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Pressupostos da Dissolução e Liquidação

das Instituições de Crédito

Elisa Rangel Nunes

Directora do Gabinete Jurídico e Contencioso


do Banco de Poupança e Crédito, SARL
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8º Encontro de Juristas Bancários de Expressão Oficial Portuguesa

INTRODUÇÃO

As minhas saudações a todos os participantes e em especial aos organizadores


deste 8º. Encontro de Juristas Bancários de Língua Oficial Portuguesa.

O tema sobre que vamos dissertar apresenta desde logo como limitação, o trata-
mento em exclusivo da dissolução e da liquidação das instiuições de crédito, pese em-
bora o regime jurídico das instituições financeiras em Angola, se refira também às
sociedades financeiras.

E esta restrição deve-se ao facto de, até ao momento em Angola não se haver
constituído, nos termos legais, uma única sociedade financeira.

O conjunto de questões que vamos neste tema levantar, prendem-se com o inte-
resse que ele apresenta, principalmente, no que se refere ao regime definido na lei para
a liquidação das instituições de crédito.

A lei determina que a constituição das instituições de crédito, o seu licenciamento,


o controlo e vigilância da sua actividade, condições de saneamento e recuperação e
revogação da licença, são atribuições do Banco Nacional de Angola. No entanto, em
matéria de liquidação retira a esta entidade administrativa a competência para a desen-
cadear, em face da ausência de um regime próprio de liquidação, com origem na revo-
gação, em 1991, do Decreto-Lei nº.30689, de 27 de Agosto de 1940.

Procuraremos, dentro do possível, observar alguns dos fundamentos que apon-


tam para a via de liquidação administrativa, como a via por excelência destinada à
liquidação das instituições de crédito, depois de passarmos em revista matérias que de
um modo geral são aplicáveis às sociedades comerciais, sem deixarmos de nos referir
ao que de específico existe, sempre que essas mesmas matérias sejam analisadas em
sede de instituições de crédito.

1. CONCEITO DE DISSOLUÇÃO E DE LIQUIDAÇÃO

Muito embora os conceitos de dissolução e de liquidação de que vamos passar a


tratar se situem ao nível de pessoas colectivas portadoras de um estatuto jurídico espe-
cial, determinado pela natureza do objecto social a que se dedicam, nem assim se fica
dispensado de passar em revista o modo como estes dois conceitos são tratados na lei
comercial (haja em vista, que as instituições de crédito são por imposição legal socie-
dades anónimas).

1.1. Em dois sentidos pode ser definido o conceito de dissolução: em sentido amplo e num
sentido restrito.

No que ao primeiro se refere, por dissolução entende-se o período que se inicia com
o acto que determina a extinção das sociedades até ao total desaparecimento destas.

Quanto ao segundo, o sentido estrito do conceito de dissolução, prende-se com o


acto que determina a extinção das sociedades, sendo que através deste acto, que não é
senão a resolução de restringir a sua actividade, a partir desse momento, a certos fins

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especiais, não se verifica a extinção imediata da sociedade. A personalidade jurídica da
sociedade mantém-se, com a finalidade de apenas concluir operações já iniciadas e
proceder à liquidação dos valores sociais.

Do que atrás fica dito quanto ao sentido estrito da dissolução, é expressiva a


afirmação contida no artigo 122º. do Código Comercial, quanto ao significado da exis-
tência jurídica da sociedade em dissolução: ela apenas existe para a liquidação e parti-
lha.

1.2. Como se viu a dissolução em sentido estrito determina a continuação da sociedade com o
objectivo de dar destino aos valores que constituem o seu património, quer através da satis-
fação dos compromissos assumidos pela sociedade perante os seus credores, quer entregan-
do aos sócios o remanescente desse património na proporção que lhes for devida.

O conjunto de actos que permite reunir o acervo patrimonial, que depois de pagas
todas as dívidas e cobrados todos os créditos sociais (satisfação do activo e satisfação
do passivo da sociedade), há-de ser partilhado, proporcionalmente, pelos sócios, deno-
mina-se liquidação.

Tal como a dissolução em sentido estrito, a liquidação também não extingue a


sociedade, pelo contrário a personalidade jurídica da sociedade mantém-se enquanto
durar toda a fase de liquidação.

1.3. A definição dos dois conceitos permite-nos observar que se trata de dois momentos distin-
tos, compreendidos no conceito de extinção ou dissolução em sentido amplo das sociedades
comerciais. Com Jorge Nunes afirmamos: “enquanto a dissolução atinge a sociedade, como
conjunto de relações jurídicas contratuais entre os seus associados (sociedade-contrato), a
liquidação dirige-se sobretudo à sociedade-instituição, património social afecto a certo objecto
social, sua “ratio essendi”1 .

2. CAUSAS DE DISSOLUÇÃO E FORMAS DE LIQUIDAÇÃO DAS SOCIEDADES


COMERCIAIS.

Na linha do que atrás se disse, quanto a não ser despiciendo abordar questões que
em geral se prendem com a dissolução e a liquidação das sociedades comerciais, pese
embora a especificidade das instituições de crédito, marcadas por profundos interesses
de ordem pública, analisemos as causas gerais que determinam a dissolução.

A disssolução de uma sociedade pressupõe a ocorrência de certas circunstâncias


ou factos previstos na lei ou determinados por vontade dos sócios. A essas circunstân-
cias ou factos que dão origem à extinção das sociedades dá-se o nome de causas de
dissolução (e que aqui denominamos por pressupostos da dissolução).

É o artigo 120º. do Código Comercial que enumera um conjunto de causas de


dissolução.

1
Causas de Dissolução dos Bancos e Sociedades Financeiras, in Revista da Banca, nº.24, Outubro/Dezembro de 1992, p. 85.

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Sendo que nem todas as causas de dissolução apresentam a mesma natureza, a


doutrina tem vindo a classificá-las do seguinte modo:
a) causas legais (ipso jure) e voluntárias;
b) causas comuns e especiais.

A distinção em que assentam as causas legais e as voluntárias radica em que, por


um lado, as causas legais compreendem os factos tipificados na lei (artigos 120º., 155º.
do C. Com. e 54º. da Lei de 11 de Abril de 1901) e cuja verificação produz a dissolução
automática, por outro, as voluntárias operam por imposição da vontade dos associados
(estabelecidas no contrato de constituição da sociedade).

A base da distinção entre causas comuns e especiais, funda-se no facto de haver


causas que podem ocorrer em relação a qualquer tipo de sociedade (comuns), e outras
que só acontecem em relação a certas sociedades (especiais).

Uma vez operada a dissolução da sociedade, em grande parte dos casos segue-se a
liquidação, destinada a apurar os valores que integram o património social. Mas para que
o conjunto de operações em que a liquidação se traduz, se realize é necessário designar
pessoas que mandatadas pelos sócios cumpram essa missão2 - os liquidatários -, ou em
casos excepcionais que os sócios voluntariamente solicitem a intervenção do tribunal ou
ainda que esta intervenção seja obrigatória, no caso em que a liquidação é feita após o
processo de falência previsto no artigo 1135º. do Código do Processo Civil.

3. PRESSUPOSTOS DA DISSOLUÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE CRÉDITO

Ao regime geral de causas de dissolução das sociedades comerciais parece poder


adicionar-se o conjunto de causas ou pressupostos de dissolução do tipo especial de
sociedades comerciais que representam as instituições de crédito, cuja especialidade,
como já o dissemos, decorre da natureza do objecto social que prosseguem.

Subjacentes a esses pressupostos da dissolução das instituições de crédito está a


autorização da sua constituição pelo banco central3 (Banco Nacional de Angola) - nº.1.
do artigo 15º. da lei nº.1/99, de 23 de Abril. Só pode dissolver-se a instituição de crédi-
to que se apresentar legalmente constituída, e ainda que tenha obtido autorização do
banco central para se dissolver - nº.2., artº.28º. daquela lei4 .

A lei enumera um conjunto de circunstâncias que conduzem à dissolução (cau-


sas) - artº.20º. - que de um modo geral se reconduzem aos pressupostos de revogação
da autorização pelo banco central. Dentre aqueles pressupostos (causas) que surgem
na lei de modo exemplificativo, contam-se:

a) a obtenção de autorização de constituição por meio de falsas declarações ou outros


meios ilícitos;

2
Casos há em que se verifica a denominada “liquidação por acordo imediato dos interessados”, José Tavares, Sociedades e Empresas
Comerciais, 2ª. Ed., Coimbra Editora, Lda, 1924.
3
A lei atribui competência ao Conselho de Ministros para conceder autorização de constituição a instituições de crédito que “tenham
por accionistas pessoas singulares ou colectivas não residentes, quando o capital subscrito no todo ou em parte ultrapassar 20% do
capital social…”, nº.2 do artigo 15º. da lei nº.1/99, de 23 de Abril.
4
A alusão à dissolução neste artº.28º., como competência do banco central, quanto a nós, seria desnecessária, uma vez que no nº.2
do artº.20º. refere que a consequência lógica e directa da revogação da autorização é a dissolução e a liquidação, sendo que ao
banco central compete proferir a revogação da autorização, conforme o disposto no nº.1. do artº.22º.

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b) a não verificação de qualquer dos requisitos legais previstos no artigo 13º.: não corresponder
a instituição a uma das espécies previstas na lei, nem adoptar a forma de sociedade anónima;
ter por exclusivo objecto o exercício de actividade legalmente permitida; ter capital soci-
al não inferior ao mínimo legal e representado por acções nominativas;
c) a falta de correspondência entre o objecto exercido e o objecto autorizado;
d) cessação da actividade pela instituição:
e) a não aceitação pela instituição das condições estabelecidas ou propostas apresenta-
das pelo Banco Nacional de Angola, relativas à recuperação e saneamento da insti-
tuição (nº.3., artº.79º.);
f) a falta de regularização do não preenchimento de requisitos legais ou estatutários do
normal funcionamento do órgão de administração ou fiscalização da instituição de
crédito (nº.2., artº.25º.);
g) a impossibilidade de recuperação da instituição de crédito ainda que com o concurso
de providências extraordinárias (artº.87º.);
h) a revogação ou caducidade da autorização de sucursal de instituição de crédito cons-
tituída no estrangeiro, quando no seu país de origem tenha sido revogada ou tenha
caducado a autorização ou exercício de actividade (nº.2., artº.34º.).

4. COMPETÊNCIA PARA PROMOVER A DISSOLUÇÃO E A LIQUIDAÇÃO DAS


INSTITUIÇÕES DE CRÉDITO

Vem este número a propósito da questão de saber, a quem compete determinar a


dissolução de uma instituição de crédito, e bem assim, a concretização da sua liquida-
ção, e quais os fundamentos da atribuição dessa competência.

4.1. A lei nº.1/99 atribui competência ao Banco Nacional de Angola (ou ao Conselho de Minis-
tros) para determinar a dissolução de instituição de crédito, quando em relação a ela se
verifique algum dos pressupostos que conduzam à revogação da autorização.

Isto mesmo nos diz o artº.22º.: “A revogação da autorização é da competência do


Banco Nacional de Angola” que “dá à decisão de revogação a publicidade conveniente
e toma as providências necessárias para o imediato encerramento de todos os estabele-
cimentos da instituição, o qual se mantém até ao início das funções dos liquidatários.”.

Contudo, admite a lei que a instituição de crédito em causa possa recorrer da


decisão de revogação para o tribunal competente para julgar a impugnação de actos
administrativos, uma vez que se trata de impugnar um acto administrativo.

Significa isto por dizer, que a primeira palavra sobre a dissolução da instituição
de crédito cabe ao banco central (ou ao Conselho de Ministros), sendo que a interven-
ção do tribunal apenas poderá surgir sob a forma de recurso sobre a decisão daquela
entidade. Convirá que se diga, ainda, que o recurso da decisão de revogação tem efeito
meramente devolutivo (nº.4, artº.22º.).

4.2. Importa saber, porém, as razões que levaram o legislador a optar pela eleição de órgãos da
Administração Pública para decisores da dissolução de instituições de crédito. Julgamos
que em ordem à protecção do interesse público que aqui nos aparece sob a veste de “boa
capacidade funcional do aparelho de crédito e da segurança da vasta massa de depositantes”5 ,

5
J.J. Gomes Canotilho e Paulo Canelas de Castro, Constitucionalidade do Sistema de Liquidação Coactiva Administrativa de
Estabelecimentos Bancários, in Revista da Banca nº.23, Julho/Setembro, 1992, p.64.

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se cometa a organismos integrados na Administração Pública, a tarefa de controlar e vigiar


a actividade ( e a própria constituição das instituições inseridas no mercado financeiro) de
instituições que têm a seu cargo a guarda e a gestão do dinheiro dos clientes, e de quem se
espera a prática de actos que não coloquem em risco a segurança dos valores que lhes são
confiados, por modo a que não arrastem consigo a falta de confiança no sistema bancário,
criando desvantagens para o conjunto da economia.

Daí que exista um conjunto de poderes que são exercidos por este (s) órgão (s) de
controlo sobre as instituições de crédito, visando a salvaguarda do sistema no seu todo
e que se reconduzem:

a) ao direito de que gozam em obter informações sobre, designadamente, o grau


de liquidez, solvabilidade e dos riscos em que incorrem as instituições de cré-
dito, sujeitas à sua vigilância e controlo, mas ainda à inspecção dos seus esta-
belecimentos e ao exame da escrita;
b) ao direito à promoção de medidas de saneamento, quando as instituições se
encontrem em situação de insuficiência de capital próprio, ou apresentem fal-
ta de observância dos rácios de liquidez ou de solvabilidade, colocando em
risco os interesses dos credores, ou exista o perigo de insolvência da institui-
ção que conduza à sua falência;
c) à aplicação de medidas de saneamento acima anunciadas, que vão desde a
restrição de exercício de determinados tipos de actividade, de concessão de
crédito e de aplicação de fundos em determinadas espécies de activos, restri-
ção de recepção de depósitos, proibição ou limitação de distribuição de divi-
dendos, encerramento temporário de balcões e outras instalações em que te-
nham lugar transacções com o público.

Além das medidas imperativas já referidas, que são exercidas sobre a instituição
de crédito em si mesmo considerada, a instituição de vigilância e controlo exerce os
seus poderes sobre os órgãos de gestão e administração da instituição, suspendendo-os
no todo ou em parte e designando em sua substituição administradores provisórios com
os poderes conferidos, pela lei e estatutos, aos órgãos de administração da instituição
de crédito.

4.3. No que respeita à liquidação de instituições de crédito, o regime que a lei bancária actual
apresenta, remete este procedimento para as normas do processo falimentar das sociedades
comerciais, em virtude de ter sido revogado o Decreto-Lei nº.30689, de 27 de Agosto de
1940 (artº.48º., al.d) da lei nº.5/91, de 20.04), que consagrava um regime específico, e que
cometia a liquidação de estabelecimentos bancários à via administrativa.

Na ausência de tal diploma, passou a regular-se a liquidação pelas normas do


processo civil, já que a lei nº.1/99 manda remeter o regime de liquidação para a legisla-
ção aplicável (artº.87º.). Ora, a legislação aplicável, na ausência de um regime especial
de liquidação, será o regime geral de liquidação, aplicável às sociedades comerciais.
Ao que parece, porém, a lei encerra aqui uma contradição, quando por um lado refere
que os meios preventivos da falência não se aplicam às instituições de crédito, e por
outro remete para o regime geral da falência.

Verifica-se, que com a ausência daquele Decreto-Lei, existe na mão do órgão


administrativo de controlo a primeira palavra a respeito da declaração de dissolução, o
que não acontece com a liquidação, relativamente à qual se retira àquele órgão um

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poder, que em nosso entender continuaria a fazer sentido que permanecesse na sua
esfera de competência.

Afinal, a lei consagra um conjunto de providências para evitar que a liquidação


ocorra, mas no caso de essas providências extraordinárias não resultarem, já não cabe
ao órgão administrativo de controlo e vigilância desencadear o processo de liquidação.

Tal regime, para além de retirar um poder que parece situar-se nos limites de
actuação próprios do órgão de controlo, pelas razões já por mais de uma vez invocadas
neste trabalho, aparenta encerrar um contrasenso relativamente ao regime de autoriza-
ção de constituição e de exercício de actividade da instituição de crédito, que como
vimos depende de um acto de licenciamento por parte de entidades públicas.

Como refere Gomes Canotilho6 “não teria qualquer sentido que a legislação ban-
cária concentrasse as tarefas públicas de vigilância bancária apenas no momento de
“entrada” dos estabelecimentos bancários no mundo creditício e descurasse o momen-
to de “saída” ”.

Parece que na “mens legislatoris” não terá pesado o juízo de que no segundo caso
(“saída” da instituição do mundo do crédito) estarão em causa não “simplesmente”
interesses públicos, mas interesses entre a instituição e os sócios e também entre os
seus credores, e que seria esta a razão bastante para comter aos tribunais o processo de
liquidação das instituições de crédito. Porque, na verdade, um processo administrativo
de liquidação não poria em risco, com igualdade de oportunidades àqueles dois tipos de
interesses (públicos e particulares), pelo menos se se tivesse optado por seguir um
regime semelhante ao que o Decreto-Lei nº.30689 regulava.

Vendo bem as coisas, não se entende a razão da revogação daquele diploma na


sua globalidade, já que o regime que regulava não parecia ferir o papel do juiz que em
matéria de liquidação de patrimónios não aparece senão como uma garantia constituci-
onal da via judiciária, e já não como um monopólio (constitucional).

5. QUADRO LEGAL DA LIQUIDAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE CRÉDITO

Tomamos aqui por quadro legal da liquidação das instituições de crédito, três di-
plomas decisivos e fundamentais, que em momentos diferentes regularam o procedimen-
to da liquidação. Referimo-nos ao Decreto-Lei nº.30689, à Lei nº.5/91 e à actual lei que
regula a actividade das instituições de crédito e sociedades financeiras - Lei nº.1/99.

5.1. O Decreto-Lei nº.30689 de 27 de Agosto de 1940, foi um diploma inovador em matéria de


processo de liquidação, na medida em que subtraíu as falências bancárias à jurisdição dos
tribunais comuns, cometendo-a a uma comissão liquidatária, designada administrativamen-
te. Este diploma veio, assim, consagrar “um processo especial de falência com desvios da
lei processual geral.”.

6
Ob. cit., p. 76.

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Cabia ao Ministro das Finanças nomear um comissário do Governo, sempre que


o establecimento bancário suspendesse pagamentos, para intervir na sua gestão, até ao
restabelecimento do estado de crise dentro de certo prazo (90 dias), ou quando o
restabelecimento se não verificasse, era dado conhecimento à Inspecção Geral de Cré-
dito e Seguros, para que o Ministro das Finanças retirasse, por portaria, a autorização
de exercício do comércio bancário e ordenasse a imediata liquidação, valendo a porta-
ria como declaração de falência do estabelecimento bancário, a qual não admitia
impugnação ou recurso (artº.s 2º., 3º., 9º., 11º. e 12º.).

5.2. A Lei nº.5/91 atribuía competência ao banco central (BNA) para tomar providências extra-
ordinárias, quando uma instituição de crédito se encontrasse em situação de desequilíbrio
financeiro que pudesse perturbar o normal funcionamento dos mercados monetário, finan-
ceiro ou cambial. Entre essas providências contavam-se: a nomeação de um gestor ou de
uma comissão de gestão, que implicava a suspensão imediata de todos ou alguns adminis-
tradores, criação de condições para a concessão de adequado apoio monetário ou financeiro,
determinação do congelamento dos bens pessoais dos administradores da instituição de cré-
dito.

O período de verificação das providências terminava com o decurso do prazo, e


havendo prorrogação quando fosse judicialmente declarada falência ou quando o ban-
co central o determinasse (artº.37º.).

A declaração de falência era proferida pelo Procurador da República, sendo o


administrador da massa falida nomeado pelo juiz, ouvido o BNA (nº.s 1. e 2. do artº.38º.).

5.3. Sobre o regime actual de liquidação, que já tivemos oportunidade de analisar no ponto 4.3.
supra, apenas acrescentaremos, que embora não se diga expressamente que a liquidação das
instituições de crédito seguem o regime normal de liquidação de partrimónios, a remissão
que se faz à lei geral, reguladora da liquidação das sociedades (comerciais) anónimas, soci-
edade típica em que se constituem as instituições de crédito, é suficientemente demonstrati-
vo que a lei bancária afastou qualquer hipótese de que a liquidação destas entidades seja
uma liquidação administrativa, tal como acontece em vários países, onde o processo de
liquidação é determinado e desencadeado por autoridades administrativas.

6. LINHAS DE ORIENTAÇÃO PARA O REGIME DE LIQUIDAÇÃO ADMINISTRATIVA

Chegadas a este ponto do nosso trabalho, parece-nos ser importante delinear al-
guns aspectos que se nos afiguram necessários à sistematização de um regime próprio
de liquidação de instituições de crédito, já que como vimos, não se apresenta como
conveniente seguir o regime normal de liquidação de patrimónios.

E talvez valha a pena reforçar um pouco mais os fundamentos deste “desvio” ao


regime normal, quando se trate de liquidar instituições de crédito.

Surgem-nos como basilares os seguintes fundamentos:

1. A protecção da estabilidade financeira, qua assenta na conjugação da capaci-


dade funcional do sistema de crédito (interesse público) com a segurança dos
depósitos dos clientes desse mesmo sistema (interesses particulares);
2. a necessidade de concentrar na administração pública, tanto os poderes de
constituição e de exercício da actividade creditícia pelas instituições de cré-

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dito (cuja sede é inquestionável), como o de controlo e de vigilância destas,
e ainda os de dar o tratamento procedimental necessário à saída das institui-
ções do mundo do crédito, em ordem à estabilidade do sistema financeiro-
creditício;
3. a oportunidade da decisão de excluir e a celeridade que é preciso imprimir,
quando se trate de excluir um membro da família creditícia, condenado à mor-
te ou moribundo, com vista à preservação e equilíbrio de todo o sistema, pelas
repercussões económicas e financeiras que tal exclusão ocasiona;
4. o interesse que o Estado (administração pública) continua a manifestar tam-
bém na fase de liquidação, relativamente a todos os interesses que aparecem
no seio de uma instituição de crédito em actividade - credores, accionistas, o
próprio Estado, enquanto tutela do sistema financeiro - .

Todas estas razões acabadas de enumerar parecem-nos por demais ponderosas


para justificar que a liquidação das instituições de crédito se realize pela via adminis-
trativa (Banco Nacional de Angola) e não pela via judicial, devendo a intervenção do
tribunal comum restringir-se aos casos em que se torne necessário dirimir possíveis
conflitos que decorram da liquidação extra-judicial.

Haverá, por via do que deixámos dito, de acautelar na legislação que às institui-
ções de crédito diga respeito, um regime de liquidação que se assemelhe, com as
actualizações que se imponham, ao que dispunha o Decreto-Lei nº.30689, de 27.08.1940.
Julgamos que por diploma de igual identidade deverá proceder-se, tal como antes, à
criação de um regime especial de liquidação para as instituições de crédito.

7. CONCLUSÕES

1. Às causas de dissolução das sociedades comerciais acresce um conjunto de


causas ou pressupostos de dissolução de aplicação específica às instituições
de crédito, e que se circunsccreve à revogação da autorização (licença) dada
pela entidade administrativa para sua constituição e exercício de actividade.

2. O regime jurídico das instituições de crédito estabelece, para a dissolução,


normas que a regulam de acordo com um procedimento administrativo, de-
sencadeado pela entidade administrativa (BNA) que tem competência para
licenciar o surgimento e exercício de actividade das instituições de crédito.

3. O mesmo se não diga com relação às disposições que aquele regime contém
sobre a liquidação de instituições de crédito, pois ao remeter esta para a legis-
lação aplicável, e na ausência de um regime próprio sobre liquidação de insti-
tuições de crédito, é à liquidação normal de patrimónios regulada pelo proces-
so civil que ele se refere.

4. Não sendo, porém, de aceitar que até à dissolução, as instituições de crédito


sigam um procedimento administrativo, e que por altura do seu encerramento,
por razões do risco que a sua sobrevivência irregular provoca ao sistema fi-
nanceiro, este se concretize pela via judiciária, haverá que atribuir-se a liqui-
dação das instituições de crédito, à entidade administrativa, que tem compe-
tência legal para promover acções de saneamento e recuperação.

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5. E isso será tanto assim, até por uma questão de uniformidade do próprio siste-
ma financeiro, sendo que não constitui violação das normas gerais do proces-
so civil, a adopção de um regime específico de liquidação, como já não o era
quando o Decreto-Lei nº.30689 foi promulgado.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Augusto de Athayde - Curso de Direito Bancário, Vol. I, Coimbra Editora.

J.J. Gomes Canotilho e Paulo Canelas de Castro - Constitucionalidade do Sistema de


Liquidação Coactiva Administrativa de Estabelecimentos Bancários, in Revista da
Banca nº.23, Julho/Setembro, 1992.

Jorge Nunes - Causas de Dissolução dos Bancos e Sociedades Financeiras, in Revista


da Banca nº.24, Outubro/Dezembro, 1992.

J. Pires Cardoso - Noções de Direito Comercial, 12ª. Ed., Rei dos Livros, Lisboa.

José Tavares - Sociedades e Empresas Comerciais, Coimbra Editora, Lda, 1924.

Pinto Furtado - Curso de Direito das Sociedades, Almedina, Coimbra.

LEGISLAÇÃO CONSULTADA

Lei nº.5/91, de 20 de Abril.

Lei nº.1/99, de 23 de Abril.

Decreto-Lei nº.30689, de 27 de Agosto de 1940.

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