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Promoção Cinematográfica e Industrias Culturais

31, Outubro de 2010

Júlio Pereira

A DIMENSÃO ECONÓMICA DA CULTURA

A Europa é um projecto politico e não apenas um mercado económico.


A cultura tem uma dimensão adicional à da criação riqueza, ela também contribui para a inclusão
social, uma melhor educação, autoconfiança e o orgulho de pertencer a uma comunidade histórica.
Para além disso a cultura é também uma poderosa ferramenta para comunicar valores e promover
objectivos de interesse publico que são mais amplos do que a criação de riqueza.
A cultura num mundo globalizado e multi-cultural, através das suas múltiplas funções, sociais e
politicas tem tido uma importância cada vez maior nas politicas culturais de cada nação.
Como veiculo de transmissão de valores como a democracia, a tolerância a diversidade e o
pluralismo, a cultura na Europa, através de alguns do seus mais notáveis artistas, de diversas áreas,
marcaram gerações inteiras com poderosas mensagem sociais e politicas, proporcionando um
espaço de livre expressão e da criatividade europeia, estabelecendo o principio da diversidade
cultural como um dos princípios do direito internacional e no estabelecimento de um tratamento
especifico aos produtos culturais.

Uma série de questões se colocam a uma Europa que tem sido historicamente construída com base
em politicas centradas em factores económicos e de mercado, e que continuam a prevalecer na
avaliação das várias actividades. Como avaliar o valor da cultura e as industrias criativas no seio da
economia europeia. Será a diversidade cultural uma vantagem competitiva para a Europa? Estarão
as industrias criativas e os criadores bem posicionados para uma concorrência global? Quais são os
pontos fortes e fracos do sector cultural europeu? Como é que se pode compara este sector com os
outros sectores industriais? Será o sector da cultura um sector gerador de emprego? A cultura será
capaz de criar riqueza ou será um problema para as despesas publicas com retornos limitados sobre
o investimento? Será que o sector merece o seu lugar como um sector prioritário na estratégia de
Lisboa?
A avaliação da economia da cultura a nível europeu nunca foi feita e revela-se uma tarefa muito
complicada.
Como não existe harmonização de dados neste domínio, os dados da única fonte pan-europeia,
Eurostat, baseiam-se nos fornecidos por cada estado membro, que utilizam diferentes sistemas
estatísticos. Além disso os dados nacionais não estão adaptados para o sector cultural, mas
espalhados por diferentes categorias que são demasiado grandes para permitir uma avaliação da
dimensão cultural. Como consequência disto a Europa sabe o valor do investimento mas é incapaz
de descobrir o valor económico da arte e da criatividade.
Por outro lado as organizações culturais afirmam que a arte não tem preço e que os investimentos
em arte devem ser separados da realidade dos mercados económicos. O acto de criar deve ser
independente de qualquer pensamento lucrativo. Uma atitude diferente pode levar a que algumas
actividades artísticas com o fundamento de não serem rentáveis possam inclusive desaparecer.
Da mesma forma algumas actividades profissionais distanciam-se do sector cultural preferindo uma
designação industrial com medo de serem prejudicados na atribuição apoios.

A situação no entanto está a mudar. O claro contributo da cultura para a economia começa a ser
reconhecida através do desenvolvimento das industrias culturais. O fornecimento de produtos
culturais corporizados em livros, filmes, gravações de musica, etc, são exemplo disso.
Por outro lado mudanças estruturais e comportamentais da nossa sociedade, vem contribuindo para
uma procura cada vez maior “bens” culturais e actividades ligadas à cultura.
Há também um reconhecimento cada vez maior dos benefícios que a cultura traz à economia
europeia, não só através do consumo mas também do ponto de vista da inovação. A criatividade é
um processo de inovação que mistura várias dimensões como a tecnologia, a ciência, a gestão e a
cultura. A cultura participa neste processo com um património de processos, referencias, e
habilidades que interagem com outras habilidades e recursos que fomentam a inovação.
A criatividade tem a capacidade de beneficiar quase todos os sectores económicos.
Neste contexto a cultura tem que ser analisada no âmbito de um processo de produção e não como
produto de consumo final.
Um dos exemplos utilizados são a utilização do património cultural como fonte de fornecimento de
elementos de criatividade para outros sectores renovando-se continuamente. É o caso da utilização
de partes de objectos culturais como musicas, imagens antigas , personagens retiradas da literatura
mundial, etc, para a criação de novas obras de arte, ou objectos de entretenimento audiovisual ou
multimédia. A cultura pode fornecer competências específicas , métodos de trabalho e habilidades
que serão transferidas para outros sectores da economia que combinados com outras competências
contribuem fortemente para a inovação, “a imaginação, a criatividade, e a capacidade de adaptação
das competências que são desenvolvidas através da educação artística são tão importantes como as
competências tecnológicas e cientificas” (In Relatório Lupwishi Mbuyamba, Conferencia Mundial
sobre Educação Artística: Desenvolver as capacidades criativas para o século XXI, Lisboa 2006, p.
211) .
O design é o exemplo perfeito para uma actividade que envolve o uso de referencias culturais e de
educação para a produção de bens e serviços não culturais. O design agrega valor estético e valor
ergonómico para por exemplo produtos funcionais como automóveis, garrafas de água, etc.

A criatividade no entanto assumiu hoje em dia uma dimensão que concorre em pé de igualdade com
o preço e a tecnologia. Hoje os consumidores estão inundados por produtos com semelhante
desempenho técnico e preços similares. Um produto pode facilmente ser copiado por um custo
menor. Uma das respostas à pressão dos custos é a deslocação de parte significativa da actividade
da produção para o exterior onde o trabalho intensivo permite uma produção a custos mais baixos.
Em alternativa, a competitividade pode ser resolvida dentro da Europa através da utilização da
criatividade. A concorrência pode ser ultrapassada com a utilização de factores técnico económicos
apostando na diferenciação pela qualidade e criatividade ganhando outras vantagens competitivas.
A questão que se coloca e que constitui um parâmetro distintivo da concorrência é a valorização da
dimensão imaterial gerada pelos criativos, pelas pessoas que geram ideias e processos, dizendo de
outra forma a criatividade.
O sector da cultura e as pessoas ligadas e ele são pois as principais fontes dessa criatividade
merecendo portanto uma atenção mais cuidada.

Paradoxalmente, constituindo a criatividade uma resposta a alguns desafios da globalização, requer


no entanto uma organização e iniciativa a nível local. Em outros termos a criatividade é
simultaneamente global e local - “Glocality” (Dimensão territorial da cultura a da criatividade)
Esta preocupação de organização local funciona como dinamizador de competitividade criando
focos de criatividade retendo talentos e consequentemente criando empregos localmente. Os
talentos são atraídos por ambientes criativos.
Segundo Richard Florida, a dimensão espacial e as interacções geradas num território limitado são
importantíssimas para o surgimento da criatividade e contribuir efectivamente para a economia. Um
ciclo vicioso pode ser criado, alimentado por pessoas criativas que concentradas num pequeno
território criarão sinergias e colaborações que promovam o crescimento da própria criatividade.
Pekka Himanen Desenvolveu a ideia que se a criatividade tem que ser desenvolvida, diferentes
elementos precisam ser combinados dentro de um território limitado. E esses elementos são: a
criatividade cultural, a educação de nível superior, as empresas de capital de risco (agências, start-
ups), assim como actividades empresariais.
No cinema o exemplo máximo disto é Hollywood em Los Angeles, cujo a comunidade empresarial
produz cerca de 80% dos filmes mundiais.

Na Europa a importância cultural do cinema não levanta qualquer duvida. Para além de ser
considerada o berço do cinema, a longa tradição em alguns países e o reconhecimento mundial de
muitos realizadores europeus ao longo da história do cinema, atribui-lhe um reconhecimento e um
elevado grau de consideração por parte dos decisores políticos e do público em geral.
No entanto do ponto de vista económico o cinema representa um sector menor na Europa.
Só cerca de um quarto de todo o dinheiro gasto nas bilheteiras dos cinemas europeus foi para
produções europeias, a maior fatia vai para produções dos EUA que continuam a dominar o
mercado mundial. O desequilibro da balança comercial com os EUA cresceu de uma forma
exponencial ao longo dos anos.
A industria cinematográfica europeia sofre de sérias deficiências estruturais. A pequena dimensão
das empresas do sector, com dificuldade em aceder a fontes de financiamento, enfrentam graves
dificuldades na comercialização , promoção e distribuição internacional das suas produções. Para
um espectador médio europeu é mais fácil ver filmes provenientes dos EUA do que assistir a
cinema produzido nos países vizinhos.
Ainda assim o cinema representa um valor cultural importante em todos os estados europeus e
apesar de todas as dificuldades, um apoio importante com dinheiros públicos vai suportando a
industria cinematográfica europeia em nome da diversidade cultural.
O maior desafio que o cinema europeu enfrenta hoje, é, o aproveitamento das oportunidades que as
novas plataformas de distribuição digital lhe proporcionam permitindo um maior crescimento.

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