunidade para valer com o Temer
assumindo.

Revista Opera: Como você avalia a postura dos últimos governos petistas em
relação aos militares? Porque vendo o processo histórico a partir de 2016, ca
evidente que o PT manteve, durante todo o tempo, uma postura quase que de
anestesia em relação aos militares, como se eles não pudessem mais aparecer
como atores na política. E mesmo quando apareciam – por exemplo com os
tuítes do Villas Bôas, ou com a movimentação sobre a Comissão da Verdade –
parece que ninguém levava isso a sério, o governo não levou a sério.

Piero Leirner: Você usou a palavra certa: é anestesia. Se blindaram para olhar
o mundo, não viram um monte de coisas. Mas com os militares é talvez a
postura mais absurda de todas; porque eles acharam, de fato, que poderiam
prescindir deles. E talvez o que tenha acontecido tenha sido um processo
narcísico tão absurdo, por conta de um governo que estava dando certo, que
eles não perceberam que o tapete estava sendo puxado debaixo. Uma coisa é
dizer: “Mas o Lula ouvia o conselho dos generais”. Mas ele tinha um serviço de
informações decente? Ele tinha gente que falava o que estava se passando de A
a Z? Tinha preocupação em ver o que estava sendo ensinado dentro das
academias militares? Tinha preocupação em participar dos eventos militares,
que é algo que para eles é dar doce para criança? Os militares diziam isso, em
2013, 2014: falavam de eventos em que os cadetes caram horas esperando
debaixo do sol esperando alguém do governo chegar… Isso ia criando um ódio
dentro deles. E eles começaram a sabotar. E então veio a Lava-Jato, o pessoal
abrindo a porteira para a espionagem norte-americana. Furaram o que já era
uma peneira, não é? E isso culminou com a Dilma querendo peitar eles;
extinguindo o GSI, etc. E aí veio aquele grampo – que eu acho que era
ambiental, não era no telefone do Lula, porque se ouve tudo o que estava se
passando no gabinete antes do Lula atender a ligação – um absurdo, a
imprensa obliterou isso, e não vi sequer o PT fazendo o escândalo que
merecia. É a mesma história do Joesley; o GSI permitiu esse furo, que acabou
com o governo do Temer. Então eu não sei, creio que foi de uma
irresponsabilidade completa. Não leram Maquiavel: é preciso ter boas leis e
boas armas. Fizeram leis terríveis e não deram bola nenhuma para as armas.
Sobrou o que sobrou. Se eu acho que tem alguma coisa nesse sentido, de que é
necessário a eles tirar os esqueletos do armário e fazer a autocrítica, é essa:
“não prestamos atenção nos setores essenciais”. Vai além, mas aí é só ir
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12/08/2020 Piero Leirner: militares acabarão por criar 'anomia' da qual tanto falam - Revista Opera

tirando uma carta de cima da outra. Deixaram uma juristocracia


condescendente tomar conta do partido, se estabelecendo como hegemônica,
e ao mesmo tempo não prestaram atenção na questão mais essencial que
poderia segurar o governo, como segurou o governo Temer até o m. Por que
Temer não caiu? Porque eles não deixaram. Só por isso. E foi assim que se
instalaram no Planalto.

Pedro Marin
24 anos, é editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela
mesma publicação, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global
Independent Analytics. É autor de "Golpe é Guerra - Teses para enterrar 2016" e co-autor de
"Carta no Coturno - A volta do Partido Fardado no Brasil.

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