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Q QUE É UM IMIGRANTE?*

Uma das características fundamentais do fenômeno da imigração é que, fora


algumas situações excepcionais, ele contribui para pissimular a si mesmo sua
própria verdade. Por não conseguir sempre pôr em conformidade o direito e 0
fato , a im~gração condena-se a engendrar uma situação que parece destiná-la a
uma dupla contradição: não se sabe mais se se trata de um estado pr~)Visório que
se gosta de prolongar indefinidamente ou, ao contrário, se se trata de um estado
mais duradouro mas que se gosta de viver com um intenso sentimento do provi-
soriedade. Oscilando, segundo as circunstâncias, entre o estado provisório que a
define de direito e a situação duradoura que a caracteriza de fato,, ª- situação do
imigrante se presta, não sem alguma ambigüidade, a uma dupla interpretação:
ora, como que para não confessar a si mesmo a forma quase definitiva que com
freqüência cada vez maior a imigração reveste, apenas se leva em conta na qua-
lidade de imigrante o seu caráter eminentemente provisório (de direito); ora, ao
contrário, como se fosse preciso desmentir a definição oficial do estado de imi-
grante como estado provisório, insiste-se com razão na tendência atual que os
imigrantes possuem de se "instalar" de forma cada vez mais duradoura em sua
condição de imigrant~s. Por se encontrar dividida entre essas duas representa-
ções contraditórias que procura contradizer, tudo acontece como se .ª imigração
necessitasse, para poder se perpçtuar e se reproduzir, ignorar a si mesma (ou fazer

* Este artigo foi publicado em Peuples méditerranéens, n. 7, abr.-jun. 1979, pp. 3-23.
ABDELMALEK SAYAD

de conta que se ignora) e ser - . .


- ignorada en pro vi sória e ao m o te
qua nto
nao se confessar enquanto tr ansp ante deti ·t'
J ' esm
· cl ni ivo. Da me sm a form a com mpo,
impõe a tod os - aos imi gra nte s é
, ma s também à sociedade que osº rece que se
à soc ied ade da qu; J p ar~ be
bem como rovem - essa . ,
d' - , . _contra diç ão fun dam ent al
stit uti va da pró pri a co ' que
parece ser con n tçao do im,grant e, .impõe a todos a ma
ten ~ d I·1 usão coletiva de um estad ~
. ., nu-
çao a o que nao é nem ma nen -
te ado ue só é ~r~v1sorio nem per
' o~, o que dá na mesma, de um est visório
esse "pqro . ., . a~m1t1do ora como pro
(de direito), com a condição de que visona possa durar mdefinidamen- ·
te , ora como de fim1·t1vo · (de fato) com d' ~ de que " . .
. , a con 1çao ess e defmitivo " jamais
. com o tal. P. se tod . .
SeJa enunci ado os os atores envolvidos pe a imi 1
r• . gração aca-
b am concordando com essa ilusão ' e., sem. d·.,uv1da porque el .
es própr' , pos1ça . - a permite que cada
um componha com as contradiçõ ias a o que ocu e isso
pa,
.
sem ter
. inf rin gin do as c t . h . .
o sen tim ent o de est ar a egonas ab1 tua1 s pel as .
gra nte i: . d . quais os outros
pensam e se con stit uem os imi qua is ele ., ·
f' • ou am a pelas
~iro lugar . . . s pro pnos se pen-
e se con stit uem . São , em prim os mte ress ad .,
sam ' os pnme1r . os, _os pro -
. · • o como que sub-reprteia .
pn os imigrantes que, tendo entrad e provisoriamente
.
(como eles pensavam) numa sociedade que sentem host1·1 , precisam convencer a
. , de que sua condi'ça~o e., e1e .: · mente
s1 me. sm os, as vezes contra as evidências ' tlva
., .
: ela ~ã~ _po der ia ser aqu ela ant inomia insuportável (uma situação teo-
~rov1sona ticamente
fato, se dá objetivamente como pra
nca~~n~e provisona mas que, de s. São,
1va ) que lhe s mo stra m sua exp eriência e seu itinerário de imigrante
defimt
com uni dad es de ori gem (qu and o não é a sociedade de emigração
em seguida, as
entes: por
r int eir o) que fin gem con sid era r seus emigrantes como simples aus
po ente
ga que sej a sua aus ênc ia, est es últimos são chamados evidentem
mais lon lugar que ja-
retomar, idênticos ao que eram, o
(quando não po r necessidade) a É, por
eri am ter aba ndo nad o e que só abandonaram provisoriamente.
mais dev alhador
, embora tenha definido para o trab
fim, a sociedade de imigração que eiro (de
ant e um est atu to que o ins tala na provisoriedade enquanto estrang
imigr im, nega-
, ou, se o é pouco, de fato) e que, ass
direito, mesmo se não o é sempre exista
o dir eito a um a pre sen ça rec onh ecida como permanente, ou seja, que
lhe tod
que não na mo dal ida de do pro visório contínuo e de outra forma
de outra forma antiga que
não na mo dal ida de de um a presença apenas tolerada (por mais
que
nci a), con sen te em trat á-lo , ao menos enquanto encontra nisso al-
seja essa tolerâ e se pro-
int ere sse , com o se ess e pro vis ório pudesse ser definitivo ou pudess
gum .
lon gar de ma nei ra ind ete rm ina da.
preci-
qua nto a exp ans ão eco nôm ica , grande consumidora de imigração,
En erosa, tudo
nte permanente e sempre mais num
sava de uma mão-de-obra imigra se
par a ass ent ar e faz er com que todos dividissem a ilusão coletiva que
concor ria

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O QUE É UM IMIGRANTE?

encontra na base da imigração. Com efeito, emanando de todos os horizontes


políticos e sociais (o patronato em primeiro lugar, os homens no poder, mas tam-
bém, e por razões certamente diferentes daquelas dos principais beneficiários da
imigração, os partidos políticos e os sindicatos de esquerda), só se viam então -
e isso durante décadas - proclamações e declarações que, todas, desejavam ser
tranqüilizadoras; fossem quais fossem os sentimentos que se pudesse alimentar e
as opiniões que se pudesse ter em relação aos imigrantes, não se parava de afir-
mar que eles eram necessários, quando não indispensáveis, para a economia e até
mesmo para a demografia francesas. O resultado disso tudo foi que todos acaba-
ram por acreditar que os imigrantes tinham seu lugar durável, um lugar à mar-
gem e na parte inferior da hierarquia social, é verdade, mas um lugar duradouro;
quer, ao reconhecer a utilidade econômica e social dos imigrantes, ou seja, as
"vantagens" que eles ofereciam para a economia que os utilizava, se queira agra-
decer-lhes (pelo menos verbalmente) ou ainda defender seus direitos (os que já
foram adquiridos ou os que precisam ser conquistados, como, por exemplo, o di-
reito de "continuar como imigrantes"); quer, ao taxá-los de parasitas e ao esti-
mar que não se deve nada a eles, se deplore o "custo social" elevado que sua
presença impõe à sociedade 1, ao mesmo tempo que se gosta de afirmar, nas suas
costas (ou seja, de forma fácil), as virtudes com as quais se gratifica a sociedade
de recepção e com as quais se gratifica a si mesmo, dessa forma (virtude das tra-
dições políticas e sociais que se querem todas humanitárias, liberais, igualit~ri~s
etc.). Assim, a garantia da permanência e da continuidade da presença do 1m1-
, . . . 2
grante é partilhada por todos e antes de tudo pelos propnos 1m1grantes •

Por certo mesmo se continuamos céticos em relação à validade dos resultados e ~u~to a~s ef:itos
1. persuasiv~s da costumeira contabilidade dos "custos e vantagens" compara~os da 1(migraçao, so pbo-
. _ extremas que, ao se determmarem
demos deixar o cuidado de decidir entre pos1çoes _ .d a-_
ou ao se com
terem) umas às outras, devem sua "verdade" ap~nas, diretame_nte ~.~~~:sr:;çar~·fi:t~:s~.~::;:~:~ti::.
lógicos ·e não a argumentos ~ientíficos: cf. pa~a is~~ ;~;s~:~:g~~cherche en ~ciences sociales, n. 61.
les préssuposés politiques d un débat économ1que , e e
mar. 1986, pp. 79-82.
2. Esta certeza, da qual os imigrantes não esta;am se~~re
uma vez por todas, supõe um trabalho co~tmuo de -g
:;:n~~~~- ois como nunca está adquirida de
: ão ~xclui angústias, medos fantas-
ível,de uma "expulsão" em massa: "e se
máticos habitados pelo temor da eventuahdade sempre possó - estamos em casa principalmente
I para casa ··· .· em todo caso ' nó s finao '
eles nos mandassem de vota 1
zemos de tudo para não estarmos em
d .d gelinos) nós escolhemos, n s
porque nós (su benten I o: os ar ' . •esse à sua casa e se instalasse como
. • diria de um estrangeiro que v1 , ,,
casa, aqui, na França... o que voce á b I nós não estamos no nosso prus! ...
se estivesse na casa dele..., você sempre pode ma - ~ ~m ora._. .. r mesmo entre os imigrantes mais
nd I
. ã d h ·e tivesse como e,e1to reaviva'
Tudo ocorre como se a s1tuaç o e . º! .. s e rinci almente entre estes, o temor da "cala-
"certos" da perenidade de sua cond1çao de imigrante ' p • p . stintiva emocional, irracional, po-
. ão à percepção espontanea, m • • .
midade da expulsão", dan do assim raz . artir de considerações econom1cas
deríamos dizer (por oposição à análise "científica" que cone 1ui ª P

47
ABDELMALEK SAYAD

Tendo adquirido essa certeza, os imigrantes começaram a t


, . ornar o h'b·
de reivindicar, de forma extremada, podenamos dizer, seu direito a u .ª Jto
. , d' . . . . ma ex1stê
. plena e não mais apenas seus 1re1tos parciais de trabalhado . . n-
c1a . . . . res 1migrant
A se afastarem dos limites que lhes haviam sido outorgados ao I es.
o . . . , . ' u trapassare
seu papel de imigrantes, eles deixaram, em certa medida, de se pa m
. . recer com
definição que deles se dava. Era mais do que se podena tolerar para . .ª
. . . que os imi-
grantes continuassem sendo 1m1grantes; assim, era necessário voltar a
. . . . _ d . . E . _ uma de-
finição mais estrita da 1m1graçao e o 1m1grante. sta rev1sao parece t . -
. ,. . . anto mais
fácil de operar quanto as circunstancias atuais (ao menos tais como são a ,
. . . presen-
tadas), porque não são de natureza a encoraJar a 1m1gração e, muito mais, por- .
que servem de pretexto, certo ou errado, para um refluxo dos imigrantes (
. ,. . . I de
forma desigual segundo sua pertmencia nac10na e segundo suas caracte , .
, . .. nsticas
sociais, principalmente as caractenst1cas adqumdas durante a imigração) já não
podem autorizar a série de dissimulações que alimentavam a imigração em tem-
pos normais. Assim, basta que as circunstâncias que se encontravam na origem
da imigração (ou seja, as condições econômicas) mudem e, ao mudar, que im-
ponham uma nova avaliação dos lucros que se pode tirar dos imigrantes, para que
ressurja naturalmente, contra a ilusão coletiva que permitia que a imigração se
perpetuasse, a primeira definição do imigrante como trabalhador provisório e da
imigração como estadia literalmente provisória.
Ao mesmo tempo que se faz essa confissão da provisoriedade - que todos
concordam em dissimular em tempo normal -, é também a verdade objetiva do
que é a imigração e do que é o imigrante (ou um aspecto dessa verdade) que se
desvenda. Essa verdade é a mesma que preside ao balanço contábil que se faz
dos "custos e vantagens comparados" da imigração; quais as "vantagens" de se
recorrer à mão-de-obra imigrante e quais os "custos" que se pagam pela utiliza-
ção dessa mão-de-obra, "vantagens" e "custos" sendo entendidos, é claro, em
todos os sentidos desses termos (e não apenas no sentido econômico)? Mesmo se
ela não acaba mais de inventariar as "vantagens" e os "custos" que considera -
sem dúvida porque não se está sempre de acordo sobre a definição ou, mais exa-
tamente, sobre as definições que devem ser dadas a esses termos3 -, essa técnica,

ou políticas a permanência da imigração e a estabilidade dos imigrantes), que os imigrantes têm da


precariedade de sua situação.
3. Mesmo incerto - já que nunca estaremos seguros de que ele possa ser exaustivo, assim como nunca
ª~
Poderemo s es t certos da exatidão
· das avaliações a que chega, quando não da possi'b'l'd ª.
i i de de algu-_
mas dessas avaliações ou da possibilidade de avaliar tudo - o método de análise que cons 1ste em le
vantar
, os efeitos dª imigraçao
· · - chegou a excelentes resultados:
' permitiu,
. . notadamen te, 1·dentificar um
numero crescente de fªtores que nao
- aparecem sempre claramente; ele const1tu1,
. • assim,
· uma excelen-

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O QUE É UM IMIGRANTE ?

te abordagem para •n 1eo1 , .·


ra econômica d . . tramão
.
.
das inc idê nci as da irni , •. ª.n~1gração . Mas , na con) des se mét odo de pura inves-
t1ga ção gração (1nc1dencias de Ioda ord em e porque dei se afasta, o "modo de
tratar os problema• s de mig . e
ração • lermos complementares .é .
algumas ressalvas ai . • em
d . · ou an111 t1cos. de cu.5tos e vantagens traz
• "• gumas de outras d
tras referências ' N· Scott , p 1111c ..· . or em epistemológica'' e ord em prática " ( cf., entre ou-
1peç d 'une . com par ativ e de . "
., mw fy.te mig ratirms
de ma in-d 'oeuvre OCDE rio de Ate nas , out. 196 6· ,;Gçcoutds et ~es avantages des d
, h
t~ et d , sen1 1ná es hgn es d' u
B li . ne ~et ~ e _pour
1'analyse des coíl . . ' ran
es avantages des m1g rat1ons de main -d'oe uvre " em u_et111_de l lnstlfut inter-
'étu des soc iale s 2 ~- '
nac ional d Mirsh "D
mie Benefils on Ih H , e~. 1967, pp. 55-72 ; E. J. . an , oes lmm1grat1on Confer
Econo-
Cou ntry !", em Eco nom ic I itute of,E om.,cA ffatr. s
197 0 e ost ssue s ,,, lmn uxr atio n lnst con
. . '
' pp. 91-122 ; G. TaJ)inos • l 'É' w1101111e de ç · •
o11s inte mat irmales , Presses de la F N S .,
P.
1974 2 87 cct Le Por s, lmm ixra ri . , '.'"K ''l1h
soc ial p . o· . .
pp. ; Ani e et
. ' rm et de ve foppe111 e11t éco110111iqu , ar,s, ocumen-
tat1on français.e , 1977, 364 PP)· ·
f u) E . ·s ' t . .
m primeiro lugar• por ina1 • u e,s que SeJam os re~u Itado~ l~vantados pelo método , não se deve
ente um balan o do aqueles menos visí-
es~uecer que ~azer mecanicam Iç _s efertos da imigração (mesmo
ceis de qua ntif icar ou a os em "cus-
vei s ou mais difí
a cad ~ u1 qdue es CUJO alcaque nce está mais distante) e reparti-l
(e isto par . .
tos" e "benef . . ício s" na as partes em ,-
s ao. a socieda de e a economia usuárias da
- d bra m11grante, a sociedade d. .
mao- e-o ~ e origemáb e sua econom a, os proprros ·imigrantes) não passa • em
i , ·
'J· · ma da ern terr . in tá · b
u tuna .mstancia, da reto nos cont . eis , do a teoria econô-
. ilíb
,
rio ger al) aca b d ven no rutal que uma cert
mica (1. e., a teoria do . equ ou 1mpon o.
,212) AI • nta ens" e d " "
ém disso , a def iniç ão que se dá das "va
cus tos ' mesmo se for corr igida, mesmo
ada men te c d' g . os • •
se for refinada e aten uad a not om a 1stm od 'd
ção intr uzi ª entre e,ettos quantttat1vos (ou seja '
t ·
• t' ( . . .
. efeitos q ua l't d d
estritamente econômicos) e I a 1vos ou seJa gro· · 0 mo 0 , to as as outras 1mpltcaçõe
_ .'
u
. .
s,
. . tura is etc ) da ·
i m· a curt o i · -
sociais , políticas ' cul · igraçao e entre efeitos prazo e e et1os a prazo mais dila
dem asia do abs ol t .
tado , permanece ainda oes ~leme~tos ~o q,uadroverd de conjunto
imi gra ção ofe rec e é def inid o como\:a~;;gue:~?ocua~;u:~o'?d ,orm a 1m utav e, na ade todos
que a _ . " ali ou aind a "benef1'c1·os"
b" d • s" aqu i, "cu stos
J - O
es contraditórias; "benefício '
e es sao ~eto es"mterpretaço · - prevalece é a de uma construção
para fins polêmi-
para. uns e "cu sto para os outros, a tmpressao que o das divergências que a imigraç
ão
dos i_ne ihor e~ exe mp los des sa polêmica imposta (em razã a par tir de pon tos
cos . _um stas às quais chegam,
s conclusões radicalmente opo Le Pors"
susc'.ta) nos e '.º~ne_c1do pela nom e de ""Rapport général Anicet
el~ ent e 1de nt1c os, os rela tóri os conhecidos com O Fra nce , nota de
sens1v ailleurs étrangers en
) e "R~ ppo rt ~er nan d kar t" (Le Cora social des trav fina nça s, ex-a luno da
(~f. op. cll.
Anicet Le Pors, inspetor das
s mtese, Assemble'.a Nac10nal, I 976, 123 pp.) Se bro influen te do part ido com unista
(Es col a Nac ion al de Adm inistração) e principalmente mem ns" da imi graç ão, pro -
EN A blem átic a dos "custos e van tage
pon to de vist a a pro grande
francês, ao retomar de seu ia as idéias feitas bem como uma
e a um a ava liaç ão do cus to social dos imigrantes que contrar rela tivo da dist inçã o que se
ced e traz assi m a prova do caráter
ente adm itid as
quantidade de teses com um o F. kar t entrega-
a vez por toda s, entr e "va ntagens" e "custos", o deputad
gosta de estabelecer, de um stos" o que seu rival
étri ca em todo s os pon tos, colocando às vezes entre os "cu
se a uma avaliação sim
tratava como "vantagens". calculados, antes de mais nada,
pela sociedade de imi-
m esta bele cido s e
JV-) "Custos e vantag ens " fora nossa problemática
tend ênc ia de tran spo r para a sociedade de emigração
gração. Mas não terí amo s a a validade da operação e
liaç ão, e isso sem nos perguntarmos sempre sobre
e nossas técnicas de ava o, totalmente inadequado
que aca rret a? Pec and o por excesso de etnocentrism
sobre as conseqüên cias litativos) da emigra-
r os efei tos mai s pro priamente sociológicos (i. e., qua
quando se trata de apr ecia
odo ignora a especificidade
da economia das sociedades de
trol ada do mét
ção, a transposiçã o des con de imigração é quase
se no caso da eco nom ia desenvolvida das sociedades
origem dos emigra nte s: e calculável e, na
azia do cálc ulo , pois tudo é (idealmente) mensurável
um postulado afirma r a prim países subdesenvolvi-
tudo é med ido ou calc ulado, no caso da economia dos
verdade, tudo ou qua se ) a primazia seria dada
é a real idad e eco nôm ica da maioria dos países de emigração
dos (posto que esta siste em calcular (i.
apa ao cálc ulo . Com o então realizar o desafio que con
mais à qualidade, que esc lculável? Como, por
" e as "va ntag ens ") o que por definição se dá como inca
e., em avaliar os "custos , emigração)? Como
tos qua lita tivo s do que é, nesse caso, ausência (ou seja
exemplo, medir os efei oduzida com a
ao mes mo tem po que se ava lia a quantidade de dinheiro intr
apreciar, no mesmo ato e
49
ABDELMALEK SAYAD

que é' em seu princípio, tão. antiga quanto a própria imigração trai a fun _ atri-
. . ' çao
buída aos imigrantes ,.e. o s1gmficad o que se deseJa reservar à imigração · . .
. _ . 1m1gra-
ção e imigrantes só tem sentido e razao de ser se o quadro duplo erigido com 0
fim de contabilizar os "custos" e os "lucros" apresentar um saldo positivo_ ideal-
mente, a imigração deveria comportar apenas "vantagens" e, no limite, nenhum
"custo". Como maximizar as "vantagens" (principalmente as vantagens econô-
micas) da imigração , reduzindo ao mesmo tempo ao mínimo o "custo" (t1otada-
mente o custo social e cultural) que a presença dos imigrantes impõe? Esta é uma
formulação que, ao mesmo tempo que condensa em si toda a história do fenôme-
no da imigração , revela a função objetiva (ou seja, secreta) da regulamentação
aplicada aos imigrantes: mudando segundo as circunstâncias, segundo as popu-
lações relativas, essa regulamentação visa impor a todos a definição constituída
em função das necessidades do momento. Com efeito, não pode escapar a nin-
guém que, no fundo, é uma certa definição da imigração e dos imigrantes que

emigração (o que é habitualmente percebido como uma "vantagem" para a sociedade que recebe esse
dinheiro ), os efeitos que a generalização do uso da moeda podem ter a longo prazo sobre a economia
camponesa tradicional? Na verdade, é o próprio estatuto da economia (no sentido em que a entende-
mos num sistema econômico desenvolvido) que se encontra em questão.
4'.!.) Pode-se ainda fazer outra crítica a esse método. Sendo concebido e comprovado apenas do ponto
de vista da economia a serviço da qual os imigrantes se colocam, ele opera, implícita e às vezes expli-
citamente, como se as "vantagens" de uma das duas partes (a sociedade de imigração ou a sociedade
de emigração) correspondessem necessariamente aos "custos" sofridos pela outra parte: assim, só se-
riam "benefícios" trazidos pelos imigrantes aqueles que fossem pagos com um "custo" qualquer por
sua sociedade de origem (assim o par "vantagem"/ "custo" constituído como o seguinte: por um lado,
a "vantagem" que representa uma mão-de-obra imigrante na idade adulta e, do outro, em contraparti-
da, o "custo" da criação, como se diz, com que o país de origem deve arcar) e, inversamente, não existe
"custo" imputável ao fato de se usar uma mão-de-obra imigrante que não corresponda, para os países
de emigração, a alguma "vantagem" econômica e social. Essa forma absoluta de transpor a definição
absoluta do "custo" e da "vantagem", doravante constituídos como solidários um do outro e igualmente
solidários de ambos os sistemas econômicos (o de imigração e o de emigração}, impede de perceber
que o que pode ser considerado como uma "vantagem" hoje, ou seja, num momento dado da história
da imigração num caso e da emigração no outro (ou ainda num dado momento do estado de uma ou
outra dessas sociedades e do estado das relações de força que se instalam entre elas por ocasião da
relação migratória), pode revelar-se como "custo" amanhã; da mesma forma, o que era (ou ainda é)
"custo" pode (ou poderá) tornar-se "vantagem". Assim, para ambos os parceiros, mas de forma mais
f ~ndamental para o país de emigração, bastaria uma mudança de perspectivas ou uma mudança polí-
tica (notadamente em termos de desenvolvimento) para que se tornem "custos" ou problemas objeti-
~os O ~u~, ant~s , em circunstâncias particulares, era definido como "vantagens" . No fundo, o que nunca
explicitado e que a definição de "vantagem" e de "custo" é negociada; ela reflete o estado de uma
re~ação ~e forças : cada parte trabalha para convencer seu parceiro de que ele encontra no fenômeno l
migratório uma " vant " · a-
. . agem maior ou, pelo menos, uma soma de "vantagens" que compensa amp ·
mente o inconveniente q ue resu 1ta para ele; vantagens sempre renovadas para colocar em bene f'icto
d0 . .
outro . Trabalhar por um I d
Para mascarar suas' próprias
ª 0 , para maxumzar as vantagens que se atribui a seu parceiro e, por outro,
. . . .
definiç d vantagens ou mtnumzá-las: é desse trabalho de imposição que resultaª
ao o que se entende, a cada vez, por "vantagens" e "custos". .

5()
O QUE É UM IMIGRA NTE ?

..1 .

- direitos que de-


está em questão através do trabalho ao mesmo tempo jurídico
r e trabalhar na
vem ser recon hecid os ao imigr ante, posto que ele vai residi
e-obra, conven-
França (direitos de nacionalidade) -, político - acordos de mão-d
r sempre de for-
ções bilaterais concluídas com os países de emigração (ao defini
na França, esses
ma difere nte ·as condições de entrada, de estadia e de trabalho
gram, em suma,
contr atos desem bocam em estatutos diferentes que apenas consa
es de força entre
as difere nças que existem ou as variações que surgem nas relaçõ
contribuem, to-
a Franç a e os países de origem) - e social - ações diversas que
empreendido sobre
das, para uma melh or adaptação da população imigrante -,
cia que se tomou
as pesso as dos imigr antes . §_m dúvida por causa da distân
lado, a concepção
insup ortáv el, apesa r do trabalho assim efetuado, entre, por um
te adotam) da imi-
que se tem de costu me (ou que os empregadores notadamen
mica e técnica -
graçã o - ou seja, como tendo uma função exclusivamente econô
"custo social" e,
e, por outro lado, a realidade presente da imigração (que, pelo
contradiz esta con-
de form a acessória, cultural cada vez maior que ela impõe,
que se pode cha-
cepçã o), nunc a talvez a contradição própria à imigração ou ao
período conhecido
mar de política de imigração esteve tão evidente quanto neste
toda sorteJ o fin-
pela crise econô mica , pelo desemprego e por dificuldades de ._

51
ABDELMALEK SAYAD

gir que a estamos descobrindo somente hoje, estamos jogando sobre essa contra-
dição para orientar a imigração no melhor sentido para os interesses, materiais e
simbólicos, que atribuímos a nós mesmos: é ela que inspira as palavras que são
ditas hoje em dia sobre os imigrantes ou a propósito dos imigrantes4; é ela que
5
serve de pretexto para as práticas cotidianas em relação aos imigrante s , bem

4. Na situação atual, podemos dizer que não existe discurso sobre o desemprego que não seja ao mesmo
tempo um discurso sobre os imigrantes, ou melhor, sobre a relação de causa-efeito que, às vezes, é
apenas sugerida, mas que, outras vezes, é explicitamente afirmada, entre a imigração e o desemprego .
"Num país que conta com dois milhões de trabalhadores imigrantes, o problema do desemprego não
deveria se colocar", (J . Chirac). As vezes, é para indignar-se e escandalizar-se; e, quando se finge o
espanto e a incompreensão, é apenas para suspeitar melhor que os imigrantes são nocivos ao interesse
nacional (e isso com a cumplicidade de seus "amigos", dentre os quais aparecem, mesclados, primei-
ro os militantes, os sindicalistas e os intelectuais de esquerda, os homens de igreja e, depois, os pa-
trões, bem como os políticos ou os homens no poder que são considerados como "favoráveis" aos imi-
grantes): "Os imigrantes tomam o trabalho dos franceses ... , logo, roubam o pão dos franceses"; "tra-
ta-se de substituir com a mão-de-obra nacional (subentendidos os desempregados) a dos imigrantes"(R.
Barre), "a preocupação do governo francês é diminuir o número de trabalhadores imigrantes na Fran-
ça" (L. Stoléru, 28 set. 1978), ou ainda "não vale a pena cantar de galo no exterior quando não somos
capazes de catar o lixo em nosso próprio país" (L. Storélu); "As regiões que recebem muitos imigran-
tes não devem esperar auxílio do governo" (ministro da Indústria) etc. Às vezes, trata-se, ao contrá-
rio, de esforçar-se (sinceramente ou apenas pela circunstânci a) de tranqüilizar os imigrantes: "O imi-
grante não é uma pessoa que se deporta ..., é um homem que vem para nosso país com uma esperança,
a de participar da vida econômica de um país que é a terra do trabalho, a terra da liberdade ..." (P. Dijoud,
nos Dossiers de l 'écran, 14 jan. 1975); "O país não deve explorar os trabalhadore s imigrantes, e sim
dar-lhes os mesmos direitos e as mesmas oportunidad es que dá aos trabalhadore s franceses, e muitas
vezes mais ..." (P. Dijoud, apresentação de seu programa de 25 medidas em 1974), ou ainda: "Não se-
ria correto querer se livrar da mão-de-obra imigrante que trabalha para nós há muitos anos sob o pre-
texto de que sentimos dificuldades de emprego" (L. Storélu, Le Figaro, 11 de setembro de 1975); "Os
trabalhadores imigrantes podem atravessar a crise conosco, como nós" (L. Storélu, na televisão, 8 nov.
1977), "a fraternidade francesa estende-se aos trabalhadore s imigrantes que contribuem para nossa
produção e nosso progresso" (V. Giscard d'Estaing, no Conselho dos Ministros, 9 out. 1974), "acom-
panharei pessoalmente a implantação do programa de melhoria das condições de vida dos trabalha-
dores imigrantes e de sua proteção social e cultural" (V. Giscard d'Estaing, jul. 1974). Em todos os
casos, seja qual for o discurso, o resultado é o mesmo: de um lado, os imigrantes, ou seja, trabalhado-
res estrangeiros ou estrangeiros em trabalho, pois o imigrante só pode ser concebido indissociave lmente
ligado ao trabalho (um imigrante desemprega do não existe, como diria R. Desnos); do outro lado, os
desempregados franceses, ou melhor, franceses no desemprego . Mesmo se essa aproximaçã o, à qual
se dá um aspecto de escândalo completo (escândalo intelectual, social, moral e político), é na verdade
questionável (intelectualmente), inexata (socialmente ), injusta (moralment e), mesquinha (politicamen -
te!, ~la basta para lançar o descrédito sobre os imigrant_e s; basta para produzir e impor na opinião
publica a ~q~ação simplista e falaciosa: imigração= desemprego, contraverda de que tem corno efeito
tomar os 1m1grantes responsave1s , · l d
d . . pe o esemprego dos franceses e, fazendo com que se tomem bo-
es expiatórios apresentar s ua pa rf1d a como a soluçao - . , . .
"N , ' mais rapida para as dificuldades do emprego:
um pais em que há mais de u ·1h- d d
solução é si 1 . m mi ao e esempregad os e dois milhões de imigrantes ativos, a
5. Ainda é no d°:P esd. _mandem-nos de volta para casa".
ia-a- ia nas práticas f d·
ruas ou por ocasião d, t d . ~o} •~nas (por exemplo, nas verificações de documentos feitas nas
• · ·
e o as as d1hgenc1as a d mmistrativa •
c1onal para O Emp s, nas relações com a ANPE - Agência Na-
!'1d . . rego -, que sempre são rei - d · · · · ·
ade de 1m1grante e a situ _ d . . açoes e cnse, pois exphcuam a contradição entre a qua-
açao e mativo etc ·) , na atitu· d
e geral adotada para com os imigrantes (as
52
O QUE Ê UM IMIGRANTE?

como para as decisões administrativas tom -


adas com re \açao a eles6.' é ela .que
. ·r, . .
serve de JUStl 1cat1va para os textos \eg1.slat1.vos que rege m a presença dos imt-

· .
c1rcunstânc1a s atum. s, suscitand
.
o entr e nós o sentimento de que é prec •
pode m tom ar mais agud o o racismo, a iso se " so 1·d
I a rizar" entr e si , só
. .
hostilidade geral para com o estra ngei O imig
que é apre sent ado com o um concorre ro, para com rant e
nte) , que se percebe melhor a definição
forja da, bem com o a definição da funç impl ícita que dele s fot
ão que lhes é atribuída . Para o traba lho,
emp resá rio da Lore na, "o papel deles é conf orm e proc lama um
o de serem sacrificados". "Sacrificados
qual idad e de imig rante s preju dica sua " quan do são ativo s (sua
promoção, sua formação , quan do não
crificados", prin cipa lmen te, quan do são sua remu nera ção) ; "sa-
desempregados (seu "sac rifíc io", se é
o med o dos franceses, cheg ando entã o que pode ria esco njur ar
à própria negação de sua exis tência). "Em
tamo s para isso. Em caso de crise , eles parte , nós os cont ra-
cont am menos do que os nacionais"(L
Esta é, sem dúvi da, a razã o que havi e Mon de, 14 dez. 1971 ).
a permitido não só que se submetesse
imig rante (nat urez a e zona de atividade à limitação o trab alho do
autorizadas) como tamb ém, em caso de
com o prete xto a ince rteza que pesa sobr crise , que se toma sse
e sua estadia para licenciá-lo ou fazer
do. Dese mpr egad o no meio de tantos com que seja licen cia-
outros, o imigrante desempregado é difer
preg ados (este s, franceses), porq ue ning ente dos outr os dese m-
uém deixa, à sua volta, de fazer com
tem mais luga r", que "est á a mais ", que que ele sinta que " não
"ele é aquele de quem não se prec isa mais
ai"; cada um de seus atos, cada uma mas que aind a está
de suas iniciativas junt o à Agência Naci
ANP E), luga r onde se objetiva plename onal pelo Emp rego (a
nte a verdade da condição de trabalhad
nele uma espé cie de sent imen to de culp or imig rante, desp erta
a, o sentimento que ele tem de sua inco
ilegi timi dade de sua pres ença . Na vida nveniência social, da
cotidiana, as exigências que se têm em
bida s por ele, não sem motivo, com o relação a ele são perce-
tantas provações humilhantes que reve
relaç ão a ele; marc á-lo com o um susp lam a desc onfi ança em
eito, a seus olhos, esta é a função obje
docu men tos múlt iplas (que não são semp tiva das verificações de
re verificações policiais) , das desagrad
rocr ática s às quai s está subm etido : ele áveis exigências bu-
tem a obrigação , muitas vezes de form
circu nstâ ncia s atuais, não desprovidas a intempestiva e , nas
de certo excesso de zelo e de manifest
mos trar cons tante men te seus documen ações de mau -hum or, de
tos, de apresentar, para cada um de seus
qual quer circu nstâ ncia e na frente de mínimos gestos, em
todos (não só para a polícia), a prova
men to de iden tidad e), da regularidade de sua identidade (doc u-
de sua presença (título de estadia), de
alug uel) , de seu traba lho (hollerith), de seu dom icílio (recibo de
sua rend a (comprovantes que pode m ser
cibo s pessoais). Um imigrante: "É incrí até a exibição de re-
vel como essa sociedade tem confiança.
só isso ; em todo luga r em que você As folhas de pagamento,
se apresenta, só lhe pede m isso! O que
uma folh a de paga men to por mês. Com você é aqui ? Você é só
o se tivessem medo de que você comesse
a gent e, os imig rante s, isso cheg a muit o pão deles[ ...] Com
o longe: é logo a suspeita, não é o regu lame
é prec iso prov ar que a gent e ganh a o nto[ ...]; com a gente,
nosso dinheiro, sem isso você está roub
gand o, é a mes ma coisa, você vira susp ando , você está mendi-
eito [...] Um imigrante é feito para traba
que está trab alha ndo; se você não traba lhar, você tem que provar
lha, entã o pra que você serve ? [ ...] No
seu dinh eiro [ ...], no segu ro soci al [ ... _
c orr~i o, para m: ndar
], você precisa provar que ganhou o seu
balh a, que não roub ou [ ...] . Até para dmh e1ro, que voce tra-
morrer, quando você não morreu no traba
var que trab alho u; de outr o jeito você lho, você prec isa pro-
não
6. Essa s deci sões conc orre m para um mesm pode morrer [...]".
o resultado : provocar, de uma forma ou
resig nada ou de form a impo sta, a parti de outra, de form a
da dos imigrantes: "aux ílio para o retor
"mil hão Stor élu" ); "aux ílio para as parti no" (sob a forma do
das voluntárias" (prêmio de 50 mil franc
res da side rurg ia (Usi nor- Lon gwy ) mas os)_ dos _tr~balhado~
que, no caso dos imig rantes trabalhad
etíd o à cond ição de acum ular- se com ores s1der urg1 cos, ~sta
subm este outro auxílio, o " auxílio para o retor
no" , e de ser hbe-
rado segu ndo mes mo procedimento
O
inva lidad o pelo Con selh o de Esta do, ?
deste último ("auxílio para retor~?"
que ~ca
b l' '
a, a ias, de s~.r
mas que continua sendo efetivado); form
outr o mod o de se livra r, sem grandes açao para o retorno .
prejuízos , dos imigrantes desempre gado
esta mos quit es de qual quer obri gação s conv ence ndo-se de que
para com eles e até mesmo, fazendo isso,
gran de serv iço e ajud ando os seus país de est~ ?restando u~n
es de origem; restrições ao reagrupamen
to familiar e tentaçao

53
/1.flDEI MALEK SAYAD

grantcs ( sua e fll f ada e sua estadia)7. Se a .função


.
de tudo isso, dos fatos como dos
. . .
.
discursos. ap arece como uma lembra nça para os 1m1grantes de sua condiç ão de.
· , . . . .
t-rabalhadores apenas tolc.rados e tolerad os a tttulo prov1s óno, o obJet,vo vi
sado é
0
de podcf agir sobre a realida de social (ou ~e-~a, a i~igr~ç ~o) até subme tê-la à
definição que dela se dá: como impor a defimç ao mais prox1ma do modelo
ideal
típico do imigra nte e da imigra ção?
Qt1al será então essa definiç ão? Afinal , o que é um imigra nte? Um imigran
-
te é essenc ialmen te uma força de trabalh o, e uma força de trabalh o provisó
ria
tempor ária, em trânsit o. Em virtude desse princíp io, um trabalh ador imigran
t~
( sendo que trabalh ador e imigra nte são, neste caso, quase um pleona smo)
, mes-

de "proibir o trabalho" para as novas pessoas que chegam (esposas filhos) ou


.. . . d , .
fato de serem pro1b1dos de trabalhar,, (a suspensa_o do reagrupamento '
familiar
e 1eva-1os a aceitar 0
.. A . f • d
selho de Estado); v1g1lanc1 a extrema d a contmu1 . ºd d d
a e e estadia do imigrante e OI anu 1
t a a. pelo Con-
.
datas de viagem com o fim de detectar qualquer ausênc1a da França que exceda con ro 1e rigoroso das
. _ - - . d _
.
prazos autorizados; nao-renovaçao ou renovaçao cond1c1onal dos títulos de estad· a uraçao normal dos
- - . . d ( d. _
a renovaçao sao mais draconia nas o que d' - . . la as con içoes para
. . . as con 1çoes ex1g1das quando do estab . .
me1ro título de estadia: assun, . . . e1ec1mento do pn-
aconteceu que se pedisse aos 1m1grant es argelinos O d
apresentassem os holleriths de três anos consecutivos, quando em 1969 era parau a a1guns e1es que
. . · . os · •
linos, a data de registro no seguro social que dava fe, dos tres A
anos de
,
residênc
1m1grantes arge-
. ºfi d d ºdA ia exigid d.
. álºd d
retto a um certt 1ca o e rest encta v t o por ez anos) etc.; tudo isso sem os
falar evidentepara ter i-
mente das
expulsões, das recusas que, na maioria das vezes, têm como pretexto motivos
insignificantes.
7. Trata-se dos múltiplos projetos da lei n. 922 que trazem modificações da Ordenaç
ão de 2 de novembro
de 1945 relativa às condições de entrada e de estadia dos estrangeiros na França.
Alguns desses proje-
tos, que visam legalizar as práticas arbitrárias mais correntes que controlam a
"entrada de estrangeiros
(na verdade dos imigrantes) em território francês" e que regulam as condiçõe
s segundo as quais eles
podem pennane cer e trabalhar na França, têm pelo menos o mérito de ser claros.
Ao submeterem a
entrada na França a um regime discriminatório, posto que "a entrada em território
francês pode serve-
tada por outros motivos além da ausência de documentos e vistos exigidos pelas
convenções interna-
cionais" (segue-se exposição de motivos), o projeto de lei conhecido com o
nome de seu promotor, 0
ministro do Interior Christian Bonnet (sob o governo de Raymond Barre) divide
doravante o mundo
em duas partes: um mundo geográfica e demograficamente minoritário mas
majoritário em todos os
outros aspectos (econômico, político, militar, e científico etc.); esse mundo correspo
nde grosso modo
aos países industrializados que também são países de imigração, único digno
de produzir turistas pois,
lá, as convenções internacionais (aquelas que ligam os países da Comunidade
Econômica Européia, por
exemplo) vetariam que a lei proibisse "a entrada em território francês por um
motivo outro além daque-
les exigidos pelas convenções internacionais" - podemos duvidar que se exijà
de um norte-americano
ou de um canaden se, de um belga ou de um alemão, de um australiano ou mesmo
de um japonês que
eles justifique m, por e xe mplo, "meios de existênc ia suficientes", como se
faz com qualquer pessoa
oriunda de um país subdesenvolvido, principalmente se esse país fornecer emigran
tes-; outro mundo,
este minoritá rio em tudo (embora seja majoritário geográfica e demograficamen
te), "indigno", por
motivos que não são apenas econômicos - eles são sociais, políticos, culturais
, todos acumulados na
percepção que se tem do estrange iro do Terceiro Mundo (eles fazem essa
percepção) - , de produzir
turistas, capaz somente de dar emigrantes; assim, importa para a lei discrimi
nar os verdadeiros turistas
dos falsos turistas e, entre estes últimos, os imigrantes virtuais contra os quais
é preciso ter garantias .
Estas disposiç ões policiais e muitas outras mais tendem a reafirmar a subordin
ação da situação do imi-
grante à definição que se dá dele e à representação que se faz de sua condição
.

54
IMIGRANTE?
O QU E Ê UM

mo se nasce pa ra a vida (e pa
ra a imigração) na ,m . . gração mesm o se é ch am a-
do a trabalhar (como imigran
, . ' , mesmo se es ta,
. te) durante to da a SU a vid a no. pat 5' b
de sti na do a morrer (na imigr
ação), como ,m . . t continua sen do um tra a-
lha do r definido e tratado como ,gran e, ue r mo me n-
provisório, ou seja, revogável 1
a qua q b lho úni-
to. A estadia autorizada ao . .
imigrante está mt etramente su . ao J·ei ta
ca razão de ser qu e lhe é rec . tra a t mb '
onhecida: ser como ,migrante, nme1ro, mas a ém
. .
co mo homem - sua qualida P d" - de
de de homem estando subord
· igr
im · an · te. F01· o tra ina da a su a con içao
balho que fez "nascer" o 1m · ·1gran te, que O fez existir;
qu an d o ter mm . a, qu e faz ~ é e 1e,
"morrer" o imigrante, que d
0
em pu rra pa ra o não-ser. E ecreta su a negação ou. qu e
· igr· an te, ess e tra ba lho , qu e condiciona toda a exi stên
im nã o é qu alq ue r trabalho, nã cta do
o se en co ntr a em qualquer lugar; e le é o
tra ba l ho qu e o "m erc ad o de
trabalho para imigrantes" lhe
qu e lhe é atr ibu ído : tra ba lho atribui e no lugar em
s pa ra imigrantes que reque
im igr an tes pa ra tra ba lho s rem , pois, imigrantes ;
que se tornam, dessa forma
tes . Co mo O tra ba lho (de , trabalhos pa ra imigran-
fin ido pa ra im igr an tes ) é
do im igr an te, es sa justifica a pró pri a jus tif ica tiv a
tiva, ou seja, em última instân
te, de sa pa rec e no mo me nto cia, o próprio imigran-
em qu e desaparece o trabalho
En ten de -se en tão a dif icu lda qu e os cri a a ambos.
de , qu e não é apenas técnic
o de se mp reg o no ca so do a, qu e se tem em definir
im igr an te (at é quando? duran
fic uld ad e qu e se tem em pe te quanto tempo?), ad i-
ns ar a co nju nç ão do imigran
im igr an te e de sem pre ga do te e do desemprego: ser
é um paradoxo. E sem cheg
çã o é pr op ria me nte im pe ns ar a diz er que ess a situa-
áv el, ela nã o de ixa de ser sen
pa ra a me nte , em pri me iro tida co mo um escândalo
lugar, me sm o qu e de um po
int ele ctu al; a dif icu lda de est nto de vis ta pu ram en te
á, aqui, em co nc ili ar objetos
pr eg ad o e im igr an te ou , o inconciliáveis : desem-
qu e dá no me sm o, o nã o-t
co nc eb e e só ex ist e pe lo tra rab alh o co m o qu e só se
ba lho .
Af ina l, um im igr an te só tem
raz ão de ser no mo do do pro
co nd içã o de qu e se co nf or visório e co m a
me ao qu e se es pe ra dele;
su a raz ão de se r pe lo tra ba ele só es tá aqui e só tem
lho e no tra ba lho ; po rqu e
se pr ec isa de le, pa ra aq uil se pre cis a dele, en qu an to
o qu e se pr ec isa de le e lá on
de se pre cis a dele. / ('
Iss o nã o é tud o. Se a rea lid
ad e da imigração é algo mu
so cia l qu e ela co ns tit ui, qu ito antigo, o pro ble ma
e é rel ati va me nte ind ep en de
mê nic a, ou se ja, nã o é ne nte de ssa realidade feno-
ce ssa ria me nte definido pe la
e., 0 co nju nto de pe sso as qu e po pu laç ão qu e co nc ern e (i.
de ve m ap res en tar os traços
te) , é rel ati va me nte rec en te; específicos do imigran-
e tem su as co nd içõ es socia
is de possibilidade8• A pes-

Como todos os "problemas soc


iais", o da imigração não poderia
S. lhe fosse própria. Herbert ser definido por alguma natu~za
Blumer demonstrou como varia que
segundo as épocas e os lugares
aquilo que

55
ABDELMALEK SAYAD

.
quisa sobre a imig. raçã o, esse outro objeto aparentemente natural e tota1mente evi-
.
_
dente, nao pod ena ignorar.que ela é também e antes de mais· nad ª uma pesqui.sa
. . _ . raça . _
sobre a cons _ t1tuiçao da nrng o como problema social·' aí está t0 da a d'1fi1culda-
. .
de da construçao do obJe to de pesq uisa em sociologia. Por muito tem P0 quase
•" • . , .
· d
exc 1us1v. a, .as c1encias Jund 1cas em todas as suas formas (notadame nte no campo
. . .
uisa e as primeiras teses sobre a
umvers1tano , onde os pmne1ros trabalhos de pesq
ito), depois da demografia, seja
imigração são trabalhos de juristas e teses de dire
s ou de historiadores (demo ra-
ela proveniente de demógrafos propriamente dito
rafos - ciência do espaço e c~ên-
fia histórica), ou, com maior freqüência, de geóg
estão ligadas no estudo da imigra-
cia da população, a geografia e a demografia
de populações por todas as formas
ção , porquanto esta consiste no deslocamento
econômico, espaço político no du-
de espaço socialmente qualificadas (o espaço
nacionalidade e do espaço geo-
plo sentido de espaço nacional e de espaço da
ensões simbolicamente mais "im-
político, espaço cultural sobretudo em suas dim
ioso etc.) -, a imigração acabou,
portantes", o espaço lingüístico e o espaço relig
stituir como "problema social" an-
sob a influência de diversos fatores, por se con
que qualquer outro objeto social,
tes de se tornar objeto da sociologia. Mais do
imigração que não seja um discur-
não existe outro discurso sobre o imigrante e a
a problemática da ciência social
so imposto; mais do que isso, é até mesmo toda 9
• E uma das formas dessa imp
osi-
da imigração que é uma problemática imposta
o ou, mais simplesmente, sempre
ção é perceber o imigrante, defini-lo, pensá-l
ção entre um grupo social e uma
falar dele como de um problema social. Essa rela
emprego ou os imigrantes e o de-
série de problemas sociais (os imigrantes e o
rantes e. a formação, os imigrantes
semprego, os imigrantes e a habitação, os imig

do "problema social" só pode aparecer muito tempo


se constitui como "problemas sociais": determina
o e, muitas vezes, desaparecer como tal, embo~ ~
após o surgimento do fenômeno que está designand l
za, que só se constituiu como grave "problema so~ia
fenômeno subsista; assim, por exemplo, a pobre
o racismo, que só vai se tomar problema social ª
nos Estados Unidos durante os anos 1930, ou ainda
partir de 1960 (cf. H. Blumer, "Social Problems
as Collective Behavior", St~~:ia/APr~~:em~, XVII\:~ s
a, poderíamos acrescentar a mfancia , a . ado!esc
3, Winter 1971, pp. 298-306); e, da mesma form orias mais evide nte
etc. (para lembrar apenas as categ
eia" ou os "jovens", a "velhice", as "mulheres" _de
ente, mais naturais). Para todos esses problema~
porque mais próximas do biológico e, aparentem r
dieu, J. C. Chamboredon e J. C. Passeron, Le ~ell~
construção do objeto em sociologia, cf. P. Bour ·
1968, e P. Champagne, Rémi Lenoir, D. Merhe e
de sociologue, Paris-La Haye, Mouton-Bordas, F
, Dunod, 1989, 238 PP·
Pinto /nitiatíon à la pratique .wciologique, Paris
• · tes sur t' 11· nmigration
· ces socta ·
end rance
iente
' nts des publicat10 ns en scten
9. A Sayad, "Tendances et coura pp. 219-2 51 (ver ~ot\ ~~. /e
3, inverna 1984, t. 2,
d~puis 1960" em Current Sociology, vol. 32, n. ", em Psycl wlog e
,_ m ,w .... .
les immigrés
237-251)~ cf. também "Santé et équilibre social chez d 1•·11 1· uon • les p, ... -
PP · ' 1748); e "Co0ts et proflt~ ~ _ m~ .•g~. 11 6 1, mar.
1981, 13, J 1, pp. 1747-1773 (ver noladamente p.
de la recherche en sc1e11c;ts socwle.' ·
supposés polítiques d'un débat économique", Actes
1986, pp. 79-82.

56
O QUE É UM IMIGRANTE?

ou os filhos de imigrantes e a escola, os imigrantes e o direito


de voto, os imigran-
tes e sua integ ração , os imigrantes e a volta para sua terra e,
para coroar, os imi-
grant es e a velhice, ou os velhos imigrantes! etc.) constitui o
índice mais claro de
que a probl emát ica da pesquisa, tal como é encomendada e tal
como é conduzida,
enco ntra- se em confo rmida de e em continuidade direta com
a percepção social
que se tem da imigr ação e do imigrante. Objeto sobre o qual
pesam numerosas
"repr esent ações colet iv~ , a imigração submete-se a essas
representações que,
como sabem os, "uma vez constituídas tornam-se realidades
parcialmente autôno-
mas" 10, com uma eficiência tanto maior quanto essas mesmas
representações cor-
respo ndem a trans fonna ções objetivas, sendo que estas condi
cionam o surgimen-
to daqu elas e deter mina m, da mesm a forma, seu conteúdo.
No fundo , é de todo o entendimento que temos de nossa ordem
social e po-
lítica, é de todas as categ orias de nosso entendimento político
(e não só político)
que se trata nas "perc epçõ es coletivas" que se encontram no
princípio da defini-
ção dada do imig rante e do discu rso que atual iza essa defin
ição. Qual é essa
defin ição? {Só se aceit a aban dona r o universo familiar (univ
erso social, econô-
mico , polít ico, cultu ral ou moral, quando não mental etc.),
ao qual se pertence
"natu ralm ente" ou do qual se é "natu ral", para usar uma lingu
agem próxima da
lingu agem juríd ico-p olític a da naturalização (ou, melhor dizen
do, da "~atu~ali-
dade "); só se aceit a emig rar e, como uma coisa leva à outra
, só se aceita viver
em terra estra ngeir a num país estra ngeir o (i. e., imigrar),
com a condi~~o de se
conv ence r de que isso não passa de uma provação, passageira
por defin~çao, uma
prov ação que comp orta em si mesm a sua própr ia resoluçã1
C~rrelati~amente ,
só se aceit a que haja imigr ação e que haja imigrantes, ou seJa,
so se aceita entrar
. o do qual não se é "natu ral" natur alme nte com as reservas
num umve rs das mes-
mas cond ições . Toda s estas espec ificaç ões pelas quais se de fi ·d t'fica 0
m~,.e s_e i en i
. . rante enco ntram seu princ ípio gerador, sua soma e sua
e~ci~ncia, bem como
tmt~ f f caçã o últim a, no estat uto políti co que é próprio
do im1gra~te e~quanto
sua JUS t t . do que isso um "não- nacio nal que, a
- , nas um alógeno mas, mais '
ele nao e ape l 'd
, 1 ó pode estar exc m o do camp o político ~.Õolí '
tica e polidez, e sem
. d
este utu o, s l' . . em seme lhant e neutralida ,
. lidez do que a po ittca, ex1g e, que e
dúvi da mais a po
d d " b igaçã o de ser reser va do" ·· a form a de polid ez que o
tamb ém cham a a e o r t obrig ação de adota r - e, no limite ,
. d dotar e que ele se sen e na
estra ngeir o eve a
d t obrig ado a adotá -la - , const1.tu1.
a polid ez porq ue se sen e
ele só deve a otar ess . .
uma dessa s malí cias soc1a1s (ou ma teias
r. do socia l) pelas quais são impo stos

.m "Les représentations individuelles et les représentations collect · " (1924) em


I O. Cf. E. Durkhe1 ' tves '
. . 3
Sociologie et philosop/11e, Pans, PUF, 197. .

57
ABDELMALEK SAYAD

imperativos polític os e conse gue-se a submi ssão a esses impe ra t·1vosJ.ib. s


_ . . . . em que
se perceb a perfei tamen. te a ,,arb,tra nedad e. (no sentid o lógico ) que existe em
. 1,, " _ opor
" 1 discrim inaçõe s de fato a esta
nac~ona e nao-nac1ona e em reduzJ r todas as
2 a
oposiç ão (de direito ) fundam ental 1 , a distinção legal, ou seja, refletida, pensad
o
e confes sa, que se opera assim no plano político de modo totalmente decisiv
om
COI~stitui como que a justi~ic~tiva suprem a de todas as outras distinções.lt=
como
efeito , porqu e todas essas distinções são suscetíveis de serem apresentadas
à ra-
deriva das da prime ira, elas se encontram assim fundadas na razão (frente
à ra-
zão em si , posto que dela recebem sua explicação, mas igualmente frente
um
zão polític a, social, econô mica e, mais ainda, ética); não sendo o imigrante
com
eleme nto n~c!onal,. isso justifi ca a econo mia de exigências que se temJJªra
ele em maten a de iguald ade de tratamento frente à lei e na prática .J
13

"O ideal" teria sido que, assim definido, o imigrante fosse uma pura má-
er
quina, um sistem a integr ado de alavancas, mas, neste caso como em qualqu
mui-
outro, "uma vez que o homem não é um puro espírito" - sabemos disso há
o
to tempo - e uma vez que o imigra nte não é puram ente mecânico, é forços
o,
conce der-lh e um mínim o[ Assim, como trabalhador, é preciso que seja alojad
su-
mas então o pior dos alojam entos (que ele conseg ue sozinho) é amplamente
talvez
ficiente; como doente , é precis o que seja tratado (isso por ele mesmo, e
rápida
muito mais para a segura nça dos "outro s"), mas que seja da forma mais
ão
e mais econô mica, sem tomar sempr e o tempo e o cuidad o que uma situaç
maio-
partic ular requer, princi palme nte no caso de doenças mentais (que, em sua
-
ria, são de origem sociol ógica ou ao menos compo rtam uma importante dimen

cante, impor o respei-


11 . Extorqu ir o essencia l sob a aparênc ia de exigir apenas o acessóri o ou o insignifi
tivas da submiss ão à ordem esta-
to pelas formalid ades para obter todas as formas de respeito constitu
ões políticas ; para todas
belecida , as concess ões da polidez só têm preço porque darão à luz concess
théorie de la pratique , Paris,
as relações entre "polític a" e "polidez ", cf. P. Bourdie u, Esquisse d 'ttne
Librairi e Droz, 1972, pp. 189-199 .
social ou ainda do ?rin-
12. Para uma análise mais rigorosa do princípi o de di-visão constitu tivo da ordem
práticos ) na base de "propn_ed~-
cípio de constitu ição dos grupos instituíd os (i. e., opostos aos grupos
enquant o faltava o pnnc1-
des comuns [ .. .], de traços ou de experiên cias que pareciam incompa ráveis
a uma mesma classe", cf._ ~
pio de pertinên cia próprio a constitu í-las como índices do pertenci mento
et les limites de l'efficac ite
Bourdie u, "Décrir e et prescrir e, note sur les conditio ns de possibil ité
poli tique", Actes de la recherche en sciences .wciales, n. 38, maio I 981, PP: 69~ 7 ~. _
às d1scnmmaço~s d~ fat~ (ou
13. A discrim inação de direito (entre naciona l e não-nac ional) pede reforço
am ~ma Jusuficativa e
seja, às desigua ldades sociais, econôm icas, culturai s) e, em troca, estas encontr
lógica cucular, segundo a
atribuem a si mesmas uma legitimi dade na discrim inação de direito: esta
a-se no princípio de todas as
qual as situaçõe s de fato e de direito se sustenta m mutuam ente, encontr
as dominações_ (o_ escravo,
segrega ções (escravi dão, apartheid, coloniza ção, imigraç ão etc) e de todas
a igualdad e de d1re1to sendo
o negro, 0 coloniz ado, o imigran te, a mulher etc.) gerador as de racismo ,
e de fato, por sua vez, toma-
recusad a usando- se como pretexto as desigua ldades de fato, e a igualdad
se impossí vel devido à desigua ldade de direito.

58
O QUE É UM IMIGRANTE?

- . , .
sao soc10 log1ca); o mais das vezes
casado e pat. de famt,, ta,. -o
·b· l
prot 1- o de trazer para jun na se ria po ssí ve. l
to de si, dentro de certos · ·
ções. sua mulher e seus filh ltmttes e so b ce rta s co nd . t-
os - não se poderia nem me .
da me nte de fazê-lo , princ sm o im pe di- lo in <lefi~i-
ipalmente quando manifest
qu e ele viva em família na a tal de se jo -; ten do aceito
França, não se poderia , sem
sem incorrer na ameaça de ca ir em contradição ou
ser tachado de racismo e
privá-lo das vantagens (ao de dis criminação notórias,
menos das principais vanta
lidade de trabalhador e de gens) que lhe dão sua qua-
p~ Enquanto trabalhador,
teo ric am en te - a igualdad assegurar-lhe - ao menos
e de salário (salário direto
lação ao operário francês e salário indireto) com re-
constitui, sem dúvida, a me
últ im o co ntr a a ameaça qu lhor forma de proteger est
e uma mão-de-obra imigran e
titui (ou constituía) 4; enqu
1 te de ma sia do barata cons-
anto pai, não se poderia, po
lhos de ed uc aç ão escolar r ex em plo , privar seus fi-
e de formação profissiona
o qu e é um a ob rig aç ão da l (ao me no s até os 16 anos,
lei), mas a lógica do sistem
red uz es sa esc ola rid ad e e a de ensino e de formação
esse aprendizado ao estrit
mo de tempo, o custo me amente necessário (o míni-
nos alto e a certeza de rep
de tra ba lho que seus pais roduzir assim in loco a for
haviam trazido ao emigrar) ça
ma do s, po rq ue foram acan . Po rqu e muitos foram cha-
tonados nos mesmos setore
ha bit at, no s me sm os esp s pro fissionais, no mesmo
aç os sociais, não se po de
en qu an to a "o rd em públi ria honestamente, ao menos
ca" estiver a salvo (a ordem
tam bé m a or de m externa política, social, moral, ma
, a ordem estética, aquela s
se nç a de ma sia da me nte gra qu e o pa no rama de uma pre-
nde de imigrantes disparat
los de se ag rup ar e de se ad os viria turvar), impedi-
entregar a um mínimo de
pr áti ca s est as qu e dão um prá ticas que lhes são próprias;
testemunho de sua "cultura"
fac ilm en te red uz ida . ou às quais sua cultura é
(Ã in da po de mo s nos pe
rguntar, sobre ca da um do
es te mí nim o - na ve rda de s pontos enunciados, se
indispensável para a sobre
co nc ed ido ao im igr an te vivência do imigrante - é
po r ele mesmo ou então
cia da so cie da de qu e de le para manter limpa a consciê
se utiliza; se este mínimo n-
qu e ele co nti nu a se nd o lhe é co nc ed ido pelo homem
(em bo ra diminuído, mutila
do, alienado) ou, ao contr
á-
A divisão atual do trabalh
14 o, mesmo (ou principalmente)
. de-obra imigrante, ao acarret manual, entre a mão-de-obra nac
ar a autonomização do mercado ion~l e_a mão-
• · dos empregos execut~dos pelos
(e correlativamente, a 1mposs1'b'\'dade ou ao menos a extrem 1m1g~tes
'd 1' ' ' a dificuldade que existe, mesmo
de esempre go , em substituir por trabalhadores nacionais os trab . . em epoca
alhadores 1m1grantes), ta1vez ten h
toma do caduco o Problema d a con corrência bem como todas as · \'d d a
d ria fazer esquecer uma das ' querelas de nva I a e, mas na -o po-
característica . . - , ·
e t d mais camuflada hoje, que s fundamentais da 1ffi1gra~ao, cara~tenstica º-' bv1_ · a ori-
a n . de
é a de ser intrinsecamente
::t :)eu :: ;: a entre as mãos (1. e., de d1r:1to se nao e ma
do patronato, uma arma que serv is
e para fazer pressao sobre a cla
balhadora nacional. sse tra-

59
ABDELMALEK SAYAD

rio, se só lhe é concedido para permitir à sociedade ser (ou


. . . , . . parecer) coerente
consigo mesma, com seus pnnc1p1os morais de organização qu -
e sao sempre
todos os campos, princípios de justiça, de igualdade, de respeito dos . . ' em
das lI.berdades do m. d'1v1'duo e~f-:J: Tud o isto
· faz com que a imigr - dire1tos e
. . - . . açao, enquanto
mscnta na relaçao entre dominante e dominado, enquanto sobred t .
_ . , e ermmada
quando nao totalmente const1tmda por essa relação de dominação n~ d '
, ao po e ser
livre de toda moral, não pode ser totalmente laicizada (i· e·, livre de tod a consi-.
deração moral). Não há fala, não há discurso sobre a imigração, mesmo os mais
hostis, que não apelem para a moral, ou seja, para as boas intenções e os bons
sentimentos, para os interesses simbólicos a eles ligados. Assim como O univer-
so doméstico ou a economia da afetividade dos quais a imigração constitui de
certa fonna um paradigma - ela participa em parte de ambos: o universo domés-
tico tem aqui como par o universo nacional ou a "nação como família" e a eco-
nomia da afetividade encontra sua retradução no que podemos chamar de eco-
nomia da "paixão nacional" -, e sem dúvida, mais do que estes dois objetos
sociais, a imigração ainda não se configura como um objeto político propriamen-
te autônomo, ou seja, um objeto político exclusivamente políticofi> Maquiavel
da imigração ainda não foi inventado' Nisso reside, sem dúvida, a razão ou uma
das razões que fazem com que seja extremamente difícil conceber ou decidir uma
verdadeira política em termos de imigração, objeto fundamentalmente contradi-
tório. Se a política, para poder constituir-se como politicamente política, preci-
sa distinguir-se da moral, é o próprio objeto imigração em si que escapa a toda
política autônoma, separada da moral. A única política possível em termos de
imigração é precisamente uma ausência de política.
Ú)epois de haver tirado da imigração o máximo de proveito que dela pode-
ria tirar (ou seja, de havê-la retribuído com o preço, ao mesmo tempo econômi-
co, social, cultural, mais baixo possível), a sociedade de imigração ainda pode,
através das concessões que parece estar fazendo e também através da condescen-
dência que se encontra no princípio dessas concessões e, mais ainda, através da
exploração política que delas pode ser feita, encontrar novas gratificações e ou-
tro motivo para satisfação: com efeito, aos proveitos materiais que a imigração
lhe dá, ela acrescenta as vantagens simbólicas que lhe fornece, além disso, a ma-
nipulação que sabe fazer (em proveito próprio) da situação que reserva para os

15· Sobre a autonomia da esfera política e das condições sociais de constituição dessa autonomia, cf. por
exemplo J.-J. Chevalier, les grandes oeuvres politiques de Machiavel à nos jo11rs, Paris, A. Colin, 1949
(ver, particularmente, a primeira parte, "A Serviço do Absolutismo", e o Capítulo 1, "O Príncipe" de
Maquiavel, pp. 7-37).

60
O QUE Ê UM IMIGRANTE ?

imigrante~.}€ lógica própria à ordem simbólica é estru


turada de tal form a que,
pela negação que opera em relação aos proveitos mate
riais ou pela transfigur~-
ção ou sublimação pelas quais eles passam, ela os perp
etua e reforça aind a mais
porque consegue melhor mascará-los, ou seja, conv
ertê-los melhor em proveitos
simbólicos, logo aparentemente desinteressado yfo
rque a relação de forças pen-
de incontestavelmente a favor da sociedade de imigração
- o que permite que ela
inverta completamente a relação que a une aos imig
rantes, a ponto de colocá-los
em posição de devedores onde deveriam ser credores
-, ela tem uma tend ênci a
dem asiad a em contabilizar como realização sua o que
é, contudo, obra dos pró-
prios imigrantes: assim, é com freqüência que se apres
entam pelo menos os as-
pect os mais positivos (ou considerados como tais)
da experiência dos imigran-
tes, ou seja, grosso modo , o conjunto das aquisições
que eles conseguiram impor
dura nte sua imigração - e que conseguiram impo
r, podemos dizer, cont ra sua
cond ição de imigrantes mesmo quando essas aquisições
pareciam freqüentemente
obtid as à forç a - com o o resultado de um trabalho
difuso ou siste máti co de
incu lcam ento , de educação que é operado graças à
imigração (trabalho esse que
cons iste em prod uzir o que chamamos de "seres evolu
ídos" e, concomitantemen-
te, em discr imin ar os imigrantes "evoluíveis", "edu
cáveis" ou "consertáveis" e
os imig rante s que não o são ou que não querem sê-lo
) e cujo mérito recai , é cla-
ro, sobr e a sociedade de recepção e somente sobre
elàj Auxiliado pelo etnocen-
trism o - principalmente quando ele é alimentado e
reforçado, como é o caso aqui,
pela certe za dada pelo fato de ocupar uma posição que
se sabe dominante em tudo
e de form a abso luta -, é este, em .c erta medida, o
sentido objetivo do discurso
que é prof erido sobr e todas as iniciativas multiform
es de moralização às quais
os imig rante s estão submetidos, tanto os trabalhad
ores quanto seus filhos e os
mem bros de suas famílias, quer estas iniciativas tenha
m sucesso, quer fracassem,
mas talve z mais aind a quan do fracassam. Tudo isso
são coisas que se gosta de
conf undi r e enca rar apenas do ponto de vista daqu
eles que tomaram essa inicia-
tiva: a ação educativa, no sentido mais amplo do
termo (continua-se a chamá-la
de ação civil izad ora), exer cida sobre essa "classe
perigosa" à ~oda nova , ess~s
"nat ivos " desn atura dos, esses "selvagens" vindos
de outro continente - geogra-
.is aind a cultu ral - e de outro tempo; a ação de formação de toda natu-
fi1co e, ma ,
ão mais . , ·
reza des de a f o rmaç simp les o aprendizado profissional no mve1 mais ru-
'
dime ntar (prin cipa lmen te quan do é qualifi~ado de, " _ ")
formaçao P,ª~ª º. reto ~o '
até a form ação mais gera l (lingüística, social e ate
mesm~ pohti_ca), a aça_o de
- . . ma form a de traba lho ( o traba lho mdustnal assalanado,
adap taça o, pnm e1ro , a u
. nsur ado e remu nera do em conseqüência) e, em segu . . .
ou seJa, me ida, mevitave1-
' da cons idera das com o índices de alto mvel , · T - ·
men te, a form as d e vi de c1v1 izaçao,

61
ABDELMALEK SAYAD

e também, na medida em que nenhuma dessas ações pode excluir, quando se tem
vontade (ou porque não se ousa dizê-lo), a intenção de "reabilitar" os imigran-
tes, sua cultura de origem (ou o que se considera como tal), sua língua e, pode-
mos acrescentar, ·como ponto culminante desse paradoxo, todas as iniciativas que
se autodenominam "reaculturação", pois elas permitiriam que eles se reencon-
trassem a si mesmos, que redescobrissem seu país, sua língua, sua religião, que
se reconciliassem com suas tradições, sua cultura etc. Sinal dos tempos; mas
também, uma coisa estando ligada à outra, necessidade imposta pela forma em
direção para a qual evoluiu a imigração (imigração de famílias inteiras cuja ins-
talação na França se prolonga a ponto de se tornar quase permanente), a popula-
ção imigrante constitui atualmente o alvo privilegiado do trabalho social, insti-
tuição inventada em outros tempos, é verdade, e instaurada progressivamente para
ajustar à ordem econômica e social estabelecida, na origem, outras pessoas que
não os imigrantes de hoje.[_Êntretanto, agora que a verdade da condição de imi-
grante aparece claramente, ou, em outros termos, agora que estamos sentindo de
forma aguda as contradições imanentes a essa condição; agora que os imigran-
tes, como que colocados contra a parede, sentem a necessidade de se livrar de
todas as ilusões constitutivas de sua condição (ilusões indispensáveis para pode-
:~ rem existir e para poderem suportar sua condição de imigrante), o apelo inces-
sante e insistente para que se lembrem de ql;!_e__ devem se conformar ao imperati-
~- -
vo segundo o qual eles continuam sendo, de direito, dispensáveis e expulsáveis
-

(muitos são os meios que levam esse fim; regulares ou excepcionais, violentos
ou mais sorrateiros e mais disfarçados, todos servem) dá prova, mais uma con-
tradição, da inanidade, para não falar do caráter mistificador das intenções que
se proclamam, bem como dos discursos proferidos sobre a virtude educativa e
formadora da experiência adquirida durante a imigração e por causa da imigra-
ção] Mais do que isso, também aparece o fim a que essas intenções e esses dis-
cursos podem estar servindo: ao lembrar aos imigrantes que eles são constante-
mente objeto de um trabalho de correção que consiste em reduzir os erros, as
falhas que eles demonstram com relação à sociedade de sua imigração (mas, na
verdade, esse é um trabalho pelo qual se quer tomar posse deles); ~oJ~ g.rá.:}os
dos estigmas pelos quais são denunciados e se denunciam como imigrantes (anal-
fabéti s-;;Õ, i~cultura, falta de qualificação, inadaptação ou desajustamento rela-
tivamente aos mecanismos próprios da sociedade e da economia a que vieram
servir, ignorância dos princípios e das regras que presidem ao funcionamento
dessa economia e dessa sociedade, em suma, barbárie no sentido primitivo do
termo), não é, no fundo, uma forma de lembrá-los a sua condição de imigrantes?
Ou seja, homens de outro lugar, de um lugar para o qual deverão voltar mais cedo

62
O QUE É UM IMIGRANTE ?

ou mais tarde.t omo o imigrante deve continuar sendo sempre um imigrante - o


que significa que a dimensão econômica da condição do imigrante é sempre o
elemento que determina todos os outros aspectos do estatuto do imigrante: um
estrangeiro cuja estadia, totalmente subordinada ao trabalho, permanece provi-
sória de direito-, de que serve a "solicitude" que parecem testemunhar para com
ele ainda hoje,. ao menos em certos meios?/ Existiria apenas em função das cor-
rentes atuais? Estaria comandada, na verdade, pela simples preocupação com o
interesse econômico? Em todo caso ela contribui, afinal, segundo as necessida-
des do momento, ora para mascarar aos olhos de todos, ora para lembrar a todos
(e antes de tudo aos imigrantes) a natureza fundamentalmente provisória e utili-
tária da presença do imigrante. Entretanto, os imigrantes, em geral, aprenderam
bastante com sua história - sua história de imigrantes e sua história mais antiga
de antigos colonizados, ou de indivíduos oriundos de países dominados - para
conhecer o que vale a proclamação narcísica dos grandes princípios: tudo acon-
tece como se só se proclamassem esses princípios em altos brados para poder me-
lhor desmenti-los e violá-los na prática ou, em outros termos, é quando eles são
pisoteados que se sente a necessidade de proclamá-los em alto e bom som!
Com relação às múltiplas vantagens, materiais e simbólicas - estas mais
maleáveis do que as primeiras, pois acomodam-se menos com a confissão da
realidade - que a imigração oferece, como explicar que se esteja voltando, cor-
rendo o risco de aguçar as contradições, para uma concepção "verdadeira",
mais realista, quando não "cínica", da imigração? Por que, ao operar esse retor-
no repentino à verdade fundamental da condição do imigrante (condição provi-
sória e instrumental), correu-se o risco de romper a ilusão ou a crença coletiva-
mente mantida de uma imigração (i. e., de um provisório) que pode durar de forma
indeterminada? Será realmente por causa do que chamamos de "crise econômi-
ca"? Será por causa das transformações de toda espécie, econômicas, sociais, cul-
16 ' . • .
turais etc., próprias da sociedade francesa? Não será porque os propnos 1m1-
grantes mudaram?LEles mudaram segundo uma perspectiva que, de todos os
ontos de vista que se pode pensar (pontos de vista morfológico e demográfico ,
ponto de vista econômico, pontos de vista cultural e político etc.), mostra-se para
p
os "usuários" da imigração (os empregadores e os po deres pu'bl.1cos em pnme1ro
. .

, arecia querer dizer o chefe de governo Raymond Barre quando declarou para a Assembléia
16 . E o que p ,. x • · - " ( 12
Nacional: "Estamos mudando de época, precisamos mudar de pohuca no que tang~ tl 11mgruçao
out. 1977) ou ainda: "é normal que num momento em que a economia francesa est~ se transforman_d_o
e em que os jovens têm dificuldade em encontrar um emprego, precisemos reconsiderar nossa poht1-
ca de imígração"(dez. 1978).

63
ABDELMALEK SAYAD

lugar, mas também os serviços sociais, as instituições de ação social e , mais


· am-
plamente, a opinião pública) muito menos "vantajosa" do que no passactq/Em
geral - trata-se quase de uma lei do fenômeno-, quanto mais recente é uma cor-
r:nte de imigração (como parece ser o caso, hoje, da última a chegar, a imigra-
çao dos turcos para a França), mais "vantajosa" é, em todos os sentidos, a mão-
de-obra que ela traz. A despeito das revoluções que a engendraram, enquanto a
emigração ainda se encontrava em seu início, ou seja, enquanto a ligação com as
estruturas comunitárias (estruturas sociais, estruturas econômicas) permanecia
ainda bastante viva, ela só dizia respeito aos homens sós (e não às mulheres e às
crianças, posto que a emigração das famílias acompanha sempre com um atraso
a emigração dos trabalhadores) e, prioritariamente, aos homens jovens, na força
da idade; o ritmo alternado das partidas para a emigração e das voltas para a ter-
ra, das estadias (relativamente curtas) efetuadas fora do país e dos períodos (mais
longos) passados na sua terra, ao dar à imigração um aspecto de fenômeno
rotativo, permitia assegurar a renovação contínua da massa dos imigrantes. A essas
"vantagens" correlativas às características comuns aos emigrantes antes mesmo
de sua partida é preciso acrescentar também todas as outras "vantagens" que,
corolárias das primeiras, pareciam proceder da retradução que as características
de partida encontravam na imigração:f s imigrantes recém-chegados, faixa situada
na parte inferior da hierarquia interna da população imigrante (seria ingênuo acre-
ditar que essa população é desprovida de toda hierarquia e de toda diferenciação
social), estão mais inclinados a aceitar os trabalhos mais penosos, menos está-
veis, menos remunerados ett.7' Maior desconhecimento dos mecanismos sociais,
dos mecanismos econômicos próprios do universo que estão descobrindo? Falta
de familiaridade com os modos de organização, com os métodos de trabalho, as
técnicas de remuneração, os hábitos de cálculo, todo esse patrimônio objetivado
de uma civilização diferente da deles? Má integração da condição de trabalha-
dor, ausência dos "reflexos" que uma longa experiência (ou experiência acumu-
lada de muitas gerações) de trabalho assalariado fornece? Tudo isso é sem dúvi-
da verdadeiro ' contudo mais verdadeiros e mais determinantes ainda são os efeitos
.

do sistema de exigências que continuam a sofrer esses imigrantes que ainda não
foram completamente desenraizados de seu mundo tradicional e de seus modos
de pensar e de agir. O sistema de exigências importado na imigração parece
desviá-los ainda mais, pelo menos num primeiro momento, de tudo o que tende-
ria a assegurar-lhes um melhor controle de sua experiência; ao invés de uma ade-
são imediata que encontraria sua forma mais bem acabada na constituição das
disposições requeridas pela condição dos trabalhadores, bem como no domínio
que essas disposições permitem - essa adesão, esse domínio e, claro, as disposi-

64
O QUE É UM IMIGRANTE?

ções que coma ndam a ambas , têm todas , na verdade, suas cond
ições de possibi-
lidade, condições materiais, mas também culturais -, até prova
em contr ário, é o
antigo estad o anterior à emig ração que, através das preocupaç
ões que a ele es-
tão ligadas, sobrevive e se prolo nga na imigração 17 • Ao que
parece, esse é o pre-
ço que faz com que certos imigrantes cheg uem a ser mais
"van tajos os" do que
outros. Mas , na medida em que dura a imigração , porque não
se emig ra (i. e. , não
se corta m os laços com seu universo social, econ ômic o, cultu
ral , habitual) e não
se imig ra (i. e. , não se agrega, mesm o que marginal e muito
superficialmente, a :!ii-
outro siste ma socia l) impu neme nte (i. e., sem conseqüências)
, prod uz-se , entre
os imigrantes, uma inevitável reconversão de suas atitudes
em relação a si mes-
mos, em relaç ão a seu país e em relação à sociedade na qual
eles vivem cada vez
por mais temp o e de form a mais contí nua e, principal.mente,
frente às condições
de traba lho que essa socie dade lhes impõe. Essas qualidade
s novas, sem ser um
impe dime nto comp leto - pois elas tamb ém têm, quan do neces
sário, suas "vanta-
gens"18 - apare cem, quan do as circu nstân cias são menos favor
áveis, como "da-
nosa s": não só não traze m ou não dão o máximo, sendo que
todas as outras "van -
tagen s" são cons idera das, desta vez, sob seu aspecto social, políti
co, cultural, mais
do que econ ômic o, como tamb ém, na medi da em que podem
contrariar estas "van-
tagen s" (mel hor integ ração nas lutas da class e trabalhado
ra, preoc upaç ão de se
orga nizar de form a autôn oma etc.), elas constituiriam por
si mesmas "dan os".
O melh or exem plo dessa imig ração "ruim " (ou que se tomo
u "ruim ") e des-
tes imig rante s "ruin s" 19 ou que se toma ram menos "van tajos
os" é fornecido pela

17. Para uma anális e mais compl eta das transformações correla
tivas das condições geradoras da emigra-
ção e das condiç ões corres ponde ntes na imigração·, sendo que
estas regem por sua vez o movimento
de emigr ação, podem os nos referir, a propósito do caso exemp
lar da emigração argelina para a Fran-
ça, a nosso artigo "Les trois 'âges' de l'émig ration algérie
nne", Actes de la recherche en scienc es
sociales, n. 15, jun. 1977, pp. 59-79.
18. Em outra conjun tura ou simple sment e junto a outros agente
s (notadamente empregadores), essas "qua-
lidade s" dividi das pelos imigra ntes que são chamados de
mais bem "adapt ados" ao trabalho indus-
trial e às condiç ões de vida na França podem ser muito apreci
adas: menor absenteísmo, maior conti-
nuidad e na situaç ão de imigra nte e, por conseguinte, maior
estabilidade no emprego e, por causa dis-
to, melho r rendim ento do peque no aprendizado fornecido
inicialmente, bem como de toda a forma-
ção adquir ida na prátic a ao longo da carreir a d~ imigrante
etc._ . ,
· n tes "ruins " imigra ção "ruim" , essas quahficações deprec
19 . Im1gra , . iativas podem parecer exageradas frente
ao eufem ismo genera lizado com o qual a hngua gem atual • -
se protege, e particu1annen te a 1mguag em
dos domin antes quand o precisa nomear as diferenciações sociais
que exist~m na realidade; _princi p~-
mente quand o essas características distintivas dos dominad~s,
ap~nas pelo fato ~e sua e~u~ciação, seJa
por etnoce ntrism o, seja por preconceito ou abordage1~1 soc10ló
g1ca, corren~ o nsco obJet1v~ de serem
acusad as de racism o (racism o de classe num caso e racismo de
cultura ou racismo da xenofobia no outro
caso, em se tratand o de imigrantes). Por certo pod~-s~ apenas
, _com relação à ética, c~~gr~tul~~-se com
0 trabalh o feito sobre si mesm o aqui ou lá; e sem duvida é preciso ver
nessa forma de p~ltd~z um d~s
efeito s da vulgar ização (ou da democratização) do "relativismo
cultural" que, numa pnmet ra aprox1 -

65
ABDELMALEK SAYAD

imigração e pelos imigrantes argelinos. Sem dúvida, muito antes da imi ra _


.. d . . . , g çao
argelina, as dtf-erentes ondas e 1m1grantes const1tu1ram, cada uma em seu tem-
po e a seu modo, paradigmas da imigração "ruim" feita de imigrantes "ruins"
mas é acima de tudo no caso dessa imigração e por ocasião dessa imigração~
ela tem a seu favor o fato de ter sido a P.rimeJ..r!- imigração oriunda de um país
* que hoje faz parte do que convencionamos chamar de Terceiro Mundo, de ter sido
uma imigraçã9 de- ç_olonizados (de trabalhadores coloniais, de cidadãos france-
ses e, por fim , de franceses-muçulmanos) etc. - que percebemos a que ponto a
negação do caráter fundamentalmente político de toda emigração e de toda imi-
gração é indispensável para que estas possam ser efetuadas e continuadas. Se é
possível, se não traz conseqüências maiores, podemos dizer, fazer de qualquer
indivíduo estrangeiro um trabalhador, um agente produtor e consumidor, seria
igualmente conveniente transformá-lo no cidadão de amanhã? Da mesma forma,
concordaríamos tão facilmente em fazer de nossos próprios cidadãos trabalha-
dores de qualquer país estrangeiro se não concordássemos, no fundo, e anteci-
padamente, que consentimos em que eles se tornem cidadãos (virtuais) desse
mesmo país? "Exportam-se" ou "importam-se" exclusivamente trabalhadores,
mas nunca - ficção esta indispensável e compartilhada por todos - cidadãos, ,
atuais ou futuros. Aliás, seria possível que fosse diferente? Assim, semelhante

mação e pagando o preço de uma alteração de seu sentido original, parece ter descido do céu depurado
da axiomática científica para o cotidiano e para as práticas correntes. Entretanto, não se pode, apesar
disso, desconhecer completamente o que as aquisições culturais (como, por exemplo, o "relativismo"
cultural no campo das relações entre culturas), que são também aquisições sociais, mentais, éticas e
políticas, mascaram e por enquanto tornam tal coisa apenas inconfessável mas não impensável. Assim,
em outros tempos, as pessoas se permitiam mais do que hoje em dia opor-se ou deplorar que ninguém
opusesse (o que é outra forma de opor) uma imigração que consistiria apenas em trabalho e seria feita
apenas de trabalhadores e uma imigração que seria de povoamento; em outros termos, uma "imigração
de quantidade" e uma "imigração de qualidade" (cf. Louis Chevalier, "Principaux aspects du probleme
de l'immigration", em Documents sur l'immigration, Paris, INED, Cahier n. 12, 1947; texto redigido
emjan. 1944), sendo que uma remete às "práticas de imigração do Antigo Regime" e a outra à "história
recente do século XIX" (cf. M. Coornaert, "L'État et l'immigration de main-d'oeuvre sous l' Ancien
Régime", INED, op. cit.). Para registro, citemos algumas publicações que se referem implícita ou expli-
citamente em seus títulos à noção de "qualidade" em termos de imigração: Jean Pluyette, La Doctrine
des races et la sélection de l 'immigration en France, Paris, 1930, 148 pp.; Raymond Millet, Trois millions
d' étrangers en France, les indésirables et les bienve11us, Paris, 1938, 167 pp.; René Martial (médico) e
seus diversos ~scritos (livros e artigos) sobre o "enxerto inter-racial", dentre os quais, notadamente, Tmité
de l'immigration et de la greffe inter-raciale, Paris, 1930, 304 pp., "Race et immigration" (comunicação
à Academia das Ciências Morais e Políticas, jul. 1936), Race, hérédité,folie: étllde d'anthropo-sociologie
appliquée à l'immigration, Paris, 1938, 21 O pp.; Paul Bertin, Promotion de la race en Frcmce, Niort,
1939, 32 pp.; Paul Yincent, "Les conditions psychologiques d'une immigration de qualité", em Pour lei
vie, n. 4, abr.-jun . 1946, pp. 37-40; A la recherche d'une patrie, la France devallt l'immigration, Paris,
1946, 254 pp., do Centro de Orientação Social dos Estrangeiros; Robert Gessain, "Anthropologie et
démographie, aperçu sur une recherche du qualitatif'.

66
NTE?
O QU E t UM IMIGRA

dissimula ça- o ac re sc en ta d d
a a muitas outras a mesma natu a
p ró p ri a co nd iç ã
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ça o e im ig ra çã o · ao qu e · • previsível não . ~a que exis,,tam em
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• . ~ se1a im ' que se1a md· pensaveJ; a espé-
c1e d e "t ra ns ub st anc1açao " q ig ração e a imig raça-o opera
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.
. -
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a comunidade .
nao-et..ffQ qu ~ a e am
es tr a ng ei.ra ( na~o- eu ro pé ia ) cuJia 1· mp1antaçao é a m · antig ·
a e a mais progressi-
e d ai s
20 C a das perturbações ngen radas pela colo m·zaça~o, ou seja , pela
va . on se qü ên ci .
f nt aç ão br ut al da an tiga s . d d e argelm
oc ie a a (e notad amente do campesina-
co n ro . .
si st em a ec on ôm ic o .
st em a so ci al m tr od uzido 1 1om.zação, a
to ) co m o e o si . . slpe a coeconômicas
de vi da a cau
. . ge li no s na F ra nç a sas pr cipa mente
m
im ig ra çã o do s ar . ,, . '
po is , como uma imigraçã
o d:
. ui to te m po de
m1c10, e mesmo m resistências (culturais
) que
ap ar ec ia em se~ sp ei to de to da s as
~mente. Mas, a de cial) do fenômeno
traba~ho exclus1v extens ão (g eo gr áf ic a e so
lm a podia op or à o de povoamento co
nfir~
a so ci ed ad e ar ge pa ra um a im ig ra çã
ia evoluir e tender
es sa imigração ir
m an ~ o as si m a re
gr a qu~se geral de
to d~
a 1m
s ~s
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de
entos migratórios :j
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~da imi-
amento que a prolon
- *
contem em germe o reconhecida como
de
gr aç ao de tr ab al ho qu e nã o há im ig ra çã
te , po de -s e dizer lações que a coloni-
ga rá ; in ve rs am en desloc am en to s de po pu
vo am en to (c om ex ce çã o talvez dos es co nsecutivos ao estado
de
po s de po pu la çõ
nda dos movimento tenha começado co
m uma
za çã o re qu er ou ai on te ir as ) qu e nã o
anejamentos de fr tadias na imigração
gu er ra ou aos rem to e co nt in ui da de da s es
alho q Prolongamen
im ig ra çã o de trab
1923: 11 0
: 60 mi l (sa ld o) ; 1921: 48 mil (saldo) ;
. 19 18 ); 1962:
ão do s flu xo s m igratórios dos argelinos 6: 22 m il (c en so ); 1954: 212 mil (censo
20 . Evoluç il (saldo); l 94
(saldo); 1937: 150 m 0 mil; 1975 : 711 mil
(censo).
mil; J93 J: J J 1 mil 72 : 80 durante
m il (cen so ); 19 68: 530 m il (censo); 19
co nt in en tal do s eu ropeus para a América
355 o tra ns o que
ge a es ta re gr a ne m mesmo a imigraçã sé cu lo XX ( 18 20-1920); essa imigraçã
_ Não fo imeira década do em massa de
21 e até mesmo até a pr r como um transporte
todo O século XIX e) go sta de de sc re ve das as
rta im ag em (li tera tura, cinema, folclor s vi rg en s ap re se nt a, na verdade, guarda
uma ce uista de ter ra o~éias ou pro-
partindo para a conq s européias (intrn-eur
famílias "heróicas" rá ficas d~ s i_m igr aç õe es para
çõ es , as m es m as características de?1og : ur ng ra çã o de ho m ens-60% dos migrant
prop or 45 Ar-
de pa íse s nã o-eu ropeus) posterwres a 19 e 19 10 ; 70 u 80 % dos migrantes para a
venientes 70% entre 1900 1 Oa 87 % piu a
entre l 830 e 1915 e orção eleva-s e em 19
os Estados Unidos s de pa rtida , es sa pr op os, os
a en tre 18 60 e 19 20; segundo os paíse as 50 a 60 % pa ra os alemães, os austríac
gentin do é de apen mpre represen-
para os italianos quan ria de 1.5 a 40 anos se
os portugueses, 85% en s jo ve ns (a fa ix a etá
Britânicas-; de hom
emigrantes das IJhas
67
ABDELMALEK SAYAD

(no censo de 1968, 30% dos imigrantes argelinos interrogados já cont~vam de a


8
1.7 an~s de presença na França), instalação na condição de imigrantes e "profis-
s10nahzação" desta condição, agravamento do desmantelamento das estruturas
sociais e, em primeiro lugar, familiares, proletarização mais acentuada das cama-
das rurais, tudo isso iria trazer a emigração de famílias inteiras para a França. Os
primeiros sinais desse movimento apareceram desde 1938 e, a partir de J949, a
partida das famílias se acelerou; de maio de 1952 a agosto de 1953, uma centena
de famílias em média chegavam à França todos os meses; em outubro de 1954,
cerca de 6 mil famílias argelinas (15 mil crianças) residiam na França. Os anos
de guerra e as revoluções subseqüentes - casos de força maior e de urgência -
fizeram o resto, acabando com as últimas resistências: entre 1962 e 1968, num
conjunto de 162 mil argelinos que emigraram para a França, contavam-se mais
de 35 mil pessoas do sexo feminino (ou seja, 2 I ,60% ), dentre as quais 11 mil me-
ninas de menos de 6 anos (na data de sua chegada); no censo de 1968, a popula-
ção feminina - na qual deviam encontrar-se quase 60 mil mulheres adultas (com
mais de I6 anos) - representava a quarta parte do conjunto dos imigrantes argeli-
nos (122 540 em 471 mil argelinos)(Êm lll de julho de 1972, segundo o Ministé-
rio do Interior, as mulheres argelinas imigrantes na França eram 70 882 - uma
mulher para cada sete homens adultos imigrantes. A suspensão da emigração na
partida da Argélia (medida tomada por Argel no dia 18 de novembro de 1973) e
da imigração decidida pelo governo francês (dia 5 de julho de 1974) não conse-
guiu impedir (salvo episodicamente quando as portas foram fechadas~ e um
lado, a partida das famílias da Argélia e, do outro, sua entrada na Franç.(lj : afinal

tou mais de 66% dos imigrantes para os Estados Unidos; 83% entre 1906 e 1910); de homens que se
instalaram não nas terras do oeste do país mas, principalmente depois de 1870, nas áreas metropolita-
nas da costa atlântica e nos centros industriais do Norte (os censos de 1900, 1910 e 1920 davam res-
pectivamente 22,2%, 22,6% e 19,5% de homens brancos nascidos no exterior, ou seja, de mi~tes
europeus, nas cidades de mais de 2 500 habitantes, contra apenas 7,6%, 7,7% e 6,7% nos d1stntos
rurais); de homens ocupados não na agricultura e sim nas atividades indus_triais e_nos_tra_nsportes (ale-
mães, ingleses e, em parte, irlandeses nas atividades típicas da revolução m~u~tnal; 1tahanos n~s em-
re os não-qualificados do setor das minas, dos serviços da construção c1v1l ou nas profissoes ar-
fesinais ); de homens não definitivamente implantados no país, já que, durante o último quart_el do século
XIX, a taxa de retornos para o país de origem situava-se entre 30 e 40% do total ~as partidas par~ ~s
emigrantes britânicos, italianos, espanhóis notadamente (entre 1908 e 1915), mais de 50% dos um-
grantes para os EUA vOltaram para o país de origem. Para todos esses dados,. cf. .notadamente . W. F.
Willcox (ed.), Jnternational Migrations, New York, Bureau of Ec. Res., 1~29, repnnted m N.e~ York-
London- pans, · Gordon and Breach Publ ·• 1969' 2 vols..' citado por A. Bastemer e F. Dassetto, L Etranger
, · capita/is me et inégalités, FERES, Louvam-la-Neuve, 1977.
. . _ çaa m,·t,·ar argelina • Número de famílias
necess~ired, a 1m1graçao , : 1969: 183; 1972:. 1 685;. 1974:. 2 317;.
22. Evoluçao
l 975: 1 744; 1976: 2 590; 1977: 2 748; 1978: 2 542. Numero de pessoas : 1974. 5 663, 1975. 4 249,
1976: 5 832; 1977: 6 365; 1978: 5 565.

68
O QUE É UM IMIGRANTE?

de contas, podemos avaliar em cerca de J00 mi I o número de famílias argelinas


na França, quer tenham imigrado no âmbito do procedimento de reagrupamento
familiar, quer se tenham constituído na França por casamento realizado no seio
da comunidade dos imigrantes. Outro componente da imigração familiar infinita-
mente mais importante, tanto pelo volume de seus efetivos quanto pela amplitude
e complexidade dos problemas que gera, é constituído pela população das crian-
ças. Se o tamanho da família (três filhos em média), inferior ao tamanho médio
das famílias argelinas (4,7), atesta estrutura que ela adota na França- ela se apro-
xima da família conjugal que é regra-, atesta muito mais a juventude da popula-
ção imigrante: em 1968, 30% da população tinham menos de 17 anos (270 mil
crianças) , 17% de 17 a 25 anos; em 1975, 45,5% menos de 25 anos. Desde 1969,
nascem em média 19 500 crianças nas famílias argelinas na França; estima-se em
136 500 o total de nascimentos de 1969 a 1975, e para o ano de 1978 - 300 mil
crianças no total -, com cerca de 25 mil nascimentos, é uma criança que nasce a
cada vinte minutos! Na outra ponta da escala das idades, mesmo se ainda é restri-
to, o número de imigrantes que atingiram a idade da aposentadoria (5 300 em 1968
e 8 600 em 1975, ou seja, em ambos os casos, um pouco mais de 1% da popula-
ção global dos imigrantes argelinos) ou que se aproximavam dessa idade (6% ti-
nham mais de 50 anos em 1968, 4,5% tinham 55 ou mais em 1975), acaba de dar
da população argelina uma imagem diferente da convencionada: cada vez mais
ela se impõe como uma pequena sociedade relativamente autônoma que apresen-
ta todas as características (morfológicas, sociais, culturais) de uma formação, se
não integral e perfeitamente equilibrada, ao menos em via de compensar os dese-
quilíbrios antigos que trazia das condições iniciais de sua gênese.
Tudo isso faz com que os imigrantes argelinos, em relação ao que se espe-
ra de uma população de imigrantes e em relação ao que se gostaria que ela fos-
se, acumulem os paradoxos e, por isso, possam parecer muito menos "vantajo-
sos" do que no passado ou relativamente a outros imigrantes: assim, para tomar
apenas um exemplo e para compará-los apenas a outra população "próxima", se
a "vantagem" é atribuída à população que conta menos inativos e nesse sentido
acarreta menores despesas sociais - despesas julgadas (quando se trata de
imigrantes) sempre excessivas, porque não-produtivas diretamente e a curto pra-
zo -, os imigrantes argelinos têm uma taxa de atividade inferior à dos imigran-
tes marroquinos e tunisianos, que são mais freqüentemente, quando não solteiros,
ao menos isolados de suas famílias 23 • Além de um certo tamanho morfológico,

23. Como os desempregados estão incluídos entre os ativos, as taxas de atividade medidas nos censos de
1968 e de 1975 eram respectivamente, para os imigrantes argelinos, de 51% (conjunto dos homens e

69