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Primeiro capítulo

Repetição dos fenômenos

oloquemo-nos na presença de um grande objeto: o

C céu estrelado, o mar, uma floresta, uma multidão, uma


cidade. De todos os pontos desse objeto emanam im­
pressões que assediam os sentidos do selvagem, bem como os
do cientista. Neste, porém, essas sensações múltiplas e inco­
erentes sugerem noções logicamente agenciadas, um feixe de
fórmulas explicativas. Como ocorreu a lenta elaboração dessas
sensações em noções e em leis? Como o conhecimento dessas
coisas se tornou cada vez mais científico? Eu diria que isso
aconteceu, em primeiro lugar, à medida que mais similitudes
foram descobertas, ou que, depois de se ter acreditado ver
similitudes superficiais, aparentes e decepcionantes, similitu­
des mais reais e profundas foram percebidas. Em geral, isso
significa que se passou de similitudes e repetições de massa,
complexas e confusas, a similitudes e repetições de pormenor,
mais difíceis de captar, porém mais precisas, elementares e
infinitamente numerosas, bem como infinitesimais. E somente
depois que essas similitudes elementares foram percebidas é
que as similitudes superiores, mais amplas, mais complexas,
mais vagas, puderam ser explicadas e reduzidas ao seu justo
valor. Esse progresso ocorreu cada vez que muitas origina-
lidades distintas, anteriormente julgadas sui generis, foram
assimiladas em combinações de similitudes. Isso não quer
dizer que a ciência, ao progredir, faça desaparecer ou mesmo
diminuir a proporção de originalidades fenomenais, os aspectos
não repetidos da realidade. É verdade que as originalidades
de massa, grandes e visíveis, se dissolvem sob o olhar mais
penetrante do observador, mas em proveito de originalidades
24 ■As Leis Sociais

mais profundas e recônditas que vão se multiplicando inde­


finidamente, juntamente com as uniformidades elementares.
Apliquemos o que foi dito ao céu estrelado. Houve um início
de ciência astronômica a partir do momento em que pastores ocio­
sos e curiosos notaram a periodicidade das revoluções celestes
aparentes, o levantar e deitar das estrelas, os passeios circulares
do Sol e da Lua, a sucessão regular e o retorno regular de suas
posições no céu. Mas certos astros pareciam constituir exceções
em face da generalidade dessa única e grandiosa revolução circular:
as estrelas errantes, os planetas, aos quais se atribuía uma marcha
caprichosa, a cada instante diferente dela mesma e das demais;
até que se percebeu quanta regularidade havia nessas anomalias.
Julgava-se, aliás, que todas as estrelas fixas e errantes, sóis e pla­
netas, aí compreendidas as estrelas cadentes, eram semelhantes
entre si, e só se estabelecia uma diferença marcante entre elas e ó
Sol ou a Lua, que gozavam da reputação de serem os únicos astros
verdadeiramente originais do firmamento.
Ora, a astronomia progrediu quando, por um lado, essa
aparente rotação do céu inteiro, enorme e única, foi substituída
pela realidade de uma inumerável quantidade de pequenas rota­
ções muito diferentes entre si, e que não apresentavam nenhuma
sincronia, cada qual se repetindo indefinidamente; e quando, por
outro lado, a originalidade do Sol desapareceu, substituída por
uma originalidade mais difícil de perceber, a de cada estrela, sol
de um sistema invisível, centro de um mundo planetário análogo
ao turbilhão de nossos planetas.
A astronomia deu um passo ainda maior quando as diferenças
dessas gravitações siderais, cuja generalidade sem exceções não
excluía a desigualdade de velocidade, de distância, de elipticidade,14
etc., desapareceram diante da lei de gravitação newtoniana, que
apresentou todas as periodicidades de movimento, das menores

14 No o rig in al, ellip ticité, caráter de uma fig ura (no caso, de uma ó rb ita ) e líp tica
(N. doTJ.
Gabriel Tarde 25

às maiores, das mais rápidas às mais lentas, como a repetição in­


cessante e contínua de um mesmo fato: a atração em razão direta
das massas e em razão inversa ao quadrado das distâncias. E seria
ainda melhor se, explicando esse mesmo fato por meio de uma
hipótese audaciosa, sempre perseguida e sempre obsedante, fosse
possível enxergar aí o efeito da pressão de átomos etéreos, pressão
decorrente de vibrações atômicas de uma inimaginável exiguidade,
mas também de uma inconcebível multiplicidade.
Não terei razão ao dizer que a ciência astronômica trabalhou
o tempo todo com similitudes e repetições, e que seu progresso
consistiu em partir de similitudes e repetições únicas ou bem pouco
numerosas, gigantescas e aparentes, para chegar a uma infinidade
de similitudes e repetições infinitesimais, reais e elementares, que
aliás permitiram, ao surgirem, explicar as primeiras?
E será possível dizer - entre parênteses - que o céu tenha
perdido algo de seu caráter pitoresco à medida que a astronomia
progredia? De modo algum. Em primeiro lugar, a precisão cres­
cente dos instrumentos e das observações permitiu distinguir nas
gravitações repetidas dos astros muitas diferenças antes desper­
cebidas, sendo fonte de novas descobertas, notadamente a de Le
Verrier.15Depois o firmamento se ampliou cada vez mais, e na sua
imensidade aumentada, foram acentuadas as desigualdades de
volume, de velocidade e de particularidades físicas entre astros e
grupos de astros. As variedades de configuração das nebulosas se
multiplicaram, e quando o uso do espectroscópio (coisa inaudita)
tornou possível analisar tão maravilhosamente a composição quí­
mica dos corpos celestes, foram constatadas entre os seres que
as povoam dessemelhanças que se pode chamar de profundas.
Enfim, percebeu-se melhor a geografia dos astros mais próximos, e
se julgarmos os demais a partir desses, deve-se acreditar - depois

15 Urbain Le Verrier, matemático e astrônomo francês que em 1846 previu, somente com base
em cálculos e na observação da órbita do planeta Urano, a existência do planeta Netuno.
(N.doT.)
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de haver estudado os canais de Marte, por exemplo - que cada um


dos inumeráveis planetas a gravitar sobre nossas cabeças ou sob
nossos pés possui seus acidentes característicos, seu mapa-múndi
especial, suas particularidades locais que, lá como aqui, dão a cada
canto do solo seu charme peculiar e imprimem, sem nenhuma
dúvida, o amor pela terra natal no coração de seus habitantes,
sejam eles quais forem.
A meu ver, isso não é tudo - porém digo-o baixinho, com
receio de incorrer na grave censura de fazer metafísica... Eu creio
que é impossível explicar as dessemelhanças às quais me refiro -
mesmo que fossem apenas essas desigualdades de posição e essa
caprichosa distribuição de matéria através do espaço - pela hipó­
tese, tão cara aos químicos (que são, quanto a isso, os verdadeiros
metafísicos), de elementos atômicos perfeitamente semelhantes.
Creio que a pretensa lei de Spencer sobre a instabilidade do homo­
gêneo nada explica, e que, por consequência, a única maneira de
explicar a floração de exuberantes diversidades à superfície dos
fenômenos é admitir no fundo das coisas uma tumultuosa infinidade
de elementos caracterizados individualmente. Assim, do mesmo
modo que as similitudes de massa foram resolvidas em similitudes
de pormenor, as diferenças de massa, grosseiras e bem visíveis,
se transformaram em diferenças de pormenor infinitamente sutis.
E assim como as similitudes de pormenor permitem explicar por
si mesmas as similitudes de conjunto, as diferenças de pormenor,
essas originalidades elementares e invisíveis que eu vislumbro,
permitem igualmente explicar por si mesmas as diferenças apa­
rentes e grandiosas, o pitoresco do universo visível.
Temos aí o mundo físico. No mundo vivo acontece a mesma
coisa. Coloquemo-nos, como o homem primitivo, no meio de uma
floresta. Existe ali toda a fauna e flora de uma região, e nós sabe­
mos agora que os fenômenos tão dessemelhantes apresentados
por esses diversos animais e plantas se resolvem, no fundo, numa
enorme quantidade de pequenos fatos infinitesimais resumidos
Gabriel Tarde 27

pelas leis da biologia, biologia animal ou vegetal, pouco importa;


atualmente ambas se confundem. Mas no início se diferenciava
profundamente o que hoje assimilamos, ao passo que muitas
coisas que hoje diferenciamos eram assimiladas. As similitudes e
as repetições percebidas então, das quais se alimentava a ciência
nascente dos organismos, eram superficiais e decepcionantes:
foram assimiladas plantas sem nenhum parentesco, cujo porte e
folhagem eram vagamente assemelhados, enquanto era traçado
um abismo entre plantas da mesma família, mas de talhe e silhueta
bastante desiguais. A ciência botânica progrediu ao aprender que
os caracteres mais importantes, isto é, mais repetidos e mais sig­
nificativos, acompanhados por um cortejo de outras similitudes,
não. eram os mais visíveis; ao contrário, eram os mais recônditos,
os mais sutis, ou seja, aqueles concernentes aos órgãos de repro­
dução: por exemplo, o fato de ter um ou dois cotilédones, ou de
não ter nenhum.
E a biologia, síntese da zoologia e da botânica, nasceu no dia
em que a teoria celular mostrou que, tanto nos animais como nas
plantas, a célula era o elemento infinitamente repetido, primeira­
mente a célula germinal, e depois todas as outras que dela proce­
dem; e que o fenômeno vital elementar é a repetição indefinida, em
cada célula, dos modos de nutrição e de atividade, de crescimento
e de proliferação, cujo depósito tradicional ela recebeu de herança
e transmitirá fielmente à sua posteridade. Essa conformidade aos
precedentes que se chama de hábito ou de hereditariedade - diga­
mos, numa palavra, hereditariedade, já que o hábito é uma here­
ditariedade interna e a hereditariedade é um hábito exteriorizado
- é a forma propriamente vital da repetição; tal como a ondulação
ou, em geral, o movimento periódico, é sua forma física, tal como
a imitação, como veremos, é sua forma social.
Vemos, portanto, que o progresso da ciência dos seres
vivos teve como efeito derrubar gradualmente todas as barreiras
que existiam entre eles do ponto de vista de suas similitudes e
28 /)s Leis Sociais

repetições, substituindo, também ali, semelhanças grosseiras e


aparentes, grandiosas e pouco numerosas, por semelhanças muito
precisas, inumeráveis e infinitesimais, que são as únicas capazes de
explicar as primeiras. Mas ao mésmo tempo aparecem distinções
múltiplas, e não apenas a originalidade de cada indivíduo se torna
mais evidente, mas também somos forçados a admitir originalida-
des celulares, e em primeiro lugar germinais: pois não existe nada
tão semelhante quanto duas células germinais, mas existirá algo
mais diferente do que seu conteúdo? Depois de experimentar a
insuficiência das explicações propostas por Darwin e Lamarck a
respeito da origem das espécies - cujos termos comuns, por sinal,
a descendência, a evolução, permanecem para além de qualquer
contestação - é preciso convir que a causa verdadeira da espécie é
o segredo das células, a invenção de algum óvulo inicial possuindo
uma originalidade particularmente fecunda.16
Pois bem, eu afirmo que se examinarmos uma cidade, uma
multidão ou um exército, em vez de examinarmos uma floresta ou
o firmamento, veremos que as considerações anteriores se aplicam
à ciência social do mesmo modo que se aplicam à astronomia e à
biologia. Também aqui passamos de generalizações apressadas,
fundadas sobre analogias vãs e factícias, grandiosas e ilusórias, a
generalizações apoiadas sobre conjuntos de pequenos fatos seme­
lhantes, possuindo uma similitude relativamente clara e precisa.
Há muito tempo a sociologia trabalha para constituir-se.
Ela tentou seus primeiros balbucios a partir do momento em que
discerniu, ou acreditou discernir, algo de periódico e de regular no
confuso caos dos fatos sociais. A concepção antiga do grande ano
cíclico, ao término do qual tudo, no mundo social como no mundo

16 Essa afirmação de Tarde parece referir-se à teoria do plasma germinativo de August Weis-
mann. 0 biólogo alemão rejeitava a hereditariedade dos caracteres adquiridos e preco-
nizava que o segredo da variação (surgimento de novas espécies) reside exclusivamente
nas células germinativas e depende de alterações em seus elementos moleculares. A
descoberta do ADN demonstrou que Weismann estava na direção correta, e tinha razão
ao mesmo tem po contra Darwin e contra Lamarck. (N. doT.)
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natural, se repetia na mesma ordem, era já um primeiro esboço de


sociologia. Aristóteles substituiu essa única e falsa repetição de
conjunto, acolhida pelo quimérico talento de Platão, por repetições
de pormenor, frequentemente verdadeiras, mas sempre muito vagas
e difíceis de acompanhar de perto; elas são formuladas em sua
Política a propósito do que existe de mais superficial ou de menos
profundo na vida social, a sucessão de formas governamentais.
Interrompida desde então, a evolução da sociologia recomeçou ab
ovo17 nos tempos modernos. Os ricorsi 18 de Vico são a retomada
e a fragmentação, menos quimérica, dos ciclos antigos; essa tese,
tal como a de Montesquieu sobre a pretensa semelhança entre
civilizações surgidas sob o mesmo clima, são dois bons exemplos
de repetições e similitudes superficiais ou ilusórias que nutriram
a ciência antes que ela encontrasse um alimento mais substancial.
Chateaubriand, no seu Ensaio sobre as Revoluções, desenvolveu um
longo paralelo entre a revolução inglesa e^a revolução francesa e
divertiu-se com as mais superficiais comparações. Outros funda­
ram grandes pretensões teóricas sobre vãs analogias entre o gênio
púnico e o gênio inglês, ou entre o império romano e o império
inglês... Essa pretensão de encerrar os fatos sociais em fórmulas
de desenvolvimento, que os constrangeriam a repetir-se em massa
com variações insignificantes, foi a grande ilusão da sociologia:
seja sob a forma já mais precisa que Hegel lhe deu com suas sé­
ries de tríades, seja sob a forma ainda mais científica e precisa, e
menos afastada da verdade, que ela recebeu dos evolucionistas
contemporâneos. Estes, a propósito das transformações do direi­
to, notadamente do regime familiar e do regime de propriedade
- e a propósito das transformações da linguagem, da religião, da
indústria, das belas-artes - arriscaram a formulação de leis gerais
razoavelmente precisas que sujeitariam a marcha das sociedades,
sob esses diversos aspectos, a passar e repassar pelos mesmos

17 Tradução livre: desde o início, a p artir do zero. (N. doT.)


18 Recorrências. (N. do T.)
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caminhos, arbitrariamente traçados, de fases sucessivas. Era ne­


cessário reconhecer que essas pretensas regras estão repletas de
exceções, e que a evolução - linguística, jurídica, religiosa, política,
econômica, artística, moral - não é uma rota única, mas uma rede
de caminhos na qual abundam as encruzilhadas.
Felizmente, à sombra e ao abrigo dessas ambiciosas genera­
lizações, trabalhadores mais modestos se esforçavam, com mais
sucesso, para anotar leis de pormenor de uma solidez bem diferente.
Eles eram linguistas, mitólogos, sobretudo economistas. Esses es­
pecialistas da sociologia perceberam várias relações interessantes
entre fatos consecutivos ou concomitantes, relações que se repro­
duziam a cada instante nos limites do pequeno domínio que eles
estudavam: encontra-se na Riqueza das Nações de Adam Smith, na
Gramática comparada das línguas indo-européias de Bopp e na obra
de Dietz, para ficar nesses três exemplos, uma enorme quantidade
de observações desse gênero, nas quais se exprime uma similitude
entre inumeráveis ações humanas como a pronúncia de certas con­
soantes ou de certas vogais, as compras e as vendas, a produção e
o consumo de certos artigos, etc. É verdade que essas similitudes,
nelas mesmas, deram lugar a leis imperfeitas, relativas ao plerumque
fít,19quando os linguistas ou economistas tentaram formulá-las em
leis; mas é porque se teve demasiada pressa para enunciá-las, antes
mesmo de se discernir, no seio dessas verdades parciais, a verdade
geral que elas implicam, o fato social elementar que a sociologia
persegue obscuramente e que ela deve atingir para realizar-se.
Muitas vezes pressentiu-se que essa explicação geral das leis
ou pseudo-leis (econômicas, linguísticas, mitológicas ou outras)
cabia à psicologia. Ninguém compreendeu isso com mais força e
clareza do que Stuart Mill. No fim de sua Lógica, ele concebeu a
sociologia como a psicologia aplicada. O problema é que ele não
exprimiu seu pensamento com suficiente precisão, e a psicologia

19 Tradução livre: o usual, aquilo que geralmente acontece. (N. do T.)


Gabriel Tarde 31

à qual ele se dirigiu para obter a chave dos fenômenos sociais era
a psicologia meramente individual, aquela que estuda as relações
internas entre impressões ou imagens no interior de um mesmo
cérebro, e que acredita dar conta de tudo, nesse domínio, pelas
leis de associação desses elementos internos. Assim concebida,
a sociologia se tornava uma espécie de associacionismo inglês
aumentado e exteriorizado, e perdia sua originalidade. Não é exa­
tamente ou unicamente a essa psicologia /nfra-cerebral, é antes de
tudo à psicologia inter-cerebral, que estuda o estabelecimento de
relações conscientes entre muitos indivíduos, que convém pedir
o fato social elementar, cujos grupamentos ou combinações múlti­
plas constituem os fenômenos ditos simples, objetos das ciências
sociais particulares. O contato de um espírito com outro é, com
efeito, na vida de cada um deles, um acontecimento à parte, que
se destaca vivamente do conjunto de seus contatos com o resto
do universo e dá lugar aos estados de alma mais imprevisíveis (e
mais inexplicáveis pela psicologia fisiológica).20
Essa relação de um sujeito com um objeto que também é
um sujeito não é uma percepção que em nada se assemelha à
coisa percebida (autorizando por isso o cético idealista a colocar

20 As experiências realizadas sobre a sugestão hipnótica e sobre a sugestão em estado de


vigília forneceram abundantes materiais para a futura construção da Psicologia inter-ce-
rebral.Tomarei a liberdade de remeter o leitor às tentativas de aplicação dessa psicologia
ainda embrionária que realizei em todas as minha obras e particularmente no capítulo
intitulado Qu'est ce qu'une société? (Lois de L'Imitation, 1890), que já havia aparecido em
novembro de 1884 na Revue philosophique; em algumas páginas de minha Philosophie
pénale (1890) sobre a formação de hordas criminosas (capítulo sobre o crime, p. 384 e
seguintes, 1a edição); em minha comunicação intitulada Crimes des foules, discutida no
Congresso de Antropologia Criminal de Bruxelas em .outubro de 1892; e no meu artigo
publicado sob o títu lo de Foules et Sectes na Revue des Deux Mondes (dezembro de
1893). Esses dois últim os estudos foram reimpressos sem modificações no meu Essais et
mélanges sociologiques, em 1895 (Edições Storch et Masson, Paris-Lyon). Eu gostaria de
observar en passant que o trecho da Philosophie pénale citado acima, senão o capítulo de
Lois de Lim itation, do qual ele não passa de um corolário, contém em substância e m uito
explicitamente a explicação dos fenômenos de massa que foram desenvolvidos mais
tarde em outros estudos, e que ele apareceu anteriormente aos interessantes trabalhos
sobre a psicologia das massas editados no estrangeiro ou na França. Digo isto não para
dim inuir seu mérito, mas para responder a certas insinuações, às quais, por sinal, eu fiz
justiça em outros lugares.
32 As Leis Sociais

sua realidade em dúvida), mas antés a sensação de uma coisa


senciente, a volição de uma coisa volitiva, a crença em uma coisa
crente, em resumo, em uma pessoa, na qual a pessoa que perce­
be se reflete e que ela não poderia negar sem negar a si mesma.
Essa consciência de uma consciência é o inconcussum qu id 21 que
Descartes procurava e que o eu individual não pôde lhe fornecer.
Além disso, essa relação singular não é uma impulsão física, dada
ou recebida, um transporte de força motora do sujeito ao objeto
inanimado ou vice-versa, conforme se trate de um estado ativo ou
passivo, mas uma transmissão de algo interior, mental, que passa
de um sujeito ao outro sem por isso, coisa estranha, perder-se ou
diminuir-se no primeiro. E o que pode ser assim transmitido de
uma alma a outra por meio de um contato psicológico? São suas
sensações, seus estados afetivos? Não, isso é essencialmente
incomunicável. Tudo o que dois sujeitos podem comunicar entre
si tendo consciência disso, de maneira a sentir-se mais unidos e
semelhantes, são suas noções e volições, seus juízos e desígnios,
formas que podem permanecer as mesmas apesar da diferença
de seu conteúdo, produtos da elaboração espiritual que se exerce
quase indiferentemente sobre signos sensíveis quaisquer. Tampou­
co ela difere sensivelmente passando de um espírito de tipo visual
a um espírito de tipo acústico óu motor, de modo que as ideias
geométricas de um cego de nascença são exatamente as mesmas
que geômetras dotados de visão possuem; e um plano de batalha
sugerido por um general de humor bilioso e melancólico a generais
de temperamento vivo e sanguíneo ou fleumático e resignado não
deixará de ser o mesmo: para isso basta que eles tracem a mesma
série de operações, e por outro lado, que estas sejam desejadas
por eles com igual força de querer, a despeito da maneira de sentir
toda especial, toda individual, que leva cada um deles a desejar.
A energia de tendência psíquica, de avidez mental, que eu chamo

21 Tradução livre: algo firme, constante, inabalável. (N. doT.)


Gabriel Tarde 33

de desejo, tal como a energia de entusiasmo intelectual, de ade­


são e constrição mental, que eu chamo de crença, é uma corrente
homogênea e contínua que, sob a variável coloração das tintas de
afetividade próprias a cada espírito, circula idêntica, ora dividida,
fragmentada, ora concentrada, e que se comunica sem alteração
de uma pessoa a outra, bem como de uma percepção a outra no
interior de uma mesma pessoa.
Quando eu disse que toda ciência verdadeira chega a um
domínio próprio de repetições elementares, inumeráveis e infi­
nitesimais, é como se eu já houvesse dito que toda ciência verda­
deira fundamenta-se em quantidades que lhe são específicas.22
A quantidade, com efeito, é a possibilidade de séries infinitas e
de repetições infinitamente pequenas. Eis porque eu me permiti
insistir sobre o caráter quantitativo das duas energias mentais
que, como dois rios divergentes, banham a dupla face do eu, sua
atividade mental e sua atividade voluntária. JMegar esse caráter é
declarar a impossibilidade da sociologia. Mas não se pode negá-lo
sem recusar a evidência, e esta é a prova de que as quantidades em
questão são propriamente sociais: sua natureza quantitativa apare­
ce tanto melhor, e fere o espírito com maior vivacidade e clareza,
quando são consideradas em massas mais amplas, sob a forma de
correntes de fé ou de paixão popular, de convicções tradicionais
ou opiniaticidades costumeiras, abraçando grupos humanos mais
numerosos. Quanto mais cresce uma coletividade, e mais se eleva
ou apequena uma opinião, ou seja, a crença ou o querer nacional,
afirmativo ou negativo, em relação a um objeto dado - alta ou baixa
exemplarmente expressa pelas cotações da Bolsa - mais ela se tor­
na suscetível de medida e comparável aos movimentos de pressão
atmosférica ou à força viva de uma queda d’água. É por isso que a
estatística se desenvolve com crescente facilidade à medida que

22 No texto original consta a palavra qualidades (em vez da palavra quantidades): "toute
science vraie repose sur des qualités qui lui sont spéciales". Uma vez que o contexto não
dá margem a dúvidas, optei por fazer a alteração no próprio corpo do texto. (N. doT.)
34 As Leis Sociais

os Estados crescem; o êxito da estatística, cujo objeto próprio é


pesquisar e discernir quantidades verdadeiras na barafunda dos
fatos sociais, é proporcional à sua obstinação de medir, no fundo,
por meio dos atos humanos que adiciona, massas de crenças e de
desejos. A estatística dos valores da Bolsa exprime as variações
da confiança pública no sucesso de tais ou tais empresas, na sol­
vência de tais ou tais Estados devedores, e as variações do desejo
público, do interesse público, ao qual se dá satisfação por essas
dívidas e por essas empresas. A estatística industrial e agrícola
exprime a importância das necessidades gerais que reclamam a
produção de tais ou tais artigos e a suposta conveniência dos meios
necessários para satisfazê-las. A consulta da estatística judiciária,
em suas enumerações de processos e delitos, só é interessante
porque a travessia de suas linhas permite, ano após ano, a leitura
da progressão ou regressão dos desejos públicos engajados em vias
processuais ou delituosas: por exemplo, a tendência ao divórcio
ou ao roubo, e também a proporção de esperanças públicas vol­
tadas para certos processos ou delitos. A estatística populacional,
que sob muitos aspectos é meramente biológica e diz respeito à
propagação da espécie, também é sociológica na medida em que
diz respeito à duração e aos progressos das instituições sociais, e
exprime o crescimento ou o decréscimo do desejo de paternidade
e de maternidade, bem como da crença geral de que a felicidade é
obtida a partir do casamento e das uniões fecundas.
Mas sob que condição as forças de crença e de desejo
acumuladas em indivíduos distintos podem ser legitimamente
adicionadas? À condição de ter o mesmo objeto, de incidir sobre
uma mesma ideia a afirmar, sobre uma mesma ação a executar.
Mas como se produz essa convergência de direção que torna as
energias individuais capazes de formar um todo social? Será espon­
taneamente, por um encontro fortuito, ou por uma espécie de har­
monia preestabelecida? Não, a não ser talvez em casos bem raros;
e mesmo essas exceções, se tivéssemos tempo para examiná-las,
Gabriel Tarde 35

confirmariam a regra. Essa conformidade minuciosa de espíritos


e de vontades que constitui o fundamento da vida social, mesmo
nas épocas mais perturbadas; essa presença simultânea de tantas
ideias precisas, de tantos fins e meios precisos em todos os espí­
ritos e em todas as vontades de uma mesma sociedade num dado
momento; nada disso é o efeito da hereditariedade orgânica que
fez nascer homens muito semelhantes entre si, nem da identidade
do meio geográfico que teria oferecido recursos mais ou menos
iguais a aptidões mais ou menos iguais, e sim da sugestão-imitação
que, a partir de um primeiro criador de uma ideia ou de um ato,
propagou gradualmente seu exemplo. As necessidades orgânicas
e as tendências espirituais só existem em nós num estado de vir-
tualidades realizáveis sob as mais diversas formas, a despeito de
sua vaga similitude primordial; e foi a indicação de um primeiro
iniciador imitado que determinou, entre essas realizações possí­
veis, a escolha de uma delas.
Voltemos ao casal social elementar que mencionei anterior­
mente, não o casal do homem e da mulher que se amam - esse casal,
considerado do ponto de vista sexual, é puramente vital - mas o
casal de duas pessoas, seja qual for o sexo a que elas pertencem,
no qual uma age espiritualmente sobre a outra. Eu afirmo que a
relação entre essas duas pessoas é o elemento único e necessário
da vida social, e que ele consiste sempre, originalmente, em uma
imitação de um pelo outro. Porém é preciso bem compreender isto
para não cair sob o golpe de vãs e superficiais objeções. 0 incon­
testável é que dizendo, fazendo, pensando não importa o que, uma
vez engajados na vida social, nós imitamos outrem a cada instante,
a menos que nós inovemos, o que é raro; e ainda é fácil mostrar
que nossas inovações são, em sua maior parte, combinações de
exemplos anteriores, e que elas permanecem estranhas à vida
social enquanto não forem imitadas. Vocês não dizem uma palavra
que não seja a reprodução - agora inconsciente, mas inicialmente
consciente e desejada - de articulações verbais remontando ao
36 As Leis Soda is

mais longínquo passado, ainda que com um sotaque característi­


co da sua vizinhança; vocês não realizam um rito de sua religião,
sinal da cruz, beijo no ícone, prece, que não reproduza gestos e
fórmulas tradicionais, ou seja, formadas pela imitação dos ances­
trais; vocês não executam uma ordem qualquer, militar ou civil,
ou um ato qualquer de sua profissão, que não tenha sido ensinada
e que não tenham copiado de um modelo vivo; vocês não dão uma
pincelada, se são pintores, não escrevem um verso, se são poetas,
que não seja conforme aos hábitos ou à prosódia de sua escola;
até mesmo sua originalidade é feita de banalidades acumuladas, e
aspira a tornar-se banal por sua vez.
Assim, o caráter constante de um fato social, seja ele qual for,
é imitativo; e esse caráter é próprio e exclusivo dos fatos sociais.
Sobre esse ponto, entretanto, Giddings - que, por sinal, posicionou-
-se frequentemente no meu ponto de vista sociológico - mè fez
uma objeção ilusória: imita-se, diz ele, de uma sociedade a outra,
e mesmo inimigos se imitam, apoderando-se de armamentos, de
táticas de guerra, de segredos profissionais. Assim, o campo da
imitação ultrapassaria o campo da sociabilidade e não poderia ser
a característica deste.23Mas espanta-me que tal objeção venha de

23 Dando-se à palavra imitação a acepção larga que ela recebe num livro recente e já célebre
(0 Desenvolvimento Mental da Criança) de Baldwin, professor de psicologia da Universidade
de Princeton, pode-se dizer que a im itação é o fato fundam ental, não somente da vida
sociale da vida psicológica, mas da própria vida orgânica, na qual ela seria a condição para
o hábito e a hereditariedade. Mas a tese desse fino psicólogo, longe de contradizer a minha,
é na verdade sua veemente ilustração e confirmação. A imitação de homem a homem, tal
como eu a entendo, é a decorrência da imitação de estado a estado no mesmo homem,
imitação interna que eu mesmo já havia chamado de hábito e que, distinguindo-se da
primeira por características suficientem ente precisas, não me perm ite confundi-las. Bal-
dwin, que é antes de mais nada um psicofisiologista, explica muito bem a origem orgânica
e mental da imitação, e seu papel term ina precisamente no m om ento em que começa o
do psicossociólogo. É uma pena que seu livro não tenha antecedido meu livro sobre as
Leis da Imitação, pois suas análises teriam sido proveitosas. Mas elas não me obrigaram
a retificar em nada as leis e considerações enunciadas em minha obra. Em tod o caso, seu
livro é a m elhor resposta que posso dar àqueles que me censuraram por ter estendido
demais o sentido da palavra Imitação. Baldwin, estendendo-o m uito mais, prova que isso
não é verdade. Eu soube, durante a revisão deste texto, que Baldwin acaba de aplicar suas
ideias à sociologia [Social and Ethical Interprétations in Mental Development], e que ele,
seguindo um caminho independènte, foi conduzido espontaneamente a uma maneira
de ver bastante análoga àquela desenvolvida no meu livro Lois de l'Imitation.
Gabriel Tarde 37

um autor que percebe na luta entre sociedades um poderoso agente


de sua posterior socialização, de sua comunhão em uma sociedade
mais ampla elaborada por essas mesmas batalhas. Com efeito, não
é evidente que povos rivais ou mesmo inimigos tendem a se fun­
dir à medida que assimilam suas instituições? Assim, é certo que
cada novo ato de imitação tende a conservar ou fortificar o laço
social, não apenas entre indivíduos já associados, mas também
entre indivíduos ainda não associados, de modo que a imitação
prepara a associação de amanhã, ou seja, tece agora, por meio de
fios invisíveis, aquilo que irá se tornar um laço manifesto.
Não me deterei em outras objeções que me foram feitas, pois
elas provêm de um entendimento muito incompleto de minhas
ideias. Elas se desfazem por si mesmas aos olhos de quem se co­
loca claramente no meu ponto de vista. No que diz respeito a elas,
remeto à leitura de minhas obras.
Mas não basta reconhecer o caráter imitativo de todo fenô­
meno social. Eu afirmo, além disso, que essa relação de imitação
existiu, na origem, não apenas entre um indivíduo e uma massa
confusa de homens (como acontecerá mais tarde), mas entre dois
indivíduos apenas, entre os quais um, a criança, está nascendo
para a vida social, e o outro, o adulto, já socializado há muito
tempo, lhe serve de modelo individual. É avançando na vida que
nós iremos tomar como regra modelos coletivos e impessoais,
geralmente inconscientes; mas antes de falar, pensar e agir tal
como nós falamos, pensamos e agimos em nosso mundo, come­
çamos por falar, pensar e agir como ele (ou ela) fala, pensa e age;
e esse ele ou ela é um de nossos familiares. No fundo desse nós,
se procurarmos bem, não encontraremos outra coisa além de um
certo número de eles e elas que se embaralharam e se confundi­
ram ao multiplicar-se. Por mais simples que seja essa distinção,
ela é esquecida por todos aqueles que contestam que a iniciativa
individual tenha um papel criador numa instituição e numa obra
social qualquer, e acreditam dizer alguma coisa afirmando, por
38 As Leis Sociais

exemplo, que as línguas e religiões são obras coletivas, que as


massas, as massas sem nenhum dirigente, produziram o grego, o
sânscrito, o hebraico, o budismo, o cristianismo; e por fim, que a
explicação das formações e transformações das sociedades está
na ação coercitiva da coletividade sobre o indivíduo pequeno ou
grande, sempre modelado e sujeitado, e jamais na ação sugestiva e
contagiosa de indivíduos de elite sobre a coletividade. Na realidade,
tais explicações são ilusórias, e seus autores não percebem que
eludem a dificuldade principal ao postular uma força coletiva, uma
similitude, sob certos aspectos, entre milhões de homens: ou seja,
o problema de saber como essa assimilação geral pôde acontecer.
Podemos responder com precisão levando a analogia até onde
eu á conduzi, até a relação intercerebral entre dois espíritos, ao
reflexo de um no outro, e somente então se poderá explicar essas
unanimidades parciais, essas conspirações dos corações, essas
comunhões de espírito que, uma vez formadas e perpetuadas pela
tradição, imitação dos ancestrais, exercem uma pressão tão fre­
quentemente tirânica, e ainda mais frequentemente salutar, sobre
o indivíduo.24 Portanto, é a essa relação que o sociólogo deve se
ater, tal como o astrônomo se atém à relação entre duas massas
que atraem e são atraídas; é a ela que ele deve pedir a chave do
mistério social, a fórmula de algumas leis simples, universalmente
verdadeiras, que podem ser discernidas em meio ao caos aparente
da história e da vida humanas.
O que eu tenho a ressaltar no momento é que a sociologia,
assim compreendida, difere das antigas concepções que reinavam
sob esse nome tal como a astronomia moderna difere da dos gregos,
ou tal como a biologia, a partir da teoria .celular, difere da história

24 Não podemos esquecer esta observação, que é das mais simples: é sempre a partir da
mais tenra infância que entramos na vida social. Ora, a criança, que se volta para outrem
como a flor se volta para o Sol, sofre m uito mais a atração do que o constrangim ento
de seu meio familiar; e durante toda a sua vida, ela irá beber avidamente os exemplos
recebidos.
Gabriel Tarde 39

natural de outrora.25 Dito de outro modo, ela repousa sobre um


fundamento de similitudes e de repetições elementares e verda­
deiras, infinitamente numerosas e extremamente precisas, que
substituíram, como matéria primeira da elaboração científica, um
pequeno número de falsas ou vagas - e decepcionantes - analogias.
E eu posso acrescentar que, se por causa dessa substituição o lado
similar das sociedades progrediu em extensão e em profundidade,
seu lado diferencial também ganhou com a mudança. Sem dúvida
será preciso, daqui por diante, renunciar a essas diferenças factí­
cias que a “filosofia da história” estabelecia entre povos sucessivos,
espécies de grandes personagens de um único e imenso drama no
qual cada um tinha seu papel providencial a desempenhar. Conse­
quentemente, já não é permitido compreender essa expressão, da
qual tanto se abusou, o gênio de um povo ou de uma raça (e também
o gênio de uma língua, o gênio de uma religião), da mesma maneira
que ela era compreendida por nossos antecessores, mesmo tão
próximos como Renan e Taine. Emprestava-se uma originalidade
imaginária, aliás mal definida, a esses gênios coletivos, entidades
ou ídolos metafísicos; a eles eram atribuídas certas predisposições,
supostamente invencíveis, em relação a determinados tipos gra­
maticais, concepções religiosas e formas de governo; e neles eram
supostas, ao contrário, certas incompatibilidades absolutas a res­
peito de concepções ou instituições pertencentes a estes ou aqueles
entre seus rivais. Por exemplo, o gênio semita seria absolutamente
refratário ao politeísmo, ao sistema analítico das línguas modernas,
ao governo parlamentar; o gênio grego, ao monoteísmo; o gênio chi­
nês e o gênio japonês, a todas as nossas instituições e concepções

25 Em resumo, essa concepção é quase o inverso da concepção professada pelos evolucionis-


tasunilinearese também por Durkheim:ao invés de explicar tu do pela pretensa imposição
de uma lei de evolução que constrangeria os fenômenos de conjunto a se reproduzir, a se
repetir identicamente numa certa ordem, ao invés de explicar o pequeno pelo grande, o
detalhe pelo conjunto, eu explico as similitudes de conjunto pela acumulação de pequenas
ações elementares, o grande pelo pequeno, o conjunto pelo pormenor. Essa maneira de
ver está destinada a produzir na sociologia as mesmas transformações que a introdução
da análise infinitesimal produziu na matemática.
40 As Leis Sociais

europeias era geral... Se os fatos protestassem contra essa teoria


ontológica, seriam torturados até que fossem constrangidos a
confessar; seria inútil mostrar a esses teóricos a profundidade
das transformações sofridas pela propagação de uma religião
proselitista, de uma língua, ou de uma instituição como o júri, por
exemplo, bem além das fronteiras de seu povo e de sua raça de
origem, a despeito dos obstáculos que os gênios de outras nações
e de outras raças deveriam inelutavelmente lhes opor. Eles respon­
dem remanejando a ideia e fazendo uma distinção entre as raças
nobres e inventivas, as únicas investidas do privilégio de descobrir
e propagar descobertas, e as raças nascidas para a servidão, que
não possuem nenhuma compreensão das línguas, religiões e ideias
que tomam ou parecem tomar emprestado das primeiras. Por sinal,
negava-se a possibilidade de que esse proselitismo conquistador de
uma civilização sobre outras, de um gênio popular sobre outros,
pudesse franquear certos limites, e especialmente europeizar a
China e o Japão. Já foi provado o contrário em relação a este último,
e em breve irá acontecer o mesmo com o Império do Meio.
Mais cedo ou mais tarde, será preciso abrir os olhos para as
evidências, e reconhecer que o gênio de um povo ou de uma raça,
ao invés de ser o fator dominante e superior dos gênios individu­
ais que seriam seus rebentos e suas manifestações passageiras,
é muito simplesmente uma etiqueta cômoda, a síntese anônima
dessas inumeráveis originalidades pessoais, que são as únicas
verdadeiras, eficazes e ativas a cada instante, e que estão em fer­
mentação contínua no seio de cada sociedade graças a empréstimos
incessantes e a uma fecunda troca de exemplos com as sociedades
vizinhas. 0 gênio coletivo, impessoal, é portanto função e não fator
dos gênios individuais, infinitamente numerosos; ele é sua fotografia
compósita, e não deve ser sua máscara. E certamente não teremos
nada a lamentar, em relação ao pitoresco social capaz de suscitar
o interesse do historiador artista, quando chegarmos a perceber
através dessa fantasmagoria - esclarecida, mais do que dissipada
Gabriel Tarde 41

- sobre atores históricos vagamente caracterizados que chama­


mos de Egito, Roma, Atenas, etc., um pulular de individualidades
inovadoras, cada qual sui generis, marcada pelo seu próprio selo,
distinto e reconhecível entre mil.
Assim, posso concluir mais uma vez que, pela introdução
desse ponto de vista sociológico, estaremos fazendo precisamente
o que todas as outras ciências fizeram quando substituíram um
pequeno número de similitudes e diferenças, falsas ou vagas, por
inumeráveis similitudes e diferenças precisas e verdadeiras; e isso
será duplamente proveitoso para o artista e para o cientista, e
sobretudo para o filósofo, que deve, a não ser que ele mesmo seja
algo distinto, sintetizar ambos.
Mais algumas observações. Antes que se descobrisse algum
fato astronômico elementar, como a atração descrita pela lei newto-
niana, ou pelo menos a gravitação elíptica, houve conhecimentos
astronômicos heterogêneos - uma ciência da Lua, selenologia, uma
ciência do Sol, heliologia - mas não a astronomia. Antes que se
descobrisse um fato químico elementar (afinidades, combinações
em proporções definidas), houve conhecimentos químicos, químicas
especiais, do ferro, do estanho, do cobre, etc., mas não a química.
Antes que se descobrisse o fato físico essencial - a comunicação
ondulatória do movimento molecular - houve conhecimentos fí­
sicos: ótica, acústica, termologia, eletrologia, mas não a física. A
física tornou-se físico-química, a ciência da natureza inorgânica
inteira, quando entreviu a possibilidade de explicar tudo pelas leis
fundamentais da mecânica, ou seja, quando acreditou descobrir,
como fato inorgânico elementar, a reação igual e contrária à ação,
a conservação da energia, a redução de todas as forças em formas
de movimento, o equivalente mecânico do calor, da eletricidade,
da luz, etc. Enfim, antes da descoberta das analogias existentes,
do ponto de vista da reprodução, entre os animais e as plantas,
nem mesmo havia uma botânica e uma zoologia, mas botânicas e
zoologias, ou seja, uma hipologia, uma cinologia, etc. Mas a des-
42 Ai Leis Sociais

coberta de similitudes só conferia uma unidade muito parcial a


todas essas ciências esparsas, a esse.s membra disjecta da futura
biologia. A biologia somente nasceu de fato quando a teoria celular
veio mostrar o fato vital elementar, o funcionamento da célula (ou
do elemento histológico) e sua proliferação, perpetuada pelo óvulo,
ele mesmo célula, de modo que a nutrição e a geração passaram a
ser encaradas sob um mesmo ângulo.
Muito bem, trata-se agora de fazer, similarmente, a ciência
social a partir das ciências sociais. Já houve, com efeito, ciências
sociais, ao menos esboçadas, prelúdios de ciência política, de
linguística, de mitologia comparada, de estética, de moral, uma
economia política já bem avançada, muito antes que houvesse
o embrião de uma sociologia. A sociologia supõe um fato social
elementar. E ela o supõe com tal força que, enquanto não havia
chegado a descobri-lo - talvez porque ele estivesse na sua cára,
se me perdoam essa expressão - ela sonhava com ele, ela o imagi­
nava sob a forma de uma dessas similitudes vãs e imaginárias que
atravancam o berço de todas as ciências, e acreditava dizer algo
de profundamente instrutivo ao conceber uma sociedade como
um grande organismo, o indivíduo (ou, segundo outros, a família)
como a célula social, e toda forma de atividade social como uma
função de tipo celular. Eu já fiz os maiores esforços, juntamente
com a maior parte dos sociólogos, para desembaraçar a ciência
nascente dessa estorvante concepção. Ainda cabe uma palavra a
esse respeito.
O conhecimento científico sente com tal força a necessidade
de apoiar-se em similitudes e repetições que, antes de possuí­
das, criou outras, imaginárias, e ficou à espera das verdadeiras;
desse ponto de vista, é preciso classificar a famosa metáfora do
organismo social entre tantas outras concepções simbólicas que
tiveram a mesma utilidade passageira. A alegoria desempenhou
um papel imenso nas origens de todas as ciências, bem como de
toda a literatura. Na matemática, antes das sólidas generalizações
Gabriel Tarde 43

de Arquimedes, nós tivemos os devaneios alegóricos de Pitágoras


e Platão. A astrologia e a magia, vestíbulo da astronomia, balbucio
da química, estão fundadas sobre o postulado da alegoria universal
mais do que sobre o da analogia universal; elas admitem uma har­
monia preestabelecida entre as posições de certos planetas e os
destinos de certos homens, entre tal ação simulada e tal ação real,
entre a natureza de uma substância química e a do corpo celeste
que leva seu nome, etc. Não nos esqueçamos do caráter simbólico
dos procedimentos jurídicos primitivos, das ações da lei no direito
romano, antigos tateios da jurisprudência. Notemos também - pois
a teologia foi uma ciência dos nossos ancestrais, tal como a juris­
prudência - o abuso dos sentidos figurados atribuídos aos relatos
bíblicos por parte dos mais antigos teólogos, que viam na história
de Jacó a cópia antecipada da história de Cristo, ou daqueles que
simbolizavam os amores entre esposo e esposa no Cântico dos
Cânticos como sendo os amores entre Cristo p sua Igreja. Assim co­
meça a ciência teológica na Idade Média, assim começa a literatura
moderna no Roman de la Rose. Há uma grande distância entre essas
ideias e as ideias da Suma de São Tomás de Aquino. Encontramos
um vestígio desse misticismo simbólico ainda em nosso século, nas
obras agora esquecidas - porém dignas de serem exumadas em
razão de suas graças fenelonistas de estilo - de Père Gratry, que
acreditava ver no sistema solar o símbolo das relações sucessivas
entre a alma e Deus, em torno do qual, segundo ele, gira a alma.
Ainda segundo ele, o círculo e a elipse simbolizam toda a moral,
que está inscrita hieroglificamente nas seções cônicas.
E claro que eu não posso comparar essas excentricidades
aos desenvolvimentos parcialmente sólidos, e sempre sérios,
que Comte, e depois Herbert Spencer, e ainda mais recentemente
René Worms e Novicow, deram à tese da sociedade-organismo. Eu
aprecio o mérito e a utilidade momentânea dessas obras, ainda
que as critique. No entanto, agora generalizando o que já foi dito,
creio.ter o direito de enunciar a seguinte proposição: o progresso
44 As Leis Sociais

de uma ciência consiste em substituir as similitudes e repetições


exteriores, isto é, as comparações do objeto próprio dessa ciência
a outros objetos, por similitudes e repetições interiores, isto é,
comparações desse objeto consigo mesmo, considerado em seus
exemplares múltiplos e sob outros aspectos. A ideia do organismo
social, que encara a nação como uma planta ou um animal, corres­
ponde à ideia do mecanicismo vital, que encara uma planta ou um
animal como uma entidade mecânica. Mas não foi por meio dessa
comparação, aprofundada e prolongada, entre um corpo vivo e um
mecanismo, que a biologia progrediu, e sim pela comparação das
plantas entre elas, dos animais entre eles, dos corpos viventes entre
si.26E não é pela comparação entre as sociedades e os organismos
que a sociologia deu e ainda dará grandes passos, é pela compara­
ção das sociedades entre elas, é pelas inumeráveis coincidências
entre evoluções nacionais distintas, do ponto de vista da língua,
do direito, da religião, da indústria, das artes, dos costumes: e é
sobretudo pela atenção concedida a essas imitações de homem a
homem, que fornecem a explicação analítica dos fatos de conjunto.
Depois desses longos preliminares, chegou o momento de
expor as leis gerais que regem a repetição imitativa, que estão
para a sociologia como as leis do hábito e da hereditariedade estão
para a biologia, ou as leis da gravitação para a astronomia, e as
leis da ondulação para a física. Mas eu já tratei abundantemente
desse tema numa de minhas obras, As Leis da Imitação, à qual
tomarei a liberdade de remeter aqueles que têm interesse nesse
assunto. Todavia, convém trazer à luz algo que ainda não está
suficientemente claro, a saber, que todas essas leis decorrem, no
fundo, de um princípio superior: a tendência que possui um exem-

26 Do mesmo modo, não foram as comparações pita^óricas entre a matem ática e as


demais ciências que fizeram a matemática avançar; elas foram estéreis, ao passo que
a aproximação entre a geometria e a álgebra, conduzida por Descartes, foi fecunda;
mas foi somente a partir da invenção do cálculo infinitesimal, quando se desceu até o
elem ento matemático indecomponível cujas repetições indefinidas tu do explicam, que
a fecundidade matemática apareceu em sua plenitude.
Gabriel Tarde 45

plo, uma vez lançado num certo grupo social, a se propagar nele
segundo uma progressão geométrica se esse grupo permanecer
homogêneo. Não vejo nada de misterioso, aliás, nessa tendência.
Ela significa algo de muito simples: quando, por exemplo, se faz
sentir num grupo a necessidade de exprimir uma nova ideia por
meio de uma nova palavra, o primeiro a imaginar uma expressão
capaz de satisfazer essa necessidade só terá de pronunciá-la para
que, de boca em boca, ela seja repercutida por todos os falantes do
grupo em questão, e para que se espalhe, mais tarde, nos grupos
vizinhos. Isso não quer dizer em absoluto que essa expressão seja
dotada de uma alma que a leva a irradiar-se desse modo, tal como
o físico, ao dizer que a onda sonora tende a espalhar-se pelo ar, não
atribui a essa forma simples uma força própria, ávida e ambiciosa.27
Não, é apenas um modo de falar, que serve para dizer, num caso,
que as forças motoras inerentes às moléculas do ar encontraram
nessa repetição ondulatória um caminho de escoamento; e para
dizer, no outro caso, que a necessidade particular inerente aos
indivíduos humanos do grupo em questão foi satisfeita com essa
repetição imitativa, que poupa sua preguiça (análoga à inércia
material) do esforço que a invenção exige. Seja como for, não há
razão para duvidar dessa tendência à progressão geométrica; na
prática, porém, ela é entravada por obstáculos de vários tipos, e é
raro, embora não seja extremamente raro, que os diagramas esta­
tísticos relativos à difusão pública de uma nova invenção industrial
mostrem essa progressão regular. Que obstáculos são esses? Há
aqueles que provêm da diversidade de climas e raças, mas eles
não são os mais fortes; o entrave maior que detém a expansão de
uma inovação social (e sua consolidação em costume tradicional) é
alguma outra inovação igualmente expansiva que ela encontra em

27 Tampouco o naturalista, ao dizer que uma espécie tende a se propagar segundo uma
progressão geométrica, encara essa form a simples como possuindo por ela mesma,
independentem ente do Sol, das afinidades químicas, de todas as energias físicas que ela
meramente canaliza, uma energia e uma aspiração independentes.
46 As Leis Sociais

seu caminho, e que, para empregar uma metáfora física, interfere


nela. Com efeito, toda vez que alguém hesita entre duas maneiras
de falar, entre duas ideias, entre duascrenças, entre duas maneiras
de agir, está ocorrendo nele uma interferência de irradiações imi-
tativas, de irradiações imitativas que, a partir de focos diferentes,
muitas vezes distantes um do outro no espaço e no tempo (isto é,
focos de inventores e imitadores individuais primitivos), se pro­
pagaram até ele. Como resolver essa dificuldade? Quais serão as
influências decisivas? Essas influências, como já disse, são de dois
tipos: lógicas e extralógicas. É preciso acrescentar que mesmo es­
sas últimas são lógicas em certo sentido da palavra; por exemplo,
quando diante de dois exemplos, o plebeu escolhe cegamente o
exemplo do patrício, o camponês escolhe o do citadino, o provin­
ciano escolhe o do parisiense. No que eu chamei de cascata de
imitação, que corre de cima para baixo na escala social, por mais
cega que seja a imitação, ela sempre advém de uma presunção de
superioridade daquele que dá o exemplo; o modelo parece possuir,
sobre o imitador, uma autoridade social. Ocorre o mesmo quando,
entre o exemplo de seus ancestrais e o de um inovador estrangeiro,
o homem primitivo prefere sem hesitação o primeiro, que ele julga
infalível; ocorre o mesmo quando, diante do mesmo dilema, o indi­
víduo das modernas cidades faz a escolha contrária, convencido a
priori de que o novo é sempre preferível ao antigo. Não obstante,
uma opinião como essa, fundada sobre considerações extrínsecas
à própria natureza dos dois modelos comparados, das duas ideias
ou volições, merece ser cuidadosamente distinguida dos casos em
que a opção é baseada num juízo sobre o caráter intrínseco das
duas ideias ou das duas volições; e é para esse tipo de influências
decisórias que se pode reservar o epíteto de lógicas.
Por ora, nada mais direi, pois no próximo capítulo falaremos
novamente desses duelos lógicos e teleológicos, elementos da
oposição social. Acrescento apenas que as interferências das irra­
diações imitativas nem sempre são entraves mútuos; muitas vezes
47
Gabriel Tarde

elas são alianças mútuas e servem para acelerar, para amplificar


essas irradiações; e por vezes elas ocasionam uma ideia genial que
nasce de seu encontro e de sua combinação em um cérebro, como
veremos no capítulo consagrado à adaptação social.