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Gigantes e Pigmeus
Rogério Guarapiran – 12/2013, 02/2017 e 02/2020

Personagens:
V – violinista e compositor, porta um estojo de violino.
C – cozinheira e hospedeira, aparência de velha senhora, cozinha e serve a mesa.

Cenário: fragmento de uma cozinha de hospedaria, pobre e suja, madeira consumida, e o


quarto da criança violinista.

Tempo: como figuras do século XVII europeu, o músico e a cozinheira estão


caracterizados anacronicamente.

Ação: As personagens estão em cena o tempo todo. Peça musicada em três


cenas/movimentos. Música ao fundo de época ou composição original permeando todo
conjunto

Prólogo:
“As minhas interrogações servem apenas de
aguilhão para mim mesmo. Só quero ser estimulado
pelo silêncio que se ergue à minha volta como
resposta derradeira.” (Franz Kafka. Investigações de
um cão)

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Cena 0 – Ouvimos uma doce melodia sendo tocada por um violino. Sobe a luz e vemos
uma Criança de pé segurando um o violino e seu arco, está com uma expressão incógnita,
neutra. Ele está em seu quarto, tem atrás de si uma cadeira e vemos também uma mesinha
com um globo terrestre. Lentamente ele aconchega o violino no ombro e sonha com prazer
que está tocando. Após um tempo, em outro plano entra o Violinista, está vestido de
fraque, parece observar a Criança. A música abaixa.

V – Segure-o sem apertar, senão ele vai querer fugir de você. Deslize a mão sem pressão,
bem macio, equilibrado e confortável. (musica sobe) Isso! Bravo!

fecha os olhos e ouve o restante da música, A música cessa, a Criança, volta ao estado
inicial. Cozinheira fala em off como se estivesse se aproximando. Violinista continua
viajando como se continuasse ouvindo a música

C –(em off) A comida já está pronta, venha!


V –(suave) Recomece... Da capo!
C –(em off) Já vestiu sua roupa?
V – No compasso 26, é si bemol...
C –(em off) Não se demore!
V – Ad Libtum... e você flutua... é uma ótima a sensação...

Cozinheira entra, é uma mulher de aspecto mais jovem do que vai se apresentar
posteriormente. A Criança corre para abraçá-la.

C – Meu querido! Não larga esse instrumento. Sente o cheiro? É a sopa que você adora. Vai
se aprontar.

Violinista acorda do transe. A criança ao sair, ela deixa o violino na mesa e gira o globo
terrestre. Luz abaixa. Som de afinação de orquestra. Silêncio e são ouvidas as primeiras
notas da composição.

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Cena 1 – Cozinha da hospedaria. Vemos uma gaiola com um pedaço de carne dentro. C
adentra vestida com uma capa que a encobre. Seu andar é de uma pessoa velha, ela traz
sacolas de alimentos vegetais para preparar uma sopa. Após algum tempo, V entra
observando com cuidado para ver se não tem outras pessoas além de C. Ele está sem a
casaca do fraque e com o estojo do violino.

V – A senhora não me viu por aqui. Não sabe para onde eu fui e nunca estive hospedado
nessa espelunca. Ai, o cheiro da umidade desse lugar... o bolor com os alimentos
apodrecidos, tudo isso me envergonha, me apequena. (pausa)
C – O senhor não conseguiu dormir?
V – Que horas são?
C – Muito tarde.
V – Estou compondo minha sinfonia.
C – Sabe que não pode incomodar os hóspedes.
V – Eu componho em absoluto silêncio...
C – Siga as regras e tudo vai fluir... (derruba uma panela)
V – Inferno! Você fez eu perder uma nota...
C – Onde? Eu acho para o senhor...
V – Aqui dentro! (aponta a cabeça)
C – Aí não posso entrar...
V – Estragou a harmonia que eu estava perseguindo...
C – É sinal de que está frágil... pode me passar aquele ramalhete?
V – Que desprazer estar aqui... (ajuda-a)
C – Como consegue compor em silêncio?
V – Depois de conquistado a técnica, você só precisa pensar a nota como uma cor, a
harmonia como uma textura e baixá-los ao papel... (ele continua compondo)
C – O senhor com certeza é o melhor entre os músicos dessa orquestra, não?
V – Talvez haja melhores do que eu, mas eu não conheço.
C – Que modéstia! (pausa) Realmente os outros violinos são tão medíocres...
V –(sussurrando e anotando) Suspensão e mudança de compasso... quem a senhora está
chamando de medíocre?
C – O senhor, quer dizer... ontem ouvi o senhor dizer que ninguém estava a sua altura...

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V – Anda escutando atrás das portas?


C – A porta estava entre aberta... o senhor discursava muito bem sobre o estado da arte
atual... eu também já pensei sobre isso...
V – (tempo, rude) O que a senhora entende de arte?
C – Não entendo nada. Mas acho que o senhor está certo, não deve desperdiçar seu talento
com essa orquestra.
V – Não estou interessado na tua opinião.
C – Tudo bem, não está mais aqui quem falou. (pausa)
V – Está sim, e isso me incomoda profundamente.
C – O senhor ainda tem o seu quarto até amanhecer. O que deseja a mais?
V – Quero trocar de quarto! Tudo é insuportavelmente pequeno, acachapante. Ao menos
minha cama, meus pés ficam para fora, isso faz com que eu sonhe sempre a mesma coisa,
que eu tropeço e caio sem fim. É desagradável.
C – Impossível, essas são as nossas instalações. Não disponho de outra cama. (ele tenta
compor e não consegue).
V –Droga!(bate na mesa)
C –(assustada) O que foi isso? Vai acordar os outros...
V – Manchou meu papel, marcas de gordura pintaram notas aleatórias na pauta.
C – Aceite o imprevisível como um presente e não um castigo.
V – Isso gera uma combinação de notas que perturbe tanto quanto as condições desse lugar!
Tudo é sujo e pobre aqui. Será que não se preocupa em ao menos querer manter as
aparência e querer agradar...
C –(irônica) Pode me culpar por eu ser uma só e cuidar de tudo. (tira a capa que a
encobria)
V – Não te culpo. Apesar de saber que seu maltrato com as coisas é intencional para que os
pigmeus se sintam em casa.
C – A casa é velha, eu sou velha, as ideias são velhas e inadequadas...
V – Eles gostam de viver na imundície. Isso aqui é um palácio para eles...
C – Precisava ver eles jantando, para cada colher que acertavam na boca, desperdiçavam 3
que escorria pela mesa.
V – Eu me recuso, não sento na mesa com eles, para comer isso... alimentos com formas
degradantes...

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C – O senhor está sendo inconveniente, reclamando da aparência e da forma das coisas que
te desagradam... esses papéis não vão te alimentar.
V –(aperta os papéis no peito) Aqui está minha salvação, meu passaporte. Essa composição
pronta é o caminho para a glória entre os gigantes. Eu tenho que terminar antes que essa
orquestra de pigmeus vá se apresentar seu fiasco aos gigantes.
C – A sua orquestra vai ser um fiasco? Mas você é o primeiro violino, os gigantes querem
te ouvir e não tente mostrar-lhes papéis, eles só querem ouvir.
V – Eles vão entender a minha alma que vai estar derrubada nesses papéis, o som vai zunir
dentro deles, vão saborear o sabor da nota como um refluxo que brota na garganta...
C – Deve estar alucinando de fome... Aqui você pode saborear o mesmo sabor que eles
experimentam. Eu preparo essa sopa de beterraba para os gigantes no contraturno da
refeição dos pigmeus.
V – Tudo o que sinto é o mesmo mau cheiro do jantar. (vai ver de perto)
C – Pode apreciar o cheiro das beterrabas....
V – São sobras?
C – É o que temos. Não é uma benção?
V – Benção? Se eles comem isso, a nossa comida é a prova da condenação. (atordoado) Eu
não deveria ter vindo a essa cozinha pra ver isso. Sinto nojo!
C – Sente nojo de mim? De mim?
V – Tenho nojo de estar na minha condição. (V volta a compor) Eu nem sai mais que sou...
Estou preso aqui no meio do caminho com essa podridão
C –(orgulhosa) Eu alimento gerações de gigantes e dos nossos pigmeus mais brilhantes
com essa comida. Poderia bastar para alimentar sua ambição.
V – Não, você quer me enganar, como os pigmeus que comem qualquer papa nojenta. Em
breve eu vou me sentar na mesa com os gigantes, comer a comida deles que não é essa, eu
estudei, vi que eles têm pratos maravilhosos.
C – Você quer a aparência da comida deles, eu não sei o que eles colocam de enfeite por
cima, mas a substância sou eu quem preparo... Mas se você chegar a ser um deles, vai
esquecer a verdade, e vai contar o que lhe for conveniente.
V – Se o que fala for verdade e eu estou vendo, como é possível eu me esquecer da
verdade?

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C – Agora vejo que está interessado em minhas receitas.... Sente-se! A verdade é um ovo
de pata enterrado durante meses... quando uma verdade incômoda é enterrada e você não
sabe onde deixou, ela pode ser comido como uma iguaria por quem achar... entendeu?
V –(pensativo) É isso, eu preciso enterrar essa composição para que eles descubram...
C – O senhor precisa de mais alguma coisa?
V –(radiante com uma ideia) Sim! Eu quero que você enterre minha composição para que
no amanhecer... eu tenho certeza, os músicos da orquestra irão perguntar por mim e então
você aponta onde você enterrou aqui nesse refeitório.
C – (rindo) Eles vão cavar a minha cozinha?... (séria) Não!
V – Tudo pela verdade desenterrada!
C –(tempo) Com uma mentira vai fazer eles desenterrarem a verdade? Eu estou começando
a entender o senhor, quer que eles carreguem a sua história de sofrimento e penúria
enquanto compunha...
V – Se eles pensarem que eu morri por isso, o que não deixa de ser verdade, pois eu morro
em cada nota, eles vão entender meu sacrifício e vão tocá-la com fervor para os gigantes.
C – E o senhor vai estar onde? Não irá tocar sua obra?
V –(sem ouvir) E quando os gigantes reconhecerem a genialidade, eu estarei na mesa como
com eles...
C – Com essa aparência rude? Eles não aceitam quem franzi a testa tanto assim.
V – Eu franzo a testa com constância?
C – Mas é claro que sim!
V – Isso é irrisório, eu não percebo...
C – Você faz assim, oh! (faz um careta).
V –(indignado) isso é um absurdo. Como isso pode me prejudicar?
C – Isso não te dá sustentação para viver entre os gigantes, um semblante conturbado...
V – (reflexivo) Será que isso é verdade? Eu me distraí a tal ponto que minha expressão não
representa a placidez da minha arte?
C – Eu já tenho uma certa idade, essa expressão me convém. Agora o senhor, cavoucando o
rosto dessa maneira, para parecer mais velho. Já se olhou no espelho? Não lhe cai bem!
Francamente o senhor mais parece um indigente mal cuidado e sem ter onde cair morto.
V – (irritado) Chega, eu já entendi! (pausa) O que lhe convém é a sujeira, o seu mau
cheiro! A imundice! (pausa).

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C – Tsc, tsc, tsc... Está agindo como um pigmeu rude.


V –(recobrando a altivez) Eu não sou rude... são velhos costumes. Posso te afirmar que vou
abandoná-los.
C – Sim, todos juram que vão mudar um dia, mas é tão difícil, não é? Talvez seja a
vergonha que os impeça.
V –(em transe) O que os gigantes esperam de nós?
C – Que o sirvamos!
V – Qual o propósito?
C – Se eu soubesse eu não estaria aqui.
V – A senhora vai levar essa sopa para eles, não vai? Poderia me levar junto para eu pedir
mais tempo para minha composição?
C – Se não me engano o senhor me fez o mesmo pedido ontem.
V–
C – Os músicos da orquestra se alimentaram, beberam e se recolheram para descansar. Pois
amanhã se apresentam no mundo dos gigantes.
V – Eles não falavam da ausência do seu primeiro violinista?
C – Não, estavam alegres como uma fanfarra de beberrões. Festejaram cantando canções
folclóricas. E acabaram com meu estoque de bebidas.
V – (ardente) Está claro que eu sou o melhor deles! Eles não podem me tolerar, odeiam os
aplausos e as flores que eu recebo a cada concerto! Eu nego o convite de partir com eles
para nos apresentarmos aos gigantes.
C – Eles vão te odiar, planejar sua morte.
V – Não temo a more, mas ficar esquecido. É exatamente o anonimato, o abandono que
busco aqui para minha composição nascer. (tempo, volta a compor, animado)
C – Durante o dia é tão ocupado, concentrado, à noite também não saí para passear. Um
senhor tão importante. (Pausa) Ninguém sente sua falta entre os pigmeus?
V – Eles nunca entenderão. Esse sacrifício é só meu!
C – E como vai se manter? Sacrifícios não pagam a estadia.
V – Não te interessa.
C – É claro que me interessa.
V – Mal agradecida, aqui está! (pausa) Agora me sirva!
C – Ainda não está na hora.

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V – Uma bebida?
C – Esgotada!
V – A prática desse lugar é a teoria.
C – Como foi o trabalho dessa noite, terminou?
V – Desde quando se interessa?
C – Não parece satisfeito.
V – Não me chateie. A diária já está paga!
C – Eu me preocupo, de verdade.
V – Então me sirva. (Pausa)
C – Perguntei para te distrair.
V – Se eu me distraio comendo já é o bastante.
C – Só quero ajudar. Porque que não repousa teu estojo no chão?
V – Não, aqui você não encosta.
C – Por que não descansa?
V – Ainda não está na hora.
C – Como sabe?
V – Descansar nunca mais, eu tenho que terminar minha composição.
C – Seu trabalho de hoje está feito.
V – Longe disso. O que eu fiz foi me enfiar na lama, analisando recortes de outros
compositores.
C –(com leve graça) Ora, vejo que o senhor não passa de um ladrão de ideias já prontas.
V – Mulher odiosa! Refiro-me ao meu processo de criação. Agora preciso me alimentar!
Me sirva!
C – Não me apresse. O senhor não devia analisar, devia aprender a cheirar as partituras.
V – Com o seu cheiro de beterraba podre como posso criar?
C – Tuas palavras arranham meu coração.
V – Não abandone a cozinha, teu trabalho me consola. (tempo) Pode repetir tua última
frase?
C – Não me lembro.
(C e V tentam lembrar da fala dita anteriormente.)
C – Não era minha intenção.
V – A melodia, com a mesma melodia!

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C – Não me lembro, meu senhor.


V – Foi sublime e você nem sequer se lembra, como é possível? Ó, os pigmeus estão
condenados num presente eterno!
C – O que tem de especial aqui, meu senhor? Deve ser o cheiro da salvia?
V –(esboçando uma melodia) Não posso esquecer, começa com um quarto de tom, no
tempo seguinte a pausa, a nota reverbera caindo num abismo imenso, enquanto outras notas
sobem pedindo socorro.
C – O sabor dela está sobressaindo? O senhor não gosta? É uma fragrância tão difícil
encontrar fresca por aqui, esse cheiro me enlouquece. Quer provar o tempero?
V –(desperto de um sonho) Ah! Porque veio me incomodar? Estava tão feliz! O que você
quer de mim?
C – Que prove meu tempero.
V – Tem um gosto nauseante, reconhecível. (centrado) Agora me sirva!
C – Que bom que gostou. Ainda não está pronto.
V – Você me atiça as entranhas. Preciso voltar ao trabalho e agora sou um escravo do meu
estômago. Que desordem interna!
C – A desordem satisfaz muito aos homens apaixonados. Acho que o senhor se recusa a
partir porque deve ter alguma mulher, alguma promessa amarrando teus tendões entre os
pigmeus. (ela vai retirar da gaiola uma ave morta, ou um pedaço de carne bem
envelhecido)
V – Mulher nenhuma, lembrança nenhuma me prende aqui, somente minha vontade...
(percebendo nas mãos dela, receoso) Onde você pegou esse?
C – Esse? Foi um dos pigmeus que tentaram se instalar aqui sem ser chamado.
V – Foi alvejado?
C – Brutalmente. Apanhei ainda fresco.
V – O que ele queria? Alguém vai sentir falta dele?
C – Era um curioso. Creio que não. Temos que separar o curioso do interessado.
V – Sim, sou um interessado! E os gigantes se interessarão por mim.
C – Antes de ser abatido ele disse que te conhecia, era seu conterrâneo.
V – Eu não tenho conterrâneo.
C – Todo mundo vem de algum lugar.
V – Eu venho da onde eu quero estar.

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C – Banhado em sangue queria saber se você ia voltar.


V – Para os pigmeus? Que piada!
C – Disse que entre eles você era um verdadeiro artista, e com os gigantes você não vai ter
valor.
V – Um lugar sem progresso, onde são todos medíocres, não volto!
C – Na última estocada ele gritou: traidor!
V – Sim, sim! E teve o que merecia, acabou como um covarde, ah desgraçados pigmeus!
C – A autofagia está inscrita na nossa raça, até hoje comemos as unhas, os cabelos, a pele...
(V deixa cair o estojo do violino, dentro só havia papéis, ele fica constrangido com a
revelação)
C – Onde está seu instrumento?
V – Eu vendi.
C – Como pode ter feito isso?
V – Não se aproxime! Você pode franzir uma folha. (tempo)
C – O senhor encheu essa casa de alegria com o som dele.
V – Foi preciso.
C – Foram dias de plenitude. Não me incomodava a sua arrogância, o seu desprezo.
V – E no entanto você me cobra.
C – Como a qualquer um.
V – Eu não sou qualquer um!
C – Não, não é. É o mais raivoso entre eles. Não me olhe assim. O músculo da mandíbula
contraído, pronto para atacar.
V – E eu te odeio, mulher orgulhosa, diabo doméstico! Aqui eu me sinto deslocado,
procurando um espaço, o braço da cadeira fora do ângulo, tudo fica desconfortável.
C – Não há lugar para você. É imperdoável, depois da confiança que te demos. (tempo)
V – Falta tão pouco para entregar essa composição.
C – Para quando está marcado?
V – Ao amanhecer.
C – Foram os gigantes que te pediram?
V –(recolhendo) Não, eu inventei essa necessidade, ninguém me pediu.
C – Estique suas mãos. (palmatória).

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(O violinista decide abandonar a composição da música. A cozinheira que torcia para que
a composição fosse feita, irrita-se).

Cena 2
Sons de instrumentos de orquestra afinando, depois começam a tocar. C mede o corpo de
V e depois prepara a cena da morte de sobre a bancada. A música é tocada, porém os
violinos não se entendem. A cozinheira se despede do corpo do violinista criativo. V entra.

C – (Amargurada) A orquestra não consegue tocar sem o primeiro violinista. Vai ser um
fracasso!
V – (Aliviado) O fracasso deles não me diz respeito.
C – O senhor violinista vai mesmo abandonar o navio?
V – Porque me toma como violinista?
C – Oh! Então me diga quem é o senhor que ocupa o corpo do violinista?
V – Você é engraçada. Eu sou o que está aqui agora, digamos que eu testemunhei a morte
do violinista.
C – Miserável! Enterrou contigo todo um propósito.
V – Ele vendeu seu instrumento para um velho antiquario de olhos clínicos. Na minha
opinião, fez um ótimo negócio.
C – O instrumento era nobre. Porque não o impediu?
V – (Com ar ambicioso) Eu o encorajei a se desfazer daquela sua condição para que eu
pudesse, enfim, me tornar um gingante.
C – Como pode ofender o instrumento que te trouxe até aqui?
V – O violino para ele já era um pequeno entulho de madeira. O velho antiquário ficou
maravilhado com o instrumento e pagou um belo sustimento para que eu pudesse existir.
C – O senhor acha que vai triunfar sobre a desgraça do violinista? Os gigantes o esperam e
também a sua orquestra.
V – Mesmo que eu reconheça que ousei habitar cada nota, que elas tenham ressoado em
mim, que eu tenha os carregado nos ombros, não haverão de reconhecer a minha
genialidade.
C – Faltava um dia para o violinista se apresentar aos gigantes e o senhor foi impiedoso
com ele, traindo a vossa orquestra.

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V – Ele entrou no antiquário como verdadeiro pigmeu e quem saiu de lá fui eu, pronto para
que em breve possa me juntar ao mundo dos gingantes.
C – Bem, mas aparentemente a orquestra também o traiu. Sabe que alguns músicos vieram
constatar sua morte? Lembraram com desdém os ataques envaidecidos do senhor, violinista
insuportável, principalmente durante os ensaios. Eu dizia: meus senhores, respeitem a
lembrança de quem descobriu a falta de sentido em tudo isso.
V – Ele se negou a participar fracasso da orquestra. Ele finalmente enxergou o ridículo e a
sua total incapacidade de chegar ao mundo dos gigantes daquela maneira.
C – Porque sua soberba sorri ao assistir a destruição de um artista gigante pela sua própria
essência.
V – Eu reuni o que se encontrava disperso em todas as obras que executei, eu executei!
Separei escalas em classes, espécies, seres, indivíduos em harmoniosa articulação.
Enquanto aqueles pigmeus buscam a morte, a precariedade em cada trago. Eu trago comigo
a eternidade.
C – Eu tenho que confessar que sempre me deu uma alegria pensar que o senhor estava fora
daquele mundo diminuto. Por isso aceitei seus ultrajantes insultos.
V – Você não se incomoda de passar a vida inteira servindo?
C – Eu não costumo pensar na minha condição. E se penso, eu não reajo.
O violinista apressa-se em guardar os papéis no estojo do violino.
V – Agora eu preciso partir. O sol ainda não se levantou.
C – Sem a refeição não posso deixar.
V – Minha próxima refeição será na mesa dos gigantes.
C – Sentar na mesa dos gigantes não quer dizer que os sapatos deles vão caber no senhor.
V – Eu poderei olhar de igual para igual. Tenho o passaporte aqui nesse estojo, darei a eles
a minha composição.
C – Se o senhor não foi a fundo, e não os fizer pensar além de tudo que foi apresentado
pelos pigmeus até hoje, não vai ter um lugar entre eles.
V – Tenho aqui uma obra que trabalha o invertimento das razões, o pensamento negado a
qualquer pigmeu. Você não poderá nunca entender.
C - Ah, como isso pode comover os gigantes, como cócega, eles sorriem admirados e dizem
entre eles, como pode homenzinhos chafurdados na mais humilhante sujeira fazerem
gracejos tão belos como esses.

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V – Mulher odiosa, gracejos é o que seu amado violinista fazia no meio dessa orquestra.
Aquilo sim eram gracejos. Agora me deixa partir antes que você empurre essa comida
nojenta pela minha goela para me fartar de indisposição.
C – Não se vá sem se alimentar. O ronco do seu estômago não mente.
V – Acho estranha sua gentileza, mas a fome me engaiola. Agora me sirva!
C – Sim, falta tão pouco para te servir. Porque é preciso cozinhar bem os alimentos, eles
estavam incrustados no lixo dos gigantes.
V – Esses pigmeus desprezíveis são como ratos sem nenhuma cultura além da própria
cultura da sobrevivência.
C – Quantos eu já vi passar por aqui e não voltarem mais. Antes de partirem, dentro dos
quartos ouve-se uma sinfonia desajustada. Então no meio da noite, o medo expulsa esses
senhores dos seus quartos e vagam por um bom tempo, exilados de si mesmos, até
descobrirem o cheiro da sopa de beterrabas.
V – Esse é o mau cheiro do fracasso. Os gigantes vão sentir o cheiro da falta de confiança
na minha composição. Eu não vou comer essa porcaria!
C – Sem o seu instrumento, já não é mais possível ser admitido pela velha orquestra.
(Serve um prato)
V – (na primeira colherada) Isso cheira podre! Como posso comer e no entanto eu como?
C – Não é gostoso? Não tem do que reclamar, o que parece sobra se transforma numa
saborosa sopa de beterraba.
V – Porque não havia nada melhor reservado para mim? (come vorazmente)
C – Como é bom ouvir a contrariedade se expressar quando o senhor come como um
abutre.
V – Agora eu tenho a sensação de que conseguiria passar o resto de uma vida aqui.
C – Isso, coma mais!
V – Pela primeira vez estou satisfeito com minha criação. As imperfeições das notas, já não
me incomodam mais. (Pausa) Viver uma obra inacabada é como viver o amor sem nunca
estar pronto para ele. (Se entreolham)
C – Acha que pode conquistar a eternidade, tornando-se um gigante?
V – De repente eu passei a me imaginar como uma planta com os pés na terra. Deve ser o
efeito da beterraba? (eles riem) Você deve ser feliz, nesse lugar, cuidando dos seus
pigmeus, mesmo que com suas sobras e esses punhados de ervas.

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M – Meus hospedes sentem muita fome. Eu apenas os ajudo a vencer a dor de nutrirem-se
de outras dores.
(Violinista acaba de tomar a sopa)
V – O que estou fazendo aqui? O que eu tinha para fazer depois dessa sopa?
C – Não seja tolo, não há respostas paras tuas perguntas. O senhor tão certo de si, seria
esmagado pelos gigantes.
V – Eu tenho um concerto para realizar. Onde está minha orquestra?
C – (Sorri) Perfeito! Vamos, adiante para sua sepultura. Por favor, um pouco de dignidade
ao se curvar para seu fim.
V – O meu violino, onde está?! O que são esses papéis? Eu não posso ser responsável pelos
meus erros.
C – O senhor flertou com a criação, mergulhou tão fundo e agora quer submergir? (Pausa)
Acha mesmo que a solução estava em seu violino?
V – Como eu amaldiçoo esta ideia que me fez perder minha orquestra. Porque ninguém me
ajudou? Porque ninguém me fez enxergar que meu sonho era completamente impossível?
C – O senhor vai morrer! Sonhou um dia de gloria que não viveu. Quando pensou que foi
magnífico, não te restou nada.
V – Não me deixa sozinho, o meu velho violino se foi por conta desses papéis que quanto
mais me aproximaram de um fim glorioso, mais me afastaram de mim.

Cena 3 – 3º movimento: Presto Cantabile. Clima de promessa e solidão.


V fica prestes a destruir os manuscritos. C tenta tomar posse dos manuscritos. Ela oferece
seu posto e Eles dançam.

V – Quero me livrar desses sonhos, não sou cabide de ideias prematuras, não posso
conviver com o desconhecido me espreitando. Onde está o fogo desse lugar? Eu quero uma
janela para defenestrar esses papéis.
C – O fogo está extinto! E se há janela aqui, não há vento, e não se espalhariam.
V – O ritmo dessa orquestra está fincando uma faca no meu coração.
C – É o triunfo deles, o movimento final. Os gigantes os consagraram e o senhor não estava
lá. Mas não se preocupe, eu vou sempre contar a historia de um pequeno homem que viveu
aqui por umas noites e se portou como um grande gigante. (recolhendo os papéis)

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V – Não toque nisso! Ainda posso conseguir o perdão da orquestra. Minha arrogância foi
uma febre, um delírio. Eles podem reconstruir meu sonho executando esses manuscritos e
minha ambição será sanada.
C – Não há intérprete para uma obra lunática, O senhor está sentenciado. Os gigantes não
lhe pediram nada e o senhor concebeu o que eles não necessitam. isso não se faz. Vamos,
me entregue essas folhas. Eu acenderei aquele fogo novamente.
V – Como você sabe o que eles necessitam? Você agora quer destruir uma coisa que você
mesmo me animou?
C – Foi um conselho imbecil. Eu queria desposar o violinista. Estava apaixonado pela
música que ele soava. É ele quem eu amava. Mas tinha ciúmes do seu violino que ele
agarrava como uma mulher ardente. Por isso soprei nele a ideia de compor. Era certo que
fracassaria e eu o teria ao meu lado para sempre.
V – O violino foi uma ponte para eu chegar onde estou! (estado de anamnese). Havia sim
uma mulher muito jovem e bela ao lado do violinista, ele certamente estava apaixonado.
Ah, quantas flores recebidas pelos seus concertos impecáveis que foram envenenadas por
essa doce mulher.
C – Sou eu, meu amor! Ainda sou jovem, habito a cercanias de sua cidade natal. Eu fiz de
tudo para te dar filhos, para te cercar de amor.
V – E ele seguiu em frente, atravessou a fronteira, com promessa de retornar. E não é assim
com tudo que arde, um fechar de olhos e avançar?
C – Não vá muito longe, eu te disse. Eu vou ficar esquecida, cansada de tanto chorar.
V – Ele não sabe o momento em que se separou de sua promessa, porque sua vontade de
descobrir novos continentes tocou o sonho de penetrar dentro da casa dos gigantes e
comovê-los.
C – O velho sonho aventureiro, nos custou a mocidade, instale-se aqui comigo, ocupe o
meu lugar e coma sua fome. O sonho de um artista é igual a de um assassino. É isso o que
você quer? Porque não ser um gigante no meio dos nossos pigmeus? Eu posso te oferecer
mais!
(Ela serve mais sopa e ele se comporta como um senhor patriarcal)
V – Esse lugar é um mundo que não revida a ofensa contra o belo. Não me serve! Pasmo e
amedrontado são os seus pigmeus. Não acredito na autoridade desse lugar! Não aceito mais
sua comida! (empurra-a. Tempo)

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C – Senhor?! Viu que tocou como os pigmeus tocam suas mulheres? Será que ama
novamente? Sempre se lembrou como condena seus iguais. Ainda posso produzir vento
com um sopro para defenestrar essas composições, porque não as abandona?
V – Minha existência é uma ofensa para os pigmeus. Você é uma grande metáfora que eu
nunca vou entender, seu lugar é aqui nessa cozinha imunda!
C – Nunca me ofendeu tanto, meu senhor. Deite-se comigo e será engolido pela metáfora.
V – Eu te ofendi quando nasci, quando parti, quando desci até aqui, e agora quando te deixo
para sempre .
C – Deixe-me te reconstruir. Eu aprendi que não se destrói um homem com abstração,
empurrando-o para a criação, mas sim esgotando pouco a pouco seu suor. Uma volta como
velhos namorados?
V – Não esperava um tiro tão certeiro de quem nunca reclamou. De que adianta insistirmos
na alegria da miséria. Você vai morrer aqui, pisada, não por mim, mas por seus pigmeus
famintos.
C – Meu senhor, você não morre de dó das minhas mãos calejadas, dos meus pés inchados?
Sou eu que te dou condições para sonhar com elegantes gigantes discutindo arte e filosofia.
Eu nunca me tornei viável nos seus sonhos.
V – Eu não me emociono com despedidas.
C – Que o senhor me desse 5 minutos ao seu lado, eu seria a mais feliz morte. Agora não
tenho nada para oferecer que não seja minha execução.
V – Se houvesse gratidão em mim eu poderia te conceder o que fosse.
C – Olhando pra o senhor ninguém diz que pode existir alguém cada vez menor ficando e
sonhando o aventureiro cada vez maior partindo.

Eles dançam

C – Na minha idade as pernas já não obedecem. De um lado para o outro. Porque desvia o o
olhar? Não há ameaça sob nossas cabeças. Depois disso serei um nada. O contato ainda é
possível. Não esqueça. Eu te permiti enlouquecer e voltar. Não é raro isso? Terá que aceitar
sempre o que vem de fora.

V se desvencilha e após um momento retornam dançar.

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C – Agora me sirva. Sem demora. Que o último beijo seja delicioso como minha sopa. Que
desça queimando minha garganta. Seu ácido romperá meu estômago. Vou ser feliz me
tornando uma sopa. Estou pronta para degustar meu corpo. Autofagia do meu próprio sugo.
Ruminando o próprio cérebro. Sua boca é o ponto final.

V se desvencilha pela última vez.

V – Não haverá esposa, nem filhos. Tua carne será estéril, mas a ideia será fértil. Eu me
afasto para caber no mundo como um ser pontiagudo. Eu vou me juntar aos gigantes e você
irá recolher as sobras para sempre.
(silêncio)

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