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Cesare Lombroso

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Cãmara Brasileira do Livro, Sp' Brasil)

Lombroso,Cesare, 1885-1909. o HOMEM DELINQUENTE


O homem delinqüente / Cesare Lombroso;
tradução Sebastião José Roque. - São Paulo:
Ícone, 2007. - (Coleção fundamentos de direito)

Título otiginal: Uomo delinquente.


ISBN 978-85-274-0928-5

1. Antropologia criminal 2. Crimes e criminosos


3. Criminologia 4. Direito - Filosofia I. Título. . Tradução e Seleção:
lI. Sétie. Sebastião José Roque
.. Advogado e AssessorJurídico Empresarial
Professorda Universidade São Francisco,
07-1258 CDU-343.91 •
••campi" de São Paulo e Bragança Paulista
tr Presidente da Associação Brasileirade Arbitragem - ABAR
Índices para catálogo sistemático: L Autor de 26 obrasjurídicas
1. Delinqüentes: Antropologia criminal: Árbitro e Mediador
Direito penal 343.91
r l' reimpressão - 2010
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16 . DEMENTES MORAIS
E DELINQÜENTES NATOS
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':,~ 1. Justas hesitações - 2. Estatísticas dos dementes morais


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3. Peso - 4. Crânio - 5. Fisionomia - 6. Insensibilidade à dor


" 7. Tato - 8. Tatuagem - 9. Reação etílica - 10. Agilidade
11. Sexu alidade - 12. Senso moral - 13. Afetividade
~ 14. Altndsmo -15.Vaidade excessiva -16.Inteligência
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17. Astúcia - 18. Preguiça - 19. Atividade doentia
20. Pretensões de diferenças - 21. Premeditação - 22. Espírito
de associação - 23. Vaidade do delito - 24. Simulação
25. Sintomatologia da demência moral nas outras
.' 26. Histologia patológica da demência moral
27. A hereditariedade na demência moral
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1. Justas hesitações

Antes de passar ao estudo do delinqüente-demente,


f.: devemos começar a tratar, ou melhor, excluir dessa classe o de-
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linqüente moral, do qual já hav íamos tratado ao estudar o


, t.;!\ delinqüente-nato. Sobre o primeiro, o nosso leitor ou o ho-
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mem comum, experimentará, certamente, grande repugnân-

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cia em aceitar essa fusão. Assim achamos porque somos das como o de Faella, Zerbini, Verzeni, Guiteau, que tornam im-
várias gerações acostumadas a considerar o réu tão mais res- possível discernir linha diferencial entre demência e crime,
ponsável quanto maior for a sua culpa. os estudos dos novos caracteres dados pelos mais recentes
Há em nós a necessidade de vingança e o temor de autores, como Krafft-Ebbing, Hollander, Savage, Mendel, so-
deixar o réu livre, em razão de sua temibilidade, e também bre a demência moral, os mais especiais por mim descobertos
não se conhecia ou imaginava outro modo de paralisar os no delinqüente-nato, como insensibilidade geral e à dor, ano-
malefícios de sua ação, a não ser com o cárcere e a morte. malias nos reflexos, o canhotismo, a atipia do crânio e miolos,
Isto porque, enfim, o sentimento de vingança e do medo, mudaram completamente minhas convicções. I
juntamente com o hábito, que é um dos maiores de nossos
I
tiranos, modificavam completamente nosso juízo e não nos 2. Estatísticas dos dementes morais
deixavam entrar em outra forma de explicação. Eu, como já
fiz referência, estava ainda entre esses quando redigi as duas Uma das provas indiretas da identidade da demência
primeiras edições desta obra, e até mesmo a terceira. moral com a criminalidade, e que explica as dúvidas mais
comuns entre os alienistas, é a grande escassez dos dementes
A srcem, mais congênita ou na idade juvenil do delito,
morais nos manicômios e, vice-versa, a grande freqüência
sua maior difusão com a civilização, os grandes centros, a
nos cárceres. Dagonet, em 3.000 dementes não encontrou
hereditariedade menos intensa da demência e da neurose, a
mais do que 10 ou 12 casos. Adriani em Perugia, Palmieri em
aparente boa saúde, a maior robustez, estatura mais elevada,
Siena, em 888 dementes não os encontraram; Ragi só encon-
maior volume de cabelos, a fisionomia especial, e as paixões
,

$ ... trou 2 dementes morais em 924, e Salemi-Pace 6 em 1.152.


'. e instintos do réu-nato, recordam completamente a fisiono-
mia, o homem selvagem, bem mais que o alienado, especial- A escassez dos dementes morais nos manicômios e a sua
mente a preguiça e paixão da orgia e da vingança, que, quase abundância nos cárceres são enfim uma prova indireta da
sempre falta a este último. identidade da criminalidade com a demência moral, unida à
presença de todos os seus sistemas no decurso de muitas doenças
Tudo isto, unido ao horror instintivo diante da idéia
mentais. É o que explica como nos encarc eramentos 25% dos
do perigo social que parece causar a confusão de uns com os
dementes devem tornar muito incertos os alienistas sobre a
outros, e a tão perigosa complacência da própria criação, me
real existência dessa forma psiquiátrica e tantos os médicos
tinham convencido, antes e depois que eu tinha colocado a
legaisobrigados a trabalhar com fatos de segura demonstração.
luz, muito mais a diferença do que a analogia entre aquelas
Além disso, contribuíram para as contradições dos ob-
duas infelizes condições patológicas da psique. E no meio ao
servadores que julgaram a essencialidade de certos sintomas,
mais completo acordo de amigos e adversários sobre este
assunto, o ÚIÚCO anão põr-sede acordo ou serposto era eu próprio. preocupados com os caracteres de um ou de outro entre os
poucos casos que tinham às suas mãos. Todavia, rebuscando
A sucessiva distinção entre o delinqüente de ocasião e
os casos mais clássicos recolhidos desses autores, temos um
o habitual, o apoio universal conseguido pela proposta do conjunto de caracteres que reproduzem muito bem aqueles
manicômio criminal, a descoberta de sempre novos casos, que demos sobre o delinqüente nato.

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3. Peso réu nato. Antes Morei, depois Legrand de Saulle e agora
Em 14 dementes morais de Aversa, 9 tinham constitui- I Krafft-Ebbing, apontam a freqüência em macrocéfalos de

ção robusta e boa nutrição. Verzeni media 1,66m. pesando i freqüentes cristas ósseas do crânio, de crânios muito alon-
• gados ou muito arredondados, e nas faces a desproporção'
!
68 k., Chiappini 1,63m. e 61 k., o esbirro do Livi era bem
entre as duas metades da face, lábios volumosos, boca grande,
robusto, embora houvesse alguns mais frágeis. Sobre 37
dementes morais, 22 eram de peso e robustez igualou maior I dentes mal conformados com precoce caída nas formas mais

ao normal, como em muitos delinqüentes. I graves, volta palatina assimétrica ou escondida, restrita; a
campainha da garganta alongada e bífida, aumento e -.
Acrescente-se que no estudo dos epilépticos hereditá- I desigualdade das orelhas. Todas anomalias, especialmente
rios, Amadei encontra entre os sinais da demência degene- I as do crânio, que temos encontrado nos criminosos.
rativa e das hereditárias um aumento maior de peso. Por que I
não se encontra completamente o aumento de. peso, que é
prevalente, mas não geral nos criminosos, depende prova- S. Fisionomia

velmente do pequeno número dos casos observados. A fisionomia dos famosos delinqüentes reproduziria
quase todos os caracteres do homem criminoso: mandíbulas
4. Crânio volumosas, assimetria facial, orelhas desiguais, falta de barba
nos homens, fisionomia viril nas mulheres, ângulo facial bai-
Quanto às medidas do crânio, estamos também reduzi- xo. Em nossas tabelas fotolitográficas do álbum germânico
dos a poucos casos, que não bastam certamente para dar- observar-se-á que 4 entre 6 dos dementes morais têm verda-
nos um critério seguro para analogia. Em 14dementes morais deiro tipo criminal. Menores são talvez asanomalias no crânio
de Virgílio encontramos uma capacidade crânica de 1.450 e na fisionomia dos idiotas, em confronto com os criminosos,
nas mulheres, 1.538 nos homens, com o máximo de 1.693 e o que se explicaria pelo maior número de dementes morais,
mínimo de 1.518.Justificaremos adiante esta falta de analogia, ao menos no manicômio, surgidos na idade tardia, motivada
a que contribuiu ainda mais que o peso a escassez dessas por tifo, etc. Para estes, a fisionomia não teve tempo para
medidas. Por outro lado, Campagne teria (e eu creio exagero) tomar feição sinistramente, como nos réus natos. Eles fre-
encontrado 12 vezes em 13 o crânio diminuído e escondido qüentemente acompanham essas deformidades que são pró-
o occipital nos dementes morais. Krafft-Ebbing e Legrand de prias nas paradas de desenvolvimento, ou da degeneração: e
Saulle falam da freqüente microencefalia. É um fato de se tais eram exatamente as loucuras cuidadas por Salemi-Pace
notar que os micro encéfalos tornados adultos, mais ainda e Bonvecchiato.
que a perda da inteligência, mostram a perversão dos afetos
É necessário recordar quanto para a fisionomia dá
do senso moral. exemplo o militar, o padre, o sacristão, um dado endereço
É freqüentemente geral o acordo de não admitir nos continuado desde a primeira infância em meio a compa-
dementes morais a grande freqüência das anomalias crânicas nheiros do mal, que plasma a face, o olhar, com um sinal
e fisiognomônicas, que vimos caracterizadas muitas vezes no ",f' comum, decorrente da convivência prolongada e imposta
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reformatórios e no cárcere. A ela se adiciona a modifi- É portanto a analgesia (insensibilidade à dor) um dos caracte-
lO especial pelo medo da surpresa, das apreensões de uma res mais freqüentes do demente moral, como também dos
" que é fora da lei. Esta última é a ra;:ão com que justa- criminosos natos. Lembro-me como nos poucos casos de his-
'1te me explicava o ilustre astrônomo Tacchini, a fisiono- terias hipnóticas com a desintegração da personalidade, a
., habitual de alguns bandidos nos países em que o bandi- irrupção das tendências imorais se manifestasse muitas ve;:es
"110 não fosse protegido pela população. na completa anestesia e analgesia.

Insensibilidade à dor 7. Tato

Melhor ainda se houver analogia nas anomalias funcio- Da sensibilidade tátil bem pouco foi estudada nos de-
lis constatadas por Legrand de Saul1e, Krafft-Ebbing, Bon- mentes morais, mas écurioso que de 4observados por Amadei
.,cchiato: estrabismo, nistagmo, motoconvulsismo de rosto, e Tonnini um apresentava mancinismo sensório. Outro caso
':asia em leve grau, pé eqüino, hiperestesia temporânea e de Berti o revelava como o mais saliente e um ou dois demen-
, .:riódica, exagero ou falta de excitamento genérico, intole- tes morais por mim examinados, para os quais se teria notado
::'incia dos alcoólatras. 4 em 8 e 5 em 9, foi admitido por Cal1isto Grandi que os
Entre os caracteres biológicos poder-se-ia crer que a apresentou.
:
_. :malgesia e a anestesia fossem privativas dos criminosos, mas
:. ;lS últimas histórias recolhidas na ciência provam precisa- 8. Tatuagem
': :nente o contrário. Comuniquei como na prática privada en-
Nem mesmo a tatuagem, que parece tão característica
"' contrei um demente moral que, mesmo tendo blenorragia,
no delinqüente, pode ser excluída dos verdadeiros dementes
continuava a cavalgar e fe;: uma escalada alpina, e ria en-
morais, visto que se constatarmos os belos casos de De Paol1i,
quanto lhe era extraído um membro. Renaudin relata o caso
achamos que a maior parte di;: respeito a dementes morais.
de um jovem, a princípio bom, e, de repente, se fe;:estranha-
O único demente moral que pude encontrar no manicômio
mente perverso. Embora não fosse reconhecido absoluta-
de Turim era tatuado, e, por outro lado, os mais astutos delin-
mente demente, tornou-se insensível; voltando depois de
qüentes recusam a tatuagem, tanto que todo ano vemos uma
um certo tempo à vida sensata de antes, sua sensibilidade
cifra menor dela.
cutânea foi reintegrada, mas, recaindo na perversão moral
até o homicídio, recaiu também na insensibilidade.
9. Reação etílica
Tamburini e Seppil1i, no estudo de um fratricida, parri-
cida e demente moral, acharam-no analgésico. Assim é que , A única prova feita com hidrosfigmógrafo em um de-
furando, com um alfinete, as carnes, a língua, a fronte, não mente moral revela identidade da escassa reação etílica, e
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viam nele sinais de dor. Um dos examinados apresentou dimi- L;,.
Krafft-Ebbing notou também reação etílica irregular, como
nuta sensibilidade elétrica n<!opalmae outro no dorso da mão. ',
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ainda nenhuma reação dos akoólatras à 1m.
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10. Agilidade As noções de interesse pessoal do útil ou do nocivo,
Em três dementes morais notei a agilidade exagerada deduzidos da lógica pura, podem ser normais; vem daí um
que em um caso era verdadeira macaquice, e fica conforme frio egoísmo, que renega o belo, o bom, a ausência de amor
. filial (n~c;rdamos aquele alemão que matou a mulher e a
o que notamos nos criminosos, dos quais tínhamos esquecido,
mas agora recordamos as famosas evasões de Sheppard e de mãe para poupar a elas as dores da doença), a indiferença
Haggard. para com a infelicidade alheia. Se eles entram em colisão
com a lei, então a indiferença se muda em ódio, vingança,
ferocid:lde, na persuasão de estar no direito de fazer o mal.
11. Sexualidade
Eles têm noção da culpabilidade em certos casos dados,
A precocidade da perversão sexual, o exagero seguido mas é uma noção realmente abstrata e quase mecânica da
da impotência, já tinham sido notados por Krafft- Ebbing nos lei. Eles falam de ordem, justiça, moralidade, religião, honra,
dementes morais, como por mim. Eles têm anomalia patente patriotismo, filantropia (vocábulos preferidos do vocabulário
deles), mas o que lhes falta é exatamente o sentimento rela-
dos instintos, principalmente os sexuais, freqüentemente pre- tivo àquelas palavras. É nesta falta que se encontra a explica-
maturos ou anti-naturais, ou precedidos de atos ferozes, san-
guinários. Nós, além de recordarmos vários criminosos, lem- ção de pensamentos tão estranhos e contraditórios sobre os
bramos também a precocidade sexual notada nos ladrões e o mesmos fatos e esta é a razão pela qual em vão se tenta con-
exagero sexual dos assassinos e a estranha escolha dos estu- vencê-los de seus ertos, da imoralidade de seus atos, do absur-
pradores e dos meninos anômalos. do das opiniões, a injustiça de suas ambições.
Em suma, nisto se encerra o segredo provocante da
12. Senso moral perpétua luta deles contra a família e a sociedade. São indiví-
duos suscetíveis de uma superficial instrução intelectual, mas
Quanto à índole moral, à afetividade, a analogia, é in- decididamente rebelde a uma verdadeira educação moral,
conteste, e eu não tenho a escolher senão as descrições deixa- cuja base precípua é exatamente a do sentimento.
das pelos mais encarniçados adversários da minha escola, para
Os dementes morais são infelizes com a demência no
demonstrá-la sem poder ser tachado de parcialidade. São,
sangue, contraída no ato da concepção; nutrida no seio ma-
escreve Krafft-Ebbing e SchüIler, uma espécie de idiotasmorais
terno. Faltam-lhes o sentimento afetivo e senso moral; nasce-
que não podem dignar-se a compreender o sentimento moral,
ram para cultivar o mal e para cometê-lo. Estão sempre em
ou se por educação o devessem, essa compreensão deteve-se guerra contra a sociedade, são indivíduos que freqüentemente
na forma teórica sem traduzir-se na prática. São daltônicos, figuram nas agitações políticas. Falando dos dois casos de
cegos morais, porque a retina psíquica deles torna-se incapaz dementes, os dois tipos são dotados de felize pronta memória,
de formular juízo estético. De outra parte, falta a eles a facul-
de engenho agudo, de muitas e variáveis imaginações; todos
dade de utilizar noções de estética, de moral, de modo que os
são egoístas e com deficiência absoluta de sentimentos afeti-
instintos latentes no fundo dll-todo homem levam vantagem. vos. Assim como todas nossas ações são regulad as pelos senti-

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mentos, eles se deixam guiar unicamente pelo instinto, só se 13. Afetividade
preocupam com o presente, desprezando o futuro.
É próprio dos dois tipos de criminosos o ódio, ainda que
Após uma triste ação, são indiferentes como se não
sem causa, e naturalmente ainda ni~;s Ódio, inveja e vingança
fossem os autores, dormindo um sono tranqüilo. Nas conver-
quando a causa seja leve. Esses doentes, escreveu Motet, são
sas em alta voz, enfáticas, nos escritos, encontram-se frases
estimulados pelo desejo de causar o mal. Incapazes de viver
sonoras, eloqüentes, espirituosas, mas sem nenhum senti-
em família, da qual fogem por motivos fúteis ou sem motivo,
mento. Qualquer infelicidade que golpeie algum parente
preferem dormir debaixo da ponte do que na casa paterna.
íntimo, conhecido ou amigo, os comove. Falam de virtude e Um garoto de 10 anos, de olhos negros e expressão descarada,
de vício, mas são frases que repetem, das quais conhecem o sempre avesso à escola, jogou um companht;iro na água, só
significado, mas não o sentem; por isso, praticam atos virtuo- para vê-lo afogar-se. Era filho de um ladrão. No cárcere cortava
sos só por vaidade. as cobertas e nenhuma punição era suficiente para impedi-lo.
Brancaleone retrata o louco moral: variável de caráter, Catarina B (escreve Bonvecchiato) fala mal dos outros
versátil, excêntrico, paradoxal, sistematicamente hostil a toda e se diverte com isso especialmente se a ofendem, mas tam-
" tendência moralizadora, indeciso nos propósitos, extrema- bém se chegam perto dela. Odeia cada um que seja bem dis-
- mente excitável, insensível às alegrias domésticas, inacessível posto, como se estivesse fazendo desfeita a ela, ou ainda se
às doçuras do afeto, instintivamente levado à rebelião, à ex- alguém lhe fizesse algum bem. Um dia pediu para que a dei-
'7 travagância e ao escândalo. Declara altamente não acreditar xassem espancar dois cães. Por quê? perguntaram-lhe. Porque
na virtude, sustentando com um luxo de erudição e de lógica, me irrita vê-los acariciar os outros!
as teorias mais imorais, as mais lesivas à dignidade humana e
à ordem social.
14. Altruísmo
Levado a avaliar justamente o bem e o mal e a valorizar
as relativas conseqüências, estima naturalmente a hipocrisia e Verdade é não raramente, em vez de excessivo egoísmo,
a mentira quando puder tirar proveito delas. Ao decantar a se nota altruísmo. Hollander conheceu uma demente moral
sua coragem e no trabalho de defesa, descuida das regras que tentou o suicídio após a morte de uma amiga. Fala tam-
comuns da prudência, desconhecendo o quanto disso lhe pode bém de um rapaz que, malgrado uma vida de orgias e de
se tornar danoso. Representando um modo diferente do verda- violência doentia, era excelente filho e irmão.
deiro, pouco percebe a desordem de percepção e reprodução Legrand de Saulle nos fala de uma mãe que, com pre-
das idéias e a capacidade de resistir aos impulsos perversos. texto de preservar o filho da sífilis ou de outro mal, encami-
Os exatamente
repetem caracteres que
esteapontei
quadro.noLemaire
homem dizia:
delinqüente nato
"Sei que fiz nhava-o meu,
paciente a amorcom
carnal de forma
o pretexto de racional,
fazer seusno dizer
filhos dela. Um
estudarel11,
mal, se alguém me dissesse que fiz bem, diria que se trata de não lhes concedia tempo para dormir, nem mesmo quando
um canalha, mas não poderia fazerde outra forma". Lacenaire adoeceram. Quando um deles morreu, não se surpreendeu e
lamentava a morte dos outi6s como se fosse a de um gato. voltou em breve a essa cruel educação.

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15. Vaidade excessiva Ferland, Gray, por exemplo, admitem um enfraquecimento
Nisso entra ainda a meditação religiosa, que joga nas e mais outros uma irregularidade. Morei encontra neles uma
atitude intelectual especial,_facilidade em escrever e falar e
costas de Deus a própria insensibilidade e que elabora até
uma lei: a excessiva vaidade, para a qual gastam e excedem a na produção artística, superada freqüentemente por tendên- .
caridade, para atrair a estima pública, ou então mostrar ou cias paradoxais. Campagne notou na extravagância deles a
simular riqueza. Esta megalomania, ou seja, a excessiva vai- falta de senso comum.
dade, é própria tanto nos criminosos natos como nos de-" ..".~~. Também Krafft-Ebbing,.ellquanto não encontra ano-
mentes morais. Agnoletti repetia continuamente: "ÉDeus ." malias de inteligência, confessa que eles são simples'de espí-
que me permite sobreviver para punir os seus detratores". rito, absurdos, sem prudência na prática de crimes, mas termi-
"Foi Deus que fez morrer um de seus adversários". É curioso nam por acreditar como verdadeiros os fatos que inventam,
até para a história da religião ver o quanto é comum atribuir e a atribuir a si mesmos os acontecimentos ocorridos com
a Deus os próprios impulsos, talvez por serem irresistíveis. outras pessoas.

Assim diz o delinqüente Guideau: "Eu não posso ser louco; Eles têm, escreve Battanoli, nos dois casos, uma vasta
Deus não escolhe seus operários entre os loucos". corrente de cognições, mas são sempre sapientes meninos;
Ao que parece, eles se julgam os representantes de Deus escreveu, falando com graça, com brio, mas como papagaios
na terra. instruídos e engenhosos. Esses caracteres contraditórios que
Tratei de um que assinava não SÓ cartas, mas cambiais, se encontram exatamente nos criminosos derivam do fato
com falsos títulos nobiliárquicos, e se gabava de ter tido como de que nem todos os dementes morais são .enquadrados num
amantes senhoras conhecidas da sociedade em que vivia e, mesmo padrão, como nem mesmo todos os criminosos. Como
ele próprio, forjava cartas amorosas, com bela letra de mu- acontece com os animais, que, quanto mais numerosos, mais
lheres e enviadas ao endereço dele, e depois as mostrava se individualizam e oferecem maior e mais realçada variedade,
imprudentemente a seus companheiros. até a dividir-se em subespécies, da mesma forma acontece
com os dementes morais em relação à inteligência, ficando
sempre a leviandade, a astúcia, como o caráter principal.
16. Inteligência
A diferença deriva também do fato de que tendo eles
Quanto à inteligência, certamente não é tão apagada engenho vivaz desde jovem, vão entorpecendo na idade adul-
como o sentimento e o afeto. Mas, pelo vínculo que une ta e que, estando sujeitos a congestões cerebrais, devem apre-
Itodas as funções psíquicas, não se pode dizer que seja comple-
, sentar naturalmente erros intelectuais variados. Por isso se
tamente sã. Se muitos psiquiatras estão de acordo, especial- pode recolher nos pesquisadores gradações que vão de ho-
mente Pritchard, Pinel, Nicolson, Maudsley, Tomassia, em mens de gênio (que são raríssimos entre os criminosos) até
encontrar nos criminosos uma integridade perfeita, com ex- os semi-imbecis, como são grande parte dos ladrões e dos
clusão não apenas de alucinações e ilusões, mas também de imbecis, entre os quais não hesita em colocar Grandi di Mor-
defeito e desordem, muitos outros, ao contrário, Zelle, Mac- selli, que foi condenado.

20 4 205

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j.

Battanoli descreve um que era verdadeiro poeta e Livi 19. Atividade doentia
em sua tosca linguagem um verdadeiro filósofo epicurista.
Verdade é que Schule disse serem os dementes morais
Averigüei que estava junto na aplicação técnica a mais alta
estranhamente excitáveis, com operosidade excessiva alter-
avaliação social e aos graus mais elevados, malgrado so-
nada com inércia e indisciplina, contínua inquietude, incon-
fresse também na juventude, de freqüentes fases de amné-
tentabilidade, até haver atingido seu objetivo e se tranqüili-
sia, e uma estranha tendência ao suicídio, e mais tarde fosse
zam. Depois retornam inquietos, ativos na profissão algumas
" J::Qlhidoaté com erros de linguagem e de manias de perse-
vezes, mas como meninos na vida: "Està característica que
guição. Por outro lado, tenho um caso de inteligência tão
parece contraditória mas não é totalmente, porque aparece
débil, a ponto de aproximar-se da imbecilidade, embora sou-
besse escrever bem. nos primeiros períodos da virilidade e falta em muitos, encon-
tra-se em muitos grandes criminosos, como por exemplo, La-
cenaire, Gasparone, Alberti, que atingiram freqüentemente
17. Astúcia elevadas posições sociais. A atividade deles explica-se apenas
Uma razão pela qual tantos são levados a acreditar que no mal. Em família diz Krafft-Ebbing, a tenacidade e melan-
1..
esteja intacta a inteligência do demente moral é porque todos colia deles são o terror de seus pais. Na escola, o esforço
são astutos, habilíssimos na prática dos delitos e na justifica- deles para se fazerem expulsar é de extraordinária fineza.
tiva deles. Assim, a Caterina, de Salemi-Pace nega de ime- Se se ocupam, logo se tornam ladrões, revéis a qualquer
"~ diato a tentativa de corrupção e subtraiu-se à prisão, justifi- disciplina, como a qualquer trabalho no cárcere. Muitos são
t,.

= :;; cando com o temor de ser agredida pelas filhas. Assim tam- simples de espírito, freqüentemente absurdos, e negligenciam
bém L.M. de Capelli, tendo visto partir de uma casa uma qualquer prudência nos atos. Mentirosos, mas acabam por
viúva que a alugara, ocupou-a como sua, mandando a ser- acreditar como verdadeiro tudo que inventam. Tudo isto
vente vender os móveis e fugiu, quando foi descoberta. acontece com os ladrões menores e a uma boa parte dos de-
mais ladrões.

18. Preguiça
20. Pretensões de diferenças
Não falta a preguiça para o trabalho nos dementes mo-
rais, em contraste com a atividade exagerada nas orgias e no Os caracteres que, com fatigante análise, os analistas
mal, exatamente como nos criminosos natos. Sei de um que chegaram a encontrar para distinguir os dementes morais
permanecia a semana inteira no leito, mas era capaz de estar dos delinqüentes natos só conseguem confirmar a analogia.

10 dias
mil ems bailes
doença ou em
para não passeiosEm
trabalhar. fora de casa.
geral, disseOutro alegava
Krafft-Ebbing, Krafft-Ebbing nota o andamento progressivo da cólera mor-
bus nos dementes morais - e nós recordamos a assim chamada
faltam-lhes atividade, energia, quando não se tratar da satis- "escala do crime". Escreve Pinel que mostram na execução
fação de seus desejos imorais. Odeiam o trabalho honesto. de atos impulsivos, imprevidência, crueldade monstruosa, ci-
A mendicidade e a vadia~ín são a vocação deles. nismo, gabando-se depois do.crime, sem remorso, mas, eles

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próprios, confessam após que esses caracteres se encontram por ela para a projetada excursão. Assim aconteceu. Ele não
nos verdadeiros criminosos. foi reconhecido e quando estava perto do Sena tentou derru-
Distinguem-se, diz Krafft-Ebbing, dos criminosos co- bar a carruagem no rio; só então a família se deu conta do
muns por haver afeições cerebrais, congênitas ou adquiridas, logro, e o doido foi enviado para o manicômio.
herança de-alcoolismo, epilepsi~ loucura, trau~rii.as-cérebrais; ~Em um manic6~i~ privado de Pari~:~o~trodoido afi~~
meningite ou atrofia senil, demência senil, alterações funcio- um pedaço de ferro, escondeu durante quinze dias, com o
nais do sistema nerVDSOou do desenvolvimento do corpo, qual matou a filha do diretor, gritando logo após: "Me fizeram
estrabismo, pé eqüino, má conformação da genitália. São pre- o que quiseram; eu me vinguei". Importantíssimo é esse caso
dispostos às doenças cerebrais, às congestões, intolerâncias narrado por Adriani.
nos alcoólatras, variedade de humor, exagero das paixões. Um certo demente, no qual prevalecia a idéia de rique-
Schule escreve que sãofilhos de loucos, com freqüentes za e valentia, e atos de violência, um dia, depois de simular
anomalias do crânio, do sexo, do paladar, da língua, expostos completa tranqüilidade, antes de escurecer, pede para ser

à irritação dos
periódicas, nervos, sonambulismo,
hipocondria, nas primeiras confusões,
ocasiões, naloucuras
puber- deixado um pouco de tempo no quarteirão antes de entrar
no aposento. Aproveitou a ocasião para fazer um pacote de
dade, nas doenças graves. Veremos tudo isso nos réus natos. suas roupas e agasalhos, que deixa fora do próprio aposento.
Espera que venha o guarda da ronda e diz que lá estava parado
21. Premeditação para causar-lhe medo. Avançou um passo e lhe vibrou um
forte golpe com uma bacia, derrubando-o para levar as chaves
Fala-se da premeditação, da dissimulação, da arte com e fugir. Confessou depois, com a máxima indiferença, a pre-
que os verdadeiros criminosos se escondem enquanto demen- meditação, e contou como naquele dia tinha acertado com
tes morais cometeriam todo malefício às claras, como se outro alienado que já tentara a fuga outra vez. E lamentava-
tivessem o direito de fazê-lo. Adiciona-se que não raras vezes se de não ter podido praticar o homicídio.
os dementes morais, como os delinqüentes comuns preparam
o álibi, premeditam o crime, cometem-no não por ímpeto
22. Espírito de associação
inesperado, mas por vingança ou lucro, associando-se fre-
qüentemente com seus comparsas. Nota-se que todas as con- Este é um fato ocorrido no manicômio de Marselha
fusões do manicõmio nascem dos alienados, que induzem os 10 anos atrás, em que dois dementes programaram matar
outros aos males, enganam-nos e denunciam os superiores e os serventes, apossar-se das chaves e fugirem. Esse fato bas-
são sempre inclinados às rebeliões. taria para mostrar a possibilidade que não só os dementes
Aubanel narra como um deles que odiava a família de morais, mas também os dementes comuns se acertam entre
sua mulher, sabendo que ela deveria fazer uma viagem a Paris, eles, e conspiram como os encarcerados, e nos revelam ainda
disfarçou-se e alugou uma carruagem que a conduzia perante quanta tenacidade vingativa repousa neles, tanto quanto
a saída da odiada família,' argumentando que seria servida nos delinqüentes.
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Nenhum dos autores citados notou um fato que Essasperguntas denunciaram-no pelo crime e demons-
encontrei nos delinqüentes com freqüência, como exata- traram a necessidade de falar do próprio delito e deixar uma
mente no maior número de criminosos: o desejo de viver lembrança dele por escrito. Como bem advertem Tamburini
no seio da sociedade que eles freqüentam, embora detestem, e Seppilli, o que dizer daquele demente citado por Maudsley,
principalmente--'sociedade~de homens da mesma súcia:-.---~-".~
que, assim que matou úÍnamenina, lavou as mãos, e escreveu
Recordamo-nos de um certo Rosa, que estrangulou sem no seu diário: "Morta, uma menina era boa e quente".
causa uma neta, depois por vingança, matgu no meu mani-
cômio um alienado. Mas, não podia viver isolado. Assim
que o coloquei numa cela, ameaçou e depois tentou estran- 24. Simulação
gular-se, e teria perpetrado o suicídio, se não o tivesse colo-
Até a freqüência da simulação de demência, que encon-
cado no meio de um grupo, ao qual era hostil, mas do qual
tramos muitas vezes nos criminosos, encontra-se anotada em
não se podia afastar.
algumas observaçôes diligentes.

23. Vaidade do delito


25. Sintomatologia da demência moral nas outras
Também a vaidade do delito, ou melhor, o estranho
A objeção, que muitas doenças mentais têm em seu
desejo de eternizá-lo nas anotações, temos notado com muitas
sistema de tendências próprias da demência moral, não traz
provas, que revelam especial tendência dos criminosos. Foi
qualquer prejuízo à existência dela, como os casos de índole
possível observá-la pelo estudo acurado de alguns casos em
sifilítica, saturnina, histérica não trazem à existência da para-
~ que o diagnóstico da demência moral era indiscutível. Ao
lisia, da epilepsia, da demência.
revés, examinados nos réus comuns, os casos servem para
dar indício freqüente, e algumas vezes, uma explicação do
crime. Assim, um demente moral, depois de ter tomado todas 26. Histologia patológica da demência moral
as precauções para esconder o fratricídio e o parricídio, redigia
essas linhas secretamente: Nos três casos de demência moral, em que se fezautóp-
sia, foram encontradas meningite e apoplexia avançadas nos
vasos. Faltam-nos estudos avançados sobre este assunto. Mas,
- "Qual é o destino de minha mãe, e que morte deverá uma vez reconhecida a analogia com outras neuropatologias,
ter? Se conseguirei eliminá-la com arsênico; se não, de que socorrem-nos as preciosas observações de Arndt de que "mui-
modo e quando? tas células ganglionares são nos neuróticos em estado de
- Em que ano morrerá, e de doença, não se sabendo? desenvolvimento inferiores como nos répteis, na salamandra.
Conseguirei matá-la; e de que modo, ou não conseguirei! Em alguns o "cilinder axis" se apresenta mais sutil ou
- O meu destino, qual será?" coberto de grânulos sem suficiente isolamento com respeito
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às partes que o circundam,. para os quais a excitação mais
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facilmente se irradia; falta realmente em parte destes, algumas fazem-se a princípio tímidos e após se entregam aos vícios
vezes, e é substituída pela acumulação de células protoplasmática. com energia que antes aplicavam aos estudos. Procuram com
altos ganhos compensar a humilhação da glória perdida, e
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impacientes do êxito, um pouco fechados no raciocínio, exe-
27. A hereditariedade na demência moral
cutam cinicamente qualquer obra maldosa.+Em.outros ter-
A prova mais segura é no desenvolvimento, na srcem mos, a puberdade só,semoutra, foia causa das tendências imorais.
da doença. Tanto do delinqüente nato como o demente moral Recordemos, a propósito, o caso de Verzeni, Lemaire e
datam quase sempre da infância e da puberdade. Livi escre- outros, em que n'enhuma outra causa a não ser esta, a de que
veu: "os dementes morais nascem plasmados naturalmente estamos falando, explica atendência estranhamente perversa.
para o mal". Savage distingue, como Mendel e Krafft- Ebbing, Também involução da idade senil e a decadência da atividade
uma forma de demência moral primária, que se manifesta genital podem indicar, provocar de repente, o recrudesci-
freqüentemente dos 5 aos 11 anos, com o furto, caráter excên- mento desta tendência e dar uma explicação, como era o
trico, com aversão aos costumes familiares, agitabilidade, in- caso de Garrayo, a princípio virtuoso e honestíssimo e após
capacidade de educação, crueldade e cinismo extraordinário, os 40 anos um assassino, estuprador de nove mulheres, ou
sexualidade precoce devido à qual são masturbadores desde melhor, um necromaníaco.
o início da vida. A hereditariedade, a descendência de dementes, en-
Recordo-me de dois que na idade de 4 anos começaram contra-se também neles, mas exatamente como veremos nos
a ser o desespero dos próprios pais, com furtos, mentiras, delinqüentes natos, em proporção menor do que nos comuns,
ódio à mãe, aos irmãos, e um no comércio e outro na arit- enquanto é em maior proporção a cifra dos pais egoístas,
mética tinham singular habilidade. Todi conta a história de viciosos e criminosos. Vê-se que a influência hereditária da
uma menina que picava os olhos dos cavalos e dos cães de demência não é tão grande quanto a do vício e da crimina-
sua casa, e tornou-se mãe e mulher desnaturada. Depois se lidade - exatamente como nos criminosos - e recordarei
revelou uma demente moral. Assim também aconteceu com sobretudo o tipo mais clássico de demência moral, que tinha
um rapaz que arrancava a língua dos pássaros. Constatamos avô homicida por Ciúme, tio incendiário e pai estuprador e
exatamente como os delinqüentes natos apresentam as ten- que matou uma mulher para testar um fuzil.
dências imorais muito precoces. A continuação da primeira Recordamos a demente moral, citada porSalemi-Pace, com
idade, que é a mais clara explicação, nos dá a chave de sua mãe adúltera e paicriminoso; Catarina, citada por Bonvecchiato,
difusão, visto que no fundo é uma continuação, seja por causa com paibeberrão; F.A.,de G.B.Verga,com paide caráter grosseiro,
patológica, seja por um estado fisiológico. irmão pederasta, um outro ladrão, um outro epiléptico e irmã
Algumas vezes há o recrudescimento na puberdade. imbecil; a Maria, de Cantarano, com irmão vagabundo e dois
Escrevem Todi e Legrand de Saulle que semelhantes casos pacientes meus que tiveram mãe obscena e pai beberrão.
parece que na infância são dotados de extraordinário gênio É precisamente esta expressão um pouco menor que
artístico e apego aos estudos;"mas quando vem a puberdade encontramos nos delinqüentes cuja hereditariedade da de-

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21 2 213
mência não ultrapassa a 22%, enquanto nos dementes co- Tive, em longo tratamento, um jovem que confirma
muns vai além de 50%, se bem que seja maior talvez nos essa observação. Filho de pai alcoólatra, de mãe erótica e
grandes culpados, como Faella, Alberti, etc. É esta mesma com tendência suicida, muito estranho, com avô suicida, ir-
proporção menor que a que Sommer verificou nos dementes mãos honestíssimos, era ele o predileto dos pais e mormente
criminosos-"em confronto com os outros. de uma"ca"mareira que o protegia encontrando sempre uma" 11

Enquanto os dementes comuns têm 30% de heredita- desculpa às malvadezas dele. Encaminhou-se ao furto desde
riedade, os dementes criminosos têm 22%, mas nestes a here- a infância. Com três anos, indo ao mercado, apropriava-se
ditariedade é mais realçada, nos vários ramos colaterais, e de peixes, frutas, cestas de dinheiro. Quando cresceu, gastava
mais nos casos com avô, pai, tio dementes e todos os irmãos em guloseimas o quanto conseguia furtar da mãe ou da cama-
neuróticos, outros com avô, mãe e irmãs dementes, o pai reira, que não faziamcaso. Na escola apoderava-se dos objetos
beberrão, três irmãs dementes. dos companheiros.
A influência direta dos alcoólatras é notada por Cam- Isto se compreende do quanto vimos no início, sobre

pagne seis vezes, e três juntos com doentes venéreos. Nós já as tendências criminosas dos meninos que apresentam fisiolo-
c a encontramos e melhor a encontraremos no delito. gicamente um estado similar à demência moral, de modo
Krafft-Ebbing falava dos afetados pela meningite, trau- que quando não encontram circunstâncias favoráveis à trans-
mas na cabeça, como causa da demência moral, e nós veremos formaçãonormal emhomem honesto, essastendências perduram.
como o sejam de tendência ao delito, como por exemplo, o Este estado patológico se faz com o tempo costumeiro,
,; furto, indicado por Acrell, Morei, Oall, e que recordamos a em suma, também quando o indivíduo não teria tendências
• freqüência do trauma na cabeça dos delinqüentes; 7% segun- especiais ao delito, quando não seria um homem como todos
do minha pesquisa, e os 21 em 58 de Del Bruck, os 3 em 28 os outros, mas, mais facilmente o atinge a influência hereditá-
casos de Flechs. Narrei a história de um ladrão depois de um ria. Isto explica os casos de criminosos aparentemente natos
trauma na cabeça. Ainda recentemente, Arduin notou uma como tais e sem anomalias de crânio ou das faces.
fratura no crânio em um que encontrou entre 19 assassinos. Assim se explicam essas demências morais dos déspo-
Importantíssima sobre todas é a cota, escassa é ver- tas, seja do trono, como a grande parte dos Césares, seja do
dade, mas provada com certeza, de dementes morais, que poder, como Marat, seja como os tiranos da república hispa-
surgiram de uma educação maldosa. Holandêr e Savage no-americana, os quais, de tranqüilos e até humanos que
fazem notar a freqüência de estado mórbido naqueles que eram a princípio, ante o contato com o poder ilimitado, com
por demasiada bondade ou negligência dos pais não conta- ou sem influência hereditária, tornaram-se cruéis, mesmo
ram com os freios na infância, nem se habituaram àqueles sem vantagem própria, mas por puro capricho.
limites que a lei impõe e pelos quais um homem se forma Importantíssimos são os casos notados por Vergílio, 2
moralmente. Acontece igualmente em alguns delinqüentes, vezes em 14 e por Campagne, 7 vezes em 15, e um notado
especialmente nos países selvagens e pouco civilizados, por Salemi-Pace, um por Todi, em que a demência moral se
como é o costume da vingança. encontra seguida de infelicidade profunda ou de vivas impres-

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li
1-

sões psicológicas. Assim, Todi conta o caso de uma boa


empregada que tendo perdido uma menina, foi tomada de
demência moral com tendência a desenterrar os cadáveres
das crianças .
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---.-A.pa~adi-dod~~ei.';olvimenrodos-êentros psfq{iiêos ....


foi provocada, como acontece a algumas doenças mentais,
por causas psíquicas em vez de físicas, mas os efeitos são os
mesmos. Evidentemente, a demência moral se vai concate-
nando com um grupo de criminosos, também esses sem gran-
des anomalias: ou por paixão ou por ocasião. ~
17. FORÇA IRRESISTÍVEL NO INTIMO
DOS DEMENTES MORA.IS

1. Força irresistível- 2. Força irresistível nos criminosos.


Confissões - 3. Outros exemplos de criminosos
4. Li~'re-arbítrio

1. Força irresistível

Desta pervertida afetividade, deste ódio excessivo e


sem causa, desta falta ou insuficiência de freios, desta tendên-
cia hereditária múltipla deriva a irresistibilidade dos atos dos
dementes morais. Schule escreveu que eles têm um fundo
de irritabilidade pronta para explodir como um vulcão. Não
podem dirigir à sua vontade os impulsos do ciúme, da sen-
sualidade, sem poder resistir a eles. São ingratos, impacientes,
vaidosos, desde seus atos mais maldosos. Pinel fala de um
demente moral que, mal educado, se habituou aos últimos
excessos; os cavalos que não lhe servem, os mata; quem se
opõe na política é por ele espancado; se uma senhora lhe
responde joga-a no poço.

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