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Problemas Sociais Contemporâneos

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Apontamentos de: Leontina Agostinho


E-mail: leontina.a@gmail.com
Data: 2006/2007

Livro: Problemas Sociais Contemporâneos

Autor: Hermano Carmo

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I. ESTUDAR OS PROBLEMAS SOCIAIS
1.1 - Dos Problemas sociais aos problemas sociológicos:
O que são problemas sociais
1. Rubington e Weinberg – um problema social é uma alegada situação
incompatível com os valores de um significativo número de pessoas, que
concordam ser necessário agir para a alterar.
2. Spector e Kitsuse – um problema social é constituído pelo conjunto das acções
que indivíduos ou grupos levam a cabo ao prosseguirem reivindicações
relativamente a determinadas condições putativas.
A primeira definição centra-se na situação que é considerada problema, a segunda
definição privilegia o processo pelo qual uma situação é considerada como problema.
A definição consensual é difícil porque depende da perspectiva (dos sociólogos) que
se adopta.
Os problemas sociais, imbuídos de um significado social (porque se definem em
função de um conjunto de valores sociais), ao passarem pelo crivo do método
científico, adquirem um significado sociológico, isto é, reflectem valores sociológicos
relativos às perspectivas teóricas e metodológicas seguidas (Pais). Para que um
problema social possa ser considerado problema sociológico deve possuir as
condições de regularidade, uniformidade, impessoalidade e repetição.
A problematização sociológica dos problemas sociais implica mesmo a des-
construção destes, o desmantelar do significado social de maneira a criar um
significado de acordo com o discurso científico (Quivy, Campenhoudt 1992). Os
investigadores sociais debruçam-se sobre uma realidade autoconstruída e encontram
representações sociais que moldam a realidade e condicionam os próprios
investigadores.
Transformação de problema social em problema sociológico aludindo aos fenómenos
da juventude (Pais) e da velhice (Fernandes).
A juventude – É problematizada relativamente a aspectos variados como a inserção
profissional, a emancipação adulta, a toxicodependência, a crise dos valores
tradicionais. Mas, problematizar sociologicamente a juventude será questionar se os
jovens sentem estes problemas. Será questionar a definição de jovem, quais as
soluções que a sociedade preconiza para os problemas da juventude e quais as suas
consequências.
A velhice – Constitui um problema para algumas sociedades e não para outras. Foi
com a industrialização, a urbanização e o envelhecimento demográfico que
começaram a criar-se as condições para a definição da velhice enquanto problema
social a ser solucionado. Problematizar a velhice enquanto problema social será
questionar “que transformações ocorreram nas famílias e na sociedade portuguesa que
possam explicar a emergência do problema social quais os efeitos sociais da
institucionalização de espaços e práticas especificamente orientados para as gerações
mais velhas.
1.1.1 – A questão do positivismo versus relativismo:
O conhecimento sociológico pode ser situado num contínuo epistemológico que vai
do Positivismo ao Relativismo.

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A sociologia positivista
• Defende a procura de leis sociais (à semelhança das leis do mundo natural) a
partir de um método indutivo-quantitativo, e advoga uma separação absoluta
entre a Ciência e a Moral, isto é, entre os factos e os valores (Lapassade,
Lourau, 1973).
• Para a ciência positivista é possível conhecer objectivamente a realidade social,
uma vez que existem critérios universais do conhecimento e da verdade. Estuda
situações objectivas, que são definidas como problemas em razão de
características que lhe são próprias. Daí a necessidade de se conhecerem as suas
causas e de se chegar à elaboração das leis que regem o fenómeno.
Posição relativista
• Não existe nenhum critério universal para o conhecimento e para a verdade.
Todos os critérios utilizados serão sempre internos ao sistema cogniscente e,
como tal, serão relativos e não universais.
• A definição é sempre relativa, será antes de mais um rótulo colocado a
determinadas situações, e não uma característica inerente à situação em si
mesma.
Assim, o que importa estudar é a definição subjectiva dos problemas sociais.

1.1.2 -A aplicabilidade da ciência e o desenvolvimento teórico:


Um problema pressupõe uma solução. Os problemas sociais, que têm um significado
social, requerem uma solução social. Durante o século XIX o desenvolvimento das
ciências sociais, sociologia, esteve intimamente ligado ao estudo das preocupações
humanas para as quais os actores sociais pensaram e desenvolveram soluções
humanas, isto é, sociais.
A percepção dos fenómenos ligados à industrialização, à urbanização e ao
desenvolvimento tecnológico proporcionaram o nascimento de um novo tipo de
cientistas, que deviam aplicar à realidade social o método científico, que tanto sucesso
demonstrava no mundo natural.
Desde o início, os sociólogos tentam equacionar o que Rubington e Weinberg
denominam de mandato duplo:
1. Por um lado, dar atenção aos problemas existentes na sociedade, numa
perspectiva de correcção da realidade social, através de conhecimento empíricos
adquiridos (estudam os “problemas sociais”.);
2. Por outro lado, desenvolver teórica e metodologicamente a sociologia enquanto
ciência (estudam “problemas sociológicos”).
A ênfase que cada sociólogo coloca num prato ou noutro da balança condiciona o
modo como problematiza a sociedade e o seu trabalho como investigador.
Hester e Eglin, consideram que o primeiro tipo de perspectiva pode ser denominado
de sociologia correctiva que parte dos seguintes pressupostos:
Equivalência de problema social a problema sociológico;
As questões sociológicas derivam das preocupações sociais;
O grande objectivo do estudo sociológico é a melhoria dos problemas sociais;
Preocupação central com as causas ou etiologia dos problemas;
Compromisso com os princípios positivistas da ciência;

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Para estes autores, a sociologia correctiva falha nos seus propósitos precisamente
porque não separa a aplicabilidade da ciência do seu corpus teórico-metodológico, e
não reconhece os viezes que tal situação origina. Ao concentrar-se em responder à
questão porque é que os comportamentos acontecem, não questiona porque é que as
situações são definidas como problema, aceitando as definições socialmente
estabelecidas. Encara as pessoas como objectos e não como sujeitos que constroem a
realidade social.
Kurt Lewin defendia que uma boa teoria é sempre prática, e a prática empírica é
sempre indispensável ao desenvolvimento teórico. A separação entre os dois domínios
é um falso problema.
Sociologia de Intervenção – é a questão da aplicabilidade da sociologia e doutras
ciências sociais.
A Sociologia de Intervenção não é uma especialidade ou ramo sociológico, mas sim
um modo de ver o trabalho do cientista social que, em vez de isolar assepticamente o
investigador do seu objecto de estudo, o desafia a ser “contaminado” por este, o leva
intervir activamente na realidade que estuda e a não separar os papéis de investigador
e de cidadão. A investigação social deve ser utilizada para melhorar a sociedade,
segundo princípios humanista de solidariedade de libertação.

1.2 – As perspectivas de estudo dos problemas sociais


1.2.1 – As perspectivas da sociologia Positivista
1.2.1.1 – Patologia Social
No século XIX as disciplinas como a biologia e a medicina influenciaram os
sociólogos a adoptarem a analogia do organismo ao seu objecto de estudo: a
sociedade.
Adoptaram igualmente um modelo médico de diagnóstico e de tratamento. Os
problemas sociais são entendidos como doenças ou patologias sociais.
O pensamento organicista do britânico Herbert Spencer – defende que a sociedade e
os seus elementos podem sofrer malformações, desajustamentos e doenças, à
semelhança dos organismos vivos. Pressupõe um estado de saúde ou de normalidade
do organismo, sendo que as pessoas e as situações interfiram com este estado de
normal funcionamento do organismo social são assim considerados problemas sociais.
Para a corrente da Patologia Social, um problema social é uma violação de
expectativas morais. A condição de saúde ou normalidade do organismo é definida
por valorações do Bem do Mal.
A patologia pode ser encontrada no indivíduo ou no mau funcionamento institucional.
Os primeiros autores desta corrente, meados do século XIX até cerca da I Guerra
Mundial enfatizaram as más formações dos indivíduos. Foi a perspectiva do Homem
Delinquente, da escola positiva italiana de criminologia, donde se destacaram Cesare
Lombroso, Ferri e Garófalo.
Para Cesare Lombroso, era claro que a explicação do comportamento criminal dos
indivíduos estava em características fisiológicas particulares dos indivíduos, tamanho
de maxilares, assimetria facial, orelhas grandes ou a existência de um número anormal
de dedos. No século XX avançaram-se outras explicações de base psicológica ou
biológica, ao nível de anormalidade cromossomática (um duplo cromossoma Y) ou

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predisposição genética para a extroversão ligada a comportamentos de violação de
normas.
Na década de 1960 entram-se nas deficiências na socialização – Aqui os problemas
sociais seriam o resultado da incorporação de valores “errados” pelos indivíduos,
fruto de uma “sociedade doente”. Neste sentido, a solução para os problemas sociais
passaria pela educação moral da sociedade e pela incorporação de valores
moralmente correctos.
Vytautos Kavolis – propôs a conceptualização de patologia como sendo um
comportamento destrutivo ou auto-destrutivo. Para Kavolis a definição de
comportamento destrutivo seria possível em termos absolutos, isto é, igual em todas
as sociedades humanas. A patologia social estudaria os comportamentos destrutivos,
como patologias sociais, e igualmente as condições que causassem ou contribuíssem
para a existência desse comportamento.
Rosenquist defende que é impossível chegar a uma definição objectiva do que é
patológico a única forma de se estudarem os problemas sociais é passando ao lado do
que constitui a sua condição problemática e aceitar o julgamento social como um
dado.

1.2.1.2 - Desorganização Social


Com a década de 1920, a perspectiva da desorganização social ganha claramente
terreno na sociologia norte-americana. Esta nova abordagem iniciou um pensamento
sociológico mais voltado para o amadurecimento e para o desenvolvimento teórico e
metodológico da sociologia enquanto ciência.
Rubington e Weinberg, autores da patologia social trabalharam com
conceptualizações e termos emprestados de outras ciências e consideraram sobretudo
a aplicabilidade prática dos conhecimentos sociológicos na resolução de problemas
sociais.
Em contraste, os autores da perspectiva da desorganização social (teóricos desta teoria
foram: Charles Cooley, Thomas, Znainiecki e William Ogburn) utilizam um
conceito claramente sociológico e que apresenta um maior potencial de
operacionalização do que o conceito de patologia social.
Cooley fez a distinção entre:
Grupos primários, em que os indivíduos vivem relacionamentos face a face,
mais intensos e duradouros;
Grupos secundários, onde as relações sociais são mais impessoais e menos
frequentes.
Este autor definiu a desorganização social como sendo a desintegração das tradições.
As regras sociais deixam de funcionar.
Thomas e Znaniecki (no seu estudo sobre os imigrantes polacos) concepctualizaram a
desorganização social como a quebra de influência das regras sociais sobre os
indivíduos.
Ogburn centrou-se no conceito de desfasamento cultural. Para a perspectiva da
desorganização social a sociedade não é um organismo mas sim um sistema composto
por várias partes interdependentes. As partes do sistema cultural podem modificar-se
a ritmos diferentes, produzindo um desfasamento no sistema que origina a
desorganização social.

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Robert Park, Ernest Burgess e Rodrick McKenzie, estudaram a organização espacial
da cidade, o fenómeno da urbanização é central para a perspectiva da desorganização
social ao estar relacionado com o enfraquecimento das relações face a face e das
tradições sociais.
Park afirmou que a organização social se baseia nas tradições e nos costumes e que
tudo o que perturba os hábitos sociais, ou seja, a mudança social, tem potenciais
efeitos desorganizadores.
A desorganização social e por conseguinte os problemas sociais, têm uma distribuição
desigual pelas zonas da cidade, apresentando maior intensidade numa zona de
transição, onde se concentram os migrantes recentes (imigrantes e população vinda
das zonas rurais) e onde é maior a quebra do peso das tradições.
Apesar do conceito de desorganização social se tenha revelado de grande utilidade
para a compreensão de um mundo onde a mudança começava a ser mais rápida,
começaram também a ser postas em evidência as fraquezas desta perspectiva.

Críticas de Marshal Clinard ao conceito de desorganização social:


O seu poder explicativo para a sociedade em geral é reduzido, por ser um
conceito demasiado vago e subjectivo. Será mais adequado para a análise de
grupos mais específicos e não para toda a sociedade.
Confundiu-se desorganização social com mudança social, o que desde já deixa
por explicar porque é que nem todas as mudanças originam desorganização, e
implica que se prove que a situação anterior era de desorganização.
É um conceito fortemente sujeito aos julgamentos de valor do investigador, tal
como o conceito de patologia. Por um lado, tende-se a considerar desorganização
numa perspectiva negativa, como se todas as situações de desorganização sejam
por essência “más”.
Aplicou-se o conceito de desorganização social a situações que não são de
desorganização, mas que, pelo contrário, traduzem outros tipos de organização, de
que é um exemplo típico do que se passa nos bairros de lata.
O sistema social pode acolher em si focos de desorganização ou a existência de
comportamentos desviados sem que tal comprometa o seu funcionamento, desde
que outros objectivos do sistema estejam a ser alcançados, contrabalançando as
influências destabilizadoras que possam existir.
No seguimento da crítica anterior, ao constatarmos a existência de diferentes
formas de organização social, não podemos inferir que tal situação seja desastrosa
para a sociedade, podendo pelo contrário ser indispensável para a manutenção da
coesão social.
Outra crítica também importante é que a perspectiva da desorganização social utiliza
frequentemente explicações circulares para os problemas de desorganização
(Aggleton 1991) ou seja o mesmo facto é considerado indicador e causa de
desorganização social (exp. desemprego).

1.2.1.3 - Conflito de Valores:


Outro modo de ver os problemas sociais é considerá-los como o reflexo de um
conflito de valores na sociedade relativamente a uma dada situação. Ou seja,

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confrontos de grupos sociais com interesses diferentes, em que o conflito é a dinâmica
central da vida social.
A patologia social e a desorganização social equacionaram os problemas sociais como
condições objectivas menosprezando a definição subjectiva que os indivíduos
pudessem fazer da situação em causa. Assim o conflito de valores evidência a
importância da definição subjectiva sem a qual a condição objectiva de base não seria
só por si um problema social.
Os teóricos desta corrente (com especial impacto nos ano 30 e anos 50 grande
Depressão e II guerra mundial) foram Richard Fuller e Richard Myers e distinguiram
três tipos de problemas que afectam as sociedades:
1. Problemas físicos
2. Problemas remediáveis
3. Problemas morais
Problemas físicos – que não são causados pela acção humana (sismos) existe um
consenso geral de que a condição objectiva é indesejável e nada se pode fazer para
controlar as causas do problema. Mas podem surgir conflitos quanto ao que fazer para
tratar as suas consequências.
Problemas remediáveis – (delinquência juvenil), apresentam consenso quanto à
indesejabilidade da situação e quanto à necessidade de agir para a corrigir, mas criam-
se conflitos no que diz respeito ao conteúdo da acção, ou seja, o que fazer.
Problemas morais – (consumo de marijuana, eutanásia) são os mais complexos, pois
não existe consenso quanto à própria indesejabilidade da situação.
Os problemas podem passar de um tipo para outro, acompanhando as mudanças nos
valores sociais.

Segundo Fuller e Myers, os problemas sociais evoluem segundo três fases:


1. A tomada de consciência do problema – quando os grupos sociais começam a
encarar uma dada situação incompatível com os seus valores, reconhecendo a
necessidade de agir.
2. Fase de determinação política – um processo de clarificação dos valores e das
posições em presença e definição de propostas de acção.
3. Fase das reformas – na qual são postas em prática determinadas soluções para
o problema, que podem ser levadas a cabo por agentes públicos ou por
organizações privadas.

1.2.1.4 – Comportamento Desviado:


Em meados do século XX havia cada vez maior disposição para a integração entre
teoria, pesquisa empírica e aplicação prática. Esta intenção de integrar campos está na
base da perspectiva de comportamento desviado. Observou-se uma clara tentativa de
conciliar as duas grandes escolas que dominavam o pensamento académico da
sociologia norte-americana:
1. A Escola de Harvard, de ênfase teórica,
2. A Escola de Chicago, empírica e descritiva.
Durkheim – o conceito de anomia significava uma ausência de normas para quebrar
as regras. Em períodos de mudança rápida, as regras que normalmente limitam os

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indivíduos perdiam essa influencia, deixando-os à deriva e sujeitos à frustração o que
podia levar ao suicídio.
Merton – Conceito de anomia refere-se ao desfasamento entre metas culturais a
atingir e os meios que a sociedade proporciona para o efeito. A estrutura cultural de
uma dada sociedade coloca uma série de metas a atingir pelos seus membros, numa
certa hierarquia de importância. Para o prosseguimento das metas culturais, a estrutura
social proporciona os meios considerados aceitáveis. Se determinadas metas culturais
forem enfatizadas mas os indivíduos não dispuserem dos meios sancionados pela
estrutura social, estaremos perante uma situação de anomalia. Merton referiu que a
sociedade norte-americana que sobrevaloriza o valor do sucesso, deixa de lado largos
segmentos da população sem os meios para o alcançar.
Daqui resulta que o comportamento desviado é entendido como normal em relação a
situação anormais. O comportamento desviado dependerá da assimilação das metas
culturais e das normas institucionais, e da acessibilidade dos meios legitimados pela
sociedade.
Segundo Merton, o desfasamento entre meios e metas dá origem a quatro tipos de
adaptação individual:
1. Inovação – na qual as metas são mantidas mas são utilizados novos meios para
as alcançar (roubar, ou subornar);
2. Ritualismo – pelo qual se renuncia às metas, mas se sobrevaloriza os meios;
3. Evasão – na qual tanto os meios como as metas são renunciados (alcoolismo);
4. Rebelião – quando se pretende instaurar novas estruturas de metas e de meios.
Podemos analisar diversos tipos de problemas sociais com este modelo de análise,
desde os que envolvem comportamentos delinquentes ou criminosos, à burocracia,
movimentos ecologistas e fundamentalismos vários, entre outros.
Edwin Sutherland – desenvolveu a teoria da associação diferencial, centrando-se no
processo pelo qual se dá o comportamento desviado.
Mais tarde, Edwin Sutherland em conjunto com Donald Cressey, apresenta em nove
pontos este processo de génese do comportamento criminoso:
1. O comportamento criminoso é aprendido, não é inato;
2. É aprendido pela interacção com outros indivíduos num processo de
comunicação;
3. A aprendizagem mais importante é feita em grupos primários;
4. A aprendizagem envolve, por um lado, as técnicas necessárias ao crime e, por
outro lado, os motivos, as racionalizações e as atitudes a ele ligadas;
5. Os motivos e os impulsos são aprendidos segundo a definição favorável ou
desfavorável aos códigos legais;
6. Um indivíduo torna-se delinquente pela razão de encontrar um excesso de
definições favoráveis à violação da lei em detrimento das definições
desfavoráveis à violação da lei;
7. A associação diferencial varia em termos de frequência, duração, proximidade e
intensidade;

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8. O processo de aprendizagem dos comportamentos criminosos e não criminosos
integra todos os aspectos normalmente envolvidos em qualquer tipo de
aprendizagem;
9. As necessidades e os valores gerais (segurança, riqueza material) que são
reflectidos pelo comportamento criminoso não explicam este mesmo
comportamento, uma vez que outros comportamentos não criminosos também
os reflectem.
Os sociólogos da corrente do comportamento desviado consideraram que as teorias da
anomia e da associação diferencial se completavam, e desenvolveram tentativas de
síntese das duas teorias.
Albert Cohen (1968) – na sua teoria da sub cultura delinquente – sustentou que os
jovens da classe trabalhadora enfrentavam uma situação de anomia no sistema
escolar, pensado segundo os valores da classe média. Na a escola eram ensinados os
valores mas eram vedados os meios legítimos para os poderem atingir. Em resultado,
os jovens uniam-se e formavam uma cultura própria que violava os códigos legais. As
novas normas eram socializadas através do processo da associação diferencial.
Richard Cloward e Lloyd Ohlin (1966) – teoria da oportunidade – sustentam que não
basta considerarmos a estrutura de oportunidades legítimas na génese do
comportamento delinquente; é igualmente essencial ter em conta a estrutura de
oportunidades ilegítimas. Não é só uma questão de ausência de oportunidades legais,
mas também da presença de oportunidades ilegais.
A perspectiva do comportamento desviado entende que os problemas sociais
reflectem, de forma mais ou menos directa, violações das expectativas normativas da
sociedade, sendo que todo o comportamento que viola essas expectativas é um
comportamento desviado. A solução para os problemas de comportamento desviado
deverá passar pela ressocialização dos indivíduos e pela mudança da estrutura social
de oportunidades, para que sejam aumentadas as oportunidades legítimas e diminuídas
as oportunidade ilegítimas.

1.2.2 – As perspectivas da Sociologia Relativista:


Três perspectivas que seguem uma visão relativista da ciência, de base interaccionista
(o labeling e o construtivismo social) e estruturalista (a perspectiva crítica). Nelas se
defende, em oposição ao positivismo, que o conhecimento é socialmente construído.
Se assim é, a questão é saber como é que a realidade faz sentido para as pessoas e
através de que processos estas dão e partilham significados sociais.

1.2.2.1 – Labeling:
Na descrição da teoria de labeling ou teoria da rotulagem os nomes importantes foram
Georg Herbert Mead, Blumer e Goffman.

Mead – (concebeu a formação do Ego como o resultado das interacções sociais com
Outros Significativos) Os indivíduos aprendem a ver-se como objectos sociais e
comportam-se de acordo com esta percepção. As pessoas interagem
fundamentalmente através de símbolos (sons, imagens) e os seus significados
emergem da interacção social. O comportamento irá depender do entendimento que
fizerem desses símbolos, num processo de reajustamento continuado.

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Herbert Blumer – desenvolveu a ideia de que os significados não são dados, mas
requerem uma interpretação activa por parte dos actores sociais envolvidos.
Erving Goffman – introduziu o conceito de identidade social, para se referir às
qualidades pessoais que permanecem constantes em diferentes situações. Defendeu
ainda que a identidade social pode ser consolidada pelas reacções dos outros ao
comportamento dos indivíduos. Se as reacções forem negativas, as pessoas podem ser
forçadas a aceitar uma spoiled identity, processo que Goffman define como de
estigmatização.
Embora os autores acima referidos terem sido fundamentais para a teoria do labeling,
os nomes pioneiros da perspectiva propriamente dita são Edwin Lemert e Howard
Becker.
Edwin Lemert – defendeu a teoria de que o desvio é definido pelas reacções sociais e
introduziu os conceitos de desvio primário e desvio secundário. Esta distinção de
conceitos baseia-se noutra distinção que Lemert estabeleceu entre comportamento
desviado e papel social desviado. O desvio primário comporta causas biológicas e
sociais.
Mas a causalidade dos papéis sociais desviados, ou desvio secundário, reside na
interacção social entre o indivíduo que é definido como desviado e a sociedade onde
se insere. A reacção social ao desvio primário está assim na origem do desvio
secundário.
Segundo Lemert a Sequência de interacção que leva ao desvio secundário pode
esquematizada da seguinte forma:
1. Ocorrência do desvio primário;
2. Sanções Sociais;
3. Recorrência do desvio primário;
4. Sanções sociais mais pesadas e maior rejeição social;
5. Continuação do desvio, agora com possível hostilidade e ressentimento por
parte do indivíduo desviado para com aqueles que o sancionam;
6. O coeficiente de tolerância chega a um ponto crítico, que se reflecte nas acções
formais de estigmatização do indivíduo levadas a cabo pela comunidade;
7. Fortalecimento do comportamento desviado como reacção à estigmatização e às
sanções;
8. Aceitação do estatuto de desviado por parte do indivíduo estigmatizado e
consequentes ajustamentos com base no novo papel social.
Esta perspectiva é reforçada por Howard Becker ao introduzir o conceito de labeling,
que deu o nome a esta corrente, e o conceito de carreira desviante.
Becker defendeu que o comportamento desviado é aquele que a sociedade define
como desviado.
Para que alguém seja rotulado de desviado é necessário percorrer uma série de fases
sequenciais, num processo de interacção dinâmico, a que Becker apelidou de carreira
desviante.
O que a perspectiva do labeling constatou é que nem todos os que violam as normas
são rotulados de desviados, o que nos leva a considerar que, em última instância, todo

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este processo traduz uma certa equação do poder na sociedade: quem define as regras,
que aplica os rótulos, quem é rotulado.

A crítica à corrente labeling é que por um lado, afirmar que o desvio é originado antes
de mais pela formulação das regras que são violadas e pelas reacções a esta violação
das normas, soa como uma desculpabilização e desresponsabilização dos
comportamentos em vez de uma explicação dos mesmos.
Por outro lado, para posições politicas mais à esquerda, a corrente do labeling ficou
aquém do que podia ter ido na critica social ao concentrar-se unicamente no processo
de criação e imposição dos rótulos sociais, sem ter ligado este processo com as
desigualdades na estrutura social.

1.2.2.2 – Perspectiva Crítica:


A perspectiva crítica é também denominada de perspectiva radical e centrou-se na
questão da influência do poder na definição dos comportamentos desviados e dos
problemas sociais, e numa concepção alargada da contextualização social do desvio.
A fundamentação desta corrente está no pensamento marxista. Tem assim uma
postura de conflito na génese dos problemas sociais. Segundo a tradição marxista, os
modos de produção da infra-estrutura económica determinam relações sociais
distintas. No estádio capitalista de desenvolvimento, a divisão social mais importante
é a que separa os que possuem os meios de produção, a classe capitalista, dos que têm
unicamente a sua força de trabalho para vender, e que constituem a classe
trabalhadora.
Para a perspectiva crítica os problemas sociais advêm das relações sociais impostas
pelo modo de produção, e traduzem a necessidade de controlo da classe capitalista e a
necessidade de resistência e acomodação das classes exploradas. O tipo e a gravidade
dos problemas sociais ficam particularmente dependentes das condições económicas
conjunturais e da consciência de classe que os trabalhadores possam ter.
A solução para os problemas sociais reside na mudança (revolucionária) do sistema
social de classes para uma sociedade sem classes, ou seja, sem exploração humana,
sem injustiças e sem desigualdades.
Os anos 70 são uma década de crise de profunda crítica social e foi um período de
renascimento das grandes discussões teóricas.
Os autores mais significativos são Ian Taylor, Paul Walton e Jock Young que deu o
nome à corrente da nova criminologia ou criminologia radical. Segundo eles, o desvio
deve ser analisado de forma materialista e histórica:
Materialista porque deve ser analisado o contexto material e Histórica porque se deve
relacionar o desvio com a evolução histórica dos modos de produção.
Esta perspectiva tem sido fortemente criticada por autores positivistas que
argumentam ser este tipo de abordagem mais uma ideologia do que uma teoria
científica. Ou seja a perspectiva crítica centrou-se na explicação da génese das leis e
no funcionamento das instituições de controlo e negligenciou a explicação dos
comportamentos desviados.
Outra critica é relativa à ênfase dada por esta corrente às questões de classe e de poder
económico, esquecendo-se de outras fontes de conflito social como o género, a idade
ou diferenças raciais.

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1.2.2.3 – Construtivismo Social:
Refere-se a correntes teóricas cuja ideia central e geradora é a de que as pessoas criam
activamente a sociedade.
Os autores Peter Berger e Thomas Luckmann defendem que a sociedade é uma
produção humana e o Homem é uma produção social. A sociedade é ao mesmo tempo
uma realidade objectiva e subjectiva. È objectiva porque é exteriorizada,
relativamente aos actores sociais que a produzem, e é objectivada, sendo constituída
por objectos autónomos dos sujeitos sociais. É uma realidade subjectiva porque é
interiorizada através da socialização.
Para John Kitsuse e Malcolm Spector a questão deverá ser colocada antes de mais,
saber porque é que algumas situações são consideradas problemas sociais e outras
não, tentando explicar o surgimento do próprio rótulo de problema social. Só através
da problematização sociológica será possível chegar a uma teoria social dos
problemas sociais.
A condição objectiva do problema social é, portanto, posta de lado pela perspectiva
construtivista pois esta não é essencial para a existência de um problema social.
É a definição subjectiva do problema social que se revela essencial para a existência
do mesmo e como tal só esta deve ser investigada pelos sociólogos. (violência
conjugal, trabalho infantil) situações que só se converteram em problemas sociais
quando se estabeleceu com sucesso um movimento de reivindicação que definia estas
situações como problemas e onde os mass media tiveram uma enorme importância.
Um problema social só se constitui em razão de todo um processo de reivindicação e
reacção social.
Importa identificar quem define uma dada situação, real ou virtual, como problema
social; quais as razões que apresenta, quem reage a esta pretensão e que tipo de
dinâmica se estabelece entre as duas partes.
Somente após o estudo empírico do processo de definição de cada problema social é
que podem ser elaboradas possíveis soluções para o mesmo. Ao contrário das
correntes que abordámos anteriormente, a perspectiva construtivista não apresenta
soluções a priori para os problemas sociais.
Ou estudamos a delinquência juvenil, investigando aspectos como as causas do
comportamento desviado pelos jovens, a evolução dos casos de delinquência;
Ou a sua distribuição pelos estratos socio-económicos;
Ou então estudamos o problema social da delinquência juvenil, ou seja, como é que a
sociedade veio a reconhecer este fenómeno como problema social, e neste caso não é
essencial que se saibam as causas do comportamento desviado em questão.
SÍNTESE: Sumário das sete perspectivas de abordagem dos problemas sociais. Aspectos
chave:
Perspectiva Definição de Problema Elemento Central
Social
Patologia Social Violação de expectativas morais Pessoas
Falha no funcionamento das
Desorganização Social Regras sociais
regras sociais
Situação incompatível com os

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Conflito de Valores valores de um grupo social Valores e Interesses
Comportamento Violação de expectativas Papéis sociais
Desviado normativas
Resultado da reacção social a
Labeling Reacções sociais
alegada violação de normas ou
expectativas
Resultado da exploração da classe
Perspectiva Radical Relações de classes
trabalhadora
sociais
Processo pelo qual grupos sociais
Construtivismo Social reivindicam que uma dada Processo de
situação é um problema social reivindicação

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II. PERSPECTIVAS POLÍTICO-DOUTRINÁRIAS SOBRE
OS PROBLEMAS SOCIAIS
2.1 – Os problemas sociais e a alteração do papel do Estado:
Os modos como os problemas sociais têm sido encarados pela sociedade, bem como
foram concebidos e implementados os sistemas para lhes dar resposta, evoluíram
significativamente ao longo da história humana. Principalmente nas sociedades pré-
industriais.
2.1.1 – O Estado Protector:
Estado protector é o modelo, que segundo alguns autores, surgiu com a desagregação
da sociedade do Ocidente medieval que se encontrava no poder do soberano.
O poder não uma simples capacidade de obrigar, mas que traduz a resultante da tensão
entre tal capacidade e a vontade de obedecer. A centralização registada resultou de
duas tendências
Um processo de concentração da capacidade de obrigar por parte do poder
político, de que foram expressão entre outras, a criação dos exércitos nacionais e a
concentração progressiva do poder tributário;
A emergência de um consenso crescente sobre a vontade de obedecer, do sector
que mais tarde se viria a chamar sociedade civil.
O modelo de Estado que daqui resultou, privilegiou os fins de segurança e de justiça
em detrimento do fim de bem estar social que, por regra, foi remetido para a
sociedade civil, ainda que por vezes se tenham observado incursões orientadoras
dessa actividade por parte de acções das casas reais e aristocracia. Um modelo de
intervenção claramente assistencial como é o caso Das Misericórdias.

Estado Protector
Desagregação da sociedade feudal

Concentração da capacidade de obrigar pelo Maior consenso na vontade de obedecer por


poder político parte da sociedade civil

Estado Protector
Objectivos:
• Produzir segurança
• Reduzir a incerteza
Fins dominantes do Estado:
• Segurança
• Justiça
Características dominantes do aparelho de Estado:
• Pequena dimensão
• Organização relativamente difusa
• Pilotagem centralizada

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Para garantir a eficiência do Estado Protector, o príncipe recorreu a dois tipos de
pessoas:
Políticos profissionais e semi-profissionais que pertenciam a grupo de
clérigos, literatos humanistas, nobreza cristã, gentries inglesa e os juristas.
Aos funcionários profissionais que pouco a pouco foram aumentando na
Europa em função da progressivamente maior complexidade dos problemas
que ao Estado competia resolver. A Administração financeira, da técnica
guerreira e da actividade jurídica com um profissionalismo especializado, deu
origem ao predomínio do absolutismo do príncipe em que os funcionários
profissionais auxiliaram e foram indispensáveis para vencer o poder feudal.

2.1.2 – O Estado Providência:


Com a revolução industrial e a emergência de problemas económicos e sociais que daí
resultaram, o Estado foi chamado a assumir funções de regulação e de orientação cada
vez maiores tendo emergido a consciência de que o Bem-Estar constituía um fim do
Estado. As tendências foram para um papel cada vez mais intervencionista da
Administração Pública.
Estado Providência
Revolução Industrial

Problemas económicos Problemas sociais

Crescimento e radicalização das funções do Estado

Estado Providência
Objectivos:
• Produzir segurança
• Reduzir a incerteza
• Promover a regulação e a orientação socio-económica
Fins dominantes do Estado:
• Segurança
• Justiça
• Bem-estar
Características dominantes do aparelho de Estado:
• Dimensão progressivamente maior
• Organização progressivamente mais complexa
• Pilotagem progressivamente mais profissionalizada

2.2 – As perspectivas liberais:


A perspectiva liberal foi resultado de uma lenta sedimentação de natureza económica,
doutrinária e política que ocorreu na Europa a partir do século XV.

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2.2.1 – Génese:
Com a expansão europeia e a consequente diversificação de mercados e acumulação
de capitais, a burguesia consolidou-se como classe social e intensificou-se com a
Revolução Industrial emergindo uma nova ordem económica internacional.
A ordem política foi alterada, apresentando traços com a centralização do Poder real e
o consequente enfraquecimento da velha aristocracia apoiada na ascensão da
burguesia.

Surgiram diversas doutrinas económicas e sociais, como o mercantilismo, a


fisiocracia e todo um corpo filosófico que procurou limitar o despotismo do príncipe
que criou condições para a revolução francesa.
Para os adeptos da perspectiva liberal, os problemas sociais e económicos resultam de
uma acção desastrada do Estado que, na mira de os resolver, intervém em demasia nos
mecanismo de regulação do mercado.
O liberalismo deve ser compreendido no seu sentido mais global (como uma) doutrina
baseada na denúncia de um papel demasiado activo do Estado e na valorização das
virtudes reguladoras do mercado (Rosanvallon).

2.2.2 – As Teses:

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Génese Movimentos de Génese política
económica legitimação
doutrinária

Expansão Centralização do
(séculos XV e XVI)
(implica diversificação •Mercantilismo poder real
de mercados;
acumulação de capital)
•Fisiocracia

• Movimentos de
Industrialização reacção aos excessos Guerras religiosas
(séculos XVII)
do Príncipe que
culminam na
Revolução francesa
Nova ordem Consolidação da
económica nova ordem política
(consolidação da (o Estado-Nação ao serviço
burguesia) da economia subsidiada)

Liberalismo
Defensores do liberalismo positivista clássico – Adam Smith, Jeremias Bentham,
Burke, Humbold
Defensores do liberalismo utópico – Paine e Godwin
Defensores do neoliberalismo – Robert Nozick ou John Rawls.
Em todos estes autores encontramos uma forte crítica à excessiva dimensão do
Estado, variando, no entanto, nos critérios definidores das suas funções e na definição
do seu campo de actuação. É o caso mais recente, da corrente neoliberal, que deve ser
entendida como um crítica, da crítica à economia de mercado.

De acordo com a teoria das internalidades de Rosanvallon a acção do Estado tem


efeitos imprevistos (internalidades) que pervertem as intenções de justiça e de
promoção do Bem-Estar das suas políticas.
Por exemplo o ciclo vicioso das despesas públicas apresentado por Rosanvallon:
• O crescimento das necessidades dos cidadãos (económicas, sociais, de
segurança, etc.) implica uma pressão sobre o Estado no sentido de as colmatar
(aumento da procura de Estado).
• O aumento da procura de Estado, obriga este a concentrar recursos e articulá-los
para dar resposta às necessidades (aumento da oferta de Estado).

17
• Para que a oferta de Estado cresça, este é obrigado a fazer mais despesas
públicas.
• O aumento das despesas públicas determina um aumento dos impostos para lhes
fazer face.
• O aumento da carga fiscal sobrecarrega os cidadãos o que, naturalmente, lhes
aumenta as necessidades e a procura de Estado, e assim sucessivamente.
No que respeita aos problemas sociais e económicos, o pensamento liberal tem
evoluído, ainda que partilhe de uma ideia comum: o mercado é melhor regulador que
o Estado e, por consequência, os problemas socio-económicos devem ser atacados
predominantemente pela sociedade civil.
A posição liberal face aos problemas socio-económicos pode resumir-se em dois
aspectos:
• A maior parte dos problemas sociais e económicos resultam de uma excessiva
intervenção do Estado.
• A resolução dos problemas sociais e económicos deveria ser deixada aos
mecanismos (naturais) de auto-regulação do mercado.

2.2.3 – As limitações:
Os críticos à perspectiva liberal apontam-lhes as seguintes limitações:
• Os limites da acção do Estado são em regra insuficientemente operacionalizados
• Os efeitos imprevistos do funcionamento do mercado que condicionam
fortemente a emergência e o agravamento dos problemas socio-económicos não
são convenientemente equacionados.
Suzanne de Brunhoff faz referência à contradição entre a apregoada liberalização de
pessoas, bens, serviços e capitais – tese central da corrente liberal – e a realidade
observada no terreno muitas vezes proteccionistas.
Segundo esta autora um cenário de guerra económica implica, por parte dos decisores
políticos, uma atitude de nacionalismo económico. As funções económicas e sociais
do Estado procuram atingir dois objectivos:
• Reforçar a frente de combate económica, apostando em políticas de obtenção de
encomendas no estrangeiro e em estratégias de financiamento e de
proteccionismo dos sectores sociais mais fortes, como os segmentos que
apostam no desenvolvimento tecnológico e nas exportações;
• Ajudar a tratar dos feridos da guerra económica (pobres e novos pobres, jovens,
mulheres, idosos, imigrantes e desempregados de regiões industriais
sinistradas).
Neste cenário, o reforço da frente de combate é normalmente mais forte que a ajuda
ao tratamento dos feridos da guerra económica, criando-se um ambiente tendente a
retirar os direitos sociais e económicos aos cidadãos.

2.3 – As perspectivas marxistas (1813-1883):


2.3.1 – Génese:
O pensamento marxista enquadra-se historicamente na Europa do século XIX,
revolução industrial.

18
A sua teoria deve ser entendida como uma teoria em permanente evolução, por vezes
contraditória.
Escreveu o Manifesto com Engels.
Os seus comentadores apontam três tipos de correntes que lhe serviram de referência:
a filosofia alemã (Hegel e Feurbach) o socialismo francês (Proudhon e Saint Simon)
e a economia política inglesa (Ricardo e Adam Smith).

2.3.2 – As teses:
O pensamento de Marx relativamente ao papel do Estado não é idêntico ao longo da
sua obra:
Desde uma posição idealista defendida na Gazeta Renana, em 1843, em que
descrevia a possibilidade da existência de uma associação de homens
verdadeiramente livre num estado idealizado, concebido, com base no modelo
hegeliano, como uma incarnação da razão.
Passando pela afirmação de que o Estado era uma expressão da alienação humana
semelhante à religião, ao direito e à moralidade, um biombo que esconde as
verdadeiras lutas inter-classes, assumindo-se como instrumento da classe
dominante (ideologia alemã) uma mera comissão de gestão dos assuntos da
burguesia (Manifesto).
Até à afirmação de que poderia desempenhar, apesar de todas as críticas, algum
papel positivo em favor das classes oprimidas (A guerra civil em França), ou
mesmo que poderia ser, quando em situação de ditadura do proletariado,
instrumento de mudança para a sociedade comunista. (Crítica do Programa de
Gotha).
Apesar da aparente ambivalência, parece ser constante o reconhecimento do
importante papel que cabe ao Estado como instrumento da classe dominante
(burguesia ou proletariado) nas funções de regulação e orientação da sociedade
global.
Na perspectiva marxista os problemas económicos e sociais são resultantes da
situação de exploração de uma classe em benefício de outro, de uma permanente luta
de classes, poderemos entender as duas estratégias defendidas por esta corrente,
consoante detenha ou não o controle do Estado:
Quando o Estado não é controlado pela classe trabalhadora
Às organizações desta classe cabe fazer pressão, para que o poder político lhe faça
concessões, no sentido de prevenir e atenuar os problemas sociais; assim deve ter
atenção a conquista do poder pela classe trabalhadora.
Quando o Estado é controlado pela classe trabalhadora,
Deve centralizar a definição de rumos e a articulação de meios para fazer face aos
problemas sociais e económicos; neste sentido, deve-lhe competir um papel
dominante no planeamento e organização da economia e da protecção social.

2.3.3 – As limitações:
Críticas à perspectiva marxista
• Do ponto de vista doutrinário, ao privilegiar a luta de classes como instrumento
de intervenção, o marxismo provocou danos elevados na coesão social,
lançando as classes sociais umas contra as outras, gastando consideráveis

19
energias sociais necessárias ao crescimento económico e ao desenvolvimento
social, em nome da igualdade e em detrimento da liberdade.
• Do ponto de vista político, as que o acusam de falta de eficácia e de eficiência
uma vez que, nos países em que foram aplicadas as concepções marxistas os
resultados obtidos foram muito inferiores aos previstos (ineficácia), e os
avanços conseguidos foram-no frequentemente a custos económicos e sociais
muito elevados (ineficiência), uma vez que exigiram uma máquina estatal
excessivamente pesada.

2.4 – As perspectivas conciliatória:


Se nos reportarmos a três valores centrais de Revolução Francesa, a Liberdade, a
Igualdade e a Fraternidade, os dois primeiros são de cariz liberal (liberdade) e
marxista (igualdade), um em detrimento do outro. O elemento Fraternidade foi
remetido para a esfera da sociedade civil, pois não é politicamente tão relevante como
o da Liberdade e Igualdade.
Procurando conciliar as doutrinas liberal e marxista, emergiu uma terceira tendência
no século XIX que veio dar origem ao que se convencionou chamar Estado-
Providência.

2.4.1 – Os fundamentos:
Os fundamentos da intervenção do Estado relativamente aos problemas sociais e
económicos podem encontrar-se na constatação de efeitos imprevistos (positivos ou
negativos) do funcionamento do mercado a que Pigou chamou externalidades.
Esta teoria servia de suporte para legitimar a intervenção do Estado no próprio interior
da lógica liberal, criando paradoxalmente uma fonte inesgotável de motivos de
extensão do estado-regulador.

2.4.2 – Os pilares do Estado Intervencionista:


A expressão Estado-Providência surge na França no segundo império, criada por
pensadores liberais hostis ao aumento das atribuições do Estado, mas igualmente
críticos em relação a uma filosofia individualista demasiado radical.
Procurava fazer referência a um modelo de Estado intervencionista, que na Alemanha
da década de 1880 era apelidado de Estado Social e no Reino Unido nos anos 40 do
século XX de Estado de Bem-Estar.
Este modelo de Estado integrou três tipos de contribuições principais:
1. O primeiro pilar: o seguro obrigatório de Bismark
Bismark (1879/1880) em resposta à pressão conjugada, do movimento
trabalhista alemão devida à situação de alto risco em que se encontravam os
trabalhadores da indústria e da acção de grupos de académicos e políticos que se
juntaram, para denunciar os malefícios das opções liberais e para defender uma
intervenção do Estado no combate aos problemas sociais.
A resposta política a tal conjuntura foi um conjunto de leis que procuraram
melhorar a protecção social dos trabalhadores através de mecanismos de seguro
obrigatório, numa altura em que os sistemas de protecção eram meramente
mutualistas. As leis estruturantes de tal sistema foram as seguintes:
Lei da responsabilidade limitada dos industriais em caso de acidentes de trabalho
(1871);

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Lei do seguro obrigatório (1881);
Leis do seguro-doença, dos acidentes de trabalho e do seguro velhice-invalidez
que aplicaram a lei de 1881 a essas três áreas de risco social.
2. O segundo pilar: a teoria intervencionista de Keynes
Economista John Maynard Keynes – este autor mostrou a forma como o
capitalismo de mercado podia ser estabilizado através da gestão da procura e da
adopção de um sistema de economia mista.

Os princípios defendidos por este autor, aplicados para combater a crise de 1929
pelo presidente Roosevelt na política do New Deal, basearam-se numa vigorosa
intervenção estatal através de investimentos públicos que criaram muitos
empregos. Ao fazê-lo aumentaram o poder de compra provocando um
acréscimo na procura, revitalizou a economia e consequentemente reduziu os
problemas sociais e económicos.
3. O terceiro pilar: o relatório Beveridge
No Reino Unido o intervencionismo estatal pode-se situar no reinado de Isabel
I, século XVI, com a Lei dos pobres, obrigava as paróquias a dar trabalho como
medida de protecção.
É em plena segunda guerra mundial com o relatório Beveridge lançam-se as
bases recentes dos sistemas de segurança social de acordo com quatro
princípios:
O princípio da universalidade (de população-alvo) segundo o qual a protecção
social seria devida a toda a população, qualquer que fosse a sua situação face ao
emprego ou ao rendimento;
O princípio da unicidade (de inputs do sistema), pelo qual uma única quotização
cobriria todos os riscos de privação de rendimentos;
O princípio da uniformidade (de outputs do sistema), que preconizava a
uniformidade das prestações, independentemente do rendimento dos beneficiários;
O princípio da centralização (organizacional), que obrigava à criação de um
sistema único de protecção social (saúde e segurança social) para todo o país.
O relatório Beveridge constituiu um avanço pois contemplara as mulheres domésticas,
crianças e outros inactivos relativamente às medidas de Bismarck.

2.4.3 – A situação actual:


Após a segunda guerra mundial, o modelo intervencionista (baseado no modelo
Beverage) foi aplicado nos países mais industrializados auxiliado pela conjuntura
propícia à conjugação de reconstrução e de expansão económica.
Os ingredientes básicos que proporcionaram consistência politica a este modelo de
Estado intervencionista foram três:
1. O pleno emprego como objectivo estratégico;
2. Sistema de serviços universais ou quase universais para satisfação das
necessidades básicas;
3. Manter um nível nacional mínimo de condições de vida.

21
Com as duas crises do petróleo na década de 70 a situação económica mundial
alterou-se iniciando-se um período de recessão que teve dois efeitos conjugados nos
sistemas de protecção social:
1. Por um lado, aumentou a procura de Estado, devido ao crescimento do
desemprego provocado pela recessão económica;
2. Por outro lado, a diminuição das contribuições para o sistema de segurança
social, em função da crise e do envelhecimento demográfico dos países
industrializados, condicionou a redução da oferta de Estado, para fazer face às
necessidades.
Esta situação fez perder a confiança no modelo Estado-providência tendo sido
estabelecidas políticas neoconservadores em vários países Ronal Regan nos EUA e
Margaret Tatcher no Reino Unido, alicerçadas nas doutrinas neoliberais.
Do ponto de vista do modelo neoconservador, sendo que grande parte dos problemas
sociais decorrentes de uma excessiva despesa pública, a sua solução passava pela
redução da oferta do Estado, operacionalizada numa política de privatizações, tanto da
economia como dos serviços sociais.
O excessivo custo social das medidas implementadas, e a sua ineficácia conduziram a
uma reacção por parte dos sociais-democracias no sentido de adaptar o modelo de
Estado Providência aos novos desafios, pelo que surgiram novas proposta políticas.

2.5 – Em Portugal:
2.5.1 – A perspectiva intervencionista na evolução constitucional:
Evolução doutrinária quanto ao entendimento das funções económicas e sociais do
Estado.
Constituição Características
Constituição de 1822 • Pretende criar instituições liberais e democráticas.
• Não passou de um projecto pois o seu suporte
social era débil (burguesia mercantil), os
inimigos, muitos e, a secessão do Brasil, uma
questão urgente, que remeteu a organização das
FESE para segundo plano
Carta Constitucional de • Sendo conservadora mantém as FESE numa
1826 perspectiva liberal
Constituição de 1838 • Mantém a concepção de uma monarquia liberal
assente na aliança do Rei com a burguesia (Jorge
Miranda)
Constituição de 1911 • Não altera a perspectiva liberal das funções do
Estado, condimentando-as de laicismo, anti-
clericalismo e municipalismo.
• Dá grande realce à política de Educação.
Constituição de 1933 • Corporativista, apresenta uma cariz muito mais
intervencionista, pretendendo ser a pedra de toque
em que as FESE são sensivelmente maiores e
mais complexas.
• Explicita princípios de protecção à família,
incumbências económicas do Estado, organização
de interesses sociais, da empresa e do direito do
trabalho

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Constituição de 1976 • É influenciada pelas doutrinas marxistas e do
Estado-Providência.
• Consolida medidas socializantes das FESE
• Identifica três sectores de propriedade (público,
cooperativo e privado)
• Consagra direitos liberdades e garantias
democráticos
• Explicita princípios de protecção aos cidadãos e
aos trabalhadores em particular, em diversos
domínios das FESE: Educação, Saúde, Segurança
Social, Habitação, Trabalho, etc.

As constituições do período monárquico foram marcadas por concepções liberais,


os problemas económicos e sociais não era um dever do Estado intervir na sua
resolução;
A constituição republicana de 1911, mantém a tradição liberal. No entanto, o
laicismo e o anti-clericalismo dominante tiveram como consequência a assunção
da educação como dever do Estado;
A constituição de 1933 é intervencionista num quadro doutrinário corporativista.
Política de protecção à família e de conciliação dos interesses laborais. Era
permitido e incentivado o papel da Igreja Católica na política nacional. O modelo
de intervenção social preconizado foi marcado pela visão de Bismarck, separando
claramente os subsistemas de previdência (de seguro obrigatório) e de assistência
(em que ao Estado competia uma função supletiva em relação à intervenção da
sociedade civil);
A constituição de 1976 foi também intervencionista, mas fortemente influenciada
pela perspectiva marxista quanto ao controlo da economia, social e política. O
modelo beveridgeano foi consagrado através da criação de um sistema de
segurança social, serviço nacional de saúde, sistema educativo, e ainda em
cooperação com a sociedade civil e foi perdendo o cunho marxista, nas sucessivas
revisões constitucionais, aproximando-se de outros países da Europa ocidental

2.5.2 – A perspectiva intervencionista na evolução do planeamento


A função planeamento está presente em todos os sistemas políticos contemporâneos,
expressando um quadro normativo que pretende traduzir o querer comum dos
respectivos povos.
Assim, pela análise dos sucessivos planos, é possível inferir as representações dos
decisores políticos sobre o modo como concebem as funções económicas e sociais do
Estado e, em particular, o seu papel relativamente à resolução de problemas sociais e
económicos.
Em Portugal, o primeiro planeamento foi em 1935 tendo como base a Lei de 1914 que
ficou conhecida por Lei da Reconstituição Económica e que serviu de base para os
planos seguintes.
Primeiro Plano de Fomento (1953-58) intervencionismo económico destinados ao
Ultramar correspondendo a 2% do PNB.
Segundo Plano de Fomento (1959-64) conceito de pólos de desenvolvimento,
regiões onde se iriam concentrar recursos para promover a modernização do país.
(Criação do Banco de Fomento Nacional)

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Plano Intercalar (1965-67) calcular se o acréscimo de despesas com a defesa
obrigaria a recorrer a empréstimos externos. Observa-se uma preocupação de
natureza social, desequilíbrios regionais.
Terceiro Plano de Fomento (1968-73) medidas de Planeamento Regional.
Quarto Plano de Fomento (1973-79) suspenso pela revolução de 1974.
Plano Económico-social (1975) – não entrou em vigor devido aos acontecimentos
de 11 de Março.
Constituição de 1976 – perspectiva marxista valorizou o Plano como instrumento
básico para construir a sociedade socialista.
De referir que as preocupações de intervencionismo económico foram anteriores às
sociais.

III. GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS


Gestão da Água:
Introdução:
A água é um bem essencial.
Cobre dois terços da superfície terrestre, mas é escasso devido à desigual distribuição
geográfica e relativa escassez de água doce 3% do total necessário ao consumo do
homem. Uma grande parte está solidificada nos calotes polares, nos glaciares, no
subsolo. Só 0,03% está facilmente acessível ao consumo humano. Os resíduos
resultantes das diferentes actividades do homem, ou seja, os efluentes de origem
antropogénica, são descarregados nos diferentes meios receptores, em especial no
meio aquático.
O impacte da descarga destes efluentes são diversos de acordo com a morfologia,
hidrodinamismo, o grau de contaminação e poluição, o nível de eutrofização
(nutrientes com fosfatos e nitratos que em exagero desenvolvem fito plâncton) e a
existência de captação de água a jusante do ponto de descarga.
Diferenças entre Conceito de contaminação e Conceito de poluição:
Contaminação – presença de concentrações elevadas de uma dada substância
no ambiente, que se situam acima dos níveis de fundo. Originados por causas
naturais (erupções vulcânicas);
Poluição – é de introdução antropogénica directa ou indirecta de substâncias
ou energia que prejudicam os organismos vivos. Descargas residuais que
podem ser físicos (sólidos suspensos), químicos (metais pesados) biológicos
(micro organismos patogénicos).

Disponibilidade de água:
Na Europa o consumo irá manter-se mas prevê-se um aumento nos outros países
nomeadamente devido ao aumento do desenvolvimento económico e crescimento da
população (Africa, América Latina, China Sul e Sudoeste da Ásia).
O aumento do consumo da água de 1990 para 2050 é projectado por um factor de 2,12
relativamente ao uso doméstico e 2,37 para uso industrial, 1,06 para uso agrícola.
Estes valores resultam da combinação do aumento da pressão demográfica com a
melhoria na eficácia no consumo.

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A quantidade de água disponível tem tendência a aumentar de 6 a 12% devido ao
aumento de temperatura terrestre que ocasiona a fusão da água nas calotes polares. No
entanto, existem problemas graves de escassez nalguma zonas que podem ter
implicações na saúde e no bem-estar populacional, desenvolvimento da agricultura e
protecção dos ecossistemas dependentes de recursos aquáticos.
A disponibilidade de água poderá ainda ocasionar conflitos entre países onde rios e
outros cursos de água atravessam fronteiras de diferentes países. Esses conflitos
poderão ser evitados se a distribuição da água for discutida em conjunto. Este facto
requer uma metodologia integrada por um conjunto de factores como, análise por
bacia hidrográfica, regulamentação legal, regras administrativas, mecanismos
financeiros, monitorização e controle (exp Portugal e Espanha).
A pressão que homem exerce pode conduzir à redução da quantidade. Podendo ser
afectada pela sobre-exploração de aquíferos e/ou pelo desvio de cursos de água
originando a diminuição do seu caudal. Uma das soluções passa pela dessalinização e
pela reutilização da água.

Qualidade da água:
Põe-se em causa a qualidade quando ocorrem fenómenos de eutrofização, ou seja,
quando há descargas pontuais ou difusas de elevadas concentrações de contaminantes
e quando ocorre intrusão salina. Deste modo os impactes negativos na qualidade da
água, originam problemas de saúde pública e prejudicam os ecossistemas, podendo
pôr em causa a capacidade de auto-regeneração dos sistemas aquáticos.
Na Europa a implementação de normas regulamentadoras nos sistemas de tratamento
de águas residuais reduziram substancialmente as descargas de nutrientes e matéria
orgânica. É previsível que a quantidade de esgotos contaminados aumente e que as
práticas de agricultura intensiva continuem com a consequente utilização excessiva de
fertilizantes, originando a eutrofização das zonas costeiras e contaminação de
aquíferos. Os aquíferos podem ser igualmente contaminados por intrusão salina
devido à exploração de águas subterrâneas ao longo da costa devido a exploração
industrial, áreas urbanas e turismo.
Torna-se necessário tomar uma série de medidas de modo a evitar problemas
ambientais mais graves. Essas medidas passam por aumentar o número de sistemas de
tratamento de águas residuais e melhorar os actualmente existentes e estabelecer redes
de protecção das águas interiores superficiais, águas costeiras e subterrâneas.
Efeito de estufa e alterações climáticas:
O balanço térmico ideal para a manutenção da vida na Terra é proporcionado
principalmente pela presença de vapor de água e dióxido de carbono (CO2) existente
na atmosfera. Estes gases absorvem a radiação solar infravermelha, emitida pela
superfície terrestre impedindo assim que a radiação seja perdida para o espaço. Este
fenómeno natural denomina-se efeito de estufa uma vez que permite aquecer a
superfície terrestre e promove a subida da temperatura da troposfera com consequente
aumento da evaporação e precipitação.
A libertação de CO2 resultante da conversão dos combustíveis fósseis tem sido
responsável pela amplificação do fenómeno nos últimos séculos, em conjunto com
outros gases como o metano, os óxidos de azoto, Cloro-Fluor Carbonetos e ozono
troposférico.

25
Outras actividades humanas como a agricultura, a desflorestação, processos
industriais e a deposição de resíduos em aterros sanitários também contribuem para o
efeito de estufa.

Alterações climáticas:
Embora exista uma relação clara entre o aumento da temperatura e emissão de alguns
gases que contribuem para o efeito de estufa, não é possível afirmar com certeza que
se trata de uma relação causa-efeito. No entanto, as mudanças climáticas globais que
alguns modelos sugerem, provocarão alterações no ciclo hidrológico, traduzindo-se
por exemplo na fusão das calotes polares, com elevação do nível dos oceanos e
consequente submersão das zonas costeiras, ou modificação dos padrões de
precipitação, provocando inundações ou secas e consequentemente perturbações nos
ecossistemas.
Dado que é previsível o crescimento económico estima-se que as concentrações
médias globais dos três gases que mais contribuem para o efeito de estufa se alterem.

Protocolo de Quioto:
O encontro mundial onde pela primeira vez se regulamentaram as emissões de gases
com efeito de estufa foi a III Conferência das Partes da Convenção – Quadro das
Alterações Climáticas ocorrida em Quioto em 1997. Onde vários países assinaram um
protocolo no sentido da redução global de 5,2% em relação aos níveis de 1990.
Permitiu ainda a implementação de mecanismos de mercado denominados
“mecanismo de Quioto”, ou seja o comércio de emissões entre países industrializados
e cooperação para o desenvolvimento para a implementação de mecanismo de
tecnologias limpas. Estes mecanismos permitem o comércio de emissões entre países
industrializados. Esta medida permite, por exemplo, a possibilidade de um país
cumprir parte dos seus compromissos, financiando projectos de eficiência energética e
/ ou retenção de gases que contribuem para o efeito estufa num outro país, podendo
esse primeiro país não necessitar de reduzir as suas emissões.
No entanto, este protocolo tem algumas limitações, como o facto de não incluir os
países em desenvolvimento que para já estão sem obrigações de redução ou limitação
de crescimento de emissões e de não terem sido criados mecanismos de punição para
quem não cumprir o acordo.
O encontro em Buenos Aires 1998:
Plano de acção para 2000 dos quais se destacam (EEA, 1999)
• Os mecanismos de financiamento para apoiar os países em desenvolvimento
relativamente aos efeitos adversos das alterações climáticas, nomeadamente
através de medidas de adaptação;
• O desenvolvimento e transferência de tecnologias para os países em
desenvolvimento;
• As actividades implementadas conjuntamente;
• O programa de trabalhos dos Mecanismos de Quioto, com prioridade no
desenvolvimento de mecanismos de tecnologias limpas;

Outros encontros se tem seguido, mas os acordos deles resultantes, dado o seu cariz
político não se têm revelado muito eficientes.

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A estratégia eficiente para a minimização deste problema passa pela modificação da
quantidade e tipo de combustíveis fósseis.
Existem várias formas para modificar a utilização de combustíveis fósseis e que se
baseiam em três metodologias:
Substituição por um combustível fóssil com maior capacidade de retenção de calor
e com baixos teores de carbono e enxofre, reduzindo assim as emissões de gases
que contribuem para o efeito de estufa e para a acidificação (chuva ácida)
Utilização de energias alternativas (eólica, solar, geotérmica);
Melhorias na eficiência/conservação de energia, levando a reduções significativas
no combustível gasto.
A redução dos gases que mais contribuem para o efeito de estufa como o dióxido de
carbono e o metano vai igualmente contribuir para a redução de poluentes que
ocasionam outros problemas ambientais como a acidificação, a rarefacção da camada
de ozono, bem como a contribuição de forma generalizada para a melhoria da
qualidade de ar.
Torna-se urgente tomar medidas minimizadoras dos impactes, nomeadamente:
Desenvolvimento de culturas resistentes à secura;
Aumento da eficiência dos usos da água;
Evitar a perda e/ou fragmentação de habitats, evitando assim a extinção de
espécies;
Efectuar uma reflorestação.

Rarefacção da Camada de Ozono:


O ozono é um gás cuja molécula contém 3 átomos de oxigénio, formada por acção da
luz a partir do oxigénio molecular (O2). As maiores concentrações são na estratosfera
formando o que se designa de camada de ozono. Esta camada funciona como filtro às
radiações solares ultra-violeta B prejudiciais à fauna, flora e saúde humana, sendo
responsável pelo desenvolvimento precoce do cancro de pele, aparecimento de
cataratas e diminuição do sistema imunitário.
A libertação destes compostos encontra-se relacionada com diversas actividades do
homem como a desflorestação, o aumento da queima de combustíveis fósseis e a
libertação para a atmosfera de CFCs (aerossóis, espumas, solventes, extintores de
incêndio, sistemas de refrigeração dos frigoríficos e aparelhos de ar condicionado).
A acção antropogénica tem destruído a molécula do ozona originando o composto que
lhe deu origem, oxigénio molecular.
O buraco de ozono é o nome que se dá à rarefacção da camada de ozono observada na
Antártida através do satélite Nimbux 7.

O protocolo de Montreal (1988):


Objectivo alcançar uma redução de 50% na utilização de CFCs (queima de
combustíveis fosseis) até 1999. Halons até 1994, tetracloreto de carbono e o metil-
clorofórmio até 1996.

Biodiversidade:
A tendência para a diversificação, é uma propriedade inerente à progressão ecológica
e à evolução biológica em geral.

27
A destruição massiva de espécies ao longo de milhões de anos foram resultado de
fenómenos naturais. No entanto, hoje o ritmo de desaparecimento de espécies é
assustador e cuja responsabilidade se atribui ao homem.
O uso do fogo, da agricultura, da indústria aliado aos incêndios e chuvas ácidas
conduziu ao desaparecimento de muitas espécies florestais. Assim, cada alteração
num ecossistema pode ter repercussões mais ou menos directas sobre os vários
ecossistemas com os quais se relaciona.

Diminuição da biodiversidade
Para além da destruição de habitats, a introdução de espécies exóticas vegetal ou
animal podem provocar desequilíbrio, a contaminação e a exploração excessiva de
recursos podem conduzir ao desaparecimento de espécies.
A contaminação mais frequente é a contaminação de origem química. Produtos como
metais pesados, fertilizantes ou pesticidas, pela sua toxicidade e bio acumulação,
tornam-se letais para diversas espécies de animais e plantas.
A colheita excessiva de plantas endémicas (farmacêuticas ou culinárias), recolha de
corais, pesca de arrasto etc. que muitas vezes fazem parte da economia dos países.
Existe legislação que regulamenta para cada época do ano, as espécies e o número de
indivíduos de cada espécie é legal capturar e comercializar. No entanto os interesses
económicos das empresas multinacionais que dominam este mercado são demasiados
grandes para que estas se preocupem em respeitá-la.
Para lutar contra esta situação, foi assinado em Washington (1973) o Convénio
Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestre 8CITES) que incita a
cada um dos 23 países a criar legislação que proteja os seus recursos selvagens.

Biodiversidade aplicada:
A diversidade genética dos seres vivos, deve ser guardada, constituindo-se bancos de
genes para utilização futura. A biotecnologia e a engenharia genética podem
contribuir para a criação de novos organismos transgénicos, com capacidades até
então inexistentes. Assim, poder-se-á aumentar a eficiência de medicamentos naturais
e descobrir novas substâncias terapêuticas, criar diferentes modos de controlo
biológico de pragas agrícolas e inventar novos produtos de interesse industrial, mais
baratos e menos tóxicos.

Protecção da biodiversidade:
A preservação da biodiversidade tem um grande impacte social.
Na Conferência do Rio em 1992, saíram resoluções importantes, entre elas, o Acordo
Internacional sobre a Biodiversidade em que os países envolvidos se comprometeram
a realizar um inventário sobre as espécies existentes nos seus territórios.
Sendo os países mais pobres aqueles que dispõe de uma maior diversidade ecológica,
têm direito a benefícios económicos pela transacção dos seus recursos biológicos com
terceiros, no entanto os países compradores, com poder económico, são os que têm
em regra geral grandes empresas multinacionais farmacêuticas, químicas ou agro-
alimentares, preferindo tirar partido de um recurso de outrem do que pagar direitos
sobre eles. Neste caso, há que actuar, sendo obrigação da sociedade civil ou das
ONGs fazer valer os direitos e proteger este património genético.

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Desertificação e desflorestação:
Introdução:
O homem como Ser racional que é, procura solucionar com proveito próprio os
entraves que se colocam à colonização da terra.
A instalação de povoações obrigou ao derrube de árvores. A agricultura e o pastoreio
exigiram novos e mais férteis campos para cultivo e pastagens, que se roubaram à
floresta.
Como consequência de tudo isto as áreas florestais foram diminuindo, os solos
perdendo fertilidade, e o homem teve de avançar floresta dentro procurando meios de
subsistência.
Ainda hoje se verifica em muitos países do hemisfério Sul, onde a necessidade de
encontrar meios de sobrevivência leva as populações que lutam contra a fome à
destruição maciça de árvores e países que pactuam com esta destruição em busca de
madeiras exóticas. Segundo a FAO (Food and Agriculture Organization) das Nações
Unidas na década de 80 foram destruídas 155 milhões de hectares de floresta tropical
o que é preocupante.

Floresta e protecção ambiental:


Na América Central e do Sul, Indonésia e Ásia encontram-se florestas luxuriantes que
são os pulmões do planeta e sustento de uma imensa variedade biológica. Absorvem
muita quantidade de CO2 contribuindo assim para atenuar a importância das emissões
deste gás e equilibrar os teores existentes na atmosfera.
A queima da floresta deixa o solo desprotegido. A falta de protecção por uma camada
de folhagem e exposição aos raios solares, o solo sofre a erosão e sob influência dos
factores climáticos lentamente transforma-se em deserto. A este processo regressivo
em que os ecossistemas tendem para situação de deserto dá-se o nome de
desertificação.

Floresta e biodiversidade:
Madagascar é um caso emblemático, onde a desflroestação tem assumido proporções
devastadoras. Onde outrora se viam encostas verdejantes com uma vegetação
luxuriante, vemos hoje colinas avermelhadas com solos frágeis, expostos à erosão.
Nesta ilha do Pacífico existiam há anos insectos, mamíferos e plantas únicos no
mundo. A imensa riqueza biológica estava outrora protegida por uma floresta tropical.
Mas o estabelecimento de colonos e a colonização francesa até à independência foi
desastrosa, trazendo milhares de habitantes que nela sobreviveram e se instalaram,
tendo de cortar e queimar florestas.
Hoje os solos encontram-se esgotados e deixados à mercê de agentes climáticos e
existe um deserto.
A autor regulação do planeta proposto nos anos 70, por Lovelock na Teoria Gaia, “até
há pouco tempo, as actividades humanas eram assimiladas pela bio esfera no entanto
hoje já não se consegue fazer frente ao CO2 existente na atmosfera, notando-se o seu
aquecimento global”.
Medidas futuras:

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Os impactes antropogénicos sobre a floresta são demasiado alarmantes para que não
se tome qualquer atitude. Muitas das soluções que se propõem são político-
económicas, mas o problema tem importância social e ética. Propor que os países do
Norte, que têm climas temperados e solos de melhor qualidade, produzam bens para
vender aos países do Sul, a preços baixos, é uma hipótese que não é fácil de aceitar
por uns nem por outros.

Resíduos:
Introdução:
O aumento de resíduos nos últimos 50 anos tomou proporções alarmantes obrigando
os indivíduos e os governos a uma mudança de atitude para além de uma maior
responsabilização na sua eliminação e valorização.
Na Conferência do Rio, 1992, os países desenvolvidos afirmaram ter intenção de
reduzir a sua produção de resíduos assim como o consumo de produtos com
componentes tóxicos. Apostando na redução, reutilização e reciclagem e verificou-se
uma maior preocupação em legislar quanto à qualidade como quantidade.

(RSU) Resíduos Sólidos Urbanos:


Os indicadores financeiros de que dispomos para avaliar o crescimento económico de
uma sociedade é o rendimento disponível das famílias. Assim quanto maior é o
rendimento per capita mais se considera o desenvolvimento de uma determinada
sociedade. Aliado ao poder de compra há sempre um crescimento de consumo e que é
uma característica das sociedades modernas.
Em aditamento o marketing publicitário leva as famílias a adquirem produtos que não
consomem e que deitam fora com facilidade e que faz que haja um crescimento dos
resíduos urbanos. Em Portugal 231/kg ano em 1991 a mais baixa capitação de RSU da
União Europeia.
Nessa altura a eliminação de resíduos e tratamento era em Portugal a mais baixa da
Europa sendo a os resíduos depositados em lixeiras preferencialmente à compostagem
(produto final para aproveitamento agrícola), incineração ou à deposição em aterro
sanitário (deposição para degradação natural e lenta por via biológica até à
mineralização). Presentemente verifica-se uma maior preocupação em erradicar as
lixeiras procedendo de forma tão controlada quanto possível ao tratamento dos
resíduos urbanos.
As autarquias procedem à recolha selectiva, no sentido de valorizar os resíduos
através dos eco-pontos que posteriormente são tratados em indústrias de
reprocessamento dos materiais aí depositados.

Resíduos Industriais:
Distinguem-se dos domésticos pela maior variação na sua composição e pelas
quantidades produzidas. Também pela a variação no seu carácter tóxico dependendo
do ramo da indústria e existem alguns que são classificados de perigosos com
características de perigosidade para a saúde e/ou ambiente.
Verifica-se em Portugal uma distribuição heterogénea por distrito sendo a maior
incidência no distrito de Setúbal, devido à elevada concentração de indústrias
químicas e à presença de centrais térmicas, seguido de Aveiro com as indústrias
químicas e pasta de papel e Castelo Branco com indústrias extractivas.

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O mais alarmante é o facto dos resíduos serem eliminados por descarga no solo e no
subsolo registando-se uma pequena percentagem de tratamento por incineração.
As indústrias são responsáveis pela produção de resíduos perigosos e emissão de
produtos tóxicos ocasionando contaminações de lençóis freáticos, águas superficiais,
atmosfera e cadeiras tróficas, emissão de gases tóxicos ou pela deposição no solo e no
subsolo conducentes à destruição de muitos ecossistemas.
Ao longo de anos, a eliminação de resíduos perigosos industriais transformou-se
numa actividade altamente técnica, controlada pelos poderes públicos.
O tratamento é feito por dois tipos físico-químicos e incineração. O primeiro é
utilizado no tratamento de resíduos constituídos por metais pesados e ácidos e o
segundo destina-se a matérias orgânicas não bio degradáveis.
Nas incineradoras é possível recuperar energia da combustão para produção de
electricidade, mas a emissão de dioxinas para a atmosfera leva as populações a
contestarem a instalação de incineradoras nos seus perímetros urbanos.
Algumas indústrias têm desenvolvido grandes esforços para a diminuição dos
resíduos que produzem, há alguns resíduos que não podem ser resolvidos no seu
interior, sendo muitos destes produtos recolhidos, armazenados e tratados por
indústrias de recuperação. Assim os resíduos de uns podem transformar-se na matéria-
prima de outros.
Apesar da valorização dos resíduos conduzir a um menor consumo de matérias-primas
virgens, os custos de valorização tornam por vezes os produtos obtidos mais caros que
as matérias-primas provenientes da extracção.

Medidas futuras:
É fundamental dar conhecimentos aos cidadãos, aos industriais, aos políticos sobre as
consequências ambientais das atitudes menos reflectidas ou mais oportunistas que
cada um toma. É urgente informar para que cada um seja responsabilizado
preocupando-se em reduzir a quantidade de resíduos que produz, reutilizar tanto
quanto puder os “desperdícios” que causa e por último reciclar e valorizar os bens que
possui.

Instrumentos de Política de Ambiente:


Enquadramento:
Em 1984 foi constituída pela Assembleia-geral das Nações Unidas, a Comissão
Mundial para o Ambiente e o Desenvolvimento (CMAD), como um órgão
independente e integrado por 21 países.
Esta Comissão foi criada com o objectivo de:
Reexaminar os problemas vitais do ambiente e do desenvolvimento, e formular
propostas de acção inovadoras, concretas e realistas para tentar “remediá-los”;
Reforçar a cooperação internacional nos domínios do ambiente e do
desenvolvimento, bem como estudar e propor novas formas de cooperação, que
possam surgir a partir dos padrões existentes e influenciar as políticas e os
acontecimentos no sentido da mudança necessário;
Aumentar o nível de compreensão e de compromisso dos cidadãos, organizações
voluntárias, empresas, instituições e governos;
A CMAD publicou um relatório em 1987, denominado “O Nosso Futuro Comum”,
também conhecido como “relatório Bruntland”, que introduziu o conceito de

31
desenvolvimento sustentável, ou seja satisfazer as necessidades das gerações actuais,
sem comprometer as gerações futuras envolvendo a integração das políticas socio-
económicas e ambientais.
O desafio consiste em atribuir aos Organismos da Administração Central, Sectorial e
Local a responsabilidade pelos efeitos das suas decisões, na qualidade do ambiente
humano.
Na Conferência das Nações Unidas de 1992 conhecida por Eco’92 teve como
objectivos predefinidos a elaboração de Documentos como a Carta da Terra
(princípios de respeito pela Terra), as Convenções sobre Alterações Climáticas,
Biodiversidade e Florestas.
Das três convenções apenas a do Clima e da Biodiversidade foram concretizadas. Na
Conferência do Rio de Janeiro surgiu um documento denominado Agenda 21 com o
objecto de preparar para os desafios do século XXI, e que levou à criação em 1993 da
Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (CDS).
Em 1997 teve lugar a Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas
(UNGASS) denominada “Cimeira Rio + 5” que deveria ser entendida como factor
decisivo para a efectiva implementação da Agenda 21, enquanto Plano Global de
Acção para o desenvolvimento sustentável do Planeta., concluiu-se que os EUA e
Alemanha não tinham vontade política para incrementar medidas de combate à
população e por falta de recursos financeiros, o Programa de Cooperação Ambiental
das Nações Unidas ficou praticamente parado.

Estratégias para a implementação da Agenda 21:


De uma maneira geral a integração de políticas ambientais com as económicas e as
sociais é fundamental para a implementação da Agenda 21.
Assim é necessário modificar as acções do homem que passam pelo seguinte:
Alterar os sistemas intensivos de produção de alimentos para sistemas
sustentáveis, que reduzam a degradação do solo e que preservem os recursos
naturais (como água, e a biodiversidade), garantindo assim o seu uso pelas
gerações futuras;
Promover uma gestão integrada da água que balance os consumos da sociedade
humana com os dos ecossistemas e que salvaguarde o abastecimento de água a
longo prazo através, i.e., da minimização do gasto de recursos fósseis de águas
subterrâneas e utilizando a água de uma forma mais eficiente;
Aumentar a eficiência na conversão, utilização e produção de energia assim como
na transição da utilização de combustíveis fósseis para energias alternativas;
Reduzir a utilização intensiva de materiais na produção e consumo, i.e., evitar o
esgotamento dos recursos mantendo o consumo abaixo dos níveis que requerem
substituição a longo prazo, no caso dos recursos não renováveis ou dentro da
capacidade de regeneração, no caso dos recursos renováveis. Estas medidas
incluem a redução da produção de resíduos e de emissões de poluentes, que
podem ser efectuadas através da modificação de tecnologias, incentivo à
reciclagem ou substituição de produtos ou processos por outros menos poluentes.

Principais instrumentos de política ambiental para se efectuar a transição ambiental


que integre o ambiente e os processos de decisão económica:

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Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) – Procedimento administrativo que
garante que, antes da autorização de um projecto, os seus potenciais impactes
significativos sobre o ambiente sejam satisfatoriamente avaliados e tidos em
consideração;
Avaliação Ambiental Estratégica – Procedimento que visa a aplicação da
Avaliação de Impacte Ambiental a politicas, planos e programas. Colmatar
lacunas dos AIA evitando que as medidas de protecção ambiental sejam sugeridas
já numa fase tardia de planeamento;
Legislação Ambiental – Regulamentar e proteger por lei o ambiente. A eficiência
depende da sua implementação e fiscalização;
Gestão Ambiental e Auditorias Ambientais – Avaliação da qualidade ambiental
de uma empresa em todos os níveis da sua actividade, por exemplo, consumo de
matérias primas, energéticos, produção de resíduos e emissão de efluentes,
qualidade do ambiente de trabalho, iniciativas para a promoção da qualidade do
ambiente. As Normas Internacionais ISSO 14000 visam a aplicação de sistemas
de gestão ambiental e de outros instrumentos relacionados. O regulamento
europeu é o EMAS incide sobre o sector industrial;
Análise do Ciclo de Vida de Produtos (ACV) – técnica de avaliação dos
impactes ambientais associados a um produto ou serviço (desde a extracção de
matérias primas ou transformação de recursos naturais, até à deposição final do
produto);
Rótulos Ecológicos – atribuição de rótulos ecológicos a equipamentos que são
submetidos a um licenciamento perante a análise do ciclo de vida do produto,
sendo necessário que as empresas comprovem que na sua composição e fabrico
foram seguidos determinados critérios tendo em conta a preservação do ambiente;
Acordos voluntários – acordos com os governos de cada país no sentido de
motivar o tecido industrial a considerar critérios de natureza ambiental nos seus
processos produtivos conduzindo à implementação de medidas, tanto externas
como internas às instalações, considerando a integração de práticas ou
equipamentos de redução da poluição;
Tecnologias limpas – processo de implementação de tecnologias menos
poluidoras nas industrias que tenham em conta a prevenção da poluição e não a
utilização de técnicas de despoluição no final da linha do processo produtivo
convencional;
Subsídios – apoios para ajudar a incrementar àqueles que beneficiam as condições
ambientais;
Taxas Ambientais – Processo que consiste na incorporação dos custos da
poluição e outros custos ambientais nos preços. Princípio do Poluidor Pagador.
Existem três tipos de taxas: taxa por serviço prestado, taxas de incentivo (redução
nos impostos), taxas fiscais ambientais (geram receitas);
Comércio ambiental e implementação conjunta – Fixação total de uma
quantidade de poluição permitida sendo permitido o comércio de emissões entre
diferentes países desde que o balanço total seja mantido.
Saliente-se por último que a globalização do mercado económico coloca em particular
um sério desafio ao desenvolvimento sustentável, dado que privilegia as
desigualdades nos níveis de desenvolvimento e a falta de estruturas efectivas para a
governação internacional.

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IV. PROBLEMAS DEMOGRÁFICOS
4.1 – Evolução da população mundial:
O primeiro bilião da população humana foi atingido apenas em 1801. Nestes últimos
40 anos a população do planeta triplicou.

4.1.1 – Evolução da população mundial:


Até ao século XVIII, o crescimento da população foi lento, ainda que a taxa da
natalidade fosse alta, a taxa da mortalidade era também muito alta (derivado à
falta de higiene, contracção de doenças).
De 1750 a 1950 – a melhoria das condições sanitárias, os progressos da medicina,
a higiene contribuíram para a baixa da taxa da mortalidade e o aumento da
esperança média de vida. Consequentemente o aumento populacional incidiu
sobretudo na Europa e América do Norte.
1950 Até 1999 – a partir da II Guerra Mundial, nos países menos desenvolvidos
verificou-se uma acentuada melhoria das condições de vida, cuidados médicos e
água potável permitindo um decréscimo de mortalidade e uma elevada taxa da
natalidade.
1999 – Foi o ano dos seis biliões com um quantitativo de uma população muito
jovem.
De 1999 até 2050 – continuar-se-á a verificar um crescimento da população
mundial de acordo com as projecções da Divisão de População do Departamento
de Assuntos Económicos e sociais das Nações Unidas.

4.1.1.2 – Causas principais do crescimento demográfico:


1. Estatuto e papel da Mulher centrados na maternidade – A progenitora é
considerada como o meio de se alcançar muitos objectivos da vida quotidiana;
2. Valor da Criança – As crianças são vistas como garante do futuro dos mais
velhos, devido à inexistência de segurança social;
3. Mortalidade infantil elevada – o número de crianças que conseguem sobreviver
é reduzido, o que origina a necessidade de famílias numerosas;
4. Baixo nível educacional da mulher – tende a reduzir a idade média do primeiro
casamento;
5. Planeamento familiar reduzido e baixo uso de contraceptivos.

4.1.1.3 – Consequências principais do acelerado crescimento


demográfico
Consequências socio-económicas:
• Maior pressão demográfica;
• Maior urbanização;
• Aumento do desemprego e sub emprego;
• Maior número de pobres;
• Fome e Subnutrição;
• Maiores tensões sociais;
• Recurso à emigração;

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Consequências políticas:
• Mudança na composição do eleitorado;
• Surgimento de novas ideologias e de novos partidos;
• Instabilidade política;
• Corrupção;
• Tendência para a formação de governos autocráticos;
• Intervenção das forças militares e de segurança, na governação;
Consequências ambientais:
• Escassez de água potável ou útil em determinadas regiões (provoca
desertificação, menor produção agrícola e maior salinação das terras);
• Redução das florestas;
• Decréscimo da terra de cultivo per capita;
• Aquecimento gradual da atmosfera;
• Mudanças climáticas mundiais em grande escala (subida do nível do mar,
aumento de pluviosidade e aumento das temperaturas).
Face a esta situação que medidas tomar:
• Acelerar o desenvolvimento social e económico;
• Aumentar o controlo das mulheres e dos homens sobre a sua vida,
nomeadamente sobre a sua vida reprodutiva e permitir que gozem os seus
direitos humanos fundamentais.

4.2 – Envelhecimento demográfico ou populacional


Assiste-se hoje nas sociedades mais desenvolvidas o fenómeno do envelhecimento
demográfico ou seja aumento da percentagem relativa de indivíduos com 65 e mais
anos de idade no conjunto da população total.
O fenómeno do envelhecimento populacional nos países industrializados começou a
acentuar-se na segunda metade do século XX. Os reflexos nos sistemas sociais e de
segurança social dos países mais ricos do planeta tem justificado que o
envelhecimento mereça hoje mais atenção até do que a explosão demográfica nos
países em vias de desenvolvimento.

4.2.2 – Evolução da população por grupos etários nas grandes


Regiões:
4.2.2.1 – Mundo:
A proporção dos jovens desde a década de 50 baixou de 34% para 30% enquanto a
população com mais de 60 anos aumento de 8% para 10%.

4.2.2.2 – Regiões mais desenvolvidas:


Em 2050 a população com mais de 60 anos representará 33%, mais do dobro, da
proporção de jovens com menos de 15 anos 15%.

4.2.2.3 – Regiões menos desenvolvidas:


Processo de envelhecimento da população tem sido mais lento. Em 2050 irá assistir-se
a um aumento significativo quase o triplo da população com 60 e mais anos que
atingirá 21% enquanto que os jovens com menos de 15 anos baixarão para 20%.

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4.2.2.4 – Evolução do número de indivíduos com 65 e mais anos no total da
população mundial:
Existe uma tendência para o envelhecimento da população no Mundo. Sendo mais
acentuada nos países mais desenvolvidos no período entre 1950-2020.

4.2.3 – Causas do envelhecimento demográfico:


O envelhecimento demográfico ou populacional deriva de uma das três razões
principais:
1. Envelhecimento natural do topo, resultante do acréscimo da percentagem da
população idosa, em consequência de tendências demográficas endógenas
normais. O acréscimo do número de indivíduos com 65 e mais anos resulta, da
baixa da taxa de mortalidade e da mortalidade infantil com consequente
aumento da esperança média de vida, resultado do avanço da medicina e de
melhores condições de vida;
2. Envelhecimento artificial do topo, que acrescenta à primeira, a concentração de
idosos em regiões particularmente atraentes, devido, entre outras causas, às boas
condições climáticas e existência de serviços especializados. A presença e
intensidade destes e outros factores exógenos às normais tendências
demográficas, tem por paradigma o caso da Florida – que, por isso mesmo, tem
constituído um verdadeiro laboratório de pesquisa, como antevisão do que virá a
ser, a curto prazo, a estrutura das idades da população dos E.U.A. e as de outros
países desenvolvidos, ou ainda devido ás migrações, quer internas quer
internacionais, dado serem os jovens que maior tendência têm para migrar.
3. Envelhecimento natural na base, resultante da quebra da natalidade
característica de sociedades urbanas e industriais, com a consequente redução
progressiva da camada mais jovem, no total da população.
A baixa da taxa da natalidade resultou de múltiplos factores, como o avanço da
medicina, melhores condições de vida, baixa da mortalidade infantil, maiores
habilitações literárias da mulher, maior participação da mulher na vida activa, ao
aumento da idade média à data do primeiro casamento e uso de métodos de
contracepção.

4.2.4 – Consequências do envelhecimento populacional ou


demográfico:
4.2.4.1 – Consequências económicas:
O aumento de populações envelhecidas traz consequências a nível económico,
político, social e também a nível individual, quer físico, psíquico e psicossocial.
A nível económico, o aumento da população idosa acarreta maiores custos com a
segurança social (pensões e reformas) com a saúde (hospitais e medicamentos) com a
criação de infra-estruturas (lares, centros de dia). Todos estes encargos financeiros
para com o Estado serão suportados por uma população activa, cada vez mais
reduzida, o que implicará uma diminuição na qualidade de vida.

4.2.4.2 - Consequências políticas:


Os idosos terão maior poder eleitoral podendo alterar indirectamente o funcionamento
da sociedade e da economia.

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Uma sociedade com menor percentagem de população activa, poderá apresentar certas
características:
Inflação baixa (os eleitores idosos não querem ver as suas poupanças diminuídas
pela inflação);
Taxa de desemprego baixa (devido á queda na proporção de pessoas no activo;
Criminalidade baixa (os mais velhos não têm tendência a tolerar o crime);
Baixa tolerância da desordem e do comportamento anti-social;
Maior aceitação da autoridade no controlo deste tipo de comportamento.

4.2.4.3 - Consequências individuais do envelhecimento:


Quer a nível físico quer a nível individual e social os mais idosos têm maior tendência
para se sentirem mais isolados e excluídos da sociedade.
Consequências físicas:
Com a idade o organismo fica mais debilitado, com menor resistência às doenças e
com menor capacidade para realizar determinadas actividades;
Consequências económicas e sociais
A entrada para a reforma ou dependência de pensões ou subsídios estatais significa
para a maioria da população idosa uma redução dos seus rendimentos. A perda de
contacto com a vida activa e produtiva leva a que muitos se sintam excluídos da
sociedade.
Existe por parte dos mais jovens a criação de estereótipos contra os mais idosos,
considerando-os política e economicamente mais conservadores, mais intolerantes,
socialmente inúteis e fisicamente incapazes.

4.2.5 – Tendências do envelhecimento populacional:


• A maioria da população com 60 ou mais viverá em países mais desenvolvidos;
• O maior acréscimo da população com 60 e mais anos dar-se-á nos países menos
desenvolvidos;
• Feminização da população envelhecida;
• Aumento do número de pessoas com 80, 90 e 100 anos;
• Redução do número de activos por cada idoso;

4.2.6 – Possíveis estratégias de intervenção:


• Fomentar a natalidade com recurso a políticas natalistas;
• Aumentar a idade da reforma;
• Redefinir o papel e imagem do idoso;
• Educar para a vida na terceira idade;
• Criar medidas para apoio de idosos na vida activa;
• Promover acções de formação para os idosos;
• Reintegrar os idosos na vida activa;
• Fomentar a participação de idosos em regime de cooperação com países em
desenvolvimento.

4.3 – Migrações:
Desde sempre que o homem se tem movimentado de um local para o outro na busca
de melhores condições para a sua sobrevivência (melhores terras, melhor clima,
melhores acessibilidades, etc…

37
Contudo foi a partir do século XVI que se deram os maiores movimentos.

4.3.1 - Classificação das migrações:


Por migração, entende-se o movimento de uma população, temporário ou
permanente, de um local físico para outro.

4.3.1.1 – Migrações internas


Entendem-se os movimentos definitivos ou sazonais das populações dentro de um
país, território ou área restrita.
Classificações das migrações internas:
Definitivas, como o êxodo rural (saída dos campos para as cidades);
Sazonais, constituídas por grupos organizados de pessoas em resposta a ofertas de
trabalho fora das suas regiões habituais de residência durante determinados
períodos do ano.
Causas das migrações internas:
Ordem económica – de natureza laboral (desemprego, sub emprego, baixos
salários).
Ordem não económica – podem ser de vária natureza:
Ecológica (escassez de água potável, maior rigor do
clima, infertilidade das terras);
Sociais (conflitos, dificuldades de comunicação;
inexistência de infra-estruturas tais como centros de saúde, escolas etc.)

Consequências das migrações internas:


A crescente urbanização que trará sérios e vários níveis de problemas:
1. Ao nível demográfico – desertificação do interior e zonas rurais contribuindo
para o envelhecimento dessas regiões e consequentemente um aumento da
densidade populacional nas áreas urbanas;
2. Ao nível familiar – abandono de mulheres, crianças e idosos, enquanto os
homens vão para as cidades;
3. Ao nível social – desemprego ou sub emprego, baixos salários, bairros com
precárias condições de vida, tensões sociais e pressão sobre os sistemas de
prestação de serviços.

4.3.1.2 - Migrações Internacionais:


São movimentos populacionais que ocorrem entre países.
Emigrante é o indivíduo que sai do seu país para ir trabalhar noutro, chegado ao
destino chama-se imigrante.

Migrações internacionais. Alguns factores:


Natureza das motivações, que podem ser políticas (guerras, revoluções
perseguições étnicas ou religiosas) e migrações económicas (desemprego, salários
baixos, más condições de vida);
Distância percorrida, poderá ser transoceânica ou de curtas distâncias;
Duração de permanência – poderá ser definitiva ou temporária (migrações
sazonais, anuais ou plurianuais – contratos por temporada;

38
Duração do fluxo, que está relacionado com a conjuntura económica e/ou por
decisões políticas dos países de origem e de destino;
A estrutura familiar dos grupos migrantes, tendendo a reflectir-se nos respectivos
comportamentos, consoante a emigração seja de curta ou longa distância;
As qualificações dos migrantes que poderá facilitar a sua entrada e integração
socioprofissional nos países de destino;
Proximidade cultural entre os migrantes e a população anfitriã (língua, etnia,
cultura).
Causas das migrações internacionais:
Ordem económica – natureza laboral (desemprego, baixos salários, etc);
Ordem não económica – políticas (guerra, perseguições, revolução,)
demográficas (maior densidade populacional), sociais (falta de infra-
estruturas), religiosas/culturais (proibição de professar outros cultos, existência
de certas práticas rituais), familiar (reagrupamento familiar), pessoal
(realização profissional, gosto de viver no estrangeiro)
Consequências das Migrações internacionais:
As desigualdades económicas, cada vez maiores, entre os países mais desenvolvidos e
os menos desenvolvidos, e as pressões politicas, ecológicas e demográficas, levam a
que cada vez um maior número de indivíduos procure outros países.
Consequências para o Pais de destino:
Ordem económica: aumento da população activa e o aumento de população menos
qualificada (para realizar tarefas que os naturais não queiram desempenhar);
Ordem demográfica: rejuvenescimento das suas populações;
Ordem socio-política – surgimento de sentimentos de xenofobia e racismo por parte
das populações anfitriãs.
Consequências para os países de origem:
Ordem económica – contribuição financeira dos seus emigrantes através do envio de
remessas, redução da população activa qualificada;
Ordem demográfica – envelhecimento das suas populações (são os jovens que mais
emigram);
Ordem social – abandono de mulheres e crianças, contacto com outras culturas e
tradições que poderão levar à extinção de determinadas práticas tradicionais ou
adopção de práticas novas, como por exemplo, maior recurso às técnicas de
planeamento familiar.
Tendências das migrações internacionais para os próximos 20 anos:
Globalização das Migrações – tendência para que um maior número de países seja
afectado ao mesmo tempo por movimentos migratórios (possível implementação de
medidas restritivas);
Crescimento das Migrações – tendência para que o volume dos movimentos
migratórios se torne cada vez maior;
Indiferenciação das Migrações – Inicialmente eram só de um tipo trabalhadores sou
refugiados. Hoje, assiste-se a movimentos de vários tipos que se tornam um obstáculo
à tomada de medidas restritivas, por envolverem critérios diferentes;
Feminização das Migrações – hoje assistem-se a movimentos de migração feminina,
por exemplo as mulheres turcas precedem os maridos na emigração para a Alemanha.

39
Processo migratório internacional: o modelo das 4 fases
Etapa temporária;
Prolongamento da estada;
Reagrupamento familiar;
Fixação permanente.
4.4 – Políticas demográficas ou políticas da população:

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Jacquard, 1994
4.4.1 – Evolução da população mundial:
Enquanto os países mais desenvolvidos, evidenciam uma tendência para um
decréscimo do seu efectivo populacional, nos países menos desenvolvidos verifica-se
uma situação inversa, ou seja, as suas populações terão um peso cada vez maior no
total mundial.
O diferente crescimento entre estas duas grandes regiões deve-se, sobretudo, à
variação da fecundidade. Para alterar esta situação, os estados podem servir-se das
políticas demográficas ou da população que melhor se adeqúem às características e
necessidades dos seus países.

4.4.2 – Politicas demográficas. O que são?


Entende-se por políticas demográficas, o conjunto de medidas tomadas pelas
entidades governamentais, que de forma directa ou indirecta, visam alterar a evolução
da população. Estas alterações do movimento da população podem ser feitas com base
nas áreas do processo populacional, ou seja:
Área da natalidade (é nesta área onde as políticas têm mais incidido e onde os
governos mais intervêm);
Área da mortalidade – políticas de melhores condições de vida, água potável,
saneamento básico;
Área das migrações – variam com as características demográficas dos países, ou
seja, em função do seu grau de desenvolvimento.

4.4.2.1 – Políticas demográficas ou da população na área da


natalidade:
As políticas na área da natalidade têm como principal objectivo alterar o volume dos
nascimentos, para o aumentar, manter ou baixar:
Políticas natalistas – aumento da taxa da natalidade (benefícios fiscais, infra-
estruturas sociais, apoio à maternidade, proibição do aborto, área laboral –
horários especiais, propaganda anticoncepcional i.e. França);
Políticas anti-natalistas ou neomalthusianas – diminuição da taxa da natalidade
(i.e. china limitou a idade dos casamentos uma política de filho único);
Políticas de neutralidade – cujos resultados variarão de acordo com as
circunstâncias de cada país. Caso do Canada e Austrália, aumento da população
activa e rejuvenescimento demográfico com as políticas de emigração.

40
4.4.2.2 – Politicas anti-natalistas ou neumalthusianas:
Estas medidas podem ser directas ou indirectas:

Condições Exemplos de Politicas


prévias para a Directas Indirectas
obtenção dos
efeitos
desejados
Escolha Alargar os direitos das Promover a educação;
Racional mulheres; Promover o diálogo entre os
Aumentar a idade legal à data conjugues na tomada de
do primeiro casamento da decisões sobre o número de
mulher. filhos pretendidos e o
intervalo entre eles.
Promoção das Medidas incentivadoras: Medidas Incentivadoras:
famílias Subsidiar as famílias para Aumento das
que não tenham filhos; oportunidades educacionais
pequenas
Dar prioridade no emprego, para as mulheres;
na habitação e educação às Aumento das
famílias pequenas. oportunidades no mercado de
Medidas Dissuasoras: trabalho para as mulheres.
Aumento dos impostos às Medidas Dissuasoras:
famílias por cada filho Adopção de legislação a
adicional; proibir o trabalho infantil;
Maiores custos com a Educação obrigatória para
maternidade e educação por as crianças;
cada filho adicional. Campanhas de
estigmatização social.
Meios Legalização do aborto; Realização de campanhas
disponíveis Legalização da esterilização públicas para divulgação e
feminina e masculina; promoção do planeamento
para limitar o Legalização de outras formas familiar;
tamanho das de controlo da fecundidade; Políticos a favor do
famílias Distribuição gratuita de planeamento familiar.
meios de contracepção.

4.4.2.3 – Politicas sem intervenção específica na área da natalidade,


politicas de imigração:
Face à baixa taxa de natalidade e ao consequente envelhecimento populacional,
alguns países adoptam medidas populacionistas inserindo-se no âmbito das políticas

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da imigração; permitindo o aumento do seu efectivo populacional com o aumento da
natalidade, acréscimo da população activa e rejuvenescimento demográfico, uma vez
que quem imigra, maioritariamente são os jovens.
Políticas que podem influenciar as migrações:
• Factores profissionais – limitar ou facilitar a entrada de mão-de-obra
qualificada e ao mesmo tempo, a não qualificada destinados a ocupações que os
naturais tendem a rejeitar;
• Factores sanitários – recusando indivíduos pelo seu cadastro criminal,
controlos sanitários impedindo a entrada de indivíduos portadores ou potenciais
portadores de determinadas doenças;
• Factores étnicos e raciais – adoptando medidas a beneficiar determinadas
etnias em detrimento de outras.

4.4.3 – Conferências mundiais sobre a população:


Foram organizadas pela Organização das Nações Unidas até hoje três conferências
mundiais sobre a população:
1. Conferência Mundial de Bucareste (1974)
2. Conferência Internacional do México sobre a População (1984)
3. Conferência Internacional do Cairo sobre a População e Desenvolvimento
(1994)
As três partem da premissa de que o crescimento da população é um potencial
obstáculo ao desenvolvimento económico e que o bem-estar das populações passa por
uma estratégia de limitação do crescimento populacional. A prioridade em consenso
foi a redução da moralidade, ainda que o seu decréscimo provoque uma maior pressão
demográfica. A conferência do Cairo introduziu a importância social atribuída às
mulheres e aos direitos da saúde reprodutiva. A promoção da participação dos homens
como parceiros capazes de dar apoio.

V. GLOBALIZAÇÃO ECONÓMICA:
5.1 - Introdução:
Principais conceitos usados na análise dos determinantes da globalização, moldura
básica necessária para a compreensão das relações entre globalização,
desnacionalização e vulnerabilidade externa. O argumento central é que o processo de
globalização económica provoca relações mais complexas e profundas de
interdependência entre economias nacionais e, no caso de alguns países (Brasil, - e
toda a América Latina) essas relações levam à consolidação ou ao agravamento de
uma situação de vulnerabilidade externa.
A entrada “desqualificada” de abertura ao capital estrangeiro provoca uma
desnacionalização agravando a vulnerabilidade externa da economia. A entrada de
empresas de capital estrangeiro (ECE), transnacionais, por virem acompanhadas de
extraordinárias fontes internas de poder e principalmente de fontes externas de poder.
IED - O Investimento Externo Directo refere-se a todo o fluxo de capital estrangeiro
destinado a uma empresa (residente) sobre a qual o estrangeiro (não-residente) exerce
controlo sobre a tomada de decisão.

42
ECE – Empresas de Capital Estrangeiro – empresa matriz (não residente), da filial
ou subsidiária (residente) no país. É uma empresa internacional, multinacional,
transnacional.

5.2 – Da internacionalização á globalização


A globalização pode ser definida como a interacção de três processos distintos que
têm ocorrido ao longo dos últimos vinte anos e afectam as dimensões financeira,
produtiva, comercial e tecnológica das relações económicas internacionais.
1. A expansão extraordinária dos fluxos internacionais de bens, serviços e
capitais;
• Refere-se à expansão extraordinária dos fluxos internacionais de bens,
serviços e capitais. Nos fluxos de capitais, os dados mostram que os
empréstimos internacionais mais o investimento de acções em bolsa
aumentaram 400 biliões em 1987 para 1,6 triliões de dólares em 1996. Os
fluxos de capitais em todos os mercados compõem o sistema financeiro
internacional (títulos, acções, empréstimos, financiamentos, moedas e
derivados).
• Globalização na esfera produtiva – refere-se sempre que um país que tem
acesso a bens e serviços com origem noutros países, que ocorre por meio
do comércio internacional, investimento externo directo e relações
contratuais. Em termos de inserção produtiva dos países no sistema
económico internacional, os mecanismos relevantes são o investimento
externo directo e as relações contratuais. As exportações e as importações
são formas de inserção comercial no sistema económico mundial.
• Investimento externo directo significa que um agente económico
estrangeiro actua na economia nacional por meio de subsidiárias ou filiais,
enquanto as relações contratuais permitem que agentes económicos
nacionais produzam bens ou serviços que têm origem no resto do mundo.
Os contratos de transferência de know-how, marcas, patentes, franquias,
parcerias e alianças estratégicas são os exemplos mais comuns.
2. A concorrência desenfreada nos mercados internacionais;
• Ou seja o acirramento/agitação da concorrência internacional. A
competitividade internacional na agenda da política económica dos países
sugere que há uma rivalidade cada vez maior no sistema económico
mundial. Manifesta-se numa maior disputa por transacções financeiras
internacionais envolvendo um maior número de bancos e instituições
financeiras não bancárias. O maior banco de investimentos dos EUA é o
Merrill Lynch que ocupou o primeiro lugar na emissão internacional de
títulos.
• Os investimentos em Bolsa com bases geográficas, são efectuados por
investidores que podem actuar por meio de instituições financeiras
internacionais ou, então, directamente nos mercados nos quais têm
interesse. Estes centros de investimento, mercados emergentes, situam-se
em Singapura e Hong Kong, S. Paulo e Cidade do México e Varsóvia e
Budapeste na Europa.
3. A maior integração entre os sistemas económicos nacionais ou seja crescente
integração dos sistemas económicos nacionais.

43
• Este processo manifesta-se quando no caso da globalização financeira,
uma proporção crescente de activos financeiros emitidos por residentes
está nas mãos de não-residentes e vice-versa. Ou seja o indicador é o
diferencial entre as taxas de crescimento das transacções financeiras
internacionais e nacionais.
• Participação de títulos estrangeiros na carteira dos fundos de pensões
norte-americanas.
Durante o final do século XIX o contra movimento proteccionista atingiu as
transacções internacionais das mercadorias estratégicas, durante este período do
nacionalismo liberal transformava-se um liberalismo nacional, com os seus mercados
apoiando-se no proteccionismo e no imperialismo na área externa e no
conservadorismo monopolista na área interna.
A especificidade da globalização económica no final do século XX consistiu na
simultaneidade dos processos de crescimento extraordinário dos fluxos internacionais,
“acirramento” da concorrência no sistema internacional e integração crescente entre
os sistemas económicos nacionais.
Contudo, esse processo ocorre sem o contra movimento proteccionista,
intervencionista e regulador, que marcou, por exemplo, o final do século XIX. Essa
especificidade é particularmente importante e merece um nome específico:
globalização.

5.3 – Determinantes da globalização:


Os determinantes da globalização podem ser agrupados em três conjuntos de factores:
1. Tecnológicos
• Desenvolvimentos tecnológicos associados à revolução informática e das
telecomunicações. Redução dos custos operacionais e dos custos de
transacção numa escala global.

2. Institucionais
• Envolve factores de ordem política e institucional vinculados à ascensão
das ideias liberais na década de 80, Tatcher e Reagan. O resultado dessa
ascensão foi uma onda de desregulamentação do sistema económico à
escala global., no entanto na década de 70 a pressão para uma maior
liberdade forçou a ruptura do sistema de Bretton Woods que foi
acompanhada da instabilidade de taxas de juros e câmbios. Assim, a
liberdade de escolha, diante de opções políticas e ideológicas mais
liberalizantes, parece ter desempenhado um papel coadjuvante no
processo de liberalização, tendo em vista a força avassaladora e a
gravidade da realidade económica, bem como a própria fragilidade e a
incapacidade das elites nacionais de definirem projectos alternativos de
ajuste e desenvolvimento.
• Ao longo dos anos 80, os fundos mútuos, as companhias de seguros e os
fundos de pensões dos países desenvolvidos defrontaram-se com a
instabilidade das taxas de juros e das taxas de câmbios o resultado foi uma
mudança de orientação na estratégia de diversificação dos seus recursos,
no sentido de uma maior dispersão geográfica.
3. Sistémicos

44
• Os factores são de ordem sistémica e estrutural. O ponto central reside em
ver a globalização económica como parte integrante de um movimento de
acumulação à escala global caracterizado pelas dificuldades de expansão
da esfera produtiva das economias capitalistas sólidas/maduras. A questão
central refere-se ao menor potencial de crescimento dos mercados
domésticos dos países desenvolvidos, ricos em capital, isto é, trata-se do
problema clássico de realização do capital. Como resultado, há um
deslocamento de recursos da esfera produtiva para a esfera financeira e,
portanto, um efeito de expansão dos mercados de capitais domésticos e
internacional.
No início dos anos 80, após o período de crise (estagnação e inflação) dos anos 70, a
situação das economias capitalistas “maduras” era particularmente difícil.
As economias capitalistas desenvolvidas defrontavam-se com quatro respostas básicas
para sair da crise de acumulação
1. Saída keynesiana
Com políticas fiscais expansionistas e défices públicos. A expansão dos investimentos
públicos é uma das principais formas de realizar essa saída da crise. Entretanto, essa
saída tem retornos decrescentes na medida em que os défices públicos recorrentes
provocam o crescimento da dívida pública interna e acabam mais tarde por gerar
políticas monetárias restritivas.
2. Saída schumpeteriana
De indução do processo de destruição criadora, por meio do qual se promove uma
nova onda de inovações tecnológicas e organizacionais capaz de aumentar os gastos
(consumo e investimento). No entanto, do ponto de vista da procura interna pode
ocorrer que esse processo provoque mais destruição do que criação ou seja as
inovações tecnológicas e organizacionais podem poupar a mão-de-obra e acaba por
reduzir a massa de salários na economia. Assim temos o conhecido “mecanismo do
acelerador” por meio do qual o maior crescimento da procura provoca aumento dos
investimentos.
3. Distribuição do produto e riqueza
Ainda que essa resposta seja muito mais efectiva em economias atrasadas, com
populações pobres e enormes desigualdades, ela pode ter algum impacto nas
economias desenvolvidas. O problema central é de natureza política.
4. Mercado externo
Tentam transformar as exportações na “locomotiva” da economia nacional. Nesse
sentido as economias avançadas devem alcançar uma trajectória de crescente
competitividade internacional, as restrições pelo lado da procura externa são também
cada vez maiores, considerando o lento crescimento da economia mundial, as suas
flutuações cíclicas e as ondas de proteccionismo.
O processo de globalização dos últimos anos tem servido para interromper e,
eventualmente, reverter a tendência da queda das taxas dos lucros nas economias
capitalistas desenvolvidas entre o início dos anos 70 e 80 – período de estagnação. O
processo de globalização por meio da abertura e exploração dos mercados externos
– tem permitido uma recuperação das taxas de lucro.
Na realidade, a saída preferencial usada pelas economias capitalistas desenvolvidas
desde o início dos anos 80 tem sido aquela que procura maior acesso aos mercados

45
internacionais de bens, serviços e capitais. Essa estratégia surge como reacção à
insuficiência de procura interna nos países capitalistas desenvolvidos, sendo
activamente promovida por governos e empresas transnacionais. Portanto, a
insuficiência da procura colectiva nos países desenvolvidos constitui-se no mais
importante e determinante fenómeno da globalização económica deste final de século.

5.4 – Capital estrangeiro e poder:


O conhecimento sistemático das fontes ou dos elementos da base de poder de
empresas de capital estrangeiro (ECE) é fundamental não somente para uma melhor
compreensão da distribuição dos benefícios entre as ECE e os países, mas também em
ajudar a entender a razão porque as ECE são capazes de ter determinados efeitos
sobre as economias nacionais.
Há três diferentes formas de exercício de poder nas ECE: coacção, autoridade e
influência
1. Coacção existe quando o consentimento é baseado na privação física, ou a
ameaça de privação física;
2. Autoridade refere-se a consentimento legitimado;
3. Influência é um termo residual, referindo-se a um consentimento não-legitimado
e não coercivo.
O papel das ECE como um agente de “mobilização de viés”, isto é, não se deixa de
lado os efeitos das ECE sobre a tomada de “não-decisão”. A não-decisão é uma
decisão que resulta na supressão ou impedimento de um desafio latente ou manifesto
para os valores ou interesses do tomador de decisões. A tomada de não-decisão pela
ECE parece ser significativo quando se considera a capacidade dessas empresas de
influenciar ou moldar percepções e preferências por meio dos tipos de bens e serviços
fornecidos, assim como pelo uso dos meios de comunicação de massa.
As fontes ou elementos da base de poder de ECE são divididas em dois tipos: externas
e internas
1. As fontes externas são derivadas de elementos fora do controlo dos países
receptores do IED (investimento externo directo), de modo que o governo tem
pouca, se alguma probabilidade de mudar esses elementos. Assim, estes podem
ser vistos como parâmetros na análise do papel político das ECE.
2. As fontes internas de poder podem, até certo ponto e sob certas circunstâncias,
ser colocadas sob o controlo dos governos dos países receptores e,
consequentemente, vistas como variáveis a serem usadas para reduzir o poder
das ECE.
É difícil definir um elemento da base de poder das ECE como externo ou interno.
Além disso, esses elementos nem sempre são independentes uns dos outros, já que a
própria existência de um elemento externo pode criar condições para o aparecimento
de um elemento interno.
No que se refere às fontes internas de poder das ECE pode-se mencionar:
• A estrutura do mercado interno
• Controlo de associações patronais
• Liderança de mercado
• Acesso aos decisores governamentais
• Efeito fiscal

46
• Padrões de associação com grupos industriais e financeiros locais
• Interligação de administrações/direcções
• Conexões políticas locais
• Padrão ideológico hegemónico
• Influência do nacionalismo
• Conjuntura política
• Disponibilidade de formas alternativas de internacionalização da produção
• Importância estratégica dos bens e serviços produzidos
• Potencialidade do mercado interno
• Controlo e uso dos meios de comunicação
• Controlo e uso dos meios de comunicação
• Níveis de alfabetização/educação/formação profissional do país receptor
• Atitudes culturais
• Coerência da política governamental
• Natureza das políticas públicas (comercial, cambial, financeira)
• Institucionalidade (aparelho repressivo/coercivo do Estado)
• Grau de desnacionalização, e vulnerabilidade externa do país
Uma parte substantiva das fontes internas mencionadas também se aplica ao caso das
empresas privadas nacionais, particularmente aos grandes grupos económicos
nacionais.
Quanto mais importantes forem os recursos da propriedade das ECE, maior tende a
ser a sua capacidade de usar diferentes métodos para controlar mercados, criar poder
económico e, consequentemente, poder político.
A especificidade das ECE está de facto nas fontes externas de poder.

5.5 – Fontes externas de poder:


1. Capacidade de mobilização de recursos à escala global
• As ECE deslocam recursos de uma subsidiária para outra, de um país para
outro. Podem realizar uma política de dumping em qualquer mercado
específico por um longo período usando os recursos obtidos noutros
mercados e países. Assim, as ECE podem usar subsídios cruzados como
uma táctica para controlar mercados, geram poder económico e poder
político;
2. Grau de integração do sistema matriz-filiais
• É uma maior flexibilidade no uso dos mecanismos dos preços de
transferência, realizando a sua própria vontade apesar da resistência do
país receptor. Operam em mercados de concorrência monopolista, onde as
políticas de controlo de preços de transferência têm uma baixa eficácia.
3. Assimetria da informação
• Possuem informações sobre a situação e perspectivas a respeito de
produtos e mercados que não estão disponíveis.
4. Estrutura do mercado à escala global
• Tendem a aumentar o poder de comercialização menos claro das ECE. A
rivalidade entre os competidores afecta a conduta das ECE que entram
como conluios no mercado internacional ou mesmo num mercado
nacional específico.

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5. Interdependência à escala global
• A natureza da concorrência oligopolista ou monopolista pode restringir a
rivalidade por meio da moderação ou cooperação, como uma táctica para
controlar mercados e também para criar solidariedade, reciprocidade e,
consequentemente, uma comunidade de interesses no plano internacional.
6. Concentração segundo a origem
• Deve-se esperar maior probabilidade de acordos formais ou informais
quando há um grau mais elevado de concentração do país de origem das
ECE. Semelhantes heranças sócio-culturais de executivos tendem a
aproximá-los, aumentando a probabilidade de acordos e de acção comum.
A existência de Câmaras de Comércio como um espaço de discussão e
instrumento de pressão, mostra a importância da origem comum do capital
estrangeiro.
7. Importância relativa do país receptor
• O poder das ECE num determinado país está inversamente relacionado
com a importância relativa do país receptor no cenário internacional. As
ECE correm mais riscos quando estão dispersas entre vários países do que
quando se concentram em apenas alguns.
8. Dinâmica da inovação tecnológica
• As ECE caracterizam-se por um dinamismo tecnológico, pois maior tende
a ser o poder de intervenção económica das ECE num pais isoladamente.
9. Concentração do desenvolvimento tecnológico
• A intervenção dos proprietários de tecnologia é uma fonte de pressão, pois
pode levar a uma maior vulnerabilidade externa dos países na sua
dimensão tecnológica como nas relações internacionais. Pode-se chegar
mesmo a uma situação de apartheid tecnológico, eventualmente
provocado por governos que fortaleçam o poder de intervenção/ acção das
ECE.
10. Política externa do governo do país de origem
• As ECE tendem a influenciar a política externa dos governos dos seus
países de origem para obter vantagens nos países receptores. Podendo
variar da protecção diplomática às operações militares.
11. Marco jurídico e institucional no sistema internacional
• As ECE podem apelar de forma directa ou indirecta para elementos
externos de natureza institucional podendo ampliar o seu poder. Estes
elementos referem-se a princípios, normas, procedimentos que se
encontram nos acordos internacionais, nas organizações multilaterais e
nos procedimentos dos tribunais de arbitragem. É razão porque desde
1995 há uma forte resistência à criação do Acordo Multilateral de
Investimentos (AMI) no âmbito da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Económico (OCDE). O objectivo central do AMI é
definir um conjunto de direitos para as ECE e, por outro lado, restringir o
grau de manobra de governos na direcção da regulamentação dessas
empresas.

5.6 – Os consumidores e a globalização:

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Num tempo em que as campanhas eleitorais se mudam dos comícios para a televisão,
das polémicas doutrinárias para o confronto de imagens e da persuasão ideológica
para as pesquisas de marketing, embora ainda nos interpelem como cidadãos é mais
fácil e coerente sentirmo-nos convocados como consumidores.

5.6.1 – Do Nacional ao global


Pode-se perceber o carácter radical destas mudanças examinando a maneira como o
significado de certas expressões do senso comum foi variando até não terem nenhum
sentido.
As lutas de gerações a respeito do necessário e do desejável mostram outro modo de
estabelecer as identidades e construir a nossa diferença.
Vamo-nos afastando da época em que as identidades se definiam por essências a-
históricas: actualmente configuram-se no consumo, dependem daquilo que se possui,
ou daquilo que se pode chegar a possuir.
Nos séculos XIX e XX a formação de nações modernas permitiu transcender as visões
“aldeãs” dos camponeses, e ao mesmo tempo evitou que nos dissolvêssemos na vasta
dispersão do mundo.
As culturas nacionais pareciam sistemas razoáveis para preservar, dentro da
homogeneidade industrial, certas diferenças e certo enraizamento territorial, que mais
ou menos coincidiam com os espaços de produção e circulação dos bens.
O valor simbólico de consumir “nosso” era sustentado por uma nacionalidade
económica, a procura de marcas estrangeiras era um recurso de prestígio se bem que
por vezes era uma opção por qualidade.
No entanto hoje, os objectos perdem a relação de fidelidade com os territórios de
origem. A cultura é um processo de montagem multinacional, uma articulação flexível
de partes, uma colagem de traços que qualquer cidadão de qualquer país, religião e
ideologia pode ler e utilizar.
O que diferencia a internacionalização da globalização é que no tempo de
internacionalização das culturas nacionais era possível não se estar satisfeito com o
que se possuía e ir procurá-lo noutro lugar. A internacionalização foi uma abertura das
fronteiras geográficas de cada sociedade para incorporar bens materiais e simbólicos
das outras. A globalização supõe uma interacção funcional de actividades económicas
e culturais dispersas, bens e serviços gerados por um sistema com muitos centros, no
qual é mais importante a velocidade com que se percorres o mundo do que as posições
geográficas a partir das quais se está agir.
As manifestações culturais foram submetidas aos valores que dinamizam o mercado e
a moda: o consumo incessantemente renovado, a surpresa e o divertimento. As
decisões políticas e económicas são tomadas em função das seduções imediatistas do
consumo, o livre comércio sem memória dos seus erros, a importação desenfreada dos
últimos modelos que nos faz cair, uma e outra vez, como se cada uma fosse a
primeira, nesse consumismo.
A maneira neoliberal de fazer a globalização consiste em reduzir empregos para
reduzir custos, competindo entre empresas transnacionais, cuja direcção tem origem a
partir de um ponto desconhecido, de modo que os interesses sindicais e nacionais
quase não podem ser exercidos. A consequência é que mais de 40% da população das

49
sociedades em vias de desenvolvimento se encontra privada de trabalho estável e de
condições mínimas de segurança.

5.6.2 – A cidadania numa época de consumo:


Quando admitimos a globalização como uma tendência irreversível, também é
necessário ter em atenção que partilhamos algumas suspeitas quanto ao modelo:
• Primeiro, existem muitas dúvidas fundamentadas que o global se apresente
como substituto do local.
• Segundo, os últimos acontecimentos mundiais, nomeadamente a reunião do
OMC, fragilizou completamente a ideia que o modo neoliberal de nos
globalizarmos seja o único possível.
O crescimento vertiginoso das tecnologias audiovisuais de comunicação provocou a
mudança do desenvolvimento do público e o exercício da cidadania. Desiludido com
as burocracias estatais, partidárias e sindicais, o público recorre à rádio e à televisão
para conseguir o que as instituições públicas não proporcionam: serviços, justiça,
reparações ou simples atenção.
A aparição destes meios põe em evidência uma reestruturação geral das articulações
entre o público e o privado que pode ser percebida também no reordenamento da vida
urbana, no declínio das nações como entidades que comportam o social e na
reorganização das funções dos actores políticos tradicionais.

5.7 – O novo cenário sociocultural perante a Globalização:


As mudanças sócio-culturais que estão a ocorrer podem ser sintetizadas em cinco
processos:
1. Um redimensionamento das instituições e dos circuitos de exercício do público:
perda de peso dos órgãos locais e nacionais em benefício dos conglomerados
empresariais de alcance transnacional;
2. Reformulação dos padrões de ordenamento e convivência urbanos: do bairro aos
condomínios, das interacções próximas à disseminação policêntrica da mancha
urbana, sobretudo nas grandes cidades, onde as actividades básicas (trabalhar,
consumir, estudar) têm lugar, frequentemente, longe do lugar de residência e
onde o tempo empregue para se deslocar por lugares desconhecidos da cidade
reduz o tempo disponível para habitar a própria;
3. A reelaboração do “próprio e do nosso”, devido ao predomínio dos bens e
mensagens provenientes de uma economia e uma cultura globalizadas sobre
aqueles gerados na cidade e na nação a que se pertence.
4. A consequente redefinição do lugar de pertença e identidade, organizado cada
vez menos por lealdades locais ou nacionais e mais pela participação em
comunidades transnacionais ou desterritorializadas de consumidores.
5. A passagem do cidadão como representante de uma opinião pública ao cidadão
interessado em desfrutar de uma certa qualidade de vida.
O que é novidade na segunda metade do século XX é que estas modalidades
audiovisuais e massivas de organização da cultura foram subordinadas a critérios
empresariais de lucro, assim como a um ordenamento global que desterritorializa os
seus conteúdos e as suas formas de consumo.

50
Esta reestruturação das práticas económicas e culturais leva a uma concentração
hermética das decisões nas elites tecnológico-económicas e gera um novo regime de
exclusão das maiorias incorporadas como clientes.
As sociedades reorganizam-se para nos fazerem consumidores do século XXI. O
direito de ser cidadão de decidir como são produzidos, distribuídos e utilizados esses
bens, restringe-se novamente às elites. O público é o marco mediático graças ao qual
o dispositivo institucional e tecnológico próprio das sociedades pós-industriais é
capaz de apresentar a um público os múltiplos aspectos da vida social.

VI. SAÚDE, DOENÇA E SOCIEDADE


6.1 – Saúde e promoção de saúde:
Apesar de ser difícil formular a definição de saúde, foi incluída na definição clássica
formulada pela Organização Mundial de Saúde, segundo a qual a saúde é o bem-estar
físico, psíquico e social do indivíduo.

A partir do século XVII, numa perspectiva funcionalista, o modelo de saúde acentua o


aspecto curativo das ciências da saúde, partindo da ideia que o equilíbrio no indivíduo
saudável se pode romper quando adoece, havendo então que reparar a avaria, papel
que é confiado aos profissionais de saúde, nomeadamente médicos e enfermeiros, cujo
número passou a ser um indicador de qualidade de cuidados de saúde.
Segundo o modelo preventivo, prevenção da doença, o importante é evitar que
indivíduo adoeça. Aqui desempenham um papel importante o uso das vacinas,
consumo de citrinos para prevenir o escorbuto e deixar de fumar na prevenção do
cancro do pulmão.
Nas últimas décadas do século XX acentuou-se o uso da expressão promoção de
saúde, que traduz um modelo mais alargado de saúde e que abrange atitudes,
comportamentos e estilos de vida que se traduzem no bem estar físico, psíquico e
social do indivíduo, contribuindo para evitar a doença ou outra condição que ponha
em risco a vida do individuo.
Nos programas de promoção de saúde destaca-se a necessidade de considerar a
população como um todo. Os indicadores de saúde mais utilizados têm sido o número
de médico e enfermeiros por 100.000 habitantes, a taxa de mortalidade geral, a taxa de
mortalidade infantil e a esperança de vida.
Os indicadores mostram que o nível de saúde é maior nos países industrializados do
que nos países em vias de desenvolvimento. Uma das tendências que se tem
verificado em todos os países é a da crescente procura de serviços e cuidados de saúde
o que faz com que os recursos, mesmo quando crescem, pareçam sempre
insuficientes.

6.2 – Assimetrias no campo da saúde:


6.2.1 – Países desenvolvidos e países menos desenvolvidos:
É nos países menos desenvolvidos que se encontra uma maior percentagem de
pessoas atingidas por doenças infecciosas sendo a SIDA a pior.
A nível geral as principais causas de morte são as doenças cardiovasculares,
infecciosas, cancro, acidentes, respiratórias e do tubo digestivo. Portugal segue a
mesma tendência dos países desenvolvidos.

51
6.2.2 – Sexo e classe social:
Saúde e doença não se encontram uniformemente distribuídas na sociedade.
Por exemplo a esperança de vida das mulheres em maior do que a dos homens, que
têm sido apontadas causas genéticas, no entanto controversas, mas que tudo indica
que a relação tem a ver com o comportamento da mulher e do homem.
É de notar que existe também um incidência maior nas classes mais baixas causada
por um menor conhecimento de como utilizar os serviços de saúde e como se proteger
das doenças mais comuns. O Inquérito Nacional de Saúde em Portugal mostra que é a
classe social com as habilitações literárias mais baixas. Assim, existe uma relação
significativa entre a pobreza e o menor nível de saúde.

6.3 – O problema da SIDA:


SIDA – Síndroma da Imunodeficiência Humana, é uma doença infecciosa causada por
um retrovírus o qual infecta os linfócitos T4, justamente as células que têm por missão
conduzir a defesa do organismo contra as infecções.
Com a debilitação do sistema imunológico, podem surgir diversas doenças, como a
tuberculose, pneumonias, ou o sindroma de Kaposi, tipo de cancro de pele
extremamente letal, que dão poucas hipóteses de sobrevivência ao indivíduo
infectado.

Para além do problema da SIDA como doença infecciosa, esta doença tem
desencadeado em todo o mundo reacções de carácter emocional, levando a fenómenos
de exclusão social dos indivíduos infectados, uma verdadeira epidemia social como
tem sido designada.

6.4 – As perturbações mentais:


Segundo Gulbinat o aumento de pessoas com perturbações mentais, neurológicas ou
de problemas psicossociais está ligado ao aumento da esperança de vida, crescente
número de indivíduos que atingirá a idade onde o risco é maior
O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, menciona mais de
300 perturbações especificas, algumas com elevada prevalência, como as fobias, a
depressão, as dependências do álcool e das drogas, as perturbações obsessivo –
compulsivas, a esquizofrenia e as psicoses afectivas.
Em Portugal a política no campo da saúde mental está definida na Lei nº36/98 de 24
de Julho, a qual estabelece que A protecção da saúde mental efectiva-se através de
medidas que contribuam para assegurar ou restabelecer o equilíbrio psíquico dos
indivíduos, para favorecer o desenvolvimento das capacidade envolvidas na
construção da personalidade e para promover a sua integração crítica no meio social
em que vive.
A tendência actual é para evitar internamentos prolongados de doentes mentais. A
prestação de cuidados de saúde mental é promovida prioritariamente a nível da
comunidade, de forma a evitar o afastamento dos doentes do seu meio habitual e a
facilitar a sua reabilitação e inserção social.

VII. A EDUCAÇÃO COMO PROBLEMA SOCIAL

52
7.1 – A nova equação educativa:
Nos primeiros anos do século XX; Durkheim definia educação como uma:
• Acção exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda se não encontram
amadurecidas para a vida social. Ela tem por objectivo suscitar e desenvolver na
criança um certo número de condições físicas, intelectuais e morais que dela
reclamam, seja a sociedade política, no seu conjunto, seja o meio especial a que
ela se destina particularmente.
O fundador da primeira cátedra de Educação e Sociologia da Sorbonne referia a ideia
de que a educação se traduzia num processo unilinear de preparação das novas
gerações, pelas mais antigas, para o exercício de papéis sociais.
Esta convergência de opiniões existia porque até há bem poucos anos, quando se
discutia sobre educação quase todos os interlocutores se referiam ao que hoje se
chama formação inicial.
Estava-se numa época em que o ciclo de vida do conhecimento, isto é, o tempo que
mediava entre o momento da sua criação e o da sua morte, era longo, podendo mesmo
exceder o ciclo de vida humano.
Assim, considerava-se que os conhecimentos acumulados na primeira parte da vida de
um indivíduo constituíam património cognitivo suficiente para o desempenho dos
vários papéis que ele iria ter ao longo da sua vida.

7.1.1 – A complexificação do conceito de educação:


Hoje, o Futuro entra cada vez mais depressa no Presente sem pedir licença, resultando
dai um processo de mudança acelerada e que segundo Margaret Mead, nos confere o
estatuto de migrantes do Tempo levando outros autores a considerar estarmos a entrar
numa espécie de Idade do Ferro Planetária.

Resultante da força conjugada do aumento da esperança média de vida das populações


e da redução drástica do ciclo de vida do Conhecimento, a formação inicial perdeu
peso relativo, circunscrevendo-se à aprendizagem básica de conhecimentos, técnicas e
atitudes, susceptíveis de virem alicerçar a aprendizagem ao longo do resto do ciclo de
vida. Em contrapartida regista-se o alargamento da formação contínua.
Assim, a educação no mundo contemporâneo assume-se como um processo que
acompanha o ciclo de vida humano.
Existem duas vertentes principais do processo educativo:
1. A educação formal
• É educação que abrange a chamada formação contínua (actualização,
reciclagem, extensão e reconversão) e de formação contínua superior, esta
última em contexto académico (pós-graduação) ou mais direccionada para
a investigação e desenvolvimento de unidades produtivas (formação
avançada).
2. A educação não formal
• Existe uma consciência de que a educação institucionalizada, educação
formal, não cobre todas as necessidades educativas assim as necessidades
educativas, não formais, foram agrupadas em dois conjuntos:
1. Uma educação que permita às gerações vivas, não só adaptarem-se à
mudança acelerada da sociedade contemporânea, mas também

53
aprenderem a geri-la em seu proveito. Educação ambiental,
consumidor, media, saúde etc.
2. Educação cívica e comunitária, que apela ao exercício da cidadania e
do foro privado como educação para a democracia e para a
solidariedade, educação familiar e educação intercultural.
O processo de complexificação do conceito de educação que se acabou de esboçar
resulta de três macrotendências da sociedade contemporânea:
1. Tendências para a aceleração da mudança
2. Tendências para assimetrias sociais
3. Tendências para alteração dos sistemas de poder

7.1.2 – Efeitos da mudança na educação:


Numa sociedade de informação, o sistema educativo encontra-se sob o fogo cruzado
de variados críticos.
Os diversos sinais traduzem esse desajustamento:
• No relatório da Comissão Nacional (EUA) para a Qualidade do Ensino (1983),
significativamente intitulado Uma Nação em Risco, refere-se que a presente
geração de finalistas do liceu é a primeira na história da América a concluir o
curso com menos conhecimentos do que os seus pais;
• Em consequência do desajustamento do sistema educativo à mudança, no
princípio dos anos oitenta, os analfabetos funcionais nos EUA variava entre 18 e
64 milhões. Não sabem ler e escrever suficientemente, nem fazer cálculos
simples que lhes sirvam minimamente para a sua vida quotidiana;
• As taxas de absentismo e de abandono no ensino secundário aumentaram
dramaticamente a partir dos anos 70, tendo como consequência um afluxo
crescente de jovens à procura de primeiro emprego, impreparados para um
correcto desempenho de tarefas exigidas na vida activa;
• Para agudizar a crise, à invasão dos postos de trabalho pelos computadores,
obrigando os titulares a uma familiarização mínima com estas ferramentas da
sociedade da informação, o sistema educativo não conseguiu responder ao
mesmo ritmo, correndo-se sérios riscos de estar a criar uma geração de
analfabetos informáticos.
A UNICEF no relatório anual de 1999 refere que 1000 milhões de pessoas vão entrar
no século XXI sem os conhecimentos necessários para ler um livro ou assinar o nome.
Podemos tipificar essas novas necessidades educativas em dois grupos que
mutuamente se interligam: necessidades relacionadas com a adaptação ao processo
de mudança e necessidades ligadas à gestão dos conteúdos dessa mudança (2ª
característica do mundo contemporâneo).
1. Aprender adaptar-se à mudança:
O adulto, o jovem e a criança têm necessidade de aprender estratégias
adaptativas face ao choque cultural provocado pelo acelerado ritmo de
mudança.
A compressão do Tempo, acelerando o metabolismo social torna imperiosa a
aprendizagem da adaptação aos novos ritmos de vida através da racionalização
de processos de decisão cada vez mais rápidos. Isto implica aprender a dominar
o medo ao desconhecido e a assumir o estatuto de imigrante no tempo
interiorizando que o novo, o diverso e o transitório não são maus em si, são

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riscos que contêm ameaças mas também oportunidades de melhorar a qualidade
de vida, assim é importante aprender:
• Adaptar-se a novos instrumentos e a novos processos de trabalho para que
deles possa extrair um desempenho qualificado;
• A ser um consumidor crítico e não um mero objecto das estratégias de
venda do sistema massificador da sociedade de consumo;
• A adaptar-se rapidamente a novos lugares e ambientes sabendo deles tirar
partido. Terá, por exemplo, de aprender técnicas de reconhecimento, de
observação e de integração a novos ambientes.
Assim é cada vez mais imperativo que se ganhem novas competências
comunicacionais de modo a poder com maior rapidez e melhor qualidade
estabelecer relações sociais nos níveis interpessoal, grupal organizacional e
institucional.
Quanto á relação com o saber o cidadão contemporâneo necessita de ter
consciência que há necessidade de reaprender pois o saber é degradável e a
ignorância uma constante. O fenómeno da planetarização, torna urgente o
investimento na aprendizagem sobre a unidade e sobre a diversidade da espécie
humana, combatendo toda a espécie de etnocentrismos.
2. Aprender a gerir a mudança:
Há necessidades educativas às gerações contemporâneas, no sentido de
aprenderem a gerir os conteúdos da mudança como protagonistas activos da sua
história e não como meros objectos da colisão civilizacional em curso. Assim
em necessário aprender:
• Tirar partido dos recursos e sistemas energéticos;
• Utilizar as novas tecnologias como instrumentos e não como fins em si,
contrapondo à dominante cultura do individualismo uma cultura da
solidariedade;
• Produzir, distribuir e consumir bens e serviços, à escala mundial, tendo
em vista a melhoria da qualidade de vida;
• Lidar com a diversidade de modelos de organização social (família, escola
e empresa);
• Orientar e controlar a sua vida de forma autónoma;
• Utilizar de maneira ética e crítica os media
• Aprender novas formas de se relacionar com o tempo e com as culturas
vigentes em presença.

Margaret Mead (1969) chama a atenção para que em virtude da mudança singular a
que a sociedade contemporânea está sujeita, o processo de socialização integrar três
diferentes sentidos, por vezes conflituais e que nos remete para o alargamento das
necessidades educativas a todas as gerações tem vindo a criar uma sobrecarga de
exigências aos sistemas educativos contemporâneos:
1. Uma socialização de tipo tradicional, das gerações mais velhas com as mais
novas;
2. Uma socialização semelhante à que os grupos migrantes sofrem.
3. Uma socialização de sentido inverso, das gerações mais novas para as mais
velhas;

55
7.1.3 – A educação e as assimetrias sociais: (segunda característica do
mundo contemporâneo)
O agravamento das desigualdades da qualidade de vida das populações, emerge um
conjunto de necessidades educativas e de formação para toda a população que
poderíamos englobar na expressão educação para o desenvolvimento e para a
solidariedade.
A necessidade de educar as gerações contemporâneas para o Desenvolvimento, ou
seja ensina-las a:
• Tirar partido, de forma sustentada, do meio ambiente dos recursos que dispõe;
• Evitar mortes desnecessárias e prolongar a vida com qualidade;
• Pôr a render as potencialidades humanas de produção, distribuição e consumo
de bens escassos no quadro de uma efectiva cidadania económica;
• Necessidade de educar para a solidariedade que aqui mais do que um dever
moral um imperativa de sobrevivência da humanidade.
A própria questão ambiental, muitas vezes posta de forma meramente tecnocrática,
pode e deve ser posta em termos de solidariedade inter-geracional, uma vez que as
acções das gerações actuais irão condicionar fortemente a qualidade de vida das
gerações futuras.

7.1.4 – A educação e alteração dos sistemas de Poder (terceira


característica do mundo contemporâneo):
Alteração dos sistemas de poder deve-se principalmente a duas características:
1. O avanço das novas tecnologias de informação e comunicação (NTICs) e o
desenvolvimento da sociedade de informação fizeram com que a principal fonte
de poder deixasse de ser a riqueza e passasse a ser o conhecimento;
2. Como expressão política do duplo processo de planetarização e de localização
registado na segunda metade do século XX, observou-se um aumento dos
protagonistas políticos e uma diversificação das suas relações, de acordo com
uma tendência para complexidade crescente.
Estas alterações em termos mundiais são as três macrotendências políticas:
1. A participação crescente dos cidadãos,
2. O fim do socialismo de economia centralizada
3. A privatização do Estado-providência
Assim, as novas formas de regulação e de orientação da sociedade exigem novas
aprendizagens por parte dos cidadãos:
• Aprender a planear, a definir rumos, adoptando a atitude prospectiva: olhando o
presente a partir de um futuro desejável;
• Aprender a decidir sozinho e em grupo para o que precisa de ganhar
competências no domínio da identificação de problemas;
• Aprender a ser autónomo, sem se insularizar no individualismo;
• Aprender democracia, quer como meta a alcançar quer como método a
desenvolver no dia-a-dia.

7.1.5 – Três níveis de análise:


A questão da educação em qualquer sociedade, configura-se como um problema
social complexo, com efeitos imediatos na sua coesão interna e na sua locomoção em
direcção a objectivos globais como o Desenvolvimento e Democracia.

56
A variável estratégica, conferida à educação, na sociedade contemporânea foi a
escolha de dois indicadores de educação entre os quatro seleccionado para integrarem
o índice de desenvolvimento humano (IDH) do Plano da Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD).
A análise pode ser efectuada de acordo com três conjuntos:
1. Numa perspectiva macro-sociológica, a questão da educação deve ser concebida
como um problema económico e político, tanto pela amplitude das necessidades
e dos recursos envolvidos como pelos efeitos globais do seu funcionamento;
2. Numa óptica meso-sociológica é indispensável entendê-la como um problema
organizacional, uma vez que a organização dos recursos tem efeitos imediatos
na eficácia e na eficiência do processo educativo;
3. Numa aproximação micro-sociológica interessa equacioná-la como um
problema psico-social, dado o processo educativo resultar fundamentalmente de
relações inter-pessoais, estabelecidas entre os diversos protagonistas envolvidos
no processo.

7.2 – A educação como problema económico e político:


A perspectiva do ensino como indústria – Khôi Lê Thành em 1970,
Estamos habituados a tratar a educação como um direito do homem, origem do seu
desenvolvimento moral e intelectual, instrumento de elevação social e condição para
a democracia política. Mas os progressos das ciências e das técnicas, as exigências
do crescimento e da pesquisa impõem também que se peça à educação uma
”produtividade” máxima que corresponda às necessidades da nossa época.
Nesta perspectiva o ensino constitui também:
A maior indústria da nossa época, tanto pelos recursos humanos e financeiros que
absorve desempenhando nos diversos cargos, administrativos, científicos e técnicos,
um papel motor no desenvolvimento das sociedades actuais.
Edgar Faure – “Aprender a Ser” 1977 partilhava da mesma opinião, afirmando:
A educação tornou-se desde o fim da 2ª Guerra Mundial o maior ramo de actividade
do mundo, em termos globais. Em termos orçamentais e no total das despesas
públicas mundiais, vem em segundo lugar seguido às despesas militares.
A análise incide nos factores de produção e produtos:

7.2.1 – Os factores de produção são:


Os recursos humanos entre os quais se encontram os aprendentes (alunos e
formandos) que aumentaram nos últimos anos devido à crescente consciência da
importância que tem a melhoria do nível de educação; Aumento da população infantil
e juvenil e aumento das necessidades de formação contínua da população adulta;
Outros protagonistas do processo educativo são: os ensinantes (professores e
formadores), os recursos materiais englobam as verbas, instalações, equipamentos e
materiais de ensino e ainda os recursos ambientais que integram as infraestruturas de
comunicações e telecomunicação, o ambiente social, económico e político.
Os sistemas educativos têm-se confrontado com um duplo problema político: os
recursos são escassos e frequentemente são desviados para fins militares. Os recursos
encontram-se assimetricamente distribuidos em detrimento dos países mais pobres
conforme revelado pelo Indíce do Desenvolvimento Humano (IDH).

57
Os ensinantes perderam o monopólio que detinham na distribuição do saber em
detrimento de outros agentes (rádio, cinema, televisão, etc.), por exemplo sistemas
audio-visual e informático.

7.2.2 – Os produtos:
A diferente situação em que os diversos sistemas de ensino se encontram
relativamente aos recursos disponíveis e às exigências a que têm de fazer face,
naturalmente afecta os seus produtos, que se traduzem na qualidade das qualificações
produzidas pelo sistema e no número de pessoas qualificadas nos vários níveis de
ensino.
Qualidade das qualificações produzidas pelo sistema e no número de pessoas
qualificadas nos vários níveis de ensino.
Em termos mundiais, existe um baixo número de anos de estudos na população adulta
para a necessidade da sua formação complementar de forma a fazer face às novas
exigências profissionais.
A partir de dados apresentados, pode-se extrair 3 conclusões:
A qualidade das qualificações produzidas pelos sistemas de ensino
contemporâneo é ainda insuficiente, quer porque a quantidade de
conhecimentos passível de transmissão é baixa (dado o pequeno número de
anos de escolaridade), quer pelo número insuficiente de quadros superiores
globalmente produzidos;
O fosso da qualidade entre os sistemas de ensino dos países em
desenvolvimento e dos países industriais é ainda muito alto, com a agravante
dos primeiros terem necessidades educativas muito superiores às dos
segundos;
O segmento feminino ainda é particularmente discriminado no acesso ao
conhecimento.
Em síntese, observando os sistemas de ensino contemporâneo como indústrias,
regista-se uma crise global, resultante de uma insuficiente oferta de ensino perante
uma crescente pressão de procura:
As necessidades do mercado aumentaram vertiginosamente tanto pelo
aumento numérico dos aprendentes, como pela diversidade das exigências feitas;
Os recursos materiais, humanos e ambientais, indispensáveis para fazer face
ao acréscimo de necessidades, são claramente insuficientes, sendo muitas vezes
desviados para outros fins;
A falta de recursos é mais grave nos países menos desenvolvidos
simultaneamente os mais carecidos de investimentos em educação.
As assimetrias observadas reflectem-se nos produtos dos sistemas educativos,
quer no que respeita à sua qualidade quer no que concerne à quantidade, e são
agravadas directamente pela condição feminina e pelo nível de desenvolvimento.
Registam-se ainda em muitos países, baixos índices de escolaridade, baixo
número de quadros superiores, baixas taxas de alfabetização e baixas taxas de
cobertura do ensino secundário e terciário.
A educação assume-se como um problema sócio-politico por excelência, uma vez que
a adequação dos recursos às necessidades educativas tem efeitos evidentes na
sociedade global.
7.3 – A educação como problema organizacional:

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A eficácia no processo educativo
• Tem a ver com a convergência entre objectivos (resultados) previstos e
alcançados;
A eficiência no processo educativo
• Relaciona os objectivos alcançados com os recursos afectados para os atingir.

Muitas vezes a ineficiência compromete a sustentatiblidade da eficácia.


Encarando a escola como organização, para que se assuma como um instrumento de
solução dos problemas de educação e não um obstáculo adicional, há diversos
aspectos que devem ser bem geridos. Os que exigem uma relação com o ambiente
externo e os que têm a ver com a dinâmica interna da escola.

7.3.1 – Gestão da dinâmica externa:


Quanto às relações da escola com o exterior, é indispensável garantir um desempenho
adequado da organização em duas principais vertentes:
1) Na relação da escola com a estrutura de tutela, é fundamental identificar os
papéis específicos que cabem às várias agências em presença. A criação de
regras de comunicação (padrões, canais e suportes) é condição indispensável
para que o relacionamento se processe com qualidade e com rapidez;
2) Na relação da escola com a comunidade envolvente é indispensável o mesmo
tipo de cuidados, tanto na definição dos papeis que cabem aos protagonistas
como na manutenção de uma rede de comunicações adquadas.

7.3.2 – Gestão de dinâmica interna:


A organização da escola deve ser posta ao serviço de um projecto educativo comum
procurando assim coordenar diversas áreas-chaves:
1. Circuitos de decisão devem ser bem definidos e garantir a participação de quem
deve tomar parte no processo.
2. Estrutura formal – os diversos orgãos da escola devem exercer o papel
atribuído pelo sistema normativo vigente num quadro de cooperação
institucional evitando situações de competição e conflito.
3. Estrutura informal – A gestão da escola deve estar atenta à estrutura informal,
particularmente aos grupos de pares e aos líderes informais, procurando tirar
partido do seu potencial em favor do projecto educativo.
4. Rede comunicacional – deve funcionar adequadamente quer na vertical como
na horizontal.
5. Cultura é o conjunto de assunções básicas (valores, padrões de actuação). Os
orgãos gestores da organização da escola devem ajudar a sedimentar uma
cultura orientada para os grandes objectivos educativos.

7.4 – A educação como problema psicossocial:


Procedendo a uma terceira aproximação, de natureza micro-sociológica, podemos
equacionar a educação como um problema psico-social, dado o processo educativo
ocorrer sobretudo numa moldura de relações interpessoais.
Em qualquer acto educativo formal estão presentes três subsistemas que o
condicionam:
1. Um sistema aprendente;
2. Um sistema ensinante;

59
3. Um sistema de comunicação educacional.
Para que o acto educativo seja eficaz e eficiente é fundamental que os três subsistemas
desempenhem o seu papel adequadamente.

7.4.1 – Condicionadores do aprendente:


Os factores que condicionam o desempenho do aprendente podem agrupar-se em dois
conjuntos: os factores exógenos e os factores endógenos:
1. Factores exógenos:
• O meio social donde provém o aluno, e o sistema de recursos que ele
dispõe, fora do meio familiar, para poder gerir o seu processo de
aprendizagem;
• Entre as variáveis decorrentes do meio social podem referir-se como de
grande relevância a situação sócio-económica da família, o seu grau de
instrução, a língua materna e a etnia;
• O sistema de recursos do meio (a existência ou ausência de locais de
estudo, bibliotecas, cantinas,) pode compensar ou agravar as dificuldades
do meio familiar.
2. Factores endógenos:
• São aqueles em que o aprendente encontra em si para gerir com êxito o
processo de aprendizagem, como a sua ambição pessoal, a capacidade de
se auto-motivar, etc.

7.4.2 – Condicionadores do ensinante:


Os factores que condicionam o desempenho do ensinante podem agrupar-se em duas
variáveis: as exógenas e as endógenas:
1. Variáveis exógenas
• A coerência curricular, os recursos disponíveis na escola e na comunidade
envolvente.
2. Variáveis endógenas
• A competência científica e pedagógica adquirida através da formação
inicial e contínua, e a inteligência emocional.

7.4.3 – Condicionadores da comunicação educacional:


Para haver sucesso é necessário que o sistema de comunicação educacional seja
adequado assim é necessário:
• Materiais educativos de qualidade em suporte escrito, audio-visual e
informático;
• Espaços específicos como laboratórios, bibliotecas, ginásios, espaços
polivalentes onde estudantes e professores possam trabalhar e conviver em
regime de cooperação educativa;
• Estratégias activas para melhorar a comunicação educacional, programas de
educação intercultural, meios para fazer face aos alunos com necessidades
educativas especiais, etc.

7.5 – Algumas Políticas Relevantes:

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7.5.1 – Escala Macro – os sistemas educativos devem procurar responder à
sobrecarga da procura com uma política que privilegie a qualificação e a
diversificação da oferta e cujas medidas de estratégia mais importantes são: (maior
procura educativa oferta educativa insuficiente):
Política de coerência curricular – parece que o sistema educativo se deverá
orientar para as seis necessidades educativas básicas: a adaptação e gestão da
mudança, o desenvolvimento, a solidariedade, a autonomia e a democracia;
Controlo sistemático da ajuda internacional destinada ao desenvolvimento das
populações para que não seja desviada para fins militares;
Relativamente aos aprendentes todo o processo educativo deve visar a sua
autonomização progressiva (ensino à distância);
Uso de recursos exteriores ao sistema educativo tradicional, através de parcerias
com os agentes da comunidade envolvente.

7.5.2 – Escala Meso:


A uma escala organizacional, as políticas educativas têm vindo a direccionar-se em
três diferentes sentidos: (problemas de eficácia e de eficiência)
Na clarificação dos papéis e das regras de comunicação entre a escola e os
organismos de tutela;
No estabelecimento de parcerias entre a organização escola e a comunidade
envolvente, a fim de procurar potenciar os recursos mútuos para o
desenvolvimento de projectos educativos;
Na qualificação da gestão interna da escola, registando-se uma consciência
crescente de que o desempenho da função de gestão exige competências
específicas.

7.5.3 – Escala Micro:


É uma escala psicossocial, têm vindo a defender-se a implementação de uma gama
muito diversificada de políticas de intervenção: (tem como factores condicionantes do
aprendente (classe social, instrução, língua etnia e da comunicação materiais espaços
estratégias):
Relativamente aos aprendentes, têm vindo a multiplicar-se programas
compensatórios, que procuram criar uma situação de discriminação positiva
relativamente aos diversos tipos de handicaps (sócio-económicos, étnicos,
linguísticos, relativos a deficientes, etc.);
No que respeita aos ensinantes, a formação contínua tem vindo a assumir-se
como um direito e um dever, constituindo uma valorização na carreira docente;
Os principais protagonistas do processo educativo têm vindo a ser dotados de
empowerment para vencer as dificuldades quotidianas do processo complexo
que é ensinar e aprender em circunstâncias por vezes muito difíceis.

7.6 – Em Síntese:
• A sociedade contemporânea confronta-se com novas necessidades educativas
decorrentes de três processos à escala planetária, que mutuamente se
influenciam:
1. A aceleração da mudança;

61
2. A planetarização dos problemas sociais;
3. A alteração dos sistemas de poder;
• A aceleração da mudança fez emergir dois tipos de necessidades educativas, que
reclamam políticas de adaptação ao choque cultural provocado pela mudança e
de condução do processo de mudança, através da gestão dos seus conteúdos;
• A planetarização dos problemas sociais determinou novas necessidades que
apelam para duas estratégias educativas: educação para o desenvolvimento e
educação para a solidariedade;
• A alteração dos sistemas de poder, por seu turno, chama a atenção para a
necessidade de duas outras estratégias educativas: educação para a autonomia e
educação para a democracia;
• As novas necessidades educativas, afectam toda a população no seu conjunto, e
não só os seus segmentos infantil e juvenil. A generalização dos públicos-alvo, a
universalização das necessidades de formação inicial e o alargamento das
necessidades de formação contínua, implicaram um aumento de pressão sobre
os sistemas educativos tradicionais;
• Os sistemas educativos convencionais, estão longe de conseguir garantir
respostas, quantitativa e qualitativamente adequadas, sendo indispensável
introduzir reformas conducentes a criar uma oferta correspondente à sobrecarga
de exigências do lado da procura;
• Tal oferta, deverá obedecer a um perfil de diversidade, quer quanto às agências
de educação, empenhando as organizações públicas (administrações centrais,
regionais e locais) e não governamentais (ONGs), quer quanto às formas de
resposta, diversificando as estratégias de ensino e formação.
Neste contexto, a educação assume-se como um problema social complexo, que deve
ser observado a várias escalas de análise, cada uma das quais exige medidas de
intervenção adequadas.

VIII. PROBLEMAS DE ORIGEM IDEOLÓGICA


Introdução:
Os fenómenos do racismo e do sexismo têm como denominador comum uma visão
essencialista dos seres humanos, que alimenta um projecto de sociedade onde o
tratamento desigual entre as pessoas é justificado pelas diferenças de características
físicas. É pela via da exclusão que se assiste constantemente ao desrespeito dos
Direitos Humanos, embora o mundo tenha assumido o compromisso de instituir a sua
universalidade.

8.1 – Racismo:
O conceito de racismo é uma construção recente. Foi com o impulso da ciência nos
séculos XVIII e IXX que se iniciou a discussão política em torno da raça devido ao
desenvolvimento de várias teorias de raça. “As teorias da raça” dividiam a espécie
humana em categorias biológicas distintas e atribuíam a cada uma delas uma posição
específica numa hierarquia de capacidades culturais e de estádios de civilização. Esta
diferenciação entre raças superiores e raças inferiores e a legitimação da supremacia
das primeiras face a estas designa-se por racialismo.

62
A noção de raça servia também para racializar populações que atravessavam um
processo de construção de Estados Nacionais, foi assim que nasceu o projecto
ideológico de construção de uma nação alemã, unificada pela pertença ancestral a uma
raça ariana, sustentado pela classificação convergente de raça e nação, justificando
assim a exclusão da raça judia.

8.1.1 – O determinismo biológico


A Europa do século XIX assistia ao estabelecer de laços estreitos entre a ciência e as
doutrinas teóricas, estas alicerçadas nas interpretações que as ciências avançavam
sobre a Humanidade. O pensamento social era, então dominado pelo determinismo
biológico, em que se destacavam três teorias fundamentais para a legitimação
científica do racismo:
1. A obra de Gobineau, “Essai sur l’inégalité des races humainres” (1852) que
alertava para a degenerescência das “raças” como resultado da mistura entre si;
2. O darwinismo social, de Spencer (1862) teoria que vai aplicar às sociedades
humanas a tese selectiva que Darwin avançou quanto aos organismos vivos,
defendendo a rejeição dos elementos mais fracos e menos adaptados da
sociedade em prol da sobrevivência e evolução desta;
3. O eugenismo, de Francis Galton (1883), teoria que defendia a melhoria da
espécie humana através de um processo de selecção semelhante àquele que se
utilizava no reino animal – selecção dos progenitores para assegurar uma
melhor descendência – e que se propunha identificar os genes “bons” e os genes
“maus” afirmando que para acabar com a criminalidade e outros vícios bastava
eliminar os genes por eles responsáveis.

8.1.2 – A evolução do racismo no século XX:


A passagem para o século XX é feita com a herança do determinismo biológico. Mas
é nos finais da década de 20 que nasce o conceito de racismo, definido como uma
ideologia que defende a superioridade de determinadas raças e legitima a sua
supremacia em relação às raças identificadas como inferiores. A construção
sociológica deste conceito tem a sua origem na oposição que cientistas sociais
Europeus e Norte-Americanos faziam ao impulso do nacionalismo e da ideologia
nacional-socialista na Alemanha. As primeiras críticas incidiram sobre o racismo
enquanto ideologia, mas não rejeitavam o princípio da divisão das populações em
“raças”.
Foi com o horror nazi que a ideologia que legitimava a desigualdade entre os grupos
ganhasse nova importância após 1945. É só a partir da década de 60 que o conceito
raça vai desaparecendo na Europa e nos EUA. Ou seja a demonstração científica de
que o conceito de raça é uma construção social sem fundamentação biológica. Ao
nível político, o conceito de raça tornou-se inaceitável para justificar a supremacia de
um povo face a outro.

8.1.2.1 - A emergência do “novo racismo”:


A classificação das populações em “raças” foi substituída pela definição de grupos
étnicos ou culturais, substituindo-se a ênfase na raça pela ênfase na cultura e
económico (o imigrante), ou seja o novo racismo construído por oposição ao velho
racismo biológico.

63
8.1.2.2 – O racismo institucional:
Defendido pelo movimento “Black Power” nos EUA, anos 60, assenta no pressuposto
de que a sociedade está estruturada de maneira a manter a exclusão de um grupo
específico e a evitar a sua progressão na sociedade. Práticas que tendiam à
marginalização dos negros pois estão inscritas no normal funcionamento das
instituições e não têm necessidade de serem legitimadas por uma ideologia.
A adesão ao Acto Único Europeu, em 1993, foi interpretada por várias organizações
anti-racistas europeias como um exemplo de racismo institucional, pois um efeito
directo da livre circulação entre as fronteiras da União Europeia para os seus
nacionais era a exclusão do direito a essa liberdade para os não-nacionais e a
instituição de uma estrutura discriminatória no normal funcionamento daqueles
países.

8.1.3 – As facetas da desigualdade e da diferença:


O racismo encerra em si três componentes, para ser racismo tem que incorporar as três
componentes pois se só incorporar i.e. discriminação não é uma expressão de racismo
1. A naturalização de um grupo, que consiste na identificação desse grupo com
base em características físicas naturais;
2. A percepção do “outro” como ameaça;
3. O apelo a medidas de protecção, discriminação ou segregação.
O racismo combina dois princípios de exclusão
1. Desigualdade – até ao século XX as explicações eram científicas, biológicas.
2. Diferença – hoje ocupa o lugar central no discurso de exclusão, por exemplo as
culturas ou a incompatibilidade de modos de vida.
Taguieff defende que as duas dimensões, desigualdade e diferença, estão separadas
resultando em dois tipos de racismo: a desigualdade está relacionada com a
naturalização do outro (sobretudo o outro enquanto colonizado ou sujeito à dominação
por parte de outrem) e com a sua inferiorização; a diferença está ligada à ideia de
preservação da especificidade de cada cultura.
Por seu lado, Wieviorka define o racismo pela complementaridade entre as duas
dimensões, afirmando que se o tema da desigualdade está fortemente ligado à
dominação colonial, o racismo só existe se a consciência da inferioridade dos povos
colonizados for acompanhada pelo medo de invasão ou de perda da identidade do
colonizador. Por outro lado, a percepção da diferença cultural só produz racismo se a
cultura ou culturas minoritárias forem entendidas como ameaçadoras pela cultura
dominante.
“Para que o racismo se manifeste é necessário que haja o sentimento de que o
superior está ameaçado pelo inferior, a qualidade pela quantidade, a riqueza pela
pobreza, numa associação da diferença e da inferioridade.”

8.1.4 – O racismo como uma doença da Modernidade:


O esbater das diferenças pelo contacto entre culturas, ao invés de reforçar uma
consciência universal e tender à globalização cultural, reforça o receio da perda das
especificidades e faz nascer o racismo ou outras manifestações e rejeição e
discriminação dos outros, razão porque Todorov define o racismo como uma doenças
de passagem para a Modernidade.
Assim faz nascer o ressurgimento de valores holistas sob novas formas (pós
renascimento) – nacionalismo, racismo, totalitarismo.

64
O novo racismo surge na 2ª metade do século XX numa relação de causa-efeito entre
a pertença a grupos culturais minoritários e um estatuto socioeconómico
desfavorecido que frequentemente empurra imigrantes para a exclusão social e
económica e cujo projecto ideológico universalista falha pois não consegue igualar as
relações sociais e o funcionamento da sociedade.
O medo da descaracterização da cultura e identidade nacionais, aliado ao aumento do
desemprego, deu espaço ao surgimento de novos partido de extrema direita, como o
Front National em França, e ao surto de violência racista em Portugal nos anos 90 do
século XX os skin-heads etc. estas duas manifestações são ilustrativas da ideologia
racista contemporânea, estes grupos não argumentavam abertamente em termos
rácicos, mas antes exacerbam a diferença cultural, e acusam os estrangeiros de
ocuparem postos de trabalho dos nacionais.
O próprio direito à diferença é absorvido pela ideologia racista contemporânea como
forma de justificar a incompatibilidade das culturas minoritárias com a cultura
dominante, facto que colocaria em risco a homogeneidade cultural da nação (ideia que
alicerçou os nacionalismo emergentes nos finais do século XIX). Nos dias de hoje o
racismo manifesta-se de uma forma pluralista, biológico, cultural, económico, político
ao contrário da unidade ideológica a que assistimos nos séculos anteriores.

8.2 – Xenofobia e fundamentalismos:


O conceito xenofobia tem um leque muito mais abrangente de diferenciações
atendendo que diz respeito a um leque mais abrangente de diferenciações traduzindo
toda a rejeição de outrem, significa medo do estrangeiro. È a conugação de duas
caracteristicas – rejeição daquele que identificamos como diferente e medo face a ele
– que fazem associar frequentemente o fenómeno da xenofobia à questão dos
fundamentalismos.
O fundamentalismo reporta-se à crença e à defesa de um conjunto de princípios
religiosos (ou fundamentos), que são entendidos como verdades fundamentais. Nas
interpretações fundamentalistas, defende-se que esses princípios religiosos deverão
alicerçar a organização social de toda uma sociedade. Enquanto que o modernismo
teológico propõe a interpretação dos livros sagrados das três grandes religiões
monoteístas – Cristianismo, Judaísmo e Islamismo – o fundamentalismo avança uma
interpretação estrita desses mesmos textos. Assim os fundamentalismos emergentes
nas últimas décadas do século XX são um símbolo ímpar dos paradoxos da
Modernidade, onde as sociedades evoluem no sentido da abertura e da expansão de
fronteiras, não só físicas como mentais, e simultaneamente, desenham novas
restrições e limites a essas mesmas fronteiras.

8.2.1 - A origem dos fundamentalismos modernos:


A emergência dos fundamentalismos modernos remonta aos anos 70 do século XX
através do desenvolvimento de movimentos religiosos, tanto no Cristianismo como no
Judaísmo e no Islamismo com a reinterpretação de textos sagrados com o objectivo de
mudar a ordem social existente.
A origem está no objectivo de mudar a ordem social, moral e cultural da sociedade
após a época gloriosa dos anos 30 e o fim da 2ª guerra mundial tinham dado lugar a
crescentes desigualdades sociais. A nova ordem económica influenciou as formas de

65
interacção social e os valores traduzindo-se no enfraquecimento das solidariedades, no
aumento da competição entre os grupos e no reforço de valores individualistas por
oposição ao colectivo.
Assim o religioso tornou-se num refúgio para que as pessoas se sentissem protegidas e
à construção de novos projectos para a sociedade marcados pelo retorno ao religioso
dando origem aos movimentos fundamentalistas nas três religiões monoteístas. No
entanto no mundo islâmico existe uma mais forte base social de apoio ao
fundamentalismo religioso.
A Europa Ocidental vê nos finais do século XX no fundamentalismo islâmico a
grande ameaça do futuro, sendo este o motor para sentimentos xenófobos contra as
comunidades imigrantes muçulmanas instaladas na Europa. Muitas vezes o reforço no
fundamentalismo islâmico é uma reacção a essas manifestações de rejeição., por
exemplo em França a pertença de jovens aos princípios religiosos é uma forma de
proporcionar segurança e bem-estar.

8.2.2 – A interligação entre xenofobia, fundamentalismos e


nacionalismos
A xenofobia e o fundamentalismo têm porém uma estreita ligação com o
nacionalismo, uma vez que a identificação a uma nação, integra uma quota parte de
exclusão xenófoba, muitas vezes a identificação nacionalista levada ao extremo pode
resultar em manifestações de fundamentalismo onde o motor político se confunde
com o religioso, assim no século XX as manifestações xenófobas e fundamentalistas
podem ser uma reacção colectiva de medo face ao futuro, provocada pelo
enfraquecimento do poder dos Estados nacionais a favor de formas de organização
política e económica supra-nacionais e pelas fronteiras impostas durante a 2ª guerra
mundial.
A instabilidade do presente e a incerteza do futuro vão reforçar o medo do estrangeiro
e a competitividade entre grupos que vivem numa mesma sociedade, mediante a qual
cada grupo tenta assegurar a sua própria segurança e estabilidade.

8.2.3 – A interligação entre xenofobia fundamentalismos e conflitos


étnicos.
O enfraquecimento de poder dos Estados e a sua incapacidade em assegurar segurança
e bem-estar para todos os grupos é uma condição directa para a emergência de
conflitos de cariz étnico.
A nova ordem mundial com a queda do muro de Berlim veio fragmentar as políticas
muitos Estados multiétnicos da Europa de Leste pois os grupos étnicos passaram a
contabilizar os seus recursos não em termos nacionais mas em termos de grupos
étnicos, surge assim a reivindicação do direito a uma identidade étnica especifica com
o desejo de autonomia como forma de apropriação de mais poder, tanto económico
como político, geralmente acompanhado pela reivindicação do direito a uma
identidade étnica especifica.
Encontramos um exemplo dessa situação na guerra que eclodiu em 1991 na
Jugosláiva: Eslocénios e Croatas ressentiram-se com o sistema de redistribuição
federal às regiões mais pobres do país, tendo surgido manifestações de insatisfação
por parte da população. Também no Burundi e no Rwanda entre Tutsis e Hutus

66
tiveram por base um conflito económico provocado pela escassez de recursos, que foi
absorvido pela questão da etnicidade.

Os conflitos que têm vindo a eclodir no fim do século XX revestem-se de um carácter


multifacetado, onde as manifestações de racismo e xenofobia, a intolerância étnica e
os fundamentalismos religiosos se apresentam conjugados com nacionalismos
políticos, ou fortemente intrincados nas próprias mudanças de ordem económica e
social que atravessam as sociedades de todo o mundo.

8.3 – Sexismo:
O sexismo define-se por preconceitos, estereótipos e discriminações baseadas no sexo
da pessoa. Relacionam-se papéis ou funções sociais identificados como específicos de
homens e mulheres. Os homens não choram é uma expressão que ilustra a
mentalidade sexista ao negar aos homens exprimirem emoções. As mulheres são as
maiores vitimas pois desses esterótipos resultam discriminação e uma posição de
subordinação face aos homens.
A análise de desigualdade e da discriminação das mulheres face aos homens gira em
torno de três grandes temas: a natureza, a família e o trabalho.

8.3.1 - A questão da natureza feminina:


A discriminação das mulheres reside fundamentalmente nas diferenças físicas e de
personalidade distinguem e opõem a feminilidade da masculanidade, estando
associados à primeira a emotividade, a intuição e a submissão e à segunda a
racionalidade, a lógica e a dominação.
A capacidade da mulher gerar seres humanos fez com que a ciência e a medicina
remetesse a mulher devido ao útero para o mundo da natureza e o ciclo menstrual
concedia à mulher uma certa irracionalidade daí a oposição ao mundo da lógica e da
racionalidade masculina.

8.3.2 – A Família como fonte de desigualdades:


Autores argumentam que a origem da discriminação da mulher reside na organização
das sociedades patriarcais, assentes na lei paternal e sendo a família a sua célula-base.
Neste tipo de sociedade, a lei concede ao homem, enquanto pai e marido, o direito de
propriedade privada, sendo o exercício de poder sobre a mulher e os filhos.
A análise Marxista dá particular realce à questão da família como fonte de opressão
da mulher, designadamente a família burguesa.

8.3.3 – As desigualdades na esfera do trabalho:


A revolução industrial veio a criar postos de trabalho femininos retirando a
exclusividade da mulher ao espaço do lar questão da compatibilidade ou
incompatibilidade da feminilidade com o trabalho assalariado. A mulher do século
XX tornou-se num problema devido às incompatibilidades lar/trabalho,
maternidade/salário, feminilidade/produtividade.
O salário da mulher é visto como um complemento do orçamento familiar por isso as
funções que lhe são destinadas são vistas como compatíveis com a sua natureza
feminina., daí resultando o exercício de funções que podemos designar por
maternidade social (profissões de educadora, enfermeiras). A visão capitalista é
essencialmente baseada nas diferenças biológicas entre os sexos para justificar as

67
diferenças de tratamento entre homens e mulheres, justificando assim a diferença no
valor de remuneração.

8.3.4 – O novo rosto das desigualdades no século XX:


O século XX herda os pressupostos da Economia Política do século anterior e, apesar
de se assistir à entrada maciça das mulheres no mundo da educação e do trabalho, as
desiguldades entre sexos persistem. A Guerra Mundial permitiu a emancipação da
mulher uma vez que a mobilização dos homens exigia a sua participação. No entanto
o pós-guerra exigiu o retorno das mulheres ao lar e à função da maternidade.
8.3.4.1 – Dois exemplos de sistemas político-ideológicos sexistas:
1. A política natalista do regime fascista italiano comandado por Mussolini: A
defesa da raça e a mulher deveria procriar e educar os filhos da pátria
contribuindo assim para a aplicação do programa político.
2. A política sexual nacional-socialista da Alemanha de Hitler: A pureza da raça e
a esterilização de pessoas consideradas não válidas evitando a degeneração da
raça germânica e a proibição de casamentos com Judeus, Ciganos e outras
pessoas de qualidade hereditária inferior.

8.3.4.2 – Os efeitos da democratização:


É com a recuperação económica verificada após a 2ª Guerra Mundial que se assiste a
uma cada vez maior democratização do mercado de trabalho, do acesso das mulheres
à educação (não só para a mulher mas também para as classes mais pobres) e a
consequente democratização das relações sociais. No entanto, muitas vezes a
igualização é aparente pois o próprio sistema socioeconómico ao mesmo tempo que
democratiza acentua as desigualdades:
O trabalho a tempo parcial na Escandinávia;
O trabalho domiciliário:
O trabalho a prazo e o trabalho temporário;
A expansão do sector terciário confinou as mulheres a esse sector;
A presença dos filhos tem um efeito positivo para a promoção profissional do
homem, sucedendo um efeito inverso na mulher;
O sexismo contemporâneo, à semelhança do novo racismo, revela-se com um
rosto multifacetado onde os argumentos naturalistas e culturalistas se
interpenetram para justificar a manutenção de uma ordem social alicerçada no
poder masculino – ao nível económico, científico, político, jurídico.

8.3.5 – As análises feministas e o conceito de género:


Enquanto o conceito de sexo analisa ilustra as diferenças físicas entre homens e
mulheres, o conceito de género analisa as razões históricas, culturais, económicas e
sociais que num determinado momento e num determinado espaço moldam as
relações entre as pessoas, destacando o carácter relacional e assimétrico entre os dois
sexos.

8.4 – Atentados aos Direitos Humanos:


A Declaração Universal dos Direitos Humanos (assinada a 10 de Dezembro de 1948)
nasce no rescaldo da 2ª Guerra Mundial, simbolizando a vontade dos Estados com
assento nas Nações Unidas de introduzirem um novo quadro legal que regulasse as
relações internacionais. Uma nova ordem mundial assente no repúdio da violência dos
conflitos entre os povos e na defesa de uma diplomacia internacional que assegurasse

68
a manutenção da paz, a declaração realça a unidade da espécie humana, embora e
apesar da sua diversidade cultural, proclamando a universalidade dos direitos.

8.4.1 – A ONU e a nova ordem mundial:


A Declaração Universal surge com um primeiro passo da Organização das Nações
Unidas (ONU) constituída em Maio de 1945, na construção dessa nova ordem
mundial. Enquanto que a ONU tem como principio fundador a busca e a manutenção
da paz mundial, a Declaração torna claro que este objectivo só é alcançado mediante o
respeito pelos Direitos Humanos.
O artigo 55º da Carta da ONU proclamava que a ONU deveria promover o respeito
dos direitos humanos e liberdades fundamentais sem distinção de raça, sexo língua ou
religião; e no artigo 56º os Estados membros manifestavam a vontade de
desenvolverem acções de cooperação com a ONU, tanto conjuntas como individuais,
tendo em vista a realização daquele objectivo.

A nova ordem mundial assentava na realização dos seguintes objectivos:


• A manutenção da paz internacional,
• O desenvolvimento de relações amigáveis entre as nações;
• A realização de cooperação internacional na solução de problemas
internacionais de carácter social, económico, cultural, humanitário

8.4.2 – A evolução dos Direitos Humanos:


Os antecedentes históricos da Declaração Universal remontam aos séculos XVII e
XVIII.
A Declaração de Independência dos Unidos da América (1776) e a Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão (1789) saída da Revolução Francesa marcam a
primeira geração dos Direitos Humanos caracterizada pela fase da proclamação
jurídica que pretendia garantir no plano formal a dignidade dos cidadãos.
A segunda geração nasce em meados do século XIX constituindo a fase da
socialização caracterizada pelo reconhecimento de que as liberdades não estavam
garantidas e corresponde à visão marxista e é parte integrante das Constituições dos
Estados socialistas no século XX.
A terceira geração a Declaração Universal de 1948 que corresponde à
internacionalização, que vê nascer os direitos de solidariedade após a emergência de
novos Estados que tinham alcançado a sua independência.

8.4.3 – O desrespeito pelos Direitos Humanos


O texto da Declaração no artigo 28º refere que os Estados subscritores deverão
assegurar o cumprimento e o reconhecimento efectivo desses direitos mediante
medidas progressivas, nacionais e internacionais. Assim o não desenvolvimento
destas medidas conduz à violação do que está consagrado na Declaração i.e. a
incapacidade dos Estados subscritores de assegurarem o cumprimento dos princípios
que aprovaram.
A persistência e a extensão da pobreza devido a guerras (Angola) ou devido ao
subdesenvolvimento (Moçambique). O desrespeito pelos povos autóctones i.e. índios
nos EUA que vivem como reféns nas suas reservas. Constitui um dos mais graves
exemplos de não cumprimento dos Direitos Humanos no final do séc. XX.
A situação de crise da ONU é um dos sinais visíveis da crise da ordem internacional.

69
8.4.4 – A tendência actual para o reforço dos Direitos Humanos:
Existe uma tendência para a celebração de acordos regionais por exemplo no
Conselho Europeu a Convenção europeia para a salvaguarda dos direitos humanos e
das liberdades fundamentais, a Carta social Europeia e a Convenção para a prevenção
da tortura.

8.5 – Síntese:
Desde o século XVIII, que inaugurou o primado da razão, que o pensamento
científico-social tem influenciado fortemente a doutrina política. É, precisamente,
a aplicação das teorias ou opiniões, sejam elas do foro científico ou público, à vida
política que as transforma em ideologias.
Vimos como o racismo se tornou uma ideologia legitimada pelas teses científicas
dos teóricos da raça do século XIX, na mesma medida em que o sexismo se
enraizou nas teses essencialistas que diferenciam os sexos e os aprisionam em
atributos imutáveis relativos a uma natureza masculina e a uma natureza feminina.
Por outro lado, se a xenofobia, ao contrário do racismo, não constitui uma
ideologia, também ela é justificada mediante a defesa de um ideal de nações
culturalmente homogéneas, onde a diferença é diluída (quando não esmagada)
tendo em vista a construção da identidade nacional. Vimos como os
fundamentalismos religiosos se alimentam das reacções xenófobas de medo do
estranho e se confundem com nacionalismos, onde a questão da etnicidade é
manipulada para mascarar projectos de sociedade discriminatórios.
A diferença e a desigualdade que separam os seres humanos nas sociedades
contemporâneas é o resultado do projecto inacabado da Modernidade, que falhou
na concretização do ideal de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O grande dilema
com que o mundo contemporâneo se defronta é o da ciência não ter sabido
resolver todos os problemas da Humanidade e, paradoxalmente, ter contribuído
para gerar novos problemas. Um exemplo incontestável é a concorrência do
Holocausto, efeito de um projecto político-ideológico legitimado por explicações
científicas que recorreram ao eugenismo e determinismo biológico do século XIX,
colocando a ciência como alicerce da ideologia e prática discriminatória.
Devido precisamente aos horrores do nazismo e para evitar a eclosão de conflitos
de tão grande barbaridade no futuro, desenvolvem-se, a partir de meados do
século XX, os esforços da diplomacia internacional no sentido de assegurar um
standard mínimo de direitos, à luz da trilogia herdada da Revolução Francesa.
Tendo em mente este objectivo, os temas do racismo, xenofobia,
fundamentalismos e sexismo vão confluir na elaboração da Declaração Universal
dos Direitos Humanos.
O constante não cumprimento dos Direitos Humanos em muitos países
subscritores da Declaração Universal constitui um reflexo das relações
contraditórias da Modernidade, que balança entre particularismos e universalismo,
que atravessam a história dos povos e que nem o progresso científico nem a
evolução do pensamento político souberam, ainda, ultrapassar.

XI. O SUICÍDIO – UM PROBLEMA SOCIAL


CONTEMPORÂNEO

70
9.1 – Generalidades:
O suicídio ou a tentativa de suicídio constituem sempre actos de solidão, angústia,
chamada de atenção radicando no desconforto da vida quotidiana e/ou traços
depressivos. O meio cultural e as relações sociais marcam a forma como o Homem
exprime um impulso íntimo.
A posição da sociedade face ao suicídio tem sofrido alterações consoante as épocas
em análise. À neutralidade da Roma Clássica seguiu-se a rejeição com Santo
Agostinho a partir do século IV.
O Concílio de Arles em 452 proclamou o suicídio um crime consequência de uma
fúria diabólica. Um século depois, em 563, o Concílio de Praga determinaria sanções
penais. O Santo Sacrifício da missa e o Cântico dos Salmos não acompanhariam o seu
corpo na descida ao túmulo.
Na Idade Média foi acentuado o carácter de pecado aliado ao acto suicida. Para São
Tomás de Aquino, no séc. XIII, só Deus tem o direito de dar e tirar a vida. Ao repúdio
da igreja e à marginalização dos suicidas juntava-se a confiscação dos seus bens.
Jean-Jacques Rousseau (século XVIII) modifica a análise do discurso relativo ao
suicídio ao considerar que sendo o Homem naturalmente bom é a sociedade que é
responsável pela sua maldade e crimes, facto que deslocava o cerne da questão do
individuo para as condições sociais em que este vive. Ainda no mesmo séc. David
Hume escreve um ensaio sobre o suicídio.
Com a Revolução Francesa é suprimido dos crimes legais. Em 1823 é legalizado o
enterro dos que se suicidavam, ainda que sem cerimónia religiosa.
Emile Durkheim foi o primeiro sociólogo que sistematizou a problemática do
suicídio, a que consagrou uma obra denominada “Le Suicide”.
Freud e Menninger (obra Man against himself) lançaram as bases psicanalíticas
sobre o assunto.
9.2 - Suicídio em Durkheim:
Na obra de Durkheim, publicada em 1897, explica o fenómeno com uma perspectiva
sociológica demonstrando que o suicídio ofende a consciência moral e considerando-o
um fenómeno de patologia social.
Durkheim define-o como toda a morte que resulta mediata ou imediatamente de um
acto positivo ou negativo, realizado pela própria vítima.
Com base em vários documentos provou que os católicos suicidam-se menos que os
protestantes; estes mais que os judeus e os casados mais que os celibatários,
divorciados ou viúvos.
Há duas ordens de factores que podem explicar o suicídio segundo Darkheim são
extra-sociais e sociais.
Fenómenos extra-sociais, embora considere que estes não são determinantes:
1. Estados psicóticos identificando quatro tipos de suicídios vesânicos. Maníaco,
melancólico, obsessivo, impulsivo ou automático. A neurastenia predispõe ao
suicídio.
2. Efeitos de raça e hereditariedade
3. Factores cósmicos: clima e temperatura.
4. Imitação por contágio.

71
O fenómeno pode ser social quando não se prendem com os factores de constituição
organicopsíquica dos indivíduos nem o meio físico:
1. Egoísta – motivado pelo excessivo isolamento do indivíduo face à sociedade, à
família e à religião;
2. Altruísta – quando a existência do indivíduo vale pouca coisa face à
colectividade;
3. Anómico – ocorre por ocasião das grandes transformações sociais e em que há
dificuldade de integração.

9.3 – Causas do suicídio e dados estatísticos:


Os dados estatísticos permitem-nos concluir que o suicídio tem vindo a aumentar de
forma mais acentuada em todos os países atingindo camadas cada vez mais jovens:
adolescentes e crianças. E se entre as últimas as tentativas de suicídio são mais
frequentes que o suicídio consumado, os meios de comunicação vêm fazendo-se eco
dos inúmeros casos de suicídio infantil. Como causas relatadas para a justificação
destes actos são referidas entre outras a falta de afecto familiar, maus resultados
escolares e depressões psíquicas.
Entre os potenciais suicidas os pacientes deprimidos têm uma parcela maior. Há
também que assinalar outros factores desencadeantes do acto suicida tais como:
alcoolismo, toxicomania, desistência de viver, existem ainda os para-suicídios como
por exemplo a velocidade excessiva em viação pois a intenção da morte não é aqui
assumida de forma consciente.
O gesto suicida positivo ou negativo traduz um comportamento complexo em que
simultaneamente se procura a morte, a comunicação do sofrimento, o evitar as
consequências de uma mudança de status, a mitigação de sofrimento e ainda a procura
de vingança.
O perfil do suicida aponta certas circunstâncias tais como pertencer ao sexo
masculino, viver só ou não ter companheiro/a estável, doença psiquiátrica e em certas
situações falta de apoio social ou perda do posto de trabalho.

9.4 – O suicídio em Portugal:


O Prof. Fragoso Mendes diz que o suicídio se manifesta principalmente nos estados
de depressão e de ansiedade e se deve muitas vezes à solidão e isolamento
sóciopsicológico. Problemas sociais e pessoais.
Para Daniel Sampaio o acto é sempre de desistência.
No nosso país os suicídios correspondem a factores históricos: início da II Grande
Guerra, período de crise económica (1984). O homem comete suicídio três vezes mais
frequentemente que a mulher.

9.5 – Em síntese:
A problemática do suicídio tem acompanhado a humanidade ao longo dos tempos
desconhecendo-se qualquer sociedade ou micro-cultura em que o fenómeno não
tenha ocorrido.
As explicações encontradas são várias e complexas e a abordagem sociológica foi
efectuada pela primeira vez em 1897 por Durkheim.
As taxas de suicídio são particularmente importantes na velhice e na adolescência
e são muito variáveis de país para país.

72
No contexto europeu a Hungria apresenta a taxa de suicídio mais elevada e a
Grécia a mais baixa. Em Portugal, o fenómeno é preocupante no Alentejo e no
Algarve.

X. O ALCOOLISMO E AS SUAS IMPLICAÇÕES


SOCIAIS
10.1 – Generalidades:
A utilização das bebidas alcoólicas remonta ao período paleolítico e que no período
neolítico já se fabricava cerveja.
Quer os egipicios, quer os gregos e romanos fabricavam bebidas alcoólicas sendo
conhecidos também desde a antiguidade os efeitos que o seu consumo causava.
A destilação do vinho e maior alcoolização das bebidas generalizou-se na Europa a
partir do século XI, sendo visto como vício (a embriaguez) e só na segunda metade do
século XIX o termo passa a ser utilizado com o significado de alcoolismo crónico e
entendido como doença.
O alcoolismo crónico, é uma doença e um problema social. Assim devido às suas
repercussões no tecido social conduziram a uma abordagem do problema em termos
científicos devendo-se a Thomas Sutton a primeira descrição do Delirium Tremens
que é um estado de hiperactividade confusa e desorganizada, que se segue
normalmente a um excessivo abuso de bebidas alcoólicas.
No Século XIX vamos encontrar alcoólicos internados nos hospitais psiquiátricos que
consideravam o abuso do álcool uma causa da doença mental. O alcoolismo pode
constituir um risco de suicídio pelo que o internamento em instituições psiquiátricas é
justificável e necessário.
Para a O.M.S. os alcoólicos são bebedores excessivos cuja dependência é tal que
apresentam perturbações mentais e com perturbações orgânicas e psíquicas, familiar,
profissional e social e com implicações económicas, legais e morais.
Para Fouquet o alcoólico é todo aquele que perdeu a liberdade de se abster do álcool
e por conseguinte não exerce controlo no seu consumo.
Para Jellinek o alcoolismo é todo o uso de bebidas alcoólicas susceptíveis de causar
prejuízo no indivíduo, na sociedade ou em ambos.
Jellinek foi o criador da fórmula que assenta nas mortes conhecidas por cirrose
alcoólica.
A = PD – 100
K
A = número total de alcoólicos
O = percentagem de mortes por cirrose hepática atribuíveis nessa população ao
alcoolismo
D = número total de óbitos declarados nesse ano por cirrose hepática
K = 0,694 – constante (% de mortes dividas a cirrose hepática, resultado da
verificação de centenas de milhar de autópsias).
A dependência do álcool pressupõe um primeiro contacto inicial entre o tóxico (o
álcool da bebida alcoólica) e o organismo vulnerável. O álcool etílico é o agente da

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doença, mas os factores são individuais e do meio que condicionam o consumo
excessivo, favorecendo a acção patogénica do factor tóxico.
As causas são económicas e sócio culturais e a natureza do país viti-vinícola,
preceitos religiosos, hábitos, mitos, razões individuais de ordem fisiológica e
psicológica e razões externas decorrentes de exigências profissionais.
As consequências prendem-se com factores e índole social e económica associadas
ao meio familiar, suicídio, criminalidade, absentismo acidentes de viação e acidentes
domésticos.

10.2 – O Consumo do álcool na Comunidade Europeia:


A O.M.S. recomendava a redução do consumo de álcool de 25% para o ano 2000.
Uma nova consciencialização dos perigos do álcool tende a considerá-lo como uma
droga dura. Como um inimigo da saúde pública.

10.3 – A problemática do alcoolismo em Portugal


Em Portugal o consumo do vinho está associado a preconceitos – como o vinho
aquece, dá força e em certas regiões serve como pagamento complementar da jorna e
é utilizado como alimentação pobre – as sopas de cavalo cansado – justifica que
sejamos um dos maiores consumidores europeus de álcool per capita. O âmbito do
consumo de álcool alargou-se combinado às bebidas destiladas e à cerveja.
De acordo com o World Drink Tendes (1998) Portugal é indicado como o primeiro
consumidor de álcool com 11,3 per capita.
Verificando-se presentemente um aumento crescente por parte de jovens e mulheres.
O fígado não metaboliza o etanol antes dos 18 anos pelo que consumo de bebidas nos
adolescentes é desaconselhável.
Alcocops (misturas de álcool com aromas naturais), shots.
O enquadramento do fenómeno terá de articular as motivações do consumo do álcool
e a inserção/participação dos jovens na sociedade com estratégias de promoção
educacional e campanhas de informação sobre os malefícios do abuso do álcool. A
implicação das famílias e da escola são também de grande importância.
O aumento dos problemas ligados ao álcool e o acentuado consumo global e entre os
grupos etários mais jovens levou à constituição em 1999 de uma comissão
interministerial. A finalidade desta comissão foi a de analisar e integrar os múltiplos
aspectos associados à luta contra o alcoolismo num plano de acção que reforce e
aprofunde a implementação de uma estratégia para a saúde.

XI A REGULAÇÃO SOCIAL DO COMPORTAMENTO


SEXUAL
Introdução:
As sociedades têm normas que regulam o comportamento sexual, elas incidem
geralmente em quatro tipos de situações:
1 – Formas de realização do acto sexual, ser aceite pela sociedade e o facto de ser
sexo oral ou anal;
2 – Relacionamento sexual entre indivíduos de sexo diferente fora de um contexto
socialmente aprovado (antes do casamento);

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3 – Comércio sexual como no caso da prostituição;
4 – Certas orientações sexuais como o caso da homossexualidade.
A reacção social tem variado entre as culturas, e também ao longo do tempo, e as
sanções sociais assumem várias formas, como o ridículo, a estigmatização ou a
exclusão social. Ideias religiosas, políticas e pseudo-científicas contribuem, por vezes,
para manter e reforçar a ideia de desvio relativo a esses comportamentos, quase
sempre relacionados com a ideia de protecção da família e de manter o
comportamento do homem e da mulher segundo o padrão socialmente definido.

11.1 – Diferenças no comportamento sexual do homem e da mulher:


A sociedade cultiva pudor, não aceita falar deste assunto quando presentes dois sexos
diferentes.
Era admitido ao homem ter experiências até com prostitutas, devido ás suas
necessidades, a mulher não, e devia ser virgem até casar (para não ser desonrada). Isto
até meados Séc XX com a revolução sexual dos anos 60, (ideias de emancipação da
mulher, a invenção da pílula), logo passou a ser aceite as relações antes do casamento.
Cresceu o número de mulheres a tomar a iniciativa sexual e manifestar o seu interesse
por ele contrário ao passado.

11.2 – Prostituição:
Acto sexual pago, hoje tem mais visibilidade pública do que no passado, mas tende a
diminuir, principalmente devido a uma maior liberdade sexual antes do casamento
que faz com que os homens não as procurem. A sociedade tenta desviar a juventude
deste caminho.

O que leva uma mulher a tornar-se prostituta (estudo de Roberta)?


Para ganhar dinheiro 44% | Por estar desempregada 36,7% | Por curiosidade 25,8% |
Para dar apoio à família 18,7% | Poder comprar droga 9,4% | Para ter uma vida mais
excitante 5,5% | Para ser livre de sair de casa 3,9% | Por prazer ou experiência sexual
3,1%

Politica social:
A tendência é para a discriminação da prostituta, condenando os indivíduos que
favoreçam ou explorem a actividade sexual.
Em Portugal, a prostituição foi uma actividade legal até à sua abolição em 1962,
devendo ser exercida em bordéis sujeitos a fiscalização pelas autoridades policiais e
sanitárias. As prostitutas deveriam ser ainda submetidas periodicamente a inspecção
médica.
A prostituição veio a ser descriminalizada a partir da entrada em vigor do novo
Código Penal aprovado em 1982.

A prostituição e a SIDA:
A Sida VIH pode ser maior devido a prostitutas toxicodependentes não usarem
preservativo (só se detecta quem tem após 3 a 6 meses após infecção). Havendo
mesmo clientes que pagam mais caro para poderem ter relações sem preservativo.
A prevenção da infecção pelo vírus passa por acções de informação e educação
dirigidas a este grupo.

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Com vista a prevenir a infecção pelo VIH tem havido quem defenda a necessidade de
se voltar ao estabelecimento de bordéis controlados e fiscalizados sanitariamente pelo
Estado. Mas a Comissão de Luta Contra a SIDA defende uma posição contrária, uma
vez que estes lugares poderiam criar uma segurança falsa, pois o vírus só é detectado
após 3 ou 6 meses e uma prostituta já infectada poderia continuar a sua actividade sem
que a infecção fosse detectada pelo teste.

11.3 – Homossexualidade:
Aplica-se à uma orientação sexual de um homem ou mulher em relação a outra do
mesmo sexo, não é aceite socialmente e não está fácil ser aceite os direitos pelos quais
lutam. O casamento e a adopção é o mais controverso.
A homossexualidade é vista negativamente, quer como pecado, crime, doença mental
levando a uma forte estigmatização social.
Heterossexual (relações sexos diferentes)
As questões mais controversas dizem respeito ao casamento e à possibilidade de
adoptarem crianças.

As causas da homossexualidade:
Biológicas (funcionamento de hormonas);
Psicológicas;
Sociais;
Culturais;
Comportamento apreendido

Comunidades e locais de encontro:


Tal como outras minorias, os homossexuais desenvolveram associações, locais de
encontro, bares e restaurantes para proporcionar o encontro e convívio entre eles.
Em Portugal existem duas associações: “Hilga” e a “Opus Gay”, havendo alguns
bares e restaurantes servindo de locais de encontro e convívio.

11.4 – Pornografia:
È todo o tipo de material concebido (fotografias, filmes, textos escritos ou gravados)
para provocar excitação sexual. Esse material pode ser constituído por fotografias,
filmes, textos ou gravações áudio.
Diferenças entre:
Erotismo é uma forma de arte destinada a despertar, os sentimentos estéticos
no indivíduo;
Pornografia se destina a despertar apenas a excitação sexual (é aquilo que é
ofensa à moral publica).
Ciberpornografia, através da Internet, levanta problemas devido ao facto das crianças
e jovens terem facilidade no seu acesso.

XII – CRIME E A VIOLÊNCIA:


12.1 – O crime como comportamento desviante:
Quanto existe o consenso público de que as normas sociais foram violadas.
Ex. Comportamentos desviantes: - homicídio; perturbações mentais

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A palavra crime evoca na maioria dos casos actos de violência física sobre indivíduos,
cuja explicação tem sido procurada por teorias de natureza biológica, psicológica,
sociológica e cultural.

12.2 – Crime e droga:


O uso de drogas ilícitas nos países industrializados atinge níveis considerados
preocupantes, não só em termos de saúde, mas também pelas relações que tem com o
crime.
Os Estados Unidos possuem o maior consumo de droga.
A ideia popular que associa a droga ao crime (não é causa directa mas proporciona o
crime), sobretudo no caso de roubo ou furto encontra apoio nos estudos que têm sido
realizados. De facto muitos toxicodependentes envolvem-se em actividades
criminosas com vista a obterem dinheiro que lhes permita o consumo. (escravos da
droga) Crime é dirigido a indivíduos específicos.

12.3 – Teorias biológicas e psicológicas:


Investigadores mais modernamente explicam o comportamento criminoso na
anomalia dos cromossomas sexuais masculinos, o que não ficou provado.
Teorias psicológicas tentam associar o crime à personalidade anti-social, também não
provado.

12.4 - Teorias sociológicas:


12.4.1 - Teorias de aprendizagem social:
12.4.1.1 - Teoria da associação diferencial:
Edwin Sutherland diz existirem sub culturas, dentro da sociedade, que tem normas
que transmitem para cometer actos delinquentes;

12.4.1.2 - Teoria da identificação diferencial:


Daniel Glaser, para este autor o indivíduo só tem esse comportamento depois de se
identificar com quem o tem.

12.4.1.3 - Teoria do reforço diferencial:


Roberto Burgesse e Ronal Akers, defende que o individuo mantém os
comportamentos que são mais reforçados (repetidos), podendo o reforço ser de
natureza material ou psicológico.

12.4.2 - Teorias de controlo social:


12.4.2.1 - Teoria auto-controlo e comprometimento-social:
Travis Hirschi explica esse comportamento pela falta de apego às normas aceites, e
por deficiente socialização.

12.4.2.2- Teoria da reprovação reintegrativa:


Brinthwaite, acha que a reprovação social pode levar o indivíduo a ter remorsos e
evitar quebrar a lei, mas pode sentir-se rejeitado, banido e levado a continuar no
comportamento desviante. Estas sociedades apresentam menos taxas de
criminalidade.

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As teorias atrás referidas têm sido designadas por teorias clássicas do
comportamento desviante. Todas elas são centralizadas sobre o indivíduo,
procurando determinar as suas características e compreender a razão dos seus
actos.

12.4.3 - Teoria da rotulação:


Esta teoria surgiu nos anos 60 do séc. XX e vê a delinquência como um processo
interactivo entre quem comete o acto (ou quem se supõe cometer) e a sociedade.
Só existe comportamento desviante quando assim é rotulado pela sociedade,
deixando-se influenciar.

12.5 – Terrorismo:
Forma de violência física. O objectivo é combater o poder instituído, atingindo
cidadãos inocentes. É uma forma de luta radical praticada por cidadãos de um país
contra o seu Estado ou o dos Estrangeiros, podendo representar movimentos
religiosos ou políticos.
O objectivo procurado pelos terroristas pode ser de dois tipos:
Instrumental – pretende chamar a atenção da opinião pública de um país ou da
comunidade internacional. A violência é menor, procuram tratar o melhores
possível, as vítimas da violência para obter aquilo que pretende e granjear
simpatia para a sua causa.
Expressivo – é mais violento, traduzindo a frustração perante o poder
instituído. Tem sido praticada sobretudo por grupos extremistas religiosos.
Terrorismo é diferente de Guerrilha:
Guerrilha – designa a luta armada de grupos minoritários contra as forças armadas
do Estado, com o objectivo de restabelecer ou instaurar uma nova ordem. (actuam
dentro de uma legitimidade) Exemplo guerrilha comandado por Xanana em Timor
que levou à independência…

12.6 - A violência na família:


12.6.1 - Mitos a respeito da violência familiar:
1 – A violência familiar é característica das famílias pobres (nem sempre pois na
classe média também existe);
2 – Violência e amor não podem coexistir na mesma família (pais que gostam dos
filhos batem a pensar que os educam);
3 – As crianças maltratadas transformam-se mais tarde em pais maltratantes. (isso
pode não corresponder à verdade futura);
4 – O álcool e as drogas, estão associadas à violência na família (se calhar é mais uma
desculpa para o mau trato infringido)

12.6.2 - Tipos de violência na família:


A violência doméstica pode assumir várias formas e envolver todos os elementos do
agregado familiar, mas os tipos de violência mais estudados têm sido a violação
conjugal, os maus-tratos a crianças e idosos, a violência física sobre o conjugue.
Violação conjugal (da mulher pelo marido, ter relações sexuais contra a sua
vontade é muito frequente);
Esposas batidas (violência física, devido à sua cultura por ter a ideia de posse,
por vezes tem a desculpa do álcool);

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Maus-tratos a crianças (dano físico ou psicológico, espancamento,
queimaduras, abuso sexual, maus tratos psíquicos…);
Violência sobre pessoas idosas – Mais sobre aqueles que estão dependentes,
em casa ou em instituições. Motivado pelo stress principalmente nos casos em
que tem ainda filhos também a reclamar atenção e cuidados, que leva ao mau
trato.

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