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APRENDIZAGEM E O CURRÍCULO NO ENSINO SUPERIOR:

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ADAPTAÇÃO CURRICULAR

Mariane Carloto da Silva1- UFSM


Amanda do Prado Ferreira Cezar 2

Grupo de Trabalho – Currículo, Culturas e Saberes


Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo

Compreende-se o currículo como um dispositivo responsável pelo processo de ensino-


aprendizagem e inclusão dos estudantes dentro do curso de graduação, pois compreende
estratégias pedagógicas, organização de diferentes instrumentos de ensino e possíveis
adaptações curriculares. A diversidade e complexidade presente na Universidade questionam
o currículo quanto às organizações disciplinares, a temporalidade na aprendizagem e
exigências de formação acadêmica. A partir de uma revisão bibliográfica de teóricos que
discutem sobre a temática do currículo e Educação Especial, objetivou-se: descrever como os
contextos históricos, sociais e culturais influenciaram a estrutura curricular, discutir sobre a
importância do currículo para a inclusão no Ensino Superior, e assim provocar novos sentidos
para a área. Pensar o currículo na atualidade implica em reconhecer que as mudanças sociais,
estruturais e exigências de profissionais capacitados exercem influencias na organização dos
currículos, especialmente na Universidade, na qual se constitui em um espaço de
aprendizagens e produção de conhecimentos, onde há estudantes advindos de diferentes
lugares, com diferentes formas de aprender e relacionar-se. O termo currículo tem origem
latina, que significa percurso, um caminho a ser seguido, e segundo Saviani (2010). Percebe-
se que o currículo no meio educacional está relacionado a roteiro, uma listagem de disciplinas
e conteúdos específicos de áreas de saber de um curso. Seguindo nesta perspectiva, o
currículo traz a ideia de ordem e de disciplina, constituindo-se elementos essenciais para
qualquer curso (SAVIANI, 2010). Evidencia-se o currículo como o grande norteador e
regulador das práticas docentes, e então é a partir dele que se constituirá a (re) ligação dos
saberes. Portanto, sinaliza-se a importância da IES conhecer os estudantes, pensar e formular
de maneira colaborativa ações e estratégias que viabilizem a aprendizagem, permanência e
conclusão dos estudantes público-alvo da Educação Especial, para que todos pensem e
planejem alternativas adequadas a cada um.

Palavras-chave: Educação Especial. Ensino Superior. Currículo. Adaptação Curricular.

1
Pedagoga. Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal de Santa Maria
(UFSM). Graduanda em Educação Especial Noturno na Universidade Federal de Santa Maria. Email:
mariane.carloto@gmail.com
2
Pedagoga. Psicopedagoga. Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal
de Santa Maria (UFSM). Email: amanda.pfcezar@gmail.com

ISSN 2176-1396
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Introdução

Discussões sobre a Educação Especial, inclusão no Ensino Superior e necessárias


mudanças curriculares estão fortemente presentes na contemporaneidade, recebendo atenção
de reformas políticas, de pesquisadores e instituição escolar. Com a Política Nacional de
Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI), de 2008, a Educação
Especial torna-se uma modalidade de ensino, que vai da Educação Infantil ao Ensino
Superior, garantindo metas e estratégias de ensino que assegurem a inclusão dos estudantes
público-alvo da Educação Especial no nível de Ensino integrando a proposta pedagógica da
instituição. De acordo com a PNEEPEI:

Na educação superior, a educação especial se efetiva por meio de ações que


promovam o acesso, a permanência e a participação dos alunos. Estas ações
envolvem o planejamento e a organização de recursos e serviços para a promoção da
acessibilidade arquitetônica, nas comunicações, nos sistemas de informação, nos
materiais didáticos e pedagógicos, que devem ser disponibilizados nos processos
seletivos e no desenvolvimento de todas as atividades que envolvam o ensino, a
pesquisa e a extensão (BRASIL, 2008, p. 11).

Dessa forma, a inclusão no Ensino Superior compreende o acesso, a permanência, a


aprendizagem e conclusão dos estudantes nos cursos de graduação, desafiando a Universidade
a preocupar-se com as características individuais, coletivas, individualidades, identidades,
contextos dos estudantes e dificuldades enfrentadas em determinadas disciplinas.
O currículo torna-se um campo em evidência para ser debatido, problematizado,
reconstruído em cada Instituição de Ensino Superior (IES) por compreender a estrutura
curricular dos cursos, as disciplinas, as estratégias de ensino e possíveis mudanças
curriculares.
A intenção deste artigo é descrever como os contextos históricos, sociais e culturais
influenciaram a estrutura curricular atual e discutir sobre a importância do currículo como um
aliado na inclusão nos cursos de graduação no Ensino Superior.

Tessituras sobre o currículo

Pensar o currículo na atualidade implica em reconhecer que as mudanças sociais,


estruturais e exigências de profissionais capacitados exercem influencias na organização dos
currículos, especialmente na Universidade, na qual se constitui em um espaço de
aprendizagens e produção de conhecimentos, onde há estudantes advindos de diferentes
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lugares, com diferentes formas de aprender e relacionar-se. Cria um ambiente de estudos, com
foco na formação profissional, troca de saberes e diálogos entre professores e estudantes
(FIORIN, 2015).
Nesse contexto ressalta-se a grande preocupação de refletir como ocorre a formação
profissional dos estudantes e como se organiza o currículo para atender estes propósitos.
Percebe-se que a divisão de disciplinas por especialidades fortalece o saber escolar, pois são
ricos em técnicas, teorias, procedimentos prevendo um fim, que é a compreensão e
apropriação de tudo que foi ensinado.
Defende-se aqui que o currículo vai muito além da transposição de saberes e técnicas e
de um conceito pronto, mas sim, da religação dos saberes ensinados ao contexto dos
estudantes, sendo significativo na sua vivência. Nesse sentido Morin (2005, p. 24) aponta que
“o desenvolvimento da aptidão para contextualizar e globalizar os saberes torna-se um
imperativo da educação”. A Universidade precisa exercer suas funções de ensino, pesquisa e
extensão, tornando cada vez mais um desafio o estabelecimento da contextualização e
diálogos entre as disciplinas dos cursos da graduação.
Nessas relações, torna-se fundamental que o professor se questione sobre o que
ensinar, por que ensinar, para quem ensinar, de que forma ensinar, como estabelecer suas
estratégias de ensino visando a aprendizagem dos estudantes. Sendo assim, deve-se prever
que todo conhecimento precisa relacionar-se com o sujeito, para que tenha significado.

No processo pedagógico, o objeto compreende os conhecimentos a serem


apropriados (portanto, o conteúdo), e o sujeito é o aluno, que irá apropriar-se desses
conhecimentos. Mas o processo pedagógico supõe ensino-aprendizagem: sujeito é
também, o professor, que propicia tal assimilação/apropriação (SAVIANI, 2010, p.
12).

Com relação à inclusão, há muitos desafios imbricados no currículo, questões como


práticas e estruturas curriculares homogeneizadora, professores não preparados, turmas
superlotadas, extensa carga horária dos docentes, mecanização do ensino, rotatividade
docente. É preciso repensar quais são os ideários de sujeitos para atuar em sociedade e
estabelecer novas formas de ensinar e aprender.
Nesse contexto que se situa a questão da renovação cabe sempre uma preocupação
com o currículo visto que este está no centro da relação educativa. Silva (2006) enfatiza que o
currículo corporifica os nexos entre o saber, poder e identidade assim a natureza desse nexo
tem sido teorizada de forma diferente nas diversas correntes da tradição critica.
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Por tudo isso, é importante que a teorização educacional repense e renove suas práticas
curriculares na medida em que o currículo não pode ser visto apenas como um espaço de
transmissão de conhecimentos porque o currículo está envolvido naquilo que somos, naquilo
que nos tornamos, naquilo que nos tornaremos.
Silva (2006) explica que ainda estamos no meio de uma luta pela definição do que
significa uma “boa” educação, do significado da própria identidade social e que queremos ver
construído. A valorização da identidade de cada estudante torna-se ponto inicial para se
pensar adaptações curriculares, já que envolver um olhar atento, uma aproximação e
reconhecimento de suas necessidades e demandas.
O êxito na introdução de uma inovação no que se refere ao processo de aprendizagem
propõe que a expressão currículo cita aos caminhos da inteligência que o aprendiz percorre
em sua carreira de vida, com vistas à construção de sua cidadania e da sua competência
profissional. Sabe-se que a escolha por uma formação em um Curso Superior visa autonomia
em decidir uma área profissional, compromisso e dedicação com os estudos por parte dos
estudantes; cumprir a carga horária, ensinar os conteúdos e habilidades exigidas de cada
profissional, produção de conhecimento científico por parte dos docentes não podem
impossibilitar o diálogo e relações dentro da sala de aula. A motivação e o desenvolvimento
de um trabalho significativo, e primordialmente, a inclusão por meio do currículo, precisa
destas aproximações.

Testemunhar a abertura aos outros, a disponibilidade curiosa à vida, a seus desafios,


são saberes necessários à prática educativa. Viver a abertura respeitosa aos outros
[...]. Como ensinar, como formar sem estar aberto ao contorno geográfico, social dos
educandos? (FREIRE, 1996, p. 135-7).

Vivencia-se ativamente o contexto, porque o contexto constitui a identidade, as formas


de aprender, e o currículo, como prática/ação que movimenta/organiza a prática educativa,
necessita estar imerso a estas realidades, assim como, promover a valorização de cada
estudante por meio de suas estratégias, ementas, planos e ações.

Historitizando o currículo

Como local de conhecimento, o currículo é a expressão de nossas concepções do que


constitui conhecimento. Em geral, a noção de conhecimento é fundamentalmente realista.
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Existe um mundo objetivo de fatos, de coisas, de habilidades ou, no máximo, de significados


fixos, que devem ser transmitidos.

Palavras e expressões como currículo, grade curricular, atividades curriculares,


matérias de estudo ou matérias de ensino, disciplinas escolares, componentes
curriculares, programas fazem parte da rotina de quem atua com educação escolar.
Seu emprego em textos, documentos diversos e no discurso de educadores, nas mais
diferentes situações, parece algo tão “natural” que raramente as pessoas se dão conta
da carga histórica e conceitual que cada termo comporta. No entanto, são notórias as
mudanças no conjunto das matérias que vêm compondo os currículos dos níveis,
graus e modalidades de ensino, na sua distribuição pelas séries, na sua carga horária,
nos conteúdos e métodos prescritos em seus programas. Mudam também as
concepções, e isto nem sempre é tão perceptível. (SAVIANI, 2005, p.2)

De longa data reconhece-se a educação associada a um período histórico, a gerações,


tradições e sociedades, sendo difícil de ser analisada, pois corresponde ao tempo passado e
presente. O tempo é aqui como um contínuo transcorrer, um caminhar para o futuro, e se a
educação não acompanhar essas mudanças torna-se desatualizada, no sentido da preparação
dos sujeitos para atuar em sociedade.
O currículo é fruto deste transcorrer, fortalecendo os ideários de sociedade como saber
escolar. Nesse sentido Morin (2005) questiona se a universidade deve adaptar-se à sociedade
ou a sociedade deve adaptar-se à universidade? Ambas estão inseridas e movimentam o meio
de produção, exigem e formam especialistas sem haver a transdisciplinariedade, o diálogo
com as culturas humanas. Afirma ainda que “as disciplinas são plenamente justificáveis,
desde que preservem um campo de visão que reconheça e conceba a existência das ligações e
das solidariedades. E mais: só serão plenamente justificáveis se não ocultarem realidades
globais” (MORIN, 2005, p. 112-3).
O termo currículo tem origem latina, que significa percurso, um caminho a ser
seguido, e segundo Saviani (2010, p. 24):

Com respeito às origens do emprego do termo currículo na educação, Hamilton


(1991, pp. 197-205) faz notar sua ligação com as ideias de unidade, ordem e
sequência dos elementos de um curso, e, a elas subjacentes, as aspirações de se
imprimir maior rigor à organização do ensino. Associa-se, portanto, à ideia de
formalização, envolvendo plano, método, controle.

Percebe-se que o currículo no meio educacional está relacionado a roteiro, uma


listagem de disciplinas e conteúdos específicos de áreas de saber de um curso. Seguindo nesta
perspectiva, o currículo traz a ideia de ordem e de disciplina, constituindo-se elementos
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essenciais para qualquer curso (SAVIANI, 2010). A ordem relaciona-se com a apropriação do
saber e a disciplina com a forma como é transmitida.
Desde então, o currículo escolar imbrica-se a ordem, sequência disciplinar e
prioridades de ensino. Posturas que influenciam na produção de estigmas: quem aprende e
quem não aprende. Saviani (2010, p. 26) sublinha que

O ensino, portanto, passaria a seguir um plano rígido, compreendendo as áreas de


estudo a que se dedicaria cada professor (ou regente) e as normas de conduta do
aluno, cuja promoção de um nível a outro do curso dependeria dos progressos nos
estudos e do cumprimento às normas estabelecidas, e cuja vida estudantil estaria sob
supervisão do professor. E o currículo, representando todo esse conjunto, era o
nome dado ao certificado de conclusão do curso, com avaliação dos resultados de
cada estudante (cf. Hamilton, 1991, PP. 203-204).

As concepções de currículo estabelecidas valorizavam a apropriação do saber e o


seguimento de normas estabelecidas socialmente. O docente deveria preocupar-se em transpor
os conteúdos garantindo a assimilação dos conhecimentos por parte dos estudantes. Lembra-
se que conhecimentos eram aqueles úteis para a sociedade e determinados por esta.
Progressivamente, o termo currículo associou-se ao ensino e aprendizagem de
conteúdos relacionados à carreira profissional e métodos pedagógicos.
O currículo sofre mudanças e influências de diferentes contextos e espaços. Os
ideários de sociedade que foram definidos na época da modernidade estabeleceram história de
sociedade, de educação, de culturas, de formação humana, de trabalho, dentre outras na qual
produziram verdades a serem seguidas em determinado momento. Atualmente, com as
inovações tecnológicas e surgimento de novas fontes de informação necessita-se de diferentes
formações humanas.
Nesta situação, há ligações entre o currículo e os contextos sociais, estruturando
saberes, conteúdos cognitivos e simbólicos, cultura dominante, ênfase em determinados
conteúdos (SAVIANI, 2010). Associando-se às Instituições de Ensino Superior,
especialmente os Institutos Federais, que procuram atender a demanda e o contexto social dos
estudantes. Ao mesmo tempo em que organizam as disciplinas e conteúdos prioritários e
necessários para a formação humana.
Mas o que é a formação humana? A educação na sociedade capitalista tem a função de
possibilitar a formação integral do sujeito para atender uma demanda social: capital-trabalho,
ou seja, formar o sujeito para a escravidão moderna (TONET, 2006).
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Há muitos desafios que envolvem o rompimento com a homogeneização das estruturas


curriculares, formação de profissionais, educação escolar, dentre outros. É preciso redefinir os
ideários de sujeitos para a sociedade e estabelecer uma nova forma de sociabilidade, na qual
cada um possa manifestar suas ideias.

O conteúdo das disciplinas escolares guarda relação com os domínios da cultura, as


áreas do conhecimento, as ciências de referência, e sua organização deve refletir a
organização das ciências em sua história, em sua ordem lógica e no seu método, sem
perder de vista a finalidade de ensino-aprendizagem, ou seja, a dimensão didática do
processo pedagógico (SAVIANI, 2010, p. 13).

Evidencia-se o currículo como o grande norteador e regulador das práticas docentes, e


então é a partir dele que se constituirá a (re) ligação dos saberes. O currículo como práxis não
deve ser um documento estático e sim demanda um modelo coerente de pensar a educação e
as aprendizagens necessárias por ter a função socializadora e cultural que é a incumbência da
escola.

Ensino Superior: adaptações curriculares

No campo da educação, a inclusão envolve um processo de reforma e de


reestruturação das escolas como um todo, com o objetivo de assegurar que todos os
alunos possam ter acesso a todas as gamas de oportunidades educacionais e sociais
oferecidas pela escola. Isto inclui o currículo corrente, a avaliação, os registros e os
relatórios de aquisições acadêmicas dos alunos, as decisões que estão sendo tomadas
sobre o agrupamento dos alunos nas escolas ou nas salas de aula, a pedagogia e as
práticas de sala de aula, bem como as oportunidades de esporte, lazer e recreação
(MITTLER, 2003, p. 25).

A partir das ideias de Mittler (2003) dá-se início às proposições estabelecidas como
importantes para o campo do Ensino Superior. Pode-se analisar o currículo utilizando
algumas perguntas. O currículo deve propor o que se ensinar e o que os alunos devem
aprender? O currículo é o que se deve o ensinar ou o aprender, ou inclui também o como, as
estratégias, os métodos e os processos de ensino?
São nestas perspectivas que encara-se o currículo neste trabalho, ampliando o olhar do
currículo da listagem de conteúdos para os outros componentes fundamentais para que se
desenvolva: os sujeitos envolvidos e suas identidades. O currículo é o espaço que envolve
poder, percurso, envolve a vida dos sujeitos, os contextos e discursos. “O currículo é
documento de identidade” (SILVA, 2005, p. 150).
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Esses pressupostos trazidos por Silva (2005) revelam que as práticas curriculares não
são neutras, e tão pouco acabadas, mas constitui-se na e pelas relações estabelecidas no
convívio da sala de aula. Também não se dá de forma linear, mas de acordo com as vivências
históricas, sociais e culturais.
Ressalta-se que, a partir da percepção de que o currículo não é e não pode ser estático
é que se poderão pensar as adaptações curriculares no Ensino Superior. Realizar adaptação
curricular não significa facilitar o ensino para os estudantes, não é diminuir a qualidade do
ensino, mas sim efetivar a garantia de igualdade de condições de permanência, aprendizagem
e conclusão da etapa de Ensino.
Aqui retoma-se a ideia de identidade e contexto, pressupondo que para adaptar
primeiro deve-se questionar para quem adapta? Por que adaptar? E para isso precisa conhecer
o estudante, dialogar e relacionar-se. Compreender como aprende, como se organiza para
estudar, como pensa sua rotina diária.
Em 2000 0 Ministério da Educação (MEC) lançou o Projeto Escola Viva - Garantindo
o acesso e permanência de todos os alunos na escola, na qual trouxe alguns conceitos
importantes para as adaptações curriculares:

Adaptações curriculares de grande porte ou adaptações significativas:


compreendem ações que são da competência e atribuição das instâncias político-
administrativas superiores, já que exigem modificações que envolvem ações de
natureza política, administrativa, financeira, burocrática. É necessário enfatizar
também que sempre se deve adotar, no estudo de caso, critérios que evitem
adaptações curriculares de grande porte desnecessárias, especialmente as que
implicam em supressão de conteúdos, eliminação de disciplinas, ou de áreas
curriculares complexas. De maneira geral, as adaptações curriculares de grande
porte serão úteis para atender à necessidade especial do aluno quando houver
discrepância entre suas necessidades e as exigências do currículo regular, à medida
que se amplia a complexidade das atividades acadêmicas, no avanço da
escolarização. (MEC/SEESP, 2000, p. 11 e 12,cartilha 5). Adaptações curriculares
de pequeno porte ou adaptações não significativas: que são especificamente as
ações que cabem a nós, professores, realizar para favorecer a aprendizagem de todos
os alunos presentes em nossas salas de aula. São modificações promovidas no
currículo, pelo professor, de forma a permitir e promover a participação produtiva
dos alunos que apresentam necessidades especiais no processo de ensino e
aprendizagem, na escola regular, juntamente com seus parceiros coetâneos
(BRASIL, 2000, p. 8, cartilha 6).

É importante enfatizar que as adaptações curriculares contribuem para a aprendizagem


dos estudantes público-alvo da Educação Especial (público deste trabalho), sem reduzir a
qualidade, mas pensar diferentes formas de ensinar, de avaliar, de organizar trabalhos
acadêmicos. Estas ações devem ser pensadas de forma colaborativa: docentes, coordenadores
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de curso, diretor do centro de ensino e Núcleo de Acessibilidade (se existente na


Universidade), ou seja, diferentes profissionais que atuam junto aos estudantes.

Adaptações curriculares, de modo geral, envolvem modificações organizativas, nos


objetivos e conteúdos, nas metodologias e na organização didática, na organização
do tempo e na filosofia e estratégias de avaliação, permitindo o atendimento às
necessidades educativas de todos os alunos, em relação à construção do
conhecimento (OLIVEIRA; MACHADO, 2009, p. 36).

As adaptações curriculares potencializam a inclusão criando possibilidade de valorizar


as diferenças individuais de cada estudante, possibilita que os docentes percebam os
estudantes público-alvo da Educação Especial e diferentes concepções sobre os processos de
ensino-aprendizagem.
A formação profissional não envolve apenas as questões de inteligência e de saber,
mas se o docente e os estudantes não se envolverem intersubjetivamente no processo de
ensino, dificilmente o saber se constituirá. Estas relações envolvem um contato, uma empatia
para se conseguir superar os desafios da sala de aula, (PERRENOUD, 2000).

Metodologia

Optou-se por uma pesquisa qualitativa de cunho bibliográfico. Segundo Triviños,

[...] alguns autores entendem a pesquisa qualitativa como uma ‘expressão genérica’.
Isto significa, por um lado, que ela compreende atividades de investigação que
podem ser denominadas específicas. E, por outro, que todas elas podem ser
caracterizadas por traços comuns. Esta é uma ideia fundamental que pode ajudar a
ter uma visão mais clara do que pode chegar a realizar um pesquisador que tem por
objetivo atingir uma interpretação da realidade do ângulo qualitativo (2010, p.120).

Para alcançar os objetivos e as reflexões propostas pela pesquisa foi realizada uma
revisão de literatura em livros e Políticas Publicas considerados relevantes trazendo
informações pertinentes ao tema de pesquisa buscando apoio nos seguintes autores: Fiorin
(2015), Freire (1996), Morin (2005), Saviani (2010), Silva (2005, 2006).

Conclusão

A busca por um currículo que valorize e respeite as características dos sujeitos


envolvidos no processo de ensino-aprendizagem é um caminho longo, pois o currículo ou
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projeto curricular é pensado por políticos, professores, coordenadores e gestores de


instituições de ensino, voltados à capacitação profissional e habilidade para exercer tarefas.
O ensino superior é constantemente desafiado a formar sujeitos em uma determinada
época, a partir de um contexto complexo individual e com diferentes necessidades e formas de
aprender. A universidade precisa questionar o currículo fragmentado e padronizado, que
acaba constituindo-se em especialidades fechadas e individualistas.
Reconhece-se a importância de todas as áreas do saber, principalmente todas as
descobertas científicas, que surgiram a partir de muitos estudos e pesquisas, porém ressalta-se
a fundamental importância de estimular o aprender a aprender na Universidade.
Portanto, sinaliza-se a importância da IES conhecer os estudantes, pensar e formular
de maneira colaborativa ações e estratégias que viabilizem a aprendizagem, permanência e
conclusão dos estudantes público-alvo da Educação Especial, para que todos pensem e
planejem alternativas adequadas a cada um.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de


Educação Especial na Perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008.

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TRIVIÑOS, A. N. S. Introdução a pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em


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