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ESTADO DE MATO GROSSO

SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA E


TECNOLOGIA
UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO
CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE PONTES E LACERDA

FLAVIANYA APARECIDA ALMEIDA COSTA

AS ESCOLAS DO PENSAMENTO JURÍDICO

JAURU, MT
2020
2

FLAVIANYA APARECIDA ALMEIDA COSTA

AS PRINCIPAIS ESCOLAS DO PENSAMENTO JURÍDICO

Trabalho apresentado à disciplina de Teoria do


Direito I, do curso de Direito, da Universidade
do Estado do Mato Grosso, como atividade
avaliativa para a obtenção da 2° nota do
período letivo suplementar 2020/3

Professor: Douglas Henrique dos Santos


Silva

JAURU, MT
2020
3

Sumário
INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 4
1. JUSNATURALISMO............................................................................................. 5
1.2 A ESCOLA DO DIREITO NATURAL .............................................................. 7
2. POSITIVISMO JURÍDICO ................................................................................... 7
2.1 ESCOLA DE EXEGESE .................................................................................... 8
2.2 TEORIA PURA DO DIREITO ........................................................................... 9
3. HISTORICISMO JURÍDICO ............................................................................. 11
3.1 ESCOLA DOS PANDECTISTAS .................................................................... 12
4. ESCOLA TELEOLÓGICA ................................................................................. 12
5. TRIDIMENSIONALISMO JURÍDICO .............................................................. 13
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................. 14
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 15
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INTRODUÇÃO

A priori, devemos levar em consideração que “as formas mais rudimentares e toscas
de vida já implicam um esboço de ordem jurídica, é necessário, desde logo observar que o
homem viveu ou cumpriu o Direito sem propor o problema de seu significado lógico e moral”
(REALE, 2002). Logo, podemos dizer que o Direito é, antes de tudo, um fato social, pois está
na sociedade e fora dela não pode existir. “[...] é somente em um estágio bem maduro da
civilização que as regras jurídicas adquirem estrutura e valor próprios[...] é só então que a
humanidade passa a considerar o Direito como algo merecedor de estudos autônomos[...]
podendo-se dizer que a conscientização é a semente da Ciência do Direito [..] (REALE,
2002).
Com essa tomada de consciência, surgem as correntes hermenêuticas1, que tentam
definir o objeto de estudo da ciência jurídica, no entanto, como salienta o Professor Tércio
Sampaio Ferraz Júnior, o vocábulo ‘ciência’ não é unívoco. Portanto, apesar de ele designar
um tipo específico de conhecimento, não há um critério único que determine sua extensão,
natureza e caracteres, dando assim espaço para diversas interpretações acerca da metodologia
da Ciência do Direito. Dessa maneira, surge a Dogmática jurídica, que nas palavras do
Professor Miguel Reale:

Corresponde ao momento culminante da aplicação da Ciência do Direito,


quando o Jurista se eleva ao plano teórico dos princípios e conceitos gerais
indispensáveis à interpretação, construção e sistematização dos preceitos e
institutos de que se compõem o ordenamento jurídico.

Desse modo, o presente escopo tem por objetivo abordar as principais escolas do
pensamento jurídico, não pretendendo esgotar o assunto, mas sim traçar suas linhas gerais.
Estas serão: Jusnaturalismo, englobando a Escola do Direito Natural, o Positivismo Jurídico e
suas vertentes, o Historicismo Jurídico, a Escola dos Pandectistas e o Tridimensionalismo
Jurídico. Ademais, o trabalho foi engendrado com o auxílio de pesquisas bibliográficas,
primordialmente, obras jurídicas.

1
O termo ‘hermenêutica’ significa declarar, interpretar ou esclarecer e por último, traduzir. São múltiplas as
palavras para dar sentido ao termo, no entanto, todas elas nos levam ao sentido de ‘tornar compreensível’ ou
‘levar à compreensão’. (ZOVICO, 2008)
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1. JUSNATURALISMO

A doutrina do Direito Natural (ou Jusnaturalismo) é a mais antiga tentativa de


compreensão teórica abrangente do fenômeno jurídico. “O adjetivo natural, agregado à
palavra Direito, indica que a ordem de princípios não é criada pelo homem” (NADER, 2014).
Segundo esta, os seres humanos seriam titulares de direitos inatos, que decorreriam de um
código ético universal e absoluto de justiça. Para o Jusnaturalismo, a vida humana deve ser
regrada pelos justos princípios que antecedem as leis e que as sobrepõem, não podendo
nenhum humano ir de encontro a tais regramentos (BEDIN, 2014). Esse Direito existe em
toda parte, independentemente do território em que se encontre. Segundo Maria Helena Diniz
(2006):
[…] o bem, no sentido do valor ou da conveniência a certos fins, é inerente à
natureza humana. Portanto, o jusnaturalismo dos escolásticos concebia o
direito natural como um conjunto de normas ou de primeiros princípios
morais, que são imutáveis, consagrados ou não na legislação da sociedade,
visto que resultam da natureza das coisas e do homem, sendo, por isso,
apreendidos imediatamente pela inteligência humana como verdadeiros.

A doutrina do Direito Natural nasceu na Grécia Antiga. Entre os primeiros a


defenderem esta concepção estão o filósofo Heráclito de Éfeso (535-470 a.C.) e o escritor
Sófocles (494-406 a.C.). Este último, em sua famosa tragédia Antígona, formulou pela
primeira vez a questão central que envolve a doutrina do Direito Natural: existe um direito
superior à legislação positiva estabelecida pela vontade do soberano (BEDIN, 2014). Paul
Harvey (apud BEDIN, 2014), em obra de referência de literatura clássica resume a poesia
dramática de Antígona:

Creonte, rei de Tebas, havia proibido sob pena de morte para os


desobedientes o sepultamento do cadáver de Polineices. Antígona resolve
desafiar o edito ultrajante e realiza os ritos fúnebres do irmão. Surpreendida
nesse ato, ela é levada à presença do rei enfurecido. Antígona justifica seu
procedimento como sendo ditado pelas leis soberanas dos deuses. Creonte,
irredutível, condena-a a ser sepultada viva em uma caverna subterrânea.

A obra de Sófocles foi de grande importância para a discussão do Direito Natural e do


Direito Positivo, no que toca à independência daquele em relação a esse. Questionada por
Creonte se desobedeceria a sua determinação, respondeu Antígona, num dos mais famosos
passos da literatura clássica:
6

Sim, porque não foi Júpiter que a promulgou; e a Justiça, a deusa que habita
com as divindades subterrâneas jamais estabeleceu tal decreto entre os
humanos; nem eu creio que teu edito tenha força bastante para conferir a um
mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são
irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! E
ninguém sabe desde quando vigoram! Tais decretos, eu, que não temo o
poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham punir os
deuses! (SÓFOCLES, 2005)

Com isso, é possível compreender que os Jusnaturalistas sustentam que os seres


humanos nasceram como titulares dos direitos inalienáveis, e esses direitos nasceram não
porque o Estado os positivou, mas sim, porque esse direito estaria gravado em nossa essência,
como uma programação ética, e ela que nos conduziria para o certo, para o justo.
Ao longo da história, o Jusnaturalismo passou por diversas fases, com justificativas
diferentes quanto a sua origem. Na idade antiga, o Jusnaturalismo Cosmológico fundamentava
sua doutrina em uma ordem cósmica, ou seja, haveria uma lei cósmica que regeria a natureza.
Na idade média, o fundamento dos direitos naturais seria a vontade de Deus, este ficou
conhecido como Jusnaturalismo Teológico. No Jusnaturalismo Racionalista, que se deu na
idade moderna, o Direito Natural seria fruto da razão humana, possuidora de um senso de
justiça universal. Na idade contemporânea, após o holocausto da Segunda Guerra Mundial, o
debate sobre a existência de direitos inerentes aos homens foi retomado e a noção de direitos
naturais passou a residir na ideia de um consenso internacional sobre a existência dos direitos
humanos, relativizados com base nas diferentes culturas.
No entanto, apesar da discrepância entre as diversas fases sobre a origem do Direito
Natural, os caracteres desse permanecem em comum em todas elas. Para ilustrarmos melhor,
utilizaremos os aspectos elencados pelo jurista chileno Eduardo Novoa Monreal, onde
enumera como características fundamentais dessa doutrina:

1 - universalidade (comum a todos os povo); 2 - Perpetuidade (válido para


todas as épocas); 3 - imutabilidade (da mesma forma que a natureza humana,
o Direito Natural não se modifica); 4 - indispensabilidade (é um direito
irrenunciável); 5 – Indelebilidade (no sentido que não podem os direitos
naturais se esquecidos pelo coração e consciência dos homens); 6 - Unidade
(porque é igual para todos os homens); 7 - Obrigatoriedade (deve ser
obedecido por todos os homens); 8 - Necessidade (nenhuma sociedade pode
viver em o Direito Natural); 9 - Validez (seus princípios são válidos e podem
ser impostos aos homens em qualquer situação em que se encontrem) (apud
NADER, 2014).
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1.2 A ESCOLA DO DIREITO NATURAL

A denominada Escola do Direito Natural, vigente entre os séculos XVI e XVIII,


compreende a fase racionalista do Jusnaturalismo e teve como corifeus Hugo Grócio, Hobbes,
Spinoza, Pufendorf, Wolf, Rousseau e Kant. Segundo Luño Peña, os caracteres principais
dessa Escola foram os seguintes: racionalistas no método, subjetivista no critério, anti-
histórica nas exigências e humanitária no conteúdo (apud NADER, 2014).
Segundo Paulo Nader, esta escola deixou-se influenciar fortemente pela filosofia
racional e pretendeu, more geométrico2, formar códigos de Direito Natural. Concebeu este
como eterno, imutável e universal, não apenas nos princípios, mas igualmente em sua
aplicação prática. Para os jusnaturalistas, quando o legislador se desvincular da ordem natural,
estará criando uma ordem jurídica ilegítima. “O divórcio entre o Direito positivo e o Natural
gera as chamadas leis injustas, que negam ao homem o que lhe é devido” (NADER, 2014).
Essa Doutrina, apesar de propiciar o debate sobre a justiça (legitimidade) e
desenvolver o discurso sobre a dignidade humana, sem o qual não haveria direitos humanos e
democracia, foi criticada por alguns autores, pois segundo estes, a justiça não é um valor
absoluto e universal, sofrendo variações no tempo e no espaço e os direitos naturais são
construções extremamente vagas, que não oferecem uma segurança jurídica.

2. POSITIVISMO JURÍDICO

Francesco Carnelutti, no estudo intitulado “Balanço do positivismo Jurídico”, fala-nos


que o Positivismo jurídico é espécie jurídica do gênero positivismo, sendo, portanto, a
projeção do positivismo filosófico no setor do Direito (apud NADER, 2014). Logo, para
conceituarmos essa Doutrina, precisamos ilustrar o que é o positivismo filosófico.
O positivismo é uma das doutrinas filosóficas derivadas do iluminismo. Sua origem
mais remota se encontra em Condorcet, filósofo vinculado à Enciclopédia, para quem era
possível criar-se uma ciência da sociedade com base na matemática social, de acordo com
Michael Löwy (apud PENNA, 2016). Mas foi com Augusto Comte (1798-1857) que este se

2
Método filosófico de dedução de frases de princípios e axiomas de acordo com a natureza da matemática.
(EDUCALINGO, 2020)
8

tornou uma escola filosófica. Floresceu no século XIX, quando o método experimental era
amplamente empregado, com sucesso, no âmbito das ciências da natureza, assim, tinha como
principal objetivo inseri-lo no campo das ciências sociais. Almejava-se estudar a sociedade
através de observações empíricas que pudessem se comprovadas. Outro fator crucial para o
desenvolvimento dessa Doutrina filosófica foi a industrialização e o ideal de crescente
progresso e especialização (NADER, 2014).
A questão do método ganhou dimensão em sua concepção de produção de um saber
científico, daí a surgir o princípio da lei (PENNA, 2016). Para Comte, só existiria
verdadeiramente ciência no caso de os fenômenos permitirem, a partir da observação das
relações e de suas manifestações, antever os desdobramentos futuros. Com essa base teórica e
metodológica surgiu a Teoria dos Três Estados. Essa teoria se encontrava fundamentada em
seu método, que consiste em bases históricas, com um tratamento abstrato a consagrar as
grandes linhas evolutivas da humanidade. Para ele, a humanidade passaria por três etapas
epistemológicas e de organização social: a teológica ou mitológica, a metafísica e a positiva.
Na etapa Teológica a interpretação dos fenômenos que ocorriam, era pautada em uma
explicação cosmológica, atribuindo a responsabilidade aos deuses ou demônios. Na Etapa
metafísica, a explicação das coisas passa a ser feita através de princípios abstratos. A Etapa
positiva caracteriza-se pelo exame empírico dos fatos, sendo assim, considerada superior as
anteriores (NADER, 2014).
O Positivismo Jurídico, adotou os métodos do positivismo filosófico, rejeitando todos
os elementos abstratos na concepção do Direito, criticando veementemente a ideia do Direito
Natural, por julgá-la metafísica e anticientífica. Tendo como principal método a análise
empírica, o positivismo despreza todo e qualquer juízo de valor. Como salienta Paulo Nader,
para essa corrente de pensamento, o objeto da Ciência do Direito tem por missão estudar as
normas que compõem a ordem jurídica vigente. De tal maneira que sua preocupação é com o
Direito existente, sua maior expressão foi a Escola de Exegese.

2.1 ESCOLA DE EXEGESE

A Escola de Exegese, foi formada pelos comentadores do Código Napoleônico de


1804 (maior legislativo do mundo acidental, depois do Digesto Romano). O fundamento
dessa corrente era de concepção da perfeição do sistema normativo, na ideia de que a
legislação era completa e de que, na generalidade da lei, encontrava-se solução para todas as
9

situações jurídicas (ZOVICO, 2008). “A sua doutrina era o codicismo” (NADER, 2014).
Este, no dizer de Carnelutti, “é uma identificação exagerada ou exasperada do Direito com a
lei”. Ou seja, essa Escola reduziu o Direito a norma escrita (apud NADER, 2014).
Para esse sistema de interpretação do Fenômeno Jurídico, a função do jurista consistia
em extrair plenamente o sentido dos textos legais para apreender o significado deles
(ZOVICO, 2008). Logo, como consequência, essa Escola negava valor aos costumes e
repudiava a atividade criativa, mesmo que fosse mínima da jurisprudência.
As teses fundamentais dessa doutrina são: Identificação do direito com a lei, para o
positivismo legalista o Direito se esgota na lei. A afirmação da ideia de uma pretensa
perfeição racional do legislador, ou seja, o legislador seria perfeito, a ponto de criar leis
perfeitas, pois este era iluminado pela razão. Defesa da completude do sistema legal,
acreditava-se que a lei não tinha lacunas, ela poderia regular todos os fatos da vida social.
Ademais, considera-se também como questões cruciais, o reconhecimento da
coerência do sistema legislativo, isto é, a ausência de antinomias jurídicas, a lei seria tão
perfeita que ela não entraria em contradição com nenhuma outra norma. Defesa do monismo
jurídico, o Estado, através do legislativo ou executivo, seria o único produtor do direito.
Neutralização política do poder judiciário, o juiz não interpreta a lei, ele apenas aplica. Defesa
do método gramatical, a interpretação da lei ao pé da letra (NADER, 2014).
Essa Escola teve como corifeus “Proudhon, Melville, Blondeau, Delvincourt, Huc,
Aubry e Rau, Laurent, Marcadé, Demolombe, Troplong, Pothier, Baudry-Lacantinerie,
Duraton, etc.” (DINIZ, 2003). Os três principais períodos da Escola da Exegese são de 1804 a
1830 – Formação; de 1830 a 1880 – Apogeu, e 1880 em diante – Declínio (primeiras
alterações no Código Civil francês) (Melo, 2011).
Apesar das contribuições dessa corrente de pensamento para o âmbito da hermenêutica
jurídica, ela foi criticada por vários autores, que em síntese, se resume nas seguintes
pontuações: o direito não se esgota na lei, havendo outras fontes jurídicas; o sistema legal não
é perfeito, existe lacunas e antinomias; a aplicação dogmática da lei pode gerar profundas
injustiças.

2.2 TEORIA PURA DO DIREITO

Trata-se da mais refinada manifestação do positivismo jurídico (positivismo lógico).


Essa corrente foi gestada pelo grande jurista Hans Kelsen, durante a primeira metade do
10

século XX. Este, vai entender o Direito como uma realidade específica, desvinculada dos
demais ramos científicos e com objeto próprio, iniciando, assim, sua busca incessante pela
purificação da Ciência Jurídica, que, conforme sua Teoria Pura do Direito, deve pretender-se
infensa a influências externas, sejam elas sociológicas, ideológicas e/ou axiológicas (LIMA;
SOARES; NUNES, 2002).
Ao tempo de sua concepção, a Teoria Pura do Direito procurou ser uma reação ao
caráter interdisciplinar do estudo do fenômeno jurídico, que circunscrevia o Direito como um
ramo da sociologia ou da História ou nas abstrações provenientes do Direito Natural,
fenômeno então comum, que ameaçava a própria autonomia da Ciência Jurídica. Como
salienta o professor Miguel Reale:

Quando Hans Kelsen, na segunda década deste século, desfraldou a bandeira


da Teoria Pura do Direito, a ciência jurídica era uma espécie de cidadela
cercada por todos os lados, por psicólogos, economistas, políticos e
sociólogos. Cada qual procurava transpor os muros da Jurisprudência, para
torná-la sua, para incluí-la em seus domínios. Foi, dentro desse quadro, que
se manifestou o movimento de ‘purificação’ do Direito, que teve como
centro a capital da Áustria. Kelsen chamou sua doutrina de Teoria Pura. Por
querer livrá-la de elementos metajurídicos, excluindo do campo próprio e
específico do jurista uma série de problemas, apesar de reconhecer sua
legitimidade no plano da Psicologia, da Moral, da Economia, da Sociologia,
da História ou da Política.

Kelsen defendeu o monismo jurídico, ou seja, o Direito adviria exclusivamente de


origem estatal, propôs também a separação do Direito em face da moral, pois, segundo ele, o
jurista não poderia se contaminar pela moral na aplicação do Direito, pressupôs ser defeso ao
cientista do Direito a invocação a quaisquer elementos valorativos, de forma a extremar a
ciência jurídica das demais ciências, elegendo um método próprio que se ativesse
exclusivamente sobre seu objeto de estudo - a norma jurídica, sem qualquer intenção de
valorá-lo ou de interferir em seu conteúdo, mas apenas de descrevê-lo (LIMA; SOARES;
NUNES, 2002). Encontra-se nessa Doutrina a defesa de um sistema jurídico completo, ou
seja, a ausência de lacunas jurídicas.
Apesar das contribuições da Escola Normativa, deve-se ponderar que a experiência
jurídica não se resume à dimensão normativa, pois o Direito, introduzido na sociedade, está
intrinsicamente vinculado aos fatos e valores sociais. Ademais, faz-se mister salientar que o
esvaziamento do debate sobre a justiça favorece uma aplicação dogmática do Direito, como
foi feito no início do século XX, legitimando regimes totalitários em nome da lei. Além disso,
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a pretensão de exatidão se revelou inconsistente, pois o direito é um fenômeno cultural e


sempre aberto a múltiplas interpretações.

3. HISTORICISMO JURÍDICO

Trata-se do primeiro grande movimento de contestação ao Positivismo Legalista,


elucubrado na Alemanha, sobretudo por Friedrich Carl von Savigny, surgindo durante o
século XIX. O conjunto de pensadores oriundos desta corrente, questionava os fundamentos
da Escola de Exegese, negando que a lei estatal representasse verdadeiramente a vontade
popular e fosse a manifestação do direito (FERREIRA, 2014). Contrapunha-se também, a
Doutrina do Jusnaturalismo e seu esquema filosófico, propugnando a fundamentação do
Direito no espírito popular nacional, negando que o a norma positivada derivasse de um
direito natural, abstrato e racional.
Segundo essa Escola, que é comumente chamada de “Escola Histórica dos Juristas
Alemães”, todo ordenamento jurídico é algo historicamente identificado, bem como
exclusivamente próprio de um determinado povo. Deste, tal ordenamento é inseparável, não
estando sequer sujeito a enxertos e transmigrações (CUSTÓDIO, 2013), segundo Savigny, o
Direito vive na prática e no costume, que é a expressão imediata da “consciência jurídica
popular”. Seu objetivo era o desenvolvimento de uma ciência do direito positivo, que
conjugasse aspectos históricos e sistemáticos, implicando em conceitos jurídicos
organicamente ordenados (SONTAG, 2015). Para esclarecermos melhor, usaremos às
palavras do mestre Miguel Reale:

[...] sustentaram vários mestres que a lei é algo que representa uma realidade
cultural – ou, para evitarmos a palavra cultura, que ainda não era empregada
nesse sentido, - era uma realidade histórica que se situava, por conseguinte,
na progressão do tempo. Uma lei nasce obedecendo a certos ditames, a
determinadas aspirações da sociedade, interpretadas pelos que a elaboram,
mas o seu significado não é imutável.

As teses fundamentais dessa Doutrina são: a valorização do costume como principal


fonte do direito, pois os historicistas acreditam que a lei é muito abstrata, já o costume a todo
o momento estaria refletindo os anseios da sociedade. A afirmação do Espírito do povo
(Volksgeist), pois, cada povo tem um conjunto de certas características. A Defesa do
pluralismo jurídico, produção estatal e social do direito, pois ele não é um produto só do
12

Estado, mas também da sociedade. Defesa de uma interpretação histórica do Direito, para o
entendermos, deve-se entender o contexto histórico o antecedeu. A valorização do Direito
Romano no âmbito da ciência jurídica e, por fim, a demonstração da insuficiência racional do
legislador e da lei.
Dessa forma, os juristas alemães, engendravam seus estudos calcados na história de
seu povo, buscando costumes que expressassem o verdadeiro Direito germânico. Nessa
investigação, perceberam que alguns princípios jurídicos se repetem, sendo considerados os
conceitos fundamentais do Direito. Como consequência, a Escola Histórica termina na
chamada “jurisprudência dos conceitos”, denominada de Escola Pandectista (FERREIRA,
2018).

3.1 ESCOLA DOS PANDECTISTAS

O movimento de sistematização pautado no Direito Romano foi nominado de


Pandektenwissenschaft ou Pandektismus (Pandectística) (FERREIRA, 2014). Na Alemanha,
sob o influxo do historicismo jurídico, essa corrente não subordinou o Direito ao legislador,
mas construiu uma teoria do Direito Positivo partindo das normas singulares, tentando
estabelecer noções jurídicas fundamentais (ZOVICO, 2008).
Esta escola também foi manifestação do positivismo jurídico do século XIX, e,
considerava o Direito como um corpo de normas positivas, conferindo primazia à norma legal
e às respectivas técnicas de interpretação. Negava qualquer fundamento absoluto ou abstrato à
ideia do Direito. Dedicou-se ao estudo do Corpus Juris Civilis, de Justiniano, especialmente à
segunda parte desse trabalho, as Pandectas, onde apareciam as normas de Direito Civil e as
respostas dos jurisconsultos às questões que lhes haviam sido formuladas. O nome da escola
advém desse interesse pelas Pandectas (MENDONÇA, 2007).
Uma das principais diferenças dessa escola, como manifestação do Juspositivismo, é a
adoção da observância dos usos e costumes, o que levou os Pandectistas a uma interpretação
do texto legal mais “elástica do que a preconizada pela Escola de Exegese” (ZOVICO, 2008).

4. ESCOLA TELEOLÓGICA

A Escola Teleológica, também chamada de Teleologismo Jurídico, foi fundada pelo


Jurisconsulto alemão Rudolph Von Ihering (1818-1892). Ihering começa a desenvolver um
13

pensamento voltado para a ideia de que o Direito deve ser interpretado como sendo um
‘sistema autopoiético3’, ou seja, um sistema vivo. Assim, como organismo vivo, é um produto
de uma luta que tem por objetivo uma finalidade e não de um processo natural, como
pretendiam os Jusnaturalistas.

O fim do Direito é a paz, o meio de atingi-lo, a luta. Enquanto o direito tiver


de contar com as agressões partidas das arraias da injustiça- e isso
acontecerá enquanto o mundo for mundo- não poderá prescindir da luta. A
vida do direito é a luta – uma luta dos povos, dos governos, das classes
sociais, dos indivíduos (apud ZOVICO, 2008)

Logo, podemos concluir que o fim é o criador do Direito. Sendo assim, a lei deve ser
interpretada de acordo com sua finalidade. Pois, pelo mesmo motivo que todas as ações
humanas têm uma finalidade, também no Direito tudo existe com um propósito.

5. TRIDIMENSIONALISMO JURÍDICO

Essa corrente foi engendrada pelo jurista e professor Miguel Reale, em Fundamentos
do Direito (1940), uma de suas primeiras obras, onde apresenta os elementos básicos da sua
filosofia jurídica. Nessa obra o autor começa a discorrer sobre a concepção tridimensional da
experiência jurídica. O Tridimensionalismo jurídico de Reale é apresentado como alternativa
ao positivismo e ao idealismo jurídico, movimentos com forte presença na tradição jurídica
nacional do momento. O autor se propõe a utilizar novos métodos para a compreensão do
fenômeno jurídico, definidos em Filosofia do Direito como "o estudo crítico-sistemático dos
pressupostos lógicos, axiológicos e históricos da experiência jurídica" (REALE, 1978).
A teoria tridimensional do Direito de Miguel Reale foi criada como alternativa para as
concepções jurídicas de forte presença na cultura jurídica brasileira: os positivistas que
enfatizam ora a norma ora o fato e os idealistas focados nos valores distanciando-os dos fatos.
O que isso significa, foi resumido em Miguel Reale:

3
Autopoiese ou autopoiesis (do grego auto "próprio", poiesis "criação") é um termo criado na década de 1970
pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana para designar a capacidade dos seres
vivos de produzirem a si próprios.
14

Ética e filosofia do direito do seguinte modo: A compreensão tridimensional


do Direito sugere que uma Norma adquire validade objetiva integrando os
fatos nos valores Aceitos por certa comunidade num período específico de
sua História. No momento de interpretar uma norma é necessário
compreendê-la em função dos fatos que a condicionam e dos Valores que a
guiam. A conclusão que nos permite tal Consideração é que o Direito é
norma e, ao mesmo tempo, uma Situação normatizada, no sentido de que a
regra do Direito não Pode ser compreendida tão somente em razão de seus
enlaces Formais (apud CARVALHO, 2011).

O autor elabora uma Doutrina que traz a afirmação do direito como uma experiência
normativa, fática e valorativa. Reconhecendo a tridimensionalidade da norma jurídica:
“Normativo (o Direito como ordenamento e sua respectiva ciência), fático (o Direito como
fato ou em sua efetividade histórica) e axiológico (o Direito como valor de Justiça) ”
(REALE, 2002.)
Logo, podemos concluir que segundo essa corrente, aonde quer que exista um
fenômeno jurídico há um fato, um valor que confere significação a esse fato e uma norma que
ordena essa relação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As Escolas do Pensamento Jurídico, no geral, foram muito importantes para a


construção da Dogmática jurídica. As diversas interpretações acerca do Direito, contribuem
para a construção de diferentes métodos em busca do aperfeiçoamento dessa Ciência.
No Brasil, após a constituição de 1988, a corrente mais aceita foi o Pós- positivismo
Jurídico, a afirmação do direito como uma experiência normativa, fática e valorativa, ou seja,
o reconhecimento da tridimensionalidade da norma jurídica. Deve-se acrescentar a isso, a
valorização conjunta dos atributos da validade, legitimidade e efetividade do direito, dos
direitos humanos fundamentais e do regime democrático como eixos estruturantes do
pensamento jurídico e dos princípios constitucionais, como normas jurídicas e vetores da
interpretação do Direito. Houve também, o reconhecimento do pluralismo jurídico, criação
estatal e social do direito, da incompletude e incoerência do sistema jurídico e da ciência
jurídica como uma ciência cultural, relativa e inexata.
Por fim, é importante salientar que não se pretendeu circunscrever as escolas acima
citadas em um único lugar e em uma única época, pois suas influências se deram de modo
diverso. Ademais, deve-se considerar que todas as escolas foram de suma importância para a
15

história do pensamento jurídico, apresentando respeitáveis autores e teorias que acrescentaram


muito ao mundo do Direito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Nader, Paulo. 2014. Introdução ao Estudo do Direito. Rio de Janeiro: FORENSE, 2014.

BedinG. (2014). A Doutrina Jusnaturalista ou do Direito natural: uma introdução. Revista


Direito Em Debate.

Luño Peña, Historia de la Filosofia del Derecho, Editorial La Hormiga de Oro, S. A.


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BRUYNE, P. Dinâmica; GARDINER, P. Teorias; LINS, I. História

LÖWY, M. Ideologias; MENDES, R. Benjamin; MORAES FILHO, E. Comte.

ZOVICO, Marcelo Luis Roland. Hermenêutica e a Solução dos conflitos do Direito.


Orientador: Prof. Dr. Márcio Pugliesi. 2008. 159 p. Dissertação (Mestrado em Filosofia do
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2008.

DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução à ciência do direito. 15 ed. à luz da lei
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MELO, Liana Holanda de. Hermenêutica jurídica: a escola da exegese e o mito da


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