Você está na página 1de 3

HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Prof.: Júlio César Caliman Smarçaro – Unisant’Anna

GUIA DE APRECIAÇÃO E ANÁLISE MUSICAL

1) INFORMAÇÕES GERAIS

ARTISTA/ INTÉRPRETE: Grupo Chiquinha Gonzaga


TÍTULO DA MÚSICA: Atraente
COMPOSITOR(ES): Francisca Edwiges Nevas Gonzaga (Chiquinha
Gonzaga)
ARRANJADOR: Francisca Edwiges Nevas Gonzaga (Chiquinha
Gonzaga)
Álbum/CD: Alma Brasileira
Gravadora: Columbia Record B721, matriz 11.773.
Data da gravação: 1911
Instrumento do intérprete principal: Flauta
Instrumentação: Violão e Flauta
Músicos participantes: Antônio Maria Passos, na flauta, Nelson dos Santos Alves, no
cavaquinho, e Tute, no violão de sete cordas.

2) ANÁLISE
Gênero e fórmula de compasso: Polca (2/4)
Subgênero (quando aplicável): Choro
Tonalidade: F
Forma da música: Sonata: Pode ser resumida em: Exposição/ Desenvolvimento/
Reexposição/ Coda.
Forma do arranjo: Intro (4) ||: Tema A (16) :||: Tema B (20) :||: Desenvolvimento
(16) :|| Reexposição de A (4 + 16) Introdução + Tema finalizando em uma coda na
tônica.
Análise detalhada da forma:
Introdução: Quatro compassos iniciados com a flauta fazendo appogiatura nas
colcheias e violando ritmando com colcheias.
Tema A: Violão fazendo a base rítmica e harmônica utilizando um tresilho seguido de
colcheias com supressão de uma das semicholcheias e simultaneamente tocando os
acordes. Flauta tocando o tema de maneira expressiva, rítmica da melódica composta
quase que unicamente por semicolcheias fazendo desenhos melódicos diatônicos.
Tema B: Tema com uso não apenas de semicolcheias, mas de colcheias também
contrastando com o primeiro tema, uso de muita appoggiatura, saltos e arpejos na
melodia. A rítmica do violão muda e passa a omitir a colcheia da parte forte do segundo
tempo.
Desenvolvimento: Mudança para uma nova tonalidade (Bb) violão adota uma nova
rítmica agora com pares de colcheias seguidas no compasso seguinte por um tresilho
com omissão de semicolcheia e uma omissão da primeira colcheia do segundo tempo do
compasso, com algumas variações formadas de pequenas cadências realizada pelo
violão no termino das frases suspensivas (perguntas).
Reexposição e Coda: Neste trecho o tema A juntamente com a Introdução são tocados
novamente na integra, retomando a tonalidade inicial e terminando em uma coda que
conduz para a tônica da tonalidade inicial.

3) DESCRIÇÃO DO ARRANJO E DA INTERPRETAÇÃO

O arranjo é concebido na forma sonata com uma introdução, dois temas


contrastantes, um desenvolvimento em tonalidade diferente da inicial, uma
recapitulação do tema principal na tonalidade original seguido por uma coda.
O uso do Tresilho é bem marcante tanto na melodia quanto no acompanhamento
caracterizando o estilo musical.
Violão segue dando suporte harmônico e rítmico para a melodia que é tocada por
uma flauta.
A forma sonata é bastante utilizada pelos compositores da época além de Chiquinha
Gonzaga como por Ernesto Nazareth também para estruturar suas composições.
Uso de ornamentação trás sofisticação e virtuosismo para obra exigindo um maior
controle técnico por parte do interprete.
Parte contrastante tanto os temas quanto o desenvolvimento, apesar de possuírem
elementos em comum cada sessão é muito marcante e muito característico sendo fácil
sua diferenciação ao ouvir.

4) COMENTÁRIOS

Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de outubro de


1847, da união de José Basileu Neves Gonzaga, militar de ilustre linhagem no Império,
com a forra Rosa, filha de escrava. A menina cresceu e se educou num período de
grandes transformações na vida da cidade. Além de escrever, ler e fazer cálculos,
estudar o catecismo, e outras prendas femininas, a jovem sinhazinha aprendeu a tocar
piano.
Educada para ser dama de salão, aos 16 anos Chiquinha se casou com o promissor
empresário Jacinto Ribeiro do Amaral, escolhido por seu pai. Continuou dedicando
atenção ao piano, para desespero do marido, que não gostava de música e encarava o
instrumento como seu rival. Inquieta e determinada, Chiquinha se rebelou e decidiu
abandonar o casamento ao se apaixonar pelo engenheiro João Batista de Carvalho, com
quem passou a viver.
Composição de estreia de Chiquinha Gonzaga, em 1877, nascida de improvisação
em roda de choro na casa do compositor Henrique Alves de Mesquita, a polca recebeu o
nome de Atraente por arrastar os instrumentos presentes. Conheceu um sucesso
estrondoso (15 edições ainda em 1877) e projetou o nome de Chiquinha Gonzaga para a
fama – no início incômodo – na sociedade patriarcal do Segundo Reinado. A súbita
popularidade da autora foi encarada como provocação por sua família, que passou a
destruir as partituras vendidas nas ruas por moleques escravos. Tornou-se um clássico
da música instrumental brasileira, passando a integrar o grande repertório do choro. Foi
publicada em 1932, como n. 11 da 2ª série de Alma Brasileira, choros para
flauta. Atraente foi gravada por músicos como Antônio Adolfo, Altamiro Carrilho,
Benedito Lacerda, Clara Sverner, Eudóxia de Barros, Henrique Cazes, Leandro Braga,
Marcus Viana, Maria Teresa Madeira, Muraro, Paulo Moura, Pixinguinha, Rosária
Gatti, Talitha Peres, Turíbio Santos, além de orquestras e bandas. No final da década de
1970, ganhou letra de Hermínio Bello de Carvalho, em registros feitos por Leci
Brandão, Olívia Hime e Edison Cordeiro.
Uma curiosidade com relação à obra impressa de Chiquinha Gonzaga é o conjunto
de choros publicado ainda em vida da compositora. Trata-se de um grupo de
composições para saxofone e para flauta – reunida sob o título Alma Brasileira
– publicado em 1932, pelo companheiro da compositora, João Batista Gonzaga.
 
O conjunto compreende três volumes, chamados ‘séries’, contendo dez peças cada,
num total de 30 músicas, sendo 20 para sax e dez para flauta. O mais curioso é a
designação choro para essas músicas impressas, uma vez que elas foram antes
concebidas, e algumas até publicadas, para piano, como ‘polcas’, ‘habaneras’ e ‘tangos’.
Por que somente na década de 1930 uma compositora que estreou em 1877, e que
sempre fora ligada às rodas de choro, atuando inclusive como pianista do conjunto
Choro Carioca, liderado pelo compositor e flautista Joaquim Antonio Callado, usaria
pela primeira vez a designação choro em sua obra impressa? Por que não antes?
 
Sabemos que a palavra choro designou, na década de 1870, o conjunto musical
Choro Carioca, liderado pelo citado flautista Callado e, por extensão, os conjuntos
instrumentais responsáveis pelo abrasileiramento das técnicas de execução dos
instrumentos europeus. Em sua formação original, o choro era um grupo musical
constituído de uma flauta, um cavaquinho e dois violões, com predominância de um
solista.

Você também pode gostar