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HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Prof.: Júlio César Caliman Smarçaro – Unisant’Anna

GUIA DE APRECIAÇÃO E ANÁLISE MUSICAL

1) INFORMAÇÕES GERAIS

ARTISTA/ INTÉRPRETE: Banda do Corpo de Bombeiros - RJ.


TÍTULO DA MÚSICA: Brejeiro
COMPOSITOR(ES): Ernesto Nazareth
Álbum/CD: Odeon
Gravadora: Casa Edson – RJ.
Data da gravação: 1912
Instrumento do intérprete principal: Instrumentação de sopro.
Instrumentação: Tuba, Trombone, Bombardino, Trompete, Sax Tenor, Sax Alto,
Clarinete, Flauta
Músicos participantes: Banda do Corpo de Bombeiros - RJ.

2) ANÁLISE
Gênero e fórmula de compasso: Tango (2/4)
Subgênero: (quando aplicável): -
Tonalidade: Lá Maior
Forma da música: AABA – 89 compassos
Forma do arranjo: Intro (4) || A (16)|| A’ (16)|| B (modula para E)|| Intro (4) + A (16)||
Análise detalhada da forma:
Introdução: Banda começa tocando com instrumentos graves como tuba, trombone,
bombardino e Sax tenor fazendo a parte que corresponde a mão esquerda do pianista
(parte rítmica) enquanto trompetes fazem o contratempo tocando um acorde na parte
fraca de cada tempo.
AA: No primeiro trecho de A os instrumentos graves mantem a rítmica da música
enquanto entram os instrumentos de madeira (sax alto, clarinete e flauta) fazendo o solo.
No segundo trecho de A, entram mais instrumentos de madeira reforçando a harmonia e
ampliando os acordes verticalmente oitavando a melodia para instrumentos mais agudos
e dobrando notas do acorde para um maior preenchimento harmônico.
B: Neste trecho o contraste com trecho anterior esta na modulação, pois até então a
musica estava na tonalidade de A e agora passa para E (uma quinta acima). Os
instrumentos de madeira permanecem fazendo o solo enquanto os metais fazem a base
rítmica.
A: A melodia volta da Capo partindo novamente da introdução apenas com os
instrumentos graves fazendo a parte rítmica contrastando com o contratempo dos
trompetes e segue tocando novamente com solo de madeira o tema apresentado na
primeira exposição de A.
Esta estruturação se repete integralmente mais duas vezes terminando sempre no
primeiro A de cada sessão.

3) DESCRIÇÃO DO ARRANJO E DA INTERPRETAÇÃO


Os instrumentos graves são utilizados como base rítmica durante toda a peça,
substituindo os instrumentos rítmicos a melodia é tocada por instrumentos de madeira
como sax alto, clarinete, flauta e requinta (esta se percebe no segundo A de cada sessão
onde a melodia retorna oitavada) os trompetes permanecem tocando acordes em
contratempo sempre na parte fraca de cada tempo dando um suporte harmônico para a
melodia.
Na segunda sessão de A (neste caso A’), bem como na sessão B temos a expansão
harmônica da obra com o dobramento da melodia uma oitava acima para instrumentos
mais agudos bem como a abertura vertical dos acordes que agora passam a dobrar notas
criando uma textura mais densa.
O uso do tresilho (célula rítmica caracterizada por semicolcheia, colcheia,
semicolcheia) aparece constantemente tanto na rítmica dos instrumentos graves quanto
durante o solo, alternando a posição das semicolcheias e da colcheia.

4) COMENTÁRIOS:
Brejeiro foi o primeiro tango brasileiro de Ernesto Nazareth, publicado em 1893 por
Fontes & Cia. Foi dedicado a seu sobrinho Gilberto de Meirelles Nazareth, o Gigi
(1887-1903). Foi vendido a seus editores pela ínfima quantia de 50$000 (cinqüenta mil-
réis). Esta peça foi o maior sucesso de Ernesto Nazareth durante sua vida, e um dos
maiores sucessos da música popular brasileira do século XIX, especialmente depois que
recebeu letra de Catullo da Paixão Cearense, sob o título de O sertanejo enamorado (em
duas versões diferentes). Por volta de 1910, foi gravada sob o título de Ai rica prima,
com letra diferente, e na década de 1950 recebeu outra letra, de José Maugeri Neto e
Antônio Maugeri Sobrinho, menos conhecida.
Recebeu diversas reedições, e tamanho foi o lucro alcançado pelos editores, que
estes realizaram uma festa em homenagem a Ernesto, dando-lhe de presente um guarda-
chuva com castão de ouro. Em 1914 foi publicada e gravada nos EUA e Europa, tendo
alcançado grande sucesso internacional, juntamente com seu maxixe Dengoso. A
informação de que teria sido gravada pela Banda da Guarda Republicana de Paris não se
confirma, pois até 2012 não foi encontrada a referência desta gravação.
Em entrevista à Folha da Noite em 1926, o autor respondeu:
"-Mas qual é a sua composição predileta? - Ah!... Isso é que não póde ter resposta
definitiva, assim à queima-roupa... Gosto de algumas... Lembra-se do Brejeiro? - Como
não? “Ai, ladrãozinho! Dos teus labios de coral. (Tem dó!) Dá-me um beijinho! Não te
póde fazer mal. (Um só!)” - Todo o Brasil canta isso - concluiu ele num sorriso".
Até 2012 foram contabilizadas 237 gravações de Brejeiro, feitas em todo o
mundo, sendo a segunda música mais gravada de Nazareth, depois de Odeon.
Letra de Catullo da Paixão Cearense, sob o título de O sertanejo enamorado (1ª versão)
1ª parte
Ai, ladrãozinho
Dos teus lábios de coral (tem dó)
Dá-me um beijinho
Não te pode fazer mal (um só)
Tu és tirana, eu bem sei!... Meu amor.
Meu coração, ó serrana, eu te dei
Valha-me Deus!
É penoso viver, ai... a gemer.
Na minha choça,
Teu escravo sou até!
Tenho uma roça
E esta casa de sapé
Foi para dar-te que a fiz...
Aqui vivo, por amar-te, feliz, ai meu Deus
Nela contigo eu serei mais que um rei...
Ai... mais que um rei.
2ª parte
Eu canto em minha viola
Ternuras de amor
Mas de muito amar!
O choro as mágoas consola!
Teu fero rigor
Quer minha vida acabar, acabar...
Eu canto a dor no meu pinho,
Com tanto carinho
Tu podes crer,
Que eu vou para a morte cantando,
Que a vida, penando,
Por ti dá prazer.
1ª parte
Teu riso cheira,
Como um galho de alecrim
És feiticeira!
Queres dar cabo de mim!
Ouve o suspiro de amor, estes ais,
Que d'alma tiro de dor! (Ora ladrão!)
Não me maltrates assim...
Ai de mim!... ai... ai de mim!
Eu sinto o cheiro
O cheirosíssimo odor
De um cajueiro
Carregadinho de flor.
Quando tu passas assim, de manhã,
Por estes matos sem fim, sem olhar
Uma só vez para mim!...Ai de mim!
Ai... ai de mim!
2ª parte
Eu canto a dor na viola
E a dor me consola...
Tu podes crer.
Morrendo, por ti sofrendo
Vou morto, vivendo,
Vivendo a morrer, a morrer...
Eu sou jaçanã ferida,
Gemendo de dor, lá na solidão.
Minh'alma, toda sentida
soluça de amor,
nesta pobre canção.
1ª parte
És flor do ipê,
Dos sertões do meu Brasil
És a irerê,
Da lagoa cor de anil!
Se vais ao monte roçar ou se vais
Água na fonte buscar... Valha-me Deus
Segue-te o meu coração, rente ao chão!...
Ai... rente ao chão!
Como eu sou rico
se me cresce o milharal (sou rei)
Ai! como eu fico
Se floresce o cafezal! (nem sei)
Mas fico mudo sem ti! Chora tudo, tudo,
Tudo d'aqui. Ai minha flor!...
Não me apoquentes assim...
Ai de mim!... ai... ai de mim!

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