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Direito

Direito,, Política e
Política
Manejo P esqueir
Pesqueir
esqueiroo na
Bacia Amazônica

Serguei Aily Franco de Camargo


Franco
Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo
Rodrigues
(orgs.)

2012
© 2012 dos autores

Direitos reser vados desta edição


reservados
RiMa Editora
Fotos capa
capa: Serguei Aily Franci de Camargo

Direito, política e manejo pesqueiro na Bacia


Amazônica / organizado por Serguei Aily Franco de
Camargo e Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo –
São Carlos : RiMa Editora, 2012 – e-book.

132 p.

ISBN 978-85-7656-244-3

1. Direito. 2. Pesca. 3. Bacia Amazônica. 4. Política.


I. Autores. II. Título

COMISSÃO EDITORIAL
Dirlene Ribeiro Martins
Paulo de Tarso Martins
Carlos Eduardo M. Bicudo (Instituto de Botânica - SP)
Evaldo L. G. Espíndola (USP - SP)
João Batista Martins (UEL - PR)
José Eduardo dos Santos (UFSCar - SP)
Michèle Sato (UFMT - MT)

www.rimaeditora.com.br
Rua Virgílio Pozzi, 213 – Santa Paula
13564-040 – São Carlos, SP
Fone/Fax: (16) 3411-1729
À memória de meu pai, João Maria Franco de Camargo,
por despertar em mim o gosto e o respeito
pela natureza e o amor pela Amazônia.

A Deus, pela infinita bondade, pela graça da vida, saúde e paz.


À minha mãe (em memória), que, com seu amor,
ensinou-me o valor dos estudos e, com sua habilidade e competência,
despertou-me o interesse pelo Direito.
Aos meus avôs, Denísio e Conceição, ao meu pai,
aos meus tios e irmãos, pelo incentivo.
Sumário
Agradecimentos ..................................................................................... IX

Apresentação ......................................................................................... XI

Capítulo 1 – A Pesca na Amazônia Brasileira ............................................. 1


Pesca
Andrei Sicsú de Souza; Serguei Aily Franco de Camargo; Thaísa Rodrigues
Lustosa de Camargo

Capítulo 2 – O Direito P esqueir


Pesqueiro no
esqueiro
Ordenamento Jurídico Brasileir o ....................................................... 19
Brasileiro
Serguei Aily Franco de Camargo; Andrei Sicsú de Souza;
Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo

Capítulo 3 – O Direito P esqueir


Pesqueir
esqueiroo na Esfera Internacional:
AR egião da T
Região ríplice F
Tríplice Frronteira Brasil, Peru e Colômbia ........................ 39
Peru
Serguei Aily Franco de Camargo; Arilúcio Bastos Lobato; Thaísa Rodrigues
Lustosa de Camargo; Andrei Sicsú de Souza

Capítulo 4 – O Manejo de R ecursos P


Recursos esqueir
Pesqueir os ....................................... 59
esqueiros
Blanca Lourdes Bottini Rojas; Serguei Aily Franco de Camargo;
Miguel Petrere Jr.

Capítulo 5 – Síntese Histórica Sobre o Manejo P esqueir


Pesqueir
esqueiro o
na Amazônia Brasileira ...................................................................... 79
Blanca Lourdes Bottini Rojas; Serguei Aily Franco de Camargo;
Miguel Petrere Jr.

Capítulo 6 – Acordos de P
Acordos esca na Amazônia Brasileira:
Pesca
Princípio da Dignidade da P essoa Humana e
Pessoa
Conhecimento T radicional no Manejo P
Tradicional esqueir
Pesqueiro ................................ 95
esqueiro
Denison Melo de Aguiar; Serguei Aily Franco de Camargo;
Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo

Anexo .................................................................................................. 115


Anex

Sobre os Autores ................................................................................... 117


Autores
Agradecimentos

A o final de todo o trabalho, repensamos a trajetória de pesquisa que nos


conduziu até aquele momento. Pessoas e instituições sempre contribuem e
deixam suas marcas em nossa memória. Academicamente, pouco fazemos de
forma isolada, ainda que raras torres de marfim persistam para nossa admira-
ção e respeito.
Agradeço às minhas instituições de origem: Universidade do Estado do
Amazonas (Programa de Pós-Graduação em Direito Ambiental) e Universida-
de Nilton Lins (Programa de Pós-Graduação em Aquicultura), por apoiarem a
pesquisa que consubstanciou esta obra.
Agradeço ao Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista
(Rio Claro), na pessoa do Prof. Dr. Miguel Petrere Jr, meu supervisor de está-
gio de pós-doutorado, por me receber e proporcionar todas as condições
necessárias ao desenvolvimento de nossos trabalhos. Agradeço também ao
CNPq, pelo financiamento (auxílio à pesquisa) concedido.
Entretanto, as instituições só existem e passam a fazer sentido através das
pessoas que as integram. Esta é uma obra coletiva, que não seria possível sem
a participação de todo o grupo de pesquisa “Direito e Pesca”: Thaísa R. L. de
Camargo, Miguel Petrere Jr., Denison M. de Aguiar, Blanca L. B. Rojas, Andrei
Sicsú de Souza e Arilúcio B. Lobato, aos quais agradeço pela caminhada em
conjunto.
Registro também meus agradecimentos à participação ocasional de di-
versos outros pesquisadores, que em vários momentos se fizeram presentes
nas discussões do grupo: Saúl Prada-Pedreros (Universidad Javeriana, Colôm-
bia), Edson Damas da Silveira (UEA), Sandro Nahmias Melo (UEA), Ozorio J.
M. Fonseca (UEA), Walmir A. Barbosa (UEA), Erivaldo Cavalcanti e Silva Filho
(Uniniltonlins) e Carlos Edwar de Carvalho Freitas (UFAM).
Ao final, não poderia deixar de lembrar e agradecer aos pescadores! Eles
sempre me receberam e ensinaram suas formas de vida e de encarar a nature-
za e o mundo, às vezes tão complicado... Agradeço assim, ao pessoal de Boa
Vista do Ramos: o Duarte, o Toti e o Isaac.

Manaus, fevereiro de 2012.


Serguei Aily Franco de Camargo
Apresentação
O Direito,, P
título da obra Direito olítica e Manejo P
Política esqueiro na Bacia Amazônica
esqueiro
Pesqueir
reflete a preocupação dos pesquisadores integrantes do Grupo de Pesquisa/
CNPq “Direito e Pesca”, que vem atuando no Programa de Pós-Graduação
em Direito Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas, desde 2008.
Ainda em 2008, foi proposto ao CNPq um pedido de auxílio à pesquisa,
concedido através do fundo setorial CT-Amazônia, com a finalidade de explo-
rar uma lacuna da literatura, caracterizada pela ausência de obras jurídicas
sobre o setor pesqueiro. Os trabalhos começaram. Os pesquisadores Arilúcio
Bastos Lobato, Andrei Sicsú de Souza e, posteriormente, Denison Melo de
Aguiar foram agregados ao projeto de pesquisa, desenvolvendo suas disserta-
ções de mestrado em direito ambiental respectivamente sobre: a problemáti-
ca jurídico-internacional do manejo da pesca dos grandes bagres migradores;
o conhecimento tradicional associado ao manejo pesqueiro na Amazônia; e o
princípio da dignidade da pessoa humana e a pesca artesanal na Amazônia.
Já nesta primeira fase dos trabalhos, percebeu-se que abordar o assunto,
através de uma incursão ao “Direito Pesqueiro na Bacia Amazônica” era pre-
tensioso, inclusive por se atribuir ao direito pesqueiro uma certa autonomia
epistemológica, inexistente até o momento. Entretanto, os objetivos práticos
da equipe foram melhor delimitados. Buscou-se, então, delinear o referencial
legal para a tutela dos estoques pesqueiros na bacia Amazônica e da atividade
pesqueira propriamente dita. Estabeleceram-se diálogos e parcerias com ou-
tros grupos de pesquisa em outras instituições (Programa de Pós-Graduação
em Aqüicultura da Universidade Nilton Lins/AM, Universidade Federal do
Amazonas - UFAM, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, Uni-
versidade Estadual Paulista - UNESP e Universidade de Campinas - UNICAMP).
As contribuições não tardaram e a forma de compreensão do problema assu-
miu um foco jurídico, que se apropriou do conhecimento de outras áreas,
principalmente da biologia e da ecologia.
Juntaram-se à equipe as pesquisadoras Blanca Lourdes Bottini Rojas, que
trabalhou em seu mestrado na UNESP de Rio Claro com a comparação das
estratégias de manejo do Brasil e Venezuela; e Thaísa Rodrigues Lustosa de
Camargo, que trabalhou com a nova situação do marco regulatório da pesca
a partir de 2009. O último reforço veio com a volta do Dr. Miguel Petrere Jr.
para o Amazonas, onde suas contribuições se fizeram sentir sobre toda a equi-
pe. A rota estava traçada!
12 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

A bacia Amazônica não foi escolhida por acaso. Trata-se da maior bacia
hidrográfica brasileira e onde se concentra a maior parte da pesca (em sentido
lato) do país. Na Amazônia, foram constatados os maiores níveis de consumo
de pescado do mundo, chegando, de acordo com alguns autores, a atingir até
600gr/pessoa/dia, como será discutido ao longo do presente estudo. A im-
portância do pescado para as populações dispersas nas vastas áreas de várzeas
e da bacia é vital, constituindo-se na maior fonte protéica disponível.
Historicamente, a pesca se desenvolveu à margem do Estado. Com o
passar do tempo, a população da Amazônia cresceu, aumentando as pressões
sobre os estoques pesqueiros. As viagens de pesca passaram a buscar locais
cada vez mais distantes dos grandes centros e os primeiros sinais de depleção
foram detectados na década de 1970, pelo Prof. Dr. Miguel Petrere Jr., então
pesquisador do INPA.
O acirramento dos conflitos deu lugar a embates cada vez mais freqüen-
tes e violentos. Em 1973, foi deflagrada a “Guerra do Peixe” no lago de
Janauacá, próximo a Manaus. Com a igreja católica trabalhando em suas co-
munidades eclesiais de base, os agrupamentos humanos do interior da Ama-
zônia consolidaram um senso de comunidade, dando poder às suas lideranças
e assumindo uma postura coesa na proteção de seus locais de pesca.
Vieram inovações tecnológicas, políticas públicas e incentivos fiscais que
deram fomento ao setor. Entretanto, o caminho do antigo Código de Pesca
de 1967, para a atual Lei de Pesca de 2009 foi longo. Muitas estratégias de
manejo foram adotadas e abandonadas. Novos paradigmas ambientais surgi-
ram com a Constituição Federal de 1988 e, no Brasil inteiro, os movimentos
sociais se fortaleceram, com destaque para o importante papel que o Grupo
de Trabalho Amazônico desenvolveu em prol das comunidades tradicionais,
resultando no surgimento de novos direitos.
Estava aberto o caminho jurídico para a participação das comunidades
de usuários na gestão dos recursos naturais (pesqueiros) em um sistema deno-
minado posteriormente gestão participativa. Entretanto, a construção de uma
cultura institucional que permitisse a recepção dos usos e costumes (ou do
conhecimento tradicional) dos usuários na elaboração de estratégias e a
implementação de ações de manejo ainda levou algum tempo.
Os anos 1990 e 2000 marcaram a importante contribuição dos projetos
de cooperação técnica internacional no fortalecimento institucional do IBAMA,
e na execução do sistema de gestão participativa da pesca. O ano de 2002
entrou para a história do setor pesqueiro como o ano da edição da Instrução
Normativa n° 29 do IBAMA, que prevê todos os passos para a construção dos
acordos comunitários de pesca, atualmente tão usados na bacia.
Apresentação 13

Em 2009 foi criado o Ministério da Pesca e Aquicultura provocando


uma ruptura de paradigmas político, jurídicos e de gestão. O que antes se
pautava por uma visão holística, sob a óptica do Ministério do Meio Ambien-
te e IBAMA, passa para um viés mais produtivista, redundando no fortaleci-
mento do Programa Fome Zero e contribuindo para a segurança alimentar da
população.
Este livro conta essa história. Não há a pretensão de esgotar o assunto
ou estabelecer uma verdade última, mas simplesmente lançar a primeira pala-
vra na construção de um debate sobre o tema.
APesca na
Pesca
Amazônia Brasileira
1
Andrei Sicsú de Souza
Serguei Aily Franco de Camargo
Franco
Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo
Rodrigues

O presente capítulo traz a síntese da caracterização da atividade pesqueira na


Amazônia brasileira. São abordados os principais aspectos referentes à ecolo-
gia e biologia das espécies-alvo, consumo de pescado na região, artes de pesca
e frota pesqueira (assim como a evolução das tecnologias de pesca).
A maior parte dos dados apresentados na seqüência são provenientes de
estudos realizados por pesquisadores (consultores) no âmbito do Projeto
Manejo dos Recursos Naturais de Várzea – ProVárzea. O ProVárzea foi um
projeto de cooperação técnica internacional, implementado pelo Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA e
financiado pelos governos da Inglaterra, Alemanha e Brasil, entre os anos de
2000 e 2007, cujo objetivo principal era fornecer as bases científicas e práti-
cas para a execução de políticas públicas que visassem o desenvolvimento
sustentável do setor pesqueiro na bacia Amazônica.

A bacia Amazônica e seus recursos pesqueiros


pesqueiros
A bacia Amazônica abrange sete países da América do Sul: Bolívia, Brasil,
Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Venezuela. Na parte brasileira da bacia,
destaca-se a pesca comercial por ser a mais importante, em termos da produção
anual de animais aquáticos no país até recentemente. Sabe-se que a produção
pesqueira aumentou de forma considerável até meados dos anos 1990.
De acordo com Barthem e Fabré (2004), estima-se que grande parte das
espécies de peixes (aproximadamente 60%) são subexplotadas, enquanto 30%
estão em sobrepesca ou se recuperando, incluindo aí diversas espécies de ta-
manho grande e de lento crescimento como é o caso do tambaqui Colossoma
macropomum, e do surubim Pseudoplatystoma spp. Outras espécies de tama-
nho mediano, como o jaraqui Semaprochilodus spp., e a curimatã Prochilodus
nigricans, apresentam, da mesma forma, sinais de sobrepesca. No entanto, é
preciso interpretar com cautela os dados sobre os níveis de explotação, tendo
2 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

em vista que determinados fatores ambientais, como a intensidade das cheias,


ofuscam os efeitos da pesca, em especial o caso das espécies oportunistas ou
de ciclo de vida curto.
A intensa pressão pesqueira, associada com um fraco recrutamento cau-
sado pelas condições ambientais desfavoráveis, poderia ocasionar o esgota-
mento das pescarias. Por outro lado, positivamente, o pirarucu Arapaima gigas
e a piramutaba Brachyplatystoma vailantii estão em recuperação. No caso do
pirarucu, que passou a década de 1970 com a sua comercialização quase nula
e desapareceu completamente em algumas áreas, a recuperação pode estar
relacionada com a adoção de novas práticas de ordenação comunitária.
Ainda de acordo com Barthem e Fabré (2004), a pesca na Amazônia
destaca-se frente às demais regiões do país, tanto em relação à pesca costeira
quanto de águas interiores, em razão da riqueza de espécies explotadas, da
quantidade de pescado capturado e da dependência das comunidades tradici-
onais em relação à pesca.
Uma questão relevante é a unidade populacional explotada pela pesca.
Grande parte das espécies-alvo da pesca comercial são razoavelmente bem co-
nhecidas, no entanto, pouco se sabe se os indivíduos destas espécies estão agru-
pados em uma única população ou estoque pesqueiro. Segundo Barthem e
Fabré (2004), estima-se, conservadoramente, que o total desembarcado nos
núcleos urbanos e do que é consumido pela população ribeirinha gire em torno
de 400.000 toneladas anuais. Essa quantidade é expressiva, considerando que a
pesca na costa brasileira nunca alcançou 1.000.000 de toneladas anuais.
Outro fato para se comemorar é que a atividade pesqueira, que mesmo
se mantendo sem subsídio dos governos locais, é responsável por mais de
200.000 empregos diretos, além de fornecer a principal fonte protéica para a
população amazônica (FISCHER et al, 1992 apud BARTHEM; FABRÉ, 2004).
O consumo do pescado é difuso em áreas rurais, em torno de 500g por pes-
soa ao dia. Apesar de ser um dos mais elevados do mundo, comprovando a
dependência direta das comunidades tradicionais aos recursos pesqueiros, isto
nunca foi considerado nos indicadores econômicos regionais (Cf. BARTHEM;
FABRÉ, 2004).
Em virtude desse altíssimo consumo e, consequentemente, da pressão
pesqueira, é imprescindível pensar no manejo dos recursos pesqueiros para
conservação dos sistemas aquáticos amazônicos e a sustentabilidade de uma
atividade tão importante dentro do aspecto socioeconômico para a popula-
ção tradicional amazônica. A eficiência do manejo depende do conhecimento
integrado da biologia das espécies exploradas e das características ambientais
locais. Apesar disso, não se pode esquecer a importância do conhecimento
tradicional para a conservação dos recursos aquáticos.
A Pesca na Amazônia Brasileira 3

A atividade pesqueira concentra-se praticamente na planície, nos trechos


onde os rios são mais caudalosos, e na região estuarina, onde a água doce se
encontra com a água salgada do oceano. Apesar de não haver pesca expressi-
va nas demais estruturas geotectônicas, estas exercem uma função essencial na
constituição dos ambientes aquáticos e na produção biológica que sustenta os
recursos pesqueiros, de modo que a sua compreensão deve ser incluída nos
estudos relacionados à ecologia e à pesca da Amazônia.
Outro fator que explica a abundância pesqueira é a localização geográfi-
ca dos Andes. Nesta região ocorre a lixiviação dos nutrientes de suas encostas
pela forte chuva que alcança a 8.000 mm/ano, sendo importante para os
ecossistemas aquáticos e para a pesca (DAY; DAVIES, 1986 apud BARTHEM;
FABRÉ, 2004).
As águas na bacia amazônica classificam-se em: branca, preta e clara. Esta
classificação foi proposta por Harold Sioli há mais de 20 anos e seguida por
inúmeros estudos limnológicos realizados posteriormente (BARTHEM; FABRÉ,
2004). Os mais importantes afluentes de água branca nas cabeceiras do siste-
ma Solimões-Amazonas são os rios: Napo, Marañon e Tigre, e da margem
direita os afluentes são: Juruá, Purus e Madeira.
A diversidade de peixes é proporcional à dimensão da bacia amazônica.
Existem vários estudos que tratam sobre a quantidade de espécies encontra-
das na Amazônia. Estima-se que o número de espécies de peixes para toda a
bacia é maior que 1.300. Isto representa um número superior ao encontrado
nas demais bacias do mundo. Entretanto, considera-se que o estado atual de
conhecimento da ictiofauna da América do Sul se equivale ao dos Estados
Unidos e do Canadá de um século atrás, e que pelo menos 40% das espécies
de peixes ainda não haviam sido descritas, o que poderia elevar este número
para além de 1.800 espécies. Outro estudo estima o número de espécies de
peixes da América do Sul em torno de 3.000 (BARTHEM; FABRÉ, 2004).
Um dos estudos mais atuais aponta uma riqueza para a região em torno
de 8.000 espécies (VARI; MALABARBA, 1998 apud BARTHEM; FABRÉ, 2004).
Em razão disso, defende-se a expectativa da existência de endemismo nas
cabeceiras dos rios, uma vez que a região ainda apresenta poucos dados, e
esta ausência de dados mais precisos é o principal indutor das estimativas
elevadas de número de espécies para a região. Não raro, há a descrição de
novas espécies, mesmo sendo algumas delas já explotadas pela pesca comerci-
al, e diversos grupos ainda carecem de uma revisão mais atualizada.
De acordo com Barthem, Guerra e Valderrama (1995), as espécies explo-
radas pela pesca comercial e de subsistência são mais de 200. É claro que este
é um dado bem preliminar, uma vez que novas espécies de peixes de grande
4 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

porte estão sendo estudadas, descritas e catalogadas, e muitas outras, que


cotidianamente são desembarcadas na maioria dos mercados locais, apresen-
tam incertezas quanto à sua identificação. Algumas destas podem agrupar
mais de uma espécie, como acontece no caso das oriundas de água doce.
Analisando as estimativas da abundância de espécies da bacia, há uma previ-
são que a pesca comercial explore entre 2 e 10% de todas as espécies existen-
tes (BARTHEM; FABRÉ, 2004).
Apesar do número de espécies na Amazônia ser bem expressivo, a maior
parte do desembarque se concentra em poucas espécies ou grupos de espéci-
es. Algo entre 6 e 12 espécies representam mais de 80% do desembarque nos
principais portos da região, como os portos de Belém, Santarém, Manaus,
Tefé, Iquitos e Pucalpa (BARTHEM; FABRÉ, 2004).
Importa salientar que o tipo de ambiente encontrado nas áreas de pesca
determina a composição e a quantidade dos peixes capturados neste meio. E
isto é percebido nos diversos mercados encontrados em toda a Amazônia. En-
tretanto, a composição do desembarque pode também estar associada com a
preferência regional, como é o caso de espécies de escamas muito apreciadas,
enquanto que as espécies de bagres, em grande parte dos mercados da Amazô-
nia central, são rejeitadas em relação às espécies de escamas. As duas espécies
que mais se destacam na comercialização e que por conta disso são mais impor-
tantes para a região de uma forma geral são: curimatã Prochilodus nigricans, e
dourada Brachyplatystoma rousseauxii. Dentre todos os portos a exceção é
Manaus, onde o jaraqui Semaprochilodus sp. é o peixe mais importante, acom-
panhado pela curimatã Prochilodus nigricans (Cf. BARTHEM; FABRÉ, 2004).
O ritmo de inundação é determinante para existência, produtividade e
interação da biota existente nas áreas alagadas periodicamente, pois através
desse processo acontecem as mudanças físico-químicas do ambiente.
Consequentemente, as espécies respondem com uma série de adaptações
morfológicas, anatômicas, fisiológicas e etológicas e as comunidades com modi-
ficações em sua estrutura (JUNK et al., 1997 apud BARTHEM; FABRÉ, 2004).
O ciclo de inundação pode ser classificado em quatro fases: enchente,
cheia, vazante e seca. A enchente é caracterizada pela elevação do nível das
águas do rio, bem como pela expressiva ampliação dos ambientes aquáticos
na planície de inundação. Durante este período, logo no início, ocorre a deso-
va de inúmeras espécies migradoras, que com o auxílio da alagação espalham
seus ovos por estas áreas. Primeiramente, a enchente inunda os campos, em
seguida uma vegetação baixa e arbustiva, popularmente denominada de
chavascal, depois uma vegetação de transição entre a floresta arbórea e a
vegetação arbustiva e por fim a floresta arbórea (AYRES, 1993). São nestes
locais que os peixes encontram um ambiente propício para abrigo e alimento,
A Pesca na Amazônia Brasileira 5

tais como: frutos, folhas e sementes, derivados de florestas e de campos alaga-


dos, algas planctônicas e perifíticas, comumente encontradas em ambientes
lacustres e em áreas alagadas suavemente sombreadas, apresentando muita
matéria orgânica em decomposição, derivada das macrófitas aquáticas, resto
de animais e da floresta.
Esta fase é marcada pela grande dispersão dos peixes e pela intensidade
com que se alimentam, sendo assim o período no qual as espécies ligadas às
áreas alagadas apresentam a maior taxa de crescimento.
Já a cheia acontece quando o nível da água atinge o seu máximo, caracte-
rizando-se por três aspectos principais: pela curta duração, baixa oscilação do
nível da água, e pelo domínio do ambiente aquático na planície de inundação.
A vazante, no entanto, é o oposto da enchente, é o período que os peixes
começam a se agrupar, devido à contração do ambiente aquático. As espécies
migradoras iniciam a formação dos cardumes para grande viagem de dispersão,
que perdura por toda a seca até o início da enchente. O período de seca repre-
senta uma fase dramática para a esmagadora maioria das espécies, em razão do
ambiente aquático está bem restrito, com pouco alimento e abrigo. Opostamente,
este é o período mais propício aos predadores, que passam a perseguir os car-
dumes de caracoídeos e siluroídeos que se encontram migrando no canal do rio
ou presos nos lagos (Cf. BARTHEM; FABRÉ, 2004).
Mesmo com a alta diversidade das capturas, as 10 primeiras espécies
mais pescadas representam 83% dos volumes totais desembarcados. Entre as
espécies principais encontram-se: mapará Hypophthalmus spp., curimatã
Prochilodus nigricans , dourada Brachyplatystoma rousseauxii , jaraqui
Semaprochilodus spp., surubim Pseudoplatystoma spp., pescada Plagioscion
spp., piramutaba Brachyplatystoma vaillantii, aracu Anostomidae (alguns gê-
neros), pacu Serrasalminae (alguns gêneros) e filhote Brachyplathystoma
filamentosum (BARTHEM; FABRÉ, 2004).
Segundo a literatura pesqueira (BATISTA, 2001), as espécies de peixes
classificam-se em três grandes grupos, de acordo com as características do
ambiente e o comportamento dos peixes: os sedentários, encontrados mais
nos sistemas lacustres; os migradores, que transitam nos ambientes lacustres e
fluviais; e os grandes migradores, presentes especialmente na calha dos rios.
O ciclo de vida das espécies sedentárias ou lacustres desenvolve-se espe-
cialmente nos lagos ou em sistemas de lagos associados. Entretanto, existem
outros habitats relevantes para a reprodução e/ou refúgio, como por exem-
plo: aningais, chavascais, cabeceiras dos lagos dendríticos,1 canais, paranás.

1. Denominadas de gavetas pelos moradores locais.


6 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Importa dizer que algumas espécies migram em determinada época a


fim de se reproduzirem, se alimentarem ou se dispersarem e, de acordo com o
nível do rio, passam parte de seu ciclo vital nos lagos, principalmente no
período de enchente, se alimentando e crescendo. O jaraqui, por exemplo,
migra logo no primeiro ano de vida, assim como algumas espécies. Já o
tambaqui, bem como outras espécies, continua alguns anos habitando nas
áreas inundadas antes de começar sua migração pelo rio. Os jaraquis, curimatãs
e matrinchãs têm altas taxas de fecundidade e de crescimento e formam den-
sos e numerosos cardumes durante suas migrações.
Os peixes considerados grandes migradores têm como habitats princi-
pais o estuário e a calha dos rios e durante a sua longa jornada percorrem
mais de 3.000 km para completar suas migrações tróficas e reprodutivas. Estas
espécies possuem uma dependência indireta das planícies alagadas, uma vez
que, durante a seca, predam as espécies que estão saindo destas áreas. Para
Alonso (2002), um caso interessante é o da dourada que permanece no estu-
ário crescendo rapidamente por um período de dois anos até atingir cerca de
80cm, para iniciar sua migração rio acima até os países fronteiriços da Colôm-
bia e do Peru, onde residem os estoques de reprodutores.
De acordo com Barthem e Fabré (2004, p. 48), alguns fatores são deter-
minantes para a pesca na Amazônia:

A paisagem, os ambientes, as características climáticas e a dinâmica sazonal de


alagação na Amazônia determinam a distribuição e a ecologia dos recursos pes-
queiros, e conseqüentemente o comportamento do pescador e da pesca. A pesca
é influenciada pela cultura local e pelos fatos históricos da macroeconomia regio-
nal, nacional e até internacional, que determinaram mudanças na forma e inten-
sidade de exploração dos recursos pesqueiros amazônicos. Contudo a disponibi-
lidade, a acessibilidade e a vulnerabilidade dos recursos pesqueiros da Amazônia,
que representam a base de produção de um setor econômico que mobiliza mais
de US$ 200 milhões*ano-1, é o resultado da interação entre os componentes:
sazonalidade ambiental, recurso natural e capacidade pesqueira.

Nessa esteira não se pode deixar de destacar o aspecto cultural, pois a


pesca na Amazônia é muito mais que uma atividade laboral ou econômica,
representa uma forma de expressão cultural que transcende qualquer perspec-
tiva economicista ou ecológica.
Além de ser uma expressão da cultura amazônica, a pesca é um produto
histórico, pois a importância da pesca na Amazônia vem de antes da colonização,
quando os indígenas já utilizavam o pescado em sua dieta como principal item de
sua alimentação (VERÍSSIMO, 1895), embora as necessidades primárias de prote-
ínas dos ameríndios que viviam ao longo do Amazonas fossem complementadas
por quelônios e pelo peixe-boi (BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004).
A Pesca na Amazônia Brasileira 7

Transformações da tecnologia pesqueira na Amazônia


A tecnologia pesqueira avançou bastante desde o contato dos indígenas
com os portugueses. As redes, por exemplo, já eram utilizadas pelos índios
Carajá do rio Araguaia, no Pará, durante os séculos XVII e XVIII, fabricadas a
partir dos feixes de fibra de embaúba Cecropia spp., ou confeccionadas com
fibra de algodão, ou da folha da palmeira do tucumã Astrocaryum spp. Estes
apetrechos eram usados como barreiras ao deslocamento dos peixes que eram
capturados manualmente (MACHADO, 1947; LE COINTE, 1944 apud SMITH,
1979), ao invés de utilizá-las para emalhar, como hoje em dia acontece.
A malhadeira não era utilizada durante o final do século passado, bem
como no início do século XX. A malhadeira, como apetrecho de pesca na
região, só vai surgir timidamente no início da década de 1960 (BATISTA; ISAAC;
VIANA, 2004). De acordo com Petrere Junior (1978), o uso frequente da
malhadeira na pesca comercial já era percebido na década de 70. Dado que
também é confirmado por Smith (1979), indicando o uso deste apetrecho na
pesca ribeirinha no Alto Amazonas.
Outros instrumentos relevantes na pesca são os arcos e flechas, que são
utilizados pelos índios desde os tempos pré-coloniais, contudo no presente
são usadas com menor frequência. Etnógrafos e viajantes registraram que apro-
ximadamente 21 tribos usavam estes apetrechos. De acordo com Smith (1979),
os caboclos-ribeirinhos também se apropriaram deste instrumento, apesar de
a variedade de flechas ser aparentemente maior entre os índios do que atual-
mente se observa entre os caboclos-ribeirinhos.
Segundo Smith (1979), as tarrafas não eram usadas pelos índios, mas fo-
ram introduzidas na época colonial, juntamente com as redes de arrasto (FUR-
TADO, 1981). Não se sabe ao certo se as tribos usavam anzóis para pescar no
período que antecede à colonização. No entanto, Smith (1979) registra a utili-
zação de anzóis de material metálico pelos índios, em especial entre os Tiriyo,
Kalapalo e os Trumai, e existem referências de que índios Cioni, no rio Putumayo,
fabricavam anzóis de madeira ou ossos, iscados com frutos de embaúba Cecropia
sp. Além disso, Veríssimo (1895, p. 33) destaca que os índios transformaram:
“[...] pontas ou bicos de suas armas de pesca, primitivamente de osso, de dentes
de animais, de taquaras aguçadas em pontas de ferro [...]”. Isto indica a utiliza-
ção frequente pelos índios desse tipo de material.
O uso do caniço segue a mesma lógica, tendo em vista que os Tiriyo do
rio Paru usavam mandíbulas de formiga e garras de gavião real Harpia harpyia
como anzóis até se apropriarem dos anzóis de metal oriundos do Suriname.
Já os Jivaro e os Tukuna usavam anzóis de metal para a pesca com caniço
(GIACONE, 1949; NIMUENDAJÚ, 1952 apud SMITH, 1979).
8 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Da mesma maneira, não se esclarece se as zagaias foram usadas por tri-


bos amazônicas antes do contato com os europeus. Todavia, registra-se que
em 1852, em Alter do Chão, Pará, índios semi-integrados lanceavam peixes à
noite, usando feixes flamejantes feitos com frondes de palmeiras. Também há
registro que no início da década de 1950, os Ticuna do Alto Solimões já usa-
vam zagaias de 2m de comprimento equipadas com 4 a 9 pontas amoladas de
arame para pescar durante o dia, sendo que no passado as pontas eram de
madeira (BATES, 1864 apud SMITH, 1979).
A partir do Século XIX, a captura do pirarucu Arapaima gigas justificou a
primeira pescaria comercial em maior escala até então, embora ainda no sécu-
lo XVIII, muito provavelmente, já se tenha iniciado o desenvolvimento da sua
exploração. No final do século XIX, houve a queda da exploração do peixe-
boi, o que também contribuiu expressivamente para aumentar a pressão so-
bre o pirarucu.
Cabe ainda mencionar a importante contribuição do colonizador portu-
guês realizou à tecnologia pesqueira, com a introdução do metal na confec-
ção dos apetrechos, tais como: anzóis ou ponteira de apetrechos penetrantes.
Além disso, desenvolveu novas técnicas para o uso das redes confeccionadas
com fibras autóctones ou de algodão, materiais até então disponíveis, e a
introdução da técnica do arrastão de praia. Mais recentemente, em meados
das décadas de 1920 e 1930, surgem os primeiros registros de pescarias com o
uso de bomba para a captura de cardumes migradores.
A partir do final da década de 1940 e início da década de 1950, a pesca
passa por profundas transformações, através das importantes inovações
tecnológicas ocorridas nesta época; como a introdução dos motores a diesel,
e das embarcações equipadas com caixas de gelo. Embora estas embarcações
apresentassem um sistema de isolamento térmico precário, isto já permitia
que o raio de ação da frota de Manaus se ampliasse consideravelmente, se
estendendo do Baixo Madeira ao Baixo Purus (BITENCOURT, 1951).
A década de 1960 ficou marcada por três eventos impactantes para a
atividade pesqueira na região. O primeiro deles foi a introdução e a
popularização do polietileno ou isopor como isolante térmico, permitindo a
conservação e a acumulação do pescado por mais tempo, viabilizando ampli-
ar o raio de ação da frota. O segundo foi a criação da Zona Franca de Manaus,
responsável pelo vertiginoso crescimento da população urbana da cidade,
através da imigração de ribeirinhos, bem como, de pessoas interessadas pelo
pólo industrial, atraídas pela perspectiva de emprego na região. Nas cidades,
este contingente de pessoas aumentou substancialmente a demanda por pes-
cado, potencializando a pressão consumidora, e dessa forma, criando um
importante mercado urbano. Em terceiro lugar, houve a introdução de linhas
A Pesca na Amazônia Brasileira 9

sintéticas, que popularizaram o uso das redes de arrasto e de espera, favore-


cendo o aumento do esforço de pesca e consequentemente da produção.
Não há dúvida de que, com a criação da zona de livre comércio de
Manaus (Zona Franca), o Estado do Amazonas experimentou importantes
transformações, incluindo a ampliação do mercado para a pesca comercial.
Nesse contexto, a pesca então deixou de ser um problema pontual e localiza-
do para se tornar uma questão regional com fortes implicações sociais, econô-
micas, culturais, ecológicas e políticas.

Métodos tradicionais de pesca


Na Amazônia, devido à diversidade biológica, ambiental, social e cultu-
ral, encontra-se uma grande diversidade de aparelhos ou utensílios de pesca
usados pelos pescadores. Eles foram desenvolvidos com características especí-
ficas para capturar da maneira mais eficiente possível, um determinado recur-
so ou um conjunto de espécies alvo, sob uma condição ambiental específica.
Registra-se pelo menos 15 tipos diferentes de utensílios de pesca para Amazô-
nia (BARTHEM et al., 1997), dentre os quais destacam-se os mais tradicionais,
como arco e flecha, arpão, anzóis, linha-de-mão, espinhel e caniço, até os
mais modernos, como rede, tarrafa, malhadeira (ou rede-de-espera), rede-de-
cerco e arrastão (FERREIRA, 2009). Os apetrechos mais tradicionais em geral
apresentam baixo ou restrito poder de captura, por esta razão, são mais utili-
zados para subsistência das populações caboclas-ribeirinhas, enquanto que os
aparelhos considerados mais modernos, fabricados com base nas redes, são
mais apropriados para as pescarias comerciais na Amazônia, em razão do seu
maior poder de captura e eficiência.
O uso de determinado tipo de apetrecho depende exclusivamente da
espécie-alvo e/ou do ambiente de pesca eleito. Segundo Batista, Isaac e Viana
(2004, p. 193):

As redes de emalhar são as mais utilizadas em todos os casos, mas elas predomi-
nam nos ambientes lacustres. A miqueira e a malhadeira predominam nos lagos,
e as bubuias são mais usadas nos rios. Dentre estas redes, distinguimos o uso
muito freqüente de três tipos diferentes: i) a miqueira que é utilizada principal-
mente para a captura de mapará, mas também de peixes de escama, como o
pacu; ii) as malhadeiras muito utilizadas nos lagos na captura de tambaqui, acari
e pescadas, e no rio para pescar curimatã e bagres; iii) a bubuia utilizada princi-
palmente nos canais dos rios, para a captura de bagres, tais como dourada,
piramutaba, filhote, surubim, jaú e cujuba.

A tarrafa é um apetrecho polivalente, pois pode ser usada tanto nos rios
como nos lagos, destaca-se na captura de curimatã e surubim, por sua eficiên-
cia durante as subidas de piracemas nos canais mais estreitos dos rios ou nas
10 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

entradas dos lagos. Já, a redinha destaca-se na captura de jaraqui, bem como
de curimatã, piramutaba e mapará. É uma arte bem peculiar, que é utilizada
nos canais dos rios para a captura dos peixes migradores.

A frota pesqueira na Amazônia


frota
As embarcações de pesca na Amazônia têm dois momentos distintos,
antes e depois da década de 1960. Este período representa um divisor de
águas para a Amazônia e para a pesca, em particular. Na década de 1940,
aproximadamente, a pesca na Amazônia era praticada por uma frota bem
artesanal, composta por embarcações pequenas, construídas de madeira e com
propulsão a remo ou vela. A partir da década 1960, começa a transformação da
frota pesqueira na Amazônia, em razão da liberação de incentivos fiscais para a
região e da abertura da economia local a grandes empresas oriundas de outras
regiões do país, o que contribuiu para o ligeiro desenvolvimento tecnológico
da pesca. As frotas ganharam motores e artes de pesca mais resistentes (redes de
náilon) e mais eficientes na captura de peixes e crustáceos.
De acordo com Batista, Isaac e Viana (2004) o IBAMA estimou a que
frota pesqueira da Amazônia brasileira em 1994 contava com aproximada-
mente 20.000 barcos e podia ser dividida, inicialmente, de acordo com a sua
área de atuação em: i) frota marinha/estuarina e ii) frota de águas interiores.
Para este estudo importa mais a análise da frota de águas interiores.
Uma marca bastante significativa nas pescarias de águas interiores é a
exclusividade de embarcações artesanais, construídas de madeira, que podem
ser divididas em canoas e barcos geleiros. As canoas são embarcações bem
simples, de pequeno porte (3-5 m), não possuem casaria e nem porão para
guardar gelo ou pescado. Podem ser motorizadas ou movidas a vela e/ou a
remo. Quando motorizadas podem alcançar 10m de comprimento e trans-
portar em média até meia tonelada de pescado. As capturas são preferencial-
mente realizadas em locais próximos ao desembarque.
Já os barcos geleiros classificam-se de acordo com a sua forma de atua-
ção. Na Amazônia, na maioria dos casos, a captura é feita por canoas peque-
nas, que levam o pescador até o local da pescaria, uma vez que os locais de
pesca, geralmente, são de difícil acesso. No apoio encontra-se o “barco-base”,
onde ocorre a armazenagem da produção, que é conservada em gelo. Além
disso, têm-se:

[...] os barcos de pesca ou “pescadores” [que] são embarcações que possuem a


sua própria tripulação de pescadores. Os barcos “compradores” apenas percor-
rem as comunidades ribeirinhas ou locais de pesca, comprando pescado dos pes-
cadores locais. Existem também barcos “mistos” que tanto levam pescadores como
A Pesca na Amazônia Brasileira 11

efetuam compras. Adicionalmente, o pescado pode ser transportado a portos de


comercialização em caixas de isopor, carregadas por barcos de carga ou de trans-
porte de passageiros (BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004, p. 73).

Estima-se que nos portos do Baixo Amazonas, desembarcam mais de


1600 embarcações deste tipo (BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004), grande parte
identificada como barco pescador. Seus comprimentos médios e capacidade
de transporte de pescado são muito variados, misturando-se embarcações de
origens das mais diversas possíveis, que vão desde Almeirim até Manaus. As
embarcações provenientes do estado do Amazonas são geralmente de maior
porte e capacidade de transporte, em relação aos barcos do estado do Pará.
Segundo Batista, Isaac e Viana (2004), na Amazônia Central, a frota
pesqueira apresenta dois tipos característicos de embarcações pesqueiras: a
canoa e os barcos geleira, estes, por sua vez, também utilizando canoas. As
embarcações pesqueiras apresentam variação temporal e espacial no porte
das embarcações. Os barcos de Manaus possuem um tamanho em média en-
tre 10m e os 16m. O comprimento do casco é entre 8 e 24m em Manacapuru;
entre 9 e 23m em Itacoatiara e entre 4 e 20m em Parintins (BATISTA, 1998).
A captura por unidade de esforço varia muito, pois depende em regra
do tipo de pesca, sendo maior nos barcos de maior porte e maior capacidade
de carga e gelo. Este tipo de barco trabalha em maior escala e comercializa sua
produção diretamente para os frigoríficos. Os barcos mistos são mais eficien-
tes do que barcos pescadores, seguidos de canoas motorizadas e, por fim, as
canoas. Tanto os pescadores em canoas isoladas como os de barcos de pesca
utilizam a canoa para se deslocarem. No entanto, a existência do barco de
pesca possibilita o transporte de apetrechos de maior tamanho, com mais
facilidade e com maior mobilidade na região, havendo possibilidade de apre-
sentar produtividade diferente.

Características da pesca na Amazônia


A importância dos recursos pesqueiros na Amazônia é enorme, pois não
se limita ao tradicional destaque do papel ecológico ou econômico, cumpre
salientar o significativo impacto social e cultural deste recurso na região. O
pescado é claramente a principal fonte protéica na alimentação das popula-
ções ribeirinhas amazônicas, senão vejamos:

O consumo per capita de peixe no Brasil é de 20 gramas por dia (7 kg/ano),


enquanto a média mundial é de 16 kg/ano. Na Amazônia, o consumo é estimado
em 369g/dia (135 kg/ano). Observa-se, no entanto, que este é variável ao longo da
bacia hidrográfica, sendo de 490-600g/dia (179 a 219 kg/ano) no baixo Solimões/
alto Amazonas e 500-800g/dia (183 a 292 kg/ano) no Alto Solimões. Em Manaus,
12 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

o consumo per capita oscila entre 100 a 200g/dia (36 a 72 kg/ano). Como o
consumo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 12 kg/
ano, fica evidente a importância deste alimento para a região, onde o consumo de
pescado é até 15 vezes maior que o recomendado (FERREIRA, 2009, p. 22).

A atividade pesqueira na Amazônia pode ser dividida em cinco categori-


as: pesca de subsistência, pesca comercial, pesca industrial, pesca ornamental e
pesca esportiva (BARTHEM et al., 1997 apud BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004).
A pesca de subsistência é a explotação pesqueira mais antiga, existente
desde a Amazônia pré-colonial, sendo atualmente uma atividade habitual
exercida de maneira artesanal pelos caboclo-ribeirinhos. Estes exploram os
recursos através das mais diversificadas tecnologias, tornando as inúmeras es-
pécies de peixes, espalhadas em ambientes diversos, acessíveis e vulneráveis à
pesca conforme as mudanças dinâmicas na variação das enchentes e vazantes.
Atuam em complexos sistemas aquáticos, localizados geralmente a menos de
uma hora de suas casas, deslocando-se em canoas a remo, levando seus apare-
lhos de pesca, chamados no estado do Amazonas de “utensílios de pesca” e
no estado do Pará de “arreios de pesca”.
A captura tradicional de peixes realiza-se através de apetrechos simples,
como linha-de-mão com anzol, arpão ou arco e flecha, com métodos tão
antigos quanto à presença humana na Amazônia. A partir da década de 1960,
o uso de redes na pesca de subsistência passou a ser comum, quando o náilon
tornou-se mais disponível, contribuindo para que a malhadeira se tornasse o
utensílio de pesca mais importante nesta categoria.
Segundo Furtado (1981), a pesca comercial foi uma das primeiras ativida-
des econômicas da Amazônia colonial. A explotação pesqueira de escala iniciou
com as tartarugas, especialmente a tartaruga da Amazônia Podocnemis expansa.
Logo após, passou para o peixe-boi Trichechus inunguis e depois ao pirarucu
Arapaima gigas. A pressão pesqueira causou a redução drástica dos recursos,
chegando à beira da extinção, pois a exploração ocorreu de forma descontrola-
da, em razão da decadência de outros produtos regionais como a borracha
(extraída da seringueira Hevea brasiliensis), e a juta Corchorus capsularis.
Com a criação da Zona Franca de Manaus, houve um grande aumento
da demanda de pescado para os centros urbanos, principalmente pela
efervescência do momento, gerando um mercado propício para a atividade
pesqueira mercantil. Entretanto, isso só foi possível a partir da solução de
problemas-chave, como:

[...] a conservação do pescado, que foi solucionada com a maior disponibilidade


de gelo e de estruturas isotérmicas à base de isopor, madeira e zinco, construída nos
porões dos barcos de pesca. Facilidades outras ampliaram a explotação, destacan-
A Pesca na Amazônia Brasileira 13

do-se a introdução de motores a diesel a partir da década de 50 e a disponibilização


de linhas de náilon no comércio local a preços acessíveis na década de 60.
(MCGRATH et al., 1993a apud BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004, p. 80).

Desde então, o papel do pescador profissional ampliou-se consideravel-


mente. Este profissional da pesca, antes dessas transformações, era um pesca-
dor de subsistência, que aproveitou a oportunidade para alcançar melhores
condições de vida. O pescador profissional é caracterizado como citadino e
monovalente (FURTADO, 1993), tendo na pesca sua única ou principal ativi-
dade remunerada, com bons conhecimentos sobre o meio em que trabalham,
as águas em que pescam e sobre os peixes que capturam, possuindo notáveis
habilidades com os utensílios de pesca tradicionais que utilizam, embora se-
jam também muito supersticiosos.
Importa considerar que os mesmos fatores que contribuíram para o au-
mento dos pescadores citadinos também favoreceram a participação dos ribei-
rinhos moradores na geração de excedentes comercializáveis. Dessa forma, na
pesca comercial regional, encontram-se pescadores categorizados como profis-
sionais e como ribeirinhos moradores. No primeiro caso, os pescadores traba-
lham a partir de barcos de pesca ou pescam e vendem grande parte de sua
produção para as “geleiras” (embarcações com caixas ou urnas com gelo). No
segundo caso, os pescadores comercializam sua produção diretamente nos mer-
cados dos centros urbanos municipais ou remetem diretamente para grandes
centros urbanos, transportando a produção em caixas de isopor com gelo nos
barcos de linha regionais ou enviam indiretamente por intermédio das geleiras.
No Baixo Amazonas, a pesca é realizada pelos pescadores das principais
cidades do Médio Amazonas, como: “Santarém, Óbidos, Monte Alegre,
Alenquer, Prainha e Almeirim, e pelos pescadores de Manaus, à montante, e
Belém, Macapá e Abaetetuba, à jusante, bem como pelos moradores ribeiri-
nhos (BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004, p. 87)”. Nesta região, os lagos de
várzea são bem numerosos e estendem-se em ambas as margens. O principal
centro de comercialização de pescado é a cidade de Santarém, com um de-
sembarque aproximado de 4.000 toneladas de pescado anualmente. Desse
total, quase 100 espécies são comercializadas, embora apenas 10 espécies re-
presentam mais de 80% do total (BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004).
Constituída basicamente de bagres de grande porte (Siluriformes), a pro-
dução que vai para os frigoríficos representa aproximadamente 50% do total
desembarcado (ISAAC; RUFFINO, 2000). A pesca lacustre, em especial de
peixes de escama, acontece o ano inteiro, enquanto que a pesca de peixes
lisos na calha do rio é determinada pela sazonalidade, hidrologia e biologia
das espécies.
14 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

A arte de pesca mais utilizada é a rede de emalhar, seguida também do


uso frequente de tarrafa, anzol e espinhel. No período de safra, que ocorre de
julho a outubro, aumenta a diversidade de uso de aparelhos, bem como seu
uso associado. Mesmo sendo proibido, as pescarias com bomba continuam
sendo realizadas. Os apetrechos como rede de cerco, redinha ou arrastadeira,
são característicos das embarcações do estado do Amazonas, pois a determi-
nação proibitiva não era observada no estado. Já as redes de emalhar, são
mais utilizadas pelos pescadores comerciais, possuem uma classificação con-
forme a espécie-alvo e têm tamanhos de malha seletivos.
No Médio Amazonas, as pescarias artesanais utilizam uma grande varie-
dade de métodos de pesca, sendo as redes de emalhar as mais utilizadas. A
miqueira destaca-se por ser a mais produtiva dentre todas as redes, entretan-
to, as malhadeiras e bubuias também representam um método bem interes-
sante. A adoção de variadas artes de pesca contribui muito para o sucesso das
pescarias e, quando há a combinação de técnicas, aumenta a eficiência nas
capturas. Comumente ocorre a combinação de redes de emalhe com linhas,
permitindo otimizar a utilização do tempo, pois, enquanto as redes estão na
água, a captura passa a ser com linhas.
Para Batista, Isaac e Viana (2004), a pesca no Alto Amazonas (Baixo
Solimões) é realizada por aproximadamente 20 mil pescadores profissionais
fixados em Manaus e cidades circunvizinhas ou de áreas ribeirinhas, como
Manacapuru, Itacoatiara e Parintins e por cerca de 70 mil pescadores ribeiri-
nhos das comunidades das várzeas da região. A pesca acontece o ano inteiro
nos rios e lagos da região. Todavia, a pesca nos rios ocorre habitualmente nos
arredores da boca de lagos. O sucesso das pescarias é bem maior nos rios e
paranás durante os períodos que os peixes migram (abril a junho; agosto a
novembro), e nos lagos no período da estação seca (setembro a novembro).
Nesta região, o principal centro consumidor é Manaus, onde são
comercializadas em torno de 40 e 50 mil toneladas por ano (BATISTA; ISAAC;
VIANA, 2004). Os apetrechos de pesca mais usados pelos ribeirinhos desta
região são a malhadeira, o caniço e a tarrafa. Todavia, emprega-se mais de um
apetrecho por pescaria. A malhadeira é mais utilizada durante os períodos de
seca e enchente (outubro a abril), enquanto o caniço é o aparelho mais requi-
sitado no período da cheia, já iniciando a vazante (maio a julho). Nas embar-
cações de pesca de Manaus, predomina o uso da redinha. A malhadeira é o
segundo aparelho mais utilizado. Mais de 100 espécies ocorrem nas capturas
que desembarcam nas cidades e áreas rurais. No entanto, o desembarque na
cidade é muito mais centralizado do que o rural, com apenas 10 itens signifi-
cando mais de 90% do total.
A Pesca na Amazônia Brasileira 15

De acordo com um estudo,

A composição das capturas do pescador ribeirinho é bastante distinta entre ape-


trechos e de acordo com a finalidade da captura (Batista et al., 1998). Na pesca
para alimentação familiar, sardinha (Triportheus spp.) e pacu (Myleinae) são os
itens mais abundantes nas capturas efetuadas com caniço. Já com a tarrafa, são
destaques a branquinha (Curimatidae) e o bodó (Liposarcus pardalis). Com
malhadeira, a captura é maior para os itens bodó, curimatã (Prochilodus nigricans),
piranha (Serrasalmidae) e tambaqui/ruelo (Colossoma macropomum). Este uten-
sílio também é utilizado na pesca para comercialização, mas neste caso a curimatã
predominou com 40% do total, seguida pela aruanã (Osteoglossum bicirrhosum).
(BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004, p. 89).

Nas capturas realizadas pelos barcos de pesca, o tambaqui surge como a


principal espécie-alvo da malhadeira. Outras espécies como a aruanã
Osteoglossum bicirrhosum, os jaraquis e a curimatã também se destacaram.
Com o uso da redinha o jaraqui Semaprochilodus insignis e S. taeniurus apare-
ce claramente como a principal espécie-alvo, seguido de perto pela curimatã.
Além disso, pacu e matrinchã também têm boa presença, todavia apresentam
elevada variação interanual no desembarque.
Conforme Viana (2004), a pesca no Médio Solimões apresenta dados
bastante significativos. A cidade de Tefé é o principal porto de desembarque de
pescado daquela região. Os bagres representam uma parte expressiva da captu-
ra, sendo desembarcados diretamente nos frigoríficos locais, sem passar pelo
porto ou mercado da cidade. O volume de bagres capturados na região é de
aproximadamente 2.000 toneladas por ano, equiparando-se com a captura
registrada para Santarém. Nas pescarias de Tefé, encontram-se 17 variados tipos
de apetrechos de pesca, os quais podem ser agrupados da seguinte forma:

[...] anzol (inclui espinhel, caniço, poita, pinauaca, linha de mão, curumim e
currico), arpão (arpão, flecha, zagaia), redes de arrasto (rede-malhadeira,
arrastadeira e redinha), tarrafa (tarrafa), rede de emalhar (malhadeira), armadi-
lhas (curral), outros (mãos, não identificado)”. Barthem (1999) descreve as carac-
terísticas e o uso desses aparelhos em Tefé. (VIANA, 2004, p. 255).

Em Tefé, os primeiros barcos de pesca, sem caixas isotérmicas, surgem na


década de 1980. As pescarias utilizando esses barcos eram realizadas perto da
cidade, e sua duração não chegava a um dia, trazendo sempre o peixe fresco
para o mercado. De acordo com Viana (2004), o IBAMA de Tefé estima que
grande parte das embarcações pesqueiras dotadas com câmaras de gelo,
registradas na Capitania dos Portos do município, pelo seu porte, foram
construídas por estaleiros da cidade, em meados da década de 1980.
16 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Segundo Viana (2004), já na pesca no Alto Solimões chegando até Fonte


Boa, o principal porto de comercialização do pescado centraliza-se no merca-
do de Letícia na Colômbia, no qual desembarcam, constantemente, pescado
vindo de Manacapuru, no Baixo Solimões. Cidades próximas à Letícia, como
São Paulo de Olivença e Santo Antonio do Içá, no Amazonas, que têm suas
economias inteiramente ligadas com a atividade, bem como o fluxo de recur-
sos para comunidades ribeirinhas, dependem do bom andamento deste setor.
Dentre as principais espécies que se destacam na região estão: a doura-
da, o surubim, o pirarucu e a piraíba. No ano de 2001, em Letícia, o desem-
barque atingiu a marca de 8.217 toneladas. O ápice de produção para a
dourada acontece no mês de dezembro, entretanto, para a piraíba as capturas
são distribuídas de forma mais uniforme ao longo do ano, com picos em
maio, setembro e novembro. A maioria do pescado que abastece Letícia vem
do Alto Solimões brasileiro (BATISTA; ISAAC; VIANA, 2004).
Os rios desta região que apresentam maior produtividade pesqueira são
respectivamente: Japurá, Içá e Solimões. O setor colombiano do rio Amazo-
nas também apresenta melhora na sua produção. A região do Alto Solimões
apresenta uma boa diversidade de aparelhos de pesca encontrada nos rios Içá,
Japurá e Solimões; no entanto, evidenciaram-se diferenças no que tange aos
métodos de pesca mais frequentemente utilizados pelos ribeirinhos. Por exem-
plo, no Japurá, a pesca é realizada principalmente com poita, arpão, caniço e
espinhel, enquanto que no Içá são utilizados utensílios que requerem menor
desembolso por parte do pescador, como é o caso do caniço, flecha, arpão e
linha. No rio Solimões, o pescador lida principalmente com malhadeiras de
grande porte para a pesca dos grandes bagres, sendo estas pescarias com fins
comerciais. A pesca de subsistência, para alimentação da família, é feita utili-
zando tarrafa, zagaia e caniço. Demonstra-se que, em ambientes diversos, a
composição de equipamentos muda com o decorrer do tempo. Esses instru-
mentos de pesca são empregados durante o ano em diferentes proporções, na
descida das águas utiliza-se o arpão, já na subida das águas e durante parte da
descida usam-se a corda e as malhas.
A produtividade pesqueira apresenta similaridade entre rios e lagos. Isto
porque não apresenta diferenças ou tendências expressivas entre a produtivi-
dade do rio frente ao lago, talvez seja a escala de trabalho destes pescadores
a explicação, tendo em vista que utilizam áreas como lagos, furos, igarapés e
paranás, além de pescarem nos rios; entretanto, quando posicionados estrate-
gicamente na boca de lagos, potencializam a produtividade de suas pescarias,
segundo as condições ambientais.
A Pesca na Amazônia Brasileira 17

Considerações finais
Diante do contexto descrito acima, algumas considerações preliminares
podem ser registradas, como forma de direcionar a discussão para os próxi-
mos capítulos. Assim, pode-se afirmar que a pesca é uma atividade extrativa
de imensa importância para a bacia Amazônica e suas populações. A depen-
dência dessas populações em relação aos recursos pesqueiros pode ser confir-
mada pelo alto consumo de pescado nas cidades e pelos ribeirinhos, distribu-
ídos ao longo das várzeas e dos cursos d’água da bacia, onde seus padrões
culturais e suas formas de vida reforçam essa dependência.
As tecnologias de pesca evoluíram através do tempo. Melhores motores,
redes e formas de conservação do pescado tornaram-se disponíveis. Estas faci-
lidades refletiram na dinâmica do setor e proporcionaram capturas e desem-
barques crescentes. O aumento da pressão sobre alguns estoques conduziu a
sobrepesca e a necessidade de deslocamentos cada vez maiores por parte dos
pescadores comerciais.
Entretanto, apesar do volume e da importância do setor pesqueiro na
Amazônia, pode-se afirmar que o mesmo ainda carece de investimentos go-
vernamentais, implementação de políticas de ordenamento e incentivo à or-
ganização.

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18 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

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O Direito P esqueir
Pesqueir
esqueiroo
no Ordenamento
2
Jurídico Brasileiro
Brasileiro
Serguei Aily Franco de Camargo
Franco
Andrei Sicsú de Souza
Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo
Rodrigues

O presente capítulo traz uma visão geral do arcabouço jurídico relativo à


tutela da atividade pesqueira no Brasil. Inicia contextualizando epistemolo-
gicamente o direito pesqueiro e, em seguida, aborda questões referentes ao
direito constitucional. A legislação infraconstitucional sobre a matéria, assim
como os aspectos gerais sobre as distribuições de competências materiais so-
bre o tema também serão abordados.
Observe-se inicialmente que pouca literatura jurídica trata do manejo de
fauna e, mais especificamente, do direito pesqueiro no Brasil. Nesse sentido,
pode-se afirmar, com uma boa margem de segurança, que praticamente toda
a doutrina disponível sobre o tema em foco é proveniente de outras áreas do
conhecimento (normalmente produzidas por engenheiros de pesca, biólogos,
ecólogos, entre outros). Sendo assim, primou-se por uma apresentação sinté-
tica da lei, com observações pessoais dos autores.

O direito pesqueiro
pesqueiro
Ainda não se pode falar em um direito pesqueiro autônomo, uma vez
que este ramo do direito não possui autonomia epistemológica e nem princí-
pios próprios que o fundamentem. O direito pesqueiro localiza-se abrigado
pelo direito agrário, seguindo a orientação do art. 187 da Constituição Fede-
ral, ao dispor que o planejamento agrícola deve compreender as atividades
agroindustriais, agropecuárias, pesqueiras e florestais. Reforçando essa idéia,
encontra-se o art. 27, da Política Nacional de Pesca, instituída pela Lei 11.959
de 29 de junho de 2009, que declara que são considerados produtores rurais
e beneficiários da política agrícola as pessoas físicas e jurídicas que desenvol-
vam atividade pesqueira de captura e criação de pescado. No mesmo sentido
dispõe o ainda vigente art. 18, parágrafo único do Código de Pesca, Decreto
20 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Lei 221 de 28 de fevereiro de 1967, ao prescrever que as operações de captura


e transformação de pescado são consideradas atividades agropecuárias para
efeito legal.
O princípio da função social aplicado ao direito agrário obriga, dentre
outras coisas, que o proprietário rural faça a utilização adequada dos recursos
naturais disponíveis preservando o meio ambiente. Observa-se também que a
atividade pesqueira interessa ao direito ambiental, quando a Constituição, em
seu art. 225, § 1º, inciso I, incumbe o Poder Público de preservar e restaurar os
processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e
ecossistemas, e de proteger a fauna e a flora, vedando as práticas que colo-
quem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou
submetam os animais a crueldade, conforme o inciso VII do mesmo artigo.

A Constituição Federal de 1988


Federal
A análise do ordenamento pesqueiro exige um estudo detalhado do
arcabouço legal que regulamenta a atividade no país. Esta tarefa deve obede-
cer a hierarquia normativa que orienta o estudo a partir da Lei Maior de um
Estado, que no caso é a Constituição Federal. Paralelamente à Carta Política
de 1988, cabe também uma análise atenta dos documentos internacionais1
que interessam à matéria, sem esquecer, é claro, de toda a regulação infracons-
titucional que rege o tema.
A Constituição da República Federativa do Brasil (CF/88) em seu art. 20,
inciso III, diz que são bens da União, lagos, rios e quaisquer correntes de água
em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de
limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele
provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais. Diz ainda,
no inciso V do supracitado artigo, que os recursos naturais da plataforma
continental e da zona econômica exclusiva também pertencem à União.
O art. 23 da CF/88 declara que é competência comum da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios a proteção do meio ambiente e
a preservação das florestas, da fauna e da flora. O art. 24 preconiza que
compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre pesca, conservação da natureza e proteção do bem ambiental. No en-
tanto, apesar da CF/88 ser bem explícita, uma corrente minoritária entende
que o Município também tem competência para legislar sobre a matéria pos-
ta, com base no art. 30, ao dizer que compete aos Municípios legislar sobre

1. A análise dos instrumentos jurídicos internacionais referentes à pesca será feita em capí-
tulo próprio.
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 21

assuntos de interesse local e suplementar a legislação federal e a estadual no


que couber. Ocorre que a CF/88 não autoriza o Município a legislar sobre
estes temas.
Em termos práticos, o problema maior dos municípios legislarem sobre
pesca é a necessidade de se pensar a bacia hidrográfica como unidade de
gestão, pois não há bacias que se circunscrevam ao território de um município
e se as legislações entre municípios vizinhos forem incompatíveis, a gestão
torna-se impossível.

Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da


Aquicultura e da P esca
Pesca
A Lei nº 11.959, de 29 de junho de 2009 (nova lei da pesca) estabelece a
Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura e da Pesca,
regulando as atividades pesqueiras e revogando a Lei nº 7.679, de 23 de
novembro de 1988, que tratava sobre a proibição da pesca de espécies em
períodos de reprodução. Referido dispositivos revogaram ainda os arts. 1º a
5º, 7º a 18, 20 a 28, 30 a 50, 53 a 92 e 94 a 99 do Decreto-Lei nº 221, de 28
de fevereiro de 1967, o antigo Código de Pesca.
A Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura e da
Pesca traz como objetivos: o desenvolvimento sustentável da pesca como
fonte de alimentação, emprego, renda e lazer, garantindo-se o uso sustentável
dos recursos pesqueiros, visando também a otimização dos benefícios econô-
micos decorrentes, em estreita harmonia com a preservação e a conservação
do meio ambiente e da biodiversidade; o ordenamento, o fomento e a fisca-
lização de toda a atividade pesqueira; a preservação, a conservação e a recu-
peração dos recursos pesqueiros e dos ecossistemas aquáticos; e, por fim, o
desenvolvimento socioeconômico, cultural e profissional dos que exercem a
atividade pesqueira, bem como de suas comunidades.
Em seu art. 2º, I, a lei define recursos pesqueiros como: “os animais e os
vegetais hidróbios2 passíveis de exploração, estudo ou pesquisa pela pesca
amadora, de subsistência, científica, comercial e pela aquicultura”. No inciso
III do mesmo artigo declara que pesca “é toda operação, ação ou ato tenden-
te a extrair, colher, apanhar, apreender ou capturar recursos pesqueiros”. Já o
ultrapassado Código de Pesca de 1967 definia pesca como: “todo ato tenden-
te a capturar ou extrair elementos animais ou vegetais que tenham na água
seu normal ou mais frequente meio de vida”.

2. Que tenham na água seu normal ou mais frequente meio de vida.


22 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

No inciso X ainda do art. 2º, o novel estatuto dispõe sobre as áreas de


exercício da atividade pesqueira, dizendo que tais áreas se classificam da se-
guinte forma: i) as águas continentais; ii) interiores; iii) o mar territorial; iv) a
plataforma continental; v) a zona econômica exclusiva brasileira; vi) o alto-
mar; e, finalmente, vii) outras áreas de pesca.
Segundo o inciso XII do mesmo artigo, o ordenamento pesqueiro é o
conjunto sistematizado de normas e ações que permitem administrar a ativi-
dade pesqueira, com base no conhecimento atualizado dos seus componentes
biológico-pesqueiros, ecossistêmico, econômicos e sociais.
De acordo com o art. 3º da lei em tela, o Poder Público deve regulamen-
tar da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Atividade Pes-
queira, conciliando o equilíbrio entre o princípio da sustentabilidade dos re-
cursos pesqueiros e a obtenção de melhores resultados econômicos e sociais
possíveis. Para tanto, o gestor pesqueiro deve nortear sua política de pesca
calculando, autorizando ou estabelecendo, em cada caso em particular: i) os
regimes de acesso; ii) a captura total permissível; iii) o esforço de pesca susten-
tável; iv) os períodos de defeso; v) as temporadas de pesca; vi) os tamanhos
de captura; vii) as áreas interditadas ou de reservas; viii) as artes, os aparelhos,
os métodos e os sistemas de pesca e cultivo; ix) a capacidade de suporte dos
ambientes; x) as necessárias ações de monitoramento, controle e fiscalização
da atividade; e, xi) a proteção de indivíduos em processo de reprodução ou
recomposição de estoques. Ademais, em seu §1º, do mesmo artigo, a lei deter-
mina que o ordenamento pesqueiro deve considerar as peculiaridades e as
necessidades dos pescadores artesanais, de subsistência e da aquicultura fami-
liar, visando a garantir sua permanência e sua continuidade.
Ao analisar o art. 4º da lei, percebe-se que a atividade pesqueira não se
limita ao ato puro e simples de pescar, mas compreende todos os processos
envolvidos na pesca, incluindo aí a explotação,3 a exploração, o cultivo, a
conservação, o processamento, o transporte, a comercialização e a pesquisa
dos recursos pesqueiros.
O art. 5º da lei preconiza que o ato autorizativo prévio exarado pela auto-
ridade competente para o exercício da atividade pesqueira deve assegurar, entre
outras coisas: a proteção dos ecossistemas e a manutenção do equilíbrio ecológi-
co, observados os princípios de preservação da biodiversidade e o uso sustentável
dos recursos naturais; e, a busca de mecanismos para a garantia da proteção e da
seguridade do trabalhador e das populações com saberes tradicionais.
Conforme o art. 7º, da Política Nacional de Pesca só se atinge o desen-
volvimento sustentável através dos seguintes meios: i) gestão do acesso e uso

3. Tirar proveito econômico de (determinada área), sobretudo quanto aos recursos naturais.
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 23

dos recursos pesqueiros; ii) determinação de áreas especialmente protegidas;


iii) participação social; iv) capacitação da mão de obra do setor pesqueiro; v)
educação ambiental; vi) construção e modernização da infraestrutura portuá-
ria de terminais portuários, além da melhoria dos serviços portuários; vii)
pesquisa dos recursos, técnicas e métodos pertinentes à atividade pesqueira;
viii) sistema de informações sobre a atividade pesqueira; ix) controle e a fisca-
lização da atividade pesqueira; e x) crédito para fomento ao setor pesqueiro.
De acordo com o arcaico Código de Pesca de 1967 em seu art. 2º, a
pesca era classificada em apenas três formas: a pesca comercial, a pesca
desportiva e a pesca científica. A pesca comercial é a que tem por finalidade
realizar atos de comércio na forma legal. A pesca desportiva é a que se pratica
com linha de mão, por meio de aparelhos de mergulho ou quaisquer outros
permitidos pela autoridade competente, e que em nenhuma hipótese venha a
importar em atividade comercial. E, finalmente, a pesca científica é a exercida
unicamente com fins de pesquisas por instituições ou pessoas devidamente
habilitadas para tal fim.
Já a Lei nº 11.959/09, no art. 8º que trata da pesca, inova ao trazer uma
classificação mais fiel, estabelecendo que a pesca se apresenta de duas formas
básicas: pesca comercial e pesca não-comercial. A pesca comercial pode ser: i)
artesanal quando praticada diretamente por pescador profissional, de forma
autônoma ou em regime de economia familiar, com meios de produção pró-
prios ou mediante contrato de parceria, desembarcado, podendo utilizar em-
barcações de pequeno porte; ii) industrial quando praticada por pessoa física
ou jurídica e envolver pescadores profissionais, empregados ou em regime de
parceria por cotas-partes, utilizando embarcações de pequeno, médio ou grande
porte, com finalidade comercial.
Ou pode ser não comercial: i) científica quando praticada por pessoa
física ou jurídica, com a finalidade de pesquisa científica; amadora quando
praticada por brasileiro ou estrangeiro, com equipamentos ou petrechos pre-
vistos em legislação específica, tendo por finalidade o lazer ou o desporto; e,
por fim, ii) de subsistência quando praticada com fins de consumo doméstico
ou escambo sem fins de lucro e utilizando petrechos previstos em legislação
específica.
Cumpre destacar que no parágrafo único, do art. 4º, a lei esclarece que
se considera atividade pesqueira artesanal, os trabalhos de confecção e de
reparos de artes e petrechos de pesca, os reparos realizados em embarcações
de pequeno porte e o processamento do produto da pesca artesanal. Com
isso, a lei estende o conteúdo material do conceito de pesca artesanal, con-
templando também as atividades meio.
24 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

É claro que a nova lei trouxe avanços, principalmente em comparação


com o código de 1967. Entretanto, não se pode negar o forte traço produtivista
que a lei possui.

Lei Nº 11.958, de 26 de Junho de 2009 –


Criação do Ministério da Pesca e A
Pesca quicultura
Aquicultura
A Lei nº 11.958, de 26 de junho de 2009, que altera a Lei nº 10.683, de
28 de maio de 2003, dispondo sobre a transformação da Secretaria Especial
de Aquicultura e Pesca da Presidência da República em Ministério da Pesca e
Aquicultura, é uma reprodução quase fiel da Medida Provisória nº 437 de 29
de julho de 2008, assinada pelo então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva no
dia 04 de agosto do mesmo ano, na ocasião do lançamento do projeto “Mais
Pesca e Aquicultura” e do Plano de Desenvolvimento Sustentável 2008/2011
na cidade de Salvador.
Segundo o Discurso do Ex-Presidente da Repuìblica, Luiz Inaìcio Lula da
Silva, na cerimônia de abertura da 1a Conferência Nacional de Aquicultura e
Pesca em 2003 (MPA, 2012), o Brasil, com 8,5 milhões km², com 8 mil quilô-
metros de costa e 190 milhões de habitantes, só produz 1 milhão de toneladas
de pescado por ano. Enquanto o Peru, pesca nove vezes mais e só tem 27
milhões de habitantes e o Chile, que tem uma população de apenas 13 mi-
lhões, pesca o dobro que o Brasil. Ressalte-se, entretanto que na costa do Peru
existem áreas de ressurgência, que elevam a produtividade primária do siste-
ma, proporcionando uma produção pesqueira imensa, principalmente de
anchoveta, que é uma espécie filtradora. Por isso, em comparação, pode-se
afirmar que a costa brasileira é pobre e não sustenta uma produção como a
do Peru.
Este Plano de Desenvolvimento Sustentável “Mais Pesca e Aquicultura”
visa fomentar a produção de pescado no país, com metas a serem cumpridas
até 2011, para atender à crescente demanda mundial por alimentos. Além
disso, o plano objetiva ainda a geração de empregos, o aumento de renda
dos trabalhadores do setor, o incentivo à criação em cativeiro, à pesca oceâni-
ca, o estímulo ao consumo e à melhoria das condições sociais e de trabalho
dos pescadores artesanais. Se as metas forem alcançadas, a produção de pesca-
do deverá ter um aumento em torno de 40%, devendo passar da atual marca
de um milhão de toneladas para 1,4 milhões por ano (MPA, 2012).
A Lei 11.958/2009 diz ainda que as Superintendências Federais de Pesca
e Aquicultura terão jurisdição no âmbito de cada Estado da Federação e do
Distrito Federal, exceto quando no interesse comum, para execução das res-
pectivas atribuições, mediante ato do Ministro de Estado.
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 25

Contudo, até que seja aprovada a estrutura regimental do Ministério da


Pesca e Aquicultura, são mantidas a estrutura, as competências, as atribuições,
a denominação das unidades e a especificação dos cargos da Secretaria Especi-
al de Aquicultura e Pesca, vigentes em 29 de julho de 2008, cabendo à Subchefia
para Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República prestar assis-
tência jurídica ao órgão.

Decreto Nº 6.678, de 8 de dezembro de 2008


dezembro
Merece destaque o Decreto nº 6.678, de 8 de dezembro de 2008, que
aprovou o VII Plano Setorial para os Recursos do Mar. Este instrumento utiliza
como base legal a Agenda 21, adotada na Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), a Convenção sobre
Diversidade Biológica, o Código de Conduta para a Pesca Responsável da
FAO e os planos internacionais de ação correlatos, o que representa um im-
portante avanço para a gestão de recursos pesqueiros no país. O dispositivo
orienta juridicamente o papel do Estado e dos usuários em um sistema de
gestão integrada e participativa, que se pauta principalmente pela aplicação
do Princípio da Precaução. Adiciona-se a isso, o fato da Política Nacional para
os Recursos do Mar (PNRM) incluir entre os seus objetivos a promoção do
desenvolvimento socioeconômico a partir do uso sustentável desses recursos
e o resgate da cultura das populações tradicionais.

Política Nacional de Recursos Hídricos


Recursos
Outro instrumento jurídico importante é a Política Nacional de Recursos
Hídricos (Lei nº 9.433/1997), a qual considera a ictiofauna como parte inte-
grante dos recursos hídricos e que, portanto, deve ser manejada por bacia
hidrográfica. Nesta perspectiva, são os Comitês de Bacia que definem as prio-
ridades de manejo sustentável, a partir da combinação da disponibilidade dos
recursos naturais e as necessidades e características sociais. Uma prova disso é
que as opiniões da comunidade e/ou usuários devem ser consideradas nas
decisões administrativas desses comitês. Porém, vale lembrar que estas deci-
sões devem respeitar o interesse público, contemplando os direitos constituci-
onais das presentes e futuras gerações, segundo o art. 225 caput da CF/88,
além de contribuir para o desenvolvimento sustentável.

Política Nacional de Educação Ambiental (Lei Nº 9.795/99)


Importa também destacar a Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, que
dispõe sobre a educação ambiental, instituindo a Política Nacional de Educa-
ção Ambiental. Logo no art. 1º, a lei define educação ambiental como:
26 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores


sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a con-
servação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qua-
lidade de vida e sua sustentabilidade.

Em seu art. 3º, o dispositivo legal declara que a educação ambiental é


um direito de todos, como parte de um processo mais amplo, incumbindo,
no inciso VI do mesmo artigo, à sociedade como um todo, a manter a aten-
ção permanente para a formação de valores, atitudes e habilidades que incen-
tivem a atuação individual e coletiva voltada para a prevenção, a identifica-
ção e a solução de problemas ambientais.
No art. 4º, a lei estabelece os princípios que devem nortear a educação
ambiental no país. Para esta análise interessa destacar, o enfoque humanista,
holístico, democrático e participativo; a concepção do meio ambiente em sua
totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o
socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; bem como o
reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural.
Já no art. 5º encontram-se os objetivos da educação ambiental, dentre
eles destacam-se: i) o desenvolvimento de uma compreensão integrada do
meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo, dentre
outros aspectos, os socioculturais; ii) o incentivo à participação individual e
coletiva, permanente e responsável, na preservação do equilíbrio do meio
ambiente, entendendo-se a defesa da qualidade ambiental como um valor
inseparável do exercício da cidadania; iii) o estímulo à cooperação entre as
diversas regiões do Brasil, em níveis micro e macrorregionais, com o propósi-
to de construir uma sociedade ambientalmente equilibrada, fundada nos prin-
cípios da liberdade, igualdade, solidariedade, democracia, justiça social, res-
ponsabilidade e sustentabilidade; iv) assim como, o fortalecimento da cidada-
nia, autodeterminação dos povos e solidariedade como fundamentos para o
futuro da humanidade.
A educação ambiental pode dar-se de várias formas. Uma das formas
que mais se aproxima das comunidades tradicionais, dos caboclos e ribeiri-
nhos da Amazônia é a educação ambiental não-formal que compreende as
ações e práticas educativas voltadas à sensibilização da coletividade sobre as
questões ambientais e à sua organização e participação na defesa da qualida-
de do meio ambiente, principalmente, a sensibilização ambiental das popula-
ções tradicionais ligadas às unidades de conservação, conforme o art. 13, inciso
V da referida lei.
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 27

Lei de Crimes Ambientais (Lei Nº 9.605/98)


Em matéria penal, encontra-se a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998
(Lei de Crimes Ambientais), que dispõe sobre as sanções penais e administrati-
vas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. O art. 33
tipifica que aquele que provocar, pela emissão de efluentes ou carreamento
de materiais, o perecimento de espécimes da fauna aquática existentes em
rios, lagos, açudes, lagoas, baías ou águas jurisdicionais brasileiras, sofrerá uma
pena de detenção, de um a três anos, ou multa, ou ambas cumulativamente.
Pontua ainda que incorre nas mesmas penas:

I – quem causa degradação em viveiros, açudes ou estações de aquicultura de


domínio público;
II – quem explora campos naturais de invertebrados aquáticos e algas, sem licen-
ça, permissão ou autorização da autoridade competente;
III – quem fundeia embarcações ou lança detritos de qualquer natureza sobre
bancos de moluscos ou corais, devidamente demarcados em carta náutica.

Tipifica ainda a lei em seu art. 34, que quem pescar em período no qual
a pesca seja proibida ou em lugares interditados por órgão competente, será
penalizado com detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas
cumulativamente. Além disso, incorre nas mesmas penas quem:

Art. 34. [...]


I – pesca espécies que devam ser preservadas ou espécimes com tamanhos inferi-
ores aos permitidos;
II – pesca quantidades superiores às permitidas, ou mediante a utilização de apa-
relhos, petrechos, técnicas e métodos não permitidos;
III – transporta, comercializa, beneficia ou industrializa espécimes provenientes
da coleta, apanha e pesca proibidas.

No art. 35, a lei penal ambiental destaca que é crime pescar mediante a
utilização de explosivos ou substâncias que, em contato com a água, produ-
zam efeito semelhante, bem como a utilização de substâncias tóxicas, ou ou-
tro meio proibido pela autoridade competente. Nestes casos a pena é de
reclusão de um a cinco anos.
Vale mencionar também que, em seu art. 36, a lei que pune os crimino-
sos ambientais, define a pesca como:

todo ato tendente a retirar, extrair, coletar, apanhar, apreender ou capturar espé-
cimes dos grupos dos peixes, crustáceos, moluscos e vegetais hidróbios, suscetí-
veis ou não de aproveitamento econômico, ressalvadas as espécies ameaçadas de
extinção, constantes nas listas oficiais da fauna e da flora.
28 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

O Decreto Lei 221/1967, em seu art. 1o, definia pesca como sendo: “[...]
todo ato tendente a capturar ou extrair elementos animais ou vegetais que
tenham na água seu normal ou mais frequente meio de vida.”. Assim, é possí-
vel perceber que a lei criminal ampliou o rol de verbos-tipo relacionados à
conduta criminosa do agente. Ressalte-se também que para a lei criminal, a
finalidade da pesca não precisa ser econômica.
Por outro lado, segundo Constantino (2001), o legislador cometeu peri-
goso equívoco, ao deixar propositadamente desprotegidos os mamíferos aqu-
áticos, cuja pesca é regulamentada por legislação própria. Nesse caso, ao men-
cionar no final do art. 36 “ressalvadas as espécies ameaçadas de extinção”, os
mamíferos aquáticos restam duplamente desprotegidos, pois, apesar de cons-
tarem nas listas oficiais de espécies ameaçadas, estão sujeitos a aplicação de
legislação pesqueira especial (de cunho administrativo, proveniente do IBAMA
ou MPA). Caso inexistam essas normas administrativas, as condutas típicas
não poderão ser punidas, uma vez que os mamíferos não se enquadram em
nenhum dos grupos biológicos descritos no caput do artigo em tela.

Política Nacional da Biodiversidade (Decreto Nº 4.339/02)


Importa mencionar também, o Decreto nº 4.339, de 22 de agosto de
2002, que instituiu a Política Nacional da Biodiversidade, trazendo princípios
e diretrizes para sua implementação. A Política Nacional da Biodiversidade
tem como objetivo geral a promoção da conservação da biodiversidade e da
utilização sustentável de seus componentes, de maneira integrada, com a re-
partição justa e equitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos
genéticos, de componentes do patrimônio genético e dos conhecimentos tra-
dicionais associados a esses recursos.
Esta política estabelece como princípios a soberania dos Estados sobre a
exploração de seus próprios recursos biológicos, conforme as políticas de meio
ambiente e de desenvolvimento implementadas pelos próprios países. Além
disso, os países se responsabilizam pela conservação de sua biodiversidade.
Declara ainda como princípio que o manejo de solos, águas e recursos bioló-
gicos são uma questão de escolha da sociedade, devendo envolver todos os
setores relevantes da sociedade e todas as disciplinas científicas e considerar
todas as formas de informação pertinentes, incluindo os conhecimentos cien-
tíficos, tradicionais e locais, inovações e costumes.
Destaca também que a manutenção da diversidade cultural nacional é
importante para pluralidade de valores na sociedade em relação à
biodiversidade, sendo que os povos indígenas, os quilombolas e as outras
comunidades locais desempenham um papel importante na conservação e na
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 29

utilização sustentável da biodiversidade brasileira, ressaltando ainda que to-


das as ações relacionadas ao acesso ao conhecimento tradicional associado à
biodiversidade deverão transcorrer com consentimento prévio informado dos
povos indígenas, dos quilombolas e das outras comunidades locais.
Salienta, além disso, que o valor de uso da biodiversidade é determina-
do pelos valores culturais, incluindo aí valor de uso direto e indireto, de op-
ção de uso futuro e, ainda, valor intrínseco, incluindo os valores ecológico,
genético, social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e es-
tético.
A política prevê ainda algumas diretrizes, tais como: a que aponta que a
sustentabilidade da utilização de componentes da biodiversidade deve ser de-
terminada do ponto de vista econômico, social e ambiental, especialmente quan-
to à manutenção da biodiversidade; que a gestão dos ecossistemas deve ser
descentralizada e implementada nas escalas espaciais e temporais apropriadas.
Traz ainda, alguns componentes integrantes desta política e seus respec-
tivos objetivos específicos, os quais devem ser considerados como os eixos
temáticos que orientarão as etapas de implementação desta. Como exemplo
está o componente 1, que trata do conhecimento da biodiversidade, congre-
gando diretrizes voltadas à geração, sistematização e disponibilização de in-
formações que permitam conhecer os componentes da biodiversidade do país
e que apóiem a gestão da biodiversidade, bem como diretrizes relacionadas à
produção de inventários, à realização de pesquisas ecológicas e à realização
de pesquisas sobre conhecimentos tradicionais.
No campo de análise deste componente, encontram-se os seguintes ob-
jetivos específicos: i) apoiar estudos que promovam a utilização sustentável
da biodiversidade em benefício de povos indígenas, quilombolas e outras
comunidades locais, assegurando sua participação direta; ii) desenvolver estu-
dos acerca do conhecimento, inovações e práticas dos povos indígenas,
quilombolas e outras comunidades locais, respeitando, resgatando, manten-
do e preservando os valores culturais agregados a estes conhecimentos, ino-
vações e práticas, e assegurando a confidencialidade das informações obtidas,
sempre que solicitado pelas partes detentoras destes ou quando a sua divulga-
ção possa ocasionar dano à integridade social, ambiental ou cultural destas
comunidades ou povos detentores destes conhecimentos; iii) apoiar estudos e
iniciativas de povos indígenas, quilombos e outras comunidades locais de sis-
tematização de seus conhecimentos, inovações e práticas, com ênfase nos te-
mas de valoração, valorização, conservação e utilização sustentável dos recur-
sos da biodiversidade; iv) promover estudos e iniciativas de diferentes setores
da sociedade voltados para a valoração, valorização, conhecimento, conser-
30 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

vação e utilização sustentável dos saberes tradicionais de povos indígenas,


quilombolas e outras comunidades locais, assegurando a participação direta
dos detentores desse conhecimento tradicional; v) além de apoiar e estimular
a pesquisa sobre o saber tradicional (conhecimentos, práticas e inovações) de
povos indígenas, quilombolas e outras comunidades locais, assegurando a sua
integridade sociocultural, a posse e o usufruto de suas terras.

Competências materiais sobre a pesca


Conforme já disposto, o Ministério da Pesca e Aquicultura foi criado
pela Lei nº 11.958, de 26 de junho de 2009, que altera a Lei nº 10.683/03, a
partir da transformação da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presi-
dência da República em Ministério da Pesca e Aquicultura. Entre suas compe-
tências, têm-se (art. 27, XXIV da Lei nº 10.683/03):
a) política nacional pesqueira e aquícola, abrangendo produção, trans-
porte, beneficiamento, transformação, comercialização, abastecimen-
to e armazenagem;
b) fomento da produção pesqueira e aquícola;
c) implantação de infraestrutura de apoio à produção, ao beneficiamento
e à comercialização do pescado e de fomento à pesca e aquicultura;
d) organização e manutenção do Registro Geral da Pesca;
e) sanidade pesqueira e aquícola;
f) normatização das atividades de aquicultura e pesca;
g) fiscalização das atividades de aquicultura e pesca no âmbito de suas
atribuições e competências;
h) concessão de licenças, permissões e autorizações para o exercício da
aquicultura e das seguintes modalidades de pesca no território nacio-
nal, compreendendo as águas continentais e interiores e o mar territorial
da Plataforma Continental, da Zona Econômica Exclusiva, áreas adja-
centes e águas internacionais, excluídas as Unidades de Conservação
federais e sem prejuízo das licenças ambientais previstas na legislação
vigente [...];
i) autorização do arrendamento de embarcações estrangeiras de pesca e
de sua operação, observados os limites de sustentabilidade estabeleci-
dos em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente;
j) operacionalização da concessão da subvenção econômica ao preço
do óleo diesel instituída pela Lei nº 9.445, de 14 de março de 1997;
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 31

k) pesquisa pesqueira e aquícola; e


l) fornecimento ao Ministério do Meio Ambiente dos dados do Registro
Geral da Pesca relativos às licenças, permissões e autorizações conce-
didas para pesca e aquicultura, para fins de registro automático dos
beneficiários no Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente
Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais.

Historicamente, a criação do MPA coloca o setor pesqueiro em nível


bastante elevado na burocracia estatal, denotando a importância do setor
para a segurança alimentar da população brasileira, conforme destacado pelo
Ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na ocasião do lançamento do projeto
“Mais Pesca e Aquicultura”. A integração da produção pesqueira às priorida-
des do Programa Fome Zero indica a preocupação política de valorização da
atividade pesqueira não só como forma de produção de alimento de boa
qualidade a baixo custo, como a manutenção de aspectos culturais concernentes
ao modo de vida da população (no caso em tela: os ribeirinhos amazônicos).
Entretanto, a junção de duas atividades tão distintas como a pesca e a
aquicultura sob o mesmo manto jurídico-institucional, pressupõe uma mu-
dança de paradigma no desenvolvimento do setor pesqueiro. As orientações
outrora seguidas pelo Ministério do Meio Ambiente passam a dar lugar a uma
evidente tendência produtivista de aparente contradição entre um setor tradi-
cionalmente extrativista e predominantemente artesanal (quanto aos modos
de produção) e outro setor inserido e perfeitamente adaptado à lógica do
agronegócio. Ao que tudo indica, o único ponto em comum aos dois setores
é o produto final, qual seja o peixe.
Apesar da transformação da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca
em Ministério, os dispositivos da Lei nº 10.683/03 que tratavam sobre a trans-
ferência de competências do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abasteci-
mento para referida Secretaria foram mantidos:

Art. 32. São transferidas as competências:


[...]
VI – do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, relativas à aquicultura
e pesca, para a Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca;

Art. 33. São transferidos:


[...]
III – o Departamento de Pesca e Aquicultura, da Secretaria de Apoio Rural e
Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para a
Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República;
32 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

O Ministério compreenderá, em sua estrutura organizacional, as Supe-


rintendências Federais de Pesca e Aquicultura, unidades descentralizadas cuja
jurisdição limita-se a cada Estado da Federação e ao Distrito Federal, que possu-
em a competência de (art. 9º da Lei nº 11.958/09): i) fomento e desenvolvimen-
to da pesca e da aquicultura; ii) apoio à produção, ao beneficiamento e à
comercialização do pescado; iii) sanidade pesqueira e aquícola; iv) pesquisa e
difusão de informações científicas e tecnológicas relativas à pesca e à aquicultura;
v) assuntos relacionados à infraestrutura pesqueira e aquícola, ao cooperativismo
e associativismo de pescadores e aquiculturas e às Colônias e Federações Estadu-
ais de Pescadores; vi) administração de recursos humanos e de serviços gerais;
vii) programação, acompanhamento e execução orçamentária e financeira dos
recursos alocados; viii) qualidade e produtividade dos serviços prestados aos
usuários e aperfeiçoamento da gestão da Superintendência.
O Conselho Nacional de Aquicultura e Pesca, por seu turno, possui a
competência de formular a política nacional de sua área, propondo diretrizes
para o desenvolvimento e fomento da produção; apreciar as diretrizes para o
desenvolvimento do plano de ação da pesca e aquicultura e propor medidas
destinadas a garantir a sustentabilidade da atividade, nos termos do art. 29,
§7º da Lei nº 10.683/03.
O § 4º do art. 27 da supracitada lei dispõe ainda que a competência do
Ministério do Meio Ambiente para o zoneamento ecológico-econômico “[...]
será exercida em conjunto com os Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abas-
tecimento; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; da Integração
Nacional; e da Pesca e Aquicultura”.
O MMA também deverá atuar em conjunto e sob a coordenação do
MPA nas temáticas relacionadas ao uso sustentável dos recursos pesqueiros
(art. 27, § 6º da Lei nº 10.683/03), quais sejam: “fixar as normas, critérios,
padrões e medidas de ordenamento do uso sustentável dos recursos pesquei-
ros, com base nos melhores dados científicos e existentes, na forma de regula-
mento” (I); e “subsidiar, assessorar e participar, em interação com o Ministério
das Relações Exteriores, de negociações e eventos que envolvam o compro-
metimento de direitos e a interferência em interesses nacionais sobre a pesca e
aquicultura” (II).

Política nacional

O MMA possui competência sobre a política nacional do meio ambiente


e dos recursos hídricos e a política de preservação, conservação e utilização
sustentável de ecossistemas, e biodiversidade e florestas, nos termos do art.
27, XV, a e b da Lei nº 10.683/03. O Conselho Nacional de Pesca, do MPA,
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 33

por seu turno, tem competência sobre a política nacional pesqueira e aquícola,
abrangendo produção, transporte, beneficiamento, transformação,
comercialização, abastecimento e armazenagem (Lei nº 11.958/09, art. 27,
XXIV).
O primeiro conflito encontra-se na própria política, uma vez que os
recursos pesqueiros integram diversos ecossistemas, possuindo diversidade es-
pecífica e, em grande parte, desconhecida (v.g. na bacia Amazônica, onde
estimativas mais conservadoras indicam cerca de 2000 espécies de peixes,
enquanto outras chegam a indicar até 8.000, para um universo descrito de
algumas poucas centenas – BATHEM; FABRÉ, 2004). Cabendo, dessa forma,
aos dois Ministérios versarem sobre o assunto. A duplicidade de regulamenta-
ção sobre um mesmo recurso natural, proveniente de ministérios com orien-
tações distintas pode ensejar problemas práticos, interferindo na distribuição
das competências materiais.
As ações de execução das políticas fazem parte da esfera das autarquias
do MMA: IBAMA e Chico Mendes. No primeiro caso, as ações referem-se
“[...] às atribuições federais, relativas ao licenciamento ambiental, ao controle
da qualidade ambiental, à autorização de uso dos recursos naturais e à fiscali-
zação, monitoramento e controle ambiental [...]” (Lei nº 7.735/89, art. 2º,
II). O Instituto Chico Mendes possui uma atribuição mais restrita, sendo com-
petente especificamente para executar ações em unidades de conservação ins-
tituídas pela União (Lei nº 11.516/07, art. 1º, I), o que também está incluído
nas atribuições genéricas do IBAMA.

Normatização

O Ministério da Pesca e Aquicultura incorporou a competência da extin-


ta Superintendência de Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE) de normatizar as
atividades de aquicultura e pesca (Lei nº 10.683/03, art. 27, XXIV, f – alterado
pela Lei nº 11.958/09). No entanto, o Conselho Nacional do MMA é o único
com poder verdadeiramente normativo. A legislação também prevê que o
MMA deverá atuar em conjunto e sob a coordenação do MPA nas temáticas
relacionadas ao uso sustentável dos recursos pesqueiros (art. 27, § 6º, I), quais
sejam: “fixar as normas, critérios, padrões e medidas de ordenamento do uso
sustentável dos recursos pesqueiros, com base nos melhores dados científicos
e existentes, na forma de regulamento”.
Esta “parceria” forçada tende a entravar a normatização em função das
diferenças de orientação dos dois ministérios: enquanto o MMA possui visão
tradicionalmente conservacionista, o MPA parece ter sido criado com uma
orientação mais produtivista.
34 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Fiscalização

A fiscalização das atividades de aquicultura e pesca é competência do


MPA no âmbito de suas atribuições e competências (Lei nº 10.683/03, art. 27,
XXIV, g). Contudo o poder de polícia ambiental pertence ao IBAMA (Lei nº
7.735/89, art. 2º, I), excetuando a fiscalização nas unidades de conservação
instituídas pela União, onde passa ter um poder de polícia suplementar ao do
Instituto Chico Mendes (Lei nº 11.516/07, art. 1º, IV).
Na prática, este tipo de distribuição de atribuições provoca problemas
operacionais. Na região do Pantanal do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul,
quem fiscaliza a atividade de pesca esportiva são órgãos estaduais, que igno-
ram se os pescadores portam licenças federais (expedidas até então pelo
IBAMA), exigindo apenas o porte das estaduais. Esta prática provoca evasão
de divisas da esfera federal para as estaduais. (BERNADINO, 2009).

Educação e pesquisa
Cabe às Superintendências Federais de Pesca e Aquicultura do MPA a
competência pela pesquisa pesqueira e aquícola (Lei nº 10.683/03, art. 27,
XXIV, l). Ao Instituto Chico Mendes, fomentar e executar programas de pes-
quisa, proteção, preservação e conservação da biodiversidade e de educação
ambiental (Lei nº 11.516/07, art. 1º, III).
A questão da promoção da educação ambiental era melhor explicitada
na legislação da extinta Secretaria Especial do Meio Ambiente (Dec. nº 73.030/
73, art. 4), cujas competências incluíam: i) promover, em todos os níveis, a
formação e treinamento de técnicos e especialistas em assuntos relativos à
preservação do meio ambiente; ii) promover, intensamente, através de pro-
gramas em escala nacional, o esclarecimento e a educação do povo brasileiro
para o uso adequado dos recursos naturais, tendo em vista a conservação do
meio ambiente.
Antes da criação do MPA e do Instituto Chico Mendes, existiram diver-
sas ações de pesquisa, conservação da biodiversidade e educação ambiental.
Cite-se como exemplos alguns projetos de cooperação técnica internacional
da Amazônia (IARA e ProVárzea), que além de desenvolverem ampla ativida-
de de pesquisa, contribuíram sobremaneira para o ordenamento pesqueiro,
desenvolvendo ainda diversas atividades de educação ambiental,
consubstanciadas na produção de inúmeros documentos institucionais,
documentários e eventos com participação social (Cf. Página institucional do
IBAMA/ProVárzea).
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 35

Ações conjuntas
Há ainda as previsões de parcerias entre o MMA e o MPA. O MMA
também deverá atuar em conjunto e sob a coordenação do MPA nas temáticas
relacionadas ao uso sustentável dos recursos pesqueiros (Lei nº 10.683/03, art.
27, §6º, I), como, por exemplo, o estabelecimento de limites de sustentabilidade
para autorização de embarcações estrangeiras (art. 27, XXIV, i), conforme já
citado.
O MPA deve fornecer ao Ministério do Meio Ambiente os dados do
Registro Geral da Pesca relativos às licenças, permissões e autorizações conce-
didas para pesca e aquicultura, para fins de registro automático dos beneficiários
no Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras e
Utilizadoras de Recursos Ambientais (Lei nº 10.683/03, art. 27, XXIV, m).
O MMA também deve atuar em parceria com o Ministério das Relações
Exteriores para “subsidiar, assessorar e participar de negociações [...] e eventos
que envolvam o comprometimento de direitos e a interferência em interesses
nacionais sobre a pesca e aquicultura” (Lei nº 10.683/03, art. 27, XXIV, §6º, II).
O IBAMA deve executar as ações supletivas de competência da União,
de conformidade com a legislação ambiental vigente.
Apesar de inúmeros exemplos de previsões legais de ações
interministeriais nos níveis interno e externo (internacional), observa-se que
na prática, poucos resultados foram atingidos até o momento. No âmbito
do Tratado de Cooperação Amazônica, assinado na década de 70, apesar da
grande ênfase que se deu a promoção da utilização racional dos recursos
naturais da bacia Amazônica e ao desenvolvimento da navegação, até o
presente momento não se observou nenhuma Comissão ligada ao Ministé-
rio das Relações Exteriores tratando, por exemplo, da pesca dos grande bagres
migradores; ou ainda, da implementação de ações concretas para o desen-
volvimento da navegação, apesar do grande volume de recursos arrecada-
dos pela Receita Federal através da cobrança do Adicional ao Frete para
Renovação da Marinha Mercante (que iniciou na década de 40 e persiste até
hoje).
No âmbito específico da relação MMA e MPA, observa-se a dificuldade
de articulação interministerial, denotada pelo acompanhamento prático de
processo para homologação de acordo comunitário de pesca no município de
Boa Vista do Ramos (AM). O referido processo foi encaminhado ao IBAMA
em 2009, levando mais de dois anos para ser concluído. Note-se que no
momento da homologação do acordo em pauta, vários de seus dispositivos
36 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

haviam perdido a enforçabilidade prática, levando à falência do texto antes


mesmo de sua vigência.4

Críticas às divisões de competências materiais

Conforme mencionado acima, antes da criação da Secretaria Especial de


Aquicultura e Pesca e, posteriormente, do Ministério da Pesca e Aquicultura, a
atividade pesqueira estava ligada ao Ministério do Meio Ambiente, que pos-
sui visão mais conservacionista (incentivando o manejo adequado e a utiliza-
ção racional desses recursos). Após o lançamento do Programa Fome Zero e o
início das atividades da SEAP, a visão passa a ser produtivista, com enfoque
maior sobre a aquicultura e insumos de produção pesqueiros, principalmente
sobre o fomento ao setor.
Com o Ministério da Pesca e Aquicultura, a discussão em torno das com-
petências toma maior relevância e especificidade, apesar da falta de clareza e
incertezas futuras, posto que o MPA encontra-se em fase de estruturação.
Mesmo sabendo-se que a temática ambiental é única e que os recursos
pesqueiros não podem ser observados e compreendidos separadamente do
meio ambiente como um todo, as diversas previsões de ações conjuntas entre
o MMA e o MPA ou das previsões de competências ministeriais simultâneas
geram problemas práticos, como sobreposição de regras e/ou lacunas.
No momento, com o final recente do período de vacatio legis da norma
que criou o MPA e início do seu processo de estruturação, resta aguardar pelas
articulações interministeriais, minimizando eventuais conflitos de competên-
cia e atuação prática dos órgãos da administração pública.

Considerações Finais
Finais
Diante do exposto, podem ser registradas algumas conclusões preliminares
sobre a tutela da atividade pesqueira no Brasil. Em primeiro lugar, destaca-se a
falta de autonomia epistemológica do direito pesqueiro, sujeitando este ramo do
conhecimento à aplicação dos princípios gerais do direito e, mais especificamen-
te, do direito agrário. Isso impede o desenvolvimento de uma exegese legal ade-
quada e a consequente aplicação relativizada da lei aos casos concretos.
Tal falta de autonomia epistemológica se reflete na prática, através da
criação de um Ministério que congrega duas atividades visceralmente distintas:

4. Observações práticas de trabalho de campo no município de Boa Vista do Ramos (AM)


em projeto coordenado por Serguei Aily Franco de Camargo (com financiamento da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas - FAPEAM).
O Direito Pesqueiro no Ordenamento Jurídico Brasileiro 37

a pesca e a aquicultura. A visão holística do ordenamento pesqueiro é substitu-


ída por outra, de cunho produtivista e mais próxima do direito agrário.
A despeito dessas considerações, pode-se registrar também a
transversalidade do assunto na legislação, o que enseja a tutela da atividade
pesqueira e dos recursos pesqueiros sob diversos prismas (v.g. educacional,
social, econômico, cultural, biológico, ecológico, entre outros).

Referências
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38 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

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de 2000, 10.410, de 11 de janeiro de 2002, 11.156, de 29 de julho de 2005, 11.357, de 19
de outubro de 2006, e 7.957, de 20 de dezembro de 1989; revoga dispositivos da Lei nº
8.028, de 12 de abril de 1990, e da Medida Provisória nº 2.216-37, de 31 de agosto de
2001; e dá outras providências. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
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Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República em Ministério da Pesca e
Aquicultura; cria cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores –
DAS e Gratificações de Representação da Presidência da República; e dá outras providênci-
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volvimento Sustentável da Aquicultura e da Pesca, regula as atividades pesqueiras, revoga
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O Direito P esqueir
Pesqueir
esqueiroo
na Esfera Internacional:
3
AR egião da T
Região ríplice
Tríplice
Fronteira Brasil, Peru e
Peru
Colômbia
Serguei Aily Franco de Camargo
Franco
Arilúcio Bastos Lobato
Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo
Rodrigues
Andrei Sicsú de Souza

A bacia Amazônica estende-se por nove países. Nesse caso, alguns estoques
pesqueiros podem ser compartilhados por um ou mais países. A atividade
pesqueira é desenvolvida tradicionalmente por comunidades ribeirinhas e o
pescado é a principal fonte de proteína animal de toda essa população.
Pesquisas recentes indicam que o Brasil avançou na gestão de recursos
pesqueiros, principalmente através da implementação do sistema de gestão
participativa da pesca, enquanto que na esfera internacional pouco se tem
feito para regulamentar o aproveitamento de estoques pesqueiros comuns e
fomentar o desenvolvimento regional sustentável.
Nesse contexto, o presente capítulo traz como estudo de caso, a questão
da pesca do pirarucu Arapaima gigas na região da tríplice fronteira (Brasil,
Peru e Colômbia), para em seguida abordar aspectos relacionados ao direito
internacional e direito comparado em seus pontos mais relevantes para a ba-
cia Amazônica.

A região da tríplice F
Frronteira Brasil, Peru e Colômbia
Peru
De acordo com Faulhaber (2010), no fim do século XIX, colocou-se em
questão a linha de fronteira Brasil, Peru e Colômbia, que desde fins do século
XVIII, já era objeto de divergências entre Portugal e Espanha. Chegou-se a um
40 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

consenso sobre o interesse comum que viabilizou o caminho para o Atlântico


por colombianos e peruanos, que resultou na aceitação da ocupação luso-
brasileira do Solimões, Içá e Japurá (respectivamente Amazonas, Putumayo e
Caquetá na Colômbia e no Peru), até então contestada por colombianos e
peruanos. Nessa argumentação, a questão da exploração do látex e da escra-
vidão indígena apareceu a partir de observações dos conflitos étnicos e políti-
cos concernentes ao estabelecimento de fronteiras.
Os conflitos territoriais na região foram documentados, além dos regis-
tros consulares, por uma literatura que, embora informada por uma polêmica
de caráter racionalista, produziu informações com base na observação direta,
que se tornam fonte para a reflexão antropológica sobre o tecido social que
constitui as representações sobre fronteira e identidade indígena no divisor de
águas do Caquetá-Japurá e Putumayo-Içá (Faulhaber, 2010).
De acordo com Gomes e Albuquerque (2010), o pescado assume grande
significado na alimentação humana, representando 70% da proteína animal
consumida pela população da região da tríplice fronteira. Em Santo Antonio
do Içá (AM) é a principal fonte de alimentação. Este município situa-se na
região do Alto Solimões, em sua margem esquerda, próximo a tríplice frontei-
ra do Brasil, Colômbia e Peru.

Na economia do setor pesqueiro os que mais se destacam são: Pirarucu (Arapaima


gigas ), Piraíba ( Brachyplathystoma filamentum ), Tambaqui ( Colossoma
macropomum), Surubim (Pseudoplatystoma fasciatum), Pirara (Phracthocefalus
hemeliopterus), Dourado (Brachyplastytoma roussearri), Piracatinga (Calophysus
macopterus). Devido este comércio, a Colômbia está se tornando um dos maio-
res exportadores de peixes da América do Sul, graças ao Brasil. Anualmente, das
600 toneladas de pescado que são retirados de lagos e rios do Alto Solimões, 400
toneladas vão ilegalmente para aquele país. A proposta de realizar um estudo
sobre o setor do comércio pesqueiro no Alto Solimões justifica-se face à necessi-
dade de identificar os fatores que comprometem o manejo sustentado dessas
espécies, em função do tráfico e do comércio ilegal na região de fronteira. A
captura indiscriminada e a atividade comercial sem projeto de manejo têm pro-
porcionado risco de extinção de muitas espécies. [...] Resultados preliminares,
obtidos por meio de entrevistas abertas, visitas locais e pesquisa bibliográfica
revelaram que o comércio de peixes na Amazônia ocidental é realizado quase
que exclusivamente na cidade de Letícia-Colômbia, saindo do Brasil pela cidade
de Tabatinga, no Amazonas. (GOMES; ALBUQUERQUE, 2010, p. 01).

Segundo Nogueira (2010), diversos municípios amazonenses exportam


seu pescado, formando uma verdadeira rede de comercialização desses pro-
dutos com a Colômbia. Entre os maiores exportadores em 2003, têm-se: Tefé,
Coari, Japurá, e Manaus.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE, 2010), o município de Tabatinga possui cerca de 49.000 habitantes,
O Direito Pesqueiro na Esfera Internacional: A Região da Tríplice Fronteira... 41

Benjamin Constant cerca de 30.000, o que indica a magnitude da população


local, apenas do lado Brasileiro da região de fronteira.
Para Nogueira (2010), Tabatinga possui um papel de destaque na fron-
teira por ser o ponto de ligação entre o Brasil e a Colômbia, ou seja, o cami-
nho de passagem, legal ou ilegal, de todo o pescado capturado no Alto Solimões
e de outras regiões do Amazonas.
No entanto, a estrutura pesqueira da cidade enfrenta dificuldades, como a
ausência de uma fábrica de gelo e de fiscalização pelos órgãos brasileiros. A
região do Alto Solimões não possui frigoríficos beneficiadores, como Médio
Amazonas, dispondo apenas de câmaras frigoríficas, denominadas “Quartos
Frios” ou “Bodegas”, que são usadas, em regra, para o congelamento e
armazenamento do pescado. Neste caso, o pescado sofre apenas o evisceramento
e o descabeçamento para ser congelado. Como consequência, os pescadores
brasileiros vêem-se obrigados a adquirir o gelo colombiano, ficando sujeitos às
especulações comerciais daquele mercado (NOGUEIRA, 2010).
Outro efeito é que muitos barcos não passam pela fiscalização do Institu-
to Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (IBAMA) e da
Receita Federal no porto de Tabatinga, sendo o pescado transportado sem
nenhuma espécie de controle para Letícia (Colômbia).
A cidade de Letícia é a porta de entrada de boa parte do pescado prove-
niente do lado brasileiro da bacia, de onde é distribuído para outros locais,
chegando até a Bogotá, e para exportação.
Os colombianos consomem peixes frescos e secos do Brasil e do Peru. Na
fronteira, as nacionalidades se confundem. Colombianos e peruanos pescam
em águas brasileiras. Embarcações frigoríficas de um país possuem tripulação de
outro, sem, contudo, serem fiscalizados por órgãos de nenhum dos três países.
Os peruanos, conforme noticiado amplamente pela imprensa local,
comercializam uma série de itens menores, com destaque sobre os combustí-
veis. Adquiridos em Letícia por preços bem menores que os praticados no
Brasil, acabam sendo comercializados informalmente em garrafas PET no lado
brasileiro da fronteira.

A pesca do pirarucu Arapaima Gigas na fronteira Brasil, P


fronteira eru e Colômbia
Peru

O pirarucu Arapaima gigas é uma das espécies mais antigas de peixe de


água doce do planeta. Possui respiração pulmonar e seus machos podem che-
gar a medir 450cm (AXELROD et al., 1991) e 200kg de peso (WHEELER,
1977). Apesar de sedentário, o pirarucu faz parte do estoque pesqueiro da
região da tríplice fronteira, distribuindo-se pela bacia Amazônica.
42 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

É extremamente apreciado pela população local e sofre pressão intensi-


va de pesca (FISHBASE, 2010), o que levou o IBAMA a restringir sua explotação.
Atualmente, a pesca desta espécie é proibida no Estado do Amazonas, sendo
permitida apenas em áreas de manejo (v.g. Reserva de Desenvolvimento Sus-
tentável de Mamirauá, localizada no município de Tefé-AM).
O comércio internacional desta espécie também é restrito desde 1975,
conforme a “Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies da Fauna e
Flora Selvagens em Perigo de Extinção” (Convention on International Trade
in Endangered Species of Wild Fauna and Flora – CITES), que a inclui no seu
apêndice II.
A região da tríplice fronteira possui deficiência de fiscalização, permitin-
do grande atividade de comércio ilegal (contrabando). Dentre os itens
comercializados desta forma temos o pescado, combustíveis e drogas. O pes-
cado serve, em muitos casos, como forma de disfarçar o tráfico.
Independente desta situação, observa-se em toda a calha Solimões-Ama-
zonas a presença de comunidades ribeirinhas e organizações de base. Estas
comunidades podem ser indígenas e não-indígenas, mas em todos os casos, a
pesca é uma atividade importante à manutenção da segurança alimentar.
A organização do setor pesqueiro no Brasil é dada ao nível federal, por
legislação própria. As colônias e capatazias de pesca continuam a se constituir
em entidades de mobilização e defesa dos interesses da categoria dos pesca-
dores profissionais. Por outro lado, as organizações de base, representando as
comunidades tradicionais, passaram a ocupar importante lugar no cenário
político e institucional ao garantirem ativa participação no sistema de gestão
participativa da pesca. A atuação destas organizações de base está distribuída
desde as ações locais (nas comunidades) até o acompanhamento e fiscalização
dos acordos de pesca.
A promoção do desenvolvimento regional, no âmbito da bacia Amazô-
nica, é uma das diretrizes do Tratado de Cooperação Amazônico (TCA). A
necessidade de articulação internacional para o estabelecimento de políticas
setoriais e normatização faz-se presente.

O direito pesqueiro na esfera internacional


pesqueiro
Convenção Sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e
Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (C
Perigo ITES
ITES))
(CITES
A Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e
Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES) foi assinada em 1973 por 175
países com o objetivo de, através da cooperação internacional, proteger cer-
O Direito Pesqueiro na Esfera Internacional: A Região da Tríplice Fronteira... 43

tas espécies da fauna e da flora selvagem contra toda exploração pelo comér-
cio internacional.
Em seu texto inicial, os Estados contratantes reconhecem que a fauna e a
flora selvagem, em suas muitas belezas e variedade de formas, são uma parte
insubstituível do sistema natural da Terra que devem ser protegidas por esta e
pelas próximas gerações. Reconhecem também que a cooperação internacio-
nal é essencial para a proteção dessas espécies.
Assim, toda importação, exportação e re-exportação de animais e vege-
tais (bem como suas partes e derivados), cuja classificação esteja presente nos
anexos da Convenção, precisa ser previamente autorizada. As espécies encon-
tram-se distribuídas em três apêndices, de acordo com o grau de proteção
considerado necessário.
Os apêndices I, II e III da Convenção listam as espécies protegidas sob
diferentes níveis ou tipos de proteção contra a exploração descabida. O apên-
dice I apresenta as espécies ameaçadas de extinção, cuja comercialização inter-
nacional é proibida pela CITES, exceto para fins científicos. O apêndice II traz
os nomes das espécies que não necessariamente estão em perigo de extinção,
mas devem ter sua comercialização reduzida e controlada para sua conserva-
ção.
O comércio internacional das espécies do apêndice II deve ser autoriza-
do pelo outorgante da permissão de exportação ou do certificado de re-ex-
portação (exportação de produto importado). A CITES não exige a permissão
de importação para essas espécies, contudo, alguns países são mais rigorosos
neste sentido. Permissões e certificados devem ser outorgadas apenas se auto-
ridades superiores estiverem certas das condições encontradas, bem como que
toda a comercialização não causará detrimento à sobrevivência da espécie em
seu ambiente natural.
O apêndice III é uma lista das espécies incluídas sob o requerimento de
uma das Partes que já regulam sua comercialização e necessitam da coopera-
ção de outros países para prevenir exploração não-sustentável ou ilegal. O
comércio internacional dessas espécies é permitido apenas com a apresenta-
ção de permissões ou certificados apropriados.
Nomes de espécies podem ser acrescidos ou removidos dos apêndices I,
II e III, ou movimentados entre eles apenas por convenção das partes em
encontro ordinário ou extraordinário com este fim. No entanto, espécies po-
dem ser acrescidas ou removidas do apêndice III a qualquer momento e por
qualquer uma das partes unilateralmente.
Segundo dados da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espé-
cies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES, 2012), o Brasil
44 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

foi o 16o país a aderir ao documento em 1975 e tende a privilegiar os recursos/


espécies constantes do anexo II, promovendo o comércio da fauna e da flora
selvagens em bases sustentáveis, viabilizando a conservação e reprodução de
espécies, cujo valor econômico é internacionalmente reconhecido. O apêndi-
ce I ficaria restrito apenas aos casos de risco de extinção, quando a interrupção
do comércio faz-se temporariamente necessária para a recuperação das popu-
lações ameaçadas.
A CITES estabelece apenas diretrizes orientadoras, cabendo a cada país
definir legislações nacionais específicas para a proteção das espécies contem-
pladas em seus anexos. No caso brasileiro, a legislação ambiental acolhe inte-
gralmente as diretrizes e demandas da Convenção, classificando o Brasil na
categoria 1 em termos de implementação nacional do instrumento.
Além disso, o Brasil antecipou-se na implementação de sistema de
certificação eletrônica. Antes mesmo da publicação da Lei nº 11.958 (Criação do
Ministério da Pesca e Aquicultura - MPA), em 29.06.09, o IBAMA concedia
licenças eletrônicas. Atualmente, o MPA mantém de forma semelhante, o Regis-
tro Geral da Pesca, criado com a finalidade de licenciar toda pessoa que faz da
pesca a sua profissão ou o seu principal meio de vida (MPA, 2012). No entanto,
a CITES tem sua atuação restrita às transações que envolvem o comércio inter-
nacional. Não possui mandato para tratar de outros fatores de ameaça, como o
comércio ilegal dentro dos limites de cada país, por exemplo.
O piracuru, bem como as demais espécies incluídas no apêndice II, deve
ter sua comercialização em consonância com o estabelecido pela Convenção.
Sua exportação deve obedecer as seguintes condições (art. IV, 2.): uma auto-
ridade científica ligada ao órgão competente para cuidar de assuntos relacio-
nados a exportação, deve garantir que esta não prejudicará a sobrevivência
da espécie; a autoridade executiva responsável pelas exportações deve garan-
tir que os exemplares não foram obtidos em contravenção as leis de proteção
da fauna e da flora, e que qualquer indivíduo vivo será transportado em
condições mínimas que minimizem os riscos ao bem estar e a saúde.

Código de Conduta para a Pesca R


Pesca esponsável
Responsável

O Código de Conduta para a Pesca Responsável – CCPR (FAO, 2012)


estabelece princípios e padrões internacionais de comportamento para práti-
cas responsáveis com o propósito de assegurar a conservação eficaz, gerência

1. O Código de Conduta para uma Pesca Responsável foi adotado pela Conferência da
FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) na sua vigé-
sima oitava sessão, em 31 de Outubro de 1995.
O Direito Pesqueiro na Esfera Internacional: A Região da Tríplice Fronteira... 45

e desenvolvimento dos recursos de vida aquática, com o devido respeito ao


ecossistema e à biodiversidade. O código reconhece o valor nutritivo, econô-
mico, social, ambiental e cultural, destacando a importância da pesca e os
interesses de todos aqueles que estão envolvidos com o setor pesqueiro.
O CCPR não é vinculante, pois sua aplicação pelos Estados não é obriga-
tória. Contudo, traz princípios importantes de interesse de todos os países,
como os seguintes princípios gerais: i) os Estados e os usuários que vivem dos
recursos aquáticos devem conservar os ecossistemas aquáticos. O direito de
pescar traz consigo a obrigação de fazê-lo de maneira responsável, para asse-
gurar a conservação e a gestão eficazes dos recursos aquáticos; e ii) a gestão
pesqueira deverá promover a manutenção da qualidade, diversidade e dispo-
nibilidade de recursos haliêuticos em quantidades suficientes para a presente e
as gerações futuras, no contexto da segurança alimentar, redução da pobreza
e do desenvolvimento sustentável.
Em análise, o princípio 6.4 do CCPR prevê que as medidas de conserva-
ção e as decisões sobre o manejo pesqueiro devem ser embasadas nas melho-
res evidências científicas disponíveis, levando-se em consideração os conheci-
mentos tradicionais das comunidades sobre a utilização dos recursos em seu
habitat, além de fatores ambientais, econômicos e sociais relevantes. Os prin-
cípios 6.5 e 7.5.1 estabelecem que o manejo pesqueiro em seus diversos níveis
deve orientar-se através de medidas de precaução, visando à conservação dos
recursos. No mesmo sentido, é mencionado que a ausência de informações
científicas não deve ser utilizada para adiar ou inviabilizar medidas para con-
servação de espécies-alvo e/ou do sistema ecológico como um todo
(CAMARGO; SURGIK, 2006).
Por este prisma, podemos considerar que todo o contexto legal deve ser
interpretado a partir do sistema precaucionário, o qual permite o manejo
comunitário e a gestão participativa dos estoques pesqueiros no Brasil. Nesta
esteira, a Constituição, ao declarar que a conservação do meio ambiente é
dever de todos, também engloba a participação das comunidades tradicionais
usuárias dos recursos pesqueiros no sistema de gestão em seus diversos níveis.
No entanto, esta participação é exercida de forma organizada e representati-
va, como acontece no terceiro setor. É por esta razão, que o Decreto n° 221/
1967 (Código de Pesca), incentiva a organização comunitária de pescadores
em colônias, associações e cooperativas.
De acordo com Diegues (2009), o CCPR introduziu pela primeira vez,
de maneira formal, a necessidade de se levar em conta o conhecimento dos
pescadores artesanais sobre os recursos pesqueiros, no mesmo patamar do
conhecimento científico. Chama a atenção para o fato de que há a necessida-
de de se distinguir o conhecimento científico dos biólogos que é generalizador,
46 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

aplicável, sobretudo ao estudo das pescarias monoespecíficas e dos grandes


ecossistemas, e o dos pescadores que é sempre particular, localizado e aplicá-
vel, sobretudo em nichos ecológicos específicos. Enfatiza também a necessida-
de do uso de artes de pesca seletivas, o que é mais costumeiro entre os pesca-
dores artesanais que entre os industriais. O exemplo disso é a utilização maci-
ça das grandes redes de arrasto pela pesca industrial em oposição à variedade
dos equipamentos de pesca utilizados pela pequena pesca.
O autor ressalta ainda, que CCPR não leva em conta, de maneira ade-
quada, o papel das organizações de pescadores no processo de ordenamento,
haja vista que a participação das colônias de pesca é fundamental para um
manejo adequado dos recursos pesqueiros.
Destaca também, a necessidade de se redefinir o conceito de manejo
pesqueiro entendido exclusivamente como um processo monodisciplinar. Para
Diegues (2009), há a necessidade de incorporar a dimensão social e cultural,
pois o que administra são, sobretudo, os comportamentos humanos e a
tecnologia, que escapam à simples dimensão biológica.
Importa salientar ainda, segundo Diegues (2009), a experiência de cria-
ção de reservas extrativistas aquáticas, tanto em águas continentais quanto
costeiras o que pode ser uma solução para inúmeros conflitos já existentes
entre pescadores artesanais e a administração desses parques.
Cumpre mencionar que a extinta Secretaria Especial de Aquicultura e
Pesca, convertida em 2009 no MPA, já adotava em suas normativas a aplica-
ção do CCPR.

Tratado de Cooperação Amazônica

A Bacia Amazônica, na qualidade de maior sistema fluvial do mundo, é


possuidora de uma extraordinária riqueza natural, da maior biodiversidade,
além do significativo potencial energético (hidrelétrico e petrolífero), e de
uma privilegiada localização (região equatorial, estendendo-se dos Andes ao
Oceano Atlântico).
O receio de uma investida internacional2 na apropriação da região e o
interesse no desenvolvimento econômico foram as razões políticas que

2. Segundo Marcovitch (2005, p. 07), “o fundo dos oceanos, a Antártida e a Amazônia


constituem, na opinião da professora Bertha Becker, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), os últimos “eldorados” do nosso planeta. A Amazônia, único “eldorado”
em terras delimitadas por fronteiras reconhecidas e soberania afirmada, tem desperta-
do propostas de “internacionalização” com muita frequência, e reiteradas em 2005,
quando a região foi caracterizada, em discurso, como “bem público mundial.”
O Direito Pesqueiro na Esfera Internacional: A Região da Tríplice Fronteira... 47

consubstanciaram a formalização do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA),


em 03 de julho de 1978, pelos oito (dos nove) países amazônicos, a saber:
Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Fi-
cou excluída a Guiana Francesa que também está, geograficamente, em terri-
tório amazônico.
Por sinal, a disputa mundial pelas riquezas naturais é a razão do receio
das investidas estrangeiras nos países não desenvolvidos, conforme Becker
(2008, p. 77):

Isso, consequentemente, trouxe uma disputa das potências pelos estoques das
riquezas naturais, uma vez que a distribuição geográfica de tecnologia e de recur-
sos está distribuída de maneira desigual. Enquanto as tecnologias avançadas são
desenvolvidas nos centro de poder, as reservas naturais estão localizadas nos pa-
íses periféricos, ou em áreas não regulamentadas juridicamente. Esta é, pois, a
base da disputa.

Então, decorrente de uma proposta brasileira, o TCA tem como um de


seus objetivos primordiais a cooperação internacional e a afirmação da respon-
sabilidade soberana dos países amazônicos na defesa do meio ambiente e
patrimônio natural, no desenvolvimento sustentável da região e na melhoria
da qualidade de vida da população, bem como a defesa do patrimônio natural.
Esse pacto coaduna com o propósito de integração da Amazônia
transnacional, da Amazônia sul-americana. Refere-se, portanto, a uma hodierna
escala para pensar e agir na Amazônia. Segundo Becker (2008), a união dos
países amazônicos pode fortalecer o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL)
e, de certa forma, construir um contraponto com outras relações internacio-
nais, como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e a União Euro-
péia. Além do mais, estabelece uma presença coletiva e uma estratégia co-
mum, o que possibilita o reforço nos clamores da América do Sul. E, finalmen-
te, por ser fundamental para firmar projetos conjuntos quanto ao aproveita-
mento da biodiversidade e da água, inclusive nas áreas que já possuem equi-
pamento territorial e intercâmbio, como é o caso das cidades gêmeas localiza-
das em pontos das fronteiras políticas (BECKER, 2008).
Mencionado processo levou a uma forte reativação das fronteiras polí-
ticas da Amazônia, consideradas, anteriormente, como fronteiras mortas. Em
Tabatinga e Letícia pode-se constatar a vivificação das mesmas, o que vem a
constituir um preocupação para todos os países.
O fato de a globalização incidir na Amazônia dos países vizinhos através
da presença militar, e no Brasil por intermédio da cooperação internacional,
constitui uma diferença importante.
48 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Realiza-se uma articulação sul-americana por meio do resgate do Trata-


do de Cooperação Amazônica (OTCA), e também a partir da iniciativa do
planejamento físico da integração por meio de transporte multimodal, difu-
são da internet nos países vizinhos e intercâmbio energético. Em Roraima
deu-se o primeiro passo para a integração oficial através da construção da
estrada que liga Manaus à Venezuela. O gás já vem sendo transferido da Bolí-
via e do Peru, e a Bolsa de Mercadorias e Estudos propõe a extensão da
fronteira agropecuária do centro-oeste brasileiro para os países vizinhos.
Para Rodrigues (2001), entre Estocolmo e Montago Bay, o fato de maior
relevância no cenário ambiental (inclusive da Amazônia), para o Brasil e para a
América do Sul, foi a formalização desse Tratado. Nesse sentido, o autor afirma:

Segundo o diplomata brasileiro Pedro Motta Pinto Coelho, “No TCA estão firma-
dos princípios básicos para a cooperação regional, como a idéia de que, para
lograr-se o desenvolvimento integral dos respectivos territórios da Amazônia, é
necessário manter o equilíbrio entre o crescimento econômico e a preservação
do meio ambiente; ou a idéia de que tanto o desenvolvimento sócio-econômico
como a preservação do meio ambiente são a responsabilidades inerentes à sobe-
rania de cada Estado. (RODRIGUES, 2001, p. 39)

O Tratado de Cooperação Amazônica apresentou-se consistente e ade-


quado não apenas como reação ao contexto internacional da época, desfavo-
rável ao Brasil em razão das políticas de ocupação e de exploração na Amazô-
nia brasileira oriundas dos governos militares, mas igualmente visionário.
Dessa forma, há de ser destacada a extraordinária capacidade de prever
essa tensão (desenvolvimento socioeconômico e preservação ambiental) e de
tentar equacioná-la, razão pela qual se recomenda, positivamente, sua estru-
tura como acordo, quadro flexível, capaz de nortear matrizes coerentes para
o desenvolvimento da cooperação regional.

Quadro normativo internacional bilateral


Quadro

No que se refere ao quadro normativo internacional bilateral, interessa


ressaltar o Acordo para a Conservação da Flora e da Fauna dos Territórios
Amazônicos do Brasil e da República da Colômbia (1973).
Também se destaca o Acordo de Cooperação Amazônica entre o Governo
da República Federativa do Brasil e o Governo da República da Colômbia (1981).
Acerca das relações entre o Brasil e o Peru, em 1975 foi formalizado o
Acordo para a Conservação da Flora e da Fauna dos Territórios Amazônicos
do Brasil e do Peru.
O Direito Pesqueiro na Esfera Internacional: A Região da Tríplice Fronteira... 49

Além de outros acordos que podem ser apresentados tais como: o Acordo
de Pesca entre o Brasil e a Argentina (1967) e o Acordo de Pesca e Preservação
de Recursos Vivos entre o Brasil e o Uruguai (1968).

Quadros normativos internos


Quadros
A constitucionalização da proteção ao meio ambiente demonstra-se como
uma tendência internacional, no que se refere ao processo de consolidação
do direito ambiental. Da análise das Constituições dos Estados partes do TCA,
pode-se destacar, como de interesse no presente estudo, as Constituições do
Brasil, da Colômbia e do Peru.3
A Declaração de Estocolmo de 1972, instrumento marco do direito
ambiental, influenciou as constituições, com seus princípios de proteção, dentre
os quais: o direito fundamental ao meio ambiente. Da análise dos textos cons-
titucionais dos países do OTCA, apenas as constituições do Brasil e a Colômbia
prevêem a responsabilidade civil por danos ambientais (SOLA et al., 2007).
A fim de se aprofundar no assunto em pauta, aborda-se, também, o
ordenamento jurídico interno, enfatizando as disposições relacionadas ao meio
ambiente e a responsabilidade ambiental.
Ressalta-se que, no que tange aos grandes bagres migradores, a explora-
ção dos estoques tem sido feita pelo Brasil, Peru e Colômbia de forma inde-
pendente e com regulamentações próprias (BARTHEM, 1999). Entretanto, o
Equador e a Bolívia ainda não possuem regulamentações direcionadas para a
pesca de bagres, apesar de participarem em conjunto com o Brasil, Colômbia
e Peru de reuniões que discutem um plano de manejo para essas espécies na
bacia amazônica (FABRÉ; BARTHEM, 2005).

Ordenamento jurídico da Colômbia

A Constituição Colombiana de 1991 (com alteração em 2005) faz refe-


rência expressa à obrigação do Estado e do povo de proteger as riquezas
culturais e naturais (artigo 8º), bem como trata da saúde e saneamento
ambiental (artigo 49). Contudo, é o artigo 78, no capítulo III, que trata, espe-
cificamente, do meio ambiente e dos direitos coletivos.
Na Colômbia, embora não exista regulamentação destinada ao controle
do esforço de pesca, tem-se determinado cumprimentos mínimos de captura
para algumas espécies de bagres.

3. A Constituição Brasileira já foi analisada no capítulo 02, ao se tratar sobre “O direito


pesqueiro no ordenamento jurídico brasileiro”.
50 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

No que se refere à pesca de consumo, a atividade está regulamentada


por intermédio do Acordo 015/Inderena4/1987 e 075/Inderena/1989, os quais
restringem áreas de pesca, estabelecem áreas de reserva e regulamentam as
artes de pesca. Essa legislação ainda apresenta as medidas de conservação
para as espécies. Na categoria nacional de espécies ameaçadas, a dourada e a
piramutaba encontram-se em perigo de extinção (VIEIRA, 2005).

Ordenamento jurídico do Peru


Peru

A Constituição Peruana de 1993, com modificação de 2005, possui um


capítulo sobre meio ambiente e recursos naturais, no qual estabelece que tan-
to os recursos renováveis como os não-renováveis são patrimônio da Nação.
Determina, ainda, o mencionado texto constitucional que a política na-
cional do meio ambiente irá promover o uso sustentável desses recursos e
estabelece a obrigação do Estado de proteger a biodiversidade e promover o
desenvolvimento sustentável da Amazônia.
No Peru, os trabalhos atuais sobre o tamanho de primeira maturação de
algumas espécies de bagres, entre as quais se destaca a dourada, têm conduzi-
do as instituições envolvidas no manejo da pesca a iniciar os trabalhos para
regular o tamanho de captura. As medidas de ordenamento aplicáveis à ativi-
dade pesqueira de grandes bagres amazônicos estão referidas nas disposições
da Lei Geral de Pesca aprovada mediante o Decreto Lei n. 25.977 e seu regu-
lamento aprovado por Decreto Supremo n. 1-94-PE. Essas leis foram atualizadas
por meio da Resolução Ministerial n. 147-2001-PE.
Não é permitido usar redes com malha menor que duas polegadas para
peixes de escama e redes menores que oito polegadas (1 pol = 2,54 cm) nas
pescarias comercias de grandes bagres e pirarucu. Na pesca é proibida qual-
quer modalidade de artes e procedimentos que atentem contra o recurso e
meio ambiente como: tapagem de bocas de lagos, destruição de refúgios,
agito da água, substâncias tóxicas e explosivos, sendo proibido, inclusive, con-
duzir nas embarcações (VIEIRA, 2005).

O direito transfronteiriço e a responsabilidade


transfronteiriço
por perigo de dano ambiental
Antecede a exposição dos argumentos, a necessidade de salientar que se
entende por dano ambiental transfronteiriço e poluição transfronteiriça.

4. Instituto Nacional de Recursos Naturales y Renovables del Medio Ambiente da Colômbia


O Direito Pesqueiro na Esfera Internacional: A Região da Tríplice Fronteira... 51

Dentre as múltiplas funções das águas transfronteiriças, pode-se afirmar


que a mais recorrente é a de que servem como limites internacionais entre
Estados. No caso de água doce, merece destaque outras funções primordiais
como: o consumo, a navegabilidade, usos industriais e a pesca.
A princípio, podemos simplesmente considerar a poluição transfronteiriça
como a poluição cujas consequências ultrapassam os limites territoriais de outro
Estado. Poluição transfronteiriça é uma expressão que foi utilizada na OCDE –
Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a princípio, no
sentido de regulamentar o fenômeno da poluição atmosférica. Atualmente, a
dita expressão está definida como aquela que ultrapassa a fronteira de um ou
mais Estados, qualquer que seja a sua natureza (MENEZES; BRANDÃO; MEN-
DONÇA, 2007).
Quando a poluição transfronteiriça atinge os mananciais de água doce
do planeta, o dano ambiental torna-se grave ou de difícil reparação, resultan-
do em ameaça, inclusive, diretamente à vida (em todas as suas formas), inde-
pendente das leis que regem os Estados soberanos (MENEZES; BRANDÃO;
MENDONÇA, 2007).
Entenda-se por poluição da água “qualquer alteração de sua proprieda-
de física, química ou biológica” (SILVA, 2002). Desse modo ocorrem os confli-
tos internacionais, que se somam as disputas quanto ao uso e o acesso equitativo
aos recursos em situação de escassez relativa ou absoluta.
As palavras de Nusdeo (2001, p. 362-363), refletem a importância e a
preocupação com a exploração dos recursos naturais:

Todos os seres vivos nutrem-se de elementos produzidos ou sintetizados por outros


seres, segundo uma cadeia de sistemas que pode atuar indefinidamente e se perpe-
tuar, na ausência de intervenções exógenas [...] este mesmo tipo de intercâmbio é
exercitado pela espécie humana com o meio ambiente que a envolve. Ele é com-
posto por um conjunto de elementos naturais – água, ar, terra, vegetação etc. – a
comporem a chamada biosfera, de onde o homem retira oxigênio, alimentos,
matérias-primas e a própria água, além de energia. Esses elemento todos são, de
uma forma ou de outra, processados, transformando-se em bens destinados a pres-
tar os mais diversos serviços ao homem, para, a seguir, serem devolvidos ao mesmo
ambiente, como sucata ou produtos imprestáveis de todo o tipo.

Mas quando se trata de poluição é necessário abordar a questão das


externalidades, que no caso, representa o comprometimento dos recursos,
tais como a fauna ou a extinção das espécies, a diminuição do volume ou a
degradação das águas e outros.
A questão toma dimensões maiores quando está relacionada às bacias
hidrográficas compartilhadas, uma vez que o tratamento a ser dispensado ao
52 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

problema das externalidades depende de cooperação multilateral. Nesse as-


pecto, deve-se considerar que, em sede de Direito Internacional, não existem
instituições com poder sancionador, que possam constranger os atores à ob-
servação do bem público.
Ainda que nenhum usuário possa ser excluído do acesso ao recurso hídrico,
alguns prejuízos causados aos países transfronteiriços acabam se refletindo na
coletividade em geral, como é o caso do comprometimento de um estoque
pesqueiro ou a extinção de espécies. Sendo essas externalidades as principais
ocasionadoras de conflitos, que podem repercutir em consequências realmen-
te desastrosas.
Na hipótese dos conflitos entre os países, a de se considerar a coopera-
ção como a alternativa mais adequada, principalmente para aqueles que pos-
suem um bom relacionamento bilateral, como é o caso do Brasil, do Peru e da
Colômbia, pois há a grande possibilidade de os problemas serem resolvidos
por intermédio de consenso.
Pondera-se que uma situação indesejada pelo Direito Internacional seria
a interferência de um árbitro externo, ou ainda a presença de uma potência
com interesses na região conflituosa que, de certa maneira impusesse as partes
envolvidas um acordo. Essa situação, com certeza, alteraria a posição relativa
dos países conflitantes, tornando a escolha da cooperação uma estratégia não
muito recomendável em virtude de seus custos.
Além do mais, os países diretamente interessados devem ser aqueles que
de fato negociam e estabelecem acordos e firmam a cooperação a fim de
compartilharem, da melhor forma, os recursos naturais em comum.
A cooperação não deve ser admitida apenas como o instrumento para
superar conflitos, uma vez que a sua melhor utilização está vinculada à pre-
tensão da exploração conjunta dos mencionados recursos, tendo como fator
determinante o interesse comum entre as nações.
Os Estados, em prol do bem da comunidade internacional e da convi-
vência pacífica entre as nações, assim como em face do imperioso equilíbrio
do meio ambiente, devem observar a obrigação de diligência, prevista no
Direito Internacional e que é constituída de regras de comportamento volta-
das à proteção do meio ambiente, das quais se destacam:
a) os Estados devem possuir de maneira permanente o aparato jurídico
e material suficiente para assegurar normalmente o respeito de suas
obrigações internacionais e devem dotar-se no campo da proteção ao
meio ambiente, da legislação e da regulamentação administrativa, penal
e civil necessárias;
O Direito Pesqueiro na Esfera Internacional: A Região da Tríplice Fronteira... 53

b) o cumprimento com o dever de diligência implica, em concomitância


ao princípio da boa-fé, que o Estado ademais deve dotar-se da infra-
estrutura legal e administrativa apropriada, deverá realizá-lo com a
diligência e a vigilância apropriada às circunstâncias;
c) igualmente e enquanto não haja identidade entre os princípios, é sem
embargo possível apreciar intimamente relacionado o dever de dili-
gência com o dever de cooperação internacional e posto aos Estados,
em particular no que se refere à proteção do meio ambiente (MENEZES;
BRANDÃO; MENDONÇA, 2007, p. 356).

Nesse contexto, invoca-se o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA)5


na qualidade de pacto firmado, em sua totalidade e sem reservas, por oito
países amazônicos, dentre os quais, Brasil, Peru e Colômbia.
Trata-se de um instrumento jurídico de natureza técnica que, como já foi
visto, tem por objetivo promover o desenvolvimento harmonioso e integra-
do da Bacia Amazônica e que tem como base a sustentação de um modelo de
contemplação econômica regional que almeja a melhora da qualidade de
vida de seus habitantes e a conservação e utilização racional dos recurso natu-
rais disponíveis.
Dentre as previsões do preâmbulo do TCA, merece atenção a colaboração
entre os Estados partes visando promover a utilização racional dos recursos
naturais, em prol do desenvolvimento harmonioso dos respectivos territórios.
No art. 1º os países se comprometem a realizar esforços conjuntos para
promover o desenvolvimento de seus respectivos territórios, levando-se em
conta a preservação do meio ambiente.
O art. 5º do mencionado tratado estabelece que as partes contratantes
procurem envidar esforços com vistas à utilização racional dos recursos hídricos.
O documento prevê, também, várias instâncias de decisão com a finali-
dade de assegurar a cooperação entre todos os países membros do sistema
hídrico: a) Reunião de ministros das relações exteriores; b) Conselho de coo-
peração amazônico; c) Comissão nacional permanente.
Está preconizado que todos os planos e programas binacionais devem
ter o mesmo propósito, como também devem utilizar um processo de plane-

5. O Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) foi assinado em Brasília, no dia 03/07/78,


e referendado no Brasil pelo Decreto Legislativo n. 69/78, sendo que o derradeiro
instrumento de ratificação, por intermédio do governo da Venezuela, foi depositado
em Brasília, em 03/07/80, passando a vigorar após a edição do Decreto Presidencial n.
85.050, de 03/08/80.
54 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

jamento estruturado, que incorpore os elementos mais importantes e que


afetam o desenvolvimento de uma determinada região, dando atenção parti-
cular ao manejo da base de recursos naturais.
A formulação dos planos e programas binacionais, assim como a estrutu-
ra operacional e enfoques metodológicos, utilizados na operacionalização do
pacto originaram resultados arquivados na Secretaria-Geral do Tratado (em
Brasília), contudo, embora sejam considerados importantes no ponto de vista
formal, apresentam-se fracos na questão operacional, uma vez que as propos-
tas revestem-se de caráter principiológico e geral (MENEZES; BRANDÃO;
MENDONÇA, 2007, p. 386).
Reafirma-se que, em qualquer atividade econômica a idéia de desenvol-
vimento está inteiramente vinculada à utilização do patrimônio natural. As-
sim, a ausência de uma estratégia adequada para assegurar o gerenciamento
integral desse patrimônio, em prazo prolongado, converte o desenvolvimen-
to sustentável em um objetivo de alcance dificultoso ou inatingível.
Apesar disso, os critérios utilizados para definir os projetos binacionais e
nacionais revelam o interesse dos países membros do TCA em melhorar o
bem-estar social das comunidades transfronteiriças.
Então, diante desse interesse e das manifestações, explícitas e implícitas
do TCA, pode-se afirmar a necessidade: a) de utilizar todos os meios possíveis
com objetivo de prevenir ou minorar danos ao meio ambiente; b) de utilizar
os mecanismos do Direito Internacional vinculados ao meio ambiente, inclu-
sive as iniciativas diplomáticas e consulares dos três países (Brasil, Peru e Co-
lômbia), para a conservação dos recursos naturais dispostos em ambientes
transfronteiriços; c) da utilização dos instrumentos de Direito Interno dos
mencionados países em favor da preservação ambiental e da harmoniosa con-
vivência entre as nações; d) de, diante da poluição transfronteiriça (no caso, o
perigo de depleção do estoque pesqueiro de bagres migradores), acionar a
Comissão Especial do Meio Ambiente da Amazônia, conforme disposição do
TCA, a fim de fomentar atos preventivos, inclusive de reparação, e atribuir
responsabilidade por eventuais riscos de danos e danos aos recursos naturais
da região.
No âmbito nacional, o Brasil possui instrumentos valiosos disponíveis
para a defesa do meio ambiente:
a) a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n. 6938/81);
b) a Lei da Ação Civil Pública (Lei n. 7.347/85);
c) o Código de Defesa do Consumidor (que confere amplitude ainda
maior à da ação civil pública);
O Direito Pesqueiro na Esfera Internacional: A Região da Tríplice Fronteira... 55

d) a Lei de Crimes Ambientais (Lei n. 9608/98 – que dispôs sobre as


sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades
lesivas ao meio ambiente);
e) e o art. 225 da Constituição Brasileira.

Várias opções foram apontadas, que se encontram dispostas no


ordenamento jurídico pátrio e no Direito Internacional Ambiental, para a
prevenção e a responsabilização pelo dano ambiental transfronteiriço. Por
essa razão, e com fulcro no entendimento de Menezes, Brandão e Mendonça
(2007, p. 400-402), apresenta-se um ordenamento de ações destinadas à
prevenção, à reparação e a responsabilidade por dano ambiental
transfronteiriço.

Considerações finais
A bacia Amazônica se distribui por diversos países e, consequentemente,
compartilha estoques pesqueiros, tais como dos bagres migradores (dourada
e piramutaba) e de peixes sedentários, como o caso do pirarucu.
A necessidade da promoção do desenvolvimento em bases sustentáveis
da bacia e a utilização racional dos recursos naturais motivou o estabeleci-
mento do Tratado de Cooperação Amazônica, no início da década de 1970.
Entretanto, a partir do direito comparado é possível perceber que os Estados
signatários do mencionado documento pouco avançaram no sentido de criar
legislações compatíveis para a manutenção desses estoques pesqueiros com-
partilhados, ignorando até o momento, a poluição transfronteiriça, que ame-
aça a integridade ecológica da bacia, prejudicando a pesca.

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Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República em Ministério da Pesca e
Aquicultura; cria cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores –
56 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

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ische
O Manejo de
Recursos Pesqueir
Pesqueiros
esqueiros
4
Blanca Lourdes Bottini R ojas
Rojas
Serguei Aily Franco de Camargo
Franco
Miguel P etrere Jr
Petrere Jr..

Este capítulo apresenta uma ampla revisão da literatura sobre as bases


conceituais do manejo pesqueiro. Dado o caráter multidisciplinar e holístico
do pensamento que envolve as técnicas e estratégias de manejo, são visitadas
várias áreas da ciência, dentre as quais a ecologia, a biologia, a economia e as
ciências sociais.
Nesse sentido, com a finalidade de transportar para os juristas as princi-
pais idéias que permeiam as técnicas de manejo utilizadas, não só na Amazô-
nia, mas também pelo mundo, optou-se por estruturar o texto como uma
sequência de tipos conceituais de manejo e, sempre que possível, buscou-se
apresentar exemplos relevantes para o propósito da obra, que é fomentar a
discussão sobre o direito pesqueiro no Brasil.

Bases conceituais
O manejo de recursos naturais abrange várias disciplinas, tais como a
ecologia, ciências sociais e a gestão pública. As regras que o fundamentam
envolvem formas de aproveitamento e a definição de seus respectivos titula-
res, visando à regulação de padrões de uso e à potencialização dos resultados.
Portanto, o manejo (gestão ou gerenciamento) de recursos naturais possui
duas dimensões inter-relacionadas: o sistema social e o sistema ecológico (Cf.
CARLSSON; BERKES, 2005; CASTRO, 2004; SEIXAS; BERKES, 2005).
Assim, o manejo dos recursos naturais ocupa um papel determinante no
processo de regulação das inter-relações entre os sistemas naturais e sociais a
longo prazo. Neste caso, deve-se levar em consideração a diversidade de inte-
resses dos atores sociais envolvidos no processo de manejo, e as incertezas e
controvérsias científicas sobre as dinâmicas ecossistêmicas (VIEIRA; BERKES;
SEIXAS, 2005).
60 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Segundo Ludwig, Hilborn e Walters (1993), as potencialidades de apro-


veitamento de alguns tipos de recursos naturais renováveis (v.g. estoques pes-
queiros) são incertas e de difícil estimativa. Portanto, é importante que a aca-
demia e os tomadores de decisão sejam cuidadosos no uso dos modelos
preditivos e com as propostas neles baseados.
No caso do manejo dos recursos pesqueiros, o processo é complexo,
pois requer a integração da biologia e da ecologia das espécies-alvo, com os
fatores socioeconômicos e institucionais que afetam o comportamento dos
usuários (pescadores) e dos responsáveis pela sua administração. Embora os
planos de manejo tenham sido melhorados ao longo do tempo, muitos esto-
ques pesqueiros tem sofrido declínio, chegando inclusive a níveis de colapso
(POMEROY, 1998; LUDWIG; HILBORN; WALTERS, 1993; FAO, 2006). Em
pescarias continentais, o declínio de alguns estoques na bacia amazônica, como
o da piramutaba Brachyplatystoma vaillantii, do tambaqui Colossoma
macropomum, e do pirarucu Arapaima gigas, refletem as dificuldades de se
estabelecer planos de manejo.1
É enganoso acreditar que o principal objetivo do manejo de recursos
pesqueiros é simplesmente a manutenção biológica dos estoques. Entretanto,
ressalte-se que este enfoque limitado foi bastante ampliado através do tempo,
incluindo-se objetivos econômicos, sociais e ambientais, que envolvem a as-
sistência social ao pescador, a promoção da eficiência econômica das pescarias
e o compartilhamento justo dos recursos (HILBORN; WALTERS, 1992; BERKES
et al., 2006; KING, 2007).
Neste sentido, antes de determinar uma estratégia de manejo para as
pescarias que se desenvolvem em uma localidade, a autoridade gestora dos
recursos deve definir claramente seus objetivos, que devem ser sustentados
com base em um ou vários critérios, dependendo do contexto em que se
encontram (FAO, 1999; PROYECTO FODEPAL, 2004). Os objetivos podem
variar no tempo e no espaço, além de mudarem sob circunstâncias externas.
Critérios de conservação, sustentabilidade, usos recreativos e de equidade de
acesso frequentemente são considerados no manejo das pescarias.2

1. A literatura, nesse particular, é bastante vasta em exemplos. Ver BAYLEY; PETRERE,


1989; BARTHEM et al., 1997; ISAAC; RUFFINO, 1996; BATISTA et al., 1998; CASTILLO
et al., 1988; DURAN, 1995; HURTADO, 1997; CASTILLO; MATOS; BRAVO, 2000a;
CASTILLO; PINERO; BRAVO, 2000; CASTILLO; RUIZ; BRAVO, 2000; CASTILLO, 2001;
CORTES-MILLAN, 2002; NOVOA, 2002; CASTELLO, 2004; FABRÉ; BARTHEM, 2005;
RUEDA, 2006; BARBARINO, 2005; RODRIGUEZ et al., 2007.
2. Nesse sentido se manifestam diversos autores, como: PANAYOTOU, 1983; HILBORN;
WALTERS, 1992; SEIJO; DEFEO; SALAS, 1997; FAO, 1999; BERKES et al., 2006; KING,
2007; PROYECTO FODEPAL, 2004
O Manejo de Recursos Pesqueiros 61

Assim, uma vez acordados os objetivos, podem ser desenvolvidas as


estratégias de manejo, que devem prioritariamente, evitar a extinção comer-
cial e biológica das espécies-alvo das pescarias.3 Estas estratégias devem tam-
bém otimizar os benefícios derivados da atividade pesqueira e promover o
uso sustentável dos recursos (FAO, 1999; BERKES et al., 2006).
Em muitos casos, observa-se o estabelecimento de limites territoriais,
controle de acesso a certas zonas de pesca e cotas de captura. Entretanto, a
dificuldade para estabelecer direitos de propriedade sobre os recursos pes-
queiros tem sido um problema em diversos sistemas jurídicos, como no caso
do Brasil. Assim, na maioria dos casos, outorgam-se direitos para o uso ou
aproveitamento dos recursos, sem a imposição de qualquer alteração nos di-
reitos de propriedade.4
Neste sentido, é pertinente abordar o tema dos recursos de propriedade
comum, dentre os quais os recursos pesqueiros, e os princípios e fundamentos
do manejo. Ressalte-se, entretanto, que no Brasil os recursos pesqueiros são
bens de domínio público e livre acesso, não se confundindo com a condição
de recurso comum, conforme definido por Hardin (1968).

A regulação de recursos de pr opriedade comum e a


propriedade
definição de direitos de propriedade
propriedade

De acordo com Pauly (1983), o pecado capital do manejo pesqueiro é o


declínio dos estoques e a consequente tragédia dos comuns. Essa tragédia con-
siste no fracasso da administração do uso de um estoque pesqueiro (de propri-
edade comum ou livre acesso), provocado pela falência de ações ou políticas
dirigidas para regular o desenvolvimento das pescarias (BARTHEM et al., 1997).
Hardin (1968) desenvolveu o conceito de propriedade comum partindo
da evolução histórica de áreas comuns (pastagens) instituídas à época do siste-
ma feudal na Inglaterra. Segundo referido autor, os feudos possuíam áreas
onde os trabalhadores (servos) do senhor feudal podiam criar animais para
sua alimentação. Essas áreas de pastagem não possuíam um proprietário/usu-
ário identificado ou singular, mas eram destinadas a um sujeito coletivo de
direitos, quais sejam, os servos daquele feudo. Com o passar do tempo, o
sistema feudal entrou em declínio e terminou, restando, entretanto, essas áre-
as “comuns”, que continuavam a existir sob as mesmas condições de uso e
acesso da época em que foram criadas.

3. Segundo Reis, Kullander e Ferraris (2003), 20% das espécies continentais já estão extintas.
4. Sobre ese tema, ver ACHESON, 1981; HILBORN; WALTERS, 1992; PROYECTO FODEPAL,
2004; PAIVA, 2004.
62 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Assim, é importante entender que no Brasil não existem recursos de pro-


priedade comum, conforme o conceito de Hardin (1968). Apesar disso, as
consequências do aproveitamento irracional dos recursos pesqueiros nacio-
nais, assim como as condições de acesso irrestrito aos estoques, equiparam-se
na prática à tragédia dos comuns.
De acordo com Hardin (1968), uma área de livre acesso, aberta à
explotação (pastagem) por qualquer usuário (pastor), corre o risco de destrui-
ção irreversível, pois é esperado que cada pastor aumente seu rebanho visan-
do um retorno individual maior, sem se preocupar com os demais usuários,
provocando prejuízos compartilhados por todos. Assim, este autor conclui
que a liberdade em relação a recursos comuns gera a ruína de todos.
Para Hardin (1968), uma forma de evitar este resultado é definir direitos
de propriedade. Sob o ponto de vista da teoria econômica, esta definição
permite que os usuários explotem racionalmente o recurso, assegurando sua
sustentabilidade a longo prazo e maximizando a renda. Isto se deve aos in-
centivos que são alocados quando o possuidor tem a exclusividade para fazer
uso do recurso e para transferi-lo com relativa facilidade, com a certeza de
que se respeitará sua propriedade e seu direito terá vigência determinada.
Assim, Hardin (1968) propõe que estes recursos devem ser privatizados ou
destinados à esfera de propriedade pública, estabelecendo-se regras de acesso
para regulamentar seu uso, bem como se deve estabelecer princípios de aces-
so preferencial.
Berkes (1985) e Feeny et al. (1990) expõem que os recursos comuns são
susceptíveis ao esgotamento e à degradação, porque compartilham duas ca-
racterísticas básicas: (i) a impossibilidade de controlar o acesso dos usuários; e
(ii) a subtrabilidade, que se traduz na situação onde aquilo que é apropriado
por um usuário torna-se sua propriedade, excluindo os demais usuários (v.g. a
pesca: o peixe que é capturado por um pescador passa a ser de sua proprieda-
de e não pode mais ser capturado por ninguém).
Berkes (1996) e Feeny et al. (1990) identificam quatro categorias de di-
reitos sobre os recursos naturais: i) livre acesso; ii) propriedade privada; iii)
propriedade estatal; e iv) propriedade comum, assim definidos:
t Livre acesso: o acesso aos recursos não é condicionado, sendo livre e
aberto para qualquer pessoa. Nesse caso, os recursos são considerados
coisa de ninguém (HARTMANN, 1990).
t Propriedade privada: faz referência à condição na qual um indivíduo
ou corporação tem direito de excluir outros e de ter normas para o
uso do recurso. Geralmente, os direitos de propriedade privada são
O Manejo de Recursos Pesqueiros 63

reconhecidos e regulamentados pelo Estado, sendo, em muitos casos,


exclusivos e transferíveis.
t Propriedade estatal: exprime que os direitos sobre o recurso são de
exclusividade do governo, que controla seu acesso e regulamenta seu
uso (HARTMANN, 1990).
t Propriedade comunal ou comunitária: refere-se àquele regime em que
o recurso é manejado por uma comunidade definida de usuários, que
podem excluir a ação de indivíduos externos e regulamentam a utili-
zação do recurso por parte dos membros da comunidade local
(HARTMANN, 1990). No Brasil, os acordos comunitários de pesca,
instrumentos de direito administrativo e de eficácia entre as partes
(administrados), têm servido a esse propósito. A fragilidade da situa-
ção jurídica, entretanto, é compensada pela legitimidade social da
norma, fazendo-se respeitar mesmo por usuários não abrangidos pe-
los acordos. Casos observados de falência desses acordos relacionam-
se a vícios de origem (nos quais nem todos os usuários foram consul-
tados e/ou opiniões fortes não foram contempladas), e ao desvirtua-
mento de seus objetivos, quando as comunidades passam a usar o
instrumento como forma de reservar um local para a prática comuni-
tária da pesca comercial, ocasionando a pressão e consequentes con-
flitos com pescadores de fora.

Considerando os quatro aspectos acima, McCay e Acheson (1987) críticam


a teoria de Hardin (1968), devido ao equívoco feito entre a propriedade
comum e o livre acesso. É incorreto simplificar as causas do declínio ambiental,
atribuindo-lhes apenas o viés econômico da utilização irracional dos comuns
e desconsiderando o desempenho dos sistemas sócioeconômicos e o compor-
tamento de territorialidade dos usuários desses recursos. Por outro lado, Berkes
(1996) diz que privatização dos comuns não é uma opção, pois implicaria na
exclusão de usuários tradicionais.
Apesar dos diferentes aspectos acima demonstrados, os estoques pes-
queiros apresentam as condições de recurso de uso comum, pois não há exclu-
sividade sobre os mesmos. Neste caso, a subtrabilidade incentiva o aumento
do esforço de pesca para se compensar os ganhos individuais dos usuários
(PROYECTO FODEPAL, 2004). Nesse contexto, espera-se o surgimento de
usuários com comportamento de free riders, o que em alguns casos pode
conduzir a falência do sistema de manejo.
Sob a perspectiva de Hardin (1968), caso o recurso seja de uso comum, ou
não tenha usuários definidos ou certeza sobre os mesmos, cada indivíduo tem a
opção de capturar mais ou limitar sua captura, levando em conta os custos e
64 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

benefícios individuais esperados. Assim, o pescador opta por aumentar sua cap-
tura porque existem benefícios individuais esperados por um esforço maior de
captura, enquanto os custos esperados, entendidos como uma sobre-explotação
do recurso são compartilhados entre todos os usuários do recurso.
Com esta premissa, todos os pescadores aumentam o esforço pesqueiro
e investem na melhoria do poder de pesca das embarcações. Esta situação
gera a sobre-explotação do recurso e produz importantes perdas para os pes-
cadores que tem que exercer um esforço pesqueiro maior para obter menores
capturas, terminando, finalmente, numa situação onde não há mais recurso e
não há novos ingressos (BERKES et al., 2006).
Camargo (1998) aponta que, nas circunstâncias de livre acesso, os riscos
econômicos da extinção das pescarias são maiores que a circunstâncias de
acesso limitado, pois no manejo dos recursos naturais é pertinente estabelecer
direitos, taxas e privilégios. No Brasil, apesar da situação jurídica dos estoques
pesqueiros, não se pode falar em livre acesso, uma vez que a atividade é
regularmente licenciada pelo Ministério da Pesca e Aquicultura. Observam-se
também diversas práticas de limitação de acesso aos estoques pesqueiros, através
de medidas de restrição de frota pesqueira (v.g. pesca de camarões).
Assim, a sustentabilidade da atividade pesqueira tem que lidar com a
questão de como se define o “uso” dos recursos. As formas de apropriação do
espaço pelos pescadores são o eixo principal da polêmica sobre as perspecti-
vas de vida e trabalho das comunidades de pescadores. Portanto, os tipos de
manejo pesqueiro procedem do sistema de acesso aos mesmos, do comporta-
mento de territorialidade e das interações intra e intercomunitárias, principal-
mente com o estado (Cf. McCAY; ACHESON, 1987; CAMARGO, 1998; BERKES
et al., 2006).
O manejo da pesca é necessário para que a atividade permaneça lucrati-
va. Para tal, a agência/órgão gestor (governamental ou não) que dirige o
manejo deve estar preparada para manter o equilíbrio entre os interesses de
todos os envolvidos, enquanto garante que o sistema pesqueiro de forma
geral seja sustentável (FAO, 1999; BERKES et al., 2006).
Assim, diferentes abordagens de manejo são reconhecidas pela literatu-
ra. Segundo Berkes et al. (2006), entre elas, observam-se o manejo
ecossistêmico, o manejo adaptativo, os novos regimes de governança, o ma-
nejo compartilhado (ou co-manejo), o uso do conhecimento tradicional ou
local dos pescadores e os meios de vida sustentáveis.
O Manejo de Recursos Pesqueiros 65

Abordagens de manejo pesqueiro


pesqueiro
Manejo pesqueiro tradicional ou convencional
Ainda que a conservação não fosse essencialmente o alvo dos sistemas
de pesca tradicionais, eles teriam que ser sustentáveis a longo prazo. Desta
forma, os princípios de uso sustentável e as abordagens de precaução foram
incorporados na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar de
1982; no Código de Conduta para Pesca Responsável de 1995, entre outros
acordos internacionais relacionados à pesca (FAO, 1995a; BERKES et al., 2006).
Apesar de considerar que não existe um conceito claro para o manejo
sustentável de recursos pesqueiros, a FAO (1999) entende que o mesmo é o
processo integrado de agrupamento de informações, análise, planejamento,
consulta, tomada de decisões, alocação de recursos e implementação das re-
gulamentações ou normas que governam as atividades pesqueiras, de modo a
assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos e o alcance de outros objeti-
vos das pescarias.
Dias Neto (2003) define a gestão do uso sustentável dos recursos pes-
queiros como sendo a mediação pelo uso de um bem da União, envolvendo
a aplicação de um conjunto harmônico de medidas de expansão ou retração
da pesca, para obter a sustentabilidade da atividade e o equilíbrio do
ecossistema onde ocorre a pescaria, para a garantia de preservação do banco
genético da espécie ou das espécies explotadas e a rentabilidade econômica
dos empreendimentos; assim como a geração de emprego e renda justa para
o trabalho.
Nota-se que, em ambos os conceitos, coincidem os fatores biológicos,
econômicos, sociais, legais e políticos, que geralmente envolvem compromis-
sos para assegurar à sustentabilidade da atividade. Atualmente, os objetivos
das práticas de manejo pesqueiro visam equilibrar conjuntamente a conserva-
ção dos estoques, o bom desempenho econômico das pescarias, os reflexos
sociais da atividade pesqueira e os aspectos políticos. Também tem sido incor-
porada a busca pelo maior nível e satisfação das pessoas que vivem da pesca
(PAIVA, 1986; BERKES et al., 2006).
Segundo Caddy e Mahon (1996), a definição de objetivos claros de ma-
nejo facilitaria a adesão dos grupos envolvidos na atividade pesqueira. Assim,
para o planejamento inicial das estratégias de manejo, os mencionados auto-
res defendem a utilização de pontos de referência, que são os valores referenciais
sobre a situação ou estado da pescaria, ou da população em estudo.
Os pontos de referência podem ser classificados em: i) objetivos (PROs);
ii) limites (PRLs); iii) umbral (PRUs) e; iv) precaucionários (PRPs). Os PROs
66 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

indicam o estado desejável que se deve encontrar uma pescaria ou um recur-


so. Os PRLs indicam a situação indesejável na qual uma pescaria ou recurso
pesqueiro poderiam estar e as ações de manejo pesqueiro que deveriam ser
evitadas. Os PRUs indicam um alerta para quando se ultrapassaram os objeti-
vos de manejo estabelecidos previamente. Por último, os PRPs são aqueles
estabelecidos para recursos no início de uma explotação ou no caso de haver
informação científica insuficiente para o estabelecimento de um plano de
manejo (CADDY; MAHON, 1996). Este último nada mais representa que a
aplicação do princípio da precaução ao manejo pesqueiro.
Para as medidas técnicas de regulamentação, uma vez definidos os objetivos
e os pontos de referência, se estabelecem formas de controle para garantir o
sucesso das estratégias adotadas. Tais controles são denominados medidas técni-
cas de manejo e podem ser medidas de controle dos insumos (inputs) ou do
produto (outputs). Entre estas se destacam: i) limitação do tamanho da frota,
proibição de petrechos, restrições do exercício da atividade e incentivos fiscais e;
ii) limitação do tamanho de captura das espécies-alvo, da quantidade de pescado,
da captura de determinadas espécies e o estabelecimento de épocas e áreas para
a pesca (PROYECTO FODEPAL, 2004; COCHRANE, 2005; KING, 2007).
Todas estas medidas de controle para regular a atividade podem gerar
resultados positivos. Porém, deve ser adotada pelo órgão gestor, aquela com-
binação de opções que melhor se adapte à natureza da pescaria e dos grupos
de interesses presentes, com a finalidade de proporcionar a sustentabilidade
da atividade pesqueira (CADDY; MAHON, 1996; PROYECTO FODEPAL,
2004). É importante lembrar que, uma vez adotadas as estratégias de manejo,
as decisões tomadas devem ser mantidas por um tempo mínimo, evitando
que interesses pontuais e de curto prazo interfiram nas medidas estabelecidas
e provoquem o colapso das estratégias.
Para superar as dificuldades a serem enfrentadas na fase de implementação
das medidas, Caddy e Mahon (1996) recomendam que as incertezas sobre o
estado dos estoques sejam quantificadas, com a finalidade de conhecer a pro-
babilidade de alcançar o objetivo desejado. Em relação ao risco, os mesmos
autores identificam duas categorias: o risco de não conseguir um PROs e o
risco de exceder um PRLs. Os custos por não alcançar um PROs são definidos
em termos da redução ou interrupção a curto prazo o fluxo de benefícios
para os participantes da pescaria e para os consumidores, ainda que isto possa
resultar em ganhos brutos a longo prazo. Entretanto, os custos de exceder um
PRLs são mais sérios e podem ir desde um simples decréscimo até o colapso
das populações, impactos sobre as espécies associadas e desestabilização dos
ecossistemas, assim como a perda de renda a longo prazo, incluindo assim
impactos entre gerações.
O Manejo de Recursos Pesqueiros 67

Manejo ecossistêmico
A abordagem de manejo ecossistêmico foi inicialmente tratada no Fórum
de Consultas sobre Princípios Ecossistêmicos dos Estados Unidos (EPAP), em
1998. Baseado na literatura dos ecossistemas pesqueiros e na experiência de
seus representantes, este fórum sugeriu princípios, objetivos e políticas que
incorporam elementos-chave para a abordagem ecológica do manejo da pes-
ca. Assim, seus elementos fundamentais são: i) a manutenção dos bens e servi-
ços ambientais e seus benefícios; ii) a redefinição dos limites que caracterizam
o manejo, pois o ecossistema funciona como uma entidade una e indivisível,
o que sugere transcender limites jurisdicionais, posto que os ecossistemas ul-
trapassam as fronteiras entre estados e países; iii) a adoção de uma visão a
longo prazo, garantindo a sustentabilidade dos recursos para as gerações futu-
ras; iv) a integração da informação social e econômica com a informação
ambiental e; (v) a manutenção do potencial produtivo (FAO, 2004a).
Também chamado de manejo pesqueiro baseado no ecossistema -
“Ecosystem-based fisheries management” (EBFM), este enfoque foi posterior-
mente discutido na “Conferência de Reykjavik sobre a Pesca Responsável no
Ecossistema Marinho”, organizada pela FAO e pelos Governos de Islândia e
Noruega, no ano 2001. A declaração desta Conferência afirma que a incorpo-
ração do conceito de ecossistema implica na sua conservação mais efetiva e
no seu uso sustentável, reafirmando-se igualmente os princípios do Código de
Conduta para a Pesca Responsável (FAO, 2004a, b; FAO, 2006; COCHRANE,
2005; FAO, 2007).
Mediante o enfoque ecossistêmico das pescarias, procura-se equilibrar os
diversos objetivos sociais, considerando os conhecimentos e as incertezas so-
bre os componentes bióticos, abióticos e humanos dos ecossistemas e suas
interações, para então aplicar à pesca um enfoque integrado dentro de limites
ecológicos fidedignos. Assim, segundo a FAO (2004a; 2006; 2007), o EBFM
não é incompatível com os enfoques atuais de ordenamento da pesca sendo
mais uma extensão ampliada destes.
O EBFM orienta-se não só para a regulamentação da pesca de certas
espécies, mas também cuida para que a pesca não tenha um efeito indesejável
em outras espécies afins ou dependentes das espécies alvo. Os esforços, por-
tanto, estarão dirigidos na preservação da integridade do ecossistema medi-
ante o estabelecimento de limites conservadores (precaucionários) (Cf FAO,
2006; COCHRANE, 2005).
Na abordagem ecossistêmica, deve-se considerar o homem como parte
da cadeia alimentar e não apenas as relações tróficas no ambiente aquático. O
homem assume a função de predador e ente de distorção das relações existen-
68 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

tes no ambiente. Assim, conforme dispõe Cury, Shannon e Shin (2003), as


estratégias de manejo devem considerar a estrutura dinâmica do ecossistema
e as diferentes interações tróficas que nele ocorrem.
Neste sentido, é fundamental aceitar a interdependência de todos os
elementos que formam um ecossistema. Como demonstra Sanders (2002),
embora os problemas práticos colocados por esta nova abordagem sejam
bastante complexos, existem mecanismos científicos que poderiam possibilitar
intervenções de manejo visando à conservação da estrutura e da função do
ecossistema aquático, possibilitando a conservação dos recursos pesqueiros.
Berkes et al. (2006) apontam que vários gestores usam índices de captu-
ra como indicadores de integridade ecológica ou saúde do ecossistema.5 O
rápido decrescimento dos índices de captura é indicativo de que algo está
acontecendo no ambiente. Faz-se necessário ressaltar que o manejo pesqueiro
deve visar à sustentabilidade do ecossistema e não só das espécies alvo. O
manejo baseado no ecossistema enfatiza a proteção do potencial reprodutivo
do sistema que produz os fluxos de recursos, em vez de proteger uma espécie
ou um estoque individual como recurso.

Manejo adaptativo
Este conceito foi desenvolvido pelos ecólogos Holling e Walters da Uni-
versidade de British Columbia, Canadá em 1970. O manejo adaptativo está
relacionado com o aprendizado através da prática. É um processo sistemático
de melhorar continuamente as políticas e práticas de manejo, aprendendo
com os resultados dos programas operacionais (WALTERS; HOLLING, 1990).
Segundo Hilborn e Walters (1992), o manejo adaptativo é um processo
de realimentação, onde a combinação da informação formal e informal e as
políticas formuladas pela administração pesqueira têm que ser repassadas aos
usuários e tomadores de decisão, de forma que as lições sejam absorvidas e
incorporadas pela sociedade.
Assim, este enfoque é um processo que tenta organizar os usuários e
administradores, para que tomem suas decisões a partir de informações gera-
das por diversos testes de hipótese e por modelagem (HILBORN; WALTERS,
1992). As decisões de manejo são periodicamente revisadas e corrigidas com
base na avaliação dos resultados obtidos através do monitoramento das ações
efetivadas.

5. A exemplo disso, cita-se o ProVárzea (IBAMA, GTZ, KfW e DfID), que teve como um de
seus principais objetivos o monitoramento da integridade da bacia Amazônica, através
da avaliação das condições da pesca.
O Manejo de Recursos Pesqueiros 69

Berkes et al. (2006) apontam que, assim como os indivíduos aprendem,


as organizações e instituições também podem aprender. Portanto, o manejo
adaptativo baseia-se na aprendizagem social e institucional. Este manejo dife-
re da prática convencional do manejo de recursos por enfatizar a importância
da retroalimentação do ambiente na formação de políticas, seguido por uma
nova experimentação sistemática (não aleatória) para modelar as políticas
subsequentes.
Os passos essenciais na aprendizagem com a experiência incluem docu-
mentar decisões, avaliar resultados e responder à avaliação. Assim, as institui-
ções que desenvolvem ações de manejo precisam ter publicações, registros e
bancos de dados que são os mecanismos de memória institucional que pro-
movem as mudanças das políticas estabelecidas (BERKES et al., 2006).
Em resumo, o manejo adaptativo é o senso comum. Embora seja utiliza-
do no dia a dia, muitas vezes falha quando aplicado ao manejo dos recursos
pesqueiros. Os aspectos formais, como, por exemplo, a teoria das probabili-
dades, fornecem uma base estatística para se delinear as regras de tomada de
decisão, mas estas são raramente utilizadas, pois as decisões costumam ser
mais políticas que técnicas (HILBORN; WALTERS, 1992).

Manejo compartilhado (participativo) ou co-manejo


Carlsson e Berkes (2005) demonstram que é abundante a literatura que
enfoca como os sistemas ecológicos e sociais podem estar ligados, com a fina-
lidade de promover a sustentabilidade da explotação dos recursos naturais.
Observou-se que os programas de manejo pesqueiro de pequena escala,
promovidos ou não pelos governos, não consideravam a heterogeneidade
das comunidades de pescadores e sua racionalidade a respeito da explotação
do recurso. Segundo Pomeroy (1999), para se ter um enfoque de manejo
pesqueiro baseado na comunidade, as agências de administração pesqueira
devem considerar o melhor o uso dos recursos, com a finalidade de promover
uma economia sustentável e avançar no desenvolvimento local.
Porém, estão documentados casos em que os pescadores intervieram na
tomada de decisões e nas resoluções de conflitos relacionados com o uso do
recurso e seu manejo local (JENTOFF; MCCAY, 1995). Atualmente, o conceito
de manejo compartilhado ou co-manejo tomou corpo com a finalidade de
articular as relações sociais e ecológicas que se dão no uso dos recursos natu-
rais (CARLSSON; BERKES, 2005). No caso do manejo pesqueiro, esta aborda-
gem possui uma nova estratégia que afasta a forma de manejo centralizado, e
de cima para baixo.
70 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Berkes et al. (2006) definem o manejo participativo, ou co-manejo, como


a partilha de poder e de responsabilidades entre o governo e os usuários
locais dos recursos. Por outro lado, Carlsson e Berkes (2005) definem o co-
manejo como os sistemas de governo que combinam o controle estatal com o
local, descentralizando as tomadas de decisões e as responsabilidades.
Assim, Carlsson e Berkes (2005) afirmam que o manejo compartilhado
ou co-manejo dos recursos naturais seria a potencial solução para as divergên-
cias entre dois sistemas alternativos: o centralizado (nível estatal versus nível
local), e o sistema de manejo dos recursos com base comunitária. Ressalte-se
que há vários níveis de co-manejo, dependendo do nível de partilha de poder
entre o governo central e os usuários locais desses recursos. Portanto, o mane-
jo compartilhado compreende a partilha de estruturas de governo entre os
atores envolvidos com o recurso e as instituições governamentais (JENTOFT;
McCAY; WILSON, 1998; BERKES et al., 2006).
Na prática, observa-se que o manejo pesqueiro compartilhado é a parce-
ria na qual o governo, a comunidade de usuários locais do recurso (pescadores),
os agentes externos (organizações não-governamentais acadêmicas e institui-
ções de pesquisa) e outros atores relacionados com a pesca e os recursos pes-
queiros (proprietários de embarcações, comerciantes de pescado, bancos que
concedam empréstimos, estabelecimentos turísticos, etc.) compartilham respon-
sabilidades e a autoridade por tomar decisões sobre o manejo de uma pescaria.
O manejo compartilhado é, portanto, um processo no qual se reconhe-
cem os diferentes valores, necessidades, inquietudes e interesses abrangidos
no manejo de um recurso, estando sujeito às políticas existentes, do ambiente
legal, do apoio político do governo para ações e iniciativas comunitárias e da
capacidade das organizações comunitárias se tornarem parceiras do governo.
As parcerias são construídas, fortalecidas ou redefinidas em diferentes mo-
mentos do processo do manejo compartilhado. O processo pode incluir orga-
nizações formais e informais de usuários de recursos e outros atores.
Convém ressaltar que, segundo Berkes et al. (2006) no manejo compar-
tilhado são concebidas duas categorias: i) o manejo compartilhado baseado
na comunidade,6 e ii) o manejo compartilhado centrado nos atores.
A primeira considera o manejo comunitário como parte integral do
manejo compartilhado, incluindo as características dos dois tipos de manejo e
apresentando uma conexão entre os parceiros, que ocorre quando a comuni-
dade está empoderada e organizada. É uma categoria mais complexa, custosa

6. Esta é a forma de manejo mais comum observada na bacia Amazônica. É com base
nesses critérios que são elaborados os acordos comunitários de pesca, conforme será
visto detalhadamente no decorrer desta obra.
O Manejo de Recursos Pesqueiros 71

e prolongada que o manejo comunitário puro, sendo comumente encontrada


em países em desenvolvimento. Berkes et al. (2006) sugerem que uma varia-
ção do manejo compartilhado baseado na comunidade é o manejo comparti-
lhado tradicional ou habitual, que é empregado para gerir pescarias de pe-
quena escala em várias partes do mundo, onde os órgãos oficiais de gestão
reconhecem formalmente os arranjos comunitários de manejo.7
O manejo compartilhado centrado nos atores é mais avançado e mais
frequente em países desenvolvidos, conferindo pouca ou nenhuma atenção
para o desenvolvimento comunitário. A ênfase é fazer com que os atores
participem do processo do manejo dos recursos. Dessa forma, o manejo com-
partilhado consiste em uma parceria principalmente entre a indústria e o go-
verno, sendo as representações dos pescadores e outros atores que estabele-
cem as regras de manejo, como no caso da pesca do bacalhau na Noruega
Gadus morhua ou os Conselhos Regionais de Manejo Pesqueiro nos Estados
Unidos (JENTOFT; McCAY, 1995; BERKES et al., 2006).

Conhecimento ecológico local


Geralmente, os órgãos que promovem a gestão de uso de recursos naturais
conseguem dar impulso para a realização de pesquisas sobre um dado recurso,
como parte da responsabilidade do governo para contribuir com sua conserva-
ção e assim promover planos de manejo. Entretanto, é comum a escassez de
recursos financeiros e físicos para se realizar tais pesquisas (BERKES et al., 2006).
No manejo das pescarias tropicais de pequena escala, especialmente nos
países em desenvolvimento, as informações biológicas são insuficientes, escassas
e/ou inexistentes, sendo supridas pelo conhecimento tradicional dos pescadores
de pequena escala.8 Segundo Johannes (1998), sistemas de manejo com limita-
ção de dados não significam um manejo sem informação, pois esta pode ser
obtida de duas fontes: i) utilizando estudos de pescarias semelhantes; ou ii)
utilizando o conhecimento local dos pescadores sobre seu ambiente de pesca.
Atualmente, o manejo das pescarias de pequena escala acompanha a
tendência mundial de descentralizar a tomada de decisões (de acima para
baixo). Portanto, o conhecimento local dos pescadores passou a ter um papel
determinante nesta nova forma de abordar o manejo, posto que esse conhe-
cimento fornece dados para o monitoramento dos estoques.9

7. Cite-se como exemplo os acordos comunitários de pesca na Amazônia.


8. Nesse sentido, dispõem ACHESON, 1981; ACHESON; WILSON, 1996; JOHANNES, 1998;
RUDDLE, 2000; BERKES et al., 2006.
9. Este é o entedimento defendido pelos seguintes autores: JOHANNES, 2000; RUDDLE,
2000; SILVANO, 2004; BEGOSSI, 2008; BEGOSSI; SILVANO, 2008).
72 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Portanto, para Berkes (2008), considera-se o Conhecimento Ecológico


Tradicional (CET), como cumulativo e dinâmico, sendo característico de soci-
edades com continuidade histórica no uso de recursos em um determinado
ambiente, pois é estabelecido a partir das experiências e se adapta permanen-
temente às mudanças socioambientais locais.
Segundo Johannes (2000), o conhecimento local dos pescadores está rela-
cionado à observação das diferenças no comportamento sazonal e do habitat
das espécies-alvo (abundância), e como isto afeta suas estratégias de pesca.
Deste modo, o manejo dos recursos pesqueiros é um processo local,
envolvendo um estreito vínculo entre pescadores locais (conhecimento lo-
cal), e investigadores (conhecimento científico).10 Assim, os métodos usados
para alcançar um manejo local devem ser simples, a fim de ser transmitidos e
aplicados em escala maior. Como demonstra Begossi (2008), métodos práti-
cos podem ser aplicados em toda a comunidade e poderão ser ampliados em
comunidades vizinhas, no intuito de obter informações biológicas e ecológi-
cas sobre as espécies, principalmente sobre a dieta e reprodução, que são
informações importantes para tomar decisões de manejo.

Abordagem de meios de vida sustentáveis


A abordagem baseada em Meios de Vida Sustentáveis (MVS) é uma maneira
diferente de olhar para as prioridades de desenvolvimento. Esta abordagem colo-
ca as pessoas no centro do desenvolvimento. As pessoas são consideradas prioritárias
e não os recursos que usam ou os governos que as servem. Esta abordagem
baseia-se no potencial das pessoas, não nas suas necessidades. Leva em considera-
ção o efeito das decisões relativas a questões de desenvolvimento sobre os dife-
rentes grupos, como, por exemplo, homens e mulheres; enfatiza a importância
de se entender a relação entre as decisões políticas e o dia a dia das pessoas e
aproxima os parceiros, que podem ser do setor governamental, civil, privado,
local, regional, nacional ou internacional (ALLISON & ELLIS, 2001).
Os objetivos da utilização dessa abordagem são obter uma compreen-
são mais realista dos meios de vida das pessoas e os fatores que os determi-
nam, e assim, apoiar o desenvolvimento com base na capacidade das pessoas
marginalizadas, de forma a proporcionar que elas possam melhorar suas con-
dições de vida. Segundo Allison e Ellis (2001), a idéia é que a voz e a opinião
das populações marginalizadas sejam ouvidas.
A abordagem MVS contribui para a compreensão da potencialidade dos
pescadores em lidar com as crises tais como: inundações, catástrofes e doen-

10. Mais uma vez, cita-se como exemplo da utilização desse conhecimento no manejo
pesqueiro, o processo de formulação de acordos de pesca na bacia Amazônica.
O Manejo de Recursos Pesqueiros 73

ças. Pode ajudar a entender a capacidade adaptativa dos pescadores, dentro


da arena política do manejo pesqueiro de pequena escala.
A vulnerabilidade é um conceito-chave na abordagem do MVS. O aces-
so tanto aos recursos, quanto às atividades influenciadas pelos fatores inter-
nos, tais como a política e o contexto institucional dos meios de vida (relações
sociais, instituições e organizações) ou por fatores externos, incluindo as ten-
dências e os choques afetam a organização social das comunidades pesquei-
ras. Os recursos permitem às pessoas construir estratégias de subsistência e
estas são compostas por um leque de atividades baseadas nos recursos natu-
rais ou outros. Como demonstram Allison e Ellis (2001), a chave para um
manejo sustentável da pesca e do desenvolvimento, consiste em facilitar aos
pescadores o encontro de seus próprios meios para sair da pobreza, através
da construção de suas capacidades e dos capitais próprios existentes.

Considerações finais
Como visto acima, a escolha das estratégias de manejo aplicáveis a um
caso concreto envolvem a disponibilidade de informações científicas sobre os
estoques (biologia e ecologia das espécies-alvo), de aparelhamento de gestão
do Estado e da possibilidade e/ou viabilidade da participação dos usuários no
processo de gestão de uso dos estoques.
Os objetivos das diferentes estratégias são convergentes: proporcionar o
desenvolvimento sustentável da atividade em diferentes escalas. Nesse senti-
do, praticamente qualquer alternativa de manejo exposta neste capítulo en-
contra amparo legal em nosso ordenamento, partindo da interpretação da
própria Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, no qual o direito ao
meio ambiente ecologicamente equilibrado assume o status de direito funda-
mental para as presentes e futuras gerações.
A interpretação do referido texto constitucional permite ainda a aplica-
ção do princípio da precaução ao manejo pesqueiro, ensejando grande diver-
sidade de estratégias possíveis. Resta assim, interpretar a legislação brasileira
sob a óptica dos conceitos expostos, permitindo o desenvolvimento sustentá-
vel do setor pesqueiro.

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Síntese Histórica
Sobre o Manejo
5
Pesqueiro na
esqueiro
Amazônia Brasileira
Blanca Lourdes Bottini R ojas
Rojas
Serguei Aily Franco de Camargo
Franco
Miguel P etrere Jr
Petrere Jr..

O presente capítulo discorre sobre a evolução histórica da atividade pesqueira


no Brasil, com especial foco sobre a Amazônia. São abordados aspectos
institucionais sobre o manejo pesqueiro implementado nos períodos da SUDEPE
e posteriormente, com a criação do IBAMA.
O texto apresenta também uma breve descrição dos projetos de coope-
ração técnica internacional que contribuíram para o fortalecimento institucional
do IBAMA e para a implementação do sistema de gestão participativa da
pesca. Assim, comenta os projetos IARA e ProVárzea, para em seguida apre-
sentar breves notas sobre o manejo comunitário e sobre o manejo em áreas
de reserva. Relata por fim a experiência do sistema de manejo do pirarucu em
Mamirauá, como exemplo de parceria bem sucedida entre usuários e Estado
atuando na gestão participativa da pesca.

Antecedentes: do período colonial aos projetos de


projetos
cooperação técnica internacional
Segundo Veríssimo (1970), embora haja uma longa trajetória no uso dos
peixes pelos nativos e moradores na região amazônica, costuma-se considerar
o início da atividade pesqueira no período colonial, com a criação dos pes-
queiros reais. Estas áreas eram demarcadas pelas autoridades, definindo onde
os índios eram obrigados a pescar, além das áreas de pescas voltadas para
alimentação de militares, religiosos e funcionários da Fazenda Real. Tais pes-
queiros existiram nos Estados do Amazonas, Pará e Maranhão.
80 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Referido autor menciona que, no início da era republicana em 1893, as


velhas Ordenações do Reino já estavam sendo desconsideradas pelo incre-
mento das explotações das espécies mais apreciadas (pirarucu, peixe boi,
tambaqui e a tartaruga). Naquela época, a pesca era realizada sem método
nem sistema, não tomando os administrados nenhuma providência para pro-
teger os estoques.
Ribeiro e Petrere (1990) observam que no transcurso do século XX ocor-
reu a ruptura dos padrões tecnológicos da pesca amazônica, com a introdução
de novos aparelhos de pesca, caixas e urnas de gelo nos barcos pesqueiros.
No final dos anos 60, o governo Federal iniciou uma política oficial volta-
da para estimular a pesca, a fim de torná-la uma atividade econômica de desta-
que para a Amazônia. Assim, em 1962, foi criada a Superintendência do Desen-
volvimento da Pesca (SUDEPE), que institucionalizava a atividade pesqueira em
todo o país e era encarregada de formular, executar e coordenar as política e
ações de pesquisa e ordenamento da explotação pesqueira (RUFFINO, 2005).
Em 1967, o Governo do Brasil e o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD) estabeleceram um convênio que originou o Pro-
grama de Pesquisa e Desenvolvimento Pesqueiro do Brasil (PDP/FAO). As agên-
cias responsáveis pela execução e coordenação do Programa foram a Organi-
zação de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) e o Ministério
da Agricultura, através da SUDEPE (MESCHKAT, 1975).
No início da década de 1970, com o colapso das plantações de juta,
observou-se outro momento de extraordinária expansão pesqueira, ocasiona-
do pela introdução de fibras sintéticas na fabricação de redes (MESCHKAT,
1961; PEREIRA, 2004).
O movimento desenvolvimentista promoveu a pesca industrial na re-
gião e, através de subsídios do Estado, a frota aumentou e incorporou novas
técnicas pesqueiras. Começaram a se instalar empresas frigoríficas para com-
pra, beneficiamento e estocagem do pescado, visando o comércio internacio-
nal. Nesta época, as exportações aumentaram, observando-se pela primeira
vez a figura de pescador profissional itinerante.1
Ainda na década de 1970, o processo regional de desenvolvimento pes-
queiro foi antecedido por uma explotação excessiva dos recursos, dada à cres-
cente urbanização de Manaus, Belém e outras capitais amazônicas.2 A título

1. Nesse sentido, dipõem McGRATH et al., 1993; CASTRO; McGRATH, 2001; BARTHEM
et al., 1997.
2. Este é o posionamento adotado por PAIVA, 1983; PETRERE, 1990; FURTADO, 1993;
ISAAC; RUFINO, 1996.
Síntese Histórica Sobre o Manejo Pesqueiro na Amazônia Brasileira 81

de ilustração, registre-se que no mesmo período, o consumo de pescado em


Manaus era sete vezes maior que nos países do primeiro mundo (Cf. BARTHEM
et al., 1997; GIUGLIANO et al., 1978).
Logicamente, essa dinâmica desenvolvimentista no setor pesqueiro ama-
zônico gerou o aumento da pressão pesqueira. Assim, Petrere (1985, 1986)
observou que o tempo de procura do peixe e a distância percorrida nas viagens
de pesca havia aumentado no final dos anos 70. Nesse cenário, os conflitos
pelo uso dos recursos pesqueiros ao longo do rio Amazonas não se fizeram
esperar. Nos anos 70, no Lago Janauacá, próximo a Manaus, houve uma refre-
ga entre moradores locais e pescadores profissionais da frota pesqueira de Manaus,
que ficou conhecida como a “guerra do peixe” (GOULDING, 1983).
Tais conflitos se caracterizavam por tensões de aspectos variados, tais como
confrontações verbais, atos de simples censura aos invasores, queima de equipa-
mentos, apreensão de embarcações e até sérios atos de violência pessoal. A mai-
oria deles teve lugar nos lagos de várzea do Médio Amazonas, também conheci-
dos como “lagos da confusão”. Estavam envolvidos nestas desavenças, os ribeiri-
nhos, pescadores das comunidades localizadas nos lagos e os “pescadores de fora”
ou “invasores”, provenientes de outros locais e que ansiavam por pescar em
águas consideradas comunitárias. Houve (e ainda há) uma tensão devido à proi-
bição dos fazendeiros ao acesso dos pescadores nos lagos ou corpos de águas
localizados em suas terras particulares. Conflitos adicionais também ocorreram (e
ainda ocorrem) entre pescadores comerciais (monovalentes) e pescadores de sub-
sistência (polivalentes), entre criadores de búfalos e pescadores e entre moradores
vizinhos (HARTMANN, 1990; FURTADO, 1993; RUFFINO, 2005).
Com a finalidade de reduzir os conflitantos, já no final da década de 70,
a SUDEPE editou diversos instrumentos administrativos. Contudo, Barthem et
al. (2007) demonstra que, como as informações e dados científicos eram es-
cassos, a iniciativa da SUDEPE obteve pouco sucesso (em parte devido tam-
bém à ineficiência da fiscalização).
No final da década dos 80, foi criado o Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), assimilando em sua
estrutura a SUDEPE e mudando o panorama do manejo dos recursos pesquei-
ros para uma visão integrada do meio ambiente norteada para: i) o uso sus-
tentado dos recursos; ii) a economia dos empreendimentos; e iii) a justiça
social (FISHER et al., 1992; RUFFINO, 2005).
Em 1990, o Departamento de Pesca e Aquicultura (DEPAQ)3 estabeleceu
as bases do Programa de Pesca Continental/Gerenciamento por Bacias

3. Este departamento depois foi denominado de Coordenação Geral de Gestão de Recur-


sos Pesqueiros (CGREP).
82 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Hidrográficas, como uma forma de corrigir a falta de políticas pesqueiras


dirigidas à pescaria continental. Segundo este programa, que se iniciou a par-
tir do ano de 1990, as principais linhas de ação a serem executadas em cada
bacia eram: i) adequar a regulamentação existente em cada bacia, compatibi-
lizando-a com as necessidades técnicas de ordenamento; uma vez que estas
deveriam ser coerentes com as diferentes realidades regionais; ii) identificar e
apoiar as linhas de pesquisa prioritárias, com vistas a subsidiar o processo de
ordenamento; iii) desenvolver instrumentos de administração que possibili-
tassem estabelecer o zoneamento da atividade pesqueira; e iv) participar de
diferentes fóruns com vistas a integrar a atividade pesqueira às demais ativida-
des usuárias de recursos ambientais (florestais, agropecuárias, minerais). (Cf
FISCHER et al., 1992; RUFFINO, 2005).
Assim, em 1991, o IBAMA iniciou conjuntamente com Agência de Coo-
peração Técnica Alemã (GTZ) o projeto “Administração de Recursos Pesquei-
ros na região do Médio Amazonas: Estados do Pará e Amazonas – Projeto
IARA”, que se estendeu até dezembro de 1992 (primeira fase). A segunda fase
foi desenvolvida entre janeiro de 1993 e dezembro de 1995, mas existiram
prorrogações até o final dos anos 90 (IBAMA, 1995; ISAAC; RUFFINO;
McGRATH, 1998).
O projeto tinha como principal objetivo fornecer subsídios à elaboração
e implementação de medidas que permitissem o uso sustentável dos recursos
aquáticos, realizando suas atividades através de uma abordagem
multidisciplinar, multi-institucional e participativa. Abrangendo uma área de
1.000km na calha do rio Amazonas, entre as cidades de Almerim, PA e
Itacoatiara, AM, o projeto assessorou cerca de 600.000 pessoas, metade pes-
cadores comerciais e metade pescadores de subsistência. Segundo dados do
IBAMA (1995), as famílias assistidas possuíam em média cinco pessoas e rela-
cionavam-se, direta ou indiretamente, à atividade pesqueira (construção na-
val, venda de apetrechos e comercialização).
Portanto, para atingir seus objetivos, o Projeto IARA atuou em duas
frentes: i) produziu informações técnico-científicas em biologia e ecologia
pesqueira, socioeconomia e tecnologia de pesca e de pescado, com a finalida-
de de suprir lacunas do conhecimento para a região, proporcinando base
cientifica para a elaboração de medidas de manejo; e ii) desenvolveu, através
da educação ambiental, a conscientização, conservação e implementação de
um sistema de administração pesqueira com a participação ativa e efetiva dos
grupos-alvo em todas as etapas (planejamento, ações, monitoramento e ava-
liação) (IBAMA, 1995; ISAAC; RUFFINO; McGRATH, 1998).
O IARA também buscou interações com outras instituições, tais como o
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Ins-
Síntese Histórica Sobre o Manejo Pesqueiro na Amazônia Brasileira 83

tituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Museu Parense Emilio Goeldi


(MPEG), Universidade Federal do Pará (UFPA), Núcleo de Altos Estudos Ama-
zônicos (NAEA), Prefeituras Municipais da região, Colônias de Pescadores e
comunidades ribeirinhas, cujo aporte foi essencial para balizar as decisões do
projeto.
A partir das experiências do Projeto IARA, em 1993, o IBAMA promo-
veu a utilização de diversos mecanismos institucionais gerenciais (v.g. fóruns
de discussão para proporcionar a integração institucional e a contextualização
setorial da pesca). Para Ruffino (2005), estes mecanismos foram fortalecidos
em 1995, com o estabelecimento de diretrizes claras sobre o manejo integra-
do e sobre a reorganização institucional do IBAMA.
Assim, o IBAMA empreendeu uma série de iniciativas com a finalidade
de induzir a sustentabilidade da pesca na região amazônica, integrando a so-
ciedade civil neste processo. Nesse sentido, Ruffino (2005) destaca o Progra-
ma de Desenvolvimento do Ecoturismo na Amazônia Legal (PROECOTUR),
o Programa Nacional de Desenvolvimento da Pesca Amadora (PNDPA) e o
Programa Piloto de Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7), que deu
impulso ao Projeto Manejo dos Recursos Naturais da Várzea (ProVárzea).
O ProVárzea foi proposto para ser executado no período 2000-2005
(sendo prorrogado até 2007), tendo como objetivo geral, de acordo com
IBAMA (2002, p. 11): “estabelecer as bases técnica, científica e política para a
conservação e o manejo ambientalmente e socialmente sustentáveis dos re-
cursos naturais das várzeas da região central da bacia amazônica, com ênfase
nos recursos pesqueiros”. Para alcançar este objetivo, o projeto foi dividido
em três linhas de abordagem (IBAMA, 2002):
t Componente 1 – Estudos Estratégicos: para subsidiar a elaboração de
políticas públicas e aperfeiçoar os sistemas de manejo;
t Componente 2 – Iniciativas Promissoras: para apoiar e promover o
desenvolvimento de sistemas de manejo dos recursos naturais da vár-
zea; e
t Componente 3 – Monitoramento e Controle: desenvolvimento e tes-
te em duas áreas piloto (Santarém, PA e Parintins, AM) de um sistema
de monitoramento e controle dos recursos naturais da várzea.
Este projeto foi executado pelo IBAMA, através de uma unidade de coor-
denação e duas comissões: i) Comissão de Acompanhamento, de caráter
deliberativo, estabelecida para avaliar e fazer ajustes ao projeto. Era composta
por representantes do Ministério do Meio Ambiente (MMA), IBAMA, Secreta-
ria de Estado de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Pará (SECTAM), Insti-
tuto Ambiental do Estado do Amazonas (IPAAM), Empresa Brasileira de Pesqui-
84 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

sa Agropecuária (EMBRAPA) e Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA); e ii)


Comissão de Apoio, para o Componente 3, que envolvia parcerias com institui-
ções governamentais (federais, estaduais e municipais) e não governamentais.
Os beneficiários do projeto foram o próprio IBAMA e as Organizações
Estaduais de Meio Ambiente. Os benefícios para as populações locais incluí-
ram a redução da destruição dos habitats, melhora do ordenamento da pesca,
diminuição dos conflitos sociais pelo uso dos recursos pesqueiros, melhoria
das condições de vida dos usuários e o fortalecimento de suas organizações de
base. O ProVárzea contou com recursos do governo britânico através do DfID,
do governo alemão através do KfW e GTZ, do Fundo Fiduciário para a Prote-
ção das Florestas Tropicais Brasileiras (RFT), administrado pelo Banco Mundi-
al e a contrapartida do governo brasileiro (IBAMA, 2002).

Outras iniciativas

Algumas iniciativas para organizar a atividade pesqueira, em conjunto


com a conservação da biodiversidade, foram realizadas pelo Governo do
Estado do Amazonas. Em 1990, foi criada a unidade de conservação de
Mamirauá, com o objetivo de proteger as várzeas da confluência dos rios
Solimões e Japurá, próximo a cidade de Tefé. Em 1996, Mamirauá passa a ser
uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), uma nova categoria de
unidade de conservação ainda inédita no país.
O modelo criado no Estado do Amazonas foi posteriormente incorpo-
rado ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Assim, se-
gundo Queiroz (2005), esta área protegida de uso sustentado assumiu como
objetivo básico a promoção da conservação da biodiversidade, assegurando
as condições e os meios necessários para a reprodução social, a melhoria dos
modos e da qualidade de vida (por meio da explotação racional e sustentada
dos recursos naturais por parte das populações tradicionais), além de valori-
zar, conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambi-
ente desenvolvido por estas populações.

Estratégias de manejo pesqueiro pr


pesqueiro opostas e adotadas na
propostas
Amazônia brasileira
Segundo Ruffino (2005), o modelo de manejo pesqueiro estabelecido no
Brasil foi o manejo convencional baseado em três suposições básicas: i) os recur-
sos pesqueiros são de domínio da União e devem ser acessíveis a qualquer
cidadão; ii) os grupos de usuários não são capazes de manejar os recursos sem a
supervisão e o controle do Estado; e iii) o rendimento máximo sustentável de
cada recurso pode ser estimado por meio de métodos científicos.
Síntese Histórica Sobre o Manejo Pesqueiro na Amazônia Brasileira 85

Este modelo definido também como tecnocrata (McGRATH et al., 1998)


tem sido questionado, pois o Estado não se mostrou capaz de regular efetiva-
mente a pesca regional. Além disso, a complexidade da atividade e a sensibi-
lidade das espécies de água doce às modificações do ambiente dificultam a
estimativa do rendimento ótimo ou sustentável da atividade. Assim, as es-
tratégias de manejo baseiam-se em taxas de crescimento e mortalidade para
calibrar as estimativas.4
Diante desses entraves, Bayley e Petrere (1989) discutem quatro estraté-
gias de manejo pesqueiro para a Amazônia: i) proibição permanente da pesca
comercial; ii) manutenção da diversidade de captura atual; iii) gerenciamento
da atividade em função da produção máxima; e iv) não fazer nada.
Evidentemente, a primeira opção é injusta e irreal, podendo ser viável o
fechamento temporário de áreas selecionadas, como um sistema fluvial (v.g.
o rio Purus), uma determinada área de várzea ou uma represa. A segunda
opção também é difícil de ser alcançada, em função da deterioração das co-
munidades de peixes sob fortes pressões demográficas e econômicas. A tercei-
ra opção representa o dilema entre a escolha do rendimento máximo susten-
tável em peso ou do rendimento máximo econômico. A última opção, apesar
de frequentemente adotada, intencionalmente ou por simples incapacidade
do Estado, é uma estratégia que deve ser evitada. Entretanto, reconhece-se
que a melhor escolha para um manejo pesqueiro apropriado seria o uso com-
binado das possibilidades acima destacadas (Cf. BARTHEM, et al., 1997;
FREITAS, 2002; BATISTA; ISSAC; VIANA, 2004).
Barthem et al. (1997) também propõem um manejo compatível com as
características ecológicas das espécies-alvo. Dessa forma, o manejo para as espé-
cies migradoras deve considerar seus movimentos como parte do comporta-
mento do ciclo de vida e, assim, estabelecer estratégias que não as afetem (v.g.
estabelecimento de períodos de defeso durante a época de reprodução).
Para espécies sedentárias, que habitualmente se encontram nos lagos ou
áreas alagadas, Freitas (2002) defende que o manejo tem que minimizar os
desacordos existentes entre os pescadores comerciais e os de subsistência, dada
a importância alimentar deste recurso nessas comunidades.5
Para espécies migradoras que percorrem o canal do rio, o manejo pro-
posto devia levar em consideração a complexidade de seus deslocamentos
(RUFFINO; BARTHEM, 1996). A piramutaba constitui o exemplo mais rele-
vante deste grupo. Segundo Barthem e Goulding (1997), estudos sobre seu

4. Nesse sentido dispõem GOULDING, 1983; WELCOMME, 1985; RUFFINO 2005.


5. Cite-se o exemplo do manejo do pirarucu em Mamirauá.
86 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

comportamento mostram as extensas migrações realizadas desde a região do


estuário do rio Amazonas até a região do alto rio Marañon, como parte de
seu ciclo de vida. Portanto, o manejo de espécies com migrações extensas
deveria considerar as épocas de movimentação para definir a explotação co-
mercial em níveis sustentáveis.
Nesse sentido, a proposta de Barthem et al. (1997) se constitui num
mecanismo de embasamento técnico-científico, mediante o qual o órgão de
administração pesqueira pode dar suporte às suas tomadas de decisões.
Segundo Ruffino (2005), os resultados de várias pesquisas realizadas na
região Amazônica, a partir de 1996, permitiram atualizar as regulamentações
administrativas existentes. As novas medidas de manejo incluem a limitação
do acesso a determinados locais de pesca, defesos e a regulamentação de
petrechos, sempre observando o disposto na legislação federal.
O período de piracema (reprodução) para a região amazônica abarca os
meses de dezembro a fevereiro, época de chuvas, quando os cardumes mi-
gram dos lagos e rios de águas pretas e claras, pobres em nutrientes, para
desovar no encontro das águas brancas ou barrentas. Como estas são ricas em
nutrientes e possuem bastante oxigênio, permitem que as larvas (alevinos)
sobrevivam. A piracema é imposta para as espécies comerciais mais importan-
tes como o tambaqui, curimatã, matrinxã, pirapitinga, aracu, pacu e branqui-
nha (RUFFINO, 2005).
Alguns exemplos sobre a regulamentação de artes e os métodos de pesca
na Amazônia são a Portaria-IBAMA nº 8 de 2 de fevereiro de 1996, que con-
tinha medidas restritivas específicas para a pesca na Amazônia (com exceção
da bacia Araguaia-Tocantins); e a Instrução Normativa-IBAMA 43 de 23 de
julho de 2004, que valia para todo o território nacional. Contudo, as medi-
das contidas nestes instrumentos não aprofundaram as questões de natureza
econômica, sociais e culturais determinantes para que as estratégias de mane-
jo fossem bem-sucedidas.

Manejo com participação comunitária


Os fatos ocorridos na década de 1970, que contribuíram para a intensi-
ficação da pesca na Amazônia, também conduziram a conflitos e tensões en-
tre pescadores. Como se mencionou anteriormente, um dos primeiros inci-
dentes registrados foi a guerra do peixe, no lago Janauacá, próximo de Manaus,
em 1973 (CASTRO; McGRATH, 2001).
Como consequência de tais fatos, as comunidades ribeirinhas passaram a
se organizar para se protegerem da pressão da pesca comercial. Como dis-
põem Castro e McGrath (2001), essa iniciativa ficou conhecida inicialmente
Síntese Histórica Sobre o Manejo Pesqueiro na Amazônia Brasileira 87

como “Movimento de Preservação dos Lagos”, e foi liderado pela Igreja Ca-
tólica, através da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Assim, várias comunidades passaram a controlar o acesso e uso dos lagos
através de instrumentos informais, estabelecidos entre as comunidades vizi-
nhas. Por meio de suas associações e organizações comunitárias, constituíram
os acordos de pesca que, em princípio, foram instituídos como contratos par-
ticulares, sem validade extra-partes e de legalidade questionável, porém do-
cumentados em atas e abaixo-assinados (ISAAC; CERDEIRA, 2004).
Para Furtado (1993), o objetivo principal desses instrumentos era estabe-
lecer regras para a pesca nos lagos, a fim de limitar o acesso e as formas de uso
dos recursos pesqueiros, visando garantir a manutenção e produtividade.
Apesar de desde o ano de 1972 haver registros de iniciativas voltadas
para a regulamentação do acesso aos recursos aquáticos na região de Maicá,
município de Santarém (ISAAC; CERDEIRA, 2004), somente na década de
1990, as populações ribeirinhas passaram a se organizar e utilizar de fato os
acordos de pesca, devido à ineficiência da fiscalização do Estado (BATISTA;
ISSAC; VIANA, 2004).
Muitos acordos de pesca (conforme a Instrução Normativa-IBAMA no
29/2002) ainda estão em vigor na Amazônia. Estes eram regulamentados na
forma de instrumentos administrativos pelo IBAMA. Entretanto, após a cria-
ção do MPA e do estabelecimento de competências conjuntas entre MMA e
MPA, os processos para a homologação de acordos de pesca devem tramitar
nas esferas administrativas apropriadas nos dois Ministérios.
Atualmente, os comunitários de uma determinada região, interessados
na negociação de um acordo de pesca, devem promover uma discussão am-
pla, onde comunidades vizinhas, instituições governamentais e não governa-
mentais e pescadores profissionais (Colônias de Pescadores) discutem e geram
propostas de manejo de pesca e fiscalização. Para que os acordos tenham
viabilidade operacional, foram desenvolvidas medidas quem garantam sua
eficácia. Uma dessas medidas era a formação de Agentes Ambientais Voluntá-
rios (AVV), que colaborassem com as instituições competentes na fiscalização
e ações de educação ambiental (CERDEIRA, 2002).
Acredita-se que a sequência prática adotada para o estabelecimento de
um acordo de pesca (adaptado a partir da IN-IBAMA 29/2002) deve passar
por: i) ações de mobilização comunitária e institucional; ii) reuniões inter e
intra-comunitárias, com a participação dos demais atores interessados no pro-
cesso; iii) encaminhamento da proposta final ao MPA, lembrando que o pro-
cesso também tramitará pelo IBAMA; e iv) posterior conversão do acordo em
instrumento de caráter administrativo. Ações de monitoramento e avaliação
88 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

do cumprimento das normas estabelecidas também devem ser conduzidas


com a participação dos AAV e/ou lideres comunitários.

Manejo em áreas de reser va


reserva

O Brasil possui importantes exemplos de implementação de estratégias


de uso de recursos pesqueiros em unidades de conservação na bacia amazôni-
ca. São áreas de uso restrito, onde as comunidades participam efetivamente
da gestão do manejo dos recursos locais (RUFFINO, 2005).
Assim, pode ser mencionada a Reserva Extrativista do Jutaí, AM, onde
os comunitários estão manejando a atividade pesqueira, através de um siste-
ma de rodízio de lagos. Segundo Batista, Isaac e Viana (2004), neste sistema,
a pesca é realizada durante períodos específicos em um determinado lago.
Finalizado esse período, a pesca passa a ser executada em outro lago e assim
sucessivamente, até que retorne ao primeiro.
A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM) também
é um exemplo de unidade de conservação manejada. Conforme mencionado
acima, ela foi criada pelo governo do Estado de Amazonas, na região do
médio Solimões, compreendendo uma área de 1.124.000ha. Em 1998 foi cri-
ada a Reserva Amanã, com um área de 2.313.000ha, sendo constituída por
16% de área de várzea, 7% de zonas de Igapó e 77% de florestas de terra
firme (QUEIROZ, 2005; 2009).
Entre 1990 e 1995, com a finalidade de elaborar um Plano de Manejo
para gerenciar a RDSM com a colaboração dos moradores e usuários, foram
realizados estudos socioeconômicos (nas comunidades de pescadores do área
envolvida), biológicos e ecológicos, considerando as espécies de importância
econômica, como tambaqui Colossoma macropomum, pirarucu Arapaima gigas
e outras espécies aquáticas e terrestres ameaçadas de extinção. Este plano per-
mitiu o estabelecimento de um sistema de zoneamento da área focal, onde se
propuseram zonas de preservação permanente localizadas no interior da re-
serva e zonas destinadas à explotação sustentável pelas comunidades residen-
tes e usuárias.6
O manejo participativo da RDSM é exercido através de fóruns comuni-
tários e suas lideranças, onde são tomadas as principais decisões referentes ao
manejo dos recursos naturais. A instância máxima de decisão na RDSM é a
Assembléia Geral de Usuários da Reserva Mamirauá, que acontece uma vez
ao ano. As assembleias são parte de uma estrutura representativa com lideran-

6. Nesse sentido dispõem QUEIROZ; CRAMPTON, 1999; QUEIROZ, 2005.


Síntese Histórica Sobre o Manejo Pesqueiro na Amazônia Brasileira 89

ças eleitas pelas comunidades. Antes das assembleias, cada grupo de comuni-
dades e os setores propõem uma pauta de tópicos relevantes que é transmiti-
da para as comunidades previamente. Assim, cada comunidade tem a oportu-
nidade de discutir internamente os assuntos da pauta, elegendo um represen-
tante como porta-voz destas decisões.
Os representantes eleitos das 63 comunidades da RDSM se reúnem anu-
almente em assembleia, quando interagem com outras instituições locais para
discutir os avanços, os retrocessos e as novas estratégias na implementação do
plano de manejo. No processo de tomada de decisão, são considerados os
moradores da reserva que participam da escolha dos lagos que são destinados à
pesca, no estabelecimento da cotas de captura, na definição das épocas de pes-
ca, assim como outras atividades de ordenação. Para respaldar estas decisões,
um programa de pesquisas é mantido e também são promovidas atividades de
sensibilização, mobilização, informação e fortalecimento da organização.7
Como demonstra Queiroz (2009), as Reservas Mamirauá e Amanã con-
tam com um sistema misto de fiscalização, formado por guardas-parque con-
tratados e uma rede de agentes voluntários treinados pelo IBAMA. Órgãos
estatais oferecem apoio ao sistema, como o Instituto de Proteção Ambiental
do Amazonas (IPAAM), vinculado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável (SDS), IBAMA, Polícia Militar e Exército. Além
disso, cada sistema de manejo possui um protocolo próprio de controle, rea-
lizado pela respectiva associação comunitária nas atividades locais de execu-
ção. Estes últimos, como uma forma de controle social endógeno do sistema,
buscam controlar o acesso e uso das zonas de pesca e o respeito às normas de
uso. Os resultados são variáveis no tempo e de acordo com a associação
comunitária em questão.
Queiroz (2009) também discorre que uma metodologia mista de
monitoramento da pesca manejada foi implementada, com a participação
dos membros das associações comunitárias. Através dela, são principalmente
acompanhadas as formas de uso das zonas de pesca, as cotas de produção, a
aplicação correta dos apetrechos, a comercialização e a partilha das cotas
globais em cotas individuais entre os membros das associações.
Segundo Castello (2004) e Queiroz (2005), os planos de controle da
pesca nas Reservas Mamirauá e Amanã envolvem o manejo de cerca de 5
espécies, mas o mais conhecido e de maior visibilidade é o do pirarucu. Para
esta finalidade, foi elaborado um sistema de zoneamento. Entretanto, o
zoneamento proposto não foi totalmente acatado pelos pescadores. A pro-

7. Nesse sentido dispõem QUEIROZ; CRAMPTON, 1999; BATISTA; ISSAC; VIANA, 2004;
RUFFINO, 2005; QUEIROZ, 2005.
90 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

posta consiste em uma zona de proteção permanente e uma zona de uso


sustentado para a pesca. Nesse sentido, é importante destacar que cerca de
25% da produção das reservas em tela provém de zonas de proteção. O
levantamento dos estoques realizados em ambas as zonas, com periodicidade
anual pelos pescadores, sugeriu que os estoques de pirarucu, mesmo sob regi-
me de explotação, apresenta uma tendência de estabilização.
Simultaneamente, a produção apresentou um crescimento sensível ao
longo do tempo (de 3 para aproximadamente 250ton), e tem demonstrado
uma tendência de estabilização (que aparentemente ainda não está limitada
pelo estoque, e sim por outros fatores). As cotas são preenchidas em cerca de
75% apenas (Cf. QUEIROZ, 2009).
No período, houve um grande crescimento na renda per capita gerada
pela atividade, quando computados os valores obtidos durante os meses da
pesca. Queiroz (2009) destaca que o manejo do pirarucu tem experimentado
grande expansão no mesmo período, partindo de 40 para 700 pescadores, e
de 4 para 26 comunidades, além de uma colônia de pescadores urbanos
(Maraã).
O autor ainda demonstra que, apesar desta expansão, o rendimento
líquido per capita apresentou uma redução de quase 10% nos últimos 3 anos.
Isto se deve especialmente à redução média de 30% no preço pago ao produ-
tor no mesmo período. Trata-se de um problema de mercado que precisa ser
resolvido com instrumentos de mercado.
Desde 1999, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
(IDSM)8 tem participado da construção de acordos de pesca que envolvem
áreas dentro ou fora das reservas. O Acordo de Pesca do Pantaleão, com um
trecho no interior da Reserva Amanã, envolve a Colônia de Tefé e os morado-
res locais. Este acordo de pesca versa não apenas sobre a pesca do pirarucu,
mas também (ou principalmente) sobre a pesca de outras espécies nobres,
como o tambaqui e a pescada. Este acordo, com apenas 2 anos, se mostra
como a melhor oportunidade para redução dos conflitos sociais da pesca na
região (QUEIROZ, 2009).
Com a ajuda dos pescadores, responsáveis por gerarem a informação, o
IDSM criou um sistema de rastreamento on-line que visa certificar a origem
do produto e ajudar na sua diferenciação no mercado. O sistema também
serve para fortalecer o controle e reduzir as fraudes. O Sistema de Rastreamento
do Instituto Mamirauá exige que o usuário indique o código do lote (carga de
um barco) ou de um lacre (número de cada indivíduo) produzido. Assim,

8. Unidade do MCT que investiga estratégias de desenvolvimento sustentável de áreas


protegidas.
Síntese Histórica Sobre o Manejo Pesqueiro na Amazônia Brasileira 91

informa as características da pesca, os lagos onde os animais que compõem o


lote foram pescados, as características da comercialização e a composição do
lote (cada um dos indivíduos). Informa também as características de cada um
dos indivíduos que formam o lote (tamanho, peso, origem, etc.). O interessa-
do pode verificar a veracidade das informações através do site do SIRIM-
IDSM, fornecendo o código do lote que quer rastrear. O sistema mostra o
local onde a coleta foi realizada (QUEIROZ, 2009).
Este sistema permite a certificação de origem do pescado. Tal garantia é
de grande importância, uma vez que pescado (pirarucu) proveniente de ou-
tras áreas de pesca não manejadas da Amazônia acaba entrando no mercado
como se fossem de Mamirauá.

Considerações finais
Diante do exposto, percebe-se a evolução dos sistemas de manejo utili-
zados nas pescarias da Amazônia. A falência de um sistema centralizado no
governo, devido à ausência institucional, política e administrativa cede lugar
a participação dos usuários em um sistema de gestão participativa.
O sistema de gestão participativa, entretanto, possui origens culturais
(das comunidades ribeirinhas) e institucionais, sendo inegável o impulso dos
projetos de cooperação técnica internacional para a institucionalização desse
sistema pelo IBAMA.
Com a evolução dos movimentos sociais na Amazônia e a implementação
de um Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), este modelo
de gestão participativa se espalha, adentrando em áreas especialmente afeta-
das e protegidas. Isto pode ser observado claramente com o caso relatado
sobre a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá.
Este modelo, posteriormente inserido no SNUC, tem servido de paradigma
em outras áreas do Brasil. No mesmo sentido, é esperado que o sucesso do
envolvimento comunitário no manejo do pirarucu em Mamirauá possa ser
replicado, beneficiando outras comunidades.

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Acordos de P esca na
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Amazônia Brasileira:
6
Princípio da Dignidade da
Pessoa Humana e
Conhecimento T radicional
Tradicional
no Manejo P esqueiro
esqueiro
Pesqueir
Denison Melo de Aguiar
Serguei Aily Franco de Camargo
Franco
Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo
Rodrigues

O sexto e último capítulo desta obra apresenta de forma sintética a relação


entre o princípio da dignidade da pessoa humana e o manejo pesqueiro na
Amazônia brasileira. O caminho é denso. Parte do conhecimento adquirido
através de gerações de ribeirinhos em contato com a natureza, observando a
dinâmica temporal dos recursos naturais (pesqueiros) dos quais dependem.
Essa relação de convívio e dependência é a base formadora de uma cultura
que se traduz em um modo de vida peculiar.
Assim, o modo de vida dessas populações, seus tabus, crenças e relações
de parentesco e compadrio criam uma dinâmica própria de aproveitamento
de recursos naturais. Quando o foco é a pesca, os acordos comunitários de
pesca recepcionam essa cultura, que deve ser respeitada, com base no princí-
pio da dignidade da pessoa humana. Os ribeirinhos têm o direito, constituci-
onalmente garantido, de viverem como sempre viveram e continuar transmi-
tindo sua cultura para seus descendentes.

O princípio da dignidade da pessoa humana


Os princípios de direito são diretrizes, alicerces de valor genérico que
embasam, condicionam e orientam o ordenamento jurídico, ou seja, são o
96 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

seu fundamento. Os princípios possuem conexões entre si, assim como com
todas as demais normas, formando um conjunto harmônico que impede que
o ordenamento seja uma série de fragmentos desconexos.
Dessa forma, verifica-se que os princípios jurídicos desempenham papel
importante, podendo auxiliar na interpretação de outras normas jurídicas,
possibilitar a integração de lacunas e servir de padrão para se verificar a vali-
dade de leis. No âmbito do direito ambiental, eles servem ainda para balizar
a atuação do Estado em relação à tutela do ambiente.
Os princípios apresentam diferentes graus de importância e de concre-
tização dentro do ordenamento jurídico. Os princípios que compõem a base,
a estrutura do ordenamento, constituindo-se em fundamentos de interpreta-
ção e aplicação do direito positivo, foram denominados por Canotilho (2003),
ao dispor sobre a ordem constitucional portuguesa, como princípios estru-
turantes.
Os princípios estruturantes são concretos, possuem conteúdo específico
e condicionam-se mutuamente. Eles podem ser concretizados por princípios
constitucionais gerais ou especiais e ainda por regras constitucionais. Seu grau
de concretização e sua densidade podem ser aumentados por meio da prática
legislativa e jurisprudencial.
Tais princípios possuem duas dimensões: constitutiva e declarativa. Pela
primeira, pressupõe-se que os princípios auxiliam na compreensão global da
ordem constitucional. Pela dimensão declarativa, eles tornam-se “super-con-
ceitos”, utilizados para representar a totalidade de outros subprincípios.
A dignidade da pessoa humana é um dos principais princípios estruturantes
de qualquer Estado Democrático de Direito, estando expressamente previsto
no art. VI, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezem-
bro de 1948, ao dispor que: toda pessoa tem o direito de ser reconhecida
como tal perante a lei, em qualquer lugar. Em outros termos, a dignidade é a
“condição humana de ser humano” (SARLET, 2009, p. 28).
Como dispõe Silva (2005), a dignidade é o valor supremo que funda-
menta todos demais direitos fundamentais do homem, uma vez que decorre
diretamente do direito fundamental à vida. No ordenamento jurídico brasi-
leiro, tal princípio está consolidado como um dos fundamentos do Estado
Democrático brasileiro, no art 1º, III da Constituição Federal de 1988, ao lado
da soberania (I); da cidadania (II); dos valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa (IV); e do pluralismo político (V).
No mesmo sentido, Derani (2008, p. 214) menciona:
Acordos de Pesca na Amazônia Brasileira: Princípio da Dignidade... 97

Os Direitos Fundamentais são, como as demais normas, direcionados aos indiví-


duos ou a organizações administrativas ou privadas. Sua validade e sua eficácia
são evidenciadas na atividade social. A teoria dos Direitos Fundamentais procura
verificar como se dá esta realização e quais os fatores indispensáveis para o desen-
volvimento das políticas para o desenvolvimento de políticas para sua implanta-
ção, clareando vias para a plena realização de valores sociais mais prezados
positivados na Constituição.

Segundo Sarlet (2009), não se pode definir a dignidade da pessoa huma-


na em termos abstratos, uma vez que a mesma só terá pleno sentido e
operacionalidade no caso concreto. Contudo, para instrumentalizar a praxis
jurídica, o autor conceitua a dignidade da pessoa humana como:

[...] a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz
merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comuni-
dade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamen-
tais que assegurem a pessoa tanto quando contra todo e qualquer ato de cunho
degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais
mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação
atividade co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comu-
nhão com os demais seres humanos, mediante o devido respeito aos demais seres
que integram a rede a vida. (SARLET, 2009, p. 64).

Analisando este conceito, Sarlet (2009) postula ainda que a dignidade


da pessoa humana possui dimensões, conforme a perspectiva da condição
humana em questão. Entre ela, têm-se:
1. Dimensão Ontológica: É a dignidade da pessoa humana enquanto
elemento que o qualifica como ser humano (qualidade intrínseca). É o
elemento nuclear da noção de dignidade humana, sendo existente
antes do direito e de qualquer experiência especulativa. Por ser uma
valor supremo, é irrenunciável e inalienável, não podendo ser criada,
concedida ou retirada;
2. Dimensão comunicativa-relacional ou comunitária e social: Nessa di-
mensão, a dignidade da pessoa humana é constituída em sociedade,
no âmbito da intersubjetividade e da pluralidade, através do reconhe-
cimento da pessoa humana como tal. Esta dimensão parte, necessari-
amente, da noção individual da dignidade (dimensão ontológica),
indispensável para o reconhecimento e proteção dos direitos e liber-
dades civis. A dignidade na perspectiva comunitária respalda a auto-
determinação comunitária ou social. Neste sentido, a pessoa humana
faz sacrifícios individuais em prol de uma coletividade.
3. Dimensão Histórico-cultural: Esta dimensão é o conteúdo concreto
da dignidade da pessoa humana. Dentro da perspectiva jurídico-
98 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

normativa, há de se considerar que a dignidade da pessoa humana


tem um contexto histórico e cultural de uma determinada comunida-
de. Neste sentido, Dworkin (2003), postula que se tem o direito de
não ser vítima de indignidades relacionadas à comunidade, que são
determinadas pelo lugar e pela época em que se manifestam.
4. Dupla Dimensão negativa e prestacional da dignidade: Por esta di-
mensão, a dignidade corresponde ao dever do Estado de proteger e
assistir a dignidade humana individual e coletiva, especialmente quan-
do se tratar dos fragilizados e daqueles que estiverem em ausência de
autodeterminação.

Outra dimensão do princípio da dignidade é a ecológica, pela qual a


conservação dos recursos naturais é um dos requisitos imprescindíveis para a
existência de uma vida humana digna, em razão da interação homem-nature-
za. Nesse sentido, se posiciona Sarlet (2009: 38):

[...] sempre haverá como sustentar a dignidade da própria vida de um modo


geral, ainda mais numa época em que o reconhecimento da proteção do meio
ambiente como valor fundamental indica que não mais está em causa apenas a
vida humana, mas a preservação de todos os recursos naturais, incluindo todas as
formas de vida existentes no planeta, ainda que se possa argumentar que tal
proteção de vida em geral constitua, em última análise, exigência da vida huma-
na com dignidade, tudo para o reconhecimento do que se poderia designar de
uma dimensão ecológica ou ambiental da dignidade da pessoa humana.

Essa relação homem-ambiente foi positivada pelo art. 225 da Constitui-


ção Federal de 1988, ao estabelecer como um direito fundamental de todos o
meio ambiente ecologicamente equilibrado ao mesmo tempo que também
atribui a todos (poder público e coletividade) o dever de “[...] defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Dessa forma, tem-se que,
pela dimensão ecológica, a manutenção dos recursos naturais é imprescindí-
vel para uma existência digna, bem como o ser humano, enquanto tal é
determinante na conservação dos recursos naturais.
Considerando as diversas dimensões do princípio da dignidade, verifica-
se que ela perpassa pela interação, individual e coletiva, do homem com o
meio ambiente. Essa interação é diretamente influenciada pelos diferentes
modos de viver do homem no tempo e no espaço.
Assim, constitui-se um direito das comunidades tradicionais a manuten-
ção de seu modo de vida e de sua cultura. Na perspectiva de interesse do
presente trabalho – a pesca na Amazônia brasileira, o direito ao meio ambien-
te ecologicamente equilibrado engloba a manutenção de modo de vida das
comunidades tradicionais de ribeirinhos pescadores, passando a significar
Acordos de Pesca na Amazônia Brasileira: Princípio da Dignidade... 99

abundancia de pescado, garantia da segurança alimentar e das práticas cultu-


rais das presentes e futuras gerações.

A dignidade do pescador da Amazônia brasileira

Segundo dados oficiais, no ano de 2010, os estados da Amazônia Legal


possuíam uma densidade demográfica cinco vezes menor que a média nacio-
nal. Roraima e Amazonas eram os últimos da lista com, respectivamente, 1,09
e 2,2 habitantes por km² (CELENTANO; SANTOS; VERÍSSIMO, 2010).
Longe de ser uma natureza intocada (DIEGUES, 1996), as riquezas
ambientais amazônicas são fontes de sobrevivência de seus moradores.1 A
bacia Amazônica se estende por 6,8 milhões de km2 (BARRETO et al, 2005) e
ao longo dos leitos da infinidade de rios e lagos existentes, comunidades se
formam e se dispersam, tendo muitas vezes como única ligação as águas.
Como demonstra Fraxe (2004, p.103), o caboclo ribeirinho da Amazô-
nia Brasileira, “se identifica com seu território, onde cada árvore tem um
significado, e o referencial de vida é a família, os vizinhos, a roça, o rio, o
campo de futebol e a capela.” Trabalhando para manter a família, o ribeiri-
nho sofre a influência do meio ambiente, ao mesmo tempo em que se esforça
para se adaptar as variações do meio.
Neste sentido, a ideia de pescador não está somente no sentido daquele
que pesca, que explota um peixe dos lagos e rios para sua alimentação, mas
também na interação do ser humano com a natureza. Witkoski (2007) defen-
de que a formação da identidade do homem amazônico possui duas fases. A
primeira reflete a interação entre o homem e a natureza. A segunda, o mo-
mento no qual o homem se relaciona com outros grupos humanos. Este rela-
cionamento com outros grupos possibilita um intercâmbio mais amplo, que
origina a sociedade amazônica.
Na relação homem-natureza, o pescador pode ser monovalente ou
polivalente. O primeiro é aquele que só vive da pesca. O segundo, o que
divide seu tempo com a lavoura, caça, coleta e extrativismo. Para Canto (2007),
o pescador polivalente é aquele que possui estratégias de uso múltiplo dos
recursos naturais, envolvendo agricultura, pesca e extrativismo, numa relação
comunitária de sobrevivência.
Nas comunidades ribeirinhas de pescadores, os modos de vida se inte-
gram em esquemas mais complexos. Esses grupos asseguram a continuidade

1. Raynaut (2004, p. 29) também se manifesta neste sentido: “A visão de uma natureza virgem
e intocada não passa de um mito e quase todos os meios ‘naturais’ do mundo não podem
ser analisados sem levar em conta o papel da intervenção humana na sua dinâmica”.
100 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

das atividades, por regras coletivas de apropriação dos recursos naturais e de


sua explotação, evitando comprometer a capacidade produtiva do sistema
(PEREIRA; ARAÚJO; WITKOSKI, 2007).
Neste contexto, pode-se propor uma acepção preliminar de dignidade
da pessoa humana, aplicada à realidade concreta de uma comunidade ribeiri-
nha da Amazônia: a qualidade de ribeirinhos-pescadores implica na manuten-
ção de um complexo de direitos e deveres fundamentais, que asseguram a
estes oposição a qualquer ato degradante e desumano, garantindo as condi-
ções existenciais necessárias para uma vida saudável, além da manutenção dos
modos tradicionais de ser, fazer e viver, promovendo a participação comuni-
tária no processo de emancipação coletiva.
Leivas (2007) coloca que o direito à alimentação adequada expressa o
conteúdo do direito mínimo existencial, sendo determinante para a existência
biológica do ser. Derani (2006) reforça que o alimento não é apenas respon-
sável pela compleição física do indivíduo, mas é um fator da construção do
corpo coletivo de uma sociedade e da construção da cultura. Vale lembrar
que o peixe é a maior fonte proteica para as populações ribeirinhas da Ama-
zônia.
Assim, para que o princípio da dignidade da pessoa humana possa ser
assegurado, bem como os direitos fundamentais dele decorrentes, cabe ao
Estado tomar as medidas adequadas e necessárias, para a conservação dos
estoques. É neste ponto que o conhecimento dos usuários sobre o recurso
vem a ser útil, melhorando as estratégias de manejo.

Conhecimento tradicional associado à pesca e


ao manejo pesqueiro
pesqueiro
A tutela do conhecimento tradicional associado à biodiversidade, em
especial à pesca, é um desafio para o Direito. Isto significa que a partir da
inserção dos movimentos sociais na Constituinte de 1988, houve a formação
de um novo paradigma que enseja a mudança do referencial individualista
para um referencial coletivo de sujeito de direitos (MARÉS, 2002).
As comunidades ribeirinhas possuem atributos de coletividade, que as
colocam em situação similar aos povos indígenas e às populações tradicionais,
submetendo-as a condição de sujeitos coletivos de direitos. Depreende-se de
Marés (2002) que os direitos coletivos tradicionais são aqueles direitos pelos
quais várias pessoas são proprietárias de um bem ou recurso, possuindo uma
fração ideal do todo. Esta lógica é perfeitamente aplicável aos recursos ou
estoques pesqueiros dos quais essas comunidades dependem.
Acordos de Pesca na Amazônia Brasileira: Princípio da Dignidade... 101

Marés (2002) conceitua ainda o “ser coletivo” como o direito de “to-


dos”, o direito de um grupo de pessoas que vivem de uma forma diferente
dos outros (v.g. índios). Esses direitos não possuem uma titularidade individu-
alizada, nem uma relação jurídica precisa. Eles são uma garantia genérica que
deve ser cumprida, condicionada ao exercício dos direitos individuais tradici-
onais. Em outros termos, é um direito onde todos ou uma coletividade são
sujeitos.
Segundo Moreira (2007), é necessário obter um sistema jurídico que
possua ações afirmativas para segurar a esses sujeitos o papel de titulares de
direitos à tutela de conhecimentos tradicionais associados. Para o autor, o
conhecimento tradicional é “[...] a forma mais antiga de produção de teorias,
experiências, regras e conceitos, isto é, a mais ancestral forma de produzir
ciência” (MOREIRA, 2007, p. 33), numa realidade onde se integram a vida
econômica e vida social. Redunda num conhecimento de convivência e não
meramente utilitarista, numa forma de produção decorrente das práticas e
verdades culturais, por meio da observação minuciosa e detalhada do meio,
com base experimental de acertos e erros. Estes conhecimentos se destinam à
manutenção das formas das sociedades tradicionais, apresentando uma natu-
reza de conhecimento popular.
Para Rampazo (2005, p. 18), o conhecimento popular “é o conhecimen-
to do povo, que nasce da experiência do dia-a-dia: por isso é chamado de
empírico [...] É igualmente popular (ou vulgar) o conhecimento que, em ge-
ral, o lavrador iletrado tem das coisas do campo”. Da mesma forma é para o
pescador, que possui o conhecimento sobre a natureza que o envolve. Sabe
quando e como pescar, que árvores utilizar para cada fim específico (v.g. a
madeira apropriada para construir uma canoa) e assim por diante. Esse conhe-
cimento lhe foi passado, não só pela geração que lhe antecedeu, mas por
várias outras gerações.
No passado, esse conhecimento tradicional servia precipuamente para a
manutenção de um modelo de vida. Segundo Moreira (2007), a partir do
século XX, ele passou a ser analisado numa percepção utilitarista, na qual
assume valor econômico e torna-se insumo no processo produtivo (v.g. para
a indústria farmacêutica). Ressalte-se, entretanto, que o conceito de conheci-
mento tradicional também envolve um valor simbólico e espiritual, sendo
vital para a manutenção da cultura de uma comunidade e sua forma de vida.
Assim, em virtude do conhecimento que possuem, as comunidades ribeiri-
nhas assumem um papel relevante para a conservação, uso sustentável e gestão
participativa dos recursos pesqueiros. Para Santilli (2005), os conhecimentos
tradicionais associados à biodiversidade, envolvem vários aspectos, como: i)
técnicas de manejo de recursos naturais; ii) métodos de caça e pesca; iii) conhe-
102 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

cimento sobre propriedade farmacêuticas, alimentícias e agrícolas de espécies,


bem como iv) as próprias categorizações e classificações da flora e fauna. Assim,
para se ter tal conhecimento é necessário uma relação intrínseca com a nature-
za, na qual a manutenção do conhecimento depende das condições de seguran-
ça e sobrevivência dos povos indígenas ou comunidades tradicionais.
Diegues (2000, p. 30) define o conhecimento tradicional “[...] como o
saber e o saber-fazer, a respeito do mundo natural e sobrenatural, gerados no
âmbito da sociedade não urbano-industrial e transmitidos oralmente de gera-
ção em geração”. Dessa forma, não existe uma classificação rígida entre o
“natural” e o “social”. Há entre estes um contínuo, uma vez que ambos se
relacionam em uma determinada realidade, criando uma identidade humana,
na perspectiva de que as populações tradicionais convivam e influenciem a
formação da biodiversidade.
A convivência das comunidades com a biodiversidade cria padrões de
dependência. Assim, faz-se necessária a adoção de medidas de manejo para
manter os níveis de aproveitamento de recursos em um padrão racional. Se-
gundo Pizzatto e Pizzatto (2009, p.205), manejo é “o ato de intervir no meio
natural, com base em conhecimentos tradicionais, científicos e técnicos, com
o propósito de promover e garantir a conservação da natureza”. Daí infere-se
que o manejo pressupõe também a etnoconservação e a conservação dos
modelos de vida das comunidades tradicionais.
Para Sobreiro, Souza e Freitas (2006, p. 19), o manejo pesqueiro “é o
gerenciamento da pesca, dos pescadores, dos peixes, dos recursos financeiros
e do ambiente em que vivem; é desenvolvido com a finalidade de permitir a
exploração sustentável dos peixes. Pode ser executado em forma de leis, acor-
dos comunitários, etc.”.
Para se compreender o manejo pesqueiro, deve se unir o conhecimento
tradicional ao conhecimento científico. Segundo Silvano (2004), a etnobiologia
é fundamental no estudo do conhecimento tradicional que as comunidades
possuem sobre os recursos naturais e seus ecossistemas. Essa ciência se preocu-
pa com a relação que os grupos humanos têm com os peixes, pois geralmente
os pescadores possuem conhecimento detalhado sobre a ecologia, comporta-
mento e classificação dos mesmos. Este conhecimento influencia na
sustentabilidade das formas de vida das sociedades tradicionais, posto que tais
conhecimentos ecológicos locais podem auxiliar na conservação e no uso ra-
cional dos estoques pesqueiros.
O desenvolvimento sustentável, no que tange à pesca, é uma relação de
necessidade presente e de limitações futuras, pois se deve considerar a manu-
tenção das comunidades atuais, prevendo o suprimento e a segurança alimen-
Acordos de Pesca na Amazônia Brasileira: Princípio da Dignidade... 103

tar de uma população crescente. A Constituição Brasileira de 1988, em seu art.


225, traz a ideia de desenvolvimento sustentável como direito a ser promovi-
do por todos os interessados (comunidades tradicionais, organizações não-
governamentais e órgãos governamentais), com um objetivo em comum: a
sadia qualidade de vida das comunidades tradicionais presentes e futuras. O
desenvolvimento sustentável não deve ser somente uma “expectativa de di-
reito”, mas uma realidade presente nos acordos de pesca.
O Supremo Tribunal Federal (STF), no julgado da Ação direta de
Inconstitucionalidade n. 3540, se posiciona da seguinte maneira:

O princípio de Desenvolvimento Sustentável, além de ser impregnado de caráter


eminentemente constitucional, encontra suporte legitimador em compromissos
internacionais assumidos pelo Estado brasileiro e representa fator de obtenção de
justo equilíbrio entre as exigências da economia e as da ecologia, subordinada,
no entanto, a invocação desse postulado, quando ocorrente situação de conflito
entre valores constitucionais relevantes, a uma condição inafastável, cuja a obser-
vância não comprometa nem esvazie o conteúdo essencial de um dos mais signi-
ficativos Direitos Fundamentais: o direito à preservação do meio ambiente, que
traduz bem de uso comum da generalidade das pessoas, a ser resguardado em
favor das presentes e futuras gerações. (grifo nosso).

É dentro desse contexto que as comunidades tradicionais estão inseridas,


em relação ao manejo dos recursos pesqueiros através dos acordos de pesca.

Acordos de pesca na Amazônia brasileira


Histórico

A partir da segunda metade do século XIX, as riquezas naturais da Ama-


zônia brasileira começam a apresentar seus primeiros sinais de escassez. Frente
a essa escassez, surgem conflitos sociais entre os habitantes locais, que depen-
de de seus recursos naturais para sobreviverem. No caso específico da pesca
interior,2 ribeirinhos e pescadores comerciais acirram a disputa pelos estoques
pesqueiros e encontram um Estado sem forças para regê-los e fiscalizá-los. As
leis gerais não dão conta de alcançar as especificidades dos conflitos locais e o
poder de polícia não consegue se fazer presente em uma área tão extensa e de
difícil acesso.
A década de 1960 marca a intensificação da pesca comercial, que veio
prejudicar a pesca de subsistência em vários locais da Amazônia. Um exemplo
disso ocorreu na região do Maicá, nas proximidades da cidade de Santarém,
PA. Observou-se que as comunidades ribeirinhas locais começaram a se orga-

2. É a pesca realizada em águas interiores, continentais.


104 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

nizar, criando suas próprias regras de manejo. O objetivo era excluir da região
os pescadores de fora. Esta medida acirrou as disputas pelos lagos e os confli-
tos entre os pescadores locais de subsistência, os fazendeiros que utilizavam as
áreas de pesca para o manejo de gado (bovino e bubalino), e os pescadores
de fora (comerciais).
Frente a esses conflitos, a busca pelo consenso aparece, então, como
única alternativa para manutenção dos estoques. Pescadores comerciais e ri-
beirinhos, enquanto categorias distintas passam a se organizar e a escolher
seus representantes, no intuito de defender seus interesses e formular bases
legais que limitem a atividade pesqueira em cada localidade.
Os acordos de pesca surgem, assim, como marco no sistema de gestão
participativa. Apesar de não se poder falar em inovação, pois sua prática já
era constatada antes da Instrução Normativa n° 29/2002 do Instituto Brasilei-
ro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), os acor-
dos passam a ser o foco de vários projetos de cooperação técnica internacio-
nal (v.g. Projeto Administração dos Recursos Pesqueiros do Médio Amazonas:
Estados do Pará e Amazonas - IARA, Projeto Aproveitamento dos Recursos
Naturais de Várzea – PróVárzea, e Projeto de Aproveitamento Pesqueiro das
Águas Interiores do Ceará - PAPEC), executados em contrapartida pelo IBAMA.3

Estado atual dos acordos de pesca

Os Acordos de Pesca constituem instrumentos de manejo comunitários de


lagos, com a finalidade de reduzir ou controlar a pressão sobre o estoque pesquei-
ro e são baseados no conhecimento tradicional dos pescadores sobre a dinâmica
pesqueira dos ambientes de pesca da Amazônia (ISAAC; CERDEIRA, 2004).
O manejo comunitário de pesca compreende as ações de manejo toma-
das ao nível local, pelos próprios usuários-comunitários. De acordo com
Cerdeira (2009), o manejo comunitário de pesca na Amazônia é uma respos-
ta da sociedade civil à falta de gestão adequada da região e à ausência de uma
política pesqueira que atenda aos anseios locais.
Castro e McGrath (2001) mencionam que muitas comunidades ribeiri-
nhas da Amazônia instituem formas de manejo comunitário de lagos, como
resposta a pressão da pesca comercial e com o objetivo de proteger seu modo
de vida. Assim, delimitam lagos de várzea e regras de pesca, com o devido
apoio de órgãos governamentais e não-governamentais, dentro de um siste-
ma de co-gerenciamento, objetivando a conservação dos recursos naturais, a
limitação do acesso e formas de uso dos mesmos, para assegurar a produtivi-
dade do sistema e a justiça social.
Acordos de Pesca na Amazônia Brasileira: Princípio da Dignidade... 105

Esta forma de manejo é uma alternativa ao modelo convencional im-


posto pelo poder público, que propõe um ordenamento local à pesca capaz
de sustentar os modos de vida da população moradora. Para Ruffino (2005),
o modelo convencional de manejo tem por base três idéias: i) os recursos
pesqueiros são de domínio da união e devem ser acessíveis; ii) os usuários não
possuem capacidade de manejo do recurso sem a supervisão do Estado; e iii)
o rendimento máximo sustentável pode ser estimado.
Ruffino (2005) também justifica que a incapacidade do Estado em regu-
lar efetivamente a pesca leva o recurso à condição de livre acesso, significando
“sem controle”. Apesar dos pescadores serem considerados incapazes de con-
trolar a pressão excessiva sobre o recurso e de conservá-lo por agências do
governo, as experiências bem sucedidas com o manejo comunitário de pesca
tem mostrado o contrário - as comunidades, mesmo com baixa densidade
populacional, possuem sim capacidade de controle social.
Ainda segundo o autor, esta capacidade de controle social, que permite
o monitoramento e o desenvolvimento do manejo comunitário, somente é
possível se as comunidades envolvidas no manejo apresentarem nível de or-
ganização adequado. Benatti, McGrath e Oliveira (2003) consideram a orga-
nização comunitária frágil, sendo necessária a verificação dos fatores que in-
fluenciam esta organização e seu desenvolvimento em nível de políticas públi-
cas. No entanto, os estudos desses autores apontam a organização social como
fator de sucesso do manejo do pirarucu no município de Tefé, no Amazonas.
Respostas sobre a eficácia do modelo de manejo comunitário de pesca,
para conservação dos estoques pesqueiros, são objetivos a serem alcançados
em sistemas de monitoramento e avaliação dos impactos desses acordos. Se-
gundo Cerdeira (2009), o manejo comunitário pode ser eficiente na recupe-
ração das espécies sedentárias como o pirarucu e o tucunaré, que possuem
grande valor econômico.
Para as espécies migradoras, que utilizam diferentes ambientes, o mane-
jo deve ser tratado em escala macro-regional, o que exigiria maiores níveis de
organização dos usuários. Os pontos frágeis dos acordos, nestes casos, seriam
a sua abrangência geográfica limitada e o fato de os efeitos de suas medidas se
dirigirem a determinados grupos usuários, no que se refere ao seu desenvolvi-
mento econômico e social.
Estudos de Lorenzen, Almeida e Azevedo (2006) exemplificam métodos
de manejo aplicados a lagos da região do Médio Amazonas, relatando as
experiências do Projeto IARA-IBAMA, na década de 90, e do ProVárzea-IBAMA,
entre 2005 e 2006, no lago do Maicá em Santarém (PA), onde foram utiliza-
dos acordos comunitários de pesca.
106 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

É importante destacar que os acordos comunitários de pesca são fruto


de um processo de discussão envolvendo uma variedade de interessados. Res-
salte-se que o simples estabelecimento de um acordo não garante seu cumpri-
mento, considerando que é necessário que as regras negociadas sejam
consensuais e compatíveis com a realidade social e ambiental das comunida-
des tradicionais envolvidas.
Há de se considerar que os acordos de pesca são: i) uma forma de solu-
ção de conflitos socioambientais; ii) uma tentativa da conservação dos recur-
sos naturais e dos modo de vida das populações tradicionais. Portanto, os
acordos de pesca representam uma possibilidade efetiva de gestão participativa.
Para Ruffino (2005) os acordos de pesca foram originados a partir do
declínio da produtividade pesqueira e da ausência dos organismos de estado
na gestão da pesca. As comunidades (usuários) frente a esta realidade tiveram
que desenvolver sistemas de manejo próprio, inicialmente sem a presença do
Estado. Tal medida possibilita a defesa das áreas que são consideradas de uso
comunitário, através da elaboração das normas específicas do acordo de pes-
ca, baseadas no conhecimento tradicional associado à pesca e no
monitoramento relacionado às éticas sociais locais.
Pode-se afirmar que, através dos acordos de pesca, houve a sistematiza-
ção de um direito costumeiro. Antes de se ter a ideia de acordos de pesca, as
normas consuetudinárias4 relativas à conservação dos recursos naturais utiliza-
dos pelas comunidades tradicionais já eram existentes.
Camargo e Surgik (2004) mencionam que a possibilidade de gestão
participativa é legalizada no Brasil, através do já citado art. 225 da CF/88, ao
determinar que a conservação do meio ambiente é possibilidade e dever de
todos. Nesse sentido, se abre a possibilidade de participação em grande escala
das comunidades tradicionais, como usuárias de recursos pesqueiros nos mais
diversos níveis.
Assim, ao se manejar os recursos pesqueiros, sob a perspectiva de bacia
hidrográfica, em pequena ou grande escala, deve-se considerar dois fatores
relevantes: i) o manejo comunitário pressupõem a descentralização adminis-
trativa e recepção de usos e costumes pelos órgãos estatais de gestão (IBAMA
e MPA); e ii) o “interesse público ao meio ambiente ecologicamente equilibra-

4. Ráo (2004) menciona que Direito Costumeiro são normas não-escritas, que podem ser
positivadas, quando incluídos em um sistema legislativo, obedecendo a ordem política
e pública, definindo e limitando o poder e as funções do Estado. No entanto, há de se
prevenir que, conforme Bourdieu (1989), quando ocorre a codificação, pode ocorrer
que a lei prejudique o fluído social e a criatividade.
Acordos de Pesca na Amazônia Brasileira: Princípio da Dignidade... 107

do demanda controle de acesso aos estoques pesqueiros” (CAMARGO;


SURGIK, 2004, p.173). Faz-se necessário esclarecer que o manejo pesqueiro
lida com incertezas sobre o estado dos estoques das espécies-alvo e outros
fatores ecológicos. Nesse sentido, deve-se aplicar o princípio da precaução,
com a implementação de um sistema definido sob parâmetros seguros, permi-
tindo a sustentabilidade da atividade pesqueira.
Para Cerdeira e Camargo (2008), o manejo comunitário de recursos
pesqueiros faz parte do sistema de gestão participativa, que tem dois extre-
mos: de um lado o manejo governamental e do outro o comunitário, com
diferentes níveis de escala administrativa. A gestão participativa se constrói na
relação Estado-Sociedade Civil organizada.
Estado e sociedade agem de forma diferenciada. O Estado deve estar
presente em todas as comunidades, especialmente para a homologação dos
acordos de pesca. As comunidades atuam ao nível local (inter e intra-comuni-
tário). A gestão participativa está exatamente no lugar da tomada de decisões
em conjunto.
A finalidade primordial do manejo comunitário de recursos pesqueiros é
a de viabilizar a pesca sustentável e o comércio em pequena escala, permitin-
do a sobrevivência dos núcleos familiares e das comunidades e evitando a
escassez dos estoques pesqueiros. Em última análise, o manejo comunitário
proporciona meios para a melhoria da qualidade de vida.
A pesca artesanal visa primordialmente à subsistência e a pesca comerci-
al, ao lucro. O choque que ocorre entre estas atividades ocasiona os conflitos
observados na Amazônia, quando pescadores industriais (comerciais) de ou-
tras regiões adentram em áreas de lagos utilizados por comunidades locais,
prejudicando a sustentabilidade e sobrevivência dos ribeirinhos (v.g. conflitos
na região do lago Maicá). Observa-se que as comunidades têm defendido
suas áreas mesmo antes da participação do IBAMA na homologação dos acor-
dos de pesca.
Cerdeira e Camargo (2008) mencionam que os primeiros acordos foram
convertidos em portarias. Em 1998, o IBAMA reconheceu formalmente o pri-
meiro acordo de pesca do lago Sapucuá, em Oriximiná, PA. Em 1999, foi
elaborado o primeiro acordo de pesca do Lago Maicá. Mesmo com efeitos
positivos, os conflitos ainda eram frequentes e envolviam pescadores de fora
da região e comunidades locais, que não cumpriam as regras do acordo. Ain-
da assim, pode-se afirmar que estes fatos transformaram os acordos de pesca
em instrumentos de valorização da dignidade da pessoa humana.
108 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Acordos de pesca na região do rio Urubu,


em Boa V ista do R
Vista amos – AM
Ramos
Região do rio Urubu, em Boa Vista do R
Vista amos – AM5
Ramos

Boa Vista do Ramos, município localizado à margem direita do rio Paraná


do Ramos, distante 367 km de Manaus por via fluvial, limita-se com os muni-
cípios de Maués, Urucurituba, Barreirinha e Itacoatiara. Tem 44 comunidades
distribuídas em vastas áreas de várzea. Apesar do potencial pesqueiro apre-
sentado pelo município por seus extensos ambientes de lago, a pesca em Boa
Vista do Ramos é pouco desenvolvida. A pesca mais intensa é a de subsistên-
cia realizada pelas comunidades, além daquela praticada por pescadores
itinerantes de outros municípios e até de outros Estados. Estes pescadores têm
maior poder de captura, e seus acessos aos lagos das comunidades têm causa-
do, muitas vezes, conflitos com moradores locais.
Entre as sete regiões de Boa Vista do Ramos, tem-se a região do Rio
Urubu, que é constituída de seis comunidades: Santo Antônio do Rio Urubu,
Nossa Senhora do Carmo do Itaúbal, São Pedro do Tamoatá, Nossa Senhora
de Fátima da Terra Preta, São João do Itaúbal e Boa União do Rio Urubu.
Segundo os primeiros moradores da região, o agrupamento mais antigo
é a comunidade Nossa Senhora de Fátima da Terra Preta, com cerca de 100
cem anos. No entanto, as comunidades só se tornaram oficialmente reconhe-
cidas entre 16 e 50 anos atrás. No ano de 2009, a população total da região
era de 704 habitantes, distribuindo-se de forma desproporcional nas diferen-
tes comunidades. A de Nossa Senhora de Fátima da Terra Preta também era a
mais populosa, com 229 moradores.
Cada comunidade é dirigida por uma coordenação eleita a cada biênio,
quando são escolhidos: coordenador, vice-coordenador, secretária, tesourei-
ro e Conselho Fiscal. Há ainda organizações religiosas católicas e evangélicas
e, em algumas comunidades, associações voltadas a grupo de trabalhadores,
como Associações Agrícolas, Colônia de Pescadores, Sindicato dos Trabalha-
dores Rurais e Cooperativa de criadores de abelhas indígenas sem ferrão.
As casas são de madeira, cobertas com palha, telha de amianto ou alumí-
nio e se organizam no espaço pelas relações de parentesco e vizinhança. As
comunidades se estruturam em torno de escolas, centros sociais, geradores de

5. Estas informações foram baseadas no levantamento realizado por meio do Censo Esta-
tístico Comunitário (CEC), em abril de 2009, no âmbito do projeto “Gestão Participativa
da Pesca na Região do Rio Urubu, em Boa Vista do Ramos/AM”.
Acordos de Pesca na Amazônia Brasileira: Princípio da Dignidade... 109

energia a diesel e campos de futebol. Algumas dispõem de sistema de abaste-


cimento d’água que atendem as casas próximas. Em regra, os sanitários são de
fossa séptica com casinha de madeira e a água consumida é oriunda principal-
mente dos rios, mas também há poços comunitários e particulares. As princi-
pais formas de comunicação são a telefonia móvel e o rádio.
Como meio de transporte, destacam-se pequenas embarcações particu-
lares, de até 13 metros, como rabetas e canoas a remo. O atendimento em
saúde é voltado para atenção básica e feito por agentes de saúde, não haven-
do postos disponíveis. Em casos graves, os pacientes são encaminhados aos
hospitais mais próximos, nas sedes dos municípios de Boa Vista do Ramos e
Maués.
O ensino fundamental está disponível em todas as comunidades da re-
gião. Há ainda escolas não formais voltadas à educação de jovens, como a
Casa Familiar Rural (CFR) e o Instituto de Permacultura do Amazonas (IPA). A
primeira oferece, em módulos, o ensino médio em 3 anos. Já o IPA faz
capacitação dos jovens em informática, aproveitamento dos recursos naturais
locais, reflorestamento, criação de galinha, etc.
A economia da região, assim como nas demais áreas de várzea, é
diversificada e voltada, prioritariamente, para subsistência. Como base princi-
pal, tem-se a pesca, que é complementada pela agricultura; criação de peque-
nos animais, como galinha, pato, porco e carneiro; pecuária de boi branco e
búfalo; meliponicultura (desde 2001) e pelo extrativismo. Também se consti-
tui em importante fonte de renda, as aposentadorias recebidas. Apenas 25%
dos pescadores da região se declaram praticantes da pesca comercial.
A pesca se dá ao longo de todo o ano em áreas de lagos, rios e igarapés,
com a utilização de diversos instrumentos, como malhadeiras, tarrafas, cani-
ço, linha de mão, espinhéis, flechas e arpão.
O peixe é a principal fonte de proteína nessas comunidades, estimando-
se seu consumo diário na região em quase 600g por pessoa. Outras fontes de
proteínas seriam as oriundas de caça, como quelônios, veado, tatu, paca, cutia,
porco do mato, ou de criação.

Os acordos de pesca da região do rio Urubu

As avaliações iniciais sobre a gestão participativa da pesca na região do


rio Urubu, em Boa Vista do Ramos, tiveram início com o projeto de pesquisa
“Gestão Participativa da Pesca na região do rio Urubu, em Boa Vista do Ra-
mos/AM” financiado pelo Programa Integrado de Pesquisa e Inovação
Tecnológica (PIPT) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazo-
nas (FAPEAM), concluído em 2010.
110 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

O primeiro acordo de pesca da região do Rio Urubu foi celebrado em


2001, com a participação de 05 das 06 comunidades existentes, mas só foi
publicado no Diário Oficial da União em março de 2003, através da Portaria
no 11 do IBAMA, quando passou a vigorar. Referido acordo, no entanto, não
obteve êxito, não sendo observado pelos comunitários, razão pela qual sur-
giu a necessidade de se fazer um novo acordo.
O processo de elaboração do segundo acordo contou com a realização
de 04 assembleias, no período de agosto e setembro de 2008 e 03 reuniões
intercomunitárias no período de abril a julho de 2009. Cabe destacar que os
critérios determinados pelo IBAMA, através da Instrução Normativa n° 29/
2002, foram observados, como: i) não estabelecer privilégios a nenhum gru-
po; ii) representar o interesse da maioria dos atores envolvidos; iii) ter viabi-
lidade operacional, principalmente no que tange a fiscalização; iv) não dispor
sobre elementos de regulamentação exclusiva do poder público previstos em
lei, como penalidades, multas, entre outros.
Na oportunidade, foram discutidas questões sobre: i) ações de fiscaliza-
ção que deveriam ser implementadas; ii) a necessidade de placas de advertên-
cia sobre as regras vigentes, em locais estratégicos; iii) ações de abordagem
aos proprietários da região que têm dentro de suas propriedades todos os
lagos de pesca, em busca de apoio ao trabalho de manejo proposto; iv) as
condições de conservação dos lagos da região, os conflitos existentes e a ne-
cessidade de parceria e colaboração entre as próprias comunidades, para que
se logre êxito nas ações de ordenamento dos lagos de pesca do rio Urubu.
Entre as propostas aprovadas, têm-se a limitação do uso de malhadeiras
(até 03 por barco, com tamanho máximo de 100m e malha mínima de 70mm),
limite de pescado por viagem de 200kg por barco pescador, reserva de lagos
para reprodução pelo período de 02 anos (lagos Marajá e Laguinho) etc.
Quase um ano após a celebração do segundo acordo, foi realizada uma
nova pesquisa para se verificar os seus resultados. Na oportunidade, identifi-
cou-se que 91% dos entrevistados tinham conhecimento do acordo de pesca
vigente, apesar de não se lembrarem de suas regras. No entanto, apenas 25%
dos pescadores indicaram haver descumprimento do acordo, principalmente,
no que se refere ao uso do arrastão, à inobservância do defeso, à captura de
quelônios no verão e a não permissão para utilização de alguns lagos de pesca
em propriedades da região, além da invasão de barcos pescadores provenien-
tes, na maioria das vezes, do Pará.
Segundo os comunitários, as ações de fiscalização estavam sendo realiza-
das nos lagos por grupos de moradores, muitas vezes, acompanhados por
agentes ambientais voluntários treinados pelo IBAMA, sem o apoio dos ór-
Acordos de Pesca na Amazônia Brasileira: Princípio da Dignidade... 111

gãos fiscalizadores e da Prefeitura do município. Apesar de identificados


descumprimentos das regras do acordo, evitam-se reclamações no intuito de
não haver conflitos na vizinhança. A comunidade, na verdade, não tolera são
os chamados pescadores “de fora”, com suas grandes geleiras.
Dessa forma, verifica-se que as comunidades tradicionais podem e de-
vem participar ativamente das ações de conservação. Pode se dizer, então,
que os acordos de pesca são instrumentos da tutela parcial de conhecimentos
tradicionais associados à pesca (manejo de espécies-alvo), promovendo a re-
lação homem-natureza e a segurança alimentar.

Considerações finais
As pescarias amazônicas possuem características que conformam as es-
tratégias de manejo empregadas. O caráter multiespecífico e difuso da ativi-
dade, somados a vastidão geográfica abrangida e a falta de fiscalização pro-
movem diversas dificuldades.
A utilização de técnicas paramétricas de manejo implicariam em grande
base científica sobre a ecologia e biologia das espécies-alvo, assim como infor-
mações detalhadas sobre as pescarias e seus pescadores. No caso brasileiro,
não existem bases suficientes para o estabelecimento, por exemplo, de políti-
cas de captura por espécie e/ou região, como acontece em pescarias
monoespecíficas no Atlântico Norte (v.g. bacalhau e arenque).
Nesse caso, algumas tentativas pontuais e bem sucedidas, como o manejo
do pirarucu em Mamirauá assumem extrema importância, dado o caráter
multiplicador da iniciativa, que envolve o estabelecimento de cotas de captura,
pressupondo a participação das comunidades usuárias no processo de gestão.
Surge como alternativa para o ordenamento do setor na Amazônia a
inclusão dos usuários na gestão dos recursos. A partir de uma cultura local de
organização comunitária, consolidada pela iniciativa da igreja católica, as li-
deranças locais foram fortalecidas. Essa noção de conjunto social, aliada a
ausência do Estado e o aumento da pressão pesqueira e o acirramento dos
conflitos entre comunidades locais e pescadores de fora, criaram o cenário
ideal para a implementação de um sistema de gestão participativa da pesca.
Este sistema visa inicialmente garantir os meios e a forma de vida das
comunidades. Possui caracteres claramente precaucionários, situando-se em
limites seguros para o desenvolvimento da atividade pesqueira. Objetiva a
manutenção cultural das comunidades ribeirinhas, refletindo por fim, sobre a
manutenção da sóciodiversidade amazônica.
112 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

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Anexo
Anex
D.O.U Nº 186, terça-feira, 26 de setembro de 2007

INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS


NATURAIS RENOVÁVEIS
NATURAIS
PORTARIA Nº 45, DE 25 DE SETEMBRO DE 2007
PORT

O PRESIDENTE SUBSTITUTO DO INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS


RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS IBAMA, no uso das suas atribuições legais previstas
no art. 22, inciso V, do Anexo I, da Estrutura regimental, aprovada pelo decreto nº 6.099,
de 26 de abril de 2007;
Considerando o disposto no Decreto nº 5.583, de 16 de novembro de 2005, que autoriza
o IBAMA a estabelecer normas para a gestão do uso sustentável dos recursos pesqueiros de
que trata o § 6º do art. 27 da Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003;
Considerando o Decreto-Lei nº 221, de 28 de fevereiro de 1967, a Lei 7.679, de 23 de
novembro de 1998, a Instrução Normativa IBAMA nº 29, de 31 de dezembro de 2002,
que estabelece critérios e procedimentos para a regulamentação de Acordos de Pesca;
Considerando a necessidade de dar ordenamento legal ao manejo dos ambientes aquáti-
cos do lago de Balbina, município de Presidente Figueiredo, estado do Amazonas, tendo
em vista as constantes pressões aos estoques pesqueiros das espécies conhecidas popular-
mente como tucunaré (Cichla sp);
Considerando que as espécies de tucunaré (Cichla sp) são a principal fonte de renda dos
pescadores do lago de Balbina;
Considerando as deliberações dos ribeirinhos e representantes da Colônia de Pescadores Z-
6 de Presidente Figueiredo, Capatazia da Colônia de Pesca Z-6 na comunidade Rumo
Certo, Cooperativa de Pescadores, Agricultores, Barqueiros e Remanejamento Florestal de
Presidente Figueiredo, Associação de Moradores da Comunidade Rumo Certo, Associação
dos Barqueiros da Comunidade Rumo Certo, Associação dos Piscicultores e Criadores de
Peixe de Presidente Figueiredo, Associação dos Moradores da Vila de Balbina - AMVIB,
Associação dos Piloteiros Profissionais e Guias Turísticos da Vila de Balbina, Federação dos
Pescadores dos Estados do Amazonas e Roraima - FEPESCA, Secretaria Especial de Aqüicultura
e Pesca - SEAP-PR/AM, Comissão de Desenvolvimento do Interior, Agricultura, Pesca e Abas-
tecimento da Assembléia Legislativa do Estado do Amazonas, Associação dos Pescadores
Profissionais, Piscicultores e Aquicultores de Balbina, Associação Comunidade Waimiri Atroari
- ACWA, Prefeitura Municipal de Presidente Figueiredo, Secretaria Municipal de Meio Ambi-
ente de Presidente Figueiredo - SEMMA, Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Agricul-
tura de Presidente Figueiredo - SEMDA, Câmara Municipal de Presidente Figueiredo, Manaus
Energia S/A, Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas - IPAAM, Secretaria de Estado do
Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas - SDS, Núcleo de Recursos
Pesqueiros - NRP / IBAMA Amazonas, foi consenso a necessidade de estabelecimento de
Acordo de Pesca para favorecer a reprodução das espécies de tucunaré (Cichla sp) no lago de
Balbina, município de Presidente Figueiredo no estado do Amazonas; e,
116 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

Considerando, ainda, o que consta do Processo nº 02005.000364/07-14, resolve:


Art. 1º – Estabelecer regras para a pesca no lago de Balbina, localizado no município de
Presidente Figueiredo,estado do Amazonas.
Art. 2º – A área de abrangência do Acordo de Pesca compreende o antigo leito e toda a
margem direita da bacia hidrográfica do rio Uatumã a montante da barragem da hidrelé-
trica de Balbina, incluindo os igarapés que primitivamente eram afluentes e formadores do
rio Uatumã.
Art. 3º – Suspender a pesca comercial das espécies de tucunaré (Cichla sp) no lago de
Balbina no período de 1º de agosto a 30 de novembro de cada ano;
Art. 4º – Limitar a pesca esportiva/amadora a dez quilogramas de peixes mais um exemplar
por unidade de pesca, ou seja, por embarcação, independente do número de ocupantes.
Art. 5º – Limitar a pesca de subsistência a dez quilogramas de peixes por pescador.
Art. 6º – Estabelecer em 30cm o tamanho mínimo de captura das espécies de tucunaré
(Cichla sp) no lago de Balbina.
§1º – Para efeito de mensuração, define-se o comprimento total como sendo a
distância entre a ponta do focinho e a extremidade da nadadeira caudal.
§2º – Para efeito de mensuração na fiscalização, o pescado deverá estar inteiro.
Art. 7º – Permitir apenas o uso dos seguintes petrechos para a prática da pesca artesanal e
esportiva das espécies de tucunaré (Cichla sp) no lago de Balbina: linha de mão, caniço
simples, molinete, anzol e currico.
Art. 8º – Proibir a utilização de malhadeira para a captura das espécies de tucunaré (Cichla
sp).
Art. 9º – A fiscalização, vigilância e monitoramento dos ambientes aquáticos previstos
neste Acordo far-se-ão mediante parceria entre os órgãos do Sistema Nacional do Meio
Ambiente – SISNAMA e sociedade civil organizada, por meio de Mutirões Ambientais.
Art. 10º – Aos infratores da presente Portaria serão aplicadas às penalidades previstas na
Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, no Decreto nº 3.179, de 21 de setembro de 1999,
e demais normas complementares.
Art. 11º – O presente acordo terá vigência de dois anos, a partir da data de sua publicação.

BAZILEU ALVES MARGARIDO NETO


Sobre os Autores
Autores

Serguei Aily Franco de Camargo – Possui graduação em Direito pela Universidade


Franco
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”– UNESP/Franca (1992), mestrado em Conser-
vação e Manejo de Recursos, área de concentração Gestão Integrada de Recursos, pela
UNESP/Rio Claro (1998), doutorado em Aquicultura em Águas Continentais pela UNESP/
Jaboticabal (2002), pós-doutorado em Ecologia pelo NEPAM/UNICAMP (2004) e pós-
doutorado em Ecologia pelo Depto. de Ecologia da UNESP/Rio Claro (2012). Foi Delega-
do-Corregedor Chefe da Divisão de Informações da Corregedoria de Polícia Civil da Secre-
taria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Estado do Tocantins (1994). Atualmente
é professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Direito Ambiental da Uni-
versidade do Estado do Amazonas, em Manaus, onde exerceu a funcão de Coordenador
(entre 07/2009 e 01/2012) e, professor Adjunto I do Departamento de Direito da Uninilton
Lins, editor da Revista Hiléia (1679-9321) e da Revista Jurídica Virtual da Uninilton Lins
(2177-3505), parecerista ad hoc da Revista Acta Amazonica (0044-5967), da revista
Neotropical Ichthyology (1679-6225), da Revista Universitas Scientiarum (0122-7483), do
Boletim do Instituto de Pesca (0046-9939/impresso e 1678-2305/virtual) e da EDUSP. Atua
nas áreas de Direito e Ecologia, com ênfase sobre Amazônia, Direito Ambiental, recursos
pesqueiros de águas interiores e economia pesqueira.

Thaísa Rodrigues Lustosa de Camargo – Possui graduação em Comunicação Social -


Rodrigues
Relações Públicas pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM (2004) e em Direito
pela Universidade do Estado do Amazonas – UEA (2008), Especialização em Direito e
Processo do Trabalho pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região
do Pantanal – UNIDERP (2010) e em Pesquisa Educacional pela UEA (2006) e Mestrado
em Direito Ambiental pela UEA (2011). Atualmente cursa o Doutorado em Ciências do
Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia no Centro de Ciências do Ambiente/UFAM. É
agente técnico jurídico do Ministério Público do Estado do Amazonas e atua academica-
mente na área de direito do trabalho e direito ambiental (meio ambiente do trabalho,
legislação pesqueira e serviços ambientais).

Miguel Petrere Jr
Petrere Jr.. – Possui graduação em Filosofia (1972) e Matemática pela antiga
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Sorocaba (1974), mestrado em Biologia (Ecolo-
gia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (1977) e doutorado (1982) na School
of Biological Sciences - University of East Anglia, Inglaterra. Foi co-merecedor do The
Ibaraki Kasumigaura Prize (Copenhagen, Dinamarca) devido a excelência do artigo apre-
sentado na 8th. International Conference on the Conservation and Management of Lakes –
Lake99. Professor Livre-Docente aposentado do Departamento de Ecologia na UNESP –
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, onde ensinou Ecologia Quantitati-
va, Modelos Estatísticos em Ecologia ao nível de graduação, de 1984 a 2010. Na pós-
graduação ministra os cursos de Dinâmica da População de Peixes e Métodos Estatísticos
para Ciências Biológicas, na PG em Zoologia. Atualmente é professor da Universidade do
Estado do Amazonas, em Manaus, na PG em Direito Ambiental. Também é professor
pesquisador da Universidade Nilton Lins (Manaus), professor-orientador credenciado no
CHREA/USP (São Carlos), na PG em Biologia de Água Doce e Pesca Interior no INPA
118 Direito, Política e Manejo Pesqueiro na Bacia Amazônica

(Manaus) e na PG em Ciências Pesqueiras nos Trópicos da UFAM (Manaus), onde ministra


a disciplina Teoria da Amostragem. Atua na área de Recursos Pesqueiros e em Estatística
Experimental, com ênfase em Recursos Pesqueiros de Águas Interiores, principalmente nos
seguintes temas: Amazônia, ecologia de peixes e da pesca, manejo de estoques pesqueiros
usando modelos matemáticos e estatísticos tanto analíticos como de simulação. É membro
titular da ACIESP (Academia de Ciências do Estado de São Paulo) e Fellow da The Linnean
Society of London.

Denison Melo de Aguiar – Possui graduação em Direito pela Universidade da Amazô-


nia (2006) e Mestrado em Direito Ambiental pelo Programa de Pós-Graduação em Direito
Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas (2011). Atualmente cursa o Doutora-
do em Ciências Pesqueiras nos Trópicos na Universidade Federal do Amazonas (PPGCIPET-
UFAM). É professor na UNINORTE (Laureate International Universities, Manaus), Presi-
dente do Centro de Estudos em Direito Ambiental da Amazônia (CEDAM), advogado e
Editor Adjunto da Revista Hiléia – Revista de Direito Ambiental da Amazônia (ISSN 1679-
9321). Tem experiência nas áreas de Direito Ambiental, Direitos Humanos e Direito Pes-
queiro, estudando principalmente acordos comunitários de pesca, conhecimentos tradicio-
nais associados ao manejo pesqueiro e conflitos socioambientais no setor pesqueiro.

Andrei Sicsú de Souza – Possui graduação em Direito pela Universidade do Estado do


Amazonas – UEA (2006) e em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM
(2007) e Mestrado em Direito Ambiental pela UEA (2009). Possui Curso Avançado de
Propriedade Intelectual pela Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas –
SECT (2006) e Especialização em Comercialização de Tecnologia pelo Instituto Nacional
de Pesquisas da Amazônia – INPA (2006). É advogado desde 2007 atuando na assessoria
jurídica de ONGs e Organizações Indígenas. Pesquisador e professor nas áreas de Direito
Ambiental, Direitos Humanos, Direitos Indígenas, Direito Civil, Propriedade Intelectual e
Conhecimentos Tradicionais.

Arilúcio Bastos Lobato – Possui graduação em Direito pela Universidade Federal do


Amazonas (1997), Especialização em Direito Processual e Direito Civil e Processual Civil
pelo Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas (2000), Especialização em Direito
Processual pela Fundação Gestúlio Vargas em parceria com o Instituto Superior de Admi-
nistração e Economia da Amazônia (2000) e Mestrado em Direito Ambiental pela Univer-
sidade do Estado do Amazonas (2009). É analista judiciário (execução de mandados), no
Tribunal Regional do Trabalho (Manaus) e professor de direito da Universidade Metropo-
litana de Manaus – FAMETRO e do Centro Universitário do Norte – UNINORTE, onde
ministra disciplinas de Direito Civil, Processo Civil e Introdução ao Estudo do Direito.

Blanca Lourdes Bottini Rojas – Possui licenciatura em Biologia, pela Faculdade de


Rojas
Ciências da Universidade Central da Venezuela (1987) e Mestrado em Ciências Biológicas
(Zoologia), pela Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, UNESP/Rio Cla-
ro (2009). Atualmente é Coordenadora de Pescarias Continentais, do Instituto Socialista
de la Pesca y Acuicultura da Venezuela (INSOPESCA), onde realiza trabalhos de revisão e
monitoramento de pesquisas sobre avaliação e manejo de recursos pesqueiros marinhos e
fluviais, visando o estabelecimento de normas para a gestão da pesca. Seus interesse de
pesquisa recaem sobre os seguintes temas: gestão dos recursos pesqueiros e desenvolvi-
mento sustentável; manejo pesqueiro com enfoque participativo; segurança alimentar e
circuitos agroalimentares.

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