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Inveterado Sedutor

Elizabeth Thornton

Copyright © 2004 by Mary George


Originalmente publicado em 2004 pela Kensington Publishing Corp.
PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP.
NY, NY - USA Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
Título original: A Virtuous Lady
Tradução: Renata Bagnolesí
Editora: Leonice Poraponio
Editoras de Arte: Ana Suely S. Dobón, Mônica Maldonado
Paginação: Dany Editora Ltda.
Ilustração da Capa: Hankins + Tegenborg, Ltd.
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme. 524 – 10° andar
CEP 05424-010 - São Paulo - Brasil
Copyright para a língua portuguesa: 2005
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Digitalização: Afrodite
Revisão: Josina
Resumo:

Londres, 1846

Determinação e ousadia despertam o desejo de viver um grande amor!

O marquês de Ravensworth, considerado o homem mais devasso de Londres estava


avidamente envolvido com sua conquista do momento quando a porta da biblioteca se abriu.
Na sua frente a meiga e comportada Samantha. Sua palavras ríspidas e ousadas intrigaram
fortemente Hugh Montgomery. O coração de Samantha de repente disparou. Sem entender,
ela se sentiu atraída pelo malicioso cavalheiro. Será que ela poderia mudá-lo?
Capítulo I

Os suaves acordes da orquestra subiam pela imponente escada de mármore italiano,


invadindo a tranqüilidade do quarto de Samantha Langland, que se preparava para dormir.
– Essa valsa não me agrada – comentou Andie, em tom de reprovação, observando
o reflexo pálido de Samantha no espelho da penteadeira de mogno. A ama escovava o
cabelo da jovem todas as noites, até ficarem macios como seda.
– Cem – murmurou ela, em seguida colocando a escova de prata em cima do móvel.
O fato de estar acontecendo um baile no grande salão de Broomhill House, no
vilarejo de Richmond, perto de Londres, não perturbava nem um pouco o equilíbrio da srta.
Langland. Samantha não apreciava bailes. Nunca tinha ido a um, acreditava que dançar era
algo frívolo e, portanto, detestava esse tipo de festividade.
A ama trançou-lhe o cabelo e fez um coque alto, que prendeu com um grampo. O
toque final foi um gorro de algodão, amarrado sob o queixo de Samantha. A jovem olhou no
espelho e reprovou sua imagem. Parecia uma menina de doze anos, e não uma mulher de
dezenove.
– Está na hora de você ir para a cama – disse a ama.
Samantha hesitou, pensando em lhe perguntar se poderia ler por alguns minutos
antes de apagar as velas. Entretanto, algo na figura rechonchuda da mulher a fez mudar de
idéia. Ela se deitou na cama e cobriu-se até o queixo.
– Você está muito magra, minha filha – comentou Andie. – Está sumindo diante dos
meus olhos. Vou preparar mingau de aveia todos os dias para você comer antes do seu café
da manhã inglês. – A ama era escocesa.
– Está bem, Andie – respondeu Samantha, resignada. Não tinha a menor intenção
de discutir com sua ama naquele momento.
Andie se aproximou da cama, estudando a jovem com mais atenção.
– E essas olheiras, então! Ah, minha querida, você precisa parar de sofrer. Seu pai e
sua mãe, que Deus os tenha, não gostariam de vê-la assim. Samantha, faz mais de um ano
que a tragédia aconteceu. Agora que o período de luto já passou, será que você poderia
mostrar um pouco de alegria? Não está contente morando aqui com seus tios?
Samantha engoliu em seco.
– Claro que estou contente, Andie. Só sinto um pouco de saudade da nossa casa e
da tia Charlotte. Nada além disso.
Andie olhou pensativamente para a jovem por mais alguns instantes.
– Dê tempo ao tempo, minha querida. Faz apenas quinze dias que você está aqui.
Não havia como ficar morando com a tia de seu pai. Uma jovem da sua idade não pode se
afastar da sociedade. Além disso, ela quase não conseguia cuidar de si mesma, quanto
mais de você e de Vernon. Aqui, você tem a companhia da sua prima Harriet. Londres não
tem tanto verde quanto Shropshire, mas você vai se acostumar.
– Richmond não é Londres, Andie!
– Mas é quase, minha jovem. E há muitas damas e cavalheiros interessantes por
aqui.
– Tia Esther se decepcionará se acredita que conseguirá transformar uma garota
quacre em uma fina dama.
– Sua mãe a educou para ser uma dama de verdade. Ela não era uma dama antes
de entrar para a seita protestante e tornar-se uma quacre?
– Mamãe sempre foi uma dama – concordou Samantha. – Afinal de contas, ela era
irmã do tio John.
– Então trate de se lembrar de tudo que ela lhe ensinou, mas tenha em mente que
você aprenderá outras coisas com seus tios.
Andie pensou em se desfazer de todos os trajes quacres de Samantha, vestidos
sombrios, cinza, quando pendurou um deles no armário de mogno. A jovem a observou com
afeição.
– Ah, Andie, o que eu faria sem você? Eu te amo.
– Samantha! - exclamou a ama, virando-se de repente. – Cuidado com as suas
palavras! Ah, minha querida, você sempre gostou de demonstrar seus sentimentos. Mas eu
lhe peço um pouco de cautela de agora em diante. O que seus tios diriam se a ouvissem?
Agradeço ao bom Deus por seu pai jamais ter permitido que você e seu irmão falassem
como os quacres.
– Ora, Andie! Você não sabe que a Bíblia foi escrita na linguagem quacre? E você é
puritana.
– Eu não sou puritana, Samantha. Sou presbiteriana escocesa.
– Não há diferença – provocou a jovem.
– Sassenachs! Samantha sorriu.
– Andie, acha justo usar esse dialeto escocês incompreensível e me negar o
privilégio de conversar na linguagem quacre?
– Não é a mesma coisa, e você sabe muito bem disso. Seu tio é o seu tutor, e o que
ele tolera em mim, jamais permitiria em você! E eu não gosto nem de imaginar o que sua tia
diria. Ela de certo teria uma crise nervosa.
Andie tinha razão, admitiu Samantha. Seus tios não gostariam de vê-la usando o
dialeto quacre. Seu pai nunca permitira que os filhos falassem na linguagem quacre, apesar
de achar charmoso quando a esposa o empregava.
A expressão de Samantha tomou-se pensativa.
– Andie, você sabe quais são as intenções da tia Esther para mim. Vestidos
elegantes, festas e bailes, concertos, peças de teatro e passeios, dentre outros programas.
Ela pretende que Vernon e eu ingressemos na alta sociedade. Não quero parecer ingrata ou
rebelde, mas como posso permitir? Como posso ser leal a tudo em que acredito, a tudo que
minha mãe me ensinou?
Andie MacNair estava aos pés da cama de dossel, olhando atentamente para o rosto
de sua adorada jovem.
– Sua mãe, como uma boa quacre, educou-a de acordo com os ensinamentos de
Deus. Ela sempre foi uma mãe muito dedicada. Seu pai também, apesar de não ser quacre,
era temente a Deus. Portanto é mais do que justo que você também honre a memória dele.
Agora seu tio é responsável por você. É seu dever lhe obedecer. Faça tudo que lhe pedirem,
sem achar que está pecando.
Os olhos de Samantha se encheram de lágrimas. Naquele momento, ela desejou ter
escutado mais a mãe, desejou ter sido mais condescendente, mais tratável. Desejou ter
aproveitado mais as horas que havia passado com a família.
Naquela manhã ensolarada de julho, porém, quando Samantha e o irmão
observavam os pais navegando pelas águas calmas do lago Windermere, quem poderia
prever que aconteceria uma tragédia? Quem poderia ter calculado que a tempestade vinda
do oeste se transformaria em um redemoinho tão de repente? Quem poderia ter previsto o
horror daquele dia?
Samantha, ensopada da cabeça aos pés e aterrorizada, tinha testemunhado tudo.
Nunca se esqueceria da cena que havia se transformado em um pesadelo constante.
Respirando fundo, ela esboçou um sorriso trêmulo.
– Boa noite, Andie. E obrigada... Obrigada por tudo. Andie MacNair aproximou-se
para beijar a testa da jovem.
– Deus a abençoe, minha filha. Tenha bons sonhos. Samantha ficou sozinha com
suas reflexões.
Ela e o irmão, Vernon, tinham sido educados de acordo com os dogmas quacres,
apesar de o pai continuar sendo anglicano. Samantha sabia que existiam quacres alegres,
que gostavam de música e de danças, e que usavam roupas coloridas. Mas sua mãe não
era assim. Jane Langland seguira as tradições quacres à risca.
O quarto começou a ficar quente, deixando-a agitada. Ela se descobriu e saiu da
cama, então caminhou até a janela aberta. A brisa fria de outono a fez voltar correndo para
vestir o penhoar. Seu aposento se localizava nos fundos da casa e, da janela, Samantha
avistava o rio Tâmisa brilhando com seu mistério. Ela imaginou as águas do rio na época
Tudor, cheias de barcaças coloridas transportando cortesãos sorridentes e suas damas para
a corte Hampton. Sir Thomas More tinha navegado por aquele rio desde sua propriedade
rural em Chelsea, passando pelo palácio de Richmond, até a nova e magnífica residência de
Henrique VIII.
A orquestra tocava a segunda valsa da noite. Samantha teria de aprender os passos
de todas as danças, mas não tinha a menor intenção de dançar algo tão vulgar quanto uma
valsa.
Ela não censurava os tios, sir John e lady Esther, por oferecerem um baile em sua
imponente mansão. Também não sentia a menor inveja por sua prima, Harriet, estar no
meio de todas aquelas pessoas da sociedade. Samantha Langland preferia não ir a bailes.
Pelo menos por enquanto. E os tios haviam permitido que ela não comparecesse. Vernon,
por sua vez, aos dezessete anos de idade, dois menos que ela, não tinha os mesmos
escrúpulos. Aceitara o convite sem pestanejar.
Não, Samantha não gostava de bailes. Apreciava um bom livro, mas, infelizmente,
não havia nenhum no quarto que lady Esther lhe reservara. Seus livros estavam vindo de
Shropshire e só chegariam no final da semana. Se ao menos tivesse algo para ler, ela
conseguiria adiar o pesadelo que a assustava todas as noites. Precisava encontrar um de
qualquer jeito.
Decidida, Samantha resolveu ir até a biblioteca do tio, que ficava bem longe do salão
de baile, e escolher algo que lhe agradasse e que fizesse o tempo passar.
Evitando a escada em espiral onde poderia encontrar algum convidado, Samantha
moveu-se com sua costumeira elegância, seguindo para a escadaria de funcionários. Então
desceu até o térreo.
Apertando o penhoar contra o peito, abaixou-se para pegar os chinelos e caminhou
na ponta dos pés pelo corredor deserto. As vozes no salão chegavam até ela. Samantha
tirou um castiçal de uma das mesinhas encostadas à parede e entrou na grande biblioteca.
Em seguida fechou a porta.

Capítulo II
No conforto da poltrona estilo rainha Anne, Samantha abriu os olhos e tentou se
lembrar onde estava. Por um longo instante, ficou olhando para as chamas das velas que
iluminavam o espelho em cima da lareira. O gemido abafado do outro lado da porta da
biblioteca invadiu sua consciência aos poucos, e Samantha tentou juntar forças para se
levantar, para afastar os vestígios de sono de seu rosto.
– Hugh? – A voz feminina era baixa e sensual. – Você não se preocupa com a minha
reputação? Os outros convidados notarão a nossa ausência!
A risadinha que veio em seguida afastou qualquer indício de censura. Samantha
ouviu o farfalhar de roupas de mulher, seguido de um suave protesto que foi logo abafado
por uma risada masculina. Ela franziu as sobrancelhas, curiosa. Não era tão inocente a
ponto de não compreender o que acontecia do outro lado da porta da biblioteca. A maçaneta
se virou, e os sentidos de Samantha entraram em alerta. Não tinha a menor intenção de
encarar o casal que estava prestes a... O pensamento desapareceu em sua mente sem ter
se formado por completo. Seria uma situação extremamente desagradável de presenciar,
pensou.
Quando viu a porta entreabrir-se, ela apertou o livro contra o peito. Então se
levantou. De repente, a porta foi escancarada, e Samantha ergueu o rosto, preparada para
enfrentar o inevitável encontro. Nada aconteceu. Por algum motivo inexplicável, o casal
demorou a entrar.
– Hugh! Não tenha tanta pressa! – Mais um suave protesto ignorado pelo cavalheiro.
– Pelo que me lembro, Adèle, foi você quem sugeriu este encontro. Se prefere que
eu volte para a sala de jogos, é só me dizer.
A conversa dos dois proporcionou a Samantha tempo suficiente para olhar a sua
volta em busca de algum lugar para se esconder. Então ela se lembrou da moderna
engenhoca que seu tio acabara de adquirir. A idéia lhe ocorrera quando ele visitava o
Parque Ostelery, a residência de seus vizinhos, o conde e a condessa de Jersey. O tio a
havia analisado na impressionante biblioteca de George Villiers e não sossegaria enquanto
não instalasse uma em sua própria residência. Era uma questão de orgulho e alegria.
Samantha deslizou até a parede do outro lado. Na ponta de uma das estantes de
livros, seus dedos encontraram um pino. Puxou-o, e a parede de estantes transformou-se
em uma porta. Ela entrou e fechou-a depressa atrás de si. Não era um esconderijo que lhe
agradava, afinal de contas tratava-se da sala de banhos de seu tio, reservada aos homens
quando eles queriam relaxar um pouco, longe dos problemas e de todos.
A escuridão a envolveu e, um pouco tarde demais, Samantha percebeu que
esquecera seus chinelos junto da poltrona ao lado da lareira. Mas não voltaria para buscá-
los por nada deste mundo. Agora só lhe restava ter paciência. E muita. Estava determinada
a esperar o casal decidir ir para outra parte da casa. Um quarto, talvez. E logo, pois o chão
de mármore sob seus pés descalços a fez se arrepiar. Samantha puxou o penhoar contra
seu corpo esbelto, na tentativa de afastar o frio.
Longos minutos se passaram, e seus dentes começaram a bater. O frio naquele
lugar estava se tomando insuportável. Samantha colou o ouvido à parede, mas não
conseguiu escutar nada além de sua própria respiração trêmula. Sua impaciência foi
aumentando.
Com o máximo de cuidado, abriu a porta, torcendo para que os intrusos já
estivessem bem longe dali. Doce ilusão. Foi acolhida pelos gemidos e murmúrios dos
amantes. Ela abriu um pouco mais a porta da passagem secreta e viu o casal acomodado
no sofá de brocado de seda de sua tia. O cavalheiro havia acomodado a jovem sob seu
corpo. Samantha deu um passo para trás, escandalizada com aquele tipo de
comportamento. Quem eram aqueles dois? Que liberdade eles tinham para estar ali? Mais
um gemido. Foi o suficiente para ela decidir que já suportara demais.
Ergueu o livro com capa de couro que segurava e jogou-o com toda sua força contra
a lareira, onde ele caiu com um grande estrondo. Adèle emitiu um grito histérico, e depois
tudo ficou no mais profundo silêncio.
– Diabos! – exclamou Hugh Montgomery, o marquês de Ravensworth.
Com dedos trêmulos, Samantha fechou a porta e voltou para o seu esconderijo na
passagem secreta. Havia um sorriso em seus lábios.
O marquês se levantou, desvencilhando-se das mãos de sua companheira. Em pé,
ele ajeitou a gravata e olhou ao redor da espaçosa biblioteca, prestando atenção em tudo.
Seus olhos pararam no tapete em frente à poltrona, e um sorriso malicioso se formou em
seus lábios. Ao olhar para a mulher ao seu lado, entretanto, o sorriso desapareceu.
– Arrume-se, Adèle! – ordenou, olhando-a com desdém. Adèle sentou-se no sofá e
tentou alisar seu vestido de seda amarrotado.
– O que foi isso? – perguntou ela, em um fio de voz, evidentemente temendo ser
descoberta ali naquele estado. Adèle focalizou o rosto do homem que lhe fazia companhia
naquela biblioteca. Hugh Montgomery exalava sensualidade por todas as partes do corpo.
Ela observou as feições aristocráticas relaxadas, meditando sobre algo. Seu ar de confiança
inabalável o deixava ainda mais encantador. Adèle estendeu um braço, tentando puxá-lo
para baixo, de volta para o sofá. Dedos fortes apertaram-lhe o punho e, segundos depois,
ela estava em pé.
– Agora chega, Adèle. Nosso esconderijo não é mais secreto – disse Hugh,
colocando um dedo contra os lábios. – Seja uma boa moça e saia daqui. Mais tarde nos
encontraremos.
A jovem entreabriu a boca para protestar, mas um olhar para a expressão de
Ravensworth foi o suficiente para fazê-la mudar de idéia.
– Você promete? – perguntou ela, esperançosa.
– Como?– Era evidente que o marquês perdera o interesse na mulher.
– Acho que o visconde de Avery está tramando algo contra nós. – Adèle não tentou
controlar a irritação. – Seu amigo não gosta muito de mim, não é?
O tom de voz de Ravensworth foi perfeitamente amigável.
– Já que está perguntando, a resposta é não. Mas não se preocupe, minha cara.
Cada um tem seu gosto, e o dele é reputado ser difícil, ou melhor, impossível de contentar.
Adèle não soube dizer se se tratava de um elogio ou não. Preocupada com seu
próprio problema, tentando decidir se bancava a ofendida ou respondia à altura, caso
conseguisse pensar em uma resposta, ela se deixou levar até a porta.
Não, não cederia com tanta facilidade. Adèle tinha usado todas as suas armas para
atraí-lo de volta a seus braços, mesmo que por pouco tempo. E quase conseguira. Não que
o marquês pretendesse ser tão constante quanto um amante. Não, ele fazia questão de não
esconder das mulheres que o rodeavam que várias delas tinham o privilégio de esquentar
sua cama. Não apenas uma.
Sua sinceridade em relação a esse assunto era ultrajante, além de ofensiva, para
uma mulher de posses. Ela, uma verdadeira beldade, uma condessa legítima, viúva de um
conde, não poderia ser rotulada como amante de Ravensworth. Seria uma mancha em sua
reputação.
O marquês não mostrava preferência por um tipo específico de mulher, e aproveitava
o que cada uma tinha a oferecer com uma casualidade que, em outros homens, seria
considerado um comportamento depravado. Mas Ravensworth era Ravensworth, um
mulherengo, um boêmio, um notívago. Apesar disso, um grande sedutor. Poucas eram as
mulheres que resistiam aos seus encantos. Adèle St. Clair não era uma delas.
Ela alisou o peito do marquês.
– Você sabe onde me encontrar? Eu ainda tenho aquela casa na rua Duke.
– Sim, eu me lembro – respondeu ele, evasivo. Então abriu a porta e, praticamente, a
empurrou para fora.
– Você vai me encontrar mais tarde? – insistiu Adèle.
– Se for conveniente – respondeu Ravensworth. Seu olhar era impenetrável.
Palavras exasperadas surgiram nos lábios dela, porém morreram sem serem
proferidas, diante da inflexibilidade na expressão do marquês. Resignada, Adèle inclinou a
cabeça condizente, mas antes que pudesse á bientôt, a porta se fechou.
Ravensworth se virou na biblioteca e, com alguns passos, alcançou a poltrona antes
ocupada por Samantha. Ele então se acomodou e cruzou as pernas. Depois de alguns
instantes de silêncio, o marquês se inclinou para pegar o livro caído. Tratava-se de um
romance gótico daqueles que as moças adoravam.
– Pode sair do seu esconderijo, chérie – disse ele, pegando um pé do chinelo no
chão, que analisou com o máximo de atenção.
Nas profundidades de seu esconderijo, Samantha estremeceu. Puxou a porta de seu
refúgio, as segurando-se de que se encontrava longe das garras daquele homem. Seria sua
ruína. Um lápis, perigosamente colocado na ponta da estante, rolou para a frente, balançou
por alguns momentos, então caiu no chão de madeira. Ravensworth ouviu o barulho e,
segundos depois, estava diante da porta secreta. Em um piscar de olhos, ele a abriu. Nas
mãos, segurava um candelabro, o que lhe permitiria enxergar com perfeição a pessoa que
havia estragado seu encontro romântico com a bela viúva. Quando o marquês viu a figura
de uma jovem fitando-o com solenes olhos cinza, o sorriso sumiu imediatamente de seus
lábios. Em seus 29 anos de vida, Ravensworth jamais vira aquela mulher.
Após alguns minutos de silêncio, ele sentiu a raiva crescendo dentro de si. Esperava
encontrar algo bem diferente.
– Quem é a senhorita? E por que estava me espionando? Apesar de sua aparência
dizer o contrário, Samantha não era uma pessoa que se apavorava com facilidade. Não se
deixaria intimidar pelo comportamento arrogante daquele homem. Juntando toda sua
dignidade, ela saiu da sala de banhos.
– Eu lhe peço desculpas. Faz muito tempo que está esperando? A sala de banhos
está vazia agora.
– Como? – Ravensworth mostrou-se perplexo com a pergunta. Ele colocou o
candelabro em cima da mesa mais próxima.
Samantha não tinha a menor intenção de fustigar a ira daquele jovem cavalheiro com
uma conversa sobre amenidades. O caminho até a porta da biblioteca estava desocupado, e
ela se aproveitou da situação. Ravensworth foi mais rápido, porém, impedindo-a de escapar.
Em outras circunstâncias, Samantha teria admirado a beleza viril do Adônis moreno
que barrava sua saída. De repente, ela se conscientizou do poder de seu adversário, e
parou como um animal infeliz que, sem querer, acabou despertando um tigre adormecido.
O homem se aproximou dela. Se gritasse pedindo socorro, quem poderia ajudá-la?
Quem a escutaria? O salão de bailes se localizava no andar de cima, e não havia nenhum
motivo para os convidados descerem. Samantha tentou relaxar. Aquele homem era
convidado de seu tio e, portanto, subentendia-se, um cavalheiro. Em tese. A lógica
prevaleceu.
– Quem sou eu? O senhor acreditaria em anjo da guarda?
Samantha percebeu, pela tensão no maxilar dele, que sua tentativa de brincadeira
falhara.
– Anjo da guarda? – repetiu Ravensworth. – Poderia me fazer a gentileza de se
explicar melhor?
– Um anjo da guarda... para uma dama em apuros.
– E o que a senhorita pretendia guardar, se me permite a pergunta?
Agora não havia como voltar atrás.
– A virtude dela, é claro. – Samantha obrigou-se a olhá-lo tom determinação. A
expressão dele permaneceu impassível.
O marquês apoiou o corpo contra a porta, o que aliviou um pouco a tensão de
Samantha.
O olhar de avaliação de Ravensworth analisou com minúcia a garota trêmula que o
encarava com tanta determinação. O pedaço de renda preso à cabeça dela escondia os
cabelos trançados, e o penhoar, abotoado até o pescoço, lhe dava ares de avó. Seu
sotaque era refinado, porém suas roupas, um tanto quanto simplórias. Uma governanta,
quem sabe, ou uma dama de companhia.
– Quem lhe deu permissão para julgar os outros?
– Não me lembro de estar julgando alguém. Além disso, acredito que, se pensar
bem, o senhor não pode me acusar dessa maneira. A moça protestou, mas o senhor não
quis escutar. Ela disse “não”, e o senhor insistiu. Que tipo de mulher deixaria uma irmã em
tamanho perigo?
– A senhorita não passa de uma criança! – exclamou o marquês, balançando a
cabeça diante da figura inocente parada à sua frente. – A moça não estava de má vontade.
– Eu a escutei recusando-o. – Samantha era obstinada.
– Diga-me, srta. Virtude – começou Ravensworlh com voz controlada –, seu “não”
sempre significou “não’” e seu “sim”, sempre “sim”?
– Exato.
– A senhorita não pode estar falando sério.
– Claro que estou. Como é possível a comunicação entre as pessoas se dizemos
uma coisa que significa outra? Imagine a confusão!
– Srta. Virtude, a senhorita é a moça mais engenhosa que já conheci na vida, ou a
mais ingênua.
– Por quê? O que está querendo dizer? – perguntou ela, franzindo o cenho.
O marquês riu.
– Não seja ridícula! A senhorita sabe o que estou querendo dizer. O que aconteceria
com os galanteios, os flertes, se as pessoas dissessem exatamente a verdade?
Samantha o olhou com insolência.
– Tais fatos, suponho eu, teriam sua morte natural.
– E a senhorita não se arrependeria?
– Eu? Claro que não! Por que deveria?
Ravensworth pareceu incrédulo, depois confuso, e, por fim, descrente.
– Está me dizendo que nunca diz uma mentirinha, que nunca esconde parte da
verdade, que nunca trapaceia quando se encontra em uma situação delicada?
– Nunca!
– Eu não acredito!
– Quer tentar?
Aquela história estava indo longe demais. O marquês de Ravensworth jamais
recusava um desafio. Um brilho devasso iluminou-lhe o olhar.
– Com todo o prazer.
Em um movimento veloz, ele se afastou da porta e tomou Samantha em seus
braços. Ela abriu a boca para expressar seu protesto, porém antes que pudesse dizer uma
única palavra, a boca de Ravensworth se aproximou e ele a beijou.
Hugh Montgomery era um amante experiente. Sabia como acabar com a resistência
da mais relutante das mulheres. Sua boca deslizou ao longo dos lábios chocados de
Samantha, moldando-os com um ardor calmo, deliberado, suave, experimentando,
saboreando-a com um prazer persuasivo.
Foi o primeiro beijo de verdade de Samantha, e ela se encantou. Relaxou contra os
braços fortes e entreabriu mais os lábios, permitindo ainda mais aquela invasão. O marquês,
por sua vez, não se fez de rogado para se aproveitar do gesto inconsciente. Ravensworth
aprofundou o beijo, deliciando-se com o doce sabor de Samantha. Ao sentir a resposta
inocente, um ligeiro tremor, ele ficou ainda mais encantado. Passou a provocá-la,
despertando-a para o desejo masculino. Apertando-a cada vez mais contra seu corpo, o
marquês continuou com as carícias, querendo conhecer tudo que Samantha tinha a lhe
oferecer. Uma tormenta de emoções, contagiante e crescente, tomou conta de ambos,
enlevando-os.
Foi o próprio marquês quem finalizou o beijo. Afastando a cabeça, ele concentrou-se
nos olhos de Samantha. Claro que ela quisera seduzi-lo!
– Por que eu a beijei? – perguntou o marquês, ao mesmo tempo surpreso e
maravilhado.
– Imagino que o senhor estivesse querendo provar alguma coisa – respondeu ela tão
logo recobrou o fôlego.
– Estava? Ah, sim, agora me lembro! A senhorita quer que eu a beije outra vez?
– Não – sussurrou Samantha.
– Mentirosa! – A palavra foi uma carícia. Ele baixou a cabeça para capturar-lhe os
lábios de novo, porém Samantha se esquivou.
– O senhor não entende. Eu não nego que não tenha gostado da experiência. Como
não poderia? Mas não acho que beijar seja... saudável.
– E posso saber por quê?
Samantha estendeu os braços para o marquês analisar.
– Meus dedos estão formigando. Ravensworth encantou-se com aquela pureza.
– A senhorita ganhou. A senhorita realmente não tem malícia. Agora, acho que
gostaria de beijá-la de novo.
Samantha, entretanto, já tinha recuperado a compostura quacre. Ela recusou a oferta
com educação e determinação.
– Quem é a senhorita? – perguntou ele. – E não me venha com essa história de anjo
da guarda.
– Quem sabe eu não seja sua nêmesis?
– Minha nêmesis? – Ele riu. – Ainda não nasceu mulher que consiga superar Hugh
Montgomery, minha cara.
– Eu consegui! – Ela deu um sorriso acanhado, e o coração de Ravensworth parou
por um segundo. As covinhas mais adoráveis surgiram nas bochechas de Samantha. –
Entretanto – continuou ela, olhando-o agora com seriedade –, eu não desejo seu mal. Na
verdade, desejo-lhe tudo de bom.
– É mesmo? Por quê?
– E por que não?
– A senhorita nem me conhece – disse ele. – Ainda.
– Ora, sr. Hugh Montgomery! Desde quando o fato de desejar o bem de uma pessoa
depende de conhecê-la? Eu desejo o bem de todas as pessoas do mundo.
– Até mesmo de bandidos e assassinos? – perguntou ele, zombeteiro.
– Claro. Isso não significa que eu torça para que eles consigam fazer o mal. Seria
uma grande tolice da minha parte.
– Concordo!
– Agora é o senhor que está zombando de mim.
– De forma alguma. Eu jamais ousaria.
Os olhos dele eram calorosos. Samantha não se atreveu a sustentar aquele olhar.
Baixando os olhos, viu os próprios pés descalços e lembrou-se dos chinelos. Em uma
demonstração de gentileza, Ravensvforth pegou-os e calçou-os nos pés de Samantha. As
mãos dele estavam quentes, e mesmo assim ela sentiu um arrepio percorrer-lhe o seu
corpo. Uma explosão de risada serviu para introduzir a realidade de volta.
– Quem é a senhorita? Pelo menos me diga o seu nome.
Samantha ficou séria. Não queria que aquele homem soubesse seu nome. Pelo
menos por enquanto. Ele abriu a porta e deixou-a passar. Seu sorriso era dos mais
encantadores e envolventes.
– Então, nêmesis do lorde Ravensworth, fique atenta! Eu não permitirei que a
senhorita me supere outra vez.
O marquês observou Samantha se afastar por uma porta que imaginou ser a entrada
para a escadaria da criadagem. Admitiu que seu interesse estava aguçado, porém só um
pouco. Ela era uma moça comum. Mas sua nêmesis? Ravensworth não tinha tempo para
lidar com mulheres difíceis. Havia outras bem mais fáceis e cheias de amor para dar.
Precisava apenas estender o braço para conseguir o que queria. Mesmo assim, admitiu ele,
relutante, demoraria algum tempo para esquecer aquele beijo.
Capítulo III

Lady Esther Grenfell era uma mulher bonita e elegante de quarenta e oito anos que,
em sua juventude, fora considerada uma das jovens mais esplendorosas da época. Naquele
momento, ela encontrava-se sentada em sua cama bebendo uma xícara de chá. Ao que
tudo indicava, seria uma manhã pouco agradável. Seu marido, sir John, não parecia muito
bem-humorado. Como um tigre enjaulado, caminhava de um lado para outro diante da
cama, lançando-lhe olhares irritados.
– Esther! – disse ele em tom de acusação. – Sua filha foi longe demais. E
incorrigível! Você não tem o menor controle sobre o comportamento dela? Harriet precisa de
uma boa surra, e se ela não mudar suas maneiras de hoje em diante, é exatamente o que
acontecerá.
Lady Esther mordiscou um pedaço de torrada.
– Meu querido – começou ela, em um tom de voz calmo –, Harriet é jovem e
inexperiente. Sei que, algumas vezes, seu comportamento parece ser... ousado, mas ela é
uma moça com um excelente coração.
– Parece ser ousado? Querida, o comportamento de Harriet “é” ousado. Você não
entende, minha dileta esposa, que a nossa filha está ganhando a reputação de namoradeira,
atrevida, indisciplinada e bagunceira?
– Não exagere, meu amor.
Sir John ergueu o dedo indicador.
– Vamos enumerar, meu amor. Item um: um noivado rompido; item dois: fumar
cigarros nos jardins de Carlton House; item três: uma corrida desenfreada de carruagem até
Twicke-nham, quando ela quase quebrou o pescoço. Por fim, item quatro: embebedar-se no
Almack’s. No Almack’s, por Deus! E ainda por cima, insultar lady Jersey! Não, não tem o
menor cabimento. O comportamento dessa menina está cada vez pior.
– Quer dizer que também Sally Jersey foi enganada? – perguntou lady Esther,
suprimindo um sorriso.
– Você não quer entender o que quero dizer, Esther. A falta de conduta de sua filha
está maculando o nome da nossa família.
Lady Esther levantou-se da cama e caminhou até a penteadeira.
– Eu, realmente, não concordo com algumas atitudes de Harriet.
– E eu não concordo com todas! – continuou sir John. – Ela só causa problemas. E é
um atrás do outro. Onde foi que erramos? Dos nossos seis filhos, ela é a única que nos
causou esse tipo de problema.
–Sim, todos os outros sempre se portaram muito bem.
– Por que Harriet não pode ser como eles?
– Quer saber por quê, meu amor? – disse lady Esther, olhando com afeição para o
marido. – Porque a nossa filha mais nova puxou o pai.
– Você está se referindo ao meu comportamento na juventude. Foram tolices de um
garoto. Permita-me adverti-la, Esther, que a conduta aceita em homens é totalmente
abominada em mulheres.
– E mesmo? – Lady Esther tirou uma mecha de cabelos grisalhos da testa do
marido. – Pelo que me consta, o comportamento de sua irmã Jane, a mãe de Samantha, foi
impecável nos últimos anos. Antes, porém, ela deu muita dor de cabeça aos seus pais. Foi a
má reputação dos Grenfell que fez com que meu pai demorasse a concordar com o nosso
casamento. Você só começou a se preocupar com o nome da sua família quando, nosso
primeiro filho nasceu.
Sir John manifestou a intenção de falar algo, mas lady Esther prosseguiu depressa:
– Você melhorou, eu sei, se é o que pretendia dizer. E eu não tenho a menor dúvida
de que Harriet também melhorará.
– E quando devemos esperar que isso ocorra? Hoje? Amanhã? Ano que vem?
– Torço para que ela siga os passos do pai, querido. Quando o homem certo
aparecer na vida de Harriet, ela fará tudo que estiver ao seu alcance para merecer a
consideração dele.
– Você se deu conta de que a inscrição de Harriet para o AImack’s foi cancelada? –
perguntou John, lembrando-se de ter mais uma carta na manga.
– Sim, e qual é o problema?
– Qual é o problema? Eu não acredito que você não perceba a importância de uma
atitude sem precedentes como essa. Ela foi excluída de um dos bailes mais tradicionais da
temporada londrina.
– Bah!– Lady Esther despiu a camisola e vestiu uma blusa de algodão quase
transparente. O marido estudou o corpo esbelto da esposa com apreço.
– Esses patronos do Almack’s acreditam que seus poderes estão acima de todos. A
nossa família encontra-se em um patamar bem mais superior. Eu, realmente, não me
importo em passar as noites de quarta-feira com mulheres tão estúpidas que fingem ser
modelos do bom comportamento. São todas hipócritas! Todo mundo sabe que a sogra de
Sally Jersey foi bastante ousada no passado. E ninguém se atreve a dizer nada. E o pior é
que Sally se considera o modelo da boa conduta para jovens como a nossa Harriet. – A voz
de lady Esther evidenciava toda sua indignação.
Sabiamente, sir John não expressou sua opinião.
– Entretanto, acredito que Harriet deva enxergar seus erros sozinha.
Lady Esther colocou o vestido azul de cambraia, e o marido se ofereceu para ajudá-
la a abotoá-lo. Azul sempre fora a cor predileta da esposa, pensou ele, observando-a passar
o pente pelos cachos escuros. Mesmo agora, depois de trinta anos, John ainda agradecia
por haver conseguido conquistar uma mulher tão incrível quanto Esther Woodward, a
beldade de sua primeira e única temporada. Tivera de ser muito persistente para conseguir
convencê-la a ceder aos seus encantos.
– Minha querida esposa – disse John, colocando as mãos nos ombros dela e
olhando-a pelo espelho –, diga-me o que você tem em mente.
Esther foi até o quarto de vestir que, por conveniência e privacidade, eles tinham
transformado em um santuário particular. Ela sentou-se em uma poltrona e indicou para o
marido sentar-se à sua frente. Antes de obedecer, ele pegou um cigarro e o acendeu.
– Pode começar, minha querida. Você tem minha total atenção.
– John, Harriet não é o nosso único problema. De certa maneira, uma maneira bem
diferente eu diria, sua sobrinha Samantha também será um grande dilema para nós.
– Bobagem! – Sir John foi enfático. – Samantha é uma jovem virtuosa. Ela é doce,
não é frívola, podemos confiar no que diz, e jamais se envolverá com sujeitos do tipo que
parecem encantar tanto a nossa teimosa filha.
– Meu amor, ela é uma quacre.
– E qual é o problema?
– Eu não sei ao certo, porém você não acha que Samantha é um pouco moralista
demais?
– Como assim?
– Bem... por exemplo, os vestidos que encomendamos chegaram esta semana. São
modelos lindos, discretos e modestos para uma jovem participar de sua primeira temporada.
Eles a vestiram com perfeição. Todavia percebi que havia algo de errado quando ela
começou a experimentá-los.
– O quê?
– Eu custei a perceber que qualquer vestido cortado abaixo daqui – Lady Esther
indicou a metade de seu colo – foi preenchido com um pedaço de renda.
– Demonstra que a minha sobrinha tem a discrição adequada para uma garota da
sua idade.
– Meu Deus, como você mudou! E não é só isso. Samantha é tão honesta que chega
a ser grosseira. Se alguém lhe perguntar a opinião sobre um assunto, ela responde sem
pensar nas conseqüências.
– Não seja ridícula. Se alguém pergunta a opinião de uma pessoa a respeito de
determinado assunto, espera-se que a resposta seja verdadeira. Samantha me parece
bastante direta.
– Eu concordo, querido, mas não é assim que funciona a sociedade. Ela tem muito a
aprender. Sendo assim, acho que encontrei a solução perfeita.
Esther sorriu, satisfeita consigo mesma.
– E eu posso saber qual é?
– Perguntei à nossa filha se ela gostaria de ser mentora de Samantha e mostrar-lhe
como agir perante a sociedade.
Sir John pareceu ter perdido a fala. Ficou alguns instantes em silêncio, raciocinando.
– Você perdeu o juízo? Nossa filha não seria capaz de ensinar um pescador a
ingressar na sociedade. Samantha não precisa dos conselhos de Harriet.
– Não seja tão obtuso, meu querido. – As palavras eram duras, mas os modos de
Esther, calmos. – Harriet dará um bom exemplo a Samantha. Ou você acha que a nossa
filha seria capaz de ensinar algo errado à prima?
– Esther, espero que você saiba o que está falando. Eu tenho as minhas dúvidas
sobre esse plano. Para mim, o mais certo seria o contrário.
– Mas, John, Harriet é muito teimosa para ser corrigida por uma garota tão educada
quanto Samantha!
– Exatamente!
– Você tem uma opinião tão ruim assim a respeito de nossa filha?
Havia um lampejo de irritação nos olhos de lady Esther.
– Claro que não, meu amor. Não precisa proteger sua cria de mim. Eu apenas
gostaria que ela fosse um pouco mais parecida com a mãe.
– Mas Harriet é como você, John. Quantas vezes precisarei repetir a mesma coisa?
E é por ela ser tão parecida com o pai que eu a considero a mais adorável e a mais
encantadora de nossos filhos.
– Esther!
– Não me repreenda. Estou sendo honesta, virtude que você acabou de confessar
que admira. Harriet pode ser um pouco rebelde, mas ela é uma garota muito alegre e cheia
de vida. Foram essas as qualidades que me encantaram quando eu o vi pela primeira vez.
Ah, John, você era tão cheio de vida... – Ela tocou o braço do marido. – Eu não gostaria que
o espírito alegre da nossa filha se quebrasse.
– Isso não acontecerá, meu amor. – John cobriu a mão delicada da esposa com a
sua. Momentos depois, ele a puxou, obrigando-a a se levantar e sentar-se em seu colo. –
Você acredita que este homem idoso está um pouco menos animado ultimamente?
– Seu mentiroso!
Ela o olhou com falsa indignação.
– Vamos corrigir esse problema agora mesmo, esposa minha. – Sir John abraçou
lady Esther por longos momentos.

– Preste atenção – pediu Harriet Grenfell. Dois pares de olhos observavam seus
movimentos com extrema atenção.
– Tudo deve ser feito com o máximo de elegância. Pegue a caixa de rapé com a mão
direita e passe-a para a esquerda. Assim. Então bata na caixa com a ponta do dedo
indicador da sua mão direita. – Ela reproduziu o gesto. – Agora, Vernon, preste muita
atenção. Aqui está o truque. Abra a caixa com um estalido de seu dedão esquerdo. – Harriet
o fez com agilidade. – O pulso precisa estar relaxado. Se você abrir a caixa de rapé com
muita pressa, todo o pó poderá cair. Agora, ofereça a caixa para a pessoa que estiver mais
próxima de você. – Ela estendeu a caixa de rapé aberta. – Experimente um pouco, prima.
Samantha olhou para a caixa.
– Parece canela. Como se faz?
– Assim – respondeu o irmão, orgulhoso de sua sabedoria. – - Pegue uma pitada
entre o indicador e o polegar. – Ele olhou para Harriet, pedindo confirmação. Samantha
seguiu o exemplo do irmão. – Eu vi lorde Ravensworíh cheirar rapé durante o baile – disse
Vernon, tentando se explicar.
Samantha sentiu um arrepio ao ouvir o nome.
– Não. Não coloque diretamente no nariz – advertiu Harriet. – Esfregue entre seus
dedos antes. Então inale delicadamente com cada narina. Assim.
Os dois repetiram o gesto da prima. – É gostoso– disse Samantha, espirrando logo
em seguida. – O que eu fiz de errado?
– Você cheirou demais – respondeu Vernon.
– Espero aprender com a prática.
– Não vai não, querida irmã. Essa é uma diversão exclusiva dos homens.
– Como assim? – Samantha olhou para a prima em busca de ajuda. Harriet deu de
ombros.
– Um dos costumes ridículos impostos pela sociedade e que deve ser cumprido.
Algumas mulheres não obedecem, mas normalmente são mulheres mais velhas, e não
jovens presas a essas normas como nós.
Um relógio sobre o mármore da lareira soou as horas, advertindo Vernon.
– Droga! Meu tutor está me esperando e eu não posso me atrasar. Estou tendo um
pouco de dificuldade com o grego. Com licença, caras damas. – Ele se levantou para deixar
o pequeno salão amarelo, que era usado apenas pelos membros mais jovens da casa. À
porta, Vernon se virou. – Samantha, você acha que poderia me ajudar durante uma ou duas
horas esta noite com as lições de grego do sr. Keith? As suas explicações são bem mais
claras.
– Será um prazer.
– Prima Harriet, posso pedir também a sua ajuda na arte de cheirar rapé?
– Claro – respondeu ela, ainda encantada com o fato de a prima ser uma erudita.
A porta se fechou e Samantha voltou a se concentrar no assunto em questão.
– Harriet, seus movimentos são tão delicados. Estou enganada ou você tem prática
no assunto?
Harriet sorriu com malícia.
– Eu jamais ousaria cheirar rapé em público. Mas quem poderá saber que o faço em
particular? Quem se importa? Eu já vi mulheres cheirando rapé em público dos dedos de um
homem, mas nunca passa disso. Experimente de novo. – Harriet colocou uma pitada de
rapé na ponta dos dedos e estendeu-os a Samantha. Dessa vez, ela não espirrou tão
depressa.
– Os principiantes sempre exageram no começo. O segredo é cheirar um pouquinho.
Se a pessoa espirra logo ou faz careta ao cheirar, o efeito não é o mesmo,
– Posso experimentar?
– Claro. – Harriet passou a caixa de rapé para a prima, concluindo que Samantha era
bem mais corajosa do que parecera a princípio.
Samantha repetiu várias vezes os movimentos, até tê-los aperfeiçoado.
– Eu gostei e não vejo mal algum em cheirar rapé de vez em quando.
– Concordo com você.
– Então, Harriet, quem sabe não possamos cheirar rapé vez por outra? Será nosso
segredo.
– Ótima idéia – respondeu a prima, entusiasmada. Samantha provou ser uma
excelente companhia, e Harriet encantou-se com sua mais nova amiga, pois a prima, apesar
de ser uma jovem extremamente recatada, não a recriminava por determinadas atitudes.
Todavia, no quesito dizer a verdade, nada além da verdade, Samantha mantinha a
firmeza. Em meio aos membros da família Grenfell, não havia nada de mau nisso, uma vez
que ela não costumava manifestar sua opinião sem ser solicitada. Apenas aqueles que
queriam um parecer realmente sinceros pediam que Samantha se manifestasse. Isso,
porém, pouco acontecia.
O comportamento cândido de Samantha poderia ser encarado como impertinente
pela sociedade, e Harriet, no papel de mentora, usava todo seu charme para ajudá-la a sair
de alguma situação delicada.
Lady Grenfell assistia, atenta, à interação das jovens, observando com alegria a
intimidade cada vez maior entre as duas. Ficou contente ao notar que, sob a tutela de sua
filha, o comportamento austero de Samantha tinha se tomado um pouco mais relaxado.
Também não pôde deixar de observar que a companhia da prima estava tendo um efeito
benéfico sobre as atitudes de sua filha. Sentiu-se orgulhosa por seu plano estar
funcionando. Pelo menos, diante dos olhos do pai, Harriet começara a se comportar nos
moldes de uma verdadeira dama da sociedade. Tanto que sir John até permitiu que ela
voltasse a usar a carruagem para pequenos passeios.
Capítulo IV

O marquês de Ravensworth estava em seu escritório, no segundo andar de Albany


House, em Piccadilly, Mayfair, na companhia de seu grande amigo, o visconde de Avery. Os
dois fumavam charutos Havana sentados em frente à lareira. Depois de alguns instantes de
silêncio, o cavalheiro de cabelos escuros levantou-se e, endireitando o corpo, caminhou até
a janela.
– A neblina está um pouco forte – comentou ele, como forma de explicação.
– É verdade – observou o companheiro de cabelos claros. Ravensworth voltou para
seu lugar. O visconde de Avery retomou a conversa de onde a haviam interrompido.
– Não que eu quisesse reprimi-la, mas imagino que um futuro marido deva ter certa
voz ativa na conduta de sua noiva. Eu apenas quis conter os exageros de Harriet.
– Eu concordo com você – disse Ravensworth. – Sendo luna jovem de berço e muito
bem-educada, Harriet Grenfell precisa ser um pouco mais discreta. Seu comportamento
deixa muito a desejar. – O marquês soltou lentamente a fumaça de seu charuto. – Em uma
mulher de outra classe social, essa atitude não acarretaria nenhum problema. As pessoas
talvez até considerassem uma provocação. Em uma esposa de alta linhagem, porém, seria
um comportamento inaceitável. Como você conseguiu convencê-la a terminar o noivado?
– Eu não a convenci – respondeu o visconde com certo pesar. – Foi idéia de Harriet.
Eu apenas lhe disse que ela teria de escolher entre a originalidade e a mim. Harriet ficou
com a primeira.
– Você está arrependido? – perguntou Ravensworth, espantado por notar a
decepção na voz do amigo.
– Claro que estou! Você acha que eu quero me envolver com uma dessas jovens
sem graça que minha mãe fica jogando para cima de mim? O casamento é para a vida
inteira, meu amigo.
– Ora, Avery, você sabe que os homens podem ter outros interesses, se a esposa
não for tão cativante.
– É, eu sei. – O visconde deu de ombros. – O problema é que perdi completamente o
interesse nas outras mulheres, inclusive nas mais bonitas. Percebe a situação em que me
encontro?
– Meu Deus! – exclamou Ravensworth. – E mais sério do que eu pensava! Não fazia
a menor idéia de que você estava apaixonado, meu amigo. Harriet conseguiu virar a sua
cabeça!
– Tenho de admitir que sim – respondeu Avery com um sorriso, tentando melhorar o
humor.
Um criado entrou e ajeitou a madeira na lareira. Em seguida perguntou a
Ravensworth se desejavam algo e então se retirou.
– Sendo assim, o problema adquire um aspecto completamente diferente. Você não
tinha me contado que estava apaixonado pela jovem.
– E o que isso muda? Harriet não fará o mínimo esforço para realizar os meus
desejos, e eu não tenho a menor intenção de ceder.
– Case-se com ela primeiro, depois obrigue-a a lhe obedecer!
– Você enlouqueceu, Ravensworth? – Avery estava incrédulo.
– De forma alguma, meu amigo. – Estou apenas usando a massa cinzenta entre as
minhas orelhas. Pense um pouco! Por que o comportamento de Harriet Grenfell é tão
exótico? Por que ela não se adapta aos padrões da sociedade?
– Está no sangue. O pai dela, pelo que ouvi dizer, também era assim.
– Você está chegando perto, meu caro. A srta. Harriet Grenfell está acostumada a
manipular os pais. Entretanto, quando ela se casar, de quem será a autoridade?
– Do marido, é claro.
– E se você fosse esse marido?
– Ravensworth, aonde você quer chegar? – Uma pontada de impaciência surgia na
voz de Avery.
– Lembre-se: um marido, se souber como agir, tem poderes para guiar sua esposa.
Ele pode ameaçá-la de uma série de maneiras. Privá-la de um vestido novo, de se encontrar
com as amigas. Você pode até enviar Harriet para uma de suas propriedades no Norte, se
ela não se comportar como uma mulher casada.
– Harriet não gostaria nem um pouco de ser tratada assim.
– Claro que não, seu tolo! Esse é o ponto em questão. Uma mulher é como uma
potranca. Ela precisa que lhe coloquem as rédeas.
As palavras de Ravensworth penetraram lentamente no cérebro do visconde de
Avery.
– E assim que você pretende tratar sua esposa quando chegar a sua hora?
– Sem a menor sombra de dúvida! Isto é, se eu tiver o azar de me casar com uma
jovem que ouse me desafiar. Esse dia, porém, está bem longe de chegar.
– O quê? Já encontrou alguém que despertou seu interesse? Achei que nunca fosse
ouvi-lo falar em casamento.
– Sempre há um rabo de saia a minha volta, e você sabe bem disso. Mas tudo que
eu continuo a oferecer é a minha cama. Nada mais.
– Um dia desses, Ravensworth, você vai encontrar sua nêmesis, e eu espero estar
por perto para testemunhar o fato.
O marquês, que levava o charuto aos lábios, ficou imóvel.
– O que você disse? – Ele pareceu chocado. Avery repetiu o comentário.
Ravensworth exalou um anel de fumaça, que subiu devagar até o teto do aposento.
– Eu acho que já a conheci. – A voz dele não continha a menor emoção.
– E mesmo? – O interesse do visconde se acendeu. – E?
– Não foi nada de mais. Eu conheci uma garota no baile dos Grenfell. Na verdade,
não foi exatamente no baile, e sim na biblioteca.
– O que você fazia na biblioteca da casa deles?
– Eu estava com Adèle?
– Entendi. Continue.
Ravensworth ficou pensativo, lembrando-se daquele momento.
– Ela me disse que o meu beijo lhe causava arrepios.
– Você só pode estar brincando. Quer dizer que beijou outra mulher enquanto estava
com Adèle?
– Claro que não. Ela se livrou de Adèle.
– Como? Ela se livrou de Adèle? Corajosa essa jovem, hein!
– Eu diria ingênua.
– Quem é ela? – perguntou Avery, impaciente por conhecer a identidade da moça
que havia encantado seu amigo.
– Eu achei que você pudesse conhecê-la. Os Grenfell contrataram alguma
governanta ou dama de companhia nos últimos tempos?
– Não que eu saiba. Espere! Harriet me disse que sua prima está aqui. E uma jovem
quacre de Shropshire.
– Nunca ouvi falar nesse lugar. – Ravensworth ficou quieto por alguns instantes. – O
que é quacre?
– Quacres são membros de uma seita protestante, a Sociedade dos Amigos. Não sei
mais detalhes. Pelo pouco que Harriet me disse, eles são pessoas extremamente virtuosas..
– Ah... Que pena!
– Por quê? Você está interessado?
– Só um pouco. Por acaso ela é a prima pobre?
– Não posso afirmar. Talvez. Mas a formação dela é impecável. Gostaria de ver a
árvore genealógica da família dessa jovem? Eu consigo, se você quiser. – O rosto de Avery
se contorcia em sorrisos.
– Não há necessidade. Eu não estou pensando em me casar.
– Não? Então é melhor tirar a garota da cabeça. Ravensworth olhou com curiosidade
para o amigo.
– Eu falo sério, Ravensworth – advertiu ele. – Essa jovem não é daquelas que cedem
aos seus encantos. Estou lhe dizendo, meu amigo, que ela é cheia de virtudes. Nem pense
em tentar corrompê-la.
– Você se esqueceu que a moça permitiu que eu a beijasse? Não forcei nada. Além
disso, a virtude não lhe dará tudo que eu tenho a oferecer.
– Tenho plena convicção de que ela não aceitará nada que venha de você, nem de
qualquer outro homem, que não seja com a bênção da Igreja.
– Avery, você é um romântico incurável – zombou o marquês, encarando-o.
– E você é tolo e cínico – respondeu o visconde.
Ravensworth ficou em silêncio.
– Vamos ver – comentou ele depois de alguns instantes. – Vamos ver.
Depois de um longo silêncio, Ravensworth recostou-se na poltrona. Ao observar a
atmosfera esfumaçada de seu escritório, ele franziu o cenho.
– O ambiente aqui está insuportável – disse. – Vamos tomar um pouco de ar fresco?
– O marquês apagou o charuto e levantou-se com determinação.
– Onde? – perguntou Avery, pegando sua capa. – No Hyde Park?
– Não. – Ravensworth ajeitou sua gravata impecável. – Um pouco mais longe. Que
tal irmos até Richmond? Gostaria de visitar uns amigos que não vejo há tempos.
Lorde Avery abriu um grande sorriso.
– É mesmo? Por acaso seus amigos têm algum parentesco com os Grenfell de
Richmond?
Ravensworth deu um tapa nas costas do visconde.

Richmond Park, uma vasta extensão de terra que Charles I reservara como área de
caça, ficava a alguns minutos de carruagem de Broomhill House. Não se imaginava que
algum membro do beau monde se encontrasse lá àquela hora do dia, pois Richmond ficava
a cerca de nove quilômetros de Londres e apenas os cavaleiros mais entusiasmados se
aventuravam tão longe. E, geralmente, no começo da tarde.
Samantha e Harriet não tinham o parque só para elas, pois os moradores de
Richmond e das vizinhanças gostavam de aproveitar os encantos daquela área selvagem.
Entretanto, em uma área de mais de dois mil acres, cavaleiros e carruagens não
costumavam se cruzar. Não logo cedo.
Depois de um passeio tranqüilo na carruagem de Harriet, em que as duas se
revezaram para conduzi-la sob os olhos de um criado a cavalo, elas pararam perto de
alguns alamos. Harriet instruiu o criado a levar Duster para beber água. Evans obedeceu
sem pestanejar, deixando-as sozinhas.
– Você se incomoda se eu fumar? Samantha não sabia se tinha escutado direito.
– Como?
Harriet repetiu a pergunta.
– Eu não vejo mal nenhum. Fique à vontade.
– Excelente. – Harriet tirou um pequeno cigarro de dentro de sua bolsa. – Eu não
fumo em casa porque papai não aprova. Mas de vez em quando gosto me dar ao luxo. Quer
fumar comigo?
Samantha agradeceu e observou com atenção a prima acender o cigarro e aspirar
profundamente.
– Soltando uma nuvem de fumaça! – exclamou Samantha. Harriet riu.
– Vejo que você conhece a canção dos homens. Imagino que tenha escutado de
Vernon.
– Sim.
Uma carruagem se aproximou e as duas a acompanharam com os olhos. Dois
jovens de fino trato, observou Samantha. Um moreno, o outro loiro. À medida que a
carruagem foi diminuindo a velocidade, ela concentrou o olhar no cavalheiro moreno. Ele lhe
pareceu familiar.
Uma capa preta cobria os ombros largos. Então ele tirou as luvas e o chapéu e
passou a mão no cabelo encaracolado. Tinha o rosto queimado pelo sol, e os lábios, que
começaram a sorrir, eram carnudos e...
– É Avery – disse Harriet, referindo-se ao homem loiro. – Pegue! Tome o cigarro! –
No instante seguinte, Samantha viu o cigarro entre seus dedos.
– Srta. Grenfeil, como vai? – perguntou Ravensworth. – Imagino que sir John tenha
se esquecido de seu último passeio, um tanto quanto desastroso. Como conseguiu
convencê-lo? -– Ele olhou para lorde Avery e sorriu.
Samantha reconheceu a voz e sentiu o coração disparar. Ela viu Ravensworth se
aproximando com a carruagem e observando-a com atenção. Era uma garota modesta, mas
não puritana. Sendo assim, o fato de não desviar os olhos quando o cavalheiro a fitava com
tamanha intensidade não pareceu vulgar.
– Permitam-me lhes apresentar... – começou Harriet, ligeiramente frustrada.
– Minha nêmesis – interrompeu-a Ravensworth sem desviar o rosto de Samantha. –
Eu reconheceria esses olhos em qualquer lugar.
– Esta é minha prima, srta. Samantha Langland – finalizou Harriet. – Vocês se
conhecem?
– Nós ainda não fomos formalmente apresentados. Ravensworth, a seu dispor,
minha jovem. Este é o meu amigo lorde Avery.
Samantha cumprimentou-os com um delicado aceno de cabeça. Ravensworth,
lembrando-se da noite do primeiro encontro de ambos, da confissão de que o beijo dele a
deixara trêmula, abriu um belo sorriso. Só para Samantha. Ela, por sua vez, sentia apenas o
cigarro queimando sua mão.
– Fumando, srta. Langland? – perguntou Ravensworth, com uma nota de censura. –
Cuidado com esse cigarro no meio dos seus dedos. A senhorita pode se queimar.
– Imagino que a srta. Grenfeil esteja lhe ensinando as proezas das damas da
sociedade – declarou lorde Avery.
Samantha observou a cor surgir nas bochechas de Harriet e sentiu um forte ímpeto
de agir em nome da prima. Como aqueles homens ousavam condená-la por estar fumando,
hábito que eles cultivavam com freqüência? Não havia nada de mau, nenhum motivo para
culpa ou vergonha, ponderou ela.
– Querem fumar comigo? – perguntou Samantha, supondo que aquela fosse a
etiqueta correta sobre fumar.
– Obrigado – respondeu Ravensworth. – Não deixe que a nossa presença a
atrapalhe nesse prazer que parece tanto lhe agradar.
Samantha sentiu-se impelida a continuar. Com os gestos elegantes que vira a prima
fazendo, levou o cigarro aos lábios rosados. Então inalou e exalou quase em seguida.
Naquele instante, descobriu que não gostava de fumar, mas não daria sua opinião se não
lhe pedissem. Ela tentou outra vez.
– Muito bem, srta. Langland – comentou Ravensworth. – Pelo menos para uma
primeira vez. Agora que já provou que é bastante audaciosa, por que não se livra dessa
coisa ridícula?
O comentário incitou Samantha a continuar com a indiscrição. Levou o cigarro à boca
mais uma vez. Por infelicidade do acaso, ela aspirou muito profundamente. Então começou
a tossir sem parar. Samantha tentou recuperar o fôlego, e lágrimas escorriam por seu rosto.
De repente, Ravensworth estava ao lado delas na carruagem,
– 0-Obrigada– sussurrou ela, ainda arruinada com o acesso de tosse.
– Não foi nada – respondeu o marquês, enxugando-lhe o rosto com seu lenço de
Unho. – Harriet, seja uma boa menina e vá com Avery. Alguém precisa ser responsável por
estas duas. Avery! – chamou ele. – Vamos levar estas donzelas para casa.
Samantha segurou o lenço contra o nariz enquanto se recuperava. Assim que
melhorou, ela se deu conta de que a carruagem de Avery já havia desaparecido. Com sua
prima Harriet. Ao olhar para Ravensworth, viu que ele sorria.
– Por favor, srta. Langland, livre-se desse objeto odioso – pediu ele, olhando para o
cigarro na mão dela.
Envergonhada, Samantha deu um sorriso tímido e surpreendeu-se com o olhar de
seriedade que de repente viu no rosto do marquês. Ela obedeceu depressa, jogando o
cigarro para fora da carruagem. O cigarro fez um círculo no ar e caiu no lombo de um dos
cavalos que conduziam o veículo.
Por um momento, nada aconteceu. Depois, foi um pandemônio geral. O cavalo saiu
em disparada, obrigando o outro a acompanhá-lo. Ravensworth segurou as rédeas com
força, ao mesmo tempo que tentava puxar Samantha para o seu lado, impedindo-a de cair
para fora.
Ela se deixou proteger pela mão forte de Ravensworth e fechou os olhos,
preparando-se para o pior.
Alguns quilômetros adiante, quando sentiu o ritmo frenético da carruagem diminuir,
Samantha abriu os olhos devagar. Os cavalos pareciam ter se acalmado, e Ravensworth,
sério, controlava-os com facilidade. Ela esperou, pálida, pelo acesso de fúria. Com dedos
trêmulos, Samantha ajeitou o chapéu.
– Está tudo bem, srta. Langland? – perguntou ele, com a voz calma.
– Sim, acho que sim – ela respondeu, segurando as mãos para acalmar o tremor.
Ravensworth tirou sua capa e colocou-a ao redor dos ombros de Samantha.
– Pronto. A minha capa vai mantê-la aquecida. Foi uma experiência bastante
chocante, mas a senhorita se mostrou muito corajosa.
– Não foi a primeira vez que estive em uma carruagem em disparada. Por favor,
verifique os cavalos. Sinto-me responsável por tudo que aconteceu e não quero que esses
pobres animais sofram ainda mais.
Ravensworth ignorou o pedido e tirou um pequeno cantil do bolso.
– Beba – ordenou ele. Samantha hesitou.
– Beba – repetiu Ravensworth.
Ela tomou um gole e sentiu um calor descendo por sua garganta e quase engasgou
outra vez. Pouco depois o tremor parou.
Quando viu que Samantha havia se recuperado, Ravensworth entregou-lhe as
rédeas. Então desceu da carruagem para ir olhar os cavalos.
– Não aconteceu nada com eles. Tivemos sorte. Acho melhor deixá-los descansar
um pouco.
Com certa dignidade, Samantha começou a pedir desculpas e a agradecer, mas
Ravensworth a interrompeu.
– Eu soube que a senhorita é uma quacre, srta. Langland.
– Minha mãe era quacre – corrigiu-o Samantha. – Eu apenas tento seguir os
princípios dela.
– O fato de a ter surpreendido fumando me espanta. Senhoritas quacres costumam
fumar?
– Ora, não há regras. Cada um segue a própria consciência no que diz respeito à
conduta pessoal – explicou ela com seriedade.
– É uma resposta bastante conveniente.
-– Não é assim para todos os quacres. Para aqueles que não se preocuparam em
desenvolver uma consciência, talvez seja conveniente. Mas não para mim.
– Entendo. Está querendo dizer que eu não tenho consciência?
– E tem? – Samantha perguntou, lembrando-se da cena na biblioteca.
– Não muita! Por quê? Algum problema? Houve uma pausa.
– Sim, para mim é um problema – ela respondeu, sincera.
– E mesmo? E posso saber o motivo? – Ravensworth viu o olhar de dúvida de
Samantha e riu. – Sei que a senhorita é uma dama propensa a admitir um erro.
– Se o que diz fosse mesmo verdade, lorde Ravensworth, o senhor seria um
insolente.
– E a senhorita realmente acha que eu sou um insolente? – Eu?– Samantha ficou
surpresa com a pergunta tão direta.
– Eu não o conheço direito. Como poderia dizer?
– Srta. Langland – começou ele com mais seriedade –, peço-lhe para não formar
uma opinião precipitada sobre a minha pessoa levando em consideração o nosso primeiro
encontro.
– Ravensworth tossiu para mascarar seu constrangimento. Samantha, por sua vez,
não deu o menor sinal de que o assunto a incomodava, como seria o caso para a maioria
das mulheres.
– Sim, continue.
– A senhorita pode ter interpretado mal. Aquela jovem sabe como eu sou e não
estava comigo de má vontade. Samantha ficou em silêncio.
– Eu posso não ter muita consciência, srta. Langland, mas não sou um insolente! Eu
sou um homem honrado.
– Entendo – Samantha respondeu com indiferença.
– A senhorita me aceita como tal?
– Como um homem honrado? Se o fato lhe satisfaz...
– Não lhe satisfaz?
– Já que pergunta, não!
– Por que não? Ela deu de ombros.
– Honra! Qual é o código de honra que vocês homens seguem, milorde? Ele serve a
quem? Quem dita as regras? Como a honra pode ser satisfeita por meio de duelos e
disputas? Entretanto, é nisso que os homens acreditam. Não, eu não creio que um homem
honrado possa ser comparado a um homem consciente.
Ravensworth ficou surpreso com o desdém na voz de Samantha.
– O importante, cara senhorita, é que se eu lhe dou a minha palavra, deve acreditar.
Samantha começou a mexer em suas luvas, e Ravensworth percebeu que ela não
queria prolongar o assunto. Ele, por sua vez, não tinha terminado. Não podia deixar a
história acabar assim.
– Acredita em destino, srta. Langland?
– Por quê?
– Porque estou começando a acreditar que a senhorita é a minha nêmesis. Os
deuses a enviaram a mim?
– E por que os deuses lhe enviariam tal punição? – Pelo meu mau comportamento.
– O senhor é a única pessoa que se arrepende do seu mau comportamento ?
– Eu disse que me arrependo?
Samantha olhou bem dentro dos olhos de Ravensworth, como se quisesse ler a
mente dele. Olhos azuis honestos, encimados por sobrancelhas espessas e curvadas.
Olhos expressivos, cheios de calor, diversão e algo mais escondido em suas profundidades.
– Ora, srta. Langland, não se pode esperar que urh homem consciente se arrependa
de seu mau comportamento.
– E um homem honrado?
– Um homem honrado não se comporta mal. Os olhos cinza de Samantha
analisaram a expressão de Ravensworth.
– E então? Não tem como responder?
– Eu não compreendo – confessou ela, reservada.
– Em termos claros – disse Ravensworth, tomando-lhe as mãos entre as suas –,
gostaria que soubesse que, por mais que eu não seja tão virtuoso quanto outros homens,
tenho escrúpulos. Pode confiar em mim quando digo que sou um homem honrado.
– Obrigada – Samantha agradeceu, antes de se entregar a mais um de seus
silêncios.
Ravensworth pegou as rédeas de volta.
– Acho que os cavalos já se recuperaram. Vamos encontrar sua prima? – O tom do
marquês foi o mais natural possível.
Durante todo o caminho de volta, não foi dita nenhuma palavra a respeito de
consciência ou honra, porém Samantha ficou meditando sobre o discurso dele. A lógica lhe
dizia que lorde Ravensworth era um homem perigoso, mas seus instintos lhe enviavam uma
mensagem completamente diferente. Ela decidiu que não havia nenhum mal em serem
amigos, se ele desejasse, claro, pois sua consciência estava tranqüila.

Capítulo V

As gélidas temperaturas da primavera do ano de 1814 não influenciavam o bom


humor de lady Esther e sir John. Com Napoleão Bonaparte confinado em Elba, a Inglaterra
desfrutava de um período de paz com a Europa continental pela primeira vez depois de mais
de vinte anos. A confiança do público chegara a tal ponto que muitas das unidades de
Wellington haviam sido dispersadas, e outras tinham cruzado o Atlântico para juntar forças
com os legalistas do Canadá contra os Estados Unidos da América.
Embora as notícias das colônias não fossem das melhores, os Grenfell tinham um
motivo especial para todo aquele contentamento. Estavam comemorando o nascimento do
mais novo neto, filho da filha mais velha do casal, que vivia com o marido e os outros filhos
na cidade de Bath. Lady Esther e sir John decidiram passar algumas semanas na casa da
filha, que nunca lhes havia causado qualquer tipo de problema.
No curso normal dos acontecimentos, nada teria persuadido pais tão zelosos a
deixar a filha impertinente e rebelde sozinha, mas lady Esther se viu abençoada com o que
chamava de “transformação” no comportamento de Harriet. Ela era outra pessoa, não se
podia negar. Lady Esther não sabia se essa mudança se devia às investidas de lorde Avery,
que pareciam estar surtindo algum efeito, ou se a prima quacre exercia um efeito benéfico
no caráter da jovem. Mas isso não importava. O fato de o comportamento da filha, em
público ou em particular, fazer jus a uma dama da sociedade lhe era suficiente. Lady Jersey,
a leoa do Almack’s, chegara até a insinuar que Harriet receberia um convite para uma das
reuniões. Os pais da jovem ficaram eufóricos diante da simples possibilidade.
A convicção de ambos em relação à transformação da filha era tamanha que eles
não viram motivos para Harriet e Samantha não começarem a desfrutar a temporada
londrina, uma vez que as pessoas retomavam à cidade. Desde o início, a intenção do casal
fora hospedar as duas na casa da tia Sophia, que seria a dama de companhia das jovens.
Richmond, onde se localizava a mansão dos Grenfell, era longe demais para duas
debutantes que gostariam de estar em meio ao burburinho da sociedade.
Com a consciência tranqüila, os membros da criadagem se despediram de
Samantha e Harriet, que saíram para Londres na carruagem da família. Andie aceitou ir
junto até Bath para cuidar do bebê recém-nascido, sabendo que seria mais útil por lá.
Entretanto, ela deixou bem claro que seria apenas por algum tempo, devido à lealdade ao
ramo Langland da família. E embora não tivesse sido dito, a ex-babá tinha a esperança de
cuidar dos filhos de sua querida menina. Em um futuro bem próximo.
Vernon deveria permanecer em Broomhill House por mais um tempo. Ele logo
ingressaria em Oxford, portanto precisava aperfeiçoar a gramática e sintaxe da língua grega.
Foi com um sorriso melancólico que se despediu da irmã e da prima, prometendo que assim
que terminasse com aquele “inferno”, ele se apresentaria na rua Half Moon. Samantha não
gostava de deixá-lo sozinho em Richmond, pois desde que haviam se mudado para a casa
dos tios, o irmão abandonara o comportamento recatado dos pais e demonstrava todos os
indícios de que se transformaria em um verdadeiro dândi, como todos os jovens de seu
novo círculo de amigos. Ela sabia que não havia muito a fazer para reter os impulsos de um
jovem inclinado à leviandade, uma vez que a influência de uma irmã não contava.
Sobre uma pessoa, todavia, a proximidade de Samantha surtia efeito. Harriet,
durante os meses seguintes ao acidente da prima na carruagem, vinha sofrendo dos piores
traumas de . consciência que já passara na vida. O fato de Samantha jamais ter reclamado
por Harriet ter colocado o cigarro na mão dela paia salvar a própria pele aumentava ainda
mais o remorso da jovem. Ela acreditava que seu comportamento fora pior do que apenas
repreensível, mas quando tentara pedir desculpas, Samantha insistira em dizer que não
havia a menor necessidade. Ser desculpada com tanta facilidade a fez sentir-se ainda pior.
Ravenswoith e Avery não perderam a oportunidade de repreendê-la pelo ocorrido.
Samantha, por sua vez, não proferira uma única palavra de censura. A consciência de
Harriet a asfixiava. Aos poucos, ela percebeu que Samantha era tão original e
inconvencional quanto ela sempre sonhara ser, e o fato não lhe agradava em nada. Ao
contrário, a descoberta passou a ser uma preocupação. No passado, Harriet nunca se
importara com o que os membros da sociedade pensavam sobre seu comportamento
insolente. Contudo não toleraria nenhum tipo de comentário, nenhum ostracismo para com a
prima a quem tanto admirava. Tinha tomado uma decisão: nenhum ato ousado de sua parte
levaria Samantha a cometer uma gafe perante a sociedade. Harriet prometera a si mesma
que se tomaria uma garota-modelo. Seu orgulho, todavia, estava profundamente ferido.
Lorde Avery, com quem Harriet rompera o noivado em um momento de fúria após ele ter lhe
dado um ultimato, partia seu coração. Ah, como sentia saudade dele,.. De seu noivo. Mas
Harriet era uma moça muito orgulhosa. Não faria nada para reverter a situação. O primeiro
passo teria de partir dele.
Desde o incidente com a carruagem, Avery passava grande parte do tempo em sua
companhia, junto com o amigo Ravensworth. Sua intuição feminina lhe dizia que seu ex-
noivo não era completamente imune aos seus encantos. Além do mais, seu comportamento
condizia com o que ele esperava de sua futura esposa. Entretanto, Avery não dava nenhum
indício de que lhe pediria para reatar o romance. A preocupação atormentava a pobre
Harriet.
Samantha também estava inquieta com as atenções do amigo de Avery. À medida
que seu relacionamento com Ravensworth se tornava mais, próximo, Samantha tinha a
impressão que o marquês começava a nutrir sentimentos mais profundos por ela. Essa
noção, entretanto, saiu de sua mente quando ele lhe explicou, com ares de confidente, que
o duque de Dalbreck poderia não se casar com a mulher que ele amava, pois se esperava
que fizesse uma bela aliança. Aquelas palavras a desapontaram um pouco, uma vez que
Samantha achava o marquês de Ravensworth o homem mais lindo que conhecia, mesmo
admitindo que ele não era um partido adequado para uma jovem quacre de respeito.
Quando começou a perceber que estava se apaixonando por um homem com quem tinha
pouco em comum, um homem que não fazia a menor questão de esconder seu lado
libertino, ela suprimiu tais emoções e tratou de se concentrar em uma direção mais
adequada para a sua modesta educação. No entanto, não era nada fácil evitar a companhia
de Ravensworth, pois tanto ele quanto Avery pareciam ter muitos conhecidos em Richmond
e em Twickenham. Os dois compareciam a todas as pequenas reuniões organizadas para
espantar o tédio dos longos meses de inverno. Samantha não demorou a notar que mesmo
um homem de reputação duvidosa como Ravensworth era muito bem recebido pelas
anfitriãs das festas. Quando comentou o assunto com Harriet, a prima lhe explicou que,
apesar da fama de mulherengo do marquês, ele se comportava como um verdadeiro
cavalheiro nessas ocasiões, e que era uma honra para as pessoas recebê-lo em sua casa.
Samantha não conseguia entender os motivos que levavam Ravensworth a procurar
sua companhia, já que o marquês fizera questão de deixar bem claro que o pai pretendia
que ele se casasse com outra mulher. Sendo assim, ela não via a hora de ir para Londres,
onde esperava conhecer pessoas e ambientes novos. Queria que suas tentativas de evitar o
homem que a deixava tão atordoada não parecessem tão óbvias.

O marquês de Ravensworth sorriu com malícia diante de seu reflexo no espelho em


seu quarto de vestir em Albany House. Seu criado pessoal, Denby, que aguardava
pacientemente para ajeitar-lhe o casaco, observou o olhar do patrão e se pôs a imaginar em
que ele estaria pensando.
Com gestos elegantes, o marquês deu o nó em seu lenço de seda e estudou o
resultado com olhos críticos. Os cabelos desgrenhados e cacheados caíam-lhe no rosto,
característica marcante de todos os Montgomery.
Ele permitiu que o criado alisasse a superfície de seu casaco.
– O que você prefere? – perguntou Ravensworth. – O diamante ou a safira?
Denby olhou para o patrão da cabeça aos pés.
– Acho que a safira se destacaria mais, milorde. – Ravensworth esticou o braço para
a caixa de madeira que o criado segurava. – Muito previsível, porém. Posso sugerir o
diamante?
Ravensworth sorriu diante da sagacidade do criado enquanto colocava o alfinete de
diamante no lenço em seu pescoço. Denby sentia-se muito orgulhoso quando o patrão, um
homem de extremo bom gosto, lhe pedia opinião a respeito de um traje.
– É uma ocasião especial, milorde? – perguntou Denby, vendo-o passar o perfume
de que mais gostava. O marquês não parava de se olhar no espelho.
– Pode-se dizer que sim, Denby. Acho que será uma noite excepcional. Eu arriscaria
até dizer inesquecível.

Harriet Grenfell bancava a dama de companhia da prima ao ajudá-la a se vestir para


a pequena reunião que seria o primeiro evento de ambas na temporada. Ela tentava ajeitar
os cabelos de Samantha, enrolando-os em seus dedos e prendendo-os com grampos na
parte superior da cabeça. As mechas, todavia, escorregavam-lhe dos dedos e caíam pelas
costas da prima.
– Santo Deus! – exclamou Harriet, exasperada. – Nunca vou conseguir arrumar o
seu cabelo. Por que não pedimos para tia Sophia cortá-lo? Este corte está muito fora de
moda, minha querida. Não prefere um cabelo curto como o meu? – Harriet levou a mão às
madeixas na altura da nuca, orgulhosa de sua aparência.
– Deixe comigo – disse Samantha, pegando as mechas com suas mãos hábeis. Sem
olhar no espelho, fez um coque solto e prendeu-o na nuca com alguns grampos. Em
seguida ela abriu uma gaveta e pegou um xale de renda, que colocou ao redor dos ombros
para esconder parte de seu colo nu. Harriet quase chorou.
– Samantha, minha prima querida, você não pode estar pensando em ir a uma festa
vestida desse jeito!
– O que há de errado com o meu vestido? – perguntou ela, examinando o traje de
musselina.
– Não há nada de errado com o seu vestido – respondeu Harriet. – - São os toques
adicionais que não estão caindo muito bem. Olhe para mim. Há algo de errado com a minha
aparência? Você acha que a minha roupa é indecente?
Samantha olhou para o vestido da prima, que era muito parecido com o seu, a não
ser pela cor. Era de musselina azul-clara, combinando perfeitamente com os olhos de
Harriet.
– Claro que não. Você está linda, Harriet.
– Então, por que você insiste em se vestir assim? Por que não se veste como eu?
– Porque – começou Samantha, paciente – eu preciso ser fiel a mim mesma. – Suas
bochechas enrubesceram quando olhou para a prima. Mas Harriet não se deixaria vencer
com tanta facilidade.
– Samantha, eu estou pensando apenas na sua felicidade. Não me agradaria
nenhum pouco vê-la triste. Por favor, acredite em mim! Você nunca encontrará um parceiro
para dançar vestida assim. Eu sei do que estou falando. Os jovens cavalheiros são... Bem,
eles querem distância de moças que parecem puritanas.
Samantha estava se divertindo com a conversa.
– Você acha que eu sou puritana?
– Claro que não! Quem melhor do que eu para saber que você não é puritana? Mas
é a idéia que a sua aparência passa.
– Quando eles me conhecerem um pouco mais...
– Eles nunca irão conhecê-la melhor, Samantha – interrompeu-a Harriet, elevando o
tom de voz. – Por favor, desculpe-me por estar sendo tão sincera, mas a sua aparência é,
no mínimo, excêntrica. Aliás, é pior do que excêntrica. Você parece uma intelectual.
Nenhum cavalheiro se atreveria a vir falar com você.
Samantha ficou estupefata.
– Harriet, esse é o estilo que eu adotei, e os cavalheiros não me evitaram em
Richmond.
– Eu concordo com você. Mas aonde fomos em Richmond? Apenas a festas
familiares nas casas vizinhas, passeamos pelo parque. Não foi nada de mais. A reunião
dessa noite será de primeira grandeza. Não é tão grande quanto um baile, mas bem mais
importante do que as festinhas de Richmond. Por favor, Samantha, permita-me aconselhá-la
nesse assunto.
Nenhum tipo de persuasão de Harriet conseguiria fazer Samantha mudar de idéia.
Ela não acreditava que todos os cavalheiros pudessem ser tão frívolos a ponto de se afastar
de uma moça por causa de sua aparência pudica. Foi com o coração pesado que Harriet
acompanhou a prima e a tia Sophia à festa da condessa de Blaine em sua mansão na praça
Cavendish. Seria uma noite desastrosa, pensou ela.

Capítulo VI

Samantha queria apenas uma coisa: um buraco escuro e cavernoso onde pudesse
ficar sozinha e chorar sua miséria em paz. A princípio, pareceu-lhe que seria uma noite de
grandes alegrias e diversão, uma noite repleta de novidades. Até os convidados começarem
a dançar no salão adjacente. Em um momento ela se encontrava no meio de um grupo
animado de moças, conversando e rindo, no outro se viu sozinha, deserdada por todas, que
haviam sido convidadas para dançar. Apenas Harriet ficou com a prima, rodeando-a como
se temesse perdê-la de vista. Arruinar a noite de Harriet era o pior de tudo. Mas nada do
que Samantha dissesse a convenceria a sair de seu lado e a dançar com um dos jovens
cavalheiros. Nem mesmo Avery conseguiu persuadi-la.
E assim elas ficaram sentadas entre as viúvas, ou passeando com Avery. Samantha,
porém, tinha plena consciência dos olhares pesarosos das mulheres em sua direção. Nunca
esperara ser uma garota popular, mas sim ter um círculo de amigas agradáveis. Contudo,
até esse pequeno prazer lhe seria negado. A vida na sociedade poderia ser muito cruel,
descobriu ela.
Perto do final da noite, Ravensworth apareceu, deixando Samantha ainda mais
aborrecida. Diante de seus olhos, ele era o homem mais elegante e mais bonito de todo o
salão. E com esse pensamento veio a lembrança do que a prima lhe dissera sobre seus
trajes. Temendo ver piedade nos olhos dele, como linha visto nos olhos de tanta gente
aquela noite, Samantha baixou o rosto.
Ela observou a desenvoltura com que o marquês ia de grupo em grupo,
cumprimentado, conversando com todos, mostrando-se um membro muito querido. Quando
Ravensworth ergueu o olhar em sua direção, Samantha baixou os olhos lembrando-se dos
conselhos da tia Esther, dizendo que era rude encarar os outros.
Foi com grande surpresa que ela recebeu o convite de Ravensworth para dançar.
Nem teve tempo de negar, de lembrar de sua promessa de jamais se submeter a algo tão
vulgar. Não que não apreciasse danças, mas valsa, especificamente, não lhe agradava.
O marquês não tirara os olhos de Samantha desde que a vira pela primeira vez na
festa. A roupa dela o surpreendeu. Como Samantha tivera coragem de aparecer daquele
jeito a um evento na sociedade? Por um instante ele se irritou por ela ser tão
despreocupada em relação à aparência. Mas depois de um momento de reflexão, a raiva
desapareceu. Nenhum cavalheiro se aproximava dela. E Samantha era a culpada. O fato
não o comovia. Não, uma situação como essa poderia se tomar vantajosa para ele.
Samantha ficaria mais receptiva diante do que ele estava prestes a lhe propor para o futuro.
Uma vez que ela estivesse sob a sua proteção, Ravensworth pretendia vesti-la com as
melhores roupas, presenteá-la com as melhores jóias.
O marquês se divertiu com os cavalheiros que ignoravam Samantha. Enquanto
perseguiam diamantes que julgavam ser de primeira linha, mulheres que eram apenas
aparência, Hugh Montgomery lhes arrancaria o prêmio da vitória com grande facilidade. Ele
riu involuntariamente ao pensar no assunto. Mas logo ficou sério, lembrando-se de que fora
apenas um acidente do destino que a colocara em seu caminho. Em circunstâncias normais,
ele jamais a teria olhado. Sua Samantha. Ravensworth repetiu o nome em silêncio. Até o
nome possuía poderes para enfeitiçá-lo.
Ele tinha plena certeza de que a preparara para o que estava em sua mente. Sua
consciência o incomodava todas as vezes que se lembrava do que dissera a Samantha.
Meia verdade. Era um fato que seu pai esperava que o filho se casasse com uma jovem de
seu meio, mas não acreditava que isso realmente aconteceria. Hugh Montgomery jamais
permitia que os desejos alheios o influenciassem. Sempre seguia suas inclinações, e seu
pai, o duque, conhecia bem seu filho.
Ravensworth sabia que um dia se casaria, garantindo, assim, a sucessão. Sua
esposa seria uma mulher de seu meio social, alguém que desempenharia com perfeição o
papel que lhe caberia. Mas ele jamais esperava amar tal mulher. Seria algo vulgar e
desnecessário. Encontraria conforto em outro lugar. Com outra mulher.
Pretendia que seu relacionamento com Samantha fosse eterno. Ela não era uma
jovem nobre, porém muito bem-educada e merecedora de toda sua consideração. Esse tipo
de acordo era comum em seu meio. Tentaria ser fiel, claro, mas se fracassasse, não haveria
como descartar Samantha. Seria um gesto covarde e não condizente com um homem
honrado. O lugar de Samantha em sua vida estaria garantido para sempre.
Os acordes iniciais da valsa interromperam seus pensamentos. Confiante,
Ravensworth foi até o grupo de viúvas a fim de convidar Samantha para dançar. Quando os
olhares de ambos se encontraram, ele abriu um belo sorriso.

Samantha não conseguia compreender por que o marquês insistia em lhe dizer que
sua família esperava que ele estabelecesse uma aliança adequada aos padrões da
sociedade. Ela percebia a irritação crescente de Ravensworth enquanto a conduzia com
toda elegância pelo salão de baile.
– Sabe – disse ele –, a família dos Montgomery é muito tradicional. Nossas origens
remontam à conquista normanda.
– É mesmo? – comentou Samantha, imitando a afetação que observara nos
membros da sociedade que pretendiam depreciar as intenções de seus inferiores. – Os
Langland são mais antigos.
Ravensworth pareceu espantado.
– É verdade?
– Sim – respondeu ela com um quê de indiferença. – Nós somos uma das famílias
mais antigas.
– Langland? É um nome saxão?
– Não. não. É uma família bem mais antiga.
– Quem foram seus ancestrais, então? Um brilho se acendeu nos olhos dela.
– Acho que o nome do nosso ancestral era Adão.
– Adão Langland?
– Não. Apenas Adão. Pode-se encontrá-lo na Bíblia. Ravensworth sorriu.
– A senhorita é terrível. Sabe perfeitamente que eu não sou dos mais familiarizados
com esse livro.
– Não me surpreende.
Ele a puxou para mais perto e a girou com tanta violência que Samantha quase caiu.
Ela arregalou os olhos.
– Eu a adverti a não querer tirar vantagem de mim. Se não tiver cuidado com as
palavras, farei com que a senhorita se arrependa do que disser.
– Estou ficando tonta – protestou Samantha.
– Essa é a minha intenção – respondeu Ravensworth, girando-a outra vez. – Quero
deixá-la tão tonta quanto a senhorita me deixou.
A valsa terminou e Samantha continuou nos braços dele, tentando recuperar a
compostura. Alguns instantes depois, Ravensworth deu-lhe o braço e, sem consultá-la,
levou-a para longe do salão de danças.

– Por que me trouxe até aqui? – perguntou ela. Os dois se dirigiram a uma pequena
sala, depois de terem passado pelo bufê de comidas.
– Precisamos conversar – respondeu Ravensworth, indicando o sofá para que
Samantha se acomodasse. Em seguida fechou a porta. – Em particular. Não quero correr o
risco de nos escutarem.
– Posso saber qual é o assunto?
Ao fitar os olhos de Samantha, ele percebeu que seria bem mais difícil do que
imaginara a princípio.
– Bem... A senhorita sabe que meu pai espera que eu faça um bom casamento, não
sabe?
– Claro.
– É uma dívida que tenho para com a minha família.
– Imagino que seja algo realmente importante para eles, pois o senhor já tocou
várias vezes no assunto comigo.
O marquês se pôs a dizer que, apesar de não poder lhe dar seu sobrenome, ela teria
seu coração para sempre. Samantha o escutava confusa enquanto Ravensworth enumerava
todos os benefícios que lhe caberiam se ela aceitasse fazer um acordo.
– Um acordo? – repetiu Samantha, tentando entender aonde ele queria chegar.
– Minha jovem – disse o marquês, sentando-se ao lado dela no sofá e tomando-lhe
as mãos entre as suas –, a senhorita sabe quais são as minhas circunstâncias. Eu lhe
ofereço a minha proteção. Prometo que cuidarei da senhorita com todo o meu carinho. Será
a minha verdadeira esposa em todos os aspectos, a não ser oficialmente.
Ravensworth a observou com atenção, tentando entender o que se passava na
cabeça de Samantha. Será que aceitaria sua proposta?
Samantha tinha certeza de que não compreendera direito.
– Seja mais claro, milorde, e diga o que realmente espera de mim – disse ela,
encarando-o com determinação.
O marquês começou outra vez, tentando expressar seus pensamentos com palavras
que a convenceriam a aceitar sua oferta.
– Um acordo como esse não é incomum quando existe uma grande disparidade
entre um homem e a mulher que ele deseja. Pense na sua felicidade! – continuou ele,
persuasivo. – A senhorita nunca mais será a parente pobre. Eu garantirei seu futuro. Não
suportaria vê-la vivendo da caridade alheia. – O silêncio dela o incitou a prosseguir: – Nós
poderíamos viajar pela Europa. Eu a levaria para a Grécia e, quando seus parentes se
acostumassem à idéia, nós nos estabeleceríamos na Inglaterra, na minha casa em Kent.
Tenho certeza de que a senhorita adoraria morar lá.
Uma fúria gélida tomou conta de Samantha. Ela não conseguia acreditar no que
estava escutando.
– Mas se eu me casar com...
– É algo muito improvável, minha querida– interrompeu-a Ravensworth. – Não quero
parecer brutal, mas a senhorita acha que esse sonho se realizará? A senhorita é uma órfã
sem dinheiro. Não possui dote a oferecer. – A voz dele exalava confiança. – Esta noite a
senhorita deve ter notado como suas chances de arranjar um marido são remotas. Para
apreciar suas qualidades, um homem não pode ter preconceitos. Eu sou esse homem. A
senhorita jamais receberá uma proposta melhor do que a minha. Para o seu próprio bem, eu
lhe imploro que aceite.
– Está me pedindo para ser sua amante, lorde Ravensworth? As palavras foram ditas
com extrema clareza e, pela primeira vez, ele sentiu uma certa inquietação.
– Srta. Samantha, não coloque as coisas dessa maneira.
– Então o senhor não está me pedindo para ser sua amante?
– Se prefere analisar assim, sim, eu estou lhe pedindo para ser minha amante. Mas
no meu íntimo a senhorita seria a minha verdadeira esposa.
– Ah, claro! Uma esposa que não é uma esposa de verdade. Nós poderemos ter
filhos? – perguntou ela com ingenuidade.
– Se a senhorita quiser...
– O senhor quer?
– Sim – respondeu ele, levando as mãos de Samantha aos lábios e beijando-as com
ternura.
– O senhor quer ter filhos bastardos comigo? Ravensworth cerrou os dentes, irado.
– Eu prefiro que a senhorita não use esse palavreado!
– Perdoe-me pela indelicadeza, milorde. E um costume quacre. Eu sempre fui muito
direta.
Samantha puxou as mãos e se levantou. O semblante de tranqüilidade que sua
expressão transmitia era bem diferente de seus sentimentos. Raiva, orgulho ferido e
espanto se misturavam, comprimindo-Ihe o peito.
– Sinto muito por ser tão deselegante, lorde Ravensworth, mas há uma série de
motivos que me levam a recusar a sua... a sua oferta tão bem-intencionada.
A voz dela apresentava um ligeiro tremor.
– Em primeiro lugar, eu não tenho vocação para ser amante. Ah, perdoe-me pela
grosseria. Não tive a intenção de ofender seus sentimentos com a minha sinceridade.
Ravensworth cerrou os dentes e respirou fundo.
– Eu não quero uma mulher que tenha vocação para ser amante – respondeu ele
com amargura. – Por que insiste em insultar a nós dois? Se eu quisesse uma mulher desse
tipo, acha que teria me aproximado da senhorita?
– Em segundo lugar – continuou Samantha, ignorando-o deliberadamente –, eu
jamais aceitaria uma ligação com o senhor, legal ou ilegal, mesmo que fosse o último
homem na Terra. – A voz de Samantha elevou-se um pouco, revelando um quê de histeria.
Ela enfiou as unhas na palma das mãos, na tentativa de acalmar o tremor. Queria sair dali o
mais depressa possível.
Ravensworth se aproximou e pegou-lhe a mão.
– A senhorita está brava comigo. Acho que fui um pouco precipitado. Eu lhe darei
alguns dias para pensar no assunto.
Samantha engoliu as palavras que lhe vieram aos lábios. Não demonstraria quanto
estava magoada. Ela tentou se soltar, mas Ravensworth não permitiu.
– Não preciso de tempo para considerar a sua proposta, milorde. O senhor se gabou
dizendo que era um homem honrado, sim, um homem honrado. E eu acreditei. Ah, como fui
tola... Honra! O senhor me insultou de todas as maneiras possíveis. Suma daqui com a sua
honra!
Furioso, ele a segurou com mais força.
– Solte-me! – gritou Samantha, prestes a perder o controle. Dedos cruéis apertaram-
lhe os ombros.
– Eu a soltarei desde que a senhorita responda a uma pergunta. Uma simples
pergunta. A senhorita se importa comigo? Eu quero saber!
Samantha queria negar, porém não havia como.
– Ah, a senhorita não sabe mentir.
Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos. Samantha não se mexeu, sabendo que poderia
se dar mal se resistisse. Pela primeira vez, ela se deu conta do poder daquele homem. E
ficou com medo.
Não era a mesma pessoa que havia se preocupado com seu bem-estar nos últimos
meses, que a salvara de um acidente com a carruagem. Era um verdadeiro estranho.
– Minha Samantha... – murmurou o marquês, beijando-a com ternura.
Apesar de fazer o máximo para se controlar, ela não foi capaz de conter os soluços.
As lágrimas vieram ininterruptas. Ravensworth limpou-lhe o rosto e abraçou-a contra seu
peito em um esforço de confortá-la. Instantes depois, ele continuou com as carícias,
beijando-Ihe o pescoço, a orelha. Quando entreabriu os lábios para se entregar ao beijo,
Samantha soube que havia perdido.
– Arrepiada, meu amor? – provocou-a Ravensworth em um murmúrio sensual.
Ao erguer os olhos, ela se deparou com a expressão de triunfo no rosto de
Ravensworth, o que a fez sentir-se a pior das mulheres sobre a face da Terra.
– Solte-me! – gritou em desespero.
– Samantha... Samantha... não tente fugir de mim – disse ele, segurando-Ihe o
queixo. – Você pertence a mim.
Ela encontrou os olhos de Ravensworth.
– Um dia eu acreditei que pudéssemos ser amigos, mas agora... – Samantha não
terminou a frase. – Eu jamais esperava ouvir tamanha crueldade de um homem, muito
menos de um homem honrado. O senhor é um ser desprezível.
Ravensworth deixou a mão cair como se tivesse levado uma ferroada. Samantha
aproveitou a oportunidade e saiu correndo da sala.
Passando a mão nos cabelos, ele sentou-se no sofá. Esperaria dez minutos antes de
segui-la. Não queria levantar as suspeitas das pessoas. Além disso, Samantha precisava se
acalmar.
O marquês enfiou a mão no bolso do casaco e pegou um charuto. Enquanto fumava,
pensou em como agiria caso pretendesse conquistar Samantha. Ele fechou os olhos. Ela
havia perdido o juízo. Por que havia achado a proposta insultante? Ele seria um duque e,
portanto, tinha de fazer jus ao futuro título. Como poderia se casar com uma mulher sem
posses e sem título? Será que Samantha estava atrás da sua fortuna, como muitas outras?
Não. Era uma idéia totalmente absurda. Fora de propósito. Samantha Langland era apenas
uma jovem virtuosa. Por que não compreendia o que se passava na cabeça dele?
De repente, ocorreu ao marquês que ele não tivesse perdido apenas uma batalha,
mas sim toda uma guerra. A palavra “nêmesis” bombardeou-lhe a mente. Ravensworth
mordeu o lábio. Avery não conseguiria parar de rir quando soubesse do ocorrido.

Capítulo VII

Ao sair da sala, o único pensamento de Samantha era o de afastar-se de toda a


crueldade daquelas pessoas que a haviam humilhado desde o instante em que entrara
naquela mansão. Com passos determinados, passou pelo salão de jantar abarrotado,
esperando sentir a mão pesada de Ravensworlh em seu ombro a qualquer momento, porém
nada impediu sua fuga daquele lugar desprezível. Sentiu alguns olhares curiosos em sua
direção, mas a sociedade não tinha o menor interesse em alguém que não fosse de seu
meio.
Quando chegou ao hall de entrada, Samantha hesitou, sem saber ao certo qual seria
a melhor maneira de escapar. Seu manto encontrava-se no guarda-roupa, e ela correu para
pegá-lo.
Nem sequer pensou em avisar Harriel ou a tia Sophia de seus propósito. As
emoções rodopiavam em sua cabeça de tal maneira que Samantha não conseguia ter um
pensamento racional. Tomava pela raiva e pela vergonha, estava fora de si. Apertando o
manto contra o peito, ela saiu pela praça Cavendish sem saber aonde iria. Queria apenas
distanciar-se ao máximo do desprezível marquês de Ravensworth.
O vento soprou em sua pequena figura, e Samantha baixou a cabeça para escapar
da rajada gélida. Seus passos, porém, não diminuíram. Em seu desespero, estava quase
correndo, tentando controlar os pensamentos confusos que iam e vinham em sua mente.
Ela não ouviu a carruagem se aproximando, nem os gritos furiosos do condutor até estar
bem na frente dos cavalos assustados.
No instante em que Samantha notou o perigo que corria, era tarde demais. Tentou
correr, mas os cascos do primeiro animal acertaram-lhe as costas, jogando-a longe. Ela caiu
de cabeça no chão e todo o ar pareceu sumir de seus pulmões. Ouviu ao longe vozes
alarmadas, então tentou se levantar. Não teve forças, todavia.
Quando abriu os olhos, depois de uma vertigem, Samantha deparou com três rostos
preocupados. Eram as três mulheres mais lindas que já vira em toda sua vida. Ela abriu um
sorriso trêmulo.
– Vocês são musas ou anjos? – perguntou antes de perder os sentidos.

As pálpebras de Samantha pesavam. Ela realmente não queria sair da segurança de


seu sono, pensou, zonza. Se se recusasse a acordar, jamais teria de encarar o mundo cruel
outra vez. Alguém levantou-lhe a cabeça do travesseiro e pressionou algo contra seus
lábios.
– Beba isto – ordenou uma voz suave. Samantha abriu os olhos e fitou o rosto
angelical.
– Eu estou no céu?
– Não, minha jovem. Só que, se continuar tentando atropelar carruagens, é para lá
que você irá. Qual é o seu nome? Seus pais devem estar preocupados com o seu
desaparecimento. Preciso informá-los sobre o seu paradeiro.
– Samantha. Meu nome é Samantha – respondeu ela antes de perder os sentidos de
novo.
Quando acordou, algum tempo mais tarde, Samantha gemeu. Alguém colocou a mão
fria em sua testa, e ela reconheceu a mulher que a ajudara antes.
– Beba este líquido – disse a mulher, colocando a caneca de caldo quente contra os
lábios de Samantha, – Vai lhe fazer bem.
– Onde estou? Há quanto tempo estou aqui?
– Está na minha casa – respondeu a mulher. Ontem à noite, você foi atropelada pela
carruagem da qual eu era passageira. Poderia ter morrido, sabia? Você saiu correndo pela
rua sem se importar com a sua segurança. Eu estava voltando para casa da ópera com as
minhas irmãs.
– As três musas! – De repente, Samantha se lembrou.
– Não se deixe enganar, minha querida. Nós não chegamos nem perto de musas.
– Vocês são lindas.
– Pode até ser. Mas você nos deu um tremendo susto. Nós poderíamos tê-la
matado! Agora, faça a gentileza de me dar o endereço da casa de seus pais, ou tutores,
para que eu os informe do ocorrido.
Samantha obedeceu e, logo em seguida, a beldade se retirou. Assim que deitou a
cabeça no travesseiro, ela se lembrou de todos os acontecimentos da noite anterior: a
rejeição vergonhosa dos presentes no baile e a proposta absurda que Ravensworth lhe
fizera. Suas bochechas enrubesceram quando recordou as caricias que aquele homem lhe
fizera. Esperava nunca mais vê-lo.
Repreendeu-se por ter saído da festa sem avisar ninguém, porém seu orgulho havia
sido ferido. E muito. A lembrança suscitou os mesmos sentimentos de mortificação e fúria,
Ela reprimiu o nó que se formara em sua garganta e começou a soluçar. Como conseguiria
encarar o mundo outra vez? As lágrimas escorriam sem parar por seu rosto.
Sua salvadora retomou e parou de repente ao ver o estado de sua hóspede.
– Minha querida – disse ela, tomando-lhe as mãos trêmulas entre as suas. – Conte-
me o que tanto a aflige. Quer que eu chame o dr. Pemberton de novo?
Aquelas palavras a desarmaram por completo. Antes de saber o que estava fazendo,
Samantha contou-lhe toda a história, omitindo apenas a parte de Ravensworth. Contou
sobre sua mãe e a tarefa impossível de conciliar sua consciência com as frivolidades da vida
na alta sociedade. A mulher aninhou-a em seus braços e escutou-a em silêncio.
– As pessoas sabem ser muito cruéis – ela falou assim que Samantha terminou. –
Você está certa em seguir a voz da sua consciência. Nunca deixe suas convicções de lado.
Dessa forma, jamais precisará baixar a cabeça. Olhe o mundo de cima para baixo, se for o
caso, ou estale os dedos diante de todos.
– Foi o que eu fiz! – respondeu Samantha, sorrindo em meio às lágrimas.
– Assim é melhor. Sem autopiedade. Não perca seu tempo. Seja verdadeira consigo
mesma e deixe o mundo seguir seu rumo. Mas acredite realmente nos seus princípios. Não
deixe que a opinião dos outros a influencie, afastando-a daquilo que você acredita.
Samantha sentiu-se confortada por aquela estranha e foi tomada por um profundo
sentimento de gratidão.
– Agora você precisa se vestir e ir para casa. O que vou dizer a minha prima e à
minha tia sobre o meu desaparecimento do baile? – perguntou ela, preocupada.
– Nunca se explique demais, minha querida. Atenha-se aos fatos. É mais fácil. Você
foi dar uma volta, e uma carruagem a atropelou. Só isso.
Sim, pensou Samantha, é a verdade, mas não toda a verdade.
Samantha terminava de se arrumar quando ouviu urna carruagem se aproximando.
Ainda não conseguia caminhar sozinha, então esperou que os criados de sua tia viessem
ajudá-la. A porta do quarto se abriu, e o último homem que queria ver surgiu diante de seus
olhos.
– Ravensworth! – exclamou Samantha, notando o alívio nos olhos dele.
– Pode deixar que eu cuido de tudo agora, Harriette – disse o marquês, com seu
famoso tom autoritário.
Samantha imaginou que ele estivesse se dirigindo a sua prima, mas era à mulher
que a salvara. Então eles se conheciam.
– Quando eu estiver melhor – começou Samantha – faço questão de vir visitá-la...
Harriette.
– Não! – ambos exclamaram ao mesmo tempo. Curiosa, Samantha olhou para os
dois.
– Não é necessário – respondeu a mulher, segurando a porta aberta. – Além disso,
eu estou de mudança da cidade. Esta casa é alugada e vou entregá-la no final do mês.
– Mas quando nos veremos de novo? Eu lhe devo tanto e gostaria muito de poder
visitá-la algum dia desses.
Enquanto ela falava, Ravensworth pegou-a no colo.
– Por favor, coloque-me no chão. Não me trate como uma inválida. Eu consigo
andar. – Todos os nervos de seu corpo recuavam ao toque de Ravensworth. Ele ignorou o
pedido e saiu do quarto.
– Obrigado, Harriette. O que mais posso lhe dizer? Se algum dia você precisar de um
amigo... sabe onde me procurar.
Ignorando os protestos de Samantha, ele desceu as escadas e saiu da casa.
– Samantha, graças a Deus você está bem! – exclamou Harriet, envolvendo-a em
um caloroso abraço. – Ficamos tão preocupadas! O que aconteceu? Por que saiu da festa
sem avisar ninguém?
Samantha observou o interesse de Ravensworth. Entretanto, ainda não tinha
coragem de encará-lo.
– Saí para dar uma caminhada e fui atropelada por uma carruagem.
Harriet deu um grito e riu.
– Ah, Samantha! Essas coisas só acontecem com você.
– Harriet, porque você ficou esperando aqui na carruagem? Por que não entrou para
conhecer a mulher que foi tão gentil comigo?
Foi o marquês que respondeu:
– Eu fui incumbido de cuidar do assunto. Nós não queríamos causar mais problemas
para a mulher.
A resposta não a satisfez, pois Samantha notou o constrangimento da prima. Havia
um mistério ali, e ela não sossegaria enquanto não descobrisse qual era.

O marquês de Ravensworth sentou-se em uma cadeira da sala de espera da casa da


tia Sophia. Dois dias sem dormir acentuavam suas olheiras. O visconde de Avery não ficava
muito atrás. As mulheres da casa tinham finalmente se recolhido para dormir.
– Que balbúrdia! – disse Avery, analisando o líquido âmbar em seu copo. – Se correr
a notícia de que a srta. Langland foi acolhida pela cortesã mais famosa de Londres, que
chegou até a dormir na cama dela, a reputação de Samantha será arruinado para sempre.
– A notícia não se espalhará – afirmou Ravensworth. – Harriette Wilson é uma das
mulheres mais discretas que conheço. Ela nunca prejudica os inocentes.
– Espero que sim. Gostaria de saber o que levou Samantha a resolver dar um
passeio no meio de um baile. – Avery olhou para o amigo com curiosidade. – Ah, não! Não
me diga que você teve coragem?
Ravensworth terminou de beber o uísque em seu copo.
– Você tinha razão, Avery, e eu me enganei. Estraguei tudo.
– Ainda bem que não aconteceu nada de mais grave. Com a o tempo, ela se
recuperará. Além disso, há muitas jovens por | aí dispostas a aceitar a proposta.
– Pare de me perturbar, Avery. Eu ainda não desisti de Samantha.
– Você não pode estar falando sério!
– Claro que estou.
– Ravensworth, você perdeu o juízo? Eu já lhe disse uma vez e repito: Samantha é
uma garota muito virtuosa para o que você tem em mente. Deixe-a em paz. Aceite o fato de
que algumas mulheres preferem a morte a comprometer sua virtude. E a srta. Langland é...
Bem, ela é muito refinada para o que você tem em mente.
– É tudo que você sabe – respondeu o marquês, sorrindo. – Nem imagina o que eu
tenho em mente.
O visconde de Avery ficou sem palavras. Pouco depois, um brilho malicioso surgiu
em seus olhos.
– Talvez ela não o aceite sob nenhuma circunstância. Você já pensou na hipótese de
não fazer o tipo da jovem?
Ravensworth quase respondeu à provocação, porém mudou de idéia no último
instante.
– Tive um dia muito duro. Não sei quanto a você, Avery, mas eu vou para a cama.
Eles se separaram na porta de entrada, e Ravensworth saiu andando em passos
rápidos. Tinha plena convicção de que o coração de Samantha lhe pertencia, porém
conquistá-la, admitiu ele, era um assunto totalmente diferente. Ela e seus escrúpulos!
Ao chegar em casa, o marquês entregou o casaco ao criado pessoal e subiu as
escadas, dois degraus de cada vez. Com o máximo de discrição, Denby ajudou o patrão a
se despir e desapareceu antes mesmo que ele percebesse.
Ravensworth sabia que tinha um grande problema pela frente. O que poderia
oferecer a Samantha, uma vez que deixara bem claro que o casamento estava fora de seus
planos? Como poderia remediar a situação? Ah, mas como admirava os escrúpulos de
Samantha! Todavia não permitiria que algo tão insignificante atrapalhasse sua felicidade.
A primeira coisa que precisava fazer era impedi-la de reencontrar Harriette Wilson.
Samantha jamais se esqueceria da generosidade daquela mulher. Entretanto, precisava se
proteger de sua própria inocência. Ravensworth instruíra o condutor da carruagem a voltar
para a casa da tia Sophia por um caminho bem longo. Além disso, era noite, e Harriette
havia comentado sobre uma viagem prolongada a Paris com seu último protetor. Tudo daria
certo.
Coitada! E ele fora o responsável por aquela noite terrível na vida de Samantha.
Ravensworth não dormia havia 24 horas, e as sensações de preocupação, raiva, angústia e
remorso o tinham consumido durante todos aqueles terríveis momentos. Ele só se acalmara
quando a pegara no colo, envolvendo-a com seus braços protetores. A idéia de Samantha
sair de sua vida era inconcebível. Não permitiria que ela atrapalhasse seus planos de tomá-
la sua mulher.

Capítulo VIII

Durante grande parte da semana seguinte, Samantha ficou na cama. Embora


completamente recuperada do acidente, não tinha a menor pressa de voltar para seu
suposto lugar na sociedade. Avery e Ravensworth apareciam todos os dias na casa de tia
Sophia, mas Samantha se recusou a recebê-los. Nem Harriet conseguiu convencê-la. As
flores do marquês ela aceitava por mera educação, mas a prima decidiu não fazer nenhum
comentário, achando que o acidente afetara Samantha bem mais do que havia acreditado a
princípio.
Seu estado de espírito, entretanto, não tinha nenhuma ligação com o acidente. Seus
pensamentos confusos estavam completamente ocupados por tudo que ouvira no
desastroso baile. Ao se lembrar da frieza com que havia sido recebida na primeira grande
festa de sua vida, Samantha gemeu, mortificada. E ao recordar as palavras de
Ravensworth, cerrou os dentes em fúria. Como ele ousara ofendê-la daquela maneira?
Essas alterações de humor foram diminuindo com o passar dos dias, e ela logo voltou ao
seu estado de espírito normal.
Durante horas, Samantha ficou sentada em seu quarto analisando sua situação.
Determinada a agir com lógica, ponderou sobre tudo que aprendera a respeito da conduta
entre os sexos.
No final da semana, já tinha chegado às próprias conclusões. A bela mulher que a
ajudara lhe dera bons conselhos. É preciso ser fiel às próprias convicções. Antes, ela
aceitara cegamente os ensinamentos quacres da mãe. Só que sua mãe, descobriu
Samantha com pesar, não era infalível.
Tia Sophia não notou nada de errado no comportamento recluso da sobrinha. As
primas viam a senhora como uma pessoa muito querida, que nunca ralhava com elas nem
lhes fazia muitas perguntas. No papel de dama de companhia, Sophia deixava a desejar.
Não costumava ficar nas festas que as sobrinhas freqüentavam, apenas acompanhava as
duas até seu destino. Ela exercia as próprias atividades com suas amigas viúvas. Era uma
jogadora inveterada e passava a maior parte do tempo nos salões de jogos com outras
matronas. Além de jogar, elas adoravam falar da vida alheia.
Sophia aceitou a explicação do acidente de Samantha, bem como a descrição da
mulher que a acolhera. Quando disse que gostaria de gratificar essa pessoa que mostrara
tanta generosidade, Ravensworth comentou que a mulher havia saído da cidade para uma
longa viagem. Sophia não questionou a explicação. Não era uma mulher desconfiada como
sir John e lady Esther. Sendo assim, quando Samantha decidiu sentar-se à mesa para
comer, tia Sophia nem se deu conta de que a sobrinha havia removido todo e qualquer
vestígio de renda que antes escondia o arredondado de seu colo.
Harriet notou a mudança nos trajes da prima, mas achou de bom tom manter-se em
silêncio. Imaginou que a humilhação de Samantha perante a sociedade a tinha levado a
abandonar a rigidez dos costumes quacres. Harriet estava envergonhada pela experiência
mortificante de Samantha, porém a admiração que sentia pela coragem e pelo bom senso
da prima era mais importante do que qualquer outro sentimento. Esperava apenas que
Samantha decidisse cortar o cabelo de acordo com a moda. Com a roupa certa e bem-
arrumada, ela deixaria os homens encantados.

O primeiro passeio de Samantha na carruagem da tia foi a um pequeno escritório em


Pimlico, para conversar com o consultor financeiro dos Langland. Ela explicou ao atencioso
sr. Jackson, agente de seu pai durante anos e anos, que gostaria de comprar um guarda-
roupa novo para sua primeira temporada em Londres. O homem não se perturbou. Sabia
que as mulheres daquela família não costumavam gastar muito em frivolidades como
vestidos e bugigangas. Como uma das herdeiras da fortuna dos Langland, garantiu ele,
Samantha possuía fundos mais do que suficientes para satisfazer suas necessidades.
Todavia, se conhecesse as verdadeiras intenções de sua cliente, o sr. Jackson poderia ter
expressado seus sentimentos com mais cautela. Samantha foi instruída a comprar o que
julgasse necessário e depois mandar as contas para o escritório. As palavras
tranqüilizadoras trouxeram de volta um sorriso aos lábios dela.
Harriet ficou surpresa e depois eufórica. Jamais lhe ocorrera que a parte Langland de
sua família fosse rica. Eles não o demonstravam, a julgar pelo estilo de vida modesto que
levavam, e seus pais nunca tinham comentado nada a respeito. Samantha explicou à prima
que os quacres não gostavam de admitir riqueza, e que muitos deles eram tão ricos quanto
os membros da alta sociedade. Os quacres eram honestos, trabalhadores e honrados,
virtudes que traziam recompensas monetárias quando se trabalhava com comércio e
finanças.
Harriet, evidentemente, contou a novidade a seu amado, o lorde Avery, que foi
correndo relatar o fato a Ravensworth. O marquês matutou a respeito da informação. Claro
que Samantha jamais aceitaria a proposta, agora indecente, que ele lhe fizera. Além de ser
virtuosa, ela era uma mulher independente.
A condição financeira de Samantha não tinha grande importância para Ravensworth,
mas ele sabia que sua adorável herdeira seria alvo de vários pretendentes. A simples idéia o
irritou, e quem acabou sendo o alvo de seu nervosismo foi seu criado pessoal. Denby
imaginou se havia chegado a hora de pedir demissão, pois não estava sendo nada fácil lidar
com o marquês nas últimas semanas. E um criado com suas habilidades não teria a menor
dificuldade em encontrar outro emprego. Mesmo assim, ele decidiu esperar.

Ansiosa para ver seu mais novo modelo, Samantha abriu a caixa que havia sido
entregue naquela noite por madame Godet, uma estilista renomada cuja loja se situava na
rua Seymour. Ela retirou o vestido de seda lilás com detalhes em prateado. Eufórica,
Samantha esperou que a criada a ajudasse a se vestir. O decote era baixo, porém recatado
para os padrões da época, e as mangas curtas e bufantes eram presas ao braço por uma
fita de seda prateada. A criada fechou os numerosos botões na parte de trás do vestido,
enquanto Samantha se admirava no espelho. A saia começava logo abaixo da linha dos
seios. Como madame Godet dissera, era a última moda em Paris.
– Obrigada, Alice.
– Se quiser, eu posso enrolar o seu cabelo – ofereceu a criada.
-– Não precisa.
– Srta. Samantha, a senhorita será a mulher mais bonita do baile – elogiou ela antes
de sair do quarto.
– Essa é a minha intenção – respondeu Samantha com seriedade.
Ao se olhar no espelho, Samantha viu uma estranha. Seus olhos, notou maravilhada,
haviam mudado para um tom misterioso de violeta, mas quando se movia, o brilho prateado
de seu vestido alterava o tom para cinza novamente. Samantha soltou os cabelos, que
havia mantido trançados o dia inteiro, então os penteou até ficarem lustrosos. As longas
madeixas caíam sobre seus ombros, onduladas. Ela prendeu uma mecha de cada lado com
pentes prateados cravejados por ametistas. Os brincos também eram de ametista, Para
finalizar, Samantha passou um pouco de batom nos lábios.
– Você se enganou, mamãe – murmurou ela. – A maneira de se vestir dos quacres
não é uma proteção contra os predadores. É uma camuflagem covarde que serve apenas
para incitar a violência. Acredite em mim, vestida assim, eu parecerei apenas mais uma
folha da árvore.
Na cama estavam os acessórios que Alice separara. Luvas brancas até os cotovelos,
um xale de seda azul e prata para colocar ao redor dos ombros e um leque francês
decorado com minúsculas pérolas. Samantha pensou em colocar sua caixa de rapé na
pequenina bolsa bordada, mas achou melhor não.
– Agora, minha jovem, vamos à toca dos leões – murmurou para si mesma.

A residência do visconde de Castlereagh ficava a menos de dez minutos de


caminhada da praça James. Dez minutos a pé, porém quase uma hora de carruagem, pois
as ruas estreitas estavam abarrotadas de veículos de membros da sociedade que eram
considerados da elite londrina. Receber um convite para um dos maiores bailes da
temporada era uma recomendação bem melhor do que um bilhete para o Almack’s e bem
mais agradável.
Samantha ficou aliviada ao saber que Ravensworth não faria parte do grupo. Avery
explicou que ele era um dos convidados do jantar de lady Castlereagh, uma honra singular,
mas não inesperada para um dos herdeiros de um dos títulos mais prestigiados da realeza.
O fato de se encontrar na carruagem do marquês naquele momento a incomodou mais do
que ela admitiria. Se pudesse opinar, Samantha teria recusado a oferta. Tia Sophia achara a
solução perfeita para seus problemas, pois não gostava de incomodar seu condutor, que
odiava os atrasos dessas grandes ocasiões.
Os olhos de Harriet brilharam ao analisar o visual da prima. Samantha estava
deslumbrante, e uma aura a envolvia, deixando-a encantadora. Até lorde Avery se
surpreendeu. Como será que o marquês de Ravensworth reagiria?

Entediado, Ravensworth estudou o salão de baile lotado. Samantha, pensou ele,


ainda não tinha chegado. De repente, seu olhar foi capturado pela figura de uma bela
mulher, uma linda jovem rodeada de belos cavalheiros. Seus lábios se curvaram em um
sorriso. Os gloriosos cabelos loiros soltos envolviam o rosto ovalado. Ela usava o leque com
todo seu charme, causando um efeito devastador. Com elegância, o marquês caminhou em
direção à jovem, preparando um de seus sorrisos para chamar a atenção dela.
Samantha olhou para cima e viu seu adversário se aproximando. Seus lábios
congelaram um sorriso. Ravensworth, notou ela com amargura, não a reconheceu. Ele
ostentava um sorriso devastador.
Respirando fundo, Samantha fez uma mesura e olhou fixamente para os olhos azuis
do marquês. De repente, ele a reconheceu. Ravensworth piscou uma, duas vezes. Nos
olhos dela havia desafio. Nos dele, fúria. Depois de alguns instantes, Samantha baixou a
cabeça. Por que temer? Não tinha feito nada de errado.
Assim que chegou perto dela, Ravensworth pegou-a pelo braço sem a menor
cerimônia.
– Com licença – pediu ele, dirigindo-se ao grupo de cavalheiros embasbacados. –
Minha prima e eu temos um assunto familiar para discutir. – Sem a menor cerimônia, levou-
a para o hall.
– O que acha que está fazendo? – perguntou ele, irado. Um conhecido passou, e
Ravensworth sorriu com educação. Então se voltou novamente para Samantha. – Quem lhe
deu permissão para usar seu cabelo dessa maneira? Onde pensa que está? Em uma casa
de má reputação?
Samantha arregalou os olhos.
– Eu... Eu...
– E esse batom nos seus lábios?
Ravensworth tirou um lenço branco do bolso e, sem lhe pedir permissão, removeu o
batom dos lábios dela. Samantha começou a se lamuriar. O marquês se enterneceu. Estava
pronto para tomá-la nos braços quando lorde Edgewood apareceu.
– Srta. Langland, essa dança é minha? – perguntou ele. – Peço desculpas, meu
caro, mas o meu nome está no cartão de danças de sua prima. – O tom de Edgewood era
de escárnio. Pela primeira vez, Ravensworth notou o cartão que Samantha segurava na
mão. Ele puxou-o com determinação e viu que ainda havia quatro espaços vagos. Então
escreveu seu nome em todos, sabendo que mais de duas danças proclamas mundo que
havia se comprometido com a jovem em questão.
Ravensworth devolveu o cartão a Samantha e saiu deixando-a sozinha com um de
seus admiradores daquela noite.

Os olhos de Harriet estudavam os dançarinos, procurando por sua prima. Fora uma
noite de extremo sucesso para Samantha, o que a deixou radiante. Ela fora a jovem mais
requisitada da festa. Jovens cavalheiros brigavam para tê-la por perto. Harriet olhou para o
homem ao seu lado. A devoção de lorde Avery durante todo o baile satisfaria suas modestas
ambições, mas ele se tornara um enigma. Apesar da presença assídua, suas atenções eram
distantes.
– Samantha está dançando mais uma música com Ravensworth? – perguntou ela. –
É a terceira vez na noite. O que ele pretende? Vai comprometê-la se demonstrar tamanha
atenção. Preciso advertir minha prima.
– Não faça isso – ordenou Avery. – Três danças com Ravensworth não arruinarão a
srta. Samantha. Eu me lembro da época em que a irrepreensível srta. Grenfell teria estalado
os dedos diante de tamanha indiscrição.
Harriet ficou surpresa.
– É muito grosseiro de sua parte jogar na minha cara meu antigo comportamento. Foi
seu desejo que eu me tomasse um pouco mais digna.
Avery baixou os olhos, envergonhado.
– E então, não foi? – indagou Harriet com veemência. Ele engoliu em seco.
– Harriet... – começou lorde Avery, algum tempo depois e com certa dificuldade. – Já
faz algum tempo que tenho algo a lhe dizer.
– Fale.
O coração dela disparou. Para ganhar tempo, Avery tirou a caixa de rapé do bolso.
Como poderia dizer a Harriet que havia se tomado monótona nos últimos tempos, que ele
preferia que ela demonstrasse um pouco mais do espírito aventureiro de antes? Avery
achou melhor não. Com sua delicadeza habitual, colocou uma pitada de rapé no pulso. Do
canto dos olhos, viu que Harriet esperava que ele continuasse.
– Aceita um pouco de rapé?
– Como se atreve? – perguntou ela, afastando-se como se tivesse levado um tapa.
Foi naquele exato momento que um taciturno Ravensworth trouxe a radiante
Samantha para o lado da prima.
– Lorde Avery, o senhor me permite? – perguntou Samantha, colocando a mão no
braço dele.
– Eu a proíbo! – exclamou Ravensworth.
Ela o ignorou e continuou a se dirigir ao visconde.
– Por favor, lorde Avery.
– Ah, não, Samantha – suplicou Harriet. Uma calorosa discussão começou entre os
quatro. Determinada a encerrar o assunto, Harriet segurou o pulso de Avery e inalou com o
máximo de delicadeza que conseguiu. Ele a olhou com admiração. Ela sorriu, um pouco
trêmula. Então espirrou.
Naquele mesmo instante, a caixa de rapé escapou das mãos de Avery e foi parar ao
lado de um grupo de viúvas. Bateu no rodapé e a tampa se abriu, espalhando todo o
conteúdo.
Com grande presença de espírito, Ravensworth pegou as duas jovens pelo cotovelo
e as guiou na direção oposta.
– E a minha caixa de rapé? – perguntou Avery.
– Agora não. Agora não.
O visconde ficou parado por apenas um instante. Uma viúva espirrou, depois outra.
Logo um grupo numeroso de matronas espirrava sem parar.
Lorde Avery saiu correndo.

Capítulo IX

Nas semanas seguintes, os dias se tomaram monótonos. Uma fila de admiradores se


dirigia à rua Half Moon para levar as duas primas para um passeio. As jovens mudavam de
parceiros como mudavam de luvas, e Samantha achava impossível criar uma ligação mais
estável com qualquer um de seus admiradores. Logo percebeu que ela e Harriet haviam
ganhado certa notoriedade em virtude da conduta atrevida no baile de Castlereagh. O
incidente com a caixa de rapé não passara despercebido. Os homens que tinham a boa
sorte de serem vistos na companhia das duas primas ganhavam um certo status entre os
amigos.
Tia Sophia não via nada de errado com a quantidade de pretendentes interessados
nas sobrinhas. Havia apenas uma nuvem no horizonte que a preocupava. Houvera um
implacável atraso na entrega de um dos escassos bilhetes para o Almack’s, uma ligeira
inconveniência que logo se resolveria. A apreensão de Harriet era maior, e ela agradecia a
Deus por seus pais estarem bem longe, em Bath.
A princípio, Samantha se divertiu com sua popularidade, mas logo viu que as
intermináveis excursões ao parque não tinham a menor graça. O ardor de lorde
Ravensworth também havia diminuído. Ele nunca se encontrava em meio aos outros
cavalheiros que se aglomeravam à porta da casa de tia Sophia. Samantha disse a si mesma
que estava contente com o fato. Não existia futuro para uma jovem bem-educada e um
homem de moral questionável.
O fato de Ravensworth agora saber que ela era dona de uma herança considerável
se confirmava por sua conduta. Claro que Avery contaria a novidade ao amigo. O marquês
saberia, pensou Samantha, que não havia nada que um homem de sua espécie pudesse
oferecer para convencer uma jovem de caráter e fortuna a aceitá-lo sob quaisquer termos.
Nem mesmo oferecendo seu ducado. A srta. Samantha Langland estava bem longe de seu
alcance. E ela esperava que o futuro duque soubesse.
O marquês não se misturaria aos inúmeros admiradores de Samantha, e mesmo
assim ela o encontrava em suas freqüentes excursões ao parque e em seus numerosos
passeios a Mayfair. Ele sempre se mostrava bem-humorado e a tratava da maneira mais
galante possível. Apesar de estar acompanhada de um de seus fãs todas as vezes que o
encontrava, Samantha não achava nada fácil deparar com Ravensworth de braço dado com
uma mulher. E sempre estonteante.
Quando conversavam, ela se esforçava a fim de não olhar para o rosto do marquês.
Não queria ver aquele olhar provocativo. Além disso, acreditava que Ravensworth estava
zombando dela, ostentando algum tipo de poder que a subjugaria.
Diante do espelho, Samantha ensaiara uma série de olhares, mas ao tentar usar-los
com Ravensworth, algo saiu errado. Durante uma breve conversa em uma noite musical na
casa de lady Besborough, ele caiu na risada e perguntou se ela estava com problemas para
enxergar. O olhar que recebeu em seguida foi suficiente para Samantha nunca mais
enfrentar os olhos do marquês até que estivesse perfeitamente treinada.

Uma manhã, antes de a maioria dos membros da sociedade acordar, Samantha foi
até a livraria Hatchard’s. Por ironia do destino, encontrou Ravensworth quando saía da loja
carregando uma sacola. Sua intenção era ignorá-lo, mas ele a chamou, obrigando-a a se
virar. Samantha o cumprimentou com um olhar frio e distante.
– Milorde.
Ela ouviu uma risada.
– Srta. Langland, permita-me apresentar-lhe lady Adèle St. Clair. Somos vizinhos em
Kent. Acho que já lhe contei que possuo uma propriedade no campo – disse o marquês.
O corpo de Samantha enrijeceu. Ela olhou para a mulher à sua frente e fez uma
mesura. Lady Adèle a encarou com hostilidade, apesar do sorriso amável em seus lábios.
Samantha se deu conta de que a companheira de Ravensworth a enxergou como
uma rival e sentiu muita pena dela. Lady Adèle não era o tipo de mulher por quem
Ravensworth se interessaria. Em contraste ao vestido discreto de musselina verde que
Samantha usava, lady Adèle vestia um modelo vermelho que realçava suas curvas.
– Eu não me lembro bem, mas acho que ambas se conheceram no baile de inverno
dos Grenfell – comentou Ravensworth, malicioso.
Lady Adèle deu uma risadinha.
– Conhecendo tanta gente, como posso me lembrar? – Ela chegou mais perto de
Ravensworth e estudou Samantha da cabeça aos pés. Satisfeita por julgar que a outra não
apresentava nenhuma ameaça, lady Adèle sorriu. – Eu não me lembro da srta. Langland.
Samantha não se espantou com a falta de tato da mulher e imaginou o que teria feito
para merecer tamanho veneno.
– Nós não nos conhecemos! – exclamou ela. – Pois eu com certeza me lembraria.
Com o canto dos olhos, Samantha notou que Ravensworth estava radiante.
– Onde está a sua dama de companhia?
– Eu não preciso de dama de companhia, milorde. É só atravessar a rua que j á
estou em casa. O que pode me acontecer nesse breve percurso?
– A senhorita ainda se atreve a perguntar depois... – Ravensworth parou no meio da
frase. Samantha sabia que ele se referia à noite do acidente e sentiu que tentava protegê-la
da curiosidade natural da mulher ao seu lado. Foi uma gentileza. – Eu a acompanharei até a
sua casa.
– Mas Hugh – começou lady Adèle –, você prometeu que me acompanharia ao meu
conselheiro. Nós já estamos atrasados. Certamente a srta. Langland conseguirá chegar
sozinha em casa. Eu preciso da sua ajuda para explicar toda a complexidade da
propriedade do falecido conde. É um assunto muito complicado para mim. – Ela virou-se
para Ravensworth com uma expressão de súplica em seu sorriso encantador.
– Nem pense em deixar a dama sozinha – interveio Samantha. – Eu não sou mais
uma criança, e sei cuidar perfeitamente de mim.
– Tenho minhas dúvidas, srta. Langland! Não se estenda no assunto. Eu faço
questão de acompanhá-la. Nós nos atrasaremos apenas alguns minutos. Adèle, você vem
conosco.
Em nome das boas maneiras, Samantha sentiu-se na obrigação de aceitar a
gentileza de Ravensworth, mas não admitiria que aquele homem começasse a dar ordens
em sua vida.
– Posso saber qual livro a senhorita comprou? – perguntou lady Adèle, a fim de
quebrar o silêncio.
– Razão e Sensibilidade. É um dos meus prediletos. Eu deixei o meu em Richmond e
não suporto ficar sem. Conhece o livro?
– Ora! – interferiu o marquês. – Romantismo, que as mulheres tanto adoram. Eu
achei, srta. Langland, que uma moça com a sua inteligência estaria acima de tal
mediocridade.
– Não me inclua na sua censura – disse lady Adèle. – Eu li o livro e o queimei assim
que terminei. Não faz o meu estilo.
Assim que chegaram à casa da tia Sophia, Samantha virou-se para lady Adèle.
– Acredito que a senhorita esteja interpretando as intenções tia autora de maneira
errônea. O gênero é mais para o humor do que para romance. Algumas pessoas precisam
ler o livro duas ou três vezes para compreender a ironia nas entrelinhas.
Lorde Ravensworth se mostrou interessado.
– Talvez eu deva ler o livro pela segunda vez. Pode me dar um exemplo do que está
dizendo, srta. Langland?
– Claro. A primeira frase do livro é a chave do estilo da autora. “É uma verdade
universal que um homem solteiro e rico busca uma mulher.”
– E considera esse fato engraçado?– perguntou lady Adèle.
– É hilário! – declarou Samantha com solenidade. Lorde Ravensworth a olhou com
desconfiança.
– O humor escapa a minha compreensão – declarou lady Adèle. – Poderia me ajudar
a entender?
– Talvez a senhorita enxergue o humor se mudar o gênero do sujeito e do objeto.
– Uma mulher solteira e rica busca um marido – comentou lady Adèle.
– É uma noção ridícula, não acha? – perguntou Samantha com um sorriso malicioso.
Ao observar a expressão nos olhos sombrios de Ravensworth, ela soube que o marquês
compreendera a mensagem,
Lady Adèle não era tola e percebeu a tensão que havia entre os dois. Ao se
despedir, Samantha se arrepiou toda com o olhar de inimizade e raiva que recebeu da
mulher.

Quando Samantha encontrou Ravensworth outra vez, foi na condição de convidada


de lorde Avery na ópera. Como era uma experiência nova, ela absorveu todo o espetáculo
de olhos arregalados, cheia de curiosidade. Foi Harriet quem lhe contou onde o marquês se
encontrava. Ele segurava um pequeno binóculo e estava acompanhado de lady Adèle St.
Clair. O vestido dela era tão decotado que seus seios fartos estavam quase à mostra.
Samantha olhou na direção oposta.
Ela não demorou muito para perceber que não gostava de ópera. Depois de horas de
gritos felinos de uma soprano italiana no palco, o primeiro intervalo finalmente chegou.
Samantha olhou em volta, evitando o camarote de Ravensworth a sua direita. Então
deparou com a beleza de três mulheres inclinadas sobre a beira do camarote no andar de
cima. Reconheceu-as como seus três anjos salvadores. No mesmo instante, Samantha ficou
em pé e acenou para lhes chamar a atenção.
Estava claro que havia sido vista pelas mulheres, mas as três se viraram como se
não quisessem reconhecê-la. Passando por Harriet e Avery, que conversavam
animadamente, ela saiu do camarote.
Ravensworth sinalizou para Harriet, que percebeu qual seria o próximo passo da
prima. Ela puxou Samantha pela saia.
– Samantha, por favor! Não saia daqui. Não vá conversar com aquela mulher. Você
não entende...
Samantha tentou se livrar das mãos da prima.
– Samantha, ela é Harriette Wilson, a mais famosa cortesã da cidade. Entendeu
agora?
– Claro! – respondeu ela, finalmente compreendendo. – Como fui estúpida. Eu
deveria ter imaginado. Mas como, se todos me tratam como uma criança?
Harriet relaxou. Lorde Avery mostrou-se confuso.
– Alguém pode me colocar a par do assunto, por favor? Samantha olhou para
Ravensworth. Ele estava parado, encarando-a com atenção. Com um sorriso triunfante, ela
saiu do camarote. O marquês foi correndo atrás.
– Diabos! – praguejou Harriet, também indo atrás da prima.
– Posso saber o que está acontecendo? – perguntou Avery a ninguém em especial.
Então ele se levantou e foi atrás dos outros três.
A recepção das três mulheres foi quase gélida. Sua salvadora a impediu de proferir
qualquer palavra até que suas irmãs tivessem saído do camarote. Samantha abriu a boca
para falar, porém a mulher ergueu a mão.
– Pronto! Agora você descobriu quem eu sou e quer acabar com a sua reputação
estando na minha companhia! – Ela mostrou-se furiosa. – Você achou que minhas irmãs e
eu apreciaríamos a sua atitude? Como se atreve, menina?! Se não se preocupa com o seu
nome, pelo menos tenha cuidado com o meu.
– Eu não entendo – murmurou Samantha.
– Você arriscou a minha posição na sociedade, minha cara. Não quero escutar por aí
que Harriette Wilson passou a corromper a moral de jovens inocentes. Eu seria abandonada
por todos os meus amigos, e com justa causa.
– Eu nunca achei que... Não tive a intenção de... – começou Samantha, horrorizada.
– É óbvio que não. Imagino que vá me dizer que as suas intenções eram as
melhores, certo?
Arrasada, Samantha assentiu.
– Suas intenções eram as melhores. Em algum momento lhe ocorreu como os outros
poderiam ser prejudicados pelo seu impulso intempestivo? Seu comportamento é
indesculpável!
– Eu fui uma tola – admitiu Samantha. – Jamais tive a intenção de lhe causar
problemas.
– Talvez consigamos consertar a situação. Onde está seu acompanhante? É o
marquês de Ravensworth?
Em meio aos inúmeros protestos, Ravensworth finalmente conseguiu entrar.
Samantha baixou os olhos diante da expressão furiosa dele.
– Lorde Ravensworth, permita-me dar-lhe um conselho – disse Harriette Wilson. –
Certifique-se de que esta jovem fique fora da cidade até esse escândalo ser esquecido.
Minhas irmãs e eu estamos muito constrangidas com esse incidente, e os amigos dela, se é
que algum ainda permitirá ser tratado como tal, estarão na mesma situação. Talvez dentro
de alguns meses essa indiscrição deplorável já tenha sido esquecida e perdoada, mas até lá
sugiro que a srta. Langland se mantenha bem longe.
– Escândalo? – perguntou Samantha com voz trêmula.
– A senhorita achou que ninguém repararia nessa loucura? – perguntou
Ravensworth. – Amanhã, a esta hora do dia, seu nome estará na boca de toda Londres.
Ninguém a poupará, minha cara. Sua conduta esta noite mostrou que a senhorita está
disponível. Olhe a sua volta! Repare nos olhares dos homens!
Samantha olhou ao seu redor e, horrorizada, percebeu que Ravensworth falava a
verdade. Vários homens acenavam para o camarote em que ela se encontrava,
– Tudo na senhorita indica que é uma mulher de má conduta. Seu comportamento,
seu cabelo...
Samantha afastou-se dele.
Harriet entrou no camarote naquele instante.
– Deixe-a em paz, Ravensworth! – ordenou ela, furiosa. Ele obedeceu, e Samantha
saiu correndo para os braços da prima.
– Ah, meu Deus! – exclamou Harriette Wilson. – Era só o que me faltava. Agora são
duas! Não acredito que isso esteja acontecendo comigo. O que eu fiz para merecer esse
castigo?
A mulher pôs a mão no braço de Ravensworth.
– Posso sugerir que leve essas jovens para casa antes que causem um tumulto?
– Peço desculpas pela confusão, minha querida. – Ele segurou a porta aberta para
as duas passarem.
– Espere um instante, Ravensworth. – Ele se virou. – Seja gentil com a jovem. Eu
gosto dela.
Capítulo X

Sentada na frente de Ravensworth, tia Sophia ouvia, assombrada, a história de suas


sobrinhas. Ela estremeceu diante do tora brutal e também das palavras cruéis.
Samantha também ouvia, imaginando que o lorde estava adorando seu papel de
árbitro moral e não parecia aborrecido por recriminá-la com tanta displicência. Sentada na
ponta do sofá, ela prestava pouca atenção. Sua mente concentrava-se nos detalhes da
terrível noite, na maneira como Ravensworth as arrancara do teatro como se fossem
criminosas perigosas.
Samantha olhou para o outro lado do sofá, onde sua prima chorava sem parar. Lorde
Avery, que se encontrava ao lado dela, entregou-lhe um lenço. Sua demonstração de
bravura ao enfrentar Ravensworth no camarote da ópera havia desaparecido. Harriet tinha
plena consciência de haver falhado com Samantha, e isso a deixava inconsolável. Com seu
lugar firmado na sociedade, ela não se importava nem um pouco, mas com sua prima era
diferente. Não suportaria vê-la recriminada sem um motivo concreto.
Foi o repentino colapso da pobre Harriet que deu forças a Samantha. Ela não se
esconderia como uma criatura amedrontada. Ser repreendida por ter constrangido uma
mulher com a disposição de Harriette Wilson seria aceito sem objeção. Mas, ter seu caráter
colocado em jogo por haver inalado um pouco de rapé, por haver bebido algumas taças de
vinho em uma ou outra ocasião, e por ter sido pega fumando uma única vez era algo que
não toleraria.
Samantha olhou com aprovação para lorde Avery afagando a mão da prima. Aquele
homem condizia mais com um verdadeiro cavalheiro, um nobre, pois seu comportamento
fora o mais solícito possível. Ele as tinha acompanhado até a casa de tia Sophia, tendo sido
instruído por Ravensworth para aguardá-lo lá. Samantha imaginou que as necessidades da
impaciente Adèle precisavam ser atendidas em primeiro lugar. Sem a menor discrição,
Adèle especulara sobre o relacionamento do marquês com Samantha. Esta não tinha a
menor dúvida de que a bela aristocrata contaria com a simpatia do futuro duque. Tomara
que eles sejam felizes, pensou ela, e as linhas em sua testa aumentaram.
– Mas... lorde Ravensworth – interveio tia Sophia com certa timidez –, são apenas
jovens mais animadas do que as outras. Talvez eu tenha sido um pouco relapsa no meu
papel de dama de companhia, porém agora que tenho conhecimento dos fatos em questão,
prestarei mais atenção nessas duas.
– Madame, é tarde demais para tentar corrigir algo. Essas jovens se tornaram
escandalosas demais para Londres. A péssima conduta delas colocou-as em uma situação
mais do que delicada. O acontecimento desta noite foi a gota d’água. – A voz do marquês
tornava-se cada vez mais irritada. – Elas entraram no camarote de Harriette Wilson. A julgar
pela cor de seu rosto, suponho que saiba de quem estou falando. Essas duas perderam
completamente o juízo.
Harriet chorava copiosamente, mas Samantha cerrou os dentes e endireitou-se em
seu lugar.
Tia Sophia respirou fundo.
– Isso significa que as garotas arruinaram a chance de conseguir uma entrada para o
Almack’s? – perguntou ela.
Houve um silêncio momentâneo, que foi interrompido pelos soluços de Harriet.
– Almack’s? – vociferou Ravensworth. – Almack’s? Eu lhe informo, madame, que o
único lugar onde essas duas “damas” serão aceitas é na cama de todos os libertinos da
cidade.
Os olhos da senhora se arregalaram em sinal de horror.
– Meus sais... – sussurrou ela, apertando a garganta. Harriet se levantou no mesmo
instante,e saiu correndo da sala. Avery foi atrás.
– Está contente agora? – perguntou Samantha, inclinando-se sobre a tia para sentir-
lhe o pulso. – O senhor não tem o direito de denegrir a nossa imagem dessa maneira, lorde
Ravensworth. Além disso, sua conduta no passado com relação à minha pessoa não lhe dá
nenhum direito de agir como depositário dos princípios morais. Pare com essa hipocrisia,
por favor. – Samantha viu o brilho nos olhos do marquês e virou-se para acudir a tia. –
Calma, tia Sophia. Não fique assim. Lorde Ravensworth está exagerando. Harriette Wilson é
uma mulher muito bondosa. A senhora a adoraria se tivesse a oportunidade de conhecê-la.
Aquilo foi demais para tia Sophia, que acabou por desmaiar. Ravensworth sentou-se
segurando a cabeça entre as mãos, sem saber se ria ou se chorava.
Harriet voltou pouco depois com um pano embebido de vinagre, que colocou sob o
nariz da tia. Esta logo voltou a si.
– É o sangue Grenfell – murmurou tia Sophia. – Eu deveria ter imaginado que não
ficaríamos imunes nessa geração. Tal pai, tal filho; tal mãe, tal filha.
– Que sangue Grenfell?– perguntou Ravensworth, achando que a senhora havia
perdido o juízo.
– As garotas estão infamadas – lamentou ela, como se não o tivesse ouvido. – Está
no sangue, sabe? Eu adverti sua mãe, minha sobrinha – disse Sophia, dirigindo-se a Harriet.
– Eu lhe implorei para não se envolver com John Grenfell. Nós, os Woodward, sempre
fomos muito circunspetos no que diz respeito à moral e aos bons costumes, enquanto os
Grenfell nunca se preocuparam com as convenções sociais. Quantos duelos ele travou!
Como foi irresponsável... Mas sua mãe o quis mesmo assim. Agora, olhe só o que
aconteceu!
– Meu pai? – perguntou Harriet, chocada com a revelação da tia. – Eu não acredito.
Ele sempre foi tão correto, tão cerimonioso. Não me diga que papai era um... devasso?
– Bem, ultimamente não, é claro. Devo informá-la, porém, que a reputação dele não
era das melhores antes de se casar com sua mãe. Isso foi há muito tempo, Ah, Harriet,
minha querida, está no seu sangue. – Ela inalou o pano com vinagre mais uma vez.
– O que eu lhe disse? – Avery cochichou para Ravensworth.
– E a mãe da srta. Langland? – perguntou o marquês com cautela.
– Ah, terrível aquela jovem! Eles eram conhecidos como Terríveis Grenfell. Jane
Grenfell tinha um talento nato para travessuras. E como melhorar se o irmão era ainda pior?
Ele a estimulava a agir. Sinto em lhe dizer, Samantha, mas a sua mãe não foi recebida nas
melhores salas da aristocracia. Não que se importasse. Ela estalava os dedos para o mundo
e continuava sua vida.
A notícia escandalizou Samantha.
– Está dizendo, tia Sophia, que minha mãe era uma libertina?
– Não como você imagina. Claro que não! Mas... Bem... Como posso colocar? Ela
era uma moça muito teimosa, inclinada a aprontar. Até o dia em que Jane se comprometeu
e teve de se casar com seu pai.
– Meu pai? – perguntou ela, olhando para Harriet. As duas se aproximaram,
buscando o conforto uma da outra.
– Eu nunca consegui entender – prosseguiu tia Sophia. – O comportamento de
Graeme Langland sempre foi dos mais impecáveis. Era um cavalheiro em todos os sentidos
da palavra. Mas ele se comprometeu com sua mãe. Então o irmão de Jane, sir John,
obrigou-o a se casar com ela. Claro, naquela época sir John já havia se casado e se tomado
um homem respeitável.
– Mas... mas a mamãe sempre foi tão correta, tão digna.
– Eu concordo, minha querida. Isso foi nos últimos anos. Ela e sir John eram o
assunto da cidade. Quando se casaram, todos comentaram a “domesticação” dos irmãos
Grenfell. Você sabe, o casamento pode corrigir até o pior caráter.
Ravensworth suprimiu uma risada e olhou para Samantha, que ostentava um brilho
de especulação em seus olhos.
– Encontrei a solução! – exclamou tia Sophia em um momento de repentina
inspiração. Todos a olharam com grande interesse.
De repente, a cor voltou-lhe às bochechas.
– É claro! Vocês não enxergam? – Ela endireitou-se na poltrona. – As garotas
precisam se casar o mais depressa possível! Sir John cuidará de tudo. Elas devem partir
imediatamente para Bath. Amanhã cedo! Nós chamaremos seu irmão, Samantha, para que
ele as acompanhe. Eu, é claro, ficarei em Londres. Sou muito velha para viajar e realmente
não suportarei uma reprimenda do meu sobrinho. De certa forma – acrescentou tia Sophia –
, eu preferia seu pai como era antes.
– Um momento, por favor – interferiu Ravensworth. – Não há necessidade de
convocar o jovem Vernon. Ele é muito inexperiente para essa tarefa. Permita-me que eu lhe
ofereça meus serviços, madame. E lorde Avery irá comigo. – Ele sorriu para Samantha. –
Colocarei a minha carruagem à disposição de vocês. Nós acompanharemos as jovens e,
com a presença de uma dama de companhia, acredito que cumpriremos as convenções
sociais.
– Case-nos o mais depressa possível. Levem-nos a Bath como se fôssemos
criminosas. Não quero saber de nada disso! Nós não somos suas pupilas, milorde – disse
Samantha entre os dentes cerrados. – Harriet, diga isso a ele.
– Samantha, por que a irritação? No instante em que você entrou no camarote de
Harriette Wilson, eu soube qual seria o nosso destino – respondeu a prima, sem a menor
disposição para lutar.
– Chega! – ordenou uma tia Sophia austera. – Está decidido! Agradeço a sua
generosa oferta, lorde Ravensworth, e aceito-a. Vamos marcar a partida para as dez da
manhã?
– Não, acho melhor às oito. Às dez horas, todos os devassos da cidade estarão
batendo na sua porta. – Ele sorriu com malícia. – Apenas uma mala, minhas jovens. Mesmo
que isso signifique que as senhoritas tenham de se casar com seus futuros maridos durante
a viagem.
Samantha o olhou com desdém. Sem se abalar e com sua habitual arrogância, o
marquês ergueu o queixo.

Samantha abriu a porta de quarto de Harriet e entrou.


– Eu vi a luz acesa e decidi vir até aqui – disse ela. Harriet estava sentada na beira
da cama penteando os cachos dourados. Quando viu a prima, deixou a escova de lado.
– Samantha, eu prometi à mamãe que tomaria conta de você. Não posso lhe dizer
quanto estou aborrecida por ter fracassado. – Não havia mais lágrimas para chorar, mas
Harriet assoou o nariz no lenço que segurava.
– Harriet! Harriet! Pare com isso, por favor! Eu pareço precisar de uma babá? Você
não falhou comigo, prima. – Ela balançou a cabeça. – Você não achou que eu fosse me
adaptar aos costumes absurdos do seu beau monde, achou? Por favor, diga-me que não.
Harriet ergueu o rosto e fitou a prima.
– Se você for banida da sociedade, se as pessoas não quiserem recebê-la, eu
estarei arruinada.
– Pare de falar besteiras! Eu sou herdeira dê uma fortuna considerável. Daqui a um
ano atingirei a maioridade e poderei fazer o que bem entender. Não pense que tenho a
intenção de me casar com um dos jovens fúteis que me foram apresentados e perder o
controle da minha fortuna.
Harriet parou de chorar de repente e olhou, incrédula, para a prima.
– Você realmente não se importa?
– Claro que não – respondeu Samantha com sinceridade. – Eu só me incomodo em
saber que lhe causei tanta dor. Harriet, você pretende entrar para a sociedade, e eu posso
ter estragado seus planos. Seja sincera, eu arruinei a sua vida? Eu denegri a sua
reputação?
– Reputação? Eu não me importo com o que a sociedade pensa de mim!
– Então por que a tristeza? É por minha causa? Você ainda não percebeu que temos
as mesmas idéias? Por que deseja para mim o que eu tanto desprezo?
– Samantha – sussurrou Harriet, suprimindo um sorriso –, você acha que está no
nosso sangue?
– Pode ser. Mas eu sou assim por convicção, e não apenas por laços de sangue.
– Os Terríveis Grenfell – disse Harriet, lembrando-se das palavras da tia.
– As primas encrenqueiras!
– As solteiras arruaceiras!
– As damas lamentáveis!
– As mulheres geniosas!
– Harriet, você acha que agora podemos cheirar rapé quando estivermos sozinhas?
– perguntou Samantha assim que recuperou o fôlego.
Sem nenhuma palavra, Hamet pegou a caixa de rapé de sua penteadeira e entregou-
a à prima.
– Aceita um pouco? – ofereceu Samantha.
As duas se divertiram sem parar durante quase uma hora. Samantha ficou contente
por Harriet ter recuperado um pouco da alegria habitual. Quando mencionaram a arrumação
das malas para a viagem da manhã seguinte, todavia, o comportamento das duas tomou-se
mais sério.
– Eu não gostaria de me encontrar com mamãe e papai.
– O que eles podem fazer conosco? Nós não fizemos nada de errado – declarou
Samantha.
– Não, eles não podem fazer nada! – concordou Harriet, apegando-se ao
pensamento.
– Nós temos uma à outra, e a companhia de lorde Avery será de algum consolo.
– E lorde Ravensworth? – perguntou Harriet, estudando a prima com atenção.
– Teremos de suportá-lo. Eu não admitirei que ele tente mandar em mim. Nós vamos
para Bath. Será uma grande aventura, Harriet, e aproveitaremos cada segundo.
Harriet piscou. Depois de um momento de reflexão, ela assentiu.
– Você tem razão, Samantha, como sempre. Nós não fizemos nada de errado e não
precisamos nos envergonhar. Eu não me inclinarei diante de um bando de fofoqueiros.
Vamos enfrentar juntas esse problema.
– A propósito, Harriet – disse Samantha levantando-se para sair do quarto da prima –
, você vai levar a sua caixa de rapé, não vai? Eu ainda não tive tempo de comprar uma para
mim.
Harriet sorriu.
– Pode confiar em mim.

Capítulo XI

Quando Samantha e Haniet desceram para o jantar, o marquês informou-as de que


estavam hospedados na melhor estalagem da aldeia. Verdade fosse dita, pensou
Samantha, era a única do local. Se é que podiam considerar aquele estabelecimento uma
estalagem. Enquanto viajantes mais afortunados descansavam seus corpos em camas
macias do Hotel Castelo, Ravensworth havia preferido se alojar naquela pequena
hospedaria pitoresca, em um povoado localizado a vinte quilômetros de Marlborough. Agira
assim em nome da reputação das jovens, pois temia encontrar alguém conhecido pelo
caminho e piorar ainda mais a reputação delas.
A porta da sala privada se abriu e Ravensworth entrou.
– Está sozinha, srta. Langland? – perguntou ele olhando à sua volta. – Onde estão
seus companheiros?
Samantha, com o toque certo de cortesia, mas pouco calor na voz, explicou que a
prima e lorde Avery tinham saído para dar um passeio no pátio.
– Lorde Avery achou que o humor de Harriet melhoraria um pouco com um passeio
depois da viagem tediosa na carruagem fechada. Ela parecia aborrecida.
Ravensworth digeriu aquela informação em silêncio por um instante, então caminhou
até a lareira. Estendeu as mãos e esfregou-as. Samantha voltou a atenção para o jornal em
seu colo.
– Eu não preciso perguntar se está aborrecida, srta. Langland. – O tom de voz de
Ravensworth era amável. – Pelo visto, não se aborrece com facilidade.
Samantha notou a repreensão por trás das palavras dele.
– É verdade, milorde.
O marquês sentou-se na poltrona em frente a Samantha e recostou-se contra as
almofadas. Em seguida tirou uma caixa prateada do bolso e abriu-a com elegância.
Um brilho se acendeu nos olhos dela.
– Não seja tola a ponto de achar que vou convidá-la para cheirar rapé comigo.
Espero que não se incomode se eu cheirar.
Samantha deu de ombros, indicando que ele poderia fazer o que bem entendesse.
Mais uma vez, ela baixou os olhos para o jornal. Alguns instantes depois, Ravensworth
quebrou o silêncio de novo:
– Srta. Langland... Samantha, posso lhe fazer uma pergunta? Ela o olhou com
curiosidade e esperou.
– Estou realmente interessado na sua versão dos acontecimentos. Duvido que a
situação atual a esteja deixando contente. Mesmo assim, você está aqui, sossegada, lendo
as notícias de ontem como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo. Não se
arrepende de haver se metido em um apuro tão grande e de ter levado sua prima junto?
Um pouco mais treinada, Samantha lançou-lhe um olhar de indiferença.
– Eu não vejo mal nenhum em qualquer uma das minhas ações, milorde. Se a minha
consciência estivesse pesando, seria um assunto completamente diferente. Nesse caso, eu
não ficaria em paz enquanto não colocasse tudo em sua devida ordem. Mas não pense que
me verá cabisbaixa por uma pequena transgressão das convenções da sociedade. Seria um
absurdo sem tamanho.
Ravensworth grunhiu e sentiu a bile subir em sua garganta.
– Você não tem idéia do que é correto? Sua conduta não é nem um pouco adequada
para uma jovem de berço e bem-educada. Para ser direto, Samantha, você desgraçou a sua
vida.
– Discordo! – Ela irritou-se e jogou o jornal no chão. – Desgraça? Não acha que é
uma palavra forte demais? O que eu fiz de errado? Denegri o meu nome perante uma
classe social que desprezo? Agi errado ao conversar com uma mulher que foi tão amável
comigo em um momento de apuro? Admito que eu fui descuidada ao abordar a srta. Wilson
na ópera, mas foi por pura ignorância, e não por malícia. – Sua voz vibrava com desdém. –
Vivemos em um mundo distorcido em que uma jovem é condenada por não fazer nada além
de seu dever, enquanto um homem que se julga honrado pode fazer uma proposta absurda
a uma moça de respeito...
– Acalme-se, Samantha – interrompeu-a Ravensworth. – Já faz um tempo que eu
gostaria de conversar sobre a proposta que lhe fiz.
– Como ser atreve?! – ela gritou, levantando-se.
– Quer que eu reitere a minha proposta? – perguntou ele, confuso.
Samantha notou que o marquês zombava dela, ridicularizando-a.
– O senhor sabe perfeitamente que não. Eu achei que tivesse deixado bastante clara
a minha posição a esse respeito. Seu modo de vida e sua conduta não se coadunam com
os meus princípios. – Os lábios de Samantha se curvaram em um sorriso. – Para ser mais
específica, milorde, o homem a quem me entregarei não será da sua espécie.
A última frase deixou Ravensworth furioso. Levantou-se de repente e deu um passo
ameaçador na direção dela. Samantha foi indo para trás até suas mãos trêmulas
encontrarem a cômoda contra a parede.
Ele chegou sem pressa e, com negligência afetada, colocou as mãos ao lado do
corpo de Samantha. A expressão de Ravensworth era impassível, porém ela acreditava que
mascarava alguma emoção mais profunda. Samantha sentiu o suave aroma da colônia
masculina e virou a cabeça de lado para se afastar do perfume perturbador. A proximidade
dele era intimidante, e Samantha sentiu as faces enrubescerem. Então entreabriu os lábios
para respirar melhor.
– Touché– murmurou Ravensworth sem a menor emoção. – Esse último comentário
foi feito com a intenção de magoar, não é? Agora que atingiu seu objetivo, por que se
render? Continue, por favor. Você não se entregará a um homem da minha espécie. Foi aí
que parou.
Os olhos de Samantha se dirigiram rapidamente à porta e, com certo sentimento de
relutância, ela imaginou se deveria tentar escapar. A voz de Ravensworth, tão próxima de
seu ouvido, advertiu-a contra a tentativa:
– Nem pense nisso! – Ele pegou-lhe o queixo e forçou-a a olhar para cima. – Fale-
me sobre um homem da minha espécie, Samantha. Eu quero ouvir.
Ela seria honesta, mesmo que Ravensworth ficasse possesso.
– O senhor não é coerente. O senhor me recrimina por haver desrespeitado as
regras da sociedade, porém achou justo me pedir para ser sua amante. Em momento algum
se preocupou com a minha felicidade, Não pensou na paz de espírito da minha família.
Pensou apenas na sua realização pessoal. O homem com quem eu me casar será...
– O homem com quem eu me casar – o marquês a imitou, interrompendo-a. – Escute
aqui, srta. Samantha Langland. O homem com quem você se casar serei eu ou nenhum
outro. – O tom dele ficou mais suave: – Você não entende nada, sua tola? – Ravensworth
inclinou o rosto, estudando cada detalhe da feição dela. – Samantha? – murmurou, como se
pedisse permissão para fazer algo.
Embora não tivesse medo do marquês, ela reconheceu que Ravensworth transmitia
certa ameaça e que, se fizessem amor, não haveria como voltar atrás. Estaria perdida para
sempre. Os lábios do marquês tocaram-lhe os olhos, e a força de vontade de Samantha
arrefeceu. Seu coração disparou assim que começou a sentir um formigamento espalhando-
se por seu estômago. Ela observou os sintomas como se estivesse fora da cena, como se
fosse um médico analisando os indícios de uma doença em um paciente.
– Samantha? – A voz dele foi ligeiramente persuasiva, e despertou algo profundo em
seu ser. Ela inclinou o rosto para convidá-lo a beijá-la. Braços fortes a envolveram e
Ravensworth tomou-lhe os lábios com um carinho encantador. Sem pensar, Samantha
encaixou o corpo no dele. Beijar Hugh Montgomery, pensou ela, era o prazer mais
esplêndido que já tinha vivenciado em toda sua existência.
Com certa relutância, Ravensworth se afastou de Samantha, decepcionando-a.
– Diga-me em que você está pensando! – ordenou ele, devorando-a com o olhar.
– Estou pensando que adoro beijá-lo. É uma sensação maravilhosa.
– Melhor do que cheirar rapé? – provocou o marquês.
– Quando eu cheiro rapé, só o meu nariz formiga. Quando você me beija, o
formigamento se transforma em um verdadeiro tremor.
A resposta pareceu agradar bastante a Ravensworth. Ele inclinou-se para beijá-la
novamente, e Samantha sentiu a sensação em seu corpo transformar-se em um desejo
insaciável.
– Agora diga-me em que está pensando.
– Eu quero mais... – respondeu ela.
– Mais o quê? – perguntou o marquês contra os cabelos sedosos.
Samantha tentou ordenar seus pensamentos. Não sabia ao certo se era aquilo que
queria. Mas uma certeza tinha: Ravensworth lhe causava sensações que a deixavam zonza.
– Eu não sei... Mais do que você tem a me oferecer – respondeu ela, afagando os
cabelos negros.
– Minha querida... Eu quero você por inteiro. Samantha podia ouvir o coração dele
batendo forte, tanto quanto o seu. Havia uma nova urgência, uma fome naqueles lábios que
a beijavam. Uma excitação selvagem a invadiu. Ravensworth sentiu a resposta dela, e suas
carícias se tomaram mais ardentes, mais possessivas, impelindo-a a render-se com
abandono. De repente, Samantha ficou confusa e o afastou.
– Diga-me em que você está pensando – pediu ela, quase sem fôlego, tentando ler a
expressão nos olhos brilhantes que a fitavam com tanto ardor.
– Eu estou pensando, minha linda jovem, que vou enlouquecer se não fizer amor
com você.
O vermelho tomou conta das faces de Samantha, que não soube como responder.
– Samantha, espere um instante – disse Ravensworth, vendo a confusão nos olhos
dela. – Eu não tenho a menor intenção de desonrá-la. Você precisa saber quais são as
minhas intenções para o nosso futuro.
Lágrimas ameaçavam cair dos olhos de Samantha, que se desvencilhou do abraço
do marquês.
– Por favor, não diga mais nada. Não quero ouvir mais uma de suas propostas. – Ela
deu uma risada trêmula. – Sei que tipo de homem você é. A culpa foi minha, por haver
permitido tais liberdades. Que loucura! Não estou me reconhecendo.
Samantha balançou a cabeça, na intenção de voltar ao normal. – Na minha vida não
existe lugar para um homem com o seu caráter. Nós dois somos como água e óleo. Saia de
perto de mim!
– Samantha, por favor, me ouça. Eu lhe peço perdão... O som de passos subindo a
escada o interrompeu.
– Inferno! – resmungou ele, seguindo para perto da lareira e recompondo-se.
Harriet entrou na sala naquele instante, alegre e com uma excelente aparência. O
passeio fora um ótimo remédio para a falta de ânimo da jovem. Avery entrou pouco depois.
Ela pegou o jornal do chão e sentou-se na poltrona perto da lareira. Então fingiu
concentrar-se na leitura. O visconde sorriu para os outros dois.
O jantar, muito melhor do que o esperado em um ambiente como aquele, foi uma
refeição bastante silenciosa. Com grande alívio, as damas pediram licença e deixaram os
cavalheiros na companhia da melhor garrafa de conhaque que a casa tinha a oferecer para
os hóspedes.
Quando ficaram a sós, Avery encarou o amigo.
– E então? – perguntou Ravensworth.
– Uma verdadeira catástrofe.
– Ela recusou?
– Ah, não, ela aceitou. – Avery estava feliz da vida. – Vamos ver o que acontece de
agora em diante.
– O que houve de errado?
O visconde ficou sério e baixou os olhos por um momento. Depois ergueu-os para o
amigo.
– Algo que eu disse levou Harriet a crer que culpo Samantha pela situação em que
as duas se encontram. Isso não faz o menor sentido.
– Mas a culpa é dela! – exclamou o marquês, sem pestanejar. Ele deu um longo gole
em seu conhaque. – Não pense que me ofende em dizer o que se passa pela cabeça de
Samantha. Ela não tem a menor noção de como agir perante a sociedade. Tal mãe, tal filha.
Disso não tenho a menor dúvida. O pai deveria ter sido mais enérgico com essa jovem.
– Pelo que me consta, o pai dela sempre foi muito rigoroso, mas nunca bateu na
filha.
– Esse é um assunto que pretendo resolver bem depressa – ameaçou Ravensworth.
Ele encheu o cálice e o esvaziou no mesmo instante.
– Você ainda pretende tê-la? – perguntou*Avery, estudando o anel de diamantes em
seu dedo.
– Se eu conseguir convencê-la, sim.
– Você sabe que essa jovem transformará a sua vida em um verdadeiro inferno.
– Eu saberei lidar com ela. Se estabelecermos nossa residência na África, tenho
certeza de que Samantha se entenderá muito bem com a sociedade.
Lorde Avery sorriu.
– Harriet não vai gostar da idéia. Ela adora a prima. Se me permite, meu amigo, eu
não acho que Samantha seja uma boa companhia para Harriet.
– Eu concordo com você, Avery. Samantha não é uma boa companhia para
ninguém. Ela cria confusão por todos os lugares que passa. Olhe para mim. Até conhecê-la,
eu era um sujeito razoável, não é? Você me via mal-humorado com freqüência? Eu não
tinha a menor preocupação com o mundo. – Ravensworth foi envolvido pela nostalgia ao
lembrar-se dos dias alegres de sua juventude. – A vida era tão simples naquela época... Eu
adorava sair com as mais belas mulheres, mesmo as de reputação duvidosa. Meu erro foi
ter me encantado com uma jovem cheia de virtudes. Tome cuidado, caro visconde, para não
cair na mesma cilada que eu. Essa moça me envolveu de tal maneira que eu não sei mais
discernir o certo do errado.
– Vamos beber, então – disse Avery, erguendo o copo.
Duas garrafas de conhaque mais tarde, os dois cavalheiros se ajudavam
mutuamente a subir as escadas, que juravam terem se tomado mais longas. Eles caíram na
cama vestidos, sem se importar em tirar as botas cheias de lama. Denby, pensou
Ravensworth em um momento de lucidez, por sorte não esta\ a presente para testemunhar
a desgraça do patrão.

Capítulo XII

Amanhã seguinte nasceu cinza e ameaçadora. Um dia para passar na cama, como
dissera o dono da hospedaria ao entregar às damas um bilhete com a letra de Ravensworth.
O papel as informava que eles não se juntariam a elas antes do meio-dia, pois queriam
aproveitar as horas para descansar.
As primas não acreditaram. Elas tinham acordado durante a noite com o barulho dos
dois subindo as escadas e dirigindo-se, cambaleantes, para seus quartos. O fato de ambos
estarem sofrendo dos efeitos da bebedeira da noite anterior trouxe um sorriso de satisfação
aos lábios das jovens, pois Ravensworth e Avery não haviam permitido que elas colocassem
uma única gota de álcool na boca.
– Justiça divina! – comentou Samantha, terminando de ler o bilhete. Ravensworth
adicionara uma advertência nos termos mais diretos possíveis, ordenando que
permanecessem longe dos olhares do público até que chegasse a hora de continuarem a
viagem. A dama de companhia deveria acompanhá-las em todos os momentos. Entretanto
isso não seria possível, pois Alice havia acordado com febre alta e não conseguira se
levantar da cama.
Quando terminaram de tomar o café da manhã, elas voltaram para o quarto, onde
Alice se virava de um lado para outro na pequena cama que fora acrescentada ali. Como
era de esperar, os lordes Ravensworth e Avery tinham cada um seu próprio quarto.
Samantha viu que a garota sofria demais e insistiu para que ela se mudasse para a
sua cama, bem maior. Harriet ficou ao lado de Alice, enquanto Samantha foi atrás do
proprietário para pedir um pouco de mingau e chá quente para a doente. O fato de ter de
desobedecer à ordem de Ravensworth de ficar longe dos outros hóspedes a incomodou um
pouco, mas ela faria tudo que estivesse ao seu alcance para aliviar o sofrimento de Alice.
Durante a maior parte da manhã, as duas se revezaram cuidando da criada. Uma
chuva torrencial começou a cair, impedindo-as de sair para um passeio no pátio a fim de
tomarem um pouco de ar. Quando Alice adormeceu, Samantha decidiu lavar o cabelo e
deixou-o solto. Por algum motivo, Ravensworth não aprovava seu cabelo solto e, para não
criar polêmica, ela o usava trançado e preso em um coque na nuca.
No final da tarde, e ainda sem nenhuma notícia dos cavalheiros, Samantha notou
que o estado de saúde de Alice tinha piorado bastante e que precisariam chamar um
médico. Não seria um assunto tão simples de resolver como em circunstâncias normais,
pois a chuva, que não demonstrava o menor indício de diminuir, tomara as estradas
intransitáveis. A estalagem, por sua vez, estava repleta de pessoas procurando um lugar
para passar a noite antes que fossem obrigados a dormir em algum ponto deserto da
estrada. Na ausência de Ravensworth e Avery, Samantha decidiu ir atrás do cocheiro e
instruí-lo para encontrar um médico.
Ela ficou parada no corredor escutando as vozes e risadas vindas do salão
comunitário. A julgar pelas frases que chegavam a seus ouvidos, era evidente que havia um
bando de homens reunidos no estabelecimento, preparando-se para uma grande folia. Não
havia nenhum lacaio à vista para chamar o cocheiro. Tinha sido muito injusto da parte de
Ravensworth, pensou ela, sentindo sua fúria aumentar, deixá-las em um apuro como esse.
Decidida, Samantha foi até o quarto dele e bateu na porta.
– Ravensworth! – chamou ela, o mais alto que conseguiu. – Ravensworth! Acorde!
Preciso falar com você! – Nada aconteceu. Samantha tentou abrir a porta. E conseguiu. –
Ravensworth. Levante-se, por favor. Precisamos de um médico para Alice. Se você não sair
da cama, eu mesma vou atrás de um.
O marquês se mexeu em meio aos lençóis. Então abriu os olhos.
– Saia daqui! – disse ele em um fio de voz. – Não percebe que não tenho condições
de ajudá-la? Estou à beira da morte. Faça o que bem entender.
A ira de Samantha chegou a fervilhar em suas veias. Ela bateu a porta e desceu as
escadas. Seu cabelo esvoaçava em todas as direções. Quando encontrou o proprietário na
cozinha, pediu-lhe que chamasse o cocheiro do marquês de Ravensworth e o enviasse o
mais depressa possível para a sala de estar particular que fora reservada para o grupo. O
homem não a reconheceu e arregalou os olhos diante da cascata de cachos dourados, dos
olhos reluzentes, da boca voluptuosa. A quem pertenceria aquela deusa?, imaginou ele,
estupefato.
Samantha saiu da cozinha com dignidade e começou a acreditar que os temores de
Ravensworth a respeito de uma jovem sair sem a dama de companhia eram infundados.
Enganou-se, porém.
Quando chegou ao primeiro andar, um cavalheiro interpôs-se em seu caminho,
impedindo-a de prosseguir. Ele inclinou-se no batente da porta e ajeitou a gravata.
Samantha hesitou, mas ao notar que o interesse do cavalheiro não se dirigia à sua pessoa,
tentou passar ao lado do homem, cabisbaixa.
– Com licença – ela murmurou.
– Srta. Langland? – indagou o desconhecido. – Samantha Langland, não é?
Ela franziu as sobrancelhas, tentando se lembrar de onde o conhecia. O que viu nos
olhos dele a deixou desconfortável.
– Eu não o conheço, senhor.
– Eu ficaria contente em retificar essa omissão. Nós temos uma conhecida em
comum.
– Quem seria? – perguntou Samantha, sentindo o nervosismo chegar.
O cavalheiro abriu um sorriso.
– A srta. Harriette Wilson. Eu estava no camarote dela no dia em que você foi até lá.
Harriette não nos apresentou, o que foi uma pena. Eu sou Reginald Overton, conde de
Grafton, seu criado. – A voz dele era acariciante.
– A srta. Wilson me ajudou muito em um momento de grande dificuldade – explicou
Samantha, tentando passar por ele. Havia algo de ousado na maneira como o sujeito a
encarava.
O cavalheiro se aproximou e Samantha sentiu a respiração dele em suas faces.
– Você é uma linda jovem – disse o conde, afagando-lhe o cabelo. Samantha se
afastou, mas ele a tomou nos braços.
Ela ficou tão surpresa com a ousadia daquele homem que não fez nada para resistir.
Quando os lábios dele encostaram-se nos seus, entretanto, Samantha o empurrou para trás.
Grafton abriu um sorriso e tentou fazer com que ela entrasse em seu quarto. O pavor tomou
conta de Samantha, dando-lhe forças para lutar contra aquele homem. Mordeu-lhe os lábios
quando ele tentou beijá-la novamente. Grafton se afastou, e ela aproveitou o momento para
subir o pequeno lance de escadas.
Samantha não hesitou nem por um instante. Sabia onde estaria a salvo e foi para lá
que se dirigiu. Passou pela porta de seu quarto e pela do de Avery, seguindo direto para os
aposentos de Ravensworth. Grafton vinha logo atrás. Tentando recuperar o fôlego, ela abriu
a porta do quarto e jogou-se nos braços do marquês.
Ravensworth não sabia o que estava acontecendo. Depois que Samantha saíra de
seu aposento, as palavras dela entraram em sua consciência, trazendo-o de volta ao mundo
dos sóbrios. Ele tinha saído da cama e abotoava a camisa quando ela entrou esbaforida.
Braços fortes a envolveram. Ao olhar para a porta, Ravensworth viu o conde parado à porta.
– Eu não sabia que você estava com Ravensworth – comentou Grafton com certa
malícia. – Quem sabe não podemos chegar a um acordo. Claro, com o consentimento dele.
Samantha não captou a mensagem escondida por trás das palavras do conde, mas
Ravensworth entendeu perfeitamente. Ele afastou Samantha de seus braços e caminhou
até a porta. Ela ouviu o barulho, porém não viu o que aconteceu. O marquês estava em
cima do conde de Grafton.
– Se ousar encostar um dedo na jovem, eu mato você – disse Ravensworth com um
tom de voz bastante calmo. – Vamos resolver esse assunto com um duelo, se preciso for.
Mal-humorado, o conde sentou-se no chão e massageou o queixo, que havia sido
atingido.
– Como eu poderia saber que a dama está sob a sua proteção?
– Ravensworth – chamou Samantha, começando a compreender o que se passava
ali. – Lorde Grafton me viu na companhia de Harriette Wilson. Se lhe explicarmos o que
aconteceu...
– Quieta, Samantha!
Poucos instantes depois, Grafton se levantou.
– Você deve ura pedido de desculpas à jovem – sugeriu Ravensworth, mascarando
uma ameaça.
– Ravensworth – interferiu Samantha –, explique a nossa situação ao conde de
Grafton.
– Explicar o quê, meu amor? – perguntou Ravensworth, olhando-a com uma
expressão vazia. Ela estranhou, mas preferiu ignorar.
– Diga-lhe que a minha dama de companhia está viajando conosco, que não há nada
de errado na nossa conduta.
– Você ouviu a jovem – disse Ravensworth.
– Eu lhe peço desculpas, srta. Langland, por meu comportamento ousado. Enganei-
me em relação à situação. – Ele deu um passo para trás. – Perdoe-me pela intromissão,
Ravensworth. Foi um erro de julgamento mais do que natural, se é que você me entende.
Ravensworth ficou calado. Samantha se irritou com as insinuações na conversa e
decidiu agir.
– Lorde Grafton, por favor, escute-me. Nós não estamos viajando sozinhos. Minhas
acompanhantes estão...
– Basta, Samantha!
Quando Grafton saiu, o marquês fechou a porta de seu quarto.
– E então, madame, espero que tenha um excelente motivo para me explicar esse
pequeno incidente.
Pela primeira vez, Samantha percebeu que Ravensworth usava apenas calça e
camisa, esta aberta até o meio do peito. Ela sentiu uma grande urgência de tocá-lo.
Encontrava-se sozinha com um homem no quarto. Deveria estar apavorada, pois era quase
a mesma situação que vivenciara com o conde de Grafton.
– Ele a beijou e você o mordeu – comentou Ravensworth, tendo notado o sangue na
boca de Grafton.
– Ele me molestou! Foi deprimente! – defendeu-se Samantha.
O marquês franziu a sobrancelha.
– Você não sentiu formigamentos? Perguntou ele, enquanto continuava a se vestir.
– De forma alguma. Senti apenas nojo lembrando-se da boca grudada na sua.
– Imagino que você saiba o que isso significa marquês, dando o nó na gravata.
– O quê? – indagou Samantha, realmente curiosa.
– Samantha, algumas vezes você me decepciona. Conte-me como tudo aconteceu.
Ela relatou os fatos exatamente como haviam ocorrido, imaginando desencadear a
raiva de Ravensworth.
– Espero que tenha aprendido a lição, minha jovem. – Ele parecia não se importar
com o apuro pelo qual Samantha passara nas mãos do conde de Grafton. – Uma mulher
sempre deve estar sob a proteção de um homem. Um homem que saiba cuidar dela. Se o
mundo soubesse que você pertence a mim, nada disso teria acontecido.
Samantha se desapontou. Talvez Ravensworth acreditasse que, em algum momento
de insanidade, ela aceitaria sua proposta indecente. Faria questão de deixar bem claro que
não havia chance alguma de isso acontecer.
Samantha se endireitou antes de começar seu discurso.
– Nesse caso, a única solução que vejo é o casamento – disse ela com uma nota de
amargura na voz. – Vou encontrar um jovem quacre que tenha as mesmas convicções que
eu. Um homem que me respeite e que me faça feliz. Sim, um marido quacre seria perfeito.
Eu desfrutaria uma liberdade que é negada à maioria das mulheres.
– Não pense que existe um homem sobre a face da Terra que permita que a esposa
desafie sua autoridade – respondeu o marquês. – Pode ser quacre, hindu, o que for.
Samantha irritou-se com o ar de superioridade masculina.
– Você não sabe nada sobre os quacres.
– E você não sabe nada sobre os homens. Além do mais, eu já lhe disse qual é o
seu destino. É melhor ir se acostumando à idéia.
Ele sorriu com certa maldade.
Samantha cerrou os dentes. Ravensworth fingiu não notar. Então deu o braço para
ela.
– Vamos ver por onde andam nossos companheiros?
Do outro lado da porta, o casal deparou-se com Harriet e Avery vindo de direções
opostas. Como era de esperar, eles perceberam que os dois haviam saído do quarto do
marquês. Avery baixou a cabeça. Harriet arregalou os olhos e balbuciou, um cumprimento.
– Harriet – começou Samantha, nervosa, tentando corrigir j a impressão errônea da
prima –, havia um homem odioso me perseguindo. Ele me confundiu com... com uma amiga
íntima de Harriette Wilson. – A voz dela tomou-se mais ofegante à medida que tentava
explicar a complexa história a Harriet. – Eu corri para o quarto de Ravensworth em busca de
proteção. O sujeito me beijou e queria me levar para o seu quarto, mas eu o mordi.
– Samantha não está se referindo a mim – interveio o marquês com um brilho nos
olhos. – Ela entrou nos meus aposentos sem ser convidada.
– Claro, eu precisava de ajuda.
– Isso explica tudo – disse Ravensworth, severo. – Agora, vamos cuidar do assunto
que precipitou toda essa aventura. Pelo que me consta, era algum problema com Alice.
Algo dizia a Samantha que Ravensworth estava se divertindo com seu apuro.
Algumas palavras bem escolhidas por parte dele teriam explicado seu comportamento
estranho, mas cada sentença proferida pelo marquês dava a impressão de que ela inventara
o mítico cavalheiro que a beijara com tanto ardor. Logo Samantha desistiu de explicar sua
presença no quarto de Ravensworth, pois sabia ter agido errado ao ficar ali assim que o
conde de Grafton se retirara.
Harriet a informou que ela e Avery a tinham procurado por alguns minutos, e que
haviam passado pela porta fechada do quarto do marquês mais de uma vez. Sem saber o
que dizer, Samantha olhou para Ravensworth pedindo ajuda, mas ele se manteve calado,
deixando-a cuidar sozinha do problema.
Durante o restante do dia, Samantha ficou lendo Razão e Sensibilidade, decidida a
não causar mais complicações em sua vida. Ravensworth, por sua vez, não podia estar com
um humor melhor.
A febre de Alice era tão alta que o médico sugeriu que permanecessem na
hospedaria por mais um dia. Ela correria risco de morte se saísse com aquele tempo
horroroso.
Uma viagem que demoraria dois dias para se realizar em circunstâncias normais
estendeu-se para quatro.

Capítulo XIII

Apesar das palavras corajosas de Samantha e Harriet de que iriam encarar a estada
em Bath como uma grande aventura, a proximidade cada vez maior dos pais e tios as
assustava. Quando a carruagem começou a lenta descida em direção ao centro da cidade,
a conversa entre as duas parou. Os homens, que haviam ficado calados durante a maior
parte do percurso, estavam ocupados em ajudar o condutor a controlar os nervosos animais.
– A bela cidade de Bath é o sonho de um andarilho, mas um pesadelo até para o
mais capaz dos condutores – disse o marquês, na janela da carruagem.
Bath era muito bonita, pensou Samantha. Entretanto a conversa com sir John, que
aconteceria dentro em breve e seria bastante tumultuada, roubou, às duas jovens, grande
parte do prazer de observarem a beleza clássica da cidade. Apesar do temor com o que
eslava por vir, ambas se impressionaram com o esplendor das construções cheias de
vidros.
A irmã de Harriet, Fanny, e seu marido, o reverendo Edward Damell, moravam em
Laura Place, do outro lado da ponte Pulteney, em uma parte mais nova da cidade. A
carruagem parou perto de uma série de residências altas e imponentes que terminavam na
rua Pulteney, o principal acesso para Sydney Gardens. Samantha protegeu os olhos do sol
e olhou para o jardim cercado, onde se realizavam piqueniques, concertos e queimas de
fogos. Fazia parte da diversão dos moradores mais antigos de Bath. Antes de Samantha ter
tempo de organizar seus pensamentos, a porta da frente se abriu e sir John desceu os
degraus da pequena escada para receber os visitantes.
– Nós estamos esperando vocês há dois dias – comentou ele, em tom ameaçador.
Samantha e Harriet se entreolharam sem saber como agir. Não era uma notícia das
mais agradáveis, pois sir John não tinha como saber que eles estavam a caminho. Tia
Sophia preferira não avisá-los da chegada do grupo.
– Deixe a bagagem para os criados – ordenou ele, como se as moças estivessem
tentando retardar o que as aguardava.
– Lorde Ravensworth, eu gostaria de dar uma palavra em particular com o senhor.
O marquês sorriu para o cavalheiro irado à sua frente.
– Entendo perfeitamente, sir John. Eu também preciso lhe falar em particular. Mas
espero que não se incomode se Avery e eu sairmos antes para procurar um lugar para
passar a noite. O Hotel York, pelo que me lembro, é muito confortável e agradável.
– Há um hotel no final da rua Pulteney – disse sir John. – Os senhores encontrarão
um quarto depois de ouvirem o que tenho a lhes dizer.
Samantha olhou de soslaio para o tio. Não lhe pareceu justo ele descontar sua raiva
no marquês, pois, afinal de contas, Ravensworth interrompera seus afazeres para
acompanhá-las na viagem desde Londres.
– Mas... tio John... – começou ela.
– Silêncio!
Um certo aborrecimento incomodou Ravensworth.
– Imagino que esteja se referindo ao Hotel Sydney – disse ele. – Não duvido que
haja quartos à disposição, mas eu prefiro ficar em um lugar mais afastado. – As palavras
foram educadas, porém a postura de Ravensworth era das mais aristocráticas. O olhar de
sir John não se desviou do rosto do marquês. Alguns instantes depois, ele pareceu ter
chegado a uma decisão.
– Sinto muito pela indelicadeza. Não quis ofendê-lo. Gostaria de convidá-los para
jantar conosco esta noite.
A tensão pareceu sumir do semblante do marquês, e Samantha suspirou aliviada.
– Será um prazer – respondeu Ravensworth. – Seria uma tolice encetar longas
explicações antes que todas as partes envolvidas descansassem um pouco, não acha?
Os dois cavalheiros trocaram um olhar, e Samantha sentiu que uma mensagem
secreta havia passado entre ambos. Então olhou para Harriet a fim de confirmar suas
suspeitas, mas a prima estava distraída. Lorde Avery nem se preocupara em descer da
carruagem, e desviou o olhar como se não quisesse tomar parte na conversa. Samantha
teve a impressão de que seria a única pessoa a não participar do pequeno drama encenado
por seu tio e Ravensworth. O pensamento a preocupou.

O temor de Samantha foi aumentando à medida que a tarde avançava. Ela esperava
ser chamada a qualquer momento para levar um sermão dos tios, o que nunca aconteceu.
Embora a postura de ambos fosse mais reservada e formal do que de costume, nenhuma
palavra de censura escapou dos lábios apertados de ambos. Quando Harriet e lady Esther
lhe dirigiam a palavra, notou Samantha, nenhuma das duas a olhava nos olhos. Apenas
Edmund e Fanny pareciam normais. Mesmo assim, ela percebeu que, vez ou outra, eles a
encaravam com pena. O que estaria acontecendo?
Samantha encontrou a babá na escada, e as duas se abraçaram por longos
instantes.
– Ah, minha querida – murmurou a babá, antes de voltar para seus afazeres com o
bebê. Samantha deduziu que seu castigo seria terrível.
O jantar não diminuiu suas desconfianças, pois quando convocaram sua presença na
sala de estar, Ravensworth era o único convidado. Ela parou na soleira da porta, e seu
coração disparou.
– Onde está Avery? – perguntou sem preâmbulos.
O sorriso de Ravensworth tinha a intenção de tranqüilizá-la.
– Ele pediu desculpas, mas já tinha outro compromisso agendado.
– Não é possível! – Samantha respondeu sem pensar.
– Se você pensa assim. – O marquês se virou para Fanny e retomou a conversa de
onde a haviam interrompido.
A atmosfera à mesa do jantar estava carregada. Ela sentiu os pêlos em sua nuca se
eriçarem. Quando um trovão reverberou lá fora, Samantha teve a certeza de que o raio
cairia em sua cabeça. Começou, então, a imaginar qual seria o destino que o tio lhe
reservara. Além de enviá-la para as colônias, ela não conseguia pensar no que mais poderia
lhe acontecer. Samantha disse a si mesma que estava sendo tola e esforçou-se para deixar
os temores de lado. Mesmo assim, comeu bem pouco e quase não abriu a boca durante a
refeição. O apetite de Ravensworth, por sua vez, era dos mais vorazes.
Quando a mesa foi limpa e os criados trouxeram pequenos cálices e uma garrafa de
vinho do Porto, Fanny se levantou, indicando que as mulheres deveriam se retirar.
Ravensworth aproximou-se de sir John e trocou algumas palavras com ele.
– Samantha, por favor, permaneça conosco por alguns instantes. – A voz do
marquês não toleraria uma negativa. Ravensworth foi até ela e guiou-a para um lugar perto
dele. Edmund sorriu, encorajando-a, e seguiu as damas para fora. Ficaram apenas os três.
Ravensworth colocou um pouco de Porto em um cálice e passou-o para Samantha.
– Beba! Você está pálida de tanto medo.
– Sim, eu estou com medo – respondeu ela, dando um gole na bebida.
– Quem começa? – perguntou sir John, olhando para o marquês.
– Pode começar – respondeu Ravensworth. – Sei perfeitamente o que vai dizer, mas
lhe garanto que Samantha não faz a menor idéia. Eu dependo do senhor para colocar um
pouco de juízo na cabeça dela.
Samantha pegou o cálice e bebeu todo o conteúdo em um só gole.
Essa história está se tornando cada vez mais sinistra, pensou.
– Vá com calma, minha querida – disse Ravensworth.
– Por onde devo começar? – perguntou sir John. – Ah, sim. Na quinta-feira, eu
soube, por intermédio de lady Harrington, uma grande fofoqueira, que minha filha e minha
sobrinha estavam sendo motivo de comentários em Londres por suas maneiras ousadas.
Algo relacionado a rapé, pelo que me lembro...
– Eu posso explicar – interrompeu-o Samantha.
– Não piore ainda mais a sua situação – disse sir John, – Essa besteira não é o que
me preocupa. Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Lady Harrington também me contou que
minha filha e minha sobrinha foram apresentadas, na ópera, à famosa Harriette Wilson, pelo
honorável marquês de Ravensworth.
– Eu posso explicar – murmurou Samantha, em outra tentativa.
– Não se preocupe com isso – disse o tio com um olhar furioso. – Fiquei tão nervoso
com a mulher que cheguei a lhe dizer que se ela fosse homem, eu a desafiaria para um
duelo. Contudo, quando lady Harrington me apresentou para três jovens cavalheiros, um
dos quais sobrinho dela, eles confirmaram toda a história. Eu fiquei para morrer.
Sir John serviu-se de mais uma dose de Porto e bebeu depressa.
– É tudo? – perguntou Ravensworth.
Aproveitando que o marquês estava distraído, Samantha pegou seu cálice e bebeu
mais um pouco. Um agradável calor espalhou-se por seus membros trêmulos. Era uma
sensação bem mais prazerosa do que o temor que a rondava.
– Ontem à noite – prosseguiu sir John –, em um concerto em Sydney Gardens,
quando eu tinha decidido voltar a Londres, quem vocês acham que encontrei?
– Lady Harrington? – arriscou Samantha. Seu tio deu um sorriso sinistro.
– Eu fui abordado por aquele presunçoso do conde de Grafton.
– É mesmo? Agora a história está se tornando interessante – comentou Ravensworth
com os olhos brilhando.
Ele se virou para Samantha e, ao ver o cálice dela cheio, tirou a garrafa de vinho de
seu alcance.
– Um cavalheiro encantador – disse Samantha. – Nós o encontramos na estrada.
– Encantador? – A voz de sir John era impassível. – Saiba que o “cavalheiro
encantador” se gabou ao me contar que a minha sobrinha havia se tomado amante do
marquês de Ravensworth.
Houve um silêncio, e sir John recostou-se na cadeira com um sorriso satisfeito nos
lábios.
– Gostaria de saber o que o levou a pensar assim – comentou o marquês com ar
inocente.
– O fato de Samantha se encontrar em seu quarto, na verdade em seus braços,
quando o senhor estava nu.
– Eu posso explicar – começou Samantha.
– Minha querida, agora é tarde demais para explicações. Não duvido que você e
lorde Ravensworth não tenham feito nada de errado. Como eu disse para seu pai uma vez,
as explicações da conduta questionável dele em relação a sua mãe não significariam nada
perante os olhos da sociedade. São as ações que contam.
Ravensworth se mostrou interessado.
– Eu gostaria de ter conhecido esse cavalheiro.
– Meu pai era realmente um cavalheiro – respondeu Samantha com certa ameaça na
voz. – Ele jamais teria ousado tirar vantagem da mamãe. Ele a amava.
– Era um homem honrado – disse sir John. – E conhecia perfeitamente seus
deveres.
– Ah, claro. Samantha, deixe seu cálice na mesa e preste muita atenção – pediu-lhe
o marquês. – Seu tio vai lhe dar uma lição de vida sobre o mundo cruel em que vivemos.
– Não gosto do seu tom de voz, Ravensworth – disse sir John.
– Pode ser que não – respondeu ele com um sorriso desarmante –, mas permita-me
tranqüilizá-lo, sir John. Eu sou um homem honrado. Tente explicar isso a Samantha.
Sir John não mediu suas palavras quando se dirigiu à sobrinha.
– É imperativo que Ravensworth se case com você o mais depressa possível, antes
que a notícia a respeito da sua escandalosa conduta se transforme em conhecimento
universal. Sua reputação pode ser maculada, mas com a mão forte de um marido para reter
seus impulsos mais ousados, e com a sua família por trás, eu não vejo motivos para você
ser excluída da sociedade.
Samantha abriu a boca, incrédula.
– Casar-me com Ravensworth? Não seja ridí... – Ela sentiu a voz sumir.
– Não há outra solução. Precisa se casar comigo – informou Ravensworth com
convicção melancólica. – Sem querer, você me comprometeu.
– Eu? Eu comprometi você? – perguntou Samantha, chocada. – Posso saber como?
– Quem entrou no meu quarto? Quem atrasou a nossa viagem em dois dias? Quem
quase me envolveu em um duelo com Grafton? Se você não se casar comigo, eu estarei
arruinado. Ninguém me receberá. Nenhuma mulher decente desejará se casar comigo.
Então não conseguirei gerar um herdeiro legítimo para agradar a meu pai. Claro, como uma
mulher consciente, imagino que você reconheça o seu dever.
Sir John parecia pronto a dizer algo. Ravensworth o silenciou com um olhar e falou:
– Pode deixar comigo agora.
Sir John se levantou no mesmo instante e saiu da sala, deixando o futuro casal a
sós.
– Isso é muito pior do que as colônias – comentou Samantha, sem saber o que fazer.
– Você sabe que nós não podemos nos casar.
– Não, Samantha, eu não sei. – Ravensworth pegou a mão gelada dela entre as
suas. Samantha bebeu mais um gole de Porto no intuito de tentar clarear as idéias.
– Ravensworth, eu sinto muito. Não tive a menor intenção de arruinar a sua vida.
Diante das palavras trêmulas, o marquês sentiu uma onda de culpa invadi-lo.
– Eu não estou reclamando, estou? Você sabe que a minha intenção sempre foi tê-la
para mim. Não podemos tomar a situação agradável, minha querida?
– E seu pai? – perguntou ela. – Ele jamais aceitará a nossa união.
Ravensworth hesitou, escolhendo as palavras com o máximo cuidado.
– Papai não tem escolha. Só sei que ele não gostaria de me ver excluído da
sociedade.
– Eu não entendo. Quando você me propôs ser sua amante, esse fato não arruinaria
a sua vida, não é? E agora, se nós não nos casarmos, você será prejudicado? Seu pai o
aconselhará a voltar à sua idéia inicial.
O vinho, observou Ravensworth, começava a causar um efeito prejudicial em sua
amada. Ele se viu obrigado a usar de toda sua lógica para persuadi-la a aceitar sua vontade.
– Quando eu lhe pedi para compartilhar sua vida comigo – disse o marquês,
cauteloso, pois precisava escolher as palavras corretas para não colocar tudo a perder –,
não sabia que você era uma herdeira.
– E o fato de eu ser herdeira de uma fortuna considerável faz alguma diferença?
– Claro!
– Como?
– Samantha, a minha intenção era protegê-la, adorá-la, tirá-la da pobreza. O mundo
teria me louvado pelo meu nobre propósito.
– Então o mundo é bem pior do que eu imaginava. Ravensworth precisou de muita
força de vontade para manter o autocontrole.
– Agora que o mundo sabe quem você é, eu poderia arruinar suas chances de fazer
um bom casamento, mesmo que você tenha me comprometido.
– Não fale assim! É uma noção muito estúpida. Eu não me importo com o que o
mundo diz. E você, Ravens... Ravens... Hugh?
O marquês deu um sorriso vago.
– Eu penso no meu pobre pai. Jamais ousaria privá-lo do herdeiro que ele tanto
deseja. Sou apenas um filho tentando agradar ao pai.
– Alguma jovem do seu meio ficará muito contente em se casar com você –
consolou-o Samantha, segurando-lhe o braço. Por algum motivo, o pensamento a
desanimava.
– - E por que não você, Samantha? – Ele a puxou de sua cadeira e sentou-a em seu
colo. – Por que não você?
A resposta dela ao toque de Ravensworth foi imediata. Samantha não era mais
novata no abraço de um homem, afinal de contas, ele a beijara em três ocasiões diferentes.
Um simples beijo foi suficiente para ela se derreter toda. Poucos instantes depois, Samantha
começou a desabo toar-lhe a camisa.
– Comporte-se, madame – murmurou Ravensworth.
– Beije-me, Hugh... – pediu ela. – Você sabe como eu adoro os seus beijos.
A tentação era grande, porém Ravensworth se controlou.
– Chega de beijos. Não vou mais beijá-la até que nos casemos. Ou melhor, pelo
menos até que estejamos noivos. Está vendo? Você está querendo tirar vantagem de mim
mais uma vez.
– Eu sei. Sinto muito – respondeu Samantha, virando a cabeça. – Isso só acontece
quando você me toca.
Ravensworth colocou-a imediatamente de volta na cadeira.
– Então estamos combinados? – perguntou ele, tentando esconder o desejo em sua
voz.
– Sim. – Samantha suspirou, sem saber se a alegria que a inundava se devia ao
vinho que bebera ou à presença de Ravensworth. Ou ao casamento.

Capítulo XIV

Nos dias que antecederam o matrimônio, o marquês e sua noiva depararam com um
problema. Ravensworth se surpreendeu ao descobrir que Samantha pretendia fazer parte
das negociações sobre o contrato de casamento, o que não era nada comum naquela
época. Mais problemas surgiram em seguida. Samantha tinha grande aptidão para os
negócios e chegou à mesa de negociações com uma exigência da qual não abriria mão:
todos os lucros de sua fortuna deveriam ser creditados em uma conta pessoal. Ravensworth
protestou, pois uma soma tão grande permitiria que sua esposa se tomasse independente
dele em todos os aspectos financeiros.
– Exato – respondeu Samantha. – Eu não abro mão do meu dinheiro. Faço questão
de ter a minha independência.
Ravensworth apelou para sir John, que fez o possível para dissuadir a sobrinha de
tal idéia, mas ela se manteve firme. Sua fortuna, após sua morte, seria dividida igualmente
entre seus herdeiros, mas até então os lucros seriam seus, e ela os administraria como bem
entendesse. O marquês teria de se contentar com aquela imposição em nome de seus
futuros filhos. Nada faria sua noiva mudar de idéia, nem mesmo quando sir John revelou o
valor do acordo que Ravensworth estava disposto a fazer. Samantha ressaltou, com toda
razão, que para a herdeira de uma fortuna, tal valor era irrelevante. Ravensworth cerrou os
dentes, irado. De nada adiantou, entretanto. A srta. Samantha Langland não se entregaria
completamente aos cuidados de um homem. Precisava ter sua própria independência.
Por algumas horas torturantes, sir John achou que o casamento iria ser cancelado,
pois Ravensworth se ofendeu com a provocadora insistência de Samantha. Ele se reuniu
para uma conversa em particular com o marquês e, por fim, conseguiu convencê-lo de que
Samantha, casada, apesar de ser uma mulher financeiramente independente, na realidade
não teria poderes para desafiar a vontade do marido. Ravensworth pensou no assunto e
acabou cedendo, mas sir John percebeu que o marquês não ficou muito contente com o fato
de sua futura esposa ter questionado sua integridade. Samantha protestou pedindo que ele
se tranqüilizasse, já que, afinal de contas, pretendia deixar a administração da fortuna aos
cuidados do marido.
Ravensworth não tinha como saber que a determinação de Samantha em manter
uma certa independência no casamento não se devia a uma falta de confiança nele em
especial, mas sim aos ensinamentos quacres de sua mãe e de outras mulheres. As quacres
eram admiradas por suas qualidades de engenhosidade e liderança, e eram estimuladas a
participar, com a mesma posição dos homens, na administração de qualquer assunto que
lhes fosse apresentado.
Ravensworth não sabia nada sobre o passado da noiva, e também não tinha o
menor interesse em conhecê-lo. O que quer que fosse, Samantha era a única mulher no
mundo que detinha o poder de confundi-lo. As emoções do marquês iam de um extremo a
outro. Às vezes ele era tomado por um desejo feroz de adorá-la e protegê-la. Em outras,
tinha vontade de trancá-la em um quarto escuro. Sua ânsia por aquela mulher havia
superado o simples desejo físico. Não podia viver sem Samantha. Queria dividir sua vida
com ela. Simples assim.
O marquês jogara com perfeição e não se deixaria abater por um simples capricho
feminino. Um ligeiro remorso o invadiu quando pensou na grande fraude que armara para
garantir a submissão de Samantha, mas logo o afastou, lembrando-se de que ela retribuía
seus sentimentos. Não permitiria que Samantha sacrificasse a felicidade de ambos por
causa de escrúpulos mal orientados.
Sua vaidade, entretanto, se ressentia em virtude das ofensas infligidas por
Samantha, e Ravensworth estava determinado a mostrar-lhe seu poder assim que
colocasse a aliança na mão esquerda de sua noiva. Nos dias anteriores ao casamento,
Ravensworth ficou sonhando com uma esposa disciplinada que obedeceria ao marido sem
se rebelar.
A cerimônia realizou-se uma semana após a chegada deles a Bath, em Laura Place,
e foi celebrada pelo reverendo Edmund Damell. A princípio, Ravensworth concordara com
um casamento quacre, se Samantha o desejasse, mas ao descobrir que os quacres
costumavam fazer seus votos sem o testemunho do clero, ele mudou de idéia. Ela ficou
mais calma quando o marquês lhe disse que seria impensável surgirem dúvidas, no futuro,
em relação aos descendentes de ambos: as crianças seriam herdeiras do ducado de
Dalbreck. Nesse assunto, Samantha cedeu à vontade de Ravensworth.
Ela notou seu noivo um tanto quanto distante nos dias anteriores ao casamento, e
imaginou que ele a estivesse culpando pelas circunstâncias constrangedoras que haviam
forçado a união. O resguardo de Ravensworth a aborreceu, pois imaginava que uma aliança
de alguém tão importante com alguém tão simples o incomodasse ao extremo. Samantha
sabia não constituir a escolha adequada para um futuro duque, mas tinha de admitir que
desenvolvera um certo carinho por ele. Quem sabe não conseguisse modificá-lo?

O primeiro evento de gala da temporada no Sydney Gardens aconteceu no dia do


casamento de Samantha e Ravensworth. Tratou-se de um concerto musical no início da
noite, seguido por uma queima de fogos de artifício. Ravensworth propôs que, antes da
programação noturna, a família se reunisse para um jantar em um dos terraços de Sydney
Gardens. Prometia ser uma noite agradável.
Samantha bebia seu champanhe aos poucos, sob os olhos atentos do marido, e
analisava com interesse o fluxo contínuo de pessoas passeando no parque. Parecia que
toda Bath queria assistir ao concerto e se divertir. Quando ouviu o tio perguntar a
Ravensworth quais eram seus planos imediatos, ela voltou á atenção para seus
companheiros de mesa.
– Ainda não decidi – respondeu ele, limpando a boca com o guardanapo. – Pensei
em passar mais um tempo em Bath, hospedado no The Circus. Por outro lado, minha
propriedade em Kent é excelente para pescar e cavalgar nesta época do ano. Eu diria que
uma temporada no campo depois dos últimos acontecimentos não seria uma má idéia –
concluiu Ravensworth, olhando para Samantha.
Ela se eriçou. Ficou furiosa por Ravensworth não ter pedido sua opinião e também
por recordar os acontecimentos do passado diante dos outros.
– Você não me consultou a respeito das suas intenções, milorde – disse Samantha
sem esconder sua irritação.
A taça de champanhe que Ravensworth levava aos lábios voltou para a mesa. Então
se virou para Samantha.
– Ah, não, meu amor? – O tom dele era dos mais calmos, porém ela notou que o
havia irritado. – Então me permita corrigir a omissão. – Ravensworth empurrou a cadeira
para trás e se levantou. – Vamos dar um passeio pelo parque. Samantha olhou para Harriet
em um apelo silencioso.
– Excelente idéia – disse sua prima, pegando seu xale. – Por que não vamos todos?
Ouvi dizer que a iluminação do parque é magnífica à noite. – Avery balançou a cabeça para
os lados, advertindo-a em silêncio, porém sir John foi mais rápido.
– Sente-se, minha filha. Você não percebe quando não é bem-vinda? Sei que você e
Samantha não se desgrudam, mas devo lhe avisar que Ravensworth e eu não permitiremos
que o relacionamento de vocês continue como antes. – Ao ver que Harriet abriu a boca para
protestar, o olhar dele tornou-se mais severo. – Não fui claro? Sente-se, Harriet.
Houve um silêncio constrangedor por alguns instantes. Então lady Esther, com seu
costumeiro aprumo, decidiu intervir para atenuar a tensão.
– Vá passear com sua esposa, Ravensworth. Desta vez nós permitiremos que
monopolize Samantha – brincou ela, sorrindo. – No futuro, tente se lembrar, nobre marquês,
que não é de bom-tom casais se comportarem como eternos apaixonados. Mandarei Avery
e Harriet atrás de vocês dentro de meia hora.
Ravensworth fez uma mesura.
– Seu desejo é uma ordem, madame – respondeu ele, retribuindo o sorriso. –
Tentarei exprimir meus sentimentos nesse breve espaço de tempo que me foi concedido. –
O olhar que o marquês lançou para Samantha, todavia, não era nada animador.
Relutante, ela caminhou ao lado de Ravensworth, tentando não se incomodar com a
troca de olhares tão familiar entre a tia e seu marido. A convicção de Samantha de que o
marido logo começaria a descontar sua fúria nela crescia a cada instante. O pensamento a
levou a tomar a iniciativa.
– Como se atreve a me tratar como uma criança desajuizada na frente dos meus
parentes? – perguntou com a voz cheia de raiva. – Quem lhe deu o direito de decidir onde
vamos morar no futuro? Teria sido muito gentil de sua parte pedir a minha opinião sobre o
assunto. Seus modos são deploráveis.
Ravensworth respirou fundo.
– A jovem acabou de se casar e já deseja usurpar a autoridade do marido! Seria
melhor para você, minha dileta esposa, se conformar com o seu destino. Pode ter me
induzido a este casamento, mas não pense que serei um marido complacente. Como minha
amante, você estaria em uma posição bem mais vantajosa para ditar regras. Como minha
esposa, só tem o direito ao meu sobrenome e a minha cama. – Havia um brilho malicioso
em seus olhos.
Samantha ficou sem palavras por alguns instantes.
– Seu... seu grosseiro! Inescrupuloso! – ela sibilou entre os dentes cerrados. – É
esse tipo de gratidão que recebo por haver salvado a sua pele? Sabe tão bem quanto eu
que este casamento de conveniência é tão desagradável para mim quanto para você.
– Não se dê ao trabalho de negar que os acontecimentos ocorreram da maneira que
você esperava – continuou ele, olhando de soslaio para Samantha. – Você se destacou das
outras mulheres por ter me pego com a guarda baixa. Eu não esperava esse tipo de
duplicidade em uma garota quacre – acrescentou Ravensworth, enervando-a ainda mais.
Eles tinham alcançado uma parte mais reservada, e o marquês parou de andar.
Samantha se virou e o encarou. Ela ficava linda quando estava brava, pensou Ravensworth
envolvendo-Ihe o rosto com as mãos. A idéia da noite que teriam pela frente causou-lhe
arrepios por todo o corpo. O desejo de possuí-la e tomá-la sua em todos os sentidos
desencadeou uma urgência selvagem dentro dele. Ravensworth a olhou com atenção,
querendo absorver cada parte daquele belo rosto.
– Negue, lady Ravensworth, que sente algo por mim.
– Não conte com isso – sussurrou ela, sentindo os lábios do marquês em seu rosto.
– Eu farei de tudo para que isso aconteça – disse ele, beijando-a na boca com
volúpia.
Ouviram passos se aproximando, e Ravensworth soltou Samantha com relutância.
Seus olhos continuaram a admirá-la como se ele quisesse absorvê-la, e ela também não
conseguia desviar o olhar.
– Ravensworth, seu safado! – entoou uma voz feminina. Samantha a reconheceu de
imediato e ficou tensa. Ela se virou para encarar a bela Adèle St. Clair, acompanhada nada
mais, nada menos, do que do conde de Grafton. Pelo visto, ele já havia se recuperado da
mordida que levara no lábio. Os olhos da mulher brilhavam com algo que Samantha não
conseguiu identificar. Ravensworth, ao seu lado, se mostrava completamente à vontade.
– Adèle! – exclamou ele com entusiasmo. – Que surpresa mais agradável! Da última
vez em que estivemos juntos, você não mencionou que pretendia vir para cá. Nunca
imaginei que uma cidade tão pacata pudesse despertar o interesse de uma pessoa tão
festeira.
A mesura que Ravensworth fez para o sujeito que tentara violentar Samantha foi
bastante cortês.
– Meu querido, quando você me contou sobre a sua viagem para cá, eu imaginei que
pudesse ajudá-lo a aliviar o tédio, porém você arruinou minhas boas intenções. Como eu
poderia imaginar que você cairia na teia de uma jovem ingênua? Espero que tenha sido uma
bela lição, Hugh. – Ela sorriu para Ravensworth, depois se virou para Samantha: – Meus
parabéns, querida! Você capturou o solteiro mais cobiçado de toda a Inglaterra. Grafton me
disse como você conseguiu, mas eu não a recrimino. No amor e na guerra, tudo é válido,
não é mesmo? – O tom de ameaça era inconfundível. Ravensworth parecia lisonjeado, e
Samantha, chocada.
– Permita-me parabenizá-la – disse Grafton.
– Obrigada – respondeu Samantha com o máximo de educação que conseguiu
demonstrar. Então se virou para o marido em busca de orientação, mas ele estava entretido
em uma conversa com a condessa. Samantha caminhou em silêncio ao lado do conde de
Grafton, enquanto Ravensworth seguia na frente, em uma animada conversa com Adèle St.
Clair. Uma sensação de abandono a inundou.
– Eu lhe devo um pedido de desculpas – disse Grafton. A distância entre os dois
pares aumentava cada vez mais. Ravensworth nem olhava para trás a fim de garantir que a
esposa o seguia. A irritação de Samantha por estar sendo tratada com tanto desdém pelo
marido na noite de seu casamento começou a aumentar, fazendo seu sangue ferver.
– Não gostaria de me lembrar do seu horrível comportamento na noite em que nos
conhecemos – disse ela, com a voz mais fria possível. – Prefiro me esquecer das
circunstâncias daquele encontro.
O sorriso de Grafton foi enigmático.
– Engana-se se acha que pretendo me desculpar pela maneira como agi aquele dia.
Qualquer homem teria feito o mesmo. O que eu podia fazer? – Seu olhar escondia um traço
de insolência. – Sua aparência, naquela ocasião, era bem diferente da dama recatada que
está ao meu lado agora.
Samantha ficou confusa.
– Por que quer se desculpar, então? – perguntou ela, preferindo ignorar a
provocação explícita.
– Quero me desculpar por haver trazido Adèle para aborrecê-la. Se soubesse que
vocês estariam aqui esta noite, eu não teria vindo com ela por nada. Por favor, acredite em
mim.
– Por quê? O que está querendo dizer? – Samantha perguntou, perplexa. – Lady
Adèle também tem o direito de se divertir.
– Com seu marido? Samantha arregalou os olhos.
– Como assim? Seja mais claro, lorde Grafton.
– Perdoe-me se falei tolices. Achei que a senhora soubesse.
– O que eu deveria saber? Grafton deu de ombros.
– A longa ligação de Ravensworth com Adèle é de conhecimento público. Pelo que
me consta, ela pretendia tomar-se marquesa.
Alguns instantes se passaram antes que Samantha compreendesse o que ele estava
lhe dizendo.
– Está sugerindo que Adèle é amante de meu marido?
– Eu já falei demais – respondeu Grafton, mostrando um certo arrependimento. –
Minha língua solta acabará me arruinando. Por favor, esqueça que toquei nesse assunto.
Samantha ficou zonza. Ao olhar para a frente, viu que Ravensworth e Adèle os
aguardavam. A distância entre os dois pares lhe permitiu tempo para se recompor.
– Não se preocupe, lorde Grafton – disse ela, soltando uma sonora risada. Em
seguida ergueu a cabeça, orgulhosa. – O senhor deve saber que o nosso é um casamento
de conveniência. Sinto muito por haver estragado os planos da dama. Saiba que não foi
minha intenção.
Quando eles chegaram ao lado dos dois, Samantha fez de tudo para não demonstrar
sua irritação. Ela mascarou a dor lancinante em seu peito e olhou para Ravensworth.
Ao notar a fragilidade por trás daquele falso ar corajoso, o marquês soube
imediatamente o que havia acontecido. De certa forma, ficou contente por saber que
Samantha estava magoada. Era como se a tristeza da esposa compensasse todos os
aborrecimentos pelos quais ele tinha passado desde que a conhecera. Ravensworth
pretendia se explicar sobre Adèle no momento certo, uma vez que ela freqüentava os
mesmos círculos que ele. Sua intenção era proteger Samantha das línguas ferinas, poupá-la
de aborrecimentos desnecessários. Grafton, todavia, tinha chegado antes, e o estrago
eslava feito. Ravensworth se repreendeu por não ter confessado seu envolvimento com a
dama antes. A culpa era de sua esposa, pois Samantha não abria mão de seu idealismo.
Mas naquela noite, ela se encontraria com a realidade, pensou o marquês.
– Ravensworth – disse Samantha em uma voz sem emoção –, lorde Grafton estava
me contando as últimas novidades de Londres, e eu não vejo a hora de contá-las a Harriet.
Soube que um cavalheiro do nosso conhecimento, que condenou severamente o meu modo
de agir, não é o modelo de bom comportamento que finge ser. – Ela notou a imperceptível
tensão nos ombros do marido e sentiu-se vitoriosa. – Harriet, como eu, acredita que esse
tipo de hipocrisia atrapalha o mundo.
– Calma, minha querida. Nós já vamos – respondeu ele, com o olhar frio. – O que
você acha da idéia de Adèle? Ela vai dar uma grande festa em sua casa, em Kent. Adèle e
Grafton partem amanhã e nos convidaram para ir com eles.
Silêncio.
– Eu cheguei a comentar com você que somos vizinhos, não é? – prosseguiu o
marquês. – Acho uma excelente idéia. Londres está fora de cogitação, pelo menos por
enquanto. Seus feitos não serão esquecidos tão cedo. Bath, por sua vez, não tem o charme
da cidade grande nem as atrações rurais do campo. Kent é uma excelente opção para o
presente.
Ele estivera prestes a recusar o convite de Adèle, porém as palavras cortantes de
Samantha e a expressão de hostilidade o tinham feito mudar de idéia.
– Eu gosto de Bath e gostaria de ficar com minha prima. Preciso da companhia dela
– respondeu Samantha.
Ravensworth respirou fundo para não perder a paciência.
– Acho que você já prejudicou demais a reputação da pobre Harriet. Aposto como os
pais dela ficarão contentes em vê-la longe da sua influência por um ou dois meses. Vamos
para Kent e ponto final. – Ele virou as costas para Samantha e voltou a atenção para Adèle,
um gesto calculado para machucar sua intratável esposa.
Samantha levou as mãos à boca. Ravensworth atingira seu ponto vulnerável. Foi
demais. Ela abafou um gritou e saiu correndo de volta pelo caminho por onde viera. Ouviu
Ravensworth chamando-a, mas o ignorou. A risada de lady Adèle ficou no ar. Casar-se com
um homem tão desprezível fora o pior erro que cometera na vida, porém pretendia corrigi-lo
o mais depressa possível. Pediria a anulação do casamento.
Samantha não encontrou ninguém quando saiu do parque e acelerou os passos em
direção à casa dos tios. Ao alcançar a porta, assustou-se com o barulho dos fogos de
artifício. Sem pensar, ela subiu as escadas correndo e trancou-se em seu quarto.
Ravensworth fora acomodado no quarto ao lado, mas havia uma porta conectando os dois
aposentos. Se quisesse falar com ela, o marquês teria de arrombar a porta. Espero que
Ravensworth aproveite sua noite de núpcias, Samantha pensou com amargura. Em seguida
jogou-se na cama e chorou todas as suas mágoas.

Capítulo XV

Ravensworth poderia ter arrancado todos os fios de cabelo de Samantha quando


chegou em casa, após uma busca em vão por Sydney Gardens. Encontrou a esposa a
salvo, trancada em seu quarto. Ele bateu na porta durante vários minutos, mas Samantha se
recusou terminantemente a deixá-lo entrar. As ameaças abafadas de anulação do
casamento o atingiram como uma pancada, mesmo através da porta fechada. Ravensworth
quase não conseguia controlar a raiva. Ao perceber que não chegaria a nenhum lugar e que
começava a atrair a atenção dos criados, ele entrou em seu aposento e sentou-se em uma
poltrona. Como Samantha se atrevia a desafiá-lo dessa maneira?, perguntou-se inúmeras
vezes. Se quisesse, ele tinha plenos poderes para destruí-la, para bani-la da sociedade,
para entregá-la ao esquecimento. O que mais podia fazer para convencer a jovem rebelde
de que precisava ser mais amável cora seu marido? Ela lhe roubara o direito do que
prometia ser uma noite cheia de prazeres. A noite de núpcias! Naquele momento, Samantha
deveria estar em seus braços, rendendo-se à paixão.
O fato de ela o ter enfrentado dizendo que pediria anulação do casamento foi mais
do que Ravensworth podia tolerar. Seu orgulho havia sido ferido. E muito. A marquesa
descobriria que estava enganada se achava que sua vontade prevaleceria em uma disputa
de poder. Ele a colocaria de joelhos, ou não se chamava Hugh Montgomery.

– Quem é? – perguntou Samantha com voz tímida quando ouviu baterem na porta
mais uma vez.
– Sou eu, Alice. Vim lhe trazer o café da manhã – respondeu a criada.
Aliviada, ela se levantou, vestiu o penhoar e seguiu descalça até a porta. O chão frio
a arrepiou toda. Em um piscar de olhos, Ravensworth estava dentro do quarto.
Alice colocou a bandeja em cima da mesinha e virou-se para o casal que se
entreolhava.
– Por enquanto é só, Alice – disse o marquês, praticamente empurrando-a para fora
do quarto. Assim que ela saiu, Ravensworth trancou a porta.
– Agora somos apenas nós dois – falou ele em tom de ameaça.
Samantha apertou o penhoar contra o peito e encarou o marido com um ar de
confiança que não sentia. Com o maior esforço, ela controlou o tremor para que não
transparecesse em sua voz.
– Eu falei sério ontem à noite, Ravensworth – disse ela, antes que o marquês
começasse a repreendê-la. – Vou pedir ao meu tio que tome as devidas providências para a
anulação do casamento. Eu não tenho a menor intenção de privar lady Adèle da
recompensa justa pelos serviços prestados.
O olhar de Ravensworth endureceu.
– Não vou pedir desculpas pelo que aconteceu no meu passado, Samantha. É um
grande absurdo. Adèle nunca significou nada para mim. O lugar dela na minha vida, se é
que se pode chamar de lugar, era insignificante. Você é minha esposa e eu estou aqui para
discutir seu futuro. Ou melhor, o nosso futuro.
A visão da cama desarrumada e do penhoar de Samantha começava a provocar
Ravensworth. Ele controlou o súbito impulso de tomá-la nos braços. Havia decidido que sua
esposa precisava de mão firme, portanto não podia fraquejar.
– Como pode perceber, estamos sozinhos neste quarto – começou ele em tom de
ameaça. Samantha umedeceu os lábios.
– Mais uma palavra a respeito desse assunto e eu consumarei nosso casamento de
uma forma que você desejará jamais ter me desafiado. Fui claro?
Ela compreendeu e baixou a cabeça com o máximo de dignidade que conseguiu
reunir.
– Ótimo, vejo que entendeu. – A voz dele era como seda.
– Quero a sua palavra, Samantha, de que não ouvirei mais nenhuma palavra sobre
anulação. Você conhece a alternativa.
Em silêncio, ela pensava com fúria. Não era o lugar ou o momento para discutir com
Ravensworth, que parecia pronto para assassinar alguém diante da menor provocação.
– Você me dá a sua palavra?
Samantha respondeu apenas quando ele deu um passo para a frente.
O marquês segurou-lhe o queixo, e Samantha tentou mostrar uma expressão de
indiferença; mas quando o dedo dele traçou o contorno de seus lábios em um gesto lento e
sensual, ela desviou o olhar para não demonstrar o efeito devastador daquele toque.
De repente, Ravensworth a soltou e foi até a janela.
– Samantha – tentou ele em tom conciliador. – Não queira testar a minha paciência e
não discuta comigo. Pelo menos uma vez na vida, escute o que tenho a lhe dizer e não fale
nada. Partiremos para Kent em uma hora. Vou mandar Alice subir para ajudá-la a arrumar
as suas coisas. – Ele hesitou por um instante, porém continuou com firmeza: – Minha
decisão não tem nenhuma relação com a festa na casa de Adèle. Eu pensei apenas em
mim. – Quando Ravenswoith se virou para encará-la, Samantha achou que o marido tinha
se acalmado um pouco. – Talvez o nosso casamento tenha sido precipitado demais, o que
não lhe deu tempo para se acostumar à idéia. Precisamos de um período a sós, longe de
tudo e de todos, de um pouco de paz para podermos nos conhecer melhor.
Ele esperou alguns instantes para ver se Samantha fazia algum comentário. Ela
continuou a olhá-lo com seriedade e respeito.
– Diabos, Samantha, você não pode vir até o meio do caminho para me encontrar? –
perguntou o marquês com a voz cheia de emoção.
– E Adèle? – indagou ela sem sair do lugar. – Se formos para Kent, não teremos a
obrigação de recebê-la e...
– Claro que não tenho como evitar – interrompeu-a Ravensworth, irritado. – E por
que deveria? Ela não fez nada para me ofender e nós somos vizinhos. Criaria uma situação
muito desagradável. As pessoas estarão atentas aos nossos passos. E eu não tenho a
menor intenção de lhes dar motivo para falarem da minha vida. Todos adorariam ver minha
esposa e minha... Adèle – ele se corrigiu depressa – discutindo por qualquer motivo. Você
não percebe que é a sua indiferença, a maneira como você lida com a situação que os
desarmará? Qualquer outro tipo de comportamento gerará comentários de todos os tipos, e
eu não quero me tomar alvo de fofocas de pessoas que não têm nada de melhor para fazer
com o seu tempo.
Samantha endireitou o corpo e respirou fundo.
– Você está me pedindo demais – declarou ela com dignidade.
– Mesmo assim, você me obedecerá nesse assunto, Samantha. – Ravensworth se
virou e foi até a porta. Ela ouviu-o destrancar a fechadura. – Esteja pronta em uma hora.
Uma hora mais tarde, os dois embarcaram na mesma carruagem que os havia
trazido de Londres a Bath. Foi uma despedida tensa, apesar de os parentes de Samantha
não saberem o que acontecera na noite anterior. Sabiam que havia algo de errado, mas não
o quê. O comportamento de Ravensworth o entregava, mas o de Samantha, não. Ela fez de
tudo para se portar com o máximo de naturalidade. Quando chegou o momento de as
primas se despedirem, Harriet abraçou-a com força.
– Encontre uma maneira de ir a Kent o mais depressa possível – sussurrou
Samantha.
As duas ficaram de mãos dadas por alguns instantes. Então Samantha tirou uma
carta do bolso e deu-a ao tio, pedindo que ele a entregasse a seu irmão. Ela não revelou o
fato de também ter chamado Vernon para ir a Kent tão logo ele pudesse. Era melhor que
Ravensworth não soubesse.
Samantha observou a expressão impassível do marido ao entrar na carruagem. Ela
fora obrigada a se casar com Ravensworth. E não pretendia ser alguém diferente do que
era. Se acreditava que conseguiria transformá-la em uma criatura passiva e comportada, ele
logo descobriria seu erro.

No dia seguinte à partida de Ravensworth e Samantha para Kent, Harriet e lorde


Avery passeavam por Sydney Gardens. Ela quase não conseguia esconder a tristeza. Para
um observador casual, o casal dava todas as evidências de estar em grande harmonia, mas
alguém mais curioso perceberia que os dois pouco conversavam. O comportamento dele
era casual e cortês, mas sua companheira, normalmente tão alegre e tão sorridente, estava
bastante séria. E recatada. Quando Avery a convidou para sentar-se em um dos bancos
diante da fonte, Harriet assentiu com extrema civilidade.
Depois de um momento de silêncio, ele reuniu toda sua coragem e decidiu iniciar
uma conversa mais séria.
– Harriet, eu não pretendo ter um longo noivado – começou Avery.
– Noivado? Que noivado? – perguntou ela no tom de voz infantil que tanto o
cativava. Ele a olhou por um ou dois instantes, pensando em qual seria a melhor forma de
prosseguir.
– Eu tomei o cuidado de providenciar uma licença especial – continuou Avery, como
se Harriet não tivesse se manifestado. – Não gosto de noivados longos, e já faz quase onze
meses que eu a pedi em casamento.
– Aquele noivado foi quebrado poucas semanas após o pedido – comentou ela,
dando de ombros.
– Eu sei. É aí que quero chegar. Nossos noivados duram um mês em média. Se
casarmos dentro de uma semana com essa licença especial, nós interromperemos esse
terrível hábito de você devolver meu anel de noivado. – Avery abriu um belo sorriso, e
Harriet se derreteu toda.
– Eu não posso devolver algo que não está comigo – respondeu ela com educação.
– Na verdade, quase nem me lembro como é o anel de noivado. Ele ficou mais tempo com
você do que comigo.
Lorde Avery sorriu.
– Só por garantia, meu amor. Assim que nos casarmos, eu lhe devolverei o anel.
Afinal de contas, a jóia lhe pertence. Eu só não quero ficar noivo outra vez. Seria uma
grande tolice, uma vez que as fofocas recomeçariam. Você me tornou motivo de chacota. –
Assim que proferiu as palavras, Avery notou seu erro e tentou impedir a resposta irritada
que estava na ponta da língua de Haniet. Ele ergueu as mãos. – Acalme-se, minha querida!
Eu me rendo! O que mais posso dizer? A vida é insuportável sem você, Harriet. Eu fui um
grande tolo ao tentar mudar sua personalidade, ao tentar apagar todas as qualidades que
me deixaram tão encantado quando nos conhecemos.
Ele ficou alguns minutos em silêncio.
– Harriet, não tenho mais a menor pretensão de tentar dominá-la. Eu a admiro da
maneira que você é. Alegre. Autêntica. Doce. Foi a sua ousadia que me encantou e que
capturou meu coração. Se consentir em se casar comigo, eu lhe prometo que não tentarei
transformá-la em uma esposa submissa.
Harriet o olhou com certa perplexidade.
– Está querendo me dizer que, se eu aceitar me casar, você permitirá que eu cheire
rapé, fume e beba um pouco de vinho de vez em quando?
Avery a envolveu em um caloroso abraço.
– Tudo dentro dos limites, meu amor. Eu posso até permitir que você me beije em
público.
Os lábios de Harriet se entreabriram em muda incredulidade, e Avery aproveitou a
deixa para lhe capturar a boca irresistível. Quando se afastou, ele notou o espanto no rosto
de Harriet. Era a primeira vez que tomava tais liberdades com ela.
– Avery, você sentiu? – perguntou Harriet, tentando recuperar o fôlego.
Nenhum dos dois prestou atenção às pessoas que passavam ocasionalmente na
frente deles, olhando-os com curiosidade e espanto.
– O que você sentiu, meu amor? – perguntou Avery com um brilho malicioso no
olhar. Sem esperar pela resposta, ele a beijou outra vez.
– Ah, meu querido... – murmurou ela – você deveria ter me beijado há muito tempo. –
Quando Avery a puxou para mais um beijo, Harriet se afastou. – Você é tão terrível quanto
minha prima Samantha. É impossível ir contra as convenções quando tenho de manter duas
pessoas na linha. Alguém precisa ter uma noção do que é adequado na família. – Ela deu
uma risada e tocou o lábio de Avery em um gesto brincalhão. A mão dele se fechou ao redor
do pulso de Harriet.
– Vamos nos casar imediatamente. Aqui em Bath, se você quiser. Também pode ser
em Londres ou na casa da minha mãe, em Kent. Todos os mal-entendidos que nos
importunaram desde o início do nosso relacionamento se resolverão logo que eu a tiver nos
braços. Estou cansado de ser seu acompanhante, seu parceiro de dança e até mesmo seu
amigo. Ah, minha querida, eu serei muito mais, se você permitir.
Harriet riu ao observar que ele tentava manter suas emoções sob controle mediante
um semblante sério. Aquele Avery impetuoso, amoroso, era uma grande novidade na vida
dela, e todo aquele desejo que ele vinha demonstrando começava a abalar seu equilíbrio,
causando-lhe arrepios por todo o corpo. Harriet sempre o admirara, mas os beijos ardentes
lhe causaram um certo temor.
– Por favor, vamos nos casar bem rápido – disse ela com uma simplicidade
encantadora.
Ah, como foi simples, pensou ele, feliz da vida. Abaixo as regras da sociedade e a
noção insana de que uma jovem bem-educada se revoltaria com uma demonstração de
paixão. Pelo menos conseguira despertá-la.
– Diga-me quando e onde, minha Harriet.
– Pode ser na semana que vem? Ou ainda é cedo? – perguntou ela com os olhos
reluzentes.
– Claro que não. Preciso conversar com seu pai. Um pensamento inundou-lhe a
mente.
– Avery, e sua mãe? – indagou Harriet em um fio de voz. – Ela quase nunca sai de
Kent. Não seria bom irmos visitá-la para contar-lhe a novidade? Quem sabe dentro de uma
ou duas semanas...
– Claro. E, por coincidência, a propriedade de Ravensworth fica na mesma cidade.
Aposto como você também gostaria de passar alguns dias na companhia de Samantha.
– Seria possível? Sei que Samantha não está muito contente. Eu ficaria bem mais
sossegada se pudéssemos nos encontrar e conversar um pouco. Na realidade, ela me pediu
para ir a Kent, e eu não posso virar as costas para a minha própria prima. Nós acabamos
nos tomando muito próximas depois que ela se mudou paia a minha casa.
Lorde Avery pensou em qual seria a reação de Ravensworth se as duas se
encontrassem tão logo após a separação. Ele não gostaria que ninguém se intrometesse em
sua vida com Samantha. Disso o visconde tinha plena certeza.
– Harriet, meu amor, você não acha que não é um bom momento para visitarmos sua
prima? Daqui a um mês ou dois, eu lhe prometo que iremos a Kent. – Ele escolheu suas
próximas palavras com cuidado: – Sei que vocês são muito chegadas, mas quando uma
mulher se casa, esse tipo de intimidade passa a ser mais do marido. Sabe, devo confessar
que às vezes sinto ciúme da proximidade entre você e Samantha. Quando nos casarmos,
minha querida, eu gostaria de ser o centro das suas atenções e lealdade.
– Eu lhe prometo que você será o meu universo – disse ela com sinceridade. – Mas
eu dei a minha palavra a Samantha. Preciso vê-la pelo menos mais uma vez. Não
compreendo a natureza dessa aliança com Ravensworth, mas entendo que minha prima
precisa, e muito, de uma amiga. Confie em mim nesse assunto, Avery. Por favor. Eu
prometo que não me meterei entre eles, se é isso que o incomoda.
Harriet esperou, ansiosa, pela resposta.
– O que mais posso dizer? – declarou ele com um sorriso resignado. – Não seria
educado não visitarmos o casal se estivermos nas redondezas. Além disso, faço questão de
que eles estejam entre os primeiros a saber do nosso casamento. Tenho uma condição a
lhe impor: você jura que partiremos quando eu achar conveniente? Ravensworth tem um
temperamento terrível, e eu não gostaria de vê-lo irritado com uma intromissão, por mais
discreta que seja. Não quero perder a confiança do meu amigo de tantos anos. Eu sentiria
muito a falta dele.
Harriet fez um juramento solene de acatar todas as decisões do futuro marido em
todos os assuntos relacionados à futura visita. Avery deveria ficar sossegado, entretanto
ficou com a nítida sensação de que a presença deles na propriedade de Ravensworth seria
desastrosa.

Capítulo XVI

Na segunda noite da viagem rumo a Kent, a carruagem de Ravensworth caiu em um


grande buraco na estrada e a roda dianteira do lado esquerdo começou a balançar demais.
Naquele momento, o marquês estava encostado na janela, segurando Samantha contra o
ombro. A carruagem parou de repente e foi jogada para á frente, tirando os ocupantes de
seu conforto. Samantha despeitou do cochilo e Ravensworth, alerta à situação perigosa,
abriu a porta do veículo e saiu, levando a esposa consigo. Ele a afastou e então começou a
dar ordens ao condutor e aos criados que os acompanhavam.
Os cocheiros tentavam soltar os cavalos ariscos quando as nuvens negras no céu
foram iluminadas por relâmpagos assustadores. A vibração dos trovões fez o chão tremer.
Samantha levou um grande susto e chegou mais perto da carruagem.
Instantes depois, a chuva começou a cair. Impiedosa. Ravensworth gritou algo para
Samantha enquanto tentava segurar os cavalos, porém um segundo relâmpago e o trovão
quase simultâneo abafaram suas palavras. Um grande pânico a envolveu. Ela sabia que não
havia motivos para uma reação como aquela, porém não conseguiu evitar. Sentiu o mesmo
amargor seco na boca de quando tinha testemunhado seus pais morrendo afogados.
Parecia estar revivendo o pesadelo daquele dia fatídico. Com dedos trêmulos, Samantha
tampou as orelhas para abafar o som assustador da tempestade, sem notar que sua capa
escorregou de seus ombros e caiu no chão.
O terceiro trovão ecoou no céu; o chão tremeu sob os pés dela, um suave grito
escapou-lhe dos lábios e Samantha foi envolvida por um pânico cego, tropeçando enquanto
andava na lateral da estrada. Galhos acertavam-lhe o rosto e as mãos, mas ela os ignorou,
querendo apenas encontrar um santuário para se proteger de seus medos.
Samantha foi pega por trás e levantada, então encontrou um certo conforto contra o
peito de Ravensworth. Ela sentiu o calor do corpo másculo contra o seu e se aninhou nos
braços do marido com certo desespero, murmurando sem parar o nome dele. Em um
instante, Ravensworth a envolveu em sua capa, protegendo a ambos da chuva torrencial.
Ele sussurrou palavras de consolo como se estivesse falando com uma criança
desesperada. Os soluços secos e desesperados cederam espaço às lágrimas à medida que
um pouco da histeria foi passando. O fato de estarem indo para a hospedagem pouco
adiante se registrou vagamente na mente de Samantha. Quando Ravensworth colocou-a
nos braços de um de seus cocheiros até montar em seu cavalo, ela protestou e fez de tudo
para se manter sob a proteção do marido. Foi colocada na sela diante dele, e então o
marquês a envolveu com firmeza pela cintura.
Quando chegaram à hospedaria, a chuva havia diminuído, e Samantha continuou
nos braços de Ravensworth. Assim que ele foi colocá-la no chão, ela o abraçou com toda
sua força, como se temesse que algo de muito ruim lhe acontecesse. Então Ravensworth a
levantou novamente e levou-a para o quarto. Depois que a porta se fechou, o marquês tirou
as roupas molhadas de Samantha e enxugou-a, levando-a em seguida para perto da lareira.
O fato de Samantha não fazer nenhum tipo de protesto diante de tais liberdades perturbou
bastante Ravensworth. Ele encontrou uma camisola na mala da esposa e vestiu-a nela.
Então sentou-se na poltrona próxima à lareira e aninhou-a em seus braços.
Enquanto afagava os cabelos longos de Samantha, ele sentiu-a relaxando contra seu
peito. Murmurava palavras de conforto. Aquela demonstração de carinho e a sensação de
alívio de uma grande catástrofe trouxeram lágrimas aos olhos dela. Persuadida com
palavras doces e suaves, Samantha começou a lhe relatar a trágica seqüência de
acontecimentos que havia testemunhado e o fatídico dia em que seus pais tinham sido
engolidos pelas águas do lago Windermore sob uma terrível tempestade. Ravensworth
escutou em silêncio a descrição dos sentimentos de impotência enquanto ela olhava a
catástrofe acontecendo, e de sua incapacidade de erguer um dedo para salvar as pessoas a
quem mais tinha amado no mundo. Quando terminou de contar a história, Samantha foi
tomada por uma grande sensação de conforto. A batida constante do coração do marquês
era como um remédio acalmando seus nervos abalados. O suave barítono na voz de
Ravensworth, a mão alisando seus cabelos e o carinho que recebia foram suficientes para
fazer com que ela adormecesse.
Durante um longo período, Ravensworth não se mexeu, pensativo. Ficou olhando
para a esposa, encantado. Como fora capaz de coagir aquela criança indefesa a tomar-se
sua mulher?
A jovem que o agarrara com tanto pavor sob a tempestade e que se derretera em
seus braços com tanta confiança, submetendo-se à sua proteção, era praticamente uma
estranha. Quando a conhecera, Ravensworth ficara encantado com a postura confiante,
com o ar de tranqüilidade que a envolvia, com a determinação de suas palavras”. De certa
forma, ele admirava o apego de Samantha a seus escrúpulos, que os tinha levado a um
conflito tão aberto. Nunca faltara coragem a Samantha para desafiá-lo. Essas qualidades e
a consciência de uma sensualidade latente tinham despertado em Ravensworth o desejo de
possuí-la a qualquer preço.
Entretanto, a jovem indefesa que depositara sua confiança em um marido
desconhecido, permitindo, inclusive, que ele a despisse, desencadeou uma série de novos
sentimentos. Ravensworth nunca sentira nada assim. O fato de amar Samantha não era
novidade, uma vez que ele descobrira isso pouco depois de terem se conhecido. A
sensação de não-merecimento que agora lhe envolvia o coração era uma emoção estranha
e indesejável para o marquês. Ele sabia que não merecia o amor de uma mulher como
Samantha Langland. Ela era muito boa, muito inocente para alguém com seu passado
obscuro, muito idealista, muito honesta, muito virtuosa, merecedora de um homem bem
melhor do que ele. Não que a idéia de entregá-la a outro lhe agradasse. Não, de forma
alguma. Era algo que estava fora de cogitação. Samantha Langland lhe pertencia, e assim
seria até o final de suas vidas.
As pontadas de consciência que ele sentia antes beiravam a insignificância diante da
onda de remorso que o consumia agora. A fim de satisfazer sua ânsia de possuí-la,
Ravensworth usara de todas as artimanhas possíveis para fazê-la render-se à sua vontade,
completamente indiferente aos sentimentos de Samantha. Essa atitude egoísta era natural
para ele. Hugh Montgomery estava acostumado a conseguir o que queria de uma maneira
ou de outra. Mas o que queria agora não podia ser conquistado à força, por suborno ou
insistência. Queria a estima de Samantha. Queria que ela se voltasse para ele com a
mesma demonstração de confiança que revelara em um momento de histeria. Hugh
Montgomery, o marquês de Ravensworth, não se contentaria com um sentimento baseado
em hipocrisia. Queria ganhar o respeito da esposa, ser digno do sentimento. Em suma, ele
tinha a intenção de conquistar Samantha demonstrando que havia mudado. Sua nova
postura o incomodava um pouco, mas Ravensworth estava determinado a colocar sua nova
decisão em prática.
Ele se levantou da poltrona com Samantha nos braços e colocou-a com cuidado na
cama. Com uma sensação de arrependimento, o marquês se afastou da mulher com quem
queria fazer amor e cobriu os suaves contornos de seu corpo com a manta de lã. Com um
suspiro resignado, ele se virou e seguiu até a porta, afastando as imagens que haviam
assombrado seus dias e suas noites desde que a ingênua Samantha entrara em sua vida.
Quanto tempo demoraria para que ela sucumbisse às investidas do novo Ravensworth?,
pensou ele. Até lá, muitos banhos frios e calma.
Quando Samantha acordou na manhã seguinte, ela não encontrou o marido. Não
havia nenhum sinal de que ele estivera naquele quarto. De certo, reservara um quarto para
si mesmo. Ela deixou o pensamento girar em sua mente por alguns instantes enquanto se
vestia com a ajuda da filha do dono da hospedaria. O fato de Ravensworth não ter se
aproveitado da oportunidade perfeita para consumar o casamento era muito estranho. Teria
alguma relação com a bela Adèle? Samantha afastou a idéia deprimente bem depressa.
A lembrança dos acontecimentos da noite anterior após a tempestade não era muito
clara em sua mente, mas os sentimentos que Ravensworth havia despertado com sua
demonstração de cavalheirismo estavam bem vividos em sua memória. Nunca esperava
encontrar tamanho conforto, tamanha devoção, tamanha consideração em um homem como
seu marido. Samantha teve de admitir que ele demonstrara um caráter que a surpreendera.
O homem era um verdadeiro enigma. Sua conduta era tão inconsistente que podia ser
considerada quase excêntrica. Entretanto, a julgar pelos últimos acontecimentos, Samantha
concluiu que devia ao marido um pouco mais de consideração. Por esse motivo, decidiu ela,
passaria a se comportar com mais seriedade.
A ansiedade de tomar-se a senhora de Oakdale Court, a propriedade de
Ravensworth em Kent, começava a consumi-la. Queria chegar logo para começar a
organizar tudo. Samantha envolveu os ombros com um xale antes de descer as escadas
para se encontrar com o marido, que tomava café em uma sala particular. Agora, ela
enxergava como o papel de sua mãe tinha sido importante para promover o bem-estar de
todos os dependentes da propriedade de seu pai. O maior desejo de Samantha era seguir
os passos da mãe e ser uma grande aliada do marido que adorava a vida no campo. Ela só
não conseguia entender como conseguira se apaixonar por um homem como Ravensworth.
Mas, pelo visto, havia algo por trás da máscara implacável. Ela quase não acreditava que
um homem como ele fora capaz de confortar uma mulher à beira da histeria.
Samantha achou a nova solicitude de Ravensworth um pouco exagerada e
deprimente, e imaginou se ele estaria aborrecido por sua conduta diante da tempestade da
noite anterior. Quando lhe agradeceu pela gentileza, ela notou um certo rubor no rosto do
marido, uma característica de quando ele estava irritado.
Sendo assim, Samantha chegou à conclusão de que Ravensworth reprovara sua
conduta. Para piorar ainda mais a situação, ele decidiu viajar do lado de fora da carruagem,
junto com o cocheiro. Faltava pouco para chegarem a Oakdale Court e ela sinceramente
torcia para que tudo melhorassem quando estivessem na nova casa.
Capítulo XVII

A situação de Oakdale Court era um pouco pior do que Samantha imaginara.


Tratava-se de uma propriedade abandonada e precisando de alguns reparos urgentes. Os
jardins estavam repletos de ervas, e os anexos, em um estado perigoso de descuido. Nada
teria sido mais adequado para aquele momento da sua vida. Seus olhos brilharam de alegria
quando imaginou a tarefa que teria pela frente. A administração da mansão e da
propriedade era um assunto bastante familiar. Henrique VIII não poderia ter visualizado a
magnitude de sua corte em Hampton com olhos mais admirados do que os da marquesa de
Ravensworth ao analisar sua futura residência.
Ravensworth agiu como guia e mostrou-se um tanto quanto envergonhado com a
situação do lugar. O cheiro de deterioração que pairava no ar era uma ofensa às narinas de
ambos e uma lembrança pungente de que ninguém nunca se preocupara com a casa da
maneira como deveria. Ele apenas a usava para levar alguns amigos mais próximos e as
notórias “damas” da alta sociedade. A recordação da antiga libertinagem que transcorrera
dentro daquelas paredes trouxe uma sensação de culpa ao marquês. Talvez tivesse sido um
erro levar sua nova esposa para lá.
Enquanto caminhavam pelo andar térreo da casa, Ravensworth notou a excessiva
seriedade de Samantha.
– O que você acha? – perguntou ele quando a viu ajoelhar-se para observar o que
um dia fora um belo tapete.
– Aubusson – comentou Samantha com certo pesar. – Não tem mais conserto. As
traças acabaram com o tapete.
– Não estou falando do tapete, mas sim da casa. Acho que cometi um engano ao
trazê-la para cá. É melhor voltarmos para a cidade, não acha?
Samantha foi pega de surpresa.
– E deixar a casa abandonada, em ruína? Você não pode estar falando sério,
Ravensworth.
Ela não suportaria se o marido decidisse colocar um obstáculo nas ambições que
havia começado a desenvolver. O marquês notou a irritação da esposa.
– Calma, minha querida. Seu desejo é uma ordem. Isto é, se você não se incomodar
em colocar em ordem a casa de um ex-solteiro. Agora que estou prestes a me tomar um
homem de família, acho que a casa necessita de uma série de mudanças.
– Evidentemente – murmurou ela com certa distância, aproximando-se da lareira. – É
melhor pedirmos para os criados limparem essas cinzas. Serão muito úteis para o nosso
jardim. Falando nisso, Ravensworth, onde estão os criados? Gostaria de conhecê-los.
– Há algumas pessoas por aí que cuidam da casa – disse ele. – Além disso, Denby
deve estar chegando de Londres dentro em breve com o resto da nossa bagagem.
– Seu criado pessoal? Tenho certeza de que ele será muito útil.
– Peço-lhe desculpas mais uma vez, Samantha. Se soubesse que a casa estava em
condições tão deploráveis, eu jamais teria sugerido que saíssemos de Bath.

– Ah, mas você nunca sugeriu – disse ela em um tom que Ravensworthencarou
como uma provocação. Preferiu ignorar, contudo.
– É claro que precisaremos contratar mais pessoas para fazer as mudanças
necessárias.
– Quem sabe não conseguimos recrutar o Exército de Wellington? – sugeriu ela com
certa frieza, agora analisando a espessa camada de poeira sobre os móveis. Samantha
chegou até a escrever “limpem-me, por favor” em cima da mesa de jantar. Quando notou
que o marido a observava com atenção, ela soube que conseguira irritá-lo.
– Não está tão ruim assim. O primeiro passo a ser tomado é chamar o administrador
e dizer-lhe quais são os nossos planos.
Ravensworth respirou fundo e teve certa dificuldade em olhar dentro dos olhos de
Samantha.
– Pelo que me consta, ele pediu demissão há alguns meses. Eu tinha me esquecido
completamente desse detalhe.
– Não me surpreende! – exclamou ela, quase derrubando um vaso que ia pegar. –
Imagino que você tinha assuntos bem mais urgentes ocupando sua mente. – A lembrança
das diversões frívolas que tanto prendiam a atenção de seu irmão Vernon e dos jovens com
quem se relacionava em Richmond surgiu em sua mente. Ela olhou para Ravensworth com
ares de repreensão,
– Não, milorde, eu não me espanto com o fato de você ter negligenciado suas
obrigações com os seus criados. Um homem da sua posição deve ter assuntos mais
urgentes para tratar, como o nó da gravata, o modelo da sua nova capa. Como se preocupar
com algo tão banal quanto o bem-estar das pessoas que trabalham para você? Melhor
jogar, sair com os amigos para beber, freqüentar festas, divertir-se com as mulheres.
Até aquele momento, Ravensworth demonstrara tranqüilidade. Após as acusações
de Samantha, entretanto, ele sentiu as emoções fervilharem em suas veias. O choque
misturou-se à indignação. Não foram as palavras da esposa que o enervaram, mas sim o
fato de ela o ter comparado com um dândi de Londres. Ele admitia que alguns episódios de
seu passado ficariam melhores se esquecidos, mas nada que merecesse tamanha
reprimenda. O problema de Samantha era a sua inocência. A maioria das mulheres na sua
posição teria a discrição de fazer vistas grossas às antigas aventuras do marido. Como
conseguiria fazê-la mudar de idéia, mostrar-lhe que estava disposto a mudar, que não
queria mais saber daquela vida de libertinagem?, pensou ele.
– Samantha – disse Ravensworth assim que conseguiu recobrar o controle –,
gostaria que você parasse de comentar sobre o meu passado lamentável. Ele ficou para
trás. O que importa agora é o presente. Eu posso ter chocado algumas pessoas, porém
minha conduta jamais foi escandalosa. – Ele abriu um sorriso. – Ou seja, não admitirei ser
chamado de mulherengo. Eu nunca trouxe uma mulher para a minha casa. Quer dizer, uma
mulher com quem me preocupasse o bastante para oferecer a intimidade do meu lar. Vejo
que o fato a surpreende, mas é a mais pura verdade. Quero ser muito honesto com você,
minha querida. Admito que me diverti muito, mas não mais do que os outros homens. – O
silêncio da esposa o incomodou ao extremo, incitando-o a uma declaração mais passional: –
Samantha, o fato de eu ter escolhido uma mulher para ficar comigo até o final da vida deve
significar algo para você. Os olhos dela registraram surpresa.
– Este casamento, pelo que me consta, nos foi imposto. Você nunca teve a intenção
de me tomar sua esposa. A verdade é que eu o comprometi. E realmente sinto muito,
Ravensworth. Sou eu quem lhe deve um pedido de desculpas.
A consciência do marquês o incomodava.
– Samantha, minha querida... Eu gostaria de conversar com você sobre as
circunstâncias do nosso casamento. – Ele se atreveu a olhar para os olhos da esposa, e
suas boas intenções desapareceram no ato. Como dizer àquela jovem inocente que ele
havia tramado aquele casamento? A honestidade era a virtude suprema aos olhos dela.
Samantha o desprezaria se conhecesse a verdade. Ele deixaria para confessar sua
duplicidade em um momento mais adequado.
– O que você ia dizer? – ela o pressionou. – Algo sobre o nosso casamento?
Ravensworth se recuperou depressa.
– Eu queria dizer que, apesar das circunstâncias do nosso casamento, eu não me
arrependo de ter me casado com você. – Ele tomou as mãos de Samantha entre as suas. –
Apenas lhe peço uma chance para provar que sou um marido digno da sua confiança.
Podemos nos dar uma trégua e começar tudo de novo? Eu farei o que estiver ao meu
alcance para que você não se arrependa de haver se casado comigo. E uma promessa.
Palavra de honra.
Aquele discurso apaixonado a deixou sem palavras. Samantha quase nem se deu
conta de ter assentido com um gesto da cabeça. Ravensworth não perdeu tempo. Ele deu-
lhe o braço e guiou-a para lhe mostrar o restante da casa. Embora soubesse que ainda
havia muito a ser conversado, Samantha sentiu-se feliz. Por algum motivo inexplicável, ela
estava feliz. Feliz como nunca estivera antes.

Durante os dias que se seguiram, Samantha abraçou a tarefa de reformar Oakdale


Court. Com o aval do marido, ela começou com uma excursão pela casa acompanhada dos
criados e dos serventes extras que Ravensworth contratara para ajudá-los. Por um instante,
Samantha acreditou que ele realmente a escutara e contratara o Exército britânico. E todos
trabalhavam com a maior alegria, contentes por saber que aquela residência tão bela
voltaria a brilhar em todo seu esplendor.
Samantha se revelou uma hábil comandante, afastando do serviço quem não
julgasse à altura. Era uma característica que herdara do pai. Houve algumas reclamações, é
claro, mas os funcionários dispensados conseguiam, invariavelmente, uma segunda chance
com o patrão. Ele tinha um traço mais clemente em sua personalidade.
Noite após noite da primeira semana em sua nova casa, Samantha adormecia no
instante em que se deitava na imponente cama de madeira maciça. O marquês não tinha a
mesma sorte, apesar de compartilhar o mesmo cansaço. Ele também fazia sua parte para
amimar a propriedade. Os esforços de Samantha se resumiam à casa, e os dele, aos
alqueires de terra que a rodeavam. Ravensworth colocara uma quantia razoável à
disposição de Samantha para os gastos de manutenção, e também gastara uma grande
soma investindo em máquinas para a próxima colheita.
Enquanto ocupava seu tempo colocando sua propriedade em ordem, Ravensworth
descobriu que nunca tinha sido tão feliz em sua vida. Um homem com todas as intenções de
ter um monte de filhos à sua volta. O fato de Samantha estar exausta e sem condições de
dizer mais do que duas palavras durante o jantar era um grande obstáculo para a realização
de seus sonhos. Sua paciência, que nunca fora uma de suas grandes virtudes, começava a
se esgotar. Ele se virava de um lado para outro na cama todas as noites, imaginando
quando teria a honra de compartilhar a mesma cama da esposa. Seria uma grande injustiça
da parte dela mantê-lo distante quando ele estava fazendo de tudo para mostrar que havia
mudado seu modo de pensar. Queria uma vida mais regular, mais caseira, mais familiar.
Ravensworth esperava que Samantha logo reconhecesse seu empenho para se mostrar um
homem mais caseiro.
Como era de esperar, a vizinha deles, lady Adèle, resolveu aparecer para uma visita
em um momento bastante inoportuno. Samantha, usando um vestido velho e uma touca que
já tinha visto dias melhores, estava trabalhando no jardim, arrancando as ervas daninhas e
preparando a terra para fazer uma pequena horta. Ela havia acabado de arrancar um pé de
alecrim quando viu um grupo de cavaleiros se aproximando. À frente vinha Ravensworth,
impecável como um manequim. Samantha o olhou com certa inveja. Esses eram os
benefícios de ter um criado particular para ajudá-lo a se vestir. Sua criada era a nova
ajudante da cozinheira, uma mulher franzina que só se dignava a trabalhar quando fosse
extremamente necessário. Samantha quase nunca precisava da ajuda dela. Preferia se
vestir sozinha.
Quando o marquês notou a aparência desleixada da esposa, fez seus companheiros
pararem um pouco longe. Samantha se endireitou e levou as mãos às costas doloridas.
– Você parece um espantalho – comentou Ravensworth, irritado. – Onde estão os
jardineiros? Vou despedi-los por negligência no trabalho. Essa não é tarefa para uma dama.
– Por que você os trouxe aqui?– perguntou Samantha com a mesma irritação e
também envergonhada por estar sendo vista naquela situação. Os outros pareciam ter saído
de um retrato, de tão impecáveis. – Leve-os para casa. Eu encontro vocês na sala de estar
– disse ela.
Ravensworth virou seu cavalo para atender ao pedido de Samantha, mas Adèle foi
mais rápida.
– Como vai, lady Ravensworth? – perguntou ela, medindo-a da cabeça aos pés. –
Hugh não pára de elogiar suas virtudes. Pelo que vejo, você está muito envolvida com o seu
trabalho. Seu esforço é louvável, digno de uma esposa dedicada.
– Chega de elogios, lady St. Clair – disse Samantha, com o máximo de bom humor
que conseguiu demonstrar naquela circunstância,
– Não é minha intenção bajulá-la – respondeu a outra, olhando para Ravensworth,
impassível em seu cavalo.
Como uma jovem quacre, Samantha aprendera a se dirigir a todas as pessoas com a
mesma educação, mas ao olhar com desdém para aquela beldade que tentava ridicularizá-
la, notou que não conseguiria se ater aos princípios da mãe. Seus lábios se entreabriram
para proferir uma resposta afiada, porém bastou um olhar do marido para impedi-la.
Samantha se lembrou de Ravensworth ter dito que o mundo estaria observando todas as
suas reações, e ela não queria se indispor com o marido na frente de estranhos. Samantha
tirou as luvas de jardinagem e sorriu para todos.
– Sejam bem-vindos. Como podem ver, a nova senhora de Oakdale Court adora
cuidar de seu jardim. – Ela abriu um belo sorriso e caminhou entre eles com grande
elegância, como se estivesse vestindo um modelo da última moda em Paris. – Ravensworth
fará as honras enquanto eu troco de roupa. Vou pedir que lhes sirvam algo na sala de estar.
Como vai, lorde Grafton? – perguntou Samantha ao avistar o conde.
Ao chegar à cozinha, ela pediu licença e se retirou. Longe dos olhares curiosos de
seus visitantes, Samantha subiu as escadas correndo e chamou Nell para ajudá-la a se
arrumar mais depressa. Em questão de minutos estava pronta para descer, porém não tão
encantadora quanto a sua rival. Preferira usar um vestido mais recatado. Ela, porém,
possuía uma arma que usava apenas de vez em quando, pois Ravensworth não gostava.
Mas aquela ocasião pedia. Samantha balançou os cabelos, que desceram em ondas por
suas costas. A mudança em sua aparência foi dramática. Olhando pela última vez para o
espelho, Samantha saiu do quarto e, cheia de confiança, se dirigiu à sala.

Capítulo XVIII

Um rápido olhar para a expressão sombria de Ravensworth a informou de que seu


cabelo solto não lhe agradara nem um pouco. Todavia, como a condessa havia sentado ao
lado dele no sofá, Samantha sabia que não seria repreendida naquele momento. Grafton
apresentou-a aos outros membros do grupo, e Samantha notou com certa surpresa que
todos eram, com apenas uma exceção, extremamente refinados.
A visita durou apenas meia hora, como era costumeiro naqueles dias. Quando seus
convidados se levantaram, Samantha fez alguns comentários banais com o marido,
dirigindo-se a ele pelo título. No mesmo instante, a condessa desviou a atenção dos
convidados para reparar na formalidade entre o novo casal.
– O que é isso, Hugh? Você estimula a sua esposa a tratá-lo com a deferência de um
criado? Se o chamar de Ravensworth, minha querida – disse ela a Samantha com ares de
inocência –, você será a única mulher em Londres a não demonstrar intimidade com esse
pândego.
O comentário exigia algum tipo de resposta, e Samantha percebeu os olhares
constrangidos de quase todos os outros convidados. Ravensworth parecia ter criado raízes
no chão. Ela não podia dizer a verdade e revelar que ainda se sentia uma estranha ao lado
do marido, e ele também nunca lhe pedira para chamá-lo por seu nome cristão. Samantha
virou a cabeça e deu um sorriso maroto para ele.
– Ah, eu tenho um apelido para o meu marido que uso apenas quando estamos
sozinhos. Não me atrevo a mencioná-lo sem a permissão dele.
– Fique à vontade – respondeu o marquês, cheio de confiança.
– Se você não se importa, Monty – murmurou Samantha com ingenuidade.
Ravensworth cerrou os dentes e suas narinas se inflamaram, mas ele manteve a
pose. Então puxou Samantha para o seu lado, envolvendo-a pela cintura.
– E abreviação de Montgomery – explicou ela em tom amável – Mas não é o apelido
preferido do meu marido. Tenho alguns outros, porém não costumo usá-los na frente dos
outros.
Samantha sentiu uma pegada mais forte em sua cintura e ficou séria. Tentou se
esquivar dos braços do marido, mas não teve jeito. Ravensworth se despediu dos
convidados prometendo-Ihes que os encontraria mais tarde para um jantar informal e um
jogo de cartas.
Uma vez sozinhos, ele encarou Samantha, que disse ter inúmeros afazeres pela
frente.
– Você é uma mulher incrível, Samantha Langland – disse o marquês, envolvendo-a
em um forte abraço. Seus olhos não escondiam sua admiração. – Foi um grande prazer vê-
la em ação.
– E que mente rápida! – brincou ela.
– Monty! Posso lhe pedir algo, rainha querida? Gostaria que você começasse a usar
o meu nome cristão.
– Quer me fazer passar por mentirosa? – brincou Samantha. – Você vai se
acostumar, Monty. Além disso, quando ouvir esse apelido, saberá que é a sua esposa que o
chama. Cuide para me atender depressa quando escutar o chamado – disse Samantha com
um olhar ousado.
– Fique sossegada, minha primavera.
– Primavera?
– Esse será o seu apelido. Você me faz lembrar dos jardins que tanto admira. Eu lhe
dou permissão de fazer o que bem entender com a propriedade, mas para esta planta em
especial – continuou ele, afagando-lhe o rosto –, haverá apenas um jardineiro. Vou cultivar a
minha primavera com todo o cuidado.
– Cultivar?
– Sim. E pretendo começar agora mesmo – disse ele, tomando-lhe o rosto entre as
mãos. Samantha notou um pouco de incerteza em sua expressão normalmente tão
confiante. Sabia que exercia um grande poder sobre o marido e que era capaz de destruir a
confiança dele com apenas uma palavra. Ela abriu um lento sorriso e se viu envolvida em
um abraço tão apertado que ameaçava esmagá-la.
Meses de privação com imagens vividas de uma Samantha receptiva em seus
braços o atormentaram no instante em que sentiu os lábios dela contra os seus.
Ravensworth gemeu de prazer diante do calor do corpo feminino se derretendo contra o
seu. A receptividade do abraço dela o inflamou. As mãos de Ravensworth alisavam todo o
corpo da esposa, desejando possuí-la ali mesmo.
– Não vou deixá-la em paz, minha querida – disse Ravensworth. – Tenha pena de
mim. Você sabe que temos um assunto pendente que precisa ser resolvido o mais depressa
possível. – Os lábios dele se movimentavam no pescoço de Samantha. – Venha para a
cama comigo. Agora. Você não vai se arrepender.
– Não será possível – disse ela. assim que recuperou o fôlego.
– Samantha! Não teste a minha paciência.
– Nós não podemos. Hoje é quinta-feira, e o piso do andar de cima será lixado.
Todos os serventes estão lá.
– Bem, vamos para a biblioteca, então – disse Ravensworth, em desespero.
Samantha se mostrou chocada.
– Não há cortinas lá.
– O sótão?
– Seja razoável, Hugh. Venha ao meu quarto hoje à noite. O simples convite acabou
com o ar dos pulmões de Ravensworth.
– Ah, minha querida, como eu esperei ouvir essas palavras – sussurrou ele,
afagando-lhe o cabelo. Ravensworth se inclinou para beijá-la mais uma vez, porém a
aparição de duas criadas o impediu. Samantha se desvencilhou dos braços do marido com
extrema graça e subiu as escadas. Antes, porém, ela lhe lançou um olhar de flerte.
Ravensworth ficou parado, pensando no que aconteceria dentro de algumas horas.

Os olhos de admiração do marquês se dirigiram à esposa por alguns instantes antes


de se voltarem para seu companheiro de mesa. Estava impaciente para que a noite na casa
de Adèle terminasse para poder ir para a sua moradia com Samantha, onde passariam uma
noite inesquecível. Ele a olhou conversando com um jovem tímido, um homem que seguiria
as ordens sagradas. Qual seria o assunto da conversa?, imaginou o marquês, sentindo uma
pontada de ciúme.
Ravensworth não era o único observando Samantha com interesse. Lady Adèle St.
Clair, embora resignada com o fato de ter perdido seu amante, não desperdiçava uma única
chance de atormentar sua rival. Ter perdido o marquês para uma moça tão insignificante era
algo inadmissível, e ela encarou o fato como uma ofensa pessoal. O que um homem com a
classe de Ravensworth tinha visto em uma jovem tão simplória e sem nenhum grande
atrativo?
Lady Adèle não tinha como saber que o traje recatado de Samantha havia sido
escolhido por Ravensworth. Ele insistira para que a esposa usasse um modelo mais
comportado e o cabelo preso. Sua intenção era resguardar sua beleza apenas para si
mesmo, e não compartilhá-la com outros homens. Era algo que ele não suportaria. O
marquês ficava furioso sempre que deparava com um olhar de desejo na direção de sua
esposa. Como um dia pudera achá-la simples? Ela era a mulher mais encantadora que ele
já conhecera. Quando flagrou a si mesmo despindo-a mentalmente, Ravensworth se forçou
a iniciar uma conversa amigável com a srta. Brown sobre o clima.
– Ouvi a palavra “Newgate”? – perguntou Adèle para o jovem que conversava com
Samantha, o sr. Guy Sommerville. Samantha ergueu os olhos e notou que todos olhavam
era sua direção.
– Sim – respondeu o sr. Sommerville, com os olhos repletos de admiração por
Samantha. – Lady Ravensworth conhece a sra. Elizabeth Fry, uma mulher quacre que
estuda a reforma penal,
– Nunca ouvi falar dessa mulher – comentou Grafton.
– Mas vai ouvir – respondeu Samantha,
– Lady Ravensworth visitou Newgate – interveio o sr. Sommerville, provocando
murmúrios de surpresa de alguns dos convidados. Samantha olhou depressa para o marido
e sentiu um grande alívio ao notar que sua expressão continha mais curiosidade do que
irritação.
– É verdade, Samantha?
– Sim, a sra. Fry era muito amiga de minha mãe. Quando cheguei à cidade, eu fui
visitá-la e ela me convidou para examinar de perto as condições desumanas das mulheres
que vivem em Newgate, sem mencionar seus filhos inocentes. Eu me vi na obrigação de
aceitar. Minha mãe teria feito o mesmo, e muitas mulheres quacres assumiram o
compromisso de ajudar a sra. Fry.
– Não é a melhor ocupação para uma dama refinada – comentou Adèle com certo
desdém.
Os olhos de Samantha eram frios como gelo quando ela olhou para a sua anfitriã.
– Sabe que é a segunda vez no dia que me dizem algo parecido? Por sorte, eu não
pretendo ser uma dama refinada. Prefiro ater-me às minhas responsabilidades.
– Eu acho que lady Ravensworth é uma mulher de grande fibra – declarou o sr.
Sommerville.
– Sabe o que eu acho? – disse lady Adèle, começando a se irritar com o assunto. –
Eu acho que essas pessoas merecem ficar trancafiadas em Newgate. Elas descumpriram a
lei e estão sendo castigadas.
Samantha ficou possessa e se recusou a aceitar o olhar de advertência do marido.
– Leis! – exclamou ela com voz trêmula. – Quais são as leis que protegem os menos
favorecidos? Aquelas mulheres roubaram para alimentar os filhos famintos e são
condenadas como criminosas.
– Elas deveriam deixar que os maridos e pais os alimentassem, se é que eles
existem – comentou um homem.
Samantha colocou os talheres na mesa em um gesto de impaciência.
– Meu caro senhor, sua erudição me espanta, pois o verdadeiro âmago da questão
ficou evidente. Será que essas mulheres têm marido? Será que têm pai? Se esses homens
tivessem apenas desertado o Exército britânico, o problema não seria tão gritante. Eles
deveriam estar em casa com suas esposas, cuidando de suas verdadeiras famílias.
– Desertar o Exército? – Até o sr. Sommerville se surpreendeu.
Ravensvv-orth lançou um olhar intimidante para Samantha.
– Lady Ravensworth está apenas brincando. Conte a eles, minha querida.
Foi o que Samantha fez.
– A guerra é a forma mais ridícula de solucionar nossos problemas. Vejam o pobre
Napoleão, por exemplo. – Ela ignorou o choque dos presentes. – Pensem em todo o bem
que ele fez para a França. Impostos mais justos, leis mais precisas, escolas e universidade
para as massas. Até mesmo os americanos o admiram. Não tenho a pretensão de dizer que
ele é um exemplo de virtude, mas não é tão ruim quanto fomos levados a acreditar. O
homem tem um bom coração. Nós deveríamos tê-lo acolhido, e não o enviado a Elba como
um criminoso comum.
– Madame, não se esqueça de si mesma – disse Ravensworth, desejando poder
torcer-lhe o pescoço.
– Fique tranqüilo, Ravensworth – interveio lorde Grafton. – Somos todos amigos
aqui. Até mesmo lorde Byron se expressa nos mesmos termos. Eu concordo com lady
Samantha, em especial sobre os americanos. Nunca entendi o motivo da nossa rixa com
eles. São todos britânicos, como você e eu. Acho tudo isso uma grande inconveniência.
As palavras de Grafton serviram para enervar ainda mais o marquês.
– Permita-me ressaltar que em determinados lugares tais comentários seriam
considerados de alta traição – declarou Ravensworth. – Como membro da realeza e fiel
servo de Sua Majestade, eu sei quais são os meus deveres. Estamos em guerra com os
Estados Unidos da América. Não devemos falar ou agir com indiscrição. Neste exato
momento, o Exército britânico pode estar sofrendo ataque das tropas americanas. Se
perdermos essa guerra, você ficaria satisfeito? Gostaria que os americanos incorporassem o
Canadá?
Lorde Grafton demonstrou sua indiferença, mas Samantha não tinha terminado o
assunto.
– Claro que não quero que nada prejudique o Canadá. Mas quem provocou essa rixa
estúpida? A Casa de Hannover...
– Samantha! – exclamou Ravensworth.– Não quero mais comentários sobre o
assunto! – Era uma ordem, e não ura pedido. Observando o brilho perigoso nos olhos do
marido, ela preferiu ficar quieta. Por enquanto.
Quando os criados terminaram de tirar a mesa, Ravensworth chamou-a de lado
antes que os homens se reunissem em outra sala para tomar vinho do Porto.
– Pelo amor de Deus, Samantha, tome cuidado com a sua língua. Se não pensa em
você, pense na minha posição. Qualquer questionamento sobre a minha lealdade perante a
Coroa poderia me arruinar. – Ele apertou-lhe o braço para demonstrar que sua raiva fora
mais pela demonstração em público do que por reprimenda pessoal. – Agora, seja uma boa
garota e converse sobre filhos e casamentos com as mulheres.
A conversa das mulheres na sala de estar foi bastante tediosa. Por sorte, Samantha
encontrou na srta. Brown a mesma paixão que ela nutria por jardinagem. A moça, originária
de York, tinha grande conhecimento de ervas medicinais. Samantha ficou encantada com a
sabedoria da srta. Brown. Lady Adèle parou alguns instantes ao lado das duas, mas ao
perceber que a conversa não tinha nenhum interesse para ela, virou-se para ir se juntar a
outro grupo. Lady Adèle não fazia a menor questão de esconder seu tédio sem a presença
de homens.
– Você será uma excelente nora para o duque – comentou a srta. Brown. – Pelo que
me consta, seu sogro adora ervas. Os jardins dele em Dalbreck Hail são bastante famosos
em Yorkshire. Seu marido certamente deve ter lhe contado a respeito da paixão do pai por
jardinagem.
– Eu não sei nada sobre o duque, a não ser que ele é um homem bastante severo.
– Severo? O duque de Dalbreck? Alguém a enganou, minha querida. Ele é doce
como uma ovelha. Pergunte a lorde Ravensworth.
– Você o conhece?
– Não muito bem. O duque não aparece muito em público desde a morte da esposa.
E também não gosta de sair de Yorkshire. Sabia que ele já foi confundido várias vezes com
o jardineiro? Como você e eu, o duque adora cuidar de suas ervas.
– É mesmo? – admirou-se Samantha, revendo mentalmente a imagem que fazia do
sogro. – De qualquer forma, imagino que um homem tão importante deva ter se
decepcionado com a escolha da esposa que o filho fez. – Tarde demais, Samantha
percebeu que havia exteriorizado seus pensamentos em voz alta.
– De jeito nenhum. Ele é louco pelo filho. Além disso, a mãe de Ravensworth era
filha de um homem bem simples. Foi um casamento por amor, e um grande choque para o
velho duque. O pai de Ravensworth não é assim. Ele é bem mais tranqüilo do que o filho,
inclusive. Não costuma fazer cerimônia com nada. Tenho plena certeza de que vocês dois
se entenderão muito bem.
– Verdade? – disse Samantha, pensativa. A descrição da srta. Brown de seu sogro
não condizia com o que Ravensworth lhe contara sobre a personalidade do pai. Ela tentou
se lembrar das circunstâncias em que ouvira o nome do duque pela primeira vez. Sim, nas
semanas anteriores à fatídica noite, quando Ravensworth lhe pedira para ser sua amante.
Dissera que não podia se casar com ela, pois seu pai, o duque, esperava que o filho se
casasse com alguém do seu meio social. Mentiroso! Tudo não passara de um esquema
para manipulá-la!
– Como? – perguntou ela ao ouvir a voz de lady Adèle invadindo seus pensamentos.
– Quero apenas saber a sua opinião, minha cara. Você acha que é ético para uma
dama usar todos os artifícios para conquistar a atenção de um cavalheiro por quem
desenvolveu um carinho especial?
– A honestidade é sempre a melhor política – respondeu Samantha.
Ela escutou os comentários das outras mulheres com um sorriso indulgente nos
lábios.
– Parece que fazemos de tudo para atingir os nossos objetivos – disse a srta. Brown,
alegre. – Carruagens quebradas, lenços ou livros derrubados no momento oportuno. Como
somos tolas!
– Os homens são bem piores – comentou lady Susan, uma ruiva conhecida por ter
cinco irmãos que despedaçavam o coração das jovens. – Nada os impede de atingirem seus
objetivos. Nossas táticas são infantis se comparadas às deles. Eu ouço meus irmãos
conversando e fico perplexa. Quanto mais inatingível o objeto do desejo masculino, mais
desesperados eles ficam para alcançá-Io.
– O que eles podem fazer de tão cruel? – perguntou Samantha, interessada.
– Certa vez ouvi dizer de uma jovem que foi raptada, mas nem todos os cavalheiros
costumam chegar a esse extremo. Entretanto, acredito que comprometer uma dama é um
truque bastante comum. Claro, a reputação de uma mulher é arruinada com facilidade,
porém a honra do homem nessas situações quase nunca é atingida, quer ele proponha
casamento ou não.
– Como assim? Não estou entendendo direito.
– E simples – disse outra jovem, manifestando-se pela primeira vez. – Se um homem
denigre um pouco sua reputação, quem se preocupa? Ele ganha fama de mulherengo, só
que nunca é ignorado pela sociedade. O fato costuma realçar seu encanto perante as
mulheres. Como somos tontas!
– Porém uma mulher na mesma posição pode ter a vida arruinada se o homem se
recusar a se casar com ela – opinou lady Susan. – Então, qualquer cavalheiro determinado
a ter uma mulher em especial precisa apenas fazer alguns arranjos. Claro, as herdeiras são
o alvo mais comum. Algumas fingem até ser pobres para escapar das armas desses
inescrupulosos caçadores de fortunas.
– Vocês nunca prestam atenção ao que as mulheres mais experientes dizem –
comentou uma das damas de companhia.
– Entendo – murmurou Samantha, ingressando em um de seus silêncios meditativos.
Seus pensamentos iam e vinham. Ela não sabia como compreender tudo aquilo que
acabara de ouvir. Algo estava bastante óbvio. Ravensworth era um mentiroso inveterado.
Tinha mentido para tentar convencê-la a ser sua amante, e também mentira quando a
convencera a se casar com ele. O homem tinha uma lábia e tanto! O brilho nos olhos de
Samantha e o rosado em suas bochechas normalmente pálidas lhe proporcionaram um
encanto ímpar.
Quando entrou na sala de estar com os outros cavalheiros, Ravensworth olhou para
a esposa e considerou-a a imagem mais linda que já vira na vida.

Capítulo XIX

Ravensworth não demorou muito para perceber o ressentimento de Samantha, cujos


olhos se recusavam a encontrar os dele, e todas as tentativas que fazia de aproximação
eram ignoradas. O marquês logo desistiu, pois não tinha a menor intenção de participar aos
outros membros da casa que havia se desentendido com a esposa. A frieza dela não foi
calculada para irritar o marido, mas quando subiram na carruagem para voltar para casa, as
hostilidades vinham de ambas as partes.
– É melhor cobrir seu ombro para não se resfriar – disse ele, ajustando o xale de
Samantha. – Você percebeu como a temperatura baixou? Não é muito comum nesta época
do ano.
Não havia como esconder o sarcasmo na voz do marquês. Samantha, por sua vez,
não se deixaria abater.
– Acho que a temperatura nesta carruagem logo estará tão alta que você vai preferir
estar no inferno – disse ela com toda calma.
Ravensworth jogou a cabeça para trás e riu.
– Vamos começar outra vez, minha doce Samantha? Como poderei me defender se
não sei qual foi a ofensa que cometi. Duvido que esteja assim comigo apenas por eu tê-la
interrompido à mesa de jantar. – Ele ficou mais sério. – Saiba que não gostei do seu
discurso, mas acho que convenci a todos de que você seria fiel ao seu marido quaisquer
que fossem seus sentimentos. – Ravensworth franziu o nariz em tom de brincadeira.
– Você é um mentiroso, senhor meu marido – falou ela sem o menor preâmbulo. –
Mentiu para mim quando disse que seu pai se oporia ao nosso casamento. Você tentou me
transformar em sua amante fingindo que era impossível me oferecer casamento. Mas essa
não era a verdade, não é mesmo, Ravensworth?
O coração dele parou por um segundo. Era evidente que as damas a tinham
colocado a par da situação. Mais cedo ou mais tarde, ela teria descoberto. Ravensworth
apenas não imaginara que acontecesse tão cedo. Ele deveria ter lhe confessado a verdade
quando tivera a oportunidade.
– Samantha, é melhor esquecermos esse assunto. Eu não sou mais o homem que
era naquela época. Eu era egoísta, arrogante, não nego. Só que mudei. Por que não
acredita em mim?
– E mesmo? – perguntou ela com falsa doçura. – E quando essa mudança ocorreu?
Ravensworth pegou as mãos de Samantha e respondeu com toda a sinceridade:
– Pouco depois de eu ter lhe feito aquela proposta indecente. Quando você fugiu, e
eu não sabia aonde tinha ido ou o que havia lhe acontecido. Saiba que foram os piores
momentos da minha vida. Eu não sabia o que fazer. Pela primeira vez, percebi que me
preocupo mais com você do que comigo mesmo.
Samantha puxou suas mãos e sorriu com amargura.
– Isso foi antes ou depois de você ter descoberto que o casamento lhe traria uma
fortuna?
– Que fortuna? – perguntou ele, perplexo.
– Ora, Ravensworth, não seja cínico. Você é o maior mentiroso que eu conheci na
minha vida. Que fortuna? – imitou Samantha.
O marquês foi pego de surpresa.
– Está querendo dizer que sou um caçador de fortunas?
– Você armou o nosso casamento ou não? – perguntou ela.
– Não exatamente.
– O que isso significa? Diga-me a verdade pelo menos uma vez na vida.
– Significa que os acontecimentos ocorreram da maneira como eu desejava. Tinha a
intenção de pedi-la em casamento, porém não sabia se você me aceitaria pelos meus
próprios méritos.
– Quais méritos? Eu sabia que você era um devasso, um homem de moral
questionável. A primeira vez que nos encontramos, você estava tentando seduzir a pobre
Adèle. Foi o que eu pensei na ocasião. Pouco depois, você me perguntou se eu queria ser
sua amante. Brincou com os meus sentimentos, acreditando que eu deixaria os meus
escrúpulos de lado por você não poder me oferecer casamento. E depois planejou o nosso
casamento da maneira mais absurda, acreditando que era meu dever me casar com você
para salvar a sua reputação. Seu tratante!
Ravensworth manteve-se sob controle.
– Acalme-se, Samantha. Eu não nego que haja um fundo de verdade em tudo que
está dizendo. Já não admiti os meus erros? Se eu não fui honesto com você, houve um
motivo. O fim justifica os meios. Se não lhe revelei minhas verdadeiras intenções, foi para
garantir a nossa felicidade. Você teria recusado minha corte pelo mais frívolo dos motivos.
Sei que você havia criado uma aversão por mim por eu ter lhe proposto ser minha amante.
Seu orgulho estava ferido, nada mais. Eu tentei remediar a situação, sem sucesso. Mas
saiba que tudo que fiz foi para salvar a sua reputação.
– É mesmo, milorde? Saiba que a estrada para o inferno está cheia de boas
intenções.
Ravensworth não soube como responder, então ficou em silêncio durante o resto do
trajeto. Quando a ajudou a descer da carruagem, ele fez uma última tentativa de paz.
– Quer dizer que não terei o prazer da sua companhia na minha cama esta noite?
Samantha tropeçou e ele a segurou antes que ela caísse. Samantha praguejou,
assustando-o.
– Eu aprecio mulheres apaixonadas. O fato de você admitir que me odeia mostra que
está cedendo. Um amante teme apenas a indiferença.
Ela caminhou até a casa com toda a dignidade que conseguiu reunir, ouvindo o
marido rir às suas costas.

O primeiro de seus visitantes chegou na manhã seguinte. Ravensworth voltou para


casa e encontrou Samantha na biblioteca servindo chá para dois jovens cavalheiros. Ele
reconheceu Vernon, porém o outro lhe era estranho. Eles conversavam em voz baixa,
observou o marquês antes de se fazer notar. Os olhares que recebeu dos três levaram-no a
crer que havia interrompido algum plano misterioso.
– Ra-Ravensworíh, você já chegou? Permita-me apresentar-lhe meu primo, o sr.
John Caldwell, que veio nos visitar do Canadá.
O companheiro de Vernon se levantou para cumprimentar o marquês. Era um
homem de cerca de 25 anos, sem grandes atrativos. Sua capa preta e calça bege não
tinham nada de especial, mas eram muito elegantes.
– Você é do ramo Grenfell ou Langland da família? – perguntou o marquês em tom
amigável. Ao pegar a xícara de chá das mãos de Samantha, Ravensworth sentiu um certo
tremor nas mãos dela.
– Langland – responderam Vernon e Samantha em uníssono. Caldwell repetiu.
– Somos primos de segundo grau – disse ele, mas a resposta não satisfez
Ravensworth.
No final de quinze minutos de interrogatório, o marquês foi interrompido por
Samantha, que mudou o rumo da conversa. Em outras circunstâncias, ele teria insistido,
mas como sua esposa fazia questão de honestidade, afastou a idéia de que os três
escondiam algo.
– Pretende ficar muito tempo na Inglaterra? – perguntou ele em tom amigável.
– Não. Preciso apenas resolver um problema particular antes de voltar para casa.
Tenho mais uma semana. Espero não atrapalhar vocês com a minha presença aqui.
– Claro que não – disse Samantha. – A família deve permanecer unida. Ficaremos
muito contentes se pudermos ajudá-lo.
– Concordo! – exclamou Ravensworth. Pouco tempo depois, ele se levantou e pediu
licença para se retirar. – Conversamos mais no jantar. – Ao passai- pela poltrona de Vernon,
o marquês deu um tapa nas costas do cunhado. – Não leve sua irmã muito a sério. Se
precisar de um amigo, não hesite em me chamar.
– Obrigado.
Quando a porta se fechou, os três se entreolharam.
– Acho que o marquês chegou à conclusão errada – comentou Caldwell.
– Eu menti para meu marido – disse Samantha com voz trêmula.
– O que aconteceu?’– perguntou Vernon, levantando-se e caminhando de um lado
para outro. – Não havia necessidade. Eu jamais teria trazido John aqui se soubesse que
Ravensworth não simpatiza com os americanos.
– Não, não, Vernon! Você está enganado. Ravensworth é leal à Coroa. Foi o que ele
me disse algumas noites atrás. Até chegou a me reprimir por eu ter demonstrado minha
aversão à guerra. Eu não podia revelar a sua nacionalidade, sr. Caldwell. Ele o teria enviado
às autoridades sem pestanejar. Para meu marido, o senhor é o inimigo.
– Mesmo assim, ainda acho que devemos contar a verdade a Ravensworth – disse
ele. – Eu não sou nenhuma ameaça para a Inglaterra. Tomei persona non grata aqui pelo
simples fato de a guerra no Canadá não estar indo bem para os britânicos. Nós, os quacres,
somos considerados suspeitos por ambas as partes por nos recusarmos a empunhar armas.
Permita-me contar a verdade ao marquês. E se ele decidir me entregar às autoridades, eu
não estarei correndo tanto perigo. O governo me colocará em uma cela apenas até o final
da guerra.
– Contar a Ravensworth que eu menti para ele? – A expressão de Samantha
demonstrava todo o seu horror. – Impossível. Ele jamais me perdoaria. Não toque mais
nesse assunto, sr. Caldwell. Eu jamais poderia encará-lo outra vez.
– Nem eu – concordou Vernon. – Não gostaria de perder a estima do meu cunhado
se ele descobrisse que participei dessa mentira.
O sr. Caldwell demorou apenas alguns instantes para se decidir.
– Está bem. Embora a idéia não me agrade, eu farei o que me pediram. Quanto
menos vocês conhecerem meus planos, melhor. Eu apenas lhe direi que partirei à noite para
a costa, um dia desta semana. Vernon me acompanhará, depois seguiremos para Londres.
Como Ravensworth nos considera dois jovens aventureiros, o fato não o surpreenderá.
– Como você conheceu o sr. Caldwell, Vernon?
– Por intermédio de alguns conhecidos que sabiam que a nossa família era quacre.
Eles estavam procurando um local seguro perto da costa para escondê-lo até que
encontrassem um barco para levá-lo embora. Quando recebi a sua carta, praticamente
implorando para eu vir até aqui, encontrei a solução perfeita.
– Fique sossegada, sra. Ravensworth. Seu marido não saberá a verdade. Eu até a
chamarei de prima Samantha. E a senhora me chame de John. Vamos ter o máximo de
cautela. Precisamos apenas decidir qual será o nosso parentesco. Há algum parente de
vocês que tenha emigrado para o Canadá?
– - Não que eu saiba – respondeu Samantha, pensativa. – Na verdade, não temos
nenhum parente por parte dos Langland, a não ser uma tia em Shropshire. Foi por esse
motivo que Ver-non e eu ficamos sob a responsabilidade de nosso tio, sir John Grenfell. De
qualquer forma, toda família tem uma ovelha negra que foi para as colônias em algum
momento.
O sr. Caldwell sorriu.
– Precisamos inventar um parentesco – continuou ela. – Vamos dizer que meu pai
tinha um irmão, John Langland, que partiu para o Canadá. A filha dele se casou com seu
pai. Pronto. O que acha, sr. Caldwell?
– Primo John – corrigiu ele. – Essa será a nossa história então, mas não seja muito
minuciosa sobre o assunto. Por sorte eu ficarei apenas alguns dias, e ninguém aqui poderá
negar o nosso parentesco. Seu marido jamais saberá da sua mentira, a não ser que decida
lhe contar.
Encerrado o assunto, os três saíram da biblioteca a fim de se arrumarem para o
jantar. Samantha ficou mais calma quando o sr. Caldwell lhe garantiu que não havia
ninguém na região que pudesse colocar seu parentesco em dúvida. Ah, como Ravensworth
a odiaria se soubesse a verdade! Ela se mostrara um exemplo da sinceridade e, agora,
estava traindo a confiança do marido. Samantha não gostava nem de imaginar a decepção
do marquês se algum dia descobrisse a verdade. Ele jamais acreditaria na pureza de seus
motivos. Duas escolhas lhe restaram: contar a verdade a Ravensworth, e assim jogar o sr.
Caldwell na cadeia por taívez um ano, ou mentir para Ravensworth e ajudar o sr. Caldwell a
escapar. Samantha ficou com a segunda opção, mesmo sabendo que o marido nunca
compreenderia seus motivos. E por que deveria? Não, ela faria de tudo para manter a
verdade em segredo. Não queria perder a estima de seu marido. Jamais.

Capítulo XX

A sorte de Samantha foi Andie não se encontrar em Oakdale Court, pois a criada não
sossegaria enquanto não descobrisse o que havia por trás daqueles olhos cinza tão
preocupados. Ravensworth, por sua vez, achou que ela ainda estava incomodada com a
discussão de alguns dias antes.
Sua conduta o impedira de conquistar os privilégios de direito de um marido. Para
piorar ainda mais a situação, Samantha passara horas e horas tentando recuperar o tempo
perdido com o irmão e o primo. Ravensworth pôs na cabeça que a esposa o estava
castigando por seu comportamento.
Magoado com o desprezo de Samantha, o marquês passou a visitar sua vizinha, lady
Adèle, com certa freqüência. O carinho com que ela o tratava fazia bem para seu ego ferido.
Em algumas situações, admitiu o marquês, a falta de originalidade de uma mulher em uma
conversa não era necessariamente um sofrimento por algumas horas. Adèle podia não ter
uma mente brilhante, mas quando se tratava de mimar um homem, ela se igualava às
outras. Nesse aspecto, sua esposa tinha um grande defeito.
O fato de Samantha não reclamar das ausências rotineiras do marido de nada
adiantou para diminuir as suspeitas dele em relação ao seu comportamento distante. E
aquela indiferença o incomodava demais. Mais do que o marquês pretendia admitir. Quando
entrou na sala de jantar onde ela e o primo tomavam o café da manha, Ravensworth notou
um caloroso sorriso entre os dois, o que o irritou ao extremo.
– A propósito, minha querida – disse ele, encontrando-a mais tarde na escadaria –,
não se preocupe em preparar o jantar para mim hoje. Prometi ajudar Adèle a comprar
alguns cavalos para a sua nova carruagem. Hoje à noite haverá um leilão na cidade e, com
sorte, ela conseguirá arrematar bons animais. Não posso prever quanto vamos demorar.
Samantha o olhou com seriedade.
– Adèle? Quando você a encontrou?
Ravensworth alisou uma prega invisível na manga de sua camisa.
– Para ser sincero, minha dileta esposa, tenho passado em Beechwood sempre que
estou por perto. Dia sim, dia não, mais ou menos.
Com satisfação, Ravensworth viu o choque se formando no rosto da esposa após
sua revelação. Pouco depois, entretanto, ela recuperou a compostura e continuou com seu
semblante calmo.
– É muito gentil de sua parte me informar, milorde. Não sabia que você costumava
ser tão solícito com seus vizinhos.
– Não sou assim com todos. A casa de Adèle é bem perto da nossa e, além disso, eu
a conheço há bastante tempo. Desde a morte do conde, ela depende de mim. Nada me
daria mais prazer do que ter a sua companhia, Samantha, mas a minha carruagem
acomoda apenas duas pessoas confortavelmente. Espero que não se incomode por eu
estar ajudando Adèle.
A sensação de injustiça que aquelas palavras provocaram evocou o antídoto perfeito
para o fardo de culpa que a assolava desde que ela contara aquela mentira horrorosa ao
marido.
– Por que eu deveria me opor? – Samantha perguntou, evitando encontrar os olhos
dele para esconder a hostilidade. – Como você mesmo ressaltou, sua intimidade, digo,
amizade com a dama é de longa data. Na verdade, a primeira vez que a vi foi na biblioteca
da casa de meu tio, mas aquela cena já foi esquecida, não é, milorde?
Ao ver o sorriso sumir do rosto do marido, ela sentiu o sabor de uma grande vitória.
– A segunda vez que a vi, quando milorde nos apresentou na frente da livraria, você
estava agindo como homem de negócios da dama. Pelo que me lembro, era um assunto
relacionado à propriedade do falecido conde. Claro, Adèle nunca teve capacidade para
administrar seus próprios negócios. – A referência velada à administração de Samantha de
seu dinheiro acertou Ravensworth como um raio, mas ela estava furiosa e nada a deteria.
– A experiência de ajudar os menos favorecidos é muito gratificante – continuou
Samantha. – Por favor, não se preocupe com os meus sentimentos sobre o assunto, pois
não tenho nenhum. Na sua ausência, vou ficar na companhia do meu primo, uma vez que
Vernon tem um assunto para resolver na cidade.
– É mesmo? Nesse caso, eu lhe desejo um bom dia – respondeu Ravensworth,
antes de descer as escadas e ordenar que um criado mandasse preparar sua carruagem.
O humor de Samantha era dos piores. Ela sabia que agira errado, que não havia sido
honesta, mas o fato de Ravensworth estar cortejando Adèle lhe tirou o equilíbrio.
Levantou a saia e subiu até seu quarto. Pouco depois, Samantha trajava sua melhor
roupa de cavalgar. Ravensworth não aprovaria tal atitude, mas ele não estaria lá para
repreendê-la. Talvez nem ficasse sabendo. Ela havia prometido levar Caldwell para um
passeio pela propriedade. Sua maior determinação era deixar bem claro para um
determinado cavalheiro que Samantha Langland não admitia ser ignorada dessa maneira.

O passeio de Vernon ao porto de Folkstone foi com o intuito de reconhecimento. Ele


tinha usado todos o seu poder de persuasão para convencer o americano a não se
aventurar para o exterior em um momento tão crítico. Depois de muito relutar, Caldwell
achou a atitude mais sensata a tomar. Preferiu manter em segredo o dia exato de sua
partida, pois não gostaria que Ravensworth, por obrigação, o acompanhasse em parte da
sua viagem.
Quando voltou no final do dia, Vernon trouxe notícias não muito agradáveis. Ao
chegar ao estábulo, ele viu a irmã e o amigo conversando no herbário. Ravensworth, por
sorte, não se encontrava por perto.
– Não temos tempo a perder – disse ele, segurando as rédeas do cavalo. –
Precisamos partir imediatamente. O chefe da polícia está a caminho. Ele quer conversar
com Ravensworth sobre um americano que fugiu da cadeia.
Vernon ofegava, lutando para recuperar fôlego. Por um momento, Caldwell olhou
para o amigo sem saber como agir.
– Você disse que o chefe de polícia está vindo para cá? – perguntou ele assim que
notou a urgência de Vernon.
– Eu cavalguei feito um louco para chegar depressa. Ele deve estar meia hora atrás
de mim. Todos os estrangeiros precisam mostrar seus documentos. Sendo assim, você não
poderá se passar por canadense.
Caldwell ficou em silêncio, tentando assimilar as palavras.
– E os Heriot? Quando eles me esperam?
– Eles me pediram para avisá-lo que você deve ficar escondido até o anoitecer. Não
é seguro viajar à luz do dia.
– Aonde ele vai? – perguntou Samantha, tensa.
– Não faz a menor diferença. Nós o esconderemos na floresta, se preciso for! Mas
vamos depressa! – exclamou Vernon, virando o cavalo.
– Espere! Gostaria de dar uma palavra com sua irmã. Você prepara o meu cavalo,
por favor?
Apesar da impaciência, Vernon deixou-os a sós, mas antes pediu:
– Seja breve. Eu não quero encontrar o chefe de polícia, muito menos meu cunhado.
Caldwell pegou Samantha pelo cotovelo e levou-a para dentro do estábulo.
– Preciso partir imediatamente. Não quero que ninguém descubra que a senhora me
escondeu na sua casa. Poderia ser acusada de cúmplice.
– Não se preocupe – disse Samantha, colocando a mão no braço de Caldwell de
modo a tranqüiliza-lo. – Conheço um esconderijo perfeito. Há um chalé abandonado aqui na
propriedade, atrás do moinho. E usado como depósito pelos serviçais. Você deve se
lembrar, pois passamos em frente hoje de manhã durante o nosso passeio.
– Sim, eu me lembro – respondeu Caldwell, obrigando-a a andar mais depressa. –
Preste atenção no que vou lhe dizer. Tire todos os indícios da nossa presença em Oakdale
House o mais depressa possível, entendeu? Deve parecer que saímos correndo. Conte a
quem perguntar que Vernon e eu soubemos de uma festa em Henley e decidimos ir para lá.
Os jovens da moda são imprevisíveis. Ninguém se surpreenderá.
– E as suas coisas? O que devo fazer com elas? Caldwell deu de ombros.
– Vernon pode voltar dentro de um ou dois dias para buscá-las. Precisarei pedir,
emprestar ou até roubar roupas. Mas não tem problema. Enquanto isso, esconda ou
destrua-as.
Eles chegaram ao pátio do estábulo no instante em que Vernon apareceu com dois
cavalos.
– Não fique tão preocupada– disse Caldwell antes de montar. – Amanhã a esta hora
eu estarei a salvo em alto-mar.
Samantha olhou para os rostos animados dos dois e teve a estranha sensação de
que eles estavam prestes a aprontar alguma.
– Esperem! – gritou ela, vendo-os se afastar. – Eu irei até o chalé à noitinha para
levar um pouco de comida e uma troca de roupas para vocês.
Caldwell mostrou-se relutante, porém Samantha já havia se virado para se dirigir à
casa.
– Tenha cuidado – disse ele seguindo em disparada atrás de Vernon.
Samantha havia acabado de colocar as coisas de Vernon em uma maleta quando
ouviu vozes no andar de baixo. Depois de verificar se estava tudo em ordem, ela levou a
bagagem para o seu quarto e a colocou ao lado da de Caldwell, embaixo da sua cama.
Quase não teve tempo de ajeitar a colcha, pois houve uma batida na porta.
– Milady – chamou a criada –, o chefe de polícia está lá embaixo e gostaria de lhe
falar por alguns instantes.
Samantha sentiu o coração disparar.
– Diga a ele que descerei em um minuto – respondeu ela. Precisava se acalmar
antes de enfrentar o chefe de polícia, Além de proteger Caldwell, Samantha estava
protegendo o marido. A lealdade dele à Coroa jamais poderia ser questionada. O marquês
seria arruinado se as autoridades descobrissem que abrigara um inimigo do Estado em sua
própria casa. E não haveria como provar sua inocência. Samantha estremeceu. Em que
enrascada se metera! Mas faria de tudo para sair daquele apuro.
Meia hora depois, ela viu o chefe de polícia se afastar da casa. Samantha nunca
achara que seria tão fácil. Tomara-se uma grande mentirosa, e com tão pouca prática. O
chefe aceitara a súbita partida dos dois como um acontecimento natural, conforme Caldwell
tinha previsto, e parecera pouco à vontade por ter de interrogar uma mulher como ela. Logo
ao chegar, ele deixara bem claro que a sua presença em Oakdale Place era apenas uma
questão de formalidade. O fato de o chefe de polícia ter aceitado todas as suas palavras
como verídicas a deixara mais sossegada para a conversa que teria com Ravensworth.
O marquês apareceu tarde da noite, e Samantha já havia se recolhido em seus
aposentos. Sua conversa com o marido aconteceria apenas no dia seguinte, quando
Caldwell já estaria bem longe dali. Além disso, a ausência de Ravensworth foi bastante
providencial para ela organizar tudo. Assim que Caldwell partisse, Samantha seria a mulher
mais honesta do mundo, prometeu a si mesma, mas naquela noite precisaria de toda sua
coragem para ajudar o pobre fugitivo.

Capítulo XXI

A noite estava gloriosa. A lua banhava todas as montanhas, todas as árvores e


pedras com seu halo luminoso, e as estrelas brilhavam como diamantes na abóbada negra
do céu. Os sons eram inúmeros. Samantha virou a cabeça para escutá-los, e a brisa quente
acariciou-lhe as faces como um amante invisível.
Era uma noite encantada, uma noite para as fadas dançarem em seus círculos
mágicos, para as ninfas emergirem das profundezas das águas e enfeitiçar os mortais. Era
uma noite para o romance.
– Vamos lá, Bessie – disse ela, afagando a crina da égua. – Não tenha medo das
criaturas da noite. Elas não passam de superstições. Agora, Ravensworth já é outra história!
Ele é uma criatura de carne e osso e muito temida.
Vinte minutos mais tarde, Samantha parou diante do chalé e desmontou. Parecia
abandonado.
– John? Vernon?
A porta se abriu e um fio de luz apareceu. Era Caldwell.
– Onde está Vernon? – perguntou ela imediatamente.
– Foi na frente para preparar os meus amigos para a minha chegada. Eu não quero
que o encontrem comigo. Também não quero que a senhora fique aqui mais do que o
necessário. Se alguém nos encontrar juntos... – Ele deixou a voz sumir, e Samantha se
arrepiou diante da implicação daquelas palavras.
– Ninguém vai nos encontrar. Eu tomei o máximo de cuidado ao vir para cá – disse
ela com uma confiança que não sentia. – Tome, você deve estar com fome. Eu trouxe um
pouco de comida.
A janela havia sido coberta com uma antiga manta para esconder a fraca luz da
lanterna. Caldwell sentou-se à pequena mesa e apontou uma cadeira para Samantha fazer
o mesmo. Ela colocou a trouxa sobre a mesinha. Uma garrafa de vinho, algumas fatias de
presunto, um pouco de frango, pão fresco e uma generosa fatia de torta de maçã.
– Não trouxe prato e nem talheres.
– Não se preocupe com isso – respondeu Caldwell, tirando a rolha da garrafa de
vinho já aberta. – Eu não me importo em fazer piquenique.
Samantha observou-o comendo com gosto até toda a comida desaparecer. Quando
conversaram, foi sobre amenidades. A noite havia perdido sua magia. Tudo parecia tão
mundano. Ela suspirou e notou um brilho nos olhos de Caldwell.
– Quais são os seus planos imediatos? – perguntou Samantha.
– Tudo está sendo providenciado, como já lhe expliquei. Partirei amanhã. Para a sua
proteção, é melhor que a senhora não saiba mais nada.
Ele terminou de comer e recostou-se na cadeira com satisfação.
– Foi um verdadeiro banquete. Nem sei como lhe agradecer. Caldwell, então,
ofereceu um pouco de vinho a Samantha.
– Por que não? Não vejo mal nenhum em beber um pouco de vinho de vez em
quando.
Ela deu um longo gole na bebida. E engasgou. O acesso de tosse que a acometeu
fez com que Samantha derrubasse o vinho no vestido. Ela limpou o tecido com o pano que
trouxera para embrulhar a comida. Caldwell a olhou por alguns instantes antes de falar:
– Milady, espero que não se importe se eu for direto. Samantha ergueu os olhos
diante da seriedade na voz dele.
– É uma reprimenda quacre? – brincou ela.
– Claro que não! Apenas algumas palavras de conselho de um amigo que,
provavelmente, a senhora nunca mais encontrará.
Samantha ficou no mais profundo silêncio.
– Mas não faz mal! – Caldwell se levantou, e ela fez o mesmo. – Seja boa com
Ravensworth.
Eles foram interrompidos pelo relinchar de um cavalo.
– Bessie nunca foi uma égua paciente. Acho melhor eu ir embora – comentou
Samantha. – Eu lhe trouxe algumas roupas que estão em uma trouxa que deixei presa na
sela.
– Não se preocupe comigo – Caldwell a tranqüilizou, segurando-lhe as mãos. – Eu
avisarei quando conseguir chegar ao Canadá. Obrigado por tudo que a senhora fez por
mim. – Em um gesto de agradecimento, Caldwell levou as mãos dela aos lábios e beijou-as
com ternura.
Naquele momento, a porta se abriu e uma figura imponente e ameaçadora entrou.
– Ravensworth! – A palavra, quase um sussurro, escapou dos lábios de Samantha.
O silêncio se estendeu por vários instantes.
– Ravensworth a seu dispor – disse ele sem esconder a ironia. Deu um passo na
direção de Samantha e agiu sem pensar. Ela tirou as mãos das mãos de Caldwell e
colocou-se entre os dois homens, com os braços abertos. Tal atitude tirou o marquês do
sério. Com uma fúria demoníaca, ele afastou Samantha de seu caminho, fechou o punho e
acertou um soco em Caldwell. Ela tropeçou na mesa e caiu no chão. Quando conseguiu
erguer a cabeça, viu que Caldwell estava de joelhos. Ravensworth segurava-o pelo pescoço
e o açoitava nas costas. Samantha gritou em sinal de protesto, mas ele não a escutou. Ela
se levantou e jogou-se em cima de Caldwell para impedir que aquela cena continuasse.
– Você se atreve a proteger este homem? – gritou o marquês, possesso.
– Ele não vai lutar com você! – gritou Samantha. – Ele não vai se defender. Você não
compreende? Este homem é um quacre. Ele permitirá que você o mate, sem se defender.
As palavras pareceram acalmar Ravensworth por um momento. Então toda sua fúria
se voltou para a esposa. Ele apertou-lhe os punhos e olhou-a sem a menor piedade.
– Vagabunda! – Ravensworth a balançou como se ela fosse uma boneca de pano.
– Não é o que você está pensando – defendeu-se Samantha. De repente, as
palavras penetraram em sua mente. – Como você ousa me acusar dessa maneira? Solte-
me, seu monstro! Como se atreve a proferir esse absurdo?
Ravensworth a chacoalhou outra vez, e Samantha não tentou escapar.
– John, saia daqui! Eu lhe imploro! Ele não vai me machucar, eu juro!
Caldwell, atrás do marquês, continuava ajoelhado no chão, massageando o pescoço
dolorido. Ele se levantou e colocou as mãos na cabeça.
– Não... Não...
Ravensworth se virou como se fosse golpeá-lo novamente, mas Samantha puxou-o
pela camisa.
– Hugh, escute-me! Ele é um quacre! Um quacre. Você não pode bater em um
homem que jamais se defenderá. Pelo amor de Deus, seja racional. Deixe-o ir embora.
O marquês se virou para o adversário.
– Você é o homem mais desprezível que já conheci em toda a vida. Covarde! Não
pense em se esconder atrás da minha esposa. Nada o salvará da minha fúria.
A esse discurso apaixonado, Caldwell respondeu com uma negativa, temendo ser
chicoteado mais uma vez.
– Você não tem orgulho? Por que não luta comigo como um homem?
– Os quacres são diferentes -– respondeu Samantha, tentando fazer com que seu
marido compreendesse. – Nós temos verdadeiro horror a qualquer tipo de violência. Deixe-o
ir, Hugh. Eu posso lhe explicar tudo.
O uso do pronome “nós” trouxe a ira de volta ao rosto do marquês.
– Um pacifista – disse ele com desdém. – Um pacifista. Quer dizer que eu não tenho
o direito de defender a minha honra, que eu não posso desafiá-lo para um duelo e acertar-
lhe um tiro?
– Não se você quiser ser considerado um verdadeiro homem honrado – respondeu
Samantha, enxergando a primeira pontada de esperança.
– Você é um homem de sorte. – Ravensworth riu com amargura. – Saiba que, se
tiver molestado minha esposa de qualquer maneira, eu não hesitarei em acabar com a sua
vida. Sendo você quacre ou não.
Caldwell tossiu para tentar recobrar o comando de sua voz.
– Faça o que bem entender comigo. Eu apenas lhe imploro para que não machuque
a sra. Samantha. Eu jamais ousaria encostar um só dedo nela. Milady é como uma irmã
para mim.
Eu errei ao permitir que ela me ajudasse, mas o senlior precisa acreditar que não
fizemos absolutamente nada de errado.
– Nada de errado? E o que eu devo imaginar ao encontrar minha esposa com um
homem em um chalé abandonado no meio da noite?
– Eu já disse que não aconteceu nada entre nós.
– John não tem culpa, Hugh. Foi tudo armação minha. Como você descobriu?
Ravensworth a olhou com extremo nervosismo, ignorando a pergunta.
– Eu deveria ter imaginado que os seus escrúpulos estavam por trás disso tudo.
Samantha, você nunca conseguirá controlar sua ânsia de fazer o bem sem pensar nas
conseqüências?
– Eu gostaria de esclarecer... – interferiu Caldwell.
– Mais tarde – disse Ravensworth. – Volte para casa. Mais tarde conversaremos.
Caldwell fez menção de dizer algo, porém Ravensworth não escutaria.
– Meu bom homem, eu não quero mais saber de você aqui. Teremos tempo
suficiente para acertar as nossas contas. Fui claro?
– O senhor não compreende...
– Saia daqui! – esbravejou o marquês. – Quero ficar sozinho com minha esposa.
Será que é tão difícil de entender?
Caldwell hesitou, mas ao ver o apelo nos olhos de Samantha, retirou-se do chalé.
Pouco depois, os dois ouviram o cavalo se afastando. Ravensworth se aproximou dela e
agarrou-a.
– Vadia! Bruxa!
– E mentira! E você sabe muito bem – gritou Samantha, revoltada. Não admitiria ser
tratada daquela maneira.
Ao olhar nos olhos de Ravensworth, ela enxergou algo que a aterrorizou.
– Ah, não, Hugh! Por favor... – pediu Samantha, balançando a cabeça para os lados.
– Eu não quero...
Ele não deu o menor indício de que ouvira o pedido e, como um homem agindo sob
uma estranha compulsão, Ravensworth começou a tirar os grampos do cabelo dela. Uma
onda de cachos dourados escorreu pelas costas de Samantha.
– Por favor, Hugh, eu quero ir para casa.
– Você está recusando o seu próprio marido, Samantha? Vai inventar mais uma
desculpa para evitar o inevitável?
– Eu não tenho medo de você, Hugh Montgomery – respondeu ela, olhando-o bem
dentro dos olhos. Havia um sorriso nos lábios do marquês. – Hugh, eu posso explicar tudo.
Você não vai gostar de saber a verdade, mas não é tão ruim quanto parece.
– Eu não duvido.
– Por favor, Hugh!
– Depois. Depois você me conta a sua versão dos fatos.
– Depois do quê? – perguntou ela, tentando se afastar. – Você acha que eu
permitirei...
Antes de terminar a frase, Samantha percebeu que cometera um grande erro. A fúria
surgiu nos olhos dele diante da rejeição. Ela aproveitou para sair correndo.
Ravensworth a alcançou em um piscar de olhos e tomou-a nos braços.
– Hugh, eu estou com medo – sussurrou Samantha, engolindo um soluço. O
marquês abriu os braços, e ela se entregou ao homem a quem amava.
– Calma, minha querida. Você sabe que eu jamais faria algo que pudesse machucá-
la.
Samantha chorou nos braços do marido. Por um momento, ela perdeu o controle e
se lembrou do dia da tempestade, quando Ravensworth a acolhera com tanto carinho.
Fechando os olhos, respirou fundo e se deixou envolver por aquele homem a quem
tanto amava. Ravensworth a possuiu com paixão incontida, recusando-se a soltá-la quando
Samantha mordeu seu ombro em sinal da dor. Mas a dor logo passou, cedendo espaço a
uma experiência inesquecível. Os dois permaneceram abraçados por um longo período,
deliciando-se com a novidade do amor.

Capítulo XXII

Quando recebeu a notícia de que o sr. Caldwell tinha conseguido escapar e que não
havia o menor sinal dele em Oakdale House, Samantha nem se atreveu a piscar.
Ravensworth surgiu depressa em seu quarto demonstrando certa irritação.
– O safado deve ter escapado no meio da noite. Ele nem chegou a dormir na cama.
Devo tê-lo amedrontado. Como ele pode ter achado que eu lhe faria algum mal?
– O que poderia ter dado essa idéia a Caldwell? – perguntou ela, tirando o lençol da
cama que dividira com o marido na noite anterior. Samantha se espreguiçou, sentindo uma
grande alegria.
– Você parece uma gata que acabou de se refestelar com uma tigela de creme–
brincou ele, acariciando-a com seu lindo sorriso. A visão da camisola em desalinho e de um
seio à mostra deram um outro rumo a seus pensamentos.
– Sou uma gata de sorte– respondeu Samantha, suspirando.
– Palavras ousadas para uma jovem pura que fugiu de mim como um coelho
assustado.
– Você não pode me culpar!
Ela se levantou depressa da cama e foi até o quarto de vestir.
– Eu achei que você fosse nos matar. E Caldwell também. Mas não perturbe a sua
mente com aquele jovem engenhoso. Se entendi direito o plano, eleja deve estar em alto-
mar, a salvo e a caminho da América.
Ela penteava o cabelo, sentada em frente à penteadeira, quando Ravensworth
apareceu.
– Em alto-mar? América? Do que está falando, Samantha? – Ele se mostrou
confuso.
Ela o olhou com inocência através do espelho enquanto prendia o cabelo com
grampos.
– Caldwell não podia ficar aqui sem a documentação, sendo que o chefe de polícia
estava atrás de um americano foragido. Não precisa se preocupar com ele. Eu lhe garanto
que Caldwell sabe o que está fazendo. A fuga foi planejada em todos os detalhes por seus
amigos quacres. – Samantha deixou um grampo cair e se abaixou para pegá-lo. Quando se
levantou, surpreendeu-se com o olhar perplexo de Ravensworth. – Achei que você
soubesse.
– Não. Como eu poderia saber? Eu sabia apenas o que você me contou. Imaginei
que pudesse estar me escondendo alguma coisa, mas deduzi que Caldwell e seu irmão
estavam tramando algo e vieram até Kent para fugir um pouco da agitação das festas. Estou
errado?
Samantha ficou calada.
– E então? – O marquês mostrou-se impaciente. – O que tem a me dizer?
Ela sentiu um nó no estômago. Seus olhos, que antes haviam revelado intimidade,
agora eram frios e distantes. O azul tinha se tomado quase transparente. Samantha
começou a explicar as circunstâncias da chegada de Vernon e Caldwell e de como ela se
oferecera para ajudá-lo sem envolver o marido.
– Eu não quis mentir, Hugh. Você precisa entender – terminou Samantha com uma
nota de desespero na voz. – Entretanto, naquele momento, sabendo qual era a sua posição
perante os americanos e a guerra, pareceu-me a única solução. Como poderia abandonar
Caldwell? Você mesmo me disse uma vez que o fim justifica os meios. Sob tais
circunstâncias, eu me vi na obrigação de deixar meus escrúpulos de lado. O olhar de
desprezo de Ravensworth a deixou muda.
– E a sua consciência, Samantha? – perguntou ele com deboche. – Você não teve o
menor pudor em contar uma série de mentiras para seu marido?
– Não, não é nada disso! – continuou ela, inundada pela culpa. – O que eu podia
fazer? Foi uma emergência.
– Você poderia ter me contado a verdade, para início de conversa. Será que não sou
digno da sua confiança? Eu confiei cegamente em você, e veja como fui recompensado! Eu
deveria ter imaginado que algo do gênero aconteceria. – O marquês cerrou o punho e
acertou um soco em sua outra mão. – Droga! Como fui tão tolo a ponto de acreditar em
todas as suas mentiras? Eu estava disposto a fazer vistas grossas para o seu
comportamento ousado. Esperava que, com o tempo, você se tornasse minha companheira,
que eu conseguiria acalmar seus ímpetos, que você um dia se tomaria minha duquesa. Ah,
como me enganei! Eu deveria ter me casado com uma mulher do meu nível, como sempre
pretendi, uma mulher refinada que sabe como se portar diante de quaisquer circunstâncias.
Mas, acima de tudo, uma mulher que fosse leal com o marido em primeiro lugar. Ah, como
fui ingênuo ao me casar por amor!
Ele se afastou, como se a visão de Samantha o enojasse. Ela permaneceu calada,
sentada, deixando que a veracidade daquelas palavras penetrasse em sua mente.
– O que posso dizer?– murmurou Samantha pouco depois. – Minha conduta foi
inaceitável, mas Hugh, você não pode encontrar uma maneira de me perdoar, de tentar
compreender
O dilema que enfrentei? Não pode pelo menos tentar me conceder uma trégua?
Ravensworth não a perdoaria. Ele havia colocado a esposa em um pedestal. E
Samantha descera dali sem sua ajuda, destruindo, assim, todas as suas ilusões.
– Conceder uma trégua? Quando você me concedeu uma trégua? – perguntou o
marquês, nervoso, rodeando-a. – Eu achei que estava quase conseguindo seu amor e
respeito. Você me fez sentir pior do que um verme. Fui um grande idiota bancando a parte
do sábio e beneficente dono da propriedade, pois acreditei que você era perfeita para mim.
É demais! – Ravensworth deu uma risada nervosa.
Samantha enfiou as unhas na palma da mão no intuito de controlar seu pânico.
Sabia que estava perdendo seu marido, e era o que merecia.
– Hugh, eu sinto muito – foi tudo o que ela conseguiu dizer.
– Achei que você fosse diferente das outras mulheres, que valia a pena conquistar
seu amor. E você me fez de idiota.
– Hugh – choramingou Samantha, sem saber o que mais dizer para que o marido a
perdoasse. – Não diga mais nada. Você está descontrolado. Quando sua raiva diminuir um
pouco, nós conversaremos mais sobre o assunto. Agora, seu orgulho está falando mais alto.
Sem dizer mais nada, Ravensworth se virou e caminhou até a porta.
Aquilo não estava acontecendo em sua vida, pensou ela, levantando-se na mesma
hora. Era um pesadelo do qual dentro em breve despertaria.
– Aonde você vai?
– Voltar para a minha vida antiga – respondeu o marquês. – Naquele meio, são
poucas as mulheres virtuosas, o que me alegra muito diante das atuais circunstâncias.
– Mas... E a noite passada?
– Não pense muito no assunto, minha querida. Uma andorinha só não faz verão. –
Ele abriu a porta.
– Qua-quando eu o verei de novo? – insistiu Samantha.
– “Nunca” seria cedo demais, meu amor?
A porta de fechou atrás de Ravensworth, e Samantha se encolheu como se tivesse
apanhado. Então sentou-se no banquinho da penteadeira, tentando controlar o
formigamento em seu corpo. Tinha perdido seu querido marido para sempre e não havia
nada a fazer. Como fora tola a arriscar seu único atrativo, a virtude. Jamais conseguiria
recuperá-la. Ao inferno com a virtude!, pensou ela. Por que ele não pode me amar pelo que
sou?
– Harriet? Ah, minha querida, é você mesma?
Harriet se espantou com o nervosismo na voz da prima. Segurou as saias de seu
vestido vermelho, preparando-se para descer da carruagem do visconde de Avery que
acabara de chegar à propriedade de Ravensworth. Ela piscou duas vezes ao deparar com a
imagem miserável de Samantha parada na escadaria de mármore da entrada principal de
Oakdale. Harriet apertou a mão de Avery.
– Meu Deus, Samantha! – ela exclamou, impressionada com o desleixo da prima. –
O que aconteceu com você?
Diante da nota de solicitude na voz de sua tão estimada amiga, Samantha desceu as
escadas correndo e se jogou nos braços de Harriet.
– Calma, calma, Harriet está aqui para ajudá-la. O que aquele bruto fez com você,
minha querida?
– Nada – choramingou Samantha. – Fui eu quem estragou a minha vida. Por favor,
não coloque a culpa em Ravensworth.
– Onde ele está?
– Faz quinze dias que partiu para Londres. Ele não quer me ver nunca mais.
Harriet ficou indignada.
– E não verá! Pedirei a Avery que vá até Londres lhe pedir satisfação.
O visconde ficou calado.
– Vamos entrar antes que fiquemos ensopados? – perguntou ele em tom casual,
algum tempo depois. – Por que você não leva Samantha para dentro enquanto eu entrego
os cavalos ao cocheiro? Quem sabe depois de uma boa conversa nós não consigamos
resolver o problema?
– Por favor, não fique brava com Ravensworth. Eu o enganei. Eu traí meu próprio
marido. Não sou mais a jovem inocente que fui um dia.
Um olhar de horror passou pelo rosto normalmente calmo do visconde.
– Samantha... essa é uma notícia chocante!
– Não exagere, Avery! – observou Harriet com um sorriso débil que afastava
qualquer tipo de rancor. – Vá cuidar dos seus afazeres e encontre-nos dentro de uma hora.–
Ela abraçou a prima e guiou-a escada acima para dentro da mansão de Ravensworth.
Depois de duas grandes taças do vinho Madeira reservado apenas para ocasiões
especiais, o ânimo de Samantha começou a melhorar. Nada parecia tão triste quando tinha
o conselho capaz da prima para guiá-la. A notícia do casamento de Harriet foi uma grande
alegria em meio a toda a tristeza que a envolvia desde a manhã em que Ravensworth
partira.
– Eu lhe desejo toda a felicidade do mundo.– Uma lágrima escorreu pelo rosto pálido
de Samantha.
– Conte-me o que aconteceu – pediu Harriet, preocupada com o choro compulsivo
da prima. Depois de algumas perguntas e em meio a soluços amargurados, Harriet ficou a
par de toda a história.
– Não vejo motivo para tanta preocupação – disse ela assim que Samantha terminou
de falar. – É apenas uma briga de amor.
Samantha ficou impressionada com a lógica da prima.
– Não é assim, não, Harriet. Eu arruinei tudo. Você não percebe? Ele se apaixonou
pela minha inocência, pela minha virtude, e eu destruí esse amor.
– Não seja exagerada! Se você fosse um pouco mais madura, não estaria passando
por esse apuro. – Ela colocou o copo em cima da mesa e então abriu a bolsa. Depois de um
instante, tirou uma pequena caixa de rapé com um diamante incrustado.
– Não podia ser mais perfeito – comentou Samantha com um traço de alegria.
– Foi o presente de casamento de Avery. Aceita um pouco? O prazer de Samantha
deu lugar á incredulidade.
– Quer dizer que Avery não se opõe a você cheirar rapé?
– Claro que não! Eu não me casei com um puritano. Ele é um homem de mente
aberta e gosta que a esposa se destaque em meio à sociedade. – O peito de Harriet se
inchou de orgulho. – Não me diga que você parou?
Samantha pegou um pouco do pó aromático e levou-o ao nariz.
– Não. Mas Ravensworth não permite que eu cheire rapé. Harriet a olhou com
espanto.
– Como não permite? Não acredito no que estou ouvindo! Samantha intimidada pelo
marido? Não, definitivamente não é possível.
– Eu não permito que ninguém me intimide, Harriet. – Samantha endireitou-se ao
notar a censura na voz da prima. –
E saiba que Ravensworth é um homem muito bom, melhor do que você pode
imaginar. Admito que o comportamento dele seja um pouco estourado, mas, dessa vez,
isente-o de qualquer injustiça. A culpa é toda minha.
Pensativa, Harriet olhou para a prima.
– Se você tivesse de fazer tudo de novo, revelaria a verdade sobre Caldwell e
permitiria que as autoridades o capturassem?
– Não! Claro que não! Harriet insistiu.
– Então onde você errou?
– Sinceramente? Não sei.
– Samantha, preste atenção. Você se meteu em uma série de encrencas, e só agora
permitiu que lorde Ravensworth ficasse com a última palavra. Certo ou errado, você sempre
tomou o partido dele. E Ravensworth a admirava por isso! Agora, olhe só para você! Parece
um cachorro abandonado com o rabo entre as pernas. Você não tem mais aquele brilho de
antes, não é mais aquela garota rebelde.
– Eu? Garota rebelde? – perguntou Samantha, rindo do apelido nada adequado para
uma jovem quacre tão recatada.
– Sim. E que mudou a aparência de uma hora para outra. Primeiro, a mulher
virtuosa; depois, a mulher fatal.
– Eu sei, mas foi por um bom motivo.
– Sua reputação foi colocada em jogo quando você entrou no camarote da cortesã
mais famosa de Londres – continuou Harriet.
– Não seja injusta! Eu estava apenas cumprindo o meu dever.
– Isso não é tudo.
– Não?
Harriet não se deixou desanimar pela falta de interesse da prima no assunto.
– Não, claro que não! Quem foi praticamente violentada por um lorde amoroso e
correu para se proteger nos braços de um cavalheiro nu?
– Ele não estava completamente nu – protestou Samantha.
– Ah, não? – perguntou Harriet, um tanto quanto desapontada. – Então não me
contaram direito a história. Agora, quem encantou o coração do herdeiro de um ducado que
poderia ter qualquer mulher que desejasse?
– Como você sabe disso?
– Avery, é claro– respondeu Harriet, sem o menor remorso de estar acabando com a
compostura frágil de Samantha. – Minha querida, esse tipo de deslizes não acontecem com
damas bem-nascidas e insípidas como água de rosa. Uma mulher dessas esconderia um
belo jovem na propriedade do marido e sairia no meio da noite para encontrá-lo? Responda!
Samantha baixou a cabeça, envergonhada.
– Encarando assim, vejo que o meu comportamento foi dos piores. Não me espanta
o desgosto de Ravensworth. Você tem razão, Harriet, eu sou uma garota rebelde e não sirvo
para meu marido.
– Ah, Samantha, você não entendeu nada do que eu disse? Não prestou atenção em
nada? Ravensworth não aceitaria uma esposa normal. Ele se cansaria na primeira semana
de casamento. Ao contrário do que o marquês possa ter lhe dito, ele admira a sua ousadia.
No fundo, no fundo, Ravensworth não quer culpá-la. Acredite em mim, Samantha, eu sei do
que estou falando.
Samantha abriu a boca para discordar da prima, mas, de repente, um clarão de
esclarecimento brilhou em sua mente.
– É verdade! É verdade!
– Claro que é verdade. Ou você acha que ele se apaixonou pelos seus princípios
quacres? Não, não pense que essa característica não fez parte da atração, mas você se
lembra do primeiro encontro, aquele dia da carruagem?
– Aquele não foi o nosso primeiro encontro. Da primeira vez que o vi, Ravensworth
me beijou.
Harriet arregalou os olhos, perplexa com a revelação ousada da prima.
– Samantha! E você deixou?
– Eu não pude impedi-lo! – admitiu ela, baixando os olhos.
– Bem, agora precisamos de um plano de ação – falou Harriet.
As duas passaram a discutir a complexidade do problema. Depois de um tempo,
Samantha quebrou o silêncio:
– Harriet, o que vou fazer? Não posso persegui-lo como uma esposa proscrita. A
cidade inteira ficaria sabendo da nossa briga.
A prima respirou fundo.
– Samantha, você está disposta a gastar um pouco para ter seu marido de volta?
– Eu tenho o dinheiro dos rendimentos. Pór quê?
– Encontrei a solução perfeita. Avery apareceu à porta.
– Posso entrar?
– Ah, querido. Você não imagina o que Samantha vai fazer por nós.
– Mal posso esperar para saber. Os olhos de Harriet brilharam.
– Samantha vai oferecer um baile em nossa homenagem. Não é um gesto muito
amável?
– Muito – respondeu ele, inclinando a cabeça na direção de Samantha. – E onde se
realizará o baile em questão?
– Aqui.

Capítulo XXIII

Quando Ravensworth ficava de mau humor, apenas um pensamento lhe ocupava a


mente: embarcar em uma noite de tanta devassidão que a imagem da mulher que capturara
seu coração não o atormentaria em nenhum instante sequer. Dez horas mais tarde, depois
de uma rápida viagem a Londres, ele estava instalado em seu quarto em Albany. E logo em
seguida saiu para a vida noturna da cidade.
Esse foi seu primeiro erro, pois depois de jogar e de beber, o marquês se viu
envolvido por um sentimentalismo piegas que lhe causou uma sensação de impotência.
Além disso, continuava a desejar a mulher que havia colocado os interesses de um estranho
acima dos do próprio marido. A traição ao país não o incomodava tanto assim, porém a
ofensa pessoal era algo quase impossível de suportar.
Embora estivesse em posição vantajosa, Ravensworth seguiu pela rua St. James,
passando pelo parque St. James, caminhando até chegar ao bairro de Abbey. Ele parou
diante de uma modesta casa e bateu na porta com sua bengala de marfim. A porta se abriu
quase no mesmo instante, e Ravensworth entrou. Esse foi seu segundo erro da noite.
O marquês de Ravensworth não era estranho no estabelecimento da madame
Rainier e de suas garotas. Em seus dias de solteiro, ele era um cliente assíduo e respeitado
que gostava de passar algumas horas se divertindo na companhia das belas jovens. O
marquês acenou para um conhecido e tentou afastar o sentimento de culpa que ameaçou
oprimi-lo. Acomodou-se na grande poltrona de veludo, cruzou as pernas e serviu-se de uma
dose de vinho, enquanto madame Rainier foi buscar a jovem que o entreteria naquela noite.
O lugar estava tão cheio como de costume, com homens entrando e saindo, subindo
e descendo as escadas. De certa forma, ele achou a alegria do ambiente deprimente,
embora os sorrisos das jovens quase nuas fossem constantes. Ravensworth não se
importava com aqueles sorrisos vazios nem com o aroma do perfume francês que pairava
no ar. A fragrância de ervas de Samantha que inundava sua casa em Kent era bem mais
sedutor, admitiu ele, embora relutante. Diante da lembrança da esposa, o marquês tomou
um longo gole de vinho.
Uma sombra escureceu-lhe o rosto, e ele ergueu os olhos para ver a forma feminina
que caminhava em sua direção. Atrás da mulher que sorria, o’marquês avistou uma jovem
loira com o cabelo preso em um coque na nuca.
– Esta é Angèle, sua diversão para a noite – declarou madame Rainier em um tom
confidencial, empurrando a jovem para os braços de Ravensworth.
O marquês engasgou com o vinho. Ela era a imagem de Samantha! O marquês deu
um grito furioso e jogou na grade da lareira a garrafa vazia, que se estilhaçou. Houve um
silêncio no salão e depois tudo se transformou em um verdadeiro inferno. Ravensworth
acusou madame Rainier de incitar garotas inocentes a entregai*em seus corpos aos
homens, esquecendo-se de que um dia tinha sido freqüentador assíduo do lugar. A jovem
parecida com Samantha, uma das prediletas dos clientes, ficou parada, perplexa, escutando
a reprimenda do marquês.
A princípio, Ravensworth foi confundido com um pastor metodista cujo principal
intuito era reformar um mundo que não tinha a menor intenção de ser reformado. O acesso
de Ravensworth foi tão chocante que madame Rainier não hesitou em chamar seus lacaios
para ajudá-la a se livrar daquele sujeito tão inoportuno.
Ravensworth foi expulso do estabelecimento e tentou caminhar até sua casa. Em
seu estupor de embriaguez, ele não se lembrou de muita coisa. Denby o ajudou a se deitar
na cama sem fazer um único comentário a respeito das marcas que desfiguravam o belo
rosto de seu patrão. Esse era o comportamento de um criado que o seguia havia mais de
dez anos.
Quase quinze dias se passaram até o marquês se recuperar da surra que havia
levado depois de sair da casa de madame Rainier. Durante esse período, ele não saiu de
casa e também não recebeu nenhum visitante. Por algum motivo inexplicável, não queria
que nenhum comentário sobre o terrível incidente chegasse ao conhecimento de sua
virtuosa esposa. Quando, por esse motivo, Denby recomendou-lhe passar alguns dias no
campo, Ravensworth se recusou terminantemente, pois não tinha a menor intenção de
voltar para casa como um cachorro abandonado.
O período de inatividade forçada lhe proporcionou tempo para refletir e analisar sua
situação. Não sabia ao certo como agir. Ele teve de admitir que sua vida sem Samantha não
tinha graça, que não queria voltar à sua antiga existência. Na realidade, Ravensworth não
estava conseguindo viver sem sua amada esposa. Mas por nada no mundo ele daria o
braço a torcer. Samantha Langland precisava pagar por sua traição. Ele a deixaria sofrendo
durante um período, então voltaria quando ela estivesse disposta e pronta para aceitar suas
condições.
A agradável perspectiva do retomo a Kent melhorou bastante o humor do marquês, e
ele até enviou um bilhete para Samantha, informando-a de que chegaria no final da semana
para resolver alguns assuntos relacionados à propriedade. O bilhete foi levado por seu
mensageiro particular. Quando este voltou no dia seguinte, Ravensworth ficou desapontado
por ela não ter lhe enviado um simples cumprimento. Todavia, ao envolver o garoto em uma
conversa casual, Ravensworth descobriu que a dama estava muito ocupada preparando
uma grande festa. O marquês ficou pasmo, mas teve a presença de espírito de esconder do
criado o fato de não saber nada a respeito da celebração.
Naquela mesma noite, enquanto cavalgava pensando na notícia que o criado lhe
trouxera, Ravensworth foi surpreendido por um velho colega de escola, que lhe agradeceu
imensamente pelo convite para o baile em Oakdale House e informando-o de que chegaria
na quinta-feira. Ravensworth respondeu com compostura, mas assim que ficou sozinho
outra vez, voltou para Albany House e convocou Denby.
Denby soubera por intermédio do criado do lorde Grafton que eles partiriam ao
amanhecer para Oakdale House, para o baile de comemoração do casamento do visconde
e da viscondessa de Avery. Ele tomara a liberdade de fazer a mala do patrão, esperando
apenas a permissão para partirem. Ravensworth deu sua palavra.
Quando a carruagem de Ravensworth chegou a Oakdale House, ele encontrou a rua
principal e o estábulo cheios de carruagens e animais, como se fosse uma estalagem
pública. Cocheiros e criados iam e vinham carregando malas. Ravensworth nunca vira nada
parecido, pelo menos não em Oakdale Court. Será que Samantha sabia quanto custaria
toda aquela brincadeira?
Pouco depois, Ravensworth entrou no salão principal de sua casa onde longas
mesas de bufê haviam sido instaladas, repletas de todo o tipo de guloseimas capazes de
tentar o apetite de qualquer um. Ele estudou os rostos na galeria no andar de cima e viu
Harriet e Avery, que apenas acenaram, não dando nenhum indício de que se afastariam do
grupo para cumprimentá-lo. Da anfitriã, nenhum sinal.
Ao perguntar para o maitre pela dona da casa, Ravensworth foi informado que ela
havia saído para mostrar o jardim a um grupo de convidados. O marquês não perdeu tempo
em ir até lá. Pensando na imagem da esposa, ele abriu um belo sorriso. Ah, como sentira
saudade...
– De qual parte das colônias você vem, meu bom homem? – perguntou ele antes de
se retirar.
O maitre o analisou da cabeça aos pés.
– Do Canadá, senhor – respondeu ele antes de se virar para atender ao pedido de
um convidado.
Não, ela não podia estar fazendo isso outra,vez! Ravensworth chegou ao santuário
de Samantha poucos instantes depois.
Ela caminhava pelas fileiras de ervas explicando o significado medicinal, culinário e
cosmético de todas. Fascinado, Ravensworth observou as damas da alta sociedade
impressionadas com o discurso apaixonado de Samantha.
– Meu Deus, ela é igualzinha a meu pai – murmurou ele.
– Que tipo de herança será passada para os meus herdeiros?
– A memória do pai acalmou seu temperamento, mas logo a lembrança do maitre o
trouxe de volta à realidade.
Os olhos de ambos se encontraram e Samantha demorou apenas alguns instantes
para se aproximar do marido.
– Ravensworth, você veio? – perguntou ela, oferecendo-lhe o braço. – Se vai
reclamar por causa do seu quarto, sinto muito, mas saiba que não pude fazer nada.
– O que aconteceu no meu quarto? – perguntou o marquês, cada vez mais
desconfiado.
– Ah, você ainda não subiu? Espero que não se incomode, mas eu acomodei
Freddie Fielding e um amigo no seu quarto. Achei que não viesse, pois soube que estava
bastante ocupado na cidade.
– Não tem problema – disse ele. – Eu durmo com você.
– Infelizmente, não será possível, meu caro. Achando que havia me tomado viúva,
eu acomodei algumas das damas solteiras no meu quarto. Convidei cerca de cera pessoas
para o baile de Harriet e Avery, e a casa ficou lotada. E, pelo visto, ninguém está se
importando muito com a falta de espaço. Alguns pretendem até ficar mais alguns dias
conosco.
Diante da menção do baile, Ravensworth lembrou-se de suas sérias injúrias.
– Minha cara esposa, você não acha que teria sido adequado me consultar sobre
essa festa antes de começar a gastar? Eu poderia preferir gastar esse dinheiro jogando no
período em que fiquei em Londres.
– Ah, você também jogou?
A brincadeira inesperada trouxe certa culpa a Ravensworth.
– Samantha!
– Pelo visto, milorde, você foi de um antro para outro – continuou ela. – Em relação
às despesas do baile que estou oferecendo em homenagem ao casamento de Harriet e
Avery, não se preocupe. Nunca foi minha intenção gastar o seu dinheiro. Como você mesmo
sabe, eu sou uma mulher independente nesse sentido.
O marquês gostaria de ter respondido àqueles comentários à altura, mas como não
sabia qual sua posição atual com a esposa e quanto ela sabia sobre o ocorrido na cidade,
achou de bom-tom ignorar o assunto. Por ora. Além disso, estavam perto da entrada
principal da casa, diante dos olhos de inúmeros convidados. Ravensworth puxou-a de lado,
afastando-a dos olhares curiosos.
– Tenho um assunto muito importante para discutir com você. Conte-me sobre
aquele gigante que está fazendo as vezes de maitre.
– Ah, você já o conheceu? – perguntou Samantha com a expressão recatada. Então
se abaixou para pegar uma violeta. – Olhe só que cor mais linda!
Aquilo foi demais para Ravensworth. Ele a pegou pelos ombros e obrigou-a a olhar
dentro de seus olhos.
– Pare de brincadeiras! Quero saber a verdade. Onde você encontrou aquele
homem?
– A história é que ele é sobrinho da sra. Rowtree, a nossa cozinheira.
– A história é... A história é... – o marquês a imitou em tom ameaçador. – Eu sou seu
marido, Samantha! Quero a verdade, e não uma mentira criada para enganar o chefe de
polícia. Ele é ou não é o americano que escapou da cadeia algumas semanas atrás?
Ela permaneceu em silêncio.
– Fale, Samantha!
– Não, não! – respondeu ela, olhando-o com certo pesar. – Não tenho o direito de lhe
dizer nada mais, e não vou dizer. Confie em mim pelo menos uma vez. Sinto muito pela
desobediência, mas a história me foi contada em segredo.
Ele apertou-lhe os ombros com mais força.
– Ravensworth, você está me machucando! Imediatamente, o marquês a soltou e
deu um passo para trás.
Samantha suspirou ao notar a expressão de mágoa no rosto do marido.
– Ravensworth, confie em mim nesse assunto. Eu prometo que nunca mais tomarei
nenhuma atitude sem antes consultá-lo a respeito das minhas intenções. Você deve saber
que o meu maior desejo é protegê-lo de situações desagradáveis.
O tom constrito de Samantha suavizou as linhas ao redor da boca do marquês.
– Samantha, por favor! Quem precisa de proteção é você. Acha que não tenho
nenhum escrúpulo, que eu trairia a sua confiança em qualquer circunstância? Que tipo de
homem você acha que sou? Saiba que eu jamais tolerarei segredos entre nós.
– Jamais? Está bem, meu marido – disse ela, contente com a lealdade das palavras
de Ravensworth. – Por enquanto uma trégua é suficiente? Mais tarde conversaremos a
respeito, pois não quero deixar nossos convidados sem atenção. Temos a obrigação de
recebê-los muito bem. Preciso voltar para casa, se me der licença.
Ele fez menção de dizer algo, mas pensou melhor e ficou quieto.
– Samantha! Você continua a mesma incorrigível! O que vou fazer com você? Não
pense que escapará da autoridade de seu marido! Vou querer um relatório completo mais
tarde, pode apostar. Você tem razão. Não é o lugar nem o momento para discutirmos esse
assunto. Dê-me seu braço e permita-me acompanhá-la até a nossa casa.
– Com prazer – respondeu ela, controlando a risada. – Mas você se importa em
entrar pela cozinha?
Ravensworth franziu as sobrancelhas, curioso.
– Um modelo e um espantalho – brincou ela. – O sublime e o ridículo.
– Você vai se dar muito bem com meu pai – comentou o marquês.
– É mesmo? Posso lhe fazer uma pergunta?
– Claro.
– O lenço no seu pescoço. Eu não reconheço esse nó. Parece novo e bastante
complicado. Você deve ter demorado muito para consegui-lo.
Ravensworth riu.
– É verdade. É um nó à Ia Samantha.
Houve um momento de silêncio até que ela assimilasse as palavras.
– Sabe, Ravensworth, quando você é bom, é realmente bom, mas quando quer ser
ruim, você é terrível!

Capítulo XXIV

Mais tarde aquele dia, quando Samantha saiu do quarto que dividia com duas jovens
solteiras, tinha plena consciência da elegância de seu novo vestido francês. E sabia que seu
marido ficaria encantado. Um simples olhar na direção de Ravensworth confirmou suas
suspeitas. Ele parecia abobado.
Ela se movimentou com graça em direção à escada principal da casa, onde o
marquês conversava com seus convidados de honra. Harriet observou o sorriso congelado
de Ravensworth e se virou para ver o que lhe chamara a atenção. Quando viu a prima, ela
abriu um belo sorriso, em sinal de aprovação. Avery olhou para o amigo, que não tinha olhos
para mais ninguém a não ser por sua linda esposa.
Samantha, resplandecente em um vestido prateado que nenhuma dama quacre
jamais usaria, notou os três olhando em sua direção e baixou os olhos. Ao deparar com seu
decote, entretanto, ela desviou o olhar. Talvez tivesse ido longe demais, pensou, notando a
expressão do marido.
Samantha deixara a escolha do modelo para usar no baile nas mãos de Fifi, sua
nova criada pessoal. Fifi era como Denby. As instruções de Samantha tinham sido precisas.
“Vista-me como deve se vestir a consorte do marquês de Ravensworth, mas tenha em
mente que eu sou uma mulher virtuosa que preza a simplicidade acima de qualquer coisa”.
Os resultados tinham sido bastante gratificantes. Fifi sugerira apenas um par de pérolas e
dois pentes combinando para prender o cabelo. Samantha insistira em usar o coque, pois
era a vontade de seu marido. Para completar, um par de luvas.
Samantha olhou para os seus convidados no salão e se alegrou com o caleidoscópio
de cores. Em comparação às outras damas, ela era a mais recatada.
– Onde está o resto do seu vestido? – perguntou Ravensworth, aproximando-se da
esposa e olhando para o decote um tanto quanto exagerado.
– Será que algum dia ouvirei um elogio seu? Quando esse dia chegar, saberei que
estou parecendo uma freira! Gostou do meu cabelo?
– Está diferente. Onde estão os grampos?
– Pare com isso, Ravensworth – interferiu Harriet, juntando-se a eles com o marido.
– Você está deslumbrante, prima! Adorei!
Os quatro desceram os degraus diante dos olhares curiosos dos convidados.
– É a última vez que você se veste assim – informou o marquês. – Não quero que
todos os homens fiquem com os olhos vidrados em você. Olhe só para Grafton. Parece um
bobo. Mas não posso culpá-lo. No lugar dele, eu faria o mesmo.
– Não exagere. Eu sou a mais discreta desse grupo.
– Não brinque comigo, Samantha. Como se não soubesse! Você se parece com
uma... – Ravensworth fez uma pausa para encontrar as palavras certas.
– Com uma mulher da vida mostrando seus dotes em uma casa de devassidão? –
finalizou ela com um brilho polêmico nos olhos.
– Samantha, onde você escutou essas palavras? – perguntou ele, pálido. – Foi
Grafton?
– Eu tenho as minhas fontes – respondeu ela, evasiva.
– Eu posso explicar tudo. Não é o que parece.
– Não se preocupe, meu querido – disse Samantha, controlando a vontade de rir. –
Você me advertiu sobre o que aconteceria se você fosse para a cidade.
– Mas eu não fiz nada, Samantha! Eu sou inocente! A marquesa deu de ombros.
– É o que você diz.
Ravensworth teria continuado, porém a orquestra tocou as primeiras notas e ele foi
obrigado a trocar de parceira com Avery. Enquanto dançava com Harriet como convidada de
honra, o marquês não tirou os olhos da esposa, que se movia sem o menor sinal de
preocupação.
Foi um grande baile, o maior evento de gala da região. Toda a vizinhança havia sido
convidada, aproximando o número de convidados de duzentos. O jantar seria preparado por
um chef que Samantha importara da França especialmente para a ocasião. Ela organizou
uma bela festa para a prima, admitiu Ravensworth
Mais tarde, exausta de tanto dançar, Samantha pegou uma taça de champanhe e
seguiu até a biblioteca, não sem antes olhar para o marido, que tentava escapar das
atenções de Adèle.
Ela sentou-se na poltrona e tirou os sapatos. Descansaria em paz por alguns
instantes antes de retomar ao salão.
Samantha fechou os olhos e se lembrou do baile em Broomhill House, tanto tempo
antes, quando tinha visto pela primeira vez o belo marquês de Ravensworth. Bem, pelo
menos aprendera a manipular o marido.
Ela colocou a taça de lado e abriu a pequena bolsa, de onde tirou uma caixa de rapé.
Presente de Harriet. Quando foi abri-la.
Samantha fez algum movimento errado e deixou a caixa cair. O objeto rolou pelo
tapete e foi parar debaixo da mesa, sob a janela.
Assim que conseguiu recuperá-la, ela sentou-se outra vez na poltrona e preparou-se
para o ritual que tanto lhe agradava.
Naquele instante, lorde Grafton entrou sem ser convidado.
– Ah, não! – murmurou Samantha.
– Ah, sim! – respondeu lorde Grafton, aproximando-se dela para abraçá-la.
– O que está acontecendo aqui?– perguntou Ravensworth, apoiado no batente da
porta, de braços cruzados, observando a cena. – Sabe, minha querida, tenho a estranha
sensação de dejà vu.
– Broomhill House – disse ela, soltando-se do abraço ardente de Grafton. Sem o
menor pudor, Samantha abriu a caixa de rapé e pegou um pouco do pó entre os dedos.
Então cheirou.
– Delicioso!
– Eu estava pensando no nosso chalé de lua-de-mel – comentou o marquês em bom
tom, frustrando a tentativa de Samantha de deixá-lo de lado naquela noite.
– Eu gostaria de falar sobre esse assunto com você – disse ela, levantando-se e
passando por Grafton, que estava imóvel como uma estátua de mármore. – Eu arrumei o
chalé. Fiz uma pequena reforma, coloquei alguns móveis, uma cama.
– Minha querida, espere um instante. – Ele se virou para Grafton. – O nosso caro
conde não precisa saber dos nossos assuntos domésticos, não é?
Grafton, sem graça, começou a se desculpar.
– Não precisa se desculpar, meu caro. Isso sempre acontece, sabe? Desculpe a
pergunta, mas você é quacre? Não, não creio. Não que isso signifique alguma coisa.
Gostaria de lhe informar que não gostaria que uma cena como essa se repetisse. Fui claro o
bastante?
– Si-sim – gaguejou Grafton.
Ravensworth abriu a porta da biblioteca e esperou que o conde se retirasse.
– Ah, faça-me um grande favor. Lady Adèle está me esperando no salão amarelo,
perto da sala de estar. Você poderia ir até lá e lhe pedir desculpas? Diga-lhe que tive um
imprevisto. Vou ficar aqui com minha esposa, pois temos alguns assuntos pendentes.
Ele foi tão gentil que Grafton achou não estar entendendo direito. Seria o efeito da
bebida? O conde saiu pela porta e fez uma mesura.
Ravensworth bateu a porta assim que o conde saiu correndo pelo corredor.
– E o nosso chalé de lua-de-mel? – repetiu o marquês, voltando a atenção para a
esposa. – A quem pretende hospedar lá?
– Quem você acha? – perguntou Samantha com um olhar malicioso.
– Você é uma mulher incrível, Samantha Langland. Quem diria que faria tal
previsão? Você tinha muita certeza do que estava fazendo, não é, minha querida?
– Sim.
– Sabia que eu voltaria?
– Claro.
– E mandou preparar o chalé para ficarmos juntos?
– Exato.
– Mas não era necessário.
Ravensworth se aproximou da esposa, que conseguiu se esquivar e proteger-se
atrás do sofá.
– Lembre-se de que ainda não colocamos cortinas aqui.
– Como se eu me importasse. – Ravensworth estava ao lado dela um instante
depois. Então a abraçou e puxou-a para perto de seu corpo.
Quando ele se inclinou para beijá-la, Samantha virou a cabeça.
– Antes de retomarmos nosso relacionamento, meu caro marido, precisamos discutir
alguns detalhes.
– Concordo. Rendição total de ambas as partes.
– Parece-me razoável – disse ela, deixando-se jogar no sofá. – Eu achei que você
fosse se explicar sobre aquele deslize de iniqüidade.
Ravensworth ergueu a cabeça.
– O que diria, meu amor, se eu me esquecesse de todas as explicações que você
tem a me dar, se você se esquecer de todas as explicações que eu tenho a lhe dar?
– Parece-me razoável – repetiu ela.
Os dois se beijaram com paixão, deixando para trás todas as desavenças. Seria o
recomeço de uma grande paixão.

Fim
Elizabeth Thornton é especialista em escrever romances históricos. Ela adora
pesquisar. Procura criar tramas em lugares do passado cuja descrição seja o mais
verdadeira possível. Depois de três anos sem lançar nenhum livro, Elizabeth retorna às
prateleiras com o mesmo sucesso e ainda elogiada e prestigiada!