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Um estudo de caso sobre as narrativas de websites de História sobre o

Regime Militar Brasileiro

Brayan Lee Thompson Ávila

O presente artigo pretende analisar a forma em que 7 websites de história


explicam o Regime Militar Brasileiro, isto é, como esses blogs elaboram as
narrativas históricas sobre esse período, tendo como ponto de partida a
concepção que todo conhecimento se origina a partir de conhecimentos prévios
e que devemos ter essa informação em conta se queremos produzir
conhecimento (BARCA, 2000), entendendo que esses websites são uma parte
fundamental da formação das narrativas dos alunos. Porém, partindo da teoria
de mediação de Martin-Barbeiro, entendemos que o presente estudo não é um
estudo pronto, faltando um estudo de como se dá a recepção em sala de aula
por professores e alunos das narrativas desses Websites. A análise das
narrativas dos websites de história pautou-se, pela análise dos textos a partir
de duas metodologias que se complementam, as tipologias de narrativas de
PROST (1996), e de RÜSEN (2012) , dialogando com as concepções de
Memória de HALBAWACHS (2004) e MARTINS (2011), visando entender os
conflitos de memórias presentes nas narrativas sobre o Regime Militar
Brasileiro.

1. A Internet como Fonte para a pesquisa das Narrativas Históricas.

Na primeira metade do século XX, com o aparecimento da Nova História na


França, ocorreu uma diversificação no conceito de fonte histórica, bem como
uma dinamização no objeto de estudo do pesquisador. Nesta perspectiva,
tornou-se viável estudar aspectos que até então não eram mencionados nas
academias, ampliou-se à visão dos agentes elaboradores da história, deixou-se
um tanto de lado a noção tradicional da narrativa histórica para buscar uma
história problema. Entretanto, com as mudanças tecnológicas nos últimos 15
anos, e o surgimento da Internet, e consequentemente, da Cibercultura,
acabou criando um problema aos historiadores: o caráter perecível dos
conteúdos na Internet, pois devido ao caráter veloz da Internet, narrativas como
estas que são o objeto de estudo deste artigo podem ser apagadas com muita
facilidade.

A historiadora Márcia Elisa Teté Ramos, em seu estudo sobre o pensamento


dos jovens em comunidades virtuais sobre a História e seu Ensino vai
argumentar que mesmo sendo perecíveis, os blogs, os chats ou as comunnity
websites podem ser consideradas como fonte histórica. E argumenta que como
são fontes relativamente recentes, tem sido pouco utilizadas para a pesquisa
histórica ou mesmo cogitadas como fonte de pesquisa histórica, mesmo porque
podem trazem a marca do presente, ou melhor, do instantâneo, e que essas
fontes têm a capacidade de expressar a cultura da contemporaneidade, pois
reflete quem são e o que pensam os sujeitos que protagonizam o século XXI.

Por outro lado, a Internet é tão múltipla que acaba criando um problema para o
historiador, pois existem múltiplas tipologias de fontes e perspectivas acerca da
História dentro da própria Internet que podem ser alvos de estudos pelos
historiadores, o que pode levar o risco de afogamento em meio a estes
múltiplos pontos de vista no mar de informações em que se lançam as redes de
links da Internet (LUCCHESI, 2012).

Mas o que justifica a pesquisa de Websites para entender como ocorre o


Ensino e Aprendizagem de História nos primeiros e terceiros anos do Ensino
Médio? Uma das possíveis respostas para esta questão seria a ampla
utilização da Internet por esses alunos, segundo dados da Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios do ano de 2011 realizado pelo IBGE, 40% das
pessoas entre 15 a 19 anos possuem acesso ou acessaram a internet nos três
meses anteriores ao período pesquisado, Apesar de não ser a maioria dos
jovens dessa faixa, constitui-se cada vez mais como um aspecto que faz parte
da vida dos jovens como observado por Henrique Bueno Bresciani e Felipe
Nunes Pastorello em sua pesquisa com os jovens do 1° ano do Colégio
Aplicação no ano de 2012, onde constatou-se que 78% do grupo pesquisado
utilizava a Internet de cinco a sete dias por semana. Além disso, a concepção
de Bresciani e Pastorello com a Internet como um aspecto anti-hegemônico vai
de encontro da perspectiva de Rüsen de história como possuidora de uma
função orientadora para a vida:
Assim, justificamos a pertinência de se pensar a Internet para o
ensino de História justamente por seu aspecto antihegemônico.
Mesmo que levemos em conta as desigualdades, não podemos
esquecer que a Internet possibilita uma infinidade de ações que
podem questionar os próprios poderes e instituições
estabelecidos. (BRESCIANI e PASTORELLO, 2013, p.25).

Portanto não podemos ignorar que a Internet possui um papel importante de


formação prévia das ideias dos alunos e também no campo do Ensino e
Aprendizagem de História, não só somente na questão do Regime Militar mas
também em todos os outros conteúdos e conceitos relacionados a História, e
também como esses jovens constroem sua ideia de história, retomando aqui o
objeto da pesquisa da Professora Márcia Elisa Teté Ramos sobre os jovens e
as comunidades de história do Orkut, entretanto temos que ter tem mente que
esse tipo de fonte tem alguns problemas principalmente pela sua multiplicidade
de fontes, que se não tiver um recorte feito, pode levar ao “afogamento” dito
por Lucchesi, no caso deste presente trabalho, o recorte feito são websites de
história que possuem uma narrativa explicativa sobre o Regime Militar
Brasileiro.

2. O conceito de Narrativa Histórica.

A escolha da narrativa histórica como conceito fundamental neste presente


artigo parte do entendimento que é nas narrativas que se constroem as ideias
históricas, aqui refletindo o papel do historiador ligado a área de Ensino de
História que é trabalhar, historicizar e entender como ocorre a construção das
ideias desses alunos visando o fim que suas pesquisas subsidiem o trabalho
dos professores em sala de aula, aqui entendendo-se o processo de ensino e
aprendizagem em história como um processo mediado, onde o professor
considera os conhecimentos prévios (aqueles que os alunos trazem de fora da
escola) dos alunos como o centro do processo de ensino de História.

Mas o que é narrar? E o que seria uma narrativa histórica?

Dentre os vários conceitos de narrativa e de narrativa histórica, optamos por


utilizar o de Jorn Rüsen na obra Aprendizagem Histórica: Fundamentos e
Paradigmas onde o autor diz que o ato de narrar é uma conquista vital, sendo
uma linguagem elementar e geral da ação representada pela experiência
humana no tempo, isto é, narrar é criar significados e experiências temporais,
tornando-se um fenômeno elementar e geral da organização da vida cultural,
que define o homem como espécie, sendo que essa criação de significados e
experiências no tempo será uma estrutura de um sentido de “História”
(2012,p.39) e Narrar historicamente seria:

[...]um ato comunicativo de formar sentido acerca da


experiência temporal, A sua necessidade resulta do fato de que
a vida prática humana, constantemente experimenta a pressão
de uma mudança no tempo, que precisa ser trabalhada de tal
forma pelos comunicativamente afetados que eles podem
concentrar-se significativamente em suas ações,
principalmente onde está ocorrendo uma interação social.
(RÜSEN, 2012, p.74)

Portanto, nessa perspectiva, narrar seria uma forma que os seres humanos
tem para elaborar significados e experiências durante o tempo e o espaço,
sendo algo fundamental em nossa organização cultural. Nesse ponto, devemos
ter em mente que nenhuma narrativa é atemporal ou imparcial, isto é, as
narrativas sofrem influências de suas temporalidades, e também do público em
que ela se destina, a partir desses problema é que a História como ciência,
para Rüsen, se diferencia de outras narrativas históricas:

A história como ciência diferencia-se de todos os outros tipos


de narrativas históricas, pelo fato de elaborar sistematicamente
uma fundamentação elementar da validade das histórias
narradas e de institucionaliza-las em uma estrutura de
processos regulares. (2012, p.41)

Além disso devemos ter em mente que não há uma única narrativa histórica,
pelo contrário existem uma multiplicidade de narrativas, e que um sujeito pode
elaborar vários tipos de narrativas, e que em sua grande maioria de vezes são
conflituosas, como no caso do Regime Militar Brasileiro.

3. Um alerta necessário: a falta de um estudo de recepção dessas


narrativas em sala de aula.

Como foi dito no início do presente artigo, faz-se necessário de como ocorre a
recepção dos Websites que vão ser analisados sobre a luz dos conceitos aqui
selecionados, analisar somente essas narrativas e classifica-las, ignorando
como ocorre a mediação pelos alunos e pelos professores certamente
enfraqueceria qualquer análise que vise entender como ocorre a elaboração
das narrativas desses alunos sobre o Regime Militar. Nisso, a Teoria de
Mediação de Martin-Barbeiro se torna relevante para o presente estudo e
sendo possível um diálogo dele com as concepções de Isabel Barca sobre o
Ensino de História.

A mediação é aqui entendida como são os lugares que estão entre a produção
e a recepção. Nesse sentido, a comunicação pensada sob a perspectiva das
mediações deve levar em consideração o entendimento de que entre a
produção e a recepção há um espaço em que a cultura cotidiana se dinamiza e
também ao dizer respeito às distintas formas através das quais os indivíduos
se constituem em sociedade, tenciona, relaciona e põe em evidência sujeito e
estrutura, aspectos micro e macrossociológicos. (GRIJÓ,2011) Trazendo para
o nosso estudo sobre as narrativas sobre o Regime Militar, podemos entender
como o local em que ocorre os embates de memórias divergentes sobre a
natureza do período entre 1964 e 1985.

Estudar essas mediações faz-se relevante porque essas narrativas produzidas


por websites de história não serão absorvidas em sua totalidade pelos alunos
na elaboração de suas narrativas, isto é, descartamos aqui a possibilidade que
exista qualquer forma de narrativa sobre o Regime Militar que tenda impor uma
concepção ou memória sobre o período, desse ponto, compartilhamos da
leitura de LIMA FILHO sobre o conceito de mediação de MARTIN-BARBERO:

Este nega fortemente a concepção de comunicação "vertical" ou


"autoritária", na qual um emissor unilateralmente manipula um
receptor. A comunicação a partir de mediação é concebida como
a interação entre diversas entidades, em que maior ou menor
escala exercem um variado sistema de trocas. (1992, p.134)
Aqui encontramos uma possibilidade de diálogo com Isabel Barca, que
concebe a cognição histórica com algo que tem vários atores como as
memórias familiares; os discursos de instituições religiosas, as narrativas dos
livros didáticos e dos professores, isto é, as narrativas de websites seriam mais
uma das possibilidades de fontes de narrativas acessadas pelos alunos e
estudar como ocorre essas mediações e a recepção desses sites pode
colaborar no entendimento geral da construção dessa narrativas, argumento
que, no nosso entender valida a análise e classificação desses websites a luz
da classificação de RÜSEN (2012) e PROST (1996).
4. Metodologia de Análise das Narrativas

A partir dessas ponderações, para analisar as narrativas dos websites de


história, seus conflitos e multiplicidades de narrativas dentro da narrativa
desses websites que visam explicar o que foi o regime militar utilizamos a
proposição de tipologia de narrativas de Rüsen, combinada com as de Antonie
Prost, pretendendo analisar como os websites explicam o regime militar.

Rüsen divide as narrativas em quatro níveis, que a seu ver podem ser
identificados a partir da historiografia As narrativas tradicionais são aquelas que
articulam as tradições e relembram as origens que constituem a vida no
presente. Na narrativa tradicional o tempo "ganha um sentido de eternidade"
(RÜSEN, 1993, p.7; 1992, p.30).

As narrativas exemplares demonstram a validade de regras e princípios e


generalizam experiências temporais de regras de conduta. Nesta concepção, a
história é vista como uma lição para o presente, como algo didático: historiae
vitae maestrae. Nesse tipo de narrativa, o tempo "ganha um senso de extensão
espacial" (RÜSEN, 1993, p.7-8; 1992, p.31).

O terceiro tipo é a narrativa crítica, baseada na habilidade de negar as


tradições, regras e princípios, abrindo espaço para novos padrões. As
narrativas críticas são consideradas anti-histórias. Neste tipo de narrativa o
tempo "ganha o senso de ser objeto de julgamento" (RÜSEN, 1993, p.8-9;
1992, p.32).

O quarto tipo é a narrativa genética. Histórias deste tipo dão direção à


mudança temporal e apresentam a continuidade como um desenvolvimento no
qual a alteração de modos de vida é necessária para a sua permanência. É a
"forma de pensamento histórico que vê a vida social em toda a sua
complexidade e sua temporalidade absoluta", e em que "diferentes pontos de
vista podem ser aceitos porque se integram em uma perspectiva que abrange a
mudança temporal". (RÜSEN, 1993, p.9; 1992, p.33).

Já PROST (1996) tem três tipos de narrativa histórica: Relato, Quadro e Trama.
A narrativa como relato se caracterizam como essencialmente cronológicas,
com acontecimento ou situação histórica como ponto de partida, sendo
necessário, no mínimo, dois acontecimentos ou situações ordenadas no tempo,
tanto de forma descritiva como de forma estrutura, para que se tenha um
relato.

Como quadro, seria o modo de exposição histórica que põe em relevo as


coerências entre acontecimentos e situações, buscando dar respostas a como
aconteceram.

E por fim, a narrativa como trama busca desvendar os conflitos e não


acontecimentos e situações do passado. Na trama histórica é necessário
escolher uma temática, um recorte cronológico, a eleição de atores e dos
episódios. A construção da trama é um ato pelo qual se recorta um objeto
particular dentro da gama infinita de episódios que é a história. (SCHMIDT,
2008, p.88).

5. Resultado das análise das narrativas dos websites.

Foram escolhidos para a análise das narrativas 7 websites que tratavam da


temática Regime Militar Brasileiro, optando por escolher aqueles websites que
possuíam seu autor definido, partindo da concepção que o público em que se
destina o website pode influenciar a forma e o conteúdo das narrativas. Os
websites escolhidos para a análise foram: Mundo Estranho, Infoescola, Escola
Kids, Cola da Web, Sangue Verde Oliva, Revista de História e TecCiência.

Utilizando as tipologias de Narrativas de Rüsen e Prost, as narrativas destes


blogs foram classificadas em: Tradicional, Exemplar, Crítica e Genética e em
Narrativas como Quadro, Relato e Trama. É necessário ressaltar que
utilizamos o entendimento de Rüsen que não existe um só tipo de narrativa e
que em uma narrativa há vários tipologias presentes.

Os resultados demonstraram um predomínio da categoria narrativa crítica,


seguida da categoria tradicional:

Figura 1 - Tipos de Narrativas (RÜSEN)


Tradicional Exemplar Crítica Genética

Genética
Tradicional
17%
25%

Exemplar
Crítica 17%
42%

Já na tipologia de Prost, há um predomínio da categoria de Narrativa como


Relato, seguindo da narrativa como Quadro:

FIGURA 2 - Tipos de Narrativas (PROST, 1996)

Relato Quadro Trama

Trama
13%

Relato
50%
Quadro
38%

Mas o que explica o predomínio das narrativas críticas e de relato nas


narrativas dos websites que tem páginas relativas ao regime militar? O público
em que essas páginas se destinam.

A hipótese que temos é que os públicos em que se destinam esses websites


influenciaram no tipo de narrativa escolhida. 50% dos websites pesquisados
tem como público os estudantes da educação básica, ou seja, os textos
tendem a ser mais cronológicos e factuais(Fig.3) cujas as narrativas que serão
apresentadas a seguir tendem a ressaltar temas como: A repressão ou as
torturas durante o período entre 1964 e 1985, aqui entendidas como narrativas
críticas.

Entretanto, deve-se ressaltar que uma das narrativas classificadas como


genéticas, aqui entendidas como aquelas que abarca várias perspectivas sobre
o período, era de um website direcionado a estudantes da rede básica de
educação. Em conjunto com essa hipótese, pensamos que outro fator que pesa
na tipologia é a formação do autor da narrativa: Historiadores e Jornalistas são
a maioria (71%) dos autores das narrativas (Fig. 3 e 4).

FIGURA 3 - Tipos de website

Pesquisa Escolar Notícia Militares Jornalistico História

História
14%

Jornalistico
14%
Pesquisa
Notícia Escolar
Militares 57%
14%

FIGURA 4 - Formação dos autores


Historiador Agrônomo Pedagogo Jornalista Militar

Militar
13%
Historiador
38%
Jornalista
25%

Pedagogo
Agrônomo
13% 13%

5.1. Caracterização das narrativas.


Após a categorização das narrativas, podemos observar que dependendo da
categoria em que ela se encaixa, há uma eleição de que aspectos vão ser
priorizados na narrativa. Entretanto, numa mesma narrativa percebemos que
pode haver duas ou mais tipologias presentes, como por exemplo no caso da
narrativa do website Infoescola:

Os antecedentes do Regime Militar podem ser encontrados no


período Vargas, entre os responsáveis pela sua derrubada em
1945, pondo fim ao Estado Novo. Este contingente de oposição
se agruparia logo depois na UDN, União Democrática Nacional,
partido de orientação liberal-conservadora. Com a volta de
Getúlio por meio de eleições diretas em 1951, tal grupo
continuaria fazendo oposição à sua política, considerada
“populista”. (http://www.infoescola.com/historia-do-
brasil/regime-militar/)

Essa narrativa, na tipologia de Rüsen se caracteriza como Tradicional, por


tentar explicar as origens do Regime Militar no período de Vargas, mas já
aplicarmos a tipologia de Prost temos duas classificações de narrativas, ela é
Relato, por ser descritiva e cronológica, e Quadro por tentar buscar respostas
que levaram ao Golpe de Março de 1964, portanto aqui podemos afirmar o
conceito de Rüsen que numa mesma narrativa há uma multiplicidades de
tipologias.

Outra característica interessante encontrada nas narrativas é o embate de


memórias entre duas perspectivas narrativas diferentes de dois websites
diferente, e que devido ao caráter problemático das memórias do período
militar, é o caso dos Websites Sangue Verde Oliva, Revista de História e
Mundo Estranho. Devido a esse problema, nós resolvemos encaixa-las como
narrativas críticas.

O website Mundo Estranho vai ressaltar a questão das torturas no período


militar:

Durante o governo militar, mais de 280 pessoas foram mortas -


muitas sob tortura. Mais de cem desapareceram, segundo
números reconhecidos oficialmente. Mas ninguém acusado de
torturar presos políticos durante a ditadura militar chegou a ser
punido. Em 1979, o Congresso aprovou a Lei da Anistia, que
determinou que todos os envolvidos em crimes políticos -
incluindo os torturadores - fossem perdoados pela Justiça.
(http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quais-foram-as-
torturas-utilizadas-na-epoca-da-ditadura-militar-no-brasil)

Já o website Revista de História aborda a questão da moralidade e da


corrupção:

[...] tão logo iniciou seu governo, o marechal Castello Branco


(1964-1967) prometeu dar ampla divulgação às provas de
corrupção do regime anterior por meio de um livro branco da
corrupção – promessa nunca cumprida, certamente porque
seria preciso admitir o envolvimento de militares nos episódios
relatados. Desde o início o regime militar fracassou no combate
à corrupção, o que se deve em grande parte a uma visão
estritamente moral da corrupção.
(http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/moralismo-
capenga)

Entretanto, do outro lado temos uma narrativa que vai contra essa concepção
do Regime Militar como somente um período de violência e perseguição, que é
o caso do website Sangue Verde Oliva.

[...] fizemos com o objetivo de rememorar alguns fatos


ocorridos naquele período histórico da nação brasileira, para
conhecimento e reflexão da nossa pobre juventude. Os
militares (seu regime) fizeram a maior Revolução Industrial do
século XX. Pegaram um país com o 45º PIB do mundo e, 21
anos depois, entregaram aos civis com o 10º(décimo) PIB
mundial. Estamos há 24 anos sob autoridade civil e ainda
continuamos em 10º lugar.
(http://www.sangueverdeoliva.com.br/novo/index.php?
option=com_content&view=article&id=400:regime-
militar&catid=2:cronicas&Itemid=4)

Aqui a multiplicidades de narrativas se mostra novamente, agora sob a face do


embate de memórias, partindo de Maurice Halbwachs podemos pensar que
essas narrativas podem ter influência do meio em que elas se originam (e do
público) em que elas se destinam, os autores das narrativas são Jornalistas,
Historiadores e Militares, ou segundo Halbwachs: “De uma maneira ou de
outra, cada grupo social empenha-se em manter uma semelhante persuasão
junto a seus membros.” (2004, p.51). E na mesma linha segue MARTINS, ao
ressaltar o papel da afirmação suas narrativas de certos grupos sociais sobre o
período militar:
[...]Nenhum de nós pode referir-se, propriamente, às
lembranças dos outros, pois essas são dos outros; uma vez
mais; mesmo que a ocorrência referida a mesma. A
solidariedade entre os integrantes de um mesma comunidade é
decorrência da construção social da memória comum.
(2007,p.38).

Nas outras narrativas, podemos observar um padrão de tipologia, nas


narrativas de cunho Tradicional de Rüsen tendem a ser mais descritivas e
abordar os acontecimentos entre 1964 e 1985, não problematizando ou
expondo as diversas perspectivas desse período, como no caso do Website
Tecciencia:

A Ditadura militar no Brasil teve seu início com o golpe militar


de 31 de março de 1964, resultando no afastamento do
Presidente da República, João Goulart, e tomando o poder o
Marechal Castelo Branco. Este golpe de estado, caracterizado
por personagens afinados como uma revolução instituiu no
país uma ditadura militar, que durou até a eleição de Tancredo
Neves em 1985. Os militares na época justificaram o golpe, sob
a alegação de que havia uma ameaça comunista no país.
(http://tecciencia.ufba.br/ai-meu-deus-vou-fazer-o-processo-
seletivo-e-agora/blog/ditadura-militar.)

Já as narrativas de cunho Exemplar, tendem a focar-se em casos específicos,


fazendo uma narrativa que pode-se entender como se a história fosse um
exemplo de discursos a se evitar ou como uma forma de lembrar para que atos
como a Tortura nunca volte a ocorrer, aqui o caso da Revista de História, se
encaixando também na categoria de narrativa Crítica já trabalhada acima:

Ao se materializar sob a forma de política de Estado durante a


ditadura, em especial entre 1969 e 1977, a tortura se tornou
inseparável da corrupção. Uma se sustentava na outra. O
regime militar elevou o torturador à condição de intocável:
promoções convencionais, gratificações salariais e até
recompensa pública foram garantidas aos integrantes do
aparelho de repressão política. Caso exemplar: a concessão da
Medalha do Pacificador ao delegado Sérgio Paranhos Fleury
(1933-1979).
(http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/moralismo-
capenga)

As Narrativas de cunho crítica, tendem a priorizar a questão das torturas, isto é,


enquanto as outras narrativas, principalmente as tradicionais optando por falar
dos Presidentes ou dos Atos Institucionais, essas narrativas tendem a mostrar
como funcionava as torturas e o aparelho repressivo, como por exemplo no
caso do Website Cola da Web:

O Cenimar cria na Ilha das Flores, um dos principais centros de


tortura do Rio. A ação do Cisa, da Aeronáutica, menos intensa,
também faz vítimas. As auditorias das 3 armas julgam e
condenam os réus com base em confissões obtidas sob
tortura. O leque das vítimas vai muito além da esquerda
armada. Abarca estudantes, intelectuais e artistas, religiosos,
áreas do movimento sindical e comunitário e a oposição,
mesmo legal. A estratégia é seletiva, de eliminação dos
dirigentes, mas o método necessariamente multiplica o número
de atingidos. O projeto Brasil: registra 13.752 indiciados em
inquéritos com base na LSN; 7.367 são levados ao banco dos
réus. Um número incalculável passa pela prisão sem registro
formal. As detenções em Operações – Arrastão, corriqueiras,
podem superar os 10 mil em um só dia. O clima dos Anos de
Chumbo pesa sobre toda a sociedade.
(http://www.coladaweb.com/historia-do-brasil/ditadura-militar)

Já as narrativas de cunho Genético, tendem a trabalhar em conjuntos as várias


percepções do período do Regime Militar, isto é, abarcando vários pontos de
vista e tentando criar um sentindo prático da narrativa na vida do leitor da
narrativa, presentes nas narrativas do websites Cola da Web e Escola Kids:

Os atos de barbarismo aconteceram, devido à Lei de Segurança Nacional, que


transformava todos aqueles que não concordavam com o governo em
"Inimigos do Estado", e possivelmente a favor da "Ameaça Comunista".

A interpretação de Liberdade, terminava, onde começavam os


Atos Institucionais (medidas e leis para controlar uma possível
situação, que estivesse fora de controle), que eram a única
saída para conter a população, ansiosa para escolher seus
governantes pelo voto direto. Suas idéias foram expostas; sem
dúvida, houve um crescimento da economia; seus fatos ficarão
para sempre na história do país e na lembrança dos familiares
de vários desaparecidos políticos.
(http://www.coladaweb.com/historia-do-brasil/ditadura-militar)
Observadas todas essas situações, vemos que o Regime
Militar foi um período em que as liberdades foram diminuídas.
Na opinião de alguns, essa diminuição foi necessária. Para
outros, isso foi prejudicial para a população como um todo.
(http:// www.escolakids.com/o-brasil-no-periodo-militar.htm)
6. Considerações Finais

Devido ao amplo acesso dos jovens alunos do Ensino Médio à internet, criou-
se a possibilidade destes terem acesso a uma variada gama de informações e
perspectivas de narrativas sobre o período de 1964 a 1985 aqui chamado de
Regime Militar, juntamente com isso abriu-se também para o historiador uma
nova gama de possibilidades de fontes, tanto para o Ensino de História quando
para outras áreas da Ciência da História.

A análise das narrativas de sete websites sobre o período do Regime Militar


mostrou que a maioria das narrativas se encaixam nas categorias de Narrativa
Crítica, na categorização de Rüsen e Narrativa como Trama, na categorização
de Prost, não havendo uma só perspectiva sobre a natureza do período entre
64 e 85, pelo contrário, há narrativas conflitantes, com a maioria das narrativas
tendendo a enfatizando a questão das torturas, mas algumas narrativas
enfatizando a questão econômica para combater essas narrativas, o que
observamos a pertinência das ideias de Rüsen sobre a multiplicidade de
Narrativas sobre um período histórico e de Halbwachs e Martins sobre a
influência do meio em que destina essas narrativas e também elas como uma
forma de afirmação de uma memória.

Mas uma questão fica sem resposta, como os alunos recebem e apropriam
dessas narrativas? Partindo de Martin-Barbeiro será de formas diferentes e não
de forma unilateral, onde os produtores dessas narrativas são aceitos sem
resistências ou mudanças, e devido a multiplicidade das perspectivas das
narrativas do período do Regime Militar pode ser uma excelente ferramenta
para o professor de História para o trabalho desse tema a partir da perspectiva
de Isabel Barca que conhecimento se origina a partir de conhecimentos prévios
e que devemos ter essa informação em conta se queremos produzir
conhecimento.

7. REFERÊNCIAS
7.1. Fontes Utilizadas

FERNANDES, João Vianey. Ditadura Militar Disponível em <


http://www.coladaweb.com/historia-do-brasil/ditadura-militar> Acessado em 20
jun.2013

JARATAIBA, Nady. Ditadura Militar Disponível em <http://tecciencia.ufba.br/ai-


meu-deus-vou-fazer-o-processo-seletivo-e-agora/blog/ditadura-militar.>
Acessado em 10 jun.2013

MERGULHÃO. O Brasil sob o regime militar Disponível em


<http://www.sangueverdeoliva.com.br/novo/index.php?
option=com_content&view=article&id=400:regime-
militar&catid=2:cronicas&Itemid=4> Acessado em 4 jun.2013

NAVARRO, Roberto. Quais foram as torturas utilizadas na época da ditadura


militar no Brasil? Disponível em
<http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quais-foram-as-torturas-utilizadas-
na-epoca-da-ditadura-militar-no-brasil> Acessado em 15 jun.2013

SANTIAGO, Emerson. Regime Militar Disponível em


<http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/regime-militar/> Acessado em 13
jun.2013

SOUSA, Rainer Gonçalves. O Brasil no Período Militar Disponível em


<www.escolakids.com/o-brasil-no-periodo-militar.htm> Acessado em 15
jun.2013

STARLING, Heloisa Maria Murgel. Moralismo capenga Disponível em <


http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/moralismo-capenga> Acessado
em 6 jun.2013

7.2. Bibliografia
BARCA, Isabel. O pensamento histórico dos jovens: idéias dos adolescentes
acerca da provisoriedade da explicação histórica. Braga: Universidade do
Minho, 2000.

BRESCIANI, Henrique Bueno. PASTORELLO, Felipe Nunes. A INTERNET É ÚTIL AO


ENSINO DE HISTÓRIA? Um estudo sobre a possibilidade de sua utilização a partir de
uma investigação a respeito da relação dos alunos com a “rede” IN RAMOS, Márcia
Elisa Teté (org.) ESTÁGIO/PESQUISA - Ideias históricas de alunos do Ensino
Médio. Londrina, 2013. pp.19-39.

GEVAERD, Rosi Terezinha Ferrarini. A narrativa histórica como uma maneira


de ensinar e aprender história: O caso da história do Paraná. Tese de
doutorado em Educação. Universidade Federal do Paraná: Curitiba, 2009.

GRIJÓ, Wesley Pereira. Teoria das Mediações: atualidade, críticas e usos do


pensamento de Jesus Martín-Barbero. Anais do I Congresso Mundial de
Comunicação Ibero-Americana - CONFIBERCOM 2011. São Paulo, 2011.
Disponível em < http://confibercom.org/anais2011/pdf/316.pdf> Acessado em
28.jun.2013

HALBALWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. Editora Centauro. São Paulo.


2004.

LIMA FILHO, Dirceu Tavares C. Mediações sobre o projeto mediador de Jesus


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