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HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Prof.: Júlio César Caliman Smarçaro – Unisant’Anna

GUIA DE APRECIAÇÃO E ANÁLISE MUSICAL

1) INFORMAÇÕES GERAIS

ARTISTA/ INTÉRPRETE: Ernesto Nazareth


TÍTULO DA MÚSICA: Apanhei-te Cavaquinho
COMPOSITOR(ES): Ernesto Nazareth
ARRANJADOR: Ernesto Nazareth

Álbum/CD: Le Boeuf sur le Toit 

Gravadora: Casa Mozart


Data da gravação: 1930
Instrumento do intérprete principal: Piano
Instrumentação: Piano solo
Músicos participantes: Ernesto Nazareth

2) ANÁLISE
Gênero e fórmula de compasso: Polca (2/4)
Subgênero (quando aplicável):
Tonalidade: G (com modulação para C no desenvolvimento)
Forma da música: Sonata: Esta estrutura pode ser resumida em: Exposição/
Desenvolvimento/ Reexposição (Coda).
Forma do arranjo: ||: Exposição do primeiro tema A (16):||: Exposição do segundo
tema B(16) :|| Repetição do tema principal A (16) || Desenvolvimento, mudança de
tonalidade (16) :|| Coda (16) reexposição do tema principal na tonalidade de início e
terminando na tônica.
Análise detalhada da forma:
Primeiro Tema: Dezesseis compassos com repetição, mão esquerda sustentando a
parte rítmica fazendo uso da figura do tresilho seguido de colcheias tocando os acordes
no baixo, mão direita fazendo o solo. Ambas as mão tocando em clave de sol. Uso de
passagens diatônicas, ornamentações como mordentes, motivos rítmicos pequenos
(geralmente grupos de quatro semicolcheias) aparecem repetidos e transpostos em
diferentes alturas.
Segundo Tema: Dezesseis compassos com repetição, a melodia permanece estruturada
basicamente por semicolcheias, Tema contrastante com o primeiro, pois agora a
melodia apresenta vários saltos intervalares, pouco movimento diatônico, os mordentes
passam a dar lugar para poucas appoggiaturas. Mão esquerda permanece sustentando a
mesma rítmica do trecho anterior.
Repetição do tema principal: O tema principal (A) é repetido integralmente
Desenvolvimento: Neste trecho temos elementos de ambos os temas A e B onde
aparecem tanto passagens diatônicas quanto saltos intervalares durante o solo, mão
esquerda permanece realizando a condução rítmica com o mesmo desenho rítmico
através de acordes no baixo. Este trecho no intuito de contrastar com os demais trechos
da obra, e seguindo o padrão estrutural da forma sonata, aparece na tonalidade de Dó
maior.
Reexposição/Coda: Neste trecho Nazareth retorna para o primeiro tema (A) tocando
integralmente o trecho e saltando para uma Coda no final. Nesta parte é retomada a
tonalidade inicial a fim de finalizar sobre a tônica, relembrando o tema principal como
uma forma de recapitulação.

3) DESCRIÇÃO DO ARRANJO E DA INTERPRETAÇÃO

O piano é o único instrumento utilizado na interpretação durante a gravação.


A rítmica da musica é baseada em semicolcheias e uso de figuras sincopadas como o
tresilho durante quase toda sua extensão.
A mão esquerda sustenta a rítmica e a harmônica tocando os acordes e fazendo a
condução rítmica.
A obra é estruturada utilizando a forma sonata.
O primeiro trecho apresenta um padrão melódico mais diatônico como motivos
pequenos (geralmente células de quatro semicolcheias) se movendo em intervalos
melódicos de segunda e terças.
O segundo trecho contrasta com o primeiro onde apesar de permanecer utilizando
semicolcheias estas agora aparecem realizando saltos melódicos maiores que uma terça,
o mordente da primeira parte passa a dar lugar para appoggiaturas, poucas, em alguns
trechos da sessão.
O desenvolvimento aparece em uma nova tonalidade a fim de trazer mais interesse
apresentando elementos tanto do primeiro quanto do segundo trecho.
Por fim o tema principal é recapitulado retomando a tonalidade original e saltando
para um coda ao final.
4) COMENTÁRIOS

Apanhei-te, cavaquinho, polca publicada em 1914 pela Casa Mozart, dedicada "ao


distinto e particular amigo Juracy Nazareth de Araújo", compositor amador. O título faz
referência a uma expressão da época, em que se pega alguém em flagrante. Os acordes
da mão esquerda são executados à maneira de um cavaquinho e a direita imitaria uma
flauta. É um dos maiores sucessos de Ernesto Nazareth, tendo recebido pelo menos 281
gravações até 2012, e 5 letras. Também foi gravado pelo próprio autor em 1930. Além
disso, foi uma das 4 peças citadas por Darius Milhaud em seu balé Le boeuf sur le
toit (O boi no telhado), sendo as outras Escovado, Ferramenta e Carioca.

Por que um pianista entitularia uma de suas peças “Apanhei-te, Cavaquinho”?


Segundo o biógrafo de Nazareth, Luiz Antônio de Almeida, o compositor estava
imitando o som do cavaquinho no acompanhamento da mão esquerda e o da flauta na
melodia tocada pela mão direita.

Nazareth nunca quis que o “Apanhei-te, Cavaquinho” fosse tocado de modo tão
rápido como é executado pela maioria dos músicos. Em um vídeo (trecho de Lição de
Piano) incluído no CD-ROM Ernesto Nazareth, Rei do Choro, o compositor Francisco
Mignone recordou:

Conheci Nazareth mais ou menos em 1917. Foi na casa de música Eduardo


Souto. Ernesto Nazareth havia sido contratado para tocar ao piano obras que os
fregueses desejavam comprar. [...] E tocava tudo devagar, procurando sempre
cantar. [...] Aliás ele dizia, “Toda a minha música é estropiada. Eles tocam tão
depressa. O ‘Apanhei-te, Cavaquinho’ é um desastre. Ele é bem devagar,
arpejando a mão esquerda, dando a impressão de cavaquinho.” Ele tocava tudo
lento, e bem claro, com uma técnica bem apurada.

Alexandre Dias atribui o modo rápido de tocar à estrutura da música, que


oferece uma oportunidade irresistível para músicos que querem exibir sua virtuosidade.
Como “Ameno Resedá”, e diferente de todas as outras composições de Nazareth,
“Apanhei-te, Cavaquinho” é quase inteiramente composto de colcheias na mão direita; o
intérprete imediatamente vê a possibilidade de tocá-las rápido, devido à sua
regularidade. Como mais um culpado, Dias cita um concurso de velocidade para o
“Apanhei-te, Cavaquinho” promovido pela Rede Globo nos anos 70.

É interessante notar que Nazareth já reclamava da velocidade em 1917, enquanto


que, na edição da partitura editada em 1926 pela Irmãos Vitale, o “celebre chôro” (não
mais chamado de polca, por questões relacionadas à moda) ainda vem com a
recomendação “Muito proprio para serenata.”.
Ao longo dos anos, a música ganhou quatro letras. A primeira, escrita por
Hubaldo Maurício ou Báldoman (talvez a mesma pessoa) e incluída nas partituras
editadas pela Mangione. Esta versnão foi gravada duas vezes: por Lica Cecato e Stefano
Scutari no disco Our Favorite Songs (1992), and pela cantora italiana Lucia Minetti no
disco Luz (2005).

Apanhei-te, Cavaquinho!
(Ernesto Nazareth/Hubaldo Maurício ou Báldoman)

Um cavaquinho, cabecinha pequenina, no formato d'um oitinho,


De boquinha redondinha, de pescoço compridinho, orelhinha cravelhinha
De madeira o terninho, gravatinha de cordinha, falou:
Sou miudinho, tenho quatro "cordazinha", mas dou vida ao chorinho,
Sou o molho do sambinha! "Seu" pandeiro, cuidadinho!...
Tome tento, ó flautinha!... "Seu" piano, diga ao pinho: cavaquinho já chegou!

Ó cavaquinho malcriado, deu o brado, indignado, o piano:


Seu mesclado, sem teclado, vilão!
Ó cavaquinho, te arrebento, seu rebento de instrumento, ruge o pinho.
Seu safado, mascarado, não!
A dona flauta, com a prata mais vermelha que centelha,
Num trinado, engasgado, disse apenas: bufão!
"Seu" pandeiro, vibra o guizo ao cavaco
Facão, eu te bato, eu te piso, seu tustão!

O cavaquinho envergonhado deu no pé, pé, pé, aprendeu a lição, ão, ão.
Que não se brinca em seresta, nem se ofende ninguém!...
Que não se zomba do mais velho, também!
Mas cavaquinho arrependido voltou lá, lá, lá,
E pediu pra ficar, ar, ar, e, humilde, aprendeu, eu, eu
A respeitar os do lugar! Ah!"
A segunda versão foi gravada por Ademilde Fonseca em 1943:

Apanhei-te, Cavaquinho!
(Ernesto Nazareth/Darci de Oliveira/Benedito Lacerda)

Inda me lembro
Do meu tempo de criança
Quando entrava uma dança
Toda cheia de esperança
De chinelinha e de trança
Com Mané José da França
Nunca tive na lembrança
De rever este chorinho
E hoje ouvindo
Neste choro a voz do pinho
Relembrando o bom tempinho
Da mamãe e do maninho
Hoje sou ave sem ninho
Sem família, sem carinho
Mas sou bem feliz ouvindo
O "Apanhei-te, Cavaquinho"

Hoje cantando
O "Apanhei-te, Cavaquinho"
Fico louca, fico quente
Fico como passarinho
Sinto vontade
de cantar a vida inteira
E esta vida
Eu levo de qualquer maneira
Ouvindo a flauta
O cavaquinho, o violão
Eu sinto que o meu coração
Tem a cadência de um pandeiro
Esqueço tudo
E vou cantando o ano inteiro
Este chorinho
Que é muito brasileiro

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