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Manual sobre Alimentação de Filhotes

de Animais Silvestres

1ª Edição

Polegatto Editora e Serviços Ambientais

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Copyright © Polegatto Editora e Serviços Ambientais

É proibida a reprodução integral ou parcial do conteúdo, assim como das fotos e


quaisquer outros itens, deste livro, sem a autorização expressa da editora. A
reprodução desautorizada fica sujeita à punição na forma da lei.

Ilustrações: originais ou devidamente cedidas.

ISBN: 978-65-87129-00-6

Ficha catalográfica

Ramos, Carolina Aparecida

Manual sobre alimentação de filhotes de animais silvestres, 1 ed.

101 p.

1. Medicina Veterinária. 2. Clínica. 3. Zoológicos. 4. Zoologia. 5. Vertebrados.

Polegatto Editora e Serviços Ambientais

Ribeirão Preto

2019

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Autora
Carolina Aparecida Ramos
Médica Veterinária graduada pelo Centro Universitário Moura Lacerda.
Técnica em Nutrição e Dietética graduada pela Etec José Martimiano da
Silva. Possui experiência em Clínica e Reabilitação de Animais Silvestres.

Colaboradores

César Henrique Branco


Médico Veterinário graduado pela Universidade de Franca. Possui
experiência com Clínica, Cirurgia, Diagnóstico por Imagem e Anestesia de
Animais Selvagens. Atualmente atua como Médico Veterinário no Bosque
e Zoológico Fábio Barreto em Ribeirão Preto. Coordenador responsável
pelo Projeto de Resgate, Reabilitação e Reintrodução de Animais
Silvestres-Uma Nova Chance.

Lígia Oliveira Ferreira


Médica Veterinária da Prontovet Cravinhos. Graduada no
Centro Universitário Barão de Mauá. Pós-graduanda em
Clínica e Cirurgia de Animais Silvestres e Exóticos pela
Famesp.

Editor
Cleber Macedo Polegatto
Biólogo, consultor ambiental e editor na Polegatto Editora e Serviços Ambientais em
Ribeirão Preto.

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O que fazer ao receber
um filhote?

Essa é uma pergunta recorrente quando veterinários, biólogos ou


zootecnistas que trabalham com animais silvestres recebem um
filhote que necessita de cuidados, porém que o profissional nunca
cuidou.
O objetivo deste manual é repassar informações valiosas sobre
cuidados e alimentação de algumas espécies de animais.
As informações presentes neste manual são resultado de
experiências adquiridas durante a tentativa de adequar a dieta
fornecida ao filhote, com o objetivo de deixá-la mais parecida com
a que ele teria na natureza e os cuidados que teria se estivesse
com a mãe.
A literatura usada como referência auxiliou no desenvolvimento
deste manual, que reúne informações sobre neonatologia de
animais silvestres.
As dietas informadas são sugestões e podem variar de acordo com
a região do país, a espécie e a experiência do profissional.
Caso encontre um filhote de animal silvestre e não seja um
profissional habilitado para o cuidado, procure uma instituição
responsável.

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Sumário
Manejo de filhotes 7 Répteis 74
Quelônios terrestres 74
Aves 8 Quelônios aquáticos 75
Carnívoras 8 Serpentes 77
Piscívoras 11 Lagartos onívoros 79
Insetívoras 13 Lagartos herbívoros 79
Onívoras 17 Lagartos insetívoros 81
Herbívoras 18 Crocodilianos 81
Frugívoras 21
Cuidados com filhotes de répteis em geral 83
Granívoras 24
Frequência de alimentação e temperatura
Granívoras e frugívoras 25 adequada para filhotes de répteis 85
Nectarívoras 27

Frequência de alimentação e temperatura


adequada para filhotes de aves 30

Cuidados com filhotes de aves em geral 32 Quantidade de alimento que deve


ser fornecida para filhotes 87

Mamíferos 42 Fornecimento de água para


Gambás 42
filhotes durante a criação 98
Primatas 47

Canídeos 50

Tamanduás 53
Referências bibliográficas 99

Veado-catingueiro 56

Ouriço-cacheiro 57

Mão-pelada e Quati-de-cauda-anelada 60

Felídeos 63

Cuidados com filhotes de mamíferos em geral 66

Frequência de alimentação e temperatura


adequada para filhotes de mamíferos 73

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Manejo dos filhotes

Ao receber um filhote, é importante que o profissional esteja


ciente de qual será o destino desse animal. Se o filhote será solto
na natureza ou se viverá em cativeiro, pois o cuidado durante o
manejo do filhote deve ser diferente de acordo com a finalidade
da criação.
Os filhotes, principalmente algumas espécies de aves e
mamíferos, quando criados por seres humanos podem sofrer o
imprinting, onde o animal se reconhece como ser humano e não
como um ser de sua espécie e associa a presença do ser humano
com segurança e alimento.
Existem graus de imprinting, sendo que graus elevados podem
impedir a soltura de um animal, pois houve a associação entre ser
humano e alimento pelo filhote imprintado. Ao ser solto na
natureza, o animal imprintado poderia morrer de inanição, devido
à ausência de um ser humano para alimentá-lo.
Para animais de cativeiro, certo grau de imprinting é desejável
para que o animal aceite manejos e a realização de exames.
Quando o filhote será destinado a soltura, preconiza-se o uso de
métodos, como fantoches e panos, com o objetivo de evitar o
contato visual entre o filhote e o ser humano durante a
alimentação, para evitar a associação.
É importante lembrar que os filhotes criados pelos pais recebem
atenção e ensinamentos de sobrevivência e quando criados
artificialmente, devemos imitar esses ensinamentos e
proporcionar um ambiente amoroso para o filhote, que garanta o
desenvolvimento adequado do filhote.

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Aves
Entre as aves existem variações na dieta de acordo com a espécie,
na qual existem espécies que são frugívoras e insetívoras, por
exemplo.
Devido à grande variedade, as dietas apresentadas no manual
serão divididas em categorias de acordo com o principal hábito
alimentar da ave.

Carnívoras

Nessa categoria estão as aves que se alimentam, principalmente,


de vertebrados na natureza. Alguns exemplos são: Suindara (Tyto
furcata) (Figura 1), Carcará (Caracara plancus) (Figura 2), Gavião-
carijó (Rupornis magnirostris) (Figura 3) e Coruja-buraqueira
(Athene cunicularia).
Forneça, preferencialmente, codornas ou camundongos cortados
em pedaços.
Caso não seja possível, pode oferecer carnes de musculatura
esquelética (membros) ou coração bovino.
A suplementação é importante para alimentações com presas ou
carnes, pois presas alimentadas de forma inadequada podem não
ter todos os nutrientes necessários para o filhote, assim como a

8
carne bovina. Utilize suplemente vitamínico-mineral comercial
para essa finalidade.
O ideal é fornecer os órgãos das presas e não apenas a
musculatura, pois as reservas de vitaminas lipossolúveis estão
presentes no fígado e tecido adiposo.
Para alimentar o filhote, pegue um pedaço de carne ou presa com
a pinça, passe no suplemento vitamínico-mineral e depois ofereça
ao filhote. Deixe que o filhote segure a carne com o bico e degluta
sozinho.
Caso não possa oferecer o suplemento, pode ser feita uma farinha
de ração comercial para filhotes de cães, de boa qualidade, e
passar na carne como seria realizado com o suplemento.
Lembre-se que o tamanho do pedaço de carne deve ser
proporcional ao tamanho do bico.
A alimentação com a pinça deve ser realizada nos primeiros dias,
mas depois deixe os pedaços de alimento cortados em um pote,
pois os filhotes aprendem rapidamente a se alimentarem
sozinhos.
Para filhotes maiores comece a oferecer presas inteiras recém-
abatidas, proporcionais ao tamanho do filhote, para estimular o
filhote a comer sozinho. Quando o filhote se adaptar a comer
sozinho a presa abatida, ofereça presas vivas para estimular o
animal a caçar.
Para filhotes muito debilitados, que recusam alimento ou quando
não for possível fornecer carne, faça papa com ração Super
Premium terapêutica, indicada para cães e gatos convalescentes,
e a forneça com seringa para o filhote. Ao misturar a ração úmida,
já forma a papa.

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Figura 1 – Filhote de Suindara (Tyto furcata). Bosque e Zoológico Fábio Barreto –
Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Lígia Oliveira Ferreira

Figura 2 – Filhote de Carcará (Caracara plancus). Bosque e Zoológico Fábio Barreto –


Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco
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Figura 3 – Filhote de Gavião-carijó (Rupornis magnirostris). Bosque e Zoológico Fábio
Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Piscívoras
Lígia Oliveira Ferreira

Nessa categoria estão as aves que têm costume de comer peixes


na natureza. Alguns exemplos são: Garça-branca-grande (Ardea
alba) e Socozinho (Butorides striata) (Figura 4).
Para as aves que se alimentam de peixe forneça filé de peixe
cortado ou peixes pequenos com o auxílio de pinça.
O ideal é fornecer peixes inteiros, devido aos minerais, como
cálcio e fósforo, e vitaminas, como as do complexo B.
Forneça sempre peixes de água doce para filhotes, para evitar
gasto de energia com o processo de dessalinização.
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Figura 4 – Filhote de Socozinho (Butorides striata). Bosque e Zoológico Fábio Barreto –
Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Filhotes muito pequenos ou quando o cuidador não tem a


possibilidade de fornecer peixes pequenos, pode ser feita uma
papa com ração Super Premium terapêutica, indicada para cães e
gatos convalescentes. Ao misturar a ração úmida, já forma a papa.
Forneça a papa com seringa para o filhote.
Quando o filhote acostumar a se alimentar dessa forma, coloque
peixes vivos dentro de um pote com água. O movimento de
natação dos peixes funciona como estímulo visual para o filhote
aprender a caçar e se alimentar sozinho.
Quando não for possível fornecer peixes vivos e houver a
necessidade de fornecer peixe congelado, pode ser realizada a
suplementação de vitamina E na dose empírica de 100UI por

12
quilograma de pescado, pois os peixes são ricos em ácidos graxos
poliinsaturado e quando congelados podem perder vitamina E. ¹
Caso a espécie se alimente de insetos, anfíbios ou moluscos,
forneça para o filhote.

Insetívoras

Estão nessa categoria as aves que se alimentam, prioritariamente,


de insetos na natureza. Alguns exemplos são: Andorinha-
pequena-de-casa (Pygochelidon cyanoleuca), Urutau ou Mãe-da-
lua (Nyctibius griseus) (Figura 5), Anu-preto (Crotophaga ani),
Pica-pau-verde-barrado (Colaptes melanochloros) e Bem-te-vi
(Pitangus sulphuratus).

Figura 5 – Filhote de Urutau ou Mãe-da-lua (Nyctibius griseus). Bosque e Zoológico


Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Lígia Oliveira Ferreira
13
Uma alternativa para alimentar animais insetívoros, seria a ração
comercial para gatos filhotes amolecida com água. O Bosque e
Zoológico Municipal Fábio Barreto, em Ribeirão Preto, começou a
utilizar essa dieta para alimentar urutau. A partir do sucesso com
a criação, a dieta passou a ser usada para alimentar outras aves
insetívoras, como andorinhas e anus.
Para recém-eclodidos, forneça a ração comercial para gatos
filhotes amolecida com água (Figura 6), cortada em pedaços
pequenos, com a pinça ou com as mãos.

Figura 6 – Ração comercial para gatos filhotes amolecida com água. Bosque e
Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Para filhotes pouco ou totalmente empenados ofereça insetos


criados com essa finalidade ou de ração comercial, junto com a
ração para gatos amolecida (Figura 7).
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Figura 7 –Alimentação de Urutau (Nyctibius griseus) jovem com ração comercial para
gatos filhotes.
Fonte: Lígia Oliveira Ferreira

Os insetos podem ser oferecidos inteiros (recém-abatidos),


picados ou triturados, depende do tamanho do filhote.
Use uma pinça para pegar o inseto e mostrar para o filhote,
estimulando que ele se alimente.
Retire gradativamente a ração para gatos da dieta, deixando
somente os insetos.
Para aves maiores, os insetos podem ser oferecidos vivos e
colocados em troncos, assim, o filhote, gradativamente, deixa de
associar a pinça ao alimento.

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A prática de alimentar animais insetívoros com larvas do besouro-
da-farinha ou mealworm (Tenebrio molitor), também conhecida
como tenébrio, é comum em zoológicos, centros de triagem e
criadouros. A ração comercial para gatos filhotes apresenta teores
de proteína, cálcio e fósforo superiores quando comparada ao
tenébrio, na mesma proporção. Enquanto o tenébrio apresenta
teor de gordura superior ao apresentado pela ração.²
Os insetos podem ser suplementados com suplementos
comerciais, preferencialmente, em pó. Passe o inseto pelo
suplemento e forneça ao animal. O objetivo é corrigir deficiência
de cálcio nos insetos criados para alimentação de animais
insetívoros.
O Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) é considerado,
principalmente, insetívoro, mas se alimenta de frutas, ovos e até
pequenos animais. Para a criação de filhotes de bem-te-vi,
podemos usar papa comercial para aves filhotes (Figura 8)
administrada com seringa, para filhotes recém-eclodidos.

Figura 8 – Imagem que mostra a papa comercial para aves filhotes e a consistência
para alimentação do filhote. Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

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A papa deve ser fornecida na temperatura de 38 a 40°C (101-104°
F) para o filhote.³
Para filhotes maiores, acrescenta-se frutas e insetos na dieta,
deixando os alimentos disponíveis em potes, enquanto aumenta-
se o intervalo entre a papa, para que estimule o filhote a se
alimentar sozinho.

Onívoras

Nessa categoria estão as aves consideradas onívoras, pois podem


se alimentar de frutas, ovos de outras aves, insetos, de filhotes de
outros animais e pequenos répteis, sem uma preferência.
Exemplos seriam a Gralha-do-campo (Cyanocorax cristatellus),
Mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), Saracura-três-potes (Aramides
cajaneus), filhote na Figura 9.
Nessa categoria existem variações na alimentação, portanto é
importante conhecer a dieta dos filhotes e adultos na natureza
para fornecer a alimentação adequada.
Pode- se fornecer mistura de papa comercial para aves filhotes
misturada com ração comercial para cachorros amolecida, com
auxílio de uma seringa, para filhotes recém-eclodidos.
A papa deve ser fornecida na temperatura de 38 a 40°C (101-104°
F) para o filhote.³
Para filhotes empenados forneça pedaços de ovos de galinha
cozidos, de frutas e de verduras de coloração verde escura, de
insetos, variando de acordo com a espécie.

17
Inicialmente, mostre o alimento para o filhote com uma pinça.
Depois deixe o alimento disponível em um pote para estimular o
animal a comer sozinho.

Figura 9 – Filhote de Saracura-três-potes (Aramides cajaneus). Bosque e Zoológico


Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Herbívoras
Lígia Oliveira Ferreira
Carolina Aparecida Ramos

Essa categoria é das aves que se alimentam, preferencialmente,


de folhas. Alguns exemplos são: Frango-d'água-azul (Porphyrio

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martinicus), o Irerê (Dendrocygna viduata) e a Marreca-cabocla
(Dendrocygna autumnalis), filhotes na Figura 10.

Figura 10 – Filhotes de Marreca-cabocla (Dendrocygna autumnalis). Bosque e


Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Lígia Oliveira Ferreira

As aves herbívoras são precociais, ou seja, já nascem com penas,


com a capacidade de se locomoverem e se alimentarem sozinhas.
Forneça verduras de coloração verde escura, como couve e
espinafre, pedaços de ovo de galinha cozido e ração específica
para a espécie ou ração inicial para aves, em um pote (Figura 11).

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Figura 11 - Filhotes de Marreca-cabocla (Dendrocygna autumnalis) em recinto com
lâmpada para aquecimento e separação entre água e alimento. Bosque e Zoológico
Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Grande parte das aves classificadas como preferencialmente


herbívoras também se alimentam de outros animais em
determinados momentos, por este motivo recomendamos o
acréscimo de ovo na dieta.
Para os Anseriformes, é importante fornecer água em pote perto
do pote de comida, pois são animais filtradores que ingerem água
junto com o alimento (Figura 12).

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Figura 12 - Cisne-negro (Cygnus atratus) jovem se alimentando perto da água. Bosque
e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Lígia Oliveira Ferreira

Frugívoras

São as aves que se alimentam, preferencialmente, de frutas.


Alguns exemplos são: Tucano-toco ou Tucanuçu (Ramphastos
toco) (Figura 13), apesar de também ser faunívoro oportunista, ou
seja, se alimentar de outros animais. Outro exemplo seria o
Sanhaçu-cinzento (Tangara sayaca).
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Figura 13 – Filhote de Tucano-toco ou Tucanuçu (Ramphastos toco). Bosque e
Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Forneça papa comercial para filhotes de aves com auxílio de


seringa compatível ao tamanho do bico do filhote.
A papa deve ser fornecida na temperatura de 38 a 40°C (101-104°
F) para o filhote. ³
No início talvez seja necessário abrir manualmente, com cuidado,
o bico do filhote, mas depois ele acostuma a abrir o bico sempre
que está com fome, assim como faz quando criado pela mãe.
Para filhotes empenados, ofereça pedaços pequenos de frutas,
estimulando ele a pegar e comer sozinho. Aumente o intervalo da
alimentação com papa e deixe frutas disponíveis em pote perto
do animal.

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Caso não possua a papa comercial no momento em que recebeu
o filhote, misture frutas macias, como banana e mamão, com
água, bata no liquidificador até que se torne uma papa. Forneça a
papa caseira ao animal com o auxílio de seringa.
O ideal é fornecer a papa comercial, pois é um alimento completo
e balanceado para filhotes de aves, além de possuir em sua
formulação componentes importantes para o desenvolvimento
do filhote.
No caso de filhotes de tucano, forneça ração comercial para
tucanos amolecida com água misturada com frutas (com exceção
das frutas cítricas) como alternativa a papa comercial para filhotes
de psitacídeos. A consistência deve ser pastosa para que seja
administrada com seringa (Figura 14). Recomenda-se que a ave
seja alimentada somente de 6 a 12h após o nascimento. Com 7
dias de idade, as aves já podem se alimentar de pedaços de frutas,
ratos neonatos, mariposas ou ração comercial umedecida.4

Figura 14 – Alimentação de filhote de Tucano-toco ou Tucanuçu (Ramphastos toco).


com seringa. Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

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Granívoras

Nessa classificação estão as aves que se alimentam,


principalmente, de grãos e/ou sementes. Alguns exemplos são:
Rolinha-roxa (Columbina talpacoti), Avoante ou Pomba-de-bando
(Zenaida auriculata), filhote na Figura 15 e Canário-da-terra-
verdadeiro (Sicalis flaveola).

Figura 15 – Filhote de Avoante ou Pomba-de-bando (Zenaida auriculata). Bosque e


Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Forneça papa comercial para filhotes de aves com auxílio de


seringa compatível ao tamanho do bico do filhote.
A papa deve ser fornecida na temperatura de 38 a 40°C (101-104°
F) para o filhote.³

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Para filhotes empenados, aumente gradativamente o intervalo
entre as alimentações com papa. Deixe grãos e sementes
disponíveis em potes.
A variação de grãos e sementes está relacionada com a espécie da
ave, portanto é importante conhecer os hábitos alimentares de
jovens e adultos na natureza para fornecer o alimento adequado.

Granívoras e frugívoras

Nessa categoria estão as aves que se alimentam basicamente de


sementes e frutas. Alguns exemplos são: Pomba-asa-branca
(Patagioenas picazuro), Periquitão-maracanã (Psittacara
leucophthalmus), filhotes na Figura 16, e Papagaio-verdadeiro
(Amazona aestiva).
Forneça papa comercial para filhotes de aves com auxílio de
seringa compatível ao tamanho do bico do filhote.
A papa deve ser fornecida na temperatura de 38 a 40°C (101-104°
F) para o filhote.³
Para filhotes empenados, aumente gradativamente o intervalo
entre as alimentações com papa. Deixe frutas e sementes
disponíveis em potes (Figura 17).

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Figura 16 – Filhotes de Periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus). Bosque e
Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Figura 17 - Periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus) jovem se alimentando de


frutas.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

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Nectarívoras

As aves nectarívoras costumam se alimentar de insetos, além do


néctar das flores, inclusive os beija-flores, porém é necessário
conhecer a espécie para fornecer a alimentação correta.
Alguns exemplos são: Beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura)
e Cambacica (Coereba flaveola).
Existem duas dietas que podem ser usadas para alimentar filhotes
de aves nectarívoras. Uma delas consiste em fornecer mistura
(Figura 18) entre ração comercial para araras (de 5 a 6 grãos)
triturada, com 0,5 ml de glicose a 25% diluídos em 1 ml de água. É
importante misturar bastante para que os grãos triturados sejam
dissolvidos.

Figura 18 – Ingredientes usados na primeira opção de receita para aves nectarívoras.


Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

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A outra opção (Figura 19) seria fornecer o néctar comercial para
beija-flores dissolvido em água, de acordo com as especificações
de cada fabricante. Para cada 100 ml, adicione uma pitada de
suplemento comercial de proteína.

Figura 19 – Ingredientes usados na segunda opção de receita para aves nectarívoras.


Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Administre a mistura com auxílio de seringa.


Filhote de beija-flor aprenderá a colocar o bico dentro da seringa
para beber o conteúdo sozinho.
Quando o filhote aprender a beber o néctar ou mistura sozinho,
deixe o alimento disponível em bebedouro comercial para
roedores (Figura 20). Pode colocar uma flor artificial no
bebedouro para que o filhote associe com a flor com o alimento.
Se o filhote também se alimenta de insetos e frutas, forneça com
a pinça no início e, posteriormente, deixe as frutas e insetos

28
disponíveis em potes perto do animal para estimular que ele se
alimente sozinho.

Figura 20 - Filhote de Beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura) se alimentando


sozinho em bebedouro comercial para roedores.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

29
Frequência de alimentação e
temperatura adequada para filhotes de
aves

A frequência de alimentação varia de acordo com a fase de


desenvolvimento do filhote, sendo que os recém-eclodidos
necessitam de alimentação mais frequente em relação aos
filhotes em outras fases.
A temperatura de manutenção do filhote também muda de
acordo com a fase de desenvolvimento, pois filhotes que não
possuem penas têm mais dificuldade de manter a temperatura
corporal adequada e, assim, necessitam de aquecimento artificial
mais intenso e em temperaturas mais altas, comparados aos
filhotes empenados. É importante lembrar que a temperatura
corporal de uma ave é em torno de 40 a 42°C. Devemos sempre
monitorar para a temperatura corporal adequada seja mantida.
Para filhotes de aves, não é necessário realizar a alimentação
durante todo o período noturno, com exceção de aves de hábito
noturno, mas ao amanhecer o filhote já deve ser alimentado.
A alimentação pode ocorrer das 7h às 21h,5 ou começar o período
de alimentação com o nascer do sol e terminar de duas a três
horas após o pôr-do-sol.
No Bosque e Zoológico Fábio Barreto, a maioria dos filhotes de
aves recebidos já possuem algumas penas, portanto adotamos a
alimentação, no mínimo, a cada hora, para os mais novos,
aumentando gradativamente com o crescimento do filhote.

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A frequência de alimentação e a temperatura recomendada para
cada fase de desenvolvimento, assim como as características
apresentadas por filhotes de cada fase, podem ser observadas na
Tabela 1, adaptação da tabela “Frequência de alimentação e
recomendações de temperatura para criação manual de aves
órfãs” do livro Formulário de Animais Exóticos, de James W.
Carpenter.

Tabela 1- Frequência de alimentação e recomendações de temperatura


para criação manual de aves órfãs:
Classe etária Características Frequência de Temperatura
alimentação
Recém-eclodido Sem penas ou com A cada 15 minutos 26-32 °C (80-90°F)
(dias 0 a 4) pequenas (7h-21h)
quantidades de
penugem; corpos de
bulbos; apêndices
frágeis; incapaz de se
sentar; olhos
fechados.
Ninhego (dias 4 a Penas de voo A cada 20 ou 30 26-29°C (80-85°F)
10) aparecendo; surgem minutos (7h-21h)
as penas; penas mais
internas aparecendo
na cabeça; não se
empoleira; olhos
abertos.
Saindo do ninho Empenado; penas da A cada 40 ou 60 21-26°C (70-80°F)
(dias 10 a 14) cauda curtas; minutos (7h-21h)
primeiras tentativas
de voo; consegue
empoleirar-se; irá
realizar neotonia.
Juvenil/imaturo (> Empenado; A cada 2 ou 4 horas. 21-26°C (70-80°F)
15 dias até adulto) defensivo; capaz de Fornecer itens para
voar; ainda sendo alimentação por
alimentado pelos conta própria (7h-
pais. 21h até que se
alimente sozinho)
Adultos Plumagem de Alimenta-se sozinho 21-26°C (70-80°F)
adultos; agressivo, ou é necessário
geralmente chegam forçar.
lesados.
Fonte: CARPENTER, 2005

31
Cuidados com filhotes de aves em
geral

Faça a homogeneização da papa e use um termômetro para aferir


a temperatura. O bulbo do termômetro deve estar no centro do
pote, sem encostar nas laterais e no fundo. É importante que a
papa esteja na temperatura adequada, pois se estiver muito
quente pode causar queimadura no esôfago do filhote. Papa frias
podem ficar no inglúvio e não serem digeridas.
Os utensílios utilizados para a alimentação de filhotes de aves
devem ser compatíveis com o tamanho do filhote. Existem vários
utensílios que podem ser utilizados, os mais comuns são as
seringas e sondas. Nas Figuras 21 e 22 mostramos alguns
exemplos.

Figura 21– Exemplos de seringas para alimentação de filhotes de aves. Bosque e


Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos
32
Figura 22 – Exemplos de seringas e sondas para alimentação de filhotes de aves.
Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Para a criação manual de aves é importante fornecer um ambiente


adequado para cada fase de desenvolvimento do filhote e para
cada espécie.
Durante a fase de recém-eclodido até a de ninhego, quando as
primeiras penas começam a surgir, é necessário manter a ave em
local que simule um ninho (Figura 23), nesses casos pode-se usar
potes com panos, serragem ou gravetos dentro para simular um
ninho e deixar o filhote confortável.
Em determinadas ocasiões o filhote pode chegar dentro do
próprio ninho (Figura 24). Nesses casos, pode manter o filhote no
ninho enquanto cuida, mas é necessário observar se o filhote está
com ectoparasitas. Se estiver, será necessário fazer o controle
com antiparasitário tópico e em caso de dermatobiose ou berne
(presença de larvas da mosca-berneira ou Dermatobia hominis no

33
subcutâneo), retirar as larvas e fazer tratamento suporte para o
filhote.
Nesse período deve-se manter os filhotes aquecidos com
lâmpadas, aquecedores de ambiente, unidades de tratamento
animal (UTA), garrafa de água morna coberta por pano ou outros
métodos. Tome cuidado para não superaquecer o filhote ou
queimá-lo.
Quando a ave já está empenada, pode deixá-la em gaiola ou
viveiro com troncos e poleiros para que o filhote aprenda a
empoleirar. O controle da temperatura corporal já é realizado
pelo filhote, portanto não é necessário manter o aquecimento
artificial, exceto em regiões muito frias.

Figura 23 –Filhote de Avoante (Zenaida auriculata) em ninho improvisado feito com


pote de plástico e serragem.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

34
Figura 24 - Filhote de Beija-flor no ninho.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Para Urutau ou Mãe-da-lua (Nyctibius griseus) deixe o filhote


sempre sobre um tronco ou algo que pareça um tronco (Figura
25), mas mantenha a temperatura adequada.

Figura 25 –Urutau (Nyctibius griseus) jovem sobre objeto que simula um tronco.
Bosque e Zoológico Fábio Barreto.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos
35
O substrato para filhotes de aves pode ser de papel toalha, tapete
higiênico, serragem ou outro material (Figura 26), desde que não
seja escorregadio.
Substratos escorregadios podem contribuir para que o filhote
desenvolva alterações osteoarticulares (Figura 27).
Quando usar serragem como substrato, peneire antes de colocar
no recinto do filhote.

Figura 26 – Filhote de Periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus) em substrato


que simula o ninho. Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

36
Figura 27 –Periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus) jovem com alteração
óssea, provavelmente, por crescer em local com substrato inadequado.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Filhotes que não receberam a nutrição adequada durante os


primeiros dias de vida também podem desenvolver alterações
osteoarticulares (Figura 28).

Figura 28 –Filhote de Periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus) resgatado, com


alterações osteoarticulares, provavelmente, por criação errada.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos
37
Filhotes de aves aquáticas devem ser colocadas em bacias ou
pequenos lagos diariamente para nadar (Figuras 29 e 30). É
importante sempre observar se o filhote fica hipotérmico ao
nadar, caso fique, aqueça o filhote e espere até que fique maior
para colocá-lo na água.

Figura 29 – Filhote de Marreca-cabocla (Dendrocygna autumnalis) em bacia com água.


Bosque e Zoológico Fábio Barreto.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

38
Figura 30 – Filhote de Cisne-negro (Cygnus atratus) em pequeno lago. Bosque e
Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Lígia Oliveira Ferreira

A exposição ao sol deve ser em horários específicos do dia, como


o início da manhã e final da tarde, por 20 minutos, somente
quando o filhote já estiver com penas.
O uso de sondas flexíveis e de metal para alimentação com papa
é comum entre pessoas que criam aves, porém é necessário
conhecimento anatômico para realizar a sondagem, pois um erro
pode ser fatal para o filhote. Aconselhamos o uso de seringa
compatível com o tamanho do filhote para evitar acidentes
durante a sondagem. Mesmo com o uso de seringa é necessário
ter cuidado, alimentar a ave com paciência, delicadeza e injetando
baixos volumes de papa, com pausas para que o filhote consiga
deglutir tudo que está no bico, antes de mais papa ser injetada. A
alimentação de maneira errada pode ocasionar morte por
pneumonia secundária à aspiração de papa, quando o líquido que
deveria ir para o esôfago, vai para a traqueia e pulmões. Por esse

39
motivo, é necessário ficar atento no momento da alimentação e
respeitar o tempo do filhote.
A sonda pode ser usada quando o criador possui experiência com
sondagem e em casos quando uma pessoa precisa cuidar de
muitos filhotes.
É necessário observar as entradas da traqueia e do esôfago. Insira
a sonda na entrada do esôfago e faça a palpação pelo esôfago ou
inglúvio do filhote para acompanhar a passagem da sonda. Caso
não seja possível sentir a sonda, é provável que ela esteja na
traqueia, nesse caso teria que retirar a sonda e realizar o
procedimento novamente. Observe se ocorre passagem de ar pela
sonda, caso ocorra, ela deve ser retirada e colocada novamente,
pois estava na traqueia.
É importante pesar o filhote todos os dias (Figura 31), desde sua
chegada, para que seja realizada a curva de crescimento do
filhote, o que permite a análise do desenvolvido do filhote. Além
da pesagem, anote a quantidade de alimento oferecida,
quantidade ingerida, consistência das fezes, comportamento do
filhote, anote tudo o que observar e crie uma ficha de
acompanhamento para cada filhote.
A higiene deve ser mantida nos cuidados com todos os animais.
Higienize corretamente todos os utensílios utilizados na
alimentação do filhote e mantenha o recinto sempre limpo. A
utilização de luvas de procedimento para cuidar de neonatos é
recomendada.
Sempre limpe o filhote após a alimentação para que ele seja
mantido limpo. Para filhotes com penas, observe se ele possui o
hábito de se limpar e arrumar as penas periodicamente, pois esse
hábito pode indicar que o animal está saudável.

40
Figura 31 – Pesagem diária de Andorinha-pequena-de-casa (Pygochelidon cyanoleuca).
Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

A interação com outros indivíduos da mesma espécie é


importante, portanto sempre que possível coloque filhotes da
mesma espécie juntos ou com animal de pelúcia parecido com o
filhote para que ele tenha essa interação.
Para aves precociais, como os Galliformes, é importante fornecer
fezes de animais adultos da mesma espécie para ajudar na
formação da microbiota intestinal. A fezes devem ser frescas ou
refrigeradas por, no máximo, dois dias. Ofereça para aves recém-
eclodidas por dez dias.

41
Mamíferos

Existem várias espécies dentro dessa classe, mas a alimentação


com leite materno no início da vida é uma característica em
comum. Ao criá-los longe da mãe, é necessário fazer o
aleitamento artificial.
Cada espécie tem um tipo de leite específico, com nutrientes
necessários para o desenvolvimento do filhote.
Para tentar formular o sucedâneo que substituirá o leite de
determinada espécie, é necessário ter conhecimento sobre a
composição e as concentrações de cada nutriente presente no
leite da espécie, principalmente, os níveis de gordura e proteína.
De acordo com as diferenças nas composições dos leites, as dietas
deste manual estão separadas por ordem, família ou espécie de
animais que os autores possuem experiência. Algumas dietas
informadas podem ser utilizadas em outras espécies da mesma
família, mas será especificado no texto.

Gambás (Didelphis spp.)

A maior parte do desenvolvimento de filhotes de gambás ocorre


fora do útero, pois são marsupiais. Portanto, é importante

42
adequar o nível de proteína na dieta em cada fase. Quanto menor
o filhote, mais proteína ele precisa para se desenvolver.
A receita de sucedâneo disponível na literatura consiste em uma
gema de ovo cru, 100 ml de leite (sucedâneo comercial de cães e
gatos) e uma colher (café) de mel.6
No Bosque e Zoológico Fábio Barreto utilizamos a receita de
sucedâneo (Figura 32) que consiste em 500 ml de leite integral de
vaca, uma caixa de creme de leite, uma colher (sobremesa) de mel
e uma colher (sopa) de ração comercial para gatos umedecida.
Essa receita é usada para filhotes pouco desenvolvidos, sem pelo
e ainda com os olhos fechados.

Figura 32 – Ingredientes da receita de sucedâneo para filhotes de Gambás (Didelphis


spp.). Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

43
Forneça a mistura com auxílio de seringa proporcional ao
tamanho do filhote. Se necessário, para facilitar o aleitamento,
utilize uma sonda uretral fina estéril, cortada em tamanho
pequeno, que possa ser acoplada a seringa. Introduza uma parte
da sonda na boca do animal para alimentá-lo (Figura 33).

Figura 33 – Filhote de Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) sendo


amamentado com seringa acoplada a pedaço de sonda uretral estéril. Bosque e
Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

A frequência de alimentação varia com de acordo a idade do


filhote. Para filhotes pouco desenvolvidos, o aleitamento deve ser
realizada a cada hora, sendo que a medida que o animal cresce e
se desenvolve, o intervalo aumenta.
Quando o filhote apresenta pelos e grau mais elevado de
desenvolvimento, ofereça frutas, verduras, legumes, insetos,
44
carne, ovo cozinho e o sucedâneo com adição de complemento
alimentar infantil comercial, porém em potes para estimular o
filhote a comer sozinho (Figura 34). Pode-se oferecer os alimentos
amassados no início, depois em pedaços pequenos e aumentar o
tamanho gradativamente.

Figura 34 – Filhotes de Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) comendo


sozinhos.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Filhotes de gambás criados sem a mãe costumam apresentar


alterações musculares. A suplementação com 25 mg/filhote de
vitamina E diariamente evitou o surgimento desta afecção em
filhotes criados no Bosque e Zoológico Fábio Barreto. A vitamina
foi adicionada ao sucedâneo após os filhotes abrirem os olhos e a
suplementação continuou até se tornarem jovens.

45
Alguns profissionais indicam suplementação de cálcio e vitamina
D, porém nossas experiências com a vitamina E foram boas.
A suplementação de cálcio deve ser realizada com suplementos
comerciais em pó.
A dieta informada pode ser utilizada para outras espécies de
gambá.
Também é recomendado manter os filhotes de gambá em locais
que simulem um ninho ou marsúpio. Esse ninho pode ser feito
com potes e panos (Figura 35).

Figura 35 – Filhotes de Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) em local que


simula um ninho. Bosque e Zoológico Fábio Barreto.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

46
Primatas

A receita que será descrita já foi utilizada na criação de Sagui-de-


tufo-preto (Callithrix penicillata), Bugio-preto (Alouatta caraya) e
Macaco-prego (Sapajus nigritus) pelos autores.
A receita do sucedâneo (Figura 36) consiste em um litro de leite
integral de vaca, uma caixa de creme de leite e uma gema de ovo.

Figura 36 – Ingredientes usados no sucedâneo de primatas. Bosque e Zoológico Fábio


Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

47
Misture os ingredientes e administre a cada duas horas com
auxílio de seringa ou mamadeira, dependendo do tamanho do
filhote (Figura 37).

Figura 37 – Filhote de Sagui-de-tufo-preto (Callithrix penicillata) sendo alimentado com


seringa. Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Forneça o sucedâneo durante dois meses para filhotes de Sagui e


por cinco a seis meses para Bugio (Figura 38) e Macaco-prego
(Figura 39).

48
Figura 38 - Filhote de Bugio-preto (Alouatta caraya). Bosque e Zoológico Fábio Barreto
–Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Figura 39 - Filhote de Macaco-prego (Sapajus nigritus). Bosque e Zoológico Fábio


Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco
49
Antes de completar o tempo estimado para o aleitamento,
coloque o sucedâneo, frutas, verduras e carne em potes e reduza,
gradativamente, o aleitamento para estimular o filhote a comer
sozinho.
Filhotes que não recebem o leite materno devem ser
suplementados com taurina até completarem 12 meses de idade.¹
Adicione 250 mg/animal de taurina na dieta diariamente.
A dieta informada pode ser utilizada para alimentar outras
espécies de primatas.

Canídeos

A receita que será descrita já foi utilizada na criação de Cachorro-


do-mato (Cerdocyon thous), Raposa-do-campo (Lycalopex vetulus)
e Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) pelos autores.
O sucedâneo (Figura 40) utilizado no Bosque e Zoológico Fábio
Barreto consiste em um litro de leite integral de vaca, uma caixa
de creme de leite e uma gema de ovo. Pode acrescentar
complemento alimentar infantil comercial ou outro suplemento
vitamínico mineral comercial em pó, para recém-nascidos.
Outra receita, essa encontrada na literatura, seria de 250 mℓ de
leite integral de vaca, uma gema de ovo, uma colher de manteiga
derretida, uma colher de chá de açúcar, uma pitada de sal e
algumas gotas de polivitamínico.7

50
Figura 40 – Ingredientes utilizados na receita para canídeos. Bosque e Zoológico Fábio
Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Misture os ingredientes e administre a cada duas horas com


mamadeira (Figura 41), durante dois meses, para recém-nascidos.
Aumente, gradativamente, o intervalo entre os horários de
aleitamento a cada semana.
Antes de completar o tempo estimado para o aleitamento,
coloque o sucedâneo, frutas e verduras em potes e reduza o
aleitamento para estimular o filhote a comer sozinho (Figura 42).
Canídeos filhotes mantidos em cativeiro necessitam de
suplementação de cálcio. Adicione 250 mg/animal de cálcio na
dieta diariamente.
A dieta descrita pode ser utilizada para outros canídeos.
Filhote de Raposa-do-campo (Lycalopex vetulus) na Figura 43.

51
Figura 41 -Aleitamento artificial de filhote de Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous)
com o uso de mamadeira.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Figura 42 – Filhote de Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) no recinto com a


alimentação em potes. Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

52
Figura 43 – Filhote de Raposa-do-campo (Lycalopex vetulus). Bosque e Zoológico Fábio
Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Tamanduás

A receita que será descrita já foi utilizada na criação de Tamanduá-


bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e Tamanduá-mirim
(Tamandua tetradactyla) pelos autores.
A fórmula de sucedâneo (Figura 44) consiste em um litro de leite
integral de cabra, uma caixa de creme de leite e uma gema de ovo.

53
Figura 44 – Ingredientes utilizados na receita para tamanduás. Bosque e Zoológico
Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Administre com auxílio de mamadeira (Figura 45) durante dois


meses, para recém-nascido. Em média, cinco vezes ao dia.
O tamanduá possui uma língua extensa desde filhote, devido a
essa característica, é importante que o filhote exponha a língua
durante o aleitamento. A exposição da língua é realizada
naturalmente pelo filhote e evita o engasgo com o leite e com a
língua.

54
Figura 45 – Filhote de Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) sendo
alimentado. Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Após dois meses, acrescente suplemento vitamínico-mineral


comercial em pó para crianças, cereal infantil comercial de milho
ou arroz e frutas, como mamão, banana e maçã, a fórmula do
sucedâneo.
A adição de mamão pode acarretar diarreia no filhote, caso
ocorra, retire o mamão da dieta e aumente a quantidade de maçã
até que a consistência das fezes esteja normal.
Quando o filhote completar, aproximadamente, três meses,
acrescente ração comercial para gatos filhotes e mel ao
sucedâneo.
Ao completar seis meses, acrescente carne bovina moída,
beterraba e cenoura a fórmula do sucedâneo.
Quando o animal atingir a idade adulta, acrescente extrato de soja
no sucedâneo.

55
Tamanduás adultos e filhotes mantidos em cativeiro com essa
dieta necessitam de suplementação de taurina e cálcio. Adicione
250 mg/animal de taurina e 250 mg/ animal de cálcio na dieta
diariamente.
O ideal é fornecer formigas e cupins para esses animais, mesmo
em cativeiro, mas em locais onde não é possível fornecer esse
alimento, a dieta descrita acima pode ser utilizada e apresenta
bons resultados.

Veado-catingueiro (Mazama gouazoubira)

Forneça leite integral de cabra com mamadeira (Figura 46), a cada


três horas durante quatro meses, para filhotes recém-nascidos.

Figura 46 – Filhote de Veado-catingueiro (Mazama gouazoubira) sendo alimentado.


Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco
56
É necessário ter cuidado ao alimentar o filhote e sempre elevar a
cabeça dele durante o aleitamento para propiciar a passagem do
leite pela goteira esofágica (formação realizada pela musculatura
lisa presente no rúmen e retículo, estimulada pelo movimento de
sucção).
Durante os quatro meses de aleitamento, introduza,
gradativamente, folhas de coloração verde escura na dieta.
Após quatro meses, diminua o aleitamento e deixe disponível em
potes, frutas (exceto as cítricas), folhas de coloração verde escura
e ração comercial para potros.
No início pode ser necessário oferecer os alimentos sólidos perto
do filhote para estimular ele a comer.
Alguns filhotes aceitam o leite no pote, então, quando introduzir
os alimentos sólidos, coloque o leite em um pote na altura da
articulação escápulo-umeral (ombro) do filhote e observe se ele
se interessa.

Ouriço-cacheiro (Sphiggurus villosus)

Existem duas opções de receitas de sucedâneo.


Opção 01 (Figura 47): papa contendo, uma colher (sopa) de cereal
infantil comercial de milho ou arroz, uma colher (sopa) de leite
integral de cabra, uma colher (café) de mel.

57
Adicione água a receita e misture até que fique com consistência
de iogurte.

Figura 47 – Ingredientes utilizados na primeira opção de receita para ouriços. As


proporções estão diferentes somente para aparecer na imagem. Bosque e Zoológico
Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Opção 02: papa contendo, duas colheres (sopa) de complemento


alimentar infantil comercial em pó, duas colheres (sopa) de cereal
infantil comercial de arroz, meia banana, duas gemas de ovo
cozidas, uma colher (café) de mel e 100 ml de leite integral de
vaca.
Administre a mistura com auxílio de seringa a cada duas horas por
duas semanas, para recém-nascidos.

58
Após completar as duas semanas, adicione papa contendo
banana, mamão, pera, melancia, manga e kiwi a mistura anterior,
independente da opção escolhida.
Alimente o filhote de ouriço (Figura 48) a cada três horas por três
semanas, ou seja, até completar cinco semanas do início da
alimentação.
Ao completar cinco semanas, continue com a dieta anterior, mas
com a alimentação a cada quatro horas e comece a fornecer frutas
e legumes, como batata doce, beterraba e cenoura, crus ou
cozidos, cortados em pedaços e deixando-os em potes. Estimule o
filhote a comer sozinho os alimentos deixados em potes.
Retire a receita de sucedâneo, gradativamente, conforme o
filhote aumenta a ingestão de alimentos sólidos.
Filhotes de ouriço costumam ter desconforto abdominal por
acúmulo de gases, o que pode atrapalhar o filhote a comer, devido
a dor. Se acontecer, procure um Médico Veterinário.

Figura 48 - Filhote de Ouriço-cacheiro (Sphiggurus villosus). Bosque e Zoológico Fábio


Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

59
Mão-pelada (Procyon cancrivorus) e Quati
(Nasua nasua)

A receita do sucedâneo (Figura 49) é composta por um litro de


leite integral de cabra, uma caixa de creme de leite e uma gema
de ovo.

Figura 49 – Ingredientes utilizados na receita para Mão-pelada (Procyon cancrivorus) e


Quati (Nasua nasua). Bosque e Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Administre a mistura com mamadeira (Figura 50) durante dois ou


três meses para recém-nascidos.

60
Figura 50 – Filhote de Mão-pelada (Procyon cancrivorus) sendo alimentado. Bosque e
Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Após esse período forneça pescoço de frango batido, ração


comercial para gatos e a mistura em potes separados.
Quando o filhote estiver se alimentando sozinho e apresentar
bom desenvolvimento corporal, retire o sucedâneo da dieta e
ofereça carne bovina (musculatura esquelética), frutas, ração
comercial para gatos, ração comercial para cães, ovo,
invertebrados e presas abatidas.
Animais adultos e filhotes mantidos em cativeiro com essa dieta
necessitam de suplementação de taurina e cálcio. Adicione 250
mg/animal de taurina e 250 mg/animal de cálcio na dieta
diariamente.
Filhotes de Quati (Nasua nasua) na Figura 51.

61
Figura 51 – Filhotes de Quati (Nasua nasua) no recinto adaptado para eles. Bosque e
Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

62
Felídeos

A receita que será descrita já foi utilizada na criação de Onça-


parda (Puma concolor), Gato-do-mato (Leopardus tigrinus) e
Jaguatirica (Leopardus pardalis) pelos autores.
A receita do sucedâneo (Figura 52) é composta por um litro de
leite integral de cabra, uma caixa de creme de leite e uma gema
de ovo.

Figura 52 – Ingredientes utilizados na receita para felídeos. Bosque e Zoológico Fábio


Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

63
Administre a mistura com mamadeira (Figura 53) durante,
aproximadamente, 45 dias, para recém-nascidos.

Figura 53 – Filhote de Onça-parda (Puma concolor) sendo alimentado. Bosque e


Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

Após esse período forneça pescoço de frango triturado, ração


comercial para gatos e o sucedâneo em potes separados.
Quando o filhote acostumar com essa alimentação, forneça carne
(bovina, suína, de aves e peixes), presas abatidas (roedores e
pintinhos) e, gradativamente, retire os outros ingredientes da
dieta, começando pelo sucedâneo.

64
Suplemento vitamínico-mineral comercial deve ser utilizado na
carne bovina fornecida para garantir os níveis adequados de
cálcio, fósforo e vitaminas.
Animais adultos e filhotes mantidos em cativeiro necessitam de
suplementação de taurina e cálcio. Adicione 250 mg/animal de
taurina e 250 mg/animal de cálcio na dieta diariamente.
A dieta descrita pode ser utilizada para outros felinos.

65
Cuidados com filhotes de mamíferos
em geral

Os filhotes de mamíferos costumam necessitar de intensos


cuidados parentais, devido a amamentação que proporciona um
vínculo maior entre fêmea e filhote. O fato de muitos filhotes
ficarem agarrados a mãe durante um tempo, também influencia
no vínculo. Portanto, é importante adotar medidas para evitar o
imprinting, já que algumas espécies são muito suscetíveis.
O sucedâneo fornecido deve sempre estar em temperatura morna
(34 a 38 °C). A variação na temperatura é de acordo com a
temperatura corpórea do animal.
Para o aleitamento artificial de mamíferos podem ser utilizadas
mamadeiras e seringas. Recomendamos o uso de mamadeiras
para filhotes de porte médio e grande e seringa para filhotes de
porte pequeno.
Existem vários tamanhos de mamadeiras e bicos (Figura 54) que
devem ser adaptados para que sejam proporcionais ao tamanho
do filhote. O tamanho da seringa também deve ser proporcional
ao filhote.

66
Figura 54 – Mamadeiras e bicos de diferentes tamanhos. Bosque e Zoológico Fábio
Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

A sonda pode ser uma alternativa para filhotes inapetentes,


porém é necessário conhecimento anatômico para realizar a
sondagem, pois um erro pode ocasionar morte por pneumonia
secundária à aspiração de leite, quando o líquido que deveria ir
para o esôfago, vai para a traqueia e pulmões.
O aleitamento artificial também pode acarretar aspiração do leite
que acontece quando o líquido que deveria ir para o esôfago, vai
para a traqueia e pulmões. Em determinados casos pode ocorrer
a morte do filhote por pneumonia secundária à aspiração de leite.

67
Para evitar, posicione o filhote da forma como ele mamaria na
mãe. Realize o aleitamento artificial com paciência, respeitando o
tempo do filhote de deglutição.
Filhotes de mamíferos em geral devem ficar em locais
confortáveis, com abrigo do vento e substrato adequado que não
escorregue (Figura 55). Coloque objetos que sirvam de
esconderijo para os filhotes.

Figura 55 – Exemplo de recinto para gambás.


Fonte: Carolina Aparecida Ramos

A exposição ao sol deve ocorrer em horários específicos do dia,


como o início da manhã e final da tarde, por 20 minutos, quando
o filhote já estiver com pelos. O local deve oferecer sombra
também para que o filhote opte por ficar no sol ou na sombra.

68
Espécies noturnas e crepusculares não necessitam de exposição
ao sol.
Uma alternativa para filhotes que ficam agarrados a mãe, seria
deixar no recinto um animal de pelúcia ou um pano para simular
a presença da mãe. Estimule o filhote a agarrar esse objetivo no
início para que ele acostume. Uma dica seria colocar algum
método de aquecimento seguro (garrafa pet com água morna ou
bolsa de água quente) dentro de um animal de pelúcia ou pano,
pois, assim, o brinquedo ou pano ficará mais parecido com a mãe
e ajudará a manter o filhote aquecido (Figura 56).

Figura 56 – Filhote de Sagui-de-tufo-preto (Callithrix penicillata) agarrado ao cobertor.


Fonte: Lígia Oliveira Ferreira

Filhotes de mamíferos criados pela mãe recebem estímulos para


defecar e urinar, através da lambedura realizada pela mãe.
Quando criados por seres humanos, é necessário imitar esses
estímulos até que o filhote não precise mais. Os estímulos podem

69
ser realizados com pedaço de algodão embebido em água morna
ou óleo mineral. O algodão deve ser passado gentilmente na
região genito-anal do filhote em movimentos circulares até que o
animal faça suas necessidades fisiológicas.
A estimulação na região genito-anal deve ser realizada após o
aleitamento.
Filhotes de mamíferos podem apresentar quadros de desconforto
abdominal por gases devido ao aleitamento artificia. Nesses
casos, é aconselhável procurar um Médico Veterinário para saber
a dose correta de fármaco a ser administrado.
É importante pesar o filhote todos os dias, desde sua chegada,
para que seja realizada a curva de crescimento do filhote, o que
permite a análise do desenvolvido do filhote. Além da pesagem,
anote a quantidade de alimento oferecida, quantidade ingerida,
consistência das fezes, comportamento do filhote, anote tudo o
que observar e crie uma ficha de acompanhamento para cada
filhote.
A higiene deve ser mantida nos cuidados com todos os animais.
Higienize corretamente todos os utensílios utilizados na
alimentação do filhote e mantenha o recinto sempre limpo. A
utilização de luvas de procedimento para cuidar de neonatos é
recomendada.
Sempre limpe o filhote após a alimentação para que ele seja
mantido limpo.
A interação com outros indivíduos da mesma espécie é
importante, portanto sempre que possível coloque filhotes da
mesma espécie juntos (Figura 57) ou com animal de pelúcia
(Figura 58) parecido com o filhote para que ele tenha essa
interação.

70
Figura 57 – Interação entre gambás.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

Figura 58 - Sagui-de-tufo-preto (Callithrix penicillata) com animal de pelúcia. Bosque e


Zoológico Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: Carolina Aparecida Ramos

71
Os filhotes resgatados costumam apresentar hipotermia,
desidratação e hipoglicemia. Nesses casos, é necessário estabilizar
o filhote antes de alimentá-lo. Portanto, aqueça o filhote
imediatamente e quando a temperatura estiver adequada,
forneça a alimentação.
Alguns filhotes chegam em estado crítico, na qual são necessários
cuidados veterinários para hidratar o filhote e elevar a glicemia.

72
Frequência de alimentação e temperatura
adequada para filhotes de mamíferos

A frequência de alimentação varia de acordo com a fase de


desenvolvimento do filhote e hábito alimentar.
Em média, para neonatos, principalmente gambás, a alimentação
pode ser realizada a cada hora e aumentar, gradativamente, de
acordo com o crescimento do filhote.
Para filhotes maiores, que já possuem pelos, a alimentação pode
ser a cada três horas no início e aumentar o intervalo com o
crescimento do filhote.
Para filhotes de mamíferos, recomenda-se manter a alimentação
durante todo o período diurno e noturno.
As recomendações de frequência alimentar foram descritas para
cada espécie citada, mas é importante conhecer a espécie para
estabelecer a frequência adequada, pois existem variações de
acordo a espécie.
O volume de sucedâneo a ser administrado também interfere na
frequência da alimentação, como mostraremos.
É importante mantê-los em temperatura confortável, entre 29 e
35°C. Use aquecedores de ambiente para ajudar a manter a
temperatura corporal, além de outros métodos já citados.

73
Répteis
César Henrique Branco

A maioria dos répteis não recebe cuidados parentais, portanto já


nascem prontos para viverem sozinhos.
Existem várias espécies dentro dessa classe, com variações na
dieta.

Quelônios terrestres

Alguns exemplos seriam o Jabuti-piranga (Chelonoidis carbonaria)


e o Jabuti-tinga (Chelonoidis denticulata).
Forneça folhas de coloração verde escura (50% da dieta) como
acelga, rúcula, couve, escarola, chicória, agrião, almeirão,
catalônia, folhas de beterraba e mostarda picadas em pedaços
pequenos; legumes cozidos (25% da dieta) como batata doce,
cenoura, beterraba, ralados ou broto de feijão, ervilha, feijão e
soja crus; frutas (25% da dieta) como manga, mamão, banana,
morango, kiwi, uva picados em pedaços pequenos e ovos cozidos
também picados em pedaços além de ração comercial para jabuti
em uma bandeja para que o animal possa se alimentar sozinho.
Lembrando que o fornecimento é diário.

74
Um dos motivos na escolha de verduras de coloração verde escura
é devido ao fato dos níveis de água presentes na folha serem
menores e os níveis de nutrientes terem uma concentração bem
maior, nutrindo melhor e evitando diarreia, comum quando é
oferecido alface (rico em água e pobre em nutrientes).
A ração deve ser umedecida e os outros ingredientes cortados em
pedaços pequenos proporcionais ao tamanho do filhote para
facilitar sua alimentação.
Em alguns filhotes recém eclodidos pode ser necessário oferecer
o alimento perto da boca do animal e estimular o filhote a comer.
Sempre que possível é interessante o acréscimo de
suplementação mineral e vitamínica na dieta, utilize suplementos
comerciais específicos para répteis, obedecendo sempre a
quantidade indicada de cada fabricante.
A necessidade de proteína é maior para filhotes recém-nascidos,
sendo que pode ser oferecida de duas a três vezes por semana
ração seca amolecida de cães/gatos e/ou insetos como larvas de
tenébrio, grilos ou baratas criadas em cativeiro.
É sempre importante que todo o alimento oferecido seja de
origem confiável e de boa qualidade.

Quelônios aquáticos

Temos como exemplo o Cágado-de-barbicha (Phrynops


geoffroanus), Tigre-d´água-brasileiro (Trachemys dorbigni),

75
Cágado-pescoço-de-cobra (Hydromedusa tectifera) dentre outras
variações regionais.
A alimentação é composta, principalmente, de proteína animal
(60% da dieta), além de vegetais como frutas e verduras.
Fornecer peixes vivos ou abatidos, contendo vísceras e ossos,
pedaços de carne bovina e/ou frango além de ração comercial de
boa qualidade própria para a espécie.
O alimento deve ser colocado sempre dentro da água, devido ao
hábito alimentar destas espécies ingerirem o alimento no fundo
de rios e lagos. Lembrando que o fornecimento é diário.
Filhote de Cágado-de-barbicha (Phrynops geoffroanus) na Figura
59.

Figura 59 - Filhote de Cágado-de-barbicha (Phrynops geoffroanus).


Fonte: Lígia Oliveira Ferreira

76
Serpentes

Como exemplo temos não peçonhentas como Jibóia (Boa


constrictor sp.), Salamanta (Epicrates sp.), Dormideira
(Sibynomorphus mikanii), Boipeva (Xenodon sp.), Cobra-d’água
(Erythrolamprus sp.) e Periquitambóia (Corallus sp.), além de
espécies peçonhentas como Cascavel (Crotalus sp.), Jararacas
(Bothrops sp.), Corais (Micrurus sp.), dentre outras. A primeira
alimentação só deve ocorrer após a primeira troca de pele (ecdise)
que geralmente acontece de três a dez dias após o nascimento,
dependendo da espécie.
Alimente o filhote com neonato de roedor de tamanho
proporcional ao da serpente, para animais nos primeiros dois a
três meses o tamanho (diâmetro) do alimento não deve
ultrapassar o diâmetro da serpente.
Todo alimento deve ser oferecido recém-abatido ou congelado.
Caso seja congelado, deve ser descongelado e aquecido antes de
ser fornecido para o filhote. O aquecimento é importante, pois a
maioria das serpentes localiza as presas pelo calor.
O frequência no oferecimento do alimento para as serpentes varia
de acordo com a espécie e/ou tamanho, mas via de regra as
serpentes normalmente se alimentam de um a três dias após a
eliminação das fezes, estando elas prontas a ingerirem novas
presas.
É muito comum que filhotes de serpentes não se alimentem,
neste caso é necessária a alimentação forçada. Procedimento que
deve ser feito apenas por profissionais capacitados, pois se houver
erros podem ocasionar o óbito do animal.
A variação nas presas depende principalmente ao hábito
alimentar de cada espécie, como exemplo temos: Jibóias se
77
alimentam de roedores e aves, Dormideiras se alimentam de
pequenos caramujos, Boipevas se alimentam de anfíbios, Cobras-
d’água se alimentam de peixes, sendo assim é muito importante
conhecer o hábito alimentar de cada espécie.
Um problema bem comum que ocorre com serpentes é a
regurgitação do alimento, que pode ter desde causas, como
variações de temperatura até patologias do sistema
gastrointestinal, sendo que se ocorrer um Médico Veterinário
experiente deve ser procurado.
Em alguns casos de serpentes debilitadas é interessante o uso de
suplemento vitamínico na presa.
Filhotes de Urutu (Bothrops alternatus) na Figura 60.

Figura 60 - Filhotes de Urutu (Bothrops alternatus). Bosque e Zoológico Fábio Barreto –


Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

78
Lagartos onívoros

Um exemplo de lagarto onívoro seriam os Teiús (Salvator sp.).


Forneça folhas de coloração verde escura, frutas, ovos de galinha
crus ou cozidos e carne (bovina, suína, frango ou peixe), além de
ser enriquecida com insetos e/ou presas abatidas em um pote que
o animal consiga subir para pegar o alimento.
É importante que o tamanho do alimento seja proporcional ao
tamanho do filhote para que ele consiga se alimentar. Lembrando
que o fornecimento é diário e que a água deve ser oferecida desde
o nascimento.

Lagartos herbívoros

Um exemplar seria a Iguana-verde (Iguana iguana), filhote na


Figura 61.
Forneça folhas de coloração verde escura (50%) como acelga,
rúcula, couve, escarola, chicória, agrião, almeirão, catalônia,
folhas de beterraba e mostarda picadas em pedaços pequenos;
legumes cozidos (25%) como batata doce, cenoura, beterraba,
ralados ou broto de feijão, ervilha, feijão e soja crus; frutas (25%)
como manga, mamão, banana, morango, kiwi, uva picados em
pedaços pequenos e ovos cozidos também picados em pedaços.

79
Algumas alternativas também são flores de hibisco, brotos de
feijão e pequenos insetos como larvas de tenébrio, duas vezes por
semana.

Figura 61 – Filhote de Iguana-verde (Iguana iguana). Bosque e Zoológico Fábio Barreto


–Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

As rações comerciais específicas para a espécie podem ser


fornecidas, mas para filhote o ideal é umedecer.
É importante que o tamanho do alimento seja proporcional ao
tamanho do filhote para que ele consiga se alimentar e também
observar a forma de oferecimento em potes proporcionais ao
tamanho do animal.
É interessante o uso de suplemento vitamínico comercial
específico para a espécie.

80
Lagartos insetívoros

Um exemplo muito comum seria o Calango (Tropidurus sp.)


presente em todas as regiões do país.
Para estes animais podem ser oferecidas larvas de tenébrio
(Tenebrio molitor), larvas e/ou besouros do amendoim (Pelembus
dermestoides), grilos (Acheta domesticus) ou baratas (Nauphoeta
cinerea), todos criados em cativeiro e com uma boa procedência.
É importante que o tamanho do alimento seja proporcional ao
tamanho do filhote e para filhotes muito pequenos que ainda não
consegue abater o inseto é importante oferecer abatido.
É interessante o uso de suplemento vitamínico comercial
específico para a espécie.

Crocodilianos

No Brasil temos as espécies Jacaretinga (Caiman crocodilus),


Jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris), Jacaré-do-pantanal
(Caiman yacare), Jacaré-açú (Melanosuchus niger), Jacaré-anão
(Paleosuchus palpebrosus) e o Jacaré-coroa (Paleosuchus
trigonatus), filhotes na Figura 62.
Todas as espécies se alimentam de peixes, aves, roedores,
pedaços de carne bovina ou porco.
É importante que o tamanho do alimento seja proporcional ao
tamanho do filhote para que ele consiga se alimentar.

81
Quando são filhotes pode alimentar com a pinça.
É interessante o uso de suplemento vitamínico comercial
específico para a espécie.

Figura 62 – Filhotes de Jacaré-coroa (Paleosuchus trigonatus). Bosque e Zoológico


Fábio Barreto –Ribeirão Preto/SP.
Fonte: César Henrique Branco

82
Cuidados com filhotes de répteis
em geral

O fornecimento de radiação UV-A e UV-B deve ser proporcionado


com exposição dos répteis ao sol no início da manhã ou final da
tarde, por aproximadamente 20 a 30 minutos, deixando sempre o
animal com uma região de sombra para que se abrigue e não sofra
superaquecimento (hipertermia). Além deste procedimento é
interessante se possível que o ambiente tenha um fornecimento
diurno com lâmpadas próprias que emitem radiação UV.
Além do oferecimento de calor, é importante um constante
controle dos níveis de umidade, pois as espécies que fazem ecdise
necessitam de umidade constante.
Para répteis terrestres, o substrato do recinto deve ser com
materiais naturais e que não escorreguem, sendo estes materiais
inertes e que não ocorra a possibilidade de ingestão. Lembrando
que cada substrato deve ser de acordo com a espécie.
Para os quelônios aquáticos, o recinto deve possuir água e pedras
fora da água para descanso. A água deve ser trocada
periodicamente duas a três vezes por semana.
Para crocodilianos parte do recinto deve ser com água e parte com
terra, areia ou pedras.
Mantenha as serpentes em caixas organizadoras com travas para
evitar fugas.
É importante pesar o filhote todos os dias, desde sua chegada,
para que seja realizada a curva de crescimento do filhote, o que
permite a análise de seu desenvolvimento. Além da pesagem,
83
anote a quantidade de alimento oferecida, quantidade ingerida,
consistência das fezes, comportamento do filhote, anote tudo o
que observar e crie uma ficha de acompanhamento para cada
filhote.
A higiene deve ser mantida nos cuidados com todos os animais.
Higienize corretamente todos os utensílios utilizados na
alimentação do filhote e mantenha o recinto sempre limpo.
Em crocodilianos e quelônios é muito importante observar a
cicatriz umbilical, se a mesma está cicatrizando sem nenhum
problema, pois é muito comum a onfalite (infecção do canal
umbilical), que é caracterizada por aumento de volume nesta
região e o não fechamento do canal umbilical. Com isso é muito
importante o curativo com iodopovidona tópica no canal umbilical
assim que o filhote nascer.
Em todos os répteis, uma constância de temperatura e umidade,
além de uma boa alimentação e fornecimento de radiação UV
juntos, são muito importantes na saúde e desenvolvimento do
filhote.

84
Frequência de alimentação e
temperatura adequada para filhotes de
répteis

Para quelônios e lagartos, a alimentação deve ser realizada todos


os dias.
Para serpentes a alimentação pode ser realizada a cada 10 ou 15
dias.
Se a serpente regurgitar, é necessário esperar 20 dias para
alimentar novamente.
Com relação a quantidade de alimento oferecido aos filhotes,
basicamente para quelônios, lagartos e crocodilianos deve ser
oferecido de 15 a 30% do peso vivo em alimento.
A termorregulação dos répteis ocorre de acordo com a
temperatura do ambiente, portanto é extremamente importante
manter a temperatura do recinto adequada, variando sempre de
25 a 30°C (77 a 86°F) e umidade entre 60 a 80% para a maioria das
espécies, sendo que para répteis aquáticos a água deve mantida
aquecida entre 25 e 28°C (Figura 63).
Para manter o aquecimento do local, devem ser utilizadas
preferencialmente lâmpadas de cerâmica, lâmpadas
infravermelhas ou lâmpadas específicas para répteis para
serpentes e lagartos e quelônios terrestres, aquecendo o
ambiente e para quelônios aquáticos e crocodilianos o ideal é o
uso de aquecedores ou termostatos para aquário, aquecendo a
água.

85
Figura 63 – Filhotes de Tracajá (Podocnemis unifilis) em água com aquecedor.
Fonte: Lígia Oliveira Ferreira

86
Quantidade de alimento que deve ser
fornecida para filhotes

Para determinar a quantidade de alimento que deve ser fornecida


em cada horário de alimentação para filhote é necessário realizar
cálculos que podem ser considerados complexos, pois envolvem
algumas fórmulas matemáticas.
Ainda são necessários estudos para determinar fórmulas para
cada espécie, mas existem fórmulas para grupos de animais.
A primeira fórmula usada para o cálculo é a que determina a
Necessidade Energética de Manutenção (NEM), que seria o valor
em quilocalorias (kcal) que o animal precisa para manter o
funcionamento de todas as demandas fisiológicas, sendo que o
gasto energético que não está associado a funções fisiológicas,
como o gasto com atividades físicas, não é contabilizado e deve
ser acrescido posteriormente.
As fórmula para os grupos de animais podem ser observadas na
Tabela 2, adaptação da tabela “Fórmulas para se estimar a
Necessidade Energética de Manutenção (NEM) de alguns grupos
de animais” de Carciofi e Oliveira (2007). ¹

87
Tabela 2 – Fórmulas para se estimar a Necessidade Energética de
Manutenção (NEM) de alguns grupos de animais:
Grupo NEM (kcal/dia)
Aves Passeriformes 200 – 250 (PC)0,75
Aves não-Passeriformes 130 - 160 (PC)0,75
Mamíferos placentários 140 (PC)0,75
Mamíferos marsupiais 100 (PC)0,75
Répteis 32 (PC)0,77
*PC = peso corporal, em quilogramas.

Fonte: CARCIOFI; OLIVEIRA, 2007.¹

Os valores de necessidades energéticas de répteis podem


apresentar variações de acordo com as mudanças na temperatura
do ambiente.8
Para primatas existem grandes variações sobre as necessidades
energéticas, sendo que para saguis seria 145 kcal(𝑃𝐶)0,75 .¹
Em seguida, a fórmula para estimar a energia metabolizável (EM)
do alimento deve ser utilizada. A energia metabolizável (EM) seria
a energia realmente aproveitada pelo animal, pois já passou pelo
processo de digestão e as perdas em fezes e urina já foram
subtraídas.
Três fórmulas¹ podem ser usadas para a estimativa:

 Fórmula 1: desenvolvida para alimentos extrusados para


cães:

88
Energia Metabolizável (kcal/100g alimento) = [(3,5 x % proteína
bruta) + (8,5 x % extrato etéreo) + (3,5 x % extrativos não
nitrogenados)]

 Fórmula 2: desenvolvida para alimentos úmidos para gatos:


Energia Metabolizável (kcal/100g alimento) = [(3,9 x % proteína
bruta) + (7,7 x % extrato etéreo) + (3,0 x % extrativos não
nitrogenados)] – 5

 Fórmula 3: fórmula de Atwater, desenvolvida para seres


humanos:
Energia Metabolizável (kcal/100g alimento) = [(4 x % proteína
bruta) + (9 x % extrato etéreo) + (4 x % carboidratos)]

Sendo: extrativos não nitrogenados = 100 – (% proteína bruta +


% extrato etéreo + % matéria mineral + % umidade + % fibra bruta)

A adoção da primeira fórmula é sugerida para répteis onívoros,


adicionada do computo de 2 kcal por grama de fibra, que seria
fermentada no intestino e aproveitada pelo animal.8 Para répteis
carnívoros, sugere-se a fórmula 3. Para aves silvestres pode-se
empregar a fórmula 1. Para primatas deve-se empregar a fórmula
3, multiplicando por 4 os carboidratos realmente digestíveis (não
os extrativos não nitrogenados). Para primatas em dietas com alta
fibra, ou quando só se dispõem da estimativa dos extrativos não
nitrogenados, uma tentativa é multiplicar esta fração por 3,5
kcal/grama. Para carnívoros, uma alternativa seria o emprego da
fórmula 3, considerando-se, no entanto, que a carne não
apresenta carboidratos.¹
89
A terceira fórmula, adaptada de Carciofi e Oliveira (2007) ¹, seria a
do cálculo da quantidade de alimento que deve ser fornecido por
dia:

Quantidade de alimento (gramas por dia) =


Necessidade Energética (kcal) x 100
EM do alimento (Kcal/100g)

Exemplo 1:
Exemplo de cálculo para filhote de psitacídeo de 50g que receberá
papa comercial para filhotes de aves como alimento:
Usaremos a fórmula de 160 kcal(𝑃𝐶)0,75 para determinar a
Necessidade Energética de Manutenção (NEM), pois filhotes
necessitam de mais energia para o crescimento.

Obs: Pode ocorrer divergência nos


Cálculo da NEM: valores dos cálculos realizados

NEM = 160 x (0,050)0,75


como exemplo, de acordo com a
calculadora usada, que admite mais
ou menos números para cálculos.
160 x 0,105737126 = 16,91794022 Usamos uma calculadora científica
que admite dez dígitos.
NEM = 16,92 kcal/dia

Usaremos a fórmula 1 para estimar a energia metabolizável (EM),


como recomendado. Os valores necessários para o cálculo estão
descritos na embalagem do produto.

90
Lembre-se que dentro da fórmula é necessário realizar outro
cálculo para aplicar a fórmula dos extrativos não nitrogenados.

Cálculo da EM:
Energia Metabolizável (kcal/100g alimento) = [(3,5 x % proteína
bruta) + (8,5 x % extrato etéreo) + (3,5 x % extrativos não
nitrogenados)]

Extrativos não nitrogenados = 100 – (% proteína bruta + % extrato etéreo + %


matéria mineral + % umidade + % fibra bruta)
Extrativos não nitrogenados = 100 - (21 + 10 + 6 + 10 + 2,5)
Extrativos não nitrogenados = 100 – 49,5
Extrativos não nitrogenados = 50,5

EM = [(3,5 x 21) + (8,5 x 10) + (3,5 x 50,5)]


EM = 73,5 + 85 + 176,75
EM = 335,25 kcal/ 100g alimento

Cálculo da quantidade de alimento (gramas) por dia:

Quantidade de alimento (gramas por dia) =


Necessidade Energética (kcal) x 100
EM do alimento (Kcal/100g)

16,92 x 100
Quantidade de alimento =
335,25

91
1692
Quantidade de alimento =
335,25

Quantidade de alimento = 5,046979866 = 5 g/dia

De acordo com a embalagem, aves com mais de sete dias de idade


devem receber a proporção de 1:2 de alimento em relação a água
(volume). Portanto, para cada 1g do produto acrescentamos 2 ml
de água, nesse caso, o filhote deverá receber 5g de produto para
10 ml de água.
Como os filhotes precisam de mais energia devido ao processo de
desenvolvimento, podemos dobrar ou até quadriplicar a
quantidade para manutenção, de acordo com a fase de
desenvolvimento do filhote. Como estamos realizando cálculo
para um filhote de ave que possui o metabolismo acelerado,
vamos quadriplicar a quantidade de alimento diária encontrada
pela fórmula. Portanto, o filhote receberá 20g do alimento
comercial em 40 ml de água.
Pensando em um filhote que será alimentado a cada quatro horas,
devemos dividir o volume diário pelo número de alimentações no
dia. Nesse caso, começando a primeira a alimentação às 7h, o
filhote receberá alimento cinco vezes ao dia (7h, 11h, 15h, 19h e
23h), o que daria um volume de, aproximadamente, 8 ml por
alimentação.

Exemplo 2:
Um filhote de andorinha com peso corporal de 7g que receberá
como alimento ração comercial para filhotes de gatos.

92
Cálculo da NEM:
NEM = 250 x (0,007)0,75
250 x 0,024200454 = 6,050113731
NEM = 6,05 kcal/dia

Usaremos a fórmula 1 para estimar a energia metabolizável (EM),


como recomendado. Os valores necessários para o cálculo estão
descritos na embalagem do produto.

Cálculo da EM:
Energia Metabolizável (kcal/100g alimento) = [(3,5 x % proteína
bruta) + (8,5 x % extrato etéreo) + (3,5 x % extrativos não
nitrogenados)]

Extrativos não nitrogenados = 100 – (% proteína bruta + % extrato etéreo + %


matéria mineral + % umidade + % fibra bruta)
Extrativos não nitrogenados = 100 - (33 + 12 + 7,5 + 10 + 3)
Extrativos não nitrogenados = 100 – 65,5
Extrativos não nitrogenados = 34,5

EM = [(3,5 x 33) + (8,5 x 12) + (3,5 x 34,5)]


EM = 115,5 + 102 + 120,75
EM = 338,25 kcal/ 100g alimento

93
Cálculo da quantidade de alimento (gramas) por dia:
Quantidade de alimento (gramas por dia) =
Necessidade Energética (kcal) x 100
EM do alimento (Kcal/100g)

6,05 x 100
Quantidade de alimento =
338,25

605
Quantidade de alimento =
338,25

Quantidade de alimento = 1,788617886 = 1,8 g/dia


Quantidade de alimento para filhotes = 1,8 x 4 = 7,2 g/dia

Como andorinhas são Passeriformes pequenos, a alimentação


deve ser a cada 30 minutos ou uma hora, pois o metabolismo é
muito rápido. Então os 7,2g devem ser divididos pelo número de
alimentações no dia.

Para o cálculo de alimentos in natura será necessário utilizar uma


tabela de composição de alimentos, como por exemplo, a Tabela
Brasileira de Composição de Alimentos (TACO), para visualizar os
valores necessários no cálculo.

Exemplo 3:
Filhote de felino com 5 kg de peso corporal, que receberá músculo
bovino sem gordura na dieta.

94
Cálculo da NEM:
NEM = 140 x (5)0,75
140 x 3,343701525 = 468,1182135
NEM = 468,12 kcal/dia

Cálculo da EM:
Energia Metabolizável (kcal/100g alimento) = [(4 x % proteína
bruta) + (9 x % extrato etéreo) + (4 x % carboidratos)]
EM = [(4 x 21,6) + (9 x 5,5) + (4 x 0)]
EM = 86,4 + 49,5 + 0
EM = 135,9 kcal/100g alimento

Os valores de proteína bruta, extrato etéreo e carboidratos foram


conferidos na Tabela Brasileira de Composição de Alimentos
(TACO).9

Quantidade de alimento (gramas por dia) =


Necessidade Energética (kcal) x 100
EM do alimento (Kcal/100g)

468,12 x 100
Quantidade de alimento =
135,9
46812
Quantidade de alimento =
135,9

95
Quantidade de alimento = 344,4591611 = 344,46 g/dia
Quantidade de alimento para filhotes = 344,46 x 2 = 688, 92 g/dia

Para filhotes que se alimentam de sucedâneo manipulado com


vários ingredientes, o correto seria realizar esses cálculos com
cada ingrediente de acordo com as proporções até que se
encontre a quantidade diária com a soma dos resultados de cada
ingrediente.
É necessário determinar a concentração energética de cada ml.
O estômago dos mamíferos possui capacidade de 25 a 50 ml/k𝑔10 ,
portanto se tenho um filhote de 500g a capacidade do estômago
desse filhote será de, aproximadamente, 12,5 ml. Se o sucedâneo
fornecido possui concentração energética de 1,2 kcal/ml e a
necessidade energética do filhote é de, aproximadamente, 83
kcal/dia, será necessário alimentar o filhote com 69 ml de
sucedâneo. Como o estômago possui capacidade máxima de 12,5
ml e não é indicado atingir essa capacidade máxima com o
aleitamento, faremos o cálculo com 11 ml.

Capacidade do estômago: 11 ml
Sucedâneo: 69 ml
69
= 6,272727273 = 6 ml
11

Portanto, o aleitamento deverá ocorrer seis vezes ao dia, ou seja,


aproximadamente, a cada quatro horas.
A mesma regra de não atingir a capacidade máxima do estômago
também se aplica às aves que possuem inglúvio, pois se ele estiver

96
com muito conteúdo, pode ocorrer a redução ou perda do
peristaltismo e o alimento ficar parado dentro do inglúvio.
É recomendado administrar de 2% a 5% (20 a 50 ml/kg) do peso
corporal para filhotes de aves com inglúvio, visualizando o
enchimento do inglúvio.11
Comece com volumes pequenos e aumente gradativamente. Essa
recomendação é para aves alimentadas com papa e mamíferos
com sucedâneo.
Observe se o inglúvio está vazio antes de realizar a alimentação.
Caso ainda esteja cheio, espere um determinado tempo para que
a ave consiga digerir todo o alimento antes da próxima
alimentação.
Alguns profissionais utilizam cálculos da quantidade de alimento
a ser fornecida, que varia de 5% a 20 % do peso corporal do
animal, geralmente, utilizando uma média de 10 %. A
porcentagem varia de acordo com a espécie e fase de
desenvolvimento do animal. Esses valores podem ser usados para
aves, répteis e mamíferos.
É necessário considerar que neonatos podem precisar de volumes
maiores e alimentação mais frequente, enquanto para algumas
espécies é necessário aumentar os intervalos entre as
alimentações. Por esses motivos, é necessário conhecer sobre os
hábitos alimentares do filhote na natureza para estabelecer o
protocolo correto de alimentação.
Reforçamos que os cálculos apresentados são exemplos, que
podem ser utilizados como base, mas adaptações podem ser
necessárias de acordo com a espécie e fase de desenvolvimento
do filhote.

97
Fornecimento de água para filhotes
durante a criação

Aves
Para filhotes de aves sem pena, forneça água em pequenas
quantidades após a alimentação, com auxílio de seringa.
Com filhotes maiores ofereça água em pote, inicialmente,
mostrando o pote para o animal e estimulando ele a beber, depois
deixando o pote disponível no recinto.

Mamíferos
Durante o período de aleitamento, não é necessário deixar água
disponível ou fornecer, pois o leite já supre as necessidades do
filhote.
Ao começar a ingestão de alimentos sólidos, é importante deixar
água disponível em pote e observar se o animal está bebendo.

Répteis
Todos os répteis precisam de fontes de água para bebida e para
banho, pois alguns necessitam dos banhos de água por imersão
para manutenção de seu equilíbrio hidroeletrolítico.

98
Referências bibliográficas

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CUBAS, Z. S.; SILVA, J. C.; CATÃO-DIAS, J. L. Tratado de Animais
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CUBAS, Z. S.; SILVA, J. C R.; CATÃO-DIAS, J. L. Tratado de Animais
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Animais Selvagens Medicina Veterinária. 2 ed. São Paulo:
ROCA/gen, 2014. p. 1442-1493.

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em Canídeos Neotropicais. In: CUBAS, Z. S.; SILVA, J. C R.; CATÃO-
DIAS, J. L. Tratado de Animais Selvagens Medicina Veterinária. 2
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8. DONOGHUE, S. Veterinary nutritional management of


amphibians and reptiles. J Am Vet Med Assoc, v. 208, n. 11, p.
1816-1820, 1996.

9. TABELA BRASILEIRA DE COMPOSIÇÃO DE ALIMENTOS. 4. ed.


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