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                                 Valores  e  Cultura:  a  Diversidade  e  o  Diálogo  das  Culturas  


 

CONTROVÉRSIAS DO MULTICULTURALISMO

“Durante muito tempo os EUA foram conhecidos como um Melting Pot, querendo
com isso dizer-se que havia lugar para todos viessem donde viessem, que todos eram
bem recebidos e que a pouco e pouco as diferenças culturais se iriam esbatendo a favor
da «nova realidade cultural». Muitos americanos ainda acarinham essa ideia mas para
muitos outros ela é uma ilusão e até um insulto. (…) Hodiernamente, mesmo entre
aqueles que pertencem à cultura dominante existe a consciência de que esta situação
causa danos ao conceito de cultura americana. A questão é o que fazer para a resolver.
Alguns defensores do multiculturalismo (teoria que advoga a necessidade de
assegurar representação no espaço público – universidades, meios de comunicação,
política – aos diversos grupos culturais) propõem que devemos começar por nos ouvir
uns aos outros. A esta versão do multiculturalismo chamarei multiculturalismo
inclusivo. Mais tolerância e compreensão entre os vários grupos culturais é o que
parece pretender-se, maior igualdade de oportunidades e um trabalho conjunto que
combata a ideia de que uma tradição cultural domina o país e aqueles que não a
partilham deve ser marginalizados. Este trabalho deve começar nas escolas onde as
crianças devem aprender o máximo possível sobre as heranças culturais do maior
número possível de grupos étnicos e sociais. (…)
Muitos dos proponentes do multiculturalismo adoptam o relativismo moral.
Contudo, para surpresa de alguns, o relativismo não garante necessariamente o
multiculturalismo. O relativismo ético afirma que não há um código moral universal –
que cada cultura escolhe o que é correcto para si e nenhuma outra cultura tem o direito
de interferir. Esta ideia, ainda que com várias limitações, pode funcionar quando as
culturas estão separadas e isoladas porque nesse caso o código moral é definido como o
código da população dominante. Porém, numa sociedade pluralista como a americana,
é difícil funcionar porque a cultura dominante (a sociedade branca) é cada vez mais
acusada de insensibilidade à diversidade cultural. Pode o relativismo moral funcionar
num país em que nos deparamos frequentemente com valores opostos (Roubar é errado
e Roubar é moralmente correcto para os desfavorecidos) no mesmo bairro? Dado que o
relativismo exige que rejeitemos a ideia de um padrão cultural dominante, alguns
poderão optar por uma atitude de niilismo moral: nenhum valor é melhor do que
outro dado que nenhum valor é objectivamente correcto. Tal niilismo pode conduzir à
desagregação do todo social e, possivelmente, a uma maior coesão no interior de cada
grupo cultural, acentuando-se o conflito entre eles. Podemos descrever este conflito
como balkanização: os grupos culturais têm pouco ou nada em comum excepto o ódio
pelo que outros grupos representam. Parece que o relativismo moral não é a resposta
aos novos problemas do multiculturalismo.
                                   Valores  e  Cultura:  a  Diversidade  e  o  Diálogo  das  Culturas  
 

E se procurarmos a resposta no universalismo moderado? Se formos universalistas


moderados o que podemos esperar? O acordo com os outros grupos acerca de certas
questões, mas não em todas as questões. No caso do multiculturalismo podemos
concordar com a promoção da igualdade, da tolerância e da coesão da nação. Se não
chegarmos a um cordo nisto, o multiculturalismo (inclusivo) é uma causa perdida,
assim como a ideia de Estados Unidos. Segundo o universalismo moderado - proposto
entre outros por Rachels não podemos permitir uma diferença acentuada nos valores e
princípios que regem a convivência social. Não podemos admitir que matar membros
de uma família por uma questão de honra seja inaceitável num bairro e aceitável
noutro. O problema da possibilidade de um núcleo de valores comuns no interior de
uma sociedade multicultural é particularmente urgente e escaldante. Sem valores
comuns muito simplesmente não há sociedade.

Nina Rosenstand, The Moral of the Story – An introduction to questions of ethics and human
nature,(1993),Mayfield,pp80-81
(Traduzido e adaptado por Joana Inês Pontes)