Você está na página 1de 8

Discente: Franciele Mussio Mendoza

Disciplina: Epistemologia e Método nas Ciências Sociais (2015.1)


Docente responsável: Élen Cristiane Schneider

Foz do Iguaçu, 10 de Abril de 2015.


Ficha de leitura
A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento / Gaston Bachelard; tradução Estela dos Santos Abreu. -
Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. (p.17-102)

Conceito Definição Comentário


Pode ser tratado como um dogma: aquilo É entendido como 'termo' que se aplica aos
que se refere a uma crença comum e/ou detalhes psicológicos que promovem a
popular; que é experimentado pelos sentidos ineficiência do funcionamento e do
(que o consideram "real"), de forma conhecimento científico.
imediata. "(...) causas de estagnação e até Constitui num hábito da mente, embora,
Obstáculo Epistemológico de regressão..." (p.17) podendo ocorrer que o pensamento anterior era
correspondente a determinada realidade, e essa
questão se torna fixa ao espírito da sociedade,
mesmo não tendo mais finalidade para o atual.
Sendo que, a ciência se modifica e se renova a
partir do movimento histórico.
Um método ideal e valorizado aderente de Se associa a um vício psíquico, uma
cada cientista. Geralmente é persistente. mentalidade que apenas reproduz e não
Uma 'queda' do espírito científico acaba exercita mais o questionamento. Podendo ser
dando lugar ao instinto conservativo - por considerado como fruto do ego, do narcisismo.
Instinto Formativo
essa ideia utilizada frequentemente captar a De adquirir uma cultura experimental e nela
espiritualidade e impedir a cientificidade. construir um obstáculo a si próprio igualmente
"(...) uma espécie que tem necessidades de à atividade, devido a monotonia do ideal
mudar, que sofre se não mudar." (p.20) científico. Ocorre que uma 'revolução' sempre
acontece, pois a ciência deve ser modificada,
de acordo com o autor. A cultura experimental
tem perfil de mudança.
Crise psicológica dos estudos científicos. A Produto do instinto formativo. Confirmação do
partir do instinto formativo ao cessar do próprio saber, mesmo se esse 'saber', possa ser
espiritual científico, por meio do ensino e ultrapassado ou não aplicável. Faculdade do
Instinto Conservativo repetição. egocentrismo, até mesmo 'fadiga intelectual',
preferindo confirmar suas respostas. Negação
do crescimento espiritual e da tendência
científica seguida.
"Na formação do espírito científico, o O homem em sua observação utiliza dos
primeiro obstáculo é a experiência sentidos como uma forma de reconhecer a
primeira, a experiência colocada antes e 'realidade' que o cerca.
acima da crítica - crítica está que é A empiria imediata é um estado do qual o ser,
integrante do espírito científico."(p.29) fascinado pelo o observado, mobiliza o
Na primeira experiência que temos de pensamento para assim "se perguntar" sobre o
algum fato são produzidas diversas fenômeno; primeiramente, dentro de suas
imagens, as quais ainda não são totalmente convicções generalizadas sobre a natureza.
claras ao espírito científico. À este espírito A partir disto, Bachelard, questiona o que é
será por meio da criticidade. produzido à primeira vista, pois seu conteúdo é
satisfeito pelas imagens à mente e, é obstáculo
para as críticas, devido uma 'falsa certeza'
gerada por ser - (...) pitoresca, concreta,
natural, fácil." (p.25) A questão da experiência
fica melhor compreendida após uma séries de
argumentações sobre.
A formação de um conhecimento acaba sendo
um obstáculo à ciência, geralmente. Somente
uma 'primeira visão' do assunto não basta, pelo
fato da impossibilidade de uma organização do
Experiência Primeira que visto sobre qualquer acontecimento de
maneira exata.
Nisso, o autor propõe um 'espírito científico'
contra a natureza; contra a nossa vivência
natural e ideia de naturalidade e, à isso é
igualmente fator contribuinte a realidade social,
contexto histórico e status, que tem certa
influência. Principalmente, se uma comunidade
dominante na cultura científica impeça a
expressão do 'espírito cientifico' - a
característica de renovação da ciência através
das críticas, da filosofia do erro, sugerida por
Gaston - para perdurar questões pré-científicas,
a exemplo da imutabilidade, leis gerais.
Superar esse obstáculo é superar com a
questão de um "mundo não-complexo" através
da ruptura com as imagens ilusórias. "É tão
agradável para a preguiça intelectual limitar-
se ao empirismo, chamar um fato de fato e
proibir a busca de leis!" (p.37)

Problematizações e questionamentos para Pensando psicanaliticamente, o inconsciente é


as buscas científicas que não partem de uma um pedaço da nossa consciência
esquematização racional clara - concessão correspondente aos instintos - forma imediata
da formulação comum que é própria do de concebimento dos processos mentais.
homem inconscientemente (natural). (FREUD)
Inconsciente do espírito científico O ser, não enaltecendo a racionalidade - um
componente para a consciência - influenciará a
ciência instintivamente, apresentando o
conhecimento comum, que não é uma
característica livre de opiniões e históricos
pessoais e não permite uma ciência total crítica.
Pois, de nosso estado inconsciente, é a natureza
e particularidade da própria essência de si, de
pulsões.
Conhecimentos arcaicos de determinadas Sugere que uma cultura de crescimento
sociedades e/ou sistemas científicos de espiritual para o pensar ciência é visto como
difícil desconstrução, os quais perduram um tabu científico. Não se aceita a arte de
frente ao tempo e teorias que as refutam. renovação e crítica, apenas novas experiências
para o paradigma sustentado.
O "fato" primitivo Para Bachelard, a intenção de retificação não
desmistifica a caracterização do estudo
primitivo por meio da sustentação em novas
ideias e experiências, tendo sido construído em
bases menos sólidas do que os questionamentos
ditos por este - cegamente e de origem
esquecida. Cimento psicológico e histórico.
A falsa crença de um raciocínio puro, O racionalismo propõe uma Episteme através
objetivo e que pode ser postulado como da mente, utilizando de recursos como a lógica
geral, sem reconhecer a força do psíquico para sua efetividade e relações com o que
sobre os ideais. acontece no mundo.
"Na realidade, a força para estabelecer Gaston crítica e relaciona a mentalidade
relações não tem origem na superfície, no racionalista como prática ingênua; acreditar
próprio terreno de observação; ela brota de num ideal coletivo, que tudo decorre de uma
reações mais íntimas." (p.57) causa. Porém, esta causa estabelece uma ideia
Racionalismo ingênuo comum (um pensamento não-crítico) e imediata
e que nossas pulsões da inconsciência, aquilo
que carrega-se como identidade influencia.
O que denomina o racionalismo ingenuamente
é a suposição de uma objetividade sendo ao
mesmo tempo subjetivo de forma inconsciente
- ciclo de negação.
"Antes de ensinar a descrever objetivamente,
teria sido necessário psicanalisar o
observador, trazer à tona com cuidado as
explicações irracionalmente reprimidas."
(p.57)
Pode ser associado como pensamento pré- O conhecimento geral procura estabelecer
científico: constituição de verdades gerais verdades primeiras e inquestionáveis, o que
por meio da satisfação ao desejo de chegar a dificulta a circulação de ideias referentes à
verdade de forma fácil e rápida em vários atualidade.
domínios geralmente opostos. Este conhecimento surge de uma validação da
experiência primeira - apesar de não ser uma
Conhecimento geral base segura para a ciência.
Na generalização científica, mesmo que o
postulado geral tenha sido um sucesso na época
em que foi escrito e vivenciado pelo autor, por
meio do conhecimento geral vai se construindo
novas ideias que retificam e convergem entre si
- o tornando mais vago e impreciso, da maneira
que ele constituí um obstáculo forte e
enraizado.

"(...) falsa explicação obtida com a ajuda de Muito comum não somente na realidade
uma palavra explicativa, nessa estranha científica, como também, na iniciação social
inversão que pretende desenvolver o através da escola, uma tentativa de explicação
pensamento ao analisar um conceito, em da teoria com alguma associação que "tende" a
vez de inserir um conceito particular numa facilitar (que imagina que possa) por aspectos
síntese racional." (p.27) linguísticos.
Explicar verbalmente um conceito trata-se de
um exercício complicado de efetuar no seu
objetivo integral de compreensão, devido a um
fenômeno ter diversas respostas - por
compreensão não ser uma ideia objetiva - e se
formam quantidades de imagens pela referência
empregada.
Obstáculo verbal Quando são produzidas muitas associações de
uma imagem sobre a teoria, a mente não chega
a uma compreensão teórica em si - abstração - e
não se define algo nítido. Pois, mesmo com a
função de melhor entendimento que planeja, a
imagem dificilmente desprega da mentalidade,
porque é da intuição primeira a observação, e é
desse elemento que nutre o 'conhecer'.
Muito dos erros cometidos tentando apresentar
a abstração é a de afastamento da realidade
social não condizente com a realidade do
aprendiz. "(...) não se pode confinar com tanta
facilidade as metáforas no reino da expressão.
Por mais que se faça, as metáforas seduzem a
razão. São imagens particulares e distantes
que, insensivelmente, tornam-se esquemas
gerais."
Bachelard reconhece apesar da crítica às
metáforas; passada a teoria, primeiramente,
pode acrescentar a ela exemplos cuidadosos
que ajudam ao pensamento científico.
O perigo reconhecido pelo uso das imagens é a
de que estas não são passageiras e formam se
na nossa inconsciência ideias diante de
diferentes perspectivas. "Esses obstáculos
fortemente materializados, não acionam
propriedades gerais, mas qualidades
substantivas." (p. 102)