Você está na página 1de 4

PREFÁCIO

UM ANALISTA DO INCONSCIENTE

(a mala) assemelhava-se agora àquela.v que se vêem em todas as plata-


J<1rma.1· de embarque 011 110s aeroportos, carregadas 110 omhm por algum desses
emigrantes que, soltos em suas roupas p11ídas, com seus idêllticos rostos febri!i,
corroído.1·, com seus idê11ticos olhares extenuados, suas idêllticas meias roxas ca-
neladas e se11s magros sapatos de salto virado, i11di.l'ti11tame11te 1111idos (ou joga-
dos) 11a imprecisa família (011 etllia) das Jàces vazias, da pele ci11ze11ta, erralltes,
expulws de portos, de uma e,\'tação de trem para outra, de uma favela para ou-
tra por alguma incansável maldição, eles, s11a.1· pencas de filhos, suas pesadas e
prolíjica.1· mulhere.\' a11da11do rápidas de olhos baixos, excisas e embrulhadas em
véus, .mas caixas de bagagem colltadas e recontadas a cada mudança de trem
ou de barco, abertas ,w.\' cais, mostrando .1·e11.1· p1111ge11tes co11te1ídos de farrapos,
de.1pertadores, e.1piriteiras, reltígiol·-c11co s11íços e de torres Eiffel do11radas, afq.s-
tado.\' com li ponta do.1· pés pelos Jimcimuírio.1· da alfândega ou pelos policiais,
11ovame11te embrulhados, amarrado.1·. divididos ,wvllmellte um li 11m nas caixas
co11.wlidada.1·, 011 melhor. atada.1· com corrli11lw.1· esjiapllda.1· com essa meticulosi-
dade, esse i11Jt1Uvel fervor e essa i11Ji11ita paciência dos pobres.
As Geúrgicas, CIJ\UDE SIMON

Com Abdelmalek Sayad, o sociólogo torna-se escrivão público. Ele dá voz


~ueles que dela são mais cruelmente despossuídos, auxiliando-os por ~7an-
~o co~us silêncios quanto com suas perguntas, a enco~ar as palavras, ~ een-
contrar, para contar uma experiência que a contraria completamente, os dizeres
e os provérbios da sabedoria ancestral, as "palavras da tribo" que descrevem seu
exílio, elghorba, como um ocidente, uma queda nas trevas, um desastre obscu-
ro. Isto sem jamais instituir-se como po~~~ VS sem jamais se valer da palavra
ABDELMALEK SAYAD

dada. como o fazem tantos defensores impudentes das boas causas, para dar li-
ções ou exibir bons sentimentos. "Só ter irmãos, tios em todo lugar; fazer do
primeiro que chega um irmão, um pai, um tio, é realmente preciso não ser nin-
guém , não ter nenhuma auto-estima para se mostrar assim em espetáculo." Aque-
le que lhe ·diz tais coisas só pode fazê-lo porque vê, em toda a sua postura
, que
pode, sem correr o risco de ofender, usar com ele dessa linguagem: a dignidade
reconhece a dignidade. Há um modo de "confraternizar" que contém uma for-
ma de desprezo de si e do outro. Sayad não confraterniza; é fraterno. Não é da-
queles que vão até o "povo", que declaram seu amor por um "povo" de palavras
e das palavras do "povo". Mas ele está presente, dia após dia, há trinta anos a _
0
ra, em seu vilarejo da Cabília, nos "agrupament<?s" do Uarsenis ou da peníns!la
de Collo, nas favelas de Argel ou de Constantina e, hoje, nos "cités" de Marseille
ou de Villeurbanne, de Nanterre ou de Saint-Denis; ele está presente, e escuta,
e grava, e transcreve, e transmite, sem frases, as palavras que atrai e acolhe, como
uma confissão, digna de uma personagem de Beckett, de um gari melancólico,
ou as confidências de uma estudante "beur", com uma simpatia sempathos, uma
cumplicidade sem inocência, uma compreensão sem complacência ou condes-
cendência. Ele faz parte do reduzido grupo das pessoas com quem podemos
abordar um camponês da Cabília ou do Béarn, um trabalhador argelino ou pari-
siense. A discrição e a dignidade, a correção do tom e o pudor que emprega na
troca com ·seus interlocutores encontram-se também no modo como relata dis-
cursos deles. Por recusar ao mesmo tempo as solidariedades ostentatórias e as
denúncias barulhentas, ele parecerá sem entusiasmo, ou mesmo temeroso, para
os amantes de engajamentos peremptórios; não se sentiu ele obrigado a justifi-
car-se, numa nota, por falar pouco sobre uma greve da Sonacotra, perfeita en-
tretanto para suscitar lamentos dramáticos, enquanto acaba de descrever, com um
fervor contido, tudo o que, na existência cotidiana dos abrigados, toma essa: greve
sensata e necessária? E como não lembrar, aqui, as noites do verão de 60 durante
as quais, com nosso amigo comum, Mulah Hennine, assassinado pouco depois
pela O.A.S., precisávamos tentar convencer um dos jovens militantes da U.N.E.F.
que vieram comigo fazer uma pesquisa durante os últimos momentos da Argé-
lia colonial, e justamente apavorados com tudo o que estavam descobrindo, que
de nada servia indignar-se, deplorar, detestar, como também consolar ou dar
assistência, e que era preciso ter a coragem de se resignar - com a morte na alma,
mas isso não dizíamos - a escutar, observar e testemunhar, o melhor possível, 0
que havíamos visto e ouvido?
Todas essas virtudes, das quais os manuais de metodologia nunca falam, e
também uma incomparável maestria teórica e técnica, associada a um conheci-

10
PREFÁC IO

menta íntimo da língua e da tradição berberes, eram indispensáv


eis para enfren-
tar um objeto que, como os chamados problemas da "imigração
", não são des-
ses que se podem colocar entre quaisquer mãos. Os princípios
da epistemologia
e os preceitos do método são de pouca utilidade -;~;t; cas~
não pudere~-se
~ r em dispo ; ições m;is profu~das, ligadas, em p~rte, a umà exper
iên0 a_e'a
uma traje~ória soci~l~~llll9...q_ye Abdelmalek Say_ad tin~a mil
~ vo~ _ear~ r-
ceber de 1med_i_a.!_o o que, antes dele, escapava a todos os obser
vadores: ao abor- .
dar~~.! "imigração" - a palavra é cl~ - do ponto de vista da
sociedade ~~cq ,-
tor a que coloca o )2-;õblema_~d.9s- ;7f~lfilant~s" apen ãs ·quand
o os- Ímigrant~s
"c.?_n!Eituem um pro~ l_!la", os analistas omitia~, ~;-verdade
as causas e os motivos que poderiam ter determinado as partid
, as questõe~ re )}Y
versidade das condições de origem e das trajetória~ Erimeir.o
as e sobre a di- Jf'
com esse etnocentFismo inconsciente, Abdelmalek.Sayad devol
gesto-de -ruptuca ~ "Y
ve aos "imigran- F '---!J' j
tes", q_u_e são também..:!emigrantes.'. .'. , S]díl.origem,- e.Jodas as partic
ularidades que _)
0
~
a ela ~ n_tram:se assq_çiadas ~~e explicam muitas d;~ difer
enç~s ob~ervadas ç:J>'"-'v
-
nos des!inos posteriores. Mas isso não ê tudo: em úina rtigo
·- --- -
de la recherche já em 1975, ou seja, muito antes da entra
publicado em Actes J
da da "imigração" no
debate público, ele rasga o véu de ilusões que dissimulava a
condição dos "imi-
grantes" e revoga o mito tranqüilizador do trabalhador impo
rtado que, de posse
de um pecúlio, voltaria para sua terra para deixar o lugar para
outro . Mas, aci-
ma de tudo, olhando de perto os detalhes mais ínfimos e mais
íntimos da condi-
ção dos "imigrantes", introduzindo-nos, por exemplo, no âmag
o mais secreto dos
sofrimentos relacionados com a separação, por meio de uma
descrição dos meios
que usam para se comunicar com sua terra, ou lançando-nos
no cerne da con-
tradição constitutiva de uma vida impossível e inevitável por
via da evocação das
mentiras inocentes com que se reproduzem as ilusões sobre
a terra de exílio, ele
/ traça com pequenas pinceladas um retrato impressionante
dessas "pessoas des-
locadas", p_!jv~~! s de um lugar apropriado no espaço soci~
_e_5!.e_J~gar _1:11_~~ --
nasê1assificações ~ ciáis .' Como Sóér ates,o imÍgi-ãnte é-at opos,
·locado, inclassificável. Aproximação essa que não está aqui
sem lugar, des- ~~
p~~ eE_2b! ec~r, P._ela ;J 1
vfrtü ãeãã refér ênêía~êm ci_da?ão ~~1:11 e~~~~g~i~Õ, ne~ ~0
Ivfesmo nem totalmente do lado do Outro, o "imigrante"
al~~nte d~ ~do .?º _v
situa-se nesse lugar '1
L_ "~astar~o• ~~e-~ ~ Plªtã~ t_~mb_é!1.!_ fala, a _f~?nteira e_n~e _o se~-~
- º. não-ser_s~cia~
Deslocado, no sentido de inc~ngruente_:~~~~po_rtuno: ele
s~"sc1~a o emba~~~o;
-ç·
_ y' ·
0
e a dificuldade que se expenmenta em pensa-lo - ate na
c1encia, que muitas ,, .;·
vezes adota, sem sabê-lo, Õspr êssupÓStos·ou ·àsõmissõe s·aâ"v
ísãoÕfic.1~1_- ·i pe- ,,!''
nas reproduz o embaraço que sua inexistência incôm;da
cria. Incô ;odo e~tÔdo
l~; r, e doravante tanto errÍsua sociedade de origem q~~~
~ - - ... __..,_ _ _ _ _ _ _ _ _ ..... ,__,I'"
,.,. . .. .. 1 •
to- e~ su~ -;~~ied;cie
, . ,., • • - · •• • ... ....... • -

11
ABDELMALEK SAYAD

receptora, ele obriga a repensar completamente a questã?_j _os fundamentos le-


gítimos da cidadania e da relação entre o Estado e a Nação ou a nacionalidade.
l
Presença ausente, ele nos obriga a questionar não só as reações de rejeição, que,
ao considerar o Estado como uma expressão da Nação, justificam-se pretendendo
fundar a cidadania na comunidade de língua e de cultura (quando não de "raça"),
como também a "generosidade" assimilacionista, que, confiante em que o Esta-
do, armado com uma educação, saberá produzir a Nação, poderia dissimular um
chauvinismo do universal. Entre as mãos de semelhante analista, o "imigrante"
funciona, como podemos notar, como um extraordinário analista das regiões mais
obscuras do inconsciente.

PIERRE BOURDIEU

12

Você também pode gostar