Você está na página 1de 5

Resenha da obra “Cristo, Maria, a Igreja e os povos: a mariologia

do Papa Francisco”, de Carlo María Galli1

Walisson de Souza Soares


RA00213106 – 3TEO, Matutino – Ipiranga

O livro de Galli se inscreve num conjunto de obras (coleção) que


pretendem colocar à luz o pano de fundo teológico do ministério pastoral do
Papa Francisco. No caso do presente volume, sua mariologia. Entenda-se pelo
título da obra que este tradado é compreendido em relação com outros dois: a
Cristologia e a Eclesiologia.

De saída, afirmamos o privilegiado Sitz im Leben do autor: argentino,


conhecedor da realidade e do ministério pastoral de Francisco antes de
assumir o papado; como teólogo-perito, o acompanhou de perto em Aparecida
(2007), e sabe muito bem quanto há de Francisco naquele documento e quanto
ele é determinante em sua missão à frente da barca de Pedro.

A obra é dividida em cinco partes:

a) “Da piedade mariana à mariologia”, na qual se aborda a passagem


que se dá em Francisco da piedade mariana à mariologia por meio do sensus
fidei fidelium;

b) “Uma novidade do pontificado de Francisco” trata dos aportes de


Francisco para o papado: sua marca latino-americana de ser Igreja, nossa
espiritualidade mariana e o projeto de Aparecida;

c) “Jesus Cristo e Maria” estabelece a relação vital que há entre


Cristologia e Mariologia;

d) “Maria e o povo de Deus” faz ver a correlação existente entre o


mistério de Maria e aquele da Igreja ou entre Mariologia e Eclesiologia;

e) “Maria e os povos do mundo” quer mostrar a presença misericordiosa


de Maria na história do Povo santo peregrino.

1
GALLI, C. M. Cristo, Maria, a Igreja e os povos: a mariologia do Papa Francisco. Brasília: Edições
CNBB, 2018 (Coleção A Teologia do Papa Francisco, v. 5).
A seguir oferecemos uma síntese de cada capítulo.

a) o primeiro capítulo começa por mostrar como a mariologia de


Francisco brota não de uma especulação ou de uma elaboração teológica, mas
de uma experiência viva de fé e piedade no seio no Povo de Deus - ele vive
sua piedade em sintonia com seu povo. Seus gestos (oração, beijo, abraço)
para com a Virgem tornam evidente seu amor por ela. É sugestivo que no dia
seguinte à sua primeira aparição pública logo ele tenha ido como peregrino à
Basílica de Santa Maria Maior. Enquanto arcebispo de Buenos Aires pregava
sobre a Virgem na peregrinação a Luján; como bom latino-americano, se sente
abrigado sobre a proteção da Morenita do Tepeyac; na quinta conferência,
sentiu a força da piedade mariana do povo brasileiro.

Francisco dá grande valor à piedade popular, que é o ambiente vital da


devoção mariana de nosso povo. Ele sabe que ela é expressão da fé que lança
raízes em nossa cultura. Ela é a memória viva da experiência de Deus. A
piedade popular dá testemunho da fé viva da Igreja em Maria. Se trata de uma
fé simples, mas que não erra, porque brota da ação do Espírito (afirmação
[cara ao Papa] da infalibilidade in credendo do Povo de Deus). Por isso, na EG
afirma o potencial evangelizador da piedade popular como fruto do evangelho
inculturado e obra do Espírito. Como tal, tem muito a nos ensinar, é um
verdadeiro lugar teológico.

Numa bela expressão o Papa diz que “se se quer saber quem é Maria,
pede-se aos teólogos; se se quer saber como amá-la, precisa perguntar ao
povo”. Numa palavra, no seio do povo simples, em sua piedade feita de gestos
e atitudes, encontramos viva a fé da Igreja em Maria, obra do Espírito,
Evangelho vivo. Tal é a autenticidade dessa experiência que se constitui como
ponto de partida para a reflexão de fé.

b) o papado de Francisco comportou muitas novidades na Igreja.


Experimentamos a plena cidadania de aspectos novos de sua universalidade.
O nome é um deles, é um projeto, no qual os pobres, a paz e a criação estão
no centro. Francisco é o primeiro papa latino-americano. Com ele “a Igreja da
América Latina leva a cumprimento o seu ingresso na história mundial”. É a
hora do protagonismo das “periferias”, do toque latino-americano no rosto da
Igreja (“a cultura afetiva, simbólica, gestual e festiva”).

Lugar importantíssimo no catolicismo de nosso continente, “ao lado do


Deus sofredor”, ocupa a Mãe de Deus, nas suas múltiplas devoções
(Guadalupe, Aparecida, Luján...). Através da ternura de seu rosto nossos povos
experimentam a ternura e o amor de Deus. Em Maria veem refletido o
essencial do Evangelho. Isso se manifesta de modo especial através das
muitas peregrinações aos santuários marianos, nas quais a meta é colocar-se
sobre o olhar da Virgem terna, deixando-se tocar e aprender pelo estilo simples
e potente do agir de Deus.

A respeito desse tema, a Igreja latino-americana mostrou consciência


amadurecida na Conferência de Aparecida, na qual Francisco ocupou
importante papel. Maria foi vista a partir da fé do povo simples e no meio dele.
Seu itinerário de fé é caminho privilegiado para conduzir ao Filho.

c) na vida da Igreja nunca se deve esquecer a prioridade da graça. É


sempre Deus que toma a iniciativa, é ele que nos ama primeiro. Seu desígnio
de amor se realiza pela missão do Filho e na obra do Espírito. Maria é
instrumento livre dessa economia. Daí que Maria esteja intimamente
relacionada ao Filho e em último caso com toda a Trindade.

A vida de Maria, suas alegrias e dores, está diretamente vinculada com


Jesus. É convidada pelo anjo à alegria pelo que está prestes a se realizar nela;
grávida de Jesus, sua presença é motivo de exultação; é a bem-aventurada.
Em tudo, porém, conserva a humildade da serva, que só sabe cantar a
grandeza de Deus. Para nós ela é, como mãe, “a perfeita discípula e pedagoga
da evangelização, que nos ensina a ser filhos em seu Filho e a fazer o que ele
disser”. Como diz Aparecida (n. 266), Maria é “a máxima realização da
existência cristã como um viver trinitário de ‘filhos no Filho’”.

Em sua condição de Serva humilde, Mãe do Redentor, Virgem fecunda,


Maria é sinal emblemático da misericórdia de Deus, que ela mesma
experimentou, que a Igreja experimenta nela e junto com ela. A Mater Dei é
também Mater misericordia.
d) é muito cara a Francisco a imagem da Igreja como “santo povo fiel de
Deus” peregrino na história, com suas alegrias e dores. Este povo encarnado
em cada cultura, experimenta de diversos modos o dom de Deus. Por meio
dele se realiza a universalidade da Igreja. Todo ele é incumbido de anunciar o
evangelho. Dentro desse povo Maria é membro eminente, é sua feição
feminina. Ela é, como a Igreja, Virgem e Mãe. Mãe de coração aberto, que vai
ao encontro. Tal é o vínculo entre Maria e a Igreja que se pode dizer que a
“Igreja é mariana e Maria é ícone do mistério eclesial”.

Maria é modelo/tipo da Igreja (Mãe, Virgem fecunda), sua mais perfeita


realização (em Maria glorificado junto à Trindade, a Igreja já contempla aquilo a
que está ordenada), “artífice de comunhão” (ela, com sua ternura e cuidado,
atrai multidões a Cristo e à Igreja) e sua companheira de peregrinação (a ela o
Povo de Deus recorre em busca de refúgio e proteção, àquela que é a porta do
céu aberta, por onde passa a graça de Deus, àquela que socorre os filhos
caídos).

e) é bem sabido a importância dada por Francisco aos pobres. Em sua


programática EG expressou o “desejo de uma Igreja pobre para os pobres” (n.
198). E é bem isso que sua solicitude pastoral tem mostrado desde então.
Preocupação com os imigrantes, com a população indígena, com os presos,
com os sem-teto... realidade não indiferente a Maria.

No seu canto contemplamos a alegria dos pobres que veem chegar a


salvação de Deus, que sabem ler a história com os olhos de Deus, de um Deus
apaixonados pelos pequenos. Ela é a Mãe dos pobres e abandonados, modelo
de humildade, de ternura e alento na busca por justiça. Com ela aprendemos
que a humildade é a virtude dos fortes, que se recusam a maltratar os outros
para se sentirem importante (EG, n. 288).

Por fim, no rosto de Maria, através de sua ternura materna, somos


alcançados pela misericórdia de Deus. Na Igreja ela é “a dimensão
misericordiosa da maternidade”. Na América Latina, desde o Cerro do Tepeyac
e das margens do Parnaíba, “ela recolhe, protege e cuida de todos os seus
filhos, em todas as suas necessidades, nas feridas e nas angústias”.
Ao terminar essa resenha, concluímos que a força dessa pequena obra
está em captar a mariologia a partir da vida de fé do Povo de Deus (a partir de
sua piedade), do qual o Papa é Pastor, mas igualmente membro. Como tal,
expressa sua ternura mais por atitudes e gestos do que por palavras. Sua
piedade mariana amadurecida na Igreja latino-americana é uma das marcas de
seu papado. Na ternura de Maria vemos refletida a misericórdia de Deus, nela,
a Mãe dos pobres e socorro dos aflitos. Outra riqueza da obra está em mostrar,
se restasse dúvida, a continuidade na reflexão e magistério mariano dos
últimos pontífices, cada um com sua riqueza própria.

Você também pode gostar