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Cálculo em uma

variável complexa
Soares, Marcio G.
Cálculo em uma variável complexa / Marcio Gomes
Soares. 1.ed. Rio de Janeiro : IMPA, 2014.

196 p. : il. ; 23 cm. (Coleção matemática universitária)

Inclui bibliografia.
e-ISBN 978-85-244-0384-2

1. Variável Complexa. I. Título. II. Série.

CDD-512
COLEÇÃO MATEMÁTICA UNIVERSITÁRIA

Cálculo em uma
variável complexa

Marcio G. Soares

INSTITUTO NACIONAL DE MATEMÁTICA PURA E APLICADA


Copyright  2014 by Marcio G. Soares

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Capa: Rodolfo Capeto, Noni Geiger e Sérgio R. Vaz

Coleção Matemática Universitária


Comissão Editorial:
Elon Lages Lima
S. Collier Coutinho
Paulo Sad

Títulos Publicados:
• Análise Real, vol. 1: Funções de uma Variável – Elon Lages Lima
• EDP. Um Curso de Graduação – Valéria Iório
• Curso de Álgebra, Volume 1 – Abramo Hefez
• Álgebra Linear – Elon Lages Lima
• Introdução às Curvas Algébricas Planas – Israel Vainsencher
• Equações Diferenciais Aplicadas – Djairo G. de Figueiredo e Aloisio Freiria Neves
• Geometria Diferencial – Paulo Ventura Araújo
• Introdução à Teoria dos Números – José Plínio de Oliveira Santos
• Cálculo em uma Variável Complexa – Marcio G. Soares
• Geometria Analítica e Álgebra Linear – Elon Lages Lima
• Números Primos: Mistérios e Recordes – Paulo Ribenboim
• Análise no Espaço Rn – Elon Lages Lima
• Análise Real, vol. 2: Funções de n Variáveis – Elon Lages Lima
• Álgebra Exterior – Elon Lages Lima
• Equações Diferenciais Ordinárias – Claus Ivo Doering e Artur Oscar Lopes
• Análise Real, vol. 3: Análise Vetorial – Elon Lages Lima
• Álgebra Linear. Exercícios e Soluções – Ralph Costa Teixeira
• Números Primos. Velhos Mistérios e Novos Recordes – Paulo Ribenboim

Distribuição:
IMPA
Estrada Dona Castorina, 110
22460-320 Rio de Janeiro, RJ
e-mail: ddic@impa.br
http://www.impa.br
Para Cristina
Prefácio

Esse pequeno texto é orientado para um curso de graduação ou de nive-


lamento, introduzindo o básico e o minimamente essencial da teoria de
funções de uma variável complexa. Nosso ponto de vista ao escrevê-lo
teve por foco discorrer sobre tópicos da Teoria de Cauchy da maneira
mais elementar possı́vel, sem prejuizo do mı́nimo de rigor necessário
ao entendimento correto de alguns resultados sobre funções holomor-
fas. Os pré-requisitos exigidos são um curso usual de Cálculo Real (uma
e duas variáveis), um curso, também usual, de Geometria Analı́tica e
Álgebra Linear e um pouco de treino na leitura de argumentos de cu-
nho matemático. Com o objetivo de torná-lo um texto o mais indepen-
dente possı́vel, alguns conceitos relativos ao Cálculo Real são revistos no
Capı́tulo 2, onde também é revisto o Teorema de Green. É inevitável,
levando em conta a nossa proposta para essas notas, que uns poucos
resultados sejam admitidos sem demonstração. Quanto a esses, nossa
escolha recaiu sobre o Teorema de Jordan, o Critério de Convergência
de Cauchy e o Teorema dos Compactos Encaixantes. Finalmente, enten-
demos que deveriamos apresentar pelo menos um resultado não óbvio
e ilustrativo do ambiente complexo; escolhemos o teorema de caracte-
rização dos biholomorfismos do disco unitário.
Quanto ao texto propriamente dito, nossa pretensão foi a de escre-
ver um que exigisse algum trabalho do professor ao ministrar um curso
sobre o assunto. O público alvo pode ser uma turma de estudantes de
Engenharia, ou de graduação em Matemática ou Fı́sica e, para cada
uma dessas, o conteúdo deve ser trabalhado de maneira distinta. Na
nossa experiência, perante uma turma de Engenharia a apresentação do
assunto deve enfocar exemplos que ilustrem os resultados e não prio-
ritariamente as demonstrações. Daı́ a exigência sobre o professor pois
cabe a ele, e não ao texto, elaborar os exemplos interessantes para o
público em questão. É claro que exemplos ilustrativos sobre cada assunto
tratado são apresentados, porém esses são, propositalmente, em número
essencial. Uma razão para tal é que um excesso de exemplos no texto
induz o estudante a se concentrar mais neles do que nos resultados. Além
disso, é sempre melhor exemplificar respondendo às dúvidas dos alunos
ao invés de pretender saber a priori quais serão elas (uma atitude que
pode significar para eles um curso desinteressante). Já para alunos de
Matemática ou de Fı́sica recomendamos uma abordagem mais rigorosa.
O texto possibilita isso, inclusive apresenta alguns resultados para serem
trabalhados, pelos alunos, na forma de seminários (citamos o apêndice do
Capı́tulo 4, a demonstração completa do teorema de Laurent, o teorema
de Casorati-Weierstrass, o teorema de Rouché, o Lema de Schwarz e
suas consequências). Quanto aos exercı́cios, esses variam desde muito
simples a dificeis e compete ao professor escolher aqueles mais adequados
aos seus alunos e propor outros. Evitamos apresentar longas listas de
exercı́cios repetitivos pois o bom aluno tende a querer fazer todos eles,
o que muitas vezes significa perda de tempo. Optamos também por não
apresentar aplicações à Fı́sica ou Engenharia, pois essas demandariam
discorrer longamente sobre tópicos alheios ao objetivo central do texto
e, além disso, são vistas em disciplinas tı́picas dessas áreas, já com a
roupagem inerente a elas.

Março de 1999

Para essa 4a edição, algumas pequenas correções e modificações fo-


ram feitas, o único destaque sendo a introdução da seção 5 do Capı́tulo
6, sobre uma interpretação dinâmica do resı́duo.

Janeiro de 2006
Marcio G. Soares
Dep. Matemática
ICEx - UFMG
Conteúdo

1 Números Complexos 1
1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
2 O corpo C . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
3 Representação Polar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

2 Cálculo no Plano 16
1 Domı́nios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
2 Limites, Continuidade e Diferenciabilidade . . . . . . . . . 22
3 O Teorema de Green . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

3 Funções Holomorfas 34
1 Funções Complexas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
2 Limites e Continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
3 A Derivada Complexa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
4 Funções Holomorfas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
5 A Exponencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
6 O Logaritmo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
7 Potências Arbitrárias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
8 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

4 Séries 59
1 Sequências e Séries Numéricas . . . . . . . . . . . . . . . . 59
2 Séries de Potências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
3 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86
4 APÊNDICE: O Raio de Convergência . . . . . . . . . . . 90

5
6 CONTEÚDO Cap. 0

5 Teoria de Cauchy 93
1 Integração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
2 Os Teoremas de Cauchy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107
3 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 128

6 Singularidades 131
1 A Expansão de Laurent . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
2 Classificação de Singularidades . . . . . . . . . . . . . . . 143
3 Resı́duos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148
4 O Teorema de Rouché . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152
5 Uma interpretação Dinâmica do Resı́duo . . . . . . . . . . 156
6 Cálculo de Integrais utilizando Resı́duos . . . . . . . . . . 162
7 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173

7 Aplicações Conformes 175


1 Preservação de Ângulos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 175
2 A esfera C∞ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 181
3 Transformações de Möbius . . . . . . . . . . . . . . . . . . 183
4 Aplicações conformes entre domı́nios de C . . . . . . . . . 187
5 Aplicações conformes do disco no disco . . . . . . . . . . . 189
6 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 192

Bibliografia 195

Índice Remissivo 196


1

Números Complexos

1 Introdução

O que é um número complexo? O adjetivo complexo é infeliz, her-


dado de épocas nas quais a abstração envolvida na compreensão desses
números era considerada elevada. Atualmente sabemos que o conceito
de número real exige nı́vel de abstração equivalente e, para exemplificar
isso, começamos trabalhando a mais básica ilustração que se pode dar
sobre números complexos : a solução da equação

X 2 + 1 = 0 ou, o que dá no mesmo, X 2 = −1.

Sabemos que sobre R não há solução e somos forçados a definir um


“número” i, satisfazendo i2 = −1, que resolve a equação. Agora, ou
postulamos a existência desse “número”(isso é feito em Cap. 1 Seção 2)
ou invocamos a Álgebra Linear elementar e saimos em busca de um ente
de natureza geométrica que seja a solução procurada. Se assim fizermos
e olharmos para essa equação sob a forma

X · X = −I
 
1 0
onde X é uma matriz 2 × 2 com coeficientes reais, I = e “·” é
0 1
o produto de matrizes, então podemos achar a solução
 
0 −1
i=
1 0
2 Números Complexos Cap. 1

π
que geometricamente corresponde à rotação de um ângulo reto ( radi-
2
anos) no plano R2 , no sentido anti-horário. 
0 −1
Como podemos ver essa rotação i = como um número
1 0
dentro de um conjunto que amplia o conjunto R dos reais?
Primeiramente
  note que
 se ao número real a associamos a matriz
1 0 a 0
aI = a = então temos que à soma a + c = c + a fica
0 1 0 a
associada a matriz
         
a 0 c 0 c 0 a 0 a+c 0
+ = + =
0 a 0 c 0 c 0 a 0 a+c
e ao produto ac = ca corresponde
         
a 0 c 0 c 0 a 0 ac 0
· = · =
0 a 0 c 0 c 0 a 0 ac
 
a 0
ou seja, as matrizes da forma se comportam exatamente da
0 a
mesma maneira que os números reais em relação à soma e ao produto
(em linguagem mais sofisticada isso
 quer dizer que R é isomorfo ao corpo
a 0
cujos elementos são as matrizes onde a ∈ R).
0 a
Ampliamos então o conjunto R considerando as matrizes 2 × 2 da
forma
   
1 0 0 −1
aI + bi = a +b
0 1 1 0
     
a 0 0 −b a −b
= + =
0 a b 0 b a
onde a, b ∈ R. Chamamos os “números”da forma aI +0i = aI de reais e
os da forma 0I + bi = bi de imaginários. Um “número”da forma aI + bi
é chamado número complexo.
Definimos as operações entre números complexos a partir da soma e
do produto de matrizes. Assim, a soma é comutativa e dada por
   
a −b c −d
(aI + bi) + (cI + di) = +
b a d c
 
a + c −(b + d)
= = (a + c)I + (b + d)i
b+d a+c
Seção 1 Introdução 3

 
0 0
com elemento neutro 0I + 0i = e simétrico −(aI + bi) = −aI −
0 0
 
−a b
bi = e o produto é dado por
−b −a
   
a −b c −d
(aI + bi).(cI + di) = ·
b a d c
 
ac − bd −(ad + bc)
= = (ac − bd)I + (ad + bc)i
ad + bc ac − bd
 
1 0
com elemento identidade 1I + 0i = . Observe que
0 1
   
a −b c −d
(aI + bi).(cI + di) = ·
b a d c
   
c −d a −b
= · = (cI + di).(aI + bi)
d c b a
e o produto é comutativo.
Para obter o inverso multiplicativo lembramos que uma matriz qua-
drada
 é invertı́vel
 se, e somente se, o seu determinante é não nulo e que
a −b
det = a2 + b2 se anula apenas para a = b = 0. Portanto, um
b a
número complexo aI + bi tem um inverso multiplicativo desde que a 6= 0
ou b 6= 0, isto é, aI + bi 6= 0I + 0i e nesse caso
 −1  
−1 a −b 1 a b
(aI + bi) = = 2
b a a + b2 −b a
 
a b
 2 + b2 a2 + b2 
=  a −b a 
a2 + b2 a2 + b2
a −b
= 2 2
I+ 2 i.
a +b a + b2
Como a soma e o produto de matrizes quadradas são operações
associativas e além disso vale a distributividade do produto em relação à
soma, concluı́mos que todas essas propriedades são válidas para a soma
e o produto de números complexos e daı́ vem que o conjunto

{aI + bi : a, b ∈ R}
4 Números Complexos Cap. 1

é um corpo, chamado corpo dos números complexos e representado


por C.
Vamos agora simplificar a notação.
 Vimos que fazer corresponder
a 0
ao número a ∈ R a matriz diagonal não introduziu nenhuma
0 a
modificação no que diz respeito à soma e ao produto. Por outro lado,
com essa identificação i2 = i · i = −I corresponde ao número real −1.
Logo, podemos simplesmente omitir o “I”em aI + bi e associar i2 a
−1, lembrando sempre das fórmulas para a soma e para o produto de
números complexos. Com isso em mente escrevemos

C = {a + bi : a, b ∈ R}

mas, como o produto é comutativo, temos bi = ib e também podemos


escrever um número complexo a + bi √ como a + ib. Observe que somos
naturalmente levados a colocar i = −1.
Pois bem, o que fizemos até agora foi resolver a equação X 2 = −1
e a partir daı́ obtivemos o corpo C dos complexos. E se tivessemos
considerado uma outra equação polinomial? Teriamos obtido um outro
corpo, talvez mais “complexo”? A resposta é não e constitui uma página
importante da Matemática. Ela foi dada por Carl Friedrich Gauss, ma-
temático alemão que na sua tese de doutoramento em 1799 demonstrou
o Teorema Fundamental da Álgebra, segundo o qual qualquer equação
polinomial sobre o corpo C tem solução. Nos ocuparemos da demons-
tração desse teorema mais adiante, após desenvolvermos os instrumentos
analı́ticos necessários.

2 O corpo C

2.1 Definição.1 Um número complexo z é um par ordenado de núme-


ros reais z = (x, y) satisfazendo as seguintes regras de manipulação
para a soma e o produto:

(1) z1 + z2 = (x1 , y1 ) + (x2 , y2 ) = (x1 + x2 , y1 + y2 ).


(2) z1 z2 = (x1 , y1 )(x2 , y2 ) = (x1 x2 − y1 y2 , x1 y2 + y1 x2 ).
A soma e o produto têm as seguintes propriedades:
1
Essa definição é devida ao matemático irlandês William R. Hamilton e apareceu
em 1837, embora muito anteriormente vários matemáticos já houvessem trabalhado
com números complexos como pontos no plano.
Seção 2 O corpo C 5

(3) comutatividade: z1 + z2 = z2 + z1 e z1 z2 = z2 z1 .

(4) associatividade: (z1 +z2 )+z3 = z1 +(z2 +z3 ) e (z1 z2 )z3 = z1 (z2 z3 ).

(5) (0, 0) é elemento neutro aditivo: z + (0, 0) = z para todo z com-


plexo.

(6) (1, 0) é identidade multiplicativa: z(1, 0) = z para todo z com-


plexo.

(7) todo z = (x, y) tem um simétrico aditivo, o número −z = (−x, −y),


ou seja, (x, y) + (−x, −y) = (0, 0).

(8) 
todo z = (x, y)  6= (0, 0) tem um inverso multiplicativo,
 o número
x −y x −y
,
x2 +y 2 x2 +y 2
, ou seja, (x, y) x2 +y2 , x2 +y2 = (1, 0).

(9) distributividade do produto em relação à soma:

z1 (z2 + z3 ) = z1 z2 + z1 z3 .

Todas essas propriedades decorrem de (1),(2) e do fato de que elas


são válidas para a soma e o produto de números reais. Um conjunto
munido de uma soma e de um produto para os quais valem (3) a (9) é
chamado um corpo. Concluı́mos que os números complexos formam um
corpo, que é representado pelo sı́mbolo C.
O número complexo (x, 0) é identificado com o número real x
(observe que, como (x1 , 0) + (x2 , 0) = (x1 + x2 , 0) e (x1 , 0)(x2 , 0) =
(x1 x2 , 0), essa identificação é perfeitamente lı́cita). Dessa maneira o
corpo R dos números reais é visto como um subconjunto de C.
O número complexo (0, 1) é chamado de unidade imaginária e repre-
sentado pelo sı́mbolo i. A propriedade notável que o número i satisfaz
é a seguinte:

i2 = ii = (0, 1)(0, 1) = (0.0 − 1.1, 0.1 + 1.0) = (−1, 0) = −1



e nesse sentido podemos escrever i = −1. Agora, (y, 0)(0, 1) = (0, y)
e daı́

(x, y) = (x, 0) + (0, y) = (x, 0) + (y, 0)(0, 1) = x + yi,

levando em conta a identificação acima. Mas, já que o produto é comu-


tativo temos yi = iy e todo número complexo z = (x, y) também pode
6 Números Complexos Cap. 1

ser escrito como z = x + iy. Ambas notações serão adotadas de agora


em diante. Entre outras utilidades elas simplificam as manipulações com
números complexos. Por exemplo, para efetuar um produto usamos as
regras algébricas usuais juntamente com i2 = −1:

(x1 + iy1 )(x2 + iy2 ) = x1 x2 + ix1 y2 + iy1 x2 + i2 y1 y2


= x1 x2 − y1 y2 + i(x1 y2 + y1 x2 ).

Em particular, (x1 + iy1 )(x1 − iy1 ) = x1 2 + y1 2 .


Usamos essa igualdade para expressar quocientes de números com-
plexos na forma x + yi. Por exemplo, para reduzir
(2 + 3i) + (−1 + 7i)

2 + 4i
à forma x + yi, começamos simplificando o numerador :
(2 + 3i) + (−1 + 7i) 1 + 10i
√ =√ .
2 + 4i 2 + 4i
Em seguida reduzimos o denominador
√ a um número real multipli-
cando numerador e denominador por 2 − 4i:
  √  √
1 + 10i 2 − 4i (1 + 10i)( 2 − 4i)
√ √ =
2 + 4i 2 − 4i 2 + 16
√ √
2 + 40 + (10 2 − 4)i
=
√ 18 √
2 + 40 10 2 − 4
= + i.
18 18
Já sabemos que se o produto de dois números reais é nulo então um
deles é nulo. Vamos usar esse resultado e mostrar que o mesmo ocorre
para números complexos, isto é, se z1 , z2 ∈ C e z1 z2 = 0 então z1 = 0 ou
z2 = 0. De fato, suponha z1 6= 0 e escreva z1 = x1 + iy1 e z2 = x2 + iy2 .
Temos x1 6= 0 ou y1 6= 0 e (x1 + iy1 )(x2 + iy2 ) = 0. Multiplicando ambos
os lados dessa igualdade por x1 − iy1 ficamos com

0 = (x1 − iy1 )[(x1 + iy1 )(x2 + iy2 )]


= [(x1 − iy1 )(x1 + iy1 )](x2 + iy2 )
= (x1 2 + y1 2 )(x2 + iy2 )
= (x1 2 + y1 2 )x2 + i(x1 2 + y1 2 )y2
Seção 2 O corpo C 7

e necessariamente

(x1 2 + y1 2 )x2 = 0 e (x1 2 + y1 2 )y2 = 0.

Como x1 2 + y1 2 6= 0 pois z1 6= 0 temos x2 = 0 e y2 = 0 o que diz que


z2 = 0 (a afirmativa acima é verdadeira num corpo qualquer).
Também sabemos que o corpo R é ordenado, isto é, dados dois reais
x 6= y temos que ou x < y ou y < x. Segue do fato de R ser ordenado
que o quadrado de qualquer número real não nulo é positivo. Já no
corpo C não é possı́vel introduzir uma relação de ordem compatı́vel com
a adição e a multiplicação. Isso decorre da existência do número i que
satisfaz i2 = −1 (veja os exercı́cios desse capı́tulo).
Dado o número complexo z = (x, y) = x + iy chamamos ao número
real x de parte real de z e ao número real y de parte imaginária de z e
escrevemos
x = Re(z) , y = Im(z).

z = x+iy

Figura 1

Re(z) e Im(z) são as coordenadas do ponto z no plano R2 , ao qual


chamaremos de plano complexo C sempre que considerarmos seus pontos
como números complexos.
O valor absoluto ou módulo de um √ número real x, |x|, é definido
como a distância de x a 0, isto é, |x| = x2 . Analogamente, definimos o
módulo de um número complexo z = x + iy como a distância do ponto
z = (x, y) à origem (0, 0) do plano complexo:
p q
|z| = x2 + y 2 = Re(z)2 + Im(z)2 .
8 Números Complexos Cap. 1

Já que o módulo de z foi definido a partir da noção usual de distância


entre pontos no plano, todas as suas propriedades se transportam imedi-
atamente para o módulo, como por exemplo a desigualdade triangular:

|z1 + z2 | ≤ |z1 | + |z2 | ∀ z1 , z2 ∈ C.

Por outro lado, uma vez que o corpo C consiste do plano R2 munido
de uma multiplicação conveniente, podemos obter mais propriedades do
módulo introduzindo a operação de conjugação:
2.2 Definição. Dado o número complexo z = x + iy o conjugado de z
é o número complexo z = x − iy.
Note que z significa, geometricamente, a reflexão de z em torno do
eixo horizontal (veja figura).

x
z

Figura 2

A conjugação é importante porque, entre outras informações, nos diz


que:
zz = (x + iy)(x − iy) = x2 + y 2 = |z|2 .
Além disso é fácil verificar:

• x = Re(z) = 12 (z + z̄),
1 −i
• y = Im(z) = 2i (z − z̄) = 2 (z − z̄),

• z é real se e somente se z = z̄,

• z1 + z2 = z1 + z2 ,

• z1 z2 = z1 z2 .
Seção 3 Representação Polar 9

Usando a última dessas igualdades obtemos

|z1 z2 |2 = z1 z2 z1 z2 = z1 z2 z1 z2 = z1 z1 z2 z2 = |z1 |2 |z2 |2

ou seja,
|z1 z2 | = |z1 ||z2 |.

3 Representação Polar

Como um número complexo é definido por um par ordenado de números


reais, temos imediatamente que um tal número está identificado com um
ponto do plano cartesiano.
Uma outra identificação, muito útil, é obtida através das coordenadas
polares (r, θ). Recordemos que se (x, y) 6= (0, 0) é um ponto do plano
então a coordenada r desse ponto é sua distância à origem e a coordenada
θ é o ângulo determinado pelo segmento de reta que une o ponto à origem
e o semi-eixo positivo dos x, medido no sentido anti-horário (lembramos
de uma vez por todas que medimos ângulos em radianos).
As coordenadas cartesianas e polares estão relacionadas por (veja
figura):
x = r cos θ
y = r sen θ

z = (x,y)

Figura 3

Logo, um número não nulo z = x + iy = (x, y) se escreve

z = r cos θ + ir sen θ = r(cos θ + i sen θ),


10 Números Complexos Cap. 1

p
onde r = x2 + y 2 = |z|. Esta é a chamada representação polar ou
forma polar de um número complexo.
Qualquer valor de θ para o qual a igualdade acima se verifica é cha-
mado um argumento de z e usaremos a notação θ = arg(z). Observe
que θ não é único já que, se a igualdade é verdadeira para um valor de θ,
também o é para θ + 2kπ, k um número inteiro arbitrário, mas podemos
determinar θ de maneira única exigindo, por exemplo, que 0 ≤ θ < 2π
ou que −π < θ ≤ π.
Exemplificando, os números da forma yi com y > 0 têm a repre-
sentação polar
π π
yi = y(cos + i sen ).
2 2
Já os da forma x + ix com x < 0 se escrevem
√ 5π 5π √ −1 −1 
x + ix = − 2x(cos + i sen ) = − 2x √ + i √ .
4 4 2 2

Sejam agora z e w dois números complexos não nulos com repre-


sentações polares

z = r(cos θ + i sen θ)
w = ρ(cos φ + i sen φ)

A representação polar do produto zw é

zw = r(cos θ + i sen θ)ρ(cos φ + i sen φ)


= rρ[(cos θ cos φ − sen θ sen φ) + i(cos θ sen φ + sen θ cos φ)]
= rρ[cos(θ + φ) + i sen (θ + φ)]

usando as fórmulas de adição para o seno e o co-seno.


Já sabiamos que |zw| = |z||w| e o que concluı́mos de novo a partir
da igualdade acima é que arg(zw) = arg(z) + arg(w), ou seja, um argu-
mento do produto de dois números complexos é a soma dos argumentos
desses números. A função logaritmo também satisfaz uma propriedade
análoga e veremos mais adiante que a representação polar está intima-
mente relacionada com ela.
Faça z = w no exemplo acima e obtenha

z 2 = r2 [cos(2θ) + i sen (2θ)].


Seção 3 Representação Polar 11

Essa igualdade é sugestiva e nos induz a dizer que

z n = rn (cos θ + i sen θ)n = rn [cos(nθ) + i sen (nθ)]

qualquer que seja n ∈ N, uma afirmativa verdadeira, conhecida como


fórmula de De Moivre. Uma demonstração imediata dessa fórmula pode
ser feita por indução (o leitor deve fazê-la), mas vamos nos concentrar
numa de suas aplicações, a extração de raizes.
Se z0 é um número complexo, uma raiz n-ésima (ou de ordem n) de
z0 é um número complexo z satisfazendo

z n = z0 .

Para resolver essa equação escreva ambos os membros na forma polar:

z0 = r0 (cos θ0 + i sen θ0 )

e
z = r(cos θ + i sen θ).
Como
z n = rn [cos(nθ) + i sen (nθ)]
ficamos com

z n = rn [cos(nθ) + i sen (nθ)] = r0 (cos θ0 + i sen θ0 ) = z0 .

Primeiramente note que |z n | = |z|n = |z0 |, ou seja, rn = r0 o que fornece


r = r0 1/n e a igualdade acima fica reduzida a

cos(nθ) + i sen (nθ) = cos θ0 + i sen θ0 .

Como dois números complexos são iguais se e somente se suas partes


reais e suas partes imaginárias são iguais temos:

(*) cos(nθ) = cos θ0 e sen (nθ) = sen θ0

Usando que as funções seno e co-seno são periódicas de periodo 2π,


concluı́mos que nθ = θ0 + 2jπ, j ∈ Z, e daı́

θ0 + 2jπ θ0 2jπ
θ= = + j ∈ Z.
n n n
12 Números Complexos Cap. 1

Quantos valores de θ fornecendo soluções distintas de (∗) podemos


encontrar? Note que se fixamos j então
θ 2jπ  θ 2(j + n)π 
0 0
cos + = cos +
n n n n
e
θ 2jπ  θ 2(j + n)π 
0 0
sen + = sen +
n n n n
logo, fazendo j = 0, 1, . . . , n − 1 obtemos precisamente n soluções

θ0 θ0 2(j − 1)π θ0 2(n − 1)π


θ1 = , . . . , θj = + , . . . , θn = + .
n n n n n

Portanto as raizes n-ésimas de z0 são:


    
1/n θ0 2(j − 1)π θ0 2(j − 1)π
zj = r0 cos + + i sen +
n n n n

onde 1 ≤ j ≤ n.
Por exemplo, as raizes cúbicas de 1 = cos 0 + i sen 0 são

z1 = 1,

2π 2π −1 3
z2 = cos + i sen = +i
3 3 2 √2
4π 4π −1 3
z3 = cos + i sen = −i .
3 3 2 2

Observe que z2 2 = z3 pois arg(z2 2 ) = 2 arg(z2 ) = arg(z3 ). Escrevendo


z2 = ω temos que essas raizes são ω, ω 2 e ω 3 = 1.
Mais geralmente, as raizes n-ésimas de 1 são
   
2(j − 1)π 2(j − 1)π
zj = cos + i sen , 1 ≤ j ≤ n.
n n

Novamente, arg(z2 k ) = k arg(z2 ) = arg(zk+1 ) para 2 ≤ k ≤ n − 1, ou


seja, z2 k = zk+1 e fazendo ω = z2 = cos 2π 2π
n + i sen n concluı́mos que as
2
raizes de ordem n de 1 são ω, ω , . . . , ω n−1 n
e ω = 1. Note que, como
pontos no plano C, elas são os vértices de um polı́gono regular de n lados
inscrito no cı́rculo de centro 0 e raio 1.
Seção 4 Exercı́cios 13

4 Exercı́cios

1) Reduza à forma x + iy:


√ √ √ √
(1 − 5i)2 − 4i; −i(−1 + i) + 2; (3 + i)(1 − 11i); ( 2 − i 5)( 5 + i 2).

2) Reduza à forma x + iy:

3 − 4i 2 + 5i (2 − 2i)2 z − zi
; √ ; ; .
2i −1 + i 3 1+i z − zi

3) Faça um esboço e identifique os seguintes conjuntos:


(
0
|z| = |z − 2|; |z| = |z − 1|; a|z| = |z − 1|, a ∈ R, a 6= .
1

4) Faça um esboço e identifique os seguintes conjuntos:

Re(z) = Im(z − 1); Im(z − 1) = |z + 1|; |z| = |z − 1|.

5) Mostre que ||z1 | − |z2 || ≤ |z1 − z2 |.


6) Deduza a desigualdade |z1 + z2 + z3 | ≤ |z1 | + |z2 | + |z3 |.
7) Mostre que, se z2 6= −z3 , então

z1 |z1 |
z2 + z3 ≤ ||z2 | − |z3 || .

8) Resolva as equações:

z − z = 1; z + zi = 2 + i; z + 2z = 1 − i.

9) Mostre que |z1 + z2 | < |1 + z1 z2 | desde que |z1 | < 1 e |z2 | < 1.
10) Encontre todas as soluções das equações:

z 2 = 1 − i 3; z 5 = −1; z 3 = 1; z 7 = −(1 + i).

11) Seja P (x) = ax2 + bx + c um polinomio de grau 2 com coeficientes


reais e suponha que ∆ = b2 − 4ac < 0. Então, as soluções da equação
14 Números Complexos Cap. 1

P (x) = 0 são números complexos com parte imaginária não nula. Se


z1 e z2 são essas soluções, mostre que z2 = z1 . Mais geralmente, se
P (x) = an xn + an−1 xn−1 + · · · + a1 x + a0 é um polinomio de grau n > 0
arbitrário, com coeficientes reais, e se z0 ∈ C é tal que P (z0 ) = 0, então
tem-se que P (z0 ) = 0.
12) Considere a equação az 2 + bz + c = 0, onde a, b, c ∈ C. Deduza uma
expressão para as suas raizes.
13) Deduza a fórmula

zn − 1
1 + z + z 2 + · · · + z n−1 = , z 6= 1.
z−1

14) Use o exercı́cio anterior para mostrar que, se ω 6= 1 satisfaz a equação


ω n = 1, então
1 + ω + ω 2 + · · · + ω n−1 = 0.

15) Demonstre a fórmula de De Moivre

(cos θ + i sen θ)n = cos nθ + i sen nθ.

16) Use o exercı́cio anterior e deduza

cos 2θ = cos2 θ − sen 2 θ


sen 2θ = 2 sen θ cos θ
cos 3θ = cos3 θ − 3 cos θ sen 2 θ
sen 3θ = 3cos2 θ sen θ − sen 3 θ.

17) Use o exercı́cio 15 para deduzir expressões para sen 4θ e para cos 4θ.
18) Calcule (2 + i)(3 + i) e deduza a igualdade

π 1 1
= arctan + arctan .
4 2 3

19) Calcule (5 − i)4 (1 + i) e deduza a igualdade

π 1 1
= 4 arctan − arctan .
4 5 239
Seção 4 Exercı́cios 15

20) Mostre que três pontos a, b e c no plano são colineares se, e somente
se  
1 a a
det 1 b
 b = 0
1 c c

21) Uma ordem num corpo K consiste em dar um subconjunto K+ de


K tal que:

(i) se x, y ∈ K+ então x + y ∈ K+ e xy ∈ K+ (K+ é chamado o


conjunto de elementos positivos) e

(ii) dado x ∈ K então apenas uma das possibilidades se verifica: ou


x ∈ K+ , ou x = 0 ou −x ∈ K+ .

Segue daı́ que o quadrado de qualquer elemento não nulo de K é


positivo. De fato, se x ∈ K+ então x2 ∈ K+ por (i). Por outro lado,
se −x ∈ K+ então (−x)2 = (−x)(−x) = x2 ∈ K+ , por (i) novamente.
Conclua que o corpo C não pode admitir uma ordem.
2

Cálculo no Plano

1 Domı́nios

Discutiremos brevemente os conceitos topológicos necessários ao estudo


do cálculo de funções de uma variável complexa. Esclarecemos que a
abordagem apresentada aqui é ingênua e faz apelo à intuição. O leitor
interessado numa versão rigorosa deve consultar 1 .
Sejam z0 = (x0 , y0 ) um ponto do plano complexo C e a um número
real positivo. O conjunto D(z0 , a) formado pelos pontos z do plano
satisfazendo
|z − z0 | < a
é chamado disco aberto ou simplesmente disco de raio a e centro z0 . Já
o conjunto D(z0 , a) formado pelos pontos tais que

|z − z0 | ≤ a

é chamado disco fechado de raio a e centro z0 . O cı́rculo de raio a e


centro z0 , notado ∂D(z0 , a), consiste precisamente dos pontos à distância
a de z0 , ou seja, dos pontos z satisfazendo |z − z0 | = a. Observe que
D(z0 , a) é formado pelos pontos de D(z0 , a), chamados de pontos inte-
riores a D(z0 , a) e pelos pontos do cı́rculo ∂D(z0 , a), chamados pontos
de fronteira de D(z0 , a).
Um subconjunto U do plano é um conjunto aberto se a seguinte
condição é satisfeita: dado qualquer ponto z em U podemos encontrar
um real positivo a tal que o disco de centro z e raio a está inteiramente
1
Elon Lages Lima - Espaços Métricos - Projeto Euclides - IMPA
Seção 1 Domı́nios 17

contido em U . O conjunto vazio ∅ é aberto, por definição. Essa noção


nos diz que se z é um ponto do aberto U , então podemos nos mover pelo
menos uma pequena distância em qualquer direção a partir de z sem
sair do conjunto. Um subconjunto V do plano é um conjunto fechado se
o seu complemento C \ V é aberto e dizemos que V é limitado se todos
os seus pontos estão a uma distância finita da origem, ou seja, se existir
um número positivo R tal que |z| < R qualquer que seja z ∈ V .
Por exemplo, o plano C é aberto, bem como o é um disco D(z0 , a),
onde z0 e a são quaisquer. Também é aberto o conjunto {z ∈ C : Im(z) >
0 e Re(z) > 0}. Já um conjunto consistindo de um único ponto {z0 } é
fechado, bem como um disco fechado D(z0 , a), onde z0 e a são quaisquer.
Observe que o plano C também é fechado, já que o seu complemento,
o conjunto vazio, é aberto, por definição . Um cı́rculo ∂D(z0 , a) é um
conjunto fechado.
Se U é um subconjunto do plano e z ∈ C, dizemos que z é ponto de
fronteira de U se todo disco de centro em z contém pontos de U e do
complemento de U . A fronteira de U é o conjunto formado pelos pontos
de fronteira e será notada ∂U . Por outro lado, se existir um disco de
centro z e raio positivo inteiramente contido em U , então z é chamado
ponto interior a U . Finalmente, dizemos que z é ponto de acumulação
de U , se vale a seguinte propriedade: qualquer que seja a > 0, o disco
D(z, a) contém pelo menos um ponto de U distinto de z.
Exemplificando, ∂D(z0 , a) é a fronteira tanto de D(z0 , a) quanto de
D(z0 , a). Todo ponto z ∈ D(z0 , a) é ponto interior tanto a D(z0 , a)
quanto a D(z0 , a). Mais geralmente, todo ponto de um conjunto aberto
U é ponto interior a U . Qualquer z ∈ ∂D(z0 , a) é ponto de acumulação
de D(z0 , a) e de D(z0 , a). A semi-reta (x, 0), x ≥ 0, juntamente com
a semi-reta (0, y), y ≥ 0, constituem a fronteira de {z ∈ C : Im(z) >
0 e Re(z) > 0}.
1.1 Definição. Um caminho suave em C é uma aplicação

γ : J −→ C

com derivada contı́nua em todos os pontos de J, onde J ⊂ R é um


intervalo da forma J = [a, b], a < b.
Algumas palavras sobre essa definição. Lembramos que dar uma
aplicação γ : J −→ C significa dar duas funções reais x : J → R e
y : J → R, as coordenadas de γ. Para cada t ∈ J está associado o ponto
do plano γ(t) = (x(t), y(t)) = x(t) + iy(t) e, à medida que t percorre
18 Cálculo no Plano Cap. 2

o intervalo J, o vetor γ(t) descreve o caminho. A imagem γ(J) é uma


curva no plano C a qual, por abuso de linguagem, também chamaremos
de caminho. Os pontos γ(a) e γ(b) são chamados ponto inicial e ponto
terminal do caminho γ, respectivamente. Se γ(a) = γ(b) dizemos que γ
é um caminho fechado. A derivada ou velocidade de γ em t ∈ (a, b) é o
vetor γ ′ (t) = x′ (t) + iy ′ (t). Já nos extremos do intervalo temos apenas
derivadas laterais, isto é,

γ(a + h) − γ(a)
γ ′ (a) = lim
h→0 h
h>0

e
γ(b + h) − γ(b)
γ ′ (b) = lim .
h→0 h
h<0

Dizer que γ tem derivada contı́nua em J equivale a termos

lim γ ′ (t) = γ ′ (t0 ) qualquer que seja a < t0 < b,


t→t0

lim γ ′ (t) = γ ′ (a) e lim γ ′ (t) = γ ′ (b).


t→a t→b
t>a t<b

Por exemplo, o segmento de reta que une dois pontos do plano,


P1 = (x1 , y1 ) e P2 = (x2 , y2 ), é descrito pelo caminho suave γ(t) =
((1 − t)x1 + tx2 , (1 − t)y1 + ty2 ), 0 ≤ t ≤ 1. P1 = γ(0) é o ponto inicial
e P2 = γ(1) o ponto terminal de γ.
Já um cı́rculo ∂D(z0 , a) é descrito pelo caminho fechado

γ(t) = (x0 + a cos t, y0 + a sen t) , 0 ≤ t ≤ 2π,


2 2
onde z0 = (x0 , y0 ). Uma elipse xa2 + yb2 = 1 é descrita pelo caminho
fechado
γ(t) = (a cos t, b sen t) , 0 ≤ t ≤ 2π.
Esse caminho pode ser obtido da seguinte maneira: substitua xa por X
e yb por Y na equação da elipse, que se transforma em X 2 + Y 2 = 1,
a equação de um cı́rculo de centro (0, 0) e raio 1. Como já sabemos
descrever um cı́rculo, fazemos X = cos t, Y = sen t e obtemos γ.
Observe que na definição de caminho suave está subentendida a
noção de orientação ou sentido de percurso do caminho. Mais preci-
samente, o caminho é percorrido do ponto inicial ao ponto terminal à
Seção 1 Domı́nios 19

medida que t ∈ [a, b] cresce. Podemos inverter o sentido de percurso


definindo o caminho reverso de γ, γ − , por

γ − (t) = γ(a + b − t) , a ≤ t ≤ b.

O conjunto de pontos do plano descrito por esses dois caminhos é o


mesmo, porém os pontos inicial e terminal de um são os pontos terminal
e inicial do outro, respectivamente.
Os reversos dos caminhos γ(t) = ((1 − t)x1 + tx2 , (1 − t)y1 + ty2 ),
0 ≤ t ≤ 1, γ(t) = (x0 + a cos t, y0 + a sen t) e γ(t) = (a cos t, b sen t),
0 ≤ t ≤ 2π, são, respectivamente:

γ − (t) = (tx1 + (1 − t)x2 , ty1 + (1 − t)y2 ), 0 ≤ t ≤ 1,


γ − (t) = (x0 + a cos(2π − t), y0 + a sen (2π − t)) , 0 ≤ t ≤ 2π e
γ − (t) = (a cos(2π − t), b sen (2π − t)) , 0 ≤ t ≤ 2π.

Consideraremos agora uma classe mais ampla de caminhos em C.

1.2 Definição. Um caminho suave por partes em C é uma coleção


finita de caminhos suaves γ1 : [a1 , b1 ] → C, γ2 : [a2 , b2 ] → C, . . . ,
γn : [an , bn ] → C, satisfazendo: γi (bi ) = γi+1 (ai+1 ) para 1 ≤ i ≤ n − 1.

Usaremos a notação γ1 ∗ γ2 ∗ · · · ∗ γn quando nos referirmos a cami-


nhos suaves por partes. Como para caminhos suaves, dizemos que um
caminho suave por partes é fechado se γ1 (a1 ) = γn (bn ), isto é, o ponto
inicial do primeiro caminho da coleção coincide com o ponto terminal do
último. Observe que um caminho suave é, em particular, um caminho
suave por partes.
Por exemplo, o triângulo de vértices (0, 0), (1, 0) e (1, 1) é dado pelos
seguintes caminhos (veja figura):

γ1 (t) = (t, 0) t ∈ [0, 1],


γ2 (t) = (1, t) t ∈ [0, 1],
γ3 (t) = (t, t) t ∈ [0, 1].

Esse triângulo fica descrito pelo caminho fechado, suave por partes, γ1 ∗
γ2 ∗ γ3− .
20 Cálculo no Plano Cap. 2

y
(1,1)

3
2

(0,0) 1 (1,0) x

Figura 4

Dado um caminho suave por partes, γ = γ1 ∗ γ2 ∗ · · · ∗ γn , podemos


normaliza-lo e ve-lo como um caminho γ : [0, 1] → C. Para fazer isso,
dividimos o intervalo [0, 1] em n intervalos,
       
1 1 2 j−1 j n−1
0, , , ,... , ,... ,1
n n n n n n

e, para cada um desses, definimos uma bijeção suave


 
j−1 j
rj : , → [aj , bj ] por
n n

rj (t) = n(bj − aj )t − j(bj − aj ) + bj .

Os caminhos γj (rj (t)), 1 ≤ j ≤ n, são suaves e o ponto inicial de γj (rj (t))


coincide com o ponto terminal de γj−1 (rj−1 (t)). Dessa maneira, o cami-
nho original γ pode ser visto como definido no intervalo [0, 1].
Dizemos que um caminho suave por partes e fechado (normalizado
como acima) é simples, se a aplicação γ : [0, 1] → C que o define é
injetiva, exceto pelos pontos 0 e 1, ou seja, γ(0) = γ(1), γ(t) 6= γ(0),
0 < t < 1 e γ(t1 ) 6= γ(t2 ) se 0 < t1 6= t2 < 1. Isso quer dizer que o
caminho não possui auto-interseções. Apresentamos agora um conceito
de muita utilidade:

1.3 Definição. Uma curva de Jordan suave por partes é um caminho


suave por partes, fechado e simples.
Seção 1 Domı́nios 21

Curva de Jordan suave por partes Curva fechada suave por partes

Figura 5

Um teorema devido a Jordan nos diz que: uma curva de Jordan su-
ave por partes γ divide o plano R2 em exatamente dois abertos disjuntos,
um deles limitado e o outro ilimitado, sendo γ a fronteira comum desses
dois abertos. Esse resultado, embora de fácil intuição, é de demons-
tração nada trivial e trabalhosa e exemplifica a diferença entre desenho
e Matemática.
1.4 Definição. Se γ : [a, b] −→ C é um caminho suave, seu compri-
mento é definido por:
Zb
ℓ(γ) = |γ ′ (t)|dt.
a

Se γ(t) = (x(t), y(t)) então a expressão do comprimento de γ fica

Zb q
ℓ(γ) = x′ (t)2 + y ′ (t)2 dt.
a

Se γ é um caminho suave por partes, γ = γ1 ∗ γ2 ∗ · · · ∗ γn , então

ℓ(γ) = ℓ(γ1 ) + ℓ(γ2 ) + · · · + ℓ(γn ).

Para o caminho γ(t) = (cos t, sen t), 0 ≤ t ≤ 2π, temos ℓ(γ) =


R 2π q 2 2 R 2π
0 (− sen t) + (cos t) dt = 0 dt = 2π.
ℓ(γ) é a distância efetiva percorrida pelo ponto γ(t) ∈ R2 , quando t
varia de a até b. Cabe dizer que o comprimento de um caminho suave
22 Cálculo no Plano Cap. 2

γ não é, em geral, o comprimento da curva γ([a, b]), imagem do inter-


valo [a, b] pela aplicação γ. Isso se deve a que, ao percorrer γ([a, b]),
o ponto γ(t) pode varrer várias vezes um mesmo trecho. O leitor tem
uma ilustração desse fato considerando o caminho γ(t) = (cos 2t, sen 2t),
0 ≤ t ≤ 2π.
1.5 Definição. Um subconjunto não vazio U ⊂ C é chamado um
domı́nio se U é aberto e se, dados dois pontos quaisquer p e q em U ,
existe um caminho suave por partes, inteiramente contido em U , cujos
pontos inicial e terminal são , respectivamente, p e q.
Ingenuamente podemos dizer que, um domı́nio U é um conjunto
aberto constituido de um único “pedaço”.
Exemplos de domı́nios são C, C∗ = C \ {0}, C \ Z, D(z0 , a), qualquer
anel {z ∈ C : a < |z − z0 | < b}. Já C \ R e D(1, 1/2) ∪ D(i, 1/2) não o
são (justifique).

2 Limites, Continuidade e Diferenciabilidade

Nessa seção recordaremos brevemente alguns conceitos do Cálculo, que


dizem respeito a aplicações f : A → R2 , onde A é um subconjunto aberto
do plano. No que se segue vamos considerar tais aplicações em termos
das variáveis reais x e y, já que as propriedades que nos interessam
dizem respeito à proximidade entre pontos do plano e, assim sendo, a
estrutura complexa de R2 é irrelevante. Além disso, por simplicidade,
vamos considerar apenas aplicações definidas em subconjuntos abertos
do plano.
A noção de limite associado a uma aplicação pode ser descrita infor-
malmente por: dizemos que (a, b) é o limite de f quando (x, y) tende a
(x0 , y0 ), se f (x, y) está arbitrariamente próximo de (a, b) quando (x, y)
está suficientemente próximo de (x0 , y0 ). A notação para essa frase é:
lim f (x, y) = (a, b).
(x,y)→(x0 ,y0 )

De maneira rigorosa, devemos exigir que o ponto (x0 , y0 ) seja um ponto


de acumulação do domı́nio de f e, com isso em mente temos
2.1 Definição. (a, b) é o limite de f quando (x, y) tende a (x0 , y0 ) se,
dado qualquer número ǫ > 0, é possı́vel encontrar um número positivo δ
de tal modo que, sempre que 0 < |(x, y) − (x0 , y0 )| < δ se tem |f (x, y) −
(a, b)| < ǫ.
Seção 2 Limites, Continuidade e Diferenciabilidade 23

Observe que uma aplicação f : A → R2 , onde A ⊂ R2 é aberto, se


expressa através de componentes, f (x, y) = (u(x, y), v(x, y)) onde u e
v são funções definidas em A e tomando valores em R. Portanto, dizer
que lim f (x, y) = (a, b) equivale a dizer que
(x,y)→(x0 ,y0 )

lim u(x, y) = a
(x,y)→(x0 ,y0 )

e que
lim v(x, y) = b
(x,y)→(x0 ,y0 )

Um exemplo simples consiste em considerar a função


(
(0, 0) se (x, y) 6= (0, 0)
f (x, y) =
(1, 0) se (x, y) = (0, 0)

É imediato que
lim f (x, y) = (0, 0).
(x,y)→(0,0)

Observe que, nesse exemplo,

lim f (x, y) 6= f (0, 0).


(x,y)→(0,0)

Aplicações mais manejáveis são aquelas para as quais se tem que

lim f (x, y) = f (x0 , y0 ).


(x,y)→(x0 ,y0 )

Essas são chamadas contı́nuas, formalmente definidas por


2.2 Definição. Sejam A ⊂ R2 um aberto e f : A → R2 uma aplicação.
Dizemos que f é contı́nua no ponto (x0 , y0 ) ∈ A se

lim f (x, y) = f (x0 , y0 ).


(x,y)→(x0 ,y0 )

Se f é contı́nua em todos os pontos de A, dizemos que f é contı́nua


em A.
Uma outra classe interessante de aplicações é formada pelas que ad-
mitem derivadas parciais, isto é
24 Cálculo no Plano Cap. 2

2.3 Definição. Seja f : A → R2 , A um subconjunto aberto de R2 . f


tem derivada parcial em relação a x no ponto (x0 , y0 ) ∈ A se o limite
f (x0 + h, y0 ) − f (x0 , y0 )
lim
h→0 h
existe. Analogamente, f tem derivada parcial em relação a y no ponto
(x0 , y0 ) ∈ A se o limite
f (x0 , y0 + k) − f (x0 , y0 )
lim
k→0 k
existe.
Caso as derivadas parciais em relação a x e a y existam, elas são
notadas
∂f ∂f
(x0 , y0 ) e (x0 , y0 )
∂x ∂y
respectivamente. Em termos das coordenadas u e v de f temos
 
∂f ∂u ∂v
(x0 , y0 ) = (x0 , y0 ), (x0 , y0 )
∂x ∂x ∂x
e  
∂f ∂u ∂v
(x0 , y0 ) = (x0 , y0 ), (x0 , y0 ) .
∂y ∂y ∂y
Suponha agora que as derivadas parciais de f em relação a x e a y
existam em todos os pontos (x, y) de A. Temos então definidas duas
aplicações
∂f ∂f
(x, y) 7→ (x, y) e (x, y) 7→ (x, y).
∂x ∂y
Caso essas aplicações sejam contı́nuas em A, dizemos que f é uma
aplicação suave em A. Note que se f = (u, v) é suave em A, então
as funções
∂u ∂u ∂v ∂v
(x, y), (x, y), (x, y) e (x, y).
∂x ∂y ∂x ∂y
são contı́nuas em A, e reciprocamente.
Por exemplo, a aplicação
 
−y x
f (x, y) = ,
x2 + y 2 x2 + y 2
Seção 3 O Teorema de Green 25

é suave em R2 \ {(0, 0)} e


 
∂f 2xy y 2 − x2
(x, y) = ,
∂x (x2 + y 2 )2 (x2 + y 2 )2

 
∂f y 2 − x2 −2xy
(x, y) = 2, .
∂y (x + y ) (x + y 2 )2
2 2 2

3 O Teorema de Green

Um instrumento fundamental de que necessitaremos é o Teorema de


Green, também conhecido como Teorema de Stokes no plano. Começa-
mos então considerando os ingredientes que compoem esse resultado.
Seja f : U → R2 , f (x, y) = (u(x, y), v(x, y)), onde U ⊂ R2 é um
domı́nio, uma aplicação com derivadas parciais
   
∂f ∂u ∂v ∂f ∂u ∂v
= , e = ,
∂x ∂x ∂x ∂y ∂y ∂y

contı́nuas em todos os pontos de U .


3.1 Definição. Se γ : [a, b] −→ U é um caminho suave em U , γ(t) =
(x(t), y(t)), definimos a integral de f ao longo de γ (ou integral de linha
de f ao longo de γ) por:

Z Z Zb
 
f := udx + vdy := u(x(t), y(t))x′ (t) + v(x(t), y(t))y ′ (t) dt.
γ γ a

Se γ1 ∗ γ2 ∗ · · · ∗ γn é um caminho suave por partes em U , a integral de


f ao longo desse caminho é definida por :
Z Z Z Z
f := f + f + · · · + f.
γ1 ∗γ2 ∗···∗γn γ1 γ2 γn

Por exemplo, se f (x, y) = x2−y , x
+y 2 x2 +y 2
e γ é o caminho γ(t) =
(cos t, sen t), 0 ≤ t ≤ 2π então :
Z Z 2π Z 2π
f= [ sen t sen t + cos t cos t]dt = dt = 2π.
γ 0 0
26 Cálculo no Plano Cap. 2

Se f (x, y) = (x2 , y 2 ) e o caminho γ é o caminho suave por partes dado


por γ = γ1 ∗ γ2 ∗ γ3 ∗ γ4 , onde γ1 (t) = (1, t), γ2 (t) = (−t, 1), γ3 (t) =
(−1, −t) e γ4 (t) = (t, −1), para −1 ≤ t ≤ 1, então :
Z Z 1 Z 1 Z 1 Z 1
2 2 2
f= t dt − t dt − t dt + t2 dt = 0.
γ1 ∗γ2 ∗γ3 ∗γ4 −1 −1 −1 −1

As integrais de linha são sensı́veis à orientação ou sentido de percurso


do caminho, isto é, se γ − denota o caminho reverso de γ então
Z Z
f = − f.
γ− γ

De fato, se γ : [a, b] −→ U é dado por γ(t) = (x(t), y(t)) temos que


γ − (t) = (x(a + b − t), y(a + b − t)) e daı́
Z Z b
 
f= − u(x(a + b − t), y(a + b − t))x′ (a + b − t) dt
a
γ−
Z b  
+ − v(x(a + b − t), y(a + b − t))y ′ (a + b − t) dt.
a
Fazendo a substituição s = a + b − t essa integral fica
Z a Z
 ′ ′

u(x(s), y(s))x (s) + v(x(s), y(s))y (s) ds = − f.
b
γ

Para enunciarmos o teorema de Green necessitamos ainda do conceito


de compatibilidade de orientação entre um subconjunto do plano e sua
fronteira.
3.2 Definição. Suponha que U ⊂ R2 é um domı́nio e seja V ⊂ U
um subconjunto fechado e limitado, cuja fronteira ∂V consiste de um
número finito de curvas de Jordan suaves por partes e tal que V \ ∂V
é um domı́nio. Para cada uma dessas curvas, adotamos o sentido de
percurso para o qual o interior de V está sempre à esquerda quando a
percorrermos. Nessas condições, dizemos que V e ∂V tem orientação
compatı́vel .
Essa noção será muito útil nesse texto e sugerimos que o leitor a
tenha sempre em mente.
Por exemplo, se U = R2 e V = D(0, a), cuja fronteira é o cı́rculo
∂D(0, a), então devemos percorrer esse cı́rculo no sentido anti-horário.
Seção 3 O Teorema de Green 27

D(0,a) D(0,a)

Figura 6

Já para o conjunto V abaixo (U = R2 novamente), ∂V = γ1 ∪γ2 ∪γ3 .


Para que a orientação seja compatı́vel, γ1 deve ser percorrido no sentido
anti-horário e γ2 , γ3 ambos no sentido horário.

u 1

2 V 3

Figura 7

Finalmente temos o
3.3 Teorema de Green. Sejam U ⊂ R2 um domı́nio e f : U −→ R2
uma aplicação suave. Seja V ⊂ U um subconjunto satisfazendo: (i) V
é fechado e limitado, (ii) a fronteira ∂V de V consiste de um número
finito de curvas de Jordan suaves por partes, ∂V = γ1 ∪ · · · ∪ γn , e (iii)
V \ ∂V é um domı́nio. Suponha que V e ∂V tem orientação compatı́vel.
Então, escrevendo f (x, y) = (u(x, y), v(x, y)), temos que
Z Z ZZ  
∂v ∂u
f= udx + vdy = − dxdy.
∂x ∂y
∂V ∂V V
R
Demonstração: Antes de mais nada, f significa a soma
∂V
Z Z
f + ··· + f
γ1 γn
28 Cálculo no Plano Cap. 2

sobre todas as curvas de Jordan que compoem a fronteira de V , orien-


tadas compativelmente com V .
A demonstração completa desse resultado exige mais instrumental
do que temos a disposição (veja 2 ) porém, podemos demonstrá-lo numa
versão simples e ilustrativa de situações gerais o bastante para a maioria
das aplicações de que necessitaremos. Essa versão é: vamos supor que
V pode ser dado, simultaneamente, das seguintes maneiras:

(I) V = {(x, y) : a ≤ x ≤ b, g1 (x) ≤ y ≤ g2 (x)} onde g1 e g2 são


funções cujos gráficos são curvas suaves por partes, e

(II) V = {(x, y) : c ≤ y ≤ d, h1 (y) ≤ x ≤ h2 (y)} onde h1 e h2 são


funções cujos gráficos são curvas suaves por partes.

Exemplos simples de conjuntos que podem ser dados simultanea-


mente nas formas (I) e (II) são: discos fechados D(z0 , a), poligonos
regulares e “quadrantes”fechados de aneis

{z ∈ C : a ≤ |z − z0 | ≤ b, Re(z) ≥ Re(z0 ), Im(z) ≥ Im(z0 )}.

Convidamos o leitor a pensar em subconjuntos do plano que podem


ser divididos em regiões satisfazendo (I) e (II) e a aplicar o teorema a
elas, convencendo-se assim da generalidade da demonstração nesse caso
simples.
Para V dado na forma (I), a fronteira consiste dos quatro caminhos

γ1 (t) = (t, g1 (t)), a≤t≤b


γ2 (t) = (b, t), g1 (b) ≤ t ≤ g2 (b)
γ3 (t) = (t, g2 (t)), a≤t≤b
γ4 (t) = (a, t), g1 (a) ≤ t ≤ g2 (a)

Para que V e ∂V tenham orientação compatı́vel devemos ter

∂V = γ1 ∗ γ2 ∗ γ3− ∗ γ4−

(veja figura a seguir)


2
Alcides Lins Neto, Funções de uma variável complexa, Projeto Euclides, IMPA
Seção 3 O Teorema de Green 29

2
3
4 V
1

Figura 8

Agora,
Z Z Z Z Z
udx = udx + udx + udx + udx
∂V γ1 γ2 γ3− γ4−

mas, para γ2 e γ4 temos x′ (t) = 0 e portanto as integrais de linha são


nulas ao longo desses caminhos. Ficamos então com
Z Z Z
udx = udx + udx.
∂V γ1 γ3−

Essas se expressam por


Z Zb Z Zb
udx = u(t, g1 (t))dt e udx = − u(t, g2 (t))dt
γ1 a γ3− a

e temos
Z Zb
udx = [u(t, g1 (t)) − u(t, g2 (t))] dt.
∂V a
Por outro lado,
ZZ Zb gZ2 (x)
∂u ∂u
dxdy = dydx
∂y ∂y
V a g1 (x)
Zb
= [u(x, g2 (x)) − u(x, g1 (x))] dx
a
30 Cálculo no Plano Cap. 2

e, trocando x por t nessa última expressão, concluimos que


Z ZZ
∂u
(III) udx = − dxdy.
∂y
∂V V

Já para V dado na forma (II), a fronteira consiste dos caminhos


γ1 (t) = (t, c), h1 (c) ≤ t ≤ h2 (c)
γ2 (t) = (h2 (t), t), c ≤ t ≤ d
γ3 (t) = (t, d), h1 (d) ≤ t ≤ h2 (d)
γ4 (t) = (h1 (t), t), c ≤ t ≤ d
e, para que V e ∂V tenham orientação compatı́vel devemos ter
∂V = γ1 ∗ γ2 ∗ γ3− ∗ γ4−
(veja figura abaixo)

2
4

Figura 9

Como anteriormente,
Z Z Z Z Z
vdy = vdy + vdy + vdy + vdy,
∂V γ1 γ2 γ3− γ4−

mas, para γ1 e γ3 temos y ′ (t) = 0 e portanto as integrais de linha são


nulas ao longo desses caminhos. Ficamos então com
Z Z Z
vdy = vdy + vdy.
∂V γ2 γ4−
Seção 4 Exercı́cios 31

Essas se expressam por

Z Zd Z Zd
vdy = v(h2 (t), t)dt e vdy = − v(h1 (t), t)dt
γ2 c γ4− c

e temos
Z Zd
vdy = [v(h2 (t), t) − v(h1 (t), t)] dt.
∂V c

Por outro lado,

ZZ Zd hZ2 (y) Zd
∂v ∂v
dxdy = dxdy = [v(h2 (y), y) − v(h1 (y), y)] dy
∂x ∂x
V c h1 (y) c

e, trocando y por t nessa última expressão, obtemos


Z ZZ
∂v
(IV) vdy = dxdy.
∂x
∂V V

Finalmente, como o conjunto V que estamos considerando pode ser dado


simultaneamente nas formas (I) e (II), temos que valem (III) e (IV).
Somando essas expressões ficamos com
Z Z ZZ  
∂v ∂u
f= udx + vdy = − dxdy. ⊓

∂x ∂y
∂V ∂V V

4 Exercı́cios

1) Nesse exercı́cio, z0 é um número complexo arbitrário. Esboce os con-


juntos abaixo, diga se são fechados, abertos (ou nenhum deles), esboce
sua fronteira, diga quais são domı́nios e quais são limitados:
(i) Re(z) ≥ Re(z0 ).
(ii) Im(z0 ) > Re(z).
(iii) Re(z 2 ) ≥ 1.
(iv) Im(zz0 ) > 0.
(v) |z − z0 | < |z̄ − z0 |.
32 Cálculo no Plano Cap. 2

(vi) |z − z0 | ≤ |z − z̄0 |.
(vii) 1 < |z − z̄0 | ≤ 3.
(viii) Im(z 2 ) ≤ 1.
2) Para cada um dos conjuntos abaixo, sua fronteira é descrita por uma
curva suave por partes. Esboce o conjunto, sua fronteira e dê uma
aplicação que a descreva.
(i) V = {z ∈ C : |z| ≤ 1, Re(z) ≥ 12 }.
(ii) V = {z ∈ C : 12 ≤ |z| ≤ 1, Re(z) ≥ 0}.
(iii) V = {z ∈ C : 13 ≤ |z| ≤ 1, Re(z) ≥ Im(z) ≥ 0}.
R
3) Calcule f onde V é cada um dos conjuntos do exercı́cio anterior
∂V
(V e ∂V tem orientação compativel) e
   
−y x x −y
f (x, y) = , , f (x, y) = , .
x2 + y 2 x2 + y 2 x2 + y 2 x2 + y 2
R R
4) Calcule xn dy e y n dx, onde n ≥ 1 e V é (i) o quadrado [0, 1] ×
∂V ∂V
[0, 1], (ii) o disco D(0, 1) (V e ∂V tem orientação compativel).
5) Seja V como noR enunciado do teorema de Green. Mostre que a área
de V é dada por xdy.
∂V

6) Use 5 para calcular a área de V = {(x, y) : x2 /a2 + y 2 /b2 ≤ 1} e de


V = {(x, y) : 1 ≤ x2 − y 2 ≤ 9, 1 ≤ xy ≤ 4}.
7) Calcule Z
(x2 − y 2 )dx + 2xydy
∂V
e Z
2xydx + (y 2 − x2 )dy
∂V

onde V é (i) o retângulo delimitado pelas retas y = x, y = −x + 4,


y = x + 2 e y = −x, (ii) V = {(x, y) : 1 ≤ x2 − y 2 ≤ 9, 1 ≤ xy ≤ 4} (V
e ∂V tem orientação compativel).
8) Calcule Z
ydx − (x − 1)dy
(x − 1)2 + y 2
∂V
Seção 4 Exercı́cios 33

onde V é a região limitada pelos cı́rculos x2 + y 2 = 3 e (x − 1)2 + y 2 = 9,


onde V e ∂V tem orientação compativel.
9) Calcule Z
x2 ydx − x3 dy
(x2 + y 2 )2
∂V

onde V é a região interior à elipse x2 /4 + y 2 /9 = 1, orientada no sentido


anti-horário.
3

Funções Holomorfas

1 Funções Complexas

A noção de função complexa envolve naturalmente a consideração de 2


variáveis reais. De fato, em linguagem corrente, uma função complexa
da variável complexa z é uma correspondência f que associa ao número z
um único número complexo w, chamado a imagem de z por f , w = f (z).
Por outro lado, como z = x + iy = (x, y), também podemos dizer que
uma tal função associa ao par (x, y) ∈ R2 o par w = (u(x, y), v(x, y)) =
u(x, y) + iv(x, y) = f (x, y) ∈ R2 . Um exemplo é f (z) = z + c onde
c = a + ib. A expressão dessa função em termos de x e y é f (x, y) =
(x + a, y + b). Agora, a estrutura multiplicativa que faz de R2 o corpo C,
ou seja, que torna C um espaço vetorial de dimensão 1 sobre si mesmo,
reserva surpresas quanto à expressão das funções complexas em geral.
Considere por exemplo

f (z) = Re(z) − Im(z) = x − y = x − y + 0i.

Não é possı́vel expressar o número complexo x − y + 0i somente em


termos de z, de modo explı́cito. Forçosamente a variável z̄ = x − iy deve
aparecer na expressão de f e ficamos com
z + z̄ z − z̄
f (x + iy) = − .
2 2i
Isso vem do fato que f é uma função de C em si mesmo e C, como
espaço vetorial sobre R, tem dimensão 2. Daı́ a aparição, em geral, da
variável z̄, independente de z como variável real, na expressão dessas
Seção 2 Limites e Continuidade 35

funções. Nosso interesse primordial é o estudo das funções complexas


nas quais a variável z̄ não intervem, isto é, que não dependem de z̄.
Uma condição para que isso ocorra é dada pelas chamadas Condições de
Cauchy-Riemann, que veremos adiante.
No que se segue escreveremos f (z) = u(x, y) + iv(x, y) para enfatizar
que as funções que consideraremos, apesar de serem funções da variável
complexa z, se expressam em termos das variáveis reais x e y.

2 Limites e Continuidade

A noção de limite associado a uma função da variável complexa z consiste


simplesmente numa tradução da Definição 2.1 para esse contexto. A fim
de evitar generalidade exagerada, sejam A um subconjunto aberto de C
e f : A → C uma função de z.
2.1 Definição. Dado um número z0 ∈ A, dizemos que o número w0 ∈ C
é o limite de f quando z ∈ A tende a z0 se, dado qualquer número
ǫ > 0, é possı́vel encontrar um número δ > 0 tal que, se z ∈ A satisfaz
0 < |z − z0 | < δ, então |f (z) − w0 | < ǫ. Se esse for o caso, escrevemos
lim f (z) = w0 .
z→z0

Em linguagem corrente, isso quer dizer que |f (z) − w0 | fica tão


pequeno quanto se queira, desde que z esteja suficientemente próximo
de z0 .
Um exemplo imediato consiste em mostrar que lim f (z) = z̄0 , onde
z→z0
f (z) = z̄. De fato, como |z̄ − z̄0 | = |z − z0 | tome δ = ǫ na definição
acima.
Uma propriedade que decorre da Definição 2.1 é a unicidade do li-
mite, isto é, se lim f (z) = w0 e lim f (z) = w1 então w0 = w1 . De fato
z→z0 z→z0
temos que, para 0 < |z − z0 | < δ vale |f (z) − w0 | < ǫ e |f (z) − w1 | < ǫ.
Logo,
|w0 − w1 | ≤ |f (z) − w0 | + |f (z) − w1 | < 2ǫ.
Como ǫ é arbitrário, concluimos que w0 = w1 .
Observe que, escrevendo f (z) = u(x, y) + iv(x, y), onde u e v são
funções das variáveis reais x e y então, se existe lim f (z) = w0 e w0 =
z→z0
u0 + iv0 , temos que existem os limites
lim u(x, y) e lim v(x, y)
(x,y)→(x0 ,y0 ) (x,y)→(x0 ,y0 )
36 Funções Holomorfas Cap. 3

e esses são iguais a


lim u(x, y) = u0
(x,y)→(x0 ,y0 )
e
lim v(x, y) = v0 .
(x,y)→(x0 ,y0 )

De fato,

|z − z0 | = |(x, y) − (x0 , y0 )| = |(x − x0 , y − y0 )|

|f (z) − w0 | = |(u(x, y), v(x, y)) − (u0 , v0 )| = |(u(x, y) − u0 , v(x, y) − v0 )|.

Agora,
|u(x, y) − u0 | ≤ |f (z) − w0 |
e
|v(x, y) − v0 | ≤ |f (z) − w0 |.
Logo,

|u(x, y) − u0 | < ǫ

|(x − x0 , y − y0 )| < δ ⇒ |f (z) − w0 | < ǫ ⇒ e


|v(x, y) − v0 | < ǫ.

A reciproca desse fato é deixada como exercı́cio.


As propriedades do limite de uma função complexa são similares às
do limite de uma função real de uma variável, pois tudo que necessitamos
são a existência de uma distância e a estrutura de corpo. Daı́ vem a
seguinte
2.2 Proposição. Sejam A ⊂ C um aberto e f1 : A → C, f2 : A → C
duas funções complexas. Fixe um ponto z0 ∈ A. Se lim f1 (z) = w1 e
z→z0
lim f2 (z) = w2 então:
z→z0

(i) lim cf1 (z) = cw1 onde c é qualquer número complexo.


z→z0
(ii) lim (f1 (z) + f2 (z)) = w1 + w2 .
z→z0
(iii) lim f1 (z)f2 (z) = w1 w2 .
z→z0
1 1
(iv) se w1 6= 0 então lim = w1 .
z→z0 f1 (z)
Seção 2 Limites e Continuidade 37

Demonstração: Vamos mostrar apenas a propriedade (iii). As demais


ficam por conta do leitor interessado. Temos

|f1 (z)f2 (z) − w1 w2 | = |f1 (z)f2 (z) − f1 (z)w2 + f1 (z)w2 − w1 w2 |.

Pela desigualdade triangular

|f1 (z)f2 (z) − f1 (z)w2 + f1 (z)w2 − w1 w2 |


≤ |f1 (z)||f2 (z) − w2 | + |w2 ||f1 (z) − w1 |.

Agora, como existe o limite lim f1 (z) temos que |f1 (z)| é limitado se
z→z0
z está suficientemente próximo de z0 . De fato, basta tomar ǫ = 1 para
obter um δ1 tal que |f1 (z)| < |w1 | + 1 para 0 < |z − z0 | < δ1 . Portanto,

|f1 (z)f2 (z) − w1 w2 | < (|w1 | + 1)|f2 (z) − w2 | + |w2 ||f1 (z) − w1 |.

Como a expressão no lado direito da desigualdade fica tão pequena


quanto se queira para 0 < |z − z0 | suficientemente pequeno, o resul-
tado se segue. ⊓

Como no caso real, o conceito de função contı́nua é dado por
2.3 Definição. Sejam A ⊂ C um aberto e f : A → C uma função
complexa. Dizemos que f é contı́nua no ponto z0 ∈ A se lim f (z) =
z→z0
f (z0 ). Se f satisfaz essa propriedade em todos os pontos de A, dizemos
que f é contı́nua em A.
Um exemplo de função contı́nua em C é f (z) = z̄. Já f (z) = z1 é
contı́nua em C∗ .
Antes de enunciarmos algumas propriedades das funções complexas
contı́nuas, recordemos o conceito de composição de funções: se f : A →
C e g : B → C são funções definidas nos abertos A e B, respectivamente,
e tais que a imagem f (A) está contida em B, tem sentido a expressão
g(f (z)) para z ∈ A. A composta de f e g é, por definição, a função

g ◦ f : A −→ C
z 7−→ g(f (z)).

Com isso em mãos temos a


2.4 Proposição. Sejam A e B abertos e f1 : A → C, f2 : A → C e
g : B → C funções complexas, com f1 (A) ⊂ B. Suponha que f1 e f2 são
ambas contı́nuas em z0 ∈ A e que g é contı́nua em f1 (z0 ). Então:
38 Funções Holomorfas Cap. 3

(i) as funções cf1 : A → C, f1 + f2 : A → C, f1 .f2 : A → C são


contı́nuas em z0 , onde c é um número complexo qualquer.
1
(ii) se f1 (z0 ) 6= 0 então a função f1 : A → C é contı́nua em z0 .

(iii) a função g ◦ f1 : A → C é contı́nua em z0 .

Demonstração: (i) e (ii) ficam a cargo do leitor. Para mostrar (iii)


escolha ǫ > 0. Então, existe δg > 0 tal que

0 < |w − f1 (z0 )| < δg =⇒ |g(w) − g(f1 (z0 ))| < ǫ.

Agora, correspondendo a δg temos um número δf1 > 0 tal que

0 < |z − z0 | < δf1 =⇒ |f1 (z) − f1 (z0 )| < δg .

Daı́,
0 < |z − z0 | < δf1 =⇒ |g(f1 (z)) − g(f1 (z0 ))| < ǫ. ⊓

1 1
Por exemplo, h(z) = z̄ é contı́nua em C∗ pois é a composição de f (z) = z
com g(z) = z̄.

3 A Derivada Complexa

Aqui começa a diferença entre aplicações f : A → R2 e funções com-


plexas f : A → C. A razão disso está na estrutura multiplicativa de C,
ausente em R2 . A derivada de uma função real de uma variável real no
ponto x0 é definida como limite do quociente de Newton

f (x) − f (x0 )
lim = f ′ (x0 ).
x→x0 x − x0

Sobre C esse quociente tem sentido, ao passo que sobre R2 não, já que
não podemos dividir vetores. Com isso em mente temos a
3.1 Definição. Sejam A ⊂ C um aberto, z0 um ponto de A e f : A → C
uma função complexa. Se existir o limite

f (z) − f (z0 )
lim
z→z0 z − z0

esse é chamado a derivada de f (z) no ponto z0 e notado f ′ (z0 ).


Seção 3 A Derivada Complexa 39

Vamos dar dois exemplos ilustrativos da derivada complexa. Consi-


dere as funções f (z) = z 2 e g(z) = z̄, ambas definidas em todo C. A
primeira delas tem derivada em todos os pontos de C, ao passo que a
segunda não tem derivada em ponto algum! De fato,

f (z) − f (z0 ) z 2 − z0 2
= = z + z0
z − z0 z − z0
e portanto

f (z) − f (z0 )
f ′ (z0 ) = lim = lim z + z0 = 2z0 .
z→z0 z − z0 z→z0

Já para g temos


2
g(z) − g(z0 ) z̄ − z̄0 (z̄ − z̄0 )2 x − x0 + i(y0 − y)
= = =
z − z0 z − z0 |z − z0 |2 (x − x0 )2 + (y0 − y)2
(x − x0 )2 − (y0 − y)2 + 2i(x − x0 )(y0 − y)
= .
(x − x0 )2 + (y0 − y)2

Agora, vamos fazer z se aproximar de z0 . Como estamos no plano,


podemos fazê-lo de uma infinidade de maneiras. Então, se z é da forma
z = (t + x0 ) + iy0 a expressão acima se reduz a

(t + x0 − x0 )2 − (y0 − y0 )2 + 2i(t + x0 − x0 )(y0 − y0 ) t2


=
(t + x0 − x0 )2 + (y0 − y0 )2 t2

ao passo que, se z é da forma z = x0 + i(t + y0 ), então

(x0 − x0 )2 − (y0 − t − y0 )2 + 2i(x0 − x0 )(y0 − t − y0 ) −t2


= .
(x0 − x0 )2 + (y0 − t − y0 ))2 t2

Já se z tem a forma z = (t + x0 ) + i(t + y0 ), ficamos com

(t + x0 − x0 )2 − (y0 − t − y0 )2 + 2i(t + x0 − x0 )(y0 − t − y0 )


(t + x0 − x0 )2 + (y0 − t − y0 )2
−2it2
= = −i.
2t2

Portanto, o quociente g(z)−g(z


z−z0
0)
assume o valor constante 1 ao longo
da reta y = y0 , assume o valor constante −1 ao longo da reta x = x0 e
40 Funções Holomorfas Cap. 3

assume o valor constante −i ao longo da reta y−y0 = x−x0 . Concluimos,


da definição de limite, que lim g(z)−g(z
z−z0
0)
não existe.
z→z0

3.2 Proposição. Se f é derivável em z0 então f é contı́nua em z0 .


Demonstração: Temos

f (z) − f (z0 )
lim (f (z) − f (z0 )) = lim (z − z0 ) = f ′ (z0 ) 0 = 0.
z→z0 z→z0 z − z0

Logo, lim f (z) = f (z0 ). ⊓



z→z0

3.3 Proposição. Se f e g são deriváveis em z0 , então também o são cf


(c um número complexo qualquer), f + g, f g e f1 (desde que f (z0 ) 6= 0)
e valem:
(i) (cf )′ (z0 ) = cf ′ (z0 )
(ii) (f + g)′ (z0 ) = f ′ (z0 ) + g ′ (z0 )
(iii) (f g)′ (z0 ) = f (z0 )g ′ (z0 ) + g(z0 )f ′ (z0 )
 ′ ′
(iv) f1 (z0 ) = − ff(z(z00)2) .

Demonstração: (i),(ii) e (iii) ficam para o leitor. Quanto a (iv) temos

1 1 f (z0 )−f (z)


f (z) − f (z0 ) f (z)f (z0 ) −1 f (z) − f (z0 )
= = .
z − z0 z − z0 f (z)f (z0 ) z − z0

Logo,
1 1
f (z) − f (z0 ) −1 f (z) − f (z0 ) f ′ (z0 )
lim = lim =− . ⊓

z→z0 z − z0 z→z0 f (z)f (z0 ) z − z0 f (z0 )2

Quanto à composição de funções temos a regra da cadeia:


3.4 Proposição. Sejam f : A → C e g : B → C com f (A) ⊂ B. Se f
é derivável em z0 e g é derivável em f (z0 ), então g ◦ f é derivável em z0
e
(g ◦ f )′ (z0 ) = g ′ (f (z0 ))f ′ (z0 ).

Demonstração: Ponha w0 = f (z0 ) e defina a função h por


(
g(w)−g(w0 )
w−w0 − g ′ (w0 ) se w 6= w0
h(w) =
0 se w = w0
Seção 3 A Derivada Complexa 41

h está definida num disco aberto centrado em w0 e é contı́nua em w0


pois, como g é derivável em w0 , lim h(w) = h(w0 ) = 0. Além disso,
w→w0
lim (h ◦ f )(z) = h(f (z0 )) = h(w0 ) = 0, já que f é contı́nua em z0 . Se
z→z0
w 6= w0 vale a seguinte relação

g(w) − g(w0 ) = (h(w) + g ′ (w0 ))(w − w0 )

que também é claramente verdadeira para w = w0 . Troque w por f (z)


na relação acima:

g(f (z)) − g(f (z0 )) = (h(f (z)) + g ′ (f (z0 )))(f (z) − f (z0 )),

divida por z − z0
g(f (z)) − g(f (z0 ))  f (z) − f (z0 )
= h(f (z)) + g ′ (f (z0 )) ,
z − z0 z − z0
tome o limite z → z0 e obtenha

(g ◦ f )′ (z0 ) = g ′ (f (z0 ))f ′ (z0 ). ⊓


Vejamos as implicações da existência de f ′ (z0 ) quando consideramos


a função f : A → C como uma aplicação f : A → R2 , dependente das
variáveis reais x e y.
Escreva f (z) = f (x, y) = u(x, y) + iv(x, y) = (u(x, y), v(x, y)) e
z0 = x0 + iy0 = (x0 , y0 ). Para facilitar a leitura colocamos u(x, y) = u,
v(x, y) = v, u(x0 , y0 ) = u0 e v(x0 , y0 ) = v0 . O quociente de Newton lê-se

f (z) − f (z0 ) u + iv − (u0 + iv0 )


=
z − z0 x + iy − (x0 + iy0 )
[(u − u0 ) + i(v − v0 )][(x − x0 ) − i(y − y0 )]
=
(x − x0 )2 + (y − y0 )2
(u − u0 )(x − x0 ) + (v − v0 )(y − y0 )
=
(x − x0 )2 + (y − y0 )2
(v − v0 )(x − x0 ) − (u − u0 )(y − y0 )
+i .
(x − x0 )2 + (y − y0 )2

Vamos fazer z tender a z0 . Como o limite f ′ (z0 ) existe, obteremos o


mesmo resultado qualquer que seja a direção de aproximação. Assim
sendo, vamos considerar inicialmente a aproximação ao longo da reta
42 Funções Holomorfas Cap. 3

y = y0 , isto é, colocamos z = x + iy0 e fazemos x tender a x0 . Nessas


condições a expressão acima assume a forma

f (z) − f (z0 ) [u(x, y0 ) − u(x0 , y0 )] + i[v(x, y0 ) − v(x0 , y0 )]


=
z − z0 x − x0
u(x, y0 ) − u(x0 , y0 ) v(x, y0 ) − v(x0 , y0 )
= +i .
x − x0 x − x0

Portanto (reveja a definição2.3 do Capı́tulo 2),

f (z) − f (z0 )
f ′ (z0 ) = lim
z→z0 z − z0
u(x, y0 ) − u(x0 , y0 ) v(x, y0 ) − v(x0 , y0 )
= lim + i lim
x→x0 x − x0 x→x 0 x − x0
∂u ∂v
= (x0 , y0 ) + i (x0 , y0 ).
∂x ∂x
Tome agora z tendendo a z0 ao longo da reta x = x0 , isto é, faça
z = x0 + iy. Nesse caso

f (z) − f (z0 ) [v(x0 , y) − v(x0 , y0 )] − i[u(x0 , y) − u(x0 , y0 )]


=
z − z0 y − y0
v(x0 , y) − v(x0 , y0 ) u(x0 , y) − u(x0 , y0 )
= −i
y − y0 y − y0

e concluimos que

f (z) − f (z0 )
f ′ (z0 ) = lim
z→z0 z − z0
v(x0 , y) − v(x0 , y0 ) u(x0 , y) − u(x0 , y0 )
= lim − i lim
y→y0 y − y0 y→y 0 y − y0
∂v ∂u
= (x0 , y0 ) − i (x0 , y0 ).
∂y ∂y

Ora, temos então que

∂u ∂v
f ′ (z0 ) = (x0 , y0 ) + i (x0 , y0 )
∂x ∂x
e
∂v ∂u
f ′ (z0 ) = (x0 , y0 ) − i (x0 , y0 )
∂y ∂y
Seção 3 A Derivada Complexa 43

e acabamos de mostrar a
3.5 Proposição. (Condições de Cauchy-Riemann).1 Se a funçãof (z) =
u(x, y) + iv(x, y) tem derivada no ponto z0 = x0 + iy0 então

∂u ∂v ∂v ∂u
(x0 , y0 ) = (x0 , y0 ) e (x0 , y0 ) = − (x0 , y0 ). ⊓

∂x ∂y ∂x ∂y

Observação: Uma dedução rápida dessas equações é a seguinte: vimos,


no Capı́tulo 1, que um número complexo a + bi está identificado com a
matriz  
a −b
.
b a
Como f é derivável em z0 , temos que, considerando f como aplicação
real, ela também é derivável em (x0 , y0 ) com matriz jacobiana
 
∂u ∂u
(x 0 , y 0 ) (x 0 , y 0 )
 ∂x ∂y

 .
∂v ∂v
(x
∂x 0 0 , y ) ∂y (x0 0, y )

Essa matriz representa então um número complexo e portanto, é da


forma acima. ⊓

A recı́proca da proposição 3.5 é falsa, isto é, se as componentes u e
v de uma função complexa satisfazem as condições de Cauchy-Riemann
num ponto z0 , não é verdade que f seja derivável em z0 . Um exemplo é
(
0 + 0i se xy = 0
f (z) =
1 + 0i se xy 6= 0

Essa função tem todas as derivadas parciais na origem e essas valem 0,


logo as condições de Cauchy-Riemann são satisfeitas em 0. Porém, como
não é contı́nua não pode ser derivável em 0.
Uma condição para que valha a recı́proca é dada pela
3.6 Proposição. Seja f : A → C, A ⊂ C aberto, f (z) = u(x, y) +
iv(x, y), uma função complexa tal que as derivadas parciais ∂u ∂u ∂v
∂x , ∂y , ∂x ,
∂v
∂y existem em A e são contı́nuas no ponto z0 = x0 + iy0 ∈ A. Se as
1
Essas condições já eram conhecidas por D’Alembert em 1752, 37 anos antes do
nascimento de Cauchy.
44 Funções Holomorfas Cap. 3

condições de Cauchy-Riemann são satisfeitas em z0 , então f é derivável


em z0 .
Demonstração: Começamos mostrando o seguinte
Lema. Seja F : A → R, A ⊂ R2 aberto, uma função admitindo deriva-
das parciais em A, que são contı́nuas no ponto (x0 , y0 ) ∈ A. Então
 
∂F
F (x, y) − F (x0 , y0 ) = (x − x0 ) (x0 , y0 ) + H(x − x0 , y − y0 )
∂x
 
∂F
+ (y − y0 ) (x0 , y0 ) + K(x − x0 , y − y0 ) .
∂y

onde
lim H(x − x0 , y − y0 ) = 0
(x,y)→(x0 ,y0 )

e
lim K(x − x0 , y − y0 ) = 0.
(x,y)→(x0 ,y0 )

Demonstração do Lema. Ponha x = x0 + h e y = y0 + k e escreva


F (x0 +h, y0 +k)−F (x0 , y0 ) = F (x0 +h, y0 +k)−F (x0 , y0 +k)+F (x0 , y0 +
k) − F (x0 , y0 ). Invocando o teorema do Valor Médio para funções reais
de uma variável temos que existe um número 0 < t < 1 tal que

∂F
F (x0 + h, y0 + k) − F (x0 , y0 + k) = h (x0 + th, y0 + k).
∂x
∂F
Como ∂x é contı́nua em (x0 , y0 ), a diferença

∂F ∂F
H(h, k) = (x0 + th, y0 + k) − (x0 , y0 )
∂x ∂x
tende a zero para (h, k) → (0, 0). Logo,
 
∂F
(1) F (x0 + h, y0 + k) − F (x0 , y0 + k) = h (x0 , y0 ) + H(h, k) .
∂x

Analogamente,

∂F
F (x0 , y0 + k) − F (x0 , y0 ) = k (x0 , y0 + tk)
∂y
Seção 3 A Derivada Complexa 45

para algum 0 < t < 1 e a diferença

∂F ∂F
K(h, k) = (x0 , y0 + tk) − (x0 , y0 )
∂y ∂y

tende a zero para (h, k) → (0, 0). Portanto,


 
∂F
(2) F (x0 , y0 + k) − F (x0 , y0 ) = k (x0 , y0 ) + K(h, k) .
∂y

Somando (1) e (2) temos o lema. ⊓



Para demonstrar a proposição aplicamos o lema às componentes u e
v de f para escrever

f (z) − f (z0 ) = u(x, y) − u(x0 , y0 ) + i(v(x, y) − v(x0 , y0 ))


 ∂u   
∂u
= (x − x0 ) (x0 , y0 ) + H1 + (y − y0 ) (x0 , y0 ) + K1
∂x ∂y
  ∂v   
∂v
+ i (x − x0 ) (x0 , y0 ) + H2 + (y − y0 ) (x0 , y0 ) + K2 .
∂x ∂y

Usando as condições de Cauchy-Riemann ficamos com


 ∂u ∂v 
f (z) − f (z0 ) = (z − z0 ) (x0 , y0 ) + i (x0 , y0 )
∂x ∂x
+ (H1 + iH2 )(x − x0 ) + (K1 + iK2 )(y − y0 )

e dividindo por z − z0

f (z) − f (z0 ) ∂u ∂v
= (x0 , y0 ) + i (x0 , y0 )
(z − z0 ) ∂x ∂x
x − x0 y − y0
+ (H1 + iH2 ) + (K1 + iK2 ) .
z − z0 z − z0
Para concluir a demonstração basta mostrar que
 
x − x0 y − y0
lim (H1 + iH2 ) + (K1 + iK2 ) = 0.
z→z0 z − z0 z − z0

Agora,
x − x0 y − y0
z − z0 ≤ 1 e z − z0 ≤ 1

46 Funções Holomorfas Cap. 3

(lembre-se de que, ao passarmos ao limite sempre assumimos z 6= z0 !).


Logo,
 
x − x0 y − y0
lim |H1 + iH2 | + |K1 + iK2 |
z→z0 z − z0 z − z0
≤ lim (|H1 + iH2 | + |K1 + iK2 |) = 0.
z→z0


A proposição acima mostra que a função f (z) = z z̄ é derivável ape-


nas na origem. De fato, ∂u ∂u ∂v ∂v
∂x = 2x, ∂y = 2y, ∂x = 0 e ∂y = 0. Logo, como
as derivadas parciais são contı́nuas e as condicões de Cauchy-Riemann
valem apenas em 0 temos f ′ (0) = 0.
Uma formulação alternativa das condições de Cauchy-Riemann é a
seguinte: recorde que x = z+z z−z
2 e y = 2i . Logo, escrevendo
   
z+z z−z z+z z−z
f = u(x, y) + iv(x, y) = u , + iv ,
2 2i 2 2i

temos, pela regra da cadeia


 
∂f ∂u ∂x ∂u ∂y ∂v ∂x ∂v ∂y
= + +i + .
∂z ∂x ∂z ∂y ∂z ∂x ∂z ∂y ∂z

ou seja,  
∂f 1 ∂u 1 ∂u 1 ∂v 1 ∂v
= − +i − .
∂z 2 ∂x 2i ∂y 2 ∂x 2i ∂y
Com isso em mãos, verifica-se imediatamente que as condições de Cauchy-
Riemann são satisfeitas no ponto z0 se, e somente se, vale
∂f
3.5 bis. (Condições de Cauchy-Riemann). ∂z (z0 ) = 0. ⊓

4 Funções Holomorfas

Finalmente podemos definir nosso principal objeto de estudo:


4.1 Definição. Seja f : A → C, A ⊂ C aberto, uma função complexa.
f é holomorfa em A se f ′ (z) existe para todo ponto z ∈ A.
Observe que, por 3.5 bis, dizer que f é holomorfa em A é o mesmo que
dizer que ∂f
∂z (z) = 0 em todos os pontos do aberto A. Isso “esclarece”a
Seção 4 Funções Holomorfas 47

afirmativa feita no inı́cio desse capı́tulo, de que uma função é holomorfa


quando não depende da variável z.
A Proposição 3.6 fornece um critério (condição suficiente) para iden-
tificar uma função holomorfa: se f = u + iv e as derivadas parciais de
u e de v existem, são contı́nuas e satisfazem as condições de Cauchy-
Riemann em A, então f é holomorfa em A. Muito mais forte é o te-
orema de Loomann-Menchof 2 , que afirma que, se f é contı́nua e as
derivadas parciais de u e de v existem e satisfazem as condições de
Cauchy-Riemann em todos os pontos de A, então f é holomorfa em A.
Por exemplo, um polinômio

P (z) = an z n + · · · + a1 z + a0 , n ∈ N, an 6= 0,

é holomorfo em todo o plano C. Para ver isso basta mostrar que um


monômio f (z) = z m é holomorfo e utilizar a proposição 3.2. Ora, é fácil
ver que
z m − z0 m
= z m−1 + z m−2 z0 + z m−3 z02 + · · · + zz0m−2 + z0m−1 .
z − z0
Além disso, f (z) = z m é contı́nua em todo ponto do plano (veja exercı́-
cios), logo
f (z) − f (z0 )
f ′ (z0 ) = lim = mz0m−1
z→z0 z − z0
e concluimos que f ′ (z) = mz m−1 qualquer que seja z ∈ C. Daı́ vem que

P ′ (z) = nan z n−1 + · · · + a1 .

Já que polinômios são holomorfos, as funções racionais, isto é, quocientes
P (z)
de polinômios f (z) = Q(z) , também o são em todos os pontos para
os quais Q não se anula (veremos adiante que um polinômio se anula
apenas num número finito de pontos). Observe também que, pela regra
da cadeia, a composta de funções holomorfas é holomorfa.
4.2 Definição. Uma função complexa f , definida em todo C e que é
holomorfa em C é chamada função inteira. Um ponto singular de uma
função complexa f (ou singularidade de f ) é um ponto z0 tal que existe
um disco D(z0 , r) no qual f é holomorfa exceto no ponto z0 .
2
A prova desse resultado pode ser encontrada em R. Narasimhan, Complex Analy-
sis in One Variable; Birkhäuser (1985)
48 Funções Holomorfas Cap. 3

Por exemplo, funções constantes e polinômios são funções inteiras.


Quanto aos pontos singulares, 0 é o único ponto singular de f (z) = z1 , 1
1
e i são os pontos singulares de f (z) = (z−1)(z−i) ao passo que f (z) = z̄
não possui pontos singulares pois não é derivável em ponto algum.
Um exemplo importante de função inteira é

5 A Exponencial

5.1 Definição. A função exponencial é definida por

exp(z) = ex (cos y + i sen y).

Primeiramente observe que exp(z) está definida para todo z ∈ C.


Além disso suas componentes são

u(x, y) = ex cos y
v(x, y) = ex sen y

e temos
∂u
= ex cos y
∂x
∂u
= −ex sen y
∂y
∂v
= ex sen y
∂x
∂v
= ex cos y
∂y
e se cumprem as condições de Cauchy-Riemann. Da continuidade des-
sas derivadas parciais concluimos que exp(z) é holomorfa em todo C e,
portanto, é uma função inteira. Além disso sua derivada é dada por
∂u ∂v
exp′ (z) = (x, y) + i (x, y)
∂x ∂x
= ex (cos y + i sen y) = exp(z).

Antes de mais nada note que se z é real, z = x + 0i, então exp z = ex .


Por outro lado,
q
| exp z| = ex (cos y)2 + ( sen y)2 = ex
Seção 5 A Exponencial 49

para todo z. Como ex > 0 obtemos


exp z 6= 0.
Agora, recordando a representação polar
exp z1 exp z2 = ex1 (cos x1 + i sen y1 )ex2 (cos x2 + i sen y2 )
= ex1 ex2 (cos (x1 + x2 ) + i sen (y1 + y2 ))
(I)
= e(x1 +x2 ) (cos (x1 + x2 ) + i sen (y1 + y2 ))
= exp (z1 + z2 )
e
1 1
= x
exp z e (cos y + i sen y)
1
(II) = x (cos y − i sen y)
e
= e−x (cos (−y) + i sen (−y))
= exp (−z).
Por (I) e (II)
exp z1
= exp z1 exp (−z2 ) = exp (z1 − z2 ).
exp z2
Invocando (I),(II) e usando indução
(III) (exp z)n = exp(nz) qualquer que seja n ∈ Z.
Até agora, as propriedades da exponencial complexa coincidiram com
as da exponencial real. As diferenças começam na extração de rai-
zes (recorde a fórmula do Capı́tulo 1), pois se n é um inteiro positivo
então, para cada z ∈ C existem n números complexos w(z) satisfazendo
w(z)n = exp z. Esse é um exemplo do que chamamos de função multi-
forme. De fato,
1 1
(exp z) n = [ex (cos y + i sen y)] n
    
x n 1 y + 2jπ y + 2jπ
= (e ) cos + i sen
n n
    
(IV) x y + 2jπ y + 2jπ
=e cos + i sen
n n n
 
z + 2πij
= exp para 1 ≤ j ≤ n.
n
50 Funções Holomorfas Cap. 3

Segue de (III) e (IV) que, se m ∈ Z e n ∈ N


m
n 1
om hm i
(exp z) n = (exp z) n = exp (z + 2πij) para 1 ≤ j ≤ n.
n
Outra diferença entre as exponenciais complexa e real é que exp z é
periódica, de perı́odo imaginário 2πi, pois

exp (z + 2πi) = ex (cos (y + 2π) + i sen (y + 2π))


= ex (cos y + i sen y) = exp z.

Geometricamente, isso quer dizer que a imagem das retas verticais x =


x0 pela exponencial são circulos centrados em 0, de raio ex0 . Já as retas
horizontais y = y0 são enviadas por exp em semi-retas emanando da
origem.
Quanto à conjugação temos

exp z = ex (cos y + iseny)


= ex (cos y − i sen y) = ex (cos (−y) + i sen (−y)) = exp z̄

e portanto
| exp z|2 = exp z exp z = exp z exp z̄.
Uma outra propriedade fundamental da exponencial complexa é que ela
assume qualquer valor complexo não nulo, ou seja, exp : C → C∗ é
sobrejetiva. Para ver isso seja w = w1 + iw2 6= 0 e considere a equação

exp z = ex (cos y + i sen y) = w1 + iw2 .

Ora, isso é simplesmente uma representação polar de w e concluimos


que x = log |w| (logaritmo natural) e que y é um argumento de w.
Suponha agora que z é imaginário, z = iy. Então

exp z = exp (iy) = cos y + i sen y.

Essa igualdade fornece uma maneira conveniente de expressar a forma


polar de um número complexo, pois w = r(cos θ + i sen θ) se escreve

w = r exp (iθ).

Além disso, como exp (x + 0i) = ex , as propriedades da exponencial


não são conflitantes com as notações usuais para potências do número
Seção 6 O Logaritmo 51

e = 2, 718281..., o único número real para o qual se tem log e = 1


(logaritmo natural). Assim sendo introduzimos a notação, devida a
Euler,
exp (iθ) = eiθ .
Dessa maneira, a forma polar w = r(cos θ + i sen θ) se lê w = reiθ .
Também convencionaremos escrever

exp z = ez = ex+iy = ex eiy .

6 O Logaritmo

No caso real, a função logaritmo é a inversa da função exponencial, isto


é, um número real y é o logaritmo do número real positivo x, log(x) = y,
se, e somente se, ey = x. No caso complexo temos um problema pois a
exponencial complexa é periódica ez = ez+2πij , j ∈ Z. Assim sendo, é
preciso certa cautela para inverte-la pois não é possı́vel obter uma única
função f satisfazendo
exp (f (z)) = z
porque, dada uma tal f , para a função g(z) = f (z) + 2πik, k ∈ Z,
também vale que

exp (g(z)) = exp (f (z) + 2πik) = exp (f (z)) exp 2πik = exp (f (z)).

Dado z ∈ C, z 6= 0, queremos definir o logaritmo de z por

se z = ew então w = log z.

Escreva z = reiθ , −π < θ ≤ π e w = u + iv. A expressão acima fica

(1) reiθ = eu+iv = eu eiv .

Primeiramente |z| = |eu+iv | fornece

(2) r = eu

e temos a única solução


u = log r
onde log é o logaritmo real. De (1) e (2) resulta que

eiθ = eiv
52 Funções Holomorfas Cap. 3

e portanto
v = θ + 2πn n ∈ Z.

Logo,
w = log z = log r + i(θ + 2πn)

ou
log z = log |z| + i arg z.

Essa igualdade deixa clara a natureza multiforme do logaritmo pois um


número não nulo z tem uma infinidade de argumentos. Para obtermos
uma função, somos forçados a nos restringir a domı́nios em C nos quais o
argumento possa ser determinado univocamente. Tais domı́nios podem
ser obtidos como se segue: tome uma semi-reta fechada emanando da
origem, Lφ = {(t cos φ, t sen φ) : 0 ≥ t ∈ R}, onde 0 ≤ φ < 2π e ponha

Dφ = C \ Lφ .

Para todo z ∈ Dφ temos precisamente um único valor argφ z satisfazendo


φ < argφ < φ + 2π. Portanto podemos definir uma função, chamada um
ramo do logaritmo
log : Dφ −→ C

por
log z = log |z| + iargφ z.

O ramo do logaritmo definido no domı́nio D0 , obtido retirando-se de C


o semi-eixo (x, 0), x ≤ 0, é chamado de ramo principal.
Para o ramo principal temos −π < arg0 z < π e afirmamos que arg0 z
é uma função contı́nua em D0 . Para ver isso considere os tês domı́nios

U1 = {z : Im(z) > 0}
U2 = {z : Re(z) > 0}
U3 = {z : Im(z) < 0}

Sua união U1 ∪ U2 ∪ U3 é D0 .
Seção 6 O Logaritmo 53

U1
D0

U2
(0,0) x

U3

Domínio de definição do ramo principal do logaritmo


Figura 10

Se um número complexo z está em U1 , então seu argumento satisfaz


0 < arg0 z < π. Escrevendo z = x + iy temos que
p Rez
cos (arg0 z) = x x2 + y 2 =
|z|
e podemos tomar  
Rez
arg0 z = arccos
|z|
que é uma função contı́nua (a inversa da função cos no intervalo (0, π)
tal que arccos (0) = π2 ). No domı́nio U2 temos que −π π
2 < arg0 z < 2 e

y Imz
sen (arg0 z) = p = .
x2 + y 2 |z|

Aqui tomamos  
Imz
arg0 z = arcsen
|z|
onde arcsen é a inversa da função sen no intervalo ( −π π
2 , 2 ) e que vale 0
em 0; também uma função contı́nua. Para z ∈ U3 temos −π < arg0 z <
0. Novamente
x Rez
cos (arg0 z) = p = .
2
x +y 2 |z|
Aqui fazemos  
Rez
arg0 z = arccos
|z|
54 Funções Holomorfas Cap. 3

onde arccos é a inversa da função cos no intervalo (−π, 0) tal que


arccos (0) = −π 2 , uma função contı́nua. Como arg0 z é contı́nua em
cada um dos domı́nios U1 , U2 e U3 , ela o é na união desses domı́nios
e portanto é contı́nua em D0 .
Com isso em mãos podemos afirmar que o ramo principal do loga-
ritmo é uma função contı́nua em D0 . Vamos mostrar que ela é holomorfa
nesse domı́nio. Dado z0 ∈ D0 seja w0 ∈ C tal que ew0 = z0 . Então

log z − log z0 w − w0 1 1
log′ (z0 ) = lim = lim w w
= w
= .
z→z0 z − z0 w→w0 e − e 0 e 0 z0

Portanto
1
log′ (z) = qualquer que seja z ∈ D0 .
z
O mesmo argumento utilizado acima mostra que o ramo de log definido
em Dφ é holomorfo, qualquer que seja φ (exercı́cio).

7 Potências Arbitrárias

Uma vez definidas as funções exponencial e logaritmo podemos introdu-


zir a
7.1 Definição. Dados um domı́nio Dφ , como acima, e um número
λ ∈ C, a função z 7−→ z λ é definida por

z λ = exp (λ log z)

onde z ∈ Dφ e log é o ramo do logaritmo definido em Dφ .


O ramo principal da função z λ é obtido tomando-se o ramo principal
do logaritmo na expressão que a define. Notando f esse ramo temos que

f : D0 −→ C
z 7−→ z λ

é holomorfa em D0 e sua derivada é (usando a regra da cadeia)

λ exp (λ log z)
f ′ (z) = exp (λ log z) =λ
z exp (log z)
= λ exp ((λ − 1) log z) = λz λ−1 .
Seção 8 Exercı́cios 55

Essa função generaliza a noção usual de potência pois, se n é um inteiro


positivo

z n = exp (n log z) = exp (log z) · · · exp (log z) = |z ·{z


· · z} .
| {z }
n vezes n vezes

Já (lembre-se que estamos considerando o ramo principal)


 
1 h √ arg0 z i √ h arg z i √
0
exp log z = exp log n r + i = n r exp i = nz
n n n

onde z = rearg0 z . Portanto, exp ( n1 log z) fornece uma raiz n-ésima de z.

8 Exercı́cios
n
P 
1) Recorde a fórmula binomial (x + y)n = n
i xn−i y i e use-a para
i=0
mostrar que f (z) = z n é uma função contı́nua em C para n ∈ N.
2) Seja (
x3 y(y−ix)
x6 +y 2
se z 6= 0
f (z) =
0 se z = 0.
f (z)−f (0)
Mostre que z−0 → 0 para z → 0 ao longo de qualquer reta passando
f (z)−f (0)
pela origem, mas que lim z−0 não existe.
z→0

3) Verifique se se cumprem as condições de Cauchy-Riemann para as


seguintes funções:
(i) f (z) = x3 − 3xy 2 + i(3x2 y − y 3 )
(ii) f (z) = e−y (cos x + i sen x)
(iii) f (z) = e−x (cos y − i sen y)
(iv) f (z) = ey (cos x + i sen x)
4) Seja f (z) uma função inteira. Mostre que a função g(z) = f (z̄)
também é inteira. Mostre que h(z) = f (z) é derivável em 0 se, e somente
se, f ′ (0) = 0.
5) Calcule a derivada das seguintes funçõese determine seus pontos sin-
gulares:
3z−1
(i) f (z) = (z−1)(z+4)
56 Funções Holomorfas Cap. 3

iz 5 +2z−i
(ii) f (z) = (z−2i)(z+1)2
1
(iii) f (z) = (z−i)z(z 2 +i)
z−i
(iv) f (z) = z+i
5+πi
 7+3πi
 −1−5πi

6) Calcule exp 4 , exp 2 , exp 6 .
7) Para quais valores de z vale exp (iz̄) = exp (iz̄)?
8) Em quais pontos a função exp z̄ é derivável?
2
9) Determine Re(eiz ).
10) Defina o seno e o co-seno complexos por
1  iz  1  iz 
cos z = e + e−iz sen z = e − e−iz
2 2i
Mostre que essas funções são inteiras e calcule suas derivadas. Dê essas
funções na forma u + iv. Mostre que essas funções são periodicas e
determine seus periodos. Ache os zeros dessas funções.
11) Determine Im(ei sen z ).
12) Resolva a desigualdade |e−iz | < 1.
13) Ponha tan z = sen z
cos z . Calcule a derivada de tan z e determine seus
pontos singulares. Dê essa função na forma u + iv.
14) Mostre que:
(i) cos z = cos z̄
(ii) sen z = sen z̄
 2
ey −e−y
(iii) | sen z|2 = sen 2 x + 2 .
2 2
(iv) | cos z| + | sen z| = 1 se e só se z é real.
(v) sen 2 z + cos2 z = 1.
15) Defina o seno e o co-seno hiperbólicos complexos por
1 z  1 z 
cosh z = e + e−z senh z = e − e−z
2 2
Mostre que essas funções são inteiras e calcule suas derivadas. Dê essas
funções na forma u + iv.
16) Ponha tanh z = senh z
cosh z . Calcule sua derivada. Dê essa função na
forma u + iv. Determine os pontos z para os quais tanh z é real.
Seção 8 Exercı́cios 57

17) Mostre que


(i) 2 sen (z1 + z2 ) sen (z1 − z2 ) = cos 2z2 − cos 2z1
(ii) 2 cos (z1 + z2 ) sen (z1 − z2 ) = sen 2z1 − sen 2z2
18) Mostre que senh (z + πi) = − senh z e que cosh (z + πi) = − cosh z.
19) Determine todos os z que satisfazem
(i) senh z = i
(ii) senh z = −i
(iii) cosh z = 0
(iv) senh z = 0
20) Use as partes real e imaginária da relação

1 − z n+1
1 + z + z2 + · · · + zn =
1−z
para obter uma fórmula para
(i) 1 + cos x + cos 2x + · · · + cos nx
(ii) sen x + sen 2x + · · · + sen nx
(iii) sen θ + sen (θ + ϕ) + · · · + sen (θ + nϕ)
21) Se z1 , . . . , zk são números tais que Rezj > 0 e Re(z1 . . . zj ) > 0 para
1 ≤ j ≤ k, então log (z1 . . . zk ) = log z1 + · · · + log zk . Aqui, log é o ramo
principal do logaritmo.
22) Resolva as equações ez = −1, ez = 1 + i, ez = −i, ez = 3i.
23) O chamado paradoxo de Bernoulli é o seguinte:

(−z)2 = z 2 ⇒ 2 log (−z) = 2 log z ⇒ log (−z) = log z.

Aonde está o êrro?


24) Determine arg0 z onde z é cada um dos números 1 + i, (1 + i)4 ,
√ 5
3
2 + i . Calcule o logaritmo (ramo principal) desses números.
√ √
25) Usando o ramo principal de z λ calcule 2 2 , 12 2, (5i)1+i, 1i, 1−i.

26) Determine o ramo principal da função z − 1.
27) Derive a função log (tanh z 2 ).
58 Funções Holomorfas Cap. 3

28) Mostre que a função exponencial ez é uma bijeção entre a faixa


infinita {z : 0 < Im(z) < π} e o semi-plano superior {z : Im(z) > 0}.
29) Mostre que a função exponencial ez é uma bijeção do aberto
{z : Re(z) < 0, 0 < Im(z) < π} sobre o aberto {z : |z| < 1, Re(z) > 0}.
30) Determine a imagem do domı́nio interior a um retângulo {z : a <
Re(z) < b, 0 < Im(z) < π} pela exponencial.
31) Mostre que a imagem do aberto {z : −π/2 < Re(z) < π/2, 0 <
Im(z)} pela função f (z) = sen z é o semi-plano superior {z : Im(z) > 0}.
32) Mostre que a função f (z) = z n , n ≥ 1, fornece uma bijeção en-
tre o aberto {z : |z| > 0, 0 < arg(z) < π/n} e o semi-plano superior
{z : Im(z) > 0}. Determine a inversa dessa bijeção.
4

Séries

1 Sequências e Séries Numéricas

Séries de potências são essenciais no estudo das funções holomorfas pois


essas se expressam localmente como tais. Por sua vez, os ingredientes
necessários à compreensão das séries de potências são sequências e séries
numéricas. Começamos então com a
1.1 Definição. Uma sequência numérica é uma função do conjunto dos
naturais N = {0, 1, 2, 3, . . . } em C,

f : N −→ C.

O número complexo f (n) é chamado n-ésimo termo ou termo geral da


sequência.
Dessa maneira, uma sequência fica expressa através dos pontos
f (0), f (1), . . . , f (n), . . . ou seja, através do conjunto imagem de f , {f (n)},
(n ∈ N). Para simplificar a notação, podemos também escrever uma
sequência como a0 , a1 , . . . , an , . . . onde ai denota o número f (i) e notá-
la (ai ). Exemplos de sequências são:
1) uma sequência constante a, a, a . . . , dada pela função constante
f (n) = a qualquer que seja n ∈ N.
2) os termos de uma progressão aritmética a, a + r, a + 2r, . . . , a +
nr, . . . constituem uma sequência definida pela funçãof (n) = a + nr, ou
cujo termo geral é bn = a + nr.
60 Séries Cap. 4

3) os termos de uma progressão geométrica a, ar, ar2 , . . . , arn , . . .


formam uma sequência definida pela função f (n) = arn ou por bn = arn .
4) sequências que são definidas recursivamente, por exemplo,
a0 = 1, a1 = 2 e an = an−1 + an−2 para n ≥ 2. Nesse caso temos
a0 = 1, a1 = 2, a2 = 3, a3 = 5, a4 = 8 etc.
5) a sequência formada pelos números primos p0 = 2, p1 = 3, p2 = 5,
p3 = 7, p4 = 11, . . . . Esse exemplo ilustra o fato de que muitas vezes uma
sequência, apesar de perfeitamente definida, não pode ter seu termo geral
explicitado, já que é impossı́vel obter uma fórmula para esses números.
A primeira pergunta a se fazer sobre uma sequência é se ela é limitada
ou não. Mais formalmente, dizemos que (an ) é limitada se podemos
encontrar um número positivo K tal que |ai | < K valha para todos
os termos da sequência. Isso quer dizer que os pontos ai estão todos
contidos no disco D(0, K), de centro 0 e raio K. (an ) é dita ilimitada caso
contrário, ou seja, quando dado qualquer número positivo K, podemos
encontrar um termo ai da sequência satisfazendo |ai | > K. A sequência
constante é òbviamente limitada, já a sequência dos números primos é
ilimitada (exercı́cio). Como sempre, o conceito fundamental associado
a uma sequência numérica é o de limite. Daı́ vem a
1.2 Definição. Um número complexo a é o limite da sequência (an )
se os termos da sequência ficam arbitrariamente próximos de a para
n suficientemente grande, isto é, se dado qualquer número positivo ǫ,
é possı́vel encontrar um número natural n0 tal que, se n ≥ n0 então
|an − a| < ǫ. Se a é o limite de (an ) escrevemos

lim an = a ou (an ) → a
n→∞

e dizemos que a sequência (an ) converge a a.


Exemplos de sequências convergentes são:
1) a sequência constante an = a converge a a.
2) a sequência an = n1 , n ≥ 1 converge a zero.
1+i
3) an = √ ,
n
n ≥ 1 converge a zero.
Note que o limite de uma sequência é único, isto é, se lim an = a e
n→∞
lim an = b então a = b, pois
n→∞

|a − b| = |a − an + an − b| ≤ |a − an | + |an − b|
Seção 1 Sequências e Séries Numéricas 61

e as duas parcelas à direita da desigualdade ficam arbitrariamente pe-


quenas quando n cresce.
Uma sequência que não possui limite é chamada divergente. Exem-
plos de sequências divergentes são:
1) an = (−1)n , que adere aos pontos 1 e −1.

2) an = n, uma sequência ilimitada.
3) an = sen nπ
2 , que adere aos pontos 0, 1 e −1.
4) a sequência (pn ) dos números primos.
Observe que, se uma sequência é convergente então ela é limitada.
De fato, suponha (an ) → a. Tome ǫ = 1 e obtenha um número n0 tal
que, para n ≥ n0 , se tem |an − a| < 1, ou seja, |an | < 1 + |a|. Agora,
escolha K satisfazendo K ≥ max{|a0 |, . . . , |an0 |, 1+|a|}. Também temos
que, se (an ) → a então (|an |) → |a|, pois vale ||an |−|a|| ≤ |an −a|. Além
disso, dizer que (an ) → a é equivalente a dizer que lim |an − a| = 0
n→∞
(exercı́cio).
Olhe agora para uma sequência (zn ) de números complexos. Esses
se escrevem zn = an + ibn , onde (an ) e (bn ) são sequências de números
reais. Afirmamos que (zn ) → w = a + ib se, e somente se, (an ) → a
e (bn ) → b. Para ver isso, se (zn ) → w então, dado ǫ > 0 podemos
encontrar n0 tal que
n ≥ n0 =⇒ |zn − w| < ǫ.
Agora, se z = x + iy é um número complexo qualquer, temos que
p p
|x| ≤ x2 + y 2 = |z| e |y| ≤ x2 + y 2 = |z|.
Fazendo z = zn − w = (an − a) + i(bn − b) concluimos que, se n ≥ n0
|an − a| ≤ |zn − w| < ǫ e |bn − b| ≤ |zn − w| < ǫ
e portanto (an ) → a e (bn ) → b. A recı́proca se segue assim: se (an ) → a
e (bn ) → b, então, dado ǫ > 0, podemos encontrar n1 e n2 tais que
ǫ ǫ
n ≥ n1 =⇒ |an − a| < e n ≥ n2 =⇒ |bn − b| <
2 2
Tomando n0 ≥ max{n1 , n2 } temos que as desigualdades acima valem
para ambas as sequências desde que n ≥ n0 e nesse caso,
ǫ ǫ
|zn − w| ≤ |an − a| + |bn − b| < + = ǫ
2 2
62 Séries Cap. 4

e portanto, (zn ) → w. Concluimos então que uma sequência de números


complexos converge se, e somente se, as sequências formadas por suas
partes real e imaginária convergem. Como essas sequências são formadas
por números reais seus limites podem, em vários casos, ser encontrados
através das técnicas usuais do Cálculo.
Sequências convergentes satisfazem a seguinte
1.3 Proposição. Sejam (zn ) e (wn ) sequências de números complexos
satisfazendo lim zn = α e lim wn = β. Então
n→∞ n→∞

(i) lim czn = cα onde c ∈ C é um número complexo qualquer.


n→∞

(ii) lim (zn + wn ) = α + β.


n→∞

(iii) lim (zn wn ) = αβ.


n→∞

1
(iv) se α 6= 0, então lim = α1 .
n→∞ zn

Demonstração: (i) e (ii) ficam a cargo do leitor. Quanto a (iii) temos


que, dado ǫ > 0 existem n1 e n2 tais que

n ≥ n1 =⇒ |zn − α| < ǫ e n ≥ n2 =⇒ |wn − β| < ǫ.

Agora,

|zn wn − αβ| = |zn wn − zn β + zn β − αβ|


r ≤ |zn wn − zn β| + |zn β − αβ|
= |zn ||wn − β| + |zn − α||β|.

Como (zn ) é uma sequência convergente, ela é limitada e podemos en-


contrar um número real K > 0 tal que |zn | < K qualquer que seja n.
Logo, |zn ||wn − β| < K|wn − β| e ficamos com

|zn wn − αβ| < K|wn − β| + |zn − α||β|.

Tomando n0 > max{n1 , n2 } temos que para n ≥ n0 vale

|zn wn − αβ| < (K + |β|)ǫ.


Seção 1 Sequências e Séries Numéricas 63

Já que ǫ é arbitrário e K e |β| são números fixados, (K +|β|)ǫ é arbitrário


e concluimos que (zn wn ) → αβ. Isso mostra (iii). Quanto a (iv) observe
que

− 1 = α − zn = 1 |zn − α|.
1
zn α zn α |zn α|

Como (zn ) → α e α 6= 0, ou seja, |α| > 0, podemos encontrar um número


natural N tal que n ≥ N ⇒ |zn − α| < |α| |α|
2 , o que nos diz que |zn | > 2 .
Concluimos então

1 1 1 2
− =
zn α |zn ||α| |zn − α| < |α|2 |zn − α|

desde que n ≥ N . Para finalizar note que lim |zn − α| = 0 e portanto


  n→∞
1 1
zn → α . ⊓

O critério mais importante e útil para decidir se uma sequência é


convergente ou não é o chamado Princı́pio Geral de Convergência ou
Princı́pio de Cauchy, que diz o seguinte:

1.4 Teorema. (Princı́pio de Cauchy) Uma sequência (zn ) converge se,


e somente se, dado qualquer número ǫ > 0, é possı́vel encontrar n0 ∈ N
tal que

n, m ≥ n0 =⇒ |zm − zn | < ǫ.

Informalmente isso quer dizer que, se os termos de uma sequência


ficam arbitrariamente próximos entre si, então a sequência é convergente.
Para uma demonstração desse teorema veja 1 .
Dada uma sequência númerica (zn ) podemos associar a ela uma
nova sequência (sn ), chamada sequência das somas parciais de (zn ) ou

1
Elon L. Lima - Espaços Métricos, Projeto Euclides, IMPA
64 Séries Cap. 4

sequência gerada por (zn ) e definida recursivamente por:


s0 = z0
s1 = s0 + z1 = (z0 ) + z1
s2 = s1 + z2 = (z0 + z1 ) + z2
..
.
sn = sn−1 + zn = (z0 + z1 + · · · + zn−2 + zn−1 ) + zn
..
.
n
P
Observe que sn = zi . Temos então a
i=0

1.5 Definição. Uma série númerica é a sequência (sn ) gerada por uma
sequência (zn ) de números complexos. Se a sequência (sn ) converge a
s, dizemos que a série converge e que sua soma é o número s. Se (sn )
diverge dizemos que a série diverge. A série numérica gerada por (zn ) é

P
notada zn .
n=0
Como no caso de sequências, escrevendo zn = xn + iyn , temos que

P ∞
P
a série numérica zn = (xn + iyn ) converge se, e somente se, as
n=0 n=0

P ∞
P
séries de números reais xn e yn convergem. Assim sendo, a con-
n=0 n=0
vergência de séries de números complexos pode ser testada aplicando-se
os critérios usuais do Cálculo às suas partes real e imaginária.
O critério mais elementar de convergência de séries numéricas envolve
séries de números reais não negativos e é dado pela

P P∞
1.6 Proposição. (Critério de Comparação) Sejam an e bn duas
n=0 n=0
séries numéricas, onde an e bn são números reais satisfazendo an ≥ 0 e
bn ≥ 0 para todo n. Suponha que an ≤ bn . Valem:
P∞ ∞
P
(i) Se bn converge então an também converge.
n=0 n=0

P ∞
P
(ii) Se an diverge então bn também diverge.
n=0 n=0
Demonstração: Vamos utilizar o Critério de Cauchy para mostrar (i).
Sejam sn = a0 + a1 + · · · + an e Sn = b0 + b1 + · · · + bn as n-ésimas somas
Seção 1 Sequências e Séries Numéricas 65


P ∞
P
parcias das séries an e bn , respectivamente. Como esta última
n=0 n=0
converge temos que, dado ǫ > 0 existe n0 tal que se n, m ≥ n0 então
|Sn − Sm | < ǫ. Podemos supor que n > m e escrever n = m + k. Então

|Sn − Sm | = |Sm+k − Sm | = bm+1 + bm+2 + · · · + bm+k < ǫ

pois bi ≥ 0. Como 0 ≤ ai ≤ bi temos que

|sm+k − sm | = am+1 + am+2 + · · · + am+k


≤ bm+1 + bm+2 + · · · + bm+k = |Sm+k − Sm | < ǫ

P ∞
P
e portanto an converge. Para mostrar (ii) observe que se an
n=0 n=0
diverge então lim sn = +∞. De fato, como an ≥ 0 temos que sn =
n→∞
sn−1 + an ≥ sn−1
e já que (sn ) diverge, só nos resta a possibilidade
(sn ) → +∞. Agora, Sn ≥ sn e concluimos (Sn ) → +∞. ⊓

Por outro lado temos também o seguinte critério, mais apropriado
para se mostrar que uma série diverge:

P
1.7 Proposição. Seja an uma série de números complexos. Se
n=0

P
an converge então a sequência (an ) converge a 0.
n=0

Demonstração: Pelo Critério de Cauchy temos que

lim |sn − sn−1 | = lim |an | = 0.


n→∞ n→∞

Concluimos que lim an = 0. ⊓



n→∞

P
A proposição acima nos diz, em particular, que se an converge
n=0
então a sequência (an ) é limitada pois lim an = 0.
n→∞
Nosso interesse principal no que diz respeito às séries numéricas está
na consideração das séries absolutamente convergentes, daı́ a

P
1.8 Definição. A série numérica zn é dita absolutamente conver-
n=0

P
gente se a série |zn |, gerada pela sequência (|zn |), for convergente.
n=0
66 Séries Cap. 4

A importância desse conceito ficará clara ao estudarmos séries de


potências porém, por agora nos contentaremos com a

P
1.9 Proposição. Se a série zn é absolutamente convergente, então
n=0
ela é convergente.

Demonstração: Novamente vamos utilizar o Critério de Cauchy. Seja



P
sn = z0 + z1 + · · · + zn a n-ésima soma parcial de zn . Observe que,
n=0
pela desigualdade triangular,

|sm+k − sm | = |zm+k + zm+k−1 + · · · + zm+1 |


≤ |zm+k | + |zm+k−1 | + · · · + |zm+1 |.

Agora, a última expressão nada mais é do que a diferença |Sm+k −



P
Sm | das somas parciais da série |zn |. Como essa é convergente, a
n=0
diferença |Sm+k − Sm | fica tão pequena quanto se queira, desde que m

P
seja suficientemente grande. Segue do Critério de Cauchy que zn
n=0
converge. ⊓

1.10 A Série Geométrica.


A série gerada pela sequência dos termos de uma progressão geométrica
é chamada uma série geométrica e desempenha um papel fundamental
no estudo da convergência de séries. Seja r > 0 um número real e
considere a sequência an = rn . A série gerada por essa sequência é dada
por sn = 1 + r + r2 + · · · + rn . É claro que se r ≥ 1 então a sequência
sn diverge. Por outro lado, foi visto no Exercı́cio 13 do Capı́tulo 1 que,
para r 6= 1
1 − rn+1
sn = 1 + r + r2 + · · · + rn = .
1−r
Agora, se r < 1 então lim rn+1 = 0. De fato, rn+1 = e(n+1) log r e,
n→∞
já que r < 1, seu logaritmo é um número negativo, log r < 0. Logo
lim rn+1 = lim e(n+1) log r = 0. Daı́ vem que
n→∞ n→∞

1 − rn+1 1
lim sn = lim = .
n→∞ n→∞ 1 − r 1−r
Seção 1 Sequências e Séries Numéricas 67

Portanto,
∞ ∞
X
n 1 X
r = para 0 < r < 1 e rn diverge para r ≥ 1.
1−r
n=0 n=0

Podemos realizar algumas operações com séries convergentes, exem-


plificadas pela

P ∞
P
1.11 Proposição. Sejam zn e wn duas séries convergentes com
n=0 n=0

P ∞
P ∞
P
zn = α e wn = β. Então as séries czn , onde c ∈ C é
n=0 n=0 n=0

P
um número qualquer e (zn + wn ) são ambas convergentes e valem
n=0

P ∞
P
czn = cα e (zn + wn ) = α + β.
n=0 n=0

Demonstração: Lembre-se que a série gerada por uma sequência é


a sequência das somas parciais desta. Logo, se sn e Sn denotam as
sequências de somas parciais de (zn ) e de (wn ) respectivamente, então,
usando a Proposição1.3 temos que

X ∞
X
czn = lim csn = c lim sn = cα = c zn
n→∞ n→∞
n=0 n=0

e

X
(zn + wn ) = lim (sn + Sn )
n→∞
n=0
= lim sn + lim Sn
n→∞ n→∞

X ∞
X
=α+β = zn + wn .
n=0 n=0

Podemos também multiplicar séries absolutamente convergentes uti-


lizando o chamado produto de Cauchy. Falaremos sobre isso na próxima
seção e nos exercı́cios do final desse capı́tulo.
68 Séries Cap. 4

2 Séries de Potências

Consideraremos agora sequências de funções, isto é, uma correspondência


que a cada número natural n ∈ N associa uma função da variável com-
plexa z, fn (z), definida num subconjunto de C. Vamos nos concentrar
num tipo simples de tais objetos, a saber, sequências de potências de z,
onde fn (z) = an z n , an ∈ C.

2.1 Definição. Dada uma sequência (an z n ), a série por ela gerada é

P
chamada uma série de potências de centro em 0 e notada an z n .
n=0

Para clarificar essa definição lembramos que a série gerada pela


sequência (an z n ) é dada pela seguinte sequência de somas parcias

S0 (z) = a0
S1 (z) = S0 (z) + a1 z = a0 + a1 z
S2 (z) = S1 (z) + a2 z 2 = (a0 + a1 z) + a2 z 2
..
.
Sn (z) = Sn−1 (z) + an z n = (a0 + a1 z + · · · + an−1 z n−1 ) + an z n
..
.

Observe que, para cada n, a n-ésima soma parcial Sn (z) é um polinômio


na variável z, isto é, uma função definida para todo z ∈ C. A questão

P
crucial é a compreensão do limite lim Sn (z) = an z n e a pergunta
n→∞ n=0
natural a se fazer é: para quais valores de z a sequência (Sn (z)) converge?
Outra formulação dessa pergunta seria: Se fizermos f (z) = lim Sn (z),
n→∞
sob que condições teremos uma função de z e aonde ela estaria definida?
Podemos responder essas questões num caso trivial. Faça z = 0.
Então S0 (0) = a0 , S1 (0) = a0 , S2 (0) = a0 , . . . , ou seja, a sequência
(Sn (0)) é constante, igual a a0 , portanto convergente. O problema é
então: existem outros valores de z para os quais (Sn (z)) converge? Uma
vez que a sequência (an ) de coeficientes de z n não está explicitada, uma
resposta parcial desse problema é dada pela

P
2.2 Proposição. Seja an z n uma série de potências.
n=0
Seção 2 Séries de Potências 69

(i) Suponha que exista um número complexo z1 6= 0 para o qual a


série converge, isto é, lim Sn (z1 ) existe. Então a série converge
n→∞
absolutamente qualquer que seja o número z satisfazendo |z| < |z1 |.

(ii) Suponha que exista um número complexo z2 6= 0 para o qual a


série diverge, isto é, lim Sn (z2 ) não existe. Então a série diverge
n→∞
qualquer que seja o número z satisfazendo |z| > |z2 |.

Demonstração: Agora ficará claro o papel da série geométrica em ar-


gumentos de convergência envolvendo séries de potências. Para mostrar

P
(i) invocamos inicialmente a Proposição 1.7. Como a série an z1 n con-
n=0
verge temos que a sequência numérica (an z1 n ) converge a 0,
lim an z1 n = 0. Ela é portanto limitada e existe então um número
n→∞
positivo K tal que K > |an z1 n | = |an ||z1 |n para todo natural n. Seja
agora z um número complexo satisfazendo |z| < |z1 |. Ponha r = |z|z|1 | .
Então r < 1 e ficamos com

 n
n n n |z|
|an z | = |an ||z| = |an ||z1 | = |an ||z1 |n rn < Krn .
|z1 |


P K
A série Krn converge a 1−r pois esta é simplesmente a série geométrica
n=0

P
rn multiplicada por K. Pelo Critério de Comparação (Proposição
n=0

P ∞
P
1.6), a série |an z n | converge e portanto an z n é absolutamente
n=0 n=0
convergente. Para mostrar (ii) suponha, por contradição, que exista

P
um número z satisfazendo |z| > |z2 | e tal que a série an z n é con-
n=0

P
vergente. Repetindo a demonstração de (i) concluimos que an z2 n
n=0

P
converge absolutamente, contrariando a hipótese. Portanto, an z n
n=0
diverge qualquer que seja z com |z| > |z2 |. ⊓

70 Séries Cap. 4

y
z2

z1

converge x

diverge

Figura 11

P
Essa proposição nos diz que, se an z n converge no ponto z1 , então
n=0
essa série converge em todos os pontos do disco (aberto) D(0, |z1 |), de

P
centro em 0 e raio |z1 |. Assim sendo, a série an z n define uma função
n=0

P
f : D(0, |z1 |) −→ C através da expressão f (z) = an z n . Por outro
n=0

P
lado, se an z n diverge em z2 , então ela diverge em todos os pontos fora
n=0
do disco fechado D(0, |z2 |), de centro em 0 e raio |z2 | (eis a explicação
para o termo ”de centro em 0”na definição de série de potências).
Esses fatos nos levam ao conceito mais importante no estudo das
séries de potências, o de raio de convergência.

P
2.3 Lema. Dada uma série de potências an z n , existe um disco fe-
n=0
chado de centro em 0 tal que a série converge absolutamente em todos os
pontos z no interior desse disco e diverge em todos os pontos z exteriores
a esse disco.
2.4 Definição. O raio R do disco dado pelo Lema é chamado de raio

P
de convergência da série an z n .
n=0
Uma demonstração desse Lema, juntamente com uma fórmula geral
para o raio de convergência, são dados no apêndice desse capı́tulo.
O Lema e a definição merecem um pouco de reflexão. Primeiramente

P
observe que uma série an z n sempre converge em z = 0. Por outro
n=0
lado, como foi observado acima, se encontrarmos um z1 no qual a série
Seção 2 Séries de Potências 71

converge, então ela converge no interior do disco fechado D(0, |z1 |). É
lı́cito portanto procurar o disco fechado de maior raio possı́vel, no inte-
rior do qual a série convirja. O Lema nos diz que tal disco existe. Agora,
pode ocorrer que esse disco se reduza ao único ponto z = 0, nesse caso
seu raio é R = 0, ou que seu raio seja um número positivo R > 0, ou
ainda que a série convirja em todos os pontos do plano C e nesse caso
temos R = ∞.
Os seguintes exemplos ilustram essas possibilidades: considere a série

P
n!z n (recorde que n! = 1 · 2 · 3 · · · n e, por definição, 0! = 1). Afirma-
n=0
mos que essa série converge apenas em z = 0. Para ver isso tome z 6= 0
qualquer e olhe para a sequência (|n!z n |) = (n!|z n |). Como |z n | > 0 te-
mos lim n!|z n | = +∞ (exercı́cio) e então lim n!z n 6= 0, o que implica
n→∞ n→∞
P∞
que n
n!z diverge (Proposição 1.7).
n=0

P
Seja agora a série z n e tome qualquer número real 0 < r < 1. Em
n=0

P
z = r a série fica rn , uma série geométrica de razão r < 1 e portanto
n=0

P
convergente. Concluimos então que z n converge qualquer que seja
n=0
z satisfazendo |z| < r < 1. Mas r < 1 é arbitrário e obtemos que essa
série converge em qualquer z no interior do disco de centro em 0 e raio
1. Nesse caso R = 1. Note que essa série diverge em todos os pontos z
tais que |z| = 1 (exercı́cio).
Tome um polinômio P (z) = a0 + a1 z + a2 z 2 + · · · + an z n . Este é a
série de potências gerada pela sequência (ai z i ) onde ai = 0 para i > n.
Claramente essa série converge para qualquer z ∈ C e nesse caso temos
que o raio de convergência é R = ∞.

P
Finalizando, se o raio de convergência da série an z n é um número
n=0
R > 0 ou R = ∞, então a série define uma função da variável complexa

P
z, f (z) = an z n , no domı́nio U = {z : |z| < R}. Além disso, não se
n=0
pode opinar a priori sobre a convergência ou não da série nos pontos da
fronteira ∂D(0, R) do disco de convergência.
Nosso problema agora é o de calcular o raio de convergência de uma

P
série an z n dada (veja o apêndice desse capı́tulo). Isso pode ser feito
n=0
72 Séries Cap. 4

facilmente desde que an 6= 0 para todo n, mais precisamente



P
2.5 Proposição. Considere uma série de potências an z n tal que
n=0
an 6= 0 para todo natural n. Então seu raio de convergência R é dado
pelas expressões

an 1
R = lim e R=
n→∞ an+1 lim |an |1/n

n→∞

desde que esses limites existam.


Demonstração: Para mostrar a primeira dessas fórmulas fixe um número
z que verifica 0 < |z| < R e olhe para

an+1 z n+1 |an+1 ||z n+1 | an+1
an z n = |an ||z n | = an |z|.


|z|R |z|
Temos lim an+1

|z| = < 1. Escolha um número α satisfazendo R <
n→∞ an  
|z|
α < 1. Como a sequência an+1

an |z| converge para R que é menor
que 1, seus termos ficam arbitrariamente próximos desse número, em
particular,
 podemos encontrar um número natural n0 tal que se tenha
an+1
an |z| < α para n ≥ n0 . Com isso em mãos temos

|an0 +1 ||z|n0 +1 < |an0 ||z|n0 α


|an0 +2 ||z|n0 +2 < |an0 +1 ||z|n0 +1 α < |an0 ||z|n0 α2
|an0 +3 ||z|n0 +3 < |an0 +2 ||z|n0 +2 α < |an0 ||z|n0 α3
..
.
|an0 +k ||z|n0 +k < |an0 +k−1 ||z|n0 +k−1 α < · · · < |an0 ||z|n0 αk
..
.

P
e concluimos que a série |an0 +k ||z|n0 +k é majorada pela série geo-
k=0

P ∞
P
n0
métrica |an0 ||z| αk = |an0 ||z|n0 αk de razão α < 1. Como essa
k=0 k=0

P
série converge, segue do critério de comparação que |an0 +k ||z|n0 +k
k=0
Seção 2 Séries de Potências 73

também converge. Agora,



X ∞
X
n0 −1
n
|an ||z | = |a0 | + |a1 ||z| + · · · + |an0 −1 ||z| + |an0 +k ||z|n0 +k
n=0 k=0


P
e portanto an z n é absolutamente convergente. Como o número z
n=0

P
que verifica |z| < R é arbitrário segue-se que an z n converge absolu-
n=0
tamente em todos os pontos do disco D(0, R).
Para ver que essa série diverge quando |z| > R ≥ 0, fixe um tal ponto
e olhe novamente para a sequência

an+1 z n+1 |an+1 ||z n+1 | an+1
an z n = |an ||z n | = an |z|.


|z|
Temos lim an+1

|z| = R > 1. Escolha um número β satisfazendo
n→∞ an  
|z| an+1 |z|
R > β > 1. Como a sequência an |z| converge para R que é
maior que 1, seus termos ficam arbitrariamente próximos desse número
e em particular
 podemos encontrar um natural n0 tal que se verifique
an+1
an |z| > β para n ≥ n0 .
Portanto

|an0 +1 ||z|n0 +1 > |an0 ||z|n0 β


|an0 +2 ||z|n0 +2 > |an0 +1 ||z|n0 +1 β > |an0 ||z|n0 β 2
|an0 +3 ||z|n0 +3 > |an0 +2 ||z|n0 +2 β > |an0 ||z|n0 β 3
..
.
|an0 +k ||z|n0 +k > |an0 +k−1 ||z|n0 +k−1 β > · · · > |an0 ||z|n0 β k
..
.

Como β > 1 ficamos com |an0 +k ||z|n0 +k ≥ |an0 ||z|n0 > 0 para todo k ≥ 0
e concluimos que lim |an0 +k ||z|n0 +k 6= 0. Mas isso é o mesmo que dizer
k→∞

P
que lim an z n 6= 0 e a série an z n diverge em qualquer ponto exterior
n→∞ n=0
ao disco fechado D(0, R).
74 Séries Cap. 4

Para mostrar que


1
R=
lim |an |1/n
n→∞
repetimos os argumentos acima, trocando a sequência
 
an+1 z n+1

an z n

pela sequência  
|an |1/n |z| .
Os detalhes são deixados ao leitor interessado. ⊓

Podemos agora utilizar essa proposição para calcular o raio de con-


vergência de algumas séries.
∞ n
P z n 1
Considere a série n! . O coeficiente de z é an = n! e temos
n=0

1
n!
R = lim 1 = lim (n + 1) = ∞
n→∞ n→∞
(n+1)!

e essa série converge absolutamente em todos os pontos do plano C. Já


∞ n
P z
a série n tem raio de convergência
n=1

1
n n+1
R = lim = lim =1
n→∞ 1 n→∞ n
n+1

e portanto converge absolutamente no disco {z ∈ C : |z| < 1}. Observe


que, em geral, nada podemos concluir sobre o comportamento de uma
série nos pontos da fronteira do disco de convergência pois nesse exemplo,

P 1
fazendo z = 1 ficamos com a série divergente n e fazendo z = −1
n=1

P (−1)n
ficamos com a série convergente n .
n=1
A manipulação de séries de potências pode ser realizada no domı́nio
comum de convergência, mais precisamente,

P ∞
P
2.6 Proposição. Sejam an z n e bn z n duas séries de potências
n=0 n=0
com raios de convergência R1 e R2 respectivamente. Então
Seção 2 Séries de Potências 75


P
can z n tem raio de convergência R1 e para z ∈ D(0, R1 ) vale
n=0

P ∞
P
can z n = c an z n , onde c 6= 0 é um número complexo qualquer.
n=0 n=0

Ponha R = min{R1 , R2 }. Então, para z ∈ D(0, R) temos que



X ∞
X ∞
X
an z n + bn z n = (an + bn )z n .
n=0 n=0 n=0

Demonstração: Basta utilizar a Proposição 1.11. ⊓



Quanto ao produto temos

P ∞
P
2.7 Proposição. Se as séries de potências an z n e bn z n tem
n=0 n=0
raios de convergência R1 e R2 respectivamente então, pondo

cn = a0 bn + a1 bn−1 + · · · + an−1 b1 + an b0

P
temos que a série cn z n converge absolutamente para todo z verifi-
n=0
cando |z| < min{R1 , R2 } e, além disso,
∞ ∞
! ∞
!
X X X
n n n
cn z = an z bn z .
n=0 n=0 n=0


Um roteiro para a demonstração desse fato se encontra nos exercı́cios


do final desse capı́tulo. Queremos apenas observar que os coeficientes cn
são definidos naturalmente, isto é, simplesmente multiplicamos as séries,
do mesmo modo como fazemos com polinômios:

(a0 + a1 z + a2 z 2 + · · · )(b0 + b1 z + b2 z 2 + · · · )
= a0 b0 + (a0 b1 + a1 b0 )z + (a0 b2 + a1 b1 + a2 b0 )z 2 + · · · .

Vamos considerar agora a diferenciação de séries de potências. Veremos


que estas podem ser derivadas termo a termo em todos os pontos de seu
disco de convergência. Começamos com a
76 Séries Cap. 4


P
2.8 Proposição. Seja f (z) = an z n uma série de potências com raio
n=0
de convergência R > 0. Então a série

X
g(z) = nan z n−1
n=1

converge absolutamente para |z| < R.


Demonstração: Precisaremos do seguinte
Lema. Seja 0 ≤ r < 1. Então a série

X
1 + 2r + 3r2 + 4r3 + · · · + nrn−1 + · · · = nrn−1
n=1

1
converge para (1−r)2
.

Demonstração do Lema: A prova envolve um argumento de indução


(o leitor não familiarizado com tal procedimento deve aceitar a veraci-
dade do enunciado). Inicialmente mostramos que

nrn+1 − (n + 1)rn + 1
(∗) 1 + 2r + 3r2 + · · · + nrn−1 = .
(1 − r)2

A afirmativa é verdadeira para n = 1 pois

r2 − 2r + 1
1= .
(1 − r)2

Suponha que a afirmativa valha para n. Então

nrn+1 − (n + 1)rn + 1
+ (n + 1)rn
(1 − r)2
nrn+1 − (n + 1)rn + 1 + (n + 1)rn (1 − 2r + r2 )
=
(1 − r)2
(n + 1)rn+2 − (n + 2)rn+1 + 1
=
(1 − r)2
= (1 + 2r + 3r2 + · · · + nrn−1 ) + (n + 1)rn
Seção 2 Séries de Potências 77

e concluimos que (∗) é verdadeira. Para finalizar a demonstração do


Lema observe que (∗) descreve a sequência de somas parciais da série
P∞
nrn−1 e portanto
n=1

X nrn+1 − (n + 1)rn + 1 1
nrn−1 = lim 2
=
n→∞ (1 − r) (1 − r)2
n=1

pois r < 1 (exercı́cio). ⊓



A prova da proposição é a seguinte: dado um número z verificando

P
|z| < R, escolha um número α satisfazendo |z| < α < R. Como an z n
n=0
converge absolutamente para |z| < R, a sequência |an αn | é limitada e
podemos achar K > 0 tal que
K
|an αn | = |an |αn < K =⇒ |an | <
αn
para todo n. Agora,
z n−1 K z n−1 K z n−1
|nan z n−1 | = n|an | αn−1 < n n αn−1 = n

.
α α α α α
z
Ponha = r e fique com
α

K n−1
|nan z n−1 | < n r .
α
Temos então que
∞ ∞
X
n−1 K X n−1
n|an z |≤ nr
α
n=1 n=1

e, como r < 1, esta última série é convergente pelo lema. A proposição


está demonstrada. ⊓

Vamos agora mostrar o importante



P
2.9 Teorema. Seja f (z) = an z n uma série de potências com raio
n=0
de convergência R > 0. Então

X
f ′ (z) = nan z n−1
n=1
78 Séries Cap. 4

para todo z tal que |z| < R, isto é, podemos derivar termo a termo uma
série de potências no interior de seu disco de convergência.
Atenção. Esse teorema nos diz que uma série de potências define uma
função holomorfa no interior do seu disco de convergência.
Demonstração: A proposição anterior nos dá que

X
g(z) = nan z n−1
n=1

é absolutamente convergente para |z| < R. Nos resta mostrar que


f ′ (z) = g(z). Escolha z0 verificando |z0 | < R. Como séries podem
ser manipuladas termo a termo temos
∞  
f (z) − f (z0 ) X z n − z0 n n−1
− g(z0 ) = an − nan z0
z − z0 z − z0
n=1

e lembrando que, se z 6= z0
z n − z0 n
= z n−1 + z0 z n−2 + · · · + z0 n−1
z − z0
ficamos com
∞  
X z n − z0 n
an − nan z0 n−1
z − z0
n=1

X
= an (z n−1 + z n−2 z0 + · · · + z0 n−1 − nz0 n−1 ).
n=1

Agora, tome z verificando z 6= z0 e (|z| < R. Então, já que |z0 | < R
|z0 |
podemos escolher r tal que R > r > e
|z|

|an (z n−1 + z n−2 z0 + · · · + z0 n−1 − nz0 n−1 )|



≤ |an | |z n−1 + z n−2 z0 + · · · + z0 n−1 | + n|an ||z0 n−1 |
≤ n|an |rn−1 + n|an |rn−1 = 2n|an |rn−1 .

Portanto,

X ∞
X
|an (z n−1 + z n−2 z0 + · · · + z0 n−1 − nz0 n−1 )| ≤ 2 n|an |rn−1 .
n=1 n=1
Seção 2 Séries de Potências 79


P
Como pela proposição anterior nan z n−1 é absolutamente convergente
n=1

P
para |z| < R, concluimos que an (z n−1 +z n−2 z0 +· · ·+z0 n−1 −nz0 n−1 )
n=1
também o é, pois r < R. Considere a sequência de somas parciais dessa
série
N
X
SN (z) = an (z n−1 + z n−2 z0 + · · · + z0 n−1 − nz0 n−1 )
n=1


P
e escreva F (z) = an (z n−1 + z n−2 z0 + · · · + z0 n−1 − nz0 n−1 ). Temos
n=1
que

X
n−1 n−2 n−1 n−1
|F (z) − SN (z)| = an (z +z z0 + · · · + z0 − nz0 )

n=N +1

e que (|F (z) − SN (z)|) → 0 qualquer que seja z verificando |z| < R.
Logo, dado ǫ > 0 podemos encontrar n0 tal que N ≥ n0 nos dá que
ǫ
|F (z) − SN (z)| < .
2
Por outro lado, SN (z0 ) = 0 e SN (z) é um polinômio em z, ou seja, é
uma função contı́nua em z0 e também podemos encontrar um número
δ > 0 tal que 0 < |z − z0 | < δ fornece |SN (z)| = |SN (z) − SN (z0 )| < 2ǫ .
Daı́ vem que
ǫ ǫ
|F (z)| ≤ |SN (z)| + |F (z) − SN (z)| < + =ǫ
2 2
para N ≥ n0 e 0 < |z − z0 | < δ. Mas isto é o mesmo que dizer que
lim F (z) = 0 e como
z→z0

f (z) − f (z0 )
F (z) = − g(z0 )
z − z0

ficamos com
f (z) − f (z0 )
f ′ (z0 ) = lim = g(z0 )
z→z0 z − z0
e o Teorema está demonstrado. ⊓

80 Séries Cap. 4

Podemos exemplificar esse resultado utilizando as séries


∞ ∞
X zn X zn
f (z) = e g(z) = .
n! n
n=0 n=1

Para a primeira delas R = ∞ e temos


∞ ∞

X nz n−1 X zm
f (z) = = = f (z)
n! m!
n=1 m=0

em todo o plano C. Quanto à segunda, se |z| < 1




X 1
g (z) = zn = .
1−z
n=0

A importância desse teorema pode também ser percebida através do



P
2.10 Corolário. Seja f (z) = an z n uma série de potências com raio
n=0
de convergência R > 0. Então f (z) tem derivadas de todas as ordens
no disco D(0, R) e

X
f (k) (z) = n(n − 1)(n − 2) · · · (n − k + 1)an z n−k
n=k

X n!
= an z n−k .
(n − k)!
n=k

Demonstração: Aplique o Teorema recursivamente. ⊓




P zn
Ilustramos através de g(z) = n . Já vimos que, para |z| < 1
n=1


X 1
g ′ (z) = zn = .
1−z
n=0

Então

X 1
g (2) (z) = nz n−1 =
n=1
(1 − z)2
Seção 2 Séries de Potências 81

e

X 2
g (3) (z) = n(n − 1)z n−2 =
n=2
(1 − z)3
e assim sucessivamente.

P n!
Agora, fazendo z = 0 na expressão f (k) (z) = (n−k)! an z
n−k obte-
n=k
mos f (k) (0) = k!ak ou
f (k) (0)
ak =
k!
para k ≥ 0. Isso mostra o
2.11 Corolário. Seja f (z) uma função definida pela série de potências
P∞
an z n , com raio de convergência R > 0. Então f (z) é dada pela sua
n=0
série de Taylor de centro em 0,

X f (n) (0)
f (z) = zn
n!
n=0

e essa série converge absolutamente em qualquer z ∈ D(0, R). ⊓



Até agora consideramos séries de potências centradas em 0 ∈ C,
isto é, geradas por sequências da forma (an z n ). Não há nada de espe-
cial com o ponto 0 e poderiamos igualmente ter considerado séries de
P∞
potências an (z − z0 )n centradas num ponto z0 ∈ C qualquer, geradas
n=0
por sequências da forma (an (z − z0 )n ). Todos os resultados sobre séries
de potências até aqui obtidos permanecem válidos, bastando trocar z n
por (z − z0 )n nos enunciados e demonstrações. Por exemplo, nessa rou-
pagem o Teorema 2.9 se lê
P∞
2.12 Teorema. (revisitado) Seja f (z) = an (z − z0 )n uma série de
n=0
potências com raio de convergência R > 0. Então

X

f (z) = nan (z − z0 )n−1
n=1

para todo z tal que |z − z0 | < R ⊓



e o corolário acima fica
82 Séries Cap. 4

2.13 Corolário. (revisitado) Seja f (z) uma função definida pela série

P
de potências an (z − z0 )n , com raio de convergência R > 0. Então
n=0
f (z) é dada pela sua série de Taylor de centro em z0 ,

X f (n) (z0 )
f (z) = (z − z0 )n
n!
n=0

e essa série converge absolutamente em qualquer z ∈ D(z0 , R). ⊓



Vamos agora exibir uma propriedade fundamental das séries de po-
tências. Começamos considerando as mais simples de tais séries, os
polinômios.
Seja P (z) = b0 + b1 z + b2 z 2 + · · · + bn z n um polinômio e z0 um
número complexo satisfazendo P (z0 ) = 0, ou seja, z0 é uma raiz da
equação P (z) = 0, também chamado de um zero de P (z). Tome a série
de Taylor de P (z) centrada em z0 ,

P (z) = a0 + a1 (z − z0 ) + a2 (z − z0 )2 + · · · + an (z − z0 )n
(2) P (n) (z0 )
onde a0 = P (z0 ) = 0, a1 = P ′ (z0 ), a2 = P 2!(z0 ) , . . . , an = 2! .
Como a0 = 0 temos
 
P (z) = (z − z0 ) a1 + a2 (z − z0 )2 + · · · + an (z − z0 )n

e podemos nos perguntar se a1 = 0. Se esse for o caso então


 
P (z) = (z − z0 )2 a2 + a3 (z − z0 )3 + · · · + an (z − z0 )n

e novamente nos perguntamos se a2 = 0, a3 = 0, etc. Temos duas


possibilidades: ou a0 = a1 = a2 = · · · = an = 0 e portanto P (z) ≡ 0, ou
a0 = a1 = · · · = ak−1 = 0 mas ak 6= 0 com k ≤ n. Nesse caso dizemos
que z0 é um zero de P (z) de ordem k ou de multiplicidade k e
 
P (z) = (z − z0 )k ak + ak+1 (z − z0 )k+1 + · · · + an (z − z0 )n .

Observe que isso é o mesmo que dizer que

P (z0 ) = P ′ (z0 ) = P (2) (z0 ) = · · · = P (k−1) (z0 ) = 0 e P (k) (z0 ) 6= 0.

Portanto P (z) se escreve como o produto de polinômios

P (z) = (z − z0 )k Q(z)
Seção 2 Séries de Potências 83

onde
Q(z) = ak + ak+1 (z − z0 )k+1 + · · · + an (z − z0 )n
verifica Q(z0 ) = ak 6= 0. Como polinômios são contı́nuos, escolhendo
ǫ = |a2k | podemos encontrar δ > 0 tal que
|ak |
0 < |z − z0 | < δ =⇒ |Q(z) − ak | < .
2
Mas isso nos dá que |Q(z)| > |a2k | > 0 e concluimos que Q(z) 6= 0 em
todos os pontos do disco D (z0 , δ). Como z − z0 só se anula em z = z0 ,
o polinômio P (z) = (z − z0 )k Q(z) tem um único zero no disco D (z0 , δ).
Nos referimos a isso dizendo que os zeros de um polinômio não nulo são
isolados. Essa conclusão se transporta para séries de potências através
da

P
2.14 Proposição. Seja f (z) = an (z − z0 )n uma série de potências
n=0
com raio de convergência R > 0 e não identicamente nula. Se f (z0 ) =
a0 = 0 então existe um disco aberto de raio δ ≤ R, de centro em z0 , tal
que f (z) 6= 0 para todo z 6= z0 nesse disco.
Demonstração: Trata-se de copiar, na medida do possı́vel, os argu-
mentos utilizados acima no caso de polinômios. Seja k o natural tal que
a0 = a1 = · · · = ak−1 = 0 e ak 6= 0 (esse k existe pois a série não é
identicamente nula). Então

X ∞
X
f (z) = an (z − z0 )n = ak+m (z − z0 )k+m .
n=0 m=0

Olhe para a série



X
ak+m (z − z0 )m = ak + ak+1 (z − z0 ) + ak+2 (z − z0 )2 + · · ·
m=0

Afirmamos que seu raio de convergência é R. De fato, denote por Sn (z)


as somas parciais de
X∞
an (z − z0 )n
n=0
e por sn (z) as de

X
ak+m (z − z0 )m .
m=0
84 Séries Cap. 4

Então Sn+k (z) = (z − z0 )k sn (z) e, para |z − z0 | < R, Sn+k (z) converge


se, e somente se, sn (z) converge. Portanto, colocando

X
g(z) = ak+m (z − z0 )m
m=0

temos

f (z) = lim Sn+k (z) = (z − z0 )k lim sn (z) = (z − z0 )k g(z).


n→∞ n→∞

Uma vez que temos a escrita f (z) = (z − z0 )k g(z) onde g(z) é contı́nua
e g(z0 ) = ak 6= 0, concluimos a prova utilizando os mesmos argumentos
que para o caso de polinômios. ⊓

A proposição acima nos fornece o

P
2.15 Teorema. Seja f (z) = an (z − z0 )n uma série com raio de
n=0
convergência R > 0. Suponha que exista uma sequência não constante
(αm ) tal que lim αm = z0 e f (αm ) = 0. Então a série é identicamente
m→∞
nula, ou seja, an = 0 para todo n.
Demonstração: Como f é contı́nua, temos lim f (αm ) = f (z0 ) = 0 e
m→∞
z0 não é zero isolado de f . A conclusão segue da Proposição 2.14. ⊓

Esse resultado é conhecido como Princı́pio da Identidade para séries


de potências. Com isso em mãos podemos dizer o seguinte a respeito da
inversão algébrica de uma tal série:
P∞
2.16 Proposição. Seja an z n uma série com raio de convergência
n=0

P
R > 0 e tal que a0 6= 0. Então existe um δ > 0 e uma série bn z n ,
n=0
absolutamente convergente para |z| < δ e verificando

! ∞ !
X X
n n
an z bn z = 1. ⊓

n=0 n=0

Não demonstraremos isso porém ilustramos o procedimento para se


obter a inversa. Multiplique as duas séries e iguale o produto a 1:

a0 b0 + (a0 b1 + a1 b0 )z + (a0 b2 + a1 b1 + a2 b0 )z 2 + · · · = 1.
Seção 2 Séries de Potências 85

Pelo Teorema 2.15 ficamos com uma infinidade de equações:

a0 b0 = 1
a0 b1 + a1 b0 = 0
a0 b2 + a1 b1 + a2 b0 = 0
..
.
a0 bn + a1 bn − 1 + · · · + an−1 b1 + an b0 = 0
..
.

Da primeira delas concluimos que b0 = 1/a0 . Substituindo esse valor


na segunda obtemos b1 = −a1 /a20 e assim sucessivamente. Em geral,
o termo bn é obtido a partir de a0 , . . . , an e de b0 , b1 , . . . , bn−1 , já obti-
dos anteriormente. Note que não há uma fórmula simples para os bn .
Podemos exemplificar invertendo a série de potências

f (z) = 1 − z.

Sua inversa algébrica, centrada em 0, é simplesmente a série geométrica


pois

1 X
= zn.
1−z
n=0

Note que o raio de convergência de f é R = ∞ e que o de sua inversa



P
g(z) = z n é R = 1. Mais adiante veremos como calcular sua inversa
n=0
centrada em qualquer ponto z0 6= 0.
Encerramos o capı́tulo com a definição de função analı́tica. O fato
espantoso é que a Teoria de Cauchy, a ser desenvolvida no próximo
capı́tulo, nos diz que no caso complexo função analı́tica é sinônimo de
função holomorfa!
2.17 Definição. Sejam U ⊂ C um domı́nio e f : U → C uma função.
f é analı́tica em U se, para todo ponto z0 ∈ U , f se expressa como uma
série de potências de centro z0 com raio de convergência Rz0 > 0.
Repetindo, f é analı́tica em U se, dado z0 ∈ U temos

X
f (z) = an (z − z0 )n
n=0
86 Sequências e Séries Numéricas Cap. 4

e essa série converge absolutamente num disco D(z0 , Rz0 ) ⊂ U , Rz0 > 0.
Observe que pelo, Corolário 2.13, temos necessariamente

f (n) (z0 )
an = .
n!
Daremos aqui um único exemplo de função analı́tica: f (z) = z1 é analı́tica
em C∗ = C \ {0}. Para ver isso escolha z0 6= 0. Então
   
1 1 1  1 1  1
= =   =   .
z z0 + z − z0 z0 1 + z−z 0 z0 1 − − z−z0
z0 z0

Agora, se z−z
0
z0 < 1 ou seja, para |z − z0 | < |z0 | temos, pela Proposição
1.11, que
∞   ∞
1 X z − z0 n X (−1)n n
 = − = n (z − z0 )
1 − − z0 z−z0 z 0 z 0
n=0 n=0

e essa série converge. Portanto


∞   ∞
1 1 X z − z0 n X (−1)n
f (z) = = − = (z − z0 )n
z z0
n=0
z0 z0n+1 n=0

e todas as condições da definição acima se cumprem.

3 Exercı́cios
n!
1) Calcule lim n.
n→∞ n
2) Mostre que, se |α| < 1 então lim nαn = 0.
n→∞
h  n
i
3) Calcule lim i + 2+3i 5 .
n→∞
h n i
4) Existe lim i + 4+3i 5 ?
n→∞
5) Calcule
log n √
n
log(ni)
lim , lim n , lim
n→∞ n n→∞ n→∞ ni
√n

ni √
ni
lim ni , lim ni , lim n.
n→∞ n→∞ n→∞
Seção 3 Exercı́cios 87

6) Para α ∈ C diga se cada uma das sequências converge ou diverge e,


se convergir, determine o limite:
 n
α √ √ √ 
(αn ) , (nαn ) , , n( n + α − n) .
n


7) (i) Suponha que |α| < |β| < 1. Existe o limite lim n
αn + β n ?
n→∞
(ii) Suponha que |α| = |β| > 1. Mostre que, se a sequência αn − β n
é limitada, então α = β.

8) Existem os limites lim cos(nπi) e lim ni sen πi n ?
n→∞ n→∞

P ∞
P
1 1
9) Mostre que as séries ni e n+i divergem.
n=0 n=0

10) Determine o raio de convergência de cada uma das séries abaixo:


∞ ∞ ∞
X n n
X 11n+2i n X n2i
n (z − 1) , z , (z − π)n
(3i) n! 2n
n=0 n=0 n=0

∞ ∞ ∞
X 5 n
X 7n n
X 1
n z , n (z + 2) , zn
(4 + 3i) (5 + i) log(ni)
n=0 n=0 n=1
∞ ∞ ∞
X (i)n n
X (−1)n+1 n X 3ni n
z , √ z , z .
2ni 3i n i(2n)!
n=0 n=1 n=0

∞ ∞   ∞   2
X (n!)2 n X 1 n n X 1 n n
z , 1+ z , 1+ z
(2n)! n n
n=0 n=1 n=1
∞   ∞ ∞
X 1 n n X log n n X 1
1− z , n z , zn.
n (log n)n
n=1 n=1 n=1

11) Mostre, usando o produto de séries (Proposição 2.7), que se f (z) =


P∞
an z n então:
n=0


1 X
f (z) = (a0 + · · · + an )z n .
1−z
n=0
88 Sequências e Séries Numéricas Cap. 4

12) Mostre que



X 1
(n+1)z n =
n=0
(1 − z)2

∞ ∞
X
n z X
2 n z + z2
nz = , n z =
n=1
(1 − z)2 n=1 (1 − z)3
∞ ∞
X z + 4z 2 + z 3 X 4 n z + 11z 2 + 11z 3 + z 4
3 n
n z = , n z =
n=1
(1 − z)4 n=1
(1 − z)5

13) Seja P (t) = a0 +a1 t+· · ·+ak tk um polinômio e considere a sequência


(P (n)), n ≥ 0. Então
X∞
f (z) = P (n)z n
n=0

é uma função racional. Sugestão: comece considerando monômios, isto



P
é, séries da forma nk z n . Para essas inspire-se no exercı́cio 12.
n=0

P
14) Considere uma série de potências an z n na qual os coeficientes se
n=0
repetem ciclicamente, an+k = an , onde n é qualquer e k ≥ 0 é fixado.
Calcule seu raio de convergência e sua soma.
P∞
α(α−1)···(α−n+1) n
15) Seja f (z) = 1 + n! z , onde α ∈ R. Mostre que
n=1
αf (z)
f (z) converge para |z| < 1 e que f ′ (z) = 1+z . Conclua daı́ que
−α ′ α
[(1 + z) f (z)] = 0 e que f (z) = (1 + z) . Esse resultado vale se
α ∈ C?

P
16) Aqui vamos considerar o produto de séries. Suponha que an
n=0

P
e bn são duas séries absolutamente convergentes, de somas a e b
n=0
respectivamente. Defina cn , n ≥ 0 por

cn = a0 bn + a1 bn−1 + · · · + an−1 b1 + an b0

P ∞
P
e considere a série cn . O objetivo é mostrar que ab = cn .
n=0 n=0
Seção 3 Exercı́cios 89

(i) Dado ǫ > 0 mostre que é possı́vel encontrar N tal que, se n ≥ N


então valem simultaneamente:
N N
2N 2N
X X X X

an bn − ab < ǫ , |an | < ǫ e |bn | < ǫ.

n=0 n=0 n=N +1 n=N +1

(ii) Olhe para


2N 2N N N
N N

X X X X X X

cn − ab ≤ cn − an bn + an bn − ab .

n=0 n=0 n=0 n=0 n=0 n=0
N N

P P
Já temos que
an bn − ab < ǫ. O problema está em majorar a
n=0 n=0
parcela 2N
X N
X XN

cn − an bn .

n=0 n=0 n=0
Pense no seguinte diagrama: represente os an pelos pontos (n, 0), os bn
pelos pontos (0, n) e os an bm pelos pontos (n, m). A idéia é que as somas
2N
P
parciais cn nos dão regiões triangulares (mais precisamente, olhe para
n=0
o triângulo de vértices (0, 0), (2N, 0) e (0, 2N )), ao passo que o produto
N
P N
P
das somas parciais an bn nos fornece uma região retangular (mais
n=0 n=0
precisamente, olhe para o retângulo de vértices (0, 0), (N, 0), (0, N ) e
(N, N )). Com isso em mãos conclua que
2N N N
2N N N 2N
X X X X X X X

cn − an bn ≤ |an | |bn | + |an | |bn |

n=0 n=0 n=0 n=N +1 n=0 n=0 n=N +1

e obtenha 2N
X N
X N
X

cn − an bn < ǫb + aǫ.

n=0 n=0 n=0
Finalmente fique com
2N
X

cn − ab < (a + b + 1)ǫ.

n=0

Isto feito para séries numéricas, deduza (Proposição 2.7).


90 Sequências e Séries Numéricas Cap. 4

4 APÊNDICE: O Raio de Convergência

Nesse apêndice demonstraremos o Lema 2.3 e exibiremos uma fórmula


geral para o raio de convergência de uma série de potências.
Começamos introduzindo a noção de ponto aderente a uma sequência.
Se (an ) é uma sequência de números reais, um ponto α é chamado ponto
aderente a (an ) se a seguinte propriedade se verifica: dado qualquer
número ǫ > 0, existe uma infinidade de termos da sequência satisfazendo
|α−an | < ǫ. Uma sequência pode ter nenhum, um número finito ou uma
infinidade de pontos aderentes. Por exemplo, a sequência an = n não
possui ponto aderente. Já uma sequência convergente, (an ) → a, tem
seu limite a como único ponto aderente. A sequência sen nπ 2 tem três
pontos de aderência, −1, 0 e 1. Por outro lado, representando o conjunto
dos números racionais Q por uma sequência (qn ), temos que qualquer
número real α é aderente a (qn ). O limite superior de uma sequência
(an ), notado lim sup an , é o maior de seus pontos aderentes (observe
que só estamos considerando sequências de números reais, portanto po-
demos invocar a ordem de R). Para os exemplos acima, an = n não
possui lim sup, se (an ) → a então lim sup an = a, lim sup sen nπ 2 =1
e lim sup qn não existe. Isto posto temos o

P
Lema. Seja an (z − z0 )n uma série de potências onde an ∈ C e z,
n=0
z0 são números complexos. Defina R por
 p
1√ n

 n
 lim sup |an | se lim sup |an | =
6 0
R=

 p
∞ se lim sup n |an | = 0.

Então,
(i) a série converge absolutamente qualquer que seja z satisfazendo
|z − z0 | < R e
(ii) a série diverge se z satisfaz |z − z0 | > R.
Além disso, R é o único número para o qual valem (i) e (ii).
Demonstração: Se |z − z0 | < R, escolha r tal que |z − z0 | < r < R.
Agora,
1 1 p
> = lim sup n |an |
r R
Seção 4 APÊNDICE: O Raio de Convergência 91

p
e portanto, como não existem pontos aderentes de ( n |an |) que são
maiores que R1 , podemos encontrar um número N tal que se n ≥ N ,
p
então n |an | < 1r . Mas isso nos diz que |an | < r1n e daı́ vem
 
n n |z − z0 |n |z − z0 | n
|an (z − z0 ) | = |an ||z − z0 | < = .
rn r
Logo,
∞ ∞  
X n
X |z − z0 | n
|an (z − z0 ) | < .
r
n=N n=N
|z−z0 |
Como r < 1, essa última série converge e, pelo critério de com-

P
paração, a série |an (z − z0 )n | é convergente. Agora,
n=N

X ∞
X
n N −1
an (z − z0 ) = a0 + · · · + aN −1 (z − z0 ) + an (z − z0 )n
n=0 n=N

P
e então, já que an (z − z0 )n converge absolutamente para |z − z0 | <
n=N

P
R, temos que o mesmo ocorre com an (z − z0 )n .
n=0
Por outro lado, suponha |z − z0 | >
R e escolha r tal que |z − z0 | >
r > R. Nesse caso,
1 1 p
< = lim sup n |an |
r R
p
e temos uma infinidade de ı́ndices n para os quais valem 1r < n |an |.
Mas então  
|z − z0 | n
< |an (z − z0 )n |
r
|z−z0 |
e, como r > 1 concluimos que
lim |an (z − z0 )n | =
6 0.
n→∞

P
Segue da Proposição 1.7 que an (z − z0 )n diverge. ⊓

n=0

Como exemplo, considere a série



X n
z 2 = z + z 2 + z 4 + z 8 + z 16 + · · ·
n=0
92 Sequências e Séries Numéricas Cap. 4

Seu raio de convergência é R = 1. Deixamos ao leitor interessado estudar


a convergência dessa série nos pontos do cı́rculo de centro em 0 e raio1
(sugerimos que se estudem inicialmente os pontos da forma exp 2πim 2n ,
onde m, n ∈ N).
Como exercı́cios simples, calcule os raios de convergência das séries
∞ ∞   ∞   2
X (n!)2 2n X 1 n n2 X 1 n n2
z , 1+ z , 1+ z .
(2n)! n n
n=0 n=1 n=1


P
Calcule o raio de convergência da série z n! e examine a convergência
n=0
dessa série nos pontos da fronteira de seu disco de convergência.
5

Teoria de Cauchy

Esse capı́tulo é dedicado a apresentar os resultados fundamentais sobre


funções de uma variável complexa. Diferentemente das funções reais,
as holomorfas admitem uma boa representação integral, isto é, podem
ser dadas nos pontos interiores a um disco fechado por uma integral ao
longo de sua fronteira. Esse fato nos permite obter uma tal variedade de
resultados que validam a teoria das funções holomorfas como uma das
mais profundas, úteis e férteis de toda a Matemática.

1 Integração

Recorde (Definição 1.5 do Capı́tulo 2) que um domı́nio U no plano C é


um conjunto aberto, não vazio e tal que, dados dois pontos z1 e z2 em
U , podemos encontrar um caminho suave por partes γ cujo ponto inicial
é z1 e cujo ponto terminal é z2 . Antes de falar em integração exibimos o
seguinte resultado sobre diferenciação, bem conhecido no caso de funções
reais definidas num intervalo da reta:
1.1 Lema. Sejam U ⊂ C um domı́nio e f : U → C uma função
holomorfa. Se f ′ (z) = 0 em todo ponto z ∈ U , então f é uma função
constante.
Demonstração: Fixe um ponto qualquer z0 ∈ U . Dado z ∈ U seja
γ : [0, 1] → U um caminho suave por partes tal que γ(0) = z0 e γ(1) = z.
O caminho γ é, digamos, a justaposição dos caminhos γ = γ1 ∗γ2 ∗· · ·∗γn .
A função composta f ◦ γ : [0, 1] → C é o caminho suave por partes
f ◦ γ = (f ◦ γ1 ) ∗ (f ◦ γ2 ) ∗ · · · ∗ (f ◦ γn ). Vamos estudar cada f ◦ γi ,
94 Teoria de Cauchy Cap. 5

para 1 ≤ i ≤ n (veja figura). Escrevendo f = u(x, y) + iv(x, y) e


γi (t) = xi (t) + iyi (t) temos que
(f ◦ γi )(t) = f (γi (t)) = u(xi (t), yi (t)) + iv(xi (t), yi (t)).
Olhe para as funções F (t) = u(xi (t), yi (t)) e G(t) = v(xi (t), yi (t)). Essas
são funções reais da variável real t e, pela regra da cadeia
∂u ∂u
F ′ (t) = (xi (t), yi (t)).xi ′ (t) + (xi (t), yi (t)).yi ′ (t)
∂x ∂y
∂v ∂v
G′ (t) = (xi (t), yi (t)).xi ′ (t) + (xi (t), yi (t)).yi ′ (t).
∂x ∂y

U
3

4
2
5

8
6 z
1 7
z0

Figura 12

Agora, como f é holomorfa vale que


∂u ∂v
+i f′ =
∂x ∂x
bem como valem as condições de Cauchy-Riemann
∂u ∂v ∂v ∂u
= e =−
∂x ∂y ∂x ∂y
Já que f ′ = 0 concluimos que
∂u ∂v ∂v ∂u
= = = =0
∂x ∂y ∂x ∂y
e portanto F ′ (t) = 0 e G′ (t) = 0. Sabemos então, do Cálculo de uma
variável real, que as funções F e G são constantes, digamos F (t) = α e
G(t) = β. Mas como
(f ◦ γi )(t) = F (t) + iG(t)
Seção 1 Integração 95

concluimos que f ◦ γi é constante, f ◦ γi (t) ≡ α + iβ. Isso mostra que


f ◦ γi (t) é constante para todo i e, como o ponto inicial de γi+1 é o
ponto terminal de γi , ficamos com f (z0 ) = (f ◦ γ1 )(0) = (f ◦ γn )(1) =
f (z). Uma vez que z é um ponto qualquer de U obtemos f (z) = f (z0 ),
∀z ∈ U . ⊓

Vamos agora integrar funções complexas. Considere inicialmente um


caminho suave γ : [a, b] → C e seja f : U → C uma função contı́nua,
onde U ⊂ C é um domı́nio.
1.2 Definição. A integral da função f ao longo do caminho γ é o
número complexo

Z Zb
f (z)dz = f (γ(t))γ ′ (t)dt.
γ a

A estrutura complexa desempenha um papel fundamental nessa de-


finição. De fato, escrevendo γ(t) = x(t) + iy(t) temos que γ ′ (t) =
x′ (t) + iy ′ (t). Por outro lado, se f (z) = u(x, y) + iv(x, y) então

f (γ(t)) = u(x(t), y(t)) + iv(x(t), y(t))

e a expressão acima se torna

Z Zb
f (z)dz = f (γ(t))γ ′ (t)dt
γ a
Zb h ih i
= u(x(t), y(t)) + iv(x(t), y(t)) x′ (t) + iy ′ (t) dt.
a

Efetuando o produto
h ih i
u(x(t), y(t)) + iv(x(t), y(t)) x′ (t) + iy ′ (t)
h i
= u(x(t), y(t))x′ (t) − v(x(t), y(t))y ′ (t)
h i
+ i u(x(t), y(t))y ′ (t) + v(x(t), y(t))x′ (t)
96 Teoria de Cauchy Cap. 5

concluimos que

Z Zb
f (z)dz = f (γ(t))γ ′ (t)dt
γ a
Zb h i
= u(x(t), y(t))x′ (t) − v(x(t), y(t))y ′ (t) dt
a
Zb h i
+i u(x(t), y(t))y ′ (t) + v(x(t), y(t))x′ (t) dt
a
R
ou seja, f (z)dz é dada por duas integrais de linha ao longo do caminho
γ
γ (recorde Definição 3.1 do Capı́tulo 2):
Z Z Z
f (z)dz = udx − vdy + i udy + vdx.
γ γ γ

O
R seguinte procedimento heurı́stico ajuda a esclarecer a definição de
f (z)dz em termos de integrais de linha: escreva f = u+iv e z = x+iy.
γ
Então dz = dx + idy e
Z Z
f (z)dz = (u + iv)(dx + idy)
γ γ
Z Z
= udx − vdy + i udy + vdx.
γ γ

Esse mesmo procedimento nos fornece a justificativa para a seguinte


notação: recorde da Definição 1.4 do Capı́tulo 2 que o comprimento do
caminho suave γ é definido por

Zb Zb q
ℓ(γ) = ′
|γ (t)|dt = x′ (t)2 + y ′ (t)2 dt.
a a

Ora, ao longo de γ temos que dx = x′ (t)dt e dy = y ′ (t)dt e portanto


dz = (x′ (t) + iy ′ (t))dt. Ingenuamente calculamos o “módulo”|dz| =
Seção 1 Integração 97

q
x′ (t)2 + y ′ (t)2 dt e obtemos

Zb Z

ℓ(γ) = |γ (t)|dt = |dz|.
a γ

A partir de agora notaremos o comprimento de um caminho suave γ por


Z
(1.3) ℓ(γ) = |dz|
γ

Exemplificamos 1.2 e (1.3) considerando f (z) = z1 e o caminho γ que


é o cı́rculo de centro em 0 e raio r > 0. γ se expressa por γ(θ) =
r(cos θ + i sen θ) isto é, γ(θ) = reiθ , 0 ≤ θ ≤ 2π. Temos então que
γ ′ (θ) = rieiθ ou seja, dz = rieiθ dθ e

Z Z Z2π Z2π Z2π


1 1
f (z)dz = dz = rieiθ dθ = idθ = i dθ = 2πi.
z reiθ
γ γ 0 0 0

Por outro lado, o comprimento de γ é dado por

Z Z2π Z2π Z2π Z2π


iθ iθ
|dz| = |rie |dθ = r|ie |dθ = rdθ = r dθ = 2πr.
γ 0 0 0 0
R
Como a integral f (z)dz é dada através de integrais de linha, a sensi-
γ
bilidade ao sentido de percurso do caminho está presente e concluimos
que (recorde o Capı́tulo 2):
Z Z
f (z)dz = − f (z)dz
γ− γ

onde γ − é o caminho reverso de γ.


Uma vez definida a integral de f (z) ao longo de um caminho suave,
estendemos de modo natural essa definição a caminhos suaves por partes:
1.4 Definição. Sejam f e U como na Definição 1.2 e γ = γ1 ∗γ2 ∗· · ·∗γn
um caminho suave por partes em U . A integral de f (z) ao longo de γ é
98 Teoria de Cauchy Cap. 5

o número complexo
Z Z Z Z
f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz + · · · + f (z)dz.
γ γ1 γ2 γn

Analogamente a equação (1.3), o comprimento do caminho suave por


partes γ é dado por
Z
ℓ(γ) = |dz| = ℓ(γ1 ) + ℓ(γ2 ) + · · · + ℓ(γn )
γ
Z Z Z
= |dz| + |dz| + · · · + |dz|.
γ1 γ2 γn

1
Por exemplo, ainda insistindo na função f (z) = z e considerando o
caminho suave por partes γ da figura
y

3
0 2 3
x
1

Figura 13

γ = γ1 ∗ γ2− ∗ γ3− ∗ γ4 onde


π π
γ1 = 3eiθ ≤θ≤ −
2 2
γ2 = (2 + t)i 0≤t≤1
π π
γ3 = 2eiθ − ≤θ≤
2 2
γ4 = −(2 + t)i 0 ≤ t ≤ 1.

Temos Z Z Z Z Z
1 1 1 1 1
dz = dz − dz − dz + dz.
z z z z z
γ γ1 γ2 γ3 γ4
Seção 1 Integração 99

Mas, ao longo de γ1 , dz = 3ieiθ dθ e

Z Zπ/2 Zπ/2
1 1
dz = 3ieiθ dθ = idθ = πi.
z 3eiθ
γ1 −π/2 −π/2

Ao longo de γ3 , dz = 2ieiθ dθ e

Z Zπ/2 Zπ/2
1 1
dz = 2ieiθ dθ = idθ = πi.
z 2eiθ
γ3 −π/2 −π/2

Já para γ2 , dz = idt e

Z Z1 Z1
1 1 1
dz = idt = dt = log 3 − log 2.
z (2 + t)i 2+t
γ2 0 0

Quanto a γ4 , dz = −idt e

Z Z1 Z1
1 −1 1
dz = − idt = dt = log 3 − log 2.
z (2 + t)i 2+t
γ4 0 0
R 1
Portanto, z dz = πi − (log 3 − log 2) − πi + log 3 − log 2 = 0. Quanto
γ
ao comprimento de γ ficamos com
Z Z Z Z Z
ℓ(γ) = |dz| = |dz| + |dz| + |dz| + |dz|
γ γ1 γ2 γ3 γ4

e
Z Zπ/2 Z Zπ/2
|dz| = 3dθ = 3π , |dz| = 2dθ = 2π
γ1 −π/2 γ3 −π/2
e
Z Z Z1
|dz| = |dz| = dt = 1.
γ2 γ4 0

Logo, ℓ(γ) = 3π + 1 + 2π + 1 = 5π + 2.
100 Teoria de Cauchy Cap. 5

A integração de funções complexas contı́nuas goza das seguintes pro-


priedades, que seguem da definição:
Z Z
c f (z)dz = cf (z)dz, c ∈ C
γ γ
Z Z Z
[f (z) + g(z)]dz = f (z)dz + g(z)dz.
γ γ γ

Como no caso de funções reais de uma variável, temos o seguinte con-


ceito:
1.5 Definição. Seja f : U → C uma função contı́nua, onde U ⊂ C é
um domı́nio. Uma função F : U → C é chamada uma primitiva de f se
F é holomorfa em U e F ′ (z) = f (z) para todo ponto z ∈ U .
Observe que se F é uma primitiva de f , então G(z) = F (z) + c
também o é, pois G′ (z) = F ′ (z) = f (z). Mas essa falta de unicidade da
primitiva não vai mais longe do que isso pelo Lema 1.1. De fato, se F
e G satisfazem F ′ = G′ = f então a função H : U → C definida por
H(z) = F (z) − G(z) é tal que H ′ (z) = F ′ (z) − G′ (z) = f (z) − f (z) = 0
em todos os pontos de U , e pelo Lema 1.1 temos que H é uma função
constante, H ≡ c. Isso dá G(z) = F (z) + c. Vale também a seguinte
versão do Teorema Fundamental do Cálculo:
1.6 Teorema. Sejam U ⊂ C um domı́nio, f : U → C uma função
contı́nua, F uma primitiva de f em U e γ um caminho suave por partes
em U unindo o ponto z0 ao ponto z1 . Então
Z
f (z)dz = F (z1 ) − F (z0 ).
γ

Em particular, se o caminho é fechado então


Z
f (z)dz = 0.
γ

Demonstração: Vamos supor γ(t) = x(t) + iy(t) suave, a ≤ t ≤ b,


γ(a) = z0 , γ(b) = z1 . O caso suave por partes fica a cargo do leitor
(exercı́cio). Ponha ξ(t) = f (γ(t))γ ′ (t) e ϑ(t) = F (γ(t)). Escrevendo
Seção 1 Integração 101

ξ(t) = u(t) + iv(t) e ϑ(t) = U (t) + iV (t) temos que F ′ = f fornece


ϑ′ (t) = U ′ (t) + iV ′ (t) = u(t) + iv(t) = ξ(t). Pelo Teorema Fundamental
do Cálculo,

Z Zb Zb Zb
f (z)dz = ξ(t)dt = u(t)dt + i v(t)dt
γ a a a

= U (b) − U (a) + i(V (b) − V (a))


= U (b) + iV (b) − U (a) − iV (a)
= ϑ(b) − ϑ(a) = F (z1 ) − F (z0 ). ⊓

Esse resultado possibilita o cálculo rápido da integral de funções


cuja primitiva seja conhecida. Por exemplo, f (z) = z 4 tem a primitiva
5
F (z) = z5 e se γ = t + it2 , 1 ≤ t ≤ 2 então
Z
(2 + 4i)5 (1 + i)5
z 4 dz = F (2 + 4i) − F (1 + i) = − .
5 5
γ
R
Por outro lado, z 4 dz = 0 para qualquer caminho fechado, suave por
γ
partes γ.
Um exemplo importante de funções que admitem primitiva é dado
pelas funções polinomiais e mais geralmente pela

P
1.7 Proposição. Seja f (z) = an (z − z0 )n definida por uma série
n=0
de potências com raio de convergência R > 0. Então a função

X an
F (z) = (z − z0 )n+1
n+1
n=0

é uma primitiva de f e a série que a define converge para |z − z0 | < R.


Demonstração: Basta mostrar que a série que define F converge para
|z − z0 | < R pois, pelo Teorema 2.9 do Capı́tulo 4 podemos deriva-la
termo a termo e concluir que F ′ = f . Agora,

an |z − z0 |
n+1 n
n + 1 (z − z0 ) = n + 1 |an (z − z0 ) |

102 Teoria de Cauchy Cap. 5

e, para n suficientemente grande, |z−z 0|


n+1 < 1. Portanto, se n é suficien-
temente grande

an n+1

< |an (z − z0 )n |
n + 1 (z − z0 )

e segue do critério de comparação Proposição 1.6 do Capı́tulo 4 que


P∞
an n+1
n+1 (z − z0 ) converge para |z − z0 | < R. ⊓

n=0

Antes de darmos uma caracterização geral das funções que admi-


tem primitiva num domı́nio exibimos um resultado de natureza técnica,
porém de muita utilidade para o que virá.
1.8 Lema Técnico. Sejam U ⊂ C um domı́nio, f : U → C uma
função contı́nua e γ(t), a ≤ t ≤ b, um caminho suave por partes em U ,
de comprimento ℓ(γ). Seja K ≥ 0 um número real tal que |f (γ(t))| ≤ K
para todo a ≤ t ≤ b. Então

Z

f (z)dz ≤ Kℓ(γ).


γ

Demonstração: Inicialmente observamos que um tal número K sempre


existe, pois é simplesmente o valor máximo de |f | ao longo do caminho γ,
porém a prova de sua existência é de natureza topológica e a omitiremos
(veja 1 ). Começamos mostrando a seguinte desigualdade: se α e β são
funções reais contı́nuas então
b
Z Zb

(*) (α(t) + iβ(t))dt ≤ |α(t) + iβ(t)| dt.


a a

Rb Rb
Para ver isso, ponha A = α(t)dt e B = β(t)dt. Então
a a

Zb
A + iB = (α(t) + iβ(t))dt
a
1
Elon Lima, Espaços Métricos, Projeto Euclides, IMPA
Seção 1 Integração 103

e
b
p Z

2 2
A + B = |A + iB| = (α(t) + iβ(t))dt .

a

Agora,

Zb
2 2
A + B = (A − iB)(A + iB) = (A − iB) (α(t) + iβ(t))dt
a

e como A e B são constantes,

Zb
2 2
A +B = (A − iB)(α(t) + iβ(t))dt
a
Zb Zb
= [Aα(t) + Bβ(t)] dt + i [Aβ(t) − Bα(t)] dt.
a a

Mas A2 + B 2 é um número real e portanto sua parte imaginária é nula,


ou seja,
Zb
[Aβ(t) − Bα(t)] dt = 0
a

e ficamos com

Zb
(**) A2 + B 2 = [Aα(t) + Bβ(t)] dt.
a

Agora, o integrando nessa expressão nada mais é que o produto escalar


dos vetores
(A, B).(α(t), β(t)) = Aα(t) + Bβ(t)

e sabemos do Cálculo que

Aα(t) + Bβ(t) ≤ | (A, B).(α(t), β(t)) | ≤ |(A, B)||(α(t), β(t))|.


104 Teoria de Cauchy Cap. 5

Logo,
Zb Zb
[Aα(t) + Bβ(t)]dt ≤ |(A, B)||(α(t), β(t))|dt
a a
Zb
= |(A, B)| |(α(t), β(t))|dt
a
Z b
p
= A2 + B 2 |α(t) + iβ(t)|dt
a

e, por (∗∗),
Z b
p
2 2 22
A +B ≤ A +B |α(t) + iβ(t)|dt
a

o que fornece
Z b
p
A2 + B 2 ≤ |α(t) + iβ(t)|dt
a
ou seja,
b
Z p Zb

(α(t) + iβ(t))dt = A2 + B 2 ≤ |α(t) + iβ(t)|dt


a a

e (∗) está demonstrada. Com isso em mãos temos


b
Z Z

f (z)dz = f (γ(t))γ ′ (t)dt ≤ (por(∗))


γ a
Zb Zb

≤ |f (γ(t))||γ (t)|dt ≤ K|γ ′ (t)|dt = Kℓ(γ).
a a

e o lema está demonstrado. ⊓


Finalmente, podemos caracterizar funções que admitem primitivas


em domı́nios.
Seção 1 Integração 105

1.9 Teorema. Seja f : U → C uma função contı́nua definida no


domı́nio U ⊂ C. As seguintes afirmativas são equivalentes:

(i) f tem uma primitiva em U .


R
(ii) f (z)dz = 0 para qualquer caminho fechado, suave por partes γ
γ
em U .
R
(iii) f (z)dz só depende dos pontos inicial e terminal de qualquer ca-
λ
minho suave por partes λ em U .

Demonstração: O Teorema 1.6 nos diz que (i) ⇒ (ii) e (i) ⇒ (iii).
Para ver que (ii) ⇒ (iii), sejam γ1 e γ2 dois caminhos suaves por partes
em U , ambos ligando o ponto z0 ∈ U ao ponto z1 ∈ U . Olhe para o
caminho γ1 ∗ γ2− . Esse é um caminho fechado em U e portanto, como
vale (ii), Z
f (z)dz = 0.
γ1 ∗γ2−

Mas então
Z Z Z Z Z
0= f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz = f (z)dz − f (z)dz
γ1 ∗γ2− γ1 γ2− γ1 γ2

e obtemos (iii). Resta mostrar que (iii) ⇒ (i). Para ver isso fixe um
ponto qualquer z0 em U e, dado um ponto z ∈ U , seja γ um caminho
suave por partes em U ligando z0 a z. Definimos uma função F : U → C
por Z
F (z) = f (w)dw.
γ
R
F está bem definida pois, por hipótese, f (w)dw só depende de z0 e de
γ
z e não do caminho γ. Para concluir a prova devemos mostrar que F é
uma primitiva de f , ou seja, que F ′ = f .
Como U é aberto, se h ∈ C tem módulo |h| suficientemente pequeno
então z + h ∈ U . Considere o segmento de reta (um caminho em U )
unindo z a z + h, σ(t) = z + th, 0 ≤ t ≤ 1 (veja figura).
106 Teoria de Cauchy Cap. 5

U z
z+h

z0

Figura 14

Pela definição de F temos


Z Z Z
F (z + h) = f (w)dw = f (w)dw + f (w)dw
γ∗σ γ σ

ou seja, Z
F (z + h) = F (z) + f (w)dw
σ

e daı́ Z
F (z + h) − F (z) 1
= f (w)dw.
h h
σ

Por outro lado,

Z Z Z1
f (z)dw = f (z) dw = f (z)h dt = f (z)h
σ σ 0

e ficamos com
Z Z
F (z + h) − F (z) 1 1
− f (z) = f (w)dw − f (z)dw.
h h h
σ σ

Mas essa última expressão é igual a


Z
f (w) − f (z)
dw.
h
σ
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 107

Agora, como f é contı́nua, dado ǫ > 0 temos que |f (w) − f (z)| < ǫ para
|w − z| suficientemente pequeno. Ora, tomando w ao longo de σ temos,
pelo Lema Técnico 1.8, que

Z
f (w) − f (z) ǫ ǫ
dw ≤ ℓ(σ) = |h| = ǫ.
h |h| |h|


σ
Como ǫ é arbitrário concluı́mos que
Z
f (w) − f (z)
lim dw = 0.
h→0 h
σ
Mas isso é o mesmo que dizer que
F (z + h) − F (z)
lim − f (z) = 0
h→0 h
ou seja, F ′ (z) = f (z). ⊓

2 Os Teoremas de Cauchy

Essa seção apresenta o resultado central da teoria de funções de uma


variável complexa e explora algumas de suas consequências. Esperamos
que após le-la o leitor se convença da grande diferença existente entre o
Cálculo de funções reais e o de funções complexas. Começamos com o
2.1 Teorema de Cauchy-Goursat. Sejam U um domı́nio em C e
f : U → C uma função holomorfa. Suponha que ∆ ⊂ U é um triângulo
que limita uma região inteiramente contida em U . Então
Z
f (z)dz = 0.

U
1
3 2

4
2 3

Figura 15
108 Teoria de Cauchy Cap. 5

Demonstração: Inicialmente munimos o triângulo ∆ da orientação


compatı́vel com a região por ele limitada, isto é, o sentido de percurso
é o anti-horário. ∆ é um caminho suave por partes descrito pela jus-
taposição dos caminhos γ1 ∗ γ2 ∗ γ3 , como na figura acima. Tome os
pontos médios dos lados de ∆ e una esses pontos por segmentos de reta,
obtendo assim quatro triângulos contidos na região limitada por ∆, di-
gamos ∆1 , ∆2 , ∆3 e ∆4 . Adotamos o sentido de percurso anti-horário
para cada um desses triângulos. Temos então que
Z Z Z Z Z
f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz + f (z)dz + f (z)dz.
∆ ∆1 ∆2 ∆3 ∆4

As quatro integrais acima nos fornecem quatro números complexos. Es-


colhemos dentre eles o que tem maior módulo e chamamos de ∆(1) ao
triângulo correspondente. Assim sendo temos


Z Z

f (z)dz ≤ f (z)dz

(1)
∆i ∆

para i = 1, 2, 3, 4 e portanto

Z Z

f (z)dz ≤ 4 f (z)dz

.

∆(1)

Além disso, sabemos da geometria elementar que o perı́metro de cada


um dos triângulos ∆i (o comprimento ℓ(∆i )) está relacionado com o
perı́metro ℓ(∆) de ∆ por
1
ℓ(∆i ) = ℓ(∆) i = 1, 2, 3, 4
2
e, em particular, temos que
1
ℓ(∆(1) ) = ℓ(∆).
2
Também, chamando de δi o lado de ∆i de maior comprimento e de δ o
lado de ∆ de maior comprimento, temos as igualdades
1
δi = δ i = 1, 2, 3, 4
2
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 109

o que fornece
1
δ (1) = δ.
2
Pois bem, repetimos todo o procedimento acima para o triângulo ∆(1) ,
isto é, o dividimos em quatro novos triângulos, formados a partir dos
pontos médios de cada um de seus lados, adotamos o sentido de percurso
anti-horário para cada um deles e calculamos as quatro integrais corres-
pondentes. Escolhemos dentre elas a que tem maior módulo e chamamos
∆(2) ao triângulo correspondente. Ficamos então com os seguintes da-
dos:

região limitada por ∆(2) ⊂ região limitada por ∆(1)


Z Z


f (z)dz ≤ 4 f (z)dz

∆(1) ∆(2)
1
ℓ(∆(2) ) = ℓ(∆(1) )
2
1
δ = δ (1) .
(2)
2

Repetindo o procedimento acima para o triângulo ∆(2) e assim sucessi-


vamente, obtemos após n-etapas

região limitada por ∆(n) ⊂ · · · ⊂ região limitada por ∆(1)


Z Z

f (z)dz ≤ 4n

f (z)dz




∆ ∆(n)
 n
1
ℓ(∆(n) ) = ℓ(∆)
2
 n
1
δ (n) = δ.
2
110 Teoria de Cauchy Cap. 5

Invocamos agora um teorema, devido a Georg Cantor 2 , que nos diz que
existe um ponto z0 comum a todas as regiões limitadas pelos triângulos
∆(i) , i ≥ 1. Como f é holomorfa (note que essa hipótese só intervém
nesse momento), dado ǫ > 0 podemos obter τ > 0 tal que:
(i) o disco D(z0 , τ ) está inteiramente contido em U e

0 < |z − z0 | < τ =⇒ f (z)−f (z0 ) ′ (z ) < ǫ.

(ii) z−z0 − f 0

Mas essa última desigualdade equivale a


|f (z) − f (z0 ) − f ′ (z0 )(z − z0 )| < ǫ|z − z0 |
desde que 0 < |z − z0 | < τ . Agora, escolha n suficientemente grande de
n
tal modo que δ (n) = 12 δ < τ . Isso nos diz que a região limitada por
∆(n) está contida em D(z0 , τ ), pois z0 ∈ ∆(n) . Por outro lado,
Z
 
f (z) − f (z0 ) − f ′ (z0 )(z − z0 ) dz
∆(n)
Z Z Z
′ ′
= f (z)dz + [f (z0 )z0 − f (z0 )] dz − f (z0 ) zdz.
∆(n) ∆(n) ∆(n)
R R
Mas, pelo Teorema 1.6, dz = 0 e zdz = 0. Logo,
∆(n) ∆(n)
Z Z
 
f (z) − f (z0 ) − f ′ (z0 )(z − z0 ) dz = f (z)dz
∆(n) ∆(n)
e, pelo Lema Técnico 1.8, ficamos com

Z Z
 

f (z)dz = f (z) − f (z0 ) − f (z0 )(z − z0 ) dz

∆(n) ∆(n)
Z

≤ f (z) − f (z0 ) − f ′ (z0 )(z − z0 ) |dz|
∆(n)
Z
≤ǫ |z − z0 ||dz|
∆(n)
 n  n  n
1 1 1
≤ ǫδ (n) ℓ(∆(n) ) = ǫ δ ℓ(∆) = ǫδ ℓ(∆).
2 2 4
2
Elon Lima, Espaços Métricos, Projeto Euclides, IMPA
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 111

Finalmente temos

Z Z  n

n 1
n
f (z)dz ≤4 f (z)dz ≤ 4 ǫδ ℓ(∆) = ǫδ ℓ(∆).



4
∆ (n)

Como ǫ é arbitrário concluimos que



Z


f (z)dz = 0

e o teorema está demonstrado. ⊓


Começaremos a explorar a força desse resultado mostrando a exis-


tência de primitivas em regiões estreladas. Mais precisamente
2.2 Definição. Seja U ⊂ C um domı́nio. Dizemos que U é estre-
lado se existe um ponto z0 ∈ U satisfazendo a seguinte propriedade:
dado qualquer ponto z ∈ U , o segmento de reta unindo z0 a z, − z−→
0 z,
está inteiramente contido em U . O ponto z0 é chamado um centro do
domı́nio U .
Exemplos de domı́nios estrelados são: um disco D ⊂ C, o plano
C e, mais geralmente, qualquer subconjunto aberto convexo W ⊂ C
(um conjunto é convexo se o segmento de reta unindo quaisquer dois de
seus pontos está inteiramente contido nele). Poligonos regulares limi-
tam regiões abertas do plano que são domı́nios convexos. Observe que,
nos exemplos acima, qualquer ponto desses domı́nios é um centro. Um
outro exemplo de domı́nio estrelado é o plano C menos uma semi-reta
fechada. Assim, C \ R≤0 (o domı́nio do ramo principal do logaritmo)
é um domı́nio estrelado. Finalmente, o desenho de uma estrela limita
uma região aberta do plano que é um domı́nio estrelado, daı́ a origem
do nome. Quanto a esses temos o
2.3 Corolário. Sejam U ⊂ C um domı́nio estrelado e f : U → C uma
função holomorfa. Então f admite uma primitiva em U .
Demonstração: Seja z0 um centro de U e defina a função F : U → C
por Z
F (z) = f (w)dw.

z−→
0 z
112 Teoria de Cauchy Cap. 5

F está bem definida e só nos resta mostrar que ela é derivável com
F ′ (z) = f (z), ∀z ∈ U . Ora, tome h ∈ C com |h| suficientemente pequeno
−−−−→
a fim de que z + h ∈ U e o segmento z z + h ⊂ U . Temos que
Z
F (z + h) = f (w)dw
−−−−−

z0 z+h

e observamos que o triângulo ∆ de vértices z0 , z e z + h está contido em


U e limita uma região também
R contida em U . O Teorema de Cauchy-
Goursat 2.1 nos diz que f (w)dw = 0 e como

Z Z Z Z
f (w)dw = f (w)dw + f (w)dw − f (w)dw
∆ −
z−→ −−−−→ −−−−−

0 z z z+h z0 z+h

ficamos com Z
F (z + h) − F (z) = f (w)dw.
−−−−→
z z+h
Portanto,
Z
F (z + h) − F (z) 1
− f (z) = f (w)dw − f (z)
h h
−−−−→
z z+h

1
R
mas, f (z) = h f (z)dw (recorde a demonstração de 1.9) e daı́
−−−−→
z z+h
Z Z
F (z + h) − F (z) 1 1
− f (z) = f (w)dw − f (z)dw
h h h
−−−−→ −−−−→
z z+h z z+h
Z
1
= [f (w) − f (z)]dw.
h
−−−−→
z z+h

Como sempre, usamos agora a continuidade de f . Dado ǫ > 0 podemos


achar δ > 0 tal que 0 < |w − z| < δ ⇒ |f (w) − f (z)| < ǫ. Assim sendo,
se 0 < |h| < δ temos, pelo Lema Técnico 1.8, que


1 Z 1
Z
ǫ|h|

[f (w) − f (z)]dw ≤ |f (w) − f (z)||dw| <
h |h| |h|
−−−−→ −−−−→
z z+h z z+h
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 113

e portanto F (z+h)−F (z) ǫ|h|
= ǫ ou seja, F ′ (z) = f (z) e F é

h − f (z) < |h|
uma primitiva de f . ⊓

Temos imediatamente o
2.4 Corolário. (Teorema de Cauchy-Goursat bis). Sejam U ⊂ C um
domı́nio estrelado e f : U → C uma função holomorfa. Se γ é um
caminho fechado suave por partes em U , então
Z
f (z)dz = 0.
γ

Demonstração:
R Pelo Corolário 2.3 f tem uma primitiva em U e pelo
Teorema 1.9 f (z)dz = 0. ⊓

γ

2.5 Exemplo. Suponha que f : U → C é uma função holomorfa


definida num domı́nio U e que D(a, R) é um disco contido em U . Se
f (z)
z0 ∈ D(a, R) então a função g(z) = z−z 0
é holomorfa em todos os pontos
de D(a, R) exceto z0 (na realidade g é holomorfa em U \ {z0 } mas nos
concentraremos apenas nos pontos do disco). Considere o diâmetro de
D(a, R) que passa por z0 (se z0 = a considere um diâmetro qualquer).
Esse diâmetro determina dois segmentos de reta com extremo em z0 ,
digamos L1 e L2 (veja figura abaixo).

1
2

a L1 L2 a
z0 z0

D(a,R) D(a,R)

Figura 16

Agora, D(a, R) \ L1 e D(a, r) \ L2 são domı́nios estrelados e con-


cluimos que, se γ1 e γ2 são caminhos fechados, suaves por partes em
114 Teoria de Cauchy Cap. 5

D(a, R) \ L1 e D(a, r) \ L2 respectivamente, então

Z Z
f (z) f (z)
dz = 0 e dz = 0.
z − z0 z − z0
γ1 γ2

Esse exemplo será útil na demonstração do resultado central da teoria:

2.6 Teorema. (Fórmula Integral de Cauchy) Seja f : U → C uma


função holomorfa definida no domı́nio U ⊂ C. Sejam D̄(z0 , r0 ) um
disco fechado inteiramente contido em U e Γ sua fronteira, orientada
compativelmente. Se z é um ponto qualquer no interior de D̄(z0 , r0 )
então
Z
1 f (w)
f (z) = dw.
2pi w−z
Γ

Antes de passarmos à demonstracão, observamos que esse resultado


nos diz que, se conhecemos o comportamento de f ao longo da fronteira
do disco, então determinamos f em todos os pontos interiores a ele. Essa
“ridigez”é um fenômeno tipico do Cálculo de funções complexas, ausente
no caso real e de consequências espantosas.

Demonstração: Inicialmente observamos que, como U é aberto e


D̄(z0 , r0 ) ⊂ U é fechado, podemos encontrar um disco aberto D(z0 , R)
com R > r0 e tal que D̄(z0 , r0 ) ⊂ D(z0 , R) ⊂ U . A partir de agora
vamos considerar f apenas em D(z0 , R). Fixe z ∈ D(z0 , r0 )(o interior
de D̄(z0 , r0 )) e olhe para a função g(w) = fw−z
(w)
. Essa é holomorfa em
todos os pontos de D(z0 , R) exceto z. Procedemos como no Exemplo
2.5 e obtemos dois domı́nios estrelados associados ao disco D(z0 , R) nos
quais g(w) é holomorfa. Em seguida, isolamos o ponto z considerando
um cı́rculo γ nele centrado, de raio r > 0 suficientemente pequeno afim
de que o disco D(z, r) esteja inteiramente contido em D(z0 , r0 ). Como Γ
e D̄(z0 , r0 ) tem orientação compatı́vel, Γ deve ser percorrido no sentido
anti-horário. Considere os caminhos fechados, suaves por partes, σ1 e
σ2 , obtidos da seguinte maneira (veja figura):
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 115

U d

z0 z
b

D(z 0 ,r0 )
a

Figura 17

σ1 = α∗ (porção de γ − entre os pontos b e c) ∗β∗ (porção de Γ entre


os pontos d e a).
σ2 = (porção de Γ entre os pontos a e d) ∗β − ∗ (porção de γ − entre
os pontos c e b) ∗α− .
Como σ1 e σ2 são caminhos fechados em domı́nios estrelados nos
quais g(w) é holomorfa temos, pelo Teorema de Cauchy-Goursat 2.4,
que Z Z
f (w) f (w)
dw = dw = 0.
w−z w−z
σ1 σ2

Logo, Z Z
f (w) f (w)
dw + dw = 0
w−z w−z
σ1 σ2
mas,
Z Z Z Z
f (w) f (w) f (w) f (w)
dw + dw = dw + dw
w−z w−z w−z w−z
σ1 σ2 Γ γ−

e portanto Z Z
f (w) f (w)
dw + dw = 0
w−z w−z
Γ γ−

ou seja,
Z Z
f (w) f (w)
(∗) dw = dw.
w−z w−z
Γ γ
116 Teoria de Cauchy Cap. 5

R f (w)
Vamos agora trabalhar a integral w−z dw. Temos
γ
Z Z
f (w) f (w) − f (z) + f (z)
dw = dw
w−z w−z
γ γ
Z Z
f (w) − f (z) f (z)
= dw + dw
w−z w−z
γ γ
Z Z
f (w) − f (z) dw
= dw + f (z)
w−z w−z
γ γ

pois, como z está fixado, f (z) é uma constante. Ora, γ é dado por
γ(t) = z + reit , 0 ≤ t ≤ 2π e então

Z Z2π Z2π
dw rieit
f (z) = f (z) dt = f (z) idt = 2πif (z).
w−z reit
γ 0 0
R f (w)−f (z)
Quanto a w−z dw procedemos utilizando a continuidade de f .
γ
Dado ǫ > 0, podemos encontrar δ > 0 tal que 0 < |w − z| < δ ⇒
|f (w) − f (z)| < ǫ. Escolhendo o raio r do cı́rculo γ menor do que δ
(note que temos liberdade para tal) e invocando o Lema Técnico 1.8
obtemos

Z Z
f (w) − f (z) |f (w) − f (z)| ǫ
dw ≤ |dw| < 2πr = 2πǫ.

w − z |w − z| r
γ γ

R f (w)−f (z)
Como ǫ é arbitrário concluimos que w−z dw = 0 e portanto
γ
Z
f (w)
dw = 2πif (z).
w−z
γ

Segue de (∗) que Z


1 f (w)
f (z) = dw
2πi w−z
Γ
e o teorema está demonstrado. ⊓

Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 117

Essa fórmula mágica nos permite deduzir o seguinte: definimos função


holomorfa como aquela que admite derivada em todos os pontos de
seu domı́nio, sem fazer quaisquer outras hipóteses sobre a derivada. A
Fórmula Integral de Cauchy nos dá:
2.7 Corolário. Seja f : U → C holomorfa, onde U é um domı́nio.
Então f tem derivadas de todas as ordens em todos os pontos de U e
Z
(n) n! f (w)
f (z) = dw ∀z ∈ U
2πi (w − z)n+1
γ

onde γ é qualquer cı́rculo centrado em z, percorrido no sentido anti-


horário e limitando um disco fechado contido em U .
Demonstração: Seja r > 0 tal que o cı́rculo γ(t) = z + reit , 0 ≤ t ≤ 2π
limita um disco fechado contido em U . Pelo Teorema 2.6 temos
Z  
f (z + h) − f (z) 1 1 f (w) f (w)
= − dw.
h 2πi h w − (z + h) w − z
γ

Mas,
Z   Z
1 f (w) f (w) f (w)
− dw = dw.
h w − (z + h) w − z (w − z − h)(w − z)
γ γ

Agora,
f (w) f (w) hf (w)
2 − (w − z − h)(w − z) =
(w − z) (w − z)2 (w − z − h)
e, usando o Lema Técnico 1.8

Z  
f (w) f (w)
2 − (w − z − h)(w − z) dw

(w − z)

γ

Z Z
hf (w) |h||f (w)|
= 2 dw ≤ |dw|.
(w − z) (w − z − h) |w − z|2 |w − z − h|
γ γ

Se K é o valor máximo de |f | ao longo de γ e se |h| < r/2 então,


|w − z − h| ≥ |w − z| − |h| > r − r/2 = r/2 e obtemos
Z
|h||f (w)| |h|K |h|K |h|K
2 |dw| < 2 r ℓ(γ) = r3 2πr = 2 4π.
|w − z| |w − z − h| r 2 r
γ 2
118 Teoria de Cauchy Cap. 5

Tomando o limite h → 0 concluimos


Z Z
f (w) f (w)
lim dw = dw
h→0 (w − z − h)(w − z) (w − z)2
γ γ

e isso nos diz que


Z
′ f (z + h) − f (z) 1 f (w)
f (z) = lim = dw.
h→0 h 2πi (w − z)2
γ

Para mostrar que f tem derivada segunda, repetimos exatamente o


mesmo procedimento, utilizando a fórmula integral obtida acima para
f ′ . Continuando dessa maneira obtemos o corolário. ⊓

2.8 Corolário. (Estimativas de Cauchy) Seja f uma função holomorfa


definida no disco D(z0 , R) e suponha que |f | ≤ K em D(z0 , R). Então
n!K
(n)
f (z0 ) ≤ n .
R

Demonstração: Tome um cı́rculo γ(t) = z0 + reit , 0 ≤ t ≤ 2π, onde


r < R. Pelo Corolário 2.7
Z
n! f (w)
f (n) (z0 ) = dw
2πi (w − z0 )n+1
γ

e pelo Lema Técnico 1.8


Z
(n) n! |f (w)| n!K n!K
f (z0 ) ≤ n+1 |dw| ≤ n+1
2πr = n .
2π |w − z0 | 2πr r
γ

Como r < R é arbitrário, fazendo r tender a R ficamos com


n!K n!K
(n)
f (z0 ) ≤ lim n = n .
r→R r R

2.9 Corolário. (Teorema de Liouville) Seja f uma função inteira, isto


é, f : C → C. Se existe um número K ≥ 0 tal que |f (z)| ≤ K então f
é uma função constante.
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 119

Demonstração: Como f está definida em todo C, ela é holomorfa em


qualquer disco D(z, R), centrado em z ∈ C e de raio arbitrário. Pelo
Corolário 2.8
′ n!K
f (z) ≤ .
R
Daı́ vem que, como R é arbitrário

f (z) ≤ lim n!K = 0



R→∞ R

e portanto f ′ (z) = 0 para todo z ∈ C. Segue do Lema 1.1 que f é


constante. ⊓

Uma consequência do corolário acima é o


2.10 Teorema Fundamental da Álgebra. Seja P : C → C um
polinômio não constante. Então existe um número complexo z0 tal que
P (z0 ) = 0.
Demonstração: Escreva P (z) = an z n + an−1 z n−1 + · · · + a1 z + a0 , onde
an 6= 0. Afirmamos que lim |P (z)| = ∞. De fato, como P (z) é não
|z|→∞
constante e é uma função inteira, pelo Teorema de Liouville |P (z)| não
pode ser limitado mas, já que |P (z)| é limitado em qualquer disco fechado
D̄(0, r), só nos resta a possibilidade lim |P (z)| = ∞. Outra maneira
|z|→∞
de mostrar isso, sem utilizar o Teorema de Liouville, é a seguinte:

|P (z)| = |an z n + an−1 z n−1 + · · · + a1 z + a0 |


 
n |an−1 | |a1 | |a0 |
≥ |z| |an | − − · · · − n−1 − n
|z| |z| |z|
e  
|an−1 | |a1 | |a0 |
lim |an | − − · · · − n−1 − n = |an |.
|z|→∞ |z| |z| |z|
Portanto,
 
|an−1 | |a1 | |a0 |
lim |P (z)| ≥ lim |z|n |an | − − · · · − n−1 − n = ∞.
|z|→∞ |z|→∞ |z| |z| |z|

Suponha agora que P (z) 6= 0 em todos os pontos z ∈ C. Então a função


1
f (z) = P (z) é inteira e |f | é limitado. Para ver isso, tome R > 0 tal que
120 Teoria de Cauchy Cap. 5

|P (z)| > 1 para |z| > R (um tal R existe pois lim |P (z)| = ∞) e seja
|z|→∞
K 6= 0 o valor mı́nimo de |P (z)| para |z| ≤ R. Temos então que
 
1
|f (z)| ≤ max 1, ∀ z ∈ C.
K

Segue do Corolário 2.9 que f é constante, o que é um absurdo pois P


não o é. ⊓

Apresentaremos em seguida um outro resultado importante e útil,


chamado Princı́pio do Módulo Máximo, o qual afirma que uma função
holomorfa não constante f , definida num domı́nio U , é tal que |f | não
possui valor máximo em U . Para demonstrar esse resultado necessitamos
do seguinte

Lema. Sejam D(a, r), r > 0, um disco e f : D(a, r) → C uma função


holomorfa. Se a imagem f (D(a, r)) está contida num cı́rculo |w| = α,
então f é uma função constante.

Demonstração: Se α = 0 não há o que mostrar. √ Suponha então α > 0


e escreva f = u + iv. A função g(x, y) = |f (z)| = u2 + v 2 é constante,
pois é igual a α, tem derivadas parciais contı́nuas e
 
∂g 1 ∂u ∂v
=√ u +v = 0,
∂x u2 + v 2 ∂x ∂x

 
∂g 1 ∂u ∂v
=√ u +v = 0.
∂y u2 + v 2 ∂y ∂y

Como valem as condições de Cauchy-Riemann ficamos com

∂u ∂v
u +v =0
∂x ∂x

∂u ∂v
v −u =0
∂x ∂x
o que fornece ∂u ∂v ′
∂x = ∂x = 0. Logo, f (z) = 0 em todos os pontos de
D(a, r). Segue do Lema 1.1 que f é constante. ⊓

Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 121

2.11 Corolário. (Princı́pio do Módulo Máximo) Sejam U um domı́nio


em C e f : U → C uma função holomorfa. Suponha que existe um ponto
a ∈ U tal que |f (a)| ≥ |f (z)| para todo z ∈ U . Então f é uma função
constante.
Demonstração: Seja D(a, r) um disco centrado em a cujo fêcho
D̄(a, r) ⊂ U . A fronteira de D(a, r) é expressa por γ(t) = a + reit ,
0 ≤ t ≤ 2π. Pela Fórmula Integral de Cauchy
Z
1 f (w)
f (a) = dw
2πi w−a
γ
Z2π Z2π
1 f (a + reit )rieit 1
= it
dt = f (a + reit )dt.
2πi re 2π
0 0

Portanto, pelo Lema Técnico 1.8 e pela hipótese

Z2π Z2π
1 it 1
|f (a)| ≤ |f (a + re )|dt ≤ |f (a)|dt = |f (a)|.
2π 2π
0 0

Mas isso nos diz que

Z2π h i
1
|f (a)| − |f (a + reit )| dt = 0.

0

Como o integrando é uma função contı́nua não-negativa obtemos

|f (a)| = |f (a + reit )| ∀ t ∈ [0, 2π].

Agora, r é arbitrário e, fazendo-o variar, concluimos que a imagem de


um disco D(a, R) por f está contida no cı́rculo |w| = |f (a)|. Pelo lema
anterior f é constante. ⊓

O leitor deve observar que esse resultado não tem paralelo no caso
real e tampouco é óbvio, mesmo em se considerando polinômios.
Vamos agora utilizar a Fórmula Integral de Cauchy para estabele-
cer a equivalência entre os conceitos de função holomorfa e de função
analı́tica. Por definição (reveja a Definição 2.17 do Capı́tulo 4), uma
122 Teoria de Cauchy Cap. 5

função é analı́tica num domı́nio se pode ser dada, em torno de qual-


quer ponto desse domı́nio, por uma série de potências com raio de con-
vergência positivo. A representação integral do Teorema 2.6 fornece o
modo de se expandir uma função holomorfa em série de potências e nos
dá a medida do raio de convergência dessa série. Antes de enunciar o
resultado preciso recorde o exercı́cio 13 do Capı́tulo 1: se κ 6= 1 é um
número complexo então:

1 κn+1
(⋆) = 1 + κ + κ2 + · · · + κn + .
1−κ 1−κ
Com isso em mãos temos o
2.12 Teorema. Sejam f : U → C uma função holomorfa, onde U é um
domı́nio em C e z0 ∈ U um ponto qualquer. Então

X f (n) (z0 )
f (z) = (z − z0 )n
n!
n=0

ou seja, f é dada por sua série de Taylor de centro em z0 e portanto é


uma função analı́tica. Além disso, essa série converge em qualquer disco
(aberto) D(z0 , r) ⊂ U , isto é, o raio de convergência R da série acima
é a menor entre as distâncias de z0 aos pontos da fronteira de U .
Demonstração: A Fórmula Integral de Cauchy nos diz que
Z
1 f (w)
f (z) = dw
2πi w−z
γ

onde γ = z0 + reit , r > 0, 0 ≤ t ≤ 2π, é qualquer cı́rculo centrado


em z0 , limitando um disco fechado contido em U e z é qualquer ponto
satisfazendo |z − z0 | < r. Para obter o resultado vamos inicialmente
1
trabalhar a expressão w−z . Temos

1 1 1
= = h i
w−z w − z0 + z0 − z (w − z0 ) 1 + z0 −z
w−z0
!
1 1 1
= h i= z−z0 .
(w − z0 ) 1 − z−z0 (w − z0 ) 1− w−z0
w−z0
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 123

z−z0
Agora, usando (⋆) e substituindo κ por w−z0 concluimos que
 
1 z − z0 z − z0 2
z−z0 = 1 + w − z + w − z + ···
1 − w−z 0
0 0
 n+1
 n z−z0
z − z0 w−z0
··· + + z−z0 .
w − z0 1 − w−z 0

Portanto,
!
1 1 1
= z−z0
w−z (w − z0 ) 1− w−z0
 n+1
n   z−z0
1 X z − z0 j 1 w−z0
= + z−z0
(w − z0 ) w − z0 (w − z0 ) 1 − w−z
j=0 0
n  j
1 X z − z0 (z − z0 )n+1
= +
(w − z0 ) w − z0 (w − z)(w − z0 )n+1
j=0
n
X 1 j (z − z0 )n+1
= (z − z 0 ) + .
(w − z0 )j+1 (w − z)(w − z0 )n+1
j=0

Multiplicando por f (w) obtemos o integrando da Fórmula Integral de


Cauchy
n
f (w) X f (w) j f (w)(z − z0 )n+1
= (z − z 0 ) +
w−z (w − z0 )j+1 (w − z)(w − z0 )n+1
j=0

e integrando ao longo de γ ficamos com


Z
1 f (w)
f (z) = dw
2πi w−z
γ
 
n Z
 1 f (w)
X
= j+1
dw (z − z0 )j
2πi (w − z0 )
j=0 γ
Z
1 f (w)(z − z0 )n+1
+ dw.
2πi (w − z)(w − z0 )n+1
γ
124 Teoria de Cauchy Cap. 5

Pelo Corolário 2.7 isso é o mesmo que

Z X f (j) (z0 ) n
1 f (w)
f (z) = dw = (z − z0 )j
2πi w−z j!
γ j=0
Z
1 f (w)(z − z0 )n+1
+ dw.
2πi (w − z)(w − z0 )n+1
γ

Ponha
Z
1 f (w)(z − z0 )n+1
Rn (z) = dw.
2πi (w − z)(w − z0 )n+1
γ


P f (j) (z0 )
Para mostrar que a série j! (z − z0 )j converge a f (z) é sufi-
j=0
ciente mostrar que lim Rn (z) = 0 qualquer que seja z satisfazendo
n→∞
z ∈ D(z0 , r). Ora, seja K o valor máximo de |f (w)| ao longo de
w = γ(t) = z0 + reit , 0 ≤ t ≤ 2π. Invocando o Lema Técnico 1.8 temos
(esperamos que a essa altura o leitor tenha se convencido da utilidade
desse resultado e do significado do adjetivo “técnico”a ele associado)


Z n+1
1 f (w)(z − z0 )
|Rn (z)| =
dw
2πi (w − z)(w − z0 )n+1
γ
Z
1 |f (w)||z − z0 |n+1
≤ |dw|
2π |w − z||w − z0 |n+1
γ
Z
1 K|z − z0 |n+1
≤ |dw|.
2π |w − z||w − z0 |n+1
γ

Agora, |w − z0 | = r e como |w − z0 | ≤ |w − z| + |z − z0 | obtemos


r − |z − z0 | ≤ |w − z| e daı́

1 1
≤ .
|w − z| r − |z − z0 |
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 125

Assim sendo,
Z
1 K|z − z0 |n+1
|Rn (z)| ≤ |dw|
2π |w − z||w − z0 |n+1
γ
Z
1 K|z − z0 |n+1
≤ |dw|
2π (r − |z − z0 |)rn+1
γ
1 K|z − z0 |n+1
= 2πr
2π (r − |z − z0 |)rn+1
K|z − z0 |n+1
= .
(r − |z − z0 |)rn
Faça |z − z0 | = α e observe que α < r pois z está no disco D(z0 , r). A
expressão acima se transforma em
Kαn+1 Kαn+1 K  α n+1
|Rn (z)| ≤ = =  .
(r − α)rn rn+1 − rn α 1 − αr r
Logo,
K  α n+1
0 ≤ lim |Rn (z)| ≤  lim =0
n→∞ 1 − αr n→∞ r
α
pois r < 1. Isso mostra que

X f (j) (z0 )
f (z) = (z − z0 )j .
j!
j=0

Já que a única restrição imposta ao raio r do cı́rculo γ é que γ limite um


disco fechado contido em U , concluimos que essa série representa f em
qualquer disco de centro em z0 e de raio que satisfaça essa propriedade.
O teorema está demonstrado.

Um exemplo importante que segue imediatamente do Teorema 2.12


é o da função exponencial. Recorde que definimos a função exponencial
exp(z) por ez = ex (cos y + i sen y), onde z = x + iy. Também vimos que
ez é uma função inteira e que exp′ (z) = exp(z) para todo ponto z ∈ C.
Pelo Teorema 2.12, essa função é dada por sua série de Taylor centrada
em qualquer ponto z e essa série tem raio de convergência R = ∞. Em
particular, tomando z = 0 temos exp(n) (0) = 1 para n ≥ 0 e portanto

X zn
ez = ex (cos y + i sen y) = .
n!
n=0
126 Teoria de Cauchy Cap. 5

Vamos ver agora a capacidade que o Teorema 2.6 tem de metamorfosear


tanto o teorema de Cauchy-Goursat quanto a si próprio. Recorde da
Definição 1.3 do Capı́tulo 2 a definição de curva de Jordan suave por
partes.
2.13 Teorema de Cauchy. Sejam U ⊂ C um domı́nio e f : U → C
uma função holomorfa. Seja V ⊂ U um subconjunto fechado e limitado,
cuja fronteira ∂V consiste de um número finito de curvas de Jordan
suaves por partes, ∂V = γ1 ∪ · · · ∪ γn , e tal que V \ ∂V é um domı́nio.
Então Z
f (z)dz = 0.
∂V

Demonstração: Tome V e ∂V com orientação compatı́vel. Já sabemos


que f tem derivadas de todas as ordens em todos os pontos de U e,
escrevendo f (z) = u(x, y) + iv(x, y), concluimos que as funções u e v
tem derivadas parciais de todas as ordens em todos os pontos de U . Em
particular, as derivadas parcias dessas funções são contı́nuas. Podemos
então invocar o Teorema de Green 3.3 do Capı́tulo 2 e argumentar como
se segue:
Z Z
f (z)dz = (u + iv)(dx + idy)
∂V ∂V
Z Z
= udx − vdy + i udy + vdx.
∂V ∂V

Aplicando o Teorema de Green às duas integrais acima temos:


Z ZZ   ZZ  
∂v ∂u ∂v ∂u
udx − vdy = − − dxdy = − + dxdy
∂x ∂y ∂x ∂y
∂V V V
e Z Z ZZ  
∂u ∂v
udy + vdx = vdx + udy = − dxdy.
∂x ∂y
∂V ∂V V
Mas, como f é holomorfa, as condições de Cauchy-Riemann são satis-
feitas e isso dá ∂u ∂v ∂v ∂u
∂x − ∂y = 0 e ∂x + ∂y = 0. Portanto,
Z Z
udx − vdy = 0 e udy + vdx = 0
∂V ∂V
Seção 2 Os Teoremas de Cauchy 127

ou seja, Z
f (z)dz = 0. ⊓

∂V

Essa versão do Teorema de Cauchy nos permite apresentar de maneira


mais geral a Fórmula Integral de Cauchy 2.6:
2.14 Teorema. (Fórmula Integral de Cauchy bis) Seja f : U → C
uma função holomorfa definida no domı́nio U ⊂ C. Seja V uma região
fechada e limitada inteiramente contida em U , cuja fronteira ∂V é uma
curva de Jordan suave por partes, orientada no sentido anti-horário,
sendo V \ ∂V um domı́nio. Se z0 é um ponto qualquer no interior de V
então Z
1 f (w)
f (z0 ) = dw.
2πi w − z0
∂V

Demonstração: Como z0 é ponto interior a V , podemos encontrar um


disco fechado D(z0 , r) centrado em z0 e inteiramente contido no interior
de V . Olhe para a região W = V \ D(z0 , r). Trata-se de uma região
fechada e limitada, contida no domı́nio U , cuja fronteira ∂W consiste
das duas curvas de Jordan suaves por partes, ∂V e ∂D(z0 , r). Oriente W
f (z)
e ∂W compativelmente. A função g(z) = z−z 0
é holomorfa em U \ {z0 },
um
R domı́nio que contém W . Assim sendo, o Teorema 2.13 afirma que
g(z)dz = 0. Mas (observe que o cı́rculo ∂D(z0 , r) está orientado no
∂W
sentido horário)
Z Z Z
g(z)dz = g(z)dz + g(z)dz
∂W ∂V ∂D(z0 ,r)−

R R
e então g(z)dz = g(z)dz. Logo, o Teorema 2.6 implica que
∂V ∂D(z0 ,r)

Z Z
f (z) f (z)
dz = dz = 2πif (z0 ). ⊓

z − z0 z − z0
∂V ∂D(z0 ,r)

Um exemplo
R ez simples que ilustra o Teorema 2.14 em ação consiste em cal-
cular z(z−1) dz, onde γ é o quadrado de vértices (1/2, 1/2), (−1/2, 1/2),
γ
128 Teoria de Cauchy Cap. 5

(−1/2, −1/2) e (1/2, −1/2), orientado no sentido anti-horário. Esse ca-


minho tem 0 em seu interior e 1 em seu exterior. Consideramos então a
ez
função f (z) = z−1 , que é holomorfa no domı́nio C \ {1}, que contém a
região fechada e limitada V determinada por γ. Pela Fórmula Integral
de Cauchy,
Z Z
ez f (z)
dz = dz = 2πif (0) = −2πi.
z(z − 1) z
γ γ

Cabe observar que, se γ é uma curva de Jordan suave por partes,


determinando uma região limitada
R f (z) contida num domı́nio U , no qual uma
função f é holomorfa, então z−z0 dz = 0 sempre que o ponto z0 estiver
γ
na região exterior a γ. Isso segue do Teorema de Cauchy, pois nesse caso
f (z)
o integrando z−z 0
é uma função holomorfa num domı́nio que contém a
região fechada e limitada determinada por γ. Se ocorrer que o ponto z0
esteja sobre o caminho γ, então a integral não está definida, já que o
integrando “explode”ao passarmos por z0 .
O resultado final desse capı́tulo é uma recı́proca do Teorema 2.13,
conhecido como
2.15 Teorema de Morera. R Sejam U ⊂ C um domı́nio e f : U → C
uma função contı́nua. Se f (z)dz = 0 para todo caminho triangular

∆ ⊂ U , então f é holomorfa em U .
Demonstração: Devemos mostrar que f possui derivada em todos os
pontos de U . Dado z0 ∈ U , tome um disco D(z0 , r) ⊂ U , r > 0. Esse
disco é um domı́nio
R estrelado e, repetindo a demonstração do Corolário
2.3, utilizando f (z)dz = 0 para ∆ ⊂ D(z0 , r) ao invés do Teorema

de Cauchy-Goursat, concluimos que f tem uma primitiva em D(z0 , r)
e, portanto, é derivável em z0 . Como z0 é um ponto arbitrário de U , o
teorema está demonstrado. ⊓

3 Exercı́cios
R
Nos exercı́cios de 1 a 14 calcule f (z)dz onde f e γ são dados.
γ

1) f (z) = z z̄ e γ(t) = eit , 0 ≤ t ≤ 2π.


Seção 3 Exercı́cios 129

z+1
2) f (z) = z e γ(t) = 3eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
z+1
3) f (z) = z e γ(t) = 14 eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
z+1
4) f (z) = z e γ(t) = 5i + eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
1
5) f (z) = z 2 −2
e γ(t) = 2 + eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
1
6) f (z) = z 2 −2
e γ(t) = 2eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
7) f (z) = πeπz̄ e γ é o quadrado de vértices 0, 1, 1 + i e i, percorrido
no sentido anti-horário.
1
8) f (z) = z−z0 e γ(t) = z0 + reit , 0 ≤ t ≤ 2π, r > 0.
1
9) f (z) = (z−z0 )n
e γ(t) = z0 + reit , 0 ≤ t ≤ 2π, r > 0, n ≥ 2.
eiz
10) f (z) = z2
e γ(t) = eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
11) f (z) = sen
z4
z
e γ(t) = eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
log z
12) f (z) = zn e γ(t) = 1 + 41 eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
ez −e−z
13) f (z) = zn e γ(t) = eit , 0 ≤ t ≤ 2π, n ≥ 1.
1
14) f (z) = z 2 +1
e γ(t) = 2eit , 0 ≤ t ≤ 2π.
R eiz
15) Sejam γ(t) = reit , 0 ≤ t ≤ π e I(r) = z dz. Calcule lim I(r).
γ r→∞
R ekz
16) Mostre que z dz = 2πi, onde k é uma constante real e γ(t) = eit ,
γ
0 ≤ t ≤ 2π. Use esse resultado para mostrar que

ek cos t cos (k sen t)dt = π.
0

17) Seja f uma função inteira e suponha que existem M ≥ 0, R > 0


e n ≥ 1 tais que |f (z)| ≤ M |z|n para |z| ≥ R. Mostre que f é um
polinômio de grau ≤ n.
18) Seja f : U → C uma função holomorfa, onde U é um domı́nio.
Suponha que exista um ponto a ∈ U tal que |f (a)| ≤ |f (z)| para todo
ponto z ∈ U . Mostre que, ou bem f (a) = 0, ou bem f é uma função
constante.
130 Teoria de Cauchy Cap. 5

1
19) Seja f (z) holomorfa para |z| < 1 e tal que |f (z)| ≤ 1−|z| . Mostre
que se n ≥ 1, então
 
f (n) (0)
1 n
≤ (n + 1) 1 + < (n + 1)e.
n! n

20) Sejam f uma função holomorfa num domı́nio U , que contém a região
fechada e limitada determinada por uma curva de Jordan suave por
partes γ, e z um ponto interior a essa região. Se K é o máximo de |f |
ao longo de γ e δ é a distância mı́nima de z a γ, então
 
ℓ(γ) 1/n
|f (z)| ≤ K ∀ n ≥ 1.
2πδ
Use isso para deduzir outra demonstração do Princı́pio do Módulo Má-
ximo, Corolário 2.11.
P∞
21) Mostre a igualdade de Parseval: se f (z) = an (z − z0 )n e se
n=0
|z − z0 | = r, então (obviamente assumimos que a série converge absolu-
tamente para |z − z0 | ≤ r)
Z2π ∞
1 2 X
|f (z0 + reiθ )| dθ = |an |2 r2n .

0 n=0

Use isso para dar outra demonstração do Princı́pio do Módulo Máximo,


Corolário 2.11.
22) Demonstre a regra de l’Hôpital para funções holomorfas: se f (z0 ) =
g(z0 ) = 0, então
f (z) f ′ (z0 )
lim = ′ .
z→z0 g(z) g (z0 )
Se por acaso também ocorrer que f ′ (z0 ) = g ′ (z0 ) = 0, então
f (z) f ′ (z) f (2) (z0 )
lim = lim ′ = (2)
z→z0 g(z) z→z0 g (z) g (z0 )
e assim sucessivamente.
23) Princı́pio da Identidade. Sejam f e g funções holomorfas num
domı́nio U . Suponha que exista uma sequência (zn ) em U tal que
(zn ) → a ∈ U . Mostre que, se f (zn ) = g(zn ) ∀n, então f (z) = g(z)
qualquer que seja z ∈ U . (Sugestão: use o Teorema 2.15 do Capı́tulo 4)
6

Singularidades

Nesse capı́tulo consideramos as singularidades de funções holomorfas.


Recordando a Definição 4.2 do Capı́tulo 3, se f é uma função holomorfa,
um ponto a é uma singularidade (isolada) de f se existe um disco D(a, r),
centrado em a, tal que f é holomorfa em todo o disco, exceto no ponto a.
A Fórmula Integral de Cauchy permite obter uma descrição precisa do
comportamento de f em torno de um tal ponto. Essa descrição envolve
o conceito de série de Laurent, uma generalização de série de potências,
uma vez que nela intervém potências negativas.
Começamos introduzindo um pouco de notação. Se ρ1 e ρ2 são
números reais satisfazendo 0 ≤ ρ1 < ρ2 e a é um número complexo,
o anel A(a, ρ1 , ρ2 ) é o conjunto aberto definido por

A(a, ρ1 , ρ2 ) = {z ∈ C : ρ1 < |z − a| < ρ2 }.

Escrevemos A(a, ρ1 , ∞) para denotar o anel ilimitado {z ∈ C : ρ1 <


|z − a|}. Observe que A(a, 0, ρ2 ) é D(a, ρ2 ) \ {a}. O anel fechado
Ā(a, ρ1 , ρ2 ) é o conjunto fechado

Ā(a, ρ1 , ρ2 ) = {z ∈ C : ρ1 ≤ |z − a| ≤ ρ2 }

e Ā(a, ρ1 , ∞) = {z ∈ C : ρ1 ≤ |z − a|}.

1 A Expansão de Laurent

Suponha que tenhamos uma função holomorfa f , definida no anel


A(a, ρ1 , ρ2 ), f : A(a, ρ1 , ρ2 ) → C. Fixe um ponto z ∈ A(a, ρ1 , ρ2 ) e sejam
132 Singularidades Cap. 6

r1 e r2 dois números reais positivos satisfazendo ρ1 < r1 < |z| < r2 < ρ2 .
Olhe para o anel fechado Ā(a, r1 , r2 ). Sua fronteira é formada pelos
cı́rculos γ1 = {|w − a| = r1 } e γ2 = {|w − a| = r2 }. Vamos utilizar a
Fórmula Integral de Cauchy para descrever a função f em torno de z
(veja figura).

V
z

2
a
1

Figura 18

Inicialmente observe que a função g(w) = fw−z


(w)
é holomorfa no anel
A(a, ρ1 , ρ2 ) exceto no ponto z. Assim sendo, isolamos o ponto z consi-
derando um disco nele centrado, D(z, τ ), tal que D̄(z, τ ) ⊂ A(a, r1 , r2 )
e cuja fronteira é o cı́rculo λ, que orientamos no sentido anti-horário.
Pela Fórmula Integral de Cauchy 2.6 Capı́tulo 5 temos
Z
1 f (w)
f (z) = dw.
2πi w−z
λ

Considere agora a região V formada pelos pontos interiores a γ2 e ex-


teriores a γ1 e a λ. Sua fronteira ∂V é formada pelas três curvas de
Jordan λ, γ1 e γ2 e, dotando V e ∂V da orientação compatı́vel temos
que ∂V = γ1− ∪ λ− ∪ γ2 .
Como g(w) = fw−z(w)
é holomorfa num aberto que contém V e ∂V , o
Teorema de Cauchy 2.13 do Capı́tulo 5 garante que
Z Z
f (w)
0= g(w)dw = dw.
w−z
∂V ∂V
Seção 1 A Expansão de Laurent 133

Mas,
Z Z Z Z
0= g(w)dw = g(w)dw + g(w)dw + g(w)dw
∂V γ1− λ− γ2

e portanto Z Z Z
g(w)dw = g(w)dw + g(w)dw
λ γ1− γ2

ou seja,
Z Z Z
1 f (w) 1 f (w) 1 f (w)
dw = − dw + dw.
2πi w−z 2πi w−z 2πi w−z
λ γ1 γ2

Lembrando que Z
1 f (w)
f (z) = dw
2πi w−z
λ

obtemos a expressão
Z Z
1 f (w) 1 f (w)
(⋆) f (z) = − dw + dw.
2πi w−z 2πi w−z
γ1 γ2

Nosso trabalho agora é o de retirar informação dessas duas integrais.


1
R f (w)
Estudo de 2πi w−z dw.
γ2

A sutileza aqui presente é o fato de f não estar definida no disco


D̄(a, ρ2 ) porém, repetindo a demonstração do Teorema 2.12 do Capı́tulo
5, concluimos que
 
Z ∞ Z
1 f (w) X 1 f (w) n
dw = n+1 dw (z − a)
 
2πi w−z 2πi (w − a)
γ2 n=0 γ2

e essa série converge (absolutamente) qualquer que seja z satisfazendo


|z − a| < r2 (a única diferença é que, na demonstração do Teorema
(n) R f (w)
2.12 do Capı́tulo 5, substituimos f n!(a) por 2πi
1
(w−a)n+1
dw, já que
γ2
134 Singularidades Cap. 6

f (n) (a) não necessariamente existe e, então, não vale a igualdade dada
no Corolário 2.7 do Capı́tulo 5). Com isso em mãos (⋆) fica

Z ∞
1 f (w) X
(⋆⋆) f (z) = − dw + an (z − a)n
2πi w−z
γ1 n=0

1
R f (w)
onde an = 2πi (w−a)n+1
dw, n ≥ 0. Ressaltamos que, embora z seja
γ2
um ponto no anel A(a, r1 , r2 ), a série de potências acima converge abso-
lutamente em todos os pontos do disco D(a, r2 ).

1
R f (w)
Estudo de − 2πi w−z dw.
γ1

Nesse caso, repetimos o roteiro da demonstração do Teorema 2.12


do Capı́tulo 5 fazendo as modificações necessarias. Embora os cálculos
aqui envolvidos sejam rotineiros, a idéia por trás deles é inovadora e
detalharemos a argumentação.
Temos

1 −1 −1
= = h i
w−z (z − a) − (w − a) (z − a) 1 − w−a
z−a

e
(w−a)n+1
1 w−a (w − a)n (z−a)n+1
w−a =1+ + ··· + n + .
1− z−a
z−a (z − a) 1 − w−a
z−a

Logo,

1 −1
= h i
w−z (z − a) 1 − w−a
z−a
(w−a)n+1
−1 (w − a) (w − a)n (z−a)n+1
= − 2 − · · · − n+1 − h i
(z − a) (z − a) (z − a) (z − a) 1 − w−a
z−a
Seção 1 A Expansão de Laurent 135

1
R f (w)
e − 2πi w−z dw lê-se
γ1

Z n Z
1 f (w) X 1 f (w)(w − a)j
− dw = dw
2πi w−z 2πi
j=0
(z − a)j+1
γ1 γ1
n+1

1
Z f (w) (w−a)
(z−a) n+1
+ h i dw.
2πi (z − a) 1 − w−a
γ1 z−a

Ponha n+1

1
Z f (w) (w−a)
(z−a)n+1
Rn (z) = h i dw.
2πi (z − a) 1 − w−a
γ1 z−a

Vamos estimar |Rn (z)|. Para fazê-lo note que


Z
1 f (w)(w − a)n+1
Rn (z) = dw
2πi (z − w)(z − a)n+1
γ1

e que
1 1
|z − a| ≤ |z − w| + |w − a| = |z − w| + r1 =⇒ ≤ .
|z − w| |z − a| − r1
Portanto, se K é o valor máximo de |f | ao longo de γ1 então o Lema
Técnico 1.8 do Capı́tulo 5 fornece

Z n+1
1 f (w)(w − a)
|Rn (z)| = n+1 dw
2πi (z − w)(z − a)

γ1
Z
1 Kr1n+1
≤ |dw|
2π (|z − a| − r1 )|z − a|n+1
γ1

1 Kr1n+1
= 2πr1
2π (|z − a| − r1 )|z − a|n+1
Kr1n+2
=
(|z − a| − r1 )|z − a|n+1
K r1n+2
= r1 .
1 − |z−a| |z − a|n+2
136 Singularidades Cap. 6

r1
Fazendo |z−a| = α temos que α < 1 e a expressão acima fica

K
|Rn (z)| ≤ αn+2
1−α
e daı́ vem que
K
lim |Rn (z)| ≤ lim αn+2 = 0.
n→∞ n→∞ 1−α
P∞ R f (w)(w−a)n
1
Concluimos que a série 2πi (z−a)n+1
dw converge a
n=0 γ1
1
R f (w)
− 2πi w−z dw e que a convergência é absoluta qualquer que seja z sa-
γ1
tisfazendo |z − a| > r1 . O interessante aqui é que essa é uma série de
potências negativas de z − a. De fato,
 
Z Z
1 f (w)(w − a)n 1 1
n+1 dw =  f (w)(w − a)n dw
2πi (z − a) 2πi (z − a)n+1
γ1 γ1

e então
 
Z ∞ Z
1 f (w) X
 1 1
− dw = f (w)(w − a)n dw .
2πi w−z
n=0
2πi (z − a)n+1
γ1 γ1

Com isso em mãos (⋆⋆) lê-se


∞ ∞
X 1 X
(⋆ ⋆ ⋆) f (z) = bm m + an (z − a)n
(z − a)
m=1 n=0

onde
Z
1 f (w)
an = dw , n ≥ 0
2πi (w − a)n+1
γ2
Z
1
bm = f (w)(w − a)m−1 dw , m ≥ 1.
2πi
γ1

Recaptulando: tomamos um ponto z ∈ A(a, ρ1 , ρ2 ) e obtivemos uma


expansão de f (z) como uma soma de duas séries, a primeira delas de
Seção 1 A Expansão de Laurent 137

potências negativas, que converge absolutamente fora do disco fechado


D̄(a, ρ1 ) e a segunda, de potências positivas, que converge no interior
do disco fechado D̄(a, ρ2 ). O único senão é a expressão dos coeficientes
dessas duas séries, obtidos integrando-se certas funções em cı́rculos dis-
tintos. Para sanar essa pretensa complexidade invocamos o Teorema de
Cauchy 2.13 do Capı́tulo 5.
Considere um cı́rculo qualquer γ, de centro em a, contido no anel
A(a, ρ1 , ρ2 ) e orientado no sentido anti-horário. Dado n ≥ 0, a função
f (w)
h(w) = (w−a) n+1 é holomorfa no anel fechado cuja fronteira consiste dos

cı́rculos γ e γ2 . Pelo Teorema de Cauchy vale que


Z Z
f (w) f (w)
n+1 dw = dw
(w − a) (w − a)n+1
γ2 γ

e portanto podemos escrever


Z
1 f (w)
an = dw , n ≥ 0.
2πi (w − a)n+1
γ

Argumentando da mesma maneira para os coeficientes bm obtemos


Z
1
bm = f (w)(w − a)m−1 dw , m ≥ 1.
2πi
γ

O leitor inquiridor perguntaria a essa altura se a expansão de f (z)


obtida acima é única. A resposta é sim e a razão é a seguinte: Suponha
que tenhamos uma expansão
∞ ∞
X 1 X
f (z) = dm + cn (z − a)n
(z − a)m
m=1 n=0
absolutamente convergente para z ∈ A(a, ρ1 , ρ2 ). Vamos considerar
inicialmente os coeficientes das potências negativas. Multiplique f (z)
por (z − a)k−1 , k ≥ 2 e obtenha

X dm
(z − a)k−1 f (z) =
m=k+1
(z − a)m−k+1
dk
+ + dk−1 + dk−2 (z − a) + · · · + d1 (z − a)k−2
(z − a)
X∞
+ cn (z − a)n+k−1 .
n=0
138 Singularidades Cap. 6

Considere as funções

X dm
f1 (z) =
m=k+1
(z − a)m−k+1
e

X
k−2
f2 (z) = dk−1 + dk−2 (z − a) + · · · + d1 (z − a) + cn (z − a)n+k−1 .
n=0

Temos que
dk
(z − a)k−1 f (z) = f1 (z) + + f2 (z).
(z − a)
Agora, f1 e f2 ambas admitem primitiva pois

X 1 dm
F1 (z) =
k − m (z − a)m−k
m=k+1

é uma série absolutamente convergente em A(a, ρ1 , ρ2 ) (reveja a demons-


tração da Proposição 1.7 do Capı́tulo 5) e F1 ′ (z) = f1 (z). Também

(z − a)2 (z − a)k−1
F2 (z) = dk−1 (z − a) + dk−2 + · · · + d1
2 k−1

X cn
+ (z − a)n+k
n+k
n=0

converge absolutamente no anel A(a, ρ1 , ρ2 ) e F2 ′ (z) = f2 (z). Portanto,


se γ é um cı́rculo de centro em a, contido em A(a, ρ1 , ρ2 ) e percorrido
no sentido anti-horário então
Z Z Z Z
k−1 dk
f (z)(z − a) dz = f1 (z)dz + dz + f2 (z)dz
(z − a)
γ γ γ γ
Z
dk
=0+ dz + 0 = 2πidk
(z − a)
γ

ou seja, Z
1
dk = f (z)(z − a)k−1 dz
2πi
γ
Seção 1 A Expansão de Laurent 139

e os coeficientes das potências negativas são os mesmos de (⋆ ⋆ ⋆). Isso


mostra que a série de potências negativas da expansão (⋆ ⋆ ⋆) é única.
Com isso em mãos temos
∞ ∞
X 1 X
f (z) − bm m = an (z − a)n
(z − a)
m=1 n=0

e
∞ ∞
X 1 X
f (z) − bm m = cn (z − a)n .
(z − a)
m=1 n=0
Logo,

X ∞
X
n
an (z − a) = cn (z − a)n
n=0 n=0
e o Teorema 2.15 do Capı́tulo 4 nos diz que an = cn para todo n ≥ 0.
Acabamos de demonstrar o
1.1 Teorema de Laurent. Seja f uma função holomorfa no anel
A(a, ρ1 , ρ2 ). Então
∞ ∞
X 1 X
f (z) = bm m + an (z − a)n
(z − a)
m=1 n=0


P 1
sendo que a série bm (z−a) m converge absolutamente fora do disco fe-
m=1

P
chado D̄(a, ρ1 ) e a série an (z − a)n converge absolutamente no disco
n=0
D(a, ρ2 ). Além disso, essa expansão é única e os coeficientes bm e an
são dados por
Z
1
bm = f (z)(z − a)m−1 dz , m ≥ 1
2πi
γ
Z
1 f (w)
an = dw , n ≥ 0
2πi (w − a)n+1
γ

onde γ é um cı́rculo de centro em a, orientado no sentido anti-horário


e contido em A(a, ρ1 , ρ2 ).
A expansão dada pelo teorema acima é chamada série de Laurent de
f e é muito útil pois nos permite estudar as singularidades isoladas de
140 Singularidades Cap. 6

funções complexas. Antes de passar a esse estudo apresentamos alguns


exemplos.
f (z) = z1 é holomorfa em C∗ = C\{0} e sua série de Laurent centrada
em 0 é z1 . Já g(z) = z+1
1
é holomorfa em C \ {−1} e sua série de Laurent
1
centrada em −1 é z+1 . Olhe agora para

1 1
h(z) = + .
z z+1
Essa função tem duas singularidades isoladas, 0 e −1, e sua série de
1
Laurent em torno de 0 é obtida expandindo z+1 em série de potências
de centro 0. Usando a série geométrica

1 1 X
= = (−1)n z n .
z+1 1 − (−z)
n=0

Essa série tem raio de convergência R = 1, que é precisamente a distância


entre as duas singularidades de h. Portanto,

1 1 1 X
h(z) = + = + (−1)n z n
z z+1 z
n=0

sendo essa expansão válida para todo z no anel A(0, 0, 1). Observe que,
pela unicidade da série de Laurent, uma vez obtida uma tal expansão
(não importa por qual método ou artifı́cio), ela é a série de Laurent de h
em torno de 0. Quanto à expansão de h em torno de −1 temos, usando
novamente a série geométrica

1 −1 X
= =− (z + 1)n
z 1 − (z + 1)
n=0

e essa série tem raio de convergência R = 1. Logo,



1 1 1 X
h(z) = + = − (z + 1)n
1+z z 1+z
n=0

é a expansão de Laurent de h no anel A(−1, 0, 1).


1
Um exemplo mais radical é dado por f (z) = −1 − z + e1/z . Essa

P wn
função tem uma singularidade isolada em 0. Como ew = n! , e1/z =
n=0
Seção 1 A Expansão de Laurent 141


P 1 1
n! z n para todo z 6= 0 (justifique essa afirmativa) e então
n=0


X 1 1
f (z) =
n! z n
n=2

é a série de Laurent de f no anel A(0, 0, ∞). Nesse exemplo, temos


potências negativas de ordem arbitrariamente alta.
z+1
Por fim, seja f (z) = (z−2) 2 (z−i) . Essa função tem duas singularidades

isoladas, 2 e i. Para obter a série de Laurent de f em torno de i,


1
inicialmente expandimos (z−2) 2 em série de potências com centro em i.
Temos
1 1 1 1
= = .
z−2 (z − i) + (i − 2) i − 2 1 + z−i
i−2

Invocando a série geométrica ficamos com


∞ ∞
1 1 X (z − i)n X n (z − i)
n
= (−1)n = (−1)
z−2 i−2 (i − 2)n (i − 2)n+1
n=0 n=0

e derivando ambos os lados dessa igualdade



X (−1)n n
−1
= (z − i)n−1 .
(z − 2)2 n=1 (i − 2)n+1

Logo,

X (−1)n+1 n
1
= (z − i)n−1
(z − 2)2 n=1 (i − 2)n+1
e

1 1 1 X (−1)m+1 (m + 2)
= + m+3 (z − i)m
.
(z − 2)2 (z − i) (i − 2)2 (z − i) (i − 2)
m=0

Como
z+1 (z − i) + (1 + i)
2
=
(z − 2) (z − i) (z − 2)2 (z − i)
z−i 1+i
= +
(z − 2)2 (z − i) (z − 2)2 (z − i)
142 Singularidades Cap. 6

e

X (−1)k (k + 1)
z−i
= (z − i)k
(z − 2)2 (z − i) (i − 2)k+2
k=0
e

X (−1)k+1 (1 + i)(k + 2)
1+i 1+i 1
= + (z − i)k
(z − 2)2 (z − i) (i − 2)2 (z − i) (i − 2)k+3
k=0

finalmente obtemos

" #
1+i 1 X k (k + 1) (1 + i)(k + 2)
f (z) = + (−1) − (z − i)k .
(i − 2)2 (z − i) (i − 2)k+2
(i − 2)k+3
k=0

Essa é a série de Laurent de f em torno de i. Observe, novamente, que√o


raio de convergência da série de potências acima é precisamente R = 5,
a distância entre as singularidades de f . Exortamos o leitor afoito a
calcular os coeficientes dessa série de Laurent utilizando as fórmulas
dadas no Teorema 1.1. Já em torno da singularidade 2 temos
1 1 1 1
= =
z−i (z − 2) + (2 − i) 2 − i 1 + z−2
2−i

e
∞ n ∞
1 1 X n (z − 2)
X (z − 2)n
= (−1) n = (−1)n .
z−i 2−i
n=0
(2 − i) (2 − i)n+1
n=0
Logo,
1 1 1 1 1
= −
(z − 2)2 (z − i) 2 − i (z − 2)2 (2 − i)2 z − 2

X (−1)m m
+ m+3 (z − 2) .
m=0
(2 − i)

Como
z+1 z−2+3
2
=
(z − 2) (z − i) (z − 2)2 (z − i)
z−2 3
= +
(z − 2)2 (z − i) (z − 2)2 (z − i)
1 3
= +
(z − 2)(z − i) (z − 2)2 (z − i)
Seção 2 Classificação de Singularidades 143

e

1 1 1 X (−1)m+1 m
(z − 2)(z − i)
=
2−i z−2
+ m+2 (z − 2)
m=0
(2 − i)

3 3 1 3 1
= −
(z − 2)2 (z − i) 2 − i (z − 2)2 (2 − i)2 z − 2
X∞
+ 3(−1)m (2 − i)m+3 (z − 2)m
m=0

Finalmente obtemos
 
3 1 1 3 1
f (z) = 2 + − 2
2 − i (z − 2) 2 − i (2 − i) z−2
∞  
X m 3 1 m
+ (−1) m+3 − m+2 (z − 2)
m=0
(2 − i) (2 − i)


para todo z no anel A(2, 0, 5).

2 Classificação de Singularidades

Usaremos a expansão de Laurent para dividir as singularidades isoladas


em três categorias radicalmente distintas. Suponha que f é uma função
holomorfa no anel A(a, 0, ρ) e considere sua série de Laurent em torno
de a:
∞ ∞
X 1 X
f (z) = bm m + an (z − a)n .
(z − a)
m=1 n=0

Temos então a

2.1 Definição. a é singularidade removı́vel de f se bm = 0 para m ≥ 1.


a é polo de ordem k de f se bk 6= 0 e bm = 0 para m > k. a é
singularidade essencial de f se bm 6= 0 para uma infinidade de valores
de m.

Exemplos desses três tipos de pontos singulares são dados por:


144 Singularidades Cap. 6

f (z) = sen z
z , z 6= 0. f (z), em princı́pio, não está definida apenas
em z = 0 porém, lembrando que
1  iz 
sen z = e − e−iz
2i !
∞ ∞
1 X (iz)n X (−iz)n
= −
2i n! n!
n=0 n=0

!
1 X (iz)n − (−iz)n
= 2iz +
2i n!
n=2

1 X (iz)n − (−iz)n
=z+
2i n!
n=2
temos, para z 6= 0,

sen z 1 X (iz)n−1 − (−iz)n−1
f (z) = =1+ .
z 2i n!
n=2
Agora, a série de potências acima representa f para z 6= 0 e também
está definida em 0. Dessa forma, f admite uma extensão holomorfa a
todos os pontos de C e 0 é singularidade removı́vel de f . Observe que é
perfeitamente lı́cito escrever f (0) = 1.
z+1
Considere agora o exemplo já visto f (z) = (z−2) 2 (z−i) . f tem duas

singularidades isoladas, 2 e i e ambas são polos de f , sendo 2 um polo


de ordem 2 e i um polo de ordem 1.
P∞
1 1
Por outro lado, e1/z = n! z n exibe uma singularidade essencial
n=0
em 0.
Os seguintes resultados elucidam o comportamento de uma função
em torno de uma singularidade isolada:
2.2 Proposição. Seja f uma função holomorfa no anel A(a, 0, ρ).
Então as seguintes afirmativas são equivalentes:
(i) a é singularidade removı́vel de f .
(ii) existe o lim f (z).
z→a
(iii) |f | é limitado em algum anel A(a, 0, δ) ⊂ A(a, 0, ρ).]
Demontracão: Suponha que (i) valha. Então a série de Laurent de f
em A(a, 0, ρ) é:
X∞
f (z) = an (z − a)n
n=0
Seção 2 Classificação de Singularidades 145

e portanto lim f (z) = a0 , ou seja, vale (ii). Suponha (ii) válida e seja
z→a
α = lim f (z). Da definição de limite temos que existe δ > 0, que
z→a
podemos tomar < ρ, tal que 0 < |z − a| < δ =⇒ |f (z) − α| < 1.
Mas isso nos diz que |f (z)| < 1 + |α| para z ∈ A(a, 0, δ) e vale (iii).
Finalmente, suponha (iii) válida, ou seja, existe K tal que |f (z)| ≤ K
para z ∈ A(a, 0, δ). Os coeficientes bm das potências negativas da série
de Laurent de f são dados por
Z
1
bm = f (z)(z − a)m−1 dz , m ≥ 1
2πi
γ

onde γ(t) = a + reit , 0 ≤ t ≤ 2π e 0 < r < ρ. Pelo Lema Técnico 1.8 do


Capı́tulo 5
Z
1 1
|bm | ≤ |f (z)||z − a|m−1 |dz| ≤ Krm−1 2πr = Krm .
2π 2π
γ

Fazendo r tender a zero concluimos que bm = 0 para m ≥ 1 e a é


singularidade removı́vel de f . ⊓

2.3 Corolário. Se bm 6= 0 para algum m ≥ 1, então |f | é ilimitado em


qualquer disco de centro em a.
Demonstração: De fato, nesse caso a não é singularidade removı́vel e
então (iii) não pode ocorrer. ⊓

Quanto aos polos temos a


2.4 Proposição. Se f é uma função holomorfa no anel A(a, 0, ρ), então
a é um polo de ordem k de f se, e somente se, lim (z − a)k f (z) existe
z→a
e é um número complexo não nulo.
Demonstração: Suponha que a seja um polo de ordem k de f . Então
a série de Laurent de f em A(a, 0, ρ) se escreve

bk b1 X
f (z) = + ··· + + an (z − a)n , bk 6= 0
(z − a)k z−a
n=0

e daı́

X
(z − a)k f (z) = bk + · · · + b1 (z − a)k−1 + an (z − a)n+k .
n=0
146 Singularidades Cap. 6

Logo, lim (z − a)k f (z) = bk 6= 0. Por outro lado, suponha que


z→a
lim (z − a)k f (z) = α 6= 0. Olhe para a função g(z) = (z − a)k f (z).
z→a
Por (ii) da Proposição 2.2, g tem uma singularidade removı́vel em a e
portanto, é dada por uma série de potências centrada em a e convergente
no disco D(a, ρ), digamos

X
g(z) = an (z − a)n .
n=0

Além disso, a0 = α. Vem então que



α ak−1 X
f (z) = + · · · + + an+k (z − a)n
(z − a)k z−a
n=0

e a é polo de ordem k de f . ⊓

2.5 Corolário. Se f é uma função holomorfa no anel A(a, 0, ρ) e a é


polo de ordem k de f então lim |f (z)| = ∞.
z→a
Demonstração: Usando a mesma notação da proposição anterior te-
mos
|g(z)| 1
lim |f (z)| = lim k
= |α| lim = ∞. ⊓

z→a z→a |z − a| z→a |z − a|k

z+1
Por exemplo, revivendo a função f (z) = (z−2) 2 (z−i) , que tem um polo

de ordem 2 em 2 e um polo de ordem 1 em i, temos


z+1 3
lim (z − 2)2 f (z) = lim =
z→2 z→2 z−i 2−i
e
z+1 1+i
lim (z − i)f (z) = lim 2
= .
z→i z→i (z − 2) (i − 2)2
1 1
Esses são os coeficientes de (z−2) 2 e de z−i nas expansões de Laurent de

f em torno de 2 e de i, respectivamente.
Já em torno de uma singularidade essencial, o comportamento de
uma função holomorfa é incontrolável. Para se ter uma idéia, um te-
orema devido a Picard afirma que, se a é singularidade essencial de f ,
holomorfa no anel A(a, 0, ρ) então, dado qualquer 0 < r ≤ ρ, a imagem
por f do anel A(a, 0, r), f (A(a, 0, r)), é todo o plano C, com a possı́vel
Seção 2 Classificação de Singularidades 147

excessão de no máximo um ponto! A demontração do Teorema de Pi-


card foge, e muito, do escopo desse texto porém, com o instrumental a
nossa disposição somos capazes de mostrar o seguinte
2.6 Teorema de Casorati-Weierstrass. Seja f uma função holo-
morfa no anel A(a, 0, ρ) e suponha que a é singularidade essencial de f .
Então, dados 0 < r ≤ ρ, ǫ > 0 e α ∈ C, existe um número complexo β
tal que β ∈ A(a, 0, r) e |f (β) − α| < ǫ.
Demonstração: Em linguagem mais simples esse teorema nos diz que
em qualquer anel A(a, 0, r), com r ≤ ρ, existe uma sequência (βn ) → a
tal que (f (βn )) → α, onde α é um número complexo escolhido a revelia.
A demonstração é a seguinte: considere a série de Laurent de f centrada
em a
∞ ∞
X 1 X
f (z) = bm + an (z − a)n
(z − a)m
m=1 n=0
onde, por hipótese, uma infinidade de coeficientes bm são não nulos.
Dado α, olhe para a função g(z) = f (z) − α. A série de Laurent de g é
∞ ∞
X 1 X
g(z) = bm m + a0 − α + an (z − a)n
(z − a)
m=1 n=1

e portanto a também é singularidade essencial de g. Considere as se-


guintes duas possibilidades mutuamente excludentes:

(i) existe uma sequência (βn ) de pontos no anel A(a, 0, ρ), com
lim βn = a e tal que g(βn ) = 0 para todo n.
n→∞

(ii) não existe sequência de zeros de g convergindo a a.

Se vale (i) então, dados r > 0 e ǫ > 0, podemos achar N tal que
n ≥ N fornece 0 < |βn − a| < r e trivialmente |g(βn )| = 0 < ǫ. Mas
isso é o mesmo que |f (βn ) − α| < ǫ. Tomando β = βN o teorema fica
demonstrado nesse caso.
Se (i) não vale então vale (ii) e argumentamos da seguinte maneira:
como não existe sequência de zeros de g convergindo a a, podemos encon-
trar um número τ > 0 tal que g(z) 6= 0 para z no anel A(a, 0, τ ). Nesse
1
caso, dados r > 0 e ǫ > 0 olhamos para g(z) e temos duas possibilidades:

1 1
(1) ou existe β ∈ A(a, 0, τ ) ∩ A(a, 0, r) tal que g(β) > ǫ
148 Singularidades Cap. 6

1
(2) ou g(z) é limitado no anel A(a, 0, τ ) ∩ A(a, 0, r).
Se (1) ocorre então |g(β)| < ǫ e portanto |f (β) − α| < ǫ. Nesse caso,
o teorema está demonstrado.
1
Se (2) ocorre então, pela Proposição 2.2, g(z) tem uma singularidade
1
removı́vel em a. Portanto, g(z) tem expansão em série de potências
convergente no disco D(a, τ ) ∩ D(a, r), digamos

1 X
= cn (z − a)n .
g(z)
n=0

Seja cn0 o primeiro coeficiente não nulo dessa série. Então



1 n0
X
= (z − a) cn (z − a)n−n0 .
g(z) n=n 0


P
Fazendo h(z) = cn (z − a)n−n0 temos que h é analı́tica no disco
n=n0
D(a, τ )∩D(a, r) (veja a demonstração da Proposição 2.14 do Capı́tulo 4)
1
e h(a) = cn0 6= 0. Como g(z) = (z − a)n0 h(z) temos que (z − a)n0 g(z) =
1
h(z) e portanto
1
lim (z − a)n0 g(z) = 6= 0.
z→a h(a)
Mas, pela Proposição 2.4, g tem um polo de ordem n0 em a, o que
contradiz o fato de a ser singularidade essencial de g. Logo (2) nunca
ocorre e o teorema está demonstrado. ⊓

3 Resı́duos

O Teorema de Cauchy 2.13 Capı́tulo 5 afirma que, se a região fechada


e limitada determinada por uma curva de Jordan suave por partes γ
está
R inteiramente contida no domı́nio da função holomorfa f , então
γ f (z)dz = 0. Fazemos agora a seguinte pergunta: como se transforma
esse teorema caso f tenha singularidades isoladas no interior da região
fechada e limitada determinada por γ? Para responder tal pergunta
introduzimos o conceito de resı́duo:
3.1 Definição. Se f é uma função holomorfa no anel A(a, 0, ρ), o
1
resı́duo de f em a é o coeficiente b1 do termo z−a de sua série de Laurent
com centro em a.
Seção 3 Resı́duos 149

Usaremos a notação res(f, a) para designar o resı́duo de f em a. Com


relação aos exemplos sen z z+1
, e1/z e (z−2) 2 (z−i) temos res
sen z , 0 = 0,
  z   z 
1/z z+1 1 3 z+1
res e , 0 = 1, res (z−2)2 (z−i) , 2 = 2−i − (2−i)2 e res (z−2)2 (z−i) , i =
1+i
(i−2)2
. Temos o
3.2 Teorema dos Resı́duos. (Cauchy) Seja f uma função holomorfa
num domı́nio U \ {a1 , a2 , . . . , am }. Suponha que γ ⊂ U \ {a1 , a2 , . . . , am }
é uma curva de Jordan suave por partes, orientada no sentido anti-
horário, tal que a região fechada e limitada por ela determinada está
contida em U e contém todos os pontos a1 , a2 , . . . , am . Então
Z
1
f (z)dz = res(f, a1 ) + res(f, a2 ) + · · · + res(f, am ).
2πi
γ

Demonstração: Para cada singularidade isolada aj de f , escolha um


cı́rculo γj centrado em aj satisfazendo as seguintes condições: γk não
tem ponto comum com γn se k 6= n e γj não tem ponto comum com γ,
para 1 ≤ j ≤ m (veja figura).

U
2

a2 am

1
a1

Figura 19

Oriente os γj , 1 ≤ j ≤ m, no sentido anti-horário. Pelo Teorema de


Cauchy 2.13 do Capı́tulo 5 temos
Z
f (z)dz = 0.
γ∪γ − 1 ∪γ − 2 ∪···∪γ − m
150 Singularidades Cap. 6

Mas isso equivale a


Z Z Z Z
f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz + · · · + f (z)dz.
γ γ1 γ2 γm

R
Nos resta portanto calcular f (z)dz, j = 1, ..., m. Ora, o Teorema de
γj
Laurent 1.1 nos diz que, se
∞ ∞
X 1 X
bm m + cn (z − aj )n
(z − aj )
m=1 n=0

é a série de Laurent de f em torno de aj , então


Z
1
b1 = f (z)dz.
2πi
γj

R
Logo, f (z)dz = 2πires(f, aj ) e o teorema está demonstrado. ⊓

γj

Uma questão que se apresenta imediatamente é o cálculo do resı́duo


de f numa singularidade isolada. É óbvio que se f tem uma singula-
ridade removı́vel em a então res(f, a) = 0. Já no caso em que a é um
polo temos as duas proposições abaixo:
3.3 Proposição. Seja f uma função holomorfa no anel A(a, 0, ρ) e
suponha que a é um polo de ordem 1 de f . Então res(f, a) =
lim (z − a)f (z).
z→a

Demonstração: A prova desse resultado está contida na demonstração


da Proposição 2.4, porém a faremos explicitamente. A série de Laurent
de f no anel A(a, 0, ρ) lê-se:

res(f, a) X
f (z) = + an (z − a)n .
z−a
n=0


P
Assim sendo, (z − a)f (z) = res(f, a) + an (z − a)n+1 e então
n=0
lim (z − a)f (z) = res(f, a). ⊓

z→a
Seção 3 Resı́duos 151

3.4 Proposição. Seja f uma função holomorfa no anel A(a, 0, ρ) e


suponha que a é um polo de ordem k > 1 de f . Considere a função
g(z) = (z − a)k f (z). Então

g (k−1) (a)
res(f, a) = .
(k − 1)!

Demonstração: A série de Laurent de f no anel A(a, 0, ρ) lê-se:



bk bk−1 res(f, a) X
f (z) = + + ··· + + an (z − a)n .
(z − a)k (z − a)k−1 z−a
n=0

Multiplicando por (z − a)k obtemos



X
k−1
g(z) = bk + bk−1 (z − a) + · · · + res(f, a)(z − a) + an (z − a)n+k .
n=0

Observe que g é holomorfa no disco D(a, ρ) e, portanto, a expressão


acima é sua série de Taylor de centro em a. Mas então o coeficiente de
(k−1) (a)
(z − a)k−1 é precisamente g (k−1)! . ⊓

O leitor terá notado que essa proposição fornece um método para o


cálculo de res(f, a) desde que a função f seja “manejavel”e k não seja
muito grande, pois se trata de calcular a derivada de um produto. Re-
z+1
vivendo mais uma vez o exemplo f (z) = (z−2) 2 (z−i) obtemos, aplicando
as proposições acima

z+1 1+i
res(f, i) = lim (z − i)f (z) = lim = .
z→i z→i (z − 2)2 (i − 2)2
e
 ′
2 ′ z+1 1 3
res(f, 2) = ((z − 2) f (z))|z=2 = = − .
z−i |z=2 2 − i (2 − i)2

É bom lembrar que, se f tem singularidade essencial em a então não


dispomos de métodos como acima e res(f, a) deve ser calculado através
da série de Laurent de f . Daremos a seguir duas aplicações importantes
do Teorema dos Resı́duos.
152 Singularidades Cap. 6

4 O Teorema de Rouché

Iniciamos com um teorema que nos permite contar zeros e polos, conhe-
cido como Princı́pio do Argumento. Recorde do Capı́tulo 4 (Proposição
2.14) que, se f é uma função holomorfa e b é um zero de f , então te-
mos uma decomposição f (z) = (z − b)k g(z), onde k ≥ 1 é a ordem ou
multiplicidade do zero, g é holomorfa num disco em torno de b e g(b) 6= 0.
4.1 Teorema. Seja f uma função holomorfa num domı́nio
U \ {a1 , a2 , . . . , am }. Suponha que γ ⊂ U \ {a1 , a2 , . . . , am } é uma curva
de Jordan suave por partes, orientada no sentido anti-horário, tal que
a região fechada e limitada por ela determinada está contida em U e
contém todos os pontos a1 , a2 , . . . , am . Além disso, suponha que todos
esses pontos sejam polos de f e que f não tem zeros ao longo de γ.
Então Z ′
1 f (z)
dz = Z − P
2πi f (z)
γ
onde Z = número de zeros de f na região interior a γ, cada um deles
contado tantas vezes quanto for sua multiplicidade e P = número de
polos de f na região interior a γ, cada um deles contado tantas vezes
quanto for sua ordem.
Demonstração: Pelo Teorema dos Resı́duos, a integral acima é a soma
′ (z)
dos resı́duos da função ff (z) na região interior a γ. Dado um ponto a
nessa região temos três possibilidades: (i) f (a) 6= 0, (ii) a é zero de
multiplicidade m de f , (iii) a é polo de ordem k de f . O caso (i) fornece
nada à integral acima pois o integrando não possui resı́duo nesse ponto.
Nos resta investigar (ii) e (iii). Suponha então que:
(ii) a é zero de multiplicidade m de f . Nesse caso, num disco D(a, δ)
vale que f (z) = (z − a)m g(z) onde g(a) 6= 0 e g é holomorfa. Por outro
lado, f ′ (z) = m(z − a)m−1 g(z) + (z − a)m g ′ (z). Daı́ vem que
f ′ (z) m g ′ (z)
= + .
f (z) z−a g(z)

g ′ (z) g ′ (z) P
Como g(z) é holomorfa em D(a, δ) temos g(z) = cn (z − a)n e por-
n=0
tanto

f ′ (z) m X
(⋆) = + cn (z − a)n .
f (z) z−a
n=0
Seção 4 O Teorema de Rouché 153

f ′ (z)
Essa é então a série de Laurent de f (z) centrada em a e nesse ponto o
resı́duo é m.

(iii) a é polo de ordem k de f . Nesse caso, num disco D(a, δ) vale


que (z − a)k f (z) = g(z), onde g é holomorfa e g(a) 6= 0. Portanto,
g ′ (z)
f (z) = g(z) k e f ′ (z) = −kg(z)
k+1 + k . Logo,
(z−a) (z−a) (z−a)

f ′ (z) −k g ′ (z)
= + .
f (z) z−a g(z)

Argumentando como em (ii) concluimos que esse ponto contribui −k


1
R f ′ (z)
para a integral 2πi f (z) dz. ⊓

γ

4.2 Corolário. Nas mesmas hipóteses do Teorema 4.1, se f e h são


funções holomorfas em U , então
Z
1 f ′ (z) X
h(z) dz = h(ξj ) mξj (f )
2πi f (z)
γ ξj

onde ξ1 , ξ2 , . . . , ξℓ são os zeros de f na região interior a γ e mξj (f ) é a


multiplicidade de ξj como zero de f .

Demonstração: Pelo Teorema dos Resı́duos, a integral acima é a soma


′ (z)
dos resı́duos da função h(z) ff (z) na região interior a γ. Dado um ponto
a nessa região temos duas possibilidades, uma vez que f e h são ho-
lomorfas: (i) f (a) 6= 0, (ii) a é zero de multiplicidade m de f . Como
no teorema anterior, (i) fornece nada à integral acima pois o integrando
possui resı́duo nulo nesse ponto. Quanto a (ii), suponha que a é zero de
multiplicidade m de f , localizado no interior da região limitada deter-
minada por γ. Por (⋆) do teorema anterior temos que:


f ′ (z) m X
= + cn (z − a)n .
f (z) z−a
n=0

Por outro lado, a função h tem expansão centrada em a dada por, di-

P ∞
P
gamos, h(z) = bn (z − a)n = b0 + bn (z − a)n . Multiplicando a
n=0 n=1
154 Singularidades Cap. 6

igualdade acima ficamos com:



f ′ (z) b0 m X
h(z) = +m bn+1 (z − a)n
f (z) z−a
n=0
"∞ #" ∞ #
X X
+ bn (z − a)n cn (z − a)n .
n=0 n=0

Portanto, o resı́duo de h(z) ff (z)
(z)
em a é b0 m = h(a) ma (f ). ⊓

Observação: Se h ≡ 1 então o corolário nos diz que


Z ′
1 f (z)
dz = Z
2πi f (z)
γ

onde Z = número de zeros de f na região interior a γ, cada um deles


contado tantas vezes quanto for sua multiplicidade.
Apresentamos agora o resultado principal dessa seção.
4.3 Teorema de Rouché. Sejam f e g duas funções holomorfas,
ambas definidas no domı́nio U ⊂ C. Seja V ⊂ U uma região fechada
e limitada cuja fronteira ∂V é uma curva de Jordan suave por partes,
com V \ ∂V um domı́nio. Se

|f (z) − g(z)| < |f (z)| para todo z ∈ ∂V,

então f e g tem o mesmo número de zeros no interior de V .


Demonstração: Antes de mais nada note que, por hipótese, nem f nem
g podem ter zeros ao longo de ∂V . Oriente o caminho ∂V no sentido
anti-horário e suponha que ele seja descrito por γ(t), 0 ≤ t ≤ 1. Fazendo
Φ(z) = fg(z)
(z) temos que

|f (γ(t)) − g(γ(t))| < |f (γ(t))| ⇒ |1 − Φ(γ(t))| < 1.

Agora, seja a um ponto no interior de V . Então a é um zero de Φ se, e


somente se, a é um zero de g. Também temos que um ponto b no interior
de V é polo de Φ se, e somente se, b é um zero de f (use a Proposição
2.4). Assim sendo, se mostrarmos que
Z ′
1 Φ (z)
dz = 0
2πi Φ(z)
γ
Seção 4 O Teorema de Rouché 155

então, pelo Teorema 4.1, o número de zeros de Φ no interior de V é igual


ao seu número de polos aı́ e, portanto, f e g tem o mesmo número de
zeros. Para calcular essa integral considere o caminho ϕ(t) = Φ(γ(t)),
0 ≤ t ≤ 1. Esse é um caminho fechado, suave por partes (pois Φ é
holomorfa ao longo de γ) e, o que é essencial, está inteiramente contido
no disco de centro 1 e raio 1, já que |Φ(γ(t)) − 1| < 1. Logo,

Z Z1 Z1
Φ′ (z) Φ′ (γ(t)) ′ ϕ′ (t)
dz = γ (t)dt = dt.
Φ(z) Φ(γ(t)) ϕ(t)
γ 0 0

R1 ϕ′ (t) 1
Mas ϕ(t) dt nada mais é que a integral da função h(z) = z ao longo do
0
R1 ϕ′ (t) R 1
caminho ϕ, ϕ(t) dt = z dz. Como ϕ está contido no disco D(1, 1) e
0 ϕ
log z (ramo principal do logaritmo) é uma primitiva de h(z) nesse disco,
o Teorema 1.9 do Capı́tulo 5 nos diz que
Z Z ′
1 Φ (z)
0= dz = dz. ⊓

z Φ(z)
ϕ γ

Uma consequência do teorema de Rouché é o


Teorema Fundamental da Álgebra. Seja P : C → C um polinômio
de grau n. Então P (z) tem precisamente n zeros, contados com multi-
plicidade.
Demonstração: Escreva P (z) = an z n + an−1 z n−1 + · · · + a1 z + a0 ,
an 6= 0. A ideia é comparar P (z) com Q(z) = an z n e usar o teorema de
Rouché. Temos

|Q(z) − P (z)| = |an−1 z n−1 + · · · + a1 z + a0 |

e, se z 6= 0

Q(z) − P (z) an−1 a1 a0
an z + · · · + an z n−1 + an z n .
=
Q(z)

Agora,
an−1 a1 a0
lim + ··· + + =0
|z|→∞ an z an z n−1 an z n
156 Singularidades Cap. 6

e portanto, podemos achar R > 0 tal que se |z| > R então



Q(z) − P (z) an−1 a1 a0
an z + · · · + an z n−1 + an z n < 1.
=
Q(z)

Assim sendo, escolhendo qualquer cı́rculo γ de centro em 0 e raio > R


temos que, ao longo de γ,

|Q(z) − P (z)| < |Q(z)|.

Pelo teorema de Rouché P tem precisamente n zeros, contados com


multiplicidade. ⊓

5 Uma interpretação Dinâmica do Resı́duo

Nessa seção olharemos para o resı́duo de um ponto de vista de de-


formações, um instrumento muito útil em Matemática. As idéias aqui
apresentadas remontam a trabalhos de N.H.Abel.
O interesse aqui é em trabalhar com quocientes de funções holomor-
fas. Antes de mais nada temos a
5.1 Definição. Uma função f é meromorfa num domı́nio U se existe
um subconjunto P de U tal que:
(i) P é discreto.
(ii) f é holomorfa em U \ P.
(iii) f possui um polo em cada ponto de P.
Observe que essa definição exclui as singularidades essenciais, por-
tanto, uma função meromorfa é aquela que possui apenas polos ou sin-
gularidades removı́veis (como essas últimas são “falsas”singularidades,
podemos ignorá-las e considerar apenas polos).
5.2 Proposição. Localmente, uma função é meromorfa se, e somente
se, é o quociente de duas funções holomorfas.
Demonstração: O significado do termo “localmente”ficará claro ao
longo da demonstração. Suponha que tenhamos uma função meromorfa
f e seja a um de seus polos, digamos de ordem k. A expansão de Laurent
centrada em a é

bk b1 X
+ ··· + + an (z − a)n onde bk 6= 0,
(z − a)k z−a
n=0
Seção 5 Uma interpretação Dinâmica do Resı́duo 157

válida num pequeno disco D(a, ǫ). Como temos apenas um número finito
de termos com potências negativas, reduzimos ao mesmo denominador
e ficamos com:


P
bk + bk−1 (z − a) + · · · + b1 (z − a)k−1 + an (z − a)n+k
n=0
k
.
(z − a)

g(z)
Mas isso é o quociente f (z) ,
em D(a, ǫ), das funções holomorfas g(z) =

P
bk +bk−1 (z − a)+· · ·+b1 (z − a)k−1 + an (z − a)n+k e f (z) = (z − a)k .
n=0
Suponha agora que tenhamos um quociente de funções holomorfas
g(z)
f (z) e seja a um ponto em torno do qual f e g estão definidas. Es-

P ∞
P
creva f (z) = an (z − a)n e g(z) = bn (z − a)n , expansões válidas
n=0 n=0
simultaneamente num pequeno disco D(a, ǫ). Se ak é o primeiro coefici-
ente não nulo na série que define f , então

 
f (z) = (z − a)k ak + ak+1 (z − a) + · · · + ak+m (z − a)m + · · ·
= (z − a)k φ(z)

onde φ(z) = ak + ak+1 (z − a) + · · · + ak+m (z − a)m + · · · é holomorfa


em D(a, ǫ). Análogamente temos que g(z) = (z − a)m ψ(z), com ψ
holomorfa em D(a, ǫ). Portanto,

g(z) (z − a)m ψ(z) ψ(z)


= k
= (z − a)m−k .
f (z) (z − a) φ(z) φ(z)

Agora, ψ(a) bm
φ(a) = ak 6= 0 e concluı́mos que a função Θ(z) =
ψ(z)
φ(z) é holomorfa
num disco D(a, δ) ⊆ D(a, ǫ). Seja então


X
Θ(z) = cn (z − a)n
n=ℓ
158 Singularidades Cap. 6

sua expansão em série de potências em D(a, δ). Ficamos com

g(z)
= (z − a)m−k Θ(z)
f (z)
X∞
m−k
= (z − a) cn (z − a)n
n=ℓ

X
= cn (z − a)n+m−k .
n=ℓ

Essa é a expansão de Laurent de fg(z)


(z) em torno de a. Observe que temos
um polo em a caso ℓ + m − k < 0. ⊓

A demonstração acima deixa claro que, se uma função tem uma


singularidade essencial no ponto a, então ela não pode ser dada na forma
g(z)
f (z) em nenhuma vizinhança de a, onde f e g são holomorfas.
Vamos passar agora à preparação para se enunciar o teorema prin-
cipal dessa seção. Como se trata de um resultado de natureza local,
trabalharemos em vizinhanças de 0 ∈ C.
Sejam U ⊂ C um aberto contendo 0 e h uma função meromorfa em
U , com um polo de ordem k em 0, ou seja, h : U \ {0} → C é holomorfa
e lim z k h(z) existe e é um número complexo não nulo. Pela expansão
z→0
de Laurent, existe um disco de raio ρ centrado em 0, D(0, ρ) ⊂ U tal
que, em D(0, ρ) \ {0}, h se escreve como:

bk b1 X
h(z) = + · · · + + an z n onde lim z k h(z) = bk 6= 0.
zk z z→0
n=0

Reduzindo ao mesmo denominador, como na Proposição 5.2, temos



P
bk + bk−1 z + · · · + b1 z k−1 + an z n+k
n=0 g(z)
(∗) h(z) = =
zk f (z)
com
 ∞
k−1 +
P



 g(z) = bk + b k−1 z + · · · + b 1 z an z n+k
n=0
(∗∗) e



f (z) = z k .
Seção 5 Uma interpretação Dinâmica do Resı́duo 159

Como a expansão de Laurent de h é válida em D(0, ρ), vamos con-


siderar f (z) = z k apenas nesse disco. Temos então que f satisfaz

f : D(0, ρ) → D(0, ρk )

é sobrejetiva e aberta (essa última é uma propriedade satisfeita por


qualquer função holomorfa de uma variável complexa). Seja ζ ∈ D(0, ρk )
um número complexo não nulo. Escreva ζ na forma polar, ζ = ̺ eiθ . A
pré-imagem de ζ 6= 0 por f consiste de exatamente k pontos distintos,
f −1 (ζ) = {ξ1 , . . . , ξk }, que são as soluções da equação z k = ζ, dadas
explicitamente por
 
√ i
θ+2π(j−1)
ξj = k
̺ e k
, j = 1, . . . , k.

Também temos que f ′ (z) = k z k−1 e portanto, em cada um dos pontos


ξj , f ′ (ξj ) = k ξjk−1 6= 0.
Recorde que res(h, 0) = b1 .
5.3 Teorema. Sejam ζ ∈ D(0, ρk ) um número complexo não nulo e
f −1 (ζ) = {ξ1 , . . . , ξk }. Então:
k
X g(ξj )
res(h, 0) = lim .
ζ→0 f ′ (ξj )
j=1

Observação: O ponto de vista de Cauchy é mais geral, no sentido que


h pode
R ter singularidade essencial em 0 e o resı́duo é dado por res(h, 0) =
1
2πi h(z) dz, onde γ é um cı́rculo centrado em 0 de raio menor que ρ.
γ
Entretanto, essa interpretação não se generaliza a dimensões superiores,
ao passo que o ponto de vista aqui apresentado, essencialmente devido
a Abel, sim.
Demonstração: Comece escolhendo 0 < ǫ << 1 tal que o cı́rculo
Γ = {z : |f (z)| = ǫ} esteja contido em D(0, ρ) (observe que Γ é de
√ √
fato o cı́rculo ∂D(0, k ǫ) = {z : |z| = k ǫ }, pois f (z) = z k e portanto

|f (z)| = ǫ é o mesmo que |z k | = ǫ, ou seja, |z| = k ǫ ). Em seguida
escolha um ponto ζ ∈ D(0, ρk )\{0}, de módulo pequeno o suficiente para
que todas as suas pré-imagens, ξ1 , . . . , ξk , estejam contidas no interior
do cı́rculo Γ. Para cada ponto ξj escolha um raio δj > 0 tal que
(i) o disco fechado D(ξj , δj ) está inteiramente contido no interior do
cı́rculo Γ e 0 6∈ D(ξj , δj ).
160 Singularidades Cap. 6

(ii) D(ξi , δi ) ∩ D(ξj , δj ) = ∅ para i 6= j.


A figura abaixo ilustra a situação.

D( j
, j )

D( 1
, 1)
f D( , )
0

D( 0 , )

k
D( , k)
D( 0 , )
k

D( 0 , )

Figura 20
g(z)
Temos em mãos a função meromorfa h(z) = f (z) . Considere a se-
g(z)
guinte deformação holomorfa de h, hw (z) = f (z)−w .
Defina
Z
1 g(z)
ψj (w) = dz j = 1, . . . , k.
2πi f (z) − w
∂D(ξj ,δj )

Aonde essas funções estão definidas? Observe que, se w 6= 0 então a


equação f (z) = w tem precisamente k soluções distintas e não nulas.
Logo, se tomarmos w num disco suficientemente pequeno, D(ζ, τ ), cen-
trado em ζ, as soluções z1 , . . . , zn de f (z) = w satisfazem zj ∈ D(ξj , δj ),
portanto, o denominador do integrando que define ψj não se anula em
∂D(ξj , δj ) e ψj está bem definida. Além disso, as ψj são holomorfas em
D(ζ, τ ) já que podemos derivar sob o sinal de integral e obter
Z
1 g(z)
ψj′ (w) = dz.
2πi (f (z) − w)2
∂D(ξj ,δj )

Agora, ao longo dos caminhos ∂D(ξj , δj ), j = 1, . . . , k, a derivada


f ′ (z) não se anula e é lı́cito escrever
g(z) g(z) f ′ (z)
= ′ .
f (z) − w f (z) f (z) − w
Seção 5 Uma interpretação Dinâmica do Resı́duo 161

g(z)
Ponha Fw (z) = f (z) − w e G(z) = f ′ (z) . A derivada de Fw em relação
a z é Fw′ (z) = f ′ (z). Portanto,

g(z) g(z) f ′ (z) F ′ (z)


= ′ = G(z) w
f (z) − w f (z) f (z) − w Fw (z)

e as ψj assumem a forma
Z Z
1 g(z) 1 Fw′ (z)
ψj (w) = dz = G(z) dz
2πi f (z) − w 2πi Fw (z)
∂D(ξj ,δj ) ∂D(ξj ,δj )

para 1 ≤ j ≤ k. Em particular,

Fζ′ (z)
Z
1
ψj (ζ) = G(z) dz.
2πi Fζ (z)
∂D(ξj ,δj )
P
Pelo Corolário 4.2 essa integral é igual a G(pi ) mpi (Fζ ), onde a soma
é sobre todos os zeros de Fζ no interior de ∂D(ξj , δj ). Mas Fζ (z) =
f (z) − ζ e o único zero dessa função no interior de ∂D(ξj , δj ) é ξj , que
tem multiplicidade 1 pois f ′ (ξj ) 6= 0. Logo,

g(ξj )
ψj (ζ) = G(ξj ) = .
f ′ (ξj )

Mostramos que
k k
X X g(ξj )
ψj (ζ) = .
f ′ (ξj )
j=1 j=1

As k funções ψ1 , . . . , ψk estão definidas numa vizinhança D(ζ, τ ) que


não contém 0 e, individualmente, não admitem extensão holomorfa a
nenhum domı́nio que contenha 0 e ζ. Isso vem do fato que, num tal

domı́nio, é sempre possı́vel encontrar um ponto w0 tal que k w0 ∈
∂D(ξj , δj ) e nesse caso, o denominador do integrando que define ψj se
anula sobre o caminho de integração ∂D(ξj , δj ). Outra maneira de ver

isso é notar que f (z) = z k admite a inversa local f −1 (w) = k w em
torno de cada ponto z 6= 0, mas não admite inversa local em nenhum
Pk
domı́nio que contenha 0. Entretanto, a soma ψj (w) admite extensão
j=1
holomorfa a um domı́nio que contém 0. Vamos mostrar isso.
162 Singularidades Cap. 6

Defina a função traço por


Z Z
1 g(z) 1 g(z)
Tr(w) = k
dz = dz.
2πi z −w 2πi f (z) − w
Γ Γ

Essa função está definida para w no disco aberto D(0, ǫ), pois nesse

domı́nio f (z) − w 6= 0 qualquer que seja z ∈ Γ = ∂D(0, k ǫ), e ela é
claramente holomorfa nesse disco (derive sob o sinal de integral). O
teorema de Cauchy fornece
Z
1 g(z)
Tr(w) = dz
2πi f (z) − w
Γ
k Z k
X 1 g(z) X
= dz = ψj (w).
2πi f (z) − w
j=1 j=1
∂D(ξj ,δj )

k
P
Portanto, Tr é uma extensão holomorfa da função ψj . A terminologia
j=1
“traço”vem daı́, pois somamos sobre todas as k raı́zes de z k − w = 0, e
esse teorema é também conhecido como o Teorema do Traço de Abel.
O final da demonstração do teorema é o seguinte:

k k
X g(ξj ) X
lim = lim ψj (ζ)
ζ→0 f ′ (ξj ) ζ→0
j=1 j=1
Z
1 g(z)
= lim Tr(ζ) = lim dz
ζ→0 ζ→0 2πi f (z) − ζ
Γ
Z Z
1 g(z) 1
= dz = h(z) dz = res(h, 0).
2πi f (z) 2πi
Γ Γ

6 Cálculo de Integrais utilizando Resı́duos

Nessa seção vamos utilizar o Teorema dos Resı́duos 3.2 para calcular
algumas integrais. Sabemos do Cálculo que, se x é uma variável real e
Seção 6 Cálculo de Integrais utilizando Resı́duos 163

R∞
f (x) é uma função real contı́nua, então a integral imprópria f (x)dx
−∞
é definida por
Zb
(∗) lim f (x)dx
b→∞
a→−∞ a

R∞
desde que esses limites existam. Nesse caso dizemos que f (x)dx
−∞
converge, caso contrário a integral imprópria é dita divergente.
No que se segue estudaremos integrais da forma
Zr
(∗∗) lim f (x)dx.
r→∞
−r

Caso
R esse limite exista, ele é chamado o Valor Principal de Cauchy de
. Antes de mais nada observe que, se (∗) existe, então forçosa- mente
(∗∗) também existe e seus valores coincidem. Mas (∗∗) pode existir e
(∗) não, como mostra o exemplo f (x) = sen x. Para essa função temos
Zr r

sen x dx = − cos x = − cos r + cos(−r) = − cos r + cos r = 0
−r
−r

e então
Zr
(1) lim sen x dx = 0.
r→∞
−r

Por outro lado, tomando b = 2nπ e a = − (2n+1)π


2 temos que
Z2nπ  
(2n + 1)π
sen x dx = − cos(2nπ) + cos − = −1
2
(2n+1)π
− 2

e então
Z2nπ
(2) lim sen x dx = −1.
n→∞
(2n+1)π
− 2
164 Singularidades Cap. 6

R∞
Portanto, como (1) e (2) se contradizem, sen x dx não existe. A arti-
−∞
manha, devida a Cauchy, a ser utilizada para se calcular
Rr
lim f (x)dx consiste em “complexificar”a função f (x), isto é, troque
r→∞ −r
x por z em sua expressão, ou em obter f (x) como a parte real de uma
função complexa. Para ver isso em ação vamos considerar alguns casos:
Caso I. Suponha que f (z) é holomorfa no domı́nio (semi-plano aberto
menos um número finito de pontos) U = {z ∈ C : Im(z) > −ǫ} \
{a1 , . . . , ak }, onde ǫ é um número real positivo e a1 , . . . , ak são polos de
Rf , com Im(aj ) > 0, 1 ≤ j ≤ k. Então faz sentido calcular a integral
f (z)dz ao longo de γ, que é o caminho suave por partes
γ
(
γ1 (t) = t −r ≤ t ≤ r
γ = γ1 ∗ γ2 , sendo que (veja figura)
γ2 (t) = reit 0≤t≤π
y

1
-r 0 r x

Figura 20

onde r é escolhido grande o bastante para que |aj | < r, 1 ≤ j ≤ k. Isto


feito temos
Z Z Z Zr Zπ
f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz = f (x)dx + f (reit )ireit dt.
γ γ1 γ2 −r 0

Portanto, pelo Teorema dos Resı́duos 3.2, aplicado à região V e a sua


fronteira ∂V = γ1 ∪ γ2 temos
 
Xk Z Zr Zπ
2πi  res(f, aj ) = f (z)dz = f (x)dx + f (reit )ireit dt.

j=1 γ −r 0
Seção 6 Cálculo de Integrais utilizando Resı́duos 165

Agora, se

(∗) lim f (reit )ireit dt = 0
r→∞
0

então concluimos que


 
Zr Xk
(†) lim f (x)dx = 2πi  res(f, aj ) .
r→∞
−r j=1

Uma condição para que (⋆) valha é a seguinte:


(⋆⋆) existe um número K > 0 tal que |f (reit )| ≤ rK2 , para 0 ≤ t ≤ π
e r suficientemente grande.
De fato, se isso vale temos
π
Z Zπ
it it

f (re )ire dt ≤ Kr Kπ
2
dt =



r r
0 0

e (⋆) segue. Mas a condição (⋆⋆) diz mais, pois ao longo do eixo x ela
se reduz a |f (x)| ≤ xK2 , desde que |x| seja suficientemente grande. Daı́
vem que
Zb Z−c Zc Zb
f (x)dx = f (x)dx + f (x)dx + f (x)dx
a a −c c

e, tomando c > 0 suficentemente grande para que tenhamos a majoração


acima, b c
Z Z−c Z Zb

f (x)dx ≤ K K
2
dx + f (x)dx + dx.



x


x2
a a −c c
Agora
Z−c Zb
K K K K
lim 2
dx = e lim 2
dx = .
a→−∞ x c b→∞ x c
a c
Rb R∞ Rr
Portanto, lim f (x)dx = f (x)dx = lim f (x)dx, ou seja, a
b→∞ a −∞ r→∞ −r
a→−∞ R
integral imprópria existe, é igual ao Valor Principal de Cauchy de e
vale (†).
166 Singularidades Cap. 6

Uma situação geral na qual vale (⋆⋆) é a seguinte:


P (z)
(⋆⋆⋆) f (z) = Q(z) , onde P e Q são polinômios, grau(Q) ≥ grau(P )+2
e Q não possui zeros reais.
Para ver isso seja 2 ≤ k =grau(Q)−grau(P ) e considere a função
k P (z)
g(z) = z Q(z) . O numerador e o denominador são polinômios do mesmo
grau e então existe o lim g(z) = α. Assim sendo, se |z| é suficientemente
z→∞
grande
k k
z P (z) z P (z) P (z) 1 + |α|
Q(z) − α < 1 =⇒ Q(z) < 1 + |α| =⇒ Q(z) < |z|k .

Começamos com um exemplo fácil e familiar, f (x) = x21+1 . Olhe


para f (z) = z 21+1 . Essa função tem polos nos pontos z = i e z = −i.
Como o denominador é um polinômio de grau 2, esses são seus únicos
zeros e portanto cada polo tem ordem 1. f (z) é holomorfa no domı́nio
U = {z ∈ C : Im(z) > −1} \ {i} e, pela Proposição 3.3, res(f, i) =
lim (z − i) z 21+1 = 2i
1
. Logo, tomando r > 1,
z→i

Z Zr Zπ
1 1 ireit
π = 2πi12i = 2
dz = 2
dx + 2 dt.
z +1 x +1 (reit ) + 1
γ −r 0

Observe que (⋆⋆) vale pois esse √ exemplo é da forma descrita em (⋆ ⋆ ⋆),
1
porém é imediato que se r > 2, então < r21−1 < r22 . Daı́ vem
|(reit )2 +1|
que
Zπ it

ire 2r 2π
lim
2 dt ≤ lim

2
dt = lim = 0.
(reit ) + 1 r→∞ r r→∞ r
r→∞

0 0
Logo,
Z∞ Zr
1 1
2
dx = lim dx = π.
x +1 r→∞ x2 +1
−∞ −r
R∞ x2
Um segundo exemplo é o cálculo de x4 +1
dx. Por (⋆ ⋆ ⋆) temos que
−∞
vale (†), ou seja
Z∞ Zr "  2 #
x2 x2 X z
dx = lim dx = 2πi res ,a
x4 + 1 r→∞ x4 + 1 a
z4 + 1
−∞ −r
Seção 6 Cálculo de Integrais utilizando Resı́duos 167

z2
onde a soma é sobre os polos de f (z) = z 4 +1
localizados no semi-plano
π 3π
superior. Agora, os polos de f são as raizes quartas de −1 : ei 4 , ei 4 ,
5π 7π
ei 4 , ei 4 , das quais apenas as duas primeiras estão no semi-plano supe-
rior. Todos os polos de f tem ordem  1 e um cálculo
 simples  (Propo-
i π4 1 i −π 3π −3π
sição 3.3) mostra que res f, e = 4 e 4 e res f, e 4 = 41 ei 4 .
i

−π −3π
Como 41 ei 4 + 14 ei 4 = −i

2 2
temos

Z∞
x2 −i π
4
dx = 2πi √ = √ .
x +1 2 2 2
−∞

Cabe observar que, nos argumentos do caso I, o caminho de integração


γ não precisa ser, necessariamente, um semi-cı́rculo. Poderiamos ter
tratado essas integrais considerando, por exemplo, caminhos que são
retângulos simétricos em relação ao eixo y e com base no eixo x.

R
Caso II. F (cos t, sen t)dt onde F é uma função racional (quociente
0
de dois polinômios). Nesse caso tomamos o cı́rculo unitário γ(t) = eit
como caminho de integração. Note que, se |z| = 1 então z̄ = z1 e isso
fornece    
1 1 1 1
cos t = z+ e sen t = z− .
2 z 2i z
Logo,

Z2π Z     
1 1 1 1
F (cos t, sen t)dt = F z+ , z− dt
2 z 2i z
0 γ

e, supondo que o integrando não possui polos ao longo de γ, a última


integral é a soma dos resı́duos de F no disco D(0, 1).
Rπ dt
Como exemplo vamos calcular a+cos t , onde a > 1, a ∈ R. Começa-
0
Rπ dt 1
R2π dt
mos observando que a+cos t = 2 a+cos t . Agora, lembrando que ao
0 0
longo de γ temos z = eit ,
 
1 it 1 ei2t + 2aeit + 1
a + cos t = a + e + it =
2 e 2eit
168 Singularidades Cap. 6

e então
Z2π Z2π Z
dt 2eit dt 2 dz
= = .
a + cos t i2t
e + 2ae + 1it i z2 + 2az + 1
0 0 γ

Portanto,
Zπ Z
dt dz
= −i .
a + cos t z2 + 2az + 1
0 γ

Como P (z)√= z 2 + 2az + 1 = (z − α)(z − β) onde α = −a − a2 − 1,
β = −a + a2 − 1 e a > 1, temos |α| > 1 e |β| < 1. Assim sendo, P1
tem β como único polo no interior de γ e
 
1 1 1 1
res , β = lim (z − β) = = √ .
P z→β P (z) β−α 2 a2 − 1
Pelo Teorema dos Resı́duos
Zπ  
dt 1 π
= −i 2πi res ,β =√ .
a + cos t P a2−1
0

Caso III. Polos Reais. Foi Cauchy quem primeiro considerou a seguinte
situação: suponha que f (x) é uma função da variável real x, contı́nua
num intervalo [a, b], exceto por um número finito de pontos em seu
Rb
interior. Como definir f (x)dx? Para simplificar o argumento vamos
a
tratar o caso em que f é descontı́nua apenas num ponto c ∈ (a, b). Tome
dois números τ > 0 e ρ > 0 tais que a < c − τ < c + ρ < b e olhe para
c−τ
Z Zb
f (x)dx + f (x)dx.
a c+ρ

Se existirem os limites
c−τ
Z Zb
lim f (x)dx e lim f (x)dx
τ →0 ρ→0
a c+ρ
Seção 6 Cálculo de Integrais utilizando Resı́duos 169

então é natural definirmos (como o fez originalmente Cauchy)

Zb c−τ
Z Zb
(⋄) f (x)dx = lim f (x)dx + lim f (x)dx.
τ →0 ρ→0
a a c+ρ

R1 1
Um exemplo tı́pico dessa situação é ilustrado por 3 x dx.
√ Temos que
−1
uma primitiva dessa função é
3√
Z
1 3
√ dx = x2
3
x 2
e portanto
Z−τ
1 3 √
3 3
lim √ dx = lim ( τ 2 − 1) = −
τ →0 3
x τ →0 2 2
−1

Z1
1 3 p
3 3
lim √ dx = lim (1 − ρ2 ) =
ρ→0 3
x ρ→0 2 2
ρ

Assim sendo
Z1 Z−τ Z1
1 1 1 3 3
√ dx = lim √ dx + lim √ dx = − + = 0.
3
x τ →0 3
x ρ→0 3
x 2 2
−1 −1 ρ

−τ
R R1
1 1 1
Já para a função f (x) = x3
, os limites lim x3
dx e lim 3 dx não
τ →0 −1 ρ→0 ρ x
existem porém, fazendo τ = ρ e considerando o limite da soma temos
 −τ 
Z Z1
1 1 
lim  3
dx + dx = 0.
τ →0 x x3
−1 τ

Seguindo os passos de Cauchy, definimos o Valor Principal no caso em


que f é descontı́nua num ponto c ∈ (a, b) por
 c−τ 
Zb Z Zb
(‡) V P f (x)dx := lim  f (x)dx + f (x)dx .
τ →0
a a c+τ
170 Singularidades Cap. 6

Observe que, se existirem os limites em (♦) então existe o limite em (‡)


e vale
Zb Zb
f (x)dx = V P f (x)dx.
a a

Suponha que tenhamos uma função f (z), holomorfa no domı́nio (semi-


plano aberto menos um número finito de pontos) U = {z ∈ C : Im(z) >
−ǫ} \ {a1 , . . . , ak }, onde ǫ é um número real positivo e a1 , . . . , ak são
polos de f , com Im(aj ) ≥ 0, 1 ≤ j ≤ k. Se f tiver polos no eixo real, os
contornamos tomando semi-cı́rculos neles centrados, contidos no semi-
plano superior, de raio suficientemente pequeno e finalmente circulamos
os polos aj , com Im(aj ) > 0, por meio de um caminho no semi-plano
superior, obtendo uma região fechada e limitada V , cuja fronteira é uma
curva de Jordan suave por partes, ao longo da qual f não possui polos
(trata-se de uma deformação do caminho usado no Caso I, veja figura a
seguir).
Algum cuidado é necessário aqui, pois em geral obteremos apenas o
Valor Principal (‡), mas vamos dar um exemplo clássico, com a ajuda
do qual poderemos calcular uma integral imprópria. Considere a função
ix
f (x) = ex . Troque x por z em sua expressão e obtenha uma função
iz
inteira, exceto pelo polo em 0, que é de ordem 1 : f (z) = ez = z1 +
∞ n n
P i z 1
n! . Para simplificar a escrita ponha f (z) = z + h(z).
n=1
Note que h é uma função inteira, em particular contı́nua e portanto
limitada num disco que contém 0, digamos |h(z)| ≤ K nesse disco.

Cr

-r - 0 2
r x
1

Figura 22
Seção 6 Cálculo de Integrais utilizando Resı́duos 171

Vamos trabalhar com o seguinte caminho suave por partes (veja fi-
gura acima): γ = γ1 ∗ Cρ ∗ γ2 ∗ Cr onde,γ1 (t) = −r(1 − t) + t(−ρ) , 0 ≤
t ≤ 1, Cρ− (t) = ρeit , 0 ≤ t ≤ π, γ2 (t) = (1 − t)ρ + tr , 0 ≤ t ≤ 1
eR Cr (t) = reit , 0 ≤ t ≤ π. Como f não possui polos na região V ,
f (z)dz = 0. Avaliamos inicialmente a integral ao longo de Cr . Temos
γ


Z iz Zπ
e it

dz = i exp(ire )dt


z
Cr 0
Zπ Zπ
≤ it
| exp(ire )|dt = e−r sen t dt.
0 0

Olhe para a função ξ(t) = e−r sen t , 0 ≤ t ≤ π, r > 1. ξ atinge seu


mı́nimo em t = π/2 e é simétrica em relação à reta vertical t = π/2.
Logo, dado um número η > 0 suficientemente pequeno, seu valor máximo
no intervalo [η, π − η] ocorre em t = η e em t = π − η e vale e−r sen η .
Assim sendo, como

Zπ Zη π−η
Z Zπ
−r sen t −r sen t −r sen t
e dt = e dt + e dt + e−r sen t dt,
0 0 η π−η

o Lema Técnico 1.8 do Capı́tulo 5 implica que

Zη π−η
Z Zπ
−r sen t −r sen t
e dt ≤ η, e dt ≤ π e e−r sen t dt ≤ η.
0 η π−η


R iz
e
dz ≤ 2η + πe−r sen η . Agora, lim e−r sen η = 0. Va-

Portanto, z
Cr r→∞
mos usar isso para controlar o termo 2η. Da definição de limite vem que,
dado ǫ > 0 qualquer, podemos encontrar r0 tal que, se r > r0 , então
e−r sen

η < ǫ. Tomamos então η < ǫ (note que podemos fazê-lo) e obte-

R iz R eiz
e
mos z dz ≤ (2 + π)ǫ. Isso fornece lim z dz = 0. Lembrando
Cr r→∞
Cr
172 Singularidades Cap. 6

R
que f (z)dz = 0 concluimos
γ
 
Z Z Z
 
lim  f (z)dz + f (z)dz + f (z)dz  = 0
r→∞
γ1 Cρ γ2

e isso se traduz por


 
Z−ρ Z Zr
 eix eiz eix 
lim  dx + dz + dx = 0
r→∞ x z x
−r Cρ ρ

" #
−ρ
R Rr R
eix eix eiz
ou seja, lim x dx + x dx = − z dz. Agora
r→∞ −r ρ Cρ

Z Z Z Z
eiz 1
dz = dz + h(z)dz = −iπ + h(z)dz
z z
Cρ Cρ Cρ Cρ

R

e, pelo Lema Técnico 1.8 do Capı́tulo 5, h(z)dz ≤ Kπρ. Portanto,

R eiz
lim
ρ→0 C z dz = −iπ. Então
ρ

 −ρ 
Z∞ Z ix Zr ix
eix e e
VP dx = lim lim  dx + dx = iπ.
x r→∞ ρ→0 x x
−∞ −r ρ

Como eix = cos x + i sen x obtemos, tomando as partes real e imaginária


da expressão acima
Z∞ Z∞
cos x sen x
VP dx = 0 e VP dx = π.
x x
−∞ −∞

R∞ cos x
É fácil ver que x dx não existe e tudo que fizemos foi calcular seu
−∞
Valor Principal mas, como sen
z
z
tem uma singularidade removı́vel em
Seção 7 Exercı́cios 173

R∞ sen x
0, existe lim x dx e obtemos
ρ→0 ρ

Z−ρ Z∞ Z∞
sen x sen x
lim dx + lim sen xxdx = 2 dx = π
ρ→0 x ρ→0 x
−∞ ρ 0

R∞ sen x π
ou seja, x dx = 2 .
0

Alertamos o leitor para o fato de que, excetuando-se alguns casos,


como os acima, não há um procedimento sistemático geral para o cálculo
de integrais utilizando resı́duos. Cada integral deve ser analisada indi-
vidualmente, buscando-se a função complexa adequada e o caminho de
integração conveniente.

7 Exercı́cios

1) Determine a expansão de Laurent da função dada em torno de cada


uma de suas singularidades, especificando o anel no qual ela é válida.
1 1
(i) f (z) = z 2 (z+i)
; (ii) f (z) = (z−1)(z+i) ; (iii) f (z) = z 3 e1/z ; (iv) f (z) =
z5
cos (1/z); (v) f (z) = (z 2 −2)2
.

2) Mostre que, num disco em torno de um polo uma função complexa é


a soma de duas funções, uma racional e outra holomorfa.
3) Dê uma função que
√ possui um polo de ordem 1 em z = 2 e um polo
de ordem 7 em z = 2i.
4) Seja f : C → C uma função inteira. Suponha que f (z) 6= 0 para
todo z ∈ C e que o limite lim f (z) existe e é não nulo. Mostre que f é
z→∞
constante.
5) Seja f uma função holomorfa, definida numa vizinhança U de 0 ∈ C
e satisfazendo: f (0) = 0 e 0 é o único zero de f em U . Seja g uma
função holomorfa também definida em U . Mostre que f divide g, isto é,
g = h f onde h é holomorfa se, e só se:
 
g
res k , 0 = 0 para toda funcão holomorfa k em U .
f
174 Singularidades Cap. 6

6) Classifique a singularidade 0 de cada uma das funções:


, (iii) f (z) = sen
2z
(i) f (z) = sen (1/z), (ii) f (z) = coszz−1
2 z3
, (iv) f (z) =
1 1 cos z
exp z + z , (v) f (z) = (z 8 −z) , (vi) f (z) = z 4 .
7) Mostre que, se |α| > e então a equação ez = az n tem n raizes no
disco |z| < 1.
8) Ache o número de zeros, que satisfazem |z| < 1, dos seguintes po-
linômios:
(i) z 9 − 2z 6 + z 2 − 8z − 2; (ii) z 4 − 5z + 1.
9) Determine a ordem do polo de f em a e calcule res (f, a) onde
(i) f (z) = sen z −z
z4
, a = 0; (ii) f (z) = zen+1 , a = 0; (iii) f (z) =
cos z 1
, a = 0; (iv) f (z) = z 4 −z sen (1/z) , a = 1;
z 3 (z−1) 5 , a = 1; (v) f (z) = z 4 −z 5
z 1−e3z e2z
(vi) f (z) = 1−cos z , a = 0; (vii) f (z) = z4
, a = 0; (viii) f (z) = z 4 −z 5
,
a = 1.
10) Utilize resı́duos para calcular
R∞ x2
R∞ 1
R∞ 1
(i) (x2 +1)(x2 +5)
dx; (ii) (x4 +1)
dx; (iii) (x2 +1)2
dx;
−∞ −∞ −∞
R∞ eix
R∞ x2
Rπ 1
R2π
(iv) x2 +1
dx; (v) (x2 +1)2
dx; (vi) 1+ sen 2 t
dt; (vii) 2cos3 t +
−∞ 0 −π 0
R∞ x2
4 sen 5 tdt; (viii) (x2 +a2 )3
dx, onde a > 0.
0
7

Aplicações Conformes

1 Preservação de Ângulos

As funções holomorfas gozam da notável propriedade de preservar ângu-


los em pontos nos quais a derivada não se anula. Para formalizar
essa afirmativa necessitamos de um instrumento que nos permita me-
dir ângulos. O primeiro desses que nos ocorre é o argumento de um
número complexo e, então, buscaremos uma grandeza vetorial que de-
termine o argumento e da qual tenhamos controle ao considerar sua
imagem por uma aplicação. Essa grandeza é a direção orientada, já
familiar do Cálculo.
1.1 Definição. Se z 6= 0 é um número complexo, a direção orientada
z
de z em relação a 0 é o número complexo A(1, z)0 = |z| .
Vejamos que informação está contida em A(1, z)0 . Antes de mais
nada trata-se de um vetor no plano e, escrevendo z na forma polar
z
temos |z| = eiarg z , 0 ≤ arg z < 2π. Logo A(1, z)0 = eiarg z é o único
vetor unitário (ou o único número complexo de módulo 1) que forma
um ângulo de medida arg z com o semi-eixo positivo dos x. Observe que
temos |z| 1
z = z e portanto
|z|


(1) A 1, z −1 0
= (A(1, z)0 )−1 .
z1 z2 z1 z2
Além disso, como |z1 z2 | = |z1 | |z2 | concluimos que

(2) A(1, z1 z2 )0 = A(1, z1 )0 A(1, z2 )0 .


176 Aplicações Conformes Cap. 7

Sejam agora z1 e z2 dois números complexos não nulos e distintos. Olhe


para esses números como vetores baseados em 0. Qual é o valor do
ângulo orientado por eles determinado? Ora, se z1 = |z1 |eiarg z1 , 0 ≤
arg z1 < 2π, então fazemos uma rotação no plano (orientada no sentido
anti-horário) de tal forma que z1 seja enviado a um ponto no semi-eixo
positivo dos x. Mas essa rotação é simplesmente a multiplicação por
|z1 |z1 = ei(2π−arg z1 ) . Isso diz que medir o ângulo entre z1 e z2 é o
mesmo que medir o ângulo entre |zz11 | z2 e o semi-eixo positivo dos x, ou
seja, basta considerar a direção orientada de |zz11 | z2 em relação a 0. Com
isso em mente, definimos a direção orientada de z1 a z2 em relação a 0,
A(z1 , z2 )0 , por (veja figura abaixo)

(3) A(z1 , z2 )0 = A 1, z1−1 z2 0 .

A ( z 1 , z 2 )0 A ( z 1 , z 2 )z
z1 0
z1

z2

0
x
z0
z2

0 x
Figura 23

Invocando (1) e (2) temos



(4) A(z1 , z2 )0 = A 1, z1−1 z2 0
= (A(1, z1 )0 )−1 A(1, z2 )0 .

Vamos imitar o que foi feito acima e considerar agora um ponto z0 qual-
quer como origem. Se z 6= z0 é um número complexo, a direção orientada
z−z0
de z em relação a z0 é o número complexo A(1, z)z0 = |z−z 0|
. Geometri-
camente, pensamos em A(1, z)z0 como um vetor unitário baseado em z0
e, escrevendo A(1, z)z0 = eiα , 0 ≤ α < 2π, temos que A(1, z)z0 é o único
vetor unitário (ou o único número complexo de módulo 1) que forma
um ângulo de medida α com o semi-eixo orientado, de origem em z0 ,
Seção 1 Preservação de Ângulos 177

paralelo ao semi-eixo positivo dos x (veja figura acima). Observe que


temos imediatamente A(1, z)z0 = A(1, z − z0 )0 e que (1) e (2) não são
mais válidas para A(1, z)z0 .
Repetindo o mesmo raciocı́nio anterior, se z1 6= z2 são dois pontos
distintos de z0 , a direção orientada de z1 a z2 em relação a z0 é definida
por  
z2 − z0
A(z1 , z2 )z0 = A(z1 − z0 , z2 − z0 )0 = A 1, .
z1 − z0 0
Para ver a utilidade de A( , ) tome por exemplo uma função afim não
constante, f (z) = az + b. Dados três pontos distintos z0 , z1 e z2 olhe
para suas imagens f (z0 ), f (z1 ) e f (z2 ). Vamos comparar A(z1 , z2 )z0
com A(f (z1 ), f (z2 ))f (z0 ) . Temos
  az2 −az0
f (z2 ) − f (z0 )
A(f (z1 ), f (z2 ))f (z0 ) = A 1, = az1 −az0

f (z1 ) − f (z0 ) 0 az2 −az0
az1 −az0

z2 −z0  
z2 − z0
= z1 −z0 = A 1, = A(z1 , z2 )z0
zz21 −z 0
z1 − z0 0
−z0

ou seja, o ângulo orientado de z1 a z2 em relação a z0 é igual ao ângulo


orientado de f (z1 ) a f (z2 ) em relação a f (z0 ). Isto quer dizer que a
função f preserva ângulos orientados. Permutando-se os pontos z0 , z1 e
z2 concluimos, em particular, que o triângulo (z\ 0 z1 z2 ) é semelhante ao
\
triângulo (f (z0 )f (z1 )f (z2 )). Como segundo exemplo tomamos g(z) = z.
Nesse caso temos
 
g(z2 ) − g(z0 )
A(g(z1 ), g(z2 ))g(z0 ) = A 1,
g(z1 ) − g(z0 ) 0
z2 −z0  
z1 −z0 z2 − z0
= = A 1,
zz21 −z 0 z1 − z0 0
−z0

= A(z1 , z2 )z0 = A(z1 , z2 )z0 .

Se A(z1 , z2 )z0 = eiθ , 0 ≤ θ < 2π, então A(z1 , z2 )z0 = e−iθ = ei(2π−θ) =
1
A(z1 ,z2 ) . Conclui-se que g(z) = z não preserva direções orientadas. O
z0
leitor deve observar que triângulos são enviados em triângulos congru-
entes por essa função porém, por ser a reflexão em torno do eixo real, g
não preserva orientação.
178 Aplicações Conformes Cap. 7

Os exemplos vistos acima são ilustrativos e simples pois são essenci-


almente lineares. Queremos agora definir o conceito de uma função pre-
servar ângulos orientados. Para fazê-lo considere uma aplicação contı́nua
não constante, f : U → C, não necessariamente holomorfa, onde U ⊂ C
é um domı́nio. Seja z0 um ponto de U . Vamos fazer a seguinte hipótese
adicional: existe um disco D(z0 , δ) ⊂ U tal que, se z ∈ D(z0 , δ) e z 6= z0 ,
então f (z) 6= f (z0 ) (observe que essa hipótese é desnecessaria se f é
holomorfa em U pois, pela Proposição 2.14 do Capı́tulo 4, os zeros da
função holomorfa g(z) = f (z) − f (z0 ) são isolados e um tal disco sempre
existe). Assim sendo, para qualquer z 6= z0 nesse disco, A(1, f (z))f (z0 )
está definida. Como f pode não ser linear, não faz sentido comparar
diretamente A(1, f (z))f (z0 ) com A(1, z)z0 , mas é razoável compara-las
A(1,f (z))f (z )
quando z → z0 . Logo, tomamos o quociente A(1,z)z
0
e fazemos z
0
tender a z0 . Isso motiva a
1.2 Definição. A função contı́nua f é conforme no ponto z0 se
A(1, f (z))f (z0 )
lim
z→z0 A(1, z)z0
existe.
Vejamos como essa definição captura a noção de preservar ângulos
orientados. Inicialmente observe que
A(1, f (z))f (z0 ) A(1, f (z) − f (z0 ))0
=
A(1, z)z0 A(1, z − z0 )0
f (z) − f (z0 ) |z − z0 |
(5) =
|f (z) − f (z0 )| z − z0
f (z) − f (z0 ) |z − z0 |
= .
z − z0 |f (z) − f (z0 )|
Como z 6= z0 está no disco D(z0 , δ), podemos escrever z = z0 + reiθ ,
0 < r < δ, 0 ≤ θ < 2π. (5) lê-se

A 1, f (z0 + reiθ ) f (z0 ) 1 f (z0 + reiθ ) − f (z0 )
(6) = .
A(1, z0 + reiθ )z0 eiθ |f (z0 + reiθ ) − f (z0 )|
Agora, fazer z → z0 equivale a fazer r → 0 em (6) e Definição 1.2 se
transforma em
1 f (z0 + reiθ ) − f (z0 )
(7) lim iθ existe e não depende de θ,
r→0 e |f (z0 + reiθ ) − f (z0 )|
Seção 1 Preservação de Ângulos 179

f (z0 +reiθ )−f (z0 )


ou seja, lim iθ = ξeiθ , onde ξ é um número complexo que
r→0 |f (z0 +re )−f (z0 )|
só depende de f e de z0 e, é claro, |ξ| = 1.
Isso nos diz o seguinte: tome dois segmentos de reta (dois caminhos
suaves) emanando de z0 , L1 (t) = z0 + teiθ1 , L2 (t) = z0 + teiθ2 , 0 ≤ t ≤ ǫ,
θ1 e θ2 fixados, 0 ≤ θ1 < θ2 < 2π e olhe para os caminhos contı́nuos
Γ1 (t) = f (L1 (t)) e Γ2 (t) = f (L2 (t)). Então
Γ1 (t) − Γ1 (0)
lim = ξeiθ1 ,
t→0 |Γ1 (t) − Γ1 (0)|
t>0

Γ2 (t) − Γ2 (0)
lim = ξeiθ2
t→0 |Γ2 (t) − Γ2 (0)|
t>0
e portanto, as direções orientadas de Γj (t) em relação a f (z0 ) convergem
ao limite ξeiθj , j = 1, 2 (observe que, se o caminho Γj fosse suave, esse
limite seria o vetor tangente unitário a Γj no ponto f (z0 )). Logo,

lim A(Γ1 (t), Γ2 (t))f (z0 ) = lim A(L1 (t), L2 (t))z0 = ei(θ2 −θ1 ) .
t→0 t→0

A geometria dessa situação é explicada pela figura:

L2 2

f - 1
2
f (z 0 )
2 - 1
Z0

1
L1

Figura 24

Temos que a direção orientada de L1 a L2 em relação a z0 é igual


ao limite da direção orientada de Γ1 (t) a Γ2 (t) em relação a f (z0 ). Esse
é precisamente o conceito de preservação de ângulos orientados. Re-
tornando aos exemplos f (z) = az + b e g(z) = z e aplicando a eles a
Definição 1.2 ficamos com
A(1, f (z))f (z0 ) a
=
A(1, z)z0 |a|
180 Aplicações Conformes Cap. 7

e f é conforme em todos os pontos de C. Já para g temos

A(1, g(z))g(z0 ) z − z0
=
A(1, z)z0 z − z0

e
z − z0
lim
z→z0 z − z0

não existe pois g não é derivável em ponto algum.


A expressão (5) é sugestiva e conduz imediatamente ao

1.3 Teorema. Seja f : U → C uma função holomorfa, onde U ⊂ C é


um domı́nio. Então f é conforme em todos os pontos z0 ∈ U nos quais
f ′ (z0 ) 6= 0.

Demonstração: Como

f (z) − f (z0 )
lim = f ′ (z0 ) 6= 0
z→z0 z − z0

segue de (5) que

A(1, f (z))f (z0 ) f ′ (z0 )


lim = .
z→z0 A(1, z)z0 |f ′ (z0 )|


1.4 Proposição. Sejam f : U → C uma função holomorfa, onde U ⊂ C


é um domı́nio e z0 um ponto de U . Se f ′ (z0 ) = 0 então f não é conforme
em z0 .

Demonstração: Tome a expansão de Taylor de f centrada em z0 ,



P
f (z) = an (z − z0 )n . Como f ′ (z0 ) = 0, o coeficiente a1 dessa série
n=0

P
é nulo e então f (z) = f (z0 ) + an (z − z0 )n . Seja k > 1 o primeiro
n=2

P
ı́ndice tal que ak 6= 0 e escreva f (z) = f (z0 ) + an (z − z0 )n = f (z0 ) +
n=k
Seção 2 A esfera C∞ 181

(z − z0 )k g(z), onde g é holomorfa com g(z0 ) = ak 6= 0. Temos, por (5),

A(1, f (z))f (z0 ) (z − z0 )k g(z) |z − z0 |


lim = lim
z→z0 A(1, z)z0 z→z0 z − z0 |(z − z0 )k g(z)|
(z − z0 )k−1 g(z)
= lim
z→z0 |z − z0 |k−1 |g(z)|
(z − z0 )k−1 g(z)
= lim lim .
z→z0 |z − z0 |k−1 z→z0 |g(z)|

g(z) (z−z0 )k−1


Agora, lim = ak |ak | mas lim k−1 não existe. De fato, to-
z→z0 |g(z)| z→z0 |z−z0 |
mando um segmento de reta emanando de z0 , z0 + teiθ , 0 ≤ t ≤ ǫ, θ
fixado, e tendendo a z0 ao longo desse segmento temos

(z − z0 )k−1
lim = lim ei(k−1)θ = ei(k−1)θ .
z→z0 |z − z0 |k−1 t→0

Logo, para cada direção de aproximação a z0 obtemos um valor diferente


e o limite não existe. ⊓

2 A esfera C∞

O estudo das transformações de Möbius, uma classe muito importante


de aplicações conformes, será feito adiante e ficará mais acessivel se
tivermos uma visão geométrica clara do comportamento de funções que
tendem ao infinito quando a variável se aproxima de um dado ponto,
como ocorre, por exemplo, com uma função holomorfa na vizinhança de
um polo. Com essa finalidade vamos agora introduzir o plano estendido
C ∪ {∞}. Considere a esfera unitária S2 ⊂ R3 :

S2 = {(x1 , x2 , x3 ) : x21 + x22 + x23 = 1}.


182 Aplicações Conformes Cap. 7

x3
N

x2

z = x + iy
x1

Seja N = (0, 0, 1) o “polo norte”de S2 e identifique o plano C com o


plano {(x1 , x2 , 0) : x1 , x2 ∈ R}, que intercepta S2 ao longo do equador
x21 + x22 = 1. Assim sendo, cada número complexo z = x + iy está
identificado ao ponto (x1 , x2 , 0). Agora, para cada z ∈ C considere a
reta em R3 que passa por z e por N . Essa reta intercepta a esfera em
exatamente um ponto P 6= N (veja a figura acima). Observe que, se
|z| < 1 então P está no hemisfério sul, se |z| = 1 então P = z e, se
|z| > 1 então P está no hemisfério norte. Fazendo z → ∞ temos que
o ponto P tende a N e, com isso em mente, chamamos N de ponto no
infinito, {∞}, e identificamos C ∪ {∞} com S2 . Tal como dado, C ∪ {∞}
é chamado também de esfera e notado C∞ (C ∪ {∞} pode ser munido de
uma estrutura complexa, sobre a qual não falaremos nesse texto e, com
essa estrutura, passa a se chamar esfera de Riemann ou reta projetiva
complexa).
Vamos descrever a aplicação z 7−→ P em coordenadas. A equação
da reta passando por z e N é {tN + (1 − t)z : t ∈ R}. Como z =
x + iy = (x, y, 0) essa equação fica {((1 − t)x, (1 − t)y, t) : t ∈ R}. O
ponto P determinado por z é o ponto dessa reta que está na esfera e,
para obte-lo, precisamos calcular o valor de t que nos dá um ponto em
S2 . Ora, um ponto dessa reta está em S2 quando

(1 − t)2 x2 + (1 − t)2 y 2 + t2 = 1

ou seja, (1 − t)2 (x2 + y 2 ) = 1 − t2 , o que equivale a (1 − t)2 |z|2 = 1 − t2 .


Como t 6= 1, pois sabemos que P 6= N , essa última igualdade é o mesmo
2
que (1 − t)|z|2 = 1 + t e então t = |z| −1
|z|2 +1
. Substituindo esse valor de t
Seção 3 Transformações de Möbius 183

na equação da reta obtemos o ponto


!
2x 2y |z|2 − 1
P = (x1 , x2 , x3 ) = , , ∈ S2 .
|z|2 + 1 |z|2 + 1 |z|2 + 1
Observe que fica clara a afirmativa z → ∞ =⇒ P → N . Como essa
aplicação é uma bijeção, ela tem uma inversa, facilmente calculada a
partir do ponto P = (x1 , x2 , x3 ) ∈ S2 \ {N }, simplesmente fazendo
t = x3 na equação da reta. Isso fornece z = x1−x 1 +ix2
3
e fica muito bem
explicitado que P → N =⇒ z → ∞. Essa aplicação inversa é conhecida
pelo nome de projeção estereográfica.
Assim sendo, obtivemos uma bijeção Φ entre C∞ e S2 , definida por
Φ(∞) = N e
!
2x 2y |z|2 − 1
Φ(z) = , , , z = x + iy,
|z|2 + 1 |z|2 + 1 |z|2 + 1
x1 +ix2
cuja inversa Φ−1 é Φ−1 (N ) = ∞, Φ−1 (x1 , x2 , x3 ) = 1−x3 .

3 Transformações de Möbius

Essa é uma classe de funções conformes que têm muito apêlo geomé-
trico e que gozam de propriedades surpreendentes, que conduzem a re-
sultados e aplicações importantes.
3.1 Definição. Uma transformação linear fracionária é uma função da
forma S(z) = az+b
cz+d . Se os coeficientes a, b, c e d satisfazem ad − bc 6= 0,
então S(z) é chamada uma transformação de Möbius.
O interesse maior está nas transformações de Möbius, pois essas são
ad−bc
as lineares fracionárias não-triviais já que S ′ (z) = (cz+d)2 . Por exemplo,

uma função constante, portanto pouco interessante, é da forma acima


com ad − bc = 0. A única propriedade interessante das lineares fra-
cionárias é que a composta de duas delas é uma delas. De fato, se
αz+β
S(z) = az+b
cz+d e T (z) = γz+δ , então

(aα + bβ)z + (aβ + bδ)


S ◦ T (z) = S(T (z)) = .
(cα + dγ)z + (cβ + dδ)

Já as de Möbius são invertiveis: se S(z) = az+b


cz+d então a aplicação
dz−b
S (z) = −cz+a é tal que S ◦ S (z) = S(S (z)) = z = S −1 (S(z)) =
−1 −1 −1
184 Aplicações Conformes Cap. 7

S −1 ◦ S(z). O leitor deve observar que os coeficientes de S −1 (z) satis-


fazem precisamente a relação ad − bc 6= 0. Além disso, se S(z) = az+bcz+d
é de Möbius e λ 6= 0 é um número complexo, então S(z) = λaz+λb
λcz+λd , ou
seja, os coeficientes a, b, c e d não são únicos.
Para descrever a anatomia das transformações de Möbius considera-
mos quatro tipos de tais transformações: (i) translações: z 7−→ z + b,
(ii) rotações: z 7−→ az, |a| = 1 , (iii) homotetias: z 7−→ ρz, ρ > 0 e (iv)
a inversão: z 7−→ z1 . Temos então a
3.2 Proposição. Se S é uma transformação de Möbius, então S é uma
composição de translações, rotações, homotetias e da inversão.
Demonstração: Escreva S(z) = az+b a b
cz+d . Se c = 0, então S(z) = d z + d .
Tome a translação T (z) = z + db e H(z) = ad z (H é uma homotetia ou
uma rotação). Segue que S(z) = T ◦ H(z). Se agora c 6= 0, então
bc−ad

az + b c a
= + .
cz + d cz + d c
Fica claro que S é a composição de transformações dos tipos (i), (ii),
(iii) e (iv) (note que nesse caso a inversão está presente). ⊓

Pelo visto na demonstração acima, se c 6= 0, então S(z) é uma função


holomorfa em C \ {−d/c}, com um polo de ordem 1 em z = −d/c. Pelo
Corolário 2.5 do Capı́tulo 6 temos que lim S(z) = ∞. Por outro
z→−d/c
lado, lim S(z) = a/c. Somos então naturalmente levados a considerar
z→∞
S como uma função não apenas de C \ {−d/c} em C, mas como uma
função da esfera C∞ em si mesma:

S : C∞ −→ C∞
az + b
z 7−→ z 6= −d/c, z 6= ∞
cz + d
−d/c 7−→ ∞
∞ 7−→ a/c

Se c = 0, então S(z) = ad z + db é um polinômio de grau 1 e, da mesma


maneira, podemos vê-lo como uma aplicação S : C∞ −→ C∞ , definida
por sua própria expressão para todo z e por S(∞) = ∞. De agora
em diante vamos considerar as transformções de Möbius como funções
Seção 3 Transformações de Möbius 185

(bijeções) de C∞ em C∞ . O que ganharemos fazendo isso? A resposta


é que esse ponto de vista nos permitirá ter uma visão geométrica clara
e simples de como essas funções atuam sobre domı́nios do plano. Vamos
então iniciar a exploração geométrica das transformações de Möbius.
Começamos com o conceito de ponto fixo. Se f é uma função, um
ponto p é chamado de ponto fixo de f se p é preservado por f , ou seja,
se f (p) = p. No caso de uma transformação de Möbius S(z) = az+b cz+d ,
buscar pontos fixos é resolver a equação S(z) = z. Mas isso fornece a
equação do segundo grau cz 2 + (d − a)z − b = 0 e concluimos que uma
transformação de Möbius, que não é a identidade z 7→ z, tem no máximo
2 pontos fixos. Por exemplo, uma translação T (z) = z + b, b 6= 0 tem
∞ como único ponto fixo. As homotetias e as rotações tem dois pontos
fixos, 0 e ∞ (aqui já se pode perceber a conveniência de considerar essas
aplicações como aplicações da esfera). A inversão tem 1 e −1 como
pontos fixos.
Sejam S(z) = az+b cz+d de Möbius e z1 , z2 e z3 três pontos distintos de
C∞ . Ponha S(z1 ) = u1 , S(z2 ) = u2 e S(z3 ) = u3 (observe que, como
S é bijeção, u1 , u2 e u3 são distintos). Suponha que tenhamos uma
outra transformação de Möbius T satisfazendo T (z1 ) = u1 , T (z2 ) = u2
e T (z3 ) = u3 . Então T −1 ◦ S(zj ) = zj , j = 1, 2, 3 e daı́ vem que a
transformação T −1 ◦ S tem três pontos fixos. Logo, T −1 ◦ S é a iden-
tidade e obtemos T = S. Portanto, uma transformação de Möbius fica
completamente determinada por seus valores em três pontos distintos
de C∞ .
Por outro lado, sejam z1 , z2 e z3 três pontos distintos de C∞ . Defina
S : C∞ −→ C∞ por

(z2 − z3 )(z − z1 )
S(z) = se z1 , z2 , z3 ∈ C
(z2 − z1 )(z − z3 )
z2 − z3
S(z) = se z1 = ∞
(P) z − z3
z − z1
S(z) = se z2 = ∞
z − z3
z − z1
S(z) = se z3 = ∞.
z2 − z1

Essa aplicação S satisfaz S(z1 ) = 0, S(z2 ) = 1 e S(z3 ) = ∞ e, pelo visto


acima, é a única transformação de Möbius com tal propriedade. Ora, se
agora w1 , w2 e w3 são três pontos distintos de C∞ , então, por (P), existe
186 Aplicações Conformes Cap. 7

uma única T de Möbius tal que T (w1 ) = 0, T (w2 ) = 1 e T (w3 ) = ∞. A


composta T −1 ◦ S envia z1 em w1 , z2 em w2 e z3 em w3 . Sumarizamos
isso na
3.3 Proposição. Dados três pontos distintos em C∞ , z1 , z2 , z3 , e ou-
tros três pontos distintos em C∞ , w1 , w2 , w3 , existe uma única trans-
formação de Möbius S : C∞ −→ C∞ , tal que S(z1 ) = w1 , S(z2 ) = w2 e
S(z3 ) = w3 . ⊓

Sabemos da Geometria elementar que três pontos do plano C, distin-


tos e não alinhados, determinam um único cı́rculo e que, caso alinhados,
eles determinam uma única reta. Ora, utilizando a inversa da projeção
estereográfica, temos um cı́rculo no plano é levado por ela sobre um
cı́rculo na esfera C∞ , e que uma reta no plano é levada sobre um cı́rculo
em C∞ passando por ∞. Assim sendo, podemos considerar a famı́lia
F, formada por todos os cı́rculos e por todas as retas no plano, como a
famı́lia de todos os cı́rculos na esfera C∞ . O fato geométrico bonito é
que
3.4 Proposição. As transformações de Möbius preservam a famı́lia F,
isto é, se C ∈ F, então S(C) ∈ F qualquer que seja S de Möbius.
Demonstração: Do ponto de vista do plano C isso nos diz que, se C
é um cı́rculo ou uma reta, então S(C) também é um cı́rculo ou uma
reta. Vamos escrever as equações de retas e de cı́rculos em termos de z
e z. Considere números reais A, C, um número complexo B = b1 + ib2
satisfazendo BB > AC e olhe para a equação

(‡) Azz + Bz + Bz + C = 0.

Traduzindo para as coordenadas reais x e y lemos essa equação como

Ax2 + Ay 2 + 2b1 x − 2b2 y + C = 0.

Se A = 0 ela representa uma reta e, se A 6= 0, então podemos reescrevê-la


como    
b1 2 b2 2 AC − b21 − b22
x+ + y− + =0
A A A2
e a condição BB > AC nos diz precisamente que ela é a equação de um
cı́rculo. Logo, a famı́lia F é o conjunto de todas as equações da forma
Seção 4 Aplicações conformes entre domı́nios de C 187

acima. Agora, translações, rotações e homotetias obviamente transfor-


mam cı́rculos em cı́rculos e retas em retas. Isso já não ocorre com a
inversão porém, trocando z por z1 em (‡) obtemos

A + Bz + Bz + Czz = 0,

uma expressão do mesmo tipo. Concluimos que a inversão envia cı́rculos


em C∞ sobre cı́rculos em C∞ . Invocando a Proposição 3.2 esta pro-
posição fica demonstrada. ⊓

4 Aplicações conformes entre domı́nios de C

Vamos utilizar os resultados obtidos até agora para construir apli-


ções conformes entre alguns domı́nios simples do plano. Para entender
rigorosamente os exemplos abaixo, necessitamos de um fato de natureza
topológica cuja demonstracão não daremos, mas que é de intuição fácil.
Trata-se do seguinte: uma transformação de Möbius S é uma bijeção
S : C∞ → C∞ e, pensando ingênuamente, S é contı́nua. Agora, um
cı́rculo C divide a esfera em exatamente duas regiões, digamos U e V ,
sendo C a fronteira de ambas. Como S(C) é um cı́rculo, ele também
divide a esfera em duas regiões, digamos U ′ e V ′ , das quais S(C) é a
fronteira comum. O fato que admitiremos sem prova é: ou S(U ) = U ′
e então S(V ) = V ′ , ou S(U ) = V ′ e então S(V ) = U ′ . Logo, para
sabermos aonde S envia U , basta olhar se S(p) ∈ U ′ ou se S(p) ∈ V ′ ,
onde p é um ponto qualquer de U .
4.1 Exemplo: Construir uma aplicação conforme que envia o semi-
plano {Re(z) > 0} sobre o disco D(0, 1). Buscamos inicialmente uma
transformação de Möbius que envie o eixo imaginário x = 0 no cı́rculo
x2 + y 2 = 1. Escolhemos três pontos (ordenados) sobre o eixo, −i, 0
e i e três pontos (ordenados) sobre o cı́rculo, −1, i e 1 (note que, ao
fazermos isso, estamos estabelecendo um sentido de percurso, tanto para
o eixo quanto para o cı́rculo; o eixo é percorrido no sentido y crescente e
o cı́rculo no sentido horário). Queremos uma S, de Möbius, que satisfaz
S(−i) = −1, S(0) = i e S(i) = 1. Escrevendo S(z) = az+b cz+d , temos
az+di
que S(0) = i =⇒ b = di e ficamos com S(z) = cz+d . Impondo as duas
outras condições chegamos às equações ai+di = ci+d e −ai+di = ci−d,
o que fornece c = d e a = −di. Logo, S(z) = −diz+di −iz+i
dz+d = z+1 . Observe
que ad − bc = −2i 6= 0. Agora, é preciso verificar se S envia {Re(z) > 0}
188 Aplicações Conformes Cap. 7

em |z| < 1. Como S(1) = 0 ∈ D(0, 1), S é a aplicação procurada (aqui


utilizamos o fato acima). Lembramos ao leitor que a maneira mais
segura de se obter essa aplicação é seguindo a argumentação dada na
Proposição 3.3, ou seja, primeiro encontramos S1 que envia −i em 0, 0
em 1 e i em ∞; em seguida obtemos S2 que envia −1 em 0, i em 1 e 1
em ∞. A aplicação S procurada é S = S2−1 ◦ S1 .
4.2 Exemplo: Construir uma bijeção conforme entre o semi-plano
{Re(z) > 0} e o exterior U = {|z| > 1} do disco D(0, 1). Fazemos como
no exemplo anterior, simplesmente alterando o sentido de percurso do
cı́rculo, de horário para anti-horário. Queremos então uma aplicação
de Möbius T tal que T (−i) = 1, T (0) = i e T (i) = −1. Escrevendo
T (z) = az+b
cz+d , uma manipulação algébrica como no Exemplo 4.1 fornece
iz+i
imediatamente T (z) = −z+1 e ad − bc = 2i 6= 0. Como T (1) = ∞,
T ({Re(z) > 0}) = {|z| > 1}.
4.3 Exemplo: Construir uma bijeção conforme entre o 1◦ quadrante
U = {z : Re(z) > 0, Im(z) > 0} e o disco D(0, 1). Começamos enviando
U sobre o semi-plano {Im(z) > 0}. Para isso observamos que a função
f (z) = z 2 “abre”o primeiro quadrante sobre o semi-plano y > 0. De fato,
se z = reiθ , 0 < θ < π/2, então z 2 = r2 ei2θ , 0 < 2θ < π. Uma vez obtida
a bijeção conforme (pois f é holomorfa e sua derivada é não nula em
todos os pontos do primeiro quadrante) entre U e {Im(z) > 0}, fazemos
uma rotação R(z) = ei3π/2 z, no sentido anti-horário e de ângulo 3π/2, e
enviamos {Im(z) > 0} conformemente sobre o semi-plano {Re(z) > 0}.
Finalmente aplicamos a transformação de Möbius S obtida no Exemplo
4.1. A aplicação procurada é F (z) = (S ◦ R ◦ f )(z) e sua expressão é
(−iei3π/2 )z 2 +i
F (z) = (ei3π/2 )z 2 +1
.
4.4 Exemplo: Construir uma bijeção conforme entre a faixa infinita
V = {z : π/2 > Im(z) > 0} e o disco D(0, 1). Aqui invocamos a
exponencial ez = ex eiy . Cada reta horizontal L(t) = t + iα, α fixado,
0 < α < π/2, t ∈ R, é enviada por ela na semi-reta aberta emanando de
0, ℓ(s) = es eiα , s > 0. Portanto, ela fornece uma bijeção conforme entre
a faixa V = {z : π/2 > Im(z) > 0} e o 1◦ quadrante U = {z : Re(z) >
0, Im(z) > 0}. A bijeção G que procuramos consiste em compor a
função F do exemplo anterior com a exponencial, G = F ◦ exp, e isso
i3π/2 )e2z +i
dá G(z) = (−ie
(ei3π/2 )e2z +1
.
Poderiamos prosseguir e dar um sem número de exemplos, mas pre-
ferimos explorá-los nos exercı́cios.
Seção 5 Aplicações conformes do disco no disco 189

5 Aplicações conformes do disco no disco

Finalizamos esse capı́tulo com um teorema muito bonito, que caracteriza


todas as bijeções holomorfas ϕ : D(0, 1) 7−→ D(0, 1). Novamente, a
“rigidez”do conceito de função holomorfa se faz presente, começando
pelo
5.1 Lema de Schwarz. Seja f : D(0, 1) → C uma função holomorfa.
Suponha que f (0) = 0 e que |f (z)| ≤ 1 para todo z ∈ D(0, 1). Então
|f ′ (0)| ≤ 1 e |f (z)| ≤ |z| para todo z ∈ D(0, 1). Além disso, se ocorrer
que |f ′ (0)| = 1, ou ocorrer que |f (z0 )| = |z0 | para algum z0 ∈ D(0, 1),
z0 6= 0, então existe um número complexo λ, |λ| = 1, tal que f (z) = λz
para todo z ∈ D(0, 1).
Demonstração: Defina g : D(0, 1) → C por
(
f (z)
z , se z 6= 0
g(z) = ′
f (0), se z = 0.
f (z)
g é holomorfa em D(0, 1) pois, como f (0) = 0, lim z = f ′ (0) e então 0
z→0
é singularidade removı́vel de g (reveja atentamente a Proposição 2.2 do
Capı́tulo 6). Com isso em mãos temos que f (z) = zg(z), g holomorfa.
Por hipótese, |f (z)| ≤ 1, e daı́ vem que |zg(z)| ≤ 1, ou seja, |g(z)| ≤
1
|z| para todo z ∈ D(0, 1). Vamos agora usar o Princı́pio do Módulo
Máximo, Corolário 2.11 do Capı́tulo 5. Tome 0 < r < 1. Se z está
no disco fechado {|z| ≤ r}, então o valor máximo de |g(z)| ocorre na
1
fronteira desse disco, mas como |g(z)| ≤ |z| , temos |g(z)| ≤ 1r para
z ∈ D(0, r). Ora, tomando o limite r → 1 concluimos que |g(z)| ≤ 1
qualquer que seja z ∈ D(0, 1) (aprecie a beleza sutil desse argumento).
Assim sendo, temos que |f (z)| = |zg(z)| = |z||g(z)| ≤ |z| e que |f ′ (0)| =
|g(0)| ≤ 1, qualquer que seja z ∈ D(0, 1). Para encerrar a demonstração,
suponha que |f ′ (0)| = 1 ou que exista um ponto z0 ∈ D(0, 1), z0 6= 0,
tal que |f (z0 )| = |z0 |. Nesses casos temos, novamente pelo Princı́pio do
Módulo Máximo, como |g(0)| = |f ′ (0)| = 1 e |g(z0 )| = 1, que |g| assume
seu valor valor máximo 1 num ponto interior ao disco D(0, 1). Segue
que g é uma função constante, g(z) ≡ λ e, como |g(z)| = 1, obtemos
|λ| = 1. Enfim, f (z) = λz e o lema está demonstrado. ⊓

Trataremos agora uma classe de transformações de Möbius que pre-


servam o disco D(0, 1). Para cada ponto a ∈ D(0, 1) considere a função
190 Aplicações Conformes Cap. 7

z−a
φa = 1−az . φa é de Möbius, pois para ela a relação ad−bc se lê 1−|a|2 6= 0
pois |a| < 1, e seu único polo é z = a1 , que tem módulo maior que 1.
Logo, φa está definida em todo o disco D(0, 1/a), que contém o disco
fechado D(0, 1). Essa famı́lia de aplicações goza das seguintes proprie-
dades:
5.2 Proposição. Para cada a ∈ D(0, 1), φa é uma bijeção holomorfa
satisfazendo : φa envia o disco D(0, 1) sobre si mesmo, envia a fronteira
(cı́rculo unitário) ∂D(0, 1) sobre si mesma, vale 0 em a, tem a aplicação
z+a
φ−a (z) = 1+az por inversa, φa ′ (0) = 1 − |a|2 e φa ′ (a) = 1−|a|
1
2.

Demonstração: Uma manipulação fácil mostra que φa (a) = 0, (φa ◦


φ−a )(z) = z = (φ−a ◦φa )(z), φa ′ (0) = 1−|a|2 e φa ′ (a) = 1−|a|
1
2 . Para ver

que φa envia o cı́rculo |z| = 1 sobre si mesmo, escreva um ponto desse


cı́rculo na forma polar, z = eiθ , 0 ≤ θ < 2π. Então
eiθ − a eiθ − a z − a

|φa (z)| = φa (e ) = = = =1
1 − aeiθ e−iθ − a z − a

pois um número e seu conjugado têm o mesmo módulo. Agora, pela


mesma razão |φ−a (z)| = 1 se |z| = 1, ou seja, a inversa de φa envia o
cı́rculo unitário em si mesmo e concluimos que φa ({|z| = 1}) = {|z| = 1}.
Quanto ao disco D(0, 1) observe que, se para algum ponto z0 tivessemos
|z0 | < 1 e |φa (z0 )| > 1, então, pelo Princı́pio do Módulo Máximo, |φa |
seria constante, o que é absurdo. Logo, φa (D(0, 1)) ⊂ D(0, 1). Como o
mesmo raciocı́nio vale para φ−a obtemos φa (D(0, 1)) = D(0, 1). ⊓

Uma esperta combinação do Lema de Schwarz com as aplicações φa


nos permite estudar todas as funções holomorfas do disco D(0, 1) em si
mesmo. Com esse fim em mente, suponha que tenhamos uma função
holomorfa não constante f : D(0, 1) → C tal que |f (z)| ≤ 1 para todo
z ∈ D(0, 1). Fixe um número a ∈ D(0, 1) e olhe para f (a) = b. Temos
que |b| < 1 pois, caso contrário, |f | atingiria seu valor máximo em D(0, 1)
e, pelo Princı́pio do Módulo Máximo, f seria constante. Assim sendo,
as funções φa e φb se enquadram no enunciado da proposição acima.
Fazemos a pergunta:
Qual o maior valor possı́vel de |f ′ (a)|?
A resposta é a seguinte: olhe para a função g(z) = (φb ◦ f ◦ φ−a )(z).
Temos
Seção 5 Aplicações conformes do disco no disco 191

(i) g satisfaz |g(z)| ≤ 1 para todo z ∈ D(0, 1). De fato, |φ−a (z)| <
1 =⇒ |f (φ−a (z))| ≤ 1 =⇒ |φb (f (φ−a (z)))| ≤ 1.
(ii) g(0) = 0. De fato, φ−a (0) = a =⇒ f (φ−a (0)) = f (a) = b =⇒
φb (f (φ−a (0))) = φb (b) = 0.
Portanto, g satisfaz as hipóteses do Lema de Schwarz. Assim sendo,
|g ′ (0)| ≤ 1. Mas, pela regra da cadeia,
1 1 − |a|2 ′
g ′ (0) = φb ′ (b)f ′ (a)φ−a

(0) = f ′
(a)(1 − |a| 2
) = f (a)
1 − |b|2 1 − |b|2
e ficamos com
1 − |b|2
(∗) |f ′ (a)| ≤ .
1 − |a|2
Além disso, se ocorrer |g ′ (0)| = 1, então g(z) = λz, |λ| = 1. Mas, nesse
caso, λz = (φb ◦ f ◦ φ−a )(z) o que fornece
(∗∗) f (z) = φ−b (λφa (z)).
Isto feito, estamos em condições de enunciar e demonstrar o teorema que
caracteriza as bijeções holomorfas de D(0, 1) em si mesmo. Quais dessas
funções já conhecemos? Ora, existem as φa , a ∈ D(0, 1) e, se compomos
φa com uma rotação, ou seja, multiplicamos φa por um número complexo
λ de módulo 1, a função λφa também é bijeção holomorfa de D(0, 1)
sobre D(0, 1). O surpreendente é que essas são todas elas, como reza o
5.3 Teorema. Sejam f : D(0, 1) → D(0, 1) uma bijeção holomorfa e
a o único número complexo em D(0, 1) tal que f (a) = 0. Então existe
um número complexo λ, com |λ| = 1, tal que f (z) = λφa (z) para todo
z ∈ D(0, 1).
Demonstracão: Como f é bijeção, ela admite uma inversa g : D(0, 1) →
D(0, 1) tal que g(f (z)) = z para todo z ∈ D(0, 1) (note que g(0) = a).
1
Aplicando (∗) a ambas f e g obtemos, respectivamente, |f ′ (a)| ≤ 1−|a| 2
′ 2
e |g (0)| ≤ 1 − |a| . Agora, já que g(f (z)) = z, a regra da cadeia for-
1
nece g ′ (0)f ′ (a) = 1. Somos levados a concluir que |f ′ (a)| = 1−|a|2 pois,
1
|f ′ (a)| < 1−|a|2
implica
1
1 = |g ′ (0)||f ′ (a)| < 1 − |a|2 = 1.
1 − |a|2
Temos então que vale exatamente (∗∗) e portanto f (z) = λφa (z). ⊓

192 Aplicações Conformes Cap. 7

6 Exercı́cios

1) Em quais pontos f (z) = sen z não é conforme? Responda essa per-


gunta para f (z) = cos z, f (z) = log z (ramo principal),
 f (z) = senh z,
f (z) = cosh z, f (z) = tan z, f (z) = exp z + z1 .
2) Determine a imagem do disco D(0, a) pela aplicação f (z) = z1 .
3) Qual é a imagem do semi-plano superior {z : Im(z) > 0} pela
aplicação S(z) = i−z
i+z ?
4) Determine a imagem  do  semi-plano superior {z : Im(z) > 0} pela
z−1
aplicação f (z) = log z+1 . Essa aplicação é conforme nesse domı́nio?
Ela é injetiva aı́?
5) Determine a imagem do semi-plano {z : Re(z) > a > 0} pela inversão
f (z) = z1 .
6) Qual a imagem do retângulo {z : −π/2 < Re(z) < π/2 , 0 <
Im(z) < a} pela aplicação f (z) = sen z? Essa aplicação é conforme
nesse domı́nio? Ela é injetiva aı́?
7) Determine uma bijeção holomorfa entre o semi-plano 3x + 2y > 0 e o
disco D(i, 15).
8) Determine uma bijeção holomorfa entre o semi-plano 3x + 2y > 0 e o
exterior do disco D(i, 15).
9) Determine a imagem do aberto {z : |z| < 1 , Im(z) > 0} pela
aplicação f (z) = z + z1 .
0) Qual a imagem do aberto {z : 0 < |z| < a , Im(z) > 0} pela aplicação
f (z) = z + z1 ?
11) Determine condições necessárias e suficientes sobre os números a,b,c
e d para que a transformação de Möbius S(z) = az+b cz+d seja uma bijeção
holomorfa do semi-plano superior {z : Im(z) > 0} sobre si mesmo.
12) Determine todas as transformações de Möbius S satisfazendo
S(R) = R.
13) Determine todas as transformações de Möbius S que enviam o cı́rculo
|z| = 1 sobre si mesmo.
14) Determine todas as transformações de Möbius S satisfazendo
S(D(0, 1)) = D(0, 1).
Seção 6 Exercı́cios 193

αz+β
15) Se S(z) = az+b
cz+d e T (z) = γz+δ , então S = T se, e somente se, existe
um número complexo não nulo λ tal que α = λa, β = λb, γ = λc e
δ = λd.
16) Seja T uma transformação de Möbius com pontos fixos z1 e z2 . Quais
são os pontos fixos de S −1 ◦ T ◦ S?
17) Mostre que se uma transformação de Möbius S tem 0 e ∞ como
únicos pontos fixos, então S é uma homotetia ou uma rotação.
18) Mostre que as únicas transformações de Möbius que tem somente ∞
como ponto fixo são as translações.
19) Seja T uma transformação de Möbius diferente da identidade. Mos-
tre que uma transformação de Möbius S satisfaz T ◦ S = S ◦ T se, e
somente se, T e S tem os mesmos pontos fixos.
20) Mostre que uma transformação de Möbius S satisfaz S(0) = ∞ e
S(∞) = 0 se, e somente se, S é da forma S(z) = az , onde a ∈ C.
21) Seja f (z) holomorfa num aberto que contém o disco D(0, 1), sendo
|f (z)| ≤ K para |z| ≤ 1 e f (a) = 0, onde a ∈ D(0, 1). Mostre que

z−a
|f (z)| ≤ K
∀ z ∈ D(0, 1).
1 − az

22) Existe uma função holomorfa f : D(0, 1) → D(0, 1) tal que f (1/2) =
3/4 e f ′ (1/2) = 2/3?
Bibliografia

[1] Elon Lages Lima, Espaços Métricos, Projeto Euclides, IMPA, Rio
de Janeiro, 1983.

[2] Alcides Lins Neto, Funções de uma variável complexa, Projeto


Euclides, IMPA, Rio de Janeiro, 1993.

[3] R. Narasimhan, Complex Analysis in One Variable, Birkhäuser,


1985.
Índice Remissivo

196
Índice Remissivo

Anel, 131 conforme, 178


contı́nua, 23
Caminho de Möbius, 183
comprimento, 21, 97 holomorfa, 46
fechado, 18 inteira, 47
orientação, 18 limite de, 22, 35
reverso, 19 linear fracionária, 183
simples, 20 multiforme, 49, 52
suave, 17 potência, 54
suave por partes, 19
Condições de Cauchy-Riemann, 43 Integral
Conjunto de função complexa, 95, 97
aberto, 16 de linha, 25
convexo, 111 imprópria, 163
estrelado, 111
fechado, 17 Lema de Schwarz, 189
fronteira, 17 Limite superior, 90
limitado, 17
Coordenadas polares, 9 Número complexo, 2, 4
Corpo, 4 conjugado, 8
Curva de Jordan, 20 forma polar, 10
raiz n-ésima, 11
Derivada complexa, 39 um argumento, 10, 52
Derivada parcial, 24
Direção orientada, 175 Orientação compatı́vel entre domı́nio
Disco e fronteira, 26
aberto, 16
fechado, 16 Plano complexo, 7
Domı́nio, 22 Polo, 143
estrelado, 111 Ponto
aderente, 90
Esfera, 181 de acumulação, 17
Estimativas de Cauchy, 118 de fronteira, 16, 17
fixo, 185
Fórmula integral de Cauchy, 114, 127 inicial, 18
Função interior, 16, 17
analı́tica, 85 no infinito, 182
complexa, 34 terminal, 18

197
198 Índice Remissivo

Primitiva, 100
Princı́pio da Identidade, 84, 130
Princı́pio de Cauchy, 63
Princı́pio do Argumento, 152
Projeção estereográfica, 183

Raio de convergência, 70
Ramo
do logaritmo, 52
principal, 52, 54
Resı́duo, 149

Série
absolutamente convergentes, 65
convergente, 64
de Laurent, 131, 139
de potências, 68
divergente, 64
geométrica, 66
numérica, 64
princı́pio da identidade, 84
Sequência, 59
convergente, 60
divergente, 61
limite, 60
Singularidade, 47
essencial, 143
removı́vel, 143
Singularidades, 131

Teorema
de Casorati-Weierstrass, 147
de Cauchy, 126
de Cauchy-Goursat, 107, 113
de Green, 27
de Jordan, 21
de Laurent, 139
de Liouville, 118
de Morera, 128
de Picard, 146
de Rouché, 154
do Módulo Máximo, 121
dos Resı́duos, 149
Fundamental da Álgebra, 119, 155

Zero, 82, 152