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elementos de álgebra

Garcia, Arnaldo
Elementos de álgebra / Arnaldo Garcia, Yves Lequain.
1.ed. Rio de Janeiro : IMPA, 2014

326 p. (Projeto Euclides)

e-ISBN 978-85-244-0370-5

1. Álgebra. I. Lequain, Yves. II. Série. III. Título

CDD-512
arnaldo garcia
yves lequain

elementos de álgebra

INSTITUTO NACIONAL DE MATEMÁTICA PURA E APLICADA


Copyright  2014 by Arnaldo Garcia e Yves Lequain
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Capa: Adriana Fuerth e Raquel Noronha, Mameluco / Sérgio R. Vaz

Imagem: M.C. Escher’s “Symmetry Drawing E56”  2011 The M.C. Escher Company-
Holland. All rights reserved.
Projeto Euclides
Comissão Editorial:
Elon Lages Lima
S. Collier Coutinho
Paulo Sad
Títulos Publicados:
• Curso de Análise, Volume 1 - Elon Lages Lima
• Medida e Integração - Pedro Jesus Fernandez
• Aplicações da Topologia à Análise - Chaim Samuel Hönig
• Espaços Métricos - Elon Lages Lima
• Análise de Fourier e Equações Diferenciais Parciais - Djairo Guedes de Figueiredo
• Introdução aos Sistemas Dinâmicos - Jacob Palis Junior e Wellington C. de Melo
• Introdução à Álgebra - Adilson Gonçalves
• Aspectos Teóricos da Computação - Cláudio L. Lucchesi, Imre Simon,
Istvan Simon, Janos Simon e Tomasz Kowaltowski
• Teoria Geométrica das Folheações - Alcides Lins Neto e César Camacho
• Geometria Riemanniana - Manfredo P. do Carmo
• Lições de Equações Diferenciais Ordinárias - Jorge Sotomayor
• Probabilidade: Um Curso em Nível Intermediário - Barry R. James
• Curso de Análise, Volume 2 - Elon Lages Lima
• Teoria Ergódica - Ricardo Mañé
• Teoria dos Números Algébricos - Otto Endler
• Operadores Auto-Adjuntos e Equações Diferenciais Parciais - Javier Thayer
• Equações Diferenciais Parciais: Uma Introdução - Rafael Iório Jr. e Valéria Iório
• Álgebra: Um Curso de Introdução - Arnaldo Leite P. Garcia e Yves Albert E. Lequain
• Grupo Fundamental e Espaços de Recobrimento - Elon Lages Lima
• Funções de uma Variável Complexa - Alcides Lins Neto
• Elementos de Álgebra - Arnaldo Garcia e Yves Lequain
• Introdução à Geometria Analítica Complexa - Marcos Sebastiani
• Curso de Teoria da Medida - Augusto Armando de Castro Júnior
• Introdução à Teoria da Medida - Carlos Isnard
• Introdução à Teoria de Controle e Programação Dinâmica - Johann Baumeister e
Antonio Leitão
• Homologia Básica - Elon Lages Lima
• Teoria dos Números: um Passeio com Primos e outros Números Familiares pelo Mundo Inteiro -
Fabio Brochero Martinez, Carlos Gustavo Moreira, Nicolau Saldanha e Eduardo Tengan
• Introdução à Análise Funcional – César R. de Oliveira
Distribuição:
IMPA
Estrada Dona Castorina, 110
22460-320 Rio de Janeiro, RJ
e-mail: ddic@impa.br
http://www.impa.br
Solução de Vida
(Paulinho da Viola e Ferreira Gullar)

Acreditei na paixão
E a paixão me mostrou
Que eu não tinha razão
Acreditei na razão
E a razão se mostrou
Uma grande ilusão
Acreditei no destino
E deixei-me levar
E no fim
Tudo é sonho perdido
Só desatino, dores demais
Hoje com meus desenganos
Me ponho a pensar
Que na vida, paixão e razão,
Ambas têm seu lugar
E por isso eu lhe digo
Que não é preciso
Buscar solução para a vida
Ela não é uma equação
Não tem que ser resolvida
A vida, portanto, meu caro,
Não tem solução

A nossas filhas
Maria Clara, Julia e Laura,
que trazem tanta substância
ao binômio Paixão-Razão
de nossas vidas
Prefácio

Este livro evoluiu de notas de aula utilizadas num curso ofere-


cido anualmente no IMPA. Foi escrito com a preocupação de poder
ser utilizado como livro de referência num curso básico de Álgebra
das universidades brasileiras. Não se faz uso de resultados que não
sejam estabelecidos no texto.
O livro está dividido em três partes. Os capı́tulos I, II, III e
IV podem ser adotados como texto de um curso sobre a teoria dos
anéis, com algumas aplicações à teoria dos números e à geometria
algébrica. Os capı́tulos I, V, VI, VII podem ser adotados como
texto de um curso sobre a teoria dos grupos. Os capı́tulos I, II,
VIII, IX podem ser adotados como texto de um curso sobre a teoria
dos módulos finitamente gerados sobre domı́nios euclidianos, com
aplicações à teoria dos operadores lineares em espaços vetoriais de
dimensão finita.
Os exercı́cios são parte importante do livro. Alguns deles são
integrados ao corpo do livro; eles estendem, desenvolvem e clarifi-
cam idéias abordadas no texto e devem ser encarados como parte
integrante deste. Outros são colocados no final dos capı́tulos.
Grande contribuição foi dada pelas várias turmas de alunos do
IMPA, através de perguntas, dúvidas e observações, e somos gratos
por isto. Gostarı́amos também de agradecer aos nossos colegas
Nicolau Corção Saldanha e Carlos Gustavo Tamm Moreira pela
apresentação de sugestões matemáticas importantes, e a Rogério
Dias Trindade pelo excelente trabalho de composição e editoração
eletrônica do texto deste livro.

Arnaldo Garcia
Yves Lequain

Rio de Janeiro, dezembro de 2001


Conteúdo

Introdução 3

I Anéis e Domı́nios 7
I.1 Definições e Exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . 7
I.2 Anéis de Polinômios . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
I.3 Domı́nios Euclidianos . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
I.4 Homomorfismos de Anéis . . . . . . . . . . . . . . . 30
I.5 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34

II Fatoração Única 39
II.1 Definições e Exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . 39
II.2 Fatoração em Domı́nios Noetherianos . . . . . . . . 45
II.3 Fatoração Única em Anéis de Polinômios . . . . . . 54
II.4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65

III Polinômios 71
III.1 Raı́zes e Fatores de um Polinômio . . . . . . . . . . 71
III.2 Critérios de Irredutibilidade . . . . . . . . . . . . . 76
III.3 Resultante de dois Polinômios . . . . . . . . . . . . 84
III.4 Polinômios Simétricos . . . . . . . . . . . . . . . . 97
III.5 Teorema da Base de Hilbert . . . . . . . . . . . . . 104
III.6 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107

IV Aplicações 113
IV.1 Somas de dois Quadrados . . . . . . . . . . . . . . 113
IV.2 Soluções Inteiras de X 2 + Y 2 = Z 2 . . . . . . . . . 119

5
6 CONTEÚDO

IV.3 Teorema de Bezout . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121


IV.4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129

V Teoria Básica dos Grupos 135


V.1 Exemplos de Grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
V.2 Subgrupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142
V.3 Classes Laterais e Teorema de Lagrange . . . . . . 147
V.4 Subgrupos Normais e Grupos Quocientes . . . . . . 152
V.5 Homomorfismos de Grupos . . . . . . . . . . . . . . 159
V.6 Grupos Cı́clicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172
V.7 Grupos Finitos Gerados por dois Elementos . . . . 182
V.8 Produto Direto de Grupos . . . . . . . . . . . . . . 197
V.9 Produto Semidireto de Grupos . . . . . . . . . . . . 200
V.10 Grupos de Permutações . . . . . . . . . . . . . . . 218
V.11 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235

VI Estudo de um Grupo Via Representações 249


VI.1 Representação de um Grupo por Permutações . . . 250
VI.2 Teoremas de Sylow . . . . . . . . . . . . . . . . . . 258
VI.3 p-Grupos Finitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 266
VI.4 Classificação dos Grupos Simples de Ordem ≤ 60 . 268
VI.5 Classificação dos Grupos de Ordem ≤ 15 . . . . . . 275
VI.6 Propriedades de A4 e A5 . . . . . . . . . . . . . . . 280
VI.7 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 285

VII Grupos Solúveis 293


VII.1 Teorema de Jordan-Hölder . . . . . . . . . . . . . 293
VII.2 Grupos Solúveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300
VII.3 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 304

VIII Matrizes e Módulos Finitamente Gerados 309


VIII.1 Diagonalização de Matrizes . . . . . . . . . . . . 309
VIII.2 Módulos e Homomorfismos . . . . . . . . . . . . 318
VIII.3 Submódulos de um Módulo Livre . . . . . . . . . 327
VIII.4 Estrutura dos Módulos Finitamente Gerados . . . 332
VIII.5 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 338
CONTEÚDO 7

IX Aplicações 341
IX.1 Estrutura dos Grupos Abelianos Finitamente Gerados341
IX.2 Forma Canônica de Jordan . . . . . . . . . . . . . . 342
IX.3 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 348

Índice 353
DIVISÃO E FATORAÇÃO
EM ANÉIS
Introdução

A verificação das afirmações seguintes sobre os números inteiros


primos é imediata:

2 = 12 + 12 é soma de dois quadrados,

3 não é soma de dois quadrados,

5 = 22 + 12 é soma de dois quadrados,

7 não é soma de dois quadrados,

11 não é soma de dois quadrados,

13 = 32 + 22 é soma de dois quadrados,

17 = 42 + 12 é soma de dois quadrados.

Agora, observamos que 5, 13, 17 são números primos do tipo 4k +1,


enquanto 3, 7, 11 são números primos do tipo 4k+3; ainda mais, se-
ria fácil verificar que se p é um número primo ı́mpar qualquer menor
do que, digamos 1000, então o primo p é soma de dois quadrados

3
4 INTRODUÇÃO

se ele é do tipo 4k + 1, e não é soma de dois quadrados se ele é do


tipo 4k + 3. É então natural propor a seguinte conjectura:

Conjectura: Um número primo p é soma de dois quadrados se e


somente se p = 2 ou p é do tipo 4k + 1.

Fermat (1606–1665) considerou esta conjectura e demonstrou a


sua validade. A seguir, damos uma idéia do método que usaremos
para uma demonstração.

Primeiro, lembramos que se R é o conjunto dos números reais e


C = R + Ri é o conjunto dos números complexos, a função norma

N : C = R + Ri → R
a + bi 7→ (a + bi)(a − bi)

preserva a multiplicação. De fato, se para todo α = a + bi ∈ C


denotamos seu conjugado a − bi por α, então é imediato verificar
que temos αβ = α β, ∀ α, β ∈ C, e portanto que

N (αβ) = αβ · αβ = αᾱβ β̄ = N (α)N (β).

Se p é um número primo que é soma de dois quadrados, então


p = a2 + b2 = (a + ib)(a − ib) com a, b ∈ Z, isto é, o primo p se
fatora num produto de dois elementos de Z[i] := {x+iy | x, y ∈ Z},
cada um desses fatores tendo norma 6= 1 (pois a norma é igual a
a2 + b2 6= 1). Reciprocamente, se um número primo p se fatora num
produto de dois elementos de Z[i] de normas 6= 1, então

p2 = N (p) = N [(a + ib)(c + id)] = N (a + ib)N (c + id),


INTRODUÇÃO 5

isto é, temos p2 = (a2 + b2 )(c2 + d2 ).

Agora,

p2 = (a2 + b2 )(c2 + d2 )


1 6= a2 + b 2 ∈ N
⇒ a2 + b2 = p,
1 6= c2 + d2 ∈ N  

p primo

isto é, o primo p é soma de dois quadrados.

Assim, para um número primo p, obtivemos que:


p é soma de dois quadrados de inteiros
m
p se fatora num produto de dois elementos de Z[i] de normas 6= 1.

Em outras palavras, o problema de caracterizar os inteiros primos


que são somas de dois quadrados é equivalente a um certo problema
de fatoração no anel Z[i].

É via este caminho de fatoração em Z[i] que vamos querer provar


a validade desta “conjectura”. Para isto, naturalmente, devemos es-
tudar o problema da fatoração em Z[i] e, em particular, o problema
da fatoração única.

É usual provar que o domı́nio Z tem a propriedade de fatoração


única como conseqüência do teorema seguinte:

Teorema. (Algorı́tmo da divisão em Z, de Euclides).


Sejam a, b ∈ Z, b 6= 0. Então existem t, r ∈ Z tais que

a = bt + r com |r| < |b|.

Assim é natural se perguntar se existe no domı́nio Z[i] uma


noção de divisão com resto pequeno similar à divisão euclidiana
6 INTRODUÇÃO

em Z (veremos que SIM), e se esta noção de divisão implica a


propriedade de fatoração única (veremos que SIM).
Aplicaremos também a propriedade de fatoração única do do-
mı́nio Z[i] para determinar o conjunto de todas as soluções inteiras
da equação X 2 + Y 2 = Z 2 .

Um outro problema básico é o de procurar as soluções de um sis-


tema de equações polinomiais. Consideraremos aqui o caso particu-
lar seguinte: dados dois polinômios f (X), g(X) ∈ Z[X], determinar
se o sistema de equações
(
f (X) = 0
g(X) = 0

tem alguma solução. Veremos que este problema está relacionado


com o problema da fatoração única no anel de polinômios Z[X].
Nos perguntaremos então se em Z[X] existe uma noção de divisão
com resto pequeno similar à divisão euclidiana em Z (veremos que
NÃO), e se o domı́nio Z[X] tem a propriedade de fatoração única
(veremos que SIM).
Capı́tulo I

Anéis e Domı́nios

I.1 Definições e Exemplos


Na expressão do algorı́tmo de Euclides para Z, usamos o fato de Z
possuir duas operações: a adição e a multiplicação. Uma tentativa
de generalizar um tal algorı́tmo vai exigir trabalhar num conjunto
D munido de duas operações que satisfazem algumas condições na-
turais, condições estas satisfeitas pelas operações de Z. Isso nos
leva à definição seguinte:

Definição I.1.1. Um anel ou anel comutativo (A, +, ·) é um con-


junto A com pelo menos dois elementos, munido de uma operação
denotada por + (chamada adição) e de uma operação denotada
por · (chamada multiplicação) que satisfazem as condições se-
guintes:

A.1) A adição é associativa, isto é,

∀x, y, z ∈ A, (x + y) + z = x + (y + z).

A.2) Existe um elemento neutro com respeito à adição, isto é,

∃0 ∈ A tal que, ∀x ∈ A, 0 + x = x e x + 0 = x.

7
8 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

A.3) Todo elemento de A possui um inverso com respeito à adição,


isto é,

∀x ∈ A, ∃z ∈ A tal que x+z =0 e z + x = 0.

A.4) A adição é comutativa, isto é,

∀x, y ∈ A, x + y = y + x.

M.1) A multiplicação é associativa, isto é,

∀x, y, z ∈ A, (x · y) · z = x · (y · z).

M.2) Existe um elemento neutro com respeito à multiplicação, isto


é,

∃1 ∈ A tal que, ∀x ∈ A, 1·x=x e x · 1 = x.

M.3) A multiplicação é comutativa, isto é,

∀x, y ∈ A, x · y = y · x.

AM) A adição é distributiva relativamente à multiplicação, isto é,

∀x, y, z ∈ A, x · (y + z) = x · y + x · z.

Se todas as condições são satisfeitas com exceção de M.3), então


(A, +, ·) é chamado de anel não-comutativo.

Nota: Muitas vezes deixaremos de indicar as operações do anel,


escrevendo A para denotar um anel (A, +, ·). Também, quando não
existir ambigüidade, escreveremos ab no lugar de a · b.
[SEC. I.1: DEFINIÇÕES E EXEMPLOS 9

Observação I.1.2. a) A condição A.2) garante a existência de um


elemento neutro para a adição; é imediato verificar que realmente
esse elemento neutro é único. De fato, se 0 e 0′ são dois elementos
neutros para a adição, temos
0 = 0 + 0′ pois 0′ é elemento neutro
= 0′ pois 0 é elemento neutro.
Esse único elemento neutro para a adição será chamado zero e de-
notado por 0.
Similarmente, existe um único elemento neutro para a multi-
plicação. Ele será chamado um e denotado por 1.
b) Dado x ∈ A, a condição A.3) garante a existência de um inverso
para x com respeito à adição; é fácil verificar que esse inverso é
único. De fato, se y e y ′ são dois inversos de x com respeito à
adição, temos:
y =y+0 por A.2)
= y + (x + y ′ ) pois y ′ é inverso de x
= (y + x) + y ′ por A.1)
= 0 + y′ pois y é inverso de x
= y′ por A.2).
Esse único inverso de x com respeito à adição será denotado
por −x.
c) O elemento neutro da adição 0 tem a seguinte propriedade:
0 · x = 0, ∀ x ∈ A.
De fato, basta observar que 0 · x = (0 + 0)x = 0 · x + 0 · x.
Definição I.1.3. Um anel (D, +, · ) é chamado domı́nio ou domı́-
nio de integridade se ele satisfaz a seguinte condição:
M.4) O produto de quaisquer dois elementos não-nulos de D é um
elemento não-nulo, isto é,
∀ x, y ∈ D \ {0}, x · y 6= 0.
10 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

Um anel (K, +, ·) é chamado corpo se ele satisfaz a seguinte condição:


M.4’) Todo elemento diferente de zero de K possui um inverso com
respeito à multiplicação, isto é,
∀x ∈ K \ {0}, ∃y ∈ K tal que x · y = 1.
Observação I.1.4. a) Se x 6= 0 é um elemento de um domı́nio D
e y, z ∈ D, então
x·y =x·z ⇒ y = z (verifique).
b) Dado x ∈ K, x 6= 0, a condição M.4’) garante a existência de
um inverso com respeito à multiplicação; é fácil verificar que esse
inverso é único. De fato, se y e y ′ são dois inversos de x com respeito
à multiplicação, temos: y = y ·1 = y ·(x·y ′ ) = (y ·x)·y ′ = 1·y ′ = y ′ .
Denotaremos por x−1 este inverso multiplicativo.
c) O axioma M.4’) é mais forte que o axioma M.4) (Verifique).
Logo, em particular, um corpo é um domı́nio.
d) Todo domı́nio D com um número finito de elementos é um corpo.
De fato, para x ∈ D, x 6= 0, considere o conjunto {xn | n ∈ N}.
Pela finitude de D existem dois inteiros n1 < n2 tais que xn1 = xn2 ;
portanto x · xn2 −n1 −1 = 1 e o elemento x possui um inverso.
Exemplo I.1.5. Nos seis primeiros exemplos que seguem, + denota
a adição usual em C e · denota a multiplicação usual em C.
a) (Z, +, ·) é um domı́nio.
b) (Q, +, ·), (R, +, ·), (C, +, ·) são corpos.
c) Seja Z[i] = {a + bi | a, b ∈ Z}. Então (Z[i], +, ·) é um domı́nio
chamado anel dos inteiros de Gauss.
√ √
d) ({a + b 3 | a, b ∈ Z}, +, ·) e ({a + bi 3 | a, b ∈ Z}, +, ·) são
domı́nios.
e) Mais geralmente,
√ se n é um inteiro positivo,
√ temos então que
({a + b n | a, b ∈ Z}, +, ·) e ({a + bi n | a, b ∈ Z}, +, ·) são
domı́nios.
[SEC. I.1: DEFINIÇÕES E EXEMPLOS 11

f) {a + bi | a, b ∈ Q} é um corpo; na procura de um inverso


multiplicativo para a + bi, lembre-se que (a + bi)(a − bi) =
a2 + b2 ∈ Q. Esse corpo será denotado por Q(i).
g) Dados dois anéis (A1 , +, · ) e (A2 , +, · ), podemos construir
1 1 2 2
um novo anel da maneira seguinte: definimos no conjunto
A1 × A2 := {(a1 , a2 ); a1 ∈ A1 , a2 ∈ A2 } as operações:
(a1 , a2 ) + (a′1 , a′2 ) := (a1 + a′1 , a2 + a′2 )
1 2

(a1 , a2 ) · (a′1 , a′2 ) := (a1 · a′1 , a2 · a′2 ).


1 2

É rotina verificar que (A1 × A2 , +, ·) é um anel, chamado


produto direto de A1 com A2 , onde o elemento neutro com
respeito à adição é (0A1 , 0A2 ) e o elemento neutro com respeito
à multiplicação é (1A1 , 1A2 ).
h) Mais geralmente, dados r anéis (A1 , +, · ), . . . , (Ar , +, ·), de-
1 1 r r
fina a noção de produto direto A1 × · · · × Ar .
i) Se f : R → R e g : R → R são duas funções de R em R,
definimos:
f ⊕ g: R → R
x 7→ f (x) + g(x)
f ⊙ g: R → R
x 7→ f (x) · g(x).

Então ({funções de R em R}, ⊕, ⊙) é um anel comutativo com


unidade, mas não é um domı́nio.
j) Seja Mn×n (R) o conjunto das matrizes n×n com entradas em
R; sejam + a adição usual de matrizes e · a multiplicação
usual de matrizes. Então, (Mn×n (R), +, ·) é um anel não-
comutativo se n ≥ 2.

Exercı́cio I.1.6. Mostre que se no Exemplo e) acima substituimos


o anel dos inteiros Z pelo corpo dos números racionais Q (i.e., se
tomamos a, b ∈ Q), então obtemos corpos.
12 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

Exemplo I.1.7. (Anel dos inteiros módulo n).


Seja n um inteiro positivo. Sobre Z, definimos a relação ≡ da
n
maneira seguinte: para a, b ∈ Z,

a≡b ⇔ a − b é um múltiplo de n.
n

Em vez de escrever a ≡ b, escreve-se também a ≡ b(mod n) e


n
diz-se que a é côngruo a b módulo n.
É imediato verificar que ≡ é uma relação de equivalência, isto é,
n



 a≡a
 n
a≡b⇒b≡a

 n n
a ≡ b, b ≡ c ⇒ a ≡ c.
n n n

Se a ∈ Z, então, por definição, sua classe de equivalência módulo o


inteiro n consiste no conjunto {b ∈ Z; b ≡ a}, i.e., no subconjunto
n
{a + kn; k ∈ Z}; ela será denotada por ā ou a + nZ. Denotaremos
por Z/nZ o conjunto das classes de equivalência módulo n; é claro
que Z/nZ = {0̄, 1̄, . . . , n − 1}.
Sobre Z/nZ, definimos duas operações:

⊕ : Z/nZ × Z/nZ −→ Z/nZ


n
(x̄, ȳ) 7−→ x + y

⊙ : Z/nZ × Z/nZ −→ Z/nZ


n
(x̄, ȳ) 7−→ xy.
Note que x̄ representa uma classe de equivalência, classe esta
que admite outras representações x̄′ (com x − x′ = kn para algum
k ∈ Z). Similarmente, a classe de equivalência ȳ tem várias repre-
sentações. É necessário verificar que nossas definições das operações
⊕ e ⊙ são boas no sentido do resultado não depender da escolha
n n
das representações das classes de equivalências; de maneira precisa,
[SEC. I.1: DEFINIÇÕES E EXEMPLOS 13

é necessário verificar que


)
x ≡ x′
n
⇒ x + y = x′ + y ′ e xy = x′ y ′ ,
y ≡ y′
n

isto é, deve-se verificar que


)
x ≡ x′
n
⇒ x + y ≡ x′ + y ′ e xy ≡ x′ y ′ .
y ≡ y′ n n
n

Deixamos essa verificação ao leitor.


Veremos agora que (Z/nZ, ⊕, ⊙) é um anel onde:
n n


 o elemento neutro para ⊕ é a classe 0̄

 n
o elemento neutro para ⊙ é a classe 1̄

 n

 o inverso de x̄ com respeito à operação ⊕ é a classe −x.
n

Verificamos que o axioma A.1) é satisfeito, isto é,

∀x̄, ȳ, z̄ ∈ Z/nZ, (x̄ ⊕ ȳ) ⊕ z̄ = x̄ ⊕ (ȳ ⊕ z̄).


n n n n

Com efeito, temos:

(x̄ ⊕ ȳ) ⊕ z̄ = (x + y) ⊕ z̄ por definição de ⊕


n n n n

= (x + y) + z por definição de ⊕
n

= x + (y + z) pois + é associativa em Z
= x̄ ⊕ (y + z) por definição de ⊕
n n
= x̄ ⊕ (ȳ ⊕ z̄) por definição de ⊕.
n n n

Deixamos como exercı́cio a verificação dos outros axiomas.


O anel (Z/nZ, ⊕, ⊙) se chama o anel dos inteiros módulo n.
n n
14 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

Definição I.1.8. Seja (A, +, ·) um anel e seja I um subconjunto


não-vazio de A. Dizemos que I é um ideal de A se
• x + y ∈ I, ∀ x, y ∈ I
• ax ∈ I, ∀ x ∈ I, ∀ a ∈ A.

Exemplo I.1.9. a) Seja n ≥ 0 um inteiro. Claramente, o subcon-


junto nZ := {zn | z ∈ Z} é um ideal do anel dos inteiros.
b) Mais geralmente, seja (A, +, ·) um anel e sejam α1 , . . . , αt
elementos do anel A. Então, claramente, o subconjunto
Aα1 + · · · + Aαt := {a1 α1 + · · · + at αt | a1 , . . . , at ∈ A} é um
ideal de (A, +, ·) que será denotado por (α1 , . . . , αt ).

O conceito de ideal permite fazer uma construção totalmente


análoga à construção do anel (Z/nZ, ⊕, ⊙) dos inteiros módulo n:
n n

Exemplo I.1.10. (Anel quociente módulo um ideal ).


Sejam (A, +, ·) um anel e I um ideal de A. Sobre A, definimos
a relação de congruência (mod I): para a, b ∈ A,

a ≡ b(mod I) ⇔ a − b ∈ I.

É imediato verificar que esta relação é uma relação de equivalência.


Se a ∈ A, então por definição, sua classe de equivalência módulo I
consiste no subconjunto {b ∈ A ; b ≡ a(mod I)}, isto é, no subcon-
junto {a+c ; c ∈ I}; ela será denotada por ā ou a+I. Denotaremos
por A/I o conjunto das classes de equivalência módulo I. Sobre este
conjunto A/I, definimos duas operações ⊕ e ⊙ da maneira seguinte:
I I
para x̄, ȳ ∈ A/I,

x̄ ⊕ ȳ := x + y e x̄ ⊙ ȳ := x · y.
I I

Deixamos ao leitor a tarefa de verificar que as operações ⊕ e ⊙


I I
estão bem definidas e que (A/I, ⊕, ⊙) é um anel, chamado de anel
I I
quociente de A módulo I.
[SEC. I.2: ANÉIS DE POLINÔMIOS 15

I.2 Anéis de Polinômios


Seja (A, +, ·) um anel. Um polinômio numa variável sobre A é uma
seqüência (a0 , a1 , . . . , an , . . . ), onde ai ∈ A para todo ı́ndice e onde
ai 6= 0 somente para um número finito de ı́ndices.
Seja A = {polinômios numa variável sobre A}. No conjunto A,
definimos as operações seguintes:
⊕: A×A → A
(a0 , a1 , . . . ), (b0 , b1 , . . . ) 7→ (a0 + b0 , a1 + b1 , . . . )

⊙: A×A → A
(a0 , a1 , . . . ), (b0 , b1 , . . . ) 7→ (c0 , c1 , . . . )
onde


c 0 = a0 b 0



c = a0 b 1 + a1 b 0

 1
..
.



cn = a0 bn + a1 bn−1 + a2 bn−2 + · · · + an−1 b1 + an b0



 ..
.
Deixamos ao leitor a verificação de que (A, ⊕, ⊙) é um
anel onde:
• o elemento neutro de ⊕ é o elemento (0, 0, 0, . . . )
• o elemento neutro de ⊙ é o elemento (1, 0, 0, . . . )
• o inverso de (a0 , a1 , . . . , an , . . . ) com respeito à operação ⊕ é
o elemento (−a0 , −a1 , . . . , −an , . . . ).
Observe que a multiplicação de A é comutativa pois a multi-
plicação de A é comutativa.
Se (a0 , a1 , . . . ) é um elemento de A, então o sı́mbolo (a0 , a1 , . . . )n
designará o elemento
(a0 , a1 , . . . ) ⊙ (a0 , a1 , . . . ) ⊙ · · · ⊙ (a0 , a1 , . . . ) .
| {z }
n vezes
16 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

Usando as definições de ⊕ e ⊙, é fácil ver que

(0, . . . , 0, an , 0, 0, 0, . . . ) = (an , 0, 0, . . . ) ⊙ (0, . . . , 0, 1, 0, 0, . . . )


z }| { z }| {
lugar n + 1 lugar n + 1
e que
(0, . . . , 0, 1, 0, 0, . . . ) = (0, 1, 0, 0, . . . )n .
z }| {
lugar n + 1
Portanto

(a0 , a1 , . . . , an , 0, 0, . . . ) = (a0 , 0, 0, . . . )
⊕ [(a1 , 0, 0, . . . ) ⊙ (0, 1, 0, 0, . . . )]
⊕ [(a2 , 0, 0, . . . ) ⊙ (0, 1, 0, 0, . . . )2 ]
⊕ ...
⊕ [(an , 0, 0, . . . ) ⊙ (0, 1, 0, 0, . . . )n ].

Por razões de ordem prática, vamos utilizar o sı́mbolo X para


designar o elemento (0, 1, 0, . . . ). Também, no lugar de escrever
(ai , 0, 0, . . . ), vamos escrever ai ; assim, o sı́mbolo ai vai ser usado
para designar duas coisas distintas: o elemento ai de A e o elemento
(ai , 0, 0, . . . ) de A; no entanto, isto não vai criar confusão. Final-
mente, no lugar de escrever ⊕ e ⊙, vamos escrever + e ·; assim, o
sı́mbolo + (respectivamente o sı́mbolo ·) será usado para designar
duas coisas distintas: a adição de A e a adição de A (respectiva-
mente a multiplicação de A e a multiplicação de A); no entanto, isto
também não vai criar confusão. Com essas convenções, o elemento
(a0 , a1 , . . . , an , 0, . . . ) é igual à soma a0 + a1 X + · · · + an X n , onde
ai X i designa ai · X i . Vai ser conveniente representar o elemento
(a0 , a1 , . . . , an , 0, . . . ) pela expressão a0 + a1 X + · · · + an X n ; então
( n )
X
i
A= ai X | n ∈ N e ai ∈ A
i=0

e as operações deste anel são simplesmente as operações com as


quais todo mundo está acostumado. Vamos denotar o anel (A, +, ·)
por A[X], e chamá-lo de anel de polinômios numa variável sobre A.
[SEC. I.2: ANÉIS DE POLINÔMIOS 17

Definição I.2.1. Seja A um anel e seja f (X) := a0 + a1 X + · · · +


an X n ∈ A[X] com an 6= 0. O inteiro n se chama o grau de f (X).
O coeficiente an se chama o coeficiente lı́der de f (X). Quando o
coeficiente lı́der for igual a 1, o polinômio é dito mônico.

Observe que não definimos a noção de grau para o polinômio


nulo.

Exercı́cio I.2.2. 1) Sejam A um anel e f (X), g(X) ∈ A[X] \ {0}.

a) Mostre que se A é um domı́nio, então

grau(f (X) · g(X)) = grau f (X) + grau g(X).

b) Mostre que A[X] é um domı́nio se e somente se A é um


domı́nio.

2) Dê um exemplo de um anel e de polinômios f (X) e g(X) que


não satisfazem a igualdade acima.

Por indução, podemos definir o anel de polinômios em k variá-


veis sobre o anel A do modo seguinte:

A[X1 , . . . , Xk ] = (A[X1 , . . . , Xk−1 ])[Xk ].

Olhamos mais de perto o caso k = 2. Por definição, A[X1 , X2 ] =


(A[X1 ])[X2 ]; logo um elemento qualquer do anel A[X1 , X2 ] é do tipo

((a00 , a01 , . . . , 0, . . . ), . . . , (an0 , an1 , . . . , 0, . . . , ), (0, 0, . . . ), . . . )

com aij ∈ A, ∀ i, j.
Note que o elemento ((0, 1, 0, . . . ), (0, 0, . . . ), . . . ) é representado por
X1 e o elemento ((0, 0, . . . ), (1, 0, . . . ), (0, 0, . . . ), . . . ) é representado
por X2 . Não é mais um luxo utilizar esses sı́mbolos X1 e X2 . Com
eles, o elemento qualquer acima se escreve como

a0 (X1 ) + a1 (X1 ) · X2 + · · · + an (X1 ) · X2n ,


18 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

onde 

 a0 (X1 ) = a00 + a01 X1 + a02 X12 + . . .


a1 (X1 ) = a10 + a11 X1 + a12 X 2 + . . .
1
 ..

 .

a (X ) = a + a X + a X 2 + . . . .
n 1 n0 n1 1 n2 1

Utilizando a comutatividade e a distributividade no anel


A[X1 , X2 ], podemos escrever um mesmo elemento de diversas ma-
neiras. Por exemplo:

(1 + X12 ) + (3 + 2X1 + 2X13 )X2 + (X1 − 2X12 )X22


= (1 + 3X2 ) + (2X2 + X22 )X1 + (1 − 2X22 )X12 + (2X2 )X13
= (1) + (3X2 ) + (X12 + 2X1 X2 ) + (X1 X22 ) + (2X13 X2 − 2X12 X22 ).

Observe que na primeira linha os termos estão arranjados de


modo a ter potências de X2 com coeficientes em A[X1 ]; na segunda
linha, eles estão arranjados de modo a ter potências de X1 com coe-
ficientes em A[X2 ]; na terceira linha, os termos de mesmo grau estão
agrupados (o grau de um termo X1i X2j é definido como sendo i + j).
Dependendo do problema considerado, pode ser mais conveniente
usar uma ou outra das representações.
Pn i
Observação I.2.3. Dado f (X) = i=0 ai X ∈ A[X], podemos
considerar
Pna função polinomial associada f˜: A → A, definida por
˜ i
f (α) = i=0 ai α . É bom observar que um polinômio diferente de
zero pode ter a função identicamente nula como função polinomial
associada; esse é o caso com f (X) := 1̄ · X + 1̄ · X 2 ∈ (Z/2Z)[X]
pois

f˜(0̄) = 1̄ · 0̄ + 1̄ · 0̄2 = 0̄
f˜(1̄) = 1̄ · 1̄ + 1̄ · 1̄2 = 1̄ + 1̄ = 0̄.

No entanto, veremos mais tarde que isto não pode ocorrer se A é


um domı́nio com um número infinito de elementos.
[SEC. I.3: DOMÍNIOS EUCLIDIANOS 19

I.3 Domı́nios Euclidianos


Essencialmente o algorı́tmo de Euclides diz que em Z podemos fazer
a divisão de um elemento a por um elemento b obtendo um “resto
pequeno”, ou mais precisamente, um resto cujo valor absoluto é
menor do que o valor absoluto de b. É essa idéia que queremos
generalizar. Para isso, precisamos então de um conjunto com duas
operações (adição e multiplicação) e uma maneira de “medir” se
um elemento do conjunto é menor do que um outro. Um domı́nio
euclidiano será um domı́nio no qual existe um algorı́tmo similar ao
algorı́tmo de Euclides.
Definição I.3.1. Um domı́nio euclidiano (D, +, ·, ϕ) é um domı́nio
de integridade (D, +, ·) com uma função

ϕ : D \ {0} → N = {0, 1, 2, . . . }

que satisfaz as propriedades seguintes:

1) ∀ a, b ∈ D, b 6= 0, existem t, r ∈ D tais que


(
ϕ(r) < ϕ(b)
a = bt + r com
ou r = 0.

2) ϕ(a) ≤ ϕ(ab), ∀ a, b ∈ D \ {0}.

Observação I.3.2. a) Dados dois elementos α 6= 0, β 6= 0 de um


domı́nio euclidiano (D, +, ·, ϕ), nós os comparamos, via a função
ϕ, em N com a ordem usual. É claro que poderı́amos fazer isso
com uma função ϕ : D \ {0} → S onde S seria um conjunto total-
mente ordenado qualquer no lugar de N; assim, terı́amos uma noção
de divisão com resto nesses domı́nios também. Além disso, se su-
pusermos a condição mais forte que S seja bem ordenado, isto é, que
todo subconjunto não vazio de S tem um menor elemento (N com a
ordem usual é bem ordenado), então todas as propriedades que va-
mos provar para os domı́nios euclidianos seriam também satisfeitas.
20 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

Por isso, vários autores dão uma definição de anel euclidiano usan-
do uma função ϕ : D \ {0} → S com S conjunto bem ordenado
qualquer no lugar de N com a ordem usual [vide P. Samuel, About
Euclidean Rings, Journal of Algebra 19 (1971), 282–301]. No en-
tanto, não se sabe se, com essa definição mais geral, tem-se uma
classe maior de domı́nios.
b) Na definição de domı́nios euclidianos exigimos que a função ϕ
satisfizesse a condição pouco natural ϕ(a) ≤ ϕ(ab), ∀ a, b ∈ D \ {0}.
Essa exigência é puramente técnica; ela vai permitir simplificar as
provas dos teoremas. É bom notar que essa exigência não restringe
nossa definição de domı́nio euclidiano; de fato, é possı́vel mostrar
que se existe uma função ϕ que satisfaz a condição 1), então existe
também uma função ϕ1 que satisfaz as duas condições 1) e 2) [vide
P. Samuel, artigo acima citado, p. 284].
c) Nesse mesmo artigo, P. Samuel generaliza o conceito “euclidiano”
para anéis que não são necessariamente domı́nios.

Agora vamos provar alguns teoremas que fornecem exemplos im-


portantes de domı́nios euclidianos. Em cada caso, consideraremos
o problema do cálculo efetivo e da unicidade do quociente e do resto
da divisão de um elemento por outro.

Teorema I.3.3. (Algorı́tmo de Euclides para Z).


Seja | | : Z → N a função valor absoluto. Então:

(i) (Z, +, ·, | |) é um domı́nio euclidiano, isto é,

• (Z, +, ·) é um domı́nio,
• ∀ a, b ∈ Z, b 6= 0, existem t, r ∈ Z tais que
(
|r| < |b|
a = bt + r com ,
ou r = 0

• ∀ a, b ∈ Z \ {0}, |a| ≤ |ab|.


[SEC. I.3: DOMÍNIOS EUCLIDIANOS 21

(ii) Tais elementos t e r podem ser efetivamente calculados.


(iii.1) Em geral, tais inteiros t e r não são únicos.
(iii.2) É sempre possı́vel escolher r ≥ 0, e isso de maneira única.
Demonstração. (i) e (ii): Que (Z, +, ·) é um domı́nio, já foi visto.
Se b ∈ Z \ {0}, temos |b| ≥ 1, e conseqüentemente
|a| ≤ |a||b| = |ab|, ∀ a ∈ Z.
Agora, sejam a, b ∈ Z, b 6= 0. Procuramos elementos t e r ∈ Z
tais que a = bt + r com r “pequeno” e positivo (afim de obter
(iii.2)), isto é, procuramos t ∈ Z tal que a − bt seja “pequeno” e
positivo.
Vejamos a idéia da prova no caso b > 0 e a ≥ 0. Neste caso,
temos b ≥ 1 e existe um único inteiro t tal que
tb ≤ a e (t + 1)b > a.

(t+1)b
tb
X X X X
0 1 b a

X X
Não-nulo

Observe que este inteiro t é necessariamente tal que 0 ≤ t ≤


a, de modo que calculando 0b, 1b, 2b, . . . , ab, vamos efetivamente
encontrá-lo. Tome r = a − tb (que pode ser efetivamente calculado
pois a e b são dados e t foi calculado); temos a = bt + r com r ≥ 0;
além disto, de (t + 1)b > a, obtemos |r| = r = a − tb < b = |b|.
Os outros casos podem ser tratados de maneira similar (veri-
fique!). É possı́vel formalizar uma prova que cobre todos os casos
de uma vez; tente se quiser.
Tratamos agora o problema da unicidade. Se existem elementos
t1 , r1 , t2 , r2 ∈ Z tais que
(
0 ≤ r1 < |b|
a = bt1 + r1 = bt2 + r2 com
0 ≤ r2 < |b|,
22 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

então temos |b||t1 −t2 | = |b(t1 −t2 )| = |r2 −r1 | < |b|, logo |t1 −t2 | = 0
e portanto, t1 = t2 e r1 = r2 . Falta agora verificar (iii.1). Podemos
escrever

3=2·1+1 (t = 1, r = 1)
3 = 2 · 2 + (−1) (t = 2, r = −1),

isto é, temos duas possibilidades para a divisão de 3 por 2.

Vamos aplicar o Teorema I.3.3 no estudo dos ideais de (Z, +, ·).

Determinação de todos os ideais de (Z, +, ·).


É imediato verificar que os subconjuntos de Z da forma nZ
com n ≥ 0 são ideais de (Z, +, ·). Veremos agora que todo ideal
de Z é dessa forma. Seja I um ideal qualquer de (Z, +, ·). Se
I = {0}, então I = 0Z. Podemos então supor que I 6= {0}. Seja
n := min{x ∈ I; x > 0}. Claramente, I ⊇ nZ. Reciprocamente,
seja h ∈ I; pelo algorı́tmo de Euclides, temos h = qn + r com
0 ≤ r < n; como h e n pertencem ao ideal I, o inteiro r pertence a
I também; pela minimalidade de n temos

r∈I
⇒ r = 0,
0≤r<n

e portanto h = qn, ou seja h ∈ nZ. Logo I = nZ.

Exercı́cio I.3.4. Sejam a, b ∈ Z e d o Maior Divisor Comum deles.


Já que Za + Zb é um ideal de (Z, +, ·), então, pelo visto acima,
existe n ≥ 0 tal que Za + Zb = Zn. Mostre que d = n e portanto
que existem e, f ∈ Z tais que ea + f b = d.

Observação I.3.5. Seja p um número primo. Já sabemos que


(Z/pZ, ⊕, ⊙) é um anel. Mostraremos agora que, p sendo primo,
p p
(Z/pZ, ⊕, ⊙) é um corpo, isto é, mostraremos que:
p p

∀ ā ∈ (Z/pZ) \ {0}, ∃b̄ ∈ Z/pZ tal que ā ⊙ b̄ = 1̄ = b̄ ⊙ ā.


p p
[SEC. I.3: DOMÍNIOS EUCLIDIANOS 23

Tome α ∈ ā. Como ā 6= 0̄, o inteiro α não é um múltipo de p; então,


já que p é primo, α e p são primos entre si, e conseqüentemente pelo
exercı́cio anterior

∃b, c ∈ Z tais que bα + cp = 1.

Considerando as classes de equivalência módulo p, obtemos:

∃b, c ∈ Z tais que bα + cp = 1̄;

logo,
b̄ ⊙ ā = (b̄ ⊙ ᾱ) ⊕ 0̄ = bα ⊕ cp = bα + cp = 1̄.
p p p p

Como a multiplicação é comutativa, temos também ā ⊙ b̄ = 1̄.


p

Observação I.3.6. A função N : Z → N, N (a) = a2 , é tal que


N (a) ≤ N (ab), ∀a, b ∈ Z \ {0}; além disso, N (r) = r2 < b2 = N (b)
se e só se |r| < |b|. Assim, no Teorema I.3.3, poderı́amos ter usado
essa função N no lugar da função | |, e temos que (Z, +, ·, N ) é um
domı́nio euclidiano.
Essa função N é a restrição a Z da função norma
N : C = R + Ri → R
a + bi 7→ (a + bi)(a − bi).

A função norma que, como vimos na Introdução preserva a mul-


tiplicação, será usada de novo no teorema seguinte.
Teorema I.3.7. Seja Z[i] = Z + Zi o anel dos inteiros de Gauss.
Seja N : Z[i] → N, N (a + bi) = a2 + b2 , a função norma. Então:

(i) (Z[i], +, ·, N ) é um domı́nio euclidiano, isto é,

• (Z[i], +, ·) é um domı́nio,
• ∀ α, β ∈ Z[i], β 6= 0, existem t, r ∈ Z[i] tais que
(
N (r) < N (β)
α = βt + r com ,
ou r = 0
24 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

• ∀ α, β ∈ Z[i] \ {0}, N (α) ≤ N (αβ).

(ii) Tais elementos t e r podem ser efetivamente calculados.

(iii) Em geral, tais elementos t e r não são únicos.

Demonstração. (i) e (ii). Já foi visto que (Z[i], +, ·) é um domı́-


nio.
Se β = c + di ∈ Z[i], β 6= 0, temos N (β) = c2 + d2 6= 0, logo
N (β) ≥ 1 (já que N (β) é um inteiro positivo), e conseqüentemente
N (α) ≤ N (α) · N (β) = N (αβ).
Agora vejamos a divisão:
Sejam α, β ∈ Z[i] ⊆ C, β 6= 0. Digamos que α = a + bi e
β = c + di com a, b, c, d ∈ Z. Procuramos dois elementos t, r ∈ Z[i]
tais que α = βt + r com N (r) < N (β), isto é, procuramos um
elemento t ∈ Z[i] tal que

N (α − βt) < N (β)


||
  
α
N β· −t
β
||
 
α
N (β) · N −t ,
β
 
isto é, procuramos t ∈ Z[i] tal que N β − t < 1. Como αβ ∈ C =
α

R + Ri, existem x, y ∈ R tais que αβ = x + iy. Afirmamos que x e


y podem ser efetivamente calculados, e pertencem a Q. De fato,
1 1 c − di c d
= = 2 2
= 2 2
− 2 i,
β c + di c +d c +d c + d2
logo,
 
1 c d ac + bd bc − ad
α · =(a + bi) 2 2
− 2 2
i = 2 + i ∈ Q + Qi.
β c +d c +d c + d2 c2 + d2
[SEC. I.3: DOMÍNIOS EUCLIDIANOS 25

Agora, escolhemos
(
e ∈ Z tal que |x − e| ≤ 21
f ∈ Z tal que |y − f | ≤ 12 .

É claro que, x e y sendo efetivamente calculáveis, tais elementos


e e f podem ser efetivamente computados. Tomando t = e + if ,
temos
 
α
N − t = N ((x + iy) − (e + if ))
β
= N ((x − e) + i(y − f ))
 2  2
2 2 1 1 1
= (x − e) + (y − f ) ≤ + = < 1.
2 2 2

Logo o elemento t = e + if satisfaz a propriedade desejada. Além


disso, o elemento t é efetivamente calculado. Naturalmente, o ele-
mento r = α − βt é efetivamente calculado também.
(iii) Tais t e r não são únicos em geral pois, de novo temos

3=2·1+1 (t = 1, r = 1)
3 = 2 · 2 + (−1) (t = 2, r = −1),

isto é, temos duas possibilidades para a divisão de 3 por 2.

Finalmente, damos um exemplo de domı́nio euclidiano com anéis


de polinômios.

Teorema I.3.8. Seja (K, +, ·) um corpo e seja K[X] o anel de


polinômios numa variável sobre K. Seja grau: K[X] \ {0} → N a
função grau. Então:

(i) (K[X], grau) é um domı́nio euclidiano, isto é:

• K[X] é um domı́nio,
26 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

• ∀f (X), g(X) ∈ K[X], g(X) 6= 0, existem polinômios


t(X), r(X) ∈ K[X] tais que
(
grau r(X) < grau g(X)
f (X) = g(X) · t(X) + r(X) com
ou r(X) = 0

• ∀f (X), g(X) ∈ K[X] \ {0}, grau f (X) ≤ grau(f (X)g(X)).

(ii) Tais polinômios t(X) e r(X) podem ser efetivamente calcula-


dos.

(iii) Tais polinômios t(X) e r(X) são unicamente determinados.

Agora, observando que todo elemento não-nulo de um corpo


é invertı́vel, isto é, possui inverso com respeito à multiplicação,
obtemos o Teorema I.3.8 como conseqüência da seguinte proposição
um pouco mais geral.

Proposição I.3.9. Sejam (R, +, ·) um anel e R[X] o anel de poli-


nômios numa variável sobre R. Seja f (X) ∈ R[X] um polinômio e
seja g(X) ∈ R[X] um polinômio cujo coeficiente lı́der é invertı́vel
em R. Então,

(i) Existem t(X), r(X) ∈ R[X] tais que


(
grau r(X) < grau g(X)
f (X) = g(X) · t(X) + r(X) com
ou r(X) = 0.

(ii) Tais polinômios t(X) e r(X) podem ser efetivamente calcula-


dos.

(iii) Tais polinômios t(X) e r(X) são unicamente determinados.

A demonstração da Proposição I.3.9 generaliza o processo usual


da divisão de polinômios que exibimos no seguinte exemplo concreto
[SEC. I.3: DOMÍNIOS EUCLIDIANOS 27

em Z[X]:

4 3 2
f (X) = 2X + 3X + 0X + 2X + 1 −X 2 − 5 = g(X)

−(2X 4 + 0X 3 + 10X 2 ) − 2X 2 − 3X + 10 = t(X)


f1 (X) = 3X 3 − 10X 2 + 2X + 1
−(3X 3 + 0X 2 + 15X )
f2 (X) = −10X 2 − 13X + 1
−(−10X 2 + 0X − 50)
r(X) = −13X + 51

Assim, obtemos que

2X 4 + 3X 3 + 2X + 1 = (−X 2 − 5)(−2X 2 − 3X + 10) + (−13X + 51),

onde
grau(−13X + 51) = 1 < 2 = grau(−X 2 − 5).

Demonstração da Proposição I.3.9: (i) e (ii). Se f (X) = 0


ou se grau f (X) < grau g(X), acabou: tome t(X) = 0 e r(X) =
f (X). Se grau f (X) ≥ grau g(X) = m, escreva f (X) = an X n +
· · · + a0 com n ≥ m e an 6= 0, e escreva g(X) = bm X m + · · · + b0 .
Pela hipótese, o coeficiente lı́der bm de g(X) é invertı́vel em R, logo
1
bm
∈ R e portanto b1m an X n−m ∈ R[X]; observe que b1m an X n−m é
exatamente o polinômio pelo qual se precisa multiplicar o primeiro
termo de g(X) para se obter o primeiro termo de f (X). Temos
então
1
f (X) − an X n−m g(X)
bm
   
an bm−1 n−1 an b 0
= an−1 − X + · · · + an−m − X n−m + . . .
bm bm
| {z }
chame isso de f1 (X)∈R[X]

e f (X) = g(X) b1m an X n−m + f1 (X). Observe que 1


a
bm n
e f1 (X)
foram efetivamente calculados.
28 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

Se f1 (X) = 0 ou se grau f1 (X) < grau g(X) = m, acabou:


tome t(X) = b1m an X n−m e r(X) = f1 (X). Se p = grau f1 (X) ≥ m,
repita o processo com f1 (X) e g(X) no lugar de f (X) e g(X), isto
é, escreva f1 (X) = cp X p + · · · + c0 com n − 1 ≥ p ≥ m e cp 6= 0, e
tome f2 (X) = f1 (X) − b1m cp X p−m g(X); temos então
 
1 n−m 1 p−m
f (X) = g(X) an X + cp X + f2 (X),
bm bm

com b1m an , b1m cp , f2 (X) efetivamente calculáveis.


Se f2 (X) = 0 ou se grau f2 (X) < m, acabou: tome t(X) =
1
a X n−m + b1m cp X p−m e r(X) = f2 (X). Se grau f2 (X) ≥ m, repita
bm n
o processo. Como grau f (X) > grau f1 (X) > grau f2 (X) > . . . ,
obtemos depois de um número finito de passos um polinômio fi (X)
nulo ou de grau menor que m. Tome r(X) = fi (X).
(iii) Se existem polinômios t1 (X), r1 (X), t2 (X), r2 (X) ∈ R[X] tais
que
(
grau r1 < grau g (ou r1 = 0)
f = gt1 + r1 = gt2 + r2 com
grau r2 < grau g (ou r2 = 0),

então g(X) · [t1 (X) − t2 (X)] = r2 (X) − r1 (X). Suponha que o


polinômio t1 (X) − t2 (X) seja não-nulo; temos então

grau(r2 (X) − r1 (X)) = grau(g(X) · [t1 (X) − t2 (X)])


= grau g(X) + grau(t1 (X) − t2 (X)),

onde a última igualdade acima decorre da hipótese que o coefi-


ciente do termo de maior grau de g(X) é invertı́vel em R; assim,
grau(r2 (X) − r1 (X)) ≥ grau g(X), o que é absurdo pois temos
grau(r2 (X) − r1 (X)) ≤ max{grau r1 (X), grau r2 (X)} < grau g(X).

Exercı́cio I.3.10. Seja (T, +, ·) um anel. Seja R ⊆ T um sub-


conjunto tal que (R, +, ·) é um anel. Seja f (X) ∈ R[X] e seja
[SEC. I.3: DOMÍNIOS EUCLIDIANOS 29

g(X) ∈ R[X] um polinômio cujo coeficiente lı́der é invertı́vel em R.


Sejam t(X) e r(X) ∈ T [X] tais que

(
grau r(X) < grau g(X)
f (X) = g(X) · t(X) + r(X) com
ou r(X) = 0.

Mostre que t(X) e r(X) ∈ R[X].

Observação I.3.11. a) Se K é um corpo, vimos que (K[X], grau) é


um domı́nio euclidiano; na prova dada, se usou de maneira essencial
que b é invertı́vel, ∀b ∈ K \ {0}. O domı́nio Z não é um corpo; é
natural perguntar se, usando uma prova diferente, seria possı́vel
mostrar que Z[X] é um domı́nio euclidiano com a função grau ou
com alguma outra função. Veremos um pouco mais tarde que a
resposta é NÃO; de fato, dado um domı́nio D, veremos que D[X]
é euclidiano para alguma função ϕ (se e) só se D é um corpo.

b) Se K é um corpo, vimos que (K[X], grau) é um domı́nio euclidi-


ano no qual a divisão é única; é fácil mostrar que (K, função identi-
camente nula) é um domı́nio euclidiano com a mesma propriedade.
É possı́vel mostrar que esses são os únicos domı́nios euclidianos
onde a divisão é única; uma prova pode ser encontrada em M.A.
Jodeit, Uniqueness in the division algorithm, American Math. Soc.
Monthly 74 (1967), p. 835–836 ou em Picavet, Caracterization de
certains types d’anneaux euclidiens, Enseignement Mathématique
18 (1972), p. 245–254.

c) Não é difı́cil mostrar que (Z, | |) é um domı́nio euclidiano tal que,


∀a, b ∈ Z, b 6= 0, a não-múltiplo de b, existem exatamente dois pares
(t, r) distintos tais que a = bt + r (verifique!). É possı́vel mostrar
que (Z, | |) é o único domı́nio euclidiano com essa propriedade; uma
prova pode ser encontrada em S. Galovich, A characterization of the
integers among Euclidean domains, American Math. Soc. Monthly
85 (1978), 572–575.
30 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

I.4 Homomorfismos de Anéis


Definição I.4.1. Sejam (A, +, ·) e (B, ⊕, ⊙) dois anéis. Uma apli-
cação f : A → B é um homomorfismo se ela é compatı́vel com as
estruturas de anéis, isto é, se
(i) f (x + y) = f (x) ⊕ f (y), ∀ x, y ∈ A.
(ii) f (x · y) = f (x) ⊙ f (y), ∀ x, y ∈ A.
(iii) f (1A ) = 1B .
Exemplo I.4.2. a) Id : (A, +, ·) → (A, +, ·), dado por Id(a) = a,
∀ a ∈ A, é um homomorfismo chamado identidade.
b) E : (A, +, ·) → (B, ⊕, ⊙), definido por E(a) = 0B , ∀ a ∈ A, é
uma aplicação satisfazendo (i) e (ii) mas não (iii).
c) Se I é um ideal do anel (A, +, ·), então ϕ : (A, +, ·) → (A/I, ⊕, ⊙),
I I
definido por ϕ(a) = a + I, ∀a ∈ A, é um homomorfismo chamado
homomorfismo canônico ou projeção canônica.
d) Se (B, ⊕, ⊙) é um anel, então ϕ : (Z, +, ·) → (B, ⊕, ⊙) definido
por


 ϕ(n) = 1B ⊕ 1B ⊕ · · · ⊕ 1B , ∀ n ≥ 0,
 | {z }
n vezes

ϕ(−n) = (−1B ) ⊕ (−1B ) ⊕ · · · ⊕ (−1B ) , ∀ n ≥ 0,
 | {z }
n vezes

é um homomorfismo. Verifique que ele é o único homomorfismo de


(Z, +, ·) em (B, ⊕, ⊙).
e) Se (A1 , +, · ), . . . , (Ar , +, ·) são anéis, e se (A1 × · · · × Ar , +, ·) é
1 1 r r
o produto direto então, ∀ i = 1, . . . , r,
pi : A1 × · · · × Ar −→ Ai
(a1 , . . . , ar ) 7−→ ai
é um homomorfismo chamado i-ésima projeção.
f) Se f : (A1 , +, · ) −→ (A2 , +, · ) e g : (A2 , +, · ) −→ (A3 , +, · ) são
1 1 2 2 2 2 3 3
homomorfismos, então g ◦ f : (A1 , +, · ) −→ (A3 , +, · ) é um homo-
1 1 3 3
morfismo.
[SEC. I.4: HOMOMORFISMOS DE ANÉIS 31

Propriedades elementares
Seja f : (A, +, · ) → (B, +, · ) um homomorfismo de anéis.
A A B B
1) Seja ker f := {a ∈ A; f (a) = 0} ⊆ A. Então ker f é um ideal
de (A, +, · ) (verifique) chamado núcleo de f .
A A
2) Seja Im f := {f (a); a ∈ A} ⊆ B. Então (Im f, +, · ) é um anel
B B
(verifique) chamado imagem de f .
3) f é injetivo se e somente se ker f = {0} (verifique).
Definição I.4.3. Um homomorfismo de anéis f : A → B é um
isomorfismo se ele é injetivo e sobrejetivo.
Note que neste caso, a aplicação inversa f −1 : B → A também é
um homomorfismo de anéis (verifique). Quando existe um isomor-
fismo entre dois anéis A e B, dizemos que A e B são isomorfos.
Teorema I.4.4. (Teorema dos isomorfismos).
Seja f : (A, +, ·) → (B, ⊕, ⊙) um homomorfismo de anéis. En-
tão, a aplicação f¯ abaixo é um isomorfismo de anéis:
f¯: (A/ker f, ⊕ , ⊙ ) → (Im f, ⊕, ⊙)
ker f ker f

ā 7→ f (a).
Demonstração. Primeiramente, devemos verificar que f¯ é uma
função bem definida, isto é, se a1 , a2 ∈ A são tais que ā1 = ā2 , então
f (a1 ) = f (a2 ). E de fato, se ā1 = ā2 , então temos a1 − a2 ∈ ker f ,
logo f (a1 − a2 ) = 0; além do mais f (a1 − a2 ) = f (a1 ) − f (a2 ), pois
f é um homomorfismo; portanto, f (a1 ) = f (a2 ).
Agora, f¯ é claramente uma aplicação sobrejetiva e é um homo-
morfismo pois, para elementos a1 , a2 ∈ A, temos:
• f¯(ā1 ⊕ ā2 ) = f¯(a1 + a2 ) pela definição de ⊕
ker f ker f

= f (a1 + a2 ) pela definição de f¯


= f (a1 ) ⊕ f (a2 ) pois f é um homomorfismo
= f¯(ā1 ) ⊕ f¯(ā2 ) pela definição de f¯.
• f¯(ā1 ⊙ ā2 ) = f¯(ā1 ) ⊙ f¯(ā2 ) (verifique).
ker f
32 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

Finalmente, temos que ker f¯ = {ā ∈ (A/ker f ); f (a) = 0} =


{ā ∈ (A/ker f ); a ∈ ker f } = {0̄}; logo f¯ é injetiva.

Teorema I.4.5. (Teorema chinês dos restos). Sejam m1 , . . . , mr


números inteiros positivos dois a dois primos entre si. Então, a
aplicação diagonal

∆: Z −→ Z/m1 Z × · · · × Z/mr Z
z 7−→ (z + m1 Z, . . . , z + mr Z)

é sobrejetiva.
Equivalentemente, ∀ z1 , . . . , zr ∈ Z, ∃ z ∈ Z tal que

z ≡ z1 mod m1
z ≡ z2 mod m2
···
z ≡ zr mod mr .

Demonstração. Note primeiro que a aplicação ∆ é um homo-


morfismo entre os anéis

(Z, +, ·) e (Z/m1 Z, ⊕ , ⊙ ) × · · · × (Z/mr Z, ⊕ , ⊙ ).


m1 m1 mr mr

O núcleo desse homomorfismo ∆ é

ker ∆ := {z ∈ Z; z ≡ 0, . . . , z ≡ 0}
m1 mr

= {z ∈ Z; z múltiplo de m1 , . . . , z múltiplo de mr }.

Sendo m1 , m2 , . . . , mr dois a dois relativamente primos, temos

ker ∆ = {z ∈ Z; z múltiplo de m1 . . . mr } = m1 . . . mr Z.

Pelo Teorema dos isomorfismos, ∆ induz um isomorfismo

¯ : Z/m1 . . . mr Z → Im∆,

[SEC. I.4: HOMOMORFISMOS DE ANÉIS 33

o que implica em particular que ambos os lados acima têm a mesma


cardinalidade:
|Z/m1 . . . mr Z| = |Im∆|,
isto é,
|Im∆| = m1 . . . mr .
Por outro lado, temos também

Im∆ ⊆ Z/m1 Z × · · · × Z/mr Z

|Z/m1 Z × · · · × Z/mr Z| = |Z/m1 Z| . . . |Z/mr Z| = m1 . . . mr .

Portanto, concluimos que Im∆ = Z/m1 Z × · · · × Z/mr Z, isto é,


que ∆ é sobrejetiva.
Observação I.4.6. O teorema anterior estabelece um resultado
que envolve os conjuntos Z e Z/m1 Z × · · · × Z/mr Z, e a aplicação
∆ entre estes conjuntos. No entanto, a prova que demos consistiu
em observar que, na realidade, estes conjuntos tinham estruturas
de anéis e a respeito das quais a aplicação ∆ era um homomorfismo
de anéis. Aı́, ao confrontar propriedades desses dois anéis através
desse homomorfismo, obtivemos o resultado desejado. Isto ilus-
tra a importância do conceito de homomorfismo entre dois anéis:
ele estabelece uma interdependência entre duas estruturas, inter-
dependência que pode trazer à luz resultados e relações até então
escondidos.
Evidentemente, a prova que demos do Teorema I.4.5 nos permite
enunciar a seguinte versão um pouco mais “sofisticada”.
Teorema I.4.7. Sejam m1 , . . . , mr inteiros positivos dois a dois
primos entre si. Então, a aplicação
¯ : Z/m1 . . . mr Z
∆ −→ Z/m1 Z × · · · × Z/mr Z
z + m1 . . . mr Z 7−→ (z + m1 Z, . . . , z + mr Z)

é um isomorfismo de anéis.
34 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

Definição I.4.8. Seja A um anel e seja ϕ : Z → A o (único) ho-


momorfismo de Z em A (vide Exemplo I.4.2d) acima). O núcleo
ker ϕ é um ideal de Z, logo existe um único inteiro c ≥ 0 tal que
ker ϕ = cZ. Este inteiro c é chamado de caracterı́stica do anel A.

Exercı́cio I.4.9. Mostre que a caracterı́stica de um domı́nio é igual


a 0 ou igual a um número primo.

Exercı́cio I.4.10. Sejam A um anel, I um ideal de A e

ϕ : A[X] −→ (A/I)[X]
X X
ai X i 7−→ āi X i .
i

a) Mostre que ϕ é um homomorfismo de anéis.


P
b) Mostre que I[X] := { ni=0 ai X i ; ai ∈ I, n ∈ N} é um ideal
de A[X] e que os anéis A[X]/I[X] e (A/I)[X] são isomorfos.

I.5 Exercı́cios
1. Procure os elementos invertı́veis para a multiplicação no anel
(Z/12Z, ⊕, ⊙).
12 12

5
2. Mostre que o número de Fermat 22 + 1, i.e. 232 + 1, não é
primo. Para isto, observe que 641 sendo primo, Z/641Z é um
corpo; observe também que
(
641 = 24 + 54
641 = 27 · 5 + 1.

Agora, da segunda igualdade, tire a expressão de 5(mod 641),


substitua esta expressão na primeira igualdade e veja que 641
divide 232 + 1.
[SEC. I.5: EXERCÍCIOS 35

3. Seja n um inteiro positivo que não é primo. Mostre que o anel


(Z/nZ, ⊕, ⊙) não é um domı́nio.
n n

4. Mostre que todo ideal não-nulo de Z[i] contém algum ele-


mento positivo de Z.

5. Seja (A, +, ·) um anel comutativo com 1. Um ideal P de A é


dito ideal primo se P ⊂ A e se
6=


x, y ∈ A
⇒x∈P ou y ∈ P.
xy ∈ P

(Ver, por exemplo, que o ideal 2Z é um ideal primo de (Z, +, ·),


mas que o ideal 4Z não é um ideal primo de (Z, +, ·)). Um
ideal M de A é dito ideal máximo (ou ideal maximal ) se
M ⊂ A e se não existe ideal propriamente contido entre M
6=
e A, isto é, se não existe ideal J tal que M ⊂ J ⊂ A. (Por
6= 6=
exemplo, ver que o ideal 2Z é um ideal máximo de Z).

a) Mostre que um ideal I é primo se e somente se o anel


quociente A/I é um domı́nio.
Mostre que um ideal I é máximo se e somente se o anel
quociente A/I é um corpo.
Mostre que todo ideal máximo é um ideal primo.
b) Seja B um anel e seja A = B[X] o anel de polinômios
numa variável sobre B. Mostre que o ideal (X) de A é
primo se e só se B é um domı́nio.

6. Seja A = {f : R → R} com as operações

⊕ definida por f1 ⊕ f2 : R −→ R
x 7−→ f1 (x) + f2 (x),
36 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS

⊙ definida por f1 ⊙ f2 : R −→ R
x 7−→ f1 (x) · f2 (x).
Seja r ∈ R; mostre que Mr := {f ∈ A | f (r) = 0} é um ideal
máximo de A. Dê um exemplo de ideal I, próprio e não-nulo,
(i.e., I $ A e I 6= (0)) que não seja ideal máximo de A.

7. Exiba dois elementos α, β do anel Z[i], β 6= 0, para os quais


é possı́vel fazer a divisão de α por β de quatro maneiras dis-
tintas. (A prova do Teorema I.3.7 sugere como fazer para
encontrar tais elementos).

8. Seja m ∈ Z tal que |m| é um número primo.


√ √
Seja Z[ m] := {a + b m | a, b ∈ Z}. Seja

ϕ : Z[ m] −→ N

a + b m 7−→ |a2 − mb2 |.

a) Mostre que ϕ preserva a multiplicação, isto é, que



ϕ(α · β) = ϕ(α) · ϕ(β), ∀ α, β ∈ Z[ m].

b) Para m = 2, −2, 3, mostre que (Z[ m], ϕ) é um domı́nio
euclidiano.
Dica. Faça uma argumentação similar àquela feita para
provar que (Z[i], Norma) é euclidiano.
Nota. Como será visto√mais tarde, existem primos m
tais que os domı́nios Z[ m] não são euclidianos.

9. Seja K um corpo e seja ϕ : K → N a função identicamente


nula. Mostre que (K, ϕ) é um domı́nio euclidiano, e mostre
que o quociente e o resto são unicamente determinados e efe-
tivamente calculáveis (o resto é sempre igual a zero).

10. Sejam ϕ : A1 → A2 um homomorfismo de anéis e a2 ∈ A2 .


Mostre que existe um único homomorfismo de anéis
ϕ̃ : A1 [X] → A2 com ϕ̃(a1 ) = ϕ(a1 ), ∀ a1 ∈ A1 , tal que
ϕ̃(X) = a2 .
[SEC. I.5: EXERCÍCIOS 37

11. a) Mostre que R[X]/(X 2 + 1) é um corpo isomorfo a C.


b) Mostre que Z[X]/(X 2 + 1) é um domı́nio isomorfo a Z[i].

12. Seja ϕ : A1 → A2 um homomorfismo de anéis. Seja I um ideal


de A1 contido em ker ϕ. Mostre que a aplicação

ϕ̄ : A1 /I −→ A2
ā 7−→ ϕ(a)

é um homomorfismo (bem definido) de anéis, chamado de


homomorfismo induzido.

13. Sejam m, n dois inteiros. Mostre que o Menor Múltiplo Co-


mum entre m e n é a caracterı́stica do anel Z/mZ × Z/nZ.
38 [CAP. I: ANÉIS E DOMÍNIOS
Capı́tulo II

Fatoração Única

II.1 Definições e Exemplos


Seja D um anel. Seja a ∈ D; um elemento b ∈ D é um divisor ou
fator de a (em D) se existe c ∈ D tal que a = bc; dizemos também
que b divide a, ou que a é múltiplo de b, e denotamos b|a.
Um elemento a ∈ D é invertı́vel (em D) se existe b ∈ D tal que
ab = 1. Denotaremos por D∗ o conjunto dos elementos invertı́veis.
Dois elementos a, b ∈ D são associados (em D) se existe u ∈ D,
u invertı́vel em D, tal que a = ub.
Um elemento não-invertı́vel a ∈ D \ {0} é irredutı́vel (em D) se
a possui apenas fatoração trivial em D, isto é,

∀ b, c ∈ D tais que a = bc, então b ou c é invertı́vel em D.

Observe que os únicos divisores de um elemento irredutı́vel a


são os elementos associados de a em D e os elementos invertı́veis.
Um elemento não-invertı́vel p ∈ D é primo se

∀ a, b ∈ D, p|a · b ⇒ p|a ou p|b.

Sejam a1 , . . . , an ∈ D; um elemento d ∈ D é um Maior Divisor


Comum (M.D.C.) de a1 , . . . , an se d divide a1 , . . . , an e se todo
elemento d′ ∈ D que divide a1 , . . . , an , divide d também. Um tal
Maior Divisor Comum de a1 , . . . , an pode não existir.

39
40 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

Exercı́cio II.1.1. Seja D um domı́nio e sejam a1 , . . . , an ∈ D.


Mostre que dois M.D.C. para a1 , . . . , an são necessariamente asso-
ciados em D.

Por este exercı́cio, num domı́nio temos a unicidade (a menos de


multiplicação por elementos invertı́veis) do M.D.C.; em um anel,
não temos essa unicidade em geral. Por isso, consideraremos o
M.D.C. somente em domı́nios, e logo poderemos falar do M.D.C.
de a1 , . . . , an que denotaremos por M.D.C. {a1 , . . . , an }. Os elemen-
tos a1 , . . . , an são ditos primos entre si ou relativamente primos se
M.D.C. {a1 , . . . , an } = 1.

Exemplo II.1.2.

1) Em Z:

• {a ∈ Z | a é invertı́vel} = {1, −1}.


• Dado a ∈ Z, {b ∈ Z | b é associado a a} = {a, −a}.
• {a ∈ Z | a é irredutı́vel} = {±p | p primo}.

2) Em Z[i]:

• {α ∈ Z[i] | α é invertı́vel} = {α ∈ Z[i] | N (α) = 1} =


{±1, ±i}.
• Dado α ∈ Z[i], {β ∈ Z[i] | β é associado a α} = {±α, ±iα}.
• {α ∈ Z[i] | α é irredutı́vel} será determinado mais tarde
(vide Corolário IV.1.3). Observamos que este conjunto de
irredutı́veis contém {α ∈ Z[i] | N (α) é primo}.

3) Em K[X], onde K é um corpo:

• {f (X) ∈ K[X] | f (X) é invertı́vel} = K \ {0}.


• Dado f (X) ∈ K[X], {g(X) ∈ K[X] | g(X) é associado a
f (X)} = {kf (X) | k ∈ K \ {0}}.
• {f (X) ∈ K[X] | f (X) é irredutı́vel} = ?.
[SEC. II.1: DEFINIÇÕES E EXEMPLOS 41

Observe que: a) {polinômios de grau 1} ⊆ {irredutı́veis de K[X]}.


No caso de K = C, o Teorema Fundamental da Álgebra garante que
esses dois conjuntos são iguais. No caso de um corpo K qualquer,
os dois conjuntos não são iguais em geral; procure um exemplo.
b) Em Q[X], é sempre possı́vel determinar efetivamente se um
polinômio dado é irredutı́vel ou não (ver no livro de van der Waer-
den, Modern Algebra, §25 p. 77). Para um corpo K qualquer, em
geral não é possı́vel. Em todo caso, mesmo em Q[X], é um proble-
ma difı́cil determinar quando um polinômio é irredutı́vel ou não;
o método mencionado acima (devido a Kronecker) pode exigir um
número finito tão grande de operações que na prática não é muito
útil. Desenvolveremos critérios práticos que nos permitirão resolver
o problema de irredutibilidade em alguns casos particulares.
4) Num domı́nio euclidiano (D, ϕ)

• {a ∈ D | a é invertı́vel} = {a ∈ D | ϕ(a) = ϕ(1)} (Note que


para todo a 6= 0, temos ϕ(a) = ϕ(a · 1) ≥ ϕ(1)).

• Dado a ∈ D, {b ∈ D | b é associado a a} = {au | u ∈ D∗ } ⊆


{b ∈ D | ϕ(b) = ϕ(a)}.

• {a ∈ D | a irredutı́vel} = ?.

Estes fatos seguem diretamente da seguinte afirmação:


Afirmação II.1.3. Sejam a e b elementos não-nulos de um domı́nio
euclidiano (D, ϕ). Então,

ϕ(b) = ϕ(ba) se a é invertı́vel,


ϕ(b) < ϕ(ba) se a não é invertı́vel.

Demonstração. Seja a um elemento invertı́vel do domı́nio D,


isto é, a, 1/a ∈ D. Pela definição da função ϕ, temos
 
1
ϕ(b) ≤ ϕ(ab) ≤ ϕ (ab) = ϕ(b).
a
42 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

Reciprocamente, suponha que ϕ(b) = ϕ(ba). Sendo (D, ϕ) um


domı́nio euclidiano e como ab 6= 0, podemos fazer a divisão de b
por ab: existem elementos t, r ∈ D tais que
(
ϕ(r) < ϕ(ab) = ϕ(b)
b = (ab)t + r com
ou r = 0.

Afirmamos que r = 0; caso contrário, de r = b − (ab)t = b(1 − at),


obterı́amos ϕ(r) = ϕ(b(1 − at)) ≥ ϕ(b), em contradição com a
condição ϕ(r) < ϕ(b). Assim, temos r = 0, isto é, b(1 − at) = 0.
Como D é um domı́nio e como b 6= 0, obtemos que 1 − at = 0, e
logo que a é invertı́vel em D.
Em geral o conjunto {a ∈ D | a é irredutı́vel} não é conhecido
(vide o caso particular D = K[X], K um corpo). No entanto, temos
Afirmação II.1.4. Seja (D, ϕ) um domı́nio euclidiano que não seja
um corpo. Seja

δ = min{ϕ(d) | d ∈ D, d não-invertı́vel}
= min{ϕ(d) | d ∈ D, ϕ(d) > ϕ(1)}.

Então, {a ∈ D | ϕ(a) = δ} ⊆ {a ∈ D | a é irredutı́vel}.


Demonstração. Seja a ∈ D tal que ϕ(a) = δ. Como δ > ϕ(1),
então a não é um elemento invertı́vel. Afirmamos que a não possui
fatoração não-trivial em D. De fato, se a = bc com c não-invertı́vel,
então pela Afirmação II.1.3,

ϕ(b) < ϕ(bc) = ϕ(a) = δ.

Pela definição de δ, concluı́mos que ϕ(b) = ϕ(1) e portanto que o


elemento b é invertı́vel em D.
Definição II.1.5. Um domı́nio D é domı́nio de fatoração única ou
domı́nio fatorial se todo elemento não-nulo e não-invertı́vel de D se
escreve de “maneira única” como produto de elementos irredutı́veis
de D, isto é, de maneira precisa:
[SEC. II.1: DEFINIÇÕES E EXEMPLOS 43

(i) Todo elemento não-nulo e não-invertı́vel de D é produto finito


de fatores irredutı́veis.

(ii) Se {pi }1≤i≤s e {qj }1≤j≤t são famı́lias finitas de elementos irre-
dutı́veis de D tais que p1 · · · ps = q1 · · · qt , então

• s = t.
• a menos da ordenação, pi é associado a qi , ∀i = 1, . . . , s
(i.e. existe uma bijeção σ de {1, . . . , s} sobre {1, . . . , s}
tal que pi é associado a qσ(i) , ∀ i = 1, . . . , s).

Exercı́cio II.1.6. Seja D um domı́nio fatorial.


Sejam a, b ∈ D \ {0}. Mostre que M.D.C. {a, b} existe.
Exercı́cio II.1.7. Seja D um domı́nio no qual vale a condição que
todo irredutı́vel é primo, isto é vale que:

(ii’) ∀ p ∈ D irredutı́vel, ∀ a, b ∈ D,

p|ab ⇒ p|a ou p|b.

1o¯ ) Mostre que a seguinte condição vale:


∀ p ∈ D irredutı́vel, ∀ n ≥ 1, ∀ a1 , . . . , an ∈ D,

p|a1 . . . an ⇒ ∃ i tal que p|ai .

2o¯ ) Sejam p1 , . . . , ps , q1 , . . . , qt elementos irredutı́veis de D tais


que p1 . . . ps = q1 . . . qt .

a) Mostre que p1 é associado a qi , para algum i.


b) Se s = 1, mostre que t = 1 e que, conseqüentemente, os
elementos p1 e q1 são associados.
c) Se s ≥ 1, mostre (por indução sobre s) que t = s e que,
módulo a ordem, pi e qi são associados, ∀ i = 1, . . . , s.

A proposição seguinte relaciona a Definição II.1.5 com o Exer-


cı́cio II.1.7.
44 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

Proposição II.1.8. Seja D um domı́nio. Então são equivalentes:


a) D satisfaz as condições (i) e (ii) (isto é, D é fatorial).
b) D safisfaz as condições (i) e (ii’).
Demonstração. a) ⇒ b): Seja p ∈ D elemento irredutı́vel; sejam
a, b ∈ D tais que p|ab, i.e., tais que ab = pc com c ∈ D. Pela
condição (i) existem fatorações de a, b, c em elementos irredutı́veis.
Colocando juntas as fatorações de a e b, obtemos uma fatoração
do produto ab. Colocando a fatoração de c junto com o elemento
irredutı́vel p obtemos uma outra fatoração de ab. Pela condição
(ii), obtemos então que p é necessariamente associado a algum dos
fatores da primeira fatoração de ab, logo associado a algum dos
fatores da fatoração de a ou da fatoração de b; logo, em particular,
p divide a ou p divide b.
b) ⇒ a): É uma conseqüência do exercı́cio precedente.
Na prática, as condições (i) e (ii’) são em geral mais fáceis de
manipular do que as condições (i) e (ii).
O exercı́cio seguinte apresenta uma situação onde existe uma
relação ı́ntima entre o maior divisor comum de elementos e o ideal
gerado por esses elementos. Fazemos antes a seguinte definição:
Definição II.1.9. Seja R um anel. Um ideal I de R é dito ideal
principal se existe α ∈ R tal que I = (α). Um domı́nio no qual
todo ideal é principal é chamado domı́nio principal . Um ideal I é
dito finitamente gerado se existem m ∈ N e α1 , . . . , αm ∈ R tais
que I = (α1 , . . . , αm ). Um anel no qual todo ideal é finitamente
gerado é dito noetheriano.
Exercı́cio II.1.10. Seja D um domı́nio.
a) Sejam a1 , . . . , an ∈ D tais que (a1 , . . . , an ) seja um ideal prin-
cipal, digamos (a1 , . . . , an ) = (d). Mostre que M.D.C. {a1 , . . . , an }
existe, é igual a d, e portanto existem λ1 , λ2 , . . . , λn ∈ D tais que
M.D.C.{a1 , . . . , an } = λ1 a1 + · · · + λn an .
b) Sejam a, b, c ∈ D \ {0} tais que (a, c) = (1) e (b, c) = (1).
Mostre que (ab, c) = (1).
[SEC. II.2: FATORAÇÃO EM DOMÍNIOS NOETHERIANOS 45

Exemplo II.1.11. • {0} e R são ideais principais de um anel R.


• {f (X) ∈ Z[X] | termo constante de f (X) é igual a zero} =
{f (X) ∈ Z[X] | f (0) = 0} é um ideal principal de Z[X]; verifique
que ele é igual a (X).

Exercı́cio II.1.12. Mostre que M.D.C. {2, X} = 1 em Z[X] e


que o elemento 1 não pode ser escrito como combinação linear dos
elementos 2 e X com coeficientes em Z[X]. Conclua que Z[X] não
é domı́nio principal.

Exercı́cio II.1.13. Seja R um domı́nio que não seja um corpo.


Mostre que R[X] não é um domı́nio principal.

II.2 Fatoração em Domı́nios Noetheri-


anos
Uma cadeia ascendente de ideais de um anel

I1 ⊆ I2 ⊆ I3 ⊆ · · · ⊆ In ⊆ In+1 ⊆ . . .

é estacionária se existe n ∈ N tal que Ik = In para k ≥ n.

Teorema II.2.1. Seja R um anel. Então

a) R é noetheriano se e somente se toda cadeia ascendente de


ideais de R é estacionária.

b) Se R é domı́nio noetheriano, então todo elemento não-invertı́vel


de R \ {0} se escreve como produto finito de irredutı́veis.

c) R é domı́nio principal se e somente se R é um domı́nio fato-


rial com a propriedade abaixo:

∀ a, b ∈ R \ {0}, ∃ e, f ∈ R tais que MDC{a, b} = ea + f b.


46 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

Demonstração. a) Suponha R noetheriano e seja I1 ⊆ I2 ⊆


I3 ⊆ .S. . uma cadeia ascendente de ideais de R. Então a união
I = In é um ideal de R e portanto I é finitamente gerado;
n≥1
digamos I = (α1 , α2 , . . . , αm ). Claramente temos que α1 ∈ In1 ,
α2 ∈ In2 , . . . , αm ∈ Inm e denotando n = max{n1 , n2 , . . . , nm },
temos
I = (α1 , α2 , . . . , αm ) ⊆ In ⊆ Ik ⊆ I
para cada k ∈ N com k ≥ n. Isto mostra que Ik = In para k ≥ n
e, portanto, a cadeia ascendente é estacionária. Suponha agora
que R não seja noetheriano e seja I um ideal de R que não é
finitamente gerado. Vamos construir uma cadeia ascendente de
ideais que não é estationária. Tome α1 ∈ I; tome α2 ∈ I \ (α1 );
tome α3 ∈ I \ (α1 , α2 ) e assim sucessivamente. Note que existe
sempre αn ∈ I \ (α1 , α2 , . . . , αn−1 ) pois o ideal I não é finitamente
gerado e, em particular, temos que I % (α1 , α2 , . . . , αn−1 ). Desta
maneira obtemos a cadeia ascendente não-estacionária abaixo
(α1 ) $ (α1 , α2 ) $ (α1 , α2 , α3 ) $ · · · $ (α1 , α2 , . . . , αn ) $ . . . .

b) Provamos inicialmente a seguinte afirmação:


Afirmação: Seja a ∈ R \ {0} elemento não-invertı́vel. Então existe
elemento p ∈ D irredutı́vel com p|a.
Prova da Afirmação: Se o elemento a é irredutı́vel, então podemos
tomar p = a. Se o elemento a não é irredutı́vel, então a = a1 b1
com ambos a1 , b1 não-invertı́veis. Se o elemento a1 é irredutı́vel,
então podemos tomar p = a1 . Se o elemento a1 não é irredutı́vel,
então a1 = a2 b2 com ambos a2 , b2 não-invertı́veis. Se o elemento a2
é irredutı́vel, então podemos tomar p = a2 pois temos
a = a1 · b 1 = a2 b 2 b 1 , isto é, a2 |a.
O processo acima tem que acabar; isto é, para algum n ∈ N temos
an−1 = an bn com o elemento an irredutı́vel. De fato, caso contrário,
obtemos a cadeia ascendente não-estacionária de ideais
(a) $ (a1 ) $ (a2 ) $ · · · $ (an−1 ) $ (an ) $ . . . .
[SEC. II.2: FATORAÇÃO EM DOMÍNIOS NOETHERIANOS 47

Provamos agora a existência da fatoração em irredutı́veis. Seja


então a ∈ R \ {0} não-invertı́vel. Pela afirmação temos a = p1 · q1
com p1 irredutı́vel. Se q1 é invertı́vel, então a é irredutı́vel. Se q1 não
é invertı́vel, pela afirmação, temos q1 = p2 · q2 com p2 irredutı́vel.
Se q2 é invertı́vel, temos que a = p1 · q1 é uma fatoração irredutı́vel
para o elemento a. Se q2 não é invertı́vel, pela afirmação, temos
q2 = p3 · q3 com p3 irredutı́vel. Se q3 é invertı́vel, temos então que
a = p1 · p2 · q2 é uma fatoração irredutı́vel para o elemento a.
O processo acima tem que acabar; isto é, para algum n ∈ N
temos qn−1 = pn · qn com pn irredutı́vel e qn invertı́vel, e então
a = p1 · p2 . . . pn−1 · qn−1 é uma fatoração irredutı́vel. De fato, caso
contrário, obtemos a cadeia ascendente não-estacionária de ideais

(a) $ (q1 ) $ (q2 ) $ · · · $ (qn−1 ) $ (qn ) $ . . . .

Note que a hipótese de R ser domı́nio foi usada acima para verificar
a inclusão estrita dos ideais nas cadeias ascendentes (an ) e (qn ).
c) Seja agora R um domı́nio principal, em particular, R é noethe-
riano e, portanto, temos a existência da fatoração em irredutı́veis.
Temos que verificar que elementos irredutı́veis são primos. Seja
então p ∈ R irredutı́vel e sejam a, b ∈ R com p ∤ a e p ∤ b.
Sendo R principal temos R = (a, p) = (b, p) e, então, existem
a1 , a2 , b1 , b2 ∈ R tais que 1 = a1 a + a2 p e 1 = b1 b + b2 p.
Multiplicando as igualdades acima, existem c1 , c2 ∈ R tais que

1 = c1 (ab) + c2 p e, então, temos p ∤ ab.

Concluimos que R é fatorial usando a Proposição II.1.8. A pro-


priedade do item c) segue do Exercı́cio II.1.10.
Finalmente, seja R um domı́nio fatorial com a propriedade
do item c). Vamos mostrar que R é domı́nio principal. Sejam
a1 , a2 , . . . , an elementos de R. Naturalmente, (a1 , a2 ) ⊆ d1 R onde
d1 := MDC{a1 , a2 }; reciprocamente, por hipótese, existem elemen-
tos e1 , e2 ∈ R tais que d1 = e1 a1 + e2 a2 ∈ (a1 , a2 ). Logo temos que
(a1 , a2 ) = d1 R. Similarmente, temos (a1 , a2 , a3 ) = (d1 , a3 ) = d2 R
onde d2 := MDC{d1 , a3 } = MDC{a1 , a2 , a3 }. Por indução, temos
48 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

que (a1 , . . . , an ) = dR onde d := MDC{a1 , a2 , . . . , an }. Obte-


mos portanto que todo ideal finitamente gerado de R é principal.
Afim de poder concluir que R é um domı́nio principal, basta então
mostrar que todo ideal de R é finitamente gerado.
Suponha por absurdo que exista um ideal I de R que não
seja finitamente gerado. Então, existe uma seqüência infinita
a1 , . . . , an , . . . de elementos de I tal que

(a1 ) $ (a1 , a2 ) $ · · · $ (a1 , . . . , an ) $ · · · .

Para cada n, o ideal (a1 , . . . , an ) é finitamente gerado, logo pelo


visto anteriormente, (a1 , . . . , an ) é um ideal principal, digamos
(a1 , . . . , an ) = (bn ). Seja n um inteiro positivo arbitrário. Para
todo i ≤ n, temos (bi−1 ) $ (bi ), logo bi−1 tem pelo menos um fator
irredutı́vel a mais do que bi . Evidentemente, bn tem pelo menos um
fator irredutı́vel, logo bn−1 tem pelo menos dois fatores irredutı́veis,
logo bn−2 tem pelo menos três fatores irredutı́veis e por indução,
a1 = b1 tem pelo menos n fatores irredutı́veis. Assim, obtemos que
a1 tem um número de fatores irredutı́veis arbitrariamente grande,
pois n é arbitrário, o que é absurdo pois R é fatorial.

Teorema II.2.2. Seja (D, ϕ) um domı́nio euclidiano. Então

(i) D é um domı́nio principal.

(ii) ∀ a, b ∈ D \ {0}, pode-se calcular efetivamente e, f ∈ D tais


que M.D.C. {a, b} = ea + f b, se a divisão em D for efetiva.

Demonstração. (i) Seja I 6= (0) um ideal do domı́nio D. Quere-


mos mostrar que o ideal I é principal. Considere o conjunto
ϕ(I \ {0}) = {ϕ(α) | α ∈ I, α 6= 0} ⊆ N. Como N é bem
ordenado, ϕ(I \ {0}) possui um menor elemento; seja a ∈ I tal
que ϕ(a) seja o menor elemento de ϕ(I \ {0}). Mostraremos que
I = (a), isto é que ∀ ξ ∈ I, temos ξ = at para algum elemento
t ∈ D. Seja ξ ∈ I; pela condição euclidiana, existem t, r ∈ D tais
que
ξ = at + r com ϕ(r) < ϕ(a) ou r = 0.
[SEC. II.2: FATORAÇÃO EM DOMÍNIOS NOETHERIANOS 49

Observe que I sendo um ideal, temos:

a ∈ I ⇒ at ∈ I ⇒ −at ∈ I ⇒ r = ξ − at ∈ I,
z }| {
pois ξ ∈ I

logo ϕ(r) < ϕ(a) é impossı́vel já que ϕ(a) é o menor elemento de
ϕ(I \ {0}); portanto r = 0, isto é ξ = at como querı́amos.
(ii) Sejam a, b ∈ D \ {0}. Utilizando somente que D é um
domı́nio principal, obtivemos no Teorema II.2.1 a existência de ele-
mentos e, f ∈ D tais que MDC {a, b} = ea + f b, sem poder no
entanto calcular estes elementos e e f .
Agora, vamos mostrar que se (D, ϕ) for um domı́nio euclidiano
e se a divisão em D for efetiva, então os elementos e e f podem ser
efetivamente calculados.
Pela propriedade euclidiana, existem t1 , r1 ∈ D tais que
(
ϕ(r1 ) < ϕ(b)
a = bt1 + r1 com (∗1)
ou r1 = 0.

• Se r1 = 0, acabou: M.D.C. {a, b} existe e é igual a b, que


pode se escrever 0 · a + 1 · b.

• Se r1 6= 0: Seja α ∈ D. Então em virtude de (∗1), o elemento


α divide a e b se e somente se α divide b e r1 ; assim

M.D.C.{a, b} existe e é igual a d


m
M.D.C.{b, r1 } existe e é igual a d.

Agora consideramos b e r1 ; existem t2 , r2 ∈ D tais que


(
ϕ(r2 ) < ϕ(r1 )
b = r1 t2 + r2 com (∗2)
ou r2 = 0.

• Se r2 = 0, acabou: M.D.C. {b, r1 } existe e é igual a r1 que,


em virtude de (∗1), se escreve 1a + (−t1 )b.
50 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

• Se r2 6= 0: Seja α ∈ D. Então em virtude de (∗2), o elemento


α divide b e r1 se e somente se α divide r1 e r2 ; assim

M.D.C.{b, r1 } existe e é igual a d


m
M.D.C.{r1 , r2 } existe e é igual a d.

Agora consideramos r1 e r2 ; existem t3 , r3 ∈ D tais que


(
ϕ(r3 ) < ϕ(r2 )
r1 = r2 t3 + r3 com (∗3)
ou r3 = 0.

• Se r3 = 0, acabou: M.D.C. {r1 , r2 } existe e é igual a r2 que,


em virtude de (∗2) e (∗1), se escreve (−t2 )a + (t1 t2 + 1)b.

• Se r3 6= 0, continuamos o processo. Observe que nesse pro-


cesso, quando ri 6= 0, obtemos um ri+1 tal que
(
ϕ(ri+1 ) < ϕ(ri )
ou ri+1 = 0.

Já que a função ϕ toma seus valores em N, não é possı́vel ter


uma seqüência decrescente infinita, logo vai existir um inteiro
n para o qual não será mais possı́vel ter ϕ(rn+1 ) < ϕ(rn ), isto
é, para o qual rn+1 = 0. Assim, obtemos um n tal que

rn−1 = rn tn+1 + rn+1 = rn tn+1 . (∗n + 1)

Isto termina a prova: M.D.C. {rn−1 , rn } existe, é igual a rn e

M.D.C.{a, b} = · · · = M.D.C.{rn−1 , rn } = rn .

Em virtude de (∗n), . . . , (∗1), o elemento rn se escreve como


combinação linear de a e b com coeficientes em D.

Corolário II.2.3. Sejam K um corpo e f1 (X), f2 (X) ∈ K[X] dois


polinômios primos entre si. Seja k(X) ∈ K[X]. Então:
[SEC. II.2: FATORAÇÃO EM DOMÍNIOS NOETHERIANOS 51

1) É possı́vel calcular efetivamente g1 (X), g2 (X) ∈ K[X] tais


que k(X) = g1 (X)f1 (X) + g2 (X)f2 (X).

2) Se grau k(X) < grau f1 (X) + grau f2 (X), tais polinômios


g1 (X) e g2 (X) podem ser tomados satisfazendo

• grau g1 (X) < grau f2 (X) (ou g1 (X) = 0)


• grau g2 (X) < grau f1 (X) (ou g2 (X) = 0).

Demonstração. 1) Sabemos que a divisão em K[X] é efetiva.


Como f1 (X) e f2 (X) são primos entre si, podemos efetivamente
encontrar (Teorema II.2.2) dois polinômios ϕ1 (X), ϕ2 (X) ∈ K[X]
tais que 1 = ϕ1 (X)f1 (X) + ϕ2 (X)f2 (X), logo também tais que
k(X) = k(X)ϕ1 (X)f1 (X) + k(X)ϕ2 (X)f2 (X). Portanto, basta
tomarmos g1 (X) = k(X)ϕ1 (X) e g2 (X) = k(X)ϕ2 (X).
2) Pelo Teorema I.3.8, podemos efetivamente encontrar polinômios
q(X), r(X) ∈ K[X] tais que
(
grau r(X) < grau f2 (X)
g1 (X) = f2 (X)q(X) + r(X) com
ou r(X) = 0.

Temos então k(X) = r(X)f1 (X) + [f1 (X)q(X) + g2 (X)]f2 (X).


Como grau k(X) < grau f1 (X) + grau f2 (X) e também
grau(r(X)f1 (X)) < grau f1 (X) + grau f2 (X) (ou r(X) = 0), então
grau([f1 (X)q(X) + g2 (X)]f2 (X)) < grau f1 (X) + grau f2 (X) (ou
f1 (X)q(X) + g2 (X) = 0) e portanto, f1 (X)q(X) + g2 (X) tem grau
menor que o grau de f1 (X) (ou é zero). Portanto os polinômios
r(X) e f1 (X)q(X) + g2 (X) têm as propriedades desejadas.

Exercı́cio II.2.4. Seja f (X) = X n + an−1 X n−1 + · · · + a0 ∈ Z[X],


n ≥ 1, um polinômio mônico com coeficientes em Z. Seja α ∈ Q.
Mostre que se f (α) = 0, então α ∈ Z.

Exercı́cio II.2.5. a) Seja α um elemento irredutı́vel de Z[i]. Mos-


tre que existe um primo p de Z tal que, em Z[i], α é um fator de p.
52 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

Assim, tem-se

{elementos irredutı́veis de Z[i]} =


{fatores irredutı́veis de p em Z[i]; p número primo}.

b) Seja p um primo de Z tal que p ≡ 3(mod 4). Olhando módulo


4, mostre que p não é soma de dois quadrados de inteiros e que p é
um elemento irredutı́vel de Z[i].
c) Seja p um primo de Z tal que p = a2 + b2 com a, b ∈ Z. Mostre
que p = (a + ib)(a − ib) é a fatoração de p em elementos irredutı́veis
de Z[i]. Mostre que, se p 6= 2, então (a + ib) e (a − ib) não são
associados em Z[i], e se p = 2 = 12 + 12 , então (1 + i) e (1 − i) são
associados em Z[i].
Observaçãon II.2.6. √Existem domı́nios principais não-euclidianos;
o
o domı́nio z1 12 + z2 −19
2
| z1 , z2 ∈ Z, de mesma paridade é um
tal exemplo. Uma prova disso pode ser encontrada em J. Wilson,
A principal ideal ring that is not a Euclidean ring, Mathematics
Magazine 46 (1973), 34–38. (Apesar de sua aparência exótica, esse
anel surge de maneira natural na teoria √ dos números; ele é o anel
dos inteiros do corpo quadrático Q( −19)).
Vamos agora generalizar o Teorema I.4.7 para qualquer domı́nio
principal.
Teorema II.2.7. (Teorema chinês dos restos). Seja D um domı́nio
principal e sejam d1 , d2 , . . . , dr elementos de D dois a dois primos
entre si. Então a aplicação

∆ : D/(d1 . . . dr ) −→ (D/(d1 )) × · · · × (D/(dr ))


z + (d1 . . . dr ) 7−→ (z + (d1 ), . . . , z + (dr ))

é um isomorfismo de anéis.
Demonstração. Primeiro observe que pelo Teorema II.2.1, o do-
mı́nio D é fatorial; como d1 , . . . , dr são dois a dois relativamente
primos, então os dois elementos d1 . . . dr−1 e dr são relativamente
[SEC. II.2: FATORAÇÃO EM DOMÍNIOS NOETHERIANOS 53

primos. É fácil ver que se provarmos o teorema no caso r = 2, o


caso geral seguirá por indução (verifique!).
Considere a aplicação
∆ : D −→ (D/(d1 )) × (D/(d2 ))
z 7−→ (z + (d1 ), z + (d2 )).
É rotina verificar que ∆ é um homomorfismo de anéis.
É claro que (d1 d2 ) ⊆ ker ∆. Reciprocamente, seja z ∈ ker ∆,
isto é, z ∈ (d1 ) ∩ (d2 ). Sejam α1 , α2 ∈ D tais que
z = d1 α1 = d2 α2 . (1)
Como d1 e d2 são primos entre si, então pelo Teorema II.2.1, existem
e1 , e2 ∈ D tais que
1 = e1 d1 + e2 d2 . (2)
Temos
z = e1 d1 z + e2 d2 z por (2)
= e1 d1 d2 α2 + e2 d2 d1 α1 por (1)
= (e1 α2 + e2 α1 )d1 d2 ∈ (d1 d2 ).
Logo ker ∆ = (d1 d2 ).
Vejamos agora que ∆ é sobrejetiva. Seja (a1 + (d1 ), a2 + (d2 ))
um elemento qualquer de (D/(d1 )) × (D/(d2 )). Este elemento é a
imagem por ∆ do elemento a := a2 e1 d1 +a1 e2 d2 . De fato, é claro que
a ≡ a1 e2 d2 mod(d1 ); além disso, e2 d2 ≡ 1 mod(d1 ) pela igualdade
(2); portanto a ≡ a1 mod(d1 ). Similarmente, a ≡ a2 mod(d2 ). Logo
o homomorfismo ∆ é sobrejetivo.
Finalmente, pelo Teorema I.4.4, temos que ∆ é um isomorfismo.

Exercı́cio II.2.8. Seja D um domı́nio principal e sejam d1 , d2 , d3


elementos dois a dois relativamente primos de D. Exiba um e-
lemento z ∈ D tal que a imagem por ∆ de z + (d1 d2 d3 ) seja o
elemento
(z1 + (d1 ), z2 + (d2 ), z3 + (d3 )).
Dica: Escreva 1 como combinação linear de d1 e d2 e também como
combinação linear de (d1 d2 ) e d3 .
54 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

II.3 Fatoração Única em Anéis de Polinômios


Sabemos que Q[X] é um domı́nio euclidiano. O que podemos dizer
de Z[X]? Ele não é domı́nio euclidiano, pois vimos no Exercı́cio
II.1.12 que nem domı́nio principal ele é. No entanto, ainda podemos
esperar que Z[X] seja um domı́nio fatorial. De fato, o teorema
seguinte garante que este é o caso:

Teorema II.3.1. (Gauss). Seja D um domı́nio fatorial. Então


D[X] é um domı́nio fatorial.

Aplicações sucessivas do Teorema de Gauss nos dá o corolário


seguinte:

Corolário II.3.2. Seja D um domı́nio fatorial. Então


D[X1 , . . . , Xn ] é um domı́nio fatorial.

A prova do Teorema II.3.1 vai exigir um trabalho de preparação.


Para dar uma idéia da “dinâmica” da prova, suponha que D seja Z.
Temos Z[X] ⊆ Q[X] e sabemos que Q[X] é um domı́nio fatorial.
Dado f (X) ∈ Z[X] ⊆ Q[X], então f (X) tem uma fatoração em
elementos irredutı́veis em Q[X]; digamos f (X) = p1 (X) . . . pr (X)
com pi (X) ∈ Q[X], irredutı́vel em Q[X]. Agora, para um polinômio
p(X) ∈ Q[X], escrevemos p(X) = (a0 /b0 ) + (a1 /b1 )X + · · · +
(an /bn )X n com aj , bj ∈ Z; multiplicando pelo produto dos de-
nominadores, obtemos um polinômio em Z[X] que, caso p(X) seja
irredutı́vel em Q[X], não pode admitir dois fatores de grau ≥ 1
em Z[X]. Assim, se c é o produto de todos os denominadores de
todos os pi (X), então o polinômio cf (X) tem uma fatoração em
Z[X] em elementos que não admitem dois fatores de grau ≥ 1 em
Z[X]. Assim, já vemos que f (X) está bem perto de ter uma fa-
toração em elementos irredutı́veis em Z[X]. Depois de estudar mais
cuidadosamente o comportamento do conceito de irredutibilidade
na passagem entre Q[X] e Z[X], obteremos que, de fato, f (X) tem
uma fatoração única em elementos irredutı́veis em Z[X].
Gostarı́amos de poder utilizar a idéia acima mencionada (trans-
portar o estudo da fatoração em Z[X] para Q[X]) para um domı́nio
[SEC. II.3: FATORAÇÃO ÚNICA EM ANÉIS DE POLINÔMIOS 55

fatorial qualquer D no lugar de Z. Para isto, precisamos de um


corpo K que faça o papel de Q, isto é, um corpo K tal que:

a) K contém D.

b) ∀ ξ ∈ K, existe α ∈ D, α 6= 0 tal que αξ ∈ D.

Observe que se existe tal corpo K, então:

a) Todo elemento α 6= 0 de D possui um inverso α−1 em K


(talvez não em D) pois K é um corpo que contém D. Se
α, β ∈ D, α 6= 0, temos α−1 β ∈ K; tal elemento α−1 β pode
ser representado pela “fração” αβ . Assim K terá que conter
todas as “frações” αβ com α, β ∈ D, α 6= 0.

b) ∀ ξ ∈ K, existem α, β ∈ D, α 6= 0, tais que αξ = β, isto é


tais que ξ = αβ . Assim, todo elemento de K terá que ser uma
“fração”.

Isso mostra que se um tal corpo K existe, ele consiste exata-


mente de todas as “frações” de D.
Vamos mostrar agora que, dado um domı́nio qualquer D (não
necessariamente fatorial), sempre existe um tal “corpo de frações
de D”.
Quando dizemos que o domı́nio (D, +, ·) está contido no corpo
(K, ⊕, ⊙) queremos dizer que D ⊆ K e que as operações de D são
as restrições das operações de K, isto é, a inclusão de D em K é
um homomorfismo de anéis.
Proposição II.3.3. Seja (D, +, ·) um domı́nio. Então

1) Existe um corpo (K, ⊕, ⊙) tal que

a) (D, +, ·) ⊆ (K, ⊕, ⊙).


b) ∀ ξ ∈ K, ∃ α, β ∈ D, α 6= 0, tais que ξ = β ⊙ α−1 .

2) Se (K1 , ⊕1 , ⊙1 ) e (K2 , ⊕2 , ⊙2 ) são corpos que satisfazem as


condições a) e b), então eles são isomorfos.
56 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

O item 2) da Proposição II.3.3 diz que, a menos de isomorfismos,


existe um único corpo K que satisfaz as condições a) e b). Tal corpo
K se chama o corpo das frações de D. Observe que Q é o corpo
das frações de Z.

Demonstração da Proposição II.3.3: 1) Antes de começar a


construção de K, observamos que se um tal corpo K existe, e se
a, b, c, d ∈ D, b 6= 0, d 6= 0, são tais que ad = bc, então os sı́mbolos
a
b
e dc terão que representar o mesmo elemento de K pois:
   
a 1 1 1 1 1 1 c
= ⊙a = ⊙ ⊙ad = ⊙ ⊙bc = ⊙c = .
b b b d z }| { b d d d
pois ad = bc

Faremos agora a construção de K:


Seja A = D × (D \ {0}) = {(a, b) | a, b ∈ D, b 6= 0}.
Pensamos nos elementos (a, b) como sendo as futuras frações ab ;
no entanto, já observamos que será necessário ter ( ab ) = ( dc ) quando
ad = bc, isto é, será necessário identificar o par (a, b) com o par
(c, d) quando ad = bc; é o que faremos agora.
Sobre A, definimos a relação de equivalência seguinte:

(a, b) ∼ (c, d) ⇔ ad = bc.

Verifique que ∼ é realmente uma relação de equivalência,


isto é que:

(a, b) ∼ (a, b).

(a, b) ∼ (c, d) ⇒ (c, d) ∼ (a, b).


(a, b) ∼ (c, d) e (c, d) ∼ (e, f ) ⇒ (a, b) ∼ (e, f ).

Seja K1 o conjunto das classes de equivalência; o sı́mbolo ab , ou


a/b, representará o elemento “classe de equivalência de (a, b)”, i.e.,

a/b = {(c, d) ∈ A | ad = bc}.

Sobre K1 , definimos as duas operações seguintes:


[SEC. II.3: FATORAÇÃO ÚNICA EM ANÉIS DE POLINÔMIOS 57

Adição:
a c ad + bc
⊕ := .
b d bd
Note que a/b representa uma classe de equivalência, classe esta
que admite outras representações a′ /b′ (com ab′ = a′ b); a mesma
observação vale para c/d. É necessário verificar que nossa definição
de ⊕ é boa no sentido de que a soma de dois elementos de K1
não depende das escolhas das representações destes elementos; de
maneira precisa, é necessário verificar que

(a, b) ∼ (a′ , b′ )
⇒ (ad + bc, bd) ∼ (a′ d′ + b′ c′ , b′ d′ ),
(c, d) ∼ (c′ , d′ )

isto é, que



ab′ = a′ b
⇒ (ad + bc)b′ d′ = (a′ d′ + b′ c′ )bd.
cd′ = c′ d

Faça esta verificação.

Multiplicação:
a c ac
⊙ := .
b d bd
De novo, é necessário verificar que ⊙ é bem definida no sen-
tido de que o produto de dois elementos de K1 não depende das
escolhas das representações destes elementos; de maneira precisa, é
necessário verificar que

(a, b) ∼ (a′ , b′ )
⇒ (ac, bd) ∼ (a′ c′ , b′ d′ ).
(c, d) ∼ (c′ , d′ )

Faça esta verificação.

Afirmamos que (K1 , ⊕, ⊙) é um corpo onde:

• o elemento neutro de ⊕ é a classe 0/1.

• o elemento neutro de ⊙ é a classe 1/1.


58 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

• o inverso de a/b com respeito a ⊕ é a classe (−a)/b.


• se a 6= 0, o inverso de a/b com respeito a ⊙ é a classe b/a.

Verifique estas afirmações.

Afirmamos ainda que

ϕ : (D, +, ·) −→ (K1 , ⊕, ⊙)
d 7−→ d/1

é uma função injetiva tal que


(
ϕ(d1 + d2 ) = ϕ(d1 ) ⊕ ϕ(d2 ).
ϕ(d1 d2 ) = ϕ(d1 ) ⊙ ϕ(d2 ).

Verifique esta afirmação.

Então, temos que (ϕ(D), ⊕|ϕ(D) , ⊙|ϕ(D) ) ⊆ (K1 , ⊕, ⊙). As-


sim construimos um corpo (K1 , ⊕, ⊙) que não contém realmente
(D, +, ·), mas contém (ϕ(D), ⊕|ϕ(D) , ⊙|ϕ(D) ). Como ϕ é injetiva e
“preserva” a adição e a multiplicação, podemos “identificar” (D, +, ·)
com sua imagem isomorfa (ϕ(D), ⊕|ϕ(D) , ⊙|ϕ(D) ). Querendo ter
uma prova rigorosa (sem identificação), podemos fazer o seguinte:

K1\ (D)

D (D)

K K1

A idéia é anexar K1 \ ϕ(D) ao conjunto D e transportar a es-


trutura de K1 . De maneira precisa:
[SEC. II.3: FATORAÇÃO ÚNICA EM ANÉIS DE POLINÔMIOS 59

Seja K = D ∪ (K1 \ ϕ(D)).


Defina ψ : K → K1 do seguinte modo:
(
ψ(d) = ϕ(d), para d ∈ D.
ψ(x) = x, para x ∈ K1 \ ϕ(D).

É claro que ψ é uma bijeção; agora, transporte a estrutura de K1


para K via esse ψ, isto é, para cada x, y ∈ K, defina:

x ⊕ y = ψ −1 (ψ(x) ⊕ ψ(y)).
x ⊙ y = ψ −1 (ψ(x) ⊙ ψ(y)).

É fácil verificar que (K, ⊕, ⊙) é um corpo que tem todas as


propriedades desejadas.

2) Provamos agora a unicidade módulo isomorfismos.


Sejam (K1 , ⊕1 , ⊙1 ) e (K2 , ⊕2 , ⊙2 ) dois corpos que satisfazem as
condições desejadas.
Se 0 6= β ∈ (D, +, ·), vamos escrever (β −1 )1 para designar o in-
verso de β em (K1 , ⊕1 , ⊙1 ) e escrever (β −1 )2 para designar o inverso
de β em (K2 , ⊕2 , ⊙2 ). Se α, β ∈ (D, +, ·), β 6= 0, vamos escrever
( αβ )1 para designar α ⊙1 (β −1 )1 e ( αβ )2 para designar α ⊙2 (β −1 )2 .
Defina

ρ : (K1 , ⊕1 , ⊙1 ) −→ (K2 , ⊕2 , ⊙2 )
α α
( )1 7−→ ( )2 .
β β
Verifique que ρ é bem definida no sentido de que a imagem de
um elemento x ∈ K1 não depende da representação deste elemento;
verifique ainda que ρ é uma bijeção; verifique enfim que ρ “preserva”
as operações. Isto acaba a prova da proposição.

No que segue D vai designar um domı́nio fatorial e K vai ser


seu corpo de frações. Queremos estudar o comportamento da noção
de irredutibilidade na passagem entre D[X] e K[X]. Note que se
a 6= 0, a ∈ D ⊆ D[X], então a fica invertı́vel em K[X]; assim,
60 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

os fatores irredutı́veis de grau zero em D[X] se perdem em K[X].


Vamos ver que, essencialmente, estes fatores irredutı́veis de grau
zero são os únicos que se comportam mal. A fim de melhor os
controlar, vamos fazer as definições seguintes:
Definição II.3.4. Seja D um domı́nio fatorial. Para um polinômio
f (X) = an X n + · · · + a1 X + a0 ∈ D[X], o conteúdo de f (X) é o
M.D.C. {an , . . . , a0 }; ele será denotado por c(f (X)). Dizemos que
f (X) é primitivo em D[X] se o conteúdo de f (X) é um elemento
invertı́vel de D, isto é, equivalentemente, se f (X) não tem fator
não-trivial de grau zero.
Observação II.3.5. Seja D um domı́nio fatorial e seja K o corpo
de frações de D.

1) Se f (X) ∈ D[X], então

f (X) = c(f (X)) · f1 (X), com f1 (X) primitivo em D[X].

2) Se f (X) ∈ D[X] e d ∈ D, então

c(d · f (X)) = d · c(f (X)).

3) Se f (X) ∈ K[X], então existem a, b ∈ D, b 6= 0, tais que


a
f (X) = · f1 (X), com f1 (X) primitivo em D[X].
b

É claro que se f (X) ∈ D[X] é um polinômio irredutı́vel de D[X]


com grau ≥ 1, então f (X) é primitivo em D[X]. Vejamos agora o
comportamento do conceito de “irredutibilidade” e do conceito de
“elementos associados”, na passagem entre D[X] e K[X].
Lema II.3.6. (Gauss). Seja D um domı́nio fatorial e seja K seu
corpo de frações.

1) Se g(X) ∈ D[X] tem grau ≥ 1, então g(X) é irredutı́vel em


D[X] se e só se g(X) é primitivo em D[X] e irredutı́vel em
K[X].
[SEC. II.3: FATORAÇÃO ÚNICA EM ANÉIS DE POLINÔMIOS 61

2) Se g(X) e h(X) são primitivos em D[X], então g(X) e h(X)


são associados em D[X] se e só se g(X) e h(X) são associados
em K[X].

3) Se f (X), g(X) ∈ D[X], então


c(f (X) · g(X)) = c(f (X)) · c(g(X)).

Demonstração. 3) Sejam d = c(f (X)) e d′ = c(g(X)). Temos


f (X) = d·f1 (X) e g(X) = d′ ·g1 (X), com f1 (X) e g1 (X) primitivos;
logo, f (X) · g(X) = dd′ · f1 (X)g1 (X) e, portanto,
c(f (X) · g(X)) = c(dd′ f1 (X)g1 (X)) = dd′ · c(f1 (X)g1 (X)).
Então, para provar a afirmação, basta provar que c(f1 (X)g1 (X)) é
invertı́vel em D (equivalentemente, que o produto de dois polinômios
primitivos f1 (X), g1 (X) é um polinômio primitivo).
Escreva
f1 (X) = a0 + a1 X + · · · + an X n ,

g1 (X) = b0 + b1 X + · · · + bm X m ,
X
f1 (X)g1 (X) = c0 + c1 X + · · · + cn+m X n+m , onde ci = aj b k .
j+k=i

Seja p um elemento irredutı́vel qualquer de D; queremos mostrar


que ∃ ci tal que p ∤ ci . Sendo f1 (X) e g1 (X) primitivos, podemos
considerar os primeiros coeficientes as e br tais que p ∤ as e p ∤ br .
Então o coeficiente cr+s não é divisı́vel por p, pois temos:

cr+s = a0 br+s + a1 br+s−1 + · · · + as−1 br+1 +


|{z} |{z} |{z}
p divide p divide p divide

+ as b r +
|{z}
p não divide

+ as+1 br−1 + · · · + as+r b0 .


|{z} |{z}
p divide p divide
62 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

1) “⇐” claro.

“⇒” Suponha por absurdo que temos g(X) = h(X)ℓ(X) com


ambos h(X), ℓ(X) ∈ K[X] de grau ≥ 1. Podemos então escrever
h(X) = (a/b)h1 (X) e ℓ(X) = (a′ /b′ )ℓ1 (X) com a, b, a′ , b′ ∈ D,
b 6= 0, b′ 6= 0, h1 (X), ℓ1 (X) ∈ D[X] polinômios primitivos de
grau ≥ 1 e, portanto, temos g(X) = (aa′ /bb′ )h1 (X)ℓ1 (X) ou equi-
valentemente bb′ g(X) = aa′ h1 (X)ℓ1 (X). Vemos que

bb′ c(g(X)) = c(bb′ g(X)) = c(aa′ h1 (X)ℓ1 (X))


= aa′ c(h1 (X)ℓ1 (X)) = aa′ .

Portanto (aa′ /bb′ ) = c(g(X)) ∈ D. Assim,

g(X) = (aa′ /bb′ )h1 (X)ℓ1 (X)

com (aa′ /bb′ )h1 (X) ∈ D[X] de grau ≥ 1 e com ℓ1 (X) ∈ D[X] de
grau ≥ 1, isto é, g(X) é produto de dois fatores de grau ≥ 1 no
anel D[X]; absurdo.

2) Sejam g(X), h(X) dois polinômios primitivos em D[X]. É imedi-


ato ver que se g(X) e h(X) são associados em D[X], então eles são
também associados em K[X]. Reciprocamente, se g(X) e h(X) são
associados em K[X], então temos g(X) = ε · h(X) com ε invertı́vel
em K[X], isto é, com ε ∈ K \ {0}. Sendo K o corpo de frações de
D, temos ε = a/b com a, b ∈ D, b 6= 0. Escrevendo bg(X) = ah(X),
vemos que o conteúdo do lado esquerdo desta igualdade é b e o do
lado direito é a. Não podemos concluir que a = b pois o conteúdo
é definido somente a menos de multiplicação por um elemento in-
vertı́vel de D; no entanto, podemos concluir que a e b são associados
em D, logo que ε = a/b é invertı́vel em D. Portanto g(X) e h(X)
são associados em D[X].
[SEC. II.3: FATORAÇÃO ÚNICA EM ANÉIS DE POLINÔMIOS 63

Demonstração do Teorema II.3.1: Considere um polinômio


f (X) ∈ D[X] ⊆ K[X].
Existência de uma fatoração em elementos irredutı́veis em D[X].
Seja f (X) ∈ D[X] um polinômio de grau ≥ 1. Escreva f (X) =
d · f1 (X), onde d ∈ D é o conteúdo de f (X) e f1 (X) é primi-
tivo em D[X]. Como D é fatorial, o elemento d possui uma fa-
toração d = p1 . . . pt com p1 , . . . , pt irredutı́veis em D e portanto
irredutı́veis em D[X]. Como f1 (X) ∈ D[X] ⊂ K[X], f1 (X) pos-
sui uma fatoração em K[X], digamos f1 (X) = q1 (X) . . . qr (X) com
qi (X) ∈ K[X], qi (X) irredutı́vel em K[X], ∀ i = 1, . . . , r. Escreva
qi (X) = (ai /bi )qi′ (X) com ai , bi ∈ D, bi 6= 0 e qi′ (X) ∈ D[X] primi-
tivo; qi (X) sendo irredutı́vel em K[X], então qi′ (X) é irredutı́vel em
K[X] e logo, pelo Lema II.3.6, qi′ (X) é irredutı́vel em D[X]. Temos
f1 (X) = q1 (X) . . . qr (X) = (a1 . . . ar /b1 . . . br )q1′ (X) . . . qr′ (X)
e portanto,
b1 . . . br f1 (X) = a1 . . . ar q1′ (X) . . . qr′ (X).
O conteúdo do lado esquerdo da igualdade é b1 . . . br pois f1 (X) é
primitivo; o conteúdo do lado direito é a1 . . . ar pois cada qi′ (X) é
primitivo. Portanto b1 . . . br e a1 . . . ar são associados em D, e logo
(a1 . . . ar /b1 . . . br ) é um elemento invertı́vel de D. Denotando este
elemento por η, temos que
f (X) = (ηp1 )p2 . . . pt · q1′ (X) . . . qr′ (X)
é uma fatoração de f (X) em elementos irredutı́veis de D[X].
Unicidade da fatoração. Considere duas fatorações em D[X]:
fatores irredutı́veis de grau ≥ 1
z }| {
f (X) = p1 . . . pt · q1 (X) . . . qr (X)
| {z }
fatores irredutı́veis de grau 0

e
fatores irredutı́veis de grau ≥ 1
z }| {
f (X) = u ...u ′ · v1 (X) . . . vr′ (X)
| 1 {z t}
fatores irredutı́veis de grau 0
64 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

Vemos que p1 . . . pt e u1 . . . ut′ são ambos iguais ao conteúdo de f (X)


e logo p1 . . . pt = εu1 . . . ut′ , com ε invertı́vel em D. Pela unicidade
da fatoração em D, obtemos que t = t′ e, módulo a ordem, pi e
ui são associados em D e logo também em D[X]. Agora, temos
εq1 (X) . . . qr (X) = v1 (X) . . . vr′ (X); pela hipótese, os qi (X) e os
vi (X) são irredutı́veis em D[X], logo são irredutı́veis em K[X] (pelo
Lema II.3.6). Pela unicidade da fatoração em K[X] obtemos que
r = r′ e, módulo a ordem, que qi (X) e vi (X) são associados em
K[X]; qi (X) e vi (X) sendo irredutı́veis em D[X] de grau ≥ 1, eles
são primitivos em D[X], e portanto, são associados em D[X] (pelo
Lema II.3.6).

Exercı́cio II.3.7. No teorema anterior, dê uma nova prova da uni-


cidade da fatoração em D[X], verificando que a condição (ii’) da
Proposição II.1.8 está satisfeita.

Exercı́cio II.3.8. Seja D um domı́nio fatorial e seja K seu corpo


das frações.

a) Se f (X) ∈ K[X] tem algum coeficiente igual a 1 (por exem-


plo se f (X) é mônico), então existe d ∈ D tal que df (X) é
primitivo em D[X].

b) Sejam f1 (X) e f2 (X) ∈ K[X], ambos com algum coeficiente


igual a 1. Se f1 (X)f2 (X) ∈ D[X], então ambos f1 (X) e f2 (X)
estão em D[X].
Dica: No item b), utilize o item a) e o item 3) do Lema II.3.6.

c) Seja f1 (X) primitivo em D[X]. Se f2 (X) ∈ K[X] é tal que


f1 (X) · f2 (X) ∈ D[X], então f2 (X) ∈ D[X].

A seguir, enunciamos um resultado importante sobre anéis de


polinômios (colocado neste ponto do livro embora não envolva o
teorema de Gauss).
[SEC. II.4: EXERCÍCIOS 65

Proposição II.3.9. (Decomposição em frações parciais).


Sejam K um corpo e K(X) o corpo de frações de K[X].
Q
1) Sejam a(X), b(X) ∈ K[X] e seja b(X) = ti=1 pi (X)ri a fa-
toração de b(X) em elementos irredutı́veis de K[X]. Então é
possı́vel encontrar efetivamente c1 (X), . . . , ct (X) ∈ K[X] tais
que
t
a(X) X ci (X)
= .
b(X) p (X)ri
i=1 i

2) Sejam c(X) ∈ K[X], p(X) ∈ K[X] irredutı́vel de grau d e r


um inteiro positivo. Então é possı́vel encontrar efetivamente
α(X), β1 (X), . . . , βr (X) ∈ K[X] com grau βj (X) < d (ou
βj (X) = 0) tais que
r
X βj (X)
c(X)
= α(X) + .
p(X)r j=1
p(X)j

Demonstração. 1) Aplique o Corolário II.2.3.1) com f1 (X) :=


p1 (X)r1 . . . pt−1 (X)rt−1 , f2 (X) := pt (X)rt e k(X) = a(X), e faça
uma indução sobre t.
2) Faça divisões sucessivas por p(X).

II.4 Exercı́cios
1. Calcular o M.D.C. em Q[X] dos seguintes pares de polinômios:

a) X 4 + X 3 + 2X 2 + X + 1 e X 3 + 4X 2 + 4X + 3.
b) 4X 5 + 7X 3 + 2X 2 + 1 e 3X 3 + X + 1.
c) X 4 + X 3 + 2X 2 + 3X + 1 e X 4 + X 3 − 2X 2 − X + 1.

2. Calcular o M.D.C. em Z[i] dos seguintes pares de elementos:


a) 8 + 9i e −1 + 7i.
b) 3 + 2i e 2 − i.
66 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

√ √
3. Seja Z[i 7] = {a + ib 7 | a, b ∈ Z} com a adição e a multi-
plicação usuais em C.

a) Procurar os elementos invertı́veis de Z[i 7].
Dica: Use a função norma (N (γ) = γγ̄, ∀ γ ∈ C).

b) Mostrar que Z[i 7] não é um domı́nio fatorial.
√ √
Dica: Mostre que 2.2.2.2 e (3 + i 7)(3 − i 7) são √ fa-
torações distintas em elementos irredutı́veis de Z[i 7].

4. Seja N : Z[i] → N a função norma.

a) Seja α ∈ Z[i]. Se N (α) é irredutı́vel em Z, mostre que α


é irredutı́vel em Z[i].
b) Sejam α, β dois elementos de Z[i] e seja γ o M.D.C. de
α e β em Z[i].
1) Mostre que N (γ) divide o M.D.C. de N (α) e N (β)
em Z.
2) Se N (α) e N (β) são primos entre si em Z, mostre
que α e β são primos entre si em Z[i].
c) Mostre que a recı́proca de b) é falsa, exibindo dois ele-
mentos α, β ∈ Z[i] tais que
(
α e β são primos entre si em Z[i].
N (α) e N (β) não são primos entre si em Z.

5. Seja ϕ : A1 → A2 um homomorfismo de anéis. Mostre que

a) ϕ(A∗1 ) ⊆ A∗2 .
b) A inclusão em a) pode ser estrita, mesmo se supomos
que ϕ é um homomorfismo sobrejetivo.

6. Seja D um domı́nio que não é um corpo e seja α 6= 0 um


elemento não-invertı́vel em D. Seja D[X] o anel de polinômios
em uma indeterminada com coeficientes em D.
[SEC. II.4: EXERCÍCIOS 67

a) Mostre que o maior divisor comum entre α e X existe


em D[X] e é igual a 1.
b) Mostre que não existem e(X), f (X) ∈ D[X] tais que
e(X) · α + f (X) · X = 1.
c) Mostre que o ideal (α, X) de D[X] não é principal.

7. Sejam F um corpo e F [X, Y ] o anel de polinômios em duas


variáveis. Mostre que F [X, Y ] não é domı́nio principal.

a(X)
8. Determine a decomposição em frações parciais de b(X)
nos
casos seguintes:

a) Em Q[X], a(X) = 1 e b(X) = (X + 2)2 (X + 3)(X + 5).


b) Em Q[X], a(X) = 1 e b(X) = (X 2 − 2)(X 3 − 2).
c) Em R[X], a(X) = 1 e b(X) = (X 2 − 2)(X 3 − 2).

9. Seja D um domı́nio.

a) Mostre que um elemento primo não-nulo é irredutı́vel.


b) Mostre que a recı́proca é falsa em geral, isto é, podem
existir elementos irredutı́veis que não são primos. A
Proposição II.1.8 diz que a recı́proca é verdadeira se D
é um domı́nio fatorial.

10. a) Seja F11 := Z/11Z. Mostre que X 2 + 1̄ é irredutı́vel em


F11 [X]. Mostre que o ideal (X 2 + 1̄) é maximal de F11 [X].
Mostre que F11 [X]/(X 2 + 1̄) é um corpo com 121 elementos.
b) Sejam p um número primo e Fp := Z/pZ. Seja f (X)
um polinômio irredutı́vel em Fp [X] de grau n. Mostre que
Fp [X]/(f (X)) é um corpo com pn elementos.
68 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

11. Seja D um domı́nio principal.

a) Se p é um elemento irredutı́vel de D, mostre que D/(p)


é um corpo.
b) Seja p um ideal não-nulo de D. Mostre que as condições
seguintes são equivalentes:
(i) p é um ideal maximal.
(ii) p é um ideal primo.
(iii) existe irredutı́vel p ∈ D tal que p = (p).

12. Sejam D um domı́nio e K seu corpo de frações. Um subcon-


junto S de D é dito sistema multiplicativo de D se

s1 , s2 ∈ S ⇒ s1 s2 ∈ S.

1 ∈ S.


0∈/ S.

Dado um tal S, seja DS := {ξ ∈ K; ∃ d ∈ D, ∃ s ∈ S tais que


ξ = d/s}. Mostre que DS é um subanel de K que contém o
domı́nio D. Mostre que
 
ideais primos p de D
−→ {ideais primos de DS }
tais que p ∩ S = ∅
p
p 7−→ { ; p ∈ p, s ∈ S}
s
é uma bijeção, cuja inversa é dada por

P ∩ D ←p P.

13. Seja C(X) o corpo de frações de C[X]. Mostre que todo


elemento de C(X) pode ser escrito como uma soma de um
polinômio em C[X] com uma combinação C-linear de termos
da forma (X − a)−n , onde a ∈ C e n ∈ N.
[SEC. II.4: EXERCÍCIOS 69

14. Seja m um inteiro livre de quadrados tal que m ≡ 1(mod 4).


Considere o anel
√ √
Z[ m] = {a + b m | a, b ∈ Z}.

a) Mostre que 2 é irredutı́vel em Z[ m].
√ √
b) Verifique
√ que 2 ∤ (1 + m) e que 2 ∤ (1 − m) no anel
Z[ m].

√ no anel Z[ m][X], os√
c) Verifique que polinômios f (X) =
2X − (1 + m) e g(X) = 2X − (1 − m) são primitivos,
mas f (X) · g(X) não é primitivo.

d) Conclua que Z[ m] não é domı́nio fatorial.

Dica (item
√ a)): Verifique que a função ϕ definida por
ϕ(a + b m) = a√2 − b2 m preserva a multiplicação. Se 2 = α · β
com α, β ∈ Z[ m], então 4 = ϕ(α) · ϕ(β). Raciocinando
módulo 4, mostre que |a2 − b2 m| = 2 é impossı́vel.

15. a) Sejam A1 , . . . , At anéis e B := A1 × · · · × At o produto


direto. Seja B ∗ o conjunto dos elementos invertı́veis de B.
Verifique que B ∗ = {(α1 , . . . , αt ) ∈ B; αi é invertı́vel em Ai ,
∀ i = 1, . . . , t}.
b) Sejam n, r dois inteiros. Mostre que r̄ é invertı́vel no anel
Z/nZ se e somente se n e r são primos entre si, e portanto
que #(Z/nZ)∗ = #{1 ≤ r ≤ n; M.D.C.{r, n} = 1}.
c) Seja Φ : N → N a função de Euler , isto é, a função definida
por
Φ(n) := #{1 ≤ r ≤ n; M.D.C.{r, n} = 1}.

c.1) Mostre que se n1 , . . . , nt são inteiros positivos dois a dois


primos entre si, então Φ(n1 . . . nt ) = Φ(n1 ) . . . Φ(nt ).
c.2) Mostre que se p é um número primo e u é um inteiro
positivo, então Φ(pu ) = pu−1 (p − 1).
70 [CAP. II: FATORAÇÃO ÚNICA

c.3) Concluir que se p1 , . . . , pt são os números primos que


dividem o inteiro positivo n, então

(p1 − 1) . . . (pt − 1)n


Φ(n) = .
p1 . . . pt
Capı́tulo III

Polinômios

III.1 Raı́zes e Fatores de um Polinômio


Dados um anel A e um polinômio f (X) ∈ A[X], vamos relacionar
os fatores mônicos de grau 1 de f (X) em A[X] com as raı́zes de
f (X) em A.

Proposição III.1.1. Sejam A um anel, f (X) ∈ A[X] e α ∈ A.


Então f (α) = 0 se e somente se existe um polinômio t(X) ∈ A[X]
tal que f (X) = (X − α)t(X).

Demonstração. Pela Proposição I.3.9, sabemos que existem


t(X), r(X) ∈ A[X] tais que f (X) = (X − α)t(X) + r(X) com
grau r(X) < grau(X − α) = 1 ou r(X) = 0, isto é, com r(X) uma
constante. Então f (α) = (α − α)t(α) + r(α) = r(α) = r(X) e
portanto f (α) = 0 ⇔ r(X) = 0 ⇔ f (X) = (X − α)t(X).

Definição III.1.2. Sejam A um anel, f (X) ∈ A[X], α ∈ A, e um


inteiro s ≥ 1. Dizemos que α é uma raiz de f (X) de multiplicidade
s se (X − α)s divide f (X) mas (X − α)s+1 não divide f (X).

Corolário III.1.3. Sejam A um anel, f (X) ∈ A[X], α ∈ A, e seja


s ≥ 1 um inteiro. Então as afirmações seguintes são equivalentes:

(i) α é uma raiz de f (X) de multiplicidade s.

71
72 [CAP. III: POLINÔMIOS

(ii) Existe h(X) ∈ A[X] tal que f (X) = (X − α)s h(X) com
h(α) 6= 0.

Demonstração. (i) ⇒ (ii). Aplique a Proposição III.1.1.


(ii) ⇒ (i). Devemos mostrar que (X − α)s+1 não divide f (X).
Suponha que (X −α)s+1 divida f (X). Temos então (X −α)s h(X) =
f (X) = (X − α)s+1 ℓ(X) para algum polinômio ℓ(X) ∈ A[X],
logo (X − α)s [h(X) − (X − α)ℓ(X)] = 0. Como (X − α)s é um
polinômio mônico, obtemos h(X) − (X − α)ℓ(X) = 0 (verifique).
Então h(X) = (X − α)ℓ(X) e portanto h(α) = 0, o que contradiz
nossa hipótese.
Definição III.1.4. Seja A um anel. Seja f (X) = cr X r +cr−1 X r−1 +
· · · + c1 X + c0 ∈ A[X]. Sua derivada é o polinômio

f ′ (X) = rcr X r−1 + (r − 1)cr−1 X r−2 + · · · + c1 .

É fácil verificar que se f (X) = g(X)h(X), então

f ′ (X) = g ′ (X)h(X) + g(X)h′ (X).

Definimos indutivamente as derivadas de ordem superior f (n) (X),


n ≥ 1, de um polinômio f (X) ∈ A[X] da maneira seguinte:

f (1) (X) = f ′ (X) e f (n) (X) = (f (n−1) )′ (X).

Exercı́cio III.1.5. Seja e um inteiro ≥ 1. Seja α ∈ A uma raiz de


f (X) ∈ A[X] com multiplicidade ≥ e. Escreva

f (X) = (X − α)e · h(X), com h(X) ∈ A[X].

Seja n ∈ N tal que 1 ≤ n ≤ e. Mostre que existe h1 (X) ∈ A[X] tal


que

f (n) (X) = e(e−1) . . . (e−n+1)(X−α)e−n ·h(X)+(X−α)e−n+1 ·h1 (X).

Exercı́cio III.1.6. Sejam A um anel, f (X) ∈ A[X] e α ∈ A.

a) Mostre que α é raiz de f (X) com multiplicidade 1 se e somente


se f (α) = 0 e f ′ (α) 6= 0.
[SEC. III.1: RAÍZES E FATORES DE UM POLINÔMIO 73

b) Suponha que A seja um domı́nio contendo Z. Mostre que


α é raiz de f (X) com multiplicidade e ≥ 2 se e somente se
0 = f (α) = f ′ (α) = · · · = f (e−1) (α) e f (e) (α) 6= 0.

Corolário III.1.7. Sejam D um domı́nio e 0 6= f (X) ∈ D[X].


Então:

1) Número de raı́zes de f (X) em D (contando as multiplici-


dades) ≤ grau f (X).

2) Chamando α1 , . . . , αr essas raı́zes e denotando por e1 , . . . , er


as suas multiplicidades, temos

f (X) = (X − α1 )e1 . . . (X − αr )er t(X),

onde t(X) ∈ D[X] é um polinômio que não tem raiz em D.

Demonstração. • Se f (X) não tem raiz em D, acabou.


• Se f (X) tem uma raiz α1 em D de multiplicidade e1 , então

f (X) = (X − α1 )e1 t1 (X)

com t1 (X) ∈ D[X] e t1 (α1 ) 6= 0. Se f (X) não tem outra raiz, então
acabou, pois:

#{raı́zes de f (X) em D} = e1 ≤ e1 + grau t1 (X) = grau f (X).

• Se f (X) tem uma outra raiz α2 em D de multiplicidade e2 , então


(∗)
f (X) = (X − α1 )e1 t1 (X) = (X − α2 )e2 h1 (X)

com h1 (X) ∈ D[X] e h1 (α2 ) 6= 0. Se K denota o corpo de frações


de D, então K[X] é um domı́nio fatorial e f (X) tem uma única
fatoração em polinômios irredutı́veis em K[X]. Como X − α1 e
X − α2 são irredutı́veis e não são associados, então em vista da
igualdade (∗), existe t2 (X) ∈ K[X] tal que

t1 (X) = (X − α2 )e2 t2 (X).


74 [CAP. III: POLINÔMIOS

Por outro lado, já que t1 (X) e (X − α2 )e2 ∈ D[X] e que (X − α2 )e2
é mônico, temos t2 (X) ∈ D[X] (vide Exercı́cio I.3.10) e portanto

f (X) = (X − α1 )e1 (X − α2 )e2 t2 (X)

com t2 (X) ∈ D[X], t2 (α1 ) 6= 0 e t2 (α2 ) 6= 0. Se f (X) não tem outra


raiz em D, então acabou pois:

#{raı́zes de f (X) em D} = e1 + e2 ≤ grau f (X).

• Se f (X) tem uma outra raiz α3 em D de multiplicidade e3 , então


temos:

f (X) = (X − α1 )e1 (X − α2 )e2 t2 (X) = (X − α3 )e3 h2 (X)

com h2 (X) ∈ D[X] e h2 (α3 ) 6= 0, e obteremos

t2 (X) = (X − α3 )e3 t3 (X) com t3 (X) ∈ D[X].

O processo tem que terminar pois grau f (X) > grau t1 (X) >
grau t2 (X) > . . . .

Observação III.1.8. O Corolário III.1.7 é falso em geral se D é um


anel que não é domı́nio. De fato é possı́vel construir, por exemplo,
um anel A e um polinômio f (X) ∈ A[X] de grau 1 tal que f (X)
possui um número infinito de raı́zes em A: basta tomar

Q[Y, Z]
A= e f (X) = Ȳ X ∈ A[X] (verifique).
(Y Z)

Corolário III.1.9. Seja D um domı́nio. Sejam f (X), g(X) dois


polinômios em D[X] de grau ≤ n tais que f (α) = g(α) para (n + 1)
elementos α distintos de D. Então f (X) = g(X).

Demonstração. Basta aplicar o Corolário III.1.7 ao polinômio


f (X) − g(X).
[SEC. III.1: RAÍZES E FATORES DE UM POLINÔMIO 75

Corolário III.1.10. (Fórmula de interpolação de Lagrange)


Seja K um corpo. Sejam a1 , . . . , an+1 elementos distintos de K.
Sejam b1 , . . . , bn+1 elementos (talvez não-distintos) de K.
Então existe um único polinômio f (X) ∈ K[X] com grau f ≤ n
tal que f (ai ) = bi , ∀i = 1, 2, . . . , n + 1. Este polinômio é dado por
n+1
X (X − a1 ) . . . (X \ − ai ) . . . (X − an+1 )
f (X) = bi ,
i=1 (ai − a1 ) . . . (a\
i − ai ) . . . (ai − an+1 )

onde o sı́mbolo c significa que omitimos o fator.


Demonstração. É claro que f (X) satisfaz as propriedades dese-
jadas. A unicidade decorre do Corolário III.1.9.
A proposição seguinte mostra que os polinômios homogêneos
(i.e., polinômios envolvendo somente monômios de mesmo grau) de
duas variáveis têm um comportamento similar aos de uma.
Proposição III.1.11. Seja K um corpo e seja f (X, Y ) = a0 X n +
a1 X n−1 Y + · · · + an Y n um polinômio não-nulo de K[X, Y ], ho-
mogêneo de grau n.

a) Seja α ∈ K. Então α é raiz de f (X, 1) se e somente se


(X − αY ) divide f (X, Y ) em K[X, Y ].
Q
b) Se K = C, então f (X, Y ) = ni=1 (bi X + ci Y ) com bi , ci ∈ C.

Demonstração. a) Se f (X, Y ) = (X −αY )g(X, Y ), então é claro


que f (X, 1) = (X − α)g(X, 1) e portanto que α é raiz de f (X, 1).
Reciprocamente, se f (X, 1) = (X − α)(b0 X n−1 + · · · + bn−1 ), então
substituindo X pelo valor X Y
e multiplicando os dois lados por Y n ,
obtemos f (X, Y ) = (X − αY )(b0 X n−1 + · · · + bn−1 Y n−1 ).
b) Escreva f (X, Y ) = X r Y s (d0 X u +d1 X u−1 Y +· · ·+du Y u ) com
d0 6= 0 6= du . Denote por h(X, Y ) := d0 X u + d1 X u−1 Y + · · · + du Y u .
Sejam α1 , α2 , . . . , αu em C as raı́zes de h(X, 1); assim,
  Yu  
X X
h , 1 = d0 · − αi .
Y i=1
Y
76 [CAP. III: POLINÔMIOS

Multiplicando a igualdade acima por Y u , obtemos


u
Y
h(X, Y ) = d0 · (X − αi Y ).
i=1

Como f (X, Y ) = X r Y s h(X, Y ), obtivemos a decomposição dese-


jada para o polinômio f (X, Y ).

III.2 Critérios de Irredutibilidade


Já mencionamos que em geral, mesmo se D for um domı́nio fatorial
(ou até um corpo), pode não existir um algorı́tmo que determine se
um polinômio qualquer f (X) ∈ D[X] é irredutı́vel ou não. Mesmo
que um tal algorı́tmo exista (é o caso por exemplo em Z[X]), ele
pode ser tão “lento” que na prática não seja de grande utilidade.
(Ver por exemplo, van der Waerden, Modern Algebra, Cap. IV,
§25). Vamos estabelecer algumas condições suficientes para que
um polinômio f (X) ∈ D[X] seja irredutı́vel. Primeiro, lembramos
que no caso de D ser um domı́nio fatorial com corpo de frações K,
a irredutibilidade de f (X) em D[X] está intimamente relacionada
com a irredutibilidade de f (X) em K[X] (vide Lema II.3.6). Em
geral vai ser mais fácil procurar os fatores em D[X] pois D sendo
um conjunto menor que K, existem menos fatores plausı́veis para
serem testados em D[X]. Ilustramos isto com alguns exemplos.

Exemplo III.2.1. Seja f (X) = X 4 − X 2 + 1 ∈ Z[X]. Vamos


mostrar que f (X) é irredutı́vel em Z[X]. Claramente f (X) é pri-
mitivo, de modo que basta mostrar que f (X) não é um produto de
dois fatores de grau ≥ 1 em Z[X].
• f (X) não tem fator de grau 1 em Z[X]; com efeito, se ele tivesse,
este fator (que tem que ser mônico pois f (X) é mônico) seria do tipo
X − a com a ∈ Z, isto é, terı́amos X 4 − X 2 + 1 = (X − a)g(X) com
g(X) ∈ Z[X]; olhando para o termo constante, terı́amos 1 = am
com m ∈ Z, logo a = ±1, isto é, ±1 seria raiz de X 4 − X 2 + 1;
no entanto, é imediato verificar que nem 1, nem −1, são raı́zes de
[SEC. III.2: CRITÉRIOS DE IRREDUTIBILIDADE 77

X 4 − X 2 + 1. (Observe que se tivéssemos trabalhado em Q[X] no


lugar de Z[X], a priori a poderia ser qualquer elemento 6= 0 de Q
e logo não daria para verificar, um por um, que nenhum a de Q é
raiz de f (X)).
• f (X) não tem fator g(X) de grau 3 em Z[X]; com efeito, se
ele tivesse, terı́amos f (X) = g(X)h(X), onde h(X) ∈ Z[X] teria
necessariamente grau 1; mas isto é impossı́vel pelo caso precedente.
• f (X) não tem fator de grau 2 em Z[X]; com efeito, se ele tivesse,
terı́amos

X 4 − X 2 + 1 = (X 2 + aX + b)(X 2 + cX + d) com a, b, c, d ∈ Z

(termo constante) 1 = bd, logo b = d = ±1;


(termo em X) 0 = ad + bc
= b(a + c), logo a = −c;
2
(termo em X ) − 1 = d + ac + b
= 2b − a2 , logo a2 − 1 = 2b = ±2;

assim a2 = 3 ou a2 = −1, o que é impossı́vel.

Exemplo III.2.2. Seja f (X) = X 4 + aX 2 − 1 ∈ Z[X] com a 6= 0.


Então f (X) é irredutı́vel em Z[X] (verifique).

Agora, se A é um anel e I é um ideal de A, já sabemos que a


aplicação

A[X] −→ (A/I)[X]
f (X) := Σai X i 7−→ f¯(X) := Σāi X i

é um homomorfismo de anéis.
Escolhendo o ideal I de maneira adequada, pode-se esperar que
o anel A/I seja relativamente simples para a análise do polinômio
reduzido f (X). Conseguindo informações sobre o reduzido, pode-
mos esperar traduzı́-las em informações sobre o polinômio f (X).
78 [CAP. III: POLINÔMIOS

Proposição III.2.3. Sejam A um domı́nio, I um ideal de A e


f (X) ∈ A[X] um polinômio mônico. Se o polinômio reduzido f (X)
é irredutı́vel em (A/I)[X], então f (X) é irredutı́vel em A[X].

Demonstração. Exercı́cio.

Proposição III.2.4. Seja f (X) ∈ Z[X] um polinômio mônico.


Seja p um número primo.

a) Sejam γ 1 , . . . , γ r as raı́zes de f (X) em Z/pZ. Caso f (X)


tenha uma raı́z α ∈ Z, então existe um ı́ndice i ∈ {1, . . . , r}
tal que α ≡ γi (mod p).

b) Suponha que grau f (X) ≥ 3 e que f (X) = (X − γ)ϕ(X) com


ϕ(X) irredutı́vel em (Z/pZ)[X]. Então f (X) é irredutı́vel em
Z[X], ou f (X) possui uma raı́z α ∈ Z tal que α ≡ γ(mod p).

Demonstração. a) Como p é um número primo, então Z/pZ é um


corpo, logo (Z/pZ)[X] é um domı́nio fatorial e X − γ 1 , . . . , X − γ r
são os fatores irredutı́veis de grau 1 de f (X). Caso f (X) tenha
uma raı́z α em Z, então X − α é um fator de f (X) em Z[X], logo
X − α é um fator de f (X) em (Z/pZ)[X], logo existe um ı́ndice
i ∈ {1, . . . , r} tal que α = γ i , i.e., tal que α ≡ γi (mod p).
b) Suponha que f (X) não seja irredutı́vel em Z[X], logo que
f (X) = g(X)h(X) com g(X), h(X) ∈ Z[X] mônicos de grau ≥ 1.
Temos então

f (X) = g(X)h(X) em (Z/pZ)[X].

Pela hipótese, f (X) = (X − γ)ϕ(X) é uma fatoração em elementos


irredutı́veis em (Z/pZ)[X]. Como (Z/pZ)[X] é um domı́nio fatorial,
concluı́mos que g(X) = X − γ ou h(X) = X − γ, e portanto que
g(X) = X − α ou h(X) = X − α com α ∈ Z, α ≡ γ mod p.

Exemplo III.2.5. a) Seja f (X) = X 3 + (1329!)X 2 + 3002X +


12.001 ∈ Z[X]. Olhando módulo 3, temos

f¯(X) = X 3 + 2̄X + 1̄ ∈ (Z/3Z)[X].


[SEC. III.2: CRITÉRIOS DE IRREDUTIBILIDADE 79

Este polinômio f¯(X) é irredutı́vel em (Z/3Z)[X] pois, se ele fosse


redutı́vel em (Z/3Z)[X], então ele teria um fator de grau 1, logo
possuiria uma raiz em (Z/3Z), o que é absurdo pois f¯(0̄) = 1̄ 6= 0̄,
f¯(1̄) = 1̄ 6= 0̄, f¯(2̄) = 1̄ 6= 0̄. Logo f (X) é irredutı́vel em Z[X].
b) Seja f (X) = X 3 − 15X 2 + 10X − 83 ∈ Z[X]. Olhando agora
módulo 2, temos f¯(X) = X 3 +X 2 +1 ∈ (Z/2Z)[X], que é irredutı́vel
em (Z/2Z)[X]. Logo f (X) é irredutı́vel em Z[X].
Exemplo III.2.6. O polinômio f (X) = X 3 − 15X 2 + 10X − 84 é
irredutı́vel em Z[X].
Demonstração. Basta mostrar que f (X) não tem raı́zes em Z.
Uma raiz em Z tem que ser um divisor de 84, portanto basta ve-
rificar que ±1, ±2, ±3, ±4, ±6, ±7, ±12, ±14, ±21, ±28, ±42 e ±84
não são raı́zes de f (X).
Vamos utilizar a proposição anterior para diminuir o número
destas verificações.

Mod 3Z, temos

f (X) = X(X 2 + 1̄) em (Z/3Z)[X]

e, claramente, X 2 + 1̄ é irredutı́vel em (Z/3Z)[X]. Logo se α é raiz


de f (X) em Z, então α ≡ 0(mod 3). Portanto bastaria verificar que
±3, ±6, ±12, ±21, ±42 e ±84 não são raı́zes de f (X).
Queremos limitar ainda mais o número destas verificações.
Mod 5Z, temos

f (X) = (X − 4̄)(X 2 + 4̄X + 1̄) em (Z/5Z)[X]

e, claramente, X 2 + 4̄X + 1̄ é irredutı́vel em (Z/5Z)[X]. Logo se


α é raiz em Z de f (X), então α ≡ 4(mod 5). Portanto bastaria
verificar que −6, −21 e 84 não são raı́zes de f (X).
Facilmente verifica-se que números inteiros negativos β não são
raı́zes de f (X), pois f (β) < 0. Verifica-se finalmente diretamente
que f (84) 6= 0. Concluimos então que f (X) é irredutı́vel em Z[X].
80 [CAP. III: POLINÔMIOS

Observação III.2.7. O método do Exemplo anterior foi fazer con-


siderações (mod p), para diversos primos p em Z, acumulando então
informações que nos permitiram concluir algo sobre o polinômio
original f (X) de Z[X].
A seguir, estabelecemos um critério que se destaca pela facili-
dade de seu uso quando se conhece os elementos irredutı́veis de um
domı́nio fatorial.
Teorema III.2.8. (Critério de Eisenstein). Sejam D um domı́nio
fatorial e f (X) = an X n +an−1 X n−1 +· · ·+a0 ∈ D[X] um polinômio
de grau n ≥ 1.
Se existe um elemento irredutı́vel p ∈ D tal que

p ∤ a n

p | ai , ∀ i ≤ n − 1,

 2
p ∤ a0 ,
então f (X) não é o produto de dois fatores de grau ≥ 1 em D[X]
(equivalentemente, o polinômio f (X) é irredutı́vel em K[X], onde
K é o corpo de frações de D).
Demonstração. Suponha que a afirmação seja falsa, isto é supo-
nha que f (X) = g(X)h(X) com

s
g(X) = αs X + · · · + α1 X + α0 ∈ D[X], αs 6= 0,

h(X) = βt X t + · · · + β1 X + β0 ∈ D[X], βt 6= 0,


s, t ≥ 1 (equivalentemente, s, t ≤ n − 1).
Temos
 
a0 = α0 β0  p | α0 e p ∤ β0

p | a0 =⇒ ou
 z }| {

p 2 ∤ a0 pois D é fatorial p | β0 e p ∤ α0 .
Digamos que seja o caso p | α0 e p ∤ β0 (o outro caso seria tratado
de maneira análoga). Temos

an = αs βt
=⇒ p ∤ αs e p ∤ βt .
p ∤ an
[SEC. III.2: CRITÉRIOS DE IRREDUTIBILIDADE 81

Seja αu com u ≤ s ≤ n − 1, o coeficiente do termo de mais baixo


grau de g(X) que p não divida e considere o coeficiente au em f (X);
temos

au = α0 βu + α1 βu−1 + · · · + αu−1 β1 + αu β0 ,
| {z } | {z }
p divide p não divide

e portanto p não divide au . Isto contradiz a hipótese que o elemento


p divide ai , ∀ i ≤ n − 1.

Observação III.2.9. Na demonstração do Teorema III.2.8 a hi-


pótese de que D é fatorial somente foi usada para concluir que o
elemento irredutı́vel p ∈ D é um elemento primo (i.e., vale que se
a, b ∈ D e p | ab, então p | a ou p | b). O Critério de Eisenstein
poderia então ter sido enunciado com as hipóteses de D ser um
domı́nio qualquer e p ∈ D ser um elemento primo.

Observação III.2.10. A demonstração apresentada acima do Cri-


tério de Eisenstein pode ser reescrita trabalhando-se módulo o ideal
principal (p) de D. Faremos isto abaixo, onde utilizaremos as
notações já introduzidas na demonstração:
Considere a aplicação

D[X] −→ (D/(p))[X]
k(X) = Σdi X i 7−→ k(X) = Σd¯i X i ,

que sabemos ser um homomorfismo de anéis.


Tendo f (X) = g(X)h(X) em D[X], temos

f (X) = g(X)h(X) em (D/(p))[X].

Da hipótese p | ai , ∀ i ≤ n − 1, obtemos

ān X n = (ᾱs X s + · · · + ᾱ0 )(β̄t X t + · · · + β̄0 ).

Da hipótese p ∤ an , obtemos

0 6= an X n .
82 [CAP. III: POLINÔMIOS

Da hipótese p2 ∤ a0 = α0 β0 , obtemos p ∤ α0 ou p ∤ β0 , i.e.,

α0 6= 0 ou β 0 6= 0.

Suponhamos que β 0 6= 0 em D/(p). (O caso α0 6= 0 seria tratado


de maneira análoga). Como f (X) = an X n é um polinômio não-
nulo, então g(X) também é não-nulo; seja αu X u seu monômio de
menor grau. Então β 0 αu X u é o monômio de menor grau do produto
g(X)h(X) = f (X) = an X n , e portanto u = n, o que é absurdo pois
u ≤ s ≤ n − 1 < n.

Exemplo III.2.11. a) f (X) = X 4 + 45X + 15 é irredutı́vel em


Z[X]. De fato, Z sendo fatorial, podemos aplicar o critério de
Eisenstein com o elemento irredutı́vel p = 3 (ou p = 5) para obter
que f (X) não é produto de dois fatores de grau ≥ 1 em Z[X]; já
que f (X) não tem também fatores não-invertı́veis de grau 0, então
f (X) é irredutı́vel em Z[X].

b) f (X) = 2X 4 + 3X + 3 é irredutı́vel em Z[X].

c) f (X) = 2X 7 + 3r X 5 + 3 é irredutı́vel em Z[X].

d) f (X) = 10X 11 + 6X 3 + 6 é irredutı́vel em Q[X] (não em Z[X]).

e) f (X) = X 5 + 2X 3 + (1 + i) é irredutı́vel em Z[i][X].

Exemplo III.2.12. (p-ésimo polinômio ciclotômico) Seja p um pri-


mo. Então f (X) = X p−1 + X p−2 + · · · + 1 é irredutı́vel em Z[X].

Demonstração. Já que f (X) não tem fatores de grau 0, resta


verificar que f (X) não é o produto de dois polinômios de grau ≥ 1
em Z[X]. Suponhamos que f (X) = g(X)h(X) com g(X), h(X) ∈
Z[X] de grau ≥ 1, logo que f (X + 1) = g(X + 1) · h(X + 1); observe
que g(X + 1) e h(X + 1) são polinômios em Z[X], de grau ≥ 1.
Então, para obter uma contradição, basta provar que f (X + 1) é
[SEC. III.2: CRITÉRIOS DE IRREDUTIBILIDADE 83

um polinômio irredutı́vel em Z[X]. Ora,

f (X + 1) = (X + 1)p−1 + (X + 1)p−2 + · · · + (X + 1) + 1
(X + 1)p − 1
=
(X + 1) − 1
X p + Cp1 X p−1 + · · · + Cpp−1 X + 1 − 1
=
X
p−1 1 p−2
=X + Cp X + · · · + Cpp−2 X + p,

onde o sı́mbolo Cpi denota o coeficiente binomial.


Agora afirmamos que p | Cpi , ∀ i ∈ {1, . . . , p − 1}. Temos,

p(p − 1) . . . (p − i + 1)
N ∋ Cpi = ;
i!

como i < p, todos os fatores irredutı́veis de i! são menores que p;


como p é primo e como i! divide p(p − 1) . . . (p − i + 1), obtemos
que i! divide o produto (p − 1) . . . (p − i + 1) e, conseqüentemente,
que o coeficiente binomial Cpi é múltiplo de p.
Aplicando o Critério de Eisenstein ao polinômio f (X + 1) com
o primo p, concluı́mos que f (X + 1) é irredutı́vel em Z[X].

Exemplo III.2.13. Seja p um primo. Então,

f = X p−1 − X p−2 + X p−3 − · · · − X + 1 é irredutı́vel em Z[X].

Demonstração. Similar ao exemplo precedente, usando f (X −1)


no lugar de f (X + 1). Faça esta demonstração.

Exercı́cio III.2.14. (“dual” do Critério de Eisenstein)


Sejam D um domı́nio fatorial e f (X) = an X n + · · · + a0 ∈ D[X]
um polinômio de grau n ≥ 1. Suponha que exista um elemento
primo p ∈ D tal que p ∤ a0 , p | ai , ∀ i ≥ 1, p2 ∤ an . Mostre que f (X)
não é o produto de dois fatores de grau ≥ 1 em D[X].
84 [CAP. III: POLINÔMIOS

III.3 Resultante de dois Polinômios


Seja D um domı́nio fatorial. Dados f (X), g(X) ∈ D[X] dois po-
linômios de grau ≥ 1, estudamos neste parágrafo a questão de
f (X) e g(X) possuirem um fator comum em D[X] de grau ≥ 1.
Poderı́amos estudar esta questão através de aplicações repetidas do
algorı́tmo de Euclides. No entanto, será conveniente introduzir um
novo conceito: a resultante de dois polinômios.

Definição III.3.1. Seja D um domı́nio. Sejam


(
f (X) = a0 X n + a1 X n−1 + · · · + an , a0 6= 0,
g(X) = b0 X m + b1 X m−1 + · · · + bm , b0 = 6 0,

dois polinômios em D[X] de grau ≥ 1. A resultante de f (X) e


g(X), denotada por Rf,g , é o elemento do domı́nio D dado pelo
determinante da matriz (m + n) × (m + n) abaixo:


a0 a1 · · · an 

.. .. 
a0 · · · . . an  
 
.. .. .. 
. . .
.. .. ..  m linhas

. . .  
.. ..  

. . a0 ··· ··· · · · an 
Rf,g := .. ,

b0 b1 · · · . bm−1 bm 
 
.
· · · .. · · · bm−1 bm  
b0 
..
.  n linhas

..  
. ··· ···  

b0 ··· ··· · · · bm

sendo que existem m linhas de ai ’s e existem n linhas de bi ’s, e as


linhas são completadas com zeros.
A resultante entre um polinômio f (X) e sua derivada f ′ (X)
(quando f ′ (X) não é constante), é chamada discriminante de f (X).
[SEC. III.3: RESULTANTE DE DOIS POLINÔMIOS 85

Exemplo III.3.2. Seja f (X) = X 3 + a2 X + a3 ∈ C[X]. Vamos


calcular o discriminante de f (X). Temos
f (X) = X 3 + 0X 2 + a2 X + a3 ,
f ′ (X) = 3X 2 + 0X + a2 ,


1 0 a2 a3 0

0 1 0 a2 a3

Rf,f ′ = 3 0 a2 0 0 = 4a32 + 27a23 .
0 3 0 a2 0

0 0 3 0 a2

Antes de procurar as informações que a resultante Rf,g carrega,


vamos mostrar que a resultante pode ser escrita como uma certa
combinação linear não trivial dos polinômios f (X) e g(X). Mais
precisamente:
Lema III.3.3. Seja D um domı́nio. Sejam f (X), g(X) ∈ D[X]
dois polinômios de graus n ≥ 1 e m ≥ 1, respectivamente.

a) Se Rf,g 6= 0 e se h(X) ∈ D[X] é um polinômio não-nulo de


grau ≤ n + m − 1, então existe um único par de polinômios
f1 (X), g1 (X) ∈ D[X] tal que

grau f1 (X) ≤ n − 1 ou f1 (X) = 0;

grau g1 (X) ≤ m − 1 ou g1 (X) = 0;


Rf,g h(X) = f1 (X)g(X) + g1 (X)f (X).

b) As afirmações seguintes são equivalentes:

(i) Rf,g = 0.
(ii) Existem polinômios não-nulos f1 (X), g1 (X) ∈ D[X] com

grau f1 (X) ≤ n − 1;

grau g1 (X) ≤ m − 1;


0 = f1 (X)g(X) + g1 (X)f (X).
86 [CAP. III: POLINÔMIOS

Demonstração. Seja h(X) ∈ D[X] um polinômio não-nulo de


grau ≤ n + m − 1, ou o polinômio nulo. Escrevemos

f (X) = a0 X n + a1 X n−1 + · · · + an , com a0 6= 0,


g(X) = b0 X m + b1 X m−1 + · · · + bm , com b0 6= 0,
h(X) = c0 X n+m−1 + · · · + cn+m−1 .

Denotamos por K o corpo das frações do domı́nio D.


Encontrar polinômios f2 (X) = α1 X n−1 + · · · + αn e g2 (X) =
β1 X m−1 +· · ·+βm em K[X] tais que h(X) = f2 (X)g(X)+g2 (X)f (X)
é equivalente a encontrar uma solução em K do seguinte sistema
de (n + m) equações nas (n + m) incógnitas β1 , . . . , βm , α1 , . . . , αn :

(termo em X n+m−1 )   a0 β1 + b0 α1 = c0
n+m−2 

(termo em X ) a1 β1 + a0 β2 + b1 α1 + b0 α2 = c1
(∗) ··· ···


··· 
 ···

(termo constante) an βm + bm αn = cn+m−1 .
A matriz dos coeficientes desse sistema de equações é a transposta
da matriz a partir da qual a resultante Rf,g foi definida; portanto,
seu determinante é igual a Rf,g .
a) Se h(X) é não-nulo, i.e., se os cℓ ’s não são todos iguais a zero,
e se Rf,g 6= 0, então o sistema tem uma única solução em K n+m
que, pela regra de Cramer, é dada por βi = det(Bi )/Rf,g onde Bi
é a matriz obtida a partir da matriz dos coeficientes substituindo
a i-ésima coluna pela coluna dos cℓ ’s (i = 1, . . . , m) e por αj =
det(Bm+j )/Rf,g (j = 1, . . . , n). Observe que det(Bℓ ) ∈ D, ∀ ℓ =
1, . . . , n + m, logo que Rf,g βi ∈ D, ∀ i = 1, . . . , m, e Rf,g αj ∈ D,
∀ j = 1, . . . , n. Tomando então

f1 (X) := Rf,g f2 (X) = Rf,g α1 X n−1 + · · · + Rf,g αn

e
g1 (X) := Rf,g g2 (X) = Rf,g β1 X m−1 + · · · + Rf,g βm ,
teremos
Rf,g h(X) = f1 (X)g(X) + g1 (X)f (X),
[SEC. III.3: RESULTANTE DE DOIS POLINÔMIOS 87

com f1 (X), g1 (X) ∈ D[X] como desejado.


b) Existe um par de polinômios f1 (X), g1 (X) ∈ D[X] ambos não
nulos (equivalentemente, não ambos nulos) tal que

grau f1 (X) ≤ n − 1

grau g1 (X) ≤ m − 1


0 = f1 (X)g(X) + g1 (X)f (X)

se e somente se o sistema de equações (*) com todos os cℓ ’s iguais


a zero tem uma solução não trivial em D. É claro que se este
sistema de equações tem uma solução não-trivial em K, então ele
também tem uma solução não trivial em D (basta multiplicar por
um múltiplo comum dos denominadores). Naturalmente, o sistema
(*) com todos os cℓ ’s iguais a zero tem uma solução não-trivial em
K se e somente se o determinante da matriz dos coeficientes é zero,
i.e., se e somente se Rf,g = 0.
Corolário III.3.4. Sejam D um domı́nio e f (X), g(X) ∈ D[X]
dois polinômios de graus n ≥ 1 e m ≥ 1, respectivamente. Então,
existem polinômios f1 (X), g1 (X) ∈ D[X] tais que:


 f1 (X) e g1 (X) não são ambos nulos

grau f (X) ≤ n − 1 ou f (X) = 0
1 1

 grau g1 (X) ≤ m − 1 ou g1 (X) = 0


Rf,g = g1 (X)f (X) + f1 (X)g(X) ∈ (f (X), g(X)).

Demonstração. Aplique a parte a) do lema anterior com


h(X) = 1 se Rf,g 6= 0, e a parte b) se Rf,g = 0.
Observação III.3.5. 1) Se h(X) ∈ D[X] é um polinômio não-
nulo, e se Rf,g = 0, então pode existir, ou não, polinômios f2 (X),
g2 (X) ∈ K[X] tais que h(X) = f2 (X)g(X)+g2 (X)f (X) (verifique).
2) No caso particular de D ser um corpo e f (X) e g(X) serem
primos entre si, a parte a) do lema já foi obtida no Corolário II.2.3.
Podemos agora enunciar um critério efetivo para reconhecer
quando dois polinômios possuem um fator comum de grau ≥ 1.
88 [CAP. III: POLINÔMIOS

Teorema III.3.6. Sejam D um domı́nio e f (X), g(X) ∈ D[X]


dois polinômios de grau ≥ 1.
a) Se f (X) e g(X) possuem um fator comum de grau ≥ 1 em
D[X], então Rf,g = 0.
b) Se D é um domı́nio fatorial e se Rf,g = 0, então f (X) e g(X)
possuem um fator comum de grau ≥ 1 em D[X].
Demonstração. a) Seja h(X) ∈ D[X] um fator comum de f (X)
e g(X) com grau ≥ 1. Temos
f (X) = h(X)f1 (X) com f1 (X) ∈ D[X], grau f1 (X) < grau f (X),
g(X) = h(X)g1 (X) com g1 (X) ∈ D[X], grau g1 (X) < grau g(X).
É claro que f1 (X)g(X) = g1 (X)f (X); portanto, pelo lema anterior,
segue que Rf,g = 0.
b) Reciprocamente, suponhamos que Rf,g = 0. Pelo lema anterior,
parte b), existem dois polinômios f1 (X), g1 (X) ∈ D[X] tais que:
f1 (X)g(X) = g1 (X)f (X),
com grau f1 (X) < grau f (X) e grau g1 (X) < grau g(X). Como D é
um domı́nio fatorial, então D[X] é um domı́nio fatorial e todos os
fatores irredutı́veis de grau ≥ 1 de f (X) em D[X] devem aparecer
no produto f1 (X)g(X); nem todos eles podem aparecer em f1 (X)
pois temos grau f1 (X) < grau f (X); assim, pelo menos um dos
fatores irredutı́veis de grau ≥ 1 de f (X) deve dividir g(X).
Corolário III.3.7. Sejam D ⊂ D′ dois domı́nios, sendo D fatorial.
Sejam f (X), g(X) ∈ D[X] de grau ≥ 1. Então, f (X) e g(X) têm
um fator comum de grau ≥ 1 em D[X] se (e somente se) eles têm
um fator comum de grau ≥ 1 em D′ [X].
Demonstração. Se os polinômios f (X) e g(X) têm um fator co-
mum de grau ≥ 1 em D′ [X], então Rf,g = 0 pelo Teorema III.3.6a).
Como D é um domı́nio fatorial, e como Rf,g = 0, então f (X) e
g(X) têm um fator comum de grau ≥ 1 em D[X], pelo Teorema
III.3.6b).
[SEC. III.3: RESULTANTE DE DOIS POLINÔMIOS 89

Exercı́cio III.3.8. Sejam D um domı́nio e f (X) e g(X) ∈ D[X]


dois polinômios de grau ≥ 1, tais que Rf,g 6= 0. Seja α ∈ D. Mostre
que se existe x0 ∈ D tal que α divida f (x0 ) e g(x0 ), então α divide
a resultante Rf,g .

Vamos precisar do seguinte resultado técnico:

Proposição III.3.9. Seja D um domı́nio. Sejam

f (X) = a0 X n + a1 X n−1 + · · · + an , a0 6= 0,
g(X) = b0 X m + b1 X m−1 + · · · + bm , b0 = 6 0,

dois polinômios em D[X] de grau ≥ 1. Então a resultante Rf,g é


uma soma de termos do tipo

±ai1 . . . aim bj1 . . . bjn , com i1 + · · · + im + j1 + · · · + jn = nm.

Demonstração.

Rf,g = det(cij )1≤i,j≤m+n ,

onde (
aj−i se i ≤ j ≤ i + n,
• para 1 ≤ i ≤ m, cij =
0 caso contrário.
(
bm+j−i se i − m ≤ j ≤ i,
• para m + 1 ≤ i ≤ m + n, cij =
0 caso contrário.
Agora, det(cij ) é uma soma de termos do tipo

±c1j1 c2j2 . . . cmjm cm+1jm+1 . . . cm+njm+n ,

com {j1 , . . . , jm , jm+1 , . . . , jm+n } = {1, 2, . . . , m + n}.


Um tal termo é igual a zero ou igual a

±aj1 −1 aj2 −2 . . . ajm −m bm+jm+1 −(m+1) . . . bm+jm+n −(m+n) ,

i.e.,
±aj1 −1 aj2 −2 . . . ajm −m bjm+1 −1 . . . bjm+n −n .
90 [CAP. III: POLINÔMIOS

Seja S a soma dos ı́ndices deste termo. Temos:

S = (j1 − 1) + (j2 − 2) + · · · + (jm − m)


+ (jm+1 − 1) + · · · + (jm+n − n)
m+n
X Xm Xn
= jk − u− v
k=1 u=1 v=1
m+n
X m
X n
X
= ℓ− u− v
ℓ=1 u=1 v=1
= nm.

Dado um domı́nio D, dados f (X) = a0 X n + · · · + an , a0 6= 0, e


g(X) = b0 X m +· · ·+bm , b0 6= 0, dois polinômios em D[X] de grau ≥
1, é possı́vel mostrar que sempre existe um corpo L ⊇ D e elementos
x1 , . . . , xn , y1 , . . . , ym ∈ L tais que f (X) = a0 (X − x1 ) . . . (X − xn )
e g(X) = b0 (X − y1 ) . . . (X − ym ).
QÉ claro
Q que f (X) e g(X) têm uma raiz comum em L se e somente
se i j (xi − yj ) = 0. Por outro lado sabemos, pelo Teorema
III.3.6, que f (X) e g(X) têm uma raiz comum em L se e somente
se Rf,g = 0. QIsto Q sugere que deve ter alguma conexão entre Rf,g
e o produto i j (xi − yj ). A proposição seguinte esclarece esse
ponto.

Proposição III.3.10. Seja D um domı́nio. Sejam

f (X) = a0 X n + · · · + an = a0 (X − x1 ) . . . (X − xn ), a0 6= 0,
g(X) = b0 X m + · · · + bm = b0 (X − y1 ) . . . (X − ym ), b0 6= 0,

dois polinômios em D[X], com x1 , . . . , xn , y1 , . . . , ym pertencendo a


algum corpo L ⊇ D. Então,

Y m
n Y n
Y
Rf,g = am n
0 b0 (xi − yj ) = am
0 g(xi ).
i=1 j=1 i=1
[SEC. III.3: RESULTANTE DE DOIS POLINÔMIOS 91

Demonstração. Sejam X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym novas indetermi-


nadas e (
F (X) := a0 (X − X1 ) . . . (X − Xn )
G(X) := b0 (X − Y1 ) . . . (X − Ym ).
Sejam


 F1 (X) := F (X)/a0 = (X − X1 ) . . . (X − Xn )

 = X n + A1 X n−1 + · · · + An

 G1 (X) := G(X)/b0 = (X − Y1 ) . . . (X − Ym )


= X m + B1 X m−1 + · · · + Bm ,

onde, para i ∈ {1, . . . , n},


X
Ai = Ai (X1 , . . . , Xn ) = (−1)i Xk1 . . . Xki
1≤k1 <···<ki ≤n

é um polinômio homogêneo de grau i nas variáveis X1 , . . . , Xn


(lembre-se que o grau de um polinômio é o grau máximo de seus
monômios, onde o grau de um monômio (X1i1 . . . Xnin ) é i1 + · · · + in ,
e que um polinômio é dito homogêneo de grau r se todos seus
monômios têm grau r), e para j ∈ {1, . . . , m},
X
Bj = Bj (Y1 , . . . , Ym ) = (−1)j Y k1 . . . Y kj
1≤k1 <···<kj ≤m

é um polinômio homogêneo de grau j nas variáveis Y1 , . . . , Ym .


Seja P o subanel primo de D, i.e., P = Z se a caracterı́stica de
D é zero e P = Z/pZ se a caracterı́stica de D é p. Note que

F1 (X), G1 (X) ∈ P [X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ][X],

logo que
RF1 ,G1 ∈ P [X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ].
Qn Qm
Afirmação III.3.11. i=1 j=1 (Xi − Yj ) divide RF1 ,G1 em
P [X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ].
92 [CAP. III: POLINÔMIOS

De fato, sejam i ∈ {1, . . . , n} e j ∈ {1, . . . , m}. Substituindo Xi


por Yj , o polinômio F1 (X) se transforma num polinômio Fij (X) e
o polinômio G1 (X) fica inalterado. Os polinômios Fij (X) e G1 (X)
têm um fator comum de grau 1, a saber X − Yj ; portanto, temos
RFij ,G1 = 0 pelo Teorema III.3.6. Mas é claro que RFij ,G1 é obtida
quando se substitui Xi por Yj em RF1 ,G1 . Portanto, Yj é raiz de
RF1 ,G1 considerado como polinômio em Xi com coeficientes em

bi , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ]
P [X1 , . . . , X

(onde Xbi significa que Xi é ausente) e consequentemente, o elemento


(Xi − Yj ) divide RF1 ,G1 em P [X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ].
Todos os polinômios (Xi − Yj )’s sendo primos entre si, e o
Qn Qm P [X1 , . . . , Xm , Y1 , . . . , Ym ] sendo fatorial, obtemos que
domı́nio
i=1 j=1 (Xi − Yj ) divide RF1 ,G1 em P [X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ].

Afirmação III.3.12. RF1 ,G1 é um polinômio homogêneo em


P [X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ] de grau nm.

De fato, pela Proposição III.3.9, temos


X
RF1 ,G1 = ±Ai1 . . . Aim Bj1 . . . Bjn ,
com i1 + · · · + im + j1 + · · · + jn = nm.

Cada termo Ai1 . . . Aim Bj1 . . . Bjn é homogêneo, pois cada Ai e cada
Bj é homogêneo. Além disto, temos

grau(Ai1 . . . Aim Bj1 . . . Bjn )


= grau Ai1 + · · · + grau Aim + grau Bj1 + · · · + grau Bjn
= i1 + · · · + im + j1 + · · · + jn
= nm.

Assim, RF1 ,G1 é um polinômio homogêneo de grau nm, ou RF1 ,G1 =


0; mas esta última alternativa é impossı́vel pois, claramente, F1 e G1
não têm fator comum de grau ≥ 1 em P [X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ][X].
[SEC. III.3: RESULTANTE DE DOIS POLINÔMIOS 93
Qn Qm
Afirmação III.3.13. RF1 ,G1 = i=1 j=1 (Xi − Yj ).
Q Q
De fato, é claro que ni=1 m j=1 (Xi − Yj ) é um polinômio ho-
mogêneo em P [X1 , . . . , Xn , Y1 , . . . , Ym ] de grau nm. Então, pelas
Afirmações III.3.11 e III.3.12, temos
n Y
Y m
RF1 ,G1 =α (Xi − Yj ),
i=1 j=1

com α ∈ P . Agora, o monômio (Y1 . . . Ym )n aparece no lado da es-


querda com o coeficiente (−1)mn (ele provém da diagonal da matriz
que define RF1 ,G1 ), e aparece no lado da direita com o coeficiente
α(−1)mn . Portanto α = 1 e
n Y
Y m
RF1 ,G1 = (Xi − Yj ),
i=1 j=1

como querı́amos.
Agora, podemos terminar a demonstração da proposição. Temos

Rf,g = RF,G (x1 , . . . , xn , y1 , . . . , ym )


= am n
0 b0 RF1 ,G1 (x1 , . . . , xn , y1 , . . . , ym )
n Y
Y m
= am b
0 0
n
(xi − yj ), pela Afirmação III.3.13
i=1 j=1
n
Y m
Y
= am
0 (b 0 (xi − yj ))
i=1 j=1
n
Y
= am
0 g(xi ).
i=1

Definição III.3.14. Seja A um anel. Seja f (X) ∈ A[X] um poli-


nômio. Um fator g(X) de f (X) em A[X] é chamado fator múltiplo
de f (X) se g(X)2 | f (X), isto é, se f (X) = g(X)2 h(X) para algum
polinômio h(X) ∈ A[X].
94 [CAP. III: POLINÔMIOS

Proposição III.3.15. Seja D um domı́nio fatorial que contém


Z. Seja f (X) ∈ D[X] um polinômio de grau ≥ 1 e seja f ′ (X)
a derivada de f (X).

1) Se g(X) ∈ D[X] é um polinômio irredutı́vel de grau ≥ 1,


então

(g(X))2 | f (X) ⇔ g(X) | f (X) e g(X) | f ′ (X).

2) O polinômio f (X) possui um fator múltipo de grau ≥ 1 em


D[X] se e somente se o discriminante de f (X) é nulo.

Demonstração. 1) Se g 2 | f , então f = g 2 h para algum h(X) ∈


D[X]. Derivando, obtemos f ′ = 2gg ′ h + g 2 h′ e portanto g | f ′ .
Reciprocamente, suponhamos que g | f e g | f ′ . Como g | f ,
temos f = gk para algum k(X) ∈ D[X]. Derivando, obtemos
f ′ = g ′ k + gk ′ . Como g | f ′ , obtemos g | g ′ k. Como g(X) é
irredutı́vel em D[X] e como D[X] é um domı́nio fatorial, então
g | g ′ ou g | k. Agora, g ∤ g ′ pois grau g ′ < grau g (aqui usamos a
hipótese “D contém Z” para garantir que g ′ 6= 0) e portanto g | k.
Isto mostra que g 2 | f .
2) Como D é um domı́nio fatorial, então é claro que f (X) possui
um fator múltiplo de grau ≥ 1 se e somente se f (X) possui um
fator irredutı́vel múltiplo de grau ≥ 1. Pelo item 1), isto ocorre
se e somente se f e f ′ possuem um fator comum de grau ≥ 1 e,
portanto pelo Teorema III.3.6, se e somente se Rf,f ′ = 0.

Se D é um domı́nio e f (X) ∈ D[X] é um polinômio de grau n, e


se x1 , . . . , xn são as raı́zes (talvez não distintas) de f (X) em algum
corpo L ⊇ D, então Q é claro que f (X) tem uma raiz múltipla em L
se e somente se 1≤i<j≤n (xi − xj ) = 0. Por outro lado, sabemos
pela proposição anterior, que f (X) tem uma raiz múltipla em L se
e somente se Q Rf,f ′ = 0. Isto sugere que deve ter alguma conexão
entre Rf,f ′ e 1≤i<j≤n (xi − xj ). A proposição seguinte esclarece
este ponto.
[SEC. III.3: RESULTANTE DE DOIS POLINÔMIOS 95

Proposição III.3.16. Seja D um domı́nio. Seja

f (X) = a0 X n + · · · + an = a0 (X − x1 ) . . . (X − xn ), a0 6= 0,

um polinômio em D[X] de grau n ≥ 2, com x1 , . . . , xn pertencendo


a algum corpo L ⊇ D. Seja f ′ (X) a derivada de f (X), e suponha
que grau f ′ (X) = n − 1. Então,
Y
Disc(f (X)) := Rf,f ′ = (−1)n(n−1)/2 a2n−1
0 (xi − xj )2 .
1≤i<j≤n

Demonstração. Pela Proposição III.3.10, temos


n
Y
Rf,f ′ = a0n−1 f ′ (xi ).
i=1

Como f (X) = a0 (X − x1 ) . . . (X − xn ), temos


n
X

f (X) = a0 (X − x1 ) . . . (X\
− xj ) . . . (X − xn ),
j=1

logo

f ′ (xi ) = a0 (xi − x1 ) . . . (xi − xi−1 )(xi − xi+1 ) . . . (xi − xn ).

Portanto,
n
Y Y Y
2
f ′ (xi ) = an0 (xi − xj ) = an0 (−1)Cn (xi − xj )2
i=1 1≤i,j≤n 1≤i<j≤n
i6=j

e
n
Y Y
Rf,f ′ = a0n−1 f ′ (xi ) = (−1)n(n−1)/2 a2n−1
0 (xi − xj )2 .
i=1 1≤i<j≤n
96 [CAP. III: POLINÔMIOS

Corolário III.3.17. Seja D um domı́nio. Sejam f (X), g(X),


h(X) ∈ D[X] polinômios de graus n, m, r ≥ 1, respectivamente.
Então,

a) Rf,gh = Rf,g Rf,h .

b) Rf,g = (−1)mn Rg,f .

c) Rf,g = Rf,g+hf , se f (X) for mônico.

Demonstração. Tome um corpo L ⊇ D no qual existem


α1 , . . . , αn , β1 , . . . , βm , γ1 , . . . , γr ∈ L tais que

f (X) = a0 (X − α1 ) . . . (X − αn ), a0 6= 0,
g(X) = b0 (X − β1 ) . . . (X − βm ), b0 6= 0,
h(X) = c0 (X − γ1 ) . . . (X − γr ), c0 6= 0.

Naturalmente, temos

g(X)h(X) = b0 c0 (X − β1 ) . . . (X − βm )(X − γ1 ) . . . (X − γr ).

a) Pela Proposição III.3.10, temos


YY
Rf,g = am n
0 b0 (αi − βj )
i j
YY
Rf,h = ar0 cn0 (αi − γk ).
i k
YY Y
Assim, Rf,g Rf,h = a0r+m (b0 c0 )n ( (αi − βj ) (αi − γk ))
i j k

= Rf,gh , novamente pela Proposição III.3.10.

b) Claro pela Proposição III.3.10.


[SEC. III.4: POLINÔMIOS SIMÉTRICOS 97

c) Se f for mônico, então pela Proposição III.3.10, temos


n
Y
Rf,g = g(xi )
i=1
n
Y
Rf,g+hf = (g + hf )(xi )
i=1
Yn
= g(xi ), pois f (xi ) = 0, ∀i = 1, . . . , n.
i=1

Portanto, Rf,g = Rf,g+hf .

III.4 Polinômios Simétricos


Definição III.4.1. Seja A um anel e seja f (X1 , . . . , Xn ) um polinô-
mio em A[X1 , . . . , Xn ]. Dizemos que f (X1 , . . . , Xn ) é um polinômio
simétrico se ele é invariante por permutações das indeterminadas
X1 , . . . , Xn , i.e., se

f (X1 , . . . , Xn ) = f (Xσ(1) , Xσ(2) , . . . , Xσ(n) )

para todas as bijeções σ : {1, . . . , n} → {1, . . . , n}.


Exemplo III.4.2. Os seguintes polinômios são simétricos:
n
X
s1 := X1 + X2 + · · · + Xn = Xi
i=1
X
s2 := Xi1 Xi2
1≤i1 <i2 ≤n
..
.
X
sj := Xi1 Xi2 . . . Xij
1≤i1 <i2 <···<ij ≤n
..
.
sn := X1 X2 · · · · · Xn .
98 [CAP. III: POLINÔMIOS

De fato, os polinômios s1 , s2 , . . . , sn acima são (a menos de sinal) os


coeficientes
Qn do polinômio em A[X1 , X2 , . . . , Xn ][Y ] dado pelo pro-
duto i=1 (Y − Xi ), o qual, evidentemente, é invariante quando se
permuta as indeterminadas X1 , . . . , Xn . O polinômio sj , 1 ≤ j ≤ n,
é homogêneo de grau j e s1 , s2 , . . . , sn são chamados polinômios
simétricos elementares nas variáveis X1 , . . . , Xn .
Considere a aplicação
ϕ
A[X1 , . . . , Xn ] −→ A[X1 , . . . , Xn ]
h(X1 , . . . , Xn ) 7−→ h(s1 , s2 , . . . , sn ),

que sabemos ser um homomorfismo de anéis.


Claramente, os polinômios de A[X1 , . . . , Xn ] que pertencem à
imagem de ϕ são simétricos. Vamos mostrar que a imagem de ϕ é
exatamente o conjunto dos polinômios simétricos e que ϕ é injetivo.
Primeiro, fazemos uma definição:

Definição III.4.3. Se m := aX1i1 X2i2 . . . Xnin é um monômio não-


nulo, definimos seu peso w(m) como

w(m) = i1 + 2i2 + · · · + n in .

Para um polinômio h(X1 , . . . , Xn ) ∈ A[X1 , . . . , Xn ], definimos seu


peso w(h) como o peso máximo de seus monômios.
É imediato verificar que para todo monômio m(X1 , . . . , Xn ),
temos (grau de m(s1 , . . . , sn )) = (peso de m(X1 , . . . , Xn )) e por-
tanto que para todo polinômio h(X1 , . . . , Xn ) ∈ A[X1 , . . . , Xn ],
temos

(grau de h(s1 , . . . , sn )) ≤ (peso de h(X1 , . . . , Xn )).

Teorema III.4.4. (Teorema de Newton). Seja A um anel e seja


f (X1 , . . . , Xn ) ∈ A[X1 , . . . , Xn ] um polinômio simétrico. Então
a) Existe um único polinômio h(X1 , . . . , Xn ) ∈ A[X1 , . . . , Xn ], efe-
tivamente calculável, tal que f (X1 , . . . , Xn ) = h(s1 , s2 , . . . , sn ).
b) O peso deste polinômio h é igual ao grau de f .
[SEC. III.4: POLINÔMIOS SIMÉTRICOS 99

Demonstração. A demonstração vai ser feita por uma indução


dupla sobre o número n de variáveis e o grau k do polinômio
simétrico f (X1 , . . . , Xn ). O caso n = 1 é trivial; neste caso temos
s1 = X1 e tomamos h(X1 ) = f (X1 ). Note que neste caso, os con-
ceitos de grau e peso coincidem.
Assumindo o teorema válido para os polinômios em (n − 1)
variáveis, com n > 1, vamos prová-lo para polinômios em n variáveis.
Para polinômios simétricos f em n variáveis de grau ≤ 1 o teorema
é trivial; de fato, tais polinômios f têm a forma
f = a1 (X1 + X2 + · · · + Xn ) + a0 , com a0 , a1 ∈ A,
e claramente f = h(s1 ), onde h(X1 , . . . , Xn ) = a1 X1 + a0 . Observe
que temos a igualdade entre o grau de f e o peso de h.
Por indução, supomos que o teorema foi provado para polinômios
simétricos de grau < k, com k ≥ 2, nas n variáveis X1 , X2 , . . . , Xn .
Escrevemos f (X1 , . . . , Xn ) como polinômio na variável Xn e com
coeficientes em A[X1 , X2 , . . . , Xn−1 ]:
f (X1 , . . . , Xn ) = ϕ0 (X1 , . . . , Xn−1 )Xnk
(1)
+ ϕ1 (X1 , . . . , Xn−1 )Xnk−1 + · · · + ϕk (X1 , . . . , Xn−1 ),
com grau ϕj (X1 , . . . , Xn−1 ) ≤ j ou ϕj (X1 , . . . , Xn−1 ) = 0, para
cada j = 0, 1, . . . , k. Observe que qualquer permutação das variáveis
X1 , . . . , Xn−1 deixa f (X1 , . . . , Xn ) invariante, logo deixa seus coefi-
cientes ϕ0 , ϕ1 , . . . , ϕk invariantes também. Temos então
que os polinômios ϕ0 , ϕ1 , . . . , ϕk são simétricos nas variáveis
X1 , X2 , . . . , Xn−1 . Para cada j, 1 ≤ j ≤ n − 1, seja (sj )0 :=
sj (X1 , . . . , Xn−1 , 0); note que estes (sj )0 , 1 ≤ j ≤ n − 1, são os
polinômios simétricos elementares nas variáveis X1 , X2 , . . . , Xn−1 .
Se ϕk 6= 0, seja h1 (X1 , . . . , Xn−1 ) um polinômio em
A[X1 , . . . , Xn−1 ], que pela hipótese de indução sobre n, existe e
pode ser efetivamente calculado, com (peso de h1 ) = (grau ϕk ) ≤ k,
tal que
ϕk (X1 , . . . , Xn−1 ) = h1 ((s1 )0 , . . . , (sn−1 )0 ). (2)
Como h1 (X1 , . . . , Xn−1 ) ∈ A[X1 , . . . , Xn−1 ], observe que
(grau de h1 (s1 , s2 , . . . , sn−1 )) ≤ (peso de h1 (X1 , . . . , Xn−1 )) ≤ k.
100 [CAP. III: POLINÔMIOS

Se ϕk = 0, seja h1 (X1 , . . . , Xn−1 ) = 0.


Agora, considere o polinômio
f1 (X1 , . . . , Xn ) := f (X1 , . . . , Xn ) − h1 (s1 , s2 , . . . , sn−1 ). (3)
Note que f1 = 0, ou f1 é um polinômio de grau ≤ k, simétrico nas
variáveis X1 , . . . , Xn pois é a diferença de dois polinômios simétricos
de grau ≤ k. Além disso, Xn divide f1 (X1 , . . . , Xn ) pois
f1 (X1 , . . . , Xn−1 , 0) = 0 por (1), (2) e (3). Já que f1 é simétrico e
tem Xn como fator, concluimos que f1 tem sn = X1 X2 . . . Xn como
fator. Escreva:
f1 (X1 , . . . , Xn ) = sn g(X1 , . . . , Xn ), (4)
com g(X1 , . . . , Xn ) ∈ A[X1 , . . . , Xn ].
Claramente, g(X1 , . . . , Xn ) é simétrico também e g = 0 ou
(grau g) ≤ k − n < k. Pela hipótese de indução sobre k, existe
um polinômio h2 (X1 , . . . , Xn ) em A[X1 , . . . , Xn ], que pode ser efe-
tivamente calculado, com (peso de h2 ) = (grau de g) ≤ k − n, tal
que
g(X1 , . . . , Xn ) = h2 (s1 , . . . , sn ). (5)
Então, o polinômio
h(X1 , . . . , Xn ) := h1 (X1 , . . . , Xn−1 ) + Xn h2 (X1 , . . . , Xn )
é tal que
h(s1 , . . . , sn ) = h1 (s1 , . . . , sn−1 ) + sn h2 (s1 , . . . , sn )
= h1 (s1 , . . . , sn−1 ) + sn g(X1 , . . . , Xn ), por (5),
= h1 (s1 , . . . , sn−1 ) + f1 (X1 , . . . , Xn ), por (4),
= f (X1 , . . . , Xn ), por (3).
Calculamos agora o peso de h(X1 , . . . , Xn ). Por um lado, temos
(peso de h) = max{(peso de h1 ), n + (peso de h2 )} ≤ k.
Por outro lado, temos também
k = (grau de f (X1 , . . . , Xn )) = (grau de h(s1 , . . . , sn ))
≤ ( peso de h(X1 , . . . , Xn )).
[SEC. III.4: POLINÔMIOS SIMÉTRICOS 101

Portanto, obtemos

(peso de h(X1 , . . . , Xn )) = (grau de f (X1 , . . . , Xn )).

Vejamos agora a unicidade do polinômio h. Já que a aplicação


h(X1 , . . . , Xn ) 7→ h(s1 , . . . , sn ) é um homomorfismo, basta mostrar
que
h(X1 , . . . , Xn ) 6= 0 ⇒ h(s1 , . . . , sn ) 6= 0.
Faremos uma prova por indução sobre n.
O caso n = 1 é trivial. Seja n ≥ 2 e supomos por indução que
para todo 0 6= ψ(X1 , . . . , Xn−1 ), tenhamos ψ((s1 )0 , . . . , (sn−1 )0 ) 6=
0. Suponhamos agora que exista h(X1 , . . . , Xn ) 6= 0 com
h(s1 , . . . , sn ) = 0. Escrevemos h(X1 , . . . , Xn ) como polinômio na
variável Xn com coeficientes em A[X1 , . . . , Xn−1 ]:

h(X1 , . . . , Xn ) = ψ0 (X1 , . . . , Xn−1 )Xnm


+ ψ1 (X1 , . . . , Xn−1 )Xnm−1 + · · · + ψm (X1 , . . . , Xn−1 ).

Dentre os polinômios não-nulos h(X1 , . . . , Xn ) com h(s1 , . . . , sn ) =


0, escolhemos um de grau mı́nimo na variável Xn (i.e., com m
mı́nimo). Observe que neste caso ψm (X1 , . . . , Xn−1 ) é não-nulo,
pois senão terı́amos h(X1 , . . . , Xn ) = Xn h1 (X1 , . . . , Xn ), logo 0 =
h(s1 , . . . , sn ) = sn h1 (s1 , . . . , sn ), e portanto h1 (s1 , . . . , sn ) = 0, com
(grau de h1 (X1 , . . . , Xn ) na variável Xn ) = m − 1, o que contradiria
a minimilidade de m. Temos

0 = h(s1 , . . . , sn ) = ψ0 (s1 , . . . , sn−1 )sm


n + · · · + ψm (s1 , . . . , sn−1 ).

Fazendo Xn = 0, obtemos 0 = ψm ((s1 )0 , (s2 )0 , . . . , (sn−1 )0 ), o que


contradiz a hipótese de indução.

Observação III.4.5. Se f (X1 , . . . , Xn ) ∈ A[X1 , . . . , Xn ] é um po-


linômio simétrico, então pelo teorema anterior, existe um único po-
linômio h(X1 , . . . , Xn ) tal que f (X1 , . . . , Xn ) = h(s1 , . . . , sn ). Além
disso, a prova do teorema fornece um algorı́tmo para calcular efeti-
vamente este polinômio h(X1 , . . . , Xn ). No entanto, por ser muito
geral (funciona para todos os polinômios simétricos f (X1 , . . . , Xn )),
102 [CAP. III: POLINÔMIOS

este algorı́tmo também é muito lento. Portanto, em muitos casos


particulares, será importante procurar por algum outro algorı́tmo
melhor adaptado à situação especı́fica.

Exemplo III.4.6. Para cada inteiro k ≥ 1, considere o polinômio

σk := X1k + X2k + · · · + Xnk .

As igualdades abaixo, conhecidas como Identidades de Newton,


fornecem recursivamente um algorı́tmo para o cálculo efetivo do
polinômio hk (X1 , . . . , Xn ) tal que σk = hk (s1 , . . . , sn ). Note que os
termos envolvidos nestas identidades são todos de grau k.

a) Se k ≤ n, então

σk = σk−1 s1 − σk−2 s2 + · · · + (−1)k σ1 sk−1 + (−1)k+1 ksk .

b) Se k > n, então

σk = σk−1 s1 − σk−2 s2 + · · · + (−1)n+1 σk−n sn .

Exercı́cio III.4.7. Considere σ3 := X13 +X23 +X33 ∈ A[X1 , X2 , X3 ].

a) Utilizando a prova dada para o Teorema III.4.4, determine o


polinômio h(X1 , X2 , X3 ) tal que σ3 = h(s1 , s2 , s3 ).

b) Determine também este polinômio h(X1 , X2 , X3 ) usando as


Identidades de Newton apresentadas no Exemplo III.4.6.

Agora, vamos aplicar o Teorema III.4.4 ao estudo das raı́zes de


um polinômio numa variável.
Sejam D um domı́nio, f (X) = a0 X n + · · · + an ∈ D[X] um
polinômio de grau n e x1 , . . . , xn suas raı́zes (possivelmente não
todas distintas) em algum corpo L ⊇ D. Temos

f (X) = a0 (X n + · · · + (ai /a0 )X n−i + · · · + (an /a0 ))


= a0 (X − x1 ) . . . (X − xn ).
[SEC. III.4: POLINÔMIOS SIMÉTRICOS 103

É claro que
−(a1 /a0 ) = x1 + · · · + xn = s1 (x1 , . . . , xn ),
..
.
X
(−1)i (ai /a0 ) = xj1 . . . xji = si (x1 , . . . , xn ),
1≤j1 <···<ji ≤n
..
.
n
(−1) (an /a0 ) = x1 . . . xn = sn (x1 , . . . , xn ).
Se g(X1 , . . . , Xn ) ∈ D[X1 , . . . , Xn ] é um polinômio simétrico,
então g(x1 , . . . , xn ) é chamada de função simétrica nas raı́zes de
f (X).Como aplicação imediata do Teorema de Newton, temos:
P
Proposição III.4.8. Sejam D um domı́nio, f (X) := ni=0 ai X i ∈
D[X] um polinômio numa variável de grau n e x1 , x2 , . . . , xn as
raı́zes de f (X). Seja g(Y1 , . . . , Yn ) ∈ D[Y1 , . . . , Yn ] um polinômio
simétrico em n variáveis. Então existe um polinômio h(Y1 , . . . , Yn ) ∈
D[Y1 , . . . , Yn ], que pode ser efetivamente calculado, tal que
g(x1 , . . . , xn ) = h(−(a1 /a0 ), . . . , (−1)i (ai /a0 ), . . . , (−1)n (an /a0 )).
Assim, mesmo não conhecendo as raı́zes de f (X), podemos efe-
tivamente expressar todas as funções simétricas nas raı́zes de f (X)
em função dos coeficientes de f (X).
Agora, pode acontecer que uma certa função simétrica abstrata
g(x1 , . . . , xn ) nas raı́zes de f (X) contenha uma informação geomé-
trica importante sobre as raı́zes e que então seja essencial expressar
de fato g(x1 , . . . , xn ) em função dos coeficientes de f (X). Muitas
vezes, o algorı́tmo dado na prova do Teorema III.4.4 não será a me-
lhor maneira de encontrar essa expressão. Por exemplo, querendo
expressar a função simétrica
Y
∆(f ) := (xi − xj )2
1≤i<j≤n

em função dos coeficientes de f (X), poderı́amos calcular o polinômio


h(Y1 , . . . , Yn ) correspondente ao polinômio simétrico
Y
g(Y1 , . . . , Yn ) := (Yi − Yj )2 ,
1≤i<j≤n
104 [CAP. III: POLINÔMIOS

usando o Teorema III.4.4, e tomar h(−(a1 /a0 ), . . . , (−1)n (an /a0 )).
No entanto, é muito mais eficiente mostrar diretamente, como fize-
mos na Proposição III.3.16, que

∆(f ) = (−1)n(n−1)/2 (1/a2n−1


0 )Rf,f ′ ,

e observar que, pela definição de Rf,f ′ , isto é de fato uma expressão


em função dos coeficientes de f (X).

III.5 Teorema da Base de Hilbert


Em geometria, a descrição de um objeto muitas vezes é feita utili-
zando-se de equações. Por exemplo, o conjunto das soluções comuns
(x, y, z) das equações

X +Y +Z =1 e 2X − Y − Z = 3

é uma reta no espaço tridimensional R3 .


Mais geralmente, dado um corpo K, definimos uma variedade
algébrica afim no espaço K n como o conjunto das soluções co-
muns (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ K n de uma famı́lia de equações polinomiais
f (X1 , X2 , . . . , Xn ) = 0, onde f ∈ F ⊆ K[X1 , X2 , . . . , Xn ]. Clara-
mente, o ideal hFi de K[X1 , X2 , . . . , Xn ] gerado pela famı́lia F,
i.e.,
( m )
X
hFi = ai fi ; m ∈ N, ai ∈ K[X1 , . . . , Xn ], fi ∈ F ,
i=1

e a própria famı́lia F determinam a mesma variedade.


O teorema seguinte mostra que toda variedade algébrica afim
pode ser descrita como o conjunto de soluções comuns de uma
famı́lia finita de equações polinomiais. Antes de enunciá-lo vamos
fazer algumas considerações que serão úteis na sua demonstração.
Seja A um anel e seja f (X) ∈ A[X] um polinômio não-nulo. Es-
crevemos

f (X) = aX r + (termos de grau menor),


[SEC. III.5: TEOREMA DA BASE DE HILBERT 105

significando que a diferença f (X) − aX r é nula ou tem grau < r.


Dado um ideal U do anel de polinômios A[X] numa variável so-
bre A, podemos associar ao ideal U diversos ideais de A, utilizando
a noção de coeficiente lı́der:

1) L(U) = {a ∈ A | a é coeficiente lı́der de algum f (X) ∈ U} ∪


{0}.
2) Para cada inteiro não-negativo r ≥ 0,
Lr (U) = {a ∈ A | a é coeficiente lı́der de algum f (X) ∈ U
com grau f (X) = r} ∪ {0}.

Exercı́cio III.5.1. a) Verifique que L(U) e Lr (U) são realmente


ideais do anel A.
b) Mostre que L0 (U) ⊆ L1 (U) ⊆ L2 (U) ⊆ . . . e que

[
L(U) = Lr (U).
r=0

Relembramos que um ideal I de um anel A é dito finitamente


gerado quando podemos encontrar um número finito de elementos
b1 , b2 , . . . , bm em I tais que
( m )
X
I = (b1 , . . . , bm ) = aj bj ; aj ∈ A, ∀j .
j=1

Teorema III.5.2. (Teorema da base de Hilbert). Seja A um anel


onde todo ideal de A é finitamente gerado. Então todo ideal do anel
de polinômios A[X1 , X2 , . . . , Xn ] é também finitamente gerado.
Demonstração. Fazendo uma indução sobre n, basta mostrar
que todo ideal do anel A[X] de polinômios numa variável sobre
o anel A é finitamente gerado. Seja então U um ideal não-nulo
de A[X]. Como L(U) é finitamente gerado, podemos encontrar
b1 , b2 , . . . , bm elementos do anel A tais que
L(U) = (b1 , b2 , . . . , bm ).
106 [CAP. III: POLINÔMIOS

Para cada 1 ≤ j ≤ m, tome fj (X) ∈ U da forma

fj (X) = bj X rj + (termos de grau menor).

(Observamos que escolher fj (X) com o grau rj menor possı́vel dará


mais eficiência na construção de um conjunto de geradores para U.)
Seja r = max{r1 , r2 , . . . , rm }. Para cada k, 0 ≤ k ≤ r − 1, o
ideal Lk (U) é finitamente gerado; digamos que

Lk (U) = (ck,1 , ck,2 , . . . , ck,tk ).

Para 1 ≤ i ≤ tk , tome gk,i (X) ∈ U da forma

gk,i (X) = ck,i X k + (termos de menor grau).

Vamos mostrar que o ideal U de A[X] é gerado pelos fj (X), onde


1 ≤ j ≤ m, e pelos gk,i (X), com 0 ≤ k ≤ r − 1 e 1 ≤ i ≤ tk .
Seja f (X) ∈ U um polinômio de grau s. Seja b seu coeficiente
lı́der e sejam a1 , a2 , . . . , am elementos de A tais que
m
X
b= aj b j .
j=1

Se grau f (X) = s ≥ r, considere o polinômio f˜(X)


m
X
f˜(X) = f (X) − aj fj (X)X s−rj ∈ U.
j=1

Então f˜(X) = 0 ou grau f˜(X) < grau f (X). Se ainda tivermos que
grau f˜(X) ≥ r, escrevemos seu coeficiente lı́der como combinação
de b1 , b2 , . . . , bm e repetimos o processo. Depois de um número finito
de etapas, obteremos polinômios h1 (X), . . . , hm (X) em A[X] tais
que o polinômio h(X) do ideal U dado por
m
X
h(X) = f (X) − hj (X)fj (X) ∈ U
j=1

seja o polinômio nulo ou tenha grau < r.


[SEC. III.6: EXERCÍCIOS 107

Se h(X)=0, acabou. Se h(X)6=0, seja k := (grau de h(X))<r.


Então o coeficiente lı́der α de h(X) é da forma
tk
X
α= αi ck,i , com αi ∈ A.
i=1

Considere o polinômio h̃(X) dado por


tk
X
h̃(X) = h(X) − αi · gk,i (X) ∈ U.
i=1

Este polinômio h̃(X) é nulo, ou tem grau < k. Se h̃(X) = 0,


acabou. Se h̃(X) não for nulo, repetimos o processo. Depois de um
número finito de etapas obtemos o resultado desejado.

O Teorema III.5.2 diz que o anel de polinômios A[X1 , X2 , . . . , Xn ]


é noetheriano se o anel A for noetheriano (vide Definição II.1.9).

III.6 Exercı́cios
1.a) Seja α ≥ 0 um inteiro e seja f (X) = X 4 +αX 2 +1. Investigue
a irredutibilidade de f (X) em Z[X].

b) Seja D um domı́nio qualquer. Mostre que f (X) := X 4 +X 3 +


X + 1 não é irredutı́vel em D[X].

c) Mostre que X 3 + 2X 2 + 3X + 1 é irredutı́vel em Z[i][X], logo


também em Z[X].

d) Mostre que f (X) := X 3 − 15X 2 + 10X − 82 é irredutı́vel em


Z[X].

2.a) Seja f (X) = X 3 + X 2 + 1 ∈ Z[X]. Mostre que f¯(X) é irre-


dutı́vel em (Z/2Z)[X] e portanto que f (X) é irredutı́vel em
Z[X]. Mostre que f¯(X) não é irredutı́vel em (Z/3Z)[X].
108 [CAP. III: POLINÔMIOS

b) Seja p um inteiro ≥ 5. Mostre que f (X) := X 3 − 37X 2 +


[(p + 5)! + 1]X + (3p + 1) é irredutı́vel em Z[X].

c) Mostre que f (X) := X 4 + 5X 3 + 2X 2 − 12X + (113! + 1) é


irredutı́vel em Z[X].

3. Investigue a irredutibilidade em Z[X] e em Z[i][X] dos poli-


nômios abaixo:

a) X 12 + 14X 5 + 21X + 7.
b) X 12 + 5X 7 + 15X 2 + 5.
c) X 10 + 5X + 5.
d) X 13 + 3X 5 + 3.
e) 2X 4 + 3X 3 + 12X 2 + 6X + 6.

4.a) Mostre que 2X 12 + 5(2 + 3i)X 10 + 39X 3 + 13 é irredutı́vel em


Z[i][X].

b) Mostre que (2 + i)X 5 + 5(4 + i)X 3 + 5 · 17 é irredutı́vel em


Q[i][X].

5. Seja f (X) := X 4 + 3X 3 + (3 + 78!)X 2 − 5 ∈ Z[X]. Mostre


que f (X) é irredutı́vel em Z[X].
Dica: Mostre que o polinômio f¯(X) ∈ (Z/2Z)[X] se fatora
em f¯(X) = (X + 1̄)(X 3 + X + 1̄).

6. Investigue a irredutibilidade em Z[X] e em Z[i][X] dos se-


guintes polinômios:

a) X 3 − 2.
b) X 3 − 9.

7. Sejam 0 6= n ∈ Z, α ∈ Z e f (X) := X 3 − αn2 X + n3 ∈ Z[X].


Investigue a irredutibilidade de f (X) em Z[X].
Dica: Considere o polinômio f (nX).
[SEC. III.6: EXERCÍCIOS 109

8. Sejam p um número primo e n ≥ 1 um inteiro.

a) Mostre que f (X) := X n + pn+1 é irredutı́vel em Z[X].


b) Mais geralmente, se b1 , . . . , bn−1 ∈ Z, mostre que

f (X) := X n + bn−1 p2 X n−1 + · · · + bi pn−i+1 X i


+ · · · + b1 pn X + pn+1

é irredutı́vel em Z[X].
Dica: Considere o polinômio f (pX).

9. Utilizando o fato √ de Z[ 2]
√ ser 5um√domı́nio√fatorial, mostre
7
√ = X + 2(1 − 2)X − 2(3 + 2 2) é irredutı́vel
que f (X)
em Z[ 2][X].

10. Seja K o corpo de frações do domı́nio Q[X] e seja f (X, Y ) =


X 2 Y 7 + X(X + 5)3 Y 4 + X(X + 1)(X + 5)Y 2 + X 4 (X + 5).
Mostre que f (X, Y ) é irredutı́vel em K[Y ] mas que f (X, Y )
não é irredutı́vel em Q[X, Y ].

11. Faça os seguintes itens:

a) Determine se X 3 + 2X 2 + X + 2 e X 2 + 1 possuem um
fator comum não-constante em Z[X].
√ √ √
b) Determine se X 2 + ( 2 − 3)X − 6 e X 2 − 2 possuem
um fator comum não-constante em R[X].

12. Seja D um domı́nio. Sejam α1 , . . . , αn , β1 , . . . , βn ∈ D tais


que:


 α1 + · · · + αn = β1 + · · · + βn

P
 P
1≤i1 <i2 ≤n αi1 αi2 = 1≤j1 <j2 ≤n βj1 βj2
 .
..



α . . . α
1 n = β ...β . 1 n

Mostre que {α1 , . . . , αn } = {β1 , . . . , βn }.


110 [CAP. III: POLINÔMIOS

13. Seja D um domı́nio que contém Z, isto é um domı́nio D de


caracterı́stica zero. Sejam α1 , . . . , αn , β1 , . . . , βn ∈ D tais que

α1k + · · · + αnk = β1k + · · · + βnk , para todo 1 ≤ k ≤ n.

Mostre que {α1 , . . . , αn } = {β1 , . . . , βn }.

14. (Determinante de Vandermonde)

a) Seja A um anel e sejam X1 , . . . , Xn indeterminadas sobre


o anel A. Mostre que
 
1 X1 X12 · · · X1n−1
Y 1 X2 X22 · · · X2n−1 
(Xi − Xj ) = det 
 ··· ··· ···
.

1≤j<i≤n 2 n−1
1 Xn Xn · · · Xn

b) Sejam α1 , . . . , αn ∈ A. Mostre que


 
1 α1 α12 · · · α1n−1
Y 1 α2 α22 · · · α2n−1 
(αi − αj ) = det   ···
.

··· ···
1≤j<i≤n 2 n−1
1 αn αn · · · αn

15. Seja p um número primo e seja k ≥ 1 um inteiro. Seja


X
I := { ai X i | ai ∈ Z, ai ≡ 0 (mod p), i = 0, 1, . . . , k − 1}.
i

Mostre que I é um ideal de Z[X]. Mostre que (exibindo os


geradores) I pode ser gerado por dois elementos.

16. Seja p um número primo e seja (a, b) ∈ Z × Z. Seja

I := {f (X, Y ) ∈ Z[X, Y ] | f (a, b) ≡ 0 (mod p)}.

Mostre que I é um ideal de Z[X, Y ]. Mostre que (exibindo


os geradores) o ideal I pode ser gerado por três elementos.
[SEC. III.6: EXERCÍCIOS 111

17. Seja p um número primo e seja f (X) ∈ Z[X] um polinômio


de grau (2n + 1), digamos

f (X) = a2n+1 X 2n+1 + · · · + an X n + · · · + a1 X + a0 .

Suponha que

a2n+1 ≡
6 0 (mod p) ; a0 , a1 , . . . , an ≡ 0 (mod p2 )
a0 ≡6 0 (mod p3 ) ; an+1 , an+2 , . . . , a2n ≡ 0 (mod p).

Mostre que f (X) é irredutı́vel em Q[X].


Z
18. (Corpos Finitos) Seja p ∈ Z um primo. Seja f (X) ∈ pZ [X]
irredutı́vel com grau n. Mostre que então o anel quociente
Z
pZ
[X]/(f (X)) é um corpo finito com pn elementos. Mostre
que f (X) = X 3 + X + 1 é irredutı́vel em 2Z
Z
[X], mas não é
Z
irredutı́vel em 3Z [X].
Observação: É possı́vel mostrar que, para todo número primo
p ∈ Z e para todo n ∈ N, existem polinômios irredutı́veis
Z
f (X) em pZ [X] com grau f (X) = n. É possı́vel mostrar que
a cardinalidade de um corpo finito é sempre uma potência de
um número primo.
112 [CAP. III: POLINÔMIOS
Capı́tulo IV

Aplicações

IV.1 Somas de dois Quadrados


Neste parágrafo vamos dar uma caracterização simples dos inteiros
que são soma de dois quadrados. Começaremos dando uma tal ca-
racterização para os números primos. Mas antes, enunciamos um
resultado clássico que nos será útil.
Proposição IV.1.1. (Pequeno Teorema de Fermat).
Seja p um número primo. Então,
xp−1 = 1, ∀ x ∈ (Z/pZ) \ {0}.
Demonstração. O resultado é claro para x = 1̄. Agora, seja x 6=
p−1
0, 1 e suponha por indução que (x − 1) = 1, portanto também
p
que (x − 1) = (x − 1). Já vimos na análise do Exemplo III.2.12
que, para todo 1 ≤ i ≤ p − 1, o primo p divide Cpi ; logo temos
p p p
xp = (x − 1) + 1 = (x − 1) + 1 .
p
Como por hipótese de indução (x − 1) = (x − 1), obtemos
xp = (x − 1) + 1 = x,
e portanto, já que x é um elemento não-nulo do domı́nio Z/pZ,
xp−1 = 1.

113
114 [CAP. IV: APLICAÇÕES

Teorema IV.1.2. (Fermat). Seja p um número primo. Então as


afirmações seguintes são equivalentes:
(i) p = 2 ou p ≡ 1 mod 4.
(ii) Existe a ∈ Z tal que a2 ≡ −1 mod p.
(iii) p não é irredutı́vel em Z[i].
(iv) p é soma de dois quadrados.
Demonstração. (i) ⇒ (ii). Se p = 2, tome a = 1.
Seja agora p = 4n + 1, com n ∈ N. Pela Proposição IV.1.1,
1, 2, . . . , p − 1, são raı́zes do polinômio 1X p−1 − 1 ∈ (Z/pZ)[X].
Logo, pelo Corolário III.1.7, temos
1̄X p−1 − 1̄ = (X − 1̄)(X − 2̄) . . . (X − p − 1).
Como p − 1 = 4n, temos também
1̄X p−1 − 1̄ = 1̄X 4n − 1̄ = (1̄X 2n − 1̄)(1̄X 2n + 1̄),
e portanto
(1̄X 2n − 1̄)(1̄X 2n + 1̄) = (X − 1̄)(X − 2̄) . . . (X − p − 1).
Como p é primo, (Z/pZ) é um corpo e, pelos Teoremas I.3.8 e
II.2.2, (Z/pZ)[X] é um domı́nio de fatoração única. Portanto, existe
x ∈ {1, 2, . . . , p − 1} tal que x̄2n + 1̄ = 0̄. Tomando a = xn , temos
ā2 = x̄2n = −1̄, isto é, a2 ≡ −1 mod p.
(ii) ⇒ (iii). Por hipótese, existe a ∈ Z tal que a2 ≡ −1 mod p.
Então, a2 + 1 = kp para algum k ∈ Z, logo (a + i)(a − i) = kp ou
seja p | (a + i)(a − i).
Agora, p não divide a + i em Z[i] pois, se ele dividisse, terı́amos
a + i = p(e + f i) como e, f ∈ Z; olhando no coeficiente de i,
obterı́amos 1 = pf , o que é absurdo pois p não é invertı́vel em Z.
Similarmente, p não divide a − i em Z[i]. Então,

Z[i] domı́nio fatorial 
p não é elemento
p | (a + i)(a − i) ⇒
 irredutı́vel em Z[i].
p ∤ (a + i) e p ∤ (a − i)
[SEC. IV.1: SOMAS DE DOIS QUADRADOS 115

(iii) ⇒ (iv). Por hipótese, existem a + bi, c + di ∈ Z[i] tais que


p = (a + bi)(c + di), N (a + bi) 6= 1 e N (c + di) 6= 1. Temos então

p2 = N (p) = N (a + bi)N (c + di) = (a2 + b2 )(c2 + d2 ),

onde a2 + b2 6= 1 e c2 + d2 6= 1. Sendo Z um domı́nio fatorial e p


um elemento irredutı́vel de Z, devemos ter p = a2 + b2 . Portanto o
primo p é soma de dois quadrados.
(iv) ⇒ (i). Sendo p um número primo, temos somente três possi-
bilidades: p = 2, p é do tipo 4n + 1 ou p é do tipo 4n + 3. Basta
então mostrar que nenhum inteiro do tipo 4n + 3 é soma de dois
quadrados. Se a é um inteiro qualquer, então ā = 0̄, 1̄, 2̄ ou 3̄ em
(Z/4Z) e portanto ā2 = 0̄, 1̄, 0̄ ou 1̄ isto é, ā2 = 0̄ ou 1̄ em (Z/4Z).
Então, se a e b são dois inteiros quaisquer, as possibilidades para
ā2 + b̄2 são 0̄, 1̄ ou 2̄ em (Z/4Z), e 4n + 3 (= 3̄ em (Z/4Z)) não é
soma de dois quadrados.

Corolário IV.1.3. Os elementos irredutı́veis de Z[i] são exata-


mente os elementos dos tipos seguintes:

• ±p, ±ip com p primo em Z tal que p ≡ 3 mod 4.

• a + ib com a2 + b2 igual a um primo de Z.

Demonstração. Um elemento de Z[i] do tipo ±p, ±ip com p


primo em Z, p ≡ 3 mod 4, é irredutı́vel em Z[i] pelo Teorema IV.1.2.
Um elemento a + ib ∈ Z[i], com a2 + b2 igual a um primo em Z, é
irredutı́vel em Z[i] pois senão, terı́amos

a + ib = αβ com α, β ∈ Z[i], α, β 6= ±1, ±i,

logo,
a2 + b2 = N (a + ib) = N (αβ) = N (α)N (β)
com N (α), N (β) ∈ Z, N (α) 6= 1 e N (β) 6= 1, o que contradiz a
hipótese de a2 + b2 ser primo em Z.
Reciprocamente, seja a + ib um elemento irredutı́vel em Z[i].
Usando a conjugação complexa, é fácil mostrar que a−ib é também
116 [CAP. IV: APLICAÇÕES

irredutı́vel em Z[i]. Se a2 +b2 não é primo em Z, então a2 +b2 = nm


com n, m ∈ Z, n, m 6= ±1, logo

(a + ib)(a − ib) = nm.

Pela unicidade da fatoração em Z[i], obtemos a+ib = εn (e a−ib =


εm) com ε ∈ {±1, ±i}; logo a = 0 ou b = 0, ou seja, a + ib = ±ic
ou a + ib = ±c com c ∈ N. Agora, sendo a + ib irredutı́vel em Z[i],
vemos que c é irredutı́vel em Z[i] e, a fortiori, irredutı́vel em Z.
Pelo Teorema IV.1.2, este elemento c é côngruo a 3 módulo 4.
Observação IV.1.4. a) A parte sutil do teorema anterior é a im-
plicação (ii) ⇒ (iii), onde se usou o fato de Z[i] ser um domı́nio
fatorial.
b) Quando um primo p é soma de dois quadrados, ele o é de maneira
única. De fato, suponha que p = a2 + b2 = c2 + d2 . Temos então

p = (a + ib)(a − ib) = (c + id)(c − id);

os elementos a +ib, a −ib, c +id, c −id são irredutı́veis em Z[i], pois


têm norma igual a p que é irredutı́vel em Z. Sendo Z[i] domı́nio
fatorial, obtemos que a + ib é associado a (c + id) ou a (c − id); já
que os elementos invertı́veis de Z[i] são ±1 e ±i, obtemos:
( ( ( (
a = ±c a = ±d a2 = c 2 a2 = d2
ou , logo ou
b = ±d b = ±c b2 = d2 b2 = c 2 .

c) Em geral, é possı́vel para um inteiro positivo não-primo ser ex-


presso como soma de dois quadrados de duas maneiras diferentes,
por exemplo:
125 = 102 + 52 = 112 + 22 .
Antes de generalizar o teorema anterior e caracterizar os inteiros
que são soma de dois quadrados, observamos que o produto de
somas de dois quadrados é uma soma de dois quadrados.
Lema IV.1.5. Se f, g são inteiros que são soma de dois quadrados,
então o produto f g também é soma de dois quadrados.
[SEC. IV.1: SOMAS DE DOIS QUADRADOS 117

Demonstração. Por hipótese, existem inteiros a, b, c, d tais que


f = a2 + b2 e g = c2 + d2 . Então,

f g = (a2 + b2 )(c2 + d2 ) = N (a + ib)N (c + id)


= N ((a + ib)(c + id)) = N ((ac − bd) + i(ad + bc))
= (ac − bd)2 + (ad + bc)2 .

Teorema IV.1.6. (Fermat). Seja n um inteiro positivo e seja


n = 2r pu1 1 . . . put t q1v1 . . . qsvs sua decomposição irredutı́vel em Z, onde
p1 , . . . , pt são primos do tipo 4k + 1 e q1 , . . . , qs são primos do
tipo 4k + 3. Então, n é soma de dois quadrados se e somente se
v1 , v2 , . . . , vs são pares.

Demonstração. Se v1 , v2 , . . . , vs são pares, então q1v1 , . . . , qsvs são


quadrados e portanto são soma de dois quadrados. O Teorema ante-
rior nos diz que 2, p1 , . . . , pt são soma de dois quadrados e portanto,
aplicando sucessivamente o lema anterior, temos que n é soma de
dois quadrados.
Reciprocamente, suponhamos que n = a2 +b2 com a, b ∈ Z. Seja
p um primo ı́mpar e suponhamos que a maior potência de p que
divide n seja ı́mpar. Queremos mostrar que p é necessariamente do
tipo 4k + 1. Seja d = M.D.C.{a, b}; então a = da1 , b = db1 com
a1 , b1 ∈ Z e M.D.C.{a1 , b1 } = 1. Temos n = a2 + b2 = d2 (a21 + b21 )
e é claro que a maior potência de p que divide d2 é par; con-
seqüentemente, p divide a21 + b21 , ou seja ā21 + b̄21 = 0̄ em (Z/pZ).
Note que b̄1 6= 0̄ pois senão, terı́amos ā21 = −b̄21 = 0̄, logo também
ā1 = 0, isto é, terı́amos que p divide a1 e b1 , o que é impossı́vel pois
M.D.C.{a1 , b1 } = 1. Temos então

0̄ = ā21 + b̄21 = b̄21 [(ā1 /b̄1 )2 + 1̄],

e portanto (ā1 /b̄1 )2 + 1̄ = 0̄ pois (Z/pZ) é um domı́nio. Tomando


c ∈ Z tal que c̄ = ā1 /b̄1 , temos c̄2 = −1̄, ou seja c2 ≡ −1 mod p.
Pelo Teorema IV.1.2, concluı́mos que p é do tipo 4k + 1.
118 [CAP. IV: APLICAÇÕES

Observação IV.1.7. a) A idéia da prova do Teorema IV.1.2 con-


sistiu em traduzir um problema dado em Z (um primo é soma de
dois quadrados?) em termos de propriedades de um anel maior
(existe uma fatoração própria em Z[i]?) e então resolver o proble-
ma neste anel maior (um primo p possui uma fatoração própria
em Z[i] se e só se p = 2 ou p é do tipo 4n + 1). A comunicação
entre as propriedades de Z e as propriedades de Z[i] foi feita pela
função norma que é bem adaptada ao nosso problema pois preserva
a multiplicação. Essa idéia de procurar um domı́nio D ⊇ Z pos-
suindo propriedades que garantam uma resposta para um problema
inicialmente dado em Z tem sido usada com muito sucesso.
b) Já sabemos que o primo 2 e os primos do tipo 4n + 1 são exata-
mente os primos que são soma de dois quadrados. O que podemos
dizer sobre os primos do tipo 4n + 3? Claramente, 3 = 12 + 12 + 12 e
portanto 3 é soma de três quadrados. Por outro lado 7 não é soma
de três quadrados; mais geralmente, olhando módulo 8, é fácil ver
que nenhum inteiro do tipo 8n + 7 é soma de três quadrados. Um
teorema de Lagrange garante que todo inteiro positivo é uma soma
de quatro quadrados. É possı́vel dar uma prova deste teorema de
Lagrange bastante análoga à prova dada acima para o teorema de
Fermat. No lugar de Z[i] = {z0 + z1 i ; z0 , z1 ∈ Z}, trabalhamos
com
nz z1 z2 z3 o
0
H= + i + j + k ; z0 ≡ z1 ≡ z2 ≡ z3 mod 2 ,
2 2 2 2
onde definimos a adição de maneira natural e a multiplicação a
partir de
2
i = j 2 = k 2 = −1.


ij = k = −ji.

 jk = i = −kj.


ki = j = −ik.
Uma função norma em H é definida por:
z z1 z2 z3   z0 2  z1 2  z2 2  z3 2
0
N + i+ j+ k = + + + .
2 2 2 2 2 2 2 2
[SEC. IV.2: SOLUÇÕES INTEIRAS DE X 2 + Y 2 = Z 2 119

É possı́vel verificar que (H, +, ·, N ) tem todas as propriedades


de um domı́nio euclidiano com a exceção que a multiplicação não
é comutativa. Este anel H é chamado anel dos quaternios inteiros
de Hurwitz . Os detalhes de uma prova do teorema de Lagrange,
seguindo estas idéias, podem ser encontrados no livro de I. Herstein,
Topics in Algebra, pp. 371–377. Vide também o Exercı́cio 4 no final
deste capı́tulo.

IV.2 Soluções Inteiras de X 2 + Y 2 = Z 2


Observamos primeiro que se x, y, z ∈ Z, então x2 + y 2 = z 2 se e
somente se (λx)2 + (λy)2 = (λz)2 para todo λ ∈ Z. Portanto, para
encontrar todas as soluções inteiras da equação X 2 + Y 2 = Z 2 ,
basta encontrar as soluções com x, y, z relativamente primos.
Vamos precisar do seguinte lema:

Lema IV.2.1. Sejam x e y dois elementos relativamente primos


no anel Z. Então:

a) Os inteiros x e y são relativamente primos em Z[i].

b) A menos de elementos invertı́veis, os únicos possı́veis divi-


sores comuns de x + iy e x − iy em Z[i] são 1 e 1 + i.

c) x + iy e x − iy são relativamente primos em Z[i] se e somente


se x2 + y 2 é ı́mpar (se e somente se x e y têm paridades
distintas).

Demonstração. a) Suponha que existe um elemento irredutı́vel


α ∈ Z[i] tal que

x = αx1 e y = αy1 com x1 , y1 ∈ Z[i].

Tomando normas, obtemos

x2 = N (x) = N (α)N (x1 ) e y 2 = N (y) = N (α)N (y1 ).


120 [CAP. IV: APLICAÇÕES

Vemos então que os fatores irredutı́veis em Z de N (α) dividem


ambos x e y, o que é absurdo.
b) Seja α ∈ Z[i] um divisor comum de (x + iy) e (x − iy). Então
o elemento α divide 2x (que é a soma dos dois) e 2y em Z[i]. Pela
parte a), os inteiros x e y são ainda relativamente primos em Z[i];
como Z[i] é um domı́nio fatorial, obtemos que α divide 2 em Z[i].
Assim, a menos de elementos invertı́veis, temos α = 1, (1 + i) ou 2.
Não é possı́vel termos α = 2, pois x + iy = 2(c + id) com c, d ∈ Z
implicaria que 2 divide x e y em Z, o que é absurdo. Portanto,
a menos de elementos invertı́veis, 1 e 1 + i são os únicos possı́veis
divisores comuns de (x + iy) e (x − iy) em Z[i].
c) Temos 2 = (1 + i)(1 − i) e x2 + y 2 = (x + iy)(x − iy).
Se 2 divide x2 + y 2 , então (1 + i) divide um dos fatores, digamos
x + iy, pois (1 + i) é irredutı́vel em Z[i]. Mas então por conjugação,
(1 − i) divide x − iy; como (1 − i) = −i(1 + i), obtemos que (1 + i)
divide x − iy. Assim, (1 + i) divide os dois fatores x + iy e x − iy.
Reciprocamente, se x + iy e x − iy não são relativamente primos
em Z[i], então (1 + i) divide x + iy pelo item b). Mas então N (1 + i)
divide N (x + iy), i.e., 2 divide x2 + y 2 .

Teorema IV.2.2. Sejam x, y dois inteiros. Então, as afirmações


seguintes são equivalentes:

(i) x, y são relativamente primos e x2 + y 2 = z 2 com z ∈ Z.

(ii) x, y são relativamente primos e x+iy = ε(a+ib)2 com a, b ∈ Z


e ε invertı́vel em Z[i].

(iii) x = (a21 − b21 ) e y = 2a1 b1 (ou vice-versa) com a1 , b1 ∈ Z


relativamente primos e de paridades distintas.

Demonstração. (i) ⇒ (ii). Seja n ∈ Z; temos a seguinte tabela


módulo 4:

n 0 1 2 3
·
n2 0 1 0 1
[SEC. IV.3: TEOREMA DE BEZOUT 121

Como x2 + y 2 = z 2 com z ∈ Z, temos x2 + y 2 ≡ 0 ou 1 mod 4. Se


tivéssemos x2 + y 2 ≡ 0 mod 4 então, como mostra a tabela, x e y
seriam pares, o que contradiz a hipótese. Logo x2 + y 2 ≡ 1 mod 4;
em particular x2 + y 2 é ı́mpar e, portanto, x + iy e x − iy são
relativamente primos em Z[i] pelo Lema IV.2.1. Seja z = α1n1 . . . αtnt
a fatoração de z em elementos irredutı́veis de Z[i]; então
(x + iy)(x − iy) = z 2 = α12n1 . . . αt2nt .
Como x+iy e x−iy são relativamente primos em Z[i], então, depois
de uma reordenação dos fatores, existe r ≤ t tal que
x + iy = εα12n1 . . . αr2nr = ε(α1n1 . . . αrnr )2 ,
com ε invertı́vel em Z[i].
(ii) ⇒ (iii). É de fácil verificação.
(iii) ⇒ (i). É imediato.
Observação IV.2.3. Seja n ≥ 3 um inteiro. Então não existem
inteiros x, y e z com xyz 6= 0 tais que
xn + y n = z n .
Este fato é conhecido como o último Teorema de Fermat e foi du-
rante mais de 300 anos um grande desafio para os matemáticos.
Somente em 1995 A. Wiles conseguiu uma demonstração deste fato.

IV.3 Teorema de Bezout


Seja K um corpo. Seja f (X, Y ) um polinômio não-nulo em K[X, Y ].
Denotamos por VK (f ) o conjunto dos pontos em K 2 da curva plana
afim determinada por f (X, Y ), i.e.,
VK (f ) = {(x, y) ∈ K 2 | f (x, y) = 0}.
Dados f (X, Y ), g(X, Y ) dois polinômios em K[X, Y ] de graus
n, m ≥ 1 respectivamente, escrevemos
n
X
f (X, Y ) = ai (Y )X n−i
i=0
122 [CAP. IV: APLICAÇÕES

m
X
g(X, Y ) = bj (Y )X m−j ,
j=0

onde ∀ i, ai (Y ) ∈ K[Y ], grau ai (Y ) ≤ i ou ai(Y ) = 0 e ainda com
grau aℓ (Y ) = ℓ para algum ı́ndice 0 ≤ ℓ ≤ n , e ∀ j, bj (Y )∈K[Y  ],
grau bj (Y )≤j ou bj (Y )=0 e grau bk (Y )=k para algum 0≤k≤m .
O Teorema de Bezout dá informações sobre a cardinalidade da
interseção VK (f ) ∩ VK (g). Antes de enunciá-lo vamos fazer algumas
considerações que serão utilizadas na demonstração deste teorema.
Para um elemento β ∈ K qualquer, considere o homomorfismo
K-linear ϕβ abaixo:
ϕβ
K 2 −→ K 2
(x, y) 7−→ (x, y − βx).

É imediato verificar que este homomorfismo ϕβ leva os pontos das


curvas afins VK (f ) e VK (g) nos pontos das curvas afins VK (f1 ) e
VK (g1 ), respectivamente, onde

f1 (X, Y ) := f (X, Y + βX) e g1 (X, Y ) := g(X, Y + βX),

e que ϕβ induz uma bijeção entre VK (f ) ∩ VK (g) e VK (f1 ) ∩ VK (g1 ).


É imediato verificar também que temos grau f1 = grau f = n e que
grau g1 = grau g = m.
Dado um conjunto finito de pontos distintos em K 2 , digamos
Pj = (xj , yj ) para j = 1, 2, . . . , t, e supondo que K é um corpo
infinito, existe β ∈ K tal que

yj − βxj 6= yk − βxk para todo 1 ≤ k, j ≤ t, k 6= j.

Para verificar isto, basta tomar β diferente dos seguintes quocientes


(yk − yj )/(xk − xj ), com 1 ≤ k 6= j ≤ t e com xk 6= xj . Assim, se K
é um corpo infinito, podemos encontrar β ∈ K tal que a imagem
por ϕβ de um conjunto finito dado de pontos distintos em K 2 seja
um conjunto de pontos com todas ordenadas distintas.
[SEC. IV.3: TEOREMA DE BEZOUT 123

Consideramos a0 , a1 (Y ), . . . , an (Y ) ∈ K[Y ] os coeficientes de


f (X, Y ). Como grau ai (Y ) ≤ i, escrevemos

ai (Y ) = αi Y i + ( termos de grau menor), para 0 ≤ i ≤ n.

Para algum ı́ndice 0 ≤ ℓ ≤ n, temos por hipótese que grau aℓ (Y ) =


ℓ e portanto temos αℓ 6= 0. PO coeficiente de X n no polinômio
f1 (X, Y ) := f (X, Y + βX) = i ai (Y + βX)X n−i é então igual a
X
αi β i .
i

Assim, evitando apenas um número finito de elementos de K, a


saber, evitando as raı́zes do polinômio α0 + α1 Z + · · · + αn Z n , o
elemento β ∈ K será tal que o coeficiente de X n em f1 (X, Y ) será
não-nulo. Analogamente, evitando apenas um número finito de
elementos de K, o elemento β ∈ K será tal que o coeficiente de X m
em g1 (X, Y ) := g(X, Y + βX) será não-nulo.

Teorema IV.3.1. (Teorema de Bezout). Seja K um corpo. Sejam


f (X, Y ), g(X, Y ) dois polinômios em K[X, Y ] de graus n, m ≥ 1.
Se f (X, Y ) e g(X, Y ) não têm fator comum em K[X, Y ], então

#(VK (f ) ∩ VK (g)) ≤ nm.

Demonstração. Podemos supor que o corpo K seja infinito. De


fato, se não for, considere o corpo K ′ = K(Z) das frações do anel de
polinômios K[Z], onde Z é uma indeterminada sobre K. É claro
que K ′ é um corpo infinito que contém K e que, pelo Corolário
III.3.7, f (X, Y ) e g(X, Y ) não têm fator comum em K ′ [X, Y ]; se
mostramos que #(VK ′ (f ) ∩ VK ′ (g)) ≤ mn, então a fortiori, teremos
que #(VK (f ) ∩ VK (g)) ≤ mn.
Como f (X, Y ) e g(X, Y ) não têm fator comum em K[Y ][X],
então de novo pelo Corolário III.3.7, eles não têm fator comum no
domı́nio principal K(Y )[X] e portanto, pelo Teorema II.2.1, exis-
tem elementos γ, δ em K(Y )[X] tais que

1 = γ · f + δ · g.
124 [CAP. IV: APLICAÇÕES

Multiplicando por um denominador comum d(Y ) ∈ K[Y ] para estes


elementos γ e δ, obtemos
d(Y ) = A(X, Y ) · f (X, Y ) + B(X, Y ) · g(X, Y ),
com A(X, Y ), B(X, Y ) ∈ K[X, Y ].
Se (x, y) ∈ K 2 é tal que f (x, y) = g(x, y) = 0, então d(y) = 0.
Assim existe somente um número finito de ordenadas possı́veis para
um ponto em K 2 da interseção das curvas determinadas por f e por
g, a saber as raı́zes em K do polinômio não-nulo d(Y ). Agora, para
uma ordenada fixa y ∈ K, existem no máximo n pontos em K 2 da
curva determinada por f (X, Y ) com esta ordenada y, a saber os
pontos (x, y) ∈ K 2 tais que x seja uma raiz de f (X, y). Fica assim
provado que
#(VK (f ) ∩ VK (g)) < ∞.
Como K é um corpo infinito, existe β ∈ K tal que, com
f1 (X, Y ) := f (X, Y + βX) e g1 (X, Y ) := g(X, Y + βX),
temos: os pontos distintos de VK (f1 ) ∩ VK (g1 ) tem ordenadas dis-
tintas, o coeficiente de X n em f1 (X, Y ) e o coeficiente de X m em
g1 (X, Y ) são não-nulos.
Escrevemos
f1 (X, Y ) = a0 X n + a1 (Y )X n−1 + · · · + an (Y ), com a0 6= 0,
g1 (X, Y ) = b0 X m + b1 (Y )X m−1 + · · · + bm (Y ), com b0 6= 0.
Vamos considerar f1 (X, Y ) e g1 (X, Y ) como polinômios na variável
X com os coeficientes ai (Y ), bj (Y ) em K[Y ] ∀ i, j, e vamos consi-
derar a resultante, que é um elemento de K[Y ]. Denotaremos esta
resultante por Rf1 ,g1 (Y ) no lugar de Rf1 (X,Y ),g1 (X,Y ) . Temos:
#(VK (f ) ∩ VK (g)) = #(VK (f1 ) ∩ VK (g1 ))
= #{y ∈ K; f1 (X, y) e g1 (X, y) têm uma raiz comum em K}
≤ #{y ∈ K; f1 (X, y) e g1 (X, y) têm um fator comum de
grau ≥ 1 em K[X]}
= #{y ∈ K; Rf1 (X,y),g1 (X,y) = 0}, pelo Teorema III.3.6
= #{y ∈ K; Rf1 ,g1 (y) = 0}
≤ grau Rf1 ,g1 (Y ), pelo Corolário III.1.7.
[SEC. IV.3: TEOREMA DE BEZOUT 125

Pela Proposição III.3.9, a resultante Rf1 ,g1 (Y ) envolve termos


do tipo

ai1 (Y ) . . . aim (Y )bj1 (Y ) . . . bjn (Y ), com i1 +· · ·+im +j1 +· · ·+jn = nm.

Como grau ai (Y ) ≤ i e grau bj (Y ) ≤ j, vemos que

grau(ai1 (Y ) . . . aim (Y )bj1 (Y ) . . . bjn (Y )) ≤ nm.

Logo grau(Rf1 ,g1 (Y )) ≤ nm, e portanto #(VK (f ) ∩ VK (g)) ≤ nm.

Seja R o corpo dos números reais. Lembramos que as cônicas


irredutı́veis em R2 são as parábolas, as elı́pses e as hipérboles; com
uma escolha adequada de coordenadas, suas equações são do tipo

Y = X 2, (X/a)2 + (Y /b)2 = 1 e (X/a)2 − (Y /b)2 = 1,

respectivamente.
Vamos agora aplicar o teorema de Bezout para obter o resul-
tado seguinte: os pontos de interseção (quando eles existirem) dos
lados opostos de um hexágono inscrito numa cônica irredutı́vel são
colineares. De maneira mais precisa:

Teorema IV.3.2. (Teorema do hexágono de Pascal). Sejam


P1 , . . . , P6 seis pontos distintos sobre uma cônica irredutı́vel C. Se
as retas P1 P2 e P4 P5 se intersectam em Q1 , se as retas P2 P3 e P5 P6
se intersectam em Q2 e se as retas P3 P4 e P6 P1 se intersectam em
Q3 , então os pontos Q1 , Q2 , Q3 são colineares.
126 [CAP. IV: APLICAÇÕES

Q
1

P1
P6
C
Q
P5 3

P P
2 4

P3
Q2

Demonstração. Escolha um sistema de coordenadas em R2 . Seja


Li a reta Pi Pi+1 para cada i = 1, . . . , 6 (onde, por convenção, faze-
mos P7 = P1 ), e seja ℓi (X, Y ) sua equação. Seja f (X, Y ) a equação
da cônica irredutı́vel C. Escolha um ponto A sobre C, diferente de
P1 , . . . , P6 ; sejam (α, β) suas coordenadas.
Como ℓ1 é irredutı́vel de grau 1 e f é irredutı́vel de grau 2, e
como P1 , P2 são dois pontos distintos de L1 ∩C, então, pelo Teorema
de Bezout, L1 ∩ C = {P1 , P2 }. Similarmente, Li ∩ C = {Pi , Pi+1 }
para cada i = 1, . . . , 6.
Como A ∈ C, A 6= P1 , P2 e L1 ∩ C = {P1 , P2 }, então A ∈ / L1 .
Similarmente, A ∈ / Li para cada i = 1, . . . , 6.
Como Q1 ∈ L1 ∩ L4 e (L1 ∩ C) ∩ (L4 ∩ C) = {P1 , P2 } ∩
{P4 , P5 } = ∅, então Q1 ∈ / C. Similarmente, Q1 , Q2 , Q3 ∈
/ C.

Para µ ∈ R , considere agora o polinômio

g(X, Y ) = ℓ1 ℓ3 ℓ5 + µℓ2 ℓ4 ℓ6 .

Afirmamos que grau g = 3. De fato, grau g ≤ 3 pois grau ℓi = 1,


∀ i = 1, . . . , 6. Por outro lado, os pontos P1 , P2 , Q1 são distintos e
estão sobre a curva VR (g) determinada por g, e também sobre a reta
L1 . Logo, pelo teorema de Bezout, ou grau g ≥ 3 ou ℓ1 divide g.
No entanto, é impossı́vel ℓ1 dividir g, pois, neste caso, ℓ1 dividiria
µℓ2 ℓ4 ℓ6 , o que é absurdo pois R[X, Y ] é um domı́nio fatorial. Logo,
grau g = 3.
[SEC. IV.3: TEOREMA DE BEZOUT 127

Escolha o número real µ de maneira tal que o ponto A se en-


contre sobre a curva VR (g), isto é, tome

ℓ1 (α, β)ℓ3 (α, β)ℓ5 (α, β)


µ=− .
ℓ2 (α, β)ℓ4 (α, β)ℓ6 (α, β)

Com esta escolha, os sete pontos P1 , . . . , P6 , A se encontram na


interseção de C com VR (g). Pelo teorema de Bezout, f divide g;
então, existe um polinômio h(X, Y ) de grau 1 tal que g = f h e
portanto
VR (g) = VR (f ) ∪ VR (h).

Obtemos finalmente que Q1 , Q2 , Q3 estão sobre a reta VR (h). De


fato, Q1 , Q2 , Q3 pertencem a VR (g), e não pertencem a C.

Exercı́cio IV.3.3. (Complemento do Teorema IV.3.2). Sejam


P1 , . . . , P6 seis pontos distintos sobre uma cônica irredutı́vel C.

a) Se as retas P1 P2 e P4 P5 são paralelas, se as retas P2 P3 e P5 P6


se intersectam em Q2 e se as retas P3 P4 e P6 P1 se intersectam
em Q3 , então a reta Q2 Q3 é paralela à reta P1 P2 .

Dica: Tome um ponto P1′ 6= P1 “muito perto” de P1 na cônica


C, e compare o caso P1′ P2 . . . P6 com o caso P1 P2 . . . P6 .

b) Se as retas P1 P2 e P4 P5 são paralelas, se as retas P2 P3 e


P5 P6 são paralelas, então as retas P3 P4 e P6 P1 são também
paralelas.

Dica: Tome um ponto P1′ 6= P1 “muito perto” de P1 na cônica


C, um ponto P6′ 6= P6 “muito perto” de P6 na cônica C, e
compare o caso P1′ P2 . . . P5 P6′ com o caso P1 P2 . . . P5 P6 .
128 [CAP. IV: APLICAÇÕES

P1
P1
C
P6 C
P2 P6

P2 P5
Q P5
3

P4 P3
P3
P4

Q
2

Item a) Item b)

Teorema IV.3.4. (Teorema de Pappus). Sejam ∆1 e ∆2 duas


retas concorrentes. Sejam P1 , P3 , P5 três pontos distintos sobre ∆1
e P2 , P4 , P6 três pontos distintos sobre ∆2 . Se as retas P1 P2 e P4 P5
se intersectam em Q1 , se as retas P2 P3 e P5 P6 se intersectam em
Q2 e se as retas P3 P4 e P6 P1 se intersectam em Q3 , então os pontos
Q1 , Q2 , Q3 são colineares.

P5

P3

P
1

D1
Q
2
Q1
Q3

D2 P4 P2
P6

Demonstração. Faça uma prova análoga à prova do teorema de


Pascal, escolhendo o ponto A na interseção de ∆1 com ∆2 .
[SEC. IV.4: EXERCÍCIOS 129

IV.4 Exercı́cios

1.a) Mostre que −6 + 48i é um múltiplo de 2 + 4i em Z[i].

b) Procure a fatoração de −6 + 48i em fatores irredutı́veis em


Z[i].

2. Seja n um inteiro do tipo 4k + 3.

a) Mostre que n possui um fator primo do tipo 4ℓ + 3 que


aparece com uma potência ı́mpar na fatoração de n.

b) Mostre que a equação X 2 + Y 2 = nZ 2 não possui uma


solução em Z3 diferente de (0, 0, 0).

c) Mostre que a equação X 2 + Y 2 = n não possui solução


em Q, i.e., que n não é soma de dois quadrados em Q.

3. a) Mostre que Z[ 3] ≃ Z[X]/(X 2 − 3).
b) Seja p ∈ Z um√número primo. Mostre que p é um ele-
mento primo de Z[ 3] se e somente se o polinômio X 2 − 3 é
irredutı́vel em (Z/pZ)[X].

4. O objetivo deste exercı́cio é mostrar que todo inteiro positivo


é uma soma de quatro quadrados de números inteiros. Seja
Q := C × C, com as operações ⊕ e ⊗ definidas por:

(α, β) ⊕ (γ, δ) = (α + γ, β + δ)
(α, β) ⊗ (γ, δ) = (αγ − β δ̄, αδ + βγ̄),

onde z̄ denota o complexo-conjugado de z ∈ C. Considere a


função ϕ : Q → R≥0 definida por

ϕ((α, β)) := (αᾱ + β β̄).


130 [CAP. IV: APLICAÇÕES

Observe que se α = a1 + ia2 e β = a3 + ia4 , então ϕ((α, β)) =


a21 + a22 + a23 + a24 . Considere o seguinte subconjunto de Q:
    
a b c d a, b, c, d ∈ Z com
H := +i , +i ; .
2 2 2 2 a ≡ b ≡ c ≡ d mod 2

a) Mostre que (Q, ⊕, ⊗) é um anel não comutativo com unidade.


Mostre que a função ϕ é multiplicativa, isto é, mostre que
ϕ(x ⊗ y) = ϕ(x)ϕ(y), ∀ x, y ∈ Q.
Mostre que todo elemento não-nulo de Q tem inverso multi-
plicativo. Mais explicitamente, verifique que
 
−1 ᾱ −β
(α, β) = , .
ϕ((α, β)) ϕ((α, β))

b) Mostre que (H, ⊕, ⊗) é um subanel de Q tal que ϕ(x) ∈ Z,


∀ x ∈ H. Verifique que este anel é isomorfo ao anel dos quater-
nios inteiros de Hurwitz introduzido na Observação IV.1.7.
c) Mostre que (H, ⊕, ⊗, ϕ) tem a seguinte propriedade eu-
clidiana: dados dois elementos y e x não-nulos de H, existem
elementos t, r ∈ H tais que
y =t⊗x⊕r com ϕ(r) < ϕ(x).

Dica. A prova de que Z[i] é um domı́nio euclidiano sugere


como fazer.
d) Um subconjunto não-vazio I de H é dito um ideal se
∀ x, y ∈ I e ∀ w ∈ H temos que x ⊕ y ∈ I e w ⊗ x ∈ I.
Mostre que todo ideal I de H é principal, isto é, mostre que
existe um elemento x ∈ I tal que I = {w ⊗ x; w ∈ H}.
e) Um elemento x ∈ H é dito central se x ⊗ y = y ⊗ x, para
cada y ∈ H. Um elemento central x ∈ H é dito primo se,
∀ y, w ∈ H, temos
x|(y ⊗ w) ⇒ x|y ou x|w.
[SEC. IV.4: EXERCÍCIOS 131

Um elemento x de H, x não-invertı́vel em H, é dito irredutı́vel


se, ∀ y, w ∈ H, temos

x = y ⊗ w ⇒ y ou w é invertı́vel em H.

Mostre que se x ∈ H é um elemento central e irredutı́vel,


então o elemento x é primo.

f) Seja p ∈ Z um número primo. Mostre que o elemento (p, 0)


não é irredutı́vel em H.
Dica. Utilize que existem inteiros a, b ∈ Z tais que o número
primo p divide (a2 + b2 + 1) e que vale a seguinte igualdade
(a + i, b) ⊗ (a − i, −b) = (a2 + b2 + 1, 0).

g) Seja p ∈ N um número primo. Mostre que existem números


inteiros a, b, c, d ∈ Z tais que

4p = a2 + b2 + c2 + d2 .

h) Seja n ∈ N tal que 2n é uma soma de quatro quadrados de


inteiros. Então n também é uma soma de quatro quadrados
de inteiros.
Dica.  2  2
a2 + b 2 a+b a−b
= + .
2 2 2

i) Conclua que todo número primo p ∈ N é uma soma de


quatro quadrados de inteiros.

j) Usando a propriedade multiplicativa da função ϕ, mostre


que o produto de duas somas de quatro quadrados de inteiros
é ainda uma soma de quatro quadrados de inteiros. Con-
clua que todo número inteiro positivo é uma soma de quatro
quadrados de inteiros.
132 [CAP. IV: APLICAÇÕES

5. Sejam P1 = (x1 , y1 ), . . . , P5 = (x5 , y5 ) cinco pontos distintos


do plano real R2 .

a) Mostre que

ϕ : R6 −→ R5
(a20 , a11 , a02 , a10 , a01 , a00 ) 7−→ (a20 x2i + a11 xi yi + a02 yi2 +
a10 xi + a01 yi + a00 )i=1,...,5

é uma aplicação R-linear.

b) Mostre que existe ao menos uma cônica passando pelos


cinco pontos P1 , . . . , P5 .

c) Mostre que se duas cônicas distintas contêm esses pon-


tos, então quatro dos pontos são colineares.

6. Seja K um corpo infinito e seja f (X, Y ) ∈ K[X, Y ] irredutı́vel


de grau 2. Se VK (f ) 6= ∅, então VK (f ) é um conjunto infinito.
Dica. Considere um ponto (a, b) ∈ VK (f ) e as retas Lα dadas
por Y − b = α(X − a) com α ∈ K. Considere Lα ∩ VK (f ).
GRUPOS
Capı́tulo V

Teoria Básica dos Grupos

V.1 Exemplos de Grupos


Definição V.1.1. Um conjunto G com uma operação
G × G −→ G
(a, b) 7−→ a · b
é um grupo se as condições seguintes são satisfeitas:

(i) A operação é associativa, isto é,


a · (b · c) = (a · b) · c, ∀ a, b, c ∈ G.

(ii) Existe um elemento neutro, isto é,


∃e ∈ G tal que e · a = a · e = a, ∀ a ∈ G.

(iii) Todo elemento possui um elemento inverso, isto é,


∀ a ∈ G, ∃b ∈ G tal que a · b = b · a = e.
O grupo é abeliano ou comutativo se:
(iv) A operação é comutativa, isto é,
a · b = b · a, ∀ a, b ∈ G.

135
136 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Observação V.1.2. 1) O elemento neutro é único. De fato, se


e, e′ ∈ G são elementos neutros de G, então

e = e · e′ pois e′ é elemento neutro,


= e′ pois e é elemento neutro.

2) O elemento inverso é único. De fato, seja a ∈ G, e sejam b, b′ ∈ G


dois elementos inversos de a; temos:

b = b · e = b · (a · b′ ) pois b′ é inverso de a,
= (b · a) · b′ = e · b′ = b′ pois b é inverso de a.

Denotaremos o único inverso de a por a−1 .


3) Da unicidade do inverso de um elemento a ∈ G, obtém-se o fato
mais geral seguinte:
Se a, b ∈ G, então a equação X · a = b tem uma única solução
em G, a saber b · a−1 .
De fato, se c é uma solução de X · a = b, então temos c · a = b,
logo c · a · a−1 = b · a−1 , e portanto c = b · a−1 . Por outro lado, b · a−1
é claramente uma solução.
De maneira similar, obtém-se que a equação a · X = b tem uma
única solução em G, a saber a−1 · b.
4) Em decorrência da Observação V.1.2 3), para mostrar que um
elemento f ∈ G é igual ao elemento neutro do grupo, basta mostrar
que f · a = a para algum elemento a ∈ G.
5) (a · b)−1 = b−1 · a−1 (Verifique).

Nota: Muitas vezes deixaremos de indicar a operação do grupo,


escrevendo G para denotar um grupo (G, ·). Também, quando não
existir ambigüidade, escreveremos ab no lugar de a · b.
Pela definição, se (A, +, ·) é um anel, então (A, +) é um grupo
abeliano. Pela definição, um corpo (K, +, ·) é um conjunto K com
duas operações + e · tal que (K, +) é um grupo abeliano, (K−{0}, ·)
é um grupo abeliano, e vale a distributividade.
[SEC. V.1: EXEMPLOS DE GRUPOS 137

Exemplos de grupos:

1) (Z, +) é um grupo abeliano infinito.


(Z/nZ, ⊕) é um grupo abeliano finito com n elementos.
n

2) (Q, +), (R, +), (C, +) são grupos (aditivos) abelianos.

(Q\{0}, ·), (R\{0}, ·), (C\{0}, ·) são grupos (multiplicativos)


abelianos.
Se p é um número primo, ((Z/pZ) \ {0}, ⊙) é um grupo
p
abeliano.

3) Lembramos que se (A, +, ·) é um anel, comutativo ou não,


então A∗ representa o conjunto dos elementos invertı́veis de
A; (A∗ , ·) é um grupo (prove) que será abeliano se o anel for
comutativo. Em particular, se K é um corpo e se Mn×n (K) é o
anel das matrizes n × n com entradas em K, então
((Mn×n (K))∗ , ·) é um grupo (em geral não abeliano, pois o
produto de matrizes não é uma operação comutativa); tal
grupo é denotado por GL(n; K) e é chamado grupo linear
geral sobre K.

3’) Considere (Z/nZ, ⊕, ⊙). Por definição, o conjunto dos ele-


n n
mentos de ((Z/nZ)∗ , ⊙) consiste das classes r onde o inteiro r
n
pertence ao conjunto {1 ≤ r ≤ n − 1; ∃ s ∈ Z com r ⊙ s = 1̄}
n
que é igual ao conjunto {1 ≤ r ≤ n − 1; MDC{r, n} = 1}
(verifique isto, usando o fato que, se d = MDC{r, n}, então
existem a, b ∈ Z tais que d = ar + bn). Logo ((Z/nZ)∗ , ⊙) é
um grupo com Φ(n) elementos, onde Φ : N → N é a função
de Euler , i.e., a função definida por

Φ(n) = #{1 ≤ r ≤ n; MDC{r, n} = 1}.

4) Seja C um conjunto qualquer. Considere o conjunto Bij(C) =


{f : C → C | f é uma bijeção}. Prove que (Bij(C), ◦) é um
138 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

grupo, não-abeliano em geral, onde a operação ◦ é a com-


posição de funções. Observe que o grupo Bij(C) só será
abeliano se o conjunto C tiver um ou dois elementos. Uti-
lizaremos também o sı́mbolo P(C) para designar este grupo.
4’) Caso o conjunto C tenha um número finito n de elementos,
Bij(C) será denotado por Sn e será chamado grupo simétrico
ou grupo das permutações de n letras. Temos que #Sn = n! .
4”) O grupo S3 :
           
123 123 123 123 123 123
S3 = , , , , , ,
123 213 321 132 231 312

onde a notação 123abc
representa a função definida da maneira
seguinte: f (1) = a, f (2) = b e f (3) = c.
   
123 123
Sejam α = eβ= ; temos
231 213
    
2 123 123 123
α = = ,
231 231 312
    
3 123 123 123
α = = = id,
312 231 123
    
2 123 123 123
β = = = id,
213 213 123
    
123 123 123
βα = = ,
213 231 132
    
123 123 123
αβ = = ,
231 213 321
    
2 123 123 123
α β= = .
312 213 132

Complete a tabela de multiplicação desse grupo. Observe que


foi verificado acima que α e β geram o grupo S3 , isto é, que
todos os elementos do grupo são produtos finitos de fatores
iguais a α ou β; foi também verificado que α3 = id, β 2 = id e
que βα = α2 β 6= αβ.
[SEC. V.1: EXEMPLOS DE GRUPOS 139

5) O grupo S∆ das simetrias espaciais de um triângulo equilátero.


Seja P1 P2 P3 um triângulo equilátero. Coloque o centro de
gravidade do triângulo na origem 0 do espaço e chame de
E1 , E2 , E3 as retas do espaço passando pelas medianas do
triângulo.

P1

E3 E2

P2 P3

E
1

As transformações espaciais que preservam o triângulo são:

• id, R 2π , R 4π : as rotações planas centradas em 0, no sentido


3 3
anti-horário, de ângulos zero, 2π 3
e 4π
3
, respectivamente.

• R1 , R2 , R3 : as rotações espaciais de ângulo π com eixos E1 ,


E2 , E3 , respectivamente.

É fácil ver que S∆ := {id, R 2π , R 4π , R1 , R2 , R3 } com a com-


3 3
posição de funções é um grupo (faça a tabela de multiplicação e
verifique os axiomas). O grupo não é abeliano pois temos:
P1 P3 P
3

E3 E2 E3 E2 E3 E
2
R2 R1

P2 P3 P2 P1 P P
1 2

E E1 E
1 1

isto é, R1 ◦ R2 = R 2π .
3
140 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

P1 P1 P
2

E3 E2 E3 E2 E3 E
2
R1 R2

P2 P3 P3 P2 P3 P1

E E1 E
1 1

isto é, R2 ◦ R1 = R 4π .
3

Mostre que os elementos R 2π e R1 geram o grupo S∆ , isto é,


3
qualquer elemento de S∆ é um produto de alguns elementos R 2π ’s
3
com alguns R1 ’s.
6) O grupo D das simetrias espaciais de um quadrado.
Seja P1 P2 P3 P4 um quadrado. Coloque o centro de gravidade
do quadrado na origem 0 do espaço e chame de D1 , D2 , M, N as
retas do espaço determinadas pelas diagonais e pelas mediatrizes
do quadrado.
D1
M

P2 P1

0
N

P3 P4

D2

As transformações espaciais que preservam o quadrado são:

• id, R π2 , Rπ , R 3π : as rotações planas centradas em 0, no sentido


2
anti-horário, de ângulos zero, π2 , π e 3π 2
, respectivamente.
[SEC. V.1: EXEMPLOS DE GRUPOS 141

• R1 , R2 , RM , RN : as rotações espaciais de ângulo π com eixos


D1 , D2 , M, N , respectivamente.

É fácil ver que

D := {id, R π2 , Rπ , R 3π , R1 , R2 , RM , RN }
2

com a composição de funções é um grupo (faça a tabela de multi-


plicação e verifique os axiomas).
O grupo não é abeliano pois temos:
M D1 M D1 M D1

P2 P1 P1 P2 P3 P2

N RM N R1 N

P3 P4 P4 P3 P4 P1

D2 D2 D2

isto é, R1 ◦ RM = R 3π .
2

M D1 M D1 M D1

P2 P1 P4 P1 P1 P4

N R1 N RM N

P3 P4 P3 P2 P2 P3

D2 D2 D2

isto é, RM ◦ R1 = R π2 .
Mostre que os elementos R π2 e R1 geram o grupo D , isto é,
qualquer elemento de D é um produto de alguns elementos R π2 ’s
com alguns R1 ’s.
7) Sejam (G1 , ⊙) e (G2 , ⊙) dois grupos. No conjunto G1 ×G2 defina
1 2
a operação
(g1 , g2 ) · (g1′ , g2′ ) = (g1 ⊙ g1′ , g2 ⊙ g2′ ).
1 2
142 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Mostre que (G1 × G2 , ·) é um grupo (chamado produto direto de


G1 com G2 ); o elemento neutro de G1 × G2 é (e1 , e2 ), onde ei é
o elemento neutro de Gi , i = 1, 2; o elemento inverso de (g1 , g2 )
é (g1−1 , g2−1 ). Mostre que (G1 × G2 , ·) é um grupo abeliano se e
somente se (G1 , ⊙) e (G2 , ⊙) são grupos abelianos.
1 2
Mais geralmente, dados grupos (G1 , ⊙), . . . , (Gn , ⊙), defina a
1 n
noção de produto direto G1 × G2 × · · · × Gn .

V.2 Subgrupos
Definição V.2.1. Seja (G, ·) um grupo. Um subconjunto não-
vazio H de G é um subgrupo de G (denotamos H < G) quando,
com a operação de G, o conjunto H é um grupo, isto é, quando as
condições seguintes são satisfeitas:
0) h1 · h2 ∈ H, ∀ h1 , h2 ∈ H.
i) h1 · (h2 · h3 ) = (h1 · h2 ) · h3 , ∀ h1 , h2 , h3 ∈ H.
ii) ∃ eH ∈ H tal que eH · h = h · eH = h, ∀ h ∈ H.
iii) Para cada h ∈ H, existe k ∈ H tal que h · k = k · h = eH .

Observação V.2.2. 1) A condição i) é sempre satisfeita, pois a


igualdade g1 · (g2 · g3 ) = (g1 · g2 ) · g3 é válida para todos os elementos
de G.
2) O elemento neutro eH de H é necessariamente igual ao elemento
neutro e de G. De fato, tomando a ∈ H ⊆ G, temos eH · a = a;
multiplicando os dois lados por a−1 à direita, obtemos eH = e.
3) Dado h ∈ H, o inverso de h em H é necessariamente igual ao
inverso de h em G. De fato, se k é o inverso de h em H, então
h · k = k · h = eH , logo h · k = k · h = e pois eH = e, e portanto k é
o inverso de h em G.

Proposição V.2.3. Seja H um subconjunto não-vazio do grupo G.


Então H é um subgrupo de G se e somente se as duas condições
seguintes são satisfeitas:
[SEC. V.2: SUBGRUPOS 143

1) h1 · h2 ∈ H, ∀ h1 , h2 ∈ H.

2) h−1 ∈ H, ∀ h ∈ H.

Demonstração. Suponhamos que H seja um subgrupo de G. A


condição 1) é então claramente satisfeita. Agora, seja h ∈ H; sendo
H um grupo, h possui um inverso em H; mas, pela Observação
V.2.2 3) precedente, tal inverso é necessariamente igual ao inverso
de h em G, isto é, é necessariamente igual a h−1 ; logo h−1 ∈ H,
e a condição 2) é satisfeita. Reciprocamente, suponhamos que as
duas condições 1) e 2) sejam satisfeitas. Então, a condição 0) da
Definição V.2.1 é claramente satisfeita. Como já observamos, a
condição i) sempre é satisfeita. Para ver que a ii) é satisfeita, basta
ver que e ∈ H; isto de fato acontece pois, tomando h ∈ H, temos
h−1 ∈ H pela condição 2) e logo e = hh−1 ∈ H pela condição 1).
Finalmente, que a condição iii) é satisfeita decorre da condição 2)
ser satisfeita.
Na prática, para verificar que um subconjunto H é um subgrupo
de um grupo G, será mais conveniente verificar que as propriedades
1) e 2) da Proposição V.2.3 são satisfeitas.

Exemplos de subgrupos:

1) Se G é um grupo, então {e} e G são subgrupos de G.

2) (2Z, +) é um subgrupo de (Z, +). De maneira mais geral, se


n é um inteiro qualquer, (nZ, +) é um subgrupo de (Z, +).

3) {id, R1 } e {id, R 2π , R 4π } são subgrupos de S∆ ;


3 3

{id, Rπ } e {id, R , Rπ , R 3π } são subgrupos de D .


π
2 2

2πi 4πi 2(n−1)πi


4) Seja Un = {1, e n , e n , . . . , e n } o grupo multiplicativo
das raı́zes n-ésimas da unidade. Temos a seguinte cadeia de
subgrupos de C − {0}:
[  
raı́zes da
Un < Un = < S 1 < C − {0},
unidade
n
144 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

onde S 1 é o grupo dos números complexos de norma 1, ou


seja, S 1 é o cı́rculo unitário em R2 .

5) Considere o seguinte subconjunto D4 de S4 :


       
1234 1234 1234 1234
D4 = , , , ,
1234 2341 3412 4123
       
1234 1234 1234 1234
, , , .
4321 2143 1432 3214

Mostre que D4 < S4 . Verifique que D4 não é um grupo


abeliano.

6) Seja G um grupo qualquer. Considere o subconjunto Z(G) =


{x ∈ G | xg = gx, ∀ g ∈ G}. Mostre que Z(G) < G. Este
subgrupo Z(G) é chamado centro de G. Observe que G é
abeliano se e somente se Z(G) = G.

7) Se H e K são dois subgrupos de G, então H∩K é um subgrupo


de G. De maneira mais geral, mostre que se {Hα }α∈Γ é uma
famı́lia de subgrupos de G, então ∩Hα é um subgrupo de G.
α

Determinação de todos os subgrupos de (Z, +):


Já sabemos que os (nZ, +), com n ∈ N, são subgrupos de (Z, +).
Veremos que são os únicos subgrupos de Z. Seja H um subgrupo
qualquer de Z. Se H = {0}, então H = 0Z. Podemos agora supor
que H 6= {0}. Seja n = min{x ∈ H | x > 0}. Como n ∈ H e como
H é um subgrupo, temos nZ ⊆ H. Reciprocamente, seja h ∈ H;
pelo algorı́tmo de Euclides, existem q, r ∈ Z tais que h = qn + r
com 0 ≤ r < n; como h e n pertencem a H, então r pertence a H
também; pela minimalidade de n, temos

r∈H
⇒ r = 0,
0≤r<n

e portanto h = qn, ou seja h ∈ nZ. Logo H = nZ.


[SEC. V.2: SUBGRUPOS 145

Subgrupo gerado por um subconjunto:


Fixemos inicialmente algumas notações. Se H e K são subcon-
juntos de um grupo G (em particular, se H e K são subgrupos de
G), o conjunto {hk | h ∈ H e k ∈ K} será denotado por HK, e o
conjunto {h−1 | h ∈ H} será denotado por H −1 . Em geral HK não
é um subgrupo de G, mesmo quando H e K são subgrupos de G
(procure um exemplo dentre os grupos que você já conhece).
Se S é um subconjunto não-vazio do grupo G, o conjunto
{a1 a2 . . . an | n ∈ N, ai ∈ S ou ai ∈ S −1 } será denotado por hSi.
Quando o conjunto é finito, digamos S = {α1 , α2 , . . . , αr }, utilizare-
mos a notação hα1 , α2 , . . . , αr i para designar h{α1 , α2 , . . . , αr }i. Ob-
serve que se g ∈ G, então hgi = {. . . , (g −1 )2 , g −1 , e, g, g 2 , . . . }; com
freqüência, quando r ∈ N, escreveremos g −r para denotar o ele-
mento (g −1 )r ; assim, com estas notações, temos hgi = {g t | t ∈ Z}.
Proposição V.2.4. Sejam G um grupo e S um subconjunto não-
vazio de G. Então o conjunto hSi é um subgrupo de G.
Demonstração. Devemos provar que:
1) ∀ x, y ∈ hSi, temos xy ∈ hSi.
2) ∀ x ∈ hSi, temos x−1 ∈ hSi.
Sejam x, y ∈ hSi. Temos

x = a1 a2 . . . an , com ai ∈ S ou ai ∈ S −1 , ∀i
y = b1 b2 . . . bm , com bj ∈ S ou bj ∈ S −1 , ∀ j.
−1 −1 −1
Logo, xy = a1 a2 . . . an b1 b2 . . . bm e x−1 = a−1
n an−1 . . . a2 a1 estão
também em hSi.
Definição V.2.5. Sejam G um grupo e S um subconjunto não-
vazio de G. Então hSi é o subgrupo gerado por S.
Exercı́cio V.2.6. Seja G um grupo e seja S um subconjunto de
G. Mostre que hSi é o menor subgrupo de G contendo S e que hSi
é a interseção de todos os subgrupos de G que contém S.
Definição V.2.7. Um grupo G é cı́clico quando ele pode ser gerado
por um elemento, isto é, quando G = hgi, para algum g ∈ G.
146 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

D 2πi E
Exemplo V.2.8. Z = h1i, Z/nZ = h1̄i, Un = e n .
Note que se G é cı́clico, então G é abeliano.
Definição V.2.9. O subgrupo h{xyx−1 y −1 | x, y ∈ G}i é o sub-
grupo dos comutadores do grupo G; ele será denotado por G′ . Note
que G é abeliano se e somente se G′ = {e}.
Exercı́cio V.2.10. Calcule o centro e o subgrupo dos comutadores
dos grupos (Z, +), S3 e D4 .
Definição V.2.11. A ordem de um grupo G é o número de ele-
mentos em G; ela será denotada por |G|. Se α é um elemento do
grupo G, a ordem de α é a ordem do subgrupo gerado por α; ela
será denotada por O(α).
Assim, |Z| = ∞; |Z/nZ| = n; |D4 | = 8; |Sn | = n!.
Proposição V.2.12. Sejam α um elemento do grupo G e hαi o
subgrupo gerado por α. Então as seguintes condições são equiva-
lentes:

(i) A ordem |hαi| é finita.


(ii) Existe t ≥ 1 tal que αt = e.

Neste caso, denotando por n a ordem de α, temos

{t ≥ 0; αt = e} = {0, n, 2n, . . . } e hαi = {e, α, . . . , αn−1 }.

Demonstração. (i) ⇒ (ii) Como hαi = {αm | m ∈ Z}, e como,


por hipótese, o grupo hαi é finito, existem p, q ∈ Z, p 6= q tais que
αp = αq . Sem perda de generalidade, podemos supor que p > q.
Como αp = αq , então αp−q = e, e portanto existe t > 0 tal que
αt = e.
(ii) ⇒ (i). Consideramos o inteiro r := min{t ≥ 1; αt = e}. Que-
remos mostrar que r = n. Para isto, basta claramente provar a
afirmação seguinte:
Afirmação V.2.13. hαi = {e, α, α2 , . . . , αr−1 } e os elementos
e, α, α2 , . . . , αr−1 são todos distintos.
[SEC. V.3: CLASSES LATERAIS E TEOREMA DE LAGRANGE 147

Demonstração da Afirmação: Suponhamos que αp = αq com


0 ≤ p, q ≤ r − 1, p 6= q; podemos supor p > q. Temos αp−q = e
com 0 < p − q < r e isso contradiz a minimalidade de r. Logo
e, α, α2 , . . . , αr−1 são elementos distintos de G. Para provar que
hαi = {e, α, α2 , . . . , αr−1 }, devemos mostrar que ∀ m ∈ Z, αm = αℓ
para algum 0 ≤ ℓ < r. Ora, pelo algorı́tmo de Euclides, existem
q, ℓ ∈ Z tais que m = qr + ℓ com 0 ≤ ℓ < r, e portanto temos que
αm = αqr+ℓ = (αr )q · αℓ = eq · αℓ = αℓ .

Exercı́cio V.2.14. Seja n ∈ N, n ≥ 2. Seja m ∈ N; mostre que m̄


gera o grupo (Z/nZ, ⊕) se e só se m̄ é um elemento invertı́vel do
n
anel (Z/nZ, ⊕, ⊙).
n n

Exercı́cio V.2.15. Seja G um grupo e seja α ∈ G, α 6= e.


1) Mostre que α tem ordem 2 se e somente se α = α−1 .
2) Mostre que se O(α) = mn, então O(αm ) = n.
3) Mostre que O(α−1 ) = O(α).
4) Mostre que se O(α) = 2, ∀ α 6= e, então G é um grupo
abeliano.

Exercı́cio V.2.16. Seja G um grupo abeliano e considere o sub-


conjunto T (G) = {α ∈ G | O(α) < ∞}. Mostre que T (G) é um
subgrupo de G (chamado subgrupo de torção de G). Em particular,
tomando G = C \ {0}, temos que

T (C \ {0}) = {α ∈ C \ {0} | O(α) < ∞} = {raı́zes da unidade}.

V.3 Classes Laterais e Teorema de Lagrange


Seja G um grupo e seja H um subgrupo de G. Sobre G, defina a
relação de equivalência ∼ da maneira seguinte:
E

y ∼ x ⇔ ∃ h ∈ H tal que y = xh.


E

Verifique que ∼ é realmente uma relação de equivalência.


E
148 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Por definição, a classe de equivalência que contém x é o conjunto


{y ∈ G | y ∼ x} = {xh | h ∈ H}; denotaremos esse conjunto
E
por xH e o chamaremos de classe lateral à esquerda de H em G
que contém x. Quando não houver confusão possı́vel, chamaremos
simplesmente esta classe de classe lateral de x à esquerda. Em
particular, H é a classe lateral do elemento neutro e à esquerda.
Observe que y ∈ xH ⇔ yH = xH.
Analogamente, poderı́amos definir a relação de equivalência
seguinte:
y ∼ x ⇔ ∃ h ∈ H tal que y = hx.
D

Obterı́amos então as classes laterais à direita de H em G; a classe


lateral de x à direita seria Hx = {hx | h ∈ H}.
Definição V.3.1. A cardinalidade do conjunto das classes laterais
à esquerda é o ı́ndice de H em G; ele será denotado por (G : H).
Observação V.3.2. O ı́ndice de H em G também é a cardinalidade
do conjunto das classes laterais à direita de H em G, pois a aplicação
ϕ abaixo é uma bijeção bem definida (Verifique!):

ϕ : {classes laterais à esquerda} −→ {classes laterais à direita}


xH 7−→ Hx−1 .

Definição V.3.3. Dada uma partição de um conjunto, um sistema


de representantes é um conjunto {xα }α∈Γ que tem exatamente um
elemento em cada subconjunto da partição. Em particular, a cardi-
nalidade de qualquer sistema de representantes das classes laterais
à esquerda de H em G é igual a (G : H).
Proposição V.3.4. Todas as classes laterais de H em G têm a
mesma cardinalidade, igual à cardinalidade de H.
Demonstração. A função

H −→ xH
h 7−→ xh

é claramente uma bijeção.


[SEC. V.3: CLASSES LATERAIS E TEOREMA DE LAGRANGE 149

Teorema V.3.5. (Teorema de Lagrange). Sejam G um grupo


finito e H um subgrupo de G. Então |G| = |H|(G : H); em parti-
cular, a ordem e o ı́ndice de H dividem a ordem de G.

Demonstração. Considerando a relação de equivalência à es-


querda ∼ em G, obtemos uma partição de G em classes de equi-
E
valência. A proposição anterior mostra que em cada uma dessas
classes temos |H| elementos. Como, por definição, o número de
classes é (G : H), temos a igualdade |G| = |H|(G : H).

Corolário V.3.6. Seja G um grupo finito e seja α ∈ G. Então a


ordem de α divide a ordem de G.

Demonstração. Por definição, O(α) = |hαi|. Aplique agora o


Teorema de Lagrange ao subgrupo hαi. Note que, equivalente-
mente, este corolário diz que α|G| = e (vide Proposição V.2.12).

Corolário V.3.7. (Pequeno Teorema de Fermat) Seja p um nú-


mero primo. Então:

ap−1 ≡ 1 mod p, ∀ a ∈ Z \ pZ.


Z
Demonstração. Seja a ∈ Z \ pZ; então ā ∈ pZ \ {0̄}. Agora,
Z
pZ
\ {0} = ( pZ ) é um grupo de (p − 1) elementos, logo āp−1 = 1̄,
Z ∗

ou seja ap−1 ≡ 1 mod p.

Exercı́cio V.3.8. Mostre que se p é um número primo então, para


cada a ∈ Z, temos ap ≡ a mod p.

Corolário V.3.9. (Euler) Sejam x e n dois inteiros relativamente


primos. Então xΦ(n) ≡ 1 mod n, onde Φ é a função de Euler.

Demonstração. Segue do Corolário V.3.6 depois de observar que


|(Z/nZ)∗ | = Φ(n). (Vide Exemplos de grupos 3’)).

Corolário V.3.10. Seja G é um grupo de ordem prima. Então G


é cı́clico.
150 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Demonstração. Seja α ∈ G \ {e} e considere hαi o subgrupo ge-


rado por α. Pelo Teorema de Lagrange, |hαi| divide |G| e portanto
|hαi| = |G|, pois |G| é primo. Logo G = hαi.

Proposição V.3.11. Seja G um grupo abeliano.

a) Se a, b ∈ G são dois elementos de ordem finita tais que


M DC{O(a), O(b)} = 1, então O(ab) = O(a)O(b).

b) Se r := sup{O(g); g ∈ G} é finito, então O(x) divide r para


cada x ∈ G.

Demonstração. a) Sejam n := O(a), m := O(b), z := O(ab).


Como a e b comutam, então (ab)nm = (an )m (bm )n = e; logo z é
um divisor de nm (vide Proposição V.2.12). Por outro lado, temos
(ab)z = e. Como a e b comutam, então az = b−z ∈ hai ∩ hbi; como
|hai| e |hbi| são relativamente primos, então hai ∩ hbi = {e}. Assim,
az = e e bz = e; portanto z é um múltiplo de n e de m, logo um
múltiplo de nm pois n e m são relativamente primos. Portanto
obtemos que z = nm.
b) Primeiro, provamos a afirmação seguinte:
“se a, b ∈ G são dois elementos de ordem finita, então existe um
elemento c ∈ G tal que O(c) = M M C{O(a), O(b)}”.
Sejam n := O(a), m := O(b). Se M DC{n, m} = 1, então, pelo
item a), podemos tomar c := ab. Se M DC{n, m} 6= 1, considere as
decomposições em elementos irredutı́veis de n e m:
α
n = pα1 1 . . . pαk k · pk+1
k+1
. . . pαt t
β
m = pβ1 1 . . . pβkk · pk+1
k+1
. . . pβt t ,

onde 0 ≤ αi < βi para cada i = 1, 2, . . . , k; αj ≥ βj ≥ 0 para cada


j = k + 1, . . . , t, e onde os primos pi ’s são todos distintos.
Considere então os elementos
α1 α βk+1 β
...pk k ...pt t
a1 = ap1 e b1 = bpk+1 .
[SEC. V.3: CLASSES LATERAIS E TEOREMA DE LAGRANGE 151

Temos
n αk+1
O(a1 ) = = pk+1 . . . pαt t
. . . pαk k
pα1 1
m
O(b1 ) = βk+1 βt
= pβ1 1 . . . pβkk .
pk+1 . . . pt
Como as ordens O(a1 ) e O(b1 ) são relativamente primas, então
O(a1 b1 ) = O(a1 )O(b1 ) pelo item a). Assim, o elemento c := a1 b1
tem a ordem desejada. Isto prova nossa afirmação.
Agora, nós supomos que r := sup{O(g); g ∈ G} é finito e
tomamos y ∈ G tal que O(y) = r. Suponha que exista x ∈ G tal que
O(x) não divida r. Então terı́amos s := M M C{O(x), O(y)} > r
e, pela afirmação anterior, existiria um elemento c ∈ hx, yi ⊆ G tal
que O(c) = s > r, o que contradiz a escolha de r.
Proposição V.3.12. Seja G um grupo e sejam K < H < G.
Então
(G : K) = (G : H)(H : K).
Demonstração. A proposição afirma que se o lado esquerdo da
igualdade é finito então o lado direito também o é e vale a igualdade;
e vice-versa.
No caso em que |G| < ∞, podemos dar uma prova muito simples
utilizando três vezes o Teorema de Lagrange:

H < G ⇒ |G| = |H|(G : H)
⇒ |G| = |K|(H : K)(G : H),
K < H ⇒ |H| = |K|(H : K)
K < G ⇒ |G| = |K|(G : K),
e, comparando as duas expressões para a ordem |G|, obtemos a
igualdade (G : K) = (G : H)(H : K).
No caso geral (i.e., no caso em que |G| pode ser infinito), se
mostra que se {xα }α∈Γ é um sistema de representantes das classes
laterais à esquerda de H em G e se {yβ }β∈M é um sistema de
representantes das classes laterais à esquerda de K em H, então
{xα yβ }α∈Γ,β∈M é um sistema de representantes das classes laterais
à esquerda de K em G. Deixamos a verificação dos detalhes para
o leitor.
152 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Observação V.3.13. 1) Se G é um grupo abeliano e se H é um


subgrupo de G, então Hx = xH, ∀ x ∈ G.
2) Seja D o grupo das simetrias espaciais de um quadrado e seja
H = {id, R1 }. Temos

HR π2 = {R π2 , RN } 6= {R π2 , RM } = R π2 H.

Isso ilustra que num grupo não-abeliano, a classe de x à direita


pode ser diferente da classe de x à esquerda.

Exercı́cio V.3.14. Seja G = S3 (grupo das permutações de 3


elementos).

a) Procure todos os subgrupos de G com suas ordens.

b) Para cada subgrupo H de S3 , determinar as suas classes la-


terais à esquerda e à direita.

c) Exiba um subgrupo próprio H de S3 tal que

Hx = xH, ∀ x ∈ S3 .

d) Exiba um subgrupo próprio K de S3 para o qual exista x ∈ S3


tal que Kx 6= xK.

V.4 Subgrupos Normais e Grupos Quocientes


Seja G um grupo e seja H um subgrupo de G. Queremos ver se
a operação de G induz de maneira natural uma operação sobre o
conjunto das classes laterais à esquerda de H em G, isto é, se a
operação
(xH, yH) 7→ xyH
é bem definida, no sentido de não depender da escolha dos repre-
sentantes x e y. Dados x, y ∈ G e h, k ∈ H arbitrários, então x e xh
são representantes da mesma classe xH e, y e yk são representantes
[SEC. V.4: SUBGRUPOS NORMAIS E GRUPOS QUOCIENTES 153

da mesma classe yH. Assim, a operação induzida sobre as classes


laterais à esquerda é bem definida se e só se
xyH = xhykH, ∀ x, y ∈ G, ∀ h, k ∈ H;
logo, se e só se
y −1 x−1 xyH = y −1 x−1 xhykH,
ou seja , H = y −1 hyH, ∀ y ∈ G, ∀ h ∈ H,
e portanto se e só se
ghg −1 ∈ H, ∀ g ∈ G, ∀ h ∈ H.
Proposição V.4.1. Seja H um subgrupo de um grupo G. As afir-
mações seguintes são equivalentes:

(i) a operação induzida sobre as classes laterais à esquerda de H


em G é bem definida.
(ii) gHg −1 ⊆ H, ∀ g ∈ G.
(iii) gHg −1 = H, ∀ g ∈ G.
(iv) gH = Hg, ∀ g ∈ G.

Demonstração. (i) ⇔ (ii) já foi feito.


(iii) ⇔ (iv) é óbvio.
(iii) ⇒ (ii) é óbvio.
(ii) ⇒ (iii) Suponhamos que gHg −1 ⊆ H, ∀ g ∈ G; queremos
mostrar que H ⊆ gHg −1 , ∀g ∈ G. Sejam então h ∈ H e g ∈ G;
temos
h = g(g −1 hg)g −1 ∈ g(g −1 Hg)g −1 ⊆ gHg −1 .

Definição V.4.2. Um subgrupo H é um subgrupo normal de G


(e escrevemos H ⊳ G) se ele satisfaz as afirmações equivalentes da
proposição anterior. Neste caso, as classes laterais à esquerda de
H são iguais às classes laterais à direita de H; vamos chamá-las de
classes laterais de H.
154 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Exemplo V.4.3. 1) {e}, G são subgrupos normais de G.


2) Z(G)⊳G. Mais geralmente, se H < Z(G), então H ⊳G. (Prove!).
3) G′ = h{xyx−1 y −1 | x, y ∈ G}i é um subgrupo normal de G.

Demonstração. Primeiro, observe que se chamamos de S o con-


junto {xyx−1 y −1 | x, y ∈ G} e se α ∈ S, então α−1 ∈ S; conse-
quentemente, se ξ é um elemento qualquer de G′ = hSi, então ξ se
escreve da forma ξ = α1 . . . αn com α1 , . . . , αn ∈ S. Segundo, se
g ∈ G, temos

gξg −1 = g(α1 . . . αn )g −1 = (gα1 g −1 )(gα2 g −1 ) . . . (gαn g −1 )

e consequentemente, para ver que gξg −1 ∈ G′ , basta ver que vale


gαg −1 ∈ S quando α ∈ S. Seja então α = xyx−1 y −1 um elemento
de S; temos

gαg −1 = g(xyx−1 y −1 )g −1 = (gxg −1 )(gyg −1 )(gx−1 g −1 )(gy −1 g −1 )


= (gxg −1 )(gyg −1 )(gxg −1 )−1 (gyg −1 )−1 ∈ S.

4) Se (G : H) = 2, então H ⊳ G.
Para mostrar isso, vamos mostrar que xH = Hx, ∀ x ∈ G. Se
x ∈ H então xH = H = Hx. Se x ∈ / H temos
(
xH 6= H,
Hx 6= H.

Como (G : H) = 2, existem exatamente duas classes laterais à es-


querda, que são então xH e H. Agora, uma relação de equivalência
num espaço decompõe o espaço na união disjunta de suas classes de
equivalência; assim xH = G \ H. Da mesma forma, Hx = G \ H.
Portanto xH = G \ H = Hx.
5) Se G é um grupo abeliano, então todo subgrupo de G é normal
em G. A recı́proca é falsa em geral. Veremos mais tarde que o
grupo Q3 (grupo dos quaternios com 8 elementos) não é abeliano
apesar de todos seus subgrupos serem normais em Q3 .
[SEC. V.4: SUBGRUPOS NORMAIS E GRUPOS QUOCIENTES 155

Exercı́cio V.4.4. Procure todos os subgrupos normais de S3 e D4 .

Teorema V.4.5. Seja G um grupo e seja H um subgrupo normal de


G. Então o conjunto das classes laterais, com a operação induzida
de G, é um grupo.

Demonstração. Deixamos essa demonstração a cargo do leitor;


o elemento neutro de G/H é a classe lateral H; o elemento inverso
da classe gH é a classe g −1 H.

Definição V.4.6. Sejam G um grupo e H um subgrupo normal de


G. O grupo de suas classes laterais, com a operação induzida de G,
é chamado de grupo quociente de G por H; ele será denotado por
G
G/H ou por H .

Proposição V.4.7. Sejam G um grupo e G′ seu subgrupo dos co-


mutadores. Então,

a) G/G′ é abeliano.

b) G′ é o menor subgrupo normal de G com esta propriedade,


isto é, se H ⊳ G é tal que G/H é abeliano, então H ⊇ G′ .

Demonstração. Deixamos isto como um exercı́cio para o leitor.

Proposição V.4.8. Seja G um grupo e seja Z(G) seu centro. Se


o quociente G/Z(G) é cı́clico, então Z(G) = G. Em particular, o
ı́ndice de Z(G) em G nunca é igual a um número primo.

Demonstração. Seja z̄ um gerador do grupo G/Z(G). Então,


∀ g ∈ G, ∃ i tal que ḡ = z̄ i , logo tal que g = z i h com h ∈ Z(G). Se
g1 := z i1 h1 e g2 := z i2 h2 são dois elementos quaisquer de G, temos

g1 g2 = z i1 h1 z i2 h2 = z i1 +i2 h1 h2 = z i2 h2 z i1 h1 = g2 g1 ,

pois h1 e h2 comutam com qualquer elemento de G. Isto mostra


que o grupo G é abeliano, i.e., que Z(G) = G.
156 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Subgrupos gerados pela união de dois subgrupos:


Sejam H e K dois subgrupos de um grupo G. Temos
hH ∪ Ki ⊇ HK := {hk | h ∈ H e k ∈ K} ⊇ H ∪ K.
Portanto é claro que
hH ∪ Ki = HK ⇔ HK é um subgrupo de G.
Procuramos agora condições para que HK seja um subgrupo.
Proposição V.4.9. Sejam H, K dois subgrupos de G. Então:
HK é um subgrupo de G ⇔ HK = KH.
Demonstração. (⇒) Seja α ∈ KH. Então existem k ∈ K e
h ∈ H tais que α = kh. Temos α−1 = h−1 k −1 ∈ HK. Como HK
é por hipótese um subgrupo de G e α−1 ∈ HK, então α ∈ HK;
assim, provamos que KH ⊆ HK. Para provar a inclusão contrária,
tome γ ∈ HK. Como HK é um subgrupo, temos γ −1 ∈ HK; logo
γ −1 = h0 k0 com h0 ∈ H, k0 ∈ K. Tomando inversos, obtemos
γ = k0−1 h−1
0 ∈ KH. Portanto temos HK = KH.

(⇐) Suponhamos que HK = KH. Para provar que HK é sub-


grupo, basta provar o seguinte:
1) xy ∈ HK, ∀ x, y ∈ HK.
2) x−1 ∈ HK, ∀ x ∈ HK.
Sejam x, y ∈ HK; escreva x = h1 k1 e y = h2 k2 com h1 , h2 ∈ H,
k1 , k2 ∈ K. Temos
xy = (h1 k1 )(h2 k2 ) = h1 (k1 h2 )k2 .
Como k1 h2 ∈ KH e por hipótese KH = HK, existem h3 ∈ H e
k3 ∈ K tais que k1 h2 = h3 k3 ; substituindo na expressão para xy,
obtemos
xy = h1 (h3 k3 )k2 = (h1 h3 )(k3 k2 ) ∈ HK.
Agora, temos também
x = h1 k1 ⇒ x−1 = k1−1 h−1
1 ∈ KH = HK.
[SEC. V.4: SUBGRUPOS NORMAIS E GRUPOS QUOCIENTES 157

Corolário V.4.10. Sejam H e K dois subgrupos de G. Se H ou


K for normal em G, então HK é um subgrupo de G.
Demonstração. Faremos a prova no caso em que H ⊳ G e K é
um subgrupo qualquer; o outro caso é totalmente análogo. Vamos
mostrar que HK = KH. Seja α = hk ∈ HK. Temos α = hk =
kk −1 hk = kβ com β := k −1 hk ∈ H pois H ⊳ G; portanto α = kβ ∈
KH. Provamos então que HK ⊆ KH. Para provar a inclusão
contrária, seja γ = kh ∈ KH. Temos γ = kh = khk −1 k = δk com
δ := khk −1 ∈ H pois H ⊳ G; portanto γ = δk ∈ HK.
Corolário V.4.11. Sejam H e K dois subgrupos normais de G.
Então HK é um subgrupo normal de G.
Demonstração. Já sabemos, pelo corolário anterior, que HK
é um subgrupo de G. Para provar que HK é subgrupo normal
devemos mostrar que

ghkg −1 ∈ HK, ∀ g ∈ G, ∀ h ∈ H, ∀ k ∈ K.

E de fato, temos

ghkg −1 = (ghg −1 )(gkg −1 ) ∈ HK,

pois por hipótese, H e K são ambos normais em G.


Vamos agora exibir uma relação entre a cardinalidade do con-
junto HK e a cardinalidade do subgrupo H ∩ K no caso em que
|G| < ∞. Note que na proposição abaixo não temos hipótese ne-
nhuma sobre o conjunto HK ser um grupo.
Proposição V.4.12. Sejam H e K dois subgrupos de um grupo
finito G. Então:
|H||K|
|HK| = .
|H ∩ K|
Demonstração. Considere a seguinte função:

ϕ : H × K −→ HK
(h, k) 7−→ hk.
158 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Claramente, a função ϕ é sobrejetora e #(H ×K) = |H||K|. Vamos


provar que ϕ−1 (x) tem exatamente |H ∩ K| elementos, ∀ x ∈ HK.
Provado este fato, é claro que temos então a igualdade desejada.
Seja x = hk ∈ HK. Vamos mostrar que

ϕ−1 (hk) = {(hα−1 , αk); α ∈ H ∩ K},

o que nos dará claramente que |ϕ−1 (x)| = |H ∩ K|. A inclusão ⊇ é


clara. Para ver a inclusão inversa, sejam h1 ∈ H e k1 ∈ K tais que
(h1 , k1 ) ∈ ϕ−1 (hk). Temos h1 k1 = hk, logo k1 k −1 = h−1
1 h; tomando
α = k1 k −1 = h−1 1 h, temos α ∈ H ∩ K e (h ,
1 1k ) = (hα −1
, αk).
Proposição V.4.13. Seja G um grupo. Sejam H e K dois sub-
grupos de G tais que HK seja um subgrupo. Então,

(HK : K) = (H : H ∩ K)

(e similarmente, (HK : H) = (K : H ∩ K)).

Demonstração. A proposição afirma que se o lado esquerdo da


igualdade é finito, então o lado direito também é finito e vale a
igualdade; e vice-versa.
No caso em que |G| < ∞, podemos dar a prova simples seguinte:

|HK|
(HK : K) = pelo Teorema V.3.5 ,
|K|

|HK| |H|
= pela Proposição V.4.12,
|K| |H ∩ K|

|H|
= (H : H ∩ K) pelo Teorema V.3.5.
|H ∩ K|

No caso geral (i.e., no caso em que |G| pode ser infinita), seja
{hα }α∈Γ um sistema de representantes das classes laterais à es-
querda de H ∩K em H. Evidentemente, se mostramos que {hα }α∈Γ
[SEC. V.5: HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 159

também é um sistema de representantes das classes laterais à es-


querda de K em HK, teremos provado a proposição. Ora, vejamos
primeiro que se α 6= β, então hα K 6= hβ K. De fato, senão te-
remos hα = hβ ℓ com ℓ ∈ K; mas, como ℓ = h−1 β hα ∈ H, tere-
mos ℓ ∈ H ∩ K e portanto hα (H ∩ K) = hβ (H ∩ K), absurdo.
Agora vejamos que toda classe lateral à esquerda de K em HK é
do tipo hα K, para algum α ∈ Γ. De fato, seja ξK, ξ ∈ HK, uma
tal classe lateral; escrevendo ξ = hk com h ∈ H, k ∈ K, temos
ξK = hkK = hK, e escolhendo α ∈ Γ tal que h ∈ hα (H ∩ K),
teremos ξK = hK = hα K.

Exercı́cio V.4.14. Seja G um grupo. Sejam A ⊳ G e B ⊳ C < G.


Mostre que AB ⊳ AC.

V.5 Homomorfismos de Grupos


Definição V.5.1. Sejam (G, ·) e (G, ×) dois grupos. Uma função
f : G → G é um homomorfismo se ela é compatı́vel com as estru-
turas dos grupos, isto é, se

f (a · b) = f (a) × f (b), ∀ a, b ∈ G.

Exemplo V.5.2. 1) Id : (G, ·) → (G, ·), Id(g) = g, é um homo-


morfismo chamado identidade.
2) e : G → G, e(g) = eG , para todo g ∈ G, é um homomorfismo
chamado homomorfismo trivial .
3) Seja n ∈ Z fixo. Então, ϕn : (Z, +) → (Z, +), ϕn (z) = nz, é
um homomorfismo. Mais geralmente, se (G, ·) é um grupo abeliano
então ϕn : G → G, ϕn (g) = g n , é um homomorfismo.
4) Seja H ⊳G, então ϕ : G → G/H, ϕ(g) = gH, é um homomorfismo
chamado de projeção canônica.
5) Seja g ∈ G fixo. Então, Ig : G → G, Ig (x) = gxg −1 , é um
homomorfismo bijetivo.
160 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

6) Considere os elementos

α1 = (1̄, 0̄), α2 = (0̄, 1̄) e α3 = (1̄, 1̄) de (Z/2Z)×(Z/2Z).

Então

fi : Z/2Z −→ (Z/2Z) × (Z/2Z)


0̄ 7−→ (0̄, 0̄)
1̄ 7−→ αi

é um homomorfismo injetivo (∀ i = 1, 2, 3).

Propriedades elementares:
Seja f : (G, ·) → (G, ×) um homomorfismo de grupos. Então:
1) f (eG ) = eG .

De fato, f (eG ) = f (eG · eG ) = f (eG ) × f (eG ).

2) f (x−1 ) = f (x)−1 .

De fato, eG = f (eG ) = f (x · x−1 ) = f (x) × f (x−1 ).

3) ker f := {x ∈ G | f (x) = eG } é um subgrupo normal de G


chamado núcleo do homomorfismo f .

Demonstração. Vejamos primeiramente que ker f < G. Dados


x, y ∈ ker f , temos:

f (x · y) = f (x) × f (y) = eG × eG = eG ,
f (x−1 ) = f (x)−1 = e−1
G = eG ;

portanto ker f < G. Para provar que ker f ⊳ G devemos mostrar


que:
gxg −1 ∈ ker f, ∀ g ∈ G e ∀ x ∈ ker f.
E de fato, temos

f (gxg −1 ) = f (g) × f (x) × f (g −1 ) = f (g) × eG × f (g)−1


= f (g) × f (g)−1 = eG .
[SEC. V.5: HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 161

4) Im(f ) = {y ∈ G | y = f (g) para algum g ∈ G} é um subgrupo


de G (Prove!), chamado Imagem de f .
5) Se H é um subgrupo de G, então f (H) é um subgrupo de G e
temos f −1 (f (H)) = Hker f .
Demonstração. A prova de que f (H) é um subgrupo é similar à
prova de que Im(f ) é um subgrupo de G (note que Im(f ) = f (G)).
Vamos provar que f −1 (f (H)) = H ker f . Seja h · k ∈ Hker f , isto
é, h ∈ H e k ∈ ker f ; temos

f (h · k) = f (h) × f (k) = f (h) × eG = f (h) ∈ f (H);

provamos assim que

Hker f ⊆ f −1 (f (H)).

Para provar a inclusão contrária, tome y ∈ f −1 (f (H)). Por definição,


f (y) ∈ f (H); existe então h ∈ H tal que f (y) = f (h), logo, multi-
plicando por f (h−1 ) à esquerda, tal que f (h)−1 × f (y) = eG , isto é,
tal que h−1 · y ∈ ker f . Assim, y = h · (h−1 · y) ∈ Hker f .
Note que a igualdade f −1 (f (H)) = Hker f implica que
f −1 (f (H)) é um subgrupo de G, pois ker f é um subgrupo nor-
mal de G. Mais geralmente, temos:
6) Se H é um subgrupo de G, então f −1 (H) é um subgrupo de G
contendo ker f e temos que f (f −1 (H)) = H ∩ Im(f ).
Demonstração. A hipótese H < G implica eG ∈ H e, portanto,
temos
f −1 (H) ⊇ f −1 (eG ) = ker f.
Deixamos a cargo do leitor a prova de que f −1 (H) é subgrupo.
Verifiquemos a igualdade f (f −1 (H)) = H ∩ Imf .
• A inclusão f (f −1 (H)) ⊆ H ∩ Im(f ) é trivial.
• Para provar a inclusão oposta, tome y ∈ H ∩ Im(f ); como o
elemento y ∈ Im(f ), existe g ∈ G tal que f (g) = y. Como y ∈ H,
então g ∈ f −1 (H) e assim y = f (g) ∈ f (f −1 (H)).
162 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Note que no caso particular em que f : G → G é um homomor-


fismo sobrejetor temos:
f (f −1 (H)) = H.
7) ker f = {eG } ⇔ f é injetiva. (Prove!)
8) Se O(x) < ∞ então O(f (x)) divide O(x).
Demonstração. Seja n = O(x). Temos xn = eG , logo
eG = f (eG ) = f (xn ) = f (x)n ,
e portanto O(f (x)) divide n (vide Proposição V.2.12).

9) Sejam f : (G, ·) → (G, ×) e h : (G, ×) → (H, ⊙) dois homomor-


fismo de grupos. Então a composição h ◦ f : (G, ·) → (H, ⊙) é um
homomorfismo.
Demonstração. Sejam x, y ∈ G quaisquer. Temos
h ◦ f (x · y) = h(f (x · y)) = h(f (x) × f (y)) = h(f (x)) ⊙ h(f (y))
= (h ◦ f (x)) ⊙ (h ◦ f (y)).

Definição V.5.3. Um homomorfismo f : G → G é um isomorfismo


se existe um homomorfismo g : G → G tal que f ◦ g = idG e g ◦
f = idG . Quando existe um isomorfismo entre dois grupos G e G,
dizemos que G e G são isomorfos e denotamos G ≃ G.
Proposição V.5.4. Seja f : (G, ·) → (G, ×) um homomorfismo de
grupos. Então, f é um isomorfismo se e somente se f é bijetivo.
Demonstração. (⇒) trivial.
(⇐) Para provar isto, mostraremos que se f é um homomorfismo
bijetivo, então f −1 é um homomorfismo, isto é,
f −1 (α × β) = f −1 (α) · f −1 (β), ∀ α, β ∈ G.
Sejam então α, β ∈ G, e sejam a = f −1 (α) e b = f −1 (β); temos
f −1 (α × β) = f −1 (f (a) × f (b)) = f −1 (f (a · b))
= a · b = f −1 (α) · f −1 (β).
[SEC. V.5: HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 163

Observação V.5.5. Seja f : G → G um homomorfismo injetivo de


grupos. Então
O(f (x)) = O(x), ∀x ∈ G (Prove!).

Exemplos de isomorfismos:
1) Os grupos S3 e S∆ são isomorfos. De fato, considere a bijeção ϕ
abaixo:
ϕ : S3 −→ S∆
id 7−→ id
 
123
= α 7−→ R 2π
231 3
 
123
= α2 7−→ R 4π
312 3
 
123
= β 7−→ R3
213
 
123
= αβ 7−→ R2
321
 
123
= α2 β 7−→ R1
132
Mostre que ϕ é um homomorfismo, logo um homomorfismo bijetivo,
e portanto um isomorfismo.
2) Os grupos D4 e D são isomorfos. De fato, considere a bijeção
ϕ abaixo:
ϕ : D4 −→ D
id 7−→ id
 
1234
= α 7−→ R π2
2341
α2 7−→ Rπ
α3 7−→ R 3π
2
164 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

 
1234
=β 7−→ RN
4321
αβ 7−→ R1
α2 β 7−→ RM
α3 β 7−→ R2

Mostre que ϕ é um homomorfismo, logo um homomorfismo bi-


jetivo, e portanto um isomorfismo.

Teorema V.5.6. (Teorema dos isomorfismos).


Seja f : (G, ·) → (G, ×) um homomorfismo de grupos. Então,

1) A função induzida

G
f¯: −→ f (G)
ker f
gker f 7−→ f (g)

é um isomorfismo.

2) As seguintes funções
 
subgrupos de G 1−1
←→ {subgrupos de f (G)}
que contêm ker f
H 7−→ f (H)
−1
f (H) ←−p H,

são bijeções, inversas uma da outra. Além disso, estas bijeções


levam subgrupos normais em subgrupos normais, isto é:

a) H ⊳ G ⇒ f (H) ⊳ f (G).
b) H ⊳ f (G) ⇒ f −1 (H) ⊳ G.
[SEC. V.5: HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 165

Demonstração. 1) Primeiramente, devemos verificar que f¯ é


uma função bem definida, isto é, se gker f = g̃ker f então temos
f (g) = f (g̃). Mas, gker f = g̃ker f implica que g = g̃ · k, para
algum k ∈ ker f e, portanto,

f (g) = f (g̃ · k) = f (g̃) × f (k) = f (g̃) × eG = f (g̃).

Agora, f¯ é claramente uma função sobrejetora e, para g, g ′ ∈ G,


obtemos

f¯(gker f · g ′ ker f ) = f¯((gg ′ )ker f ) = f (g · g ′ )


= f (g) × f (g ′ ) = f¯(gker f ) × f¯(g ′ ker f );

assim f¯ é um homomorfismo. Agora,

ker f¯ = {gker f | f (g) = eG } = {gker f | g ∈ ker f } = ker f ;

assim ker f¯ = {eG/ker f } ou seja, a função f¯ é injetiva.


2) Já sabemos que f −1 (f (H)) = H(ker f ), ∀ H < G, e também
que f (f −1 (H)) = H ∩ f (G), ∀ H < G. Daı́, se H ⊇ ker f então
f −1 (f (H)) = H, e se H ⊆ f (G) então f (f −1 (H)) = H. Obtemos
assim que as duas funções definidas em 2) são uma a inversa da
outra. Só falta então mostrar que essas funções levam subgrupos
normais em subgrupos normais.
Prova de a): Dados y ∈ f (G) e x ∈ f (H) quaisquer, devemos
mostrar que yxy −1 ∈ f (H). Temos y = f (g) e x = f (h), com
g ∈ G e h ∈ H, e logo yxy −1 = f (g)f (h)f (g −1 ) = f (ghg −1 ); como,
por hipótese, H ⊳ G, temos ghg −1 ∈ H e portanto yxy −1 ∈ f (H).
Prova de b): Dados g ∈ G e α ∈ f −1 (H) quaisquer, devemos
mostrar que gαg −1 ∈ f −1 (H). Temos

f (gαg −1 ) = f (g)f (α)f (g)−1 e f (α) ∈ H;

como, por hipótese, H ⊳ f (G), temos f (gαg −1 ) ∈ H e portanto


obtemos gαg −1 ∈ f −1 (H).
166 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Corolário V.5.7. Seja f : G → G um homomorfismo de grupos e


seja H um subgrupo de G. Então a função

H
−→ f (H)
H ∩ ker f
h · (H ∩ ker f ) 7−→ f (h)

é um isomorfismo.

Demonstração. Considere o homomorfismo f restrito a H:

f |H : H −→ G
h 7−→ f (h).

Claramente, f |H (H) = f (H) e ker(f |H ) = (ker f )∩H. Aplicando a


parte 1) do teorema dos isomorfismos ao homomorfismo f |H , obte-
mos o corolário.

Corolário V.5.8. Seja H um subgrupo normal de G. Então a


função
   
subgrupos (normais) de G 1−1 G
−→ subgrupos (normais) de
que contêm H H
K 7−→ K/H

é uma bijeção.
G
Demonstração. Considere o homomorfismo ϕ : G → H , dado
por ϕ(g) = gH. Claramente, ϕ é um homomorfismo sobrejetor e
ker ϕ = H. Aplicando a parte 2) do teorema dos isomorfismos ao
homomorfismo ϕ, obtemos o corolário.

Corolário V.5.9. Sejam H ⊳ G e K < G. Então,

K KH
≃ .
H ∩K H
[SEC. V.5: HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 167

Demonstração. Já que H ⊳ G, sabemos que KH é um subgrupo


de G e que HK = KH. Claramente, H ⊳ G ⇒ H ⊳ KH e, portanto,
faz sentido considerar o grupo quociente KH/H. Considere o ho-
ϕ
momorfismo canônico KH → KH/H e seja ϕ|K a sua restrição ao
subgrupo K < KH, isto é:
KH
ϕ|K : K −→
H
k−
7 → kH.
Claramente, ker(ϕ|K ) = {k ∈ K | kH = H} = H ∩ K. Seja
agora α ∈ KH/H; temos α = (kh)H para algum k ∈ K e algum
h ∈ H; logo α = (kh)H = kH = ϕ|K (k) e portanto ϕ|K é sobre-
jetor. Aplicando agora a parte 1) do teorema dos isomorfismos ao
homomorfismo ϕ|K , obtemos o corolário.
Corolário V.5.10. Sejam K < H < G com K ⊳G e H ⊳G. Então,
G/K G
≃ .
H/K H
Demonstração. Considere o homomorfismo
G G
ψ: −→
K H
gK 7−→ gH.
A função ψ é bem definida; de fato gK = g̃K implica que g = g̃k
para algum k ∈ K, e portanto vemos que gH = g̃kH = g̃H pois
temos k ∈ K ⊆ H. Claramente, ψ é sobrejetor e ker ψ = H/K.
Aplicando a parte 1) do teorema dos isomorfismos ao homomorfismo
ψ, obtemos o corolário.
Exemplo V.5.11. Considere
ϕ
(Z, +) −→ (Un , · )
k 7−→ e2πki/n .
Claramente ϕ é um homomorfismo sobrejetor e ker ϕ = nZ; por-
tanto (Z/nZ, ⊕) ≃ (Un , · ).
n
168 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Definição V.5.12. Seja (G, ·) um grupo. Um automorfismo de G


é um isomorfismo f : G → G. O conjunto dos automorfismos de G
será denotado por Aut(G). É fácil verificar que a composição de
dois automorfismos de G é um automorfismo de G e que (Aut(G), ◦)
é um grupo, onde “◦” denota a operação composição de funções.
Exemplo V.5.13. Já foi observado que Ig : G → G, definido por
Ig (x) = gxg −1 , é um homomorfismo bijetivo e portanto um auto-
morfismo de G, chamado automorfismo interno associado ao ele-
mento g ∈ G. O conjunto dos automorfismos internos de G será
denotado por I(G); assim

I(G) := {Ig | g ∈ G} ⊆ Aut(G).

Proposição V.5.14. (I(G), ◦) é um subgrupo normal de (Aut(G), ◦).


Demonstração. Que I(G) é um subgrupo de Aut(G), segue das
igualdades:

(Ig )−1 = Ig−1 e Ig1 ◦ Ig2 = Ig1 g2 . (Verifique!).

Vamos agora mostrar que I(G) é normal em (Aut(G), ◦), isto é,
dados σ ∈ Aut(G) e g ∈ G quaisquer, temos σ ◦ Ig ◦ σ −1 ∈ I(G).
Para todo x ∈ G, temos:

(σ ◦ Ig ◦ σ −1 )(x) = σ ◦ Ig (σ −1 (x)) = σ(gσ −1 (x)g −1 )


= σ(g)xσ(g)−1 = Iσ(g) (x);

portanto, σ ◦ Ig ◦ σ −1 = Iσ(g) ∈ I(G).


Observação V.5.15. 1) Seja G um grupo. Um elemento g ∈ G
comuta com todos os elementos de G se e só se Ig = id. Portanto,
o grupo G é abeliano se e somente se I(G) = {id}.
2) H ⊳ G ⇔ H é estável por todos os automorfismos internos de G
(i.e., Ig (H) ⊆ H, ∀ g ∈ G).
3) Existem automorfismos que não são automorfismos internos. Por
exemplo, seja G um grupo abeliano que possui um elemento y de or-
dem ≥ 3; é fácil ver que ρ : G → G, ρ(x) = x−1 , é um homomorfismo
[SEC. V.5: HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 169

bijetivo e portanto um automorfismo de G; ρ não é a aplicação iden-


tidade pois ρ(y) = y −1 6= y e portanto, pela Observação V.5.15,1),
ρ não é automorfismo interno. Assim, em particular, obtemos que
Z → Z Z/dZ → Z/dZ (com d ≥ 3)
e
n 7→ −n r̄ 7→ −r̄
são exemplos de automorfismos que não são internos.
Definição V.5.16. Um subgrupo H de G é dito subgrupo carac-
terı́stico (denotado por H ⊳
⊳ G) se ele é estável por todos os auto-

morfismos de G, i.e., se σ(H) ⊆ H, ∀ σ ∈ Aut(G). (Equivalente-


mente, se σ(H) = H, ∀ σ ∈ Aut(G)). Claramente, H ⊳ ⊳ G ⇒ H⊳G.

Exemplo V.5.17. {e}, G, Z(G) e G′ são subgrupos caracterı́sticos


de G. (Prove).
Exercı́cio V.5.18. Se H é o único subgrupo de ordem n de um
grupo G, então H ⊳
⊳ G.

Proposição V.5.19. Seja K ⊳


⊳ H ⊳ G. Então K ⊳ G.

Demonstração. Queremos mostrar que Ig (K) = K, ∀ g ∈ G.


Seja g ∈ G e Ig : G → G, Ig (x) = gxg −1 . Considere a restrição de
Ig a H:
Ig |H : H −→ G
h 7−→ ghg −1 .
Como, por hipótese, H ⊳ G, temos Ig |H (H) = Ig (H) = H; portanto
temos que Ig |H é um automorfismo de H (não é um automorfismo
interno de H em geral, quando g não pertence a H). Como, por
hipótese, K ⊳
⊳ H e como I |
g H ∈ Aut(H), temos

Ig (K) = Ig |H (K) = K.

Observação V.5.20. Em geral, K ⊳ H ⊳ G não implica que K seja


normal em G. Por exemplo no grupo D , temos hR1 i⊳hR1 , Rπ i⊳D
mas hR1 i não é normal em D . (Verifique!)
170 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Exercı́cio V.5.21. Considere a função

I : (G, ·) −→ (I(G), ◦)
g 7−→ Ig .

Por definição I é uma função sobrejetiva.


a) Mostre que I é um homomorfismo de grupos.
b) Mostre que ker I = Z(G) e que I(G) ≃ G/Z(G).
c) Mostre que se G não é abeliano, então I(G) não é cı́clico.

Determinação dos homomorfismos entre dois grupos:


Sejam G e G dois grupos e seja Hom(G, G) o conjunto dos ho-
momorfismos de G em G. Sabemos que todo homomorfismo de G
em G tem um subgrupo normal de G como núcleo. Portanto,
[
Hom(G, G) = {Homomorfismos de G em G com núcleo H}.
H⊳G

Seja H um subgrupo normal de G, e seja ϕH : G → G/H o homo-


morfismo canônico. É claro que {ψ ◦ ϕH ; ψ homomorfismo injetivo
de G/H em G} ⊆ {Homomorfismos de G em G com núcleo H}.
Pelo Teorema dos isomorfismos, temos a inclusão inversa. Assim,
obtemos
[
Hom(G, G) = {ψ◦ϕH ; ψ homomorfismo injetivo de G/H em G}.
H⊳G

Observe ainda que a função sobrejetiva abaixo


   
Homomorfismos injetivos Homomorfismos de G
−→
de G/H em G em G com núcleo H
ψ 7−→ ψ ◦ ϕH

também é injetiva, e portanto é uma bijeção.


[SEC. V.5: HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 171

Exemplo V.5.22. Vamos determinar Hom(S3 , S3 ). 


2 2 123
Sabemos que S 3 = {id, α, α , β, αβ, α β} com α = 231 e com

β = 123
213
, e que seus subgrupos normais são {id}, {id, α, α2 } e S3 .

• Para H = {id}, temos S3 /H = S3 e procuramos os homomor-


fismos injetivos de S3 /H em S3 , i.e., procuramos os automorfismos
de S3 . Ora, um homomorfismo f de S3 em S3 é completamente de-
terminado pelos seus valores f (α) e f (β). Para que f possa ser um
automorfismo, é necessário que f (α) tenha a mesma ordem que α
(a saber 3), logo que f (α) seja igual a α ou α2 ; também é necessário
que f (β) tenha a mesma ordem que β (a saber 2), logo que f (β) seja
igual a β, αβ ou α2 β. Portanto, temos exatamente seis candidatos
a automorfismos de S3 . Por outro lado, temos I(S3 ) ⊆ Aut(S3 ) e
I(S3 ) ≃ S3 /Z(S3 ) = S3 , logo Aut(S3 ) tem pelo menos seis elemen-
tos. Concluimos portanto que os seis candidatos a automorfismos
de S3 são de fato automorfismos e que

I(S3 ) = Aut(S3 ) = {fij : S3 → S3 ; fij (α) = αi , fij (β) = αj β,


com i = 1, 2 e j = 0, 1, 2}.

• Para H = {id, α, α2 }, temos S3 /H = {ē = id, β̄} e procuramos os


homomorfismos injetivos de {ē = id, β̄} em S3 . Ora, para que uma
aplicação ψ de {ē = id, β̄} em S3 possa ser um homomorfismo, é
necessário que ψ(β̄) tenha ordem igual a um divisor da ordem de β̄,
i.e., um divisor de 2; para ser injetiva, é necessário que ψ(β̄) 6= id.
Portanto, temos exatamente três candidatos a homomorfismos in-
jetivos de {ē = id, β̄} em S3 , a saber os homomorfismos definidos
por ψ(β̄) = β, αβ ou α2 β. É imediato verificar que, definidos desta
maneira e com ψ(id) = id, os três candidatos são de fato homomor-
fismos injetivos de {ē = id, β̄} em S3 . Portanto, obtemos

{Homomorfismos de S3 em S3 com núcleo {id, α, α2 }}


= {ψℓ ◦ ϕ{id,α,α2 } ; ψℓ : {id, β̄} → S3 , ψℓ (β̄) = αℓ β, ℓ = 0, 1, 2}
= {gℓ : S3 → S3 ; gℓ (α) = id, gℓ (β) = αℓ β, ℓ = 0, 1, 2}.
172 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

• Para H = S3 , temos S3 /H = {id}. É claro que ρ : {id} → S3


definido por ρ(id) = id é o único homomorfismo (injetivo) de {id}
em S3 e portanto que

{Homomorfismos de S3 em S3 com núcleo S3 }


= {Homomorfismo trivial}.

Exercı́cio V.5.23. Determinar os homomorfismos do grupo S3 em


Z/2Z × Z/2Z.

V.6 Grupos Cı́clicos


Proposição V.6.1. a) Se H ⊆ Z, então H é um subgrupo de
(Z, +) se e só se H = nZ com n ∈ N.
b) mZ ⊇ nZ se e só se m | n; neste caso, temos (mZ : nZ) = n/m.
Demonstração. a) já foi feita.
b) É claro que mZ ⊇ nZ ⇔ m | n.
Suponhamos que nZ < mZ < Z; tomando K = nZ e H = mZ
no Corolário V.5.10, obtemos
Z/nZ Z
≃ ;
mZ/nZ mZ
portanto, n/(mZ : nZ) = m e daı́ (mZ : nZ) = n/m.
Proposição V.6.2. Seja G = hai = {. . . , a−1 , e, a, a2 , . . . } um
grupo cı́clico de ordem infinita. Então:

a) A função f : (Z, +) → (G, ·), f (z) = az , é um isomorfismo.

b) O elemento az gera G se e somente se z = 1 ou z = −1.

Demonstração. a) A função f : (Z, +) → (G, ·), f (z) = az , é um


homomorfismo pois

f (z1 + z2 ) = az1 +z2 = az1 · az2 = f (z1 ) · f (z2 ), ∀ z1 , z2 ∈ Z;


[SEC. V.6: GRUPOS CÍCLICOS 173

a função f é claramente uma bijeção e portanto um isomorfismo.


b) A função f : z 7→ az sendo um isomorfismo, temos que az gera G
se e somente se z gera Z. Agora, claramente, os únicos elementos
que geram Z são z = 1 ou z = −1.

Proposição V.6.3. Seja G = hai = {e, a, . . . , an−1 } um grupo


cı́clico de ordem finita igual a n. Então:

a) A função f : (Z/nZ, ⊕) → (G, ·), f (m̄) = am , é um isomor-


n
fismo.

b) O elemento am gera G se e somente se M.D.C.{m, n} = 1.

Demonstração. a) Como vimos na prova da Proposição anterior,


a função f de Z em G dada por z 7→ az é um homomorfismo,
claramente sobrejetor. Sendo isomorfo a G, o grupo Z/ker f tem
n elementos e portanto ker f = nZ.
b) A função m̄ 7→ am sendo um isomorfismo, am gera G se e somente
se m̄ gera (Z/nZ, ⊕), logo se e somente se M.D.C.{m, n} = 1.
n

Proposição V.6.4. Seja G = hai = {e, a, . . . , an−1 } um grupo


cı́clico finito de ordem n.

a) Se H é um subgrupo de G, então H é cı́clico. De maneira


precisa, H = ham i onde m é o menor inteiro positivo tal que
am ∈ H; o subgrupo H tem ordem igual a n/m.

b) Se d é um divisor de n, então existe um único subgrupo H de


G com ordem igual a d. Este subgrupo H é igual a han/d i.

Demonstração. A proposição é uma conseqüência da Proposição


V.6.3 e da Proposição V.6.1. Fazemos abaixo uma prova direta que
utiliza, essencialmente, os mesmos argumentos.
a) Seja m o menor inteiro positivo tal que am ∈ H. Claramente,
ham i ⊆ H. Reciprocamente, seja au ∈ H; vamos mostrar que m | u
174 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

(o que claramente implicará que au ∈ ham i). Fazendo a divisão de


u por m, temos
u = qm + r com 0 ≤ r < m,
logo au = (am )q · ar . Como au ∈ H e am ∈ H, então ar ∈ H e
portanto, pela minimalidade de m, temos r = 0; logo m | u. Agora,
é fácil verificar que a ordem de am (e portanto a ordem de H) é
igual a n/m.
b) Seja d um divisor de n. O subgrupo han/d i tem ordem d. Vamos
agora provar a unicidade. Seja então H um subgrupo qualquer de
G de ordem d; pela parte a), temos que H = ham i com m inteiro
n n
tal que m seja a ordem de H, isto é, tal que m = d; portanto temos
n/d
m = n/d e H = ha i.
Exercı́cio V.6.5. Mostre que todo grupo quociente de um grupo
cı́clico é cı́clico.
Proposição V.6.6. Seja (K, +, ·) um corpo e seja (G, ·) um sub-
grupo finito do grupo multiplicativo (K ∗ , ·). Então G é cı́clico.
Em particular, se p é um número primo, então o grupo multi-
plicativo (Z/pZ)∗ é cı́clico, i.e., (Z/pZ)∗ ≃ Z/(p − 1)Z.
Demonstração. Seja r := max{O(g); g ∈ G}. Evidentemente,
pelo Teorema de Lagrange, r ≤ |G|. Como G é abeliano e finito,
então pela Proposição V.3.11, O(x) divide r para todo x ∈ G.
Assim, todos os elementos do grupo G são raı́zes do polinômio
X r − 1 ∈ K[X]. Pelo Corolário III.1.7, isto implica que |G| ≤ r, e
portanto |G| = r. Então, se y ∈ G tem ordem r, este elemento y é
um gerador do grupo G e logo G é cı́clico.

Homomorfismos e automorfismos de grupos cı́clicos:


Proposição V.6.7. Sejam G e G dois grupos, a ∈ G, b ∈ G.
a) Se O(a) < ∞, então existe um homomorfismo f : hai → G
tal que f (a) = b se e somente se O(b) divide O(a). Quando
existir, o homomorfismo f é único e definido por f (ar ) = br ,
∀ r ∈ N.
[SEC. V.6: GRUPOS CÍCLICOS 175

b) Se O(a) = ∞ (e O(b) qualquer), então existe um único ho-


momorfismo f : hai → G tal que f (a) = b. Tal homomorfismo
é dado por f (ar ) = br , ∀ r ∈ Z.

Demonstração. Se O(a) < ∞ e O(b) não divide O(a), já sabe-


mos que não existe homomorfismo f : hai → G tal que f (a) = b.
Agora, se O(a) = ∞ ou se O(a) < ∞ e O(b) divide O(a),
considere f : hai → G, definido por f (ar ) = br . Observe que no
caso de O(a) < ∞, um mesmo elemento ξ ∈ hai pode ter duas
representações ξ = ar e ξ = as ; para que f seja uma função bem
definida devemos verificar que o valor f (ξ) é independente desta
representação, isto é, devemos verificar que se r e s são dois inteiros
tais que ar = as , então br = bs . De fato, sejam ξ = ar e ξ = as
duas representações de ξ. Temos ar−s = e, logo r − s é múltiplo de
O(a); como O(b) divide O(a), temos que r − s é múltiplo de O(b) e
portanto que br−s = e, donde br = bs . Assim, vemos que nesse caso
a função f é bem definida.
Se O(a) = ∞, então todo elemento ξ ∈ hai tem representação
única ξ = ar (pois ar = as ⇔ ar−s = e ⇔ r − s = 0 ⇔ r = s).
Portanto, se O(a) = ∞, f é realmente uma função, qualquer que
seja a ordem do elemento b ∈ G.
Deixamos a cargo do leitor a verificação de que a função f assim
definida é realmente um homomorfismo.
Este é o único homomorfismo que leva a em b pois, se g é um
homomorfismo tal que g(a) = b, então temos g(ar ) = g(a)r = br ,
∀ r ∈ Z, e portanto temos g = f .

=
Exemplo V.6.8. Seja G = Z/8Z = h 1i e G = Z/10Z =
{0̄, 1̄, 2̄, . . . , 9̄}.
Procuramos todos os homomorfismos f de G em G. Os elemen-
=
tos b ∈ G tais que O(b) divide O( 1) = 8 são 0̄, 5̄. Portanto, pela
176 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

proposição anterior, os homomorfismos de Z/8Z em Z/10Z são:

Z Z
f1 : −→ que é o homomorfismo trivial, e
8Z 10Z
=
n 7−→ 0̄

Z Z
f2 : −→
8Z 10Z
=
n 7−→ 5n.

Exercı́cio V.6.9. a) Procure todos os homomorfismos de Z/4Z em


D4 .

b) Procure todos os homomorfismos de Z/6Z em S3 . Mostre que


nenhum deles é um isomorfismo.

c) Procure todos os homomorfismos de Z em S3 .

d) Procure todos os homomorfismos de Z/5Z em D4 .

e) Seja G um grupo finito. Mostre que ϕ : G → Z, dado por


ϕ(g) = 0, ∀ g ∈ G, é o único homomorfismo de G em Z.

f) Seja G = hai um grupo cı́clico e seja f : G → G um homo-


morfismo de grupos. Mostre que f é um automorfismo se e
somente se f (a) é um gerador do grupo G.

Proposição V.6.10. Aut(Z) = {Id, −Id}.

Demonstração. Aplique o Exercı́cio V.6.9 f), acima.

Proposição V.6.11. Seja n ≥ 1 um inteiro e seja (Z/nZ)∗ o grupo


multiplicativo dos elementos invertı́veis do anel Z/nZ. Então temos
I(Z/nZ) = {Id} e a aplicação ψ : Aut(Z/nZ) → (Z/nZ)∗ , definida
por ψ(f ) = f (1̄), é um isomorfismo.
[SEC. V.6: GRUPOS CÍCLICOS 177

Demonstração. Que I(Z/nZ) = {Id} é claro pois Z/nZ é um


grupo abeliano. Agora, se f : Z/nZ = h1̄i → Z/nZ é um automor-
fismo, então f (1̄) é um gerador de (Z/nZ, ⊕), logo f (1̄) ∈ (Z/nZ)∗ .
n
Podemos portanto definir:
     ∗ 
Z Z
ψ : Aut , ◦ −→ ,·
nZ nZ
f 7−→ f (1̄) .
Verificamos que a aplicação ψ é um homomorfismo de grupos: sejam
então f, g ∈ Aut(Z/nZ) e sejam f (1̄) = z̄1 e g(1̄) = z̄2 ; temos
ψ(g ◦ f ) = (g ◦ f )(1̄) = g(f (1̄)) = g(z̄1 )
= g (1̄ + 1̄ + · · · + 1̄) = g(1̄) + g(1̄) + · · · + g(1̄)
| {z }
z1 vezes

= z̄2 + z̄2 + · · · + z̄2 = z2 + z2 + · · · + z2 = z2 z1


| {z }
z1 vezes

= z̄2 · z̄1 = ψ(g) · ψ(f ).


O homomorfismo ψ é injetivo pois ψ(f ) = 1̄ ⇔ f (1̄) = 1̄ ⇔
f (r̄) = f (r · 1̄) = r · f (1̄) = r · 1̄ = r̄, ∀ r̄ ⇔ f = Id.
Mostramos agora que ψ é sobrejetiva. Se r é um elemento qual-
quer de (Z/nZ, ⊕) então, em virtude da Proposição V.6.7 parte a),
n
podemos sempre definir um homomorfismo
   
Z Z
fr : , ⊕ −→ ,⊕
nZ n nZ n
ā 7−→ ra ,
pois O(r̄) divide n = O(1̄) (a ordem de um elemento de um grupo
sempre divide a ordem do grupo). Agora, tal homomorfismo fr
será um automorfismo de Z/nZ se e somente se r̄ for um gerador
de (Z/nZ, ⊕), isto é, se e somente se r̄ ∈ ((Z/nZ)∗ , ·). Portanto,
n
tomando m̄ ∈ (Z/nZ)∗ , fm é um automorfismo de (Z/nZ, ⊕) tal
n
que ψ(fm ) = fm (1̄) = m̄. Daı́ a sobrejetividade.
178 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

A proposição seguinte já foi provada no contexto dos anéis.


Damos agora uma nova prova que somente usa os conceitos ele-
mentares da teoria dos grupos.

Proposição V.6.12. (Teorema chinês dos restos).


Sejam m1 , . . . , mr números inteiros dois a dois primos entre si.
Então a aplicação diagonal

∆ : Z −→ (Z/m1 Z) × · · · × (Z/mr Z)
z 7−→ (z + m1 Z , . . . , z + mr Z)

é sobrejetiva.
Equivalentemente, ∀ z1 , . . . , zr ∈ Z, existe z ∈ Z tal que

z ≡ z1 mod m1 ,
..
.
z ≡ zr mod mr .

Demonstração. Seja α := (1 + m1 Z, . . . , 1 + mr Z) ∈ (Z/m1 Z) ×


· · · × (Z/mr Z). É claro que O(α) = |m1 . . . mr | = |(Z/m1 Z) × · · · ×
(Z/mr Z)|, pois m1 , . . . , mr são dois a dois relativamente primos;
logo α é um gerador do grupo aditivo (Z/m1 Z) × · · · × (Z/mr Z).
Portanto, ∀ z1 , . . . , zr ∈ Z, existe z ∈ Z tal que

(z1 + m1 Z, . . . , zr + mr Z) = zα,

i.e., tal que

(z1 + m1 Z, . . . , zr + mr Z) = (z + m1 Z, . . . , z + mr Z).

Corolário V.6.13. Sejam m1 , . . . , mr números inteiros dois a dois


primos entre si. Então a aplicação
¯ : Z/m1 . . . mr Z −→ (Z/m1 Z) × · · · × (Z/mr Z)

z + m1 . . . mr Z 7−→ (z + m1 Z , . . . , z + mr Z)

é um isomorfismo de grupos.
[SEC. V.6: GRUPOS CÍCLICOS 179

Demonstração. A aplicação diagonal ∆ : Z → (Z/m1 Z) × · · · ×


(Z/mr Z) é claramente um homomorfismo de grupos cujo kernel é
igual a m1 . . . mr Z, pois m1 , . . . , mr são dois a dois relativamente
primos. Pela proposição anterior, a aplicação ∆ é sobrejetiva. Por-
¯ é um isomorfismo pelo Teorema dos isomorfismos.
tanto, ∆
Exercı́cio V.6.14. Seja

Φ : N −→ N
n 7−→ #{1 ≤ r ≤ n | M.D.C.{r, n} = 1}

a função de Euler. Com a multiplicação módulo n, o conjunto


{1 ≤ r ≤ n; M.D.C.{r, n} = 1} é o grupo (Z/nZ)∗ .
a) Sejam n, m dois inteiros primos entre si. Queremos mostrar que
Φ(mn) = Φ(m)Φ(n). Usando o Teorema I.4.7, obtemos facilmente
o resultado. Sugerimos agora um novo roteiro que usa somente os
conceitos da teoria dos grupos.
Para todo inteiro r ≥ 1, sejam r1 o resto da divisão de r por n
e r2 o resto da divisão de r por m. É claro que temos
(
M.D.C.{r, n} = 1
M.D.C.{r, nm} = 1 ⇔
M.D.C.{r, m} = 1
(
M.D.C.{r1 , n} = 1

M.D.C.{r2 , m} = 1.

Portanto, temos uma aplicação

ψ : (Z/nmZ)∗ −→ (Z/nZ)∗ × (Z/mZ)∗


r 7−→ (r1 , r2 ).

1) Mostre que ψ é uma bijeção; portanto Φ(nm) = Φ(n)Φ(m).


2) Mostre que ψ é um homomorfismo, e portanto um isomor-
fismo, entre o grupo (Z/nmZ)∗ e o grupo (Z/nZ)∗ ×(Z/mZ)∗ .

b) Seja n = pt11 . . . ptss com p1 , . . . , ps números primos distintos e


t1 , . . . , ts números inteiros ≥ 1.
180 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

1) Mostre que Φ(n) = Φ(pt11 ) . . . Φ(ptss ).

2) Mostre que (Z/nZ)∗ ≃ (Z/pt11 Z)∗ × · · · × (Z/ptss Z)∗ .

c) Seja p um número primo e seja t ≥ 1 um número inteiro. Mostre


que Φ(pt ) = pt−1 (p − 1).

Mais preciso do que a parte c) do exercı́cio anterior, temos o


seguinte resultado:
Proposição V.6.15. a) Se p é um número primo ı́mpar, então
temos (Z/pt Z)∗ ≃ Z/pt−1 (p − 1)Z para cada inteiro t ≥ 1.
b) Temos (Z/2t Z)∗ ≃ (Z/2Z) × (Z/2t−2 Z) para cada inteiro t ≥ 2.
Demonstração. a) Podemos supor t ≥ 2, pois o caso t = 1
já foi provado na Proposição V.6.6. Considere o homomorfismo
sobrejetivo de grupos multiplicativos

f : (Z/pt Z)∗ → (Z/pZ)∗


α = α + pt Z 7→ α + pZ.

Temos ker f = {α ; α ≡ 1 mod p}. Pelo Teorema dos isomorfismos,


temos também | ker f | = pt−1 .
Afirmação 1. ker f é um grupo cı́clico gerado por p + 1.
Para provar esta afirmação, basta ver que
pt−2
(p + 1) 6= 1̄ em (Z/pt Z)∗ .

E de fato, temos (aqui usamos p primo ı́mpar):


t−2
p
X
pt−2
(p + 1) = Cpi t−2 pi
i=0
t−1 t
≡p + 1 6≡ 1 (mod p ).

Consideramos agora o seguinte subgrupo H de (Z/pt Z)∗ :

H := {α | αp−1 = 1̄}.
[SEC. V.6: GRUPOS CÍCLICOS 181

Se α ∈ H ∩ ker f , então O(α) divide p − 1 e divide também pt−1 ,


logo O(α) = 1. Portanto H ∩ ker f = {1̄}.
Afirmação 2. H é um grupo cı́clico com |H| = p − 1.
De fato, primeiramente observamos que das duas relações se-
guintes
|H ker f | ≤ |(Z/pt Z)∗ | = (p − 1)pt−1 e

|H|| ker f |
|H(ker f )| = = |H| · pt−1 ,
H ∩ ker f
obtemos |H| ≤ p − 1.
t−1 t−1 pt−1
Observamos agora que 1̄p , 2̄p , . . . , p − 1 são elementos
pt−1 p−1 (p−1)pt−1
de H. De fato, temos (i ) = (i) = 1̄, já que (Z/pt Z)∗
tem ordem (p − 1)pt−1 . Estes elementos são distintos pois eles têm
imagens distintas em (Z/pZ)∗ pelo homomorfismo f definido acima.
Logo temos |H| = p − 1.
Vejamos agora que o grupo H é realmente cı́clico. Seja b ∈ Z tal
t−1
que (b+pZ) é um gerador do grupo cı́clico (Z/pZ)∗ e tome h := bp .
Então, a classe h̄ pertence a H. Para verificar que H = hh̄i (e obter
em particular que H é cı́clico), basta mostrar que (p − 1) divide
O(h̄). Temos f (h̄) = (b + pZ) e portanto (p − 1) = O(b + pZ) =
O(f (h̄)) divide O(h̄). Isto termina a prova da Afirmação 2.
Considere agora o elemento

α := (p + 1) · h̄ ∈ (Z/pt Z)∗ .

Como O(p + 1) = pt−1 e O(h̄) = p − 1 são primos entre si, então


pela Proposição V.3.11a), temos

O(α) = O(p + 1)O(h̄) = pt−1 (p − 1),

e assim concluı́mos que α é um gerador para o grupo (Z/pt Z)∗ .


b) Vide P. Ribenboim, Algebraic Numbers, Chapter 3K.
182 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

V.7 Grupos Finitos Gerados por dois


Elementos
Os grupos gerados por um elemento, i.e., os grupos cı́clicos, foram
facilmente classificados. Em compensação, os grupos gerados por
dois elementos podem ser extremamente complicados. Vamos então
restringir nosso estudo aos grupos finitos gerados por dois elemen-
tos muito particulares, a saber os grupos finitos G = ha, bi com
elementos a, b satisfazendo uma relação do tipo ba = as b. Os resul-
tados que obteremos serão de grande utilidade na classificação dos
grupos de ordem pequena.
Considere
          
123 123 123 123 123
S3 = id, = α, , = β, , .
231 312 213 321 132
Vemos que S3 é um grupo de ordem 6 tal que:


 S3 = hα, βi

α3 = id
β 2 = id



βα = α2 β.
Reciprocamente, vamos mostrar que se G é um grupo de ordem 6
no qual existem A e B tais que:


 G = hA, Bi

A3 = e


 B2 = e

BA = A2 B,
então existe um isomorfismo entre S3 e G. Assim, a menos de
isomorfismos, o grupo S3 é caracterizado como sendo o grupo de
ordem 6 gerado por dois elementos α e β que satisfazem as relações

 3
α = e
β2 = e


βα = α2 β.
[SEC. V.7: GRUPOS FINITOS GERADOS POR DOIS ELEMENTOS 183

Similarmente, D = {id, R π2 = A, Rπ , R 3π , R1 , R2 , RM , RN = B} é
2
um grupo de ordem 8 tal que:


 D = hA, Bi

A4 = id


 B 2 = id

BA = A3 B;

vamos ver também que D é caracterizado, a menos de isomorfis-


mos, por geradores satisfazendo estas relações.
Primeiro, precisamos determinar a natureza dos homomorfismos
definidos sobre um grupo gerado por dois elementos satisfazendo a
relação ba = as b:

Teorema V.7.1. Seja s ≥ 1 um inteiro. Sejam G um grupo finito


e a, b ∈ G satisfazendo ba = as b (equivalentemente, Ib (a) = as ).
Sejam G um grupo e α, β ∈ G. Sejam n, m ≥ 1 inteiros tais que

an = e, bm ∈ hai. (∗)

Então:
t
a) • bt · ar = ars · bt ∀ r, t ∈ N, e

ha, bi = {ai bj | 0 ≤ i ≤ n − 1 e 0 ≤ j ≤ m − 1}.

• Se os inteiros n, m são escolhidos minimalmente satis-


fazendo (*), então o grupo ha, bi tem ordem igual a nm.

b) Se os inteiros n, m são escolhidos minimalmente, e se u é


um inteiro tal que bm = au , então existe um homomorfismo
f : ha, bi → G com f (a) = α e f (b) = β se e somente se

βα = αs β, αn = e, β m = αu .

Demonstração. Primeiro observe que G sendo um grupo finito,


tais inteiros n, m existem de fato.
184 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

t
a) • Queremos mostrar que bt ar = ars bt , ou equivalentemente que
t
Ibt (ar ) = ars . Fazemos uma indução sobre t. Se t = 1, temos

Ib (ar ) = (Ib (a))r = (as )r = asr .

Se t ≥ 2 e se supomos o resultado provado para t − 1, temos


t−1 t−1
Ibt (ar ) = Ib ◦ Ibt−1 (ar ) = Ib (ars ) = (Ib (a))rs
t−1 t
= (as )rs = ars .

Com isso obtemos que todo elemento do grupo ha, bi pode ser
escrito na forma av bw com v, w ∈ N. Agora, a condição bm ∈ hai

permite escrever este elemento av bw na forma av bj com v ′ ∈ N e com
0 ≤ j ≤ m − 1; a condição an = e permite reescrever este elemento

av bj na forma ai bj com 0 ≤ i ≤ n − 1 e 0 ≤ j ≤ m − 1. Portanto,
temos ha, bi = {ai bj ; 0 ≤ i ≤ n − 1, 0 ≤ j ≤ m − 1}.
• Agora nós supomos que n e m são minimais satisfazendo (∗).
Para ver que ha, bi tem ordem nm, basta verificar que se
0 ≤ i, k ≤ n − 1, 0 ≤ j, ℓ ≤ m − 1 e ai bj = ak bℓ , então i = k
e j = ℓ. Suponhamos que ℓ ≤ j; multiplicando ambos os lados
da igualdade ai bj = ak bℓ por a−i à esquerda e por b−ℓ à direita,
obtemos então que bj−ℓ = ak−i ∈ hai com 0 ≤ j − ℓ ≤ j ≤ m − 1.
Portanto, pela minimalidade de m, temos j − ℓ = 0. Assim ℓ = j
e, consequentemente, ak−i = e; pela minimalidade de n, obtemos
i = k também.
b) Suponhamos que exista um homomorfismo f : ha, bi → G tal que
f (a) = α e f (b) = β. Como ba = as b, temos

βα = f (b)f (a) = f (ba) = f (as b) = (f (a))s f (b) = αs β.

Similarmente, como an = e, temos αn = e e como bm = au , temos


também β m = αu .
Reciprocamente, suponhamos que βα = αs β, αn = e, β m = αu .
Naturalmente, pela parte a) aplicada a G e α, β, temos β t αr =
t
αrs β t , ∀ r, t ∈ N. Vamos verificar que a aplicação f : ha, bi → G
definida por f (ai bj ) = αi β j , para 0 ≤ i ≤ n−1, 0 ≤ j ≤ m−1, é um
[SEC. V.7: GRUPOS FINITOS GERADOS POR DOIS ELEMENTOS 185

homomorfismo. A boa definição de f decorre das escolhas minimais


de n e m. Agora, para i, j, k, ℓ ∈ N, escreva j + ℓ = pm + v com
0 ≤ v ≤ m − 1 e escreva i + ksj + pu = qn + w com 0 ≤ w ≤ n − 1.
Temos:
j j
f (ai bj · ak bℓ ) = f (ai · bj ak · bℓ ) = f (ai · aks bj · bℓ ) = f (ai+ks bj+ℓ )
j j
= f (ai+ks bpm bv ) = f (ai+ks apu bv ) = f (aw bv )
j j j
= αw β v = αi+ks αpu β v = αi+ks β pm β v = αi+ks β j+ℓ
j
= αi · αks β j · β ℓ = αi β j · αk β ℓ = f (ai bj ) · f (ak bℓ ).

Observação V.7.2. Se no Teorema V.7.1 sabemos que a ordem


do grupo ha, bi é o produto nm, então em virtude da parte a), os
inteiros n e m são minimais; em particular, O(a) = n.

Teorema V.7.3. Sejam n, m, s, u inteiros ≥ 0.

a) 1) Se G é um grupo de ordem nm que possui elementos a, b


tais que 

 G = ha, bi

a n = e
(∗∗)


 b m = au

ba = as b.

Então, sm ≡ 1 mod n e u(s − 1) ≡ 0 mod n.

2) Reciprocamente, se sm ≡ 1 mod n e u(s − 1) ≡ 0 mod n,


então existe um grupo G de ordem nm que possui dois
elementos a, b satisfazendo as condições (∗∗).

b) Quando existir um grupo de ordem nm satisfazendo as con-


dições (∗∗), ele é único a menos de isomorfismos.

Demonstração. a) 1) Pelo item a) do Teorema V.7.1, temos


m
bm a = as bm . Como bm ∈ hai, vemos que bm comuta com a e assim
m
abm = as bm ; dividindo ambos os lados por a à esquerda e por bm
186 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

m
à direita, obtemos e = as −1 . Portanto, sm − 1 é um múltiplo da
ordem de a. Logo, sm ≡ 1 mod n.
De novo pelo Teorema V.7.1, item a), temos bau = aus b. Como
au ∈ hbi, vemos que au comuta com b e temos au b = aus b; dividindo
ambos os lados por au à esquerda e por b à direita, obtemos que
vale e = au(s−1) . Portanto, u(s − 1) é um múltiplo da ordem de a.
Logo u(s − 1) ≡ 0 mod n.

2) Daremos uma prova deste resultado somente no caso parti-


cular u = 0, pois a prova do caso geral seria muito técnica. Mas
esta prova do caso u = 0 somente poderá ser dada mais tarde, pois
antes precisaremos desenvolver o conceito do produto semidireto de
dois grupos (Vide Proposição V.9.9).

b) Sejam G um grupo de ordem nm que possui dois elementos α, β


tais que


 G = hα, βi

βα = αs β


 αn = e
 m
β = αu .

Como |G| = |G| = nm então a aplicação f : G → G definida por


f (ai bj ) = αi β j , para 0 ≤ i ≤ n − 1, 0 ≤ j ≤ m − 1 é uma bijeção.
Pela parte b) do Teorema V.7.1, f é um isomorfismo.

Como corolário do Teorema V.7.1, obtemos:

Proposição V.7.4. Sejam n, m, s, u inteiros ≥ 0. Seja G um grupo


de ordem nm que possui dois elementos a, b tais que


 G = ha, bi

ba = as b


 an = e
 m
b = au .
[SEC. V.7: GRUPOS FINITOS GERADOS POR DOIS ELEMENTOS 187

Então,

Aut(G) −→ {(α, β) ∈ G × G ; G = hα, βi, βα = αs β, αn = e,


β m = αu }
f 7−→ (f (a), f (b))

é uma bijeção.

Demonstração. Deixamos esta verificação para o leitor.

Exercı́cio V.7.5. Mostre que Aut(Z/2Z × Z/2Z) ≃ S3 .

Exercı́cio V.7.6. Mostre que Aut(S3 ) ≃ S3 e que I(S3 ) ≃ S3 .

Exercı́cio V.7.7. Mostre que Aut(D4 ) ≃ D4 e que os automorfis-


mos internos satisfazem I(D4 ) ≃ Z/2Z × Z/2Z.

Exercı́cio V.7.8. Mostre que Aut(Z/4Z × Z/2Z) ≃ D4 .

Determinação de todos os grupos de ordem ≤ 11:

Vamos aplicar os resultados obtidos até esse ponto para clas-


sificar os grupos de ordem ≤ 11. Não utilizaremos a parte não
provada do Teorema V.7.3.

Grupo de ordem 1.

Claramente, {e} é o único tal grupo.

Grupos de ordem p com p = 2, 3, 5, 7 ou 11.

Sendo p primo, G é grupo cı́clico com p elementos e portanto


temos G ≃ Z/pZ.
188 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Grupos de ordem 4 .
Já sabemos que os grupos Z/4Z e Z/2Z × Z/2Z são grupos de
ordem 4. Eles não são isomorfos pois Z/4Z possui elementos de
ordem 4 enquanto Z/2Z × Z/2Z não possui tais elementos. Vamos
mostrar que, a menos de isomorfismos, estes dois grupos são os
únicos grupos de ordem 4.
Seja G um grupo de ordem 4. Se G possui um elemento de
ordem 4, então G ≃ Z/4Z.
Se G não possui elemento de ordem 4 então, pelo Teorema de
Lagrange, todos seus elementos 6= e são de ordem 2; sabemos então,
pelo Exercı́cio V.2.15, que o grupo G é um grupo abeliano. Escreva
G = {e, a, b, c}; procuramos a sua tabela de multiplicação.
Qual é o resultado da multiplicação ab?
ab 6= e pois caso contrário, a = b−1 , o que é absurdo, pois b
sendo de ordem 2, temos b−1 = b;
ab 6= a pois caso contrário, terı́amos b = e, absurdo;
ab 6= b pois caso contrário, terı́amos a = e, absurdo.

Portanto, ab = c e também ba = c, pois o grupo é abeliano.


Similarmente, temos:

ac = b = ca e bc = a = cb.

Tendo determinado a tabela de multiplicação de G, deixamos ao


leitor a tarefa de verificar que a função abaixo é um isomorfismo:

ϕ : Z/2Z × Z/2Z −→ G
(0̄, 0̄) 7−→ e
(1̄, 0̄) 7−→ a
(0̄, 1̄) 7−→ b
(1̄, 1̄) 7−→ c.

Assim, a menos de isomorfismos, Z/4Z e Z/2Z×Z/2Z são os únicos


grupos de ordem 4.
[SEC. V.7: GRUPOS FINITOS GERADOS POR DOIS ELEMENTOS 189

Exercı́cio V.7.9. Utilize o item b) do Teorema V.7.3 para dar uma


outra prova de

|G| = 4, G 6≃ Z/4Z ⇒ G ≃ Z/2Z × Z/2Z.

Grupos de ordem 6 .
Já sabemos que os grupos Z/6Z e S3 são grupos de ordem 6.
Eles não são isomorfos pois Z/6Z é abeliano enquanto que S3 não o
é. Vamos mostrar que, a menos de isomorfismos, eles são os únicos
grupos de ordem 6.
Seja G um grupo qualquer de ordem 6.

Afirmação V.7.10. O grupo G possui um elemento α de ordem 3.


Se G é cı́clico gerado por um elemento γ, tome α = γ 2 .
Se G não é cı́clico, suponha por absurdo que nenhum elemento
de G tenha ordem 3. Nesse caso, todo elemento 6= e tem que ter
ordem 2 (pelo Teorema de Lagrange), logo G é abeliano e, tomando
dois elementos a, b ∈ G \ {e}, o conjunto {e, a, b, ab} é um subgrupo
de ordem 4 de G (Verifique!). Isto contradiz o Teorema de Lagrange,
pois 4 não divide 6.
Afirmação V.7.11. O grupo G possui pelo menos um elemento β
de ordem 2 e G = hα, βi.
Se G é cı́clico gerado por um elemento γ, tome β = γ 3 . Temos
3
γ ∈ / hγ 2 i = {e, γ 2 , γ 4 }, logo |hγ 2 , γ 3 i| > 3 e, pelo Teorema de
Lagrange, |hγ 2 , γ 3 i| divide 6; portanto G = hγ 2 , γ 3 i = hα, βi.
Se G não é cı́clico, tome β ∈ / hαi = {e, α, α2 }. Os 6 elementos
2 2
e, α, α , β, αβ, α β são distintos (Verifique!); logo

G = {e, α, α2 , β, αβ, α2 β} e G = hα, βi.

A priori, a ordem de β é igual a 2 ou 3; vamos verificar que ela é


igual a 2. Observe primeiramente que β 2 ∈ hαi, pois senão terı́amos
β 2 ∈ {β, αβ, α2 β} e β então pertenceria a {e, α, α2 } = hαi, absurdo.
Agora, se supomos que a ordem de β é 3, então temos

β = β 4 = (β 2 )2 ∈ {e, α, α2 },
190 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

o que é absurdo. Logo a ordem de β é igual a 2.


Obtivemos então que:


 |G| = 6

G = hα, βi
α 3 = e


 2
β = e.
Quais as possibilidades para o produto βα? Por razões elementares,
temos βα ∈ / {e, α, α2 , β} (Verifique!); logo βα = αβ ou βα = α2 β.
Assim existem duas possibilidades para o grupo G:
 

 |G| = 6 = 3.2 
 |G| = 6 = 3.2

 

 
G = hα, βi
 G = hα, βi

3
(1) α =e (2) α3 = e

 

 2  2
β = e

 β = e


βα = αβ βα = α2 β.

Pela parte b) do Teorema V.7.3, em cada caso, temos no máximo


um grupo, a menos de isomorfismos, satisfazendo as condições. Será
que existem de fato tais grupos? Sim; no Caso (1), tome G = Z/6Z
e no Caso (2), tome G = S3 .
Note que Z/2Z × Z/3Z também satisfaz as condições do Caso
(1) e que portanto, pela unicidade, temos que Z/2Z × Z/3Z ≃
Z/6Z. Isto pode ser visto diretamente simplesmente observando
=
que o elemento ( 1, 1̄) ∈ Z/2Z × Z/3Z tem ordem 6.

Grupos de ordem 8 .
Já sabemos que Z/8Z, Z/4Z × Z/2Z, Z/2Z × Z/2Z × Z/2Z e D4
são grupos de ordem 8. Eles não são isomorfos entre si (Verifique!).
Vamos mostrar que, a menos de isomorfismos, existe somente
mais um grupo de ordem 8, chamado grupo dos quaternios e deno-
tado por Q3 (abaixo, i ∈ C com i2 = −1):
        
1 0 i 0 0 1 0 i
Q3 := ± ;± ;± ;± .
0 1 0 −i −1 0 i 0
[SEC. V.7: GRUPOS FINITOS GERADOS POR DOIS ELEMENTOS 191

É fácil verificar que Q3com aoperaçãoproduto


 de matrizes é um
i 0 0 1
grupo. Tomando A = eB= , verifique que:
0 −i −1 0


 |Q3 | = 8



 Q3 = hA, Bi

 !
 1 0
A4 = id =

 0 1



 B 2 = A2



BA = A3 B.

Pela parte b) do Teorema V.7.3, sabemos que Q3 é caracterizado


pelas relações acima. É claro que o grupo Q3 não é isomorfo a
Z/8Z, Z/4Z × Z/2Z, Z/2Z × Z/2Z × Z/2Z. Falta então somente
verificar que D4 e Q3 não são isomorfos. Isto fica claro mostrando
que D4 possui exatamente 5 elementos de ordem 2 enquanto que o
grupo Q3 possui somente 1 elemento de ordem 2 (Verifique!).
Seja agora G um grupo qualquer de ordem 8. Pelo Teorema de
Lagrange, as possı́veis ordens dos elementos de G \ {e} são 2, 4 e 8.

Caso 1: G possui um elemento de ordem 8.


Seja γ ∈ G elemento de ordem 8; então G = hγi e G ≃ Z/8Z.

Caso 2: G não possui nenhum elemento de ordem 8. Então, as


possı́veis ordens dos elementos 6= e são 2 e 4.
Dividimos o Caso 2 em dois subcasos:

Caso 2.1: G não possui nenhum elemento de ordem 4.


Nesse caso, todos os elementos 6= e de G são de ordem 2 e,
portanto, o grupo G é abeliano. Seja a 6= e; como O(a) = 2, temos
que H = {e, a} é um subgrupo de G. Tome b ∈ G \ H; então
K = {e, a, b, ab} é um subgrupo de G. Tome c ∈ G \ K; temos:

G = {e, a, b, ab, c, ac, bc, abc} = {ai bj ck | i, j, k ∈ {0, 1}}.


192 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Deixamos ao leitor a tarefa de verificar que a função abaixo é um


isomorfismo entre os grupos Z/2Z × Z/2Z × Z/2Z e G:

ϕ : Z/2Z × Z/2Z × Z/2Z −→ G


(ī, j̄, k̄) 7−→ ai bj ck .

Caso 2.2: G possui um elemento de ordem 4.


Seja a ∈ G um elemento de ordem 4 e seja H = hai. Tome
agora b ∈ G \ H. Então G = ha, bi = {e, a, a2 , a3 , b, ab, a2 b, a3 b},
pelo Teorema de Lagrange.
Temos b2 ∈ H pois, claramente, b2 ∈
/ {b, ab, a2 b, a3 b}. Também
/ {e, a, a2 , a3 , b}.
temos ba ∈
Provamos assim que:


|G| = 8



G = ha, bi

a4 = e



 b2 = au (para algum u ∈ {0, 1, 2, 3})


ba = as b (para algum s ∈ {1, 2, 3}).

Vejamos agora quais são as possibilidades para u, s ∈ {0, 1, 2, 3}.


Primeiramente, O(bab−1 ) = O(a) = 4, logo s = 1 ou 3. Agora,
b2 ∈
/ {a, a3 }, pois senão a ordem de b2 seria 4, portanto O(b) seria
um múltiplo de 4 e logo O(b) seria 8 (absurdo, pois G não possui
elementos de ordem 8) ou seria 4 (absurdo, pois então O(b2 ) = 2).
Logo u = 0 ou 2. Vemos então que u = 0 ou 2 e que s = 1 ou 3.
Se u = 0, temos dois casos correspondentes a s = 1 e s = 3:
 

 |G| = 8 
 |G| = 8

 


G = ha, bi 
G = ha, bi
 
4
(1) a =e (2) a4 = e

 

b2 = e
 b 2 = e


 

ba = ab ba = a3 b
[SEC. V.7: GRUPOS FINITOS GERADOS POR DOIS ELEMENTOS 193

Pela parte b) do Teorema V.7.3, em cada caso acima ((1) ou (2)),


temos no máximo um grupo, a menos de isomorfismos, satisfazendo
as condições. Será que existem de fato tais grupos? Sim; no caso
(1), tome G = Z/4Z × Z/2Z e no caso (2), tome G = D4 .
Se u = 2, temos dois casos correspondentes a s = 1 e s = 3:
 

|G| = 8 
 |G| = 8

 

 
G = ha, bi
 G = ha, bi

(3) a4 = e (4) a4 = e

 


b 2 = a2 
 b 2 = a2

 

ba = ab ba = a3 b.

Pela parte b) do Teorema V.7.3, em cada caso acima ((3) ou (4)),


temos no máximo um grupo, a menos de isomorfismos, satisfazendo
as condições. Será que existem de fato tais grupos? Sim; no caso
(3), tome G = Z/4Z × Z/2Z e no caso (4), tome G = Q3 .
Assim, no final das contas, obtemos que, a menos de isomorfis-
mos, existem exatamente cinco grupos de ordem 8:

Z/8Z, Z/4Z × Z/2Z, Z/2Z × Z/2Z × Z/2Z, D4 e Q3 .

Observação V.7.12. 1) Os casos (1) e (3) acima põem em evi-


dência que um mesmo grupo pode ser apresentado, por meio de
geradores e relações, de formas distintas. O que ocorre é que mu-
dando a escolha dos geradores podemos alterar as relações entre
eles. Assim, no caso (1) os geradores escolhidos para Z/4Z × Z/2Z
= =
são a = (1̄, 0) e b = (0̄, 1), e no caso (3) os geradores escolhidos são
= =
a = (1̄, 0) e b = (1̄, 1).

2) O grupo Q3 é um grupo não-abeliano cujos subgrupos são todos


normais (verifique!).
194 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Grupos de ordem 9 :
Já sabemos que os grupos Z/9Z e Z/3Z × Z/3Z são grupos de
ordem 9. Eles não são isomorfos pois Z/9Z possui elementos de
ordem 9 enquanto Z/3Z × Z/3Z não possui tais elementos. Vamos
mostrar agora que, a menos de isomorfismos, eles são os únicos
grupos de ordem 9.
Seja G um grupo de ordem 9 que não seja cı́clico. Pelo teo-
rema de Lagrange, todos seus elementos 6= e tem ordem 3. Se-
jam e 6= α ∈ G e β ∈ G \ hαi. Por razões elementares, temos
G = {e, α, α2 , β, αβ, α2 β, β 2 , αβ 2 , α2 β 2 } (Verifique!) e portanto que

|G| = 9


G = hα, βi


 α3 = e
 3
β = e.

Quem é o produto βα? Por razões elementares, temos βα ∈ /


2 2 2
{e, α, α , β, β }. Assim, falta analisar os casos βα = αβ, βα = α β,
βα = αβ 2 , βα = α2 β 2 , sendo que, pela parte b) do Teorema V.7.3,
em cada caso temos no máximo um grupo. Será que existem de
fato tais grupos?
Caso βα = αβ. Existe sim: tome G = Z/3Z × Z/3Z.
Caso βα = α2 β. Pela parte a), item 1), do Teorema V.7.3, não
existe tal grupo, pois 23 = 8 6≡ 1 mod 3.
Caso βα = αβ 2 . Não existe, pois senão, tomando A = β 2 e B = α,
terı́amos G = hA, Bi, com A3 = e, B 3 = e, BA = αβ 2 = βα =
A2 B. Como acima isto não é possı́vel, pois 23 = 8 6≡ 1 mod 3.
Caso βα = α2 β 2 . Não existe, pois senão terı́amos

(αβ)2 = αβαβ = α · α2 β 2 · β = e,

o que é absurdo pois sabemos que αβ tem ordem 3.


[SEC. V.7: GRUPOS FINITOS GERADOS POR DOIS ELEMENTOS 195

Grupos de ordem 10 :
Seja G um grupo qualquer de ordem 10.
Afirmação 1 : G possui um elemento α de ordem 5 (dê uma prova).
Afirmação 2 : G possui um elemento β de ordem 2. Se G é cı́clico
gerado por um elemento γ, tome β := γ 5 . Se G não é cı́clico, tome
β ∈ G \ hαi; pelo Teorema de Lagrange, a ordem de β é igual a 2
ou 5. Suponha que a ordem seja 5. Sendo um subgrupo de hαi, a
interseção hαi ∩ hβi tem ordem igual a um divisor de 5, logo igual
a 1. Logo e, α, α2 , α3 , α4 , β, β 2 , β 3 , β 4 representam nove elementos
distintos de G; como αβ e α2 β são outros dois elementos de G
que, por razões elementares, são distintos dos nove outros, obtemos
que o grupo G possui pelo menos onze elementos, o que é absurdo.
Logo, a ordem de β é igual a 2.
Agora, é claro que G = {e, α, α2 , α3 , α4 , β, αβ, α2 β, α3 β, α4 β} =
hα, βi. Quem é o produto βα? Por razões elementares, vemos que
βα ∈/ {e, α, α2 , α3 , α4 , β}. Segue do Teorema V.7.3 que βα 6= α2 β
pois 22 = 4 6≡ 1 mod 5 e que βα 6= α3 β pois 32 = 9 6≡ 1 mod 5.
Assim, temos duas possibilidades:
 

 |G| = 10 = 5.2 
 |G| = 10 = 5.2

 

 
G = hα, βi
 G = hα, βi

(1) α5 = e (2) α5 = e

 


 β2 = e 
 β2 = e

 

βα = αβ βα = α4 β.

Pela parte b) do Teorema V.7.3, em cada caso, temos no máximo


um grupo, a menos de isomorfismos, satisfazendo as condições. Será
que existem de fato tais grupos? Sim; no caso (1), tome o grupo
G = Z/10Z; no caso (2), tome G := D5 o grupo das simetrias espa-
ciais do pentágono regular; este grupo consiste da identidade, das
rotações de ângulos 2π/5, 4π/5, 6π/5, 8π/5 e das reflexões espaciais
em torno das cinco bissetrizes. Note que Z/2Z × Z/5Z também
satisfaz as condições do caso (1) e que portanto, pela unicidade,
temos Z/2Z × Z/5Z ≃ Z/10Z. Isto pode ser visto diretamente
=
observando que (1̄, 1) ∈ Z/2Z × Z/5Z tem ordem 10.
196 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Grupos de ordem 2p, com p primo ı́mpar.


O grupo dihedral Dn é o grupo das simetrias espaciais do polı́gono
regular de n lados. Verifique que ele admite a seguinte apresentação:


 |Dn | = 2n



Dn = ha, bi

an = e



 b2 = e


ba = an−1 b.

Se p é um número primo ı́mpar, verifique que Z/2pZ e Dp são os


únicos grupos de ordem 2p (a menos de isomorfismos).
Grupo Qn dos Quaternios Generalizados
Seja n ≥ 3 um inteiro. Pelo Teorema V.7.3, existe um único
grupo, que denotaremos por Qn e chamaremos de grupo dos quater-
nios generalizados, tal que


 |Qn | = 2n



Qn = ha, bi

n−1
(∗ ∗ ∗) a2 =e



 b = a2
2 n−2


ba = a2n−1 −1 b.

A unicidade pode ser obtida pela parte b) do Teorema V.7.3. Quanto


à existência, ela é dada pela parte a) item 2) deste mesmo teorema,
pois com s := 2n−1 − 1 e u := 2n−2 , temos
s2 = (2n−1 − 1)2 = 22(n−1) − 2n + 1 ≡ 1 mod 2n−1
u(s − 1) = 2n−2 (2n−1 − 2) = 22n−3 − 2n−1 ≡ 0 mod 2n−1 .
A existência pode também ser obtida da maneira seguinte:
Seja Qn := ha, bi com
   
α 0 2πi/2n−1 0 1
a := onde α := e ∈ C e b := .
0 α−1 −1 0
Verifique que as condições (∗ ∗ ∗) são satisfeitas.
[SEC. V.8: PRODUTO DIRETO DE GRUPOS 197

V.8 Produto Direto de Grupos


Se G1 , . . . , Gn são grupos, já definimos o produto direto de
G1 , . . . , Gn como sendo o produto cartesiano G1 × · · · × Gn com
a operação

(x1 , . . . , xn ) · (y1 , . . . , yn ) := (x1 y1 , . . . , xn yn ).

Agora, queremos considerar o problema de expressar um grupo


em termos de grupos menos complexos. De maneira precisa, quere-
mos encontrar condições para que um grupo G seja isomorfo a um
produto direto de grupos G1 , . . . , Gn .

Teorema V.8.1. Sejam G, G1 , . . . , Gn grupos. Então o grupo G é


isomorfo ao grupo G1 × · · · × Gn se e somente se o grupo G possui
subgrupos H1 ≃ G1 , . . . , Hn ≃ Gn tais que:

1) G = H1 . . . Hn .

2) Hi ⊳ G, ∀ i = 1, . . . , n.

3) Hi ∩ (H1 . . . Hi−1 Hi+1 . . . Hn ) = {e}, ∀ i = 1, . . . , n.

Antes de iniciar a prova, damos um sistema de condições equi-


valente ao sistema 1), 2), 3) que nos será útil:

Lema V.8.2. Sejam G um grupo e H1 , . . . , Hn subgrupos de G.


Então as condições 1), 2), 3) do Teorema V.8.1 são satisfeitas se e
somente se as condições 4) e 5) seguintes são satisfeitas:

4) Para cada g ∈ G, existem elementos unicamente determina-


dos x1 ∈ H1 , . . . , xn ∈ Hn tais que g = x1 . . . xn .

5) Para cada i 6= j, temos xy = yx, ∀ x ∈ Hi e ∀ y ∈ Hj .

Demonstração. Suponhamos que as condições 1), 2) e 3) es-


tejam satisfeitas. Sejam x ∈ Hi e y ∈ Hj , com i 6= j, e con-
sidere o elemento xyx−1 y −1 . Temos xyx−1 y −1 = (xyx−1 )y −1 ∈ Hj ,
198 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

pois Hj ⊳ G, e xyx−1 y −1 = x(yx−1 y −1 ) ∈ Hi , pois Hi ⊳ G; assim


xyx−1 y −1 ∈ Hi ∩ Hj = {e}, como segue da condição 3). Portanto
xy = yx, isto é, a condição 5) está satisfeita. Seja agora g ∈ G.
Pela condição 1), existem x1 ∈ H1 , x2 ∈ H2 , . . . , xn ∈ Hn tais que
g = x1 x2 . . . xn ; queremos mostrar que os xi ’s são únicos. Suponha
então que x1 . . . xn = y1 . . . yn com yi ∈ Hi ; multiplicando ambos
os lados por y1−1 à esquerda e por x−1 −1 −1
n xn−1 . . . x2 à direita obtemos
que y1−1 x1 = y2 y3 . . . yn−1 yn x−1 −1 −1
n xn−1 . . . x2 ; usando repetidas vezes
a condição 5), que já sabemos ser satisfeita, obtemos que

y1−1 x1 = y2 x−1 y x−1 . . . y x−1 ,


| {z } | {z2 } |3{z3 } |n{zn }
∈H1 ∈H2 ∈H3 ∈Hn

e então y1−1 x1 ∈ H1 ∩H2 . . . Hn = {e}; logo x1 = y1 . De x1 x2 . . . xn =


y1 y2 . . . yn e de x1 = y1 , tiramos que x2 . . . xn = y2 . . . yn . Proce-
dendo como acima, obtemos que

y2−1 x2 = y3 x−1 . . . y x−1 ,


| {z } | {z3 } |n{zn }
∈H2 ∈H3 ∈Hn

e então y2−1 x2 ∈ H2 ∩ H3 . . . Hn ⊆ H2 ∩ H1 H3 . . . Hn = {e}; logo


temos também x2 = y2 . Continuando desta maneira obtemos que
a condição 4) está satisfeita.
Reciprocamente, suponhamos que as condições 4) e 5) são sa-
tisfeitas. Sejam então y ∈ Hi e g ∈ G; queremos mostrar que
gyg −1 ∈ Hi . Pela condição 4), temos g = x1 x2 . . . xn com xj ∈ Hj
−1 −1 −1 −1
e portanto gyg −1 = x1 . . . xi xi+1 . . . xn yx−1
n . . . xi+1 xi xi−1 . . . x1 .
Aplicando repetidamente a condição 5) ao elemento y com os
elementos xj , j = i+1, . . . , n, obtemos gyg −1 = x1 . . . xi yx−1 −1
i . . . x1 .
Agora, aplicando repetidamente a condição 5) ao elemento xi yx−1 i
(que pertence a Hi ) com os elementos xj , j = 1, . . . , i − 1, obtemos

gyg −1 = xi yx−1
i ,

logo gyg −1 pertence a Hi ; isto prova que a condição 2) é satisfeita.


A condição 1) é claramente satisfeita pois ela é mais fraca que a
[SEC. V.8: PRODUTO DIRETO DE GRUPOS 199

condição 4). Provaremos agora que a condição 3) é satisfeita. Seja


g ∈ Hi ∩ H1 . . . Hi−1 Hi+1 . . . Hn ; como g ∈ Hi , podemos escrever
g = x1 . . . xn , com x1 = · · · = xi−1 = xi+1 = · · · = xn = e e xi = g;
como g ∈ H1 . . . Hi−1 Hi+1 . . . Hn , podemos escrever
g = x1 . . . xn , com xj ∈ Hj ∀ j = 1, . . . , i − 1, i + 1, . . . , n e xi = e.
Da unicidade dada pela condição 4), concluı́mos que g = e, e isto
termina a prova.

Demostração do Teorema V.8.1: Se ϕ : G → G1 × · · · × Gn é


um isomorfismo, então é claro que os subgrupos Hi de G definidos
por Hi := ϕ−1 (Ki ), i = 1, . . . , n, onde
Ki := {e} × · · · × {e} × Gi × {e} × · · · × {e},
satisfazem as condições 1), 2), 3) pois os Ki ’s são subgrupos do
produto direto G1 × · · · × Gn satisfazendo estas condições.
Reciprocamente, suponha que G possua subgrupos H1 , . . . , Hn
com Hi ≃ Gi que satisfazem as condições 1), 2), 3). Considere a
aplicação
ϕ : G = H1 . . . Hn → H1 × · · · × Hn
definida por ϕ(h1 . . . hn ) = (h1 , . . . , hn ). Pela condição 4), a apli-
cação ϕ é bem definida e, claramente, é uma bijeção. Provaremos
que ϕ é um homomorfismo de grupos e portanto um isomorfismo.
Sejam g = x1 x2 . . . xn e g ′ = y1 y2 . . . yn dois elementos de G;
então gg ′ = x1 x2 . . . xn y1 y2 . . . yn = x1 y1 x2 y2 . . . xn yn , onde a última
igualdade foi obtida por aplicações sucessivas da condição 5); deste
modo obtemos que ϕ(gg ′ ) = (x1 y1 , x2 y2 , . . . , xn yn ) = ϕ(g)ϕ(g ′ ) e
portanto que ϕ é um homomorfismo.

Notação V.8.3. Quando um grupo G e subgrupos H1 , . . . , Hn sa-


tisfazem as condições 1), 2), 3) do Teorema V.8.1 (equivalente-
mente, satisfazem as condições 4), 5) do Lema V.8.2), escrevemos
G = H1 ⊕ · · · ⊕ Hn .
200 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

V.9 Produto Semidireto de Grupos


Já classificamos todos os grupos de ordem ≤ 11, usando as técnicas
elementares desenvolvidas até agora e usando o resultado de unici-
dade dado pela parte b) do Teorema V.7.3. Se tentarmos encontrar
todos os grupos de ordem 12 seguindo as idéias utilizadas para en-
contrar os de ordem ≤ 11, defrontamo-nos com duas dificuldades:

1) Provar a existência de elementos e subgrupos de certa ordem,


por exemplo de ordem 3 ou 4, em todo grupo de ordem 12.

2) Provar a existência (ou a não existência) de grupos de ordem


12 gerados por dois elementos satisfazendo certas relações.

Para enfrentar essa segunda dificuldade, seria conveniente ter à


nossa disposição o resultado de existência dado pela parte a), item
2), do Teorema V.7.3. Estamos portanto interessados em provar
este resultado, pelo menos no caso de u = 0. Para este fim, vamos
desenvolver uma técnica de construção de grupos a partir de dois
grupos dados, construção esta que generaliza o produto direto.
Se K e H são dois grupos (não necessariamente finitos), se
σ : K → Aut(H) é um homomorfismo do grupo K no grupo dos
automorfismos de H, então · denotará a operação definida sobre o
σ
conjunto K × H da maneira seguinte:

(k, h) · (k ′ , h′ ) := (k · k ′ , h · σ(k)(h′ )).


σ

Teorema V.9.1. Sejam K, H dois grupos e σ : K → Aut(H) um


homomorfismo. Então, (K × H, · ) é um grupo.
σ

Demonstração. A operação · é associativa. De fato, temos:


σ

• [(k1 , h1 ) · (k2 , h2 )] · (k3 , h3 ) = [k1 k2 , h1 · σ(k1 )(h2 )] · (k3 , h3 )


σ σ σ
= (k1 k2 k3 , h1 · σ(k1 )(h2 ) · σ(k1 k2 )(h3 ))
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 201

• (k1 , h1 ) · [(k2 , h2 ) · (k3 , h3 )] = (k1 , h1 ) · [k2 k3 , h2 · σ(k2 )(h3 )]


σ σ σ
= (k1 k2 k3 , h1 · σ(k1 )(h2 · σ(k2 )(h3 )))
= (k1 k2 k3 , h1 · σ(k1 )(h2 ) · σ(k1 )(σ(k2 )(h3 )))
= (k1 k2 k3 , h1 · σ(k1 )(h2 ) · σ(k1 k2 )(h3 )).

Existe um elemento neutro, a saber (eK , eH ). Também, todo ele-


mento (k, h) possui um inverso, a saber (k −1 , σ(k −1 )(h−1 )) (veri-
fique).

Definição V.9.2. O grupo (K×H, · ) é chamado de produto semidi-


σ
reto de H por K com homomorfismo σ. Ele será denotado por
(K × H, · ) ou por K × H.
σ σ

Propriedades elementares:
Sejam K, H dois grupos e σ : K → Aut(H) um homomorfismo.

1) O produto semidireto K × H é igual ao produto direto K × H


σ
se e somente se σ é o homomorfismo trivial (i.e., se e somente
se σ(k) = Identidade de H, ∀ k ∈ K). (Verifique!).
Qn−1 
2) (k, h) · . . . · (k, h) = k n , i=0 σ(k i )(h) (Verifique fazendo
σ
| {z σ }
n vezes
uma indução sobre n). Em particular,

(k, e) · . . . · (k, e) = (k n , e) e (e, h) · . . . · (e, h) = (e, hn ).


σ
| {z σ } | σ
{z σ }
n vezes n vezes

3) (e, h) · (k, e) = (k, h), ∀ k ∈ K, ∀ h ∈ H.


σ
(k, e) · (e, h) = (k, σ(k)(h)) que é diferente de (k, h), para
σ
algum k ∈ K e h ∈ H, se σ não é o homomorfismo trivial.

4) e × H é um subgrupo normal de K × H.
σ
202 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

De fato:

(k, h)· (e, h′ ) · (k, h)−1 = (k, h) · (e, h′ ) · (k −1 , σ(k −1 )(h−1 ))


σ σ σ σ
= (k, h · σ(k)(h )) · (k , σ(k −1 )(h−1 ))
′ −1
σ
= (e, h · σ(k)(h ) · h−1 ) ∈ e × H.

5) K × e é um subgrupo de K × H; ele é normal em K × H se


σ σ
e somente se σ é o homomorfismo trivial.
De fato, é claro que K × e é um subgrupo de K × H e que ele
σ
é normal em K × H se σ é o homomorfismo trivial. Agora,
σ
se σ não é o homomorfismo trivial, tome ℓ ∈ K e h ∈ H com
σ(ℓ)(h) 6= h, tome k ∈ K qualquer e k ′ := k −1 ℓk. Temos:

(k, h)· (k ′ , e) · (k, h)−1 = (k, h) · (k ′ , e) · (k −1 , σ(k −1 )(h−1 ))


σ σ σ σ
′ −1 −1 −1
= (kk , h) · (k , σ(k )(h ))
σ
= (kk k , h · σ(kk ′ )(σ(k −1 )(h−1 )))
′ −1

= (kk ′ k −1 , h · σ(kk ′ k −1 )(h−1 ))


= (kk ′ k −1 , h · σ(ℓ)(h−1 )) ∈ / K × {e},

e portanto K × e não é normal em K × H.


σ

Exemplo V.9.3. Sejam K = hβi um grupo cı́clico de ordem 2 e


H = hαi um grupo cı́clico de ordem 3. Temos Aut(H) = {Id, ζ}
onde ζ : H = hαi → hαi é definido por ζ(αi ) = α2i para todo
i = 0, 1, 2. Como ζ tem ordem 2, então existe um homomorfismo

σ : K = hβi → Aut(H) = {Id, ζ}

definido por σ(β i ) = ζ i para i = 0, 1.


O que podemos dizer do grupo G := K × H? Ele tem ordem 6
σ
e não é abeliano, pois σ não é trivial (vide Propriedade 5) acima).
Então, pelo estudo já feito dos grupos de ordem 6, sabemos que
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 203

G ≃ S3 . Uma verificação direta disto pode ser feita tomando os


elementos a = (e, α) e b = (β, e) e observando que temos


 |G| = 6



G = ha, bi

a3 = e



 b2 = e


ba = a2 b.

Verificamos por exemplo que ba = a2 b (e deixamos ao leitor a veri-


ficação das outras afirmações):

ba = (β, e) · (e, α) = (βe, eσ(β)(α)) = (β, ζ(α)) = (β, α2 ),


σ

a2 b = (e, α2 ) · (β, e) = (eβ, α2 σ(e)(e)) = (β, α2 ).


σ

Exemplo V.9.4. Classificação dos grupos de ordem 12 que são


produtos semidiretos de Z/3Z por (Z/2Z) × (Z/2Z).
Evidentemente, Aut(Z/3Z) = {Id, ρ} onde

ρ : Z/3Z −→ Z/3Z
1̄ 7−→ 2̄.

Escrevendo (Z/2Z) × (Z/2Z) = {e, α1 , α2 , α3 }, os homomorfismos


de (Z/2Z) × (Z/2Z) em Aut(Z/3Z) são:

σ : (Z/2Z) × (Z/2Z) −→ Aut(Z/3Z) = {Id, ρ}


e 7−→ Id
αi 7−→ Id, ∀ i = 1, 2, 3,

(isto é, σ é o homomorfismo trivial), e para cada j = 1, 2, 3,

σj : (Z/2Z) × (Z/2Z) −→ Aut(Z/3Z) = {Id, ρ}


e 7−→ Id
αj 7−→ Id
αi 7−→ ρ, ∀ i 6= j.
204 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Naturalmente, ((Z/2Z)×(Z/2Z))× Z/3Z é simplesmente o produto


σ
direto (Z/2Z)×(Z/2Z)×(Z/3Z), que é isomorfo a (Z/2Z)×(Z/6Z).
Seja j ∈ {1, 2, 3} e perguntamos o que podemos dizer do grupo
((Z/2Z) × (Z/2Z)) × Z/3Z. Tomando i ∈ {1, 2, 3} \ {j}, e tomando
σj
a := (αj , 1̄), b := (αi , 1̄), vamos verificar que


 ((Z/2Z) × (Z/2Z)) × Z/3Z = ha, bi

 σj
 6
a = (e, 0̄)

b2 = (e, 0̄)



ba = a5 b.

Assim os produtos semidiretos de Z/3Z por (Z/2Z) × (Z/2Z)) com


os homomorfismos σj , j = 1, 2, 3, são todos isomorfos (ao grupo
dihedral D6 ). Temos,

a2 = (αj , 1̄) · (αj , 1̄) = (2αj , 1̄ + σj (αj )(1̄))


σj

= (e, 1̄ + Id(1̄)) = (e, 2̄), logo a6 = (e, 2̄)3 = (e, 0̄).


b2 = (αi , 1̄) · (αi , 1̄) = (2αi , 1̄ + σj (αi )(1̄))
σj

= (e, 1̄ + ρ(1̄)) = (e, 1̄ + 2̄) = (e, 0̄).


ba = (αi , 1̄) · (αj , 1̄) = (αi + αj , 1̄ + σj (αi )(1̄))
σj

= (αi + αj , 1̄ + ρ(1̄)) = (αi + αj , 0̄).


a b = aa2 a2 b = (αj , 1̄) · (e, 2̄) · (e, 2̄) · (αi , 1̄)
5
σj σj σj

= (αj , 1̄) · (e, 4̄) · (αi , 1̄) = (αj + αi , 0̄).


σj σj

Além disso, temos a3 6= (e, 0̄) e b ∈


/ hai (verifique), de modo que
(Z/2Z × Z/2Z) × Z/3Z = ha, bi.
σj
Assim, obtemos que a menos de um isomorfismo, os grupos
(Z/2Z) × (Z/6Z) e D6 são os únicos produtos semidiretos do grupo
Z/3Z por (Z/2Z) × (Z/2Z).
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 205

Exemplo V.9.5. Classificação dos grupos de ordem 12 que são


produtos semidiretos de Z/3Z por Z/4Z.
De novo, Aut(Z/3Z) = {Id, ρ} onde

ρ : Z/3Z −→ Z/3Z
1̄ 7−→ 2̄.

Claramente, os homomorfismos de Z/4Z em Aut(Z/3Z) são

τ : Z/4Z −→ Aut(Z/3Z) = {Id, ρ}


1̄ 7−→ Id,

(isto é, τ é o homomorfismo trivial), e

τ1 : Z/4Z −→ Aut(Z/3Z) = {Id, ρ}


1̄ 7−→ ρ.

Naturalmente, o grupo (Z/4Z) × (Z/3Z) é simplesmente o produto


τ
direto (Z/4Z) × (Z/3Z), que é isomorfo a Z/12Z.
Agora, perguntamos o que podemos dizer do grupo não-abeliano
T := (Z/4Z)× (Z/3Z)? Vejamos as ordens de seus elementos. Pelas
τ1
propriedades elementares da operação · , sabemos que
τ1

O((0̄, 0̄)) = 1, O((1̄, 0̄)) = 4, O((2̄, 0̄)) = 2, O((3̄, 0̄)) = 4,

O((0̄, 1̄)) = 3, O((0̄, 2̄)) = 3.


Também, é rotina verificar que

O((1̄, 1̄)) = 4, O((1̄, 2̄)) = 4, O((2̄, 1̄)) = 6, O((2̄, 2̄)) = 6,

O((3̄, 1̄)) = 4, O((3̄, 2̄)) = 4.


Este grupo T possui somente um elemento de ordem 2, logo T não
é isomorfo ao dihedral D6 que possui 7 elementos de ordem 2. Ele
é um grupo que, até agora, não tı́nhamos encontrado.
Assim, obtemos que a menos de um isomorfismo, os grupos
Z/12Z e T são os únicos produtos semidiretos de Z/3Z por Z/4Z.
206 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Exemplo V.9.6. O grupo Z/12Z é o único produto semidireto de


Z/4Z por Z/3Z. Verifique!

Exemplo V.9.7. Seja H um grupo tal que Aut(H) tenha pelo


menos dois elementos. Seja K := Aut(H) e seja σ = Id : K →
Aut(H). Como σ = Id não é o homomorfismo trivial, então
Aut(H) × H é um grupo não abeliano de ordem |H| · | Aut(H)|.
Id

Para construir produtos semidiretos interessantes de dois grupos


H e K, precisamos saber exibir homomorfismos não-triviais de K
em Aut(H). Em geral, isto é uma tarefa difı́cil. No entanto, quando
os grupos K e H são grupos cı́clicos, a tarefa é mais fácil:

Lema V.9.8. Seja H := hαi um grupo cı́clico de ordem n e seja


K := hβi um grupo cı́clico de ordem m. Então as funções

Hom(K, Aut(H)) −→ {τ ∈ Aut(H); O(τ ) divide m}


σ 7−→ σ(β)

{τ ∈ Aut(H); O(τ ) divide m} −→ {1 ≤ s ≤ n − 1; sm ≡ 1 mod n}


τ 7−→ s, onde s é dado por τ (α) = αs ,

são bijeções.

Demonstração. Pela Proposição V.6.7, a aplicação

Hom(hβi, Aut(hαi)) −→ {τ ∈ Aut(hαi); O(τ ) é um divisor de m}


σ 7−→ σ(β)

é uma bijeção. Pela Proposição V.6.11, a aplicação

Aut(hαi) −→ (Z/nZ)∗
τ 7−→ s,
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 207

onde s é definido por τ (α) = αs , é um isomorfismo de grupo. Por-


tanto, τ tem ordem igual a m se e somente se s tem ordem igual a m,
e τ tem ordem igual a um divisor de m se e somente se s tem ordem
igual a um divisor de m, i.e., se e somente se sm ≡ 1 mod n. Obte-
mos que a segunda função do enunciado é também uma bijeção.

Agora, podemos dar uma prova do resultado de existência do


Teorema V.7.3 no caso particular de u = 0. Para maior clareza,
nós enunciamos de novo o resultado neste caso particular:

Proposição V.9.9. Sejam n, m, s inteiros positivos. Então,

a) Existem um grupo G de ordem nm e dois elementos a, b ∈ G


tais que 

 G = ha, bi

an = e


 bm = e

ba = as b
se e somente se sm ≡ 1 mod n.

b) Quando existir, tal grupo G é único a menos de isomorfismos.

Demonstração. a) Que a existência de um tal grupo G implica


a condição sm ≡ 1 mod n já foi provado no Teorema V.7.3. Agora,
para a recı́proca, sejam H := hαi um grupo cı́clico de ordem n e
K := hβi um grupo cı́clico de ordem m. Já que sm ≡ 1 mod n
então, o automorfismo ζ : hαi → hαi definido por ζ(α) = αs tem
ordem igual a um divisor de m e existe um homomorfismo

σ : hβi → Aut(hαi),

definido por σ(β) = ζ.


Considere o produto semidireto G := K × H, e tome os ele-
σ
mentos a := (e, α) e b := (β, e). Pelas propriedades elementares do
produto semidireto vistas anteriormente, temos G = ha, bi, an = e,
bm = e. Verificamos agora que ba = as b:
208 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

• ba = (β, e) · (e, α) = (β, e · σ(β)(α)) = (β, ζ(α)) = (β, αs ).


σ

• as b = (e, α) · (e, α) · . . . · (e, α) · (β, e) = (e, αs ) · (β, e) = (β, αs ).


σ σ σ σ σ

b) Já foi visto no Teorema V.7.3.

Como foi observado no Exemplo V.9.4, se K e H são dois grupos


e se σ1 e σ2 são homomorfismos distintos de K em Aut(H), então
pode acontecer que os produtos semidiretos K × H e K × H sejam
σ1 σ2
isomorfos. No Exemplo V.9.4, o isomorfismo foi obtido apelando ao
resultado de unicidade do Teorema V.7.3. Este teorema se aplica
no contexto dos grupos gerados por dois elementos a, b satisfazendo
a relação muito particular ba = as b (i.e., ba = as bt , com t = 1).
Vamos estabelecer um resultado que se aplica num contexto mais
geral.
Primeiro, fazemos uma observação. Se ψ : H → H1 é um isomor-
fismo entre dois grupos H e H1 então, claramente, para qualquer
elemento f ∈ Aut(H), temos

ψ ∗ (f ) := ψ ◦ f ◦ ψ −1 ∈ Aut(H1 );

obtemos portanto uma aplicação

ψ ∗ : Aut(H) −→ Aut(H1 )
f 7−→ ψ ◦ f ◦ ψ −1 ,

aplicação esta que é um isomorfismo de grupos como é imediato


verificar.
Pode ser conveniente visualizar ψ ∗ (f ) como sendo o homomor-
fismo que faz o seguinte diagrama comutativo:
f
H ←−−− H
 x

ψy
 −1 (1)
ψ
ψ ∗ (f )
H1 ←−−− H1
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 209

Note que então o seguinte diagrama é também comutativo:


f
H ←−−− H
 

ψy
ψ (2)
y
ψ ∗ (f )
H1 ←−−− H1
Teorema V.9.10. Sejam H e H1 dois grupos, ψ : H → H1 um
isomorfismo e ψ ∗ : Aut(H) → Aut(H1 ) o isomorfismo definido por
ψ ∗ (f ) = ψ ◦ f ◦ ψ −1 , para f ∈ Aut(H). Sejam K e K1 dois grupos e
sejam σ : K → Aut(H), σ1 : K1 → Aut(H1 ) dois homomorfismos.
a) Se existir um homomorfismo ϕ : K → K1 tal que σ1 ◦ ϕ =
ψ ∗ ◦ σ, i.e., tal que o seguinte diagrama comuta
σ
K −−−→ Aut(H)
 

ϕy
ψ ∗
y (3)
K1 −−−→ Aut(H1 ),
σ1

então a aplicação
ϕ̄ : K × H −→ K1 × H1
σ σ1

(k, h) 7−→ (ϕ(k), ψ(h))


é um homomorfismo.
b) Se ϕ for um isomorfismo, então ϕ̄ é também um isomorfismo.
Demonstração. Temos
ϕ̄((k, h) · (k ′ , h′ ))
σ
= ϕ̄(kk , h · σ(k)(h′ ))

= (ϕ(kk ′ ), ψ(h · σ(k)(h′ ))) = (ϕ(kk ′ ), ψ(h) · (ψ ◦ σ(k))(h′ ))


= (ϕ(kk ′ ), ψ(h) · ((ψ ∗ (σ(k))) ◦ ψ)(h′ )), pelo diagrama (2),
= (ϕ(kk ′ ), ψ(h) · (σ1 (ϕ(k)) ◦ ψ)(h′ )), pelo diagrama (3),
= (ϕ(k)ϕ(k ′ ), ψ(h) · σ1 (ϕ(k))(ψ(h′ )))
= (ϕ(k), ψ(h)) · (ϕ(k ′ ), ψ(h′ ));
σ1
210 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

logo a aplicação ϕ̄ é um homomorfismo.


b) Caso ϕ seja um isomorfismo, então ϕ e ψ são bijeções e, portanto,
a aplicação ϕ = (ϕ, ψ) é também uma bijeção.

Corolário V.9.11. Sejam σ1 : K → Aut(H) e σ2 : K → Aut(H)


dois homomorfismos e seja ϕ : K → K um automorfismo tal que
σ1 = σ2 ◦ ϕ, i.e., tal que o seguinte diagrama comuta:
K

Aut(H).

Então a aplicação ϕ̃ abaixo é um isomorfismo:

ϕ̃ : K × H −→ K × H
σ1 σ2

(k, h) 7−→ (ϕ(k), h).

Exercı́cio V.9.12. Aplique o Corolário V.9.11 para dar uma nova


prova de que os grupos ((Z/2Z) × (Z/2Z)) × (Z/3Z), j = 1, 2, 3,
σj
do Exemplo V.9.4 são isomorfos.

Exemplo V.9.13. Classificação dos grupos de ordem 12 que são


produtos semidiretos de (Z/2Z) × (Z/2Z) por Z/3Z.
Sabemos que Aut((Z/2Z)×(Z/2Z)) é isomorfo a S3 . De maneira
mais precisa, se escrevemos (Z/2Z) × (Z/2Z) = {e, α1 , α2 , α3 },
temos Aut((Z/2Z) × (Z/2Z)) = {Id, µ1 , µ2 , ν1 , ν2 , ν3 } onde

α1 7→ α2 α1 7→ α3

µ1 : α2 7→ α3 , µ2 : α3 7→ α2 ,
α3 7→ α1 α2 7→ α1
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 211

α1 7→ α1 α1 7→ α3 α1 7→ α2

ν1 : α2 7→ α3 , ν2 : α2 7→ α2 , ν3 : α2 7→ α1 ,
α3 7→ α2 α3 7→ α1 α3 7→ α3

Já que Id tem ordem 1, os µi ’s tem ordem 3 e os νj ’s tem ordem 2,


então os homomorfismos de Z/3Z em Aut((Z/2Z) × (Z/2Z)) são

σ : Z/3Z −→ Aut((Z/2Z) × (Z/2Z))


1̄ 7−→ Id

(isto é, σ é o homomorfismo trivial), e para cada i = 1, 2,

σi : Z/3Z −→ Aut((Z/2Z) × (Z/2Z))


1̄ 7−→ µi .

Naturalmente, (Z/3Z) × ((Z/2Z) × (Z/2Z)) é simplesmente o pro-


σ
duto direto (Z/3Z) × (Z/2Z) × (Z/2Z), que é isomorfo ao grupo
(Z/2Z) × (Z/6Z).
Agora, perguntamos o que podemos dizer dos produtos semidi-
retos (Z/3Z) × ((Z/2Z) × (Z/2Z))? Primeiro, eles são isomorfos
σi
entre si. De fato, considerando o isomorfismo ρ : Z/3Z → Z/3Z
definido por ρ(1̄) = 2̄, e observando que µ22 = µ1 , então nós temos
o seguinte diagrama comutativo:

Aut

Portanto os produtos semidiretos (Z/3Z) × ((Z/2Z) × (Z/2Z)) e


σ1
(Z/3Z) × ((Z/2Z) × (Z/2Z)) são isomorfos pelo Corolário V.9.11.
σ2
Vejamos as ordens dos elementos desse produto semidireto
(Z/3Z) × ((Z/2Z) × (Z/2Z)). Pelas propriedades elementares da
σ1
212 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

operação ×, temos
σ1

O((1̄, e)) = O((2̄, e)) = 3, O((0̄, e)) = 1,


O((0̄, α1 )) = O((0̄, α2 )) = O((0̄, α3 )) = 2.

Também, é rotina verificar que os outros seis elementos tem ordem


igual a 3. Esse grupo não-abeliano possui exatamente 8 elementos
de ordem 3, logo ele não é isomorfo ao grupo dihedral D6 , nem,
ao grupo T construido no Exemplo V.9.5, pois estes tem somente
dois elementos de ordem 3. Denotaremos este grupo por A4 (esta
notação será justificada mais tarde).
Assim, obtemos que a menos de um isomorfismo, os grupos
(Z/2Z) × (Z/6Z) e A4 são os únicos produtos semidiretos do grupo
(Z/2Z) × (Z/2Z) por Z/3Z.

Observação V.9.14. Pelos Exemplos V.9.4, V.9.5, V.9.6 e V.9.13,


obtivemos que existem exatamente 5 grupos de ordem 12 que sejam
produtos semidiretos de um grupo de ordem 3 por um grupo de
ordem 4, ou de um grupo de ordem 4 por um grupo de ordem 3;
eles são:

Z/12Z, (Z/2Z) × (Z/6Z), D6 , A4 , (Z/4Z) × (Z/3Z),


τ1

onde

τ1 : Z/4Z −→ Aut(Z/3Z)
1̄ 7−→ ρ : 1̄ 7→ 2̄.

Corolário V.9.15. Sejam K e H dois grupos e seja σ : K →


Aut(H) um homomorfismo. Sejam K1 e H1 dois grupos isomor-
fos a K e H, respectivamente. Então, existe um homomorfismo
σ1 : K1 → Aut(H1 ) tal que os grupos K × H e K1 × H1 sejam
σ σ1
isomorfos.

Demonstração. Seja ϕ : K → K1 e ψ : H → H1 dois isomor-


fismos; seja ψ ∗ : Aut(H) → Aut(H1 ) o isomorfismo definido por
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 213

ψ(f ) = ψ ◦ f ◦ ψ −1 , para f ∈ Aut(H). Tome σ1 := ψ ∗ ◦ σ ◦ ϕ−1 ,


i.e., σ1 definido como sendo o homomorfismo que faz o seguinte
diagrama comutativo:
σ
K −−−→ Aut(H)
x 
 ψ∗
ϕ−1  y
K1 −−−→ Aut(H1 ),
σ1

É claro que então o seguinte diagrama é comutativo


σ
K −−−→ Aut(H)
 

ϕy
ψ∗
y
K1 −−−→ Aut(H1 ),
σ1

Portanto, já que ϕ é um isomorfismo, os grupos K × H e K1 × H1


σ σ1
são isomorfos pelo Teorema V.9.10.

Agora, analogamente ao que fizemos para o produto direto,


queremos encontrar condições para que um grupo G seja isomorfo
a um produto semidireto de dois grupos, obtendo assim uma ex-
pressão de G em termos de grupos menos complexos.

Teorema V.9.16. Sejam G, K, H grupos. Então, existe um ho-


momorfismo σ : K → Aut(H) tal que G seja isomorfo a K × H se
σ
e somente se G possui subgrupos H1 ≃ H e K1 ≃ K tais que:
1) G = K1 H1 .
2) H1 ⊳ G.
3) K1 ∩ H1 = {e}.
Demonstração. Seja σ : K → Aut(H) um homomorfismo e seja
ψ : K × H → G um isomorfismo. Sabemos que K × e e que e × H
σ
são subgrupos de K × H isomorfos a K e H, respectivamente, tais
σ
que
K×H = (K×e)(e×H), e×H⊳K×H, (K×e)∩(e×H) = {(e, e)}.
σ σ
214 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Logo, tomando K1 := ψ(K × e) e H1 := ψ(e × H), teremos

G = K1 H 1 , H1 ⊳ G, K1 ∩ H1 = {e}.

Reciprocamente, sejam H1 ≃ H e K1 ≃ K dois subgrupos de


G satisfazendo as condições 1), 2), 3). Para todo elemento k ∈ K1 ,
podemos considerar o automorfismo interno Ik : G → G definido
por Ik (g) = kgk −1 . Já que H1 ⊳ G, então Ik (H1 ) = H1 e portanto,
a restrição de Ik a H1 , que denotaremos por Ik′ , é um automorfismo
de H1 (não necessariamente um automorfismo interno!). Assim
obtemos uma aplicação

I ′ : K1 −→ Aut(H1 )
k 7−→ Ik′ ,

que satisfaz a condição I ′ (kk ′ ) = I ′ (k) ◦ I ′ (k ′ ), ∀ k, k ′ ∈ K1 , i.e., a


aplicação I ′ é um homomorfismo.
Já que H1 é isomorfo a H e K1 isomorfo a K, então sabemos pelo
Corolário V.9.15 que existe um homomorfismo σ : K → Aut(H) tal
que K1 × H1 seja isomorfo a K × H. Portanto, afim de mostrar que
I′ σ
G é isomorfo a K × H, basta mostrar que G é isomorfo a K1 × H1 .
σ I′
Primeiro, observe que H1 K1 = K1 H1 (pois H1 ⊳ G), e observe
que todo elemento g ∈ G se escreve na forma g = hk, com h ∈ H1
e k ∈ K1 , de maneira única (pois, se g = hk = h′ k ′ , então temos
h′−1 h = k ′ k −1 ∈ H1 ∩ K1 = {e} e, portanto, h = h′ e k = k ′ ).
Agora, considere a aplicação

ρ : K1 × H1 −→ G
I′
(k, h) 7−→ hk.

Pela observação anterior a aplicação ρ é uma bijeção. Vejamos


agora que ρ é um homomorfismo:

ρ((k, h) ·′ (k ′ , h′ )) = ρ(kk ′ , h · Ik′ (h′ )) = ρ(kk ′ , hkh′ k −1 )


I
= hkh′ k −1 kk ′ = hkh′ k ′ = ρ(k, h) · ρ(k ′ , h′ ).
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 215

Este Teorema V.9.16 é uma ferramenta útil para determinar a


estrutura de um grupo G.
Exemplo V.9.17. A menos de um isomorfismo, Z/15Z é o único
grupo de ordem 15.
Demonstração. Seja G um grupo de ordem 15.
Afirmação 1 : O grupo G possui um elemento de ordem 3. (Veri-
fique)
Afirmação 2 : O grupo G possui um elemento de ordem 5. De fato,
suponhamos que G não possua elementos de ordem 5. Então, pelo
Teorema de Lagrange, todos os elementos 6= e teriam ordem igual
a 3. Tome x ∈ G \ {e} e y ∈ G \ hxi.
a) e, x, x2 , y, y 2 são elementos distintos, por razões elementares.
b) e, x, x2 , y, y 2 , xy, y 2 x2 são sete elementos distintos. De fato, temos
que xy ∈ / {e, x, x2 , y, y 2 } por razões elementares, e por ser o inverso
de xy, o elemento y 2 x2 também não pertence a este conjunto.
c) e, x, x2 , y, y 2 , xy, y 2 x2 , xy 2 , yx2 são nove elementos distintos. De
fato, xy 2 ∈ / {e, x, x2 , y, y 2 , xy} por razões elementares; também,
xy 6= y x pois caso contrário, terı́amos xy 2 = y 2 x2 , logo multi-
2 2 2

plicando ambos os lados por xy 2 à direita, obterı́amos (xy 2 )2 = y


e tomando os inversos de ambos os lados, xy 2 = y 2 , o que seria
absurdo. Logo xy 2 ∈ / {e, x, x2 , y, y 2 , xy, y 2 x2 } e, por ser o inverso
de xy 2 , o elemento yx2 também não pertence a este conjunto.
d) e, x, x2 , y, y 2 , xy, y 2 x2 , xy 2 , yx2 , x2 y, y 2 x são onze elementos dis-
tintos. De fato, x2 y ∈ / {e, x, x2 , y, y 2 , xy, xy 2 } por razões elementa-
res; também x2 y 6= y 2 x2 pois, caso contrário, terı́amos x2 y = y 2 x2 ,
logo multiplicando ambos os lados por y 2 x2 à direita, obterı́amos
x = (y 2 x2 )2 e, tomando os inversos de ambos os lados, x2 = y 2 x2 ,
o que seria absurdo; similarmente, x2 y 6= yx2 pois, caso contrário,
os elementos x2 e y comutariam, logo
hx2 , yi = {e, x2 , x, y, x2 y, xy, y 2 , x2 y 2 , xy 2 }
seria um subgrupo de G contendo 9 elementos, o que seria absurdo
pelo Teorema de Lagrange. Logo x2 y ∈ / {e, x, x2 , y, y 2 , xy, y 2 x2 ,
216 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

xy 2 , yx2 }, e por ser o inverso de x2 y, o elemento y 2 x também não


pertence a este conjunto.

e) e, x, x2 , y, y 2 , xy, y 2 x2 , xy 2 , yx2 , x2 y, y 2 x, x2 y 2 , yx são 13 elemen-


tos distintos. De fato, x2 y 2 ∈ / {e, x, x2 , y, y 2 , xy, xy 2 , x2 y} por razões
elementares; também x y 6= y 2 x2 pois, caso contrário, x2 e y 2 co-
2 2

mutariam, logo hx2 , y 2 i seria um subgrupo de G contendo 9 elemen-


tos, o que seria absurdo pelo Teorema de Lagrange; similarmente,
trocando os papéis de x e y no argumento dado em c), obtemos
x2 y 2 6= yx2 ; finalmente, trocando os papéis de x e y no argumento
dado em d), obtemos x2 y 2 6= y 2 x. Logo

x2 y 2 ∈
/ {e, x, x2 , y, y 2 , xy, y 2 x, xy 2 , yx2 , x2 y, y 2 x},

e por ser o inverso de x2 y 2 , o elemento yx também não pertence a


este conjunto.

f) Adicionando xyx e x2 y 2 x2 ao conjunto anterior, temos 15 ele-


mentos distintos. De fato, se tivéssemos xyx = xi y j , então multi-
plicando ambos os lados por x2 à esquerda, obterı́amos yx = xi+2 y j
que sabemos ser absurdo pelo item e); similarmente, se tivessemos
xyx = y j xi , então multiplicando ambos os lados por x2 à direita,
obterı́amos xy = y j xi+2 que sabemos ser absurdo pelo item e). Logo
xyx não pertence ao conjunto de 13 elementos dado no item e), e
por ser o inverso de xyx, o elemento x2 y 2 x2 também não pertence
a este conjunto de 13 elementos.

g) O elemento xy 2 x não pertence ao conjunto de 15 elementos dado


no item f). De fato, substituindo y por y 2 no argumento dado no
item f), obtemos que xy 2 x não pertence ao conjunto de 13 elementos
dado no item e); também, xy 2 x 6= xyx pois, caso contrário, terı́amos
xy 2 x = xyx, logo multiplicando ambos os lados por x2 à direita e
à esquerda, obterı́amos y 2 = y, o que seria absurdo; similarmente,
xy 2 x 6= x2 y 2 x2 pois caso contrário, terı́amos xy 2 x = x2 y 2 x2 , logo
multiplicando ambos os lados por y 2 à direita, obterı́amos (xy 2 )2 =
(x2 y 2 )2 e, tomando os inversos de ambos os lados, xy 2 = x2 y 2 , o
que seria absurdo.
[SEC. V.9: PRODUTO SEMIDIRETO DE GRUPOS 217

Assim, supondo a não existência de elemento de ordem 5 em G,


isto nos leva à existência de 16 elementos distintos em G, o que é
absurdo. Logo, a Afirmação 2 esta provada.

Afirmação 3 : O grupo G possui pelo menos um subgrupo H de


ordem 5 que é normal em G ou um subgrupo K de ordem 3 que é
normal em G.
De fato, seja n o número de subgrupos de ordem 5. Pela
Afirmação 2, temos 1 ≤ n, e por razões elementares, temos n ≤ 3.
Se n = 1, então o único subgrupo H de ordem 5 deve ser normal
em G pois, ∀ g ∈ G, gHg −1 é um subgrupo de ordem 5, logo igual
ao subgrupo H.
Se n = 2, sejam H1 e H2 os subgrupos de ordem 5. É imediato
verificar que N1 := {g ∈ G; gH1 g −1 = H1 } é um subgrupo de G,
que contém H1 . Por outro lado, ∀ x ∈ H2 , temos que Ix (H1 ) :=
xH1 x−1 é um subgrupo de ordem 5, logo que Ix (H1 ) = H1 ou H2 ;
no entanto, Ix é um automorfismo e Ix (H2 ) = H2 ; logo Ix (H1 )
não pode ser igual a H2 e deve portanto ser igual a H1 . Assim,
N1 ⊇ hH1 , H2 i ' H1 ; portanto N1 = G e H1 é normal em G.
Se n = 3, então G possui exatamente 3 × 4 = 12 elementos
de ordem 5. Logo, neste caso G possui exatamente dois elementos
de ordem 3, e portanto exatamente um subgrupo K de ordem 3.
Naturalmente, tal subgrupo K é normal em G.

Afirmação 4 : O grupo G é isomorfo a Z/15Z.


De fato, seja H um subgrupo de ordem 5 e seja K um subgrupo
de ordem 3, tais que pelo menos um dos dois é normal em G. Então,
temos claramente que


G = KH
H ⊳ G ou K ⊳ G


K ∩ H = {e},

e portanto, pelo Teorema V.9.16, o grupo G é isomorfo a um pro-


duto semidireto de Z/5Z por Z/3Z ou a um produto semidireto
de Z/3Z por Z/5Z. Ora, o único homomorfismo de Z/3Z em
218 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Aut(Z/5Z) ≃ Z/4Z é o homomorfismo trivial, e também o único


homomorfismo de Z/5Z em Aut(Z/3Z) ≃ Z/2Z é o trivial; logo,
a menos de um isomorfismo o produto direto (Z/3Z) × (Z/5Z) ≃
Z/15Z é o único grupo de ordem 15. Portanto o grupo G é isomorfo
ao grupo cı́clico Z/15Z.
No próximo capı́tulo, vamos dar uma outra prova, menos
elementar porém mais eficiente, de que Z/15Z é o único grupo de
ordem 15.

V.10 Grupos de Permutações


Observamos primeiramente que todo grupo finito é isomorfo a um
subgrupo de um grupo de permutações.
Proposição V.10.1. (Teorema de Cayley). Seja G um grupo finito
de ordem n; seja G0 o conjunto subjacente a G (i.e., G0 é o conjunto
G sem a estrutura de grupo). Então
T : G −→ P(G0 ) ≃ Sn
g 7−→ Tg : G0 → G0
x 7→ gx,
é um homomorfismo injetivo.
Demonstração. Sejam g1 , g2 dois elementos quaisquer de G; para
todo elemento x de G0 , temos
Tg1 g2 (x) = (g1 g2 )x = g1 (g2 x) = Tg1 (Tg2 (x)) = Tg1 ◦ Tg2 (x);
logo
Tg1 g2 = Tg1 ◦ Tg2 ,
e assim obtemos que T é um homomorfismo entre o grupo G e o
grupo P(G0 ). Agora, T é injetivo pois se g ∈ ker T , temos que
idG0 = Tg , isto é x = Tg (x) = gx, ∀ x ∈ G; logo g = e.
Em virtude deste teorema de Cayley, é muito importante estu-
dar os grupos Sn e seus subgrupos.
[SEC. V.10: GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 219

Definição V.10.2. Uma permutação α ∈ Sn é denominada um r-


ciclo se existem elementos distintos a1 , . . . , ar ∈ {1, . . . , n} tais que
α(a1 ) = a2 , α(a2 ) = a3 , . . . , α(ar−1 ) = ar , α(ar ) = a1 , e tais que
α(j) = j, ∀ j ∈ {1, . . . , n} \ {a1 , . . . , ar }; tal r-ciclo será denotado
por (a1 . . . ar ); o número r é chamado o comprimento do ciclo. Os
2-ciclos são também chamados de transposições.

Exemplos em S5 :
12345

23451
é um 5-ciclo, denotado por (12345); ele poderia também
ser denotado por (23451), ou (34512), ou (45123), ou (51234).
12345

42135
é um 3-ciclo, denotado por (143); ele poderia também
ser denotado por (431), ou (314).
12345

32145
é uma transposição, denotada por (13); ela poderia tam-
bém ser denotada por (31).
12345

14325
é uma transposição, denotada por (24) ou por (42).
O único 1-ciclo é a identidade, que denotamos por (1) ou também
por (a) com a ∈ {1, 2, 3, . . . , n}.
12345

34521
não é um r-ciclo, qualquer que seja r.

Definição V.10.3. Seja α ∈ Sn um r-ciclo e seja β ∈ Sn um s-


ciclo; as permutações α e β são disjuntas se nenhum elemento de
{1, 2 . . . , n} é movido por ambas, isto é, ∀ a ∈ {1, 2, . . . , n}, temos
que α(a) = a ou β(a) = a.

Exemplos em S5 :
Os ciclos (134) e (25) são disjuntos; os ciclos (14) e (25) são
disjuntos. Os ciclos (135) e (25) não são disjuntos, pois claramente
o elemento 5 é movido por ambos.

Exercı́cio V.10.4. a) Sejam α, β ∈ Sn dois ciclos disjuntos. Mos-


tre que eles comutam, isto é, αβ = βα.
b) Seja α ∈ Sn um r-ciclo. Mostre que a ordem de α é igual a r.
220 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

c) Sejam α1 , . . . , αt ∈ Sn ciclos disjuntos de comprimentos r1 , . . . , rt ,


respectivamente. Mostre que o produto αt . . . α1 tem ordem igual
a M.M.C.{r1 , . . . , rt }.
Proposição V.10.5. Seja α ∈ Sn , α 6= id. Então a permutação α
é igual a um produto de ciclos disjuntos de comprimentos ≥ 2; tal
fatoração é única a menos da ordem dos fatores.
Demonstração. Como α é diferente de id, existe i1 ∈ {1, 2, . . . , n}
tal que α(i1 ) 6= i1 . Considere a seqüência i1 , α(i1 ), α2 (i1 ), . . . ;
claramente, existe r1 , 2 ≤ r1 ≤ n, tal que i1 , α(i1 ), . . . αr1 −1 (i1 )
são todos distintos e αr1 (i1 ) ∈ {i1 , α(i1 ), . . . , αr1 −1 (i1 )}; é imediato
verificar que αr1 (i1 ) = i1 . Portanto a restrição de α ao conjunto
{i1 , α(i1 ), . . . , αr1 −1 (i1 )} é tal que

α|{i1 ,α(i1 ),...,αr1 −1 (i1 )} = (i1 α(i1 ) . . . αr1 −1 (i1 )).

Denotaremos este r1 -ciclo (i1 α(i1 ) . . . αr1 −1 (i1 )) por σ1 .


Se a restrição de α ao complementar de {i1 , α(i1 ), . . . , αr1 −1 (i1 )}
é a identidade, acabou: α = σ1 . Senão, tomamos um elemento
i2 ∈ {1, 2, . . . , n} \ {i1 , α(i1 ), . . . , αr1 −1 (i1 )} tal que α(i2 ) 6= i2 ; de
maneira similar à etapa precedente, temos que existe um inteiro
r2 ≥ 2 tal que

α|{i2 ,α(i2 ),...,αr2 −1 (i2 )} = (i2 α(i2 ) . . . αr2 −1 (i2 )).

Denotaremos este r2 -ciclo (i2 α(i2 ) . . . αr2 −1 (i2 )) por σ2 . Obser-


vamos que σ1 e σ2 são disjuntos. Se a restrição de α ao complemen-
tar do conjunto {i1 , α(i1 ), . . . , αr1 −1 (i1 ), i2 , α(i2 ), . . . , αr2 −1 (i2 )} é a
identidade, acabou: α = σ1 σ2 = σ2 σ1 . Senão, tomamos
i3 ∈ {1, 2, . . . , n} \ {i1 , α(i1 ), . . . , αr1 −1 (i1 ), i2 , α(i2 ), . . . , αr2 −1 (i2 )}
tal que α(i3 ) 6= i3 e continuamos o processo. Claramente este pro-
cesso vai ter que parar depois de um número finito de etapas, e
vamos obter que α = σ1 σ2 . . . σt , onde σ1 , σ2 , . . . , σt são ciclos dis-
juntos de comprimentos ≥ 2.
Agora, para provar a unicidade, suponha que temos também
α = τ1 τ2 . . . τu com τ1 , τ2 , . . . , τu ciclos disjuntos, cada um deles
de comprimento ≥ 2. Como τ1 . . . τu (i1 ) = α(i1 ) 6= i1 e como os
[SEC. V.10: GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 221

τi ’s são ciclos disjuntos, existe um único τj tal que τj (i1 ) = α(i1 ).


Como os ciclos τi ’s comutam entre si, podemos supor que j = 1
e então temos τ1 (i1 ) = α(i1 ). Vamos mostrar que τ1 = σ1 . O
ciclo τ1 não pode deixar α(i1 ) fixo, isto é, τ1 não pode mandar
α(i1 ) sobre α(i1 ), pois τ1 já manda i1 sobre α(i1 ); como os τi ’s
são ciclos disjuntos, então, ∀ j ≥ 2, τj deixa α(i1 ) fixo e portanto
α(α(i1 )) = τ1 (α(i1 )); assim vale que τ1 (α(i1 )) = α2 (i1 ). De maneira
similar obtemos que τ1 (αk−1 (i1 )) = αk (i1 ), ∀ k ≥ 0, e portanto que
τ1 = σ1 . Similarmente, trabalhando com i2 no lugar de i1 , vamos
obter que τ2 = σ2 ; continuando assim, obteremos que u = t e que a
menos da ordem σj = τj , para cada j = 1, . . . , t.
O fato de poder escrever de maneira única todo elemento do
grupo Sn como um produto de ciclos disjuntos vai ajudar muito a
fazer computações no grupo Sn .
Exercı́cio V.10.6. Seja p um número primo e seja n ∈ N. Mostre
que todo elemento de ordem p no grupo Sp é um p-ciclo. Mostre
que Sp não tem elemento de ordem kp com k ≥ 2. Se t é um inteiro
positivo, mostre que o grupo Sn possui elementos de ordem pt se e
somente se n ≥ pt .
Exercı́cio V.10.7. Mostre que as possı́veis ordens de elementos do
grupo S7 pertencem ao conjunto {1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 10, 12}.
Proposição V.10.8. a) Todo elemento de Sn é um produto de
transposições, isto é, Sn = h{transposições}i.
b) Sn = h(12), (13), . . . , (1n)i.
c) Sn = h(12), (23), . . . , (n − 1 n)i.
Demonstração. a) Temos id = (12)(12) ∈ h{transposições}i.
Em virtude da proposição precedente, basta mostrar que todo ciclo
(a1 . . . ar ) é um produto de transposições, e de fato, temos
(a1 a2 . . . ar ) = (a1 ar )(a1 ar−1 ) . . . (a1 a3 )(a1 a2 ).

b) Em virtude da parte a), basta mostrar que toda transposição (ij)


pertence a h(12), (13), . . . , (1n)i, e de fato, temos (ij) = (1i)(1j)(1i),
se 1, i, j são distintos.
222 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

c) Para todo inteiro i ≥ 2, temos (1 i + 1) = (1i)(i i + 1)(1i);


portanto o subgrupo h(12), (23), . . . , (n − 1 n)i contém (1i), para
cada i = 2, . . . , n. Assim, pelo item b), este subgrupo é igual a Sn .
Observação V.10.9. 1) Seja α ∈ Sn . A função
α̂ : Z[X1 , . . . , Xn ] −→ Z[X1 , . . . , Xn ]
f (X1 , . . . , Xn ) 7−→ f (Xα(1) , . . . , Xα(n) )
é um isomorfismo de anéis (Verifique!).
2) Um elemento α ∈ Sn pode ser escrito como um produto de
transposições disjuntas se e somente se sua ordem for igual a 2.
3) A decomposição de um elemento α ∈ Sn como produto de trans-
posições não é única, mesmo se exigirmos um número mı́nimo de
transposições; por exemplo, (123) = (13)(12) = (23)(13). No en-
tanto, vamos mostrar que a paridade do número de transposições
em uma decomposição é bem definida.
Proposição V.10.10. Seja α ∈ Sn e seja α = τt ◦ · · · ◦ τ1 uma
fatoração qualquer de α como um produto de transposições. Se
X1 , . . . , Xn são indeterminadas sobre Z, então
Y Y
(Xα(j) − Xα(i) ) = (−1)t (Xj − Xi ).
1≤i<j≤n 1≤i<j≤n

Em particular, se α = τt ◦ · · · ◦ τ1 = µu ◦ · · · ◦ µ1 são duas fatorações


de α como produto de transposições, então t ≡ u mod 2.
Definição V.10.11. Um elemento α de Sn é uma permutação par
quando α se escreve como um produto de um número par de trans-
posições ou, equivalentemente, quando
Y Y
(Xα(j) − Xα(i) ) = (Xj − Xi ).
1≤i<j≤n 1≤i<j≤n

Um elemento α ∈ Sn é uma permutação ı́mpar quando α se es-


creve como um produto de um número ı́mpar de transposições ou,
equivalentemente, quando
Y Y
(Xα(j) − Xα(i) ) = − (Xj − Xi ).
1≤i<j≤n 1≤i<j≤n
[SEC. V.10: GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 223

Demonstração da Proposição V.10.10:


Seja Y
g(X1 , . . . , Xn ) = (Xj − Xi ).
1≤i<j≤n

Para j ∈ {1, 2, . . . , n}, os fatores de g(X1 , . . . , Xn ) que envolvem a


variável Xj são exatamente:

(Xn − Xj ),(Xn−1 − Xj ), . . . , (Xj+1 − Xj ),


(Xj − Xj−1 ), . . . , (Xj − X2 ), (Xj − X1 ).

Então, para uma permutação β ∈ Sn , temos que

(Xβ(n) − Xβ(j) ), (Xβ(n−1) − Xβ(j) ), . . . , (Xβ(j+1) − Xβ(j) ),


(Xβ(j) − Xβ(j−1) ), . . . , (Xβ(j) − Xβ(2) ), (Xβ(j) − Xβ(1) )

são exatamente, a menos do sinal, os fatores de g(X1 , . . . , Xn ) que


envolvem a variável Xβ(j) . Assim sendo, obtemos
Y Y
(Xβ(j) − Xβ(i) ) = ± (Xj − Xi ).
1≤i<j≤n 1≤i<j≤n

Agora vamos determinar o sinal. Defina ψ : Sn → {−1, +1} da


seguinte maneira: ψ(β) = 1 se
Y Y
(Xβ(j) − Xβ(i) ) = (Xj − Xi ),
1≤i<j≤n 1≤i<j≤n

e ψ(β) = −1 se
Y Y
(Xβ(j) − Xβ(i) ) = − (Xj − Xi ).
1≤i<j≤n 1≤i<j≤n

A função ψ é um homomorfismo de grupos (com {−1, 1} munido


da multiplicação). De fato, sejam β, γ ∈ Sn ; por definição, temos
Y Y
(Xβ(j) − Xβ(i) ) = ψ(β) · (Xj − Xi );
1≤i<j≤n 1≤i<j≤n
224 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

aplicando o isomorfismo γ̂ (vide Observação V.10.9), obtemos


Y Y
(Xγ(β(j)) − Xγ(β(i)) ) = ψ(β) · (Xγ(j) − Xγ(i) )
1≤i<j≤n 1≤i<j≤n
Y
= ψ(β)ψ(γ) · (Xj − Xi ),
1≤i<j≤n

e portanto ψ(γβ) = ψ(β)ψ(γ) = ψ(γ)ψ(β).


Se τ é uma transposição do tipo (k k + 1), então ψ(τ ) = −1. De
fato, temos que:
• o fator (Xk+1 − Xk ) é transformado em (Xk − Xk+1 ) pelo isomor-
fismo τ̂ , e portanto introduz uma mudança de sinal.
• os fatores (Xj − Xi ) com {i, j} ∩ {k, k + 1} = ∅ permanecem
inalterados por τ̂ , e portanto estes fatores não introduzem uma
mudança de sinal.
• os fatores que sobram são (Xj − Xk ), (Xj − Xk+1 ) com ı́ndices
j ≥ k + 2, e (Xk − Xi ), (Xk+1 − Xi ) com i ≤ k − 1. Os produ-
tos (Xj − Xk )(Xj − Xk+1 ) são transformados por τ̂ nos produtos
(Xj − Xk+1 )(Xj − Xk ), i.e., eles permanecem inalterados por τ̂ , e
portanto não implicam uma mudança de sinal. Similarmente, os
produtos (Xk − Xi )(Xk+1 − Xi ) não trazem mudança de sinal.
Assim, temos τ̂ (g(X1 , . . . , Xn )) = −g(X1 , . . . , Xn ) e portanto
obtemos que ψ(τ ) = −1, como anunciado.
Se τ é uma transposição qualquer (kℓ), temos
(kℓ) = (ℓ k + 1)(k k + 1)(ℓ k + 1),
logo
ψ(kℓ) = ψ((ℓ k + 1))ψ((k k + 1))ψ((ℓ k + 1)) = ψ((k k + 1)) = −1.
Finalmente, se α = τt ◦ · · · ◦ τ1 é um produto de transposições,
então ψ(α) = ψ(τt ) . . . ψ(τ1 ) = (−1)t .
Proposição V.10.12. Seja An = {α ∈ Sn | α é permutação par}.
Então An é um subgrupo de Sn de ı́ndice 2 (denominado grupo
alternado ou grupo das permutações pares).
[SEC. V.10: GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 225

Demonstração. Seja ψ : Sn → {−1, +1} a função definida por


ψ(β) = 1 se β é par e ψ(β) = −1 se β é ı́mpar. É claro que a
função ψ é um homomorfismo sobrejetor cujo núcleo é exatamente
o grupo alternado An .
Exercı́cio V.10.13. Seja H um subgrupo do grupo Sn . Mostre
que H < An ou (H : H ∩ An ) = 2.
Exercı́cio V.10.14. Escreva cada elemento de S4 como um pro-
duto de ciclos disjuntos. Escreva cada elemento de S4 como um
produto de transposições. Veja que os elementos de A4 são exata-
mente os produtos de dois 2-ciclos disjuntos e os 3-ciclos de S4 . Veja
que A4 possui exatamente 3 elementos de ordem 2 e exatamente 8
elementos de ordem 3.
Definição V.10.15. Seja n ≥ 2. Se ρ ∈ Sn e se ρ = (a11 . . . a1r1 ) . . .
(at1 . . . atrt ) é a sua decomposição em ciclos disjuntos com r1 ≤ r2 ≤
· · · ≤ rt , dizemos que {r1 , . . . , rt } é o tipo de decomposição de ρ.
Assim, por exemplo, ρ := (123)(45)(67) e ρ′ := (15)(36)(247) têm
o mesmo tipo de decomposição, a saber {2, 2, 3}.
Lema V.10.16. Seja n ≥ 2. Para uma permutação ρ ∈ Sn , seja
ρ = (a11 . . . a1r1 ) . . . (at1 . . . atrt ) a sua decomposição em ciclos dis-
juntos.
a) Se σ ∈ Sn , então a permutação σρσ −1 tem a seguinte decom-
posição em ciclos disjuntos
σρσ −1 = (σ(a11 ) . . . σ(a1r1 )) . . . (σ(at1 ) . . . σ(atrt )).
Em particular, as permutações ρ e σρσ −1 têm o mesmo tipo
de decomposição.
b) Reciprocamente, se ρ, ρ′ ∈ Sn são permutações com o mesmo
tipo de decomposição, então existe σ ∈ Sn tal que ρ′ = σρσ −1 .
c) Se as permutações ρ, ρ′ ∈ Sn têm o mesmo tipo de decom-
posição e se a permutação ρ deixa pelo menos duas letras
fixas (e, a fortiori, a permutação ρ′ também deixa), então
existe µ ∈ An tal que ρ′ = µρµ−1 .
226 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Demonstração. a) Seja τ := (a1 . . . ar ) um r-ciclo qualquer.


Queremos mostrar que στ σ −1 = (σ(a1 ) . . . σ(ar )). De fato, para
j ∈ {1, . . . , r − 1}, temos στ σ −1 (σ(aj )) = στ (aj ) = σ(aj+1 ), e
para j = r, temos στ σ −1 (σ(ar )) = στ (ar ) = σ(a1 ). Além disso,
para b ∈ / {σ(a1 ), . . . , σ(ar )}, temos σ −1 (b) ∈ / {a1 , . . . , ar }, logo
−1 −1 −1
τ σ (b) = σ (b) e στ σ (b) = b. Portanto, temos a igualdade
σ(a1 , . . . ar )σ −1 = (σ(a1 ) . . . σ(ar )).
Agora, se ρ = (a11 . . . a1r1 ) . . . (at1 . . . atrt ), temos

σρσ −1 = σ(a11 . . . a1r1 )σ −1 · σ(a21 . . . a2r2 )σ −1 · . . . · σ(at1 . . . atrt )σ −1


= (σ(a11 ) . . . σ(a1r1 )) · (σ(a21 ) . . . σ(a2r2 )) . . . (σ(at1 ) . . . σ(atrt )).

Mais ainda, para todo par i, j ∈ {1, . . . , t}, i 6= j, é claro que a


interseção {σ(ai1 ), . . . , σ(airi )} ∩ {σ(aj1 ), . . . , σ(ajrj )} é vazia pois a
interseção {ai1 , . . . , airi }∩{aj1 , . . . , ajrj } é vazia. Portanto, os ciclos
obtidos acima para σρσ −1 são disjuntos.
b) Seja ρ′ = (b11 . . . b1r1 ) . . . (bt1 . . . btrt ) a decomposição em ciclos
disjuntos da permutação ρ′ . Sejam
t
[
{c1 , . . . , cu } = {1, . . . , n} \ {ai1 , . . . , airi }
i=1

e
t
[
{d1 , . . . , du } = {1, . . . , n} \ {bi1 , . . . , biri }.
i=1

Considere a permutação σ ∈ Sn abaixo:


 
a11 · · · a1r1 a21 · · · a2r2 · · · at1 · · · atrt c1 · · · cu
σ := .
b11 · · · b1r1 b21 · · · b2r2 · · · bt1 · · · btrt d1 · · · du

Aplicando a parte a), é imediato verificar que σρσ −1 = ρ′ . Note


que para cada ordenação do conjunto c1 , . . . , cu , obtemos uma per-
mutação σ que funciona.
c) Pela parte b), existe σ ∈ Sn tal que ρ′ = σρσ −1 . Com as notações
usadas na prova da parte b), a hipótese de que a permutação ρ deixa
[SEC. V.10: GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 227

pelo menos duas letras fixas significa que u ≥ 2. Tome então


(
σ, se σ ∈ An .
µ :=
σ(c1 c2 ), se σ ∈
/ An .

Observação V.10.17. Na parte c) do lema anterior, a hipótese de


que a permutação ρ deixa pelo menos duas letras fixas não pode
ser enfraquecida. Por exemplo, (123) e (124) são dois 3-ciclos de
S4 para os quais não existe µ ∈ A4 tal que (123) = µ(124)µ−1
(verifique!).

Exercı́cio V.10.18. a) Sejam a, b, i, j ∈ {1, . . . , n} distintos. Se-


guindo a prova do Lema V.10.16b), mostre que existe um 3-ciclo σ,
envolvendo a, b e mais uma letra, tal que σ(aij)σ −1 = (bak) para
algum k. Concluir que (aij) ∈ h(abℓ); ℓ ∈ {1, . . . , n} \ {a, b}i.
b) Sejam a, k, ℓ, m ∈ {1, . . . , n} distintos. Pelo Lema V.10.16b),
sabemos que ∃ σ ∈ Sn tal que (kℓm) = σ(akm)σ −1 . Seguindo a
prova do lema, mostre que σ pode ser escolhido igual a um 3-ciclo
envolvendo a letra a e mais duas letras.
c) Sejam a, b ∈ {1, . . . , n} distintos. Concluir que

h3-ciclosi = h(abℓ); ℓ ∈
/ {a, b}i.

Proposição V.10.19. Seja n ≥ 3.

a) Todo elemento de An é um produto de 3-ciclos, isto é, temos


An = h{3-ciclos}i.

b) Sejam a, b ∈ {1, 2, . . . , n}, com a 6= b. Então

An = h{(abℓ) | ℓ = 1, 2, . . . , n; ℓ 6= a, b}i.

Demonstração. a) Se (ijk) é um 3-ciclo qualquer, temos então


(ijk) = (ik)(ij) e (ijk) ∈ An ; logo temos h{3-ciclos}i ⊆ An . Quere-
mos mostrar a igualdade. Seja τ ∈ An , isto é, τ = σm . . . σ2 σ1 com
228 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

σi transposição, ∀ i = 1, . . . , m, e com m par. Para mostrar que τ é


um produto de 3-ciclos, basta então mostrar que se σ e σ ′ são duas
transposições quaisquer, então σ ′ σ é um produto de 3-ciclos. Se σ
e σ ′ são disjuntas, digamos σ = (ij) e σ ′ = (kℓ), então temos

σ ′ σ = (kℓ)(ij) = (kℓ)(ki)(ki)(ij) = (kiℓ)(ijk),

logo σ ′ σ é um produto de dois 3-ciclos. Se σ e σ ′ não são disjuntas,


digamos σ = (ij) e σ ′ = (jk), então σ ′ σ = (jk)(ij) = (ikj) é um
3-ciclo. Logo, h{3-ciclos}i = An .
b) Seja K = h{(abℓ) | ℓ = 1, 2, . . . , n; ℓ 6= a, b}i. Claramente,
temos K ⊆ h{3-ciclos}i = An . Para se ter a igualdade, basta
mostrar que se (kℓm) é um 3-ciclo qualquer, então ele pertence ao
grupo K. Isto foi feito no exercı́cio anterior.

Definição V.10.20. Um grupo G é simples se G e {e} são seus


únicos subgrupos normais.

Teorema V.10.21. Seja n = 3 ou n ≥ 5. Então o grupo alternado


An é um grupo simples.

Demonstração. O grupo A3 tem ordem igual a 3 e é portanto


simples. Agora, suponhamos que n ≥ 5.
Seja H 6= {id} um subgrupo normal de An . Queremos mostrar
que H = An . Pela Proposição V.10.19, basta mostrar que H contém
todos os 3-ciclos.
Suponhamos que H contenha um 3-ciclo (abc). Então, para
todo 3-ciclo (ijk), sabemos pelo Lema V.10.16, c), que ∃ µ ∈ An tal
que (ijk) = µ(abc)µ−1 , pois sendo n ≥ 5 temos que ρ = (abc) deixa
pelo menos duas letras fixas; como H é normal em An , obtemos
que (ijk) ∈ H. Assim, obtemos H = An .
Vamos agora mostrar que o subgrupo H contém um 3-ciclo.
Como H 6= {id}, então existe σ ∈ H \ {id} e denotamos m :=
O(σ) > 1. Seja p um divisor primo de m; então τ = σ m/p é um ele-
mento de H que tem ordem p. Escreva τ = ρ1 . . . ρs , com os ρi ’s ci-
clos disjuntos; sabemos que p = O(τ ) = M.M.C.{O(ρ1 ), . . . , O(ρs )}
e portanto todos os ρi ’s são p-ciclos.
[SEC. V.10: GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 229

1o¯ Caso: p = 2.
Neste caso todos os ρi ’s são transposições e s é um inteiro par,
pois τ ∈ H ⊆ An . Temos s ≥ 2 e, escrevendo ρ1 = (ab), ρ2 = (cd),
temos τ = (ab)(cd)ρ3 . . . ρs . Encontrar um 3-ciclo (ijk) em H é
equivalente a encontrar em H um produto (ik)(ij) de duas trans-
posições que tenham exatamente uma letra em comum. Numa
primeira etapa, afirmamos que H contém um produto de duas
transposições disjuntas. Evidentemente, pelo Lema V.10.16, a),
temos (abc)(ab)(cd)(abc)−1 = (bc)(ad); como (abc) e os ρi ’s com
i ≥ 3 são disjuntos, eles comutam. Logo temos

(abc)τ (abc)−1 = (abc)(ab)(cd)ρ3 . . . ρs (abc)−1


= (ad)(bc)ρ3 . . . ρs ∈ H, pois τ ∈ H ⊳ An e (abc) ∈ An .

Usando que τ −1 ∈ H, temos

(abc)τ (abc)−1 τ −1 = (ad)(bc)ρ3 . . . ρs ρ−1 −1


s . . . ρ3 (cd)(ab)
= (ad)(bc)(cd)(ab) = (ac)(bd) ∈ H,

o que prova nossa afirmação.


Agora, tomando k 6= a, b, c, d (o que é possı́vel pois n ≥ 5),
temos

(ak)(bd) = (akc)(ac)(bd)(akc)−1 ∈ H, pois


(ac)(bd) ∈ H ⊳ An e (akc) ∈ An .

Logo, o produto (ac)(bd)(ak)(bd) pertence a H, isto é, obtemos que


o 3-ciclo (akc) pertence a H.

2o¯ Caso: Se p = 3.
Se s = 1, então τ = ρ1 é um 3-ciclo em H e acabou.
Se s ≥ 2, escrevendo ρ1 = (abc) e ρ2 = (def ), temos então que
τ = (abc)(def )ρ3 . . . ρs ; note que todos os ρi ’s, i = 1, 2, 3, . . . , s,
são disjuntos por hipótese, de modo que a, b, c, d, e, f não aparecem
nos outros 3-ciclos ρ3 , . . . , ρs ; assim, o 3-ciclo (bcd) é disjunto de
230 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

ρ3 , . . . , ρs e logo comuta com eles. Temos então

(bcd)τ (bcd)−1 = (bcd)(abc)(def )ρ3 . . . ρs (bcd)−1


= (acd)(bef )ρ3 . . . ρs ∈ H,

e portanto também, usando que τ −1 ∈ H, temos

(bcd)τ (bcd)−1 τ −1
= (acd)(bef )ρ3 . . . ρs ρ−1 −1 −1
s . . . ρ3 (def ) (abc)
−1

= (acd)(bef )(df e)(acb) = (adbce) ∈ H.

Assim, neste caso, encontramos em H um 5-ciclo, logo, em par-


ticular, um elemento de ordem 5; sendo p = 5 um primo > 3,
estamos reduzidos ao caso seguinte:

3o¯ Caso: Se p > 3.


Escreva ρ1 = (a1 a2 a3 a4 . . . ap ) e assim

τ = (a1 a2 a3 a4 . . . ap ) · ρ2 . . . ρs ;

note que todos os ρi ’s são disjuntos por hipótese, de modo que


a1 , a2 , a3 , a4 , . . . , ap não aparecem nos ciclos ρ2 , ρ3 , . . . , ρs ; assim o
3-ciclo (a1 a2 a3 ) é disjunto de ρ2 , ρ3 , . . . , ρs e logo comuta com eles.
Temos então:

(a1 a2 a3 )τ (a1 a2 a3 )−1 = (a2 a3 a1 a4 . . . ap )ρ2 . . . ρs ∈ H,

e portanto temos também

(a1 a2 a3 )τ (a1 a2 a3 )−1 τ −1 = (a2 a3 a1 a4 . . . ap )(a1 a2 a3 a4 . . . ap )−1 ∈ H.

Uma verificação imediata nos dá que

(a2 a3 a1 a4 . . . ap )(a1 a2 a3 a4 . . . ap )−1 = (a1 a2 a4 ),

e assim encontramos um 3-ciclo em H.

Para n = 4, a situação é a seguinte:


[SEC. V.10: GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 231

Teorema V.10.22. Seja K := {id, (12)(34), (13)(24), (14)(23)} o


grupo de Klein. Então os grupos {id}, K, A4 são os únicos subgru-
pos normais de A4 .

Demonstração. Escrevendo os elementos de S4 como produtos


de ciclos disjuntos, vemos que A4 = {3-ciclos} ∪ K. Sendo o único
subgrupo de ordem 4 de A4 , K é normal em A4 .
Agora, seja {id} 6= H um subgrupo normal de A4 . Se este
subgrupo normal H contém um 3-ciclo, digamos (123), então ele
contém também seu inverso (132) e portanto também (124), pois
(124) = (324)(132)(324)−1 . Logo H ⊇ h(123), (124)i = A4 pela
Proposição V.10.19, b), e portanto H = A4 .
Se H não contém nenhum 3-ciclo, então ele contém um elemento
de K diferente da identidade, digamos (12)(34). Então, ele contém
também (13)(24) pois (13)(24) = (234)(12)(34)(234)−1 , e também
(14)(23) pois (14)(23) = (12)(34)(13)(24). Portanto H = K.

Corolário V.10.23. a) Seja n = 3 ou n ≥ 5. Então os grupos


{id}, An e Sn são os únicos subgrupos normais de Sn . Em particu-
lar, o grupo alternado An é o único subgrupo de Sn de ı́ndice 2.
b) Seja n = 4. Seja K o grupo de Klein. Então {id}, K, A4 , S4
são os únicos subgrupos normais de S4 . Em particular, o grupo
alternado A4 é o único subgrupo de S4 de ı́ndice 2.

Demonstração. a) Evidentemente, {id}, An e Sn são subgrupos


normais de Sn .
Agora, seja H um subgrupo normal de Sn e considere o homo-
morfismo de grupos

ψ : H → {−1, +1},

definido por ψ(α) = 1, se α é par, e ψ(α) = −1, se α é ı́mpar.


Naturalmente, ker ψ = H ∩ An e (H : ker ψ) = |ψ(H)| = 1 ou 2.
Logo, (H : H ∩ An ) = 1 ou 2. (Observe que este raciocı́nio vale
para o caso n = 4 também).
232 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

1o¯ Caso: (H : H ∩ An ) = 1, i.e., H ⊆ An . Como H ⊳ Sn , então a


fortiori H ⊳ An e, pelo Teorema V.10.21, H = {id} ou H = An .

2o¯ Caso: (H : H ∩ An ) = 2. Como H ⊳ Sn , então H ∩ An ⊳ An e,


pelo Teorema V.10.21, H ∩ An = {id} ou H ∩ An = An . Portanto
temos |H| = 2 ou H = Sn .
Suponhamos que |H| = 2. Já que H ∩ An = {id}, então H
contém uma permutação ı́mpar τ de ordem 2. Tal permutação τ
é necessariamente um produto de transposições disjuntas, digamos
τ = (12)ρ2 . . . ρs . Então
τ ′ := (13)τ (13)−1 ∈ H, pois τ ∈ H ⊳ Sn .
Como
τ ′ (2) = [(13)τ (13)](2) = [(13)τ ](2) = [(13)](1) = 3
e como τ (2) = 1, obtemos que τ 6= τ ′ e portanto que |H| ≥ 3.
Assim, a suposição |H| = 2 leva a um absurdo e obtemos então que
H = Sn .
b) Evidentemente, {id}, A4 , S4 são subgrupos normais de S4 . Sendo
o único subgrupo de ordem 4 de A4 , o grupo de Klein K é um
subgrupo caracterı́stico de A4 e, A4 sendo normal em S4 , temos
que K é normal em S4 pela Proposição V.5.19.
Agora, seja H um subgrupo normal de S4 . Se H ⊆ A4 , então
H é normal em A4 , logo H = {id}, ou H = K ou H = A4 .
Se H 6⊆ A4 , então H contém uma permutação ı́mpar. Ora, as
permutações ı́mpares consistem exatamente das seis transposições
e dos seis 4-ciclos. Se H contém uma transposição, então pelo
Lema V.10.16, H contém todas as seis transposições, logo H = S4
pela Proposição V.10.8. Se H contém um 4-ciclo, então pelo Lema
V.10.16, H contém todos os seis 4-ciclos; o subgrupo H vai também
conter a identidade e os quadrados dos 4-ciclos, que são os elementos
de K; logo |H| ≥ 10 e H ∩A4 é um subgrupo normal de A4 de ordem
≥ 5 pois, como observado anteriormente, o ı́ndice (H : H ∩ A4 ) é
1 ou 2. Portanto, pelo Teorema V.10.22, H ∩ A4 = A4 e, como H
contém uma permutação ı́mpar, temos H = S4 .
[SEC. V.10: GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 233

Corolário V.10.24. Seja n ≥ 5. Então,

1) (Sn )′ = An ; (An )′ = An .

2) Z(Sn ) = {id} ; Z(An ) = {id};


I(Sn ) ≃ Sn ; I(An ) ≃ An .

3) Aut(Sn ) −→ Aut(An ) é um isomorfismo;


σ 7−→ σ|An

Aut(Sn ) = I(Sn ) ≃ Sn se n 6= 6,
(Aut(S6 ) : I(S6 )) = 2.

Demonstração. 1) O subgrupo dos comutadores (Sn )′ é normal


em Sn e, portanto, pelo Corolário V.10.23, (Sn )′ = {id}, An ou Sn .
Como An ⊳ Sn e Sn /An é abeliano, segue da Proposição V.4.7 que
vale (Sn )′ 6= Sn ; como Sn não é abeliano, então (Sn )′ 6= {id}.
Analogamente, (An )′ é um subgrupo normal de An e portanto,
pelo Teorema V.10.21, (An )′ = {id} ou An . Agora, (An )′ 6= {id}
pois An não é abeliano e portanto (An )′ = An .
2) O subgrupo Z(An ) é normal em An e portanto, pelo Teorema
V.10.21, Z(An ) = {id} ou An . Mas Z(An ) 6= An pois An não é
abeliano e portanto, Z(An ) = {id}.
O subgrupo Z(Sn ) é normal em Sn e portanto, pelo Corolário
V.10.23, Z(Sn ) = {id}, An ou Sn . Como Sn não é abeliano, temos
Z(Sn ) 6= Sn . Se supomos que Z(Sn ) = An , então Sn /Z(Sn ) é cı́clico
de ordem 2, o que é absurdo pela Proposição V.4.8. Portanto,
Z(Sn ) = {id}. As outras afirmações do item 2) seguem do fato de
que I(G) ≃ G/Z(G).
3) Ver W.R. Scott, Group Theory, 11.4.8. p. 314. Vide também os
Exercı́cios 49 e 51 no final deste capı́tulo.
234 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

Exercı́cio V.10.25. a) Mostre que para n = 4 temos

(S4 )′ = A4 ; (A4 )′ = K;

Z(S4 ) = {id} ; Z(A4 ) = {id};


I(S4 ) ≃ S4 ; I(A4 ) ≃ A4 .

b) Mostre que I(S4 ) = Aut(S4 ) ≃ S4 .


Dica: Prove que S4 = h(1234), (12)i e | Aut(S4 )| ≤ 6 × 6 = 36.
c) Mostre que I(A4 ) $ Aut(A4 ) ≃ S4 .
d) Mostre que ∀ ψ ∈ Aut(A4 ), o automorfismo ψ pode ser estendido
de uma única maneira a um automorfismo de S4 .
Dica: Considere a aplicação de restrição

Aut(S4 ) −→ Aut(A4 )
ϕ 7−→ ϕ|A4 .

Exercı́cio V.10.26. 1) a) Seja σ ∈ A5 de ordem 3; mostre que σ


é um 3-ciclo. Mostre que existem exatamente 2×C53 = 20 elementos
de ordem 3 em A5 .
b) Seja δ ∈ A5 de ordem 5; mostre que δ é um 5-ciclo. Mostre que
existem exatamente 4! = 24 elementos de ordem 5 em A5 .
c) Seja τ ∈ A5 de ordem 2; mostre que τ é um produto de duas
transposições disjuntas. Mostre que existem exatamente 3×C54 =15
elementos de ordem 2 em A5 .
Observe que já obtivemos acima 59 elementos que, adicionados
ao elemento neutro, nos dão a totalidade dos elementos de A5 .
2) a) Mostre que A5 tem exatamente 10 subgrupos de ordem 3.
b) Mostre que A5 tem exatamente 6 subgrupos de ordem 5.
c) Mostre que A5 tem exatamente 5 subgrupos de ordem 4 que são

{id, (ab)(cd), (ac)(bd), (ad)(bc)},

onde a, b, c, d são elementos distintos de {1, 2, 3, 4, 5}.


[SEC. V.11: EXERCÍCIOS 235

Demonstração de 2) c): Claramente o conjunto {id, (ab)(cd),


(ac)(bd), (ad)(bc)} é um subgrupo de ordem 4 de A5 e existem
exatamente C54 = 5 deles. Vejamos agora que estes são os únicos.
Seja então H um subgrupo de ordem 4 de A5 . Pelo item 1), todos os
elementos de H\{id} são produtos de duas transposições disjuntas
e portanto tem ordem 2. Suponhamos, por absurdo, que H não
seja um dos 5 subgrupos listados acima; existem então elementos
(ab)(cd) ∈ H e (eα)(βγ) ∈ H, onde {a, b, c, d, e} = {1, 2, 3, 4, 5} e
α, β, γ ∈ {a, b, c, d}; logo o elemento (ab)(cd)(eα)(βγ) pertence H,
o que é absurdo, pois sua ordem é ≥ 3. De fato, esta permutação
leva α em e e não leva e em α.

Exercı́cio V.10.27. a) Seja n ≥ 3 um número inteiro. Mostre que


temos Sn = h(12 . . . n), (12)i.
b) Seja p um número primo. Mostre que ∀ i, j ∈ {1, . . . , p}, com
i 6= j, temos Sp = h(12 . . . p), (ij)i.

Exercı́cio V.10.28. Seja n um número ı́mpar ≥ 5. Mostre que


temos An = h(123), (345 . . . n)i.

V.11 Exercı́cios
1. Faça os itens seguintes:

a) Seja G = {e, g1 , g2 , . . . , gn } um grupo abeliano de ordem


n + 1. Suponha que G possui um único elemento de
ordem 2, digamos g1 . Mostre que eg1 . . . gn = g1 .
b) Seja p um número primo ı́mpar. Mostre que o grupo
((Z/pZ)∗ , ⊙) possui um único elemento de ordem 2, a
p
saber p − 1, e mostre que (p−1)! ≡ −1 mod p. (Teorema
de Wilson).

2. Procure os elementos do grupo ((Z/24Z)∗ , ⊙) e calcule suas


24
ordens.
236 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

3. Determine a ordem de cada elemento de D . Determine todos


os subgrupos de D .
4. Sejam p um número primo e G um grupo de ordem p2 . Mostre
que G possui no máximo p + 1 subgrupos de ordem p.
Dê um exemplo onde a cota (p + 1) é atingida e um exemplo
onde a cota não é atingida.
5. Sejam G um grupo e H, K dois subgrupos de G. Suponha
que (G : H) e (G : K) são finitos. Mostre que (G : H ∩ K) é
finito.
6. Seja G um grupo tal que {e}, G são seus únicos subgrupos.
Mostre que a ordem de G é um número primo.
7. Seja G um grupo finito de ordem m. Seja n ∈ N tal que
MDC{n, m} = 1. Mostre que todo elemento g de G pode ser
escrito na forma g = xn para algum x ∈ G.
8. Seja G = hai um grupo cı́clico finito e u ∈ N. Mostre que
temos O(au ) = O(a)/MDC{O(a), u}.
9. Faça os seguintes itens:

a) Seja G um grupo e sejam a, b ∈ G tais que ab = ba.


Suponha que a e b tenham ordem finita, digamos O(a) =
n e O(b) = m. Mostre que O(ab) | M.M.C.(n, m).
Mostre que se M.D.C.(n, m) = 1 então O(ab) = nm.
b) Seja G = GL2 (Q) (grupo das matrizes 2 × 2 invertı́veis
com entradas em Q). Sejam
   
0 −1 0 1
a= e b= .
1 0 −1 −1

Mostre que O(a) = 4, O(b) = 3 e que o produto ab não


tem ordem finita.

10. Sejam G um grupo, H um subgrupo de G e N um subgrupo


normal de G. Mostre que H ∩ N é subgrupo normal de H.
[SEC. V.11: EXERCÍCIOS 237

11. Sejam p
H, K dois subgrupos
p de um grupo finito G tais que
|H| > |G| e |K| > |G|. Mostre que |H ∩ K| > 1.

12. Seja f : G1 → G2 um homomorfismo de grupos. Mostre que


temos f (G′1 ) ⊆ (f (G1 ))′ .

13. Seja G um grupo e ψ : G → G a aplicação definida por


ψ(x) = x−1 . Mostre que G é abeliano se e somente se ψ
é um homomorfismo. Como caso particular, reencontre que
um grupo é abeliano se todos seus elementos 6= e tem ordem
igual a 2.

14. Seja G um grupo finito e escreva sua ordem como |G| = n · m,


com M.D.C.(n, m) = 1. Suponha que exista um subgrupo H
de G tal que |H| = n. Mostre que H é o único subgrupo de
G de ordem igual a n se e somente se H é normal em G.
Dica: Se K é outro subgrupo de ordem n, considere HK.

15. Sejam G1 , G2 , . . . , Gn grupos e sejam H1 , H2 , . . . , Hn subgru-


pos normais de G1 , G2 , . . . , Gn , respectivamente. Mostre que
H1 ×H2 ×· · ·×Hn é um subgrupo normal de G1 ×G2 ×· · ·×Gn
e que temos o isomorfismo abaixo:
G1 × G2 × · · · × Gn G1 G2 Gn
≃ × × ··· × .
H1 × H2 × · · · × Hn H1 H2 Hn

16. Seja f : G1 → G2 um homomorfismo de grupos, onde G2 é


um grupo abeliano. Mostre que todos os subgrupos de G1
que contêm ker f são subgrupos normais em G1 .

17. Seja G = {(a, b) ∈ R2 | a 6= 0}. Defina a seguinte operação:

∀(a, b), (c, d) ∈ G, (a, b) · (c, d) = (ac, ad + b).

a) Mostre que (G, · ) é um grupo não-abeliano.


Quem é o elemento neutro de G?
Quem é o elemento inverso de (a, b)?
Quem é o centro de G?
238 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

b) Seja K = {(1, b) | b ∈ R}. Mostre que K é um subgrupo


normal de G e que G/K ≃ R∗ .

18. Dados a, b ∈ R com a 6= 0, defina


τab : R −→ R
x 7−→ ax + b
Seja G = {τab | a 6= 0, b ∈ R}. Mostre que G é um grupo com
a operação de composição de funções. Compare este grupo
com o grupo do exercı́cio anterior.
19. Seja K um corpo e seja G = GLn (K) (o grupo das matrizes
n × n invertı́veis com entradas em K). Seja SLn (K) = {A ∈
GLn (K) | det(A) = 1}. Mostre que SLn (K) ⊳ GLn (K) e que
o quociente GLn (K)/SLn (K) é isomorfo ao grupo K ∗ .
Dica: Considere det : GLn (K) → K ∗ , A 7→ det(A).
20. Seja S 1 := {x + iy ∈ C | x2 + y 2 = 1} o cı́rculo unitário.
Mostre que a função
(R, +) −→ (S 1 , ·)
x 7−→ e2πix
é um homomorfismo de grupos e conclua que o grupo S 1 é
isomorfo a R/Z.
21. Sejam G um grupo e a, b ∈ G \ {e}. Suponha que b5 = e e
que bab−1 = a2 . Mostre que a ordem de a é 31.
22. Sejam G um grupo e a, b ∈ G. Suponha que bn = e e que
bab−1 = as . Mostre que a ordem de a divide sn − 1.
23. Determine os homomorfismos de G em H quando:
a) G = S3 e H = Z/10Z.
b) G = S3 e H = S3 .
c) G = Z/10Z e H = Z/15Z.
d) G = D4 e H = S3 .
[SEC. V.11: EXERCÍCIOS 239

24. Seja x ∈ D4 \Z(D4 ). Seja ϕ o automorfismo interno associado


a este elemento x. Mostre que ϕ define de maneira natural um
homomorfismo ϕ : D4 /Z(D4 ) → D4 /Z(D4 ). Mostre também
que ϕ = Id, ϕ|Z(D4 ) = Id, ϕ 6= Id.

25. Sejam r1 , r2 ∈ Z; m1 , m2 ∈ Z. Mostre que existe um inteiro


r ∈ Z tal que r ≡ r1 mod m1 e r ≡ r2 mod m2 se e só se temos
r1 ≡ r2 mod M.D.C.(m1 , m2 ).

26. Sejam a, b dois inteiros relativamente primos. Mostre que


aΦ(|b|) + bΦ(|a|) ≡ 1(mod ab), onde Φ é a função de Euler.
Dica. Considere a aplicação diagonal ∆ : Z → Z/aZ × Z/bZ.

27. Seja Φ a P
função de Euler. Seja n um inteiro positivo. Mostre
que n = d|n Φ(d).

28. Seja Φ a função de Euler. Mostre que


Y 1
Φ(n) = n (1 − ).
p primo
p
p|n

29. Mostre que todo subgrupo finitamente gerado de (Q, +) é


cı́clico. Use isto para provar que Q não é isomorfo a Q × Q.

30. Sejam G1 e G2 dois grupos dados por geradores e relações da


maneira seguinte:
 

 |G1 | = 9.3 = 27 
 |G2 | = 9.3 = 27

 

 
G1 = ha, bi
 G2 = hα, βi

9
a =e α9 = e .

 


 b3 = e 
 β3 = e

 

ba = a4 b βα = α7 β

Mostre que G1 ≃ G2 .
Dica: No grupo G1 , considere os geradores A := a e B := b2 .
240 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

31. Seja G := {±1, ±i, ±j, ±k} com a tabela de multiplicação


seguinte:
ij = −ji = k, jk = −kj = i,
ki = −ik = j, i2 = j 2 = k 2 = −1.
Mostre que G é isomorfo ao grupo dos quaternios Q3 .

32. Seja n ≥ 3 um inteiro. Mostre que o grupo Qn dos quaternios


de ordem 2n não é isomorfo ao dihedral D2n−1 de ordem 2n .
Dica: Mostre que o grupo dos quaternios possui exatamente
um elemento de ordem 2.

33. Mostre que I(D4 ) ≃ (Z/2Z) × (Z/2Z) e Aut(D4 ) ≃ D4 .

34. Mostre que I(Q3 ) ≃ (Z/2Z) × (Z/2Z) e que | Aut(Q3 )| = 24.


(No capı́tulo seguinte, veremos que Aut(Q3 ) ≃ S4 ).

35. Exiba pelo menos quatro grupos de ordem 27 não isomorfos


dois a dois.

36. Sejam p um número primo e n ≥ 3 um inteiro. Mostre que


existe um grupo não abeliano de ordem pn .

37. Sejam p < q dois números primos:

a) Mostre que o único produto semidireto de Z/pZ por


Z/qZ é o produto direto.
b) Classifique os produtos semidiretos de Z/qZ por Z/pZ.
(Considere separadamente os casos p|(q−1) e p ∤ (q−1)).

38. Existem 14 grupos de ordem 16. Determine tantos quanto


você puder.

39. O objetivo deste problema é de mostrar que se H é um sub-


grupo normal de um grupo G, então em geral G não é isomorfo
a nenhum produto semidireto G/H × H.
σ

Seja G := Z/4Z × Z/4Z. Seja H := {(ī, j̄); i = 0, 1, 2, 3,


j = 0, 2}. É imediato verificar que H é um subgrupo de G,
[SEC. V.11: EXERCÍCIOS 241

normal em G (pois G é abeliano), isomorfo a Z/4Z × Z/2Z e


que G/H ≃ Z/2Z. Mostre que G não é isomorfo a nenhum
produto semidireto G/H × H.
σ

40. O objetivo deste problema é de estabelecer uma relação entre


o conceito de produto semidireto e o conceito de seção.
Seja G um grupo. Seja H um subgrupo normal de G e seja
α ϕ
H ֒→ G −→ G/H
inclusão
g 7−→ ḡ.

a) Suponha que exista um homomorfismo s : G/H → G tal


que ϕ ◦ s = IdG/H (tal homomorfismo s se chama uma
seção de G/H em G).
1) Observe que s é injetivo e mostre que G é isomorfo
a algum produto semidireto G/H × H.
σ
2) Mais precisamente, exiba um homomorfismo
σ : G/H → Aut(H) e exiba um isomorfismo
φ : G/H × H → G tais que o seguinte diagrama
σ
comuta:
i P
H ֒→ G/H × H → G/H
σ

IdH l ↓ φ l IdG/H (*)

α ϕ
H ֒→ G → G/H
onde
i : H ֒→ G/H × H
σ
h 7→ (eG/H , h)
e
P : G/H × H → G/H
σ
(ḡ, h) 7→ ḡ .
242 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

b) Reciprocamente, suponha que exista um homomorfismo


σ : G/H → Aut(H) e um isomorfismo φ : G/H × H → G
σ
tais que o diagrama (*) comute. Mostre que existe uma
seção s : G/H → G.

41. Escreva as permutações abaixo como produtos de ciclos dis-


juntos e calcule as suas ordens:
 
123456789
a)
234516798
 
1234567
b)
6543127
c) (123)(45)(16879)(15)
d) (12)(123)(12)

42. Calcule σασ −1 nos exemplos seguintes:


a) σ = (135)(12) α = (1579)
b) σ = (579) α = (123)(34)
c) σ = (12)(34) α = (123)(45)

43. Encontre uma permutação σ tal que α′ = σασ −1 nos exemplos


seguintes:
a) α = (12)(34) α′ = (56)(13)
b) α = (123)(78) α′ = (257)(13)
c) α = (12)(34)(578) α′ = (18)(23)(456)

44. Seja G um grupo.

a) Se H1 , . . . , Hr , K são subgrupos de ordem ı́mpar, mostre


que |(H1 ∪ · · · ∪ Hr ) ∩ K| é ı́mpar.
b) Se H1 , . . . , Hr são subgrupos de ordem ı́mpar, mostre
que |H1 ∪ · · · ∪ Hr | é ı́mpar.
c) Se G tem ordem par, mostre que G possui algum ele-
mento de ordem 2.
[SEC. V.11: EXERCÍCIOS 243

45. Seja G um grupo de ordem 2k com k ı́mpar. Considere G


como subgrupo de S2k através do homomorfismo injetivo

T : G −→ P(G) ≃ S2k
g 7−→ Tg : G → G
α 7→ gα

Mostre que G possui um subgrupo de ı́ndice 2.


Dica: Mostre que existe a ∈ G com ordem 2 e considere Ta .

46. Seja D6 o grupo dihedral de 12 elementos. Sejam a := a


rotação plana de ângulo 2π/6 e b := uma das reflexões.

a) Mostre que Z(D6 ) = ha3 i e que I(D6 ) ≃ S3 .


b) Mostre que ha2 i é um subgrupo de ordem 3, caracterı́stico
em D6 . Mostre que D6 possui um subgrupo L isomorfo
ao grupo S3 .
c) Mostre que D6 é isomorfo ao produto direto S3 × Z/2Z.
d) Mostre que Aut(D6 ) ≃ D6 .

Para os próximos cinco exercı́cios precisamos introduzir aqui


alguns conceitos. Dois elementos x, y de um grupo G são
ditos conjugados em G se existe g ∈ G tal que y = gxg −1 . É
fácil verificar que a relação de conjugação é uma relação de
equivalência em G. Suas classes de equivalência são chamadas
de classes de conjugação do grupo G; assim, se x ∈ G, a classe
de conjugação de G que contém o elemento x é o conjunto

Cℓ(x) := {gxg −1 ; g ∈ G}.

Note que, pelo Lema V.10.16, dois elementos de Sn são con-


jugados em Sn se e somente se eles têm o mesmo tipo de
decomposição; em particular, os conjuntos {transposições},
{3-ciclos} e {σ ∈ Sn ; σ tem tipo (2,2)} são classes de con-
jugação de Sn . Note também que, pela Observação V.10.17,
244 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

este tipo de resultado não vale no grupo alternado An : os 3-


ciclos (123) e (124) têm claramente o mesmo tipo de decom-
posição, mas não são conjugados em A4 (eles são conjugados
em S4 e também em An , ∀ n ≥ 5, como segue do item c) do
Lema V.10.16); assim, o conjunto {3-ciclos} não é uma classe
de conjugação de A4 mas é uma classe de conjugação de An ,
para cada n ≥ 5.
47. Sejam G um grupo e σ ∈ Aut(G). Se x ∈ G, mostre que
temos σ(Cℓ(x)) = Cℓ(σ(x)), e portanto que o automorfismo
σ manda uma classe de conjugação de G sobre uma classe
de conjugação de G com a mesma cardinalidade (evidente-
mente, o automorfismo σ manda um elemento de G sobre um
elemento da mesma ordem).
48. Seja σ ∈ Aut(Sn ). Se σ é um automorfismo interno de Sn ,
então, pelo Lema V.10.16, σ manda transposições sobre trans-
posições. O objetivo deste exercı́cio é mostrar a validade da
recı́proca. Seja n ≥ 3 um inteiro e seja σ ∈ Aut(Sn ) um auto-
morfismo tal que σ manda transposições sobre transposições.

a) Se (ij) e T são duas transposições, mostre que T é da


forma (ik) com k 6= j se e somente se (ij) ◦ T =
6 T ◦ (ij).

b) Mostre que σ((12)) e σ((13)) são duas transposições que


não comutam e portanto que, pelo item a), elas têm exata-
mente um elemento em comum; digamos

σ((12)) = (a1 a2 ) e σ((13)) = (a1 a3 ),

com a1 , a2 , a3 elementos distintos de {1, 2, . . . , n}. Mostre que

σ((12)) = (a1 a2 ), σ((13)) = (a1 a3 ), . . . , σ((1n)) = (a1 an ),

com {a1 , a2 , . . . , an } = {1, 2, . . . , n}.

c) Seja ρ ∈ Sn a permutação de {1, 2, . . . , n} definida por


ρ(i) = ai , para i = 1, 2, . . . , n, e seja Iρ o automorfismo in-
terno de Sn associado ao elemento ρ (i.e., Iρ (ν) = ρνρ−1 ,
[SEC. V.11: EXERCÍCIOS 245

∀ ν ∈ Sn ). Verifique que para todo i = 2, 3, . . . , n, temos que


Iρ ((1i)) = (a1 ai ) = σ((1i)) e conclua então que σ = Iρ .

49. Seja n ≥ 3 um inteiro. O Corolário V.10.24 afirma o seguinte:

• Aut(Sn ) = I(Sn ) ≃ Sn , se n 6= 6.
• Aut(S6 ) % I(S6 ) ≃ S6 .

O objetivo deste exercı́cio é de estudar os casos n = 5, 6, 7.


Para este estudo, os Exercı́cios 47 e 48 serão importantes.

a) Seja n = 5 ou n = 7. Se σ ∈ Aut(Sn ), mostre que o au-


tomorfismo σ manda transposições sobre transposições (seria
possı́vel mostrar que este resultado vale para todo n ≥ 5 com
n 6= 6). Conclua que Aut(Sn ) = I(Sn ) ≃ Sn .
Dica. Mostre que {transposições} é a única classe de con-
jugação de Sn formada de elementos de ordem 2 com cardi-
nalidade igual a n(n − 1)/2.

b) Mostre que C1 := {transposições de S6 } e C2 := {σ ∈ S6 ;


σ tem tipo (2, 2, 2)} são duas classes de conjugação de S6
com a mesma cardinalidade, ambas formadas de elementos
de ordem 2. Seria possı́vel provar que existe σ ∈ Aut(S6 ) tal
que σ(C1 ) = C2 ; pelo Lema V.10.16, tal automorfismo σ não é
um automorfismo interno de S6 e logo Aut(S6 ) % I(S6 ) ≃ S6 .

50. Seja σ ∈ Aut(An ) um automorfismo do grupo alternado An .


Se σ é a restrição para An de um automorfismo interno de Sn
(i.e., se existe ρ ∈ Sn tal que σ = Iρ |An ) então, pelo Lema
V.10.16, o automorfismo σ manda 3-ciclos sobre 3-ciclos. O
objetivo deste exercı́cio é verificar a validade da recı́proca.
Seja n ≥ 5 um inteiro e seja σ ∈ Aut(An ) um automorfismo
tal que σ manda 3-ciclos sobre 3-ciclos.

a) Se (ijk) e T são dois 3-ciclos, mostre que T é da forma


(ijℓ) com ℓ 6= k se e somente se (ijk) e T não comutam e o
produto (ijk) ◦ T tem ordem 2.
246 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS

b) Mostre que σ((123)) e σ((124)) são dois 3-ciclos que não


comutam e que o produto σ((123)) ◦ σ((124)) tem ordem 2.
Pelo item a), estes dois 3-ciclos têm exatamente 2 elementos
em comum; digamos

σ((123)) = (a1 a2 a3 ) e σ((124)) = (a1 a2 a4 ),

com a1 , a2 , a3 , a4 elementos distintos de {1, 2, . . . , n}.


Mostre então que

σ(123) = (a1 a2 a3 ), σ(124) = (a1 a2 a4 ), . . . , σ(12n) = (a1 a2 an ),

com {a1 , a2 , . . . , an } = {1, 2, . . . , n}.

c) Seja ρ ∈ Sn a permutação de {1, 2, . . . , n} definida por


ρ(i) = ai , para i = 1, 2, . . . , n, e seja Iρ o automorfismo
interno de Sn associado ao elemento ρ. Verifique que para
i = 3, . . . , n, temos Iρ ((12i)) = (a1 a2 ai ) = σ((12i)) e conclua
então que σ = Iρ |An .

51. Seja n ≥ 5 um inteiro. Entre outras coisas, o Corolário


V.10.24 afirma o seguinte:

• Aut(An ) ≃ Sn , se n 6= 6.
• Aut(A6 ) não é isomorfo a S6 .

O objetivo deste exercı́cio é de estudar os casos particulares


n = 5, 6, 7, 8, 11. Para este estudo, os Exercı́cios 47 e 50 serão
muito importantes.
Para n ≥ 5, considere a aplicação

ψ : Sn −→ Aut(An )
ρ 7−→ Iρ |An .

a) Mostre que ψ é um homomorfismo injetivo.


b) Se n = 5, mostre que ψ é um isomorfismo.
[SEC. V.11: EXERCÍCIOS 247

c) Para n ≥ 6, mostre que o conjunto {σ ∈ An ; σ tem tipo


(3, 3)} é uma classe de conjugação de An (note que para n ≥ 8,
este resultado segue do item c) do Lema V.10.16).
d) Para n = 7 ou n = 8, mostre que todo automorfismo
σ ∈ Aut(An ) é tal que σ manda 3-ciclos sobre 3-ciclos, e
conclua então que ψ é um isomorfismo.
Dica. Mostre que {3-ciclos} é a única classe de conjugação
de An com cardinalidade n(n−1)(n−2)
3
, formada de elementos
de ordem 3.
e) Se n = 6, mostre que C1 := {3−ciclos de A6 } e C2 := {σ ∈
A6 ; σ tem tipo (3,3)} são duas classes de conjugação de A6
com a mesma cardinalidade, ambas formadas de elementos de
ordem 3. Seria possı́vel mostrar que existe σ ∈ Aut(A6 ) tal
que σ(C1 ) = C2 ; pelo Lema V.10.16, tal automorfismo σ não
pertence à imagem ψ(S6 ). Logo S6 ≃ ψ(S6 ) $ Aut(A6 ).
f) Mostre que Aut(A11 ) ≃ S11 .
248 [CAP. V: TEORIA BÁSICA DOS GRUPOS
Capı́tulo VI

Estudo de um Grupo via


Representações por
Permutações

Na primeira parte de nosso estudo de grupos, consideramos alguns


conceitos básicos e demos exemplos concretos de grupos tais como
os grupos das matrizes invertı́veis GLn (K), onde K é um corpo, os
grupos das permutações Sn e seus subgrupos An , Dn , etc. Quando
procurávamos uma propriedade num grupo dado G, nossa atitude
foi de trabalhar dentro do próprio grupo, analisando seus elementos,
seus subgrupos, etc.
Nesta segunda parte, vamos adotar uma atitude diferente. Se
G e G são dois grupos e se ρ : G → G é um homomorfismo de
grupos, é razoável esperar que algumas propriedades de G possam
ser transportadas para G via o homomorfismo ρ. Agora, se G é
um grupo concreto (por exemplo se G é um grupo de permutações
ou um grupo de matrizes invertı́veis), poderemos, possivelmente,
reconhecer se algumas propriedades estão de fato satisfeitas em G
e, possivelmente, trazê-las de volta para G via o homomorfismo ρ.
É esta idéia de estudar um grupo G via um outro grupo G e um
homomorfismo ρ : G → G que vamos explorar nesta parte do livro.
Dado um grupo G, uma representação de G é um homomorfismo
ρ de G em algum grupo G. Historicamente, as representações do

249
250 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

tipo ρ : G → GL(n, K), onde K é um corpo e n um inteiro posi-


tivo, tiveram muito sucesso. Tais representações são chamadas de
representações matriciais ou lineares de G de grau n.
Se C := {u1 , . . . , un } é um conjunto de n elementos e P(C) é o
grupo das permutações do conjunto C, uma representação do tipo
ρ : G → P(C) é chamada de representação de G por permutações
de grau n. Uma tal representação por permutações de grau n pode
ser interpretada como um caso particular de uma representação
matricial de grau n da maneira seguinte:

ρ# : G −→ GL(n, K)
g 7−→ (δij (g))1≤i,j≤n ,

onde (
1 , se (i, j) é tal que uj = ρ(g)(ui )
δij (g) =
0 , caso contrário.
Neste livro, estaremos somente interessados nas representações
de um grupo G por permutações de um conjunto. Tentaremos
descobrir o máximo possı́vel da estrutura de G. Entre os tópicos
especı́ficos que abordaremos, estão os seguintes:

• Existência de subgrupos de uma ordem dada, quantidade de


tais subgrupos e relações existentes entre eles.

• Estudo de algumas propriedades dos p-grupos finitos.

• Determinação dos grupos simples de ordem ≤ 60.

• Classificação dos grupos de ordem ≤ 15.

VI.1 Representação de um Grupo por


Permutações
Definição VI.1.1. Sejam G um grupo, C um conjunto e P(C) o
grupo de permutações de C. Uma representação de G no grupo de
permutações de C é um homomorfismo ρ : G → P(C), isto é, uma
[SEC. VI.1: REPRESENTAÇÃO DE UM GRUPO POR PERMUTAÇÕES 251

função tal que ρ(g1 g2 ) = ρ(g1 ) ◦ ρ(g2 ). Diz-se também que o grupo
G opera sobre o conjunto C.
Dado um grupo G, podemos considerar G também como um
conjunto; neste caso, afim de evitar confusões, utilizaremos o sı́mbolo
G0 para designar o conjunto G.

Exemplo C.1: Seja G um grupo e seja C = G0 . Considere

I : G −→ P(G0 )
g 7−→ Ig : G0 → G0
a 7→ gag −1 .

Sabemos que I é um homomorfismo, logo uma representação de G


no grupo de permutações do conjunto G0 .

Exercı́cio VI.1.2. Seja G um grupo e seja H um subgrupo normal


de G. Considere a aplicação

I : G −→ P(H0 )
g 7−→ Ig : H0 → H0
h 7→ ghg −1 .

Mostre que esta aplicação é uma representação de G no grupo das


permutações do conjunto H0 = H.

Exemplo T.1: Seja G um grupo e seja C = G0 . Considere

T : G −→ P(G0 )
g 7−→ Tg : G0 → G0
a 7→ ga.

Foi verificado na prova da Proposição V.10.1 que T é um homo-


morfismo. Assim, temos uma outra representação de G no grupo
de permutações do conjunto G0 .
252 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

Exemplo C.2: Seja G um grupo e seja C = {subgrupos de G}.


Considere a aplicação
I : G −→ P(C)
g 7−→ Ig : C → C
H 7→ gHg −1 .

É fácil verificar que, ∀ g ∈ G, a função Ig : C → C é uma per-


mutação de C e que a aplicação I é um homomorfismo. Assim,
a aplicação I é uma representação do grupo G no grupo de per-
mutações do conjunto dos subgrupos de G.
Note que caso todos os subgrupos de G sejam normais (por
exemplo, se é G abeliano), a representação acima é trivial (isto é,
a aplicação I é o homomorfismo trivial).

Exemplo C.3: Seja m um inteiro positivo. Seja G um grupo e


seja C = {subgrupos de G de ordem m}. Considere
I : G −→ P(C)
g 7−→ Ig : C → C
H 7→ gHg −1 .

É claro que se H é um subgrupo de ordem m, então Ig (H) = gHg −1


também é subgrupo de ordem m e, assim, Ig é realmente uma
função de C em C. É fácil ver que Ig é uma bijeção. De fato,
se H1 , H2 ∈ C são tais que Ig (H1 ) = Ig (H2 ), isto é, são tais que
gH1 g −1 = gH2 g −1 , então H1 = g −1 (gH1 g −1 )g = g −1 (gH2 g −1 )g =
H2 , de modo que a função Ig é injetiva. Se H ∈ C, então também
g −1 Hg ∈ C, e H = g(g −1 Hg)g −1 = Ig (g −1 Hg), de modo que Ig é
sobrejetiva. Finalmente, é fácil verificar que I é um homomorfismo.
Assim, I é uma representação de G no grupo de permutações do
conjunto dos subgrupos de G de ordem m.
Note que se todos os subgrupos de G de ordem m forem normais,
então a representação acima é trivial.

Exemplo T.2: Seja G um grupo e seja C ={Classes laterais à


esquerda de H em G}= {aH | a ∈ G}, onde H é um subgrupo do
[SEC. VI.1: REPRESENTAÇÃO DE UM GRUPO POR PERMUTAÇÕES 253

grupo G. Considere a aplicação

T : G −→ P(C)
g 7−→ Tg : C → C
aH 7→ gaH.

É fácil ver que Tg é uma bijeção. De fato, se aH, bH ∈ C são


tais que Tg (aH) = Tg (bH), isto é, são tais que gaH = gbH, então
aH = g −1 gaH = g −1 gbH = bH, de modo que Tg é injetiva. Se
cH ∈ C, então g −1 cH ∈ C e cH = gg −1 cH = Tg (g −1 cH), de
modo que Tg é sobrejetiva. Finalmente, é fácil verificar que T é um
homomorfismo. Assim, T é uma representação de G no grupo de
permutações do conjunto das classes laterais à esquerda de H em
G. Note que ker T = {g ∈ G | aga−1 ∈ H, ∀ a ∈ G} ⊆ H.

Exemplo T.3: Sejam G um grupo e K um subgrupo de G. Seja H


um subgrupo de G e seja C = {Classes laterais à esquerda de H em
G} = {aH | a ∈ G}. Considere a restrição a K do homomorfismo
T definido no Exemplo T.2, isto é, considere

T : K −→ P(C)
k 7−→ Tk : C → C
aH 7→ kaH.

Assim, T é uma representação de K no grupo de permutações


do conjunto das classes laterais à esquerda de H em G.

Neste livro, utilizaremos somente representações definidas a par-


tir da função “automorfismo interno” I : g 7→ Ig (que chamaremos
de representações por conjugação) e representações definidas a par-
tir da função “translação” T : g 7→ Tg (que chamaremos de repre-
sentações por translação, ou representações regulares).
Assim, nosso objetivo será sempre de procurar um conjunto C
que seja permutado de maneira natural pelos automorfismos inter-
nos de G (tipicamente, C será G0 ou um conjunto de subgrupos
de G), ou que seja permutado de maneira natural pelas translações
254 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

de G (tipicamente, C será um conjunto de classes laterais de um


subgrupo H de G).
Os exemplos C.1, C.2, C.3 são exemplos de representações por
conjugação, os exemplos T.1, T.2, T.3 são exemplos de represen-
tações por translação. Naturalmente, para conseguir resultados in-
teressantes, vamos ter que escolher o conjunto C de acordo com o
problema em estudo.
Sejam G um grupo, C um conjunto e seja ρ : G → P(C) uma
representação de G. Sobre o conjunto C, definimos uma relação de
equivalência ∼ da seguinte maneira:
∀ x, y ∈ C, x ∼ y ⇔ existe g ∈ G tal que ρ(g)(x) = y.
Verifique que esta relação ∼ é uma relação de equivalência sobre o
conjunto C.
Definição VI.1.3. Seja x ∈ C. A órbita de x é o conjunto
O(x) := {y ∈ C | y ∼ x} = {ρ(g)(x) | g ∈ G}.
O estabilizador de x é o conjunto dos elementos de G que deixam
o elemento x fixo, isto é
E(x) := {g ∈ G | ρ(g)(x) = x}.
É imediato verificar que o estabilizador E(x) é um subgrupo de G.
Quando existe somente uma órbita, isto é, quando C = O(x)
para algum x ∈ C (e logo para todo x ∈ C), dizemos que a repre-
sentação ρ é transitiva.
O próximo teorema mostra que existe uma relação estreita entre
a órbita de um elemento e o seu estabilizador:
Teorema VI.1.4. Seja ρ : G → P(C) uma representação do grupo
G no grupo de permutações do conjunto C. Seja x ∈ C. Então a
aplicação ψ abaixo é uma bijeção:
ψ : O(x) −→ {Classes laterais à esquerda de E(x) em G}
ρ(g)(x) 7−→ gE(x).
Em particular, no caso de G ser um grupo finito, temos que
|O(x)| = (G : E(x)) e que |O(x)| divide |G|.
[SEC. VI.1: REPRESENTAÇÃO DE UM GRUPO POR PERMUTAÇÕES 255

Demonstração. Primeiro, devemos verificar que a aplicação ψ


é bem definida no sentido de que a imagem ψ(y) de um elemento
y ∈ O(x) não depende da escolha do elemento g ∈ G utilizado para
obter y a partir de x. Sejam g1 , g2 ∈ G tais que ρ(g1 )(x) = ρ(g2 )(x);
então aplicando ρ(g2−1 ) em ambos os lados e utilizando o fato de ρ
ser um homomorfismo, obtemos ρ(g2−1 g1 )(x) = x; assim, temos que
g2−1 g1 ∈ E(x), logo g1 ∈ g2 E(x) e g1 E(x) = g2 E(x).
Agora, a aplicação ψ é sobrejetora pois, se gE(x) é uma classe
lateral à esquerda de E(x) em G, então temos que gE(x) = ψ(y)
com y = ρ(g)(x).
Finalmente, para ver que ψ é injetora, sejam y1 = ρ(g1 )(x) e
y2 = ρ(g2 )(x) dois elementos de O(x) tais que ψ(y1 ) = ψ(y2 ), isto
é, tais que g1 E(x) = g2 E(x). Então temos g1−1 g2 ∈ E(x), logo
ρ(g1−1 g2 )(x) = x, ou seja ρ(g1−1 ) ◦ ρ(g2 )(x) = x e, portanto, temos
y2 = ρ(g2 )(x) = ρ(g1 ) ◦ ρ(g1−1 ) ◦ ρ(g2 )(x) = ρ(g1 )(x) = y1 .
Vejamos estes conceitos de órbita e estabilizador de um elemento
em algumas das representações particulares consideradas previa-
mente:

Exemplo C.1: Sejam G um grupo e C = G0 . Seja


I : G −→ P(G0 )
g 7−→ Ig : G0 → G0
x 7→ gxg −1 .
Seja x ∈ G0 . A órbita O(x) = {Ig (x) | g ∈ G} = {gxg −1 | g ∈ G}
de um elemento x ∈ G0 nesta representação por conjugação se
chama a classe de conjugação de x, e se denota Cℓ(x). Os elementos
de Cℓ(x) se chamam os conjugados de x em G. Observe que temos
Cℓ(x) = {x} ⇔ gxg −1 = x, ∀ g ∈ G ⇔ x ∈ Z(G).
O estabilizador E(x) = {g ∈ G | Ig (x) = x} = {g ∈ G |
gxg −1 = x} = {g ∈ G | g comuta com x} de um elemento de x ∈ G0
nesta representação por conjugação se chama o centralizador de x,
e se denota Z(x).
Observe que aqui, o Teorema VI.1.4 nos dá
|Cℓ(x)| = #{conjugados de x em G} = (G : Z(x)).
256 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

Naturalmente, o conjunto G0 é igual à união (disjunta) das


classes de conjugação. Em cada classe dePconjugação escolhemos
um representante xα . Então, temos |G| = α |Cℓ(xα )|, logo
X
|G| = |Z(G)| + |Cℓ(xα )|.
xα ∈Z(G)
/

Esta igualdade se chama a equação das classes de conjugação.


Nessa altura fazemos uma pausa para observar que esta equação
que foi obtida de maneira muito simples já permite tirar algumas
conseqüências interessantes:

Afirmação 1: Seja p um número primo e seja G um grupo de


ordem pn com n ≥ 1. Então Z(G) tem pelo menos p elementos.
P
Demonstração. Temos |G| = |Z(G)| + xα ∈Z(G) / |Cℓ(xα )|. Para
elementos xα ∈ / Z(G), temos |Cℓ(xα )| > 1; pelo Teorema VI.1.4,
n
sabemos que |Cℓ(xP α )| divide |G|, isto é, divide p ; logo, |Cℓ(xα )| é
um múltiplo de p, xα ∈Z(G)
/ |Cℓ(xα )| é um múltiplo de p e portanto
P
|Z(G)| = |G| − xα ∈Z(G)/ |Cℓ(xα )| é um múltiplo de p. Por outro
lado, já que o elemento neutro pertence a Z(G), temos |Z(G)| = 6 0.
Portanto, o centro Z(G) tem pelo menos p elementos.

Como caso particular, reobtemos que D4 e Q3 têm um centro


com pelo menos 2 elementos.

Afirmação 2: Seja p um número primo. Então todo grupo G de


ordem p2 é abeliano.

Demonstração. Pela Afirmação 1, temos |Z(G)| = p ou p2 ; por


outro lado, já sabemos que o centro de um grupo nunca pode ter
ı́ndice no grupo igual a um primo (vide Proposição V.4.8); logo
|Z(G)| = p2 e portanto, o grupo G é abeliano.

Exercı́cio VI.1.5. Seja p um número primo. Classifique os grupos


de ordem p2 .
[SEC. VI.1: REPRESENTAÇÃO DE UM GRUPO POR PERMUTAÇÕES 257

Exemplo C.2: Seja G um grupo e seja C = {subgrupos de G}.


Considere a aplicação

I : G −→ P(C)
g 7−→ Ig : C → C
H 7→ gHg −1 .

A órbita O(H) = {Ig (H) | g ∈ G} = {gHg −1 | g ∈ G} de um


subgrupo H se chama a classe de conjugação de H. Os elementos
de O(H) se chamam os subgrupos conjugados de H. Observe que
temos O(H) = {H} ⇔ H ⊳ G.
O estabilizador E(H) = {g ∈ G | Ig (H) = H} = {g ∈ G |
gHg −1 = H} se chama o normalizador de H em G, e será denotado
por NG (H). Verifique que NG (H) é o maior subgrupo de G no qual
H é normal e também que NG (H) = G ⇔ H ⊳ G.
Observe que aqui, o Teorema VI.1.4 nos dá

#{conjugados de H em G} = (G : NG (H)).

Exemplo C.4: Seja G um grupo. Sejam K um subgrupo de G e


C = {subgrupos de G}. Considere a aplicação

I : K −→ P(C)
k 7−→ Ik : C → C
H 7→ kHk −1 ,

isto é, a restrição para K da representação do Exemplo C.2.


A órbita O(H) = {Ik (H) | k ∈ K} = {kHk −1 | k ∈ K} de
um subgrupo H se chama a K-classe de conjugação de H. Os
elementos de O(H) se chamam os K-conjugados de H.
O estabilizador é

E(H) = {k ∈ K; kHk −1 = H} = K ∩ NG (H).

Observe que aqui, o Teorema VI.1.4 nos dá

#{K-conjugados de H} = (K : K ∩ NG (H)).
258 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

Exercı́cio VI.1.6. Determine as órbitas e os estabilizadores nos


Exemplos T.1, T.2, T.3. Verifique que nos Exemplos T.1 e T.2 a
representação é transitiva.

Exercı́cio VI.1.7. Seja G um grupo e seja C um conjunto. Seja


ρ : G → P(C) uma representação de G no grupo de permutações
de C. Seja z um elemento de C e seja O(z) sua órbita. Então

ρ1 : G −→ P(O(z))
g 7−→ ρ(g)|O(z)

é uma representação transitiva.

VI.2 Teoremas de Sylow


Já sabemos que a recı́proca do Teorema de Lagrange não vale em
geral: por exemplo, A4 tem ordem 12 mas não possui subgrupo de
ordem 6; A5 tem ordem 60 mas não possui subgrupo de ordem 30.
O resultado mais geral na direção de uma recı́proca ao Teorema
de Lagrange que provaremos é o seguinte:

Teorema VI.2.1. (1o¯ Teorema de Sylow). Sejam p um número


primo e G um grupo de ordem pm b com (p, b) = 1. Então, para
cada n, 0 ≤ n ≤ m, existe um subgrupo H de G tal que |H| = pn .

Primeiro provamos um caso particular:

Lema VI.2.2. (Cauchy). Seja G um grupo abeliano finito. Seja p


um número primo que divide |G|. Então existe x ∈ G de ordem p.

Demonstração do Lema: Fazemos uma indução sobre |G|.


Se |G| = 1, não há nada para fazer.
Se |G| > 1, supomos, como hipótese de indução, que o lema vale
para todos os grupos abelianos de ordem menor que |G|; queremos
mostrar que o lema vale também para o grupo G.
Se p = |G|, então G é cı́clico e qualquer gerador de G tem ordem
p (neste caso, não precisamos usar a hipótese de indução).
[SEC. VI.2: TEOREMAS DE SYLOW 259

Se p 6= |G|, afirmamos primeiro que existe um subgrupo H tal


que 1 < |H| < |G|. De fato, tome y ∈ G, y 6= e; se hyi = 6 G então
p p
H = hyi serve; se hyi = G, então y 6= e e H = hy i serve, pois
|H| = O(y p ) = |G|/p < |G|.
Agora, se p divide |H| então, pela hipótese de indução, existe
elemento x ∈ H ⊆ G de ordem p, e acabou.
Se p não divide |H| então, pela igualdade |G| = |H||G/H|,
vemos que p divide |G/H| e que |G/H| < |G|; logo, pela hipótese
de indução, existe z̄ ∈ G/H de ordem p. Considere o homomorfismo
canônico ϕ : G → G/H, e tome z ∈ G tal que ϕ(z) = z̄. Seja r a
ordem deste elemento z; temos z r = e, logo ϕ(z r ) = ϕ(e) ou seja
z̄ r = ē e, portanto, r é um múltiplo da ordem de z̄, isto é, r é um
múltiplo de p, digamos r = kp com k ≥ 1. Então, z k é um elemento
de G de ordem p.

Demonstração do Teorema VI.2.1: Fazemos uma prova por


indução sobre |G|.
Se |G| = 1, não há nada para fazer.
Se |G| > 1, supomos, como hipótese de indução, que o teo-
rema vale para todos os grupos de ordem menor que |G|; queremos
mostrar que o teorema vale também para o grupo G.
Seja n um inteiro positivo tal que pn divida a ordem de G.

Caso 1: Se existe um subgrupo próprio H de G tal que pn divida


a ordem de H. Neste caso, pela hipótese de indução, temos que H,
e portanto a fortiori G, possui um subgrupo de ordem pn .

Caso 2: Se não existe um subgrupo próprio H de G tal que pn


divida a sua ordem. Neste caso, considere a equação das classes de
conjugação:

X X
|G| = |Z(G)| + |Cℓ(xα )| = |Z(G)| + (G : Z(xα )).
xα ∈Z(G)
/ xα ∈Z(G)
/

/ Z(G), temos Z(xα ) $ G, logo, por hipótese, pn não


Para xα ∈
divide |Z(xα )|, e portanto p divide (G : Z(xα )). Como p divide
260 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

|G|, obtemos então que p divide |Z(G)|. Como Z(G) é um grupo


abeliano existe, pelo lema de Cauchy, um elemento y ∈ Z(G) de
ordem p. Como y ∈ Z(G), é claro que hyi⊳G, de modo que podemos
considerar o grupo quociente G/hyi. Naturalmente, |G/hyi| < |G| e
pn−1 divide |G/hyi|. Logo, pela hipótese de indução, o grupo G/hyi
possui um subgrupo K ′ de ordem pn−1 . Considere o homomorfismo
canônico ϕ : G → G/hyi e tome K = ϕ−1 (K ′ ). Então K é um
subgrupo de G e |K| = | ker ϕ||K ′ | = |hyi||K ′ | = pn .

Corolário VI.2.3. (Generalização do lema de Cauchy).


Sejam G um grupo finito e p um número primo que divide |G|.
Então existe um elemento x ∈ G de ordem p.
Corolário VI.2.4. Seja G um grupo finito e seja p um número
primo. Seja pm a maior potência de p que divide |G|. Então existe
um subgrupo de G de ordem pm .
Definição VI.2.5. Sejam G um grupo finito, p um primo e pm a
maior potência de p que divide |G|. Os subgrupos de G que têm
ordem pm (cuja existência está garantida pelo corolário acima) são
chamados de p-subgrupos de Sylow de G.
Observe que se p é um número primo que não divide |G|, então
{e} é o único p-subgrupo de Sylow de G.
Corolário VI.2.6. Sejam G um grupo finito e p um número primo.
Então |G| é igual a uma potência de p se e só se cada elemento do
grupo G tem sua ordem igual a uma potência de p.
Demonstração. Se |G| = pt e se x ∈ G, então a ordem de x é
um divisor de pt e, portanto, é uma potência de p.
Reciprocamente, se |G| não é uma potência de p, existe um
número primo q tal que q 6= p e q divide |G|; pelo Corolário VI.2.3,
existe um elemento x ∈ G de ordem q.
Definição VI.2.7. Seja p um primo. Um grupo G (não necessa-
riamente finito) no qual todo elemento tem sua ordem igual a uma
potência de p é chamado um p-grupo.
[SEC. VI.2: TEOREMAS DE SYLOW 261

Exemplo VI.2.8. 1) Os grupos D4 , Q3 , Z/8Z, (Z/4Z) × (Z/2Z),


e (Z/2Z) × (Z/2Z) × (Z/2Z) são 2-grupos de ordem 8 = 23 .
2) O grupo (Z/pn Z, ⊕n ) é um p-grupo de ordem pn .
p

3) (Z/2Z) × (Z/2Z) × (Z/2Z) × . . . é um 2-grupo infinito.


O Corolário VI.2.6 diz que os p-grupos finitos são exatamente
os grupos cuja ordem é uma potência do primo p.
Acabamos de ver que se G é um grupo finito, se p é um primo e se
pm é a maior potência de p que divide |G|, então existem subgrupos
de G de ordem pm (os p-subgrupos de Sylow de G). É claro que
se S é um p-subgrupo de Sylow de G e se ρ ∈ Aut(G), então ρ(S)
é também um p-subgrupo de Sylow de G, pois ele tem o mesmo
número de elementos que S, isto é, ele tem pm elementos. Em
particular, se ρ ∈ I(G), isto é, se ρ = Ig para algum g ∈ G, então
Ig (S) = gSg −1 é um p-subgrupo de Sylow de G. Vamos mostrar
que, dado um primo p, todos os p-subgrupos de Sylow de G podem
ser obtidos deste modo a partir de um deles, isto é, que dado um
primo p, todos os p-subgrupos de Sylow de G são conjugados entre
si. Nós vamos mostrar também que os p-subgrupos de Sylow de G
são exatamente os p-subgrupos maximais de G.

Teorema VI.2.9. (2o¯ Teorema de Sylow).


Sejam G um grupo finito, p um número primo e np o número
de p-subgrupos de Sylow de G. Então:

a) Todos os p-subgrupos de Sylow de G são conjugados entre si.


Em particular, um p-subgrupo de Sylow S de G é normal em
G se e somente se S é o único p-subgrupo de Sylow de G.
Neste caso, S é um subgrupo caracterı́stico de G.

b) Se P é um p-subgrupo de G, existe um p-subgrupo de Sylow


S de G tal que P ⊆ S.

c) Se S é um p-subgrupo de Sylow, temos np = (G : NG (S)).

Antes de iniciar a prova do teorema, provamos o seguinte lema:


262 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

Lema VI.2.10. Sejam G um grupo finito e p um número primo.


Sejam S um p-subgrupo de Sylow de G e P um p-subgrupo qualquer
de G. Então P ∩ NG (S) = P ∩ S.
Demonstração. Suponhamos que P ∩ NG (S) % P ∩ S e seja
x ∈ P ∩ NG (S) \ S; o elemento x tem ordem igual a uma potência
de p, pois x ∈ P e, por hipótese P é um p-grupo. Como x ∈ NG (S),
temos que hxi é um subgrupo de NG (S); como S é um subgrupo
normal de NG (S), então o produto hxiS é um subgrupo de NG (S)
e portanto um subgrupo de G. Além disso, sabemos que

|hxiS| = |S||hxi|/|S ∩ hxi|,

onde |S| e |hxi| são potências de p, e onde |S ∩ hxi| < |hxi| pois
x∈/ S. Logo, hxiS é um p-subgrupo de G de ordem maior que |S|,
o que é absurdo, pois S é um p-subgrupo de Sylow de G.

Demonstração do Teorema VI.2.9: Seja S um p-subgrupo de


Sylow qualquer de G. Considere o conjunto C = {conjugados de S}
= {gSg −1 ; g ∈ G}. Por definição mesmo, o conjunto C é a órbita
de S na representação por conjugação I : G → P(D) onde denota-
mos D = {subgrupos de G}; portanto, pelo Teorema VI.1.4, temos

|C| = (G : NG (S)).

Itens a) e b). Claramente, basta mostrar que se P é um p-


subgrupo qualquer de G, então o subgrupo P está contido num
conjugado de S em G.
Considere a seguinte representação de P :

I : P −→ P(C)
a 7−→ Ia : C → C
gSg −1 7→ agSg −1 a−1 .

Sejam O1 , . . . , Ok as órbitas distintas desta representação e para


cada Oi escolhaPum representante Si = gi Sgi−1 dentro de Oi . Clara-
k
mente |C| = i=1 |Oi |; além disto, pelo Teorema VI.1.4, temos
[SEC. VI.2: TEOREMAS DE SYLOW 263

|Oi | = (P : E(Si )) = (P : P ∩ NG (Si )) e, pelo lema anterior, temos


(P : P ∩ NG (Si )) = (P : P ∩ Si ). Portanto obtemos

k
X
|C| = (P : P ∩ Si ).
i=1

Das duas expressões obtidas para |C|, tiramos que

k
X
(G : NG (S)) = (P : P ∩ Si ). (∗)
i=1

Cada parcela (P : P ∩ Si ) é igual a 1 ou a um múltiplo de p, pois P


é um p-grupo. Por outro lado, o primo p não divide (G : S) pois S é
um p-subgrupo de Sylow; logo, a fortiori, p não divide (G : NG (S)).
Consequentemente, existe i tal que p não divide (P : P ∩ Si ), logo
tal que (P : P ∩ Si ) = 1 e portanto tal que P ⊆ Si .
c) Pelo item a), temos {p-subgrupos de Sylow} = {conjugados
de S}, logo np = (G : NG (S)).

Observação VI.2.11. Como caso particular do item a) do 2o¯ teo-


rema de Sylow, obtivemos que um p-subgrupo de Sylow S de um
grupo G é normal em G se e somente se S é o único p-subgrupo de
Sylow de G. Este caso particular já foi obtido como conseqüência
de um resultado geral elementar (cf. Exercı́cio 14 do Capı́tulo V).

Se G é um grupo e se p é um número primo, já vimos que


existem p-subgrupos de Sylow, e que estes são conjugados entre si.
Já vimos também que o número np deles é igual a (G : NG (S)), onde
S é um qualquer deles. Vamos agora destacar duas propriedades
aritméticas muito simples do inteiro (G : NG (S)), e portanto do
inteiro np . Em geral, estas propriedades não vão caracterizar o
inteiro (G : NG (S)), mas elas vão localizá-lo num conjunto pequeno
de divisores de |G|.
264 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

Teorema VI.2.12. (3o¯ Teorema de Sylow).


Sejam p um número primo e G um grupo finito de ordem pm b,
com (p, b) = 1. Seja np o número de p-subgrupos de Sylow de G.
Então (
np divide b,
np ≡ 1 módulo p.

Demonstração. Seja S um p-subgrupo de Sylow de G. Natural-


mente, temos que (G : NG (S)) divide (G : S) = b.
Agora, consideramos a expressão (∗) para (G : NG (S)) estabe-
lecida no decorrer da prova do Teorema VI.2.9. Tomando P = S
nesta expressão, obtemos
k
X
(G : NG (S)) = (S : S ∩ Si ),
i=1

onde S1 , . . . , Sk são representantes das distintas órbitas O1 , . . . , Ok


da representação seguinte

I : S −→ P(C),

onde C é o conjunto dos p-subgrupos de Sylow de G. Evidente-


mente, podemos tomar S1 = S; com esta escolha, obtemos
k
X
(G : NG (S)) = (S : S ∩ S) + (S : S ∩ Si ) ≡ 1 mod p.
i=2

Pelo Teorema VI.2.9, sabemos que np = (G : NG (S)). Portanto,


obtemos os resultados desejados sobre np .
Observação VI.2.13. 1) No Teorema VI.2.12 mostramos que o
número de p-subgrupos de Sylow de um grupo G é côngruo a 1
módulo p. O seguinte resultado mais geral é devido a Fröbenius:
Se p é um primo e pn | |G|, então o número de subgrupos de G
de ordem pn é côngruo a 1 módulo p.
Para uma prova deste resultado mais geral, o leitor pode ver N.
Jacobson, Basic Algebra I , p. 81.
[SEC. VI.2: TEOREMAS DE SYLOW 265

2) Seja m um inteiro e seja p um número primo. Seja G um grupo


de ordem m e np o número de p-subgrupos de Sylow de G.
Se não tivermos nenhuma outra informação sobre o grupo G,
então, em geral, o 3o¯ Teorema de Sylow não permite determinar o
valor de np . Por exemplo, se m = 6 = 2 × 3, então o 3o¯ Teorema
de Sylow nos dá n2 = 1 ou n2 = 3, e sem outra informação sobre o
grupo G, não temos como levantar a dúvida, pois ambos os casos
podem acontecer: n2 = 1 se G = Z/6Z e n2 = 3 se G = S3 .
Às vezes, para valores especı́ficos de m, via a descoberta de
subgrupos de NG (S), consegue-se propriedades suplementares do
ı́ndice (G : NG (S)) que permitem calcular np precisamente.

Exemplo VI.2.14. Seja G um grupo de ordem 380 = 22 · 5 · 19.


Pelo 3o¯ Teorema de Sylow, temos n5 ≡ 1 mod 5 e n5 divide 22 · 19,
logo n5 = 1 ou 76. Similarmente, o 3o¯ Teorema de Sylow nos
dá n19 = 1 ou 20. Seja H um subgrupo de ordem 5 e seja K
um subgrupo de ordem 19. Vamos buscar propriedades de NG (H)
e de NG (K) e mostrar que necessariamente ambos n5 e n19 são
iguais a 1.
Primeiro, afirmamos que n5 ou n19 é igual a 1; de fato, caso
contrário, G possuiria 76 × 4 = 304 elementos de ordem igual a 5
(pois a interseção de dois subgrupos distintos de ordem 5 é igual
a {e}) e também possuiria 20 × 18 = 360 elementos de ordem 19,
o que seria absurdo pois |G| = 380. Portanto, um dos subgrupos
H ou K é normal em G e, em todo caso, o conjunto HK é um
subgrupo de G; a ordem deste subgrupo HK é igual a 5 · 19 = 95
pois, claramente, H ∩ K = {e}. Agora, pelo 3o¯ Teorema de Sylow
aplicado ao grupo HK, nós vemos que HK possui somente um
subgrupo de ordem 5 (que necessariamente deve ser H) e somente
um subgrupo de ordem 19 (que necessariamente deve ser K). Logo,
H é normal em HK e equivalentemente, temos HK ⊆ NG (H);
logo n5 = (G : NG (H)) ≤ (G : HK) = 22 e, portanto, n5 = 1,
pois já sabı́amos que n5 era igual a 1 ou 76. Similarmente, K é
normal em HK e equivalentemente, temos HK ⊆ NG (K); logo
n19 = (G : NG (K)) ≤ (G : HK) = 22 e, portanto, n19 = 1, pois já
sabı́amos que n19 era igual a 1 ou 20.
266 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

Proposição VI.2.15. Sejam G um grupo finito e p um número


primo. Sejam S um p-subgrupo de Sylow de G e H um subgrupo de
G que contém o normalizador NG (S). Então:

1) NG (H) = H. Em particular, NG (NG (S)) = NG (S).

2) (G : H) ≡ 1 mod p.

Demonstração. 1) Seja x ∈ NG (H). É claro que o subgrupo S é


um p-subgrupo de Sylow de H; como x ∈ NG (H), o subgrupo xSx−1
também é um p-subgrupo de Sylow de H. Logo, pelo Teorema
VI.2.9, os subgrupos S e xSx−1 são conjugados em H, isto é, existe
elemento h ∈ H tal que S = hxSx−1 h−1 = hxS(hx)−1 ; logo temos
hx ∈ NG (S) ⊆ H e portanto concluimos que x ∈ H.
2) Claramente, temos

(G : NG (S)) = (G : H)(H : NG (S)).

Como S é um p-subgrupo de Sylow de G, então pelo Teorema


VI.2.12, temos
(G : NG (S)) ≡ 1 mod p.
Como NG (S) = NG (S) ∩ H = NH (S), e como S é um p-subgrupo
de Sylow de H, então pelo Teorema VI.2.12, temos

(H : NG (S)) = (H : NH (S)) ≡ 1 mod p.

Portanto, concluı́mos que

(G : H) ≡ 1 mod p.

VI.3 p-Grupos Finitos


As duas primeiras proposições abaixo já foram provadas na Seção
VI.1. Nesta seção, o sı́mbolo p denotará sempre um inteiro primo.
Proposição VI.3.1. Seja G 6= {e} um p-grupo finito. Então seu
centro Z(G) tem pelo menos p elementos.
[SEC. VI.3: P -GRUPOS FINITOS 267

Proposição VI.3.2. Se G é um grupo de ordem p ou p2 , então o


grupo G é abeliano.

Proposição VI.3.3. Seja G um grupo de ordem pm e seja H um


subgrupo de G de ordem pr com r < m. Então:

1) Existe um subgrupo K de G de ordem pr+1 contendo H.

2) Todo subgrupo L de G de ordem pr+1 contendo H é tal que


H ⊳ L. Em particular, temos H $ NG (H).

Demonstração. 1) Mostramos por indução sobre |G| a seguinte


afirmação existe um subgrupo K de G tal que H ⊳ K e |K| = pr+1 .
Se |G| = 1, não há nada para fazer.
Se |G| > 1, supomos, como hipótese de indução, que a afirmação
vale para todos os p-grupos de ordem menor que |G|; queremos
mostrar que a afirmação vale também para o grupo G. Sabemos
que Z(G) 6= {e}; escolha x ∈ Z(G) que tenha ordem p; como
x ∈ Z(G), temos hxi ⊳ G e x ∈ NG (H). Consideramos 2 casos:

Caso 1: x ∈ / H.
Considere o subgrupo K = Hhxi. Como x ∈ / H e como x tem
ordem p, temos H ∩ hxi = {e}, e portanto |K| = |H||hxi| = pr+1 .
Além disso, K ⊆ NG (H), pois x ∈ NG (H); portanto H ⊳ K.

Caso 2: x ∈ H.
Como x ∈ H e como o elemento x tem ordem p, temos que
H/hxi é um subgrupo de ordem pr−1 do grupo G/hxi e que G/hxi
tem ordem pm−1 < pm = |G|. Pela hipótese de indução, existe
um subgrupo K ′ de G/hxi tal que |K ′ | = pr e ainda H/hxi ⊳ K ′ .
Considere o homomorfismo canônico ϕ : G → G/hxi e tome o grupo
K = ϕ−1 (K ′ ); temos então ϕ(K) = K/hxi = K ′ e assim, temos
|K| = |hxi||K ′ | = p · pr = pr+1 . Além disso, temos H/hxi ⊳ K ′ , o
que implica em ϕ−1 (H/hxi) ⊳ ϕ−1 (K ′ ), isto é, H ⊳ K.

2) Segue diretamente da afirmação mais forte feita acima, na prova


do item 1), se tomamos G = L.
268 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

Corolário VI.3.4. Seja G um grupo de ordem pm . Então existem


subgrupos H0 = {e}, H1 , H2 , . . . , Hm = G tais que Hi ⊳ Hi+1 e tais
que Hi+1 /Hi é cı́clico de ordem p, ∀ i = 0, . . . , m − 1.
Demonstração. Aplique sucessivamente a proposição anterior
começando com H0 = {e}.
Proposição VI.3.5. Sejam G um p-grupo finito e Z(G) seu centro.
Seja H 6= {e} um subgrupo normal de G. Então
Z(G) ∩ H 6= {e}.
Demonstração. Considere a aplicação (onde H0 := H):
I : G −→ P(H0 )
g 7−→ Ig : H0 → H0
h 7→ ghg −1 .
Claramente, Ig permuta os elementos de H0 , pois H ⊳ G; logo
a aplicação I é uma representação de G. Sejam O(e) = {e},
O(h2 ), . . . , O(hs ) as órbitas desta representação; temos |H| = 1 +
|O(h2 )| + · · · + |O(hs )|. Como p divide |H|, existe i ≥ 2 tal
que p não divide |O(hi )|. Por outro lado, |O(hi )| = (G : E(hi ))
é igual a 1 ou a um múltiplo de p. Conseqüentemente, existe
i ≥ 2 tal que (G : E(hi )) = 1 isto é, tal que E(hi ) = G. Como
E(hi ) = {g ∈ G | ghi = hi g}, obtemos que hi ∈ Z(G).
Corolário VI.3.6. Sejam G um p-grupo finito e Z(G) seu centro.
Seja H um subgrupo normal de G de ordem p. Então H está contido
em Z(G).
Demonstração. Segue diretamente da proposição anterior.

VI.4 Classificação dos Grupos Simples


de Ordem ≤ 60
Problema: Dado um grupo G de ordem n, determinar se G possui
um subgrupo normal não-trivial.
[SEC. VI.4: CLASSIFICAÇÃO DOS GRUPOS SIMPLES DE ORDEM ≤ 60 269

Vamos estudar este problema para alguns valores de n, uti-


lizando idéias desenvolvidas até agora.

Primeiro Método: Utilização dos Teoremas de Sylow.


Se, para um primo p que divide a ordem de G, podemos mostrar
que existe um só p-subgrupo de Sylow de G, então este p-subgrupo
é caracterı́stico em G, e portanto, ele é normal em G.

Exemplo VI.4.1. Se G é um grupo tal que |G| = pq com p, q


primos, então G possui um subgrupo normal não-trivial.

Demonstração. Se p = q, então |G| = p2 e sabemos que G é um


grupo abeliano; tomando x ∈ G de ordem p, temos hxi ⊳ G. Se
p 6= q, podemos supor que p > q. Denotando por np o número de
p-subgrupos de Sylow de G, o 3o¯ Teorema de Sylow nos dá

np ≡ 1 mod p
, logo np = 1 pois p > q.
np |q

Este único p-subgrupo de Sylow de G é normal em G.

Às vezes, os Teoremas de Sylow não dão a resposta diretamente,


mas dão a resposta depois de uma contagem.

Exemplo VI.4.2. Se G é um grupo de ordem 56 = 23 .7, então G


possui um subgrupo normal de ordem 7 ou um subgrupo normal de
ordem 8.

Demonstração. Seja n7 o número de 7-subgrupos de Sylow de


G. Pelo 3o¯ Teorema de Sylow, temos:

n7 ≡ 1 mod 7
, logo n7 = 1 ou 8.
n7 |8

Se n7 = 1, então este único 7-subgrupo de Sylow de G é normal em


G.
Se n7 = 8, observamos primeiro que se S1 e S2 são dois 7-
subgrupos de Sylow de G distintos, então S1 ∩ S2 = {e}, pois |S1 | =
270 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

|S2 | = 7. Assim, sendo n7 = 8, temos que existem 8 × 6 = 48


elementos distintos de ordem 7; sobram então 56−48 = 8 elementos.
Já sabemos que existe pelo menos um subgrupo H de G que tenha
ordem 8 e, naturalmente, nenhum dos 48 elementos acima pode
pertencer a H. Assim H tem que ser composto dos 8 elementos
restantes e é, portanto, o único 2-subgrupo de Sylow de G; H então
é um subgrupo normal de G. Obtemos assim que um grupo G de
ordem 56 sempre possui um subgrupo normal de ordem 7 ou um
subgrupo normal de ordem 8.

Outras vezes, é quando combinados com alguma propriedade


suplementar sobre o ı́ndice (G : NG (S)), que os Teoremas de Sylow
dão a resposta procurada. O Exemplo VI.2.14 ilustra esta situação.
Damos a seguir, um outro exemplo.

Exemplo VI.4.3. Se G é um grupo de ordem 22 · 7 · 13, então G


possui um subgrupo normal de ordem 13.

Demonstração. Seja n13 o número de 13-subgrupos de Sylow de


G. Pelo 3o¯ Teorema de Sylow, temos:

n13 ≡ 1 mod 13
, logo n13 = 1 ou 14.
n13 |22 × 7

Seja S um 13-subgrupo de Sylow de G. Desejamos informações so-


bre (G : NG (S)); para isto procuramos subgrupos entre S e NG (S),
isto é, procuramos subgrupos nos quais S é normal. Pelo 3o¯ Teo-
rema de Sylow, temos n7 = 1; seja então K o único 7-subgrupo de
Sylow de G. Como K ⊳ G, o produto KS é um subgrupo de G; sua
ordem é 7 × 13. Aplicando o 3o¯ Teorema de Sylow ao grupo KS,
vemos que S ⊳ KS. Assim n13 = (G : NG (S)) ≤ (G : KS) = 4.
Portanto, temos n13 = 1.

Segundo Método: Utilização das representações de um grupo.


Sabemos que se f : G → G é um homomorfismo de grupos,
então ker f é um subgrupo normal de G. Em particular, se G é
um grupo, C um conjunto e ρ : G → P(C) uma representação do
[SEC. VI.4: CLASSIFICAÇÃO DOS GRUPOS SIMPLES DE ORDEM ≤ 60 271

grupo G no grupo de permutações do conjunto C, então o núcleo


ker ρ é um subgrupo normal de G. Procuramos condições para que
ker ρ 6= {e}, G.
É claro que se C é um conjunto “pequeno” no sentido que
|P(C)| = |C|! < |G|, então |ρ(G)| = |G/ker ρ| < |G| e portanto
ker ρ 6= {e}. (Mais geralmente, se um inteiro u divide |G| e não
divide |C|!, então ker ρ 6= {e}).
Exemplo VI.4.4. Se G possui um “grande” subgrupo H 6= G (em
outras palavras, se H tem “poucas” classes laterais) no sentido que
(G : H)! < |G|, então tomando C = {classes laterais à esquerda de
H em G} = {aH | a ∈ G}, a representação T : G → P(C) é tal que
ker T 6= {e}; além disso, temos ker T ⊆ H e, portanto, ker T é um
subgrupo normal não-trivial de G (contido em H).
Na procura da existência de um “grande” subgrupo de G, o 1o¯
Teorema de Sylow poderá ser de grande ajuda. Por exemplo, se
G é um grupo de ordem 48 = 24 × 3, existe, pelo 1o¯ Teorema de
Sylow, um subgrupo H de ordem 24 ; ele é um “grande” subgrupo
pois (G : H) = 3 e temos 3! < 48. O núcleo do homomorfismo
T : G → P({aH | a ∈ G}) é um subgrupo normal não-trivial de G,
e está contido em H. Afirmamos que |ker T | = 23 ou 24 . De fato,
por um lado, como {e} 6= ker T ⊆ H, temos |ker T | = 2, 22 , 23 ou
24 . Por outro lado, como kerG T ≃ T (G) < P({aH | a ∈ G}) = S3 ,
temos |G/ker T | = 1, 2, 3, ou 6, isto é, temos |ker T | = 24 ·3, 23 ·3, 24
ou 23 . Logo |ker T | = 23 ou 24 .
Exemplo VI.4.5. Se G possui um subgrupo H 6= G com “poucos”
conjugados no sentido que |{conjugados de H em G}|! < |G|, então
tomando C = {conjugados de H em G} = {gHg −1 | g ∈ G}, a
representação I : GT→ P(C) é tal que ker I =
6 {e}; além disso, é
claro que ker I = K∈C NG (K) ⊆ NG (H). Se NG (H) 6= G, temos
ker I =
6 G e portanto ker I é um subgrupo normal não-trivial de G
(contido em NG (H)); se NG (H) = G, o próprio H é um subgrupo
normal não-trivial de G.
Na procura da existência de um subgrupo de G com “poucos”
conjugados em G, os Teoremas de Sylow poderão ser de grande
272 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

ajuda. Por exemplo, se G é um grupo de ordem 72 = 23 · 32 ,


se H é um subgrupo de G de ordem 9 e se denotamos por n3 o
número dos 3-subgrupos de Sylow de G, então temos n3 ≡ 1 mod 3
e n3 |8, logo n3 = 1 ou 4. Se n3 = 1, então H ⊳ G. Se n3 = 4,
então H tem “poucos” conjugados pois, pelo 2o¯ Teorema de Sylow,
{conjugados de H em G} = {3-subgrupos de Sylow de G} e temos
4! < 72; portanto ker I, onde I : G → P({gHg −1 | g ∈ G}),
é um subgrupo normal não-trivial de G pois ker I ⊆ NG (H) e
(G : NG (H)) = n3 > 1.
Exemplo VI.4.6. Seja G um grupo de ordem 189 = 33 · 7. Pelo
1o¯ Teorema de Sylow, temos que existe um subgrupo H de ordem
33 . Seja C = {classes laterais à esquerda de H em G} e considere
a representação T : G → P(C). A maior potência de 3 que divide
|P(C)| = 7! é igual a 32 ; logo, a maior potência de 3 que divide
|T (G)| é ≤ 32 . No entanto, 33 divide |G|; portanto, 3 divide |ker T |
e ker T é um subgrupo normal não-trivial de G (contido em H).
Observação VI.4.7. Seja G um grupo de ordem 72 = 23 · 32 ; se H
é um subgrupo de ordem 9, então H não é um “grande” subgrupo
de G (pois (G : H) = 8 e temos 8! > 72) e, portanto, o método
usando a representação T : G → P({aH | a ∈ G}) não funciona,
enquanto o método usando a representação I : G → P({gHg −1 |
g ∈ G}) funcionou. Observe no entanto que temos (G : NG (H)) =
#{conjugados de H em G} = 1 ou 4, com 4! < |G| = 72, de modo
que NG (H) é um “grande” subgrupo de G e, portanto, o método
usando a representação T : G → P({aNG (H) | a ∈ G}) teria
também funcionado.
Mais geralmente, temos:
Exercı́cio VI.4.8. Seja H um subgrupo de um grupo G. Considere
as seguintes representações de G:
T : G → P({aNG (H) | a ∈ G})
e
I : G → P({gHg −1 | g ∈ G}).
Mostre que ker T = ker I.
[SEC. VI.4: CLASSIFICAÇÃO DOS GRUPOS SIMPLES DE ORDEM ≤ 60 273

Exercı́cio VI.4.9. Seja n ≥ 5 um inteiro. Seja H 6= {e} onde H é


um subgrupo de An . Mostre que o subgrupo H tem pelo menos n
conjugados em An .

Exercı́cio VI.4.10. Procure todos os grupos simples de ordem


inferior a 60 e conclua que eles são exatamente os grupos cı́clicos
de ordem prima.

Proposição VI.4.11. Seja G um grupo simples de ordem 60. En-


tão G é isomorfo ao grupo A5 .

Demonstração. Vamos primeiramente mostrar a seguinte afir-


mação:

Afirmação: Existe um subgrupo H de G que possui exatamente


cinco conjugados.
De fato, seja n2 o número de 2-subgrupos de Sylow de G. Sabe-
mos que n2 ≡ 1 mod 2 e que n2 divide 15; logo n2 = 1, 3, 5 ou 15.
A igualdade n2 = 1 é impossı́vel pois, neste caso, o 2-subgrupo de
Sylow seria normal em G. A igualdade n2 = 3 é impossı́vel também
pois, neste caso, denotando por K um 2-subgrupo de Sylow de G,
o subgrupo K teria “poucos” conjugados em G e portanto G pos-
suiria um subgrupo normal não-trivial. Logo, temos n2 = 5 ou
n2 = 15.
Se n2 = 5, então podemos tomar para H um qualquer 2-subgrupo
de Sylow de G.
Se n2 = 15, observamos primeiramente que devem existir dois
2-subgrupos de Sylow distintos K1 e K2 tais que K1 ∩K2 6= {e}. De
fato, caso contrário, G possuiria 15 × 3 = 45 elementos de ordem
2 ou 4; mas, G sendo simples, G deve possuir mais do que um 5-
subgrupo de Sylow, logo deve possuir pelo menos seis 5-subgrupos
de Sylow, logo deve possuir pelo menos 6 × 4 = 24 elementos de
ordem 5; assim, G teria pelo menos 45+24 = 69 elementos, absurdo
pois |G| = 60. Assim, existem de fato dois subgrupos K1 e K2
tais que |K1 | = 4 = |K2 | e |K1 ∩ K2 | = 2. Naturalmente, temos
K1 ∩ K2 ⊳ K1 e K1 ∩ K2 ⊳ K2 , pois subgrupos de ı́ndice 2 sempre são
274 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

normais, e portanto NG (K1 ∩ K2 ) ⊇ hK1 , K2 i. Seja H = hK1 , K2 i,


e considere o seguinte diagrama:
G tem ordem 4·3·5

−||−

NG (K1 ∩ K2 )

hK1 , K2 i = H

/ \

K1 K2 têm ordem 4

▽ ▽

K1 ∩ K2 tem ordem 2.

Temos NG (K1 ∩ K2 ) 6= G pois, G sendo simples, K1 ∩ K2 não


é normal em G. Assim, as possibilidades para a ordem de H são
4·3 = 12 ou 4·5 = 20. A igualdade |H| = 20 é impossı́vel pois, neste
caso, H seria um “grande” subgrupo de G e portanto G possuiria
um subgrupo normal não trivial; logo temos |H| = 12. Como H
não pode ser normal em G, temos necessariamente que NG (H) = H
e portanto que H possui exatamente (G : NG (H)) = (G : H) = 5
conjugados. Isto termina a prova da afirmação.
Vamos agora provar que G ≃ A5 . Seja H um subgrupo dado
pela Afirmação e seja C = {conjugados de H}; temos |C| = 5 =
(G : NG (H)). Considere a representação por conjugação

I : G −→ P(C)
g 7−→ Ig : C → C
gi Hgi−1 → ggi Hgi−1 g −1 .
[SEC. VI.5: CLASSIFICAÇÃO DOS GRUPOS DE ORDEM ≤ 15 275

O subgrupo ker I é um subgrupo normal diferente de G, pois


ker I ⊆ NG (H) $ G; portanto, já que G é um grupo simples,
temos ker I = {e}. Assim I(G) é um subgrupo de S5 de ordem 60;
logo I(G) = A5 , pois sabemos que A5 é o único subgrupo de S5 de
ı́ndice 2. Logo G ≃ A5 .

Observação VI.4.12. O grupo Aut((Z/2Z) × (Z/2Z) × (Z/2Z))


tem ordem igual a 168 = (8 − 1)(8 − 2)(8 − 4) (Verifique!). Seria
possı́vel mostrar que se trata de um grupo simples e que não existe
nenhum grupo simples não-abeliano G com 60 < |G| < 168.

Observação VI.4.13. Em 1981, depois de muitos anos de tra-


balho, foi completada a classificação dos grupos finitos simples.
Uma apresentação integral deste resultado exigiria mais 10.000 pá-
ginas. (Ver Gorenstein, Finite Simple Groups: An Introduction to
their Classification).

É um fato que todos os grupos finitos simples são gerados por


dois elementos. Isto mostra o quanto difı́cil seria um estudo geral
dos grupos finitos gerados por dois elementos.

VI.5 Classificação dos Grupos de Or-


dem ≤ 15
Os grupos de ordem ≤ 10 já foram classificados; para a conveniência
do leitor, lembraremos os resultados obtidos. Usando métodos ele-
mentares, os grupos de ordem 14 e 15 já foram classificados também;
usando os teoremas de Sylow, classificaremos aqui os grupos de or-
dem pq, com p < q dois números primos, reobtendo portanto, como
casos particulares, a classificação desses grupos de ordem 14 e 15.
Naturalmente, classificaremos também os grupos de ordem 12. Os
resultados serão sempre expressados a menos de isomorfismos.

Grupos de ordem 1 :
{e}.
276 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

Grupos de ordem p, com p um número primo:

Z/pZ.

Grupos de ordem 4 :

Z/4Z, (Z/2Z) × (Z/2Z).

Grupos de ordem pq, p < q números primos:


Seja G um grupo de ordem pq.
Pelo 3o¯ Teorema de Sylow, o grupo G possui um único subgrupo
H de ordem q; naturalmente, H é isomorfo a Z/qZ e é normal em
G. Pelo 1o¯ Teorema de Sylow, o grupo G possui um subgrupo K
de ordem p; naturalmente, K é isomorfo a Z/pZ. Assim temos:


G = HK
H ⊳ G, K < G


H ∩ K = {e}.

Logo, pelo Teorema V.9.16, o grupo G é isomorfo a um produto


semidireto de Z/qZ por Z/pZ, i.e.,

G ≃ (Z/pZ) × (Z/qZ), onde σ : Z/pZ → Aut(Z/qZ)


σ

é um homomorfismo. Ora, sabemos que Aut(Z/qZ) ≃ (Z/qZ)∗ é


um grupo cı́clico de ordem q − 1; então somos levados a considerar
2 casos:

Caso 1 : p não divide q − 1.


Neste caso, o único elemento de Aut(Z/qZ) com ordem igual
a um divisor de p é Id, logo o único homomorfismo de Z/pZ em
Aut(Z/qZ) é o homomorfismo trivial, logo o único produto semidi-
reto de Z/qZ por Z/pZ é o produto direto Z/pZ × Z/qZ, que é
isomorfo a Z/pqZ. Assim, obtemos neste Caso 1, que existe exata-
mente um grupo de ordem pq, a saber

Z/pqZ.
[SEC. VI.5: CLASSIFICAÇÃO DOS GRUPOS DE ORDEM ≤ 15 277

Com isso classificamos, em particular, os grupos de ordem 15.

Caso 2 : p divide q − 1.
Neste caso, pela Proposição V.6.4, o grupo cı́clico Aut(Z/qZ)
possui exatamente um único subgrupo de ordem p; se f é um gera-
dor desse subgrupo, então {f i ; i = 1, . . . , p − 1} são os elementos
de Aut(Z/qZ) que têm ordem igual a p. Portanto, os homomorfis-
mos de Z/pZ em Aut(Z/qZ) são:
σ0 : Z/pZ −→ Aut(Z/qZ), (i.e., σ0 é o homomorfismo trivial),
1̄ 7−→ Id

σi : Z/pZ −→ Aut(Z/qZ), i = 1, . . . , p − 1.
i
1̄ 7−→ f
Naturalmente, o produto semidireto Z/pZ × Z/qZ é simples-
σ0
mente o produto direto Z/pZ × Z/qZ, que é isomorfo a Z/pqZ.
Agora, para i ∈ {1, . . . , p − 1}, a aplicação
ψi : Z/pZ −→ Z/pZ
1̄ 7−→ ī
é um isomorfismo tal que σ1 ◦ ψi = σi . Portanto, os produtos
semidiretos (Z/pZ) × (Z/qZ) e (Z/pZ) × (Z/qZ) são isomorfos pelo
σi σ1
Corolário V.9.11. Assim, neste Caso 2, obtemos que existem exata-
mente dois grupos de ordem pq:
Z/pqZ, (Z/pZ) × (Z/qZ).
σ1

Como caso particular, reobtemos que se q é um número primo


ı́mpar, então existem exatamente dois grupos de ordem 2q, a saber:
Z/2qZ e um grupo não abeliano que, necessariamente, é o grupo
dihedral Dq . Com isto, classificamos em particular os grupos de
ordem 6, 10 e 14.
Note que, querendo, pode-se representar o grupo não-abeliano
(Z/pZ) × (Z/qZ) por geradores e relações. Para isto, precisa-se de
σ1
278 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

uma descrição explı́cita de um elemento f de Aut(Z/qZ) que tenha


ordem p. Pela Proposição V.6.6, ((Z/qZ)∗ , · ) é um grupo cı́clico
q
de ordem q − 1; como p divide q − 1, existe v ∈ {1, . . . , q − 1} tal
que v̄ tem ordem p em ((Z/qZ)∗ , · ). Naturalmente, a aplicação
q

f : (Z/qZ, +) −→ (Z/qZ, +)
q q

1̄ 7−→ v̄
é um automorfismo pois v e q são relativamente primos. Agora,
temos f (1̄) = v̄, f 2 (1̄) = f (v̄) = f (1̄ + · · · + 1̄) = vf (1̄) = v̄ 2 e, por
indução, f i (1̄) = v̄ i , ∀ i ≥ 1; como v̄ tem ordem p em ((Z/qZ)∗ , · ),
q
temos f i (1̄) = v̄ i 6= 1̄, ∀ i ≤ p − 1, e f p (1̄) = 1̄. Logo, a aplicação
f é um automorfismo de ordem p. Agora, tomando a := (0̄, 1̄) e
b := (1̄, 0̄), é rotina verificar que


 (Z/pZ) · (Z/qZ) = ha, bi

 σ1
 q
a =e

 bp = e



ba = av b.
Evidentemente, se p = 2, então q − 1 é o (único) elemento de
{1, . . . , q−1} tal que q − 1 tenha ordem 2 em ((Z/qZ)∗ , · ); portanto,
q
neste caso, obtemos a apresentação


 (Z/2Z) × (Z/qZ) = ha, bi

 σ1
 q
a =e

 b2 = e



ba = aq−1 b,
a qual é a apresentação usual do grupo dihedral Dq através de
geradores e relações.

Grupos de ordem 8 :
Z/8Z, (Z/4Z) × (Z/2Z), (Z/2Z) × (Z/2Z) × (Z/2Z), D4 , Q3 ,
[SEC. VI.5: CLASSIFICAÇÃO DOS GRUPOS DE ORDEM ≤ 15 279

onde D4 é o grupo dihedral e Q3 é o grupo dos quaternios, cujas


apresentações por geradores e relações são dadas por:
 

 D4 = ha, bi 
Q3 = ha, bi

a 4 = e 
a4 = e


 b2 = e 

b 2 = a2
 
ba = a3 b; ba = a3 b.

Grupos de ordem 9 :

Z/9Z, (Z/3Z) × (Z/3Z).

Grupos de ordem 12 :
Seja G um grupo de ordem 12 = 22 · 3.
Pelo 1o¯ Teorema de Sylow, existe um subgrupo H de ordem 4
e existe um subgrupo K de ordem 3. Pelo 3o¯ Teorema de Sylow, o
número n3 de subgrupos de ordem 3 é igual a 1 ou 4. Se n3 = 1,
então K é normal em G. Se n3 = 4, então G possui 4 × 2 = 8
elementos de ordem 3; neste caso, sobram exatamente 4 elementos,
o que permite formar somente um subgrupo de ordem 4, que ne-
cessariamente será igual a H, e necessariamente será normal em G.
Assim temos 

G = HK
H ⊳ G ou K ⊳ G


H ∩ K = {e}.
Logo, pelo Teorema V.9.16, o grupo G é isomorfo a um produto
semidireto de um grupo de ordem 4 por um grupo de ordem 3, ou
a um produto semidireto de um grupo de ordem 3 por um grupo
de ordem 4. Pelos Exemplos V.9.4, V.9.5, V.9.6 e V.9.13, obtemos
então que existem exatamente 5 grupos de ordem 12:

Z/12Z, (Z/6Z) × (Z/2Z), D6 , A4 , (Z/4Z) × (Z/3Z),


τ1
280 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

onde

τ1 : Z/4Z −→ Aut(Z/3Z)
1̄ 7−→ f : Z/3Z → Z/3Z
1̄ 7→ 2̄.

Observação VI.5.1. É claro que Z/12Z, (Z/6Z) × (Z/2Z) e D6


têm somente dois elementos de ordem 3; foi verificado no Exemplo
V.9.5 que (Z/4Z) × (Z/3Z) também tem somente dois elementos
τ1
de ordem 3. Portanto, nenhum desses quatro grupos é isomorfo ao
grupo das permutações pares A4 , que tem ordem 12 e contém mais
do que dois elementos de ordem 3 (por exemplo, ele contém (123),
(132), (124)). Portanto, necessariamente, o grupo A4 é o grupo
(Z/3Z) × ((Z/2Z) × (Z/2Z)) com
σ1

σ1 : Z/3Z −→ Aut((Z/2Z) × (Z/2Z))


1̄ 7−→ µ1 ,

onde

µ1 ((1̄, 0̄)) = (0̄, 1̄), µ1 ((0̄, 1̄)) = (1̄, 1̄), µ1 ((1̄, 1̄)) = (1̄, 0̄).

Este é o grupo obtido no Exemplo V.9.13, e que, antes da hora,


mas com boas razões, tı́nhamos denotado pelo sı́mbolo A4 .

VI.6 Propriedades de A4 e A5
Começamos caracterizando o grupo alternado A4 entre os grupos
de ordem 12.

Proposição VI.6.1. Seja G um grupo de ordem 12. Então as


afirmações seguintes são equivalentes:

(i) G é isomorfo a A4 .

(ii) G não possui subgrupo de ordem 6.


[SEC. VI.6: PROPRIEDADES DE A4 E A5 281

(iii) G não possui elemento de ordem 6.

(iv) G tem exatamente quatro 3-subgrupos de Sylow.

Demonstração. Os grupos de ordem 12 (são exatamente cinco


deles) foram classificados na seção anterior. Portanto, para ter uma
prova da proposição, basta olhar na descrição desses cinco grupos
e observar que o grupo alternado A4 é o único deles a satisfazer
qualquer uma das propriedades (i)–(iv).
Vamos agora dar uma outra prova da proposição, prova esta que
não usa a classificação dos grupos de ordem 12.
Seja H um 3-subgrupo de Sylow de G e seja n3 o número de
3-subgrupos de Sylow de G; pelo 3o¯ Teorema de Sylow, sabemos
que n3 = 1 ou n3 = 4.

(i) ⇒ (ii) De fato, se G tivesse um subgrupo de ordem 6, tal


subgrupo seria normal em G o que, pelo Teorema V.10.22,
seria absurdo.

(ii) ⇒ (iii) Trivial.

(iii) ⇒ (iv) Suponhamos que n3 = 1. Então G possui exatamente


dois elementos de ordem 3 que são, digamos, os elementos
a e a2 . Os elementos de G que comutam com o elemento a
formam Z(a), o centralizador de a em G, e, pelo Teorema
VI.1.4, temos (G : Z(a)) = |Cℓ(a)| = 1 ou 2, pois claramente
Cℓ(a) ⊆ {a, a2 }. Portanto |Z(a)| = 6 ou 12; em todo caso,
existe b ∈ Z(a) que tem ordem 2. Agora, já que ab = ba com
O(a) = 3 e O(b) = 2, podemos concluir que O(ab) = 6, o que
contradiz a hipótese.

(iv) ⇒ (i) Seja C = {conjugados de H em G} e considere a repre-


sentação I : G → P(C). Temos ker I ⊆ NG (H) = H, pois
(G : NG (H)) = n3 = 4 = (G : H), e portanto |ker I| = 1 ou 3.
A suposição |ker I| = 3 é impossı́vel pois, neste caso, ker I
seria um 3-subgrupo de Sylow normal de G, o que estaria
em contradição com a hipótese n3 = 4. Logo |ker I| = 1 e
282 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

I : G → P(C) = S4 é um homomorfismo injetivo; sendo um


subgrupo de ordem 12 de S4 , I(G) é necessariamente igual a
A4 pelo Corolário V.10.23b) e, portanto, G ≃ A4 .
Proposição VI.6.2. As seguintes afirmações são verdadeiras:
1) O grupo A4 é um grupo de ordem 12 cujo único subgrupo
normal não trivial é o grupo de Klein:
K = {id, (12)(34), (13)(24), (14)(23)}.

2) O grupo A4 possui exatamente:


um elemento de ordem 1;
três elementos de ordem 2;
oito elementos de ordem 3.
3) O grupo A4 possui exatamente:
três subgrupos de ordem 2, todos eles conjugados entre si;
quatro subgrupos de ordem 3, todos eles conjugados entre si;
um subgrupo de ordem 4, isomorfo a (Z/2Z) × (Z/2Z);
nenhum subgrupo de ordem 6.
4) I(A4 ) ≃ A4 e Aut(A4 ) ≃ S4 .
Demonstração. 1), 2), 3). Essas propriedades de A4 já foram
vistas no Capı́tulo V, com a exceção da conjugação entre si dos
subgrupos de ordem 2. Verificamos que, por exemplo, os grupos
h(12)(34)i e h(14)(23)i são conjugados em A4 . Temos (123) ∈ A4 e
(123)(12)(34)(123)−1 = (14)(23).
4) Foi visto no Exercı́cio V.10.25.
Proposição VI.6.3. As seguintes afirmações são verdadeiras:
1) O grupo A5 é um grupo simples de ordem 60.
2) O grupo A5 possui exatamente:
um elemento de ordem 1;
quinze elementos de ordem 2;
vinte elementos de ordem 3;
vinte e quatro elementos de ordem 5.
[SEC. VI.6: PROPRIEDADES DE A4 E A5 283

3) O grupo A5 possui exatamente:


quinze subgrupos de ordem 2, todos eles conjugados entre si;
dez subgrupos de ordem 3, todos eles conjugados entre si;
cinco subgrupos de ordem 4, todos eles conjugados entre si;
todos eles são isomorfos a (Z/2Z) × (Z/2Z);
seis subgrupos de ordem 5, todos eles conjugados entre si;
dez subgrupos de ordem 6, todos eles conjugados entre si; to-
dos eles são isomorfos a S3 ;
seis subgrupos de ordem 10, todos eles conjugados entre si;
todos eles são isomorfos a D5 ;
cinco subgrupos de ordem 12, todos eles conjugados entre si;
todos eles são isomorfos a A4 ;
nenhum subgrupo de ordem 15, 20, 30.

4) I(A5 ) ≃ A5 e Aut(A5 ) ≃ S5 .

Demonstração. 1) É um caso particular do Teorema V.10.21.


2) Foi visto no Exercı́cio V.10.26.1).
3) As afirmações sobre os subgrupos de ordem 3, 4, 5 já foram
também vistas no Exercı́cio V.10.26.2). Deixamos ao letor a ve-
rificação de que A5 não possui subgrupos de ordem 15, 20, 30.
Provaremos agora as afirmações feitas sobre os subgrupos de ordem
2, 6, 10, 12.

Subgrupos de Ordem 2: O grupo alternado A5 possui 15 sub-


grupos de ordem 2 pois, em A5 , existem 15 elementos de ordem
2. Pelo Exercı́cio V.10.26.1), esses elementos são produtos de duas
transposições disjuntas. Como no caso de A4 , é fácil verificar que
esses elementos são conjugados entre si em A5 .

Subgrupos de Ordem 12: Claramente, as permutações pares dos


conjuntos {1, 2, 3, 4}, {1, 2, 3, 5}, {1, 2, 4, 5}, {1, 3, 4, 5} e {2, 3, 4, 5}
nos dão 5 subgrupos de ordem 12 de A5 , todos eles isomorfos a
A4 . Observe que, pelo Exercı́cio V.10.26.2), A5 possui exatamente
cinco subgrupos de ordem 4 e que cada um destes se encontra em
284 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

exatamente um dos subgrupos de ordem 12 exibidos acima. Su-


ponhamos agora que exista um outro subgrupo H de ordem 12 de
A5 . Tal subgrupo H não pode conter somente um subgrupo K de
ordem 4, pois, se contivesse, o subgrupo K seria normal em H, logo
NA5 (K) conteria estritamente H, pois sabemos que K também é
normal em algum dos cinco subgrupos de ordem 12 já exibidos.
Logo NA5 (K) seria igual a A5 , pois A5 não tem subgrupo próprio
de ordem > 12, o que seria absurdo pois A5 é simples. Assim, tal
subgrupo H contém mais do que um subgrupo de ordem 4, logo
H não é isomorfo a A4 e, pela Proposição VI.6.1, tal subgrupo H
possui um elemento de ordem 6. Isto é absurdo, pois já sabemos
que A5 possui nenhum elemento de ordem 6.
Assim, o grupo alternado A5 possui exatamente cinco subgru-
pos de ordem 12, todos eles isomorfos a A4 . Seja H um deles;
como A5 é simples, temos necessariamente NA5 (H) = H, logo
(A5 : NA5 (H)) = (A5 : H) = 5 e, portanto, todos os cinco sub-
grupos de ordem 12 de A5 são conjugados entre si.

Subgrupos de Ordem 10: Seja H = h(12345), (14)(23)i. O


grupo H é um subgrupo de ordem 10; de fato, como

(14)(23)(12345)(14)(23) = (15432) = (12345)4 ∈ h(12345)i,

temos h(12345)i⊳H; logo h(12345), (14)(23)i = h(12345)ih(14)(23)i,


e portanto, |H| = 5 · 2 = 10. Como A5 é simples, e como A5 não
possui subgrupos de ordem 20 ou 30, temos NA5 (H) = H; logo
(A5 : NA5 (H)) = 6 e portanto H possui exatamente seis conjuga-
dos. Agora, observe que se K1 e K2 são dois subgrupos quaisquer
distintos de ordem 10 de A5 , se L1 é o subgrupo de ordem 5 con-
tido em K1 , e L2 é o subgrupo de ordem 5 contido em K2 , então
L1 6= L2 , pois senão terı́amos L1 ⊳ hK1 , K2 i, onde hK1 , K2 i = A5
(pois hK1 , K2 i contém K1 de maneira própria), o que seria absurdo,
pois A5 é simples. Como sabemos existir somente seis subgrupos
de ordem 5 em A5 , obtemos que existem no máximo seis subgrupos
de ordem 10 em A5 . Logo, o grupo alternado A5 possui exatamente
seis subgrupos de ordem 10, todos eles conjugados entre si. Note
que o subgrupo H é isomorfo ao grupo dihedral D5 .
[SEC. VI.7: EXERCÍCIOS 285

Subgrupos de Ordem 6: Seja H = h(123), (23)(45)i. O grupo H


é um subgrupo de ordem 6; de fato, como (23)(45)(123)(23)(45) =
(132) ∈ h(123)i, temos h(123)i ⊳ H; logo h(123), (23)(45)i =
h(123)ih(23)(45)i e portanto |H| = 3 · 2 = 6. Como A5 é sim-
ples, e como A5 não possui nenhum subgrupo de ordem 30, temos
|NA5 (H)| = 6 ou 12. A suposição |NA5 (H)| = 12 é impossı́vel, pois
já sabemos que os subgrupos de ordem 12 de A5 são isomorfos a
A4 , e já sabemos que A4 não possui nenhum subgrupo de ordem
6. Logo NA5 (H) = H, (A5 : NA5 (H)) = (A5 : H) = 10, e assim
H possui exatamente dez conjugados em A5 . Agora, observe que
se K1 e K2 são dois subgrupos quaisquer distintos de ordem 6 de
A5 , se L1 é o subgrupo de ordem 3 contido em K1 e L2 o subgrupo
de ordem 3 contido em K2 , então L1 6= L2 pois senão terı́amos
L1 ⊳ hK1 , K2 i, onde hK1 , K2 i é um subgrupo de A5 de ordem 12
ou 60 (pois hK1 , K2 i contém K1 de maneira própria), isto é, onde
hK1 , K2 i é um subgrupo isomorfo a A4 ou a A5 , o que seria ab-
surdo, pois sabemos que nem A4 , nem A5 , possuem um subgrupo
normal de ordem 3. Como sabemos existir somente dez subgrupos
de ordem 3 em A5 , obtemos que existe no máximo dez subgrupos
de ordem 6 em A5 . Logo, o grupo alternado A5 possui exatamente
dez subgrupos de ordem 6, todos eles conjugados entre si. Note que
o subgrupo H é isomorfo ao grupo de permutações S3 .
4) Foi visto no Exercı́cio 51 do Capı́tulo V.

VI.7 Exercı́cios

1. Sejam p um número primo e G um grupo não-abeliano de


ordem p3 . Mostre que |Z(G)| = p. Mostre que Z(G) = G′ e
que G/Z(G) ≃ Z/pZ × Z/pZ.

2. Mostre que se G é um grupo finito com apenas duas classes


de conjugação, então |G| = 2.

3. Seja G um grupo de ordem 112 · 132 . Mostre que G é um


grupo abeliano.
286 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

4. Sejam p um número primo e G um grupo finito. Sejam H um


subgrupo normal de G e S um p-subgrupo de Sylow de G.
a) Mostre que H ∩ S é um p-subgrupo de Sylow de H.
b) Mostre que SH/H é um p-subgrupo de Sylow de G/H.
Dica: Analise os ı́ndices no diagrama seguinte:
G

SH

/ \

S H

\ /

S∩H

5. Seja G um grupo abeliano finito. Mostre que G é isomorfo ao


produto direto de seus subgrupos de Sylow.
6. Seja G um grupo abeliano finito. Seja m um inteiro que divide
|G|. Mostre que existe um subgrupo K de G tal que |K| = m
(i.e., a recı́proca de teorema de Lagrange vale para os grupos
abelianos finitos).
7. a) Seja G um grupo abeliano finito. Mostre que existe uma
série de subgrupos G = H0 ⊲ H1 ⊲ · · · ⊲ Hn = {e} tal que
Hi /Hi+1 é cı́clico de ordem prima, ∀ i = 0, . . . , n − 1.
b) Sejam G um grupo e K um subgrupo normal de G tais
que G/K seja abeliano finito. Mostre que existe uma série de
subgrupos G = H0 ⊲ H1 ⊲ · · · ⊲ Hn = K tal que Hi /Hi+1 é
cı́clico de ordem prima, ∀ i = 0, . . . , n − 1.
[SEC. VI.7: EXERCÍCIOS 287

8. Sejam p < q dois números primos e G um grupo de ordem pq.


a) Mostre que G é abeliano se e somente se ele possui um só
p-subgrupo de Sylow.
b) Se G não é abeliano, mostre que G é isomorfo a um sub-
grupo de Sq , mas não é isomorfo a um subgrupo de Sq−1 .
c) Se G é abeliano, mostre que G é isomorfo a um subgrupo
de Sp+q , mas não é isomorfo a um subgrupo de Sp+q−1 .
9. Seja r um inteiro, G um grupo infinito e H um subgrupo tal
que (G : H) = r. Mostre que existe um subgrupo K ⊆ H,
normal em G, tal que (G : K) ≤ r! .
10. Sejam p, q dois números primos tais que p < q < 2p, n um
inteiro ≥ 1 e G um grupo de ordem pn q. Mostre que se
{p, q} 6= {2, 3}, então G possui um subgrupo normal de ordem
pn . Se p = 2 e q = 3, mostre que existe um subgrupo normal
de ordem 2n ou 2n−1 .
11. a) Seja G um grupo de ordem 22 · 3n , com n ≥ 1. Mostre que
G possui um subgrupo normal de ordem 3n ou 3n−1 .
b) Analisando o grupo A4 , mostre que um grupo de ordem
22 · 3n pode não ter subgrupo normal de ordem 3n .
12. a) Sejam p < q dois números primos, q 6= 3, n ≥ 1 um
inteiro e G um grupo de ordem p2 q n . Mostre que G possui um
subgrupo normal de ordem q n . Mostre que G é um produto
semidireto de um grupo de ordem q n por um de ordem p2 .
b) Mostre que, a menos de isomorfismos, existem exatamente
5 grupos de ordem 20 = 22 · 5.
c) Mostre que, a menos de isomorfismos, existem exatamente
4 grupos de ordem 28 = 22 · 7.
d) Mostre que, a menos de isomorfismos, existem exatamente
2 grupos de ordem 45 = 32 · 5.
288 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

e) (Generalização dos items b)-d)). Sejam p < q dois números


primos, q 6= 3. Classifique os grupos de ordem p2 q.

Dica: Considere os 3 casos seguintes: p2 divide q − 1, p2 não


divide q − 1 mas p divide q − 1, p não divide q − 1.

Observação: O caso p = 2, q = 3 (i.e., o caso |G| = 12) é


diferente e foi tratado na Seção 5 deste capı́tulo.

13. a) Sejam p < q dois números primos, n ≥ 1 um inteiro, e G


um grupo de ordem pq n . Mostre que G possui um subgrupo
normal de ordem q n . Mostre que G é um produto semidireto
de um grupo de ordem q n por Z/pZ.

b) Seja q 6= 2 um número primo. Mostre que, a menos de iso-


morfismos, existem exatamente 2 grupos abelianos e 3 grupos
não abelianos de ordem 2q 2 .

Dica: Vai ser necessário encontrar os elementos de ordem 2


de Aut(Z/qZ × Z/qZ). Claramente, ψ : Z/qZ × Z/qZ →
Z/qZ × Z/qZ definido por ψ((i, j)) = (−i, −j), ∀ (i, j), é um
tal elemento.
Verifique que ∀ ϕ ∈ Aut(Z/qZ×Z/qZ), ϕ de ordem 2, ϕ 6= ψ,
existe (iϕ , j ϕ ) ∈ Z/qZ × Z/qZ tal que ϕ((iϕ , j ϕ )) ∈ / {(iϕ , j ϕ ),
(−iϕ , −j ϕ )}, logo tal que ϕ((iϕ , j ϕ )) ∈
/ h(iϕ , j ϕ )i. Note então
′ ′
que, tomando (iϕ , j ϕ ) := ϕ((iϕ , j ϕ )), o automorfismo ϕ é
′ ′
completamente determinado por ϕ((iϕ , j ϕ )) = (iϕ , j ϕ ) e por
′ ′
ϕ((iϕ , j ϕ )) = (iϕ , j ϕ ).
Verifique finalmente que ∀ ϕ1 , ϕ2 ∈ Aut(Z/qZ×Z/qZ), ϕ1 , ϕ2
de ordem 2, ϕ1 6= ψ 6= ϕ2 , existe µ ∈ Aut(Z/qZ × Z/qZ) tal
que o seguinte diagrama comuta:
µ
Z/qZ × Z/qZ ←− Z/qZ × Z/qZ
ϕ1 ↓ ↓ ϕ2
µ−1
Z/qZ × Z/qZ −→ Z/qZ × Z/qZ
[SEC. VI.7: EXERCÍCIOS 289

14. a) Sejam p1 < p2 < · · · < ps números primos,


n1 , n2 , . . . , ns ≥ 1 inteiros e G um grupo de ordem pn1 1 pn2 2 . . . pns s .
Suponha que exista um subgrupo H tal que (G : H) = p1 .
Mostre que H é normal em G.
b) (Generalização de a)). Sejam r, t dois inteiros tais que
r ≤ p para todo fator irredutı́vel p de t e seja G um grupo de
ordem rt. Suponha que exista um subgrupo H de G tal que
(G : H) = r. Mostre que H é normal em G.
15. a) Sejam ℓ < p < q três números primos e G um grupo
de ordem ℓpq. Mostre que G possui um subgrupo normal de
ordem q. Mostre que G é um produto semidireto de um grupo
de ordem pq por Z/ℓZ. (Dica: Utilize o exercı́cio anterior).
b) Mostre que, a menos de isomorfismos, Z/455Z é o único
grupo de ordem 455 = 5 · 7 · 13.
c) Mostre que, a menos de isomorfismos, existem exatamente
dois grupos de ordem 231 = 3 · 7 · 11, sendo um cı́clico e um
não abeliano.
d) Mostre que, a menos de isomorfismos, existem exatamente
dois grupos de ordem 385 = 5 · 7 · 11, sendo um cı́clico e um
não abeliano.
e) (Generalização dos items b)-d)). Sejam ℓ < p < q três
números primos tais que p ∤ (q − 1) e [ℓ ∤ (p − 1) ou ℓ ∤ (q − 1)].
Classifique os grupos de ordem ℓpq.
16. a) Sejam ℓ < p < q três números primos tais que:
p ∤ (q − 1), ℓ|(p − 1), ℓ|(q − 1).
Mostre que a menos de isomorfismos, existem pelo menos um,
e no máximo ℓ + 1, grupos não abelianos de ordem ℓpq.
b) Mostre que a menos de isomorfismos, existem exatamente
um grupo abeliano e três não-abelianos de ordem 30 = 2· 3 · 5.
Dica: Calcule a ordem dos elementos dos grupos.
290 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES

c) Mostre que a menos de isomorfismos, existem exatamente


um grupo abeliano e quatro grupos não abelianos de ordem
273 = 3 · 7 · 13.

17. a) Seja G um grupo de ordem 42 = 2 · 3 · 7. Seja H um


subgrupo de ordem 3. Mostre que |NG (H)| = 6 ou 42. Mostre
que G possui um subgrupo de ordem 6.

b) Mostre que existem exatamente um grupo abeliano e cinco


grupos não abelianos de ordem 42.

18. a) (Generalização do Corolário VI.3.6) Sejam p um número


primo, n ≥ 1 um inteiro e G um grupo de ordem pn b com
M DC{p − 1, b} = 1. Seja H um subgrupo normal de ordem
p. Mostre que H ⊆ Z(G).
Dica: Como na prova da Proposição VI.3.5, considere a repre-
sentação por conjugação I : G → P(H0 ). Agora, utilizando o
fato de todo elemento 6= e de H ser um gerador de H, mostre
que se h1 , h2 ∈ H, h1 6= e 6= h2 , então os estabilizadores E(h1 )
e E(h2 ) são iguais.

b) Seja G um grupo não abeliano de ordem 231 = 3 · 7 · 11.


Mostre que |Z(G)| = 11

c) Seja G um grupo não abeliano de ordem 385 = 5 · 7 · 11.


Mostre que |Z(G)| = 7.

19. Analisando o grupo A4 , mostre que é possivel ter um grupo


G de ordem pn b com p primo, M DC{p − 1, b} = 1 e um
subgrupo normal H de ordem p2 tal que H ∩ Z(G) = {e}.
(Assim, a Proposição VI.3.5 não pode ser generalizada neste
contexto).

20. Seja G um grupo de ordem 24 = 23 · 3. Mostre que G ≃ S4


se e somente se n3 = 4 e n2 = 3.

21. Mostre que Aut(Q3 ) ≃ S4 .


[SEC. VI.7: EXERCÍCIOS 291

22. (Exercı́cio muito trabalhoso). Mostre que, a menos de iso-


morfismos, existem exatamente 15 grupos de ordem 24.

Dica: Observe que pelo Teorema V.9.16 e pelo Exercı́cio 20,


o grupo G é um produto semidireto se |G| = 24, G 6≃ S4 .

23. Procure todos os subgrupos de S4 e de S5 .

24. Suponha que existam apenas duas órbitas para uma operação
de um grupo G num conjunto finito C, órbitas estas com
cardinalidades m e n, respectivamente. Use esta operação
para definir um homomorfismo de grupos entre o grupo G e
o produto Sm × Sn .
292 [CAP. VI: ESTUDO DE UM GRUPO VIA REPRESENTAÇÕES
Capı́tulo VII

Grupos Solúveis

VII.1 Teorema de Jordan-Hölder


Definição VII.1.1. Seja G um grupo. Uma série subnormal de G
é uma cadeia de subgrupos

G = G0 ⊲ G1 ⊲ G2 ⊲ · · · ⊲ Gn = {e} (*)

onde Gi+1 é um subgrupo normal de Gi , para i = 0, 1, . . . , n − 1.

Os grupos quocientes da série (*) são os grupos Gi /Gi+1 , para


i = 0, 1, . . . , n − 1. Numa série subnormal, o mesmo subgrupo pode
ser repetido, e portanto alguns dos grupos quocientes podem ser
triviais. O comprimento da série subnormal (*) é o número de
inclusões estritas ou, equivalentemente, o número de grupos quo-
cientes não-triviais.
Um refinamento da série subnormal (*) é uma série subnor-
mal obtida a partir de (*) pela inserção de alguns (possivelmente
nenhum) subgrupos. O refinamento é próprio se algum subgrupo
distinto dos já existentes é inserido na série.
A série subnormal (*) é uma série de composição se ela não
admite um refinamento próprio.

293
294 [CAP. VII: GRUPOS SOLÚVEIS

Exercı́cio VII.1.2. Verifique que as afirmações seguintes são


equivalentes:

(i) A série subnormal (*) é uma série de composição.

(ii) ∀ i = 0, 1, . . . , n − 1, o grupo Gi /Gi+1 é um grupo simples.

Observação VII.1.3. 1) Nem todo grupo admite uma série de


composição; por exemplo, o grupo aditivo (Z, +) não admite uma
tal série (Verifique).
2) Todo grupo finito G 6= {e} admite uma série de composição.
Afirmamos primeiro que existe um subgrupo G1 de G que satisfaz
(
G1 $ G
G1 ⊳ G

e que é maximal para esta propriedade, isto é, tal que



G1 ⊆ H $ G
⇒ G1 = H.
H ⊳G

De fato, o subgrupo {e} está estritamente contido em G e é normal


em G. Caso ele seja maximal para essa propriedade, podemos tomar
G1 = {e}; caso contrário, por definição mesmo, existe um subgrupo
H % {e} que satisfaz H $ G e H ⊳ G. Caso H seja maximal para
essa propriedade, podemos tomar G1 = H; caso contrário, por
definição mesmo, existe um subgrupo H ′ % H que satisfaz H ′ $ G
e H ′ ⊳ G. Caso H ′ seja maximal para essa propriedade, podemos
tomar G1 = H ′ ; caso contrário, continuamos o processo; este deve
necessariamente parar pois obtemos subgrupos H, H ′ , . . . cada vez
maiores, enquanto que o grupo G é finito.
Mostramos agora que G possui uma série de composição. Pela
afirmação, existe um subgrupo G1 de G que satisfaz G1 $ G e
G1 ⊳ G, e que é maximal para esta propriedade. Se G1 = {e},
acabou: G ⊲ G1 = {e} é uma série de composição. Se G1 6= {e},
pela afirmação aplicada ao grupo G1 , obtemos a existência de um
subgrupo G2 de G1 que satisfaz G2 $ G1 e G2 ⊳G1 , e que é maximal
[SEC. VII.1: TEOREMA DE JORDAN-HÖLDER 295

para esta propriedade. Se G2 = {e}, acabou: G ⊲ G1 ⊲ G2 = {e}


é uma série de composição. Se G2 6= {e}, continuamos o processo
aplicando a afirmação ao grupo G2 . Esse processo deve necessaria-
mente acabar pois obtemos subgrupos G1 , G2 , . . . cada vez menores,
enquanto que o grupo G é finito.
Definição VII.1.4. Sejam
G = G0 ⊲ G1 ⊲ · · · ⊲ Gn = {e} (*)
e
G = H0 ⊲ H1 ⊲ · · · ⊲ Hm = {e} (**)
duas séries subnormais de G. Elas são ditas equivalentes se existe
uma bijeção entre os grupos quocientes não-triviais da série (*)
e os da série (**) tal que os grupos quocientes correspondentes
são isomorfos. Observe que duas séries subnormais de G que são
equivalentes possuem o mesmo comprimento. Observe também que
se (**) é um refinamento de (*), então este refinamento é próprio
se e só se as séries (*) e (**) não são equivalentes.
Exemplo VII.1.5. 1)
Z
= h1̄i ⊲ h5̄i ⊲ h10i ⊲ {0̄}
30Z
k k k k
G0 G1 G2 G3
é uma série de composição de Z/30Z. Verifique que os grupos quo-
cientes desta série são:
G0 Z G1 Z G2 Z
≃ , ≃ , ≃ .
G1 5Z G2 2Z G3 3Z

2) A série dada no exemplo acima é um refinamento dela mesma;


ela também é um refinamento das séries abaixo:
Z
= h1̄i ⊲ h5̄i ⊲ {0̄}
30Z
Z
= h1̄i ⊲ h10i ⊲ {0̄}.
30Z
296 [CAP. VII: GRUPOS SOLÚVEIS

Note que as duas séries subnormais de Z/30Z acima não são equi-
valentes e também não são refinamentos uma da outra.
3) As seguintes séries subnormais de Z/30Z são séries de com-
posição de Z/30Z:

Z
= h1̄i ⊲ h5̄i ⊲ h10i ⊲ {0̄}
30Z
k k k k
G0 G1 G2 G3

Z
= h1̄i ⊲ h2̄i ⊲ h6̄i ⊲ {0̄}
30Z
k k k k
H0 H1 H2 H3

Z
= h1̄i ⊲ h2̄i ⊲ h10i ⊲ {0̄}
30Z
k k k k .
K0 K1 K2 K3
Observe que elas são todas equivalentes, pois temos:

G0 Z G1 Z G2 Z
≃ , ≃ , ≃ .
G1 5Z G2 2Z G3 3Z

H0 Z H1 Z H2 Z
≃ , ≃ , ≃ .
H1 2Z H2 3Z H3 5Z
K0 Z K1 Z K2 Z
≃ , ≃ , ≃ .
K1 2Z K2 5Z K3 3Z
As séries de composição de Z/30Z dadas acima são equivalentes;
o fato surpreendente é que isto é verdade para qualquer grupo G:
duas séries de composição de G são sempre equivalentes. Este re-
sultado é o teorema de Jordan-Hölder e provamos agora um lema
que será usado na demonstração deste teorema.
[SEC. VII.1: TEOREMA DE JORDAN-HÖLDER 297

Lema VII.1.6. (Lema de Zassenhaus). Sejam H, H1 , K, K1 quatro


subgrupos de um grupo G tais que H1 ⊳ H e K1 ⊳ K. Então:

1)

H1 (H ∩ K1 ) ⊳ H1 (H ∩ K)
K1 (H1 ∩ K) ⊳ K1 (H ∩ K)

2)

H1 (H ∩ K) K1 (H ∩ K)
≃ .
H1 (H ∩ K1 ) K1 (H1 ∩ K)

Demonstração. 1) Como H1 ⊳ H e como H ∩ K1 < H, então


H1 (H ∩ K1 ) é um subgrupo de H, logo também um subgrupo de G.
Analogamente, H1 (H ∩ K), K1 (H1 ∩ K) e K1 (H ∩ K) são também
subgrupos de G.
Agora, queremos mostrar que H1 (H ∩ K1 ) ⊳ H1 (H ∩ K), isto é,
que ∀ x ∈ H1 , ∀ y ∈ H ∩K, vale xyH1 (H ∩K1 )(xy)−1 = H1 (H ∩K1 ).
Ora, temos:

xyH1 (H ∩ K1 )(xy)−1 = x[yH1 (H ∩ K1 )y −1 ]x−1


= x[yH1 y −1 · y(H ∩ K1 )y −1 ]x−1

H ⊳ H K ⊳ K
= xH1 · (H ∩ K1 )x −1
pois 1 e 1
y∈H y ∈H ∩K
= H1 (H ∩ K1 )x−1 pois x ∈ H1
= (H ∩ K1 )H1 x−1 pela Proposição V.4.9
= (H ∩ K1 )H1 pois x−1 ∈ H1
= H1 (H ∩ K1 ) pela Proposição V.4.9.

A prova de que K1 (H1 ∩ K) ⊳ K1 (H ∩ K) é análoga.


298 [CAP. VII: GRUPOS SOLÚVEIS

2) Temos o diagrama

: :

Queremos mostrar que HH11(H∩K


(H∩K)
1)
≃ KK11(H
(H∩K)
1 ∩K)
. Para isto, vamos
mostrar que ambos são isomorfos a (H∩KH∩K 1 )(H1 ∩K)
. Verifique que
H1 (H ∩ K) = AB e que (H ∩ K1 )(H1 ∩ K) = A ∩ B. Pelo item
1), sabemos que A ⊳ AB. Portanto, pelo Corolário V.5.9, temos o
isomorfismo AB
A
B
≃ A∩B , isto é, HH11(H∩K
(H∩K)
1)
≃ (H∩KH∩K 1 )(H1 ∩K)
. A prova
K1 (H∩K) H∩K
de que K1 (H1 ∩K)
≃ (H∩K1 )(H1 ∩K)
é análoga.

Teorema VII.1.7. (Teorema de Schreier). Duas séries subnor-


mais de um grupo G possuem refinamentos que são equivalentes.

Demonstração. Sejam

G = G0 ⊲ G1 ⊲ G2 ⊲ · · · ⊲ Gn = {e}, (*)
G = H0 ⊲ H1 ⊲ H2 ⊲ · · · ⊲ Hm = {e}, (**)

duas séries subnormais de G. Na série (*), entre cada Gi e Gi+1 ,


coloque os grupos Gi+1 (Gi ∩ Hj ) para 0 ≤ j ≤ m:

Gi = Gi+1 (Gi ∩H0 ) ⊃ Gi+1 (Gi ∩H1 ) ⊃ · · · ⊃ Gi+1 (Gi ∩Hm ) = Gi+1 .

O refinamento da série (*) assim obtido ainda é uma série


subnormal de G. De fato, aplicando a parte 1) do Lema de
Zassenhaus aos quatro subgrupos Gi , Gi+1 , Hj e Hj+1 , obtemos que
[SEC. VII.1: TEOREMA DE JORDAN-HÖLDER 299

Gi+1 (Gi ∩ Hj+1 ) ⊳ Gi+1 (Gi ∩ Hj ). Agora, na série (**), entre cada
Hj e Hj+1 , coloque os grupos Hj+1 (Gi ∩ Hj ) para 0 ≤ i ≤ n:
Hj = Hj+1 (G0 ∩Hj ) ⊃ Hj+1 (G1 ∩Hj ) ⊃ · · · ⊃ Hj+1 (Gn ∩Hj ) = Hj+1 .
Que o refinamento de (**) assim obtido seja ainda uma série subnor-
mal também segue da parte 1) do Lema de Zassenhaus. Indicando
por (∗)R e (∗∗)R os refinamentos de (*) e (**) obtidos acima, afir-
mamos que (∗)R é equivalente a (∗∗)R . De fato, pela parte 2) do
Lema de Zassenhaus, para 0 ≤ i ≤ n − 1 e 0 ≤ j ≤ m − 1, temos:
Gi+1 (Gi ∩ Hj ) Hj+1 (Gi ∩ Hj )
≃ ;
Gi+1 (Gi ∩ Hj+1 ) Hj+1 (Gi+1 ∩ Hj )
Gi+1 (Gi ∩Hj )
por outro lado, os grupos Gi+1 (Gi ∩Hj+1 )
são os grupos quocientes
Hj+1 (Gi ∩Hj )
da série (∗)R e os grupos Hj+1 (Gi+1 ∩Hj )
são os
grupos quocientes da
série (∗∗)R ; isto prova a afirmação que os refinamentos (∗)R e (∗∗)R
são equivalentes.
Teorema VII.1.8. (Teorema de Jordan-Hölder). Seja G um grupo.
Então todas as séries de composição de G são equivalentes.
Demonstração. Pela própria definição, os únicos refinamentos
possı́veis de uma série de composição são refinamentos não-próprios,
logo refinamentos que são equivalentes à série de composição dada.
Agora, séries de composição são em particular séries subnormais;
logo, pelo Teorema de Schreier, duas séries de composição possuem
refinamentos equivalentes e portanto são elas próprias equivalentes.

Observação VII.1.9. O Teorema de Jordan-Hölder mostra que


os grupos finitos simples formam a base para o estudo dos grupos
finitos. Uma questão difı́cil é saber como recuperar o grupo G a
partir dos grupos quocientes de uma série de composição para o
grupo G. O exemplo de duas séries de composição abaixo mostra
que a informação sobre os grupos quocientes não é suficiente para
determinar o grupo; considere as séries
Z Z Z Z
2
= h1̄i ⊲ hp̄i ⊲ {0̄} e × ⊲ × {0̄} ⊲ {0̄} × {0̄}.
pZ pZ pZ pZ
300 [CAP. VII: GRUPOS SOLÚVEIS

As duas séries de composição acima têm os mesmos grupos quo-


Z
cientes, embora os grupos pZ2 Z e pZ Z
× pZ não sejam isomorfos.

VII.2 Grupos Solúveis


Os grupos finitos que possuem uma série de composição cujos gru-
pos quocientes são cı́clicos de ordem prima são particularmente
importantes na resolução de equações algébricas. Em vista disto,
apresentaremos algumas propriedades destes grupos.
Se H, K são dois subgrupos de um grupo G, definimos seu grupo
de comutadores por [H, K] := hhkh−1 k −1 | h ∈ H, k ∈ Ki; em
particular, o grupo dos comutadores G′ é igual a [G, G]. Defini-
mos, por indução, G(0) = G e G(i+1) = [G(i) , G(i) ], isto é, G(i+1) é o
subgrupo dos comutadores do grupo G(i) , para cada i = 0, 1, 2, . . . .

Proposição VII.2.1. Seja G um grupo. As seguintes condições


são equivalentes:

(i) O grupo G possui uma série subnormal cujos grupos quo-


cientes são abelianos.

(ii) Existe um inteiro n tal que G(n) = {e}.

No caso de G ser finito, elas são também equivalentes a:

(iii) O grupo G possui uma série de composição cujos grupos quo-


cientes são abelianos (e portanto, são cı́clicos de ordem prima).

Demonstração. (i) ⇒ (ii). Seja

G = G0 ⊲ G1 ⊲ · · · ⊲ Gr = {e}

uma série subnormal com Gi /Gi+1 abeliano, ∀ i = 0, . . . , r − 1.


Sendo G0 /G1 abeliano, sabemos pela Proposição V.4.7 que G1 ⊇
(G0 )′ = G(1) . Sendo G1 /G2 abeliano, temos G2 ⊇ (G1 )′ ⊇ (G(1) )′ =
G(2) . Sendo G2 /G3 abeliano, temos G3 ⊇ (G2 )′ ⊇ (G(2) )′ = G(3) .
[SEC. VII.2: GRUPOS SOLÚVEIS 301

Continuando desta maneira, obtemos que Gi ⊇ G(i) , ∀ i = 0, . . . , r;


em particular, obtemos que G(r) = {e}.
(ii) ⇒ (i). Considere a seguinte série:
G = G(0) ⊲ G(1) ⊲ G(2) ⊲ · · · ⊲ G(n) = {e}.
Pela Proposição V.4.7, ela é uma série subnormal cujos grupos quo-
cientes são abelianos.
Suponhamos agora que G é um grupo finito.
(iii) ⇒ (i). Trivial.
(i) ⇒ (iii). Seja G = G0 ⊲ G1 ⊲ · · · ⊲ Gr = {e} uma série subnormal
com Gi /Gi+1 abeliano, ∀ i = 0, . . . , r − 1. Sendo G um grupo finito,
então cada quociente Gi /Gi+1 é um grupo abeliano finito. Podemos
aplicar a Observação VII.1.3 a este grupo quociente para obter uma
série de subgrupos entre Gi e Gi+1 tal que cada grupo quociente
desta série é cı́clico de ordem prima. Fazendo isto para todo ı́ndice
i = 0, . . . , r−1, obtemos uma série de composição de G cujos grupos
quocientes são cı́clicos de ordem prima.
Definição VII.2.2. Um grupo é dito solúvel se ele satisfaz as
condições equivalentes da Proposição VII.2.1.
Definição VII.2.3. Uma série de subgrupos de um grupo G
G = G0 > G1 > G2 > · · · > Gr = {e}
é dita uma série normal de G se temos Gi ⊳ G, para cada ı́ndice
i = 0, 1, . . . , r. Em particular, uma série normal de G é uma série
subnormal de G.
Observação VII.2.4. Seja G um grupo solúvel finito.
1) A série G ⊲ G(1) ⊲ G(2) ⊲ · · · ⊲ G(n) = {e} é uma série normal de G
cujos grupos quocientes são abelianos (Verifique).
2) O grupo G possui uma série subnormal cujos grupos quocientes
são cı́clicos de ordem prima; no entanto, o grupo G não possui
em geral uma série normal cujos grupos quocientes sejam cı́clicos
de ordem prima (Vide exercı́cio abaixo). Quando possuir uma tal
série normal, diz-se que o grupo G é supersolúvel .
302 [CAP. VII: GRUPOS SOLÚVEIS

Exercı́cio VII.2.5. Mostre que A4 e S4 são solúveis mas não são


supersolúveis.
Exercı́cio VII.2.6. Seja G um grupo finito que possui uma série
normal G = H0 ⊲ H1 ⊲ · · · ⊲ Hr = {e} com grupo quociente Hi /Hi+1
cı́clico, para cada i = 0, 1, . . . , r − 1.
1) Mostre que qualquer refinamento desta série é ainda normal.
2) Mostre que G possui uma série normal cujos grupos quocientes
são cı́clicos de ordem prima, isto é, o grupo G é supersolúvel.
Exemplo VII.2.7. 1) Todo grupo abeliano é solúvel.
2) Todo p-grupo finito é solúvel (vide Corolário VI.3.4).
3) Todo grupo finito de ordem pa q b (onde p e q são primos) é solúvel.
(Este é um resultado obtido por Burnside em 1904; ver M. Hall Jr.,
The Theory of Groups, Theorem 16.8.7, p. 291).
4) Todo grupo finito de ordem ı́mpar é solúvel. (Este é um resultado
profundo devido a Feit e Thompson: Solvability of groups of odd
order , Pacific J. Math. 13 (1963), p. 775–1029).
5) Claramente, todo grupo simples não-abeliano não é solúvel; em
particular, se n ≥ 5, então o grupo alternado An não é solúvel.
6) Se n ≥ 5, então o grupo de permutações Sn não é solúvel (vide
Corolário V.10.23).
Teorema VII.2.8. Seja G um grupo.
1) Seja H um subgrupo de G. Se G é solúvel, então H é solúvel.
2) Seja H um subgrupo normal de G. Então, o grupo G é solúvel
se e somente se os grupos H e G/H são solúveis.
Demonstração. 1) É claro que H (i) ⊆ G(i) , ∀ i ≥ 0. Se G é
solúvel, então existe n tal que G(n) = {e}, portanto também tal
que H (n) = {e}; logo o subgrupo H é solúvel.
2) Seja ϕ : G → G/H o homomorfismo canônico. É fácil ver que
ϕ(G′ ) = (ϕ(G))′ ; então temos ϕ(G(2) ) = ϕ((G(1) )′ ) = (ϕ(G(1) ))′ =
((ϕ(G))′ )′ = (ϕ(G))(2) e, por indução, temos ϕ(G(i) ) = (ϕ(G))(i) =
(G/H)(i) , ∀ i ≥ 0. Suponha que G seja solúvel e seja n um in-
teiro tal que G(n) = {e}; temos então H (n) = {e} e (G/H)(n) =
[SEC. VII.2: GRUPOS SOLÚVEIS 303

ϕ(G(n) ) = ϕ({e}) = {e}, isto é, os grupos H e G/H são solúveis.


Reciprocamente, suponha que os grupos H e G/H sejam solúveis,
e sejam n e m inteiros tais que H (n) = {e} e (G/H)(m) = {e}.
Como {e} = (G/H)(m) = ϕ(G(m) ), temos G(m) ⊆ ker ϕ = H; logo
G(m+n) = (G(m) )(n) ⊆ H (n) = {e}, e portanto G é solúvel.

Em geral, generalizações dos teoremas de Sylow para mais do


que um primo são falsas. Por exemplo, o grupo A5 tem ordem
igual a 60 = 22 · 3 · 5, mas não possui nenhum subgrupo de ordem
22 · 5 (nem de ordem 3 · 5); vide Proposição VI.6.3. No entanto,
sabemos que tais generalizações valem para os grupos abelianos;
mais geralmente, elas valem para os grupos solúveis:

Teorema VII.2.9. (P. Hall, 1928). Seja G um grupo solúvel finito


de ordem ab com (a, b) = 1. Então:
1) Existe um subgrupo de G de ordem a.
2) Todos os subgrupos de G de ordem a são conjugados entre si.
3) Se H é um subgrupo de G tal que |H| divide a, então existe um
subgrupo K de G com |K| = a tal que H ⊆ K.

Demonstração. O leitor interessado pode consultar M. Hall Jr.,


The theory of groups, Theorem 9.3.1, p. 141.

Os grupos finitos para os quais valem estas generalizações dos


teoremas de Sylow são exatamente os grupos solúveis finitos. Mais
forte ainda, a validade da generalização do 1o¯ teorema de Sylow já
caracteriza os grupos solúveis finitos:

Teorema VII.2.10. (P. Hall, 1934). Seja G um grupo finito com


a propriedade seguinte: para todo inteiro a tal que |G| = ab com
(a, b) = 1, existe um subgrupo de G de ordem a. Então, G é solúvel.

Demonstração. Este teorema é essencialmente equivalente ao


teorema de Burnside sobre a solubilidade dos grupos de ordem pr q s
com p, q primos. O leitor interessado pode consultar M. Hall Jr.,
The theory of groups, Theorem 9.3.3, p. 144.
304 [CAP. VII: GRUPOS SOLÚVEIS

VII.3 Exercı́cios
1. Determine todas as séries de composição para o grupo Z/36Z.
2. Dê uma nova prova do Teorema VII.2.8 usando a caracteri-
zação (i) da Proposição VII.2.1.
3. Sejam p um primo e G um p-grupo finito. Mostre que existe
uma série {e} = H0 ⊆ H1 ⊆ H2 ⊆ · · · ⊆ Hr = G tal que
o subgrupo Hi é normal em G, ∀ i ≥ 0, e tal que Hi+1 /Hi é
grupo cı́clico de ordem p, ∀ i = 0, 1, . . . , r − 1. Mostre que
esta série de subgrupos pode ser escolhida “central ”, isto é,
tal que Hi+1 /Hi está contido no centro de G/Hi , ∀ i.
4. Mostre que todo grupo de ordem ≤ 59 é solúvel.
Z
5. Seja G = 2Z × A5 . Exiba uma série de composição para G.
Mostre que o grupo G não é solúvel.
6. a) Sejam H e K dois subgrupos de um grupo finito G. Suponha
que exista uma série de subgrupos como abaixo:

G = G0 ⊲ G1 ⊲ G2 ⊲ · · · ⊲ Gr = H.

Mostre que (H : H ∩K) divide (G : K) e conclua que a ordem


do conjunto H · K divide |G|.
b) Exiba subgrupos H e K do grupo alternado A4 que satis-
fazem as condições da parte a), embora o produto H · K não
seja um subgrupo de A4 .
7. Sejam Γ e G dois grupos e seja ρ : Γ → Aut(G) um homomor-
fismo de grupos. Um subgrupo H de G é dito Γ-invariante
se as seguintes condições equivalentes são satisfeitas:
i) ∀ γ ∈ Γ, temos ρ(γ)(H) ⊆ H.
ii) ∀ γ ∈ Γ, temos ρ(γ)(H) = H.
Uma Γ-série subnormal de G é uma série subnormal

G = G0 ⊲ G1 ⊲ G2 ⊲ · · · ⊲ Gn = {e}
[SEC. VII.3: EXERCÍCIOS 305

tal que cada subgrupo Gi é Γ-invariante, para i = 0, 1, . . . , n.


Esta série é dita uma Γ-série de composição se ela não admite
um Γ-refinamento próprio; i.e., se cada quociente Gi /Gi+1 não
possui um subgrupo normal próprio que seja Γ-invariante,
para i = 0, 1, . . . , n − 1.
a) Verifique que as condições i) e ii) são equivalentes.
b) Prove um resultado do tipo do Teorema de Schreier e um
resultado do tipo do Teorema de Jordan-Hölder para o grupo
G e seus subgrupos Γ-invariantes.
c) Expressar o conceito de série normal (vide Definição VII.2.3)
em termos do conceito de Γ-série subnormal de G, utilizando
um grupo Γ e um homomorfismo ρ : Γ → Aut(G) adequados.

8. Sejam G um grupo finito e H um subgrupo de G. Dizemos


que σ ∈ Aut(G) estabiliza o subgrupo H se σ(H) ⊆ H. De-
notamos por He a interseção de todos os subgrupos normais de
G que contém H (equivalentemente, o subgrupo H e é o menor
subgrupo normal de G contendo H).
a) Mostre que se um automorfismo de G estabiliza H, então
e
ele estabiliza também H.
b) Se existe uma série de subgrupos como abaixo:

G = G0 ⊲ G1 ⊲ G2 ⊲ · · · ⊲ Gr = H,

mostre que então existe também uma série de subgrupos

G = L0 ⊲ L1 ⊲ L2 ⊲ · · · ⊲ Ls = H

tal que cada automorfismo de G, que estabiliza o subgrupo


H, estabiliza também cada um dos subgrupos Li , para cada
i = 0, 1, . . . , s.
Dica: Fazer uma indução sobre o ı́ndice (G : H).
MÓDULOS SOBRE DOMÍNIOS
EUCLIDIANOS
Capı́tulo VIII

Matrizes e Módulos
Finitamente Gerados

VIII.1 Diagonalização de Matrizes


Seja (D, ϕ) um domı́nio euclidiano. Nesta seção vamos mostrar que
qualquer matriz M = (aij ), com entradas aij ∈ D, pode ser “dia-
gonalizada” através de uma sucessão finita das seguintes operações
elementares em suas linhas e colunas:

∗.1) Permutação de duas linhas (respectivamente, de duas


colunas).

∗.2) Substituição de uma linha (respectivamente, de uma coluna)


pela soma desta linha com um múltiplo de uma outra linha
(respectivamente, pela soma desta coluna com um múltiplo
de uma outra coluna).

De maneira precisa, vamos mostrar o seguinte resultado:

Teorema VIII.1.1. Sejam m ≥ 1 e n ≥ 1 dois inteiros. Seja


(D, ϕ) um domı́nio euclidiano e seja M = (aij ) uma matriz m × n
com entradas em D. Então, através de uma sucessão finita de
operações elementares em suas linhas e colunas, a matriz M pode

309
310 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

ser transformada numa matriz diagonal da forma


 
..
d1 .
 .. 
 d . 
 2 
 ... 

 O 

 .. 
 dr . 
 , (1)
· · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
 
 .. 
 . 
 . 
 O .. O 
 
..
.

onde 0 ≤ r ≤ min{n, m}, d1 , d2 , . . . , dr pertencem a D \ {0} e onde


dj divide dj+1 , para cada j = 1, 2, . . . , r − 1.

Primeiro vejamos, através de exemplos, que as operações ele-


mentares ∗.1) e ∗.2) são obtidas por multiplicação, à direita ou à
esquerda, da matriz M por certas matrizes invertı́veis.

Exemplo VIII.1.2. 1) Permutação de linhas ou colunas.


 
    1 0 0 0
a11 a13 a12 a14 a11 a12 a13 a14 
a21 a23 a22 a24  = a21 a22 a23 a24  0 0 1 0;
0 1 0 0
a31 a33 a32 a34 a31 a32 a33 a34
0 0 0 1

nós vêmos que a permutação entre a segunda e a terceira colunas


foi
 obtida pela multiplicação à direita de M pela matriz quadrada
1 0 0 0
0 0 1 0
 
0 1 0 0, cujo determinante é um elemento invertı́vel de D.
0 0 0 1
    
a11 a12 a13 a14 1 0 0 a11 a12 a13 a14
a31 a32 a33 a34  = 0 0 1 a21 a22 a23 a24  ;
a21 a22 a23 a24 0 1 0 a31 a32 a33 a34
[SEC. VIII.1: DIAGONALIZAÇÃO DE MATRIZES 311

nós vêmos que a permutação entre a segunda e a terceira linhas foi


obtida
  multiplicação à esquerda de M pela matriz quadrada
pela
1 0 0
0 0 1, cujo determinante é um elemento invertı́vel de D.
0 1 0

2) Substituição de linha ou coluna.


 
a11 a12 a13 + da11 a14
a21 a22 a23 + da21 a24 
a31 a32 a33 + da31 a34
 
  1 0 d 0
a11 a12 a13 a14 
0 1 0 0
= a21 a22 a23 a24  

0
;
0 1 0
a31 a32 a33 a34
0 0 0 1
vêmos que a substituição da terceira coluna pelo resultado de
(terceira coluna)+d· (primeira coluna), onde d ∈ D, foi obtida pela
1 0 d 0
0 1 0 0
multiplicação à direita de M pela matriz  
0 0 1 0, cujo deter-
0 0 0 1
minante é um elemento invertı́vel de D. Analogamente em relação
a substituição de uma linha, temos por exemplo
 
a11 + da31 a12 + da32 a13 + da33 a14 + da34
 a21 a22 a23 a24 
a31 a32 a33 a34
  
1 0 d a11 a12 a13 a14

= 0 1 0   a21 a22 a23 a24  .
0 0 1 a31 a32 a33 a34

É um fato que uma matriz quadrada com coeficientes num anel


comutativo é invertı́vel se e somente se seu determinante é um ele-
mento invertı́vel do anel. Também, se M1 e M2 são duas matrizes
quadradas de mesmo tamanho, vale que
det(M1 · M2 ) = det(M1 ) · det(M2 ).
312 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

Estes são fatos bem conhecidos da Álgebra Linear, quando o anel


comutativo é um corpo, e não os provaremos aqui.
Uma outra operação elementar possı́vel, que só será utilizada
na Seção 4 deste capı́tulo, é a seguinte:
3) Multiplicação de uma linha ou coluna por um elemento
invertı́vel.
Esta operação também é obtida por multiplicação, à direita ou
à esquerda, da matriz M por certas matrizes invertı́veis. De fato,
para µ ∈ D∗ temos:
 
    1 0 0 0
a11 µa12 a13 a14 a11 a12 a13 a14  
a21 µa22 a23 a24  = a21 a22 a23 a24  0 µ 0 0 ;
0 0 1 0
a31 µa32 a33 a34 a31 a32 a33 a34
0 0 0 1
    
a11 a12 a13 a14 1 0 0 a11 a12 a13 a14
µa21 µa22 µa23 µa24  = 0 µ 0 a21 a22 a23 a24  .
a31 a32 a33 a34 0 0 1 a31 a32 a33 a34

Seja M = (aij ), 1 ≤ i ≤ m e 1 ≤ j ≤ n, uma matriz m × n


com entradas aij ∈ D. Fazer uma operação elementar em colu-
nas significa multiplicar a matriz à direita por uma certa matriz
invertı́vel de tamanho n × n. Fazer uma operação elementar em
linhas significa multiplicar à esquerda por uma certa matriz in-
vertı́vel de tamanho m × m (ver os exemplos acima). Assim, fazer
uma sucessão finita de operações elementares entre linhas e colunas
da matriz M implica transformar M numa matriz da forma

Q · M · P,

onde Q é uma matriz m × m invertı́vel e P é uma matriz n × n


invertı́vel.

Observação VIII.1.3. Dadas duas matrizes N e M, cada uma


delas com m linhas e n colunas, escrevemos M ≈ N se a matriz N
pode ser obtida a partir de M por uma sucessão finita de operações
elementares entre linhas e entre colunas, e dizemos que M e N são
[SEC. VIII.1: DIAGONALIZAÇÃO DE MATRIZES 313

matrizes equivalentes. Tal relação é uma relação de equivalência;


de fato, é claro que as afirmações

M≈M
M≈N e N ≈P⇒M≈P

são satisfeitas. Indicamos a seguir, através de um exemplo, porque


vale a simetria também, isto é

M ≈ N ⇒ N ≈ M.

Suponha que a matriz N seja obtida de M pela substituição da


primeira linha de M por

(primeira linha de M) + λ · (segunda linha de M).

Então, a matriz M é obtida de N pela substituição da primeira


linha de N por

(primeira linha de N ) − λ · (segunda linha de N ).

Demonstração do Teorema VIII.1.1 Se M = (0), não temos


nada para fazer. Para uma matriz M = (aij ) não-nula, definimos

ϕ(M) := min{ϕ(aij ); aij 6= 0}.

Definimos também o inteiro t := t(M) como

t := min{ϕ(N ); N ≈ M}.

Seja então uma matriz M1 = (bij ) tal que

M1 ≈ M e ϕ(M1 ) = t.

É claro que, permutando linhas e colunas em M1 , podemos


trazer uma entrada de menor ϕ-valor para a posição (1, 1), isto
é, para a primeira coluna e primeira linha, e portanto obter uma
matriz M2 = (cij ) tal que

M2 ≈ M1 e ϕ(c11 ) = ϕ(M1 ).
314 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

Afirmação 1. Existe uma matriz M3 = (dij ) tal que

M3 ≈ M2 , d11 = c11 e d1j = 0, ∀ j ≥ 2.

Demonstração da Afirmação 1: Sejam J1 = {j ≥ 2; c1j 6= 0}


e J2 = {j ≥ 2; c1j = 0}. Para cada j ∈ J1 , fazemos a divisão
euclidiana de c1j por c11 :

c1j = qj c11 + rj com rj = 0 ou ϕ(rj ) < ϕ(c11 ),

e substituimos a j-ésima coluna de M2 por

(j-ésima coluna) − qj · (primeira coluna).

Para cada j ∈ J2 , deixamos a j-ésima coluna de M2 inalterada.


Desta maneira, obtemos uma matriz M3 := (dij ) ≈ M2 tal que
as únicas possı́veis entradas não-nulas de sua primeira linha são
d11 = c11 e os rj ’s com j ∈ J1 . Observamos, no entanto, que rj = 0
para cada j ∈ J1 . De fato, se existir j ∈ J1 com rj 6= 0, então
terı́amos M3 ≈ M e ϕ(M3 ) ≤ ϕ(rj ) < ϕ(c11 ) = t, o que é absurdo
pela definição de t.

Afirmação 2. Existe uma matriz M4 = (eij ) tal que

• M4 ≈ M3 , e11 = d11 ,
 
e11 0 · · · 0
0 
 
• M4 =  .. ,
 . A  (2)
0
onde A é uma matriz (m − 1) × (n − 1).
• e11 divide cada entrada da submatriz A.

Demonstração da Afirmação 2: Seja I1 := {i ≥ 2; di1 6= 0}


e seja I2 := {i ≥ 2; di1 = 0}. Para cada i ∈ I1 , fazemos a divisão
euclidiana de di1 por d11

di1 = qi′ d11 + ri′ com ri′ = 0 ou ϕ(ri′ ) < ϕ(d11 ),


[SEC. VIII.1: DIAGONALIZAÇÃO DE MATRIZES 315

e substituimos a i-ésima linha de M3 por

(i-ésima linha) − qi′ · (primeira linha).

Para cada i ∈ I2 , deixamos a i-ésima linha de M3 inalterada.


Desta maneira, obtemos uma matriz M4 = (eij ) ≈ M3 tal que sua
primeira linha é igual à primeira linha de M3 e tal que as únicas
possı́veis entradas não nulas de sua primeira coluna são e11 = d11 e
os ri′ ’s com i ∈ I1 . De novo, em virtude da definição de t, podemos
verificar que ri′ = 0 para cada i ∈ I1 . Assim, nossa matriz M4
satisfaz a condição (2).
Vamos agora verificar que e11 divide cada entrada da matriz A.
Suponhamos por absurdo que existam k ≥ 2 e ℓ ≥ 2 tais que e11
não divida ekℓ . Fazemos a divisão euclidiana de ekℓ por e11 :

ekℓ = qe11 + r onde r 6= 0 e ϕ(r) < ϕ(e11 ),

e substituimos a primeira linha de M4 por

(primeira linha de M4 ) + (k-ésima linha de M4 ).

Nesta nova matriz M̃4 obtida depois da substituição da primeira


linha de M4 descrita acima, substituimos a sua ℓ-ésima coluna por

(ℓ-ésima coluna de M̃4 ) − q · (primeira coluna de M̃4 ).

Desta maneira, obtemos uma matriz N ≈ M4 ≈ M cuja entrada


na primeira linha e ℓ-ésima coluna é igual a r, logo uma matriz tal
que ϕ(N ) ≤ ϕ(r) < ϕ(e11 ) = t, o que é impossı́vel pela definição
de t. Isto termina a prova da Afirmação 2.
Agora, a matriz A obtida em (2) na Afirmação 2 é uma matriz
(m − 1) × (n − 1) logo, por indução, existe uma matriz diagonal B,
316 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

com B ≈ A da forma:
 .. 
d .
 2 . .. 
 .. . O 
 
 .. 
 dr . 
 
B=  · · · · · · · ·· ··· ··· ··· · · ·
,
 .. 
 . 
 .. 
 O . O 
 
..
.
com d2 , . . . , dr ∈ D \ {0} e com dj dividindo dj+1 , para cada j.
Evidentemente temos
   
e11 0 · · · 0 e11 0 · · · 0
0  0 
   
M4 =  ..  ≈  .. 
 . A   . B 
0 0

e logo,
 
..
e .
 11 .. 
 d2 . 
 
 ... 
 O 
 
 .. 
 dr . 
M4 ≈  .
· · · · · · · · · · · · ··· ··· ··· · · ·
 
 .. 
 . 
 .. 
 O . O 
 
..
.
Como e11 divide cada entrada de A, então e11 divide cada entrada
de B também, pois as entradas de B são somas de múltiplos de en-
tradas de A. Portanto e11 divide d2 e a demonstração está completa
tomando d1 := e11 .
[SEC. VIII.1: DIAGONALIZAÇÃO DE MATRIZES 317

Observação VIII.1.4. A demonstração apresentada acima para


o Teorema VIII.1.1 é algorı́tmica. Para ver isto, temos que ex-
plicitar um algorı́tmo que nos permita obter uma matriz M1 tal
que M1 ≈ M e ϕ(M1 ) = t(M) := min{ϕ(N ); N ≈ M}. Dada
uma matriz não-nula M, levamos uma entrada de menor ϕ-valor de
M para a posição (1, 1). Com argumentos análogos aos utilizados
na Afirmação 1 e na Afirmação 2, vamos obter uma seqüência de
matrizes Ni ≈ M tais que a seqüência de inteiros positivos ϕ(Ni )
seja decrescente (caso rj 6= 0 na Afirmação 1 ou caso ri′ 6= 0 na
Afirmação 2). Como seqüências descrescentes de números naturais
são estacionárias, então depois de um número finito de passos va-
mos obter uma matriz M1 ≈ M tal que ϕ(M1 ) = t(M), como
desejado.

Observação VIII.1.5. O inteiro r ≥ 0 no Teorema VIII.1.1 é


chamado de posto da matriz M. Os elementos não-nulos
d1 , d2 , . . . , dr do domı́nio euclidiano D são unicamente determina-
dos, a menos de multiplicação por elementos invertı́veis de D. Va-
mos dar agora uma prova desta unicidade. Para isto, vamos de-
notar aqui por (d1 , d2 , . . . , dr ) uma matriz m × n diagonal como
em (1). Sejam então N = (d1 , . . . , dr ) e N ′ = (d′1 , . . . , d′r ) duas
matrizes m × n diagonais do tipo (1), tais que N ≈ N ′ . Vejamos
primeiramente que d1 e d′1 são associados em D, isto é, que existe
um elemento u1 ∈ D invertı́vel tal que d1 = u1 d′1 . Como temos
d1 |d2 | . . . |dr , então d1 divide cada entrada da matriz N e assim d1
divide cada entrada de qualquer matriz N1 satisfazendo N1 ≈ N .
Em particular, o elemento d1 divide d′1 . De modo análogo, temos
que d′1 divide d1 e assim d1 e d′1 são associados em D. Vejamos
agora que d2 e d′2 são associados em D. Como d1 |d2 | . . . |dr , então
d1 d2 divide cada menor 2 × 2 da matriz N e assim d1 d2 divide cada
menor 2 × 2 de qualquer matriz N1 satisfazendo N1 ≈ N . Em par-
ticular, o elemento d1 d2 divide d′1 d′2 . De modo análogo, temos que
d′1 d′2 divide d1 d2 e assim d1 d2 e d′1 d′2 são associados em D. Como d1
e d′1 são associados, concluı́mos que d2 e d′2 são também associados
em D. A unicidade de d3 vai seguir de considerações análogas para
os menores 3 × 3 e assim por diante.
318 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

VIII.2 Módulos e Homomorfismos


Definição VIII.2.1. Seja A um anel comutativo com unidade. Um
grupo abeliano aditivo (M, +) dotado de uma multiplicação escalar

A × M −→ M
(a, m) 7−→ a · m

é dito um A-módulo se satisfaz os seguintes axiomas (∀ a1 , a2 ∈ A


e ∀ m1 , m2 ∈ M ):

a) 1 · m1 = m1 ;

b) (a1 a2 ) · m1 = a1 · (a2 · m1 );

c) (a1 + a2 ) · m1 = a1 · m1 + a2 · m1 ;

d) a1 · (m1 + m2 ) = a1 · m1 + a1 · m2 .

Se a ∈ A e m ∈ M , escreveremos também am para denotar o


elemento a · m do módulo M .

Definição VIII.2.2. Sejam A um anel e M um A-módulo. Um


subgrupo N de M é um A-submódulo se a multiplicação escalar do
módulo M preserva N , isto é, se

a · n ∈ N, ∀a∈A e ∀ n ∈ N.

Seja M um A-módulo, seja t ∈ N e sejam m1 , m2 , . . . , mt ele-


mentos de M . Consideramos o seguinte subconjunto N de M :

N = Am1 + Am2 + · · · + Amt = {a1 · m1 + · · · + at · mt | ai ∈ A}.

Claramente, este conjunto N é um submódulo de M e ele é chamado


de submódulo gerado por m1 , m2 , . . . , mt . O módulo M é dito
finitamente gerado quando existe um número finito de elementos
m1 , m2 , . . . , mt de M tais que

M = Am1 + Am2 + · · · + Amt .


[SEC. VIII.2: MÓDULOS E HOMOMORFISMOS 319

Neste caso, dizemos que m1 , m2 , . . . , mt é um conjunto de geradores


para o módulo M .
O módulo M é dito cı́clico se pode ser gerado por um elemento,
isto é, se M = Am, para algum m ∈ M .
Exemplo VIII.2.3. a) Seja A um corpo. Então a noção de A-
módulo coincide com a de A-espaço vetorial.
b) Seja A = Z. Seja (G, +) um grupo abeliano. Defina uma multi-
plicação escalar Z × G → G da maneira seguinte

∀ z ∈ Z, ∀ g ∈ G, z · g = g + · · · + g se z ≥ 0,
| {z }
z vezes
z · g = (−g) + · · · + (−g) se z ≤ 0.
| {z }
z vezes

É imediato verificar que G é um Z-módulo.


Munidos dessa multiplicação escalar natural, os grupos abelianos
são exatamente os Z-módulos.
c) Seja (G, +) um grupo abeliano. Os subgrupos de G são exata-
mente os Z-submódulos de G.
d) Seja (A, +, ·) um anel. Sobre o grupo abeliano (A, +), defina
uma multiplicação escalar por

A × A −→ A
(a, b) 7−→ ab.

É imediato verificar que munido dessa multiplicação escalar, (A, +)


é um A-módulo cı́clico, gerado por 1. Os A-submódulos de A são
exatamente os ideais de A. Os A-submódulos finitamente gerados
de A são exatamente os ideais finitamente gerados de A.
e) Sejam (A, +, ·) um anel e I um ideal de A. Sobre o grupo abeliano
(A/I, +), defina uma multiplicação escalar por
I

A × A/I −→ A/I
(a, b + I) 7−→ ab + I.
320 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

Munido dessa multiplicação escalar, (A/I, +) é um A-módulo cı́clico,


I
gerado por 1̄. Os A-submódulos de A/I são exatamente os ideais
do anel quociente A/I.
f) Seja M um A-módulo e sejam N1 , . . . , Nt A-submódulos de M .
Então N1 + · · · + Nt := {n1 + · · · + nt | ni ∈ Ni , ∀ i = 1, . . . , t} é
um A-submódulo de M .
g) Seja M um A-módulo e seja I um ideal do anel A. Então IM :=
nP n o
αj mj |n ∈ N, αj ∈ I, mj ∈ M, ∀ j é um A-submódulo de M .
j=1

h) Seja A um domı́nio e seja M um A-módulo. Então temos que


T (M ) := {m ∈ M | ∃ a ∈ A \ {0} tal que am = 0} é um A-
submódulo de M , chamado de submódulo de torção de M .
i) Seja t um inteiro positivo e considere o seguinte conjunto

At = {(a1 , a2 , . . . , at ) | ai ∈ A}.

Definindo a operação de adição coordenada a coordenada:

(a1 , a2 , . . . , at ) + (a′1 , a′2 , . . . , a′t ) := (a1 + a′1 , a2 + a′2 , . . . , at + a′t ),

e a multiplicação escalar da maneira seguinte

a · (a1 , a2 , . . . , at ) = (aa1 , aa2 , . . . , aat ),

vemos que At é um A-módulo.


Sejam e1 = (1, 0, . . . , 0), e2 = (0, 1, 0, . . . , ), . . . , et = (0, . . . , 0, 1).
Verifique que e1 , e2 , . . . , et formam um conjunto de geradores para
o módulo At ; assim o A-módulo At é finitamente gerado.
Definição VIII.2.4. Sejam M e M ′ dois A-módulos. Uma aplica-
ção f : M → M ′ é um homomorfismo de A-módulos se:

a) f é um homomorfismo de grupos aditivos, isto é,

f (m1 + m2 ) = f (m1 ) + f (m2 ), ∀ m1 , m2 ∈ M.

b) f (a · m) = a · f (m), ∀ a ∈ A e ∀ m ∈ M .
[SEC. VIII.2: MÓDULOS E HOMOMORFISMOS 321

Dizemos também que a aplicação f é A-linear , ou que f é um


operador A-linear . Um homomorfismo de A-módulos é um isomor-
fismo de A-módulos se ele é bijetivo.
Definição VIII.2.5. Sejam A um anel e (M, +) um A-módulo.
Seja N um A-submódulo de M . Então, em particular, (N, +) é um
subgrupo do grupo (M, +) e podemos considerar o grupo quociente
(M/N, +), isto é o conjunto {m + N | m ∈ M } das classes laterais
N
de N em M munido da adição

+ : M/N × M/N −→ M/N


N
(m1 + N, m2 + N ) 7−→ (m1 + m2 ) + N.

Sobre este grupo (M/N, +), podemos considerar a seguinte multi-


N
plicação escalar:

A × M/N −→ M/N
(a, m + N ) 7−→ am + N.

É fácil verificar que esta operação é bem definida e que M/N é um


A-módulo, chamado de A-módulo quociente de M por N .
Analogamente ao que foi feito para homomorfismos de grupos e
de anéis, temos os seguintes resultados (verifique-os):

(i) Seja N um submódulo de um A-módulo M e considere a


projeção canônica

π : M −→ M/N
m 7−→ m + N.

Então π é A-linear, sobrejetora e com núcleo igual a N .

(ii) Sejam M e M ′ dois A-módulos e N um submódulo de M . Seja


f : M → M ′ uma aplicação A-linear tal que ker f ⊇ N . Então
existe um único homomorfismo de A-módulos f¯: M/N → M ′
tal que f = f¯ ◦ π; ele é definido por f (m + N ) = f (m).
322 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

(iii) (Teorema dos Isomorfismos) Se no item (ii) acima temos que


ker f = N , então f¯ é um isomorfismo de A-módulos entre o
quociente M/N e a imagem do homomorfismo f .

(iv) Existe uma correspondência bijetiva entre os submódulos do


quociente M/N e os submódulos de M que contém N .

Exercı́cio VIII.2.6. Seja A um anel. Seja M1 , . . . , Mn um conjun-


to finito de A-módulos. Coordenada por coordenada, defina uma
estrutura de A-módulo sobre o seguinte conjunto:

M1 × · · · × Mn := {(m1 , . . . , mn ) | mi ∈ Mi , ∀ i = 1, . . . , n}.

Com esta estrutura, dizemos que M1 × · · · × Mn é o produto direto


dos módulos M1 , . . . , Mn .

a) Se Ni é um A-submódulo de Mi para i = 1, . . . , n, mostre que

(M1 × · · · × Mn )/(N1 × · · · × Nn ) ≃ (M1 /N1 ) × · · · × (Mn /Nn ).

b) Se M é um A-módulo isomorfo ao A-módulo M1 × · · · × Mn ,


mostre que existem A-submódulos M̃1 , . . . , M̃n de M tais que
M̃i ≃ Mi , ∀ i = 1, . . . , n, e tais que para cada m ∈ M ,
existem elementos m̃1 ∈ M̃1 , . . . , m̃n ∈ M̃n unicamente deter-
minados satisfazendo m = m̃1 + · · · + m̃n .
Nestas condições, escrevemos

M = M̃1 ⊕ · · · ⊕ M̃n .

Observe que esta notação é compatı́vel com a Notação V.8.3.

Exercı́cio VIII.2.7. Sejam A um anel, (M, +) um A-módulo e I


um ideal de A. Como IM é um A-submódulo de M , então podemos
considerar o A-módulo quociente M/IM . Podemos também consi-
derar o grupo quociente (M/IM, + ) munido da A/I-multiplicação
IM
escalar seguinte:
[SEC. VIII.2: MÓDULOS E HOMOMORFISMOS 323

A/I × M/IM −→ M/IM


(a + I, m + IM ) 7−→ am + IM.

a) Verifique que esta A/I-multiplicação é bem definida e que, com


ela, M/IM é um A/I-módulo.

b) Seja N um subgrupo do grupo (M/IM, + ). Mostre que o sub-


IM
grupo N é um A-submódulo de M/IM se e somente se N é um
A/I-submódulo de M/IM .

De maneira similar à Definição II.1.9, um A-módulo M é dito


noetheriano se todo A-submódulo de M é finitamente gerado. Em
particular, o próprio A-módulo M é finitamente gerado.

Proposição VIII.2.8. Seja A um anel noetheriano e seja M um


A-módulo finitamente gerado. Então M é A-módulo noetheriano.

Demonstração. Seja M = Am1 + · · · + Amt . Seja N um A-


submódulo de M . Mostraremos que N é finitamente gerado por
indução sobre t.
Se t = 1, considere a aplicação

ϕ : A −→ Am1 = M
a 7−→ am1 .

Ela é um homomorfismo sobrejetivo de A-módulos. Considere o


ideal J := {a ∈ A | am1 ∈ N } do anel A. Então N = J · m1 é
finitamente gerado, pois J é ideal finitamente gerado.
Se t ≥ 2, seja M ′ := Am2 + · · · + Amt . Seja b := {β ∈ A|βm1 ∈
N + M ′ }. É claro que b é um ideal de A; como A é noetheriano,
324 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

então b = Ab0 + · · · + Abs para um número finito de elementos


b0 , b1 , . . . , bs em b. Portanto para cada i = 0, 1, . . . , s, existe ni ∈ N
tal que
b i m 1 − ni ∈ M ′ . (3)

Afirmamos que

N = An0 + An1 + · · · + Ans + (N ∩ M ′ ). (4)

Claramente basta mostrar que N está contido no A-módulo à direita


na Igualdade (4). Seja então ξ ∈ N ⊆ Am1 + M ′ = M e escreva
ξ = βm1 + m′ com β ∈ A e m′ ∈ M ′ . Logo β ∈ b e escrevemos

β = α0 b0 + α1 b1 + · · · + αs bs com αi ∈ A.

Temos então ξ = βm1 + m′ = α0 b0 m1 + · · · + αs bs m1 + m′ ∈


An0 + · · · + Ans + M ′ ; de fato, basta utilizar a Equação (3).
Escreva agora ξ = a0 n0 + a1 n1 + · · · + as ns + m′′ , onde
a0 , a1 , . . . , as ∈ A e m′′ ∈ M ′ . Como ξ ∈ N e como ni ∈ N ,
então m′′ ∈ N ∩ M ′ e isto prova a Igualdade (4).
Como N ∩ M ′ é um A-submódulo de M ′ e como M ′ é gerado
por (t − 1) elementos, então, pela hipótese de indução, N ∩ M ′ é um
A-módulo finitamente gerado. Por (4), concluı́mos que N também
é um A-módulo finitamente gerado.

Observação VIII.2.9. Se A é um domı́nio arbitrário e M é um A-


módulo finitamente gerado, então podem existir A-submódulos de
M que não são finitamente gerados. Por exemplo, se X1 , . . . , Xn , . . .
é um conjunto infinito de indeterminadas sobre Q, então o anel de
polinômios A := Q[X1 , . . . , Xn , . . . ] é um A-módulo cı́clico, mas o
ideal (X1 , . . . , Xn , . . . ) é um A-submódulo que não é finitamente
gerado.
[SEC. VIII.2: MÓDULOS E HOMOMORFISMOS 325

Definição VIII.2.10. Seja M um A-módulo. Como no caso de


espaços vetoriais, dizemos que os elementos m1 , m2 , . . . , mt de M
são A-linearmente independentes se

t
!
X
aj mj = 0, com aj ∈ A ⇒ (aj = 0, ∀ j).
j=1

Um A-módulo finitamente gerado M é dito livre se ele admite


um conjunto finito de geradores m1 , m2 , . . . , mt que são elementos
A-linearmente independentes , ou equivalentemente, se o módulo
M é isomorfo a At . Para ver esta equivalência, considere o homo-
morfismo

g : At −→ M
t
X
(a1 , . . . , at ) 7−→ aj m j .
i=1

Neste caso dizemos que {m1 , m2 , . . . , mt } é uma base para o módulo


livre M . Observe que M = Am1 ⊕ · · · ⊕ Amt .

Exemplo VIII.2.11. a) Seja A um corpo. Então todo A-módulo


finitamente gerado (i.e., todo A-espaço vetorial finitamente gerado)
é um A-módulo livre.
b) Seja A um domı́nio. Se r ≥ 2 é um inteiro e se a1 , . . . , ar são ele-
mentos de A, então a1 , . . . , ar não são A-linearmente independentes
(verifique). Se I é um ideal finitamente gerado de A, então I é um
A-módulo livre se e somente se ele é um ideal principal (verifique).
c) Seja A um anel e seja t um inteiro ≥ 1. Então os elementos
e1 := (1, 0, . . . , 0), . . . , et := (0, . . . , 0, 1) formam uma base do A-
módulo livre At , chamada base canônica de At .
d) Sejam A um anel e M um A-módulo finitamente gerado. Então
M é isomorfo ao quociente de um A-módulo livre finitamente ge-
rado por um submódulo. De fato, se m1 , . . . , mt é um conjunto de
326 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

geradores de M , consideramos a aplicação A-linear sobrejetora

ϕ : At −→ M
t
X
(a1 , . . . , at ) 7−→ ai m i .
i=1

Então, pelo teorema dos isomorfismos para módulos, temos o iso-


morfismo M ≃ At /N , onde N := ker ϕ é um submódulo do A-
módulo livre At .
Se A é um anel noetheriano, então A possui ideais maximais.
Isto segue diretamente do item a) do Teorema II.2.1. Assim, todo
domı́nio principal (e, em particular, todo domı́nio euclidiano) pos-
sui ideais maximais. Mais geralmente, usando o “Lema de Zorn”,
pode-se mostrar que todo anel com unidade possui ideais maximais.
Isto permite provar a seguinte proposição num contexto bastante
geral, embora a utilizaremos somente para módulos sobre domı́nios
euclidianos.
Proposição VIII.2.12. Seja A um anel com unidade e seja M
um A-módulo livre finitamente gerado. Então, todas as bases de M
possuem o mesmo número de elementos.
Demonstração. Seja m1 , . . . , mt uma base do A-módulo M . Seja
m um ideal maximal de A e considere a aplicação

ψ : M −→ (A/m) × · · · × (A/m)
a1 m1 + · · · + at mt 7−→ (a1 , . . . , at ).

Ela é claramente um homomorfismo sobrejetivo de grupos aditivos


cujo núcleo é igual a mM . Portanto, temos um isomorfismo de
grupos aditivos:

ψ : M/mM −→ (A/m) × · · · × (A/m) . (5)
| {z }
t vezes

Agora, M/mM tem uma estrutura natural de A/m-espaço vetorial


dada por
(a + m) · (m + mM ) := am + mM.
[SEC. VIII.3: SUBMÓDULOS DE UM MÓDULO LIVRE 327

É imediato verificar que a aplicação ψ dada em (5) é um isomorfismo


de espaços vetoriais. Portanto, obtemos que M/mM é um (A/m)-
espaço vetorial de dimensão t.
Se M possui uma outra base com n elementos então, pelo mesmo
argumento, obtemos que M/mM é um (A/m)-espaço vetorial de
dimensão n. Naturalmente, pela propriedade básica dos espaços
vetoriais, obtemos que t = n.

Definição VIII.2.13. Seja A um anel com unidade. Seja M um


A-módulo livre finitamente gerado. Então, a cardinalidade comum
a todas as bases de M se chama o posto de M .

VIII.3 Submódulos de um Módulo Livre


Seja A um anel. Sejam N um A-módulo finitamente gerado, M
um A-módulo livre finitamente gerado e f : N → M uma aplicação
A-linear. Como em Álgebra Linear, uma vez escolhido um con-
junto ordenado de geradores B = {v1 , . . . , vn } para N e uma base
ordenada B′ = {w1 , . . . , wm } para M , esta aplicação f pode ser re-
presentada por uma matriz m × n. Para j ∈ {1, . . . , n}, escrevemos

m
X
f (vj ) = aij wi com aij ∈ A,
i=1

e dizemos que a matriz M = (aij ) representa a aplicação f em


relação a B e B′ . Claramente, a matriz obtida para uma aplicação
A-linear f vai depender do conjunto de geradores B de N e da
base B′ de M escolhidos. Mostramos abaixo que as operações ele-
mentares em linhas e colunas de M, correspondem à mudanças do
sistema de geradores para N ou à mudanças de base para M . Para
simplificar, faremos isto através de exemplos:

Exemplo VIII.3.1. (Verifique!): Sejam A, N, M, n, m, f, B, B′ , M


como acima:
328 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

1. Permutação de linhas ou colunas.

a) Se na matriz M permutamos a 1a¯ coluna com a 2a¯ co-


luna, então a nova matriz obtida representa a mesma
aplicação f em relação a B1 = {v2 , v1 , v3 , . . . , vn } e B′ .
b) Se na matriz M permutamos a 1a¯ linha com a 2a¯ linha,
então a nova matriz obtida representa a aplicação f em
relação a B e B1′ = {w2 , w1 , w3 , . . . , wm }.

2. Substituição de linha ou coluna.

a) Se na matriz M substituimos a 1a¯ coluna pelo resultado


da operação

(1a¯ coluna) + λ · (2a¯ coluna), com λ ∈ A,

então a nova matriz obtida representa a aplicação f em


relação a

B2 = {v1 + λv2 , v2 , v3 , . . . , vn } e B′ .

b) Se na matriz M substituimos a 1a¯ linha pelo resultado


da operação

(1a¯ linha) + λ · (2a¯ linha), com λ ∈ A,

então a nova matriz obtida representa a aplicação f em


relação a

B e B2′ = {w1 , w2 − λw1 , w3 , . . . , wm }.

Como conseqüência do Teorema VIII.1.1, temos:

Corolário VIII.3.2. Seja D um domı́nio euclidiano. Sejam M, N


dois D-módulos livres finitamente gerados e f : N → M um D-
homomorfismo. Então, existe uma base B = {v1 , . . . , vn } de N e
[SEC. VIII.3: SUBMÓDULOS DE UM MÓDULO LIVRE 329

uma base B′ = {w1 , . . . , wm } de M tais que a matriz que representa


a aplicação f em relação a estas bases é da forma
 
..
d .
 1 .. 
 ... 
 . 
 . 
 .. O 
 
 .. 
 d r . 
 
· · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
 
 .. 
 . 
 . 
 O .. O 
 
..
.

onde d1 , . . . , dr pertencem a D \ {0} e onde dj divide dj+1 , para


cada j = 1, 2, . . . , r − 1.

Demonstração. Exercı́cio.

Vamos agora provar o seguinte resultado importante:

Teorema VIII.3.3. Seja D um domı́nio euclidiano. Sejam M um


D-módulo livre de posto m e N um D-submódulo de M . Então:
a) O módulo N é livre, de posto r ≤ m.
b) Existe uma base B′ = {w1 , . . . , wm } de M e existem elementos
d1 , . . . , dr ∈ D \ {0} tais que:
• dj divide dj+1 , ∀ j = 1, . . . , r − 1,
• d1 w1 , . . . , dr wr é uma base de N .
c) Dada uma base x1 , . . . , xm de M e dado um conjunto ordenado
de geradores
m
X m
X
y1 = ai1 xi , . . . , yn = ain xi
i=1 i=1

do submódulo N , uma base de N pode ser efetivamente encontrada.


330 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

Demonstração. a) e b). Pela Proposição VIII.2.8, o submódulo


N é finitamente gerado. Sejam C um conjunto qualquer ordenado
finito de geradores de N , C ′ uma base qualquer de M , i : N ֒→ M
a aplicação de inclusão e considere a matriz M correspondente à
aplicação i em relação a C e C ′ . Pelo Teorema VIII.1.1, através
de operações elementares em linhas e colunas, obtemos uma matriz
diagonal
 
..
d .
 1 .. 
 ... 
 . 
 ... 
 O 
 
 .. 
 dr . 
M′ =  
· · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
 
 .. 
 . 
 . 
 O .
. O 
 
..
.

onde dj divide dj+1 para j = 1, . . . , r − 1. Essa matriz M′ é a ma-


triz correspondente à aplicação i em relação a um certo conjunto
de geradores B de N e a uma certa base B′ = {w1 , . . . , wm } de
M . Isto quer dizer que B = {d1 w1 , . . . , dr wr }. Portanto, agora,
falta somente mostrar que d1 w1 , . . . , dr wr são D-linearmente inde-
pendentes. Sejam a1 , . . . , ar ∈ D tais que
r
X r
X
0= aj (dj wj ) = (aj dj )wj .
j=1 j=1

Usando que w1 , . . . , wr são D-linearmente independentes, temos


aj dj = 0, para cada j = 1, . . . , r. Como dj 6= 0 e como D é
um domı́nio, concluı́mos que aj = 0, para cada j = 1, . . . , r.
c) Consideramos a matriz M := (aij ) obtida a partir das expressões
do conjunto de geradores y1 , . . . , yn do submódulo N . Como in-
dicado na Observação VIII.1.4, podemos levar efetivamente esta
matriz M para uma forma diagonal após uma sucessão finita de
[SEC. VIII.3: SUBMÓDULOS DE UM MÓDULO LIVRE 331

operações elementares entre linhas e colunas. Como visto no Exem-


plo VIII.3.1, essas operações elementares nos conduzem a uma nova
base para o módulo M e a um novo conjunto de geradores, efeti-
vamente calculados, para o submódulo N . Os elementos não-nulos
deste novo conjunto de geradores formam uma base de N .

Exemplo VIII.3.4. O objetivo deste exemplo é ilustrar num caso


concreto os passos da demonstração do Teorema VIII.3.3. Con-
sidere o submódulo N de Z4 gerado por:

y1 = (1, 0, 2, 0); y2 = (1, 0, 0, 2); y3 = (0, 1, 1, 0); y4 = (0, 0, 3, −3).

Então formamos a matriz


 
1 1 0 0
0 0 1 0
 ,
2 0 1 3
0 2 0 −3

cujas colunas representam os geradores de N em relação à base


canônica {e1 , e2 , e3 , e4 } de Z4 .
A matriz acima pode ser colocada na forma diagonal abaixo
 
1 0 0 0
0 1 0 0
 
0 0 1 0 ,
0 0 0 0

após as seguintes sete operações (verifique!):


1¯a Operação: Substituir a 3a¯ linha por (3a¯ linha) - 2·(1a¯ linha).
2¯a Operação: Substituir a 2a¯ coluna por (2a¯ coluna) - (1a¯ coluna).
3¯a Operação: Permutar (2a¯ coluna) com (3a¯ coluna).
4¯a Operação: Substituir 3a¯ linha por (3a¯ linha) - (2a¯ linha).
5¯a Operação: Substituir 4a¯ linha por (4a¯ linha) + (3a¯ linha).
6¯a Operação: Substituir 3a¯ coluna por (3a¯ coluna) + (4a¯ coluna).
7¯a Operação: Substituir 4a¯ coluna por (4a¯ coluna) −3· (3a¯ coluna).
332 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

Sabemos que uma operação entre colunas significa uma mu-


dança no conjunto ordenado de geradores de N e que uma operação
entre linhas significa uma mudança na base ordenada de Z4 . Des-
crevemos agora estas mudanças; para isto vamos denotar por Bi
(respectivamente, por Bi′ ) o novo conjunto ordenado de geradores
para o submódulo N (respectivamente, a nova base ordenada para
Z4 ) obtido após a i-ésima operação entre linhas ou colunas, para
cada i = 1, 2, . . . , 7. Temos então que:

B1 = {y1 , y2 , y3 , y4 } e B1′ = {e1 + 2e3 , e2 , e3 , e4 };


B2 = {y1 , y2 − y1 , y3 , y4 } e B2′ = B1′ ;
B3 = {y1 , y3 , y2 − y1 , y4 } e B3′ = B2′ ;
B4 = B3 e B4′ = {e1 + 2e3 , e2 + e3 , e3 , e4 };
B5 = B4 e B5′ = {e1 + 2e3 , e2 + e3 , e3 − e4 , e4 };
B6 = {y1 , y3 , y2 − y1 + y4 , y4 } e B6′ = B5′ ;
B7 = {y1 , y3 , y2 − y1 + y4 , 3(y1 − y2 ) − 2y4 } e B7′ = B6′ ;

A forma diagonal obtida após as sete operações então nos dá as


seguintes igualdades:

y1 = e1 +2e3 , y3 = e2 +e3 , y2 −y1 +y4 = e3 −e4 , 3(y1 −y2 )−2y4 = 0.

Vemos então que N é isomorfo a Z3 e que {y1 , y3 , y2 − y1 + y4 } é


uma base para o submódulo N .

VIII.4 Estrutura dos Módulos Fini-


tamente Gerados
Podemos agora enunciar o teorema fundamental de estrutura para
módulos finitamente gerados sobre domı́nios euclidianos.
Teorema VIII.4.1. (Decomposição de torção). Seja D um domı́-
nio euclidiano. Sejam M um D-módulo finitamente gerado e T (M )
seu submódulo de torção. Então,
[SEC. VIII.4: ESTRUTURA DOS MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS 333

a) Existem um inteiro t ≥ 0 e um D-submódulo L ≃ Dt tais que


M = T (M ) ⊕ L.

b) Existem elementos não-invertı́veis d1 , . . . , ds ∈ D \ {0} satis-


fazendo a condição dj divide dj+1 , para cada j = 1, . . . , s − 1,
tais que
T (M ) ≃ D/(d1 ) × · · · × D/(ds ).
c) O inteiro t é unicamente determinado. Os elementos d1 , . . . , ds
são unicamente determinados, a menos de multiplicação por
elementos invertı́veis de D.
Definição VIII.4.2. O inteiro t é denominado posto de M . Os
elementos d1 , . . . , ds são denominados coeficientes de torção de M .
Na prova do item c) do Teorema VIII.4.1, utilizaremos em várias
passagens o seguinte fato decorrente do Teorema dos Isomorfismos:
Se I e J são dois ideais de um anel A, então
A/I
≃ A/(I + J).
J · (A/I)
Faremos apelo também ao conceito de anulador de um módulo: se
N é um A-módulo, o anulador de N é definido por
An(N ) := {a ∈ A | an = 0, ∀ n ∈ N };
e utilizaremos os seguintes resultados fáceis de verificar:
• An(N ) é um ideal de A.
• Se N1 e N2 são dois A-módulos isomorfos, então vale a igual-
dade An(N1 ) = An(N2 ).
Demonstração do Teorema VIII.4.1 a) e b). Seja {α1 , . . . , αm }
um conjunto de geradores para M ; logo M = Dα1 + · · · + Dαm .
Considere o seguinte homomorfismo sobrejetor de D-módulos:
g : Dm −→ M
m
X
(a1 , . . . , am ) 7−→ aj αj .
j=1
334 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

Pelo Teorema VIII.3.3, o núcleo K := ker g é um submódulo livre


do módulo Dm e existem uma base {w1 , . . . , wm } de Dm e elementos
d1 , . . . , dr ∈ D \ {0}, com r ≤ m e com dj dividindo dj+1 , para cada
j = 1, . . . , r −1, tais que {d1 w1 , . . . , dr wr } é uma base de K. Temos
então

M ≃ Dm /K
Dw1 ⊕ · · · ⊕ Dwr ⊕ · · · ⊕ Dwm
=
Dd1 w1 ⊕ · · · ⊕ Ddr wr
≃ D/(d1 ) × · · · × D/(dr ) × Dt , com t := m − r.

Observe que se algum dj é invertı́vel em D, temos (dj ) = D,


logo D/(dj ) = (0). Podemos portanto descartar os elementos dj
que são invertı́veis e então supor que d1 , . . . , ds (com s ≤ r) são
elementos não-invertı́veis de D\{0} tais que dj divide dj+1 para cada
j=1, . . . , s−1. Obtemos assim que M ≃ D/(d1 )×· · ·×D/(ds )×Dt .
Agora, é fácil ver que D/(d1 ) × · · · × D/(ds ) é exatamente
o submódulo de torção do módulo D/(d1 ) × · · · × D/(ds ) × Dt
(verifique). Portanto, pelo Exercı́cio VIII.2.6, obtemos então que
vale M = T (M ) ⊕ L com T (M ) ≃ D/(d1 ) × · · · × D/(ds ) e com L
um D-submódulo de M tal que L ≃ Dt .
c) O inteiro t é unicamente determinado pois, pelo item a), ele é
igual ao posto do módulo livre M/T (M ) (vide Definição VIII.2.13).
Vejamos agora a unicidade dos coeficientes de torção.
Afirmação: Sejam d1 , . . . , ds ∈ D \ {0} e d′1 , . . . , d′s′ ∈ D \ {0}
elementos não-invertı́veis satisfazendo

dj divide dj+1 e d′j divide d′j+1 , ∀ j, (6)

tais que

T := D/(d1 ) × · · · × D/(ds ) ≃ D/(d′1 ) × · · · × D/(d′s′ ). (7)

Então: 1) s = s′ .
2) Todo divisor primo de d1 também é divisor de d′j para cada
j = 1, . . . , s.
[SEC. VIII.4: ESTRUTURA DOS MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS 335

Demonstração. 1) É claro que podemos supor s ≥ s′ . Seja p ∈ D


um fator primo de d1 . Então, para j = 1, . . . , s, p divide dj e logo
(p, dj ) = (p); olhando no lado esquerdo de (7), temos

T D D
≃ × ··· × . (8)
pT (p) (p)
| {z }
s vezes

Agora, olhando no lado direito de (7), obtemos

T D D
≃ ′
× ··· × . (9)
pT (p, d1 ) (p, d′s′ )

Como D é um domı́nio euclidiano, o ideal (p) é maximal e portanto


D/(p) é um corpo. Por (8), T /pT é um D/(p)-espaço vetorial de
dimensão s.
Sendo (p) maximal, temos (p, d′j ) = (p) ou (p, d′j ) = D. Portanto
por (9), T /pT é um D/(p)-espaço vetorial de dimensão ≤ s′ , i.e.,
temos s ≤ s′ . Logo s = s′ .
2) Como T /pT tem dimensão s = s′ , então por (9), obtemos que
(p, d′j ) = (p) para todo j, e logo que p divide d′j para todo j.
Isto termina a prova da afirmação.
Falta mostrar que dj e d′j são associados, ∀ j = 1, . . . , s. Faremos
isto por indução sobre o número π(ds ) onde, se α é um elemento
de D, então π(α) denota o número de fatores irredutı́veis de α,
contados com suas multiplicidades. (Por exemplo, se p e q são dois
elementos irredutı́veis de D, então π(p2 ) = 2 e π(p3 q 5 ) = 8).
Primeiro, observe que por (6) e (7), temos

An(T ) = (ds ) = (d′s ),

logo temos que ds e d′s são elementos associados em D e que, em


particular, temos π(ds ) = π(d′s ).
Se π(ds ) = 1, então o elemento ds é um elemento primo de D.
Utilizando a notação α ∼ β para indicar que α e β são dois
elementos associados em D, temos ds ∼ d′s pelo visto acima.
336 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

As condições de divisibilidade em (6) garantem que

dj ∼ ds e d′j ∼ d′s ∼ ds , ∀ j = 1, 2, . . . , s,

pois ds é primo, e portanto que dj ∼ d′j , ∀ j = 1, 2, . . . , s.


Suponhamos agora π(ds ) > 1. Seja p um divisor primo de
d1 ; então p divide cada dj (pois d1 divide dj ) e p divide cada
d′j (vide item 2) da afirmação anterior). Para todo i = 1, . . . , s,
pD
a aplicação D −→ p · (dDi ) = (d i)
definida por α 7→ pα + (di )
é um D-homomorfismo sobrejetor cujo núcleo é o ideal (di /p);
logo p · (dDi ) ≃ (diD/p) . Analogamente, para i = 1, . . . , s, temos
p · (dD′ ) ≃ (d′D/p) . Como por (7) temos
i i

D D D D
pT ≃ p · × ··· × p · ≃ p · ′ × · · · × p · ′ , então
(d1 ) (ds ) (d1 ) (ds )

D D D D
× ··· × ≃ ′ × ··· × ′ . (10)
(d1 /p) (ds /p) (d1 /p) (ds /p)
Seja k definido por

(d1 /p) = · · · = (dk /p) = D e (dk+1 /p) 6= D (11)

e seja k ′ definido por

(d′1 /p) = · · · = (d′k′ /p) = D e (d′k′ +1 /p) 6= D. (12)

Note que k ou k ′ podem ser nulos, mas que k < s e k ′ < s (pois
temos π(ds ) = π(d′s ) > 1). Podemos reescrever (10) como abaixo:

D D D D
× ··· × ≃ ′ × ··· × ′ . (13)
(dk+1 /p) (ds /p) (dk′ +1 /p) (ds /p)

Aplicando o item 1) da afirmação anterior no contexto do isomor-


fismo em (13), obtemos s − k = s − k ′ ou seja obtemos k = k ′ .
Então, por (11) e (12), temos

(d1 ) = · · · = (dk ) = (p) = (d′1 ) = · · · = (d′k ).


[SEC. VIII.4: ESTRUTURA DOS MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS 337

Isto mostra que dj e d′j são associados em D, para cada j ≤ k.


Falta agora verificar que dj e d′j são associados, para cada j =
k + 1, . . . , s. Como π(ds /p) = π(ds ) − 1, aplicando a hipótese de
indução ao isomorfismo em (13) obtemos, para cada j = k+1, . . . , s,
que (dj /p) = (d′j /p) e logo que (dj ) = (d′j ).

Seja d ∈ D um elemento não-nulo e não-invertı́vel. Sendo D


um domı́nio euclidiano, e portanto um domı́nio fatorial, podemos
escrever
d = ps11 ps22 . . . psℓ ℓ ,

com pi elemento primo do domı́nio D e pi não-associado de pj , para


i 6= j. Pelo Teorema Chinês dos Restos (Teorema II.2.7), obtemos

D/(d) ≃ D/(ps11 ) × D/(ps22 ) × · · · × D/(psℓ ℓ ).

Aplicando este procedimento aos D-módulos cı́clicos D/(d1 ),


D/(d2 ), . . . , D/(ds ) que aparecem no Teorema VIII.4.1, obtemos:

Teorema VIII.4.3. (Decomposição primária). Seja D um domı́nio


euclidiano. Sejam M um D-módulo finitamente gerado e T (M ) seu
submódulo de torção. Então,

a) Existem elementos primos p1 , . . . , pu ∈ D (em geral não todos


distintos) e inteiros v1 ≥ 1, . . . , vu ≥ 1 tais que

T (M ) ≃ D/(pv11 ) × · · · × D/(pvuu ).

b) Os elementos pv11 , . . . , pvuu são unicamente determinados, a


menos de multiplicação por elementos invertı́veis de D.
338 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS

VIII.5 Exercı́cios
1. Seja R um anel comutativo com unidade e considere M um
R-módulo simples (isto é, os únicos submódulos de M são (0)
e M ).

a) Mostre que M é isomorfo (como R-módulo) ao módulo


R/M, onde M é um ideal maximal de R.
b) Seja M ′ um outro R-módulo simples e seja ϕ : M → M ′
um R-homomorfismo. Mostre que ou ϕ = 0 ou ϕ é um
isomorfismo.
c) Considere o conjunto dos endomorfismos de M :

EndR (M ) = {ϕ : M → M ; ϕ é R-homomorfismo }.

Mostre que (EndR (M ), +, ⊙) é um corpo, onde a mul-


tiplicação ⊙ é a composição de funções e a adição é
definida por (ϕ1 + ϕ2 )(m) = ϕ1 (m) + ϕ2 (m), ∀ m ∈ M .

2. Resolva os seguintes itens:

a) Mostre que os elementos m1 = 2 e m2 = 3 formam um


conjunto de geradores para Z como Z-módulo, isto é,
mostre que Z = Zm1 + Zm2 .
b) Seja M um R-módulo livre de posto finito, onde R é um
anel comutativo com unidade. Então um conjunto de
geradores para M como R-módulo pode não conter uma
base de M ?

3. Seja R um anel tal que todo R-módulo finitamente gerado é


livre. Mostre que R é um corpo.

4. Diagonalize a matriz 3 × 3 com entradas em Z:


 
3 1 −4
 2 −3 1 .
−4 6 −2
[SEC. VIII.5: EXERCÍCIOS 339

5. Ache uma base para os seguintes submódulos de Z3 :

a) O submódulo gerado por v1 = (1, 0, −1), v2 = (2, −3, 1),


v3 = (0, 3, 1) e v4 = (3, 1, 5).
b) O submódulo das soluções do sistema de equações
lineares X + 2Y + 3Z = X + 4Y + 9Z = 0.

6. Sejam D um domı́nio euclidiano, M um D-módulo finita-


mente gerado e N um D-submódulo de M . Mostre que

(Posto de M/N ) = (Posto de M ) − (Posto de N ).

7. Sejam A e B duas matrizes quadradas m × m que sejam


diagonalizáveis. Mostre que elas são simultaneamente diago-
nalizáveis (i.e., existe uma matriz invertı́vel P tal que P AP −1
e P BP −1 são matrizes diagonais) se e somente se AB = BA.
340 [CAP. VIII: MATRIZES E MÓDULOS FINITAMENTE GERADOS
Capı́tulo IX

Aplicações

IX.1 Estrutura dos Grupos Abelianos


Finitamente Gerados
Traduzimos para o contexto dos grupos abelianos os resultados obti-
dos no capı́tulo anterior:
Teorema IX.1.1. Sejam G um grupo abeliano finitamente gerado
e T (G) := {g ∈ G; ∃ n 6= 0 tal que ng = 0} seu subgrupo de torção.
Então,
a) Existem um inteiro t ≥ 0 (chamado de posto de G) e um
subgrupo L ≃ Zt tais que
G = T (G) ⊕ L.

b) (Decomposição de torção) Existem inteiros unicamente deter-


minados t ≥ 0 e d1 ≥ 2, . . . , ds ≥ 2 satisfazendo a condição
dj divide dj+1 , para cada j = 1, . . . , s − 1, tais que
G ≃ Z/d1 Z × · · · × Z/ds Z × Zt .

c) (Decomposição primária) Existem inteiros unicamente deter-


minados t ≥ 0 e pv11 , . . . , pvuu com p1 ≤ · · · ≤ pu números
primos e com v1 ≥ 1, . . . , vu ≥ 1, tais que
G ≃ Z/pv11 Z × · · · × Z/pvuu Z × Zt .

341
342 [CAP. IX: APLICAÇÕES

Exemplo IX.1.2. O teorema anterior nos permite exibir todos os


grupos abelianos finitos de uma certa ordem. Por exemplo, se p é
um número primo, então a menos de isomorfismo, existem exata-
mente 3 grupos abelianos de ordem p3 , a saber:
Z Z Z Z Z Z
, × , × × .
p3 Z 2
p Z pZ pZ pZ pZ
A menos de isomorfismo, existem exatamente 5 grupos abelianos
de ordem q 4 , se q é um número primo, a saber:
Z Z Z Z Z Z Z Z
, × , × 2 , × × ,
q4Z 3
q Z qZ 2
q Z q Z 2
q Z qZ qZ
Z Z Z Z
× × × .
qZ qZ qZ qZ
Daı́ decorre que a menos de isomorfismo, existem exatamente 15
grupos abelianos de ordem p3 · q 4 , se p e q são números primos dis-
tintos. Eles são obtidos como produto direto de um grupo abeliano
de ordem p3 com um grupo abeliano de ordem q 4 .

IX.2 Forma Canônica de Jordan


Definição IX.2.1. Uma matriz M quadrada de tamanho m × m
é formada por blocos se existe uma partição de m
m = m1 + m2 + · · · + ms ,
e existem matrizes quadradas Mi de tamanhos mi × mi , para cada
i = 1, 2, . . . , s, tais que
 
M1 O O
O M O
 2 
M= ... ,
 
O O Ms
isto é, se a matriz M é formada pelos blocos M1 , M2 , . . . , Ms
dispostos ao longo da diagonal principal e todas as suas outras
entradas são nulas.
[SEC. IX.2: FORMA CANÔNICA DE JORDAN 343

Um bloco de Jordan é uma matriz quadrada com uma mesma


constante (que pode ser nula) na diagonal principal, com as en-
tradas logo abaixo da diagonal principal iguais a 1 e com todas as
outras entradas nulas. Por exemplo,
 
  α 0 0 0
  α 0 0
α 0  1 α 0 0
(α), , 1 α 0 ,  0 1 α 0

1 α
0 1 α
0 0 1 α
são os primeiros quatro blocos de Jordan possı́veis.
Uma matriz de Jordan é uma matriz quadrada formada por
blocos que são blocos de Jordan. Se o tamanho da matriz é m = 3,
temos as seguintes possibilidades para as matrizes de Jordan:
     
α 0 0 α1 0 0 α1 0 0
 1 α 0  ,  0 α2 0  ,  0 α2 0  .
0 1 α 0 1 α2 0 0 α3
A primeira matriz acima é formada de um único bloco, a segunda
é formada de dois blocos e a terceira tem três blocos de Jordan.
Seja V um espaço vetorial complexo de dimensão finita e seja
T : V → V um operador C-linear. O teorema central desta seção
afirma que existe uma base ordenada para V tal que a matriz de
T com relação a esta base (usando a mesma base ordenada no
domı́nio e no contra-domı́nio) é uma matriz de Jordan. Demons-
traremos este teorema como uma aplicação do teorema de estrutura
para módulos finitamente gerados sobre domı́nios euclidianos.
Tratamos inicialmente uma situação mais geral:
Sejam F um corpo, t uma indeterminada sobre F e F [t] o anel
de polinômios sobre F . Seja V um espaço vetorial de dimensão
finita sobre F e seja
T: V →V um operador F -linear.

Idéia-chave: Considerar V com a estrutura de F [t]-módulo dada


pela multiplicação escalar abaixo
f (t) · v := f (T )(v),
344 [CAP. IX: APLICAÇÕES

P
onde se f (t) = ni=0 ai ti , então f (T ) denota o seguinte operador
linear sobre V (abaixo, I : V → V é a identidade):
f (T ) = an T n + an−1 T n−1 + · · · + a1 T + a0 I.
Verifique que realmente a multiplicação escalar definida acima
faz de V um módulo sobre o anel de polinômios F [t]. Sendo V
de dimensão finita sobre F , ele é finitamente gerado como módulo
sobre F [t] e, sendo (F [t], grau) um domı́nio euclidiano, temos a
seguinte decomposição de torção:
V ≃ F [t]/(d1 ) × · · · × F [t]/(ds ),
com d1 , . . . , ds ∈ F [t] \ F , dj divide dj+1 , ∀ j = 1, . . . , s − 1, onde
o isomorfismo acima é um isomorfismo de F [t]-módulos. Observe
que a parte livre de V como F [t]-módulo é igual a (0), pois V é de
dimensão finita sobre F enquanto que dimF F [t] = ∞. Portanto,
temos uma decomposição
V = W1 ⊕ W2 ⊕ · · · ⊕ Ws ,
onde Wi é um F [t]-submódulo cı́clico de V , de torção, para cada
i = 1, . . . , s. Sendo um submódulo, Wi é tal que t · Wi ⊆ Wi ;
logo temos T (Wi ) ⊆ Wi , isto é, o submódulo Wi é um subespaço
vetorial T -invariante. Tomando bases ordenadas (como F -espaços
vetoriais) para W1 , W2 , . . . , Ws obtemos uma base ordenada para
o espaço vetorial V em relação à qual a matriz do operador T é
formada por blocos M1 , . . . , Ms pois T (Wi ) ⊆ Wi .
Passamos agora a analisar cada um destes blocos correspon-
dendo a T |Wi : Wi → Wi . O espaço vetorial T -invariante Wi é
isomorfo a F [t]/(di ) como F [t]-módulo. Podemos supor que di é
um polinômio mônico de grau≥ 1. (Aqui usamos pela primeira vez
a operação elementar de multiplicação de uma linha ou coluna por
elemento invertı́vel de F [t], ou seja, por elemento não-nulo de F ).
As condições de divisibilidade: d1 divide d2 , d2 divide d3 , etc...,
implicam em particular que os blocos quadrados M1 , M2 , . . . , Ms
ao longo da diagonal principal são de tamanhos não-decrescentes,
pois claramente temos
dimF F [t]/(di ) = grau(di ).
[SEC. IX.2: FORMA CANÔNICA DE JORDAN 345

Consideramos então o F [t]-módulo cı́clico F [t]/(d(t)), onde o


polinômio d(t) := tk + ak−1 tk−1 + · · · + a1 t + a0 ∈ F [t] é mônico de
grau k ≥ 1. O operador linear T age como multiplicação escalar
por t, isto é,
T (α) = t · α, ∀ α ∈ F [t]/(d(t)).
Em relação à F -base ordenada B = {1̄, t̄, t̄2 , . . . , t̄k−1 } de F [t]/(d(t)),
o operador T é representado pela seguinte matriz (matriz esta
chamada de matriz companheira de d(t)):
 
0 −a0
 
 
1 0
 O −a1  
 
 
 1 0 −a2 
 
 
 .
 
 
 
 
 O 
 
 1 0 −ak−2 
 
 
1 −ak−1
Essa matriz tem entradas iguais a 1 (um) abaixo da diagonal prin-
cipal e todas as outras entradas nulas, exceto as entradas na última
coluna que são os inversos aditivos dos coeficientes do polinômio
mônico d(t).
Assim obtemos que existe uma F -base de V tal que a ma-
triz de T em relação a esta base ordenada é formada de blocos
M1 , M2 , . . . , Ms (de tamanhos não-decrescentes), que são as ma-
trizes companheiras dos polinômios mônicos não-constantes
d1 , d2 , . . . , ds , respectivamente. A forma acima descrita para a ma-
triz de um operador linear T , formada de blocos que são matrizes
companheiras, é chamada de forma canônica racional .
Sendo F [t] um domı́nio fatorial, podemos fazer a decomposição
de d(t) em produto de polinômios mônicos e irredutı́veis em F [t]:
d(t) = p1 (t)s1 · p2 (t)s2 . . . pℓ (t)sℓ .
346 [CAP. IX: APLICAÇÕES

Pelo Teorema Chinês dos Restos (Teorema II.2.7), obtemos

F [t]/(d(t)) ≃ F [t]/(p1 (t)s1 ) × · · · × F [t]/(pℓ (t)sℓ ).

Isto significa que podemos quebrar cada um dos blocos M1 ,


M2 , . . . , Ms em sub-blocos, obtendo assim uma base ordenada para
o espaço vetorial V com relação à qual a matriz de T é formada de
blocos que são matrizes companheiras de potências de polinômios
mônicos irredutı́veis de F [t].

Seja p(t) ∈ F [t] um polinômio mônico irredutı́vel e considere


o F [t]-módulo cı́clico F [t]/(p(t)s ), onde s ∈ N. O operador linear
T age como multiplicação escalar por t. Seja k := grau(p(t)s ) e
assim k = s · grau(p(t)). Procuramos agora representar o operador
T em relação a outras F -bases de F [t]/(p(t)s ). Em relação à base
ordenada {1̄, t̄, . . . , t̄k−1 }, o operador T é representado pela matriz
companheira de p(t)s . Uma outra F -base natural para o módulo
F [t]/(p(t)s ) é a seguinte:

B = {ti p(t)j · 1̄ | 0 ≤ i < grau p(t) e 0 ≤ j < s}.

Ordenamos a base B acima segundo a ordem anti-lexicográfica, isto


é, definimos:


 ′
j < j
(i, j) < (i′ , j ′ ) quando ou


j = j ′ e i < i′ .

Se denotamos por B a matriz companheira do polinômio mônico


irredutı́vel p(t) ∈ F [t], então a matriz de T em relação à base
ordenada B acima tem a forma (verifique!):
[SEC. IX.2: FORMA CANÔNICA DE JORDAN 347

isto é, uma matriz k × k tendo a matriz quadrada B (de tamanho


igual ao grau de p(t)) repetida s vezes ao longo da diagonal prin-
cipal e com todas as outras entradas nulas, exceto as entradas
das posições (i + 1, i) com i ≡ 0(mod grau p(t)) que são iguais a
1 (um). O ponto-chave paraPa montagem da matriz descrita acima
r−1
é o seguinte: se p(t) = tr + j=0 aj tj , então

t · tr−1 = (−a0 ) · 1 + (−a1 ) · t + · · · + (−ar−1 ) · tr−1 + 1 · p(t).


No caso particular em que p(t) = (t − α) ∈ F [t], a F -base
ordenada B é dada por
B = {(t − α)j · 1̄ | 0 ≤ j < s}.
Neste caso, a matriz do operador T nesta base B é então um bloco
de Jordan de tamanho s × s e com o elemento α ao longo da
diagonal principal. Utilizando o Teorema Fundamental da Álgebra
(i.e., o fato que os polinômios irredutı́veis de C[t] são exatamente
os polinômios de grau 1), obtemos então o seguinte resultado:
Teorema IX.2.2. (Forma canônica de Jordan). Seja V um espaço
vetorial complexo de dimensão finita e seja T : V → V um operador
C-linear. Então existe uma base ordenada para o espaço vetorial
V em relação à qual o operador linear T é representado por uma
matriz de Jordan.
348 [CAP. IX: APLICAÇÕES

IX.3 Exercı́cios
1. Para n = 15, 45, 23 · 52 · 72 , 22 · 33 · 52 , exibir todos os gru-
pos abelianos de ordem n, dando para cada um deles a sua
decomposição de torção.

2. Sejam G um grupo abeliano livre de posto finito e H um


subgrupo de G.

a) Mostre que (posto de H)=(posto de G) se e somente se


(G : H) é finito.
b) Suponha que (G : H) seja finito, e considere a inclusão
f : H ֒→ G. Sejam v1 , . . . , vm uma base qualquer de
H, w1 , . . . , wm uma base qualquer de G, e M a ma-
triz associada a f em relação a estas bases. Mostre que
|det M| = (G : H).

3. Seja ϕ : Zn → Zm um Z-homomorfismo, onde n ≥ m, e seja


A a matriz de ϕ em relação às bases canônicas de Zn e de Zm .
Mostre que ϕ é sobrejetora se e somente se o maior divisor
comum dos menores m × m da matriz A é igual a 1.

4. Determine o número de grupos abelianos distintos de ordem


igual a 400.

5. Sejam W1 , W2 , . . . , Wk grupos abelianos finitos. Seja m um


número natural fixado e, para j = 1, 2, . . . , k, seja uj o número
de elementos de Wj com ordem dividindo este número natural
m. Mostre que o número de elementos de W1 × W2 × . . . Wk
com ordem dividindo m é igual a u1 · u2 . . . uk .

6. Com as notações do Exercı́cio 5 acima, suponha que cada Wj


é um grupo cı́clico de ordem pej , onde p é um número primo.
Seja r1 o número de j’s (1 ≤ j ≤ k) com ej = 1, r2 o número
de j’s com ej = 2, etc. Mostre que o número de elementos de
W1 × W2 × · · · × Wk com ordem dividindo pn é igual a psn ,
[SEC. IX.3: EXERCÍCIOS 349

onde:
s 1 = r1 + r2 + · · · + rh
s2 = r1 + 2r2 + 2r3 + · · · + 2rh
s3 = r1 + 2r2 + 3r3 + 3r4 + · · · + 3rh ,
e assim por diante. De maneira mais precisa, mostre que o
número sn é dado por:
sn = r1 + 2r2 + · · · + (n − 1)rn−1 + n(rn + rn+1 + · · · + rh ).

7. Seja M um C-espaço vetorial de dimensão finita e seja


T : M → M um operador C-linear. O polinômio caracterı́stico
c(t) ∈ C[t] do operador linear T é definido por
c(t) := det(tId − A),
onde A é uma matriz que representa o operador T em relação
a alguma base ordenada de M .

a) Mostre que o polinômio caracterı́stico não depende da


escolha da base ordenada de M .
b) Se a matriz A é a matriz companheira de um polinômio
d(t) (vide Seção IX.2), mostre que d(t) é o seu polinômio
caracterı́stico, i.e., que d(t) = det(tId − A).
c) Se a matriz A é a matriz companheira de um polinômio
d(t), mostre que d(A) = 0.
d) Prove o Teorema de Cayley-Hamilton, isto é mostre que
c(T ) = 0, onde c(t) é o polinômio caracterı́stico de T .
Dica: Decomponha M numa soma direta de subespaços
T -invariantes (vide a forma canônica racional na Seção
IX.2) e utilize os itens b) e c) precedentes.

8. Seja M um C-espaço vetorial de dimensão finita e seja


T : M → M um operador C-linear com polinômio caracte-
rı́stico com raı́zes distintas (isto é, todas as raı́zes com multi-
plicidades iguais a 1). Mostre que T é diagonalizável.
350 [CAP. IX: APLICAÇÕES

Dica: Para cada raiz λ ∈ C do polinômio caracterı́stico c(t),


existe um vetor não-nulo v ∈ M com T (v) = λ · v . Este vetor
não-nulo v é chamado autovetor do autovalor λ ∈ C. Mostre
que autovetores v1 , v2 , . . . , vr correspondentes a autovalores
λ1 , λ2 , . . . , λr distintos são C-linearmente independentes.

9. Seja M um C-espaço vetorial de dimensão 5 e seja T : M → M


um operador C-linear com polinômio caracterı́stico da forma
(t − α)5 , com α ∈ C. Suponha que o operador (T − αId) = S
tenha posto 2 (isto é, a dimensão da imagem S(M ) é igual a
2). Quais são as possı́veis formas de Jordan do operador T ?

10. Determine a forma de Jordan da matriz


 
1 1 0
0 1 0 .
0 1 1

11. Qual é a forma de Jordan de uma matriz com polinômio ca-


racterı́stico (t − 2)2 · (t − 5)3 tal que o espaço de autovetores
para o autovalor 2 tem dimensão 1, enquanto que o espaço
para o autovalor 5 tem dimensão 2?

12. O polinômio minimal m(t) de um operador C-linear


T : M → M , onde M é espaço vetorial complexo de dimensão
finita, é definido como o polinômio mônico de menor grau tal
que m(T ) = 0.

a) Mostre que o polinômio minimal divide o polinômio ca-


racterı́stico de T .
b) Mostre que cada raiz do polinômio caracterı́stico é ainda
uma raiz do polinômio minimal.
c) Mostre que o operador T é diagonalizável se e somente
se m(t) não tem raı́zes múltiplas.
[SEC. IX.3: EXERCÍCIOS 351

Dica: Como C[t]-módulo temos um isomorfismo (vide Seção


IX.2)

C[t] C[t]
M≃ × ··· × onde d1 |d2 | · · · |ds .
(d1 ) (ds )

Verifique que os polinômios caracterı́stico e minimal do ope-


rador T são respectivamente:

c(t) = d1 (t) · · · ds (t) e m(t) = ds (t).

13. Ache todas as formas de Jordan possı́veis para matrizes 8 × 8


com polinômio minimal dado por t2 · (t − 1)3 .
Índice

Pág.
Algorı́tmo de Euclides . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
Anel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Anel de polinômios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16, 25, 26
Anel dos inteiros de Gauss . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10, 23, 115, 119
Anel dos inteiros módulo n . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
Anel dos quaternios inteiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119, 130
Anel não-comutativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .8
Anel noetheriano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .44, 45, 105
Anel quociente módulo um ideal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
Anulador de um módulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 333
Aplicação A-linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .327
Automorfismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 168
Automorfismo interno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 168
Autovalor de um operador linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 350
Autovetor de um operador linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 350
Base canônica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 325
Base de um módulo livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 325
Bloco de Jordan . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 343
Cadeia ascendente estacionária de ideais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Caracterı́stica de um anel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .34
Centralizador de um elemento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255
Centro de um grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
354 ÍNDICE

Ciclo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
Ciclos disjuntos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
Classe de conjugação de um elemento . . . . . . . . . . . . . . . . 243, 255
Classe de conjugação de um subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257
Classe lateral à direita de um subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148
Classe lateral à esquerda de um subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . .148
Classe lateral de um subgrupo normal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153
Coeficiente lı́der de um polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17, 105
Coeficientes de torção de um módulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 333
Comprimento de uma série subnormal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293
Comprimento de um ciclo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
Comutadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300
Cônicas irredutı́veis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125
Conjugados de um elemento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243, 255
Conjugados de um subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .257
Conteúdo de um polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
Corpo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
Corpo de frações de um domı́nio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
Corpos finitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67, 111
Critério de Eisenstein . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80, 83
Curva plana afim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121
Decomposição de torção de um grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 341
Decomposição de torção de um módulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 332
Decomposição em frações parciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .65
Decomposição primária de um grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 341
Decomposição primária de um módulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 337
Derivada de um polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72
Determinante de Vandermonde . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110
Diagonalização de matrizes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 309
Discriminante de um polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84, 94, 95
Divisor de um elemento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .39
Domı́nio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
Domı́nio de fatoração única . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
Domı́nio de integridade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
Domı́nio euclidiano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19, 48
ÍNDICE 355

Domı́nio fatorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42, 54


Domı́nio principal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44, 45, 68
Elemento invertı́vel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Elemento irredutı́vel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Elemento primo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .39, 81
Elementos associados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Elementos primos entre si . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
Elementos relativamente primos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
Endomorfismo de Módulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 338
Equação das classes de conjugação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .256
Estabilizador de um elemento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 254
Fator de um elemento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Fator múltiplo de um polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
Forma canônica de Jordan de um operador linear . . . . . . . . . 347
Forma canônica racional de um operador linear . . . . . . . . . . . 345
Fórmula de interpolação de Lagrange . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Função de Euler . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69, 149, 179, 239
Função norma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
Função polinomial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
Grau de um polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17
Grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .135
Grupo abeliano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .135
Grupo abeliano finitamente gerado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 341
Grupo alternado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 224
Grupo cı́clico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145, 172, 174
Grupo comutativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
Grupo das permutações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .138, 218
Grupo das permutações pares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 224
Grupo das raı́zes n-ésimas da unidade . . . . . . . . . . . . . . . 143, 167
Grupo de automorfismos de um grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 168
Grupo de Klein . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231
Grupo dihedral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196, 239, 240
Grupo dos quaternios generalizados . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196, 240
Grupo finito gerado por dois elementos . . . . . . . . . . . . . . 182, 185
356 ÍNDICE

Grupo linear geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137


Grupo quociente por um subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155
Grupo simétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138, 218
Grupo simples . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228, 273, 275
Grupo solúvel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 301,, 302, 303
Grupo supersolúvel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 301
Grupos quocientes de uma série subnormal . . . . . . . . . . . . . . . 293
Homomorfismo canônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30, 159
Homomorfismo de anéis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
Homomorfismo de grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .159
Homomorfismo de módulos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 320
Homomorfismo identidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30, 159
Homomorfismo trivial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159
Ideal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
Ideal finitamente gerado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44, 105
Ideal maximal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Ideal primo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Ideal principal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
Identidades de Newton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
Imagem de um homomorfismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31, 161
Índice de um subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148, 151
Inteiros de Gauss . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10, 23, 114, 118
Interpolação de Lagrange . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Isomorfismo de anéis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
Isomorfismo de grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .162
Isomorfismo de módulos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 321
Lema de Cauchy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .258, 260
Lema de Gauss . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
Lema de Zassenhaus . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .297
Linearmente independentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 325
Maior divisor comum . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22, 39
Matriz companheira de um operador linear . . . . . . . . . . . . . . . 345
Matriz de aplicação A-linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 327
Matriz de Jordan de um operador linear . . . . . . . . . . . . . 343, 347
ÍNDICE 357

Matriz formada por blocos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 342


Matrizes equivalentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 313
Módulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 318
Módulo cı́clico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 319
Módulo finitamente gerado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 318, 323, 332
Módulo livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 325
Módulo noetheriano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 323
Módulo quociente por um submódulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 321
Módulo simples . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 338
Multiplicidade de uma raiz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
Norma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
Normalizador de um subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257
Núcleo de um homomorfismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31, 160
Número de Fermat . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Operador linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 321
Órbita de um elemento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 254
Ordem de um elemento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146, 149
Ordem de um grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146, 149
p-ésimo polinômio ciclotômico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
p-grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 260
p-grupo finito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .267, 268
p-subgrupo de Sylow . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 260
Pequeno Teorema de Fermat . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113, 149
Permutação de linhas ou colunas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .310, 328
Permutação ı́mpar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
Permutação par . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
Permutações disjuntas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
Peso de um polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
Polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15, 17
Polinômio caracterı́stico de um operador linear . . . . . . . . . . . 349
Polinômio ciclotômico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
Polinômio homogêneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75, 91, 92
Polinômio minimal de um operador linear . . . . . . . . . . . . . . . . 350
Polinômio mônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
358 ÍNDICE

Polinômio primitivo num domı́nio fatorial . . . . . . . . . . . . . . . . . .60


Polinômio simétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97, 98
Polinômios simétricos elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
Posto de uma matriz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 317
Posto de um grupo abeliano finitamente gerado . . . . . . . . . . . 341
Posto de um módulo finitamente gerado . . . . . . . . . . . . . . . . . . 333
Posto de um módulo livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 327
Produto direto de anéis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
Produto direto de grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142, 197
Produto direto de módulos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 322
Produto semidireto de dois grupos . . . . . . . . . . . . . . 201, 207, 213
Projeção canônica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30, 159, 321
Propriedades de A4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280, 282
Propriedades de A5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 282, 283
r-ciclo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
Raiz de um polinômio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
Raiz n-ésima da unidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
Refinamento de uma série subnormal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293
Representação de um grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249
Representação linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250
Representação por conjugação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
Representação por permutações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250
Representação por translação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
Representação regular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
Representação transitiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .254
Resultante de dois polinômios . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84, 88, 89, 90
Seção de um grupo quociente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241
Série central . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 304
Série de composição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293, 299
Série normal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 301
Série subnormal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293
Séries equivalentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .295
Sistema de representantes de uma partição . . . . . . . . . . . . . . . 148
Sistema multiplicativo de um domı́nio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
Soma de dois quadrados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 114, 117
ÍNDICE 359

Soma de quatro quadrados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .119, 129


Subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142
Subgrupo caracterı́stico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .169
Subgrupo conjugado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257
Subgrupo de torção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147
Subgrupo de Sylow . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 260
Subgrupo dos comutadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146
Subgrupo gerado por dois subgrupos . . . . . . . . . . . . . . . . . 156, 157
Subgrupo gerado por um subconjunto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145
Subgrupo normal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153
Submódulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 318, 320
Submódulo de módulo livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 329
Submódulo de torção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 320
Submódulo finitamente gerado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 318
Substituição de linha ou coluna . . . . . . . . . . .