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ANTOINE MEILLET

seleção, tradução e notas MARCOS BAGNO

A EVOLUÇÃO
das formas
GRAMATICAIS
Direção: Andréia Custódio
Capa e diagramação: Telma Custódio
Revisão: Kaya Adu Pereira

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

M449e

Meillet, Antoine, 1866-1936


A evolução das formas gramaticais / Antoine Meillet ; seleção, tradução
e notas Marcos Bagno. - 1. ed. - São Paulo : Parábola, 2020.
304 p. ; 24 cm (Referenda ; 3)

Tradução de: L’évolution des formes grammaticales


Inclui bibliografia e índice
ISBN 978-85-7934-179-3

1. Linguística. 2. Gramática comparada e geral – Gramaticalização.


I. Bagno, Marcos. II. Título.

19-61827 CDD: 415.018


CDU: 81’362

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ISBN: 978-85-7934-179-3
© do texto: Marcos Bagno, 2020
© da edição: Parábola Editorial, São Paulo, 2020.
SUMÁRIO

PRIMEIRAS PALAVRAS...................................................................................... 7

PREFÁCIO: Antoine Meillet e as origens da sociolinguística................................... 11


L ouis -Jean Calvet

INTRODUÇÃO................................................................................................. 23
Carlos A lberto Faraco

PARTE I
Linguística histórica e linguística geral
1. O estado atual dos estudos de linguística geral............................................... 37

2. Linguística histórica e linguística geral.......................................................... 53

3. Convergência dos desenvolvimentos linguísticos............................................. 69

4. A evolução das formas gramaticais............................................................... 83

5. A renovação das conjunções....................................................................... 101

6. Sobre as categorias do verbo...................................................................... 115

7. Sobre o estado atual da gramática comparada............................................... 137

8. O problema do parentesco de línguas...........................................................145

Sumário 5
9. Sobre os efeitos das trocas de língua........................................................... 167

10. O desenvolvimento das línguas................................................................... 175

11. Linguística e antropologia..........................................................................189

12. O nome do homem....................................................................................195

13. Como as palavras mudam de sentido.......................................................... 203

14. O que a linguística deve aos estudiosos alemães......................................... 239

PARTE II
Meillet e Saussure
Encontros e desencontros
15. Ferdinand de Saussure............................................................................. 249

16. Resenha de Antoine Meillet do Curso de linguística geral de


Ferdinand de Saussure............................................................................. 257

17. Carta de Ferdinand de Saussure a Antoine Meillet, 1894................................261

18. Meillet, Saussure e a linguística geral........................................................ 265


Konrad Koerner

19. Fato social e fato linguístico: A. Meillet e F. de Saussure.............................. 279


Christian P uech e A nne R adzynski

REFERÊNCIAS.............................................................................................. 289

ÍNDICE ONOMÁSTICO..................................................................................... 293

6 A evolução das formas gramaticais


PRIMEIRAS PALAVRAS
“… se a realidade de uma língua não é algo de substancial, nem por isso ela deixa de
existir. Essa realidade é ao mesmo tempo linguística e social.”
Antoine Meillet

Desde que comecei a me interessar pelo fenômeno da gramatica-


lização, há cerca de duas décadas, o nome de Antoine
Meillet (1866-1936) tem aparecido com frequência nas leituras que venho
fazendo de textos sobre esse importante processo de mudança linguística.
No entanto, o linguista francês sempre aparece ali como uma referência
“histórica” reduzida a poucas linhas, em geral para reconhecer que foi ele
o propositor do próprio termo gramaticalização. Ao empreender o projeto
de escrever uma história da linguística, pude acompanhar o progresso das
hipóteses concernentes aos processos de transformação de itens lexicais
em morfemas gramaticais, desde as especulações filosófico-linguísticas
de Étienne Bonnot de Condillac (1715-1780), que influenciou John Horne
Tooke (1736-1812), passando por Wilhelm von Humboldt (1767-1835), Franz
Bopp (1791-1867), Georg von der Gabelentz (1840-1893), Hermann Paul
(1846-1921), até receber o nome com que se fixou nas teorias modernas
no artigo “A evolução das formas gramaticais” (1912) de Meillet, embora
ali o termo compareça apenas duas vezes e entre aspas.
“A evolução das formas gramaticais” foi incluído no primeiro dos
dois volumes da obra Linguistique historique et linguistique générale,
que reúne os textos de divulgação publicados por Meillet em revistas
científicas dedicadas não somente aos estudos da linguagem como
também à psicologia, à sociologia, à antropologia. O primeiro volume,
de 1921, foi compilado pelo próprio Meillet, enquanto o segundo, de
1936, tinha sido organizado por três ex-alunos seus — Joseph Vendryes

Primeiras palavras 7
(1875-1960), Jules Bloch (1880-1953) e Émile Benveniste (1902-1972) —
como homenagem aos 70 anos do mestre que, no entanto, faleceu antes
de completar esse aniversário. Na bibliografia recenseada por Benveniste,
aparecem 542 artigos e 24 livros, uma vasta produção, centrada mais do
que tudo em torno dos estudos de gramática comparada (Introduction à
l’étude comparative des langues indo-européennes [1903]; Esquisse d’une
grammaire comparée de l’arménien classique [1903]; La méthode com-
parative en linguistique historique [1925], entre outros) na tradição da
linguística histórica do século XIX, na qual se formou. Em seus artigos
de divulgação, no entanto, Meillet abordou temas de um espectro mais
amplo, embora utilizando para suas argumentações e exemplificações
seus abrangentes conhecimentos das línguas indo-europeias, como se
pode ver nos textos reunidos neste livro.
Em busca de fontes bibliográficas onde pudesse entrar em contato direto
com a obra do linguista francês, descobri que nada de sua ampla produção
tinha tradução em português até 2016, quando foi publicado em forma de
livro o famoso ensaio Como as palavras mudam de sentido1. Com o objetivo
de compensar um pouco essa ausência, decidi selecionar alguns dos artigos
constantes dos dois volumes de Linguistique historique et linguistique gé-
nérale. O critério que me guiou inicialmente foi selecionar textos em que a
teorização dos processos de gramaticalização estivesse presente. No entanto,
a leitura dos dois volumes me revelou aspectos importantes do pensamento
de Meillet, no qual a gramaticalização entrava como um elemento a mais
em sua busca de argumentos para sustentar os dois principais eixos que
organizam o conjunto dos artigos reunidos na obra:
■ a necessidade da formulação de princípios gerais capazes de expli-
car o funcionamento das línguas humanas, isto é, a constituição

1
Antoine Meillet (2016), Como as palavras mudam de sentido (edição bilíngue e crítica). São Paulo:
EdUSP. O livro é organizado e editado por Rafael Faraco Benthien e Miguel Soares Palmeira, também
responsáveis pela tradução, conta com um dossiê crítico com textos de Renato M. Basso, Rodrigo
T. Gonçalves, Jean-François Bert e Carlos Alberto Faraco, uma biobibliografia e diversos anexos,
entre os quais uma homenagem in memoriam de Meillet da autoria de Marcel Mauss (1872-1950).
A decisão que tomei de incluir o mesmo ensaio neste volume se deve ao fato de que a publicação
de 2016 pertence a uma coleção chamada Biblioteca Durkheimiana, dirigida por sociólogos de for-
mação, e que tem por isso, evidentemente, um foco direcionado aos aspectos mais propriamente
sociológicos do texto de Meillet, publicado na revista L’Année sociologique, dirigida pelo próprio
Émile Durkheim. Ao reproduzi-lo aqui em nova tradução, minha intenção foi a de apresentá-lo
acompanhado de notas dedicadas de forma explícita aos aspectos propriamente linguísticos do ensaio
(sem desconsiderar, evidentemente, a visada social, cultural e histórica do autor), o que permitirá
eventualmente um confronto entre as duas edições que, espero, se complementam no objetivo de
apresentar Meillet ao público brasileiro. Para as pessoas que se dedicam aos estudos da tradução, as
duas versões poderiam também constituir um corpus decerto interessante para análises comparativas
das estratégias tradutórias perceptíveis em cada uma delas.

8 A evolução das formas gramaticais


de uma linguística geral que não se limitasse às descrições par-
ciais de idiomas pertencentes a famílias específicas, como vinha
fazendo a longa tradição da linguística histórico-comparativa,
concentrada sobretudo no grupo indo-europeu; nessa linguística
geral, entrariam precisamente, entre outros (de ordem articulatória
e psicológica, por exemplo), os fenômenos de gramaticalização,
encontráveis em todas as línguas do mundo e responsáveis por
muitos dos processos de mudança linguística; desse modo, a lin-
guística histórica forneceria os dados para uma linguística geral (e
isso justifica o título dos dois volumes de Linguistique historique
et linguistique générale);
■ a observação dos fatos de linguagem através de um prisma obri-
gatoriamente social, uma vez que a análise da “língua em si e por
si mesma” é insuficiente para dar conta dos fenômenos sobretudo
de mudança.
Orientado por esses dois eixos, procedi à seleção e tradução dos ca­torze
artigos que compõem esta antologia e que vêm anotados com informações
e comentários que julguei pertinentes para esclarecer alguns aspectos
propriamente teóricos, criticar certos posicionamentos de Meillet à luz
das teorias mais recentes, complementar as exemplificações oferecidas,
junto com dados biobibliográficos dos autores mencionados nos textos.
Cada artigo é introduzido por uma apresentação geral do tema abordado,
com ênfase na articulação dos textos entre si.
Além dos artigos assinados pelo próprio Meillet, este livro abriga
também dois textos produzidos especialmente para esta edição. O primeiro
é o prefácio de Louis-Jean Calvet, sociolinguista francês de renome que há
bastante tempo vem reivindicando para Meillet um lugar de maior desta-
que na historiografia da linguística, sobretudo por sua abordagem social
dos fatos de linguagem, uma abordagem que antecedeu em meio século
o surgimento e desenvolvimento da disciplina que, a partir da década de
1970, se firmará com o nome de sociolinguística. O segundo é uma intro-
dução de autoria de Carlos Alberto Faraco, que atendeu generosamente
a meu convite e se esforçou por produzir um texto distinto do que já
tinha publicado na edição de Como as palavras mudam de sentido, acima
referida. Com Faraco, também discuti o projeto do livro à medida que ia
se constituindo, numa colaboração que é para mim em tudo honrosa e
que já tinha ocorrido em outras ocasiões.
Falar de Antoine Meillet é, quase inevitavelmente, falar de Ferdinand
de Saussure, e por diversas razões. Meillet foi aluno de Saussure na École
Pratique des Hautes Études, em Paris, a partir de 1885. Em 1894, substi-
tuiu o mestre suíço na mesma instituição. Os dois estudiosos mantiveram

Primeiras palavras 9
contato epistolar até a morte de Saussure em 19132. Na historiografia da
linguística, as relações entre os dois estudiosos são vistas ora como con-
vergentes, ora como divergentes no atinente a concepções de linguagem.
Para ilustrar esses encontros e desencontros, este livro traz uma segunda
parte que reúne o texto produzido por Meillet logo após a morte de Saus-
sure, a resenha feita pelo francês do Curso de linguística geral, uma carta
do linguista suíço a seu ex-aluno e dois artigos historiográficos, um de
Konrad Koerner e outro de Christian Puech e Anne Radzynski, derivados
de um colóquio ocorrido na França em 1986, por ocasião do cinquentenário
de morte de Meillet3.
Com esta publicação, espero aproximar os estudiosos brasileiros da
história da linguística do pensamento daquele que foi em sua época o
linguista mais destacado de seu país, pertencente a uma linhagem que
vai de seus mestres Michel Bréal (1832-1915), fundador da semântica (e
criador do termo), e Ferdinand de Saussure (1854-1913), passa por ele e
prossegue em seus alunos, dentre os quais se destacam os nomes impor-
tantes dos já citados Benveniste, Vendryes e Bloch, e também de Marcel
Cohen (1884-1974), Georges Dumézil (1898-1986), André Martinet (1908-
-1999), Aurélien Sauvageot (1897-1988), Lucien Tesnière (1893-1954), Jean
Paulhan (1884-1968) e Gustave Guillaume (1883-1960).

Marcos Bagno
São Paulo, julho de 2020

2
Ver as cartas de Saussure a Meillet descobertas e publicadas por É. Benveniste em 1964 em “Lettres
de Ferdinand de Saussure à Antoine Meillet”. Cahiers Ferdinand de Saussure, n. 21 (1964), p. 93-96.
3
Os demais textos apresentados no colóquio, todos de muito interesse e atualidade, estão dispo-
níveis em http://www.persee.fr/doc/hel_0750-8069_1988_num_10_2, acesso: 30 de junho de 2020.

10 A evolução das formas gramaticais


PREFÁCIO
Antoine Meillet e as origens
da sociolinguística
Louis-Jean Calvet

Antoine Meillet desenvolveu uma carreira universitária brilhan-


te e retilínea. Estudou na Sorbonne (onde se-
gue o curso de Louis Havet); em seguida, no Collège de France (onde
assiste aos cursos de Michel Bréal) e na École Pratique des Hautes ­Études­­
(onde acompanha os de Ferdinand de Saussure) e defendeu em 1897 uma
tese sobre o eslavo antigo. A partir de 1906, ensinou no Collège de France
a gramática comparada das línguas indo-europeias, e os nomes de seus
alunos constituem como que um catálogo dos linguistas franceses da ge-
ração seguinte: Marcel Cohen, Émile Benveniste, Louis Tesnière, Joseph
Vendryes, Aurélien Sauvageot, André Martinet etc. Tudo isso lhe confere
a imagem de um especialista da gramática das línguas indo-europeias, do
grego ao latim, passando pelo armênio ou pelo eslavo antigo. No entanto,
ele é considerado, ao mesmo tempo, o ancestral daquilo que se chama
hoje de sociolinguística (veremos que, de sua parte, preferia considerar a
língua como um “fato social”, o que faria da linguística uma ciência so-
cial), e é verdade que alguns de seus textos traduzidos para o português
neste volume (em particular “O nome do homem” ou “Como as palavras
mudam de sentido”) mostram seu interesse pelas relações entre língua e
sociedade, enquanto outros (“Ferdinand de Saussure” e “Resenha do Curso
de linguística geral”) ilustram o que Saussure pôde oferecer a Meillet e em
que medida ele se afastou das teorias do mestre genebrino.
Evocaremos abaixo esses pontos, mas vamos começar por uma oposi-
ção menos conhecida, entre Meillet e Littré, atinente à mudança de sentido

Antoine Meillet e as origens da sociolinguística 11


das palavras, oposição que, como se verá, talvez tenha se manifestado à
revelia de Meillet e, claramente, à revelia de Littré.

£ Émile Littré e Antoine Meillet: uma ruptura metodológica


no estudo da mudança semântica
Em 1880, um ano antes de sua morte, Émile Littré (1801-1881) publi-
cava Études et glanures1 [Estudos e respigaduras], uma coletânea de quinze
textos, com o subtítulo “Pour faire suite à l’histoire de la langue française”
[“Para dar continuação à história da língua francesa”]. Dois deles serão
republicados por Michel Bréal, “Pathologie verbale, lésions de certains mots
dans le cours de l’usage” [“Patologia verbal, lesões de algumas palavras
no decorrer do uso”], em 1888, e “Comment j’ai fait mon dictionnaire de
la langue française” [“Como fiz meu dicionário da língua francesa”], em
1897. Mas Bréal mudará o título do primeiro texto para “Comment les mots
changent de sens”2 [“Como as palavras mudam de sentido”]. Recordemos
que Bréal, professor no Collège de France e especialista em semântica, era
o orientador de tese de Antoine Meillet (defendida em 1897: Recherches sur
l’emploi du génitif-accusatif en vieux-slave [Pesquisas sobre o emprego do
genitivo-acusativo em eslavo antigo]), que publicará em 1905 em L’Année
sociologique um artigo com o mesmo título do de Littré, “Comment les
mots changent de sens”, que será retomado em 1921 no livro Linguistique
historique et linguistique générale.
A coincidência dos títulos poderia levar a crer que Meillet respondia a
Littré. De fato, porém, Littré jamais é citado em seu texto. De todo modo,
Bréal, “editor” de Littré e orientador de tese de Meillet, efetua a junção
entre os dois autores: dificilmente se poderia imaginar que Meillet tenha
podido ignorar a existência — e o título — do texto de Littré reeditado
por seu orientador. O cenário está assim montado para uma análise epis-
temológica comparada.
Comecemos então pelo texto de Littré. Vimos que Bréal mudara o
título, mas ele também suprimira o primeiro parágrafo, que dizia:

Sob este título, compreendo as malformações (la cour em lugar de la court,


épellation em lugar de épelation), as confusões (éconduire e o antigo verbo
escondire), as ab-rogações de significação, as perdas de status (por exemplo,
quando uma palavra vinculada aos usos nobres cai nos usos vulgares ou
vis), enfim, as mutações de significação.

1
Paris, Librairie Académique Didier.
2
E. Littré, Comment les mots changent de sens, com introdução e notas de Michel Bréal, Mémoires
et documents scolaires publiés par le Musée pédagogique, fasc. 45. Paris: Delagrave et Hachette, 1888.

12 A evolução das formas gramaticais


No entanto, Littré não define aí os dois termos de seu título original:
patologias e lesões. Se recorrermos a seu dicionário, encontraremos em
pathologie: “Sinal patológico, sinal que denota uma lesão”; e em lésion, três
sentidos diferentes: “Ação de lesar”, por um lado, “prejuízo, dano”, por outro,
e enfim “mudança mórbida qualquer advinda na continuidade dos órgãos”.
Littré tinha feito estudos de medicina (fora obrigado a desistir deles ao cabo
de oito anos, pouco antes de se diplomar, devido à morte do pai, que o deixou
sem recursos) e os termos que empregava, patologias (verbais) e lesões (de
algumas palavras), devem, portanto, ser tomados em seu sentido médico.
Significa que para ele a língua era um “órgão” que podia conhecer lesões
trazidas à tona por certas patologias. Por outro lado, no trecho supracitado,
ele fazia uma lista dessas lesões: malformações, confusões, ab-rogações de
significação, perdas de status, mutações de significação. E cabe sublinhar que,
fora as “perdas de status”, às quais retornaremos, suas “lesões” se referem
seja à forma de uma palavra, seja à sua mudança de sentido.
Bréal, em sua introdução, mesmo louvando o “tom meio sério, meio
humorístico” do “grande sábio” e “a escolha dos exemplos… (que) não deixa
nada a desejar”, criticava em Littré o fato de que “o linguista observa apenas
um termo por vez, e não poderia ter os olhos fixados simultaneamente
sobre o conjunto da língua”. O procedimento de Littré era efetivamente
muito particular. Tomava de seu famoso dicionário 98 palavras que lhe
pareciam “anomalias” e consagrava a cada uma delas, de accoucher [“parir”]
a voler [“voar”; “roubar”], passando por flagorner [“bajular”] ou potence
[“cadafalso”], o que ele chamava de uma “anedota”, um breve relato. O
que mais surpreende, porém, no texto de Littré não é o que Bréal lhe
censurava. Por um lado, ele oscila sem cessar entre dois juízos de valor
sobre a evolução semântica: o uso pode ser para ele “engenhoso”, “feliz”,
“cômodo” etc., mas também pode ser “nefasto”, “grosseiro”, apresentar
“decadência”, ser “patológico” etc., como mostram os seguintes excertos:
■ habiller [“vestir”]: “Neologismo bastante engenhoso”;
■ intéresser [“interessar”]: “Este neologismo é muitíssimo feliz”;
■ moyen [“meio, médio”]: “É preciso ser grato ao popular deste
tempo por ter criado um neologismo tão bom e tão cômodo”;
■ converser [“conversar”]: “Dano gratuito imposto à língua”;
■ donzelle [“jovem vaidosa e ridícula”]: “As palavras têm sua deca-
dência, como as famílias”;
■ droit [“direito”]: “Não é de fato uma brutalidade imperdoável
matar cegamente excelentes palavras para lhes dar substitutos
muito medíocres?”;
■ éconduire [“rechaçar”]: “Um caso bastante complicado de patologia
linguística”;

Antoine Meillet e as origens da sociolinguística 13


■ fille [“filha, menina”]: “O uso é por vezes bem inteligente e bem
engenhoso; mas aqui se mostrou despido de precaução e singu-
larmente grosseiro e desonesto”;
■ fripon [“intrujão”]: “Outras palavras caem de mais alto, mas não
deixa de ser uma queda”;
■ galetas [“sótão”; “casebre”]: “Que decadência! (…) É assim que
vemos famílias descerem pouco a pouco dos altos níveis e se
perderem na miséria e no esquecimento de si mesmas”;
■ geindre [“gemer”]: “O uso moderno (…) fez de geindre um termo
da linguagem vulgar em que o gemido é apresentado como algo
de ridículo e pouco sério. Ao contrário, gémir [‘gemer’] é a palavra
bonita, a que exprime a pena moral e a profunda tristeza”;
■ gent [“gente”]: “Despojaram-no de sua nobreza e fizeram dele um
plebeu ou um vilão”;
■ livrer [“entregar”]: “Prestai atenção nela e reconhecereis que as
palavras têm seu rebaixamento como os homens e as coisas”;
■ marionnette [“fantoche”]: “À degradação do sentido aqui se acres-
centou uma ofensa às decências católicas”;
■ poison [“veneno”]: “Dois gêneros de patologia afetam esta palavra:
nunca devia ter sido masculina, e nunca tampouco devia significar
uma substância venenosa”;
■ tapinois [“às escondidas”, na locução en tapinois]: “Desperdiçar o
que se tem é tão prejudicial na economia das línguas quanto na
dos lares”;
■ viande [“carne”]: “Realmente os bárbaros não são sempre aqueles
que pensamos”.
Por outro lado, Littré contrapõe sem cessar os “usos nobres” aos “usos
vulgares ou vis” (a perda de status evocada acima) e utiliza metáforas
recorrentes que dão testemunho de sua visão social: “As palavras têm
sua decadência, como as famílias”, “é assim que vemos famílias descerem
pouco a pouco dos altos níveis e se perderem na miséria”, “despojaram-no
da nobreza e fizeram dele um plebeu ou um vilão”, “desperdiçar o que
se tem é tão prejudicial na economia das línguas quanto na dos lares”3.
Littré classificou suas 98 palavras que “sofriam” de “lesões” por or-
dem alfabética, terminando com o verbo voler, escrevendo que a ordem
alfabética, “necessariamente cega”, lhe permitira contudo encerrar com
“um dos mais notáveis exemplos da distorção que hábitos viciosos podem
infligir a uma palavra até então sadia”. De que sofria então esse verbo

3
Poderíamos, mas essa é outra história, buscar por trás dessas diferentes referências à família um
eco daquilo que o forçou a interromper seus estudos de medicina.

14 A evolução das formas gramaticais


para ele? Seu diagnóstico é inapelável: “O mal que aflige voler é o da
confusão dos vocábulos e da homonímia desastrada”. Com efeito, recorda
ele, até o século XVI, esse verbo só significava uma coisa, “sustentar-se
pelas asas”, provindo do verbo latino volare, de igual sentido. Mas havia
também em latim involare, “furtar, atacar, apanhar, precipitar-se sobre”,
que deu em francês antigo embler com o mesmo sentido. Ora, voler se
utilizava igualmente para designar a ação de uma ave que agarra outra,
por exemplo, um falcão “volant” uma perdiz (“precipitando-se sobre ela
para capturá-la”). Compreende-se desse modo a ampliação do sentido de
voler, que Littré julga (é o verbo que se impõe) de um modo estranho:

Antigamente se dizia embler, derivado do latim involare, que tem o mesmo


sentido. Por infelicidade, voler, o intruso, expulsou completamente o antigo
dono da casa.

E prossegue:

Admirai a estupidez do uso, que abandona um termo excelente para confun-


dir do modo mais desajeitado o que era distinto do modo mais justo. Voler
com seu sentido novo é um grave pecado contra a clareza e a elegância.

A última frase de seu texto como que resume tudo o que escreveu até
ali: “Jamais, na espécie humana, uma espinha dorsal foi mais maltratada
pela patologia”. Littré confirma assim sua visão ao mesmo tempo médica
e muito fixista da língua, em que a mudança é assimilada a uma doença.
O artigo de Meillet, que jamais cita Littré (mas ele não podia, como
dissemos, ignorar a existência daquele texto e do título que retoma), é de
outra natureza. Vê-se claramente as diferenças dessas duas abordagens
analisando-se o tratamento do único termo comum aos dois longos artigos:
o verbo arriver [“chegar”]. Littré narra a evolução semântica do verbo, e se
observará, mais uma vez, que o trecho está repleto de termos negativos:
degradação, anomalia, deplorável…

De qualquer modo que a gente se sirva desse verbo (e os empregos são muito
diversos), todos remetem a rive [“riba”]4 como radical; pois a etimologia
é transparente. Com efeito, na língua antiga, arriver significa unicamente
conduzir à riba: “Li vens les arriva” [“O vento os fez arribar”]. Também é
empregado de forma neutra com o sentido de chegar à margem, à borda:

4
O verbo arriver se traduz normalmente por “chegar” em português. Mantivemos, porém, as formas
menos usuais riba (como “margem”) e arribar (“chegar à margem”) para deixar claro o parentesco
entre os verbos francês e português. Como se verá no artigo “Como as palavras mudam de sentido”,
o verbo chegar em português também provém de uma metáfora (a de dobrar as velas da embarcação,
ver neste livro p. 203ss.) (NT).

Antoine Meillet e as origens da sociolinguística 15


“Saint Thomas l’endemain en sa nef en entra; Deus li donna bon vent, à Sanwiz
arriva” [“São Tomé no dia seguinte em sua nave entrou; Deus lhe deu bom
vento, a Sanwiz arribou”]. Coisa singular, apesar da presença evidente de
rive neste verbo, o sentido primordial se obliterou; já não se tratou mais
de rive, e arriver tomou a significação geral de chegar a um ponto determina-
do: arriver à Paris [“chegar a Paris”]; em seguida, figuradamente: arriver aux
honneurs, à la vieillesse [“alcançar as honras”, “chegar à velhice”] (…). Enfim,
a última degradação foi quando, tomado impessoalmente, arriver exprimiu
um acontecimento qualquer: “il arriva que je le rencontrai” [“aconteceu
que eu o encontrei”]. Aqui, todo vestígio da origem etimológica se apagou;
contudo, a cadeia das significações não está interrompida. A anomalia é ter
expulsado do uso o sentido primitivo; e é deplorável não dizer como nossos
avós: Le vent les arriva [“o vento os arribou”]5.

Contrariamente ao de Littré, o artigo de Meillet é muito mais co-


nhecido e citado com frequência. Ele analisa as mudanças de sentido em
termos daquilo que hoje chamamos registros de especialidade (“língua dos
marinheiros”, “linguagem dos lavradores”) que contrapõe ao uso comum:

Arriver [“chegar”] significa etimologicamente “abordar”, é ad-ripare, e esse


sentido se manteve, por exemplo, no português arribar; mas para um ma-
rinheiro, abordar é estar no fim da viagem: se, da língua dos marinheiros,
o termo passa à língua comum, ele significa simplesmente o que significa
o francês arriver (ver neste livro, p. 227-228).

Prossegue sua demonstração a propósito do verbo arracher [“ar-


rancar”], etimologicamente “arrancar a raiz” (ex-radicare), que passa da
linguagem dos lavradores para a língua comum: “A noção de raiz desa-
parece, e sobra apenas a ideia de arrancar um objeto preso em alguma
coisa” (ver neste livro, p. 228). E mais adiante tira conclusões mais gerais,
relacionando a mudança linguística e as classes sociais:

De maneira mais geral, o caráter dos grupos especiais que falaram a lín-
gua comum em determinado momento determina o caráter das inovações
semânticas; os desenvolvimentos de sentido que se produzem nas camadas
inferiores de uma população dividida em classes distintas são diferentes dos
que se produzem nas camadas superiores (ver neste livro, p. 231).

Vê-se, portanto, as diferenças entre as duas abordagens. Littré não


pratica uma análise sociológica da mudança, mas a maneira como a tra-
ta expõe seus preconceitos sociais. Projeta sobre a evolução semântica
sua visão da sociedade, entre nobreza e plebe, julga e condena. Seu

5
Littré, op. cit., p. 9.

16 A evolução das formas gramaticais


procedimento está muito longe do dos linguistas de hoje, o que não de-
veria nos surpreender em nada: a história das ciências é uma sequência
de mudanças paradigmáticas. Mas ele goza de uma reputação lisonjeira,
apresentado por toda parte como o grande ou o primeiro lexicólogo fran-
cês, e aquele longo artigo deveria incitar os especialistas a revisitar seu
dicionário com um olhar crítico. Como sublinhava Bréal, Littré está no
campo dos fatos isolados (uma palavra e sua história), mas, além disso,
considera que há palavras “sadias” e outras “doentes”, “boas” ou “más”
evoluções, ao passo que Meillet investiga o campo do “fato social”, noção,
como se sabe, explicitamente tomada de empréstimo a Durkheim. O pri-
meiro tem uma espécie de sociologia espontânea que deixa transparecer
um desprezo de classe, enquanto o segundo busca seus instrumentos
heurísticos do lado da ciência sociológica nascente. Além disso, para
utilizar termos modernos, Meillet é descritivo, enquanto Littré, embora
lexicógrafo reconhecido, é prescritivo.
Mas é preciso ampliar nosso ponto de vista. De fato, no início do
século XX, assiste-se a um florescimento de publicações essencialmente
consagradas à gíria que lançam uma luz interessante sobre o tema. No
mesmo ano do artigo de Meillet, publica-se um texto de Raoul de la
Grasserie (1839-1914), seguido de outro em 1907 e de um texto de Arnold
Van Gennep (1873-1957), em 19086. La Grasserie avançava para além da
simples análise da gíria7. Sua vontade tipológica e teórica constituía uma
linguística alternativa à de Ferdinand de Saussure que, a crer nos redatores
do Curso de linguística geral, jamais citou nem Meillet, nem La Grasserie,
nem Van Gennep, embora seus textos estivessem disponíveis. E segundo
Konrad Koerner8, La Grasserie foi o primeiro a utilizar a fórmula sociologia
linguística num texto de 19099.
Quanto a Van Gennep, ele utiliza a noção de “línguas especiais”, que
parece ecoar a de “grupos especiais” empregada por Meillet, estudando os
vínculos entre língua e sociedade ao insistir nas relações entre dois pares,
o par língua comum/línguas especiais e o par sociedades gerais/sociedades
restritas10. Existem na sociedade, explica ele, “necessidades coletivas às

6
Littré, op. cit., pp. 259-260.
7
Raoul Guérin de la Grasserie, “La psychologie de l’argot”. Revue philosophique de la France et de
l’étranger, n. 9, Paris, F. Alcan, setembto de 1905; Raoul Guerin de la Grasserie, Étude scientifique sur
l’argot et le parler populaire, 1907; Arnold Van Gennep, “Essai d’une théorie des langues spéciales”,
Revue des Études ethnologiques et sociologiques de Paris, 1908.
8
Comentei demoradamente esses textos em Louis-Jean Calvet, “L’argot et la ‘langue des linguistes’:
des origines de l’argotologie aux silences de la linguistique”, Marges Linguistiques, n. 6, novembre 2003.
9
Konrad Koerner, “Towards a History of Modern Sociolinguistics”. American Speech, 6(1), 1991,
pp. 57-70.
10
Van Gennep, op. cit., pp. 1-11.

Antoine Meillet e as origens da sociolinguística 17


quais respondem instituições determinadas”, o que faz com “que uma
mesma palavra pertencente à língua geral não tenha o mesmo sentido para
cada um dos grupamentos restritos existentes no interior da sociedade”.
E, citando o artigo de Meillet de 1905, bem como Bréal e seu Essai de sé-
mantique, Van Gennep toma o exemplo do termo operação, que não tem o
mesmo sentido conforme seja utilizado por um cirurgião, um militar, um
banqueiro ou um comerciante de vinho, para concluir: “Existem, portanto,
no interior de cada língua comum, tantas línguas especiais quantos são os
ofícios, as profissões, as classes, em suma, sociedades restritas no interior
da sociedade geral”.
Nem Van Gennep nem La Grasserie se colocam a questão de saber se,
e como, os termos de um jargão ou de uma “língua especial” podem passar
para a língua geral ou ampliar nela o sentido de um termo já existente.
Mas ambos, tal como Meillet, insistem na correlação entre divisões sociais
e divisões linguísticas. Significa que assistimos, naquele início de século, ao
surgimento de um novo paradigma, em ruptura com Littré, por um lado,
e com o futuro Saussure do Curso, por outro, um paradigma que anuncia
a sociolinguística ou o que La Grasserie chamava “sociologia linguística”.
A ruptura entre Meillet e Littré dizia respeito à mudança; a ruptura que
operam Meillet, Van Gennep e La Grasserie diz respeito à diversidade,
ou à variação, e não estamos longe da concepção de Thomas Kuhn das
“revoluções científicas”. Kuhn não acreditava, e escreveu isso várias vezes,
que as ciências sociais fossem o que ele chamava de “ciências normais”,
porque nenhuma delas tinha encontrado um paradigma unificador. Ele se
admirava com “o número e a amplitude das divergências confessas que
opõem os especialistas das ciências sociais acerca da natureza dos métodos
e dos problemas científicos legítimos”11. Mas sua definição do paradigma
— “as descobertas científicas universalmente reconhecidas que, por algum
tempo, fornecem a uma comunidade de investigadores problemas-tipos e
soluções”12 — se aplica bastante bem ao que acabamos de descrever. Com
uma diferença importante: o que parece reunir Meillet, La Grasserie e
Van Gennep nunca foi universalmente reconhecido. E, de certo ponto de
vista, ainda vivemos essa situação. No fundo, Kuhn talvez tivesse razão:
a linguística, ou as ciências da linguagem, se caracteriza pelo “número e
amplidão das divergências confessas”, e não é, portanto, ciência normal, o
que significava para ele que simplesmente não é ciência. De todo modo, a
parte sociolinguística da linguística, ou das ciências da linguagem, decerto
se constituiu na época que acabamos de evocar, na ruptura epistemológica

11
Kuhn, Thomas, La structure des révolutions scientifiques. Paris: Flammarion, 1983 (2008), pp. 10-11.
12
Op. cit., p. 11.

18 A evolução das formas gramaticais


que separa Meillet de Littré e depois no surgimento de um novo paradigma
em torno de Meillet, La Grasserie e Van Gennep. É interessante notar que
essa ruptura se realizou em parte graças ao estudo do que habitualmente
chamamos de gíria.

£ De Ferdinand de Saussure a Antoine Meillet:


da linguística comparativa à sociolinguística
As relações entre Ferdinand de Saussure (1857-1913) e Antoine Meillet
(1866-1936) foram intermitentes. Após ter passado uma temporada em Leipzig,
de 1876 a 1880, Saussure se instalou em Paris, onde seguiu, primeiramente,
os cursos de Michel Bréal; logo foi nomeado, em outubro de 1881, maître de
conférences13 na École Pratique des Hautes Études, onde lecionará até 1891.
Meillet, então com 21 anos (Saussure tem 30), assistirá a seus cursos a partir
de 1887. Em seguida, Saussure retorna para Genebra, e as relações entre am-
bos serão a partir daí essencialmente epistolares. Assim, numa carta de 1894,
ele escreve ao ex-aluno que pensa “num livro em que, sem entusiasmo nem
paixão, explicarei por que não há um só termo empregado na linguística ao
qual eu atribua um sentido qualquer” (ver neste livro, p. 263). E também o
manterá a par, em suas raras cartas, de suas pesquisas, em particular as que
dizem respeito aos anagramas ou aos Nibelungos.
Após a morte de Saussure, Meillet escreverá que ele tinha trazido mais
ideias novas sobre “a gramática comparada das línguas indo-europeias”,
que “nunca antes nem depois do Mémoire se publicou sobre a gramática
comparada um livro tão seguro, tão novo e tão pleno” (ver neste livro, p.
251) e que a tese de Saussure sobre o sânscrito “mostra qual era a solidez
dos conhecimentos do autor e qual era em sânscrito a extensão de suas
leituras” (ver neste livro, p. 252). E conclui: “Tinha produzido o mais belo
livro de gramática comparada já escrito, semeado ideias e proposto teorias
sólidas, deixado sua marca em numerosos alunos e, contudo, não tinha
cumprido todo o seu destino” (ver neste livro, p. 256).
No entanto, ele falava ali do Mémoire sur le système primitif des
voyelles dans les langues indo-européennes ou da tese de Saussure sobre
L’emploi du génitif absolut en sanscrit, pois o Curso de linguística geral ainda
não tinha sido publicado. E Meillet escrevia acerca da tese: “Viria a ser a
última obra publicada por ele” (ver neste livro, p. 252). E sua reação será
completamente outra quando os editores do Curso publicarem o trabalho.
Após ter observado que Saussure decerto jamais teria redigido semelhante

13
No sistema universitário francês, o maître de conférences é encarregado de cursos numa escola
superior ou universidade, função inferior à de um professor efetivo (NT).

Antoine Meillet e as origens da sociolinguística 19


livro, Meillet explica que ali sem dúvida se encontram passagens definitivas
(por exemplo, sobre a teoria da sílaba), mas que, no mais das vezes, apenas
se esboçam algumas poucas pistas. E passa então às críticas. Apoiando-se
na última frase do Curso (“a linguística tem por único e verdadeiro objeto
a língua contemplada em si mesma e por si mesma”) — que hoje sabemos
não ser de Saussure —, Meillet anota o desinteresse pela fala [parole],
embora seja “apenas estudando minuciosamente a fala que o foneticista
pode conseguir descrever a língua” (ver neste livro, p. 259). Em seguida,
passa à mudança, àqueles “fatos históricos que só adquirem algum sentido
quando se investiga as condições que determinaram essas mudanças” (ver
neste livro, p. 259), de modo que “ao separar a mudança linguística das
condições externas de que ela depende, F. de Saussure a priva de realida-
de; ele a reduz a uma abstração, que é necessariamente inexplicável” (ver
neste livro, p. 281). Pois, para Meillet, “se se quiser descrever uma língua
atualmente falada, só é possível fazê-lo levando em conta as diferenças
que resultam da diversidade das condições sociais e de toda a estrutura
da sociedade considerada” (ver neste livro, p. 260).
O desacordo recai sobre dois aspectos: primeiro, a importância da
fala na descrição da língua e, segundo, a análise da mudança, isto é, as
relações entre diacronia e sincronia. Vê-se que, se às vezes se tem apre-
sentado Meillet como discípulo de Saussure, trata-se de uma imprecisão
cronológica: para Meillet existe o Saussure do Mémoire, da tese e dos
cursos dados em Paris, ao qual ele adere, e o Saussure do Curso, que ele
em parte refuta.
Há, no entanto, algumas passagens do Curso que poderiam ter cha-
mado a atenção de Meillet. Os editores, de fato, fazem Saussure dizer, no
início do Curso, que a língua “é a parte social da linguagem”14 ou que
“a língua é uma instituição social”15. Mas são apenas afirmações gerais,
sem contrapartida metodológica ou heurística, afirmações que logo serão
retomadas por muitos linguistas, em geral no início de seus livros, para
em seguida passarem a outra coisa, justamente à língua “em si mesma e
por si mesma”. Para Meillet, ao contrário, o fato social não é uma noção
vaga, mas um conceito ao qual ele dá uma definição precisa, sublinhando
que a deve a Durkheim (aliás, ele colaborava regularmente com a revista
L’Année sociologique, dirigida por Durkheim). Em seu artigo “Como as
palavras mudam de sentido”, por exemplo:

A linguagem entra com exatidão na definição proposta por Durkheim; uma


língua existe independentemente de cada um dos indivíduos que a falam e,

14
Ferdinand de Saussure, Cours de linguistique générale. Paris, Payot, 1931, p. 31.
15
Id., ibid., p. 33.

20 A evolução das formas gramaticais


embora não tenha nenhuma realidade fora da soma desses indivíduos, ela é
contudo, por sua generalidade, exterior a cada um deles (p. 204).

Ou também:

Os traços de exterioridade ao indivíduo e de coerção pelas quais Durkheim


define o fato social aparecem portanto na linguagem como evidência má-
xima (p. 204).

Para ele, a língua talvez seja “um sistema em que tudo se sustenta”,
mas é, ao mesmo tempo e sobretudo, “um fato social”, e tentará mostrá-
-lo em suas análises dos nomes do homem, do vinho, do azeite; quando
descreve a expansão das línguas, por exemplo a língua latina; ou ainda
quando escreve:

Os limites das diferentes línguas tendem a coincidir com os dos grupos


sociais chamados nações; a ausência de unidade de língua é o sinal de
um Estado recente, como a Bélgica, ou artificialmente constituído, como a
Áustria (p. 204).

A afirmação de que a língua é um fato social devia, para ele, estar


no centro da teoria linguística:

Do fato de ser a linguagem uma instituição social resulta ser a linguística


uma ciência social, e o único elemento variável ao qual se pode recorrer
para dar conta da mudança linguística é a mudança social (p. 51).

Em outros termos, a língua muda com a sociedade e seria inútil fa-


lar de sociolinguística, já que a linguística é, por seu objeto mesmo, uma
ciência social. Há nessas linhas um posicionamento teórico que William
Labov retomará mais tarde. Desde o nascimento da linguística moderna,
aparecem duas tendências: uma que consiste em acentuar essencialmente
a forma da língua e outra que insiste em suas funções sociais. Vimos, entre
Littré e Meillet, uma ruptura metodológica atinente à análise da mudança
linguística. Mas, para além dessa ruptura, naqueles primeiros anos do
século XX, aparecem na Europa, singularmente na Europa francófona,
dois paradigmas diferentes: um que, a partir de Saussure, conduzirá ao
estruturalismo, e outro que, a partir dos autores que evocamos, conduzirá
à abordagem sociológica dos fatos de língua.
Contudo, a situação hoje é muito diferente da que Meillet podia
imaginar. A linguística como “ciência social” não se constituiu, ela sofre
de uma espécie de babelismo, de divisões bizantinas entre sociolinguística,
psicolinguística, antropologia linguística etc., sendo o conjunto abrigado

Antoine Meillet e as origens da sociolinguística 21


no balaio de gatos chamado “ciências da linguagem”. E entre os alunos
de Meillet que citei (Cohen, Dumézil, Tesnière, Vendryes, Sauvageot,
Martinet etc.), somente Marcel Cohen realmente seguiu a direção social
impulsionada pelo mestre.
O título deste prefácio, “Antoine Meillet e as origens da sociolinguísti-
ca”, poderia ser visto então como uma confissão de fracasso, já que Meillet
não queria criar, ao lado da linguística, outra ciência, a sociolinguística,
mas queria que a linguística assumisse seu estatuto de ciência social. O
que realmente não é o caso…

22 A evolução das formas gramaticais


INTRODUÇÃO
Carlos Alberto Faraco
ANTOINE MEILLET é o mais influente linguista francês das primeiras décadas do
século XX. Foi aluno de Ferdinand de Saussure, a quem dedicava grande admi-
ração, mas criticou severamente as teses atribuídas ao antigo mestre estam-
padas no Curso de linguística geral, considerado — não sem exagero — marco
inicial da linguística moderna ou, mais restritamente, da corrente estruturalis-
ta dessa linguística. Meillet não abraçava a ideia de uma ciência da linguagem

Esta coletânea
dedicada à “língua em sireúne
uma escola sociológica da
Meillet (1866-1936). Marcos
e por os
geral
principais
si mesma”,
escritos para
linguística:
Bagno a organizou,
textos
sendo
pelo ele,
linguista
sobre linguística
considerado o iniciador de
francês Antoine
era imprescindível
selecionando, traduzindo
conhecer
“as condições de existência da linguagem”, isto é, seu ambiente social e cul-
etural.
comentando cada se
Seu trabalho umantecipou
deles. em várias décadas às disciplinas que viriam a
se firmar na segunda metade docontribuição
Temos aqui, sem dúvida, uma importante paraaos
século XX, especialmente estudos
sociolinguística,
linguísticos
em sua várias novertentes,
Brasil. Aforaassima tradução
como os eestudosedição dedicados
de “Como aos as palavras
fenômenos de
mudam de sentido”, organizadas por Benthien & Palmeira
gramaticalização (termo cunhado pelo próprio Meillet), que se desenvolveriam (2016), não
dispúnhamos
com força a partir de outros trabalhos
dos anos 1980.de Meillet em
À medida queportuguês.
as limitaçõesComteóricas
esta co-e meto-
letânea, podemos, agora, conhecer melhor seu pensamento,
dológicas do estruturalismo foram sendo apontadas, a atualidade do pensa- projetando-o
na história
mento da linguística
de Meillet passoumoderna e, ao mesmoNum
a ser reconhecida. tempo, podemos intelectual
movimento dialogar que
criticamente com sua heurística. Para esse diálogo,
prenunciava a interdisciplinaridade característica deste nosso século,Marcos Bagno já nos Meillet
oferece, em seus comentários,
buscou associar a linguística aalgumas
outras indicações bastante pertinentes.
áreas de conhecimento, como a antro-
pologia, a psicologia, a história e sobretudo a sociologia, tendo (1887-
Meillet, diferentemente, por exemplo, de Leonard Bloomfield incorporado
-1949),
às suasseu contemporâneo
reflexões estadunidense,
sobre a língua os postulados nunca escreveu
teóricos um grande
de Émile Durkheim, o
manual
fundador deda
linguística
sociologiageral. Contudo,
moderna, comJoseph Vendryès
quem Meillet (1875-1960),
colaborou um
estreitamente.
de
Esteseus
livroalunos, disse, no
é a primeira necrológio
antologia que publicou
publicada em 1937,da
em português quevasta
Meillet
produção
tinha, nos
desse autor. últimos anos de vida, planos para tanto. O tempo, contudo, não
lhe foi tradução
Seleção, suficiente para
e notas: viabilizar
Marcos Bagno | tal projeto.
Prefácio: Louis-Jean caLvet | Introdução: carLos aLBerto Faraco
Desse modo, a uma apresentação panorâmica da linguística geral, a
preferência de Meillet foi publicar análises de temas específicos no formato
de artigos para diversas revistas acadêmicas. Embora ele tenha dito, no
prefácio à primeira reunião desses artigos (no livro Linguistique historique
et linguistique générale, vindo a público em 1921), que tais trabalhos não

Introdução 23

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