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RELATÓRIO PRINCIPAL

Angola: Estudo Diagnóstico da


Integração Comercial

APRESENTADO A
Banco Mundial
USAID

APRESENTADO POR
Nathan Associates Inc.

SOB O CONTRATO NO.


World Bank 7134881
USAID PCE-I-00-98-00016-00
Requisição de trabalho no. 13
www.nathaninc.com
Septembro de 2006
RELATÓRIO PRINCIPAL

Angola: Estudo Diagnóstico da


Integração Comercial

APRESENTADO A
Banco Mundial
USAID

APRESENTADO POR
Nathan Associates Inc.

SOB O CONTRATO NO.


World Bank 7134881
USAID PCE-I-00-98-00016-00
Requisição de trabalho no. 13

Agosto de 2006
III

Índice
Acrónimos e Abreviaturas vii

1. Introdução 1

Fundamentação do Estudo 1

Contexto Socioeconómico e Antecedentes Económicos Recentes 2

Crescimento e Balança Comercial Interna 4

Subvenções e Controlos de Preços 6

Sector Externo 7

2. Comércio e Pobreza 15

Produção de Exportações e Pobreza 15

Desigualdade, Pobreza Rural e Agricultura 17

Pobreza Urbana 19

Redução da Pobreza, Crescimento Económico, e Expansão Comercial 20

3. O Petróleo e as Incentivas Macroeconómicas 23

Dependência do Petróleo e Taxa de Câmbio Real 23

Reabilitação da Produção Angolana de Bens Transaccionáveis 25

4. Infra-estruturas e Serviços Públicos 29

Transportes 30

Água, Electricidade e Telecomunicações 39

5. As Instituições Comerciais e o Desenvolvimento das Capacidades 43

Acordos Comerciais e Acordos Preferenciais de Acesso 44

Instituições Relacionadas com o Comércio e Desenvolvimento das Capacidades 49

Recomendações para Reforçar os Processos e as Instituições Comerciais 59


6. Barreiras Comerciais 67

Tarifas 67

Medidas não Tarifárias 71

Incentivos à Exportação 80

7. Facilitação do Comércio 81

Direcção Nacional das Alfândegas 81

Registo e Requisitos de Documentação 83

Financiamento do Comércio 86

8. Desenvolvimento do Sector Privado 87

Infra-estruturas 88

Investimento Directo Estrangeiro 89

Crédito e Sistema Bancário 94

Promoção do Investimento 96

Privatização 98

Direitos de Propriedade Intelectual e Industrial 99

Protecção do Ambiente 99

9. Potencial dos Sectores Essenciais 101

Agricultura 101

Indústria 116

Turismo 127

Indústria da Pesca 136

10. Assistência dos Doadores 151

ILUSTRAÇÕES
Figuras
Figura 1-1. Composição das Exportações Angolanas em 1972 e em 2001-2003 (média) 3
Figura 1-2. Taxa de Câmbio do Kuanza – US. Dollar 9
Figura 1-3. Principais Parceiros de Exportações, 1990-2003 11
Figura 1-4. Principais Parceiros de Importações, 1990-2003 12
Figura 3-1. Taxa de câmbio real do Kuanza – USD (dólar americano) 24
Figura 6-1. Decomposição das Taxas MFN Aplicadas, 2005 69
V

Figura 6-2. Progressividade das Tarifas com base nas Indústrias de 2 Dígitos pela ISIC 70
Figura 8-1. Importância do Emprego Informal na Economia Urbana 87
Figura 9-1. Antecedentes da produção de culturas agrícolas principais 1960–2003 102

Quadros
Quadro 1-1. Composição do PIB por sector, 1966–2004 3
Quadro 1-2. Indicadores económicos seleccionados, 2001-2006 5
Quadro 1-3. Tendências no comércio de mercadorias 10
Quadro 1-4. Receitas alfandegárias de 2003 a 2005 (em USD) 13
Quadro 2-1. Pobreza básica e indicadores sociais, 2004 16
Quadro 3-1. Rendimento mineral como percentagem das receitas do governo e do PIB
em países que exportam minerais 23
Quadro 4-1. Indicadores da infra-estrutura da SADC, pelo Índice de Desenvolvimento
Humano (Alto, Médio, Baixo) 30
Quadro 4-2. Condição das redes de estradas pavimentadas 31
Quadro 4-3. Material ferroviário rolante por Companhia 34
Quadro 9-1. Ficha da balança alimentar de Angola, ano de culturas 2002-2003,
campanha de comercialização 2003-2004 (toneladas) 104
Quadro 9-2. Produção por hectare (kg) 109
Quadro 9-3. Produções agrícolas comparativas para as culturas principais, 2003 112
Quadro 9-4. O sector industrial em relação a outros sectores 1996 — 2004
(percentagem) 117
Quadro 9-5. Unidades industriais registadas por subsector, Setembro de 2005 118
Quadro 9-6. Produção das unidades industriais por subsector, Janeiro a Setembro de
2005 119
Quadro 9-7. Receitas turísticas brutas em 2004 (USD milhões) 132
Quadro 9-8. Programas e projectos do plano geral de desenvolvimento turístico 134
Quadro 9-9. Abastecimento anual de peixe ao mercado nacional, 1989 e 2003-2004 138
Quadro 9-10. Emprego nas pescas por tipo de entidade, 1989 e 2003-2004 (000 pessoas) 139
Quadro 9-11. Exportações dos peixes principais e dos produtos das pescas, 2004-2005 140
Quadro 9-12. Produtos provenientes de peixe processado (toneladas) 141
Quadro 10-1. Assistência de doadores principais para o desenvolvimento em Angola
(excluindo a Ajuda Humanitária) 152

Anexos
Anexo 3-1. Manter as exportações não petrolíferas nos países ricos em petróleo: lições da
Nigéria e da Indonésia 26
Anexo 5-1. Formação relacionada com o comércio em Angola 64
Anexo 6-1 Direitos de importação, taxa efectiva de protecção e eficácia económica 72
Anexo 8-1. Pontuação sobre as actividades comerciais, 2006 93
Anexo 9-1. Pontos fortes, fracos, oportunidades e ameaças do sector do turismo 133
VII

Acrónimos e Abreviaturas
BAFD (AFDB) Banco Africano de Desenvolvimento [African Development Bank]
AGOA Africa Growth and Opportunity Act
[Lei de Crescimento e Oportunidade para África, dos EUA]
ANIP Agência Nacional de Investimentos Privados
AUPEC Aberdeen Univ. Petroleum Economics Consultancy
BIVAC Bureau of Inspection Valuation Assessment & Control
BNA Banco Nacional de Angola
CEMP Customs Expansion and Modernization Program
[Programa de Expansão e Modernização Aduaneira]
DFID Department for International Development (UK)
DNCI Direcção Nacional de Comércio Internacional
DNI Directoria Nacional de Impostos
EDIC (DTIS) Estudo Diagnóstico da Integração Comercial (Diagnostic Trade
Integration Study)
ECP Estratégia de Combate à Pobreza
EDA Estação de Desenvolvimento Agrário
EDEL Empresa de Distribuição de Electricidade de Luanda
EITI Extractive Industries Transparency Initiative
[Iniciativa de Transparência das Indústrias de Extracção]
ENAMA Empresa Nacional Angolana de Mecanização Agrícola
ENDIAMA Empresa de Diamantes de Angola
ENE Empresa Nacional de Electricidade
EPA Economic Partnership Agreement [Acordo de Parceria Económica]
EPAL Empresa Pública de Águas de Luanda
UE União Europeia
FAO Food and Agriculture Organization
[Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação]
FAS Fundo de Acção Social
FDES Fundo de Desenvolvimento Económico e Social
IDE Investimento directo estrangeiro
GATT General Agreement on Tarifas and Trade
[Acordo Geral sobre Pautas Aduaneiras e Comércio]
PIB Produto interno bruto
GSA Gabinete de Segurança Alimentar
IIA Instituto de Investigação Agronómica
IANORQ Instituto Angolano de Normalização e Qualidade
IDR Inquérito de Despesas e Receitas
FMI Fundo Monetário Internacional
INCA Instituto Nacional do Café
INE Instituto Nacional de Estatísticas
ZPI zona de processamento industrial
ISO International Standards Organization
ISPS International Ship and Port Facility Security
LPG liquified petroleum gas [gás liquefeito de petróleo]
MECANAGRO Empresa Nacional de Mecanização Agrícola
MFN most favored nação [nação mais favorecida]
MICS Multiple Indicator Cluster Survey
MINADER Ministério da Agricultura e de Desenvolvimento Rural
MIND Ministério da Indústria
MINCO Ministério do Comércio
MOC Ministry of Commerce
MPLA Movimento Popular para a Libertação de Angola
NEPAD New Partnership for Africa’s Development
[Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano pA
OECD Organization for Economic Development and Cooperation
OCDE Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Económico
OPEC Organization of Petroleum Exporting Countries
OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo
SADC Southern African Development Community
[Comunidade de Desenvolvimento para a África Austral]
ASS África Subsaariana
TRIPS Trade Related Intellectual Property Rights
[Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio]
PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
UNITA União Nacional para a Independência Total de Angola
OMS (WHO) Organização Mundial de Saúde (World Health Organization)
OMC (WTO) Organização Mundial do Comércio (World Trade Organization)
1. Introdução
Fundamentação do Estudo
O principal objectivo deste Estudo Diagnóstico da Integração Comercial (EDIC) (Diagnostic
Trade Integração Study - DTIS) é oferecer um plano para reactivar os sectores produtivos de
Angola que reduzem a dependência do país das importações, permitindo assim a restauração
da capacidade de exportação, a médio e a longo prazo. A execução de um plano desse tipo
exigirá o investimento na reabilitação das infra-estruturas destruídas pela guerra e a criação e
o ajustamento de políticas que afectam os alicerces institucionais de uma economia de
mercado, assim como incentivos para a exportação e importação. Esta meta está
inextrincavelmente ligada à necessidade premente da criação de empregos e alívio da pobreza
identificados no plano do governo de redução da pobreza a longo prazo, a Estratégia de
Combate à Pobreza (ECP). Este estudo:

 Avalia o desempenho do comércio de Angola e identifica sectores que oferecem a


possibilidade de reabilitação;

 Identifica fraquezas no ambiente da política comercial, nomeadamente a estrutura de


tarifas, medidas não tarifárias, incentivos à exportação, gestão aduaneira e facilitação do
comércio e sugere medidas para melhorar esse ambiente;

 Descreve como a relação entre as distorções macroeconómicas induzidas pelo petróleo e


identificadas no Memorando Económico Nacional [CEM – Country Economic
Memorandum] do Banco Mundial (a ser publicado em breve) e a reabilitação dos sectores
produtivos, influenciará até que ponto Angola pode reactivar a produção nacional a curto
prazo e exportar bens não minerais de médio a longo prazo;

 Descreve a medida em que a reactivação do investimento e da produção em sectores


relacionados com o comércio dependerá da reabilitação e reconstrução das infra-estruturas,
assim como de melhoramentos no ambiente comercial;

 Descreve aquilo de que precisam os sectores da agricultura, da indústria, do turismo e da


indústria da pesca para alcançar o seu potencial;
 Identifica como Angola pode utilizar melhor a sua participação nos acordos comerciais
regionais e internacionais para aumentar o crescimento relacionado com o comércio.

 Identifica as restrições institucionais sobre o comércio, incluindo as ligações institucionais e


as autoridades, e a capacidade das entidades para formular e implementar a política
comercial; e

 Descreve como o crescimento em sectores relacionados com o comércio pode mitigar a


pobreza (isto é, como a reactivação da produção em sectores expostos ao comércio, tais
como a agricultura, pode aumentar os rendimentos dos pobres).

Contexto Socioeconómico e Antecedentes Económicos Recentes


Dispondo de uma base de recursos naturais que pode apoiar uma vasta gama de actividades
económicas, Angola tem capacidade para ser um exemplo de sucesso económico em África.
Com um território total de 1.246.700 km quadrados e uma população de 15 milhões, Angola é
um país escassamente populado. Abundante terra arável, a maior parte da qual não está
cultivada, é capaz de suportar uma agricultura alimentada pelas águas da chuva, e variações
na altitude permitem o crescimento de culturas agrícolas de zonas tropicais e temperadas.
Conhecida pelo seu petróleo e diamantes, Angola também possui outros recursos minerais,
como ferro, quartzo, rochas ornamentais e fosfatos. É provável que sejam descobertos mais
minerais, quando o potencial mineral do país for completamente explorado. 1

Como colónia de Portugal, durante quase 500 anos, Angola serviu as necessidades de
Portugal. Os ciclos da economia colonial eram determinados por exportações, primeiro os
escravos e depois matérias-primas, tais como a borracha e o café. Antes de Angola ter obtido a
independência de Portugal em 1975, era um país conhecido como produtor agrícola e não
como exportador de petróleo. Era o quarto maior exportador de café do mundo e um dos
maiores exportadores de alimentos principais de base na África a sul do Sara, exportando
mais de 400 mil toneladas métricas de milho anualmente. Estas exportações de cereal eram
produzidas quase exclusivamente por pequenos agricultores que utilizavam tecnologias
tradicionais. O petróleo ainda não tinha alcançado os altos níveis de produção dos anos de
1980 e seguintes (Figura 1-1). Hoje em dia, a economia depende fortemente do petróleo, um
sector com um alto coeficiente de capital com poucas ligações a outras partes da economia e
pouco impacto no emprego. Depois de 1973, a estrutura da economia mudou
substancialmente, à medida que a mineração e os sectores de serviços aumentaram a sua
quota no PIB (Quadro 1-1).

As deslocações causadas pelas guerras pós-independência têm afectado gravemente a


população e a economia. À medida que os agricultores fugiam das guerras, as economias
rurais e agrícolas desabaram e a urbanização aumentou rapidamente. Mais de um milhão de
pessoas perderam a vida durante a guerra civil, 4,3 milhões fugiram para as cidades e 400 mil

1 Esta secção baseia-se no Memorando Económico Nacional [Country Economic Memorandum] do Banco
Mundial para Angola (a ser publicado em breve).
INTRODUÇÃO 3

pessoas buscaram refúgio nos países vizinhos. Mais de 45 por cento da população passou a
estar concentrada em zonas urbanas, e mais de metade desta percentagem em Luanda
(Adauta de Sousa, 2003).

Figura 1-1
Composição das Exportações Angolanas em 1972 e em 2001-2003 (média)
Oil-Derived Products
1.6%
Gas
Other 0.4%
20% Diamonds
Coffee 9.9%
28% Other Exports
0.7%

Oil Derived
1%
Cotton
2%
Fish flower
4%
Sisal
2%

Iron
7% Diamonds
11%

Oil Crude
25% 87.4%

Other - Outros 20%; Coffee - Café 28%; Diamonds – Diamantes 11%; Oil – Petróleo 25% ; Iron – Ferro 7%; Sisal – Sisal
2%; Fish flower – Farinha de peixe – 4%; Cotton – Algodão 2%; Oil derived - Derivados do petróleo 1%

Oil-derived products – Produtos derivados do petróleo 1,6%; Crude – Petróleo bruto 87,4%; Other Exportações –
Outras exportações 0,7%; Diamonds – Diamantes 9,9%; Gas – Gás 0,4%

Quadro 1-1
Composição do PIB por sector, 1966–2004

Sector 1966 1970 1987 1996 2004


Agricultura, silvicultura e pescas 14,2 9,0 12,6 7,0 9,1

Indústria 22,2 29,6 57,5 67,8 58,1

Mineração 6,3 10,7 51,0 61,2 49,8

Indústria 8,7 10,7 3,7 3,4 4,2

Electricidade e água 0,9 0,9 0,3 0,0 0,0

Construção 6,3 7,3 2,5 3,1 4,0

Serviços 63,6 61,4 29,9 25,2 32,8

Transportes e comunicações 6,3 5,9 2,7 0 0

Comércio 34,0 30,3 7,2 15,0 15,4

Outros serviços 23,3 25,2 20,0 10,1 17,5

FONTES: IV Plano de Fomento 1974-1979, Angola; Perfil Estatístico, 1988-1991; “Angola: An Introductory Review,” World
Bank,, January 1991 [Angola: Um Exame Introdutório, Banco Mundial, Janeiro de 1991]; dados fornecidos pelas autoridades
angolanas ao FMI e ao Banco Mundial.
4 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

A guerra também destruiu as infra-estruturas do país, directamente e ao longo de 20 anos de


uma manutenção negligenciada. As estradas foram especialmente afectadas; muitas áreas
encontram-se actualmente isoladas do resto do país. O Banco Mundial calculou que a
reconstrução da rede rodoviária e de pontes, sem a qual pouca actividade rural é praticável,
custará USD 4 mil milhões (Diamonds Human Security 2004). Além disso, a maior parte da
capacidade industrial do país também foi destruída ou tornada inoperável.

Em 1976, a totalidade dos 300 mil colonos portugueses, que monopolizavam os empregos
qualificados, partiu abruptamente e Angola ainda sofre os efeitos deste êxodo. Três décadas
parecem constituir um período de tempo adequado para que uma nova geração tenha sido
formada para os substituir, mas os conflitos quase contínuos desde essa altura, têm impedido
que isto aconteça ao nível necessário. A frequência escolar continua baixa, 75 por cento nas
cidades e 50 por cento nas zonas rurais, enquanto que a fracção dos estudantes que chegam à
quinta classe é metade da média de 67 por cento para a África Subsaariana. Não é de
surpreender, que as taxas de alfabetização também sejam baixas, especialmente entre o sexo
feminino. O subemprego persistente, especialmente entre os jovens, dificulta a aquisição e a
retenção de aptidões e nutre a possibilidade de conflitos sociais. As sondagens sobre os
salários indicam que as famílias têm poucos incentivos para investir na educação, para além
dos níveis elementares, dado que se o fizerem é pouco provável que o rendimento aumente
de forma suficiente para justificar a despesa (Adauta de Sousa et al. 2003, 35). Níveis tão
baixos de formação de capital humano constrangem o alcance da diversificação económica e a
produtividade necessárias para competir na economia global.

Crescimento e Balança Comercial Interna


O PIB per capita é relativamente elevado, chegando a cerca de USD 970 em 2003, e o FMI
projectou que atingirá USD 1.305 em 2005. No entanto, a distribuição é extremamente
assimétrica. De acordo com o governo, muito mais de dois terços dos angolanos subsiste em
menos de USD 2 por dia, um facto que se reflecte na distribuição sectorial tanto do PIB como
da mão-de-obra, em que menos de 10% do valor acrescentado (na agricultura) é produzido
por mais de dois terços da força de trabalho.

O crescimento recente do PIB de Angola está estreitamente ligado ao crescimento do sector


petrolífero (ver o Quadro 1-2). Durante os numerosos anos do conflito, era impossível a
indústria nas zonas rurais e as cidades estavam separadas das fontes de fornecimento e dos
possíveis mercados para os fabricos. Agora que as hostilidades acabaram, os sectores não
petrolíferos estão a crescer lentamente, enquanto que o petróleo continua dominante. Caso se
mantenha, a recente subida do preço do petróleo para mais de USD 60 por barril fornecerá
crescimento adicional para o sector.2 Na verdade, o petróleo tem contado, pelo menos, para

2 Os sistemas de recolha de dados são extremamente deficientes, sobretudo fora de Luanda, o que reduz a
confiabilidade dos números disponibilizados. A rede estatística do governo praticamente não existe fora das
principais cidades, sendo que até o tamanho da população é algo debatível. As estimativas de produção de
petróleo são melhor conhecidas, embora a disposição das respectivas receitas seja um elemento de grande
contenda entre o governo e as instituições credoras internacionais. Há alegações de enormes desvios, mas tem
INTRODUÇÃO 5

metade do PIB nos últimos anos e esta percentagem subirá rapidamente à medida que a nova
produção surgir e se os preços a nível mundial se mantiverem elevados. Entre outros sectores,
o sector de serviços é importante, enquanto que os da agricultura e da indústria são
responsáveis por uma pequena quota do PIB. Estes sectores têm demonstrado uma elevada
taxa de crescimento nos últimos anos, enquanto a reactivação económica tem prosseguido
desde o nível extremamente baixo da actividade do período pós-conflito imediato.

Quadro 1-2
Indicadores económicos seleccionados, 2001-2006

Indicador 2001 2002 2003 2004 2005 2006


Crescimento do PIB Real (%) 3,1 14,4 3,4 11,7 20,6 26,9

Inflação (%) 116,1 105,6 76,5 31,0 18,5 10,0

Taxa de câmbio real 80 72 58 49 40

Saldo orçamental/PIB (%) -6,1 -7,4 -7,8 3,4 4,0 -4,9

Saldo da conta corrente/PIB (%) -14,9 -1,4 -5,2 4,2 8,2

Dívida externa/PIB (%) 81,3 81,0 61,2 45,3 32,6 11,3

Notas: Índice da taxa de câmbio real medido no fim de cada ano

2006 = Projecções

FONTE: BNA

Nos últimos cinco anos, observou-se uma evolução positiva dos indicadores macro-
económicos, ou seja, o país tem vindo a registar estabilidade macro-económica no domínio do
crescimento sustentado do PIB, a desaceleração da inflação, a estabilidade da moeda nacional
e a recuperação das reservas internacionais líquidas que concorrem para um aumento da
confiança por parte dos investidores e que demonstra um ambiente favorável para
investimentos no sector produtivo não petrolífero, que poderá contribuir para o fomento e
diversificação das exportações, conforme se pode ler no quadro acima.

Com efeito, o crescimento económico conheceu uma tendência ascendente desde 2002,
atingindo uma taxa de 14,4 por cento do PIB, caindo apenas em 2003 tendo, para o efeito,
recuperado a sua trajectória ascendente em 2004 e 2005, registando fortes taxas de crescimento
do produto de 11,7 e 20,6 por cento respectivamente. Esse desempenho salutar do PIB
continuou a ser fortemente influenciado pelo sector petrolífero que contribuiu em 13,9 por
cento em 2004 e em 19,7 por cento em 2005. O crescimento do sector não petrolífero em 2004
foi de 9,1 por cento, tendo sido de 10,4 por cento em 2005, com destaque para o crescimento
dos sectores da agricultura e pescas, construção civil, da indústria transformadora e de
serviços.

Desde os anos da década de 1990, Angola tem aguentado episódios de hiperinflação seguidos
de pacotes de políticas de estabilização e controlo e renovada inflação. Estes ciclos foram
causados pela monetização dos défices fiscais. Quando os gastos estimulados pelas receitas de
sido difícil confirmá-las. As medidas tomadas recentemente para aumentar a transferência são passos
positivos, mas pouco afectam a qualidade das informações históricas.
6 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

petróleo se tornavam insustentáveis após um período de crescimento, quer devido a declínios


nas receitas do petróleo, produção ou preços, o governo imprimia dinheiro ou contraía
empréstimos garantidos pelas receitas futuras do petróleo. Este ciclo foi quebrado em meados
de 2003 quando o governo instituiu uma nova politica para manter a inflação baixo controle e
para restaurar a confiança na moeda nacional. Este processo é descrito em detalhe no
memorando económico por pais brevemente esperado do Banco Mundial. Mas é claro que o
objectivo do governo tem sido alcançado tem sido alcançado em grande parte, com a inflação
mensal encontrando-se agora em valores baixos da casa de um dígito; a média anual da
inflação em 2005 situava-se em 18,6 por cento (tendo diminuído de 28,7 por cento no início do
ano) e o objectivo é continuar a diminuí-la em 2006.

O Quadro 1-2 mostra o saldo fiscal como percentual do PIB, mostrando que o défice das
contas fiscais do governo era muito elevado até à recente intensificação da produção de
petróleo. Imediatamente a seguir à guerra, o governo mostrou-se relutante em realizar ajustes
fiscais vigorosos tendo em conta a necessidade dos gastos com a reabilitação e reconstrução
das infra-estruturas. No entanto, o alto nível actual do preço do petróleo e o nível de
produção aumentado têm resolvido, em grande parte, o problema do governo relativo ao
défice, pelo menos por enquanto. O governo tem avançado na implementação de um novo
sistema de acompanhamento dos gastos fiscais e aceitou a validez das recomendações
contidas na análise da gestão dos gastos públicos, feita pelo Banco Mundial.

Subvenções e Controlos de Preços


Em 2003, o FMI concentrou-se no nível elevado de subvenções em Angola, que tinham a seu
cargo cerca de 3,3 por cento do PIB em 2002. Foram identificados dois tipos de subvenções,
subvenções operacionais a empresas públicas que dão prejuízo, o que representava 0,5 por
cento do PIB e subvenções de preço concedidas a serviços de utilidade pública como
compensação para as suas tarifas baixas, avaliados em 2,8 por cento do PIB. Além disso o FMI
notou que certos pagamentos de recapitalização a empresas do estado, realmente, poderiam
ser considerados subvenções operacionais.

As principais subvenções de preço em Angola, notadas em 2003, foram para combustível,


electricidade e água. Os preços da gasolina e do querosene em Angola, em Janeiro de 2003,
constatou-se serem aproximadamente um quarto do preço a nível mundial. As tarifas de
electricidade cobradas pela EDEL, a empresa fornecedora em Luanda, eram 0,4 por cento do
custo da produção e as tarifas cobradas pela ENE, a empresa responsável pela distribuição
fora de Luanda, eram 65 por cento do custo da produção. As tarifas oficiais de água em
Luanda eram tão baixas que a empresa pública das águas não podia nem levar a cabo uma
manutenção adequada nem alargar o fornecimento de água às áreas periurbanas não servidas
e em expansão; apenas cerca de 56 por cento da população de Luanda e 32 por cento da
população de outras áreas urbanas recebiam água canalizada do depósito central e apenas
INTRODUÇÃO 7

entre 2 por cento e 15 por cento da produção e distribuição total de água era recebido como
rendimento.

Estas práticas de subsídio eram altamente regressivas: a disponibilidade limitada dos serviços
de utilidade pública gerava grandes mercados informais cujos preços eram significativamente
mais elevados, o que proporcionava um bom negócio para os operadores privados e que, em
geral, eram utilizados pelas pessoas mais pobres.3

Alguns bens estão sujeitos a preços fixos ou a controlos das margens do preço ao nível do
produtor e da venda por junto ou a retalho. Actualmente, os preços fixos cobrem o pão e os
produtos derivados do petróleo; os controlos sobre as margens cobrem uma variedade de
bens utilizados na agricultura, assim como outros produtos básicos, têxteis, vestuário, sapatos
e medicamentos. Em Dezembro de 2005, o Banco Mundial finalizou um relatório abrangente
que analisou estas subvenções e formulou uma recomendação para os eliminar
gradualmente.4 As principais recomendações incluíam a necessidade de utilizar as poupanças
da eliminação para minorar o impacto das subvenções em relação aos pobres e vulneráveis.
Estas medidas paliativas poderão apresentar uma variedade de formas, mas são necessárias
para garantir a aceitação política das reformas. Além disso, o sector da água exige
investimentos na infra-estrutura e reformas de gestão, antes das subvenções poderem ser
eliminadas gradualmente.

Sector Externo
No que diz respeito à dívida externa, observou-se uma melhoria significativa nos rácios da
dívida externa expressos em proporção sobre o PIB, passando estes de 100,6 por cento em
2000, para 61,2 por cento em 2003. Estima-se que a melhoria observada nos rácios da dívida
externa de médio e longo prazo tenha continuado, passando de 45,3 por cento em 2004, para
32,6 por cento em 2005, o que se explica não pela redução do stock da dívida que terá
aumentado ligeiramente, mas sim pelo aumento do PIB, essencialmente quando expresso em
dólares norte-americanos. De referir que a nova metodologia de tratamento da dívida (com o
novo aplicativo informático para registo e gestão da dívida – DMFAS – da UNCTAD),
permite apenas o seu tratamento a médio e longo prazo. O stock da dívida externa incluindo a
dívida com garantia de petróleo e equivalente a USD 8889,1 mil milhões, de acordo com a
informação disponível, reportada ao ano de 2004.

O endividamento relativamente elevado de Angola é o resultado de empréstimos garantidos


pelo petróleo e de três décadas de avultadas dívidas externas. A sua dívida externa é cerca de
USD 8 mil milhões, dos quais cerca de USD 1 mil milhões têm vencimento a curto prazo. Não
obstante, os altos níveis das exportações dão uma segurança relativa a Angola na sua
capacidade de servir a dívida, apresentando um rácio actual de 20 por cento para o serviço da
dívida e um rácio de 50 por cento para a dívida em relação ao PIB. Contudo, o grau de

3 FMI (2003a) e Aguilar (2001).


4 “Assessing the Impacts of Phasing Out Fuel and Utility Price Subsidies.” [“Avaliação dos Impactos da
Eliminação Gradual das Subvenções para os Preços do Combustível e para os Serviços de Utilidade Pública”]
8 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

benefícios que Angola efectivamente pode derivar de futuros aumentos na produção, está
limitado pelo compromisso das receitas do petróleo ao serviço da dívida.

As relações com as organizações internacionais foram desiguais durante os vários episódios


de inflação e estabilização. Contudo, no último ano, o governo tem manifestado uma
determinação renovada em alcançar estabilidade. Os recentes anúncios sobre receitas
relacionadas com o petróleo marcam uma ruptura com o passado e poderiam, se continuarem
e forem estendidos para todo o sector, criar a base para uma transição sustentada para um
modo de operação com mais transparência. Balançando isto está o fato que existe progresso
sendo feito na reabilitação da capacidade produtiva e a infra-estrutura em geral, como é
discutido abaixo neste relatório.

A Figura 1-2 mostra a evolução da taxa de câmbio durante os últimos cinco anos. É de
particular interesse notar a mudança nítida na tendência desde Agosto de 2003. A taxa de
câmbio mais estável desde essa época reflecte os esforços do governo em estabilizar a
economia e também um forte fluxo de câmbio estrangeiro. Com a taxa nominal de câmbio
estável e a taxa de inflação em desaceleração, houve nos últimos anos valorizações reais do
kwanza relativamente significativas. Este não foi um objectivo consciente do governo, mas
sim o resultado de uma combinação de factores, internos e externos. Os mecanismos com o
que estes resultados ocorreram são além do alcance deste relatório e são discutidos com mais
profundeza no memorando económico por pais brevemente esperado do Banco Mundial.
Contudo, este resultado na taxa de câmbio tem fortes implicações. nos esforços para
promover as exportações ou as actividades que competem com as importações, dado que a
taxa nominal estável implica preços constantes para os bens comercializados (exportações ou
importações), enquanto os produtores angolanos enfrentam a escalada dos custos e a
diminuição (ou não existência) das margens de lucro, se a inflação continuar a aumentar os
seus custos.

PADRÃO DE COMÉRCIO
Distribuição Sectorial das Exportações e das Importações
A grande maioria dos angolanos não está implicada nem beneficia directamente das
exportações do país. A maior parte da receita proveniente das exportações deriva do petróleo
e do gás, beneficiando directamente o tesouro nacional, mas afectando a pobreza apenas na
medida em que o alívio da pobreza constituir uma prioridade do orçamento governamental.
Uma extrema economia de enclave, o sector petrolífero não contribui de forma nenhuma para
mitigar directamente a pobreza. Por exemplo, os trabalhadores e os meios de produção,
incluindo a maioria dos alimentos consumidos pelos trabalhadores, são importados. E a
consequência do emprego da mão-de-obra local nas minas de diamantes é pequena, em
relação à população em geral.5

5 Esta secção baseia-se no Memorando Económico Nacional [Country Economic Memorandum] do Banco
Mundial para Angola (a ser publicado em breve).
INTRODUÇÃO 9

Figura 1-2
Taxa de câmbio do Kuanza – Dólar dos EUA
100

90

80

70

60

50

40

30

20

10

0
Jun-99

Jun-00

Jun-01

Jun-02

Jun-03

Dec-03

Jun-04

Dec-04

Jun-05
Aug-99
Oct-99
Dec-99
Feb-00
Apr-00

Aug-00
Oct-00
Dec-00
Feb-01
Apr-01

Aug-01
Oct-01
Dec-01
Feb-02
Apr-02

Aug-02
Oct-02
Dec-02
Feb-03
Apr-03

Aug-03
Oct-03

Feb-04
Apr-04

Aug-04
Oct-04

Feb-05
Apr-05

Aug-05
As populações urbanas em zonas costeiras dependem das importações para a maioria das
suas necessidades de subsistência, dado que as ligações entre os mercados costeiros e as zonas
produtivas do interior ainda são fracas. A produção de produtos manufacturados nas zonas
costeiras ainda não recuperou dos efeitos da guerra civil. Os produtores agrícolas no interior
estão largamente isolados dos mercados de importação e de exportação, apesar desta situação
ter melhorado, em certa medida, durante os últimos dois anos. Por conseguinte, as
populações urbanas estão inteiramente dependentes das importações de todas as
necessidades, nomeadamente, alimentos, produtos manufacturados e bens de consumo
duráveis. As populações rurais, pelo contrário, ainda dependem grandemente da sua própria
produção para necessidades de subsistência. Poucos habitantes rurais participam em
mercados nacionais, quer como produtores ou como consumidores.

Parceiros Comerciais e Integração Regional


Os resultados históricos relativos ao comércio tornam claro que a integração de Angola no
comércio regional é limitada. A vasta maioria do comércio é realizada com a União Europeia e
os Estados Unidos, com a África do Sul representando cerca de 10 por cento do comércio total
em anos recentes. Tendo em conta o potencial de Angola como exportador de alimentos e a
situação de outros países da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral)
como importadores de alimentos, existem oportunidades para a expansão do comércio
regional, apesar disto depender, obviamente, não só de défices de alimentos, mas também do
crescimento económico geral dos países desta região.
10 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

O petróleo e os diamantes dominam as exportações de Angola, representando 93 por cento e 6


por cento das exportações de mercadorias, respectivamente, em anos recentes (Quadro 1-3).

Quadro 1-3
Tendências no comércio de mercadorias

1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003

U SD ( 0 0 0 )

Total das exportações 3.753 4.993 4.768 3.825 4.829 7.927 6.881 8.030 9.486

Total das importações 1.734 1.930 2.316 2.047 2.055 2.023 3.238 2.886 4.161

Saldo comercial 2.019 3.063 2.452 1.778 2.774 5.904 3.643 5.144 5.325

P E R C E N T A G E M D O P I B

Total das exportações 74,5 66,3 62,1 59,3 79,3 89,5 72,6 71,4 71,9

Total das importações 34,4 25,6 30,2 31,8 33,7 22,8 34,2 25,7 31,5

Saldo comercial 40,1 40,7 31,9 27,5 45,6 66,7 38,4 45,7 40,4

C O M P O S I Ç Ã O D A S E X P O R T A Ç Õ E S ( P E R C E N T A G E M )

Petróleo bruto 90,4 91,1 89,2 85,9 85,1 88,9 88,9 90,5 94,0

Petróleo refinado 3,1 2,2 1,5 2,0 1,9 2,1 1,7 1,7 1,9

Diamantes 4,4 5,1 6,9 9,2 11,5 7,7 8,2 6,3 3,2

Outras 2,1 1,6 2,4 2,9 1,5 1,3 1,2 1,5 0,9

Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

FONTE: IMF Direction of Trade, Comtrade.

Artigos como pedras, areia e peixe constituem o restante 1 por cento. Dispondo de uma
capacidade limitada de refinação, o petróleo é exportado na sua quase totalidade sob a forma
de petróleo bruto.6 Entretanto, as cidades costeiras importam tudo, mesmo os produtos em
que o país tem uma vantagem comparativa. As importações de mercadorias representam
cerca de 30 por cento do PIB, e a conta comercial em geral gera um grande excedente,
atingindo uma média de 40 por cento do PIB. Isto é reduzido por pagamentos por serviços
relacionados com os investimentos no sector petrolífero e encargos de juros sobre a dívida
externa a curto prazo. O facto da conta corrente gerar um défice ou um excedente, depende
do preço do petróleo.

A identidade dos parceiros de exportações de Angola tem menos interesse que a identidade
dos seus parceiros de importações (Figuras 1-3 e 1-4). Os mercados do petróleo e do gás estão
verdadeiramente globalizados, o produto é fungível e o país de destino é menos importante
do que o facto da venda nos mercados internacionais. Quase metade das exportações de
Angola são expedidas para os Estados Unidos e um quarto para a China, que parece estar a
ganhar uma parte da quota do mercado que até 1999 pertencia aos Estados Unidos. A União

6 O petróleo é exportado predominantemente no âmbito de contratos a longo prazo com países específicos. Tal
ocorre, em geral, por meio de empréstimos garantidos pelo petróleo, os quais comprometem a produção de
petróleo para a quitação dos empréstimos.
INTRODUÇÃO 11

Europeia absorve cerca de 20 por cento das exportações das mercadorias. Entre as fontes das
importações, a União Europeia tem a maior quota (50 por cento), seguida pela África do Sul
(13 por cento) e pelos Estados Unidos (10 por cento). Os Estados Unidos, a África do Sul e
Portugal constituem as principais fontes de bens e de serviços (Figura 2-2). No entanto, se a
União Europeia for considerada como uma entidade única, ela constitui a principal fonte de
importações para Angola, com os Estados Unidos em segundo lugar e a África do Sul em
terceiro lugar. A África do Sul é importante para a integração regional, dado que é a
verdadeira âncora e o centro de gravidade das organizações de comércio regional, tais como a
SADC. Tendo em conta o potencial de Angola como exportador de alimentos e os possíveis
investimentos no sector agrícola, existem possibilidades para a expansão do comércio regional
que depende, naturalmente, não só das carências de alimentos na região, mas também do
crescimento económico mais em geral.

Figura 1-3
Principais parceiros de exportações, 1990-2003
5000000

4500000

4000000
Belgium Bélgica
3500000 China China
3000000 Spain Espanha
France França
2500000
Japan Japão
2000000 US EUA
1500000 SAfrica África do Sul
Taiwan Taiwan
1000000

500000

0
1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003
Figura 1-4
Principais parceiros de importações, 1990-2003
3000000.0

2500000.0
US EUA
2000000.0 SAfrica África do Sul
Portugal Portugal
1500000.0 Netherlands Países Baixos
Korea Coreia
1000000.0 France França
Brasil Brasil
500000.0

0.0
90 9 91 9 92 9 93 9 94 9 95 9 96 9 97 9 98 9 99 0 00 0 01 0 02 0 03
19 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2
12 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Prevê-se que as exportações de petróleo e de diamantes aumentem substancialmente. Esse


aumento poderá não afectar muito o crescimento geral, nem ter um grande impacto na
diminuição da pobreza, a não ser que as receitas daí resultantes sejam utilizadas mais
produtivamente e a política ambiental seja significativamente melhorada, a fim de apoiar a
diversificação da economia.

RECEITAS PROVENIENTES DO COMÉRCIO


A quota da receita comercial proveniente do comércio estrangeiro (importações e exportações)
em relação à receita total proveniente das taxas situava-se a 28 por cento, ou 2,2 por cento do
PIB em 2003; entre 2000 e 2003 a receita das taxas proveniente do comércio estrangeiro subiu
quase vinte vezes.7 As receitas alfandegárias estão a aumentar rapidamente. O Quadro 1-4
mostra que as receitas em 2005 provenientes dos direitos alfandegários será cerca de USD 100
milhões e as provenientes dos direitos das importações atingem quase USD 400 milhões. As
receitas provenientes de multas também estão a aumentar rapidamente. O aumento das
receitas é promovido não só por uma melhorada aplicação da lei, mas também por
mecanismos, tais como o facto dos funcionários alfandegários beneficiarem de um aumento
em geral proveniente das multas e dos direitos alfandegários.

7 IMF (2005), Angola: Selected Issues and Statistical Appendix Country Report No.05/125, April [FMI (2005), Angola:
Questões Seleccionadas e Relatório do País do Anexo Estatístico No. 05/125, Abril]
INTRODUÇÃO 13

Quadro 1-4
Receitas alfandegárias de 2003 a 2005 (em USD)

Fonte 2003 2004 2005 (meses 1-8)


Taxas de importação 224.699.803 696.497.206 236.926.029

Taxas de exportação 5.051.213 7.881.549 842.520

Serviços alfandegários 64.600.362 86.132.616 64.941.340

Multas (50%) 3.904.602 5.241.503 6.041.367

FONTE: Dados alfandegários.

A receita total recebida pela Gestão Aduaneira, incluindo as taxas ao consumidor, aumentou
de USD 215,45 milhões em 2000 para USD 828,173 milhões em 2004. Mais de 80 por cento das
receitas são recebidas pela alfândega em Luanda.
2. Comércio e Pobreza 8

Produção de Exportações e Pobreza


O recorde histórico dos países de baixo rendimento que têm obtido bons resultados ao
negociar a transição para economias médias ou de alto rendimento, demonstra
inequivocamente a importância do comércio internacional no seu crescimento e
desenvolvimento. A integração em mercados globais tanto em relação às exportações como às
importações, dá acesso a oportunidades que oferecem não só crescimento, mas também o
acesso a melhoramentos da produtividade que constituem a base das tecnologias modernas
para sectores, tais como da indústria e da agricultura. Favorecer a integração de Angola na
economia mundial constitui também a forma mais eficaz de aliviar a pobreza extrema que
aflige a maioria dos cidadãos angolanos, 60 por cento dos quais vivem em zonas rurais.
Estabelecer a ligação entre os seus rendimentos e a produção de bens e de serviços que podem
ser vendidos a nível nacional e internacional, apresenta possibilidades para o futuro
previsível. Consequentemente, a estratégia para a expansão comercial tem que basear-se
numa descrição clara da natureza da pobreza em Angola e o potencial dos pobres para
fazerem parte da economia. Ao apresentar essa descrição, damos muito mais ênfase aos
habitantes rurais do que noutras discussões recentes sobre o potencial de crescimento de
Angola. Isto é um acordo com a estratégia de redução da pobreza por parte do governo,
intitulado Estratégia de Combate à Pobreza, que identifica os habitantes rurais como quem mais
sofre e cujo potencial para crescimento económico deve ser explorado ao máximo para

8 Existe um debate entre os economistas sobre a natureza da relação entre crescimento, comércio e pobeza.
Uma opinião, que talvez seja melhor exemplificada através da obra de Dollar e Kray (D. Dollar and A. Kray
2002 “Growth is Good for the Poor” [“O crescimento é Bom para os Pobres”] Journal of Economic Growth 7,
195-225) , é que o alívio da pobreza em si, está relacionado de perto com o comércio. Esta é também a opinião
que predomina entre as instituições internacionais, tais como o FMI, o Banco Mundial e a OMC. No entanto,
também existe uma opinião contrária (Consultar, por exemplo, Francisco Rodriguez e Dani Rodrik, “Trade
Policy and Economic Growth: A Skeptic’s Guide to the Cross- National Evidence” [“A Política Comercial e o
Crescimento Económico: Um Guia para a Evidência Transnacional Elaborado por um Céptico”] NBER
Macroeconomics Annual, 2000) que apresenta uma opinião muito mais céptica sobre estas afinidades.
Segundo esta opinião, a capacidade do comércio e do crescimento para aliviar a pobreza depende da natureza
e da composição do próprio crescimento. Angola é um caso excelente para a ilustração deste ponto de vista –
A capacidade de crescimento do PIB e do comércio para afectar a pobreza é muito diferente numa situação
em que o crescimento é fomentado por exportações petrolíferas, por exemplo, em comparação com uma
situação em que é fomentado por um crescimento a nível geral. Este relatório é neutro em relação ao debate
teórico existente na literatura, mas pode ser interpretado como apoiando não só a importância do crescimento
e do comércio para o alivio da pobreza, mas também a necessidade de ter uma opinião com várias nuances
sobre que tipo de crescimento e de comércio podem alcançar este objectivo com mais eficácia.
alcançar os objectivos da estratégia. Os pobres urbanos também são importantes, porque
fornecem a mão-de-obra para os sectores industrial e de serviços de Angola.

As enormes movimentações populacionais associadas às guerras e aos seus resultados


imediatos faz com que seja difícil ter confiança nas sondagens existentes das condições de
vida. Os indicadores sociais (Quadro 2-1) ainda reflectem as condições predominantes
durante o período da guerra, mas mesmo assim apelam para os melhoramentos urgentes dos
meios de subsistência dos pobres e vulneráveis. De acordo com o IDR de 2001 e o MICS de
2002, mais de dois terços da população vive com menos de 2 dólares por dia e a maioria dos
angolanos não tem acesso a cuidados básicos de saúde. Cerca de uma entre cada quatro
crianças angolanas morre antes do seu quinto aniversário, 90 por cento sucumbindo a malária,
diarreia, ou a infecções das vias respiratórias. A taxa de mortalidade materna (1.800 por
100.000 nascimentos) é uma das mais elevadas na África Subsaariana e três em cada cinco
pessoas não têm acesso nem a água potável nem a sanidade pública.

Quadro 2-1
Pobreza básica e indicadores sociais, 2004

Indicador Angola
População (milhões) 14,7

População  20 anos 60%

População abaixo da linha de pobreza 68%

Esperança de vida ao nascer (anos) 42,4

Mortalidade em crianças com menos de cinco anos (por 1.000


nascimentos vivos) 250

Prevalência de HIV/SIDA 3,9%

População que sabe onde obter um teste para o HIV 23%

População que sabe declarar correctamente 3 maneiras


principais de evitar a infecção contra o HIV 17%

Taxa de analfabetismo nos adultos 33%

Taxa de mortalidade materna por cada 100 mil nascimentos


vivos 1,800

Taxa de frequência da escola primária (1 - 4 classe) 56%

Posição por indicadores de desenvolvimento humano (entre 177


países) 166

PIB/posição per capita (entre 177 países) 128

Coeficiente de Gini (rendimento, 1995) 0,54

Coeficiente de Gini (rendimento, 2001) 0,62

FONTES: IDR 2000/1; UNICEF 2003; UNAIDS 2004; PNUD 2005:1, 5.

Segundo a estatística oficial, a taxa de prevalência de HIV/SIDA é relativamente baixa,


afectando cerca de 3,9 por cento dos adultos (UNAIDS 2004). 9 No entanto, estas estimativas
baseiam-se num número limitado de centros de controlo e é possível que a verdadeira taxa de

9 . A estimativa baixa é de 1,9 por cento e a estimativa elevada é de 9,4 por cento.
COMÉRCIO E POBREZA 17

infecção seja substancialmente mais elevada. Além disso, o isolamento de muitos angolanos
durante a guerra recente, provavelmente ajudou a manter a taxa de infecção a um nível baixo,
mas é possível que isto mude, agora que a movimentação normal passou a ser possível.

A percentagem líquida de inscrições na escola primária é bastante baixa a 56 por cento,


sofrendo de entradas tardias na escola e níveis elevados de repetição e de taxas de desistência.
Cerca de 33 por cento da população é analfabeta, e nas áreas rurais o analfabetismo pode
atingir até 50 por cento.

Desigualdade, Pobreza Rural e Agricultura


Segundo os dados do inquérito de 2001, enquanto que 62 por cento de todos os angolanos
viviam na pobreza, cerca de 95 por cento dos residentes de zonas rurais viviam empobrecidos.
O inquérito encontrou provas substanciais de pobreza extrema; o rendimento da pessoa pobre
média era 33 por cento abaixo da linha de pobreza, o que é uma percentagem mais baixa do
que na maioria dos outros países da África Austral (American University, 2002). Mais uma
vez, esta lacuna é mais de duas vezes mais alta nas zonas rurais. De acordo com as Nações
Unidas, a intensidade da pobreza está a aumentar. 10 No Relatório de Desenvolvimento
Humano [Human Development Index] para 2004, Angola posicionou-se em 166 de 177, muito
abaixo da sua posição do PIB per capita. Esta disparidade é devida ao alto rendimento
proveniente do petróleo e dos diamantes e à alta concentração de despesas financiadas pelo
rendimento dos minerais, o que resulta numa distribuição de rendimento altamente
assimétrica.11 Além disso, o inquérito de despesas e receitas (IDR) de 2001 mostra que a
desigualdade dos rendimentos aumentou durante os anos da década de 1990, passando de
um coeficiente de Gini de 0,54 para 0,62, fazendo de Angola um dos países com uma das
maiores desigualdades do mundo em termos de distribuição de rendimentos. 12 13

A desigualdade medida pelo património ou bens possuídos também é grande. Usando uma
escala de bens calculada com base nos dados do MICS (o inquérito não colheu informações
sobre consumo e rendimento), o inquérito descobriu que os bens se concentravam
grandemente nas zonas urbanas: apenas 8 por cento da população urbana se encontrava no
quintil mais baixo, tal como calculado pelo activo e bens duráveis possuídos, mas 44 por cento
da população rural encontrava-se sob este quintil. 14 Da mesma forma, apenas 2 por cento da
população rural se encontrava no quintil superior. Os agregados com mais bens possuídos
têm muito mais probabilidades de se encontrar na região da capital, ou nas regiões do

10 UNICEF (2003), PNUD (2005: 5).


11 PNUD (2005: 6).
12 Um estudo recente por Adauta de Sousa et al (2003: 38) calcula que o coeficiente de Gini é mais elevado do
que o de 0,62 registado para Luanda.
13 Provas apresentadas no Relatório de Desenvolvimento Mundial de 2006 [World Development Report] (p. 86)
sugerem que a desigualdade inicial mais alta significa que o crescimento reduz a pobreza num valor menor
do que aconteceria na ausência de desigualdade de rendimento.
14 O acesso desigual a bens e serviços é um elemento importante para entravar a eficiência do mercado, dado
que as incapacidades no mercado relativas a crédito, seguros, bens de raiz e capital humano resultam em
subinvestimento pelos pobres, sobreinvestimento pelos ricos e uma economia menos eficaz (ver WDR, 2006,
Capítulo 5).
18 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Ocidente e do Sul, apesar desta última região possuir também uma das mais altas
concentrações de possuidores de um património baixo. Esta região é muito heterogénea; a
província de Cunene tem 41 por cento da sua população no grupo mais baixo, enquanto que
Namibe tem o mesmo número no quintil mais alto. Os bens mais provavelmente possuídos
são rádios (76 por cento em Luanda, 28 por cento nas zonas rurais) e bicicletas (9 a 10 por
cento fora de Luanda). Muito poucas pessoas têm automóveis fora de Luanda.

A pobreza extrema de bens nas zonas rurais indica que embora uma recapitalização maciça
tenha que preceder o crescimento na agricultura ou na economia rural, também é certo que se
pode esperar que esta recapitalização gere lucros muito altos numa situação em que o capital
é tão escasso. Tanto o capital social como o capital privado têm sido extremamente reduzidos,
mas os investimentos relativamente pequenos podem resultar, com frequência, em grandes
aumentos na produtividade e no rendimento. (Ver o Capítulo 9 para obter uma análise de
algumas possibilidades na agricultura, indústria, turismo e indústria da pesca.) Em termos de
comércio, isto é extremamente importante. A agricultura constitui não só a maior fonte de
rendimento comercializável para além da mineração, mas também a fonte de meios de
subsistência para a maioria dos angolanos pobres. A agricultura representa 8 por cento do
PIB, enquanto que a exploração agrícola, o gado, e a pesca artesanal, empregam mais de dois
terços da mão-de-obra (PNUD 2005: 17). 15 Na verdade, tal como referido, mesmo depois das
enormes migrações de refugiados do campo para as cidades, cerca de 60 por cento da
população de Angola ainda vive nas zonas rurais e mais de 70 por cento depende da
agricultura e das actividades rurais para obter rendimento e alimentos.

Para o futuro previsível, a maioria dos angolanos em zonas rurais continuará a basear-se na
agricultura como forma de subsistência. Aumentar a produtividade agrícola melhorará o
bem-estar e a prosperidade geral. No entanto, a exploração agrícola em pequena escala,
enfrenta obstáculos significativos, tais como a falta de meios de produção, incluindo a mão-
de-obra para os mais vulneráveis, assim como o difícil acesso aos mercados. Em quase todos
os casos, os lavradores cultivam apenas uma pequena parte das suas terras aráveis e a
produção é baixa. O acesso à terra talvez seja um dos mais importantes bens dos pobres que
vivem nas zonas rurais. O acesso à terra tem estado sob uma pressão cada vez maior desde a
guerra, à medida que as pessoas internamente deslocadas, os soldados desmobilizados e
outros retornados entram no mercado para a terra. A presença de minas terrestres e outro
material de artilharia por explodir, afectam ainda mais o acesso e comprometem a produção
de alimentos em geral e o excedente comercializado em particular.

Intensificar a produtividade agrícola e melhorar os meios de subsistência de milhões de


angolanos exigirá um programa concertado de investimento governamental que abranja todo
o país e de políticas que promovem o crescimento agrícola. O acesso aos cuidados de saúde
primários e ao ensino, ao crédito rural e aos programas de extensão agrícola, assim como a

15O litoral de Angola é muito favorável à pesca, com grande potencial para a pesca artesanal e também
industrial. Na altura da independência, Angola era o segundo maior exportador de peixe em África, e mesmo
em 1985 produziu 400 mil toneladas. A sobrepesca, sobretudo a pesca ilegal e não regulada por grandes
navios de pesca estrangeiros, tem resultado numa rápida depleção das reservas e posto em risco os meios de
subsistência de muitas aldeias junto à costa.
COMÉRCIO E POBREZA 19

sementes, a adubos, e aos serviços de utilidade pública (por exemplo, o acesso à água no sul
do país), é necessário que sejam melhorados. As estradas e as opções de transportes também
têm que ser melhoradas. O governo tem feito algum progresso na expansão da rede das
estradas. No entanto, a maioria dos investimentos, têm-se concentrado nas estradas principais
“o que liga o espaço em vez de abri-lo”, em vez de nas estradas secundárias ou terciárias que
são mais úteis aos agricultores de pequena escala que precisam de chegar aos mercados locais
(Auty 2005).

Para além dos melhoramentos das explorações agrícolas e das infra-estruturas referidos
acima, é essencial sublinhar a necessidade da reactivação e do desenvolvimento da rede
comercial que estabelece a ligação entre os vários agentes económicos. Após um
desaparecimento quase total depois da independência e durante o conflito subsequente, estas
redes comerciais estão a reestabelecer-se só agora. Este facto constituirá um elemento
essencial de qualquer reactivação da economia rural.

Pobreza Urbana
Uma estratégia de desenvolvimento rural bem concebida é importante, mas as necessidades
desesperadas das zonas urbanas não devem ser negligenciadas. Aproximadamente 40 por
cento dos angolanos vivem em zonas urbanas, dos quais cerca de 60 por cento, ou seja 20 a 25
por cento da população total, vivem em Luanda. Segundo dados estatísticos da Organização
das Nações Unidas, a população urbana tem probabilidade de aumentar para 44 por cento até
2015 e para 53 por cento até 2030. 16 Porquê esta rápida urbanização? A guerra e os meios de
subsistência indignos das zonas rurais empurraram as pessoas para as cidades menos
afectadas pela guerra, precisamente assim como a percepção de melhores oportunidades, paz
e mesmo o anonimato as impeliam para as cidades.

A maioria dos novos residentes tem-se estabelecido nos musseques periurbanos e ocupa uma
parte significativa do que costumavam ser sobretudo zonas industriais e agrícolas. As
condições de vida são extremamente pobres: as pessoas vivem em bairros pobres
superpopulosos sem condições sanitárias nem gestão de detritos sólidos. Os residentes,
especialmente os muitos pobres, consideram as desigualdades de acesso aos serviços
extremamente frustrante. O facto dos habitantes rurais optarem (ou serem forçados) por
migrar para viverem em tais condições é um indício para melhorar a vida nas zonas rurais.
Um dos benefícios do desenvolvimento das zonas rurais seria a diminuição dos factores
“push” que alimentam a migração das zonas rurais para as zonas urbanas.

16 Citado em Jenkins et al (2002: secção 2.2).


20 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Redução da Pobreza, Crescimento Económico, e Expansão


Comercial
A riqueza petrolífera de Angola concede-lhe os recursos necessários em dinheiro para reduzir
a pobreza e transformar em realidade o potencial do país para o comércio. Apesar do
fornecimento de serviços directos ser uma parte de qualquer estratégia bem sucedida de
alívio da pobreza, a meta da expansão comercial relaciona-se com o outro pilar de redução da
pobreza: o crescimento económico. O crescimento em sectores não minerais será
particularmente importante na diversificação do comércio e no melhoramento dos meios de
subsistência dos pobres.

O crescimento nos sectores não minerais pode ser conseguido aumentando as exportações,
substituindo as importações e fornecendo serviços a uma economia crescente e a agregados
familiares com um rendimento crescente. A maioria dos angolanos trabalha no sector agrícola
e, por esse motivo, é importante restabelecer a produção neste sector. Actualmente, o
desenvolvimento agrícola está sendo gravemente prejudicado pela falta de infra-estruturas e
de instituições de mercado e, por conseguinte, reconstruí-las deverá constituir um objectivo
imediato. Os investimentos públicos e privados nas infra-estruturas, também podem gerar
empregos nos sectores da construção e do comércio.

Reactivar a economia rural exigirá ultrapassar o colapso da circulação normal de mercadorias


e de serviços entre as cidades e as zonas rurais que produzem. A procura do excedente
agrícola domesticamente produzido é muito baixa, dado que (1) os habitantes das zonas
rurais subsistem através daquilo que produzem, (2) os custos para transportar o excedente
nacional para as cidades costeiras são elevados, e (3) o excedente nacional não pode competir
eficazmente com as importações. Os lavradores estão presos numa armadilha de baixo preço e
baixo volume, uma situação que é exacerbada pelos riscos naturais climáticos e ambientais,
enfrentados pelos produtores agrícolas que usam tecnologias pouco avançadas e dependem
das chuvas. Estes riscos são especialmente perigosos porque são covariados. Isto significa que
toda a comunidade sofre simultaneamente, destruindo insidiosamente a possibilidade de
apoio mútuo. As oportunidades para obter rendimento no sector privado não agrícola fora
das grandes cidades são extremamente limitadas, e é pouco provável que esta situação se
modifique num futuro próximo.

No sentido de apoiar a economia rural e, por conseguinte, aumentar a gama de produtos


disponível nas cidades, o governo poderia complementar um pacote agrícola com um
programa de obras públicas empregando trabalhadores com poucas aptidões. Um tal
programa forneceria melhoramentos para aumentar a produtividade dos bens públicos
capitais (por exemplo, as estradas), injectando, ao mesmo tempo, dinheiro na economia local e
estimulando a procura geral. Quando a economia rural tiver estabilizado numa zona, o
programa de obras públicas pode ser gradualmente eliminado e podem ser introduzidos
programas para apoiar micro explorações não agrícolas e pequenas empresas. Os projectos
pilotos de micro-crédito, que visam as mulheres que se dedicam à agricultura, já
COMÉRCIO E POBREZA 21

obtiveramalgum êxito. As questões relacionadas com a propriedade ruaral também serão


importantes, tal como está reflectido na Lei Agrária.

Em zonas urbanas, as políticas governamentais e os programas podem melhorar as


oportunidades de toda a mão-de-obra, mas especialmente os agregados familiares de baixo e
médio rendimento, através da redução dos custos para fazer negócios. Esses custos estão
ligados a capital, a infra-estruturas não existentes ou que não funcionam bem, possessão de
terras incerta, interacções governamentais (isto é, taxas, emolumentos, acesso a serviços
públicos, tais com os serviços alfandegários) e o acesso a bens produtivos (por exemplo,
terrenos e edifícios, informação). O programa do governo contra a pobreza precisa de resolver
estas restrições. O governo poderia ser ajudado a estabelecer prioridades em relação às
questões e problemas através do apoio de pequenas cooperativas ou associações comerciais
organizadas para este fim.

O recorde de países de baixo rendimento, que exportam minerais é desastroso, especialmente


em África. Não obstante, o exemplo da Indonésia mostra que podem obter-se bons resultados.
Os principais elementos do sucesso da Indonésia incluem a gestão do influxo de divisas
estrangeiras para garantir um sector nacional competitivo (evitando a “doença holandesa”),
apoiando as infra-estruturas rurais e o sector rural não agrícola, através das receitas
provenientes do petróleo para financiar projectos de infra-estrutura com um alto coeficiente
de mão-de-obra nas zonas rurais, apoiando um melhor ambiente comercial para as
microempresas urbanas, e fornecendo infra-estruturas e serviços sociais nas zonas pobres,
assim como nas zonas industriais e de rendimento superior. 17

17 Ver Timmer (2005) para obter um desenvolvimento destes pontos.


3. O Petróleo e as Incentivas
Macroeconómicas
Dependência do Petróleo e Taxa de Câmbio Real
Actualmente, Angola depende mais do petróleo do que qualquer outro país da África
Subsaariana e também do que a maioria dos outros países. A dependência do país sobre o
rendimento proveniente do petróleo é extrema, mesmo quando comparada à de países do
Golfo Persa (Quadro 3-1). Durante décadas, as receitas provenientes do petróleo perfizeram
metade ou mais do seu PIB, condicionando e distorcendo todas as outras variáveis
macroeconómicas. Se bem que a dependência do país varie com os preços do petróleo a nível
mundial e tenha diminuído algumas vezes, aumentará drasticamente nos próximos anos, à
medida que a nova produção entra em linha.

Quadro 3-1
Rendimento mineral como percentagem das receitas do governo e do PIB em países que exportam
minerais

Receitas de recursos não Exportações de recursos não


renováveis como percentagem das renováveis como percentagem do
País receitas do governo PIB
Chile 8,6 10,1

Kuwait 59,3 39,7

Noruega 14,4 12,1

Oman 77,3 35,9

Papua - Nova Guiné 11,4 27,9

Venezuela 58,2 19,1

Angola 84,0a 48,5b

Nota: A receita de Angola é a média de 1996-2003; As exportações de Angola como percentagem do PIB são a média de 2002 e
2003

FONTE: Resultados não angolanos obtidos de Davis, Ossowski & Fedelino Eds. Fiscal Policy Formulation and Implementation
in Oil Producing Countries, IMF 2003, p. 275.
Esta extrema dependência do rendimento proveniente dos minerais tem originado um padrão
de problemas económicos intitulados “a maldição dos recursos” ou o “paradoxo da fartura”,
um síndroma comum em países que recebem grandes influxos de divisas estrangeiras em
relação às suas economias. Apesar do petróleo não ser sempre a origem do problema, tem
sido a origem mais comum desde o primeiro choque do petróleo do início da década dos anos
de 1970. Em Angola, o problema agrava-se de certo modo pelos lucros provenientes dos
diamantes. Em relação ao potencial para expandir o comércio, um dos aspectos deste
sindroma tem uma importância essencial: a chamada “doença holandesa”. 18

Grandes influxos de divisas provenientes das exportações do petróleo fazem pressão para a
subida da taxa de câmbio de um país produtor de petróleo que pode, quando conjugada com
a inflação dos preços a nível nacional, resultar numa subida da taxa de câmbio real. A
tendência para a subida em Angola tem feito com que o valor real do kuanza tenha subido
mais de metade desde o fim de 2000 (Figura 3-1). Grandes influxos de receitas também
expandem a procura nacional em relação à capacidade do país para fornecer essa procura, à
medida que despesas nacionais aumentam com base no rendimento proveniente do petróleo.
A expansão da procura, por seu turno, aumenta o preço dos bens não transaccionáveis,
causando uma subida maior da taxa de câmbio real. A combinação destes dois efeitos resulta
frequentemente num impressionante declínio da concorrência de exportações não
relacionadas com o petróleo, uma mudança nos recursos nacionais desses sectores para os
sectores de bens não transaccionáveis, e uma erosão da diversidade e do equilíbrio da
economia nacional.

Figura 3-1
Taxa de câmbio real entre o Kuanza e o USD (Dólar Americano)
160

140

120

100

80

60

40

20

0
Jun-99
Aug-99
Oct-99
Dec-99
Feb-00
Apr-00
Jun-00
Aug-00
Oct-00
Dec-00
Feb-01

Jun-01

Dec-01
Feb-02

Jun-02

Dec-02

Jun-03

Oct-03
Dec-03

Jun-04

Oct-04
Dec-04
Feb-05
Apr-05
Jun-05
Apr-01

Aug-01
Oct-01

Apr-02

Aug-02
Oct-02

Feb-03
Apr-03

Aug-03

Feb-04
Apr-04

Aug-04

Aug-05

Jan. 2001 = 100

18 Esta “doença” foi denominada com base nos problemas vividos pela Holanda a seguir à descoberta e
exploração inicial de vastas reservas nacionais de gás natural.
O PETRÓLEO E AS INCENTIVAS MACROECONÓMICAS 25

A tendência das exportações não minerais para a estagnação em países produtores de


petróleo poderia ter um efeito negativo sobre as expectativas para integração comercial nos
sectores não petrolíferos do país (ver o Anexo 3-1, para uma discussão de tentativas pela
Nigéria e pela Indonésia para manter exportações não petrolíferas). No entanto, existem
razões para um certo optimismo em Angola. Primeiro, as receitas provenientes das
exportações do petróleo e dos diamantes podem causar distorções, mas também apresentam
oportunidades. Podem ser investidas para melhorar a concorrência de outros sectores
económicos. Este facto relaciona-se directamente com a necessidade de reabilitar a economia
e, por conseguinte, aliviar a pobreza. Segundo, a destruição que acompanhou a longa guerra
tem deturpado o potencial da economia angolana para produzir com eficácia e
competitivamente para os mercados mundiais. O que os pequenos agricultores podiam fazer
com pouca assistência e uma tecnologia pouco avançada na década dos anos de 1970 pode ser
feito, actualmente, com o apoio de investimentos nas infra-estruturas e nos avanços
tecnológicos, destinados a aumentar a produtividade.

Reabilitação da Produção Angolana de Bens Transaccionáveis


Mesmo se fosse possível evitar simplesmente a subida excessiva da taxa de câmbio real, isso
não reabilitaria a produção de bens transaccionáveis em Angola. Nos sectores em que as
importações enfraquecem a produção nacional em termos dos preços de entrega, será difícil
ou impossível reabilitar a actividade nacional. A produção mudará sempre para actividades
que prometem os lucros mais altos (à parte da produção de alimentos para subsistência).
Durante os últimos dois anos em Angola, esta mudança tem sido cada vez mais notória para
os bens não transaccionáveis.

Dado que Angola é um dos principais exportadores de petróleo e continuará a sê-lo num
futuro imediato, a moeda nacional continuará a ser forte e a taxa de câmbio real terá tendência
a aumentar. Os efeitos das exportações do petróleo sobre a moeda angolana são inevitáveis se
o rendimento proveniente do petróleo for gasto dentro do país. No entanto, é possível, que a
política governamental afecte os cálculos dos lucros de formas que encorajem a eficácia, o
crescimento e o alívio da pobreza. Se os cálculos dos lucros não poderem ser influenciados
pelo lado da produção, devido aos efeitos das grandes exportações minerais, então será
necessário influenciá-los pelo lado dos factores de produção, a fim de se alcançarem os
objectivos da ECP. Na verdade, isto já começou com o grande programa de reabilitação e
reconstrução das estradas, empreendido desde o fim dos conflitos em 2002. As estradas não só
abrem mercados potenciais para os produtores, mas também baixam os custos dos meios de
produção utilizados pelos produtores. A produtividade em geral pode ser aumentada ao
melhorar os bens e os serviços públicos que caíram em extrema ruína ou que deixaram de
estar disponíveis durante a guerra.
26 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Anexo 3-1
Manter as exportações não petrolíferas nos países ricos em petróleo: lições da Nigéria e da
Indonésia

À medida que Angola desenvolve uma estratégia Os esforços da Indonésia para manter as receitas das
para gerir as suas receitas provenientes do petróleo exportações, também deram ênfase à concentração na
para promover o crescimento e aliviar a pobreza, é agricultura, mas visaram as infra-estruturas rurais, a
instrutivo examinar as experiências de dois outros tecnologia e as variedades de culturas que produzem
exportadores de petróleo que enfrentaram problemas mais. As políticas importantes incluíram o seguinte:
semelhantes.
 Concentração sustida e a longo prazo no o
Os esforços da Nigéria para manter as suas desenvolvimento do sector agrícola.
exportações não petrolíferas, face a uma apreciação
 Grande investimento público na agricultura, mais
da moeda induzida pelo petróleo, não foram bem
de 20 por cento do investimento público nos
sucedidos. A Nigéria concentrou os seus
primeiros anos da prosperidade do petróleo na
investimentos em grandes projectos agrícolas, que
Indonésia. Estes fundos foram investidos na
tiveram resultados que não corresponderam às
investigação e na extensão, bem como nas infra-
expectativas. O governo dedicou uma grande dos
estruturas.
seus gastos à agricultura, em subsídios para
fertilizantes em vez de investimentos nas infra-  O governo fomentou a utilização de fertilizantes

estruturas ou em serviços agrários, nomeadamente, a produzidos internamente com matérias-primas

investigação, a extensão e a educação. A apreciação petroquímicas.

extrema da taxa de câmbio real contribuiu para um Estas políticas produziram aumentos significativos e
colapso da produção agrícola, quando os cereais continuados nas exportações não petrolíferas e
importados se tornaram mais baratos do que a reduções na pobreza rural. Na Indonésia, tal como em
produção local, mesmo nas próprias zonas das Angola, a maioria dos pobres vivem nas zonas rurais.
explorações agrícolas. Ao mesmo tempo, a produção A Indonésia concentrou-se no arroz, a sua cultura de
dos pequenos agricultores enfraqueceu, como base; Angola poderia seguir a mesma estratégia em
resultado do abandono de longa data, dos relação às suas culturas de base. As produções de
melhoramentos tecnológicos necessários. milho, assim como as várias culturas hortícolas
Consequentemente, a Nigéria, que tinha sido um dos poderiam aumentar substancialmente através da
principais exportadores de produtos agrícolas utilização das tecnologias existentes.
africanos, passou a ser um dos seus principais
importadores de produtos agrícolas.

Além disso, os melhoramentos da produtividade em empresas individuais também podem


ter uma grande influência para aumentar as margens de lucro dos produtores de bens
transaccionáveis. Os detalhes diferem por sector, mas é possível um grande progresso. Por
exemplo, a agricultura é o sector mais importante em termos de quota da mão-de-obra e de
potencial para o crescimento das exportações, apesar de que o progresso tecnológico nas
explorações agrícolas não tem sido possível há 30 anos. As culturas agrícolas em Angola estão
bem abaixo das dos países limítrofes, apesar das condições agro-climáticas em Angola serem
melhores.
O PETRÓLEO E AS INCENTIVAS MACROECONÓMICAS 27

Impor tarifas é outra resposta possível à falta de concorrência na produção nacional face a
importações baratas. O governo está ciente desta opção, apesar da mesma não ser favorecida
pelos economistas, devido à longa história de insucesso noutros países com a “substituição
das importações”. Na verdade, os antecedentes lamentáveis da substituição das importações
tem gerado muitos documentos na profissão de economista e fornece uma razão extensa para
o cepticismo prevalente de que uma tal táctica poderia promover o crescimento. Se, em alguns
casos selectivos, é necessário aumentar temporariamente as tarifas para apoiar a reactivação
da produção e aumentar o emprego, esta decisão tem que ser tomada com cuidado com base
em estudos de custo detalhados e o aumento não deveria exceder a taxa máxima visada de 25
por cento. No entanto, dado que a opção da tarifa está disponível, devemos mencionar as
seguintes considerações:

 Muitos sectores nos quais Angola possui uma potencial vantagem comparativa encontram-
se agora a níveis de produção praticamente a zero e, por conseguinte, qualquer reabilitação é
provável que resulte em alguma substituição de importações, mesmo na ausência de uma
estratégia de “industrialização de substituição de importações”, tal como
convencionalmente entendido.

 A destruição de uma grande parte das infra-estruturas de Angola, assim como de ligações
de marketing e instituições económicas durante décadas de guerra significa que é legítimo
considerar muitos sectores produtivos como possuindo as características de uma “indústria
recém-nascida”. Contudo, o nível de protecção já oferecido pela estrutura actual das tarifas,
taxas de consumo e outras taxas é bastante substancial. Qualquer necessidade percebida
para aumentar ainda mais os incentivos poderia então ser resolvida através da diminuição
das tarifas sobre os meios de produção em vez de aumentar as taxas sobre a produção.

 São enormes os custos sociais e políticos de permitir que não se reactivem sectores que
empregam mais de dois terços da população. Estes custos podem ser contrabalançados
contra o custo de ineficácias proteccionistas antes de se poder chegar a uma conclusão sobre
a forma correcta de proceder. Ainda mais altos são os custos para os consumidores, que
pagariam preços mais altos pela produção nacional protegida do que actualmente pagam
pelas importações, que se têm tornado relativamente mais baratas, à medida que o valor
real do kuanza tem subido durante os últimos anos. Dado que aqueles que poderiam
perder em consequência dos lucros obtidos pelos lavradores, estarem concentrados nas
zonas urbanas, é óbvio que existem considerações sociais e políticas de ambos os lados da
questão. Mas apenas um bom sector comercializado, o milho, possui um alto nível de
importações, um grande número de pequenos agricultores produtores, e uma baixa tarifa (3
por cento) sobre as importações. Apenas no caso desta mercadoria se pode apresentar um
exemplo razoável para aumentar a protecção de certo modo, se os estudos de custo
indicarem que isto é necessário, depois de terem sido implementadas todas as medidas para
reduzir os custos de produção.

 O governo tem declarado a sua intenção de entrar na zona comercial franca regional da
SADC. Isto significa que, eventualmente, ser-lhe-á exigido que elimine as suas tarifas sobre
28 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

as importações de outras nações pertencentes à SADC. Isto garante que quaisquer níveis de
protecção de determinados sectores serão temporários, pelo menos em relação a outros
membros da SADC.

Estas questões são mais amplamente discutidas no Capítulo 6.


4. Infra-estruturas e Serviços
Públicos
Os danos às infra-estruturas decorrentes da longa guerra civil são extremos, sejam quais
forem os padrões, e levarão muitos anos, até mesmo décadas, a reconstruir. Os seus efeitos no
comércio internacional são profundos, não só impedindo possíveis áreas de produção de
exportações de expedir para portos, mas também isolando os principais centros populacionais
do litoral da maior parte da economia doméstica, levando as zonas costeiras a basear-se em
importações para virtualmente todas as necessidades. O Quadro 4-2 mostra até que ponto é
que Angola se encontra atrás dos seus países vizinhos em infra-estruturas básicas. 19

Depois do fim das hostilidades em 2002 e da progressiva normalização das operações


governamentais, o governo e os doadores tem juntado forças nas principais iniciativas de
reabilitação para reconstruir as infra-estruturas de Angola. O Banco Mundial, a UE, e a China
são principais contribuidores para o esforço de reconstrução, particularmente das estradas e
dos corredores ferroviários. Este trabalho levará muito tempo e não poderá resolver todas as
questões microeconómicas a curto prazo.

Os serviços públicos também sofreram com o longo conflito, não só porque os serviços foram
alvejados durante as hostilidades, mas também devido à deterioração decorrente da falta de
manutenção e conservação durante anos, assim como o pessoal formado que fugiu da guerra
e dos baixos salários do trabalho para o governo. Os serviços dependentes das infra-
estruturas, tais como a água, a electricidade e a sanidade pública foram prejudicados, e outros
serviços, tais com a manutenção da ordem e da legislação básica, ou serviços mais
especializados, como a extensão agrícola também foram afectados e ainda têm que ser
alargados para muitas zonas.

A reabilitação das infra-estruturas e dos serviços é necessária por razões para além da
integração comercial, mas constituem apesar disso uma condição necessária para a
reactivação de exportações não minerais. Ao mesmo tempo, a reabilitação das ligações de
transportes do litoral para o interior, exporá os produtores nas províncias do interior à

19 Esta secção baseia-se em “Soluções Privadas para a Infra-estrutura em Angola”, Banco Mundial 2005, assim
como nas contribuições da OMC e um documento contextual redigido para este estudo por Rene Meeuws
competição das importações. As seguintes secções apresentam detalhadamente algumas
considerações importantes sobre as infra-estruturas e os serviços públicos.

Quadro 4-1
Indicadores da infra-estrutura da SADC, pelo Índice de Desenvolvimento Humano (Alto, Médio,
Baixo)

Acesso a sanidade Electrici- Telefones por uma


Acesso a água potável pública dade população de 1.000
(% população) (% população) (kWh per (2000)
Posição capita
no HDIa País Rural Urbana Total Rural Urbana Total por ano) Fixo Telemóvel Total

A L T O

47 Seychelles 235 320 555

M É D I O

67 Maurícias 235 151 386

África do
107 Sul 70 99 87 80 92 87 3.587 114 190 304

122 Namíbia 71 100 83 20 93 62 1.022 63 47 110

125 Suazilândia 576 32 33 65

126 Botswana 88 100 90 41 91 55 755 93 123 216

128 Zimbabué 69 99 79 32 96 52 715 18 23 41

132 Lesoto 57 91 62 35 56 38 188 10 10 20

B A I X O

151 Tanzânia 58 92 66 83 98 86 45 5 5 10

153 Zâmbia 10 81 38 57 94 71 609 8 9 17

155 R. D. Congo 26 89 42 6 53 18

161 Angola 22 46 31 27 62 40 69 5 2 7

163 Malawi 40 95 47 1 18 3 71 4 5 9

Moçambiqu
170 e 63 54 40 4 2 6

AIndicadores de Desenvolvimento Humano

FONTE: SADC, Compilado pelo Banco Mundial (2005), Relatório da Estrutura do País – Soluções Privadas para a Infra-
estrutura em Angola [Country Framework Report – Private Soluçãos for Infrastructure in Angola].

Transportes
A infra-estrutura dos transportes sofreu imensamente com a guerra. As estradas e as pontes
foram destruídas, deixando muitas comunidades isoladas durante muitos anos. A infra-
estrutura das vias-férreas e o equipamento e material rolante foram destruídos. As pistas de
aterragem e descolagem dos aeroportos e outras infra-estruturas de aeroportos também forma
destruídas. Não só a maior parte da infra-estrutura tinha sido destruída, mas a reabilitação e a
INFRA-ESTRUTURAS E SERVIÇOS PÚBLICOS 31

manutenção não tinham sido realizadas. Só a falta de manutenção teria resultado num estado
de deterioração extrema, mesmo sem ter em conta a destruição relacionada com a guerra.

Por conseguinte, a maior parte das infra-estrutura dos transportes tem que ser reconstruída de
novo a partir do nada. Um problema é que muitas minas terrestres ainda estão por descobrir e
muito provavelmente foram colocadas sobre ou perto da infra-estrutura de transportes nas
zonas rurais. Por conseguinte, o governo de Angola, com o apoio da comunidade
internacional de dadores, está a envidar grandes esforços para retirar as minas terrestres das
zonas prioritárias.

Quase que não existe transporte por estradas de longa distância, não só devido à má condição
da infra-estrutura rodoviária, mas também porque ainda há poucas mercadorias e bens a
transaccionar. A produção para o mercado acabou de começar, e muitos mercados e praças
ainda têm as prateleiras vazias. As vias-férreas ainda não transportam uma carga
significativa, servindo apenas passageiros num escala muito pequena. A maior parte do
transporte a longa distância é realizado por avião, o que se torna dispendioso. E os portos têm
necessidade de novos investimentos.

ESTRADAS
A maior parte da rede de estradas em Angola foi construída antes da independência em 1975.
A rede de estradas classificada consta de 72.323 km de estradas: 7.777 km de estradas
pavimentadas, 28.018 km de estradas de brita e cascalho miúdo e 36.528 km de estradas de
terra batida (ver o Quadro 4-2). A maior parte da rede de estradas recebeu muito pouca ou
nenhuma manutenção, dado que muitas estradas se encontram em antigas zonas de guerra e
tem tido muito pouco ou nenhum tráfego. É difícil calcular a situação real da rede de estradas
em Angola porque os recursos escassos do Instituto Nacional de Estradas de Angola (INEA)
não permitem a avaliação da situação em todo o país e porque ainda existem cerca de 13
milhões de minas terrestres soterradas em todo o país. Além disso, mais de 300 pontes de
vários comprimentos e capacidades foram destruídas e precisam de uma reconstrução
urgente.

Quadro 4-2
Condição das redes de estradas pavimentadas

Condição Quilómetros Por cento


Regular 943 11,9

Má 2.285 28,7

Muito má 4.725 59,4

Total 7.953 100,0

FONTE: INEA, 2005.

Em 2002 o governo aprovou um programa de reparação de emergência e de reconstrução das


estradas. Durante a primeira fase, de 2002 até Setembro de 2004, as reparações de base
32 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

destinavam-se a criar condições mínimas para o tráfego o que implicaria um custo de USD 55
milhões (USD 45 milhões para as estradas e USD 10 milhões para as pontes). A segunda fase,
que se encontra em curso actualmente, planeia melhorar as conexões regionais com as
estradas principais e está orçamentada em USD 171 milhões.

O INEA foi criado pelo Decreto Nacional 28/90, o qual estipula que o Instituto é responsável
pelo planeamento e pela gestão da principal rede de estradas, 88 por cento da qual se encontra
em más ou muito más condições, e para a administração do Fundo das Estradas, sob a tutela
do Ministério de Obras Públicas. O INEA tinha um pessoal de 1.339 em 2003, dos quais 873
eram pessoal permanente e 466 com base em contratos.

A construção de estrada novas parou em 1974, e entre 1974 e 1999 praticamente não foram
construídas nenhumas estradas. A manutenção das estradas recomeçou em 1991, mas de 1996
a 2003 as actividades de manutenção declinaram. A reabilitação provisional começou em
2000.

Foi estabelecido um fundo para as estradas pelo Decreto Nacional 27/94, destinado a parar a
deterioração das estradas que formam a rede principal, mas este ainda não está operacional. É
importante estabelecer o fundo das estradas como um mecanismo para financiar a reabilitação
e a manutenção das estradas. Um passo importante foi a recente introdução de um imposto
para veículos novos, nomeadamente motocicletas, automóveis privados, e veículos comerciais
(USD 30-60 por ano para os carros privados e USD 75 a 105 para os veículos comerciais). Este
imposto faz parte de uma iniciativa maior que se destina a reformar o sistema fiscal em
Angola. A promoção do imposto para as estradas destaca que parte das receitas serão
utilizadas para as estradas, telecomunicações e segurança nas estradas, mas é necessário
muito mais. O INEA propõe o aumento dos impostos sobre o combustível, e todos os fundos
daí provenientes iriam directamente para o fundo das estradas. Também é importante notar
que o fundo das estradas deveria ser completamente atribuído no orçamento unificado.

O Programa Geral do Governo de 2005-2006 acentua as necessidades da infra-estrutura de


transportes, identificando 4.194 km de estradas para reabilitação, a construção de 2.000 m de
pontes e a reabilitação de 17 pontes. Os projectos de reabilitação dos troços das estradas
internacionais com ligação à República Democrática do Congo e à Zâmbia foram submetidos
ao Secretariado do COMESA (Mercado Comum para a África Oriental e Austral) em 2003-
2004 para estudos de viabilidade. A China também apoia a reabilitação da rede de estradas.
Além disso, o Banco Mundial deu início a um Projecto de Recuperação de Emergência
Multisector [Emergency Multisector Recovery Project] em seis províncias, o qual inclui um
componente dedicado a estradas.

É importante elaborar um programa de investimento integrado a longo prazo para o


desenvolvimento do sector das estradas em Angola. Se o governo transferir uma parte
substancial das receitas provenientes da exportação dos produtos petrolíferos e dos diamantes
para o desenvolvimento da infra-estrutura dos transportes, através da criação, por exemplo,
de um Fundo para a Infra-estrutura, o co-financiamento pelos dadores (União Europeia,
African Development Bank [Banco Africano do Desenvolvimento], Banco Mundial,
INFRA-ESTRUTURAS E SERVIÇOS PÚBLICOS 33

(cooperação bilateral) seria facilitado. O desenvolvimento económico da agricultura, gado, e


indústria e produção de mercadorias para os mercados nacionais e internacionais exigem
infra-estruturas e transportes.

O INEA está a dar os primeiros passos na prioritização de intervenções relativas à rede de


estradas de Angola.

Apesar do tráfego ter aumentado a partir dum nível de quase zero durante os anos da guerra,
o transporte por estrada de distâncias longas ainda é um empreendimento árduo, dispendioso
e moroso. Um camião de 18 rodas que transporta mercadorias percorrendo uma distância de
1.250 km de Luanda a Dundo no nordeste do país, não pode fazer a viagem de ida e volta em
sete dias, e não transportará carga de retorno de Dundo a Luanda. O camião tem que levar
1.250 litros de combustível de Luanda porque o fornecimento de combustível ao longo das
estradas não é de confiança. Não é de admirar que o custo deste tipo de transporte seja
elevado: USD 3.500 (que já baixou de USD 5.500 em 2002/2003 devido a uma competição
intensa). Uma viagem de 423 km de Luanda a Malange custa USD 2.500.

CAMINHOS DE FERRO
Angola possui três companhias ferroviárias: a Companhia do Caminho de Ferro de Luanda, a
Companhia do Caminho de Ferro de Benguela e a Companhia do Caminho de Ferro de
Moçamedes. As companhias encontram-se sob a tutela do Instituto Nacional de Caminhos de
Ferro de Angola, recentemente criado.

A Companhia do Caminho de Ferro de Luanda que é propriedade do estado, opera o


caminho de ferro de Luanda, que vai de Luanda a Malange. Em 1978 a Companhia do
Caminho de Ferro de Luanda transportou mais de 4 milhões de passageiros. Actualmente, o
caminho de ferro quase não opera: em 2001, transportou apenas 754.000 passageiros e 51.265
toneladas métricas de carga. Tem um pessoal de 800 trabalhadores. Algumas partes, entre
Luanda (Musseque) e zonas suburbanas, até Viana (35 km) e entre Luanda e Dondo (180 km),
transportam passageiros. A ligação do caminho de ferro com o porto ainda não está
operacional, mas está a ser reabilitada. (2005/2006).

A Companhia do Caminho de Ferro de Benguela era propriedade da Bélgica até 2001. Agora é
propriedade do estado. O comprimento total é de 1.340 km, passando do porto de Lobito por
Benguela, Huambo, e Kuito (Bié) até Luau na fronteira com a República Democrática do
Congo. Nas décadas dos anos de 1950 e 1960 este caminho de ferro teve uma função
importante nos transporte de exportações e importações para países do interior e para a
região centro de Angola. Os danos causados à infra-estrutura do caminho de ferro fecharam o
tráfego comercial de transporte de carga a nível nacional e de minérios a nível internacional
para a região central interior do Huambo e do Bié. Actualmente, funciona apenas no troço de
ligação de Benguela–Lobito (30 km) e de Sta. Iria, Huambo e Caala (96 km), transportando
sobretudo passageiros. Em Novembro de 2005, o presidente de Angola anunciou que dentro
de um ou dois anos a linha de caminho de ferro entre Lobito, Benguela, e Bié passaria a estar
operacional. Apesar de não existirem planos para reabilitar o troço de ligação com a Zâmbia
34 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

devido aos elevados custos e à escassa população da zona do leste de Angola, a reabilitação é
uma possibilidade para o futuro.

A Companhia do Caminho de Ferro de Moçamedes também é propriedade do estado. Só tem


987 km de via férrea entre Namibe e Menongue na província de Cuando-Cubango. Dois
ramais saem deste caminho de ferro para Chiange (120 km) e Kassinga (110 km), mas nenhum
deles está a funcionar. A linha de Kassinga utilizada para transportar ferro das minas, as
quais durante o período de 1964 a 1975 produziram 5 milhões de toneladas métricas de
minério de ferro por ano, mas cessou as operações em 1975. O tráfego voltou ao normal entre
Namibe e Matala via Lubango (320 km). A Companhia do Caminho de Ferro de Moçamedes
emprega cerca de 1.400 trabalhadores.

É difícil calcular o material ferroviário rolante das três companhias. Os últimos dados são
apresentado no Quadro 4-3, mas provavelmente são optimistas.

O tráfego nos três caminhos de ferro é leve. As companhias de caminho de ferro não cobre, ou
mal cobrem os seus custos operacionais sem ter em conta a depreciação da infra-estrutura da
via férrea, o material ferroviário rolante e os edifícios e escritórios.

Quadro 4-3
Material ferroviário rolante por Companhia

Companhia

Item Situação Luanda Benguela Moçamedes Total


Existente 19 126 25 170
Comboios
Disponível 4 9 13 26

Existente 85 39 25 149
Carruagens
Disponível 4 13 13 30

Existente 580 2128 883 3591


Vagões
Disponível 261 750 586 1597

FONTE: Ministério dos Transportes.

Os três caminhos de ferro enfrentam problemas semelhantes. Grandes troços da via férrea não
podem ser utilizados devido a pontes destruídas ou danificadas e a carris minados. O
material ferroviário rolante e a força motriz excederam a sua vida económica ou foram
canibalizados. Vastas somas de dinheiro serão necessárias para reabilitar e manter as
locomotivas, actualizar o material ferroviário rolante e verificar o equipamento eléctrico e os
sistemas de sinalização. As peças sobresselentes e os materiais especiais estão em falta. A
infra-estrutura dos carris está enfraquecida e muitas estações e centros de abastecimento têm
sido abandonados. O custo total para remover estas limitações tem sido calculado em mais de
USD 4 mil milhões.

Em 2003 a Comissão Permanente do Conselho de Ministros aprovou o Programa de


Reabilitação dos Caminhos de Ferro de Angola que visa a recuperação dos carris do Caminho
INFRA-ESTRUTURAS E SERVIÇOS PÚBLICOS 35

de Ferro de Luanda entre Zenza e Lucala (150 km), os carris do Caminho de Ferro de
Moçamedes de Namibe – Lubango – Matala (424 km) e os carris do Caminho de Ferro de
Benguela do Lobito a Luau (1.273 km). A reabilitação destes 1.847 km inclui a remoção de
minas terrestres, a reconstrução e a reparação de pontes (Luinha, Lucala, Bero, Giraul, Cubal,
Catumbela e muitas outras) e a aquisição de material ferroviário rolante e outros
equipamentos. Este programa é apoiado pelo Programa Geral do Governo de 2005 a 2006, que
também menciona a necessidade de adquirir novo material ferroviário rolante.

O governo chinês exprimiu o seu interesse em apoiar o governo de Angola na execução deste
programa. A França e a Alemanha também mostraram interesse na reabilitação dos caminhos
de ferro de Angola. Espera-se que os três caminhos de ferro sejam concedidos a uma entidade
operadora independente como uma concessão nos próximos anos, à semelhança dos
exemplos de Moçambique e da Tanzânia.

PORTOS
Serviços Portuários
Angola tem quatro portos principais: Luanda, Lobito, Malongo e Namibe. Soyo também é
importante para a indústria petrolífera e o porto de Cabinda serve a província situada mais ao
norte. Planos para construir terminais para contentores amovíveis “roll-on/roll-off”em
Luanda e no Lobito foram desenvolvidos, mas ainda não foram executados. Existem dois
terminais no porto de Luanda; Unicargas (contentores e carga em geral) e Multiterminals,
para carga em geral. 20

Angola introduziu o código International Ship and Port Facility Security (ISPS) da
Organização Marítima Internacional [International Maritime Organization] a 1 de Julho de
2004.21 A Direcção Nacional da Marinha Mercante está encarregada de reforçar a segurança
dos portos angolanos.

A 1 de Setembro de 2004, Angola introduziu tarifas fixas e inspecções obrigatórias para os


navios que fizerem escala em todos os seus portos. Esta medida seguiu-se à criação de uma
nova direcção cujas responsabilidades se concentram em satisfazer as normas de segurança e
protecção da marinha mercante internacional. As taxas dependem do tipo de navio e os
navios de carga de gás natural liquefeito (GNL) têm que pagar as taxas mais elevadas de USD
760.

20 OT Africa Line informações online. Disponível em: http://www.otal.com/angola/index.htm#luanda.


21 O Código ISPS permite a detecção e a dissuasão de ameaças de segurança num contexto internacional,
estabelece funções e responsabilidades, permite a recolha e a troca de informações de segurança, fornece um
método para avaliar a segurança e assegura que medidas de segurança adequadas estejam em vigor. Exige
que o pessoal dos navios e dos portos recolha e tenha acesso a informações, mantenha protocolos de
comunicação, restrinja o acesso, impeça a introdução de armas não autorizadas, forneça os meios de levantar
e comunicar alertas, ter em vigor planos de segurança dos portos e dos navios e assegurar que a formação, o
treino e os devidos exercícios sejam levados a cabo (Informação online do Lloyd's Register “What is the ISPS
Code?” Disponível em http://www.lr.org/market_sector/marine/maritime-security/what_is_
ISPS_code.htm).
36 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Transportes por via marítima


Os direitos de tráfego marítimo para e de Angola são regulados pelo Decreto do Conselho de
Ministros No. 19/94 de 20 de Maio de 1994, e pelo Decreto Executivo Conjunto No. 68/95 do
Ministério da Economia e Finanças e do Ministério dos Transportes e Comunicações. A carga
para ou de Angola deve ser partilhada entre armadores nacionais e internacionais numa base
de 40-40-20, como estipulado na UNCTAD Convention on Liner Conferences (Convenção de
Genebra de 1974 referente ao Código de Conduta das Conferências Marítimas). Armadores,
importadores e exportadores com interesses em transportes marítimos para ou de Angola
devem registar-se no National Council of Carriers [Conselho Nacional de Transportadores
Marítimos] até 31 de Janeiro de cada ano. Têm que comunicar que estão a transportar carga
para ou de Angola para o National Council of Carriers ou para os seus representantes no
estrangeiro, pelo menos com 10 dias de antecedência para fins de partilhar a carga.

O National Council of Carriers pode distribuir a carga entre vários armadores, tendo em conta
as previsões de quantidade e qualidade da carga; informações de carácter técnico e comercial
e documentação referente aos armadores, importadores e exportadores; e os programas
mensais de rotação de navios apresentados pelos armadores.

Se os armadores nacionais não tiverem condições para transportar a carga, o National Council
of Carriers pode autorizar que a carga seja concedida a armadores estrangeiros que fazem
parte de conferências marítimas baseadas em acordos de boa fé ou a armadores terceiros que
ofereçam condições vantajosas.

O National Council of Carriers ou os seus representantes no estrangeiro emitem certificados


de embarque para mercadorias reservados para os armadores nacionais e ordens de isenção
concedendo direitos de transporte aos armadores estrangeiros. Os serviços alfandegários não
podem descarregar qualquer mercadoria sem um certificado de embarque ou uma ordem de
isenção.

Todos os armadores que transportem mercadorias para ou de Angola têm que, em princípio,
pagar uma comissão ao National Council of Carriers. Esta comissão está fixa a USD 0,05 por
tonelada de carga líquida, USD 5,00 por tonelada de carga a seco a granel ou em sacos, USD
100 por cada contentor de 20 pés, e USD 200 por cada contentor de 40 pés. As mercadorias em
trânsito são excluídas desta obrigação.22 Segundo as autoridades, estes encargos não são
actualmente aplicados a carregamentos de importações.

Tráfego
O volume da carga manuseada pelos portos tem aumentado substancialmente durante os
últimos anos. Entre 1999 e 2001 a carga aumentou de 3,0 milhões de toneladas para 4,8
milhões de toneladas. Tem aumentado mais durante os últimos anos apesar de haver apenas
dados disponíveis para Luanda. O aumento de carga que entra representa problemas sérios
para a capacidade do porto. Particularmente o Porto de Luanda tem problemas enormes com
a sua capacidade instalada.

22 Decreto Executivo Conjunto 68/95, Artigo 10.


INFRA-ESTRUTURAS E SERVIÇOS PÚBLICOS 37

O porto é um porto natural em que a protecção do mar é providenciada pela Ilha de Luanda e
pela baía oferecendo ancoradouro seguro para navios de praticamente todos os tamanhos. O
calado de navio máximo no canal de acesso é de 9,5 metros e nos cais de 9, 5 a 10,0 metros,
excepto no terminal de Cabotang de tráfego local (3,5 a 5,5 metros). O porto tem sete postos
de atracação com um comprimento total de 2.738 e aproximadamente 25 gruas nos cais, que
incluem gruas de elevação de 3 toneladas e de 10 toneladas. Tem uma grua móvel com uma
capacidade de 20 toneladas. Dezoito entrepostos ou armazéns na zona do porto fornecem 55
mil metros quadrados de espaço coberto. O espaço total terrestre é de 792.219 metros
quadrados. O porto criou um terminal de segunda linha para o manuseamento administrativo
de veículos importados.

O tráfego da carga geral do Porto de Luanda tem aumentado de 1,87 milhões de toneladas em
1999 para 3,19 milhões de toneladas em 2004 e 2,01 milhões de toneladas nos primeiros seis
meses de 2005. A carga de contentores foi equivalente a 2,03 milhões de toneladas em 2004.

O desequilíbrio entre os fluxos comerciais que entram e saem é enorme. Em 2004, 88 por cento
dos fluxos eram de entrada e apenas 12 por cento de saída. Cerca de 7 por cento de todo o
tráfego em 2004 era cabotagem e 93 por cento importações ou exportações. Em 2004, o Porto
de Luanda manuseou 235.411 contentores, correspondentes a 2.034.977 toneladas. Apenas
6.344 contentores cheios foram embarcados.

O Porto de Luanda estabeleceu um programa de investimentos de 10 anos para poder abarcar


o aumento de tráfego previsto e melhorar a eficácia das operações portuárias. Calcula-se que
este programa venha a custar USD 150 milhões. O porto será desenvolvido em duas fases.
Durante os primeiros dois anos os trabalhos concentrar-se-ão nas zonas do cais e de
empilhamento, enquanto que a segunda fase se concentrará em melhorar o equipamento de
manuseamento. Precisarão de ser instalados, pelo menos, dois guindastes de cavaletes e uma
grua de porto móvel. No entanto, o operador anterior contestou o resultado do procedimento
da proposta do concurso e o tribunal ainda não proferiu um a decisão. Espera-se que o
sistema de concessões do porto seja em breve aplicado também a outros portos de Angola.

Outra restrição das operações do porto relaciona-se com o acesso ao porto. O Porto de Luanda
está no centro da cidade, o que restringe seriamente o seu crescimento, a médio e a longo
prazo. Por conseguinte, precisam de ser desenvolvidos novos locais a norte do local actual. A
construção de um novo terminal para contentores em Cacuaco, a cerca de 20 km de Luanda, e
o desenvolvimento de um porto seco em Viana, a 30 km de Luanda, estão planeados.

AEROPORTOS E AVIAÇÃO
A aviação civil de Angola é regida pela Lei da Aviação Civil (Lei 3/00 de 20 de Abril de 2000).
Uma regulamentação preliminar para o transporte aéreo nacional está em estudo. Os voos
internacionais devem aterrar num aeroporto internacional. Os voos internacionais regulares
para e de Angola estão sujeitos a acordos bilaterais ou internacionais. 23

23 Lei 3/00, Artigo 30.


38 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Duas companhias aéreas internacionais estão registadas em Angola: a TAAG, a companhia


aérea nacional que é propriedade do estado, com serviços de voos nacionais organizados de
Luanda e voos internacionais organizados para Harare, Lisboa, Joanesburgo, Londres, Rio de
Janeiro, São Tomé, e Windhoek; e a Sonair, uma subsidiária da SONANGOL, explorada pela
companhia americana World Airways, que oferece uma só rota internacional, para Houston,
Texas, para companhias membro da U.S.-Africa Energy Associação [Associação de Energia
EUA – África] .24 A TAAG é o único membro de Angola que faz parte da International Air
Transport Associação [Associação de Transportes Aéreos Internacionais].

A Empresa Nacional de Navegação Aérea (ENANA) de Angola, que foi formada em 1980, é
responsável pela manutenção dos aeroportos e por fornecer instalações básicas em cada
aeroporto. Também é responsável por fornecer serviços de segurança nos aeroportos. A
ENANA gere 18 aeroportos e a navegação aérea de todos os aeroportos e emprega mais de
1.400 trabalhadores. Um aeroporto nacional secundário standard emprega entre 10 e 20
funcionários da ENANA. Sete aeroportos adicionais estão sob o controlo de governos
provinciais; as empresas de mineração operam cinco aeroportos; e seis aeroportos são
utilizados pela força aérea.

A maioria dos aeroportos foi construída na década dos anos de 1960 para satisfazer as
necessidades dessa época. O crescimento das necessidades da aviação desde essa altura não
foi acompanhado pelos investimentos correspondentes na infra-estrutura dos aeroportos
Actualmente, as pistas são demasiado curtas e a sua geometria não é adequada para as
aeronaves modernas e têm superfícies rugosas e irregulares e uma substrutura subterrânea
pouco resistente. A manutenção está em atraso.

A procura de serviços de aviação era alta em 2000. O aeroporto de Luanda encarregava-se de


1.405.125 passageiros que partiam, entre os quais mais de 1 milhão tinha um destino nacional.
A carga transportada de Luanda para as províncias atingia cerca de 446.142 toneladas em
2000. Os 10 aeroportos provinciais ocuparam-se de 438.808 passageiros e de 139.130 toneladas
de carga em 2000. O fim das hostilidades em 2002 resultou numa diminuição marcada de
passageiros e de transporte de carga.

A ENANA preparou um Plano Nacional de Desenvolvimento da Rede de Aeroportos


baseado em previsões de tráfego preliminares, o que é muito difícil de prever em situações de
pós-guerra. Espera-se que o aeroporto de Luanda tenha 2 milhões de passageiros e os
aeroportos provincianos 580.000 passageiros em 2005. O Plano Nacional de Desenvolvimento
da Rede de Aeroportos inclui um programa para o desenvolvimento de instalações para
aviação civil em seis aeroportos totalizando USD 45 milhões; USD 35 milhões para um novo
sistema de navegação aérea; e reabilitação de emergência para os aeroportos de Luena,
Huambo, Negage, Uige, Ondjiva, Saurimo, Kuito, Lobito, e Menongue perfazendo um custo
total de USD 36 milhões.

24 Afrol News, July 31, 2004, “Luanda, Malabo strengthen link with US oil capital”. Disponível na Internet em
http://www.afrol.com/articles/10288), e http//www.sonairsarl.com/.
INFRA-ESTRUTURAS E SERVIÇOS PÚBLICOS 39

Existem graves limitações no sector da aviação. Normalmente, os voos internacionais,


operados sobretudo pelas companhias aéreas TAAG, South African Airlines, TAP Portugal,
Air France, e Brussels Air, estão completamente esgotados com antecedência.

CONSIDERAÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO DOS TRANSPORTES


Um programa de investimento na infra-estrutura integrada de transportes a longo prazo é
urgentemente necessário. As prioridades devem ser estabelecidas para os próximos 10 anos.
Planos para a construção e reabilitação da infra-estrutura de transportes deverão incluir
mecanismos para garantir uma manutenção regular ou os investimentos perder-se-ão devido
à deterioração. Todas as partes interessadas deverão ser consultadas no que se refere ao
estabelecimento de prioridades: indústria, agricultura e sector de criação de gado, indústria
da pesca, mineração, comércio, indústria de transportes, educação e saúde. O programa tem
que ser um programa integrado que tenha em consideração as necessidades de todas as partes
interessadas.

A rede de estradas principal e os corredores principais da infra-estrutura de transportes


devem ter prioritários. Estes correspondem em parte à rede de caminhos de ferro. Os
investimentos nas infra-estruturas destes corredores pode incentivar o desenvolvimento
regional. Ao mesmo tempo, deve ser prestada atenção ao desenvolvimento de zonas rurais, ao
desenvolvimento da infra-estrutura rural e ao estabelecimento de ligações entre a infra-
estrutura rural e rede central de infra-estruturas.

Água, Electricidade e Telecomunicações

ÁGUA
O abastecimento de água continua a ser um dos principais problemas existentes em Luanda e
noutras cidades, com acesso disponível segundo a localização. O inquérito recente aos
agregados familiares realizado sob o auspício do Banco Mundial (MICS) confirma que os
preços variam extremamente em toda a área, com o centro da cidade a ser melhor servido e os
musseques informais na periferia sofrendo da falta da infra-estrutura e contando com
dispendiosos fornecimentos através de camiões. A água canalizada está disponível quase
exclusivamente em zonas habitadas por residentes com rendimentos mais elevados, mas que,
não obstante, é fortemente subsidiada em comparação com as zonas periféricas que são
abastecidas informalmente. Existem situações semelhantes noutras cidades.

Apesar de Angola ser bem dotada de recursos de água, o Relatório do Desenvolvimento


Humano das Nações Unidas para 2004 indicou que 62 por cento da população de Angola não
tinha acesso sustentável a uma fonte de água melhorada em 2002. 25

A água, bem como a energia e as comunicações, utilizam-se em virtualmente todos os


aspectos da indústria e, com frequência, a água é um meio de produção vital para o

25 Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, 2004


40 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

processamento industrial. Não existiam dados disponíveis sobre o acesso à água do sector
industrial; contudo, se a situação da água em Luanda serve de indicação sobre a situação
deste serviço público em Angola, o abastecimento público de água constitui uma restrição
apresenta uma restrição importante à indústria. A falta de um abastecimento de água de
confiança restringe seriamente a localização de empreendimentos industriais possíveis nas
zonas urbanas. As indústrias estão limitadas, quer a locais dispendiosos no centro da cidade
que dispõem de um abastecimento adequado ou a locais onde as bombas podem ser
instaladas para auto-abastecimento. Esses locais são limitados na planície costeira seca. A
situação actual do sector da água é devida a razões semelhantes às que afectam outros
serviços públicos (isto é, insuficientes investimentos, falta de manutenção, operações não
lucrativas, e subvenções inadequadas). Por conseguinte, este relatório conclui que o
fornecimento de água, particularmente nas zonas urbanas e suburbanas, constitui um
obstáculo crucial para o sector industrial em Angola.

ELECTRICIDADE
A EDEL é responsável pelo fornecimento de electricidade a Luanda e a Empresa Nacional de
Electricidade (ENE) é responsável por 15 províncias no resto do país. Ambas operam sob a
tutelagem do Ministério da Energia e Águas e estão sujeitas a controlos de preço por parte do
governo. Estes preços não chegam nem para cobrir os custos de funcionamento e com as
dificuldades em colher os rendimentos públicos, devido à guerra e a outras causas, a ENE e a
EDEL têm necessitado de subvenções do governo para se manter em funcionamento. Não foi
construído nenhum sistema novo de capacidade de geração de energia eléctrica, com
excepção da barragem hidroeléctrica no rio Kuanza. A eficácia é pobre, com a transmissão e
outras fugas equivalentes até mesmo a 20 por cento da energia gerada. Os danos às redes de
distribuição continuam a constituir um problema em muitas áreas, e as dificuldades em
ampliar a rede restringem o investimento em zonas para além da área de cobertura actual. E
necessário o auto-abastecimento, o que resulta no alto custo do abastecimento para as
indústrias que optarem por essa solução.

Calcula-se que apenas 15 por cento da população de Angola tenha acesso a electricidade e
para aqueles que o tem as falhas esporádicas de electricidade ocorrem com frequência. A
produção de electricidade em 2002 era cerca de 1.707 mil milhões de kilowatts por hora
(kWh), e o consumo calculava-se ser de 1.587 mil milhões de kWh. 26 O Ministério da Energia e
das Águas projectou que são necessários USD 500 milhões para reconstruir a infra-estrutura
para a electricidade.

Mais de dois terços da electricidade de Angola é gerada a partir de fontes hidroeléctricas. A


barragem de Matala no rio Cunene é a principal fonte de electricidade no sudoeste de Angola.
A barragem de Cambambe (180 MW) no rio Kuanza e a barragem de Mabubas (17,8 MW) no
rio Dande são os principais fornecedores de energia às regiões do centro e do ocidente.
Geradores a diesel fornecem a maior parte da electricidade no norte do país.

26 CIA, World Factbook 2005.


INFRA-ESTRUTURAS E SERVIÇOS PÚBLICOS 41

Angola tenciona recuperar a capacidade de produção da ENE, a companhia de electricidade


que é propriedade do estado, através da reabilitação das suas estações de energia
hidroeléctrica. Gove, uma estação que não está a funcionar, espera-se que seja reconstruída a
seguir a um acordo de Fevereiro de 2003 celebrado com a Namíbia para a reabilitação
conjunta da barragem. A construção de uma nova barragem no rio Cunene, nas Quedas de
Epupa também foi proposta.

Uma empresa brasileira de construção já completou parcialmente a construção de uma


estação de energia hidroeléctrica em Capanda, no rio Kuanza. O trabalho na central de 520
MW começou em meados da década dos anos de 1980, mais foi interrompido por causa da
guerra. A primeira das quatro turbinas hidráulicas planeadas começou a gerar electricidade
em Janeiro de 2004. Quando estiver acabado, o projecto de Capanda quase que duplicará a
capacidade actual de produção de energia eléctrica de Angola. 27

TELECOMUNICAÇÕES
Tal como aconteceu a outras infra-estruturas, as telecomunicações de Angola foram
extremamente danificadas pela guerra civil. Apesar de não haver dados actuais disponíveis
sobre o sector das telecomunicações, uma fonte indica que em 2003, 96.300 telefones de linha
terrestre e cerca de 130.000 telemóveis estavam a ser utilizados. 28 Com uma população
calculada em cerca de 13,5 milhões de habitantes, isto significa que apenas 1,6 por cento da
população tem telefone. As linhas fixas e o acesso telefónico internacional são possuídos como
um monopólio pela empresa paraestatal Angola Telecom, enquanto que os serviços de
telemóvel e de acesso à Internet foram recentemente abertos a concorrência. Foram
concedidas licenças a mais duas empresas para operar o serviço de telemóvel em Lunada.
Estas empresas localizam-se principalmente em Luanda, mas manifestaram ter planos para
expandir os serviços de telemóvel a outras partes do país. Tal como se pode esperar, a
penetração telefónica está altamente predisposta para Luanda, com mais de 70 por cento das
linhas naquela região. O resto do país tem uma cobertura telefónica limitada. O acesso à
Internet, que depende principalmente do sistema de linhas terrestres, ainda é mais limitado. A
cobertura do acesso à Internet ainda é insignificante, em 2002 havia meramente 41.000
utilizadores.29

27 Informação colhida do Ministério da Energia e Águas e de várias fontes secundárias.


28 CIA, World Factbook 2005.
29 CIA, World Factbook 2005.
5. As Instituições Comerciais e o
Desenvolvimento das Capacidades
O regime comercial de Angola tem sido consideravelmente liberalizado desde 1999 e ainda
está em vias de reorganização e de modernização.

A tarifa aduaneira é o principal instrumento da política comercial de Angola. Uma tarifa


aduaneira operacional e revista foi introduzida em Fevereiro de 2005, reduzindo a média
simples da tarifa de nação mais favorecida (MFN - Most Favored Nation) que se aplica de 8,8
por cento para 7,4 por cento. A tarifa aduaneira máxima aplicada foi reduzida para 30 por
cento, com uma estrutura tarifária de seis faixas. A tarifa aduaneira total de Angola está
limitada a níveis ad valorem máximos segundo as disposições do GATT de 1994 (Acordo Geral
sobre Pautas Aduaneiras e Comércio). As tarifas aplicadas mantêm-se consideravelmente
abaixo dos níveis limites estabelecidos na Organização Mundial do Comércio (OMC) [World
Trade Organization – WTO]. Todas as importações estão também sujeitas a um imposto de
consumo de 2 por cento, 10 por cento, 20 por cento ou 30 por cento, e a um certo número de
taxas cobradas na fronteira numa base de ad valorem; não existem compromissos vinculativos
à OMC sobre estas linhas.

Angola considera a liberalização comercial como uma forma de assegurar os alicerces de um


crescimento económico sustentável e de apoiar o programa de reforma em curso destinado,
inter alia, à redução da pobreza. Não obstante, as autoridades aumentaram algumas tarifas
durante os últimos dois anos e afirmaram que isto é necessário, pelo menos de curto a médio
prazo, como uma etapa para promover a reconstrução da agricultura e da indústria. Alguns
direitos foram aumentados em 2005 para harmonizar as taxas de Angola em relação às de
outros países da SADC; além disso, várias concessões tarifárias estão em vigor para
investidores e indústrias, mitigando os efeitos da estrutura tarifária e aumentando uma
protecção eficaz. Este relatório considera com cepticismo as politicas de substituição das
importações a nível geral, como uma via para o crescimento sustido, mas apoia o aumento
dos incentivos de produção de curto a médio prazo, através da eliminação gradual das
reduções das tarifas sobre os meios de produção. Procedendo desta forma fornecerá uma certa
protecção efectiva aos sectores comerciais que estão a ser reabilitados e reactivados.
Angola mantém a não existência de quotas, quotas tarifárias ou preferências tarifárias, apesar
de ser membro da SADC. Interdições das importações e a concessão de licenças sob “regimes
especiais de importação” estão em vigor para certos produtos. Angola não tem legislação
sobre antidumping, direito compensatório, salvaguarda ou concorrência, apesar da nova
estruturas tarifária no Decreto-Lei 2/05 se destinar a desencorajar importações de artigos
importados artificialmente baratos.

Angola mantém cerca de 50 empresas propriedade do estado em vários sectores económicos;


está a decorrer um processo de privatização e de comercialização, controlado por um
departamento especializado do Ministério da Indústria. Angola não faz parte dos países
signatários do Acordo Plurilateral sobre contratos Públicos (Plurilateral Agreement on
Government Procurement) da OMC.

Angola está a tomar medidas para aplicar as normas internacionais ou regionais (SADC) a
algumas indústrias e produtos alimentares, apesar de carecer da capacidade humana e das
aptidões para a implementação, bem como da capacidade técnica. Uma agência especializada
(Codex Angola) foi criada para estabelecer e controlar as normas relativas aos produtos
alimentares. Recomendações de empacotamento e rotulagem estão em vigor para os produtos
alimentares, farmacêuticos, químicos e cosméticos.

Os direitos de exportação a 10 e a 20 por cento afectam alguns produtos novos; segundo as


autoridades, isto destina-se a desencorajar as suas exportações, principalmente para proteger
a flora, a fauna e o ambiente. Também existem várias interdições a exportações e
procedimentos de concessão de licenças, incluindo o processo de Kimberley para diamantes.

Acordos Comerciais e Acordos Preferenciais de Acesso


Angola participa em vários acordos comerciais. É membro da Comunidade para o
Desenvolvimento da África Austral (SADC – Southern African Development Community) e
beneficia do tratamento preferencial não recíproco de vários países industrializados no
âmbito do Sistema Generalizado de Preferências (SGP), incluindo a Iniciativa Tudo Menos
Armas (TMA) da UE e a Lei de Crescimento e Oportunidade para África, dos EUA (AGOA –
Africa Growth and Opportunity Act). Angola é signatário do Acordo de Cotonou e,
juntamente com alguns membros da SADC, está a negociar um Acordo de Parceria
Económica (APE) recíproco com a União Europeia, que substituirá o Acordo de Cotonou.
Angola ainda não participa completamente no Protocolo Comercial sa SADC e não tem
conseguido tirar partido de nenhum desses acordos preferenciais devido à sua falta de
capacidade de produção e à sua reduzida competitividade. Portanto, é essencial remover as
restrições do lado da oferta para adquirir a capacidade de aproveitar esses acordos
preferenciais ao máximo.
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 45

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE COMÉRCIO [WORLD TRADE ORGANIZAÇÃO]


Angola é membro fundador da OMC (WTO), tendo passado a ser membro em Novembro de
1996. Em virtude da sua qualidade de membro faz parte de todos os acordos comerciais
multilaterais concluídos no quadro da OMC. Angola está a planear criar um secretariado
nacional executivo para a OMC, uma comissão multisectorial administrativamente autónoma,
em que um funcionário executivo do Ministério do Comércio actuaria como presidente.
Angola participa no Quadro Integrado patrocinado pela OMC; o presente estudo constitui a
primeira fase deste processo.

Durante recentes Conferências Ministeriais da OMC, Angola exprimiu a sua convicção na


liberalização comercial para o estabelecimento de alicerces seguros com vista a um
crescimento económico sustentável e à redução da pobreza; no entanto, notou que, apesar das
promessas dos países desenvolvidos para facilitar a integração dos países menos
desenvolvidos no sistema de comércio multilateral, as perspectivas para os países menos
desenvolvidos continuam desencorajantes. Angola acolheu positivamente a decisão do
Acordo de TRIPS (Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio) e a
saúde pública, mas manifestou a sua preocupação sobre o facto do mandato da Declaração de
Doha ainda não ter sido cumprido em certos sectores importantes para os países menos
desenvolvidos. Angola é de opinião de que só a abertura dos mercados não constitui a
solução para os problemas sociopolíticos, económicos e financeiros que entravam o progresso
em África e procura obter uma conclusão equilibrada para a Ronda do Desenvolvimento de
Doha (Doha Round). Angola tem pedido insistentemente a todos os estados membros da
OMC que se empenhem em compromissos e empreendimentos construtivos para que as
negociações de Doha possam contribuir eficazmente para o desenvolvimento. Também pediu
insistentemente aos países desenvolvidos que ofereçam um apoio mais eficaz para a
implementação da Acta Final da Ronda do Uruguai (Final Act of the Uruguay Round). 30

O governo angolano chamou a atenção para a falta de progresso da parte dos países
industrializados na redução de políticas de distorção comercial nos sectores da agricultura e
indústria. Com dois terços dos angolanos a contar com a agricultura como forma de
sustentação, a estratégia de redução da pobreza do governo angolano destaca o crescimento
agrícola e as exportações para levantar as populações rurais acima do seu estatuto actual de
assistência social. Por conseguinte, Angola apelou a todos os membros da OMC para:

 Abolir as subvenções de exportação que permitem aos produtores dos países desenvolvidos
que reduzam os preços das suas exportações agrícolas ou afectem a sua produção
negativamente;

 Abolir a prática de imposição de tarifas mais elevadas sobre formas mais processadas de
mercadorias; e

30 Documentos da WTO: WT/MIN(01)/ST/69, 11 de Novembro de 2001 e WT/MIN(03)/ST/95, 12 de


Setembro de 2003.
46 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

 Reduzir o apoio nacional, sob a forma de créditos à exportação oferecidos aos produtores, o
que lhes dá vantagem na concorrência com os produtores dos países em vias de
desenvolvimento.

Este apelo torna claro o apoio de Angola às metas resultantes das rondas de conversações
mais recentes realizadas sob o auspício da OMC. A eliminação das subvenções pelos países
desenvolvidos, como visionado pelas conversações da Doha Round, teria uma influência
importante no sentido de capacitar a realização das metas declaradas pelo governo nesta área.

COMUNIDADE DE DESENVOLVIMENTO DA ÁFRICA AUSTRAL [SOUTHERN


AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY]
Angola é um dos membros fundadores da SADC e tem declarado a sua intenção de entrar no
protocolo comercial da SADC, cuja meta principal é criar uma zona de comércio livre na
África Austral. Na qualidade de um dos países da SADC menos desenvolvidos, Angola
negociará uma redução tarifária em relação à África do Sul e a outros membros da SADC, a
concluir até 2012. A sua situação de membro da SADC demonstra o compromisso do país em
relação a uma estratégia de crescimento que está aberta aos seus vizinhos regionais e promove
o comércio mutuamente vantajoso na região.

Todavia, Angola tem que negociar um plano de admissão tão vantajoso quanto possível,
considerando a longa guerra que destruiu a sua capacidade para competir em vários sectores.
Proteger esses sectores, reabilitando ao mesmo tempo a produção será essencial para qualquer
plano integrar Angola no sistema da SADC. A sua situação é um tanto diferente da situação
do Malawi, de Moçambique, da Tanzânia e da Zâmbia, os países do acordo MMTZ, nenhum
dos quais sofreu o nível de destruição da sua base produtiva que Angola sofreu. Mesmo a
guerra civil de Moçambique que se passou há mais tempo e destruiu menos a base industrial,
em parte porque era um país muito menos desenvolvido do que Angola. Até à data da
redacção deste relatório, os níveis de protecção eficaz que estão em funcionamento ou que
podem ser necessários para assegurar a viabilidade de certas indústrias não podem ser
especificados, devido à falta de condições analíticas. Essas análises exigem o conhecimento do
custo da estrutura de produção em actividades de interesse e este tipo de conhecimento ainda
não foi estabelecido para Angola.

Um relatório de 2004 feito pelo secretariado da SADC em relação à admissão de Angola 31

concluiu que a redução tarifária imediata era preferível em todos os casos, mas assumiu que a
estrutura de produção de 2002 era uma base razoável a partir da qual se podia extrapolar. Isto
ignora os efeitos da destruição causada pela guerra e a necessidade de reabilitar as indústrias
e os sectores nos quais Angola tem uma vantagem potencial. Na verdade, em 2002 a maior
parte da produção industrial e agrícola de Angola ainda estava completamente paralisada, o
que dava prioridade à actualização destas informações. As autoridades fizeram algumas
mudanças preliminares no sentido recomendado pelo secretariado da SADC, como indicado
pela redução da taxa máxima de 35 por cento para 30 por cento. Mais reduções pareceriam ser

31 “Angola e a Implementação do Protocolo Comercial da SADC” Secretariado da SADC, Abril de 2004


AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 47

implicadas pela intenção declarada do governo de liberalizar, mas ainda não foram
concretizadas.

A situação de Angola como país menos desenvolvido torna aconselhável apresentar duas
ofertas de redução tarifária, uma à África do Sul e a outra aos outros países da SADC. É óbvio
que a África do Sul é mais importante em termos de competição para os sectores industriais
nascentes, não só devido à gama de produtos produzidos na África do Sul, mas também
porque as regras de origem restritivas existentes na SADC podem resultar no facto da África
do Sul ser a fonte de importações angolanas, mesmo se existirem produtores de baixo custo
noutros países. O relatório de 2004 do secretariado da SADC nota que o acordo MMTZ sobre
produtos têxteis e vestuário não oferece nenhuns benefícios potenciais, devido ao facto dos
Estados Unidos terem designado Angola como um país elegível no quadro da AGOA,
gozando de isenção de impostos e de acesso livre de quotas ao mercado dos Estados Unidos
para alguns produtos. O relatório continua a chamar a atenção para o facto de que Angola
deveria alvejar um afrouxamento substancial das regras de origem da SADC, a fim de que o
tipo de concessões obtido pelos países do acordo MMTZ possa ser alargado a outros sectores.

O relatório de 2004 concluiu com as seguintes recomendações específicas:

 Angola deveria reduzir as taxas tarifárias de 2 por cento, 5 por cento e 10 por cento para
zero, após a implementação do protocolo comercial.

 Todas as taxas tarifárias de 35 por cento deviam ser reduzidas para um valor não superior a
30 por cento no início do plano da fase de redução tarifária. (Isto foi conseguido através do
Decreto-Lei 2/05.)

 Para a África do Sul

 Todas as linhas tarifárias restantes (excepto a lista positiva curta mencionada abaixo)
deveriam ser atribuídas à Categoria B (com taxas tarifárias de 20 por cento e 30 por
cento) e reduzidas para zero dentro de um a seis anos, com início em Janeiro de 2006,
para que até 2008, pelo menos 50 por cento destas linhas tarifárias tenho uma tarifa a
zero.

 Uma lista positiva curta de produtos sensíveis deveria ser identificada e atribuída à
Categoria C. Estes itens não deveriam exceder mais de 10 por cento das importações
de Angola da África do Sul e esta designação não deveria ir alem de 2012.

 Para a oferta diferenciada

 Todas as linhas tarifárias restantes (excepto a lista positiva curta mencionada abaixo)
deveriam ser atribuídas à Categoria B (por exemplo, taxas tarifárias de 20 por cento e
de 30 por cento) e deviam ser reduzidas para zero dentro de um a três anos, com início
em Janeiro de 2005.

 Uma lista positiva curta de produtos sensíveis deveria ser identificada e atribuída à
Categoria C. Estes itens não deveriam exceder mais de 10 por cento das importações
48 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

da SADC. Os direitos sobre estes artigos deveriam ser eliminados gradualmente até
2012.

Estas recomendações parecem razoáveis. Segundo o relatório, a sugestão para reduzir as


faixas tarifárias mais baixas para zero assim que seja praticável, não alteraria muito nem a
protecção, nem o rendimento. Os impostos e as taxas mais baixas manter-se-ão em vigor e os
níveis tarifários baixos significam níveis baixos de rendimento inevitáveis após a sua
eliminação.

As faixas de 35 por cento já foram reduzidas para 30 por cento. Mais reduções nestas faixas
poderiam realizar-se no futuro, apesar de que o governo pode querer alegar circunstâncias
exigentes para ampliar o tempo permitido para fazer essas reduções. Esta consideração aplica-
se ao resto das recomendações relativamente à oferta à África do Sul e a oferta ao resto dos
países da SADC.

O ACORDO DE COTONOU E AS NEGOCIAÇÕES DO EPA


Angola é membro do grupo de países ACP (África, Caraíbas e Pacífico) e participou com a
SADC no Acordo de Cotonou com a União Europeia. Este acordo fornece um processo de
negociação que Angola está a seguir como membro da SADC. Actualmente, Angola beneficia
das disposições referentes às preferências comerciais da iniciativa da União Europeia
intitulada Everything but Arms (EBA) [Tudo menos Armas]. No entanto, decidir em que
medida Angola pode ou deve participar num acordo de parceria económica com outros países
da SADC, precisa de um estudo cuidadoso. Actualmente, só foi realizado um trabalho muito
preliminar, fazendo com que esta área seja prioritária para receber assistência técnica no
futuro imediato. O governo explicitou o seu desejo de mandar fazer um estudo sobre o
impacto económico e financeiro de um tal acordo, a fim de definir melhor a sua estratégia de
negociações, tanto a nível regional como com a União Europeia.

As opções de Angola em relação a um EPA são de negociar juntamente com outros países da
SADC (isto parece ser a intenção actual do governo), negociar com um outro conjunto de
países, ou optar inteiramente por não participar. Vale a pena chamar a atenção para o facto de
que nenhum país do ACP decidiu até agora optar por não participar. Não é provável que
Angola optasse por se juntar a um conjunto de países como uma zona franca comercial, mas
por alinhar com um conjunto diferente para os objectivos de um EPA, o que mostra que
negociar como parte da SADC é o tipo de actuação mais provável. Não obstante, não deveria
ser considerado como uma conclusão previsível e merece ser estudado mais a fundo.

AFRICAN GROWTH AND OPPORTUNITY ACT (LEI DE CRESCIMENTO E


OPORTUNIDADE PARA ÁFRICA)
Angola também é beneficiário da AGOA sendo um dos três maiores países exportadores para
os Estados Unidos da África Subsaariana. Diversificar aquilo que é um comércio quase 100
por cento baseado no petróleo e minerais será o principal desafio dos próximos anos. A
AGOA permitirá a Angola comercializar várias indústrias leves para o mercado dos Estados
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 49

Unidos sem impedimentos nem barreiras. A principal tarefa para Angola será reactivar a
capacidade e produzir de acordo com as especificações e a qualidade exigidas para penetrar
no mercado dos Estados Unidos. No entanto, como referido anteriormente, um Kuanza forte
limita as possibilidades das actividades em que a vantagem competitiva de Angola (e as
margens de lucro) são suficientemente fortes para contrabalançar os incentivos adversos da
taxa de câmbio.

Instituições Relacionadas com o Comércio e Desenvolvimento das


Capacidades
O Gabinete Económico que é presidido pelo Vice-Ministro do Primeiro-Ministro, implementa
a política comercial e coordena as actividades dos ministros responsáveis por vários aspectos
da política comercial.32 O Ministério do Comércio (MOC) dirige a política comercial externa e
interna. Partilha esta responsabilidade com o Ministério da Indústria (MOI), o qual, por
exemplo, trata de questões relacionadas com a SADC. Vários outros ministérios estão
envolvidos na formulação, negociação e implementação da política comercial. Estes incluem o
Ministério do Planeamento, o Ministério das Finanças e o Banco Central, que são responsáveis
pelos aspectos macroeconómicos a longo prazo da política comercial. O Ministério das
Finanças, do qual faz parte a Direcção-Geral das Alfândegas, gere a política de impostos,
incluindo as tarifas. Os ministérios sectoriais envolvidos no desenvolvimento e na execução
da política comercial incluem o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, o
Ministério da Cultura, o Ministério das Pescas, o Ministério da Indústria, o Ministério dos
Transportes, o Ministério das Obras Públicas, o Ministério de Geologia e Minas, o Ministério
do Petróleo, o Ministério do Urbanismo e Ambiente, o Ministério de Ciências e Tecnologia, o
Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério do Turismo. 33

Apesar de existirem muitos desafios para melhorar a formulação da política comercial, o


número de ministérios e instituições que já estão envolvidos na política comercial oferece a
esperança de que a coordenação central, a capacidade de desenvolvimento e a assistência
financeira possam fortalecer significativamente a capacidade de Angola para formular e
implementar a política comercial. Uma tal racionalização precisa de ocorrer não só em
instituições nucleares, mas também noutros ministérios e nos mecanismos de coordenação da
política comercial, tais como as comissões multi-sectoriais. Os ministérios também precisam
de aumentar a capacidade do pessoal; apesar de grandes folhas de pagamento salário, o
número de quadros formado em questões comerciais é limitado.

Além disso, os dados e informações comerciais precisam de ser melhorados e postos à


disposição oportunamente para serem úteis quando analisados. Na verdade, os
conhecimentos básicos sobre o comércio fora do sector petrolífero são seriamente deficientes,

32 World Trade Organization, Trade Policy Review of Angola, 2006 [Organização Mundial do Comércio. Revisão
da Política Comercial de Angola, 2006].
33 World Trade Organization, Trade Policy Review of Angola, 2006 [Organização Mundial do Comércio. Revisão
da Política Comercial de Angola, 2006].
50 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

dificultando a capacidade para formular e implementar as políticas. Precisam de ser


desenvolvidos currículos em economia e política comercial (ou obtidos de universidades que
já dispõem de currículos em política comercial) e de ser implementados nas universidades.
Além disso, a capacidade do sector privado para discutir a reforma comercial e defender
reformas precisa de ser solidificada.

Os parágrafos que se seguem examinam detalhadamente as instituições de Angola


envolvidas na formulação e implementação da política comercial, descrevem a assistência
técnica relacionada com o comércio fornecida a Angola, descrevem as maiores restrições na
formulação da política comercial e oferecem recomendações para a assistência técnica que
poderia ser útil no desenvolvimento da capacidade comercial.

MINISTÉRIO DO COMÉRCIO
Tal como mencionado anteriormente, o MINCO dirige a política comercial externa e interna e
partilha esta responsabilidade com o MIND, que trata de questões relacionadas com a SADC.
O MINCO formula e implementa a política comercial sob uma delegação do Conselho de
Ministros, o corpo executivo mais alto do governo. Presentemente, a política comercial é
coordenada através de várias comissões ad-hoc e de comissões formadas para fins específicos,
tais como a SADC, a OMC, ou as negociações do EPA.

Aproximadamente 600 pessoas 34 trabalham no MINCO em sete direcções-gerais ou gabinetes:


o Gabinete do Ministro, o Departamento Jurídico, o Secretariado-Geral, o Gabinete de Estudos
e Planeamento Económico (GEPE), a Inspecção-Geral do Comércio (IGC), o Gabinete de
Intercâmbio Internacional (GII) e a Direcção Nacional do Comércio (DNC). Para além das
direcções e gabinetes, que fundamentalmente formulam a política, o MINCO tem divisões
que implementam a política: o Instituto de Promoção das Exportações, o Fundo de
Desenvolvimento do Comércio, o Instituto de Protecção Comercial, o Laboratório de Controlo
de Qualidade e uma Escola Comercial Nacional, que actualmente é extremamente fraca e não
tem um currículo relacionado com o comércio internacional. Todos se encontram
directamente sob a chefia do Ministro. O MINCO carece de recursos para coordenar todos
aqueles que precisam de estar envolvidos na formulação e implementação da política
comercial. A falta de acesso à Internet, de computadores, de faxes e mesmo de telefones torna
difíceis, mesmo as tarefas de coordenação simples.

O GEPE ocupa-se da investigação e análise para apoiar a formulação da política pela DNC e
pelo GII. Nenhuma estrutura estratégica dirige estas direcções-gerais e gabinetes, mas o novo
Mecanismo para Examinar a Política Comercial de Angola (MPEC) poderia servir de base para
uma orientação.35 O relatório que resultou deste estudo oferece uma análise inicial sobre a
necessidade de uma reforma institucional na formulação da política comercial em Angola. A

34 O MINCO começou a reduzir o pessoal redundante e/ou improdutivo do MINCO, 300 no ano transacto,
mas é importante reconhecer que as reduções do pessoal não podem substituir o investimento considerável
necessário em relação à capacidade humana e às condições físicas de trabalho.
35 O MPEC foi concluído com a assistência de um consultor externo financiado pelo PNUD .
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 51

racionalização das direcções e gabinetes do MINCO e das funções e dos quadros destes pode
contribuir para que o ministério seja mais eficiente.

Gabinete de Intercâmbio Internacional


O GII consta do Departamento de Cooperação Bilateral, do Departamento de Organizações
Económicas Internacionais e do Gabinete Administrativo. O GII tem a responsabilidade final
das negociações comerciais, incluindo as conversações da Doha Round da OMC e as
negociações bilaterais, com excepção das negociações da SADC. 36 Angola decidiu negociar um
Acordo de Parceria Económica [Economic Partnership Agreement – EPA] com a União
Europeia e com seis dos seus parceiros da SADC, o grupo da África Austral, e dirigirá as
negociações do grupo sobre o acesso ao mercado agrícola e à indústria da pesca (aspectos de
gestão de recursos).

O GII está a coordenar a agência para o Quadro Integrado. Segundo a Revisão da Política
Comercial de Angola pela OMC, com as respostas de Angola a perguntas redigidas
previamente para a reunião do TPRB de Fevereiro de 2006, 37 o pessoal do GII precisa de
formação em especializações (por exemplo, inglês, agricultura, serviços, regras de origem);
conhecimentos analíticos para criar respostas alternativas a questões de negociação e para
monitorizar o progresso das negociações; e em técnicas de negociação, incluindo a formação
através da simulação. O GII recebe uma assistência técnica mínima do PNUD. A União
Europeia ofereceu uma assistência significativa através de vários mecanismos de apoio, mas
ainda não conseguiu implementar a assistência devido à falta de compromisso da parte do
MINCO e do GII, o que resulta de uma falta de capacidade em geral para responder às
ofertas, em combinação com a prioridade política aparentemente baixa atribuída a questões
comerciais não petrolíferas.

Direcção Nacional do Comércio


Trabalhando directamente com os gabinetes provinciais e distritais do MINCO, a DNC tem
seis departamentos: estudo e planeamento, concessão de licenças, comércio interno, comércio
externo, serviços relacionados com o comércio para empresas e negócios e uma secção
administrativa. Através da sua função de concessão de licenças, a DNC também se concentra
no comércio interno. Divulga informações sobre os acordos comerciais de Angola às
províncias e mantém os produtores informados sobre os preços de mercado históricos e
actuais e as condições para certos produtos comerciais.

O pessoal da DNC tem uma formação profissional muito rudimentar sobre comércio e
economia política. Os quadros precisam de obter formação profissional em política comercial,
pesquisa de mercado, promoção das exportações e negociações comerciais. A DNC também
requer assistência técnica na informatização dos procedimentos de concessão de licenças e
registos e no apoio analítico para a pesquisa de mercado e a utilização de acordos
preferenciais de comércio.

36 O MIND ocupa-se das negociações com a SADC.


37 Este documento está prestes a ser publicado como WT/TPR/M/158/Add.1
52 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA
O MIND tem quase exactamente a mesma estrutura e mandato do MINCO, o que dá origem
a mandatos sobrepostos, desnecessários e contraditórios entre os ministérios. O MIND tem
aproximadamente 700 funcionários distribuídos por sete departamentos: o Gabinete do
Ministro, o Departamento Jurídico, o Secretariado-Geral, o Gabinete de Estudos e
Planeamento Económico (MOI/GEPE), a Inspecção-Geral da Indústria (IGI), o Gabinete de
Intercâmbio com o Estrangeiro (GIE) e a Direcção Nacional da Indústria (DNI). Tal como o
MINCO, o GEPE do MIND fornece investigação e análise para apoiar a formulação da política
comercial pelo GIE e pela DNC. O Instituto Angolano da Propriedade Industrial (IAPI);
Instituto Angolano de Normalização e Qualidade (IANORQ); e o Instituto para o
Desenvolvimento das Indústrias Angolanas, encontram-se todos directamente subordinados
ao Ministério da Indústria. Cada um destes institutos quase independentes requer assistência
adicional para ser eficiente. Uma racionalização das direcções e dos gabinetes do MIND e das
funções e dos quadros destes pode contribuir para que o ministério seja mais eficiente.

Direcção Nacional da Indústria


A DNI formula e implementa a política industrial, desenvolve a política relacionada com as
pequenas e médias indústrias e administra as quotas de produtos têxteis e de vestuário no
âmbito do SADC. Também é responsável por informar o sector industrial sobre as
oportunidades que decorrem dos acordos e dos tratados comerciais. A DNI tem a
responsabilidade principal de desenvolver e implementar a estratégia de reindustrialização
de Angola. Não recebe assistência técnica. As suas principais carências de assistência técnica
são a formação profissional em (1) acordos comerciais, especialmente as regras de origem; (2)
a realização de inspecções, tal como exigidas pelos acordos comerciais; e (3) conhecimentos
analíticos para monitorizar o desempenho de Angola no âmbito de vários acordos comerciais.

Gabinete de Intercâmbio com o Estrangeiro


O GIE ocupa-se de questões internacionais na medida em que estas se relacionam com a
indústria, incluindo acordos comerciais preferenciais, tais como o African Growth and
Opportunity Act (AGOA). Também tem a responsabilidade final das negociações comerciais
da SADC. O MIND/GIE parece coordenar de perto com o MOC/GII as negociações
comerciais, dado que funcionários dos dois gabinetes aparecem frequentemente juntos
durante sessões de negociações. Em todo o caso, pode ser necessária uma melhor
consolidação de funções entre os dois gabinetes, para obter uma formulação e implementação
eficientes da política comercial. O MIND/GIE está a receber assistência técnica do PNUD. Um
assessor para o comércio, de nacionalidade brasileira, acabou de ser contratado durante seis
meses para prestar apoio em questões relacionadas com a SAD, incluindo a finalização da
oferta de Angola de eliminação tarifária gradual. O GIE também solicitou o financiamento de
dois assessores internacionais para ajudar a facilitar o trabalho do Grupo Técnico
Multisectorial para a Negociação e Implementação do Protocolo da SADC e para ajudar a
resolver problemas da SADC e do EPA.
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 53

Apesar do pessoal do MIND/GIE possuir conhecimentos substanciais sobre as questões da


SADC, a ineficácia dos diálogos a nível público e privado e a coordenação interministerial
limita a sua capacidade de implementar compromissos no âmbito da SADC. Por exemplo,
desde que o Grupo Técnico Multisectorial foi criado em 2004 e, mais tarde foi alargado para
cobrir as questões do EPA, uma iniciativa da UE, a irregularidade das reuniões e uma
incapacidade de tomar decisões têm tornado o grupo quase totalmente ineficaz. O Comité
Nacional da SADC de Angola, que faz parte do Ministério do Planeamento, também está
envolvido em questões da SADC. Reiteramos mais uma vez que a racionalização entre estes
departamentos e com o MINCO poderia a contribuir para que a implementação do Protocolo
Comercial da SADC fosse mais rápida e mais eficaz.

Instituto Angolano de Normalização, Garantia de Qualidade, Acreditação, e


Metrologia (IANORQ)
O IANORQ, cujo objectivo é eliminar as barreiras técnicas ao comércio (TBT) entre as nações
e promover a qualidade dos produtos e dos serviços, foi estabelecido como um corpo
estatutário ao abrigo da jurisdição do MIND em 1996 e é responsável por desenvolver normas
e regulamentações sobre a qualidade e a segurança dos produtos, para metrologia,
acreditação e certificação. É o ponto de informação da OMC para o Acordo sobre Barreiras
Técnicas ao Comércio [Agreement on Technical Barriers to Trade – TBT]. As economias de
escala podem ser alcançadas se o IANORQ se consolidar com o gabinete de normas do
MINCO.

O IANORQ, com um pessoal de 20 funcionários, começou recentemente o trabalho sobre a


normalização. Está a elaborar normas em alguns sectores, tais como o do cimento e dos
produtos alimentares (por exemplo, frutos e vegetais) e recentemente criou a título preliminar
uma política e um quadro legislativo sobre “normas para normas”, que ainda têm que ser
publicados e implementados. 38 O quadro legislativo propõe a utilização de normas
internacionais e o estabelecimento de sete comissões técnicas sobre o desenvolvimento de
normas.

O IANORQ está a trabalhar no programa da SADC de Standardization, Quality Assurance,


Accreditation and Metrology (SQAM) [Normalização, Garantia da Qualidade, Acreditação e
Metrologia], o qual procura eliminar as barreiras técnicas ao comércio (TBT) entre os estados
membros e promover a qualidade dos processos de produção. Apesar deste envolvimento o
IANORQ ainda enfrenta dificuldades com a avaliação da conformidade e a acreditação de
processos de normalização utilizados pelo sector privado. Dado que os laboratórios do
IANORQ ainda não estão acreditados, as empresas do sector privado precisam de utilizar
outros laboratórios, normalmente fora de Angola, para obtenção de serviços ou de
acreditação, ou de ambos. Esta situação pode atrasar a acreditação e torná-la ainda mais
dispendiosa.

38 Southern Africa Trade Hub, Angola and the Implementation of the SADC Protocol on Trade, p. 17, April 2004
[Hub da África Austral, Angola e a Implementação do Protocolo Comercial da SADC, p. 17, Abril de 2004].
54 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

O IANORQ ainda tem agumas dificuldades em relação à aaliação da estandardização em


geral, dado que não dispõe de um laboratório para realizar provas ou análises
microbiológicas. No sector de medidas o IANORQ possui um pequeno laboratório com
equipamento para grandes quantidades e volumes e está a proceder à verificação e ao
ajustamento de balanças e de bombas para os combustíveis utilizados no paí.s. Para que o
IANORQ possa cumprir o Acordo sobre Barreiras Técnicas ao Comércio [TBT Agreement] da
OMC e possa fornecer os serviços de que o sector privado necessita (por exemplo, a
certificação das normas utilizadas na produção de mercadorias, a metrologia do equipamento
utilizado na produção), precisa de equipamento novo, laboratórios novos, e formação do
pessoal em formulação de normas, metrologia, acreditação e manutenção do equipamento. O
IANORQ tem mencionado que uma nova localização, também poderia ajudar a satisfazer os
seus objectivos.

Segundo o IANORQ, a coordenação governamental poderia ser melhorada para que possam
ser desenvolvidas as normas que ajudam a indústria a produzir produtos para os mercados
locais, regionais e internacionais. O Ministério da Agricultura é responsável pelas medidas
sanitárias e fitossanitárias (MSF), mas regulamentos e práticas claras sobre as MSF não parece
que existam. Além disso, o departamento de normas do MINCO não está a funcionar
eficientemente devido a restrições de capacidade humana e financeira. Mais coordenação e
comunicação e talvez mesmo uma racionalização das funções entre instituições relacionadas
com o comércio, especialmente as que se encontram implicadas com as normas, poderiam
apoiar Angola na ajuda a prestar ao seu sector privado para cumprir e implementar as
normas internacionais. Actualmente os possíveis utilizadores destes serviços estão pouco
consciencializados sobre a necessidade de desenvolver normas e padrões angolanos para
ajudar a indústria a produzir produtos para os mercados locais, regionais e internacionais.

Instituto de Desenvolvimento Industrial de Angola


O IDIA, uma agência quase independente do MIND que estabelece a ligação entre as
indústrias de Angola e o ministério, implementa a política industrial. Analisa como melhorar
a concorrência industrial, concebe repostas sobre a política para aumentar a concorrência,
analisa possíveis incentivos para as indústrias, esforça-se por tornar o ambiente comercial
atractivo para os investidores estrangeiros e ajuda a desenvolver as capacidades industriais
através de centros de formação profissional. Também pode apoiar a indústria a obter crédito.
Recentemente, por exemplo, o IDIA foi instrumental na concepção de um sistema de isenção
de direitos para os produtos industriais que são exportados. O IDIA poderia beneficiar de um
assessor para ensinar inglês e concorrência industrial aos seus quadros e para ajudar as
indústrias locais a participar em feiras do comércio internacional.

Instituto Angolano da Propriedade Industrial


Criado em 1996, o IAPI está sob a jurisdição do MIND. Os seus 25 funcionários são
responsáveis pela protecção dos direitos de propriedade industrial (por exemplo, registo de
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 55

marcas comerciais, emissão de patentes).39 Desde o seu início, o IAPI já recebeu mais de 15 mil
pedidos para registar marcas comerciais e desenhos industriais, assim como vários pedidos de
patentes, todos relacionados sobretudo com a indústria petrolífera.

Angola tem sido membro da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) desde
1985 e é um signatário do Acordo de TRIPS (Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de
Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio) da OMC desde 1996. No entanto, não
é signatário da Convenção de Paris para a Protecção da Propriedade Industrial, da Convenção
de Berna para a Protecção das Obras Literárias e Artísticas, nem da Convenção de Roma ou
Convenção Internacional para a Protecção dos Artistas Intérpretes ou Executantes, dos
Produtores de Fonogramas e dos Organismos de Radiodifusão. À medida que Angola se
desenvolve economicamente e aumenta a sua capacidade para fazer cumprir a protecção da
propriedade intelectual, talvez deseje considerar em ser signatário destas convenções. 40

Angola não dispõe de um tribunal separado para a protecção da propriedade industrial ou de


um tribunal para a protecção dos direitos de autor; as infracções são julgadas no sistema de
tribunais principal. Até agora, não foi registado nenhum caso de infracção da propriedade
industrial. O respeito dos direitos de propriedade intelectual continua a ser inadequado. A
coordenação entre o IAPI e as Alfândegas é fraca, especialmente nos postos fronteiriços; os
juízes, os advogados e os agentes da polícia têm recebido muito pouca informação sobre esta
questão; e os jornalistas parecem ter muito poucos conhecimentos sobre a protecção da
propriedade intelectual e raramente comunicam infracções.

Além disso, as instituições de ensino de Angola não oferecem instrução sobre propriedade
intelectual.41 A pouca formação profissional que é fornecida é sob a forma de cursos breves
noutros países. A formação geral sobre Direitos de Propriedade Intelectual (DPI) é
providenciada em Portugal e a formação sobre a execução e aplicação dos DPI para juízes,
procuradores da justiça, agentes alfandegários e da polícia é providenciada nos Estados
Unidos através do U.S. Patent and Trademark Office (USPTO) [Gabinete de Patentes e Marcas
Registadas dos EUA].

160. A falta de fluência na língua inglesa é umas das maiores restrições do desenvolvimento
de capacidades para a protecção da propriedade intelectual. Muito material de formação,
incluindo a legislação, é em inglês. Se mais assistência técnica relacionada com os DPI for
fornecida a Angola, a formação profissional deverá concentrar-se naqueles que fazem cumprir
os DPI (isto é, os juízes, os advogados, os agentes alfandegários e da polícia), assim como nos
39 Os direitos de autor encontram-se sob a jurisdição do Ministério da Educação e Cultura na Direcção Nacional
de Espectáculos e Direitos de Autor.
40 A principal lei que rege a protecção da propriedade intelectual em Angola é a Lei No. 3/92 de Fevereiro de
1992, que fornece a protecção para patentes, marcas registadas, desenhos industriais, modelos utilitários,
pedidos de origem e indicações geográficas. Os direitos de autor são regidos pela Lei 4/90 de Março de 1990 e
pelo Decreto No. 14/88 de Junho de 1988. O IAPI está a rever a Lei 3/92 para a tornar conforme ao Acordo de
TRIPS. Na altura da redacção deste documento, a Lei 3/92 foi revista com a assistência da OMPI e com algum
apoio do Instituto Português de Propriedade Intelectual. A lei revisada foi apresentada à OMC para obtenção
de uma opinião jurídica e ao Conselho de Ministros para aprovação final. Apesar da lei submetida para
aprovação melhorar a Lei 3/92, está incompleta, especialmente no que se refere ao tópico de indicações
geográficas.
41 Consultar o pedido oficial de Angola à Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) em:
www.wipo.org/about-ip/en/ipworldwide/pdf/ao.pdf
56 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

jornalistas e dirigentes ou governantes. Ao mesmo tempo, podem ser considerados os


recursos de interpretação/tradução e para o ensino da língua inglesa. Especificamente no caso
do IAPI, poderia ser facultada a formação sobre os processos de pedidos e sobre a emissão de
patentes e de licenças compulsórias. Anteriormente, o IAPA já fez esses pedidos a dadores,
mas ainda não recebeu assistência técnica.

MINISTÉRIO DAS FINANÇAS


O Ministério das Finanças (MOF) está envolvido na formulação e implementação da política
comercial. Estabelece o quadro de política macroeconómica e da política de impostos,
incluindo os níveis tarifários.

Direcção Nacional das Alfândegas


A DNA é responsável pela implementação do Acordo do Valor Aduaneiro da OMC (Customs
Valuação Agreement - CVA), certificando a origem das exportações e verificando a origem
das importações. Desde a introdução de reformas com base no mercado, as alfândegas têm
estado a simplificar os procedimentos eliminando as licenças de importação e de exportação e
introduzindo um documento de importação simplificado, o Documento Único (DU), o qual
deve ser preenchido e apresentado à alfândega por um despachante alfandegário
devidamente credenciado, juntamente com o recibo original e um documento original do
conhecimento de embarque ou a carta de porte aéreo.

A DNA está actualmente a receber assistência da Crown Agents e um projecto concebido para
modernizar os seus procedimentos (ver o Capítulo 7). A DNA deve estar representada em
negociações comerciais tais como as pertinentes à SADC, ao EPA e à OMC. Concebeu um
conjunto abrangente de pedidos de assistência técnica e financeira, incluindo a assistência na
implementação do Acordo do Valor Aduaneiro da OMC, na classificação de produtos, na
realização de auditorias e investigações, na realização de auditorias internas, na redução da
corrupção e quanto às regras de origem. Também tem solicitado formação na língua inglesa.

Gabinete de Estudos e Relações Económicas Internacionais


O Gabinete de Estudos e Relações Económicas Internacionais realiza estudos
macroeconómicos, analisa os dados estatísticos comerciais e económicos e presta apoio na
preparação do orçamento nacional. O Gabinete recebe assistência técnica e financeira e foi
nomeado pelo governo como sendo o organismo que se ocupa da selecção dos candidatos
para formação quando, segundo a prática habitual, a OMC convidou as autoridades
angolanas a nomear candidatos para frequentarem o curso de política comercial da OMC, a
realizar em Genebra em 2006. Isto é um sinal de que dispõe de economistas capazes que
podem e devem ser formados em política comercial, a contrastar com a falta de capacidade
nos ministérios que se ocupam de política comercial e de questões da OMC e que deviam ser
os próprios a mandar os seus quadros para frequentar os cursos da OMC. A Agência
Americana para o Desenvolvimento Internacional (United States Agency for International
Development - USAID) oferece apoio através de um programa de gestão fiscal que ajuda a
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 57

produzir relatórios mensais sobre estatísticas financeiras. O Gabinete também dispõe de um


consultor que oferece assistência na análise de estatísticas económicas e comerciais. Não existe
uma assistência formal sobre política comercial, apesar do director do gabinete ter declarado
que essa assistência é importante e bem-vinda. Apesar do Gabinete dispor de alguma
capacidade de política comercial precisa de muito mais para participar na formulação e
implementação da política comercial.

A coordenação com outros ministérios parece ser inadequada ou mesmo não existente. Divido
à sua estreita relação com o Ministério das Finanças e o Ministério do Planeamento e do
Desenvolvimento, o Gabinete pode afectar significativamente a formulação da política
comercial, especialmente através de estudos económicos e comerciais. À medida que o
diálogo sobre a política comercial melhora, será importante trabalhar em estreita colaboração
com este Gabinete.

MINISTÉRIO DO PLANEAMENTO
O Ministério do Planeamento (MOP) é responsável pelo planeamento do desenvolvimento
nacional e por acompanhar e avaliar as tendências e as políticas económicas. O Plano do
Governo de 2005-2006, o Plano de 2025, e a Estratégia de Combate à Pobreza (ECP) são todos
desenvolvidos no MOP. Além disso, o Gabinete de Integração Económica Regional e o
secretariado da SADC de Angola estão no MOP.. Por conseguinte, o MOP deveria coordenar e
colaborar de perto com o MINCO, especialmente na implantação do Quadro Integrado.
Quando este documento estava a ser redigido, parecia ter sido alcançada muito pouca, se é
que alguma coordenação, entre o MOP e o MINCO. Os três departamentos principais do
MOP deviam estar muito mais empenhados em formular e em implementar a política
comercial: o Departamento de Planeamento e Estudos (DPE), o Instituto Nacional de
Estatística (INE), e o Secretariado da SADC de Angola.

Departamento de Planeamento e Estudos


O DPE encarrega-se da maioria da análise económica e comercial do Ministério. Trabalha em
estreita colaboração com o Banco Mundial, a UE e o PNUD, dos quais recebe financiamento e
assistência, inclusive para dois projectos: um deles para melhorar a gestão financeira e o outro
para a reconstrução multisectorial da economia. O DPE parece estar bem financiado e bem
capacitado. As suas necessidades de desenvolvimento das capacidades não são tão prementes
como noutros ministérios, especialmente no MINCO e no MIND. Mas, tendo em conta, a sua
capacidade para realizar a análise relacionada com o comércio, assim como o seu impacto na
ECP e nos planos de desenvolvimento nacional, deve passar a estar mais envolvido no
diálogo relacionado com o comércio e na implementação do Quadro Integrado.

Instituto Nacional de Estatística


O INE recolhe e compila dados de importação e de exportação, que põe à disposição das
entidades governamentais e depois, do público interessado. A disponibilidade e a exactidão
dos dados precisam de ser melhoradas. Pode levar até seis meses ou mais antes dos dados
58 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

ficarem disponíveis e, mesmo assim, os dados cobrem apenas valores. Dado que os dados não
são desagregados, é impossível determinar se as importações que entraram ao abrigo dos
direitos preferenciais foram isentas ou pagaram a taxa total. A análise da política comercial,
incluindo o efeito do Acordo da SADC, requer dados desagregados e oportunos. O INE e a
DGA precisam de coordenar melhor a compilação e a análise dos dados para acelerar a
divulgação para análise.

Secretariado da SADC de Angola


O Secretariado Nacional do Comité Nacional da SADC (CNS) foi criado em 2003 para ajudar a
coordenar, dirigir e implementar as políticas, as estratégias e os programas da SADC a nível
nacional; para responder a perguntas sobre a SADC; e para facilitar a troca de informações
entre a SADC e Angola, garantindo informações para os programas regionais da SADC e
assegurando que as decisões da SADC sejam implementadas em Angola. Com 16 funcionários
contratados a tempo inteiro, ajuda a promover a participação de intervenientes angolanos nas
actividades da SADC. Em coordenação com o MIND, criou um grupo multisectorial de
ministérios envolvidos na gestão da economia. Todas as decisões da SADC são comunicadas
através do CNS.

O CNS é um bom exemplo de uma agência com amplos recursos e um desempenho pouco
satisfatório. Se bem que todos os membros da SADC tenham que ter um Comité Nacional e
apesar de todos os quadros do CNS de Angola parecerem estar bem informados e serem
capazes, o tamanho, o orçamento e o número dos quadros utilizado para o manter a funcionar
é talvez excessivo, especialmente considerando as restrições orçamentais e de recursos em
Angola. Apesar de mais de três anos de pesquisa e do CNS e do MIND, Angola não tem sido
capaz de apresentar uma oferta tarifária, um forte indício de redundância. Além disso, a
pletora de participantes envolvidos na formulação e na implementação da política comercial
exacerba os problemas de coordenação, uma situação que o CNS só agrava. A racionalização
do CNS de forma a incluir as suas responsabilidades e as do MIND e da SADC sob o âmbito
do MINCO talvez sejam justificadas.

O CNS indicou que poderia beneficiar de um aumento da assistência técnica e financeira. Se


bem que o consultor brasileiro contratado para apoiar o MIND também possa prestar
assistência ao CNS, outros peritos poderiam apoiar, com base numa racionalização geral das
suas tarefas e utilização de recursos. O Southern Africa Global Competitiveness Hub (centro
de comércio para as exportações africanas) patrocinado pela USAID, apoiou o CNS a preparar
um relatório sobre a implementação do Protocolo Comercial da SADC em Angola.

MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS


O Ministério dos Negócios Estrangeiros tem dois departamentos envolvidos em política
comercial internacional: o Departamento de Cooperação Multilateral e o Departamento
Jurídico. O Departamento de Cooperação Multilateral segue todas as negociações comerciais,
tais com as da OMC, da SADC e do EPA, assim como as negociações bilaterais. Para além do
director e do director adjunto do departamento, dois funcionários capazes realizam o trabalho
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 59

Estabelecimento de Comissões
Nacionais
A formulação e implementação e a
participação da política comercial no
sistema comercial internacional
necessitam de comissões nacionais.
Por exemplo, a SADC, o Quadro
Integrado, o Projecto Conjunto de
Assistência Técnica Integrada (Joint
Integrated Technical Assistence
Project - JITAP), os EPA e a OMC,
todos eles requerem a criação de
comissões ou de comités nacionais.
Em muitos países em vias de
desenvolvimento, os indivíduos a
quem se pede que sirvam nessas
comissões são normalmente os
mesmos. O que tem demonstrado ser
útil é a formação de uma comissão
global sobre o comércio, cujos
membros também tratam de questões
relacionadas com outros programas
ou negociações, ou ambos, conforme
seja necessário. Angola tem um
Secretariado Executivo Nacional que
actua como mecanismo de interacção
entre o governo e a OMC.

do dia-a-dia. O departamento garante a atenção para o futuro desenvolvimento e reforço das


capacidades comerciais. Para além de assegurar que seja convidado a participar numa
formação comercial a curto prazo, será importante levar a cabo estudos e trocar informações
com este departamento. Este departamento identificou uma carência de conhecimentos de
inglês e de conhecimentos a fundo sobre as questões comerciais de ordem técnica como
obstáculos principais.

O Departamento Jurídico também acompanha as negociações e os acordos relacionados com o


comércio, levando a cabo uma análise legal antes de serem assumidos quaisquer
compromissos para com o sistema comercial multilateral. Antes de Angola assinar e
implementar acordos comerciais, este departamento fornece um parecer jurídico. Devido à
sua influência potencial sobre a política comercial, deveria ser trazido para o âmbito do
reforço das capacidades comerciais.
60 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Recomendações para Reforçar os Processos e as Instituições


Comerciais
Os ministérios que intervêm na política comercial operam num ambiente de jurisdições
sobrepostas e redundantes com linhas de autoridade pouco definidas. A racionalização das
responsabilidades poderia contribuir grandemente para uma melhor utilização dos escassos
recursos. Os ministérios também precisam de reforçar as capacidades dos quadros sobre o
comércio; apesar do grande número de folhas de pagamento de salários, apenas algumas
pessoas compreendem as questões e os problemas relativos ao comércio. Além disso, dados
comerciais e de investimento inadequados e inexactos dificultam as decisões sobre a política
comercial. Os dados sobre as necessidades comerciais precisam de ser melhorados e
disponibilizados oportunamente a fim de demonstrarem ser úteis para se proceder à sua
análise. Precisam de ser desenvolvidos currículos sobre economia política e política comercial
(ou solicitados a universidades que possuem currículos de política comercial) e
implementados nas universidades. Além disso a capacidade do sector privado para discutir
reformas comerciais e defender reformas precisa de ser reforçado. As recomendações que se
seguem destinam-se a ajudar Angola a racionalizar o seu sistema para formular e
implementar a política comercial, a fim de alcançar economias de escala.

CRIAR UMA ESTRATÉGIA NACIONAL DO COMÉRCIO


Angola deveria criar uma Estratégia Nacional do Comércio (ENC) para orientar a reforma
comercial a favor dos pobres. O desenvolvimento de uma ENC exigirá:

 Apoio de alto nível ao comércio, na medida em que é vital para a estratégia de


desenvolvimento do país;

 Coordenação eficaz entre os ministérios com objectivos unificadores de redução dos custos
de transacção, aumento da concorrência, e incremento das exportações;

 Colaboração e consulta intensivas entre os sectores público e privado;

 Desenvolvimento e prioritização das metas e das medidas para os alcançar; e

 Criação de um mecanismo para garantir a imputabilidade/responsabilidade e a avaliação


do progresso.

Além disso, uma ENC deveria fornecer uma estrutura institucional para habilitar uma
variedade de ministérios, agências e entidades do sector privado a participar no processo de
elaboração da política comercial.

ESTABELECER UM APOIO DE ALTO NÍVEL PARA A REFORMA DA POLÍTICA


COMERCIAL
A formulação e a implementação da política comercial devem ser promovidas a partir dos
mais altos níveis. A afirmação presidencial da importância do comércio como veículo para o
crescimento económico e a redução da pobreza demonstraria que Angola está a procurar
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 61

reduzir a burocracia e a diminuir os elevados custos das transacções suportados pelos


produtores e pelos possíveis exportadores. Proporcionaria também um forte indício sobre a
futura direcção política aos investidores locais e estrangeiros. Isto poderia ser seguido por
uma campanha para encorajar a apreciação entre os funcionários governamentais de nível
médio sobre como a liberalização comercial pode levar ao crescimento económico a favor dos
pobres.

Os quadros envolvidos nas alfândegas, inspecções, política e cobrança de taxas, registos


comerciais, questões relacionadas com o trabalho, a terra e outras questões, muitas vezes não
compreendem como as suas acções afectam as exportações e o emprego. Por exemplo, é
frequente que pequenas irregularidades existentes na documentação atrasem transacções
relacionadas com as importações, as exportações e as licenças comerciais. Quando as
empresas não podem concluir as suas transacções de forma oportuna, os atrasos e as
ineficiências resultantes reduzem a sua rentabilidade, custando empregos, receitas
provenientes de taxas e ganhos na conversão de divisas estrangeiras. Em vez de restringir o
comércio, as actividades oficiais devem, efectivamente, facilitar o comércio assim que os
funcionários estiverem cientes do efeito somatório das suas actividades nos negócios e assim
que a facilitação do comércio for apoiada por um mandato de alto nível para a mudança.

RACIONALIZAR OS DEPARTAMENTOS QUE SE OCUPAM DA POLÍTICA


COMERCIAL EM DIFERENTES MINISTÉRIOS
O número puro e simples de ministérios e de instituições, envolvido na política comercial cria
um sistema complexo e muitas vezes confuso. Para garantir a previsibilidade e a certeza sobre
quem se ocupa do quê na política comercial, recomenda-se que cada função comercial
importante seja claramente delegada a um ministério, para clarificar as linhas de autoridade e
de responsabilidade. Por exemplo, o MINCO seria o local lógico para centralizar a formulação
e a coordenação da política comercial. No entanto, a importância do MIND em relação a
vários aspectos da política comercial também deve ser reconhecida. A criação de uma clara
divisão de trabalho entre estas entidades, sob a direcção de um conselho interministerial
capaz de acções mandatárias apoiaria grandemente a criação de uma política comercial
coerente.

CRIAR UMA COMISSÃO INTERSECTORIAL DE ALTO NÍVEL SOBRE O COMÉRCIO


Angola beneficiaria do estabelecimento de um mecanismo para tomar decisões sobre política
comercial ao nível de todo o governo, numa base contínua. As estratégias de negociação
multilateral, regional e bilateral têm que ser integradas e os conflitos entre os mandatos
ministeriais, na medida em que afectam o comércio internacional, têm que ser resolvidos. Os
principais parceiros comerciais de Angola, nomeadamente a África do sul, a União Europeia e
os Estados Unidos, há muito que reconheceram o valor de uma política comercial coordenada
e possuem mecanismos de coordenação estabelecidos. Na verdade, a maioria das principais
nações que se dedicam ao comércio possuem uma única entidade com autoridade para levar a
cabo a sua política comercial. O mandato de uma unidade de coordenação deve ser
62 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

suficientemente forte para ultrapassar a propensão que os ministérios ocupados têm para não
considerar os objectivos da política comercial fora das suas jurisdições.

Existe sobreposição e redundância nos mecanismos de coordenação da política comercial. O


MINCO é a principal entidade responsável pela formulação da política comercial, mas outros
ministérios (tal como o MIND sobre questões da SADC) também participam. Presentemente,
o MINCO e o MIND formam comissões coordenadoras intersectoriais quando os problemas
surgem. Esta carência de um processo formal intersectorial que se ocupe de várias questões
simultaneamente (por exemplo, a SADC, o EPA, o Quadro Integrado), dissipa recursos e
tempo.

Pressupõe-se que o MOC/GII estabeleça e dirija o Comité Directivo Nacional do Quadro


Integrado. Também tem a responsabilidade de dirigir o Comité do Comércio da OMC. O
Comité Multisectorial da SADC para os EPA, assim como o Comité Nacional da SADC
também são dirigidos pelo MIND/GII. O número e a complexidade de questões que cada um
destes comités precisa de tratar, requerem muitas reuniões. O tempo e o esforço necessários
para organizar e reunir em cada um destes comités desgastam desnecessariamente tempo e
recursos preciosos. Seria aconselhável considerar unir os mandatos destas várias entidades
sob um único comité interministerial, tal como se propõe aqui.

Para além do número crescente de negociações e de acordos, existe o número crescente de


áreas substantivas que vão bem mais além das questões tradicionais de tarifas, quotas e
soluções comerciais. Os direitos e obrigações de comércio internacional, de Angola alargam-se
a normas de novos acordos comerciais para o sector têxtil, a agricultura, as medidas sanitárias
e fitossanitárias, os direitos de propriedade intelectual e os serviços. Além disso, a posição
competitiva dos produtores de Angola é afectada por uma vasta gama de políticas e práticas
governamentais: práticas alfandegárias, direito do trabalho, práticas de reembolso do IVA e
registo de empresas e companhias. Muitos ministérios e agências governamentais diferentes
estabelecem e administram estas políticas. O comércio internacional de Angola é
suficientemente significativo para que o país estabeleça um mecanismo que lhe permita tomar
decisões de política comercial ao nível de todo o governo numa base contínua.

Recomenda-se que seja estabelecido um comité de alto nível para o comércio, a fim de
coordenar e recomendar decisões sobre questões relacionadas com o comércio ao Vice-
Primeiro Ministro. O Comité Directivo Nacional do Quadro Integrado poderá ser capaz de
formalizar os vários comités intersectoriais num comité de coordenação da política comercial.

MELHORAR A FORMAÇÃO PROFISSIONAL E REFORÇAR AS CAPACIDADES


HUMANAS
As instituições angolanas relacionadas com o comércio sofrem de uma capacidade humana
muito limitada, de pobre coordenação interministerial e de uma fraca estrutura
organizacional. Apesar de numerosos ministérios estarem perifericamente envolvidos em
questões internacionais, concentrando-se ou especializando-se, muitas vezes, numa área, a
profundidade dos conhecimentos de cada ministério sobre assuntos relacionados com o
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 63

comércio pode ser melhorada significativamente. As tarefas de assistência técnica que


beneficiariam Angola incluem: (1) aumento dos conhecimentos sobre a OMC da parte do
governo e do sector privado; (2) reforçar as capacidades dos indivíduos e das instituições que
implementam os acordos comerciais, especialmente os funcionários técnicos e de nível médio,
nos sectores da agricultura, direitos alfandegários, pesca e indústria; (3) melhorar o controlo
da qualidade e a protecção do consumidor através de melhores equipamentos e formação
profissional dos quadros; (4) fornecer assistência e formação para identificar e ultrapassar os
problemas de acesso aos mercados externos; (5) fornecer assistência para criar decretos e
legislação local em conformidade com os acordos da OMC; e (6) fornecer assistência para a
preparação e participação nas negociações da OMC.
64 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

É necessária formação profissional para reforçar a capacidade do sector público e privado


para analisar opções de política e participar nas deliberações e negociações de política
comercial. Uma melhor compreensão dos benefícios e das obrigações da OMC e dos acordos
regionais e bilaterais também é necessária para Angola continuar a sua integração no sistema
comercial multilateral. Os assuntos importantes para Angola que foram identificados incluem
a agricultura, os serviços, as preferências comerciais, as regras de origem, as normas, a política
de concorrência, salvaguardas e medidas anti-dumping,
direitos de propriedade intelectual, questões de direitos Estrutura da OMC e descrição geral
dos acordos (acordos sobre
Formação Exemplificativa Relacionada
alfandegários, (por exemplo, auditoria a posteriori, regras mercadorias, serviços, TRIPS, com o Comércio
de origem) e negociações. Os conhecimentos de gestão no TPRM)
Mecanismos de resolução de litígios
sector privado também precisam de melhorar para que
Soluções comerciais (salvaguardas,
possam responder melhor às oportunidades comerciais. As
direitos anti-dumping, direitos de
empresas individuais e as associações comerciais poderiam compensação)

beneficiar de formação em análise de mercado, Economia da liberalização do


comércio
contabilidade, línguas, empresas e planeamento financeiro.
Agricultura
Barreiras técnicas ao comércio,
medidas sanitárias e fitossanitárias
Avaliação dos direitos alfandegários,
regras de origem, inspecção antes da
expedição, licenças de importação
Comércio de serviços
Acordos comerciais regionais
Negociações de acesso ao mercado,
técnicas de negociação
Programas incorporados, agenda de
Singapura, questões novas

A capacidade humana no sector público apresenta outro desafio. A rotação dos empregados é
alta e as aptidões e experiência são limitadas. Por conseguinte, a formação profissional deve
ser considerada como um problema estrutural a longo prazo, que requer intervenções a
muitos níveis. Dado que os níveis de aptidão no governo não só são inadequados, mas
também esparsamente distribuídos, a formação no trabalho deve ser fornecida, enquanto os
estudantes universitários de bacharelato ou de mestrado são formados.

Existe uma carência bastante grave de formação profissional em comércio e economia em


Angola (Anexo 5-1). Aptidões básicas, tais como a formação de informática, conhecimentos de
língua inglesa e de redacção, podem ser adquiridos em muitos centros de formação
espalhados pelo país. Mas a formação profissional sobre os conhecimentos que se exige dos
especialistas em questões comerciais é muito limitada em Angola. As universidades da África
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 65

do Sul estão a oferecer programas de curto prazo e com o nível de mestrado. 42 Estes
programas têm um preço razoável; os programas de mestrado custam menos de 20 por cento
dos programas equivalentes nos Estados Unidos. Também são ensinados em inglês, uma
língua essencial para quem desejar trabalhar na região ou sobre questões relacionados com a
OMC.

A equipa de avaliação crê que deverá ser posto à disposição o financiamento necessário para
que determinados funcionários do governo angolano possam frequentar, na África do Sul,
programas de formação profissional sobre comércio. A formação profissional deverá ser posta
à disposição de quadros do MINCO, do MIND, e de quadros seleccionados de outros
ministérios que estão envolvidos em questões de comércio internacional. Bolsas de estudo
universitárias devem ser postas à disposição de licenciados universitários prometedores que,
em troca dessas bolsas de estudo, têm que passar algum tempo a trabalhar para o MINCO,
para o MIND e para outras agências, após terem concluído a sua formação profissional. Dado
que muitos gerentes e administradores não querem abdicar por muito tempo dos seus
quadros melhores e mais produtivos para uma formação demorada, deverá ser considerada a
utilização de consultores para substituir o pessoal que se ausentará durante um período
longo. A assistência técnica às instituições de política comercial em Angola mal cobre as
necessidades, mesmo no MIND, que actualmente recebe a maioria dessa assistência.

Anexo 5-1
Formação relacionada com o comércio em Angola

Angola dispõe de muito pouco, se é que de uma Escola Comercial, mas não está a oferecer
algum, ensino superior em comércio e economia. muita formação devido a restrições de carácter
Algumas universidades, tais como a Universidade financeiro. Para que o desenvolvimento de
Católica, a Lusíada, a Agostinho Neto e os capacidades comerciais possa ter um efeito
Institutos de Ensino Superior, como o Piaget e o duradouro nas gerações actuais e futuras de
ISPRA, oferecem alguma formação profissional dirigentes e governantes e no sector privado,
em economia e administração de empresas. A deverá ser fornecida assistência técnica relacionada
Universidade Católica recebeu contratos do Banco com o comércio, pelo menos a uma universidade
Mundial para realizar análise económica e de em Angola. Por exemplo, um curso de nível de
dados e, nesse sentido, se for considerado mestrado em comércio internacional poderá ser
apropriado, poderá ser o melhor local para desenvolvido em conjunto com outra universidade
desenvolver um curso de mestrado em política na África do Sul, no Brasil, ou em Portugal.
comercial. O Ministério do Comércio também tem

42 As Universidades de Natal-Durban, de Cape Town e de Stellenbosch oferecem programas de mestrado em


comércio, financiados pela USAID, a partir deste ano. Duas vezes por ano, a Universidade de Cape Town
também oferece um curso executivo de duas semanas sobre Negociações Comerciais: Negociações Aplicáveis
ao Comércio Internacional. Consultar: www.commerce.uct.ac.za/tarpog.
66 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

IMPLEMENTAR ACORDOS DE COMÉRCIO INTERNACIONAL E ASSINAR


CONVENÇÕES INTERNACIONAIS
Angola deverá finalizar imediatamente a sua oferta de eliminação tarifária gradual e
apresentá-la ao SADC. Também deverá continuar a avaliar os benefícios decorrentes da
assinatura de acordos de comércio livre com os países que oferecem tais negociações; os
acordos de comércio livre poderiam oferecer benefícios significativos aos consumidores
angolanos e ao sector industrial. Os estudos do Secretariado da SADC discutidos acima
indicam que as exportações sul-africanas poderiam satisfazer uma vasta gama das
necessidades angolanas no sector industrial e de bens de consumo, nos quais a produção
nacional ainda tem que ser reabilitada. Angola também deveria solicitar assistência técnica
para implementar vários acordos da OMC, tais como o Acordo SPS/TBT, o CVA, e o TRIPS; e
para apresentar os seus compromissos no Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços
(General Agreement on Trade in Services - GATS) da OMC. Em relação à propriedade
intelectual, deveria considerar assinar as convenções de Paris, de Roma e de Berna.

REFORÇAR A CAPACIDADE DO SECTOR PRIVADO PARA ENCORAJAR A


REFORMA DA POLÍTICA COMERCIAL
O sector privado é o beneficiário imediato de uma estratégia de crescimento assente no
comércio. No fim de contas, uma tal estratégia destina-se a aumentar o acesso dos produtores
aos mercados estrangeiros, melhorando simultaneamente a sua capacidade para fornecer
esses mercados, mercados esses que têm um poder de compra muito superior ao dos
mercados nacionais. A contribuição do sector privado para a política comercial será crucial. O
sector privado deverá desenvolver a sua capacidade de política comercial e começar a
articular as suas posições sobre política comercial e procurar que o governo crie um ambiente
favorável a operações comerciais e ao comércio. As organizações sindicais também deverão
ser incluídas nas consultas públicas e privadas. Actualmente, a maioria dos produtores
angolanos estão acostumados a um ambiente no qual as principais restrições estão do lado da
produção, mas no qual a concorrência das importações está sempre presente. À medida que a
reabilitação da produção continua, os grupos de interesses privados irão pressionar para obter
protecção, tal como é comum acontecer noutras partes do mundo. Resistir a este tipo de
pressão, enquanto se fizer tudo o que estiver ao alcance para aumentar a rentabilidade das
actividades de exportação será o desafio para o futuro.

Um canal potencial para a contribuição do sector privado para a política comercial é a Câmara
de Comércio e Indústria de Angola (CCIA). A Câmara tem mais de 500 empresas como
membros directos e representa mais de 3 mil empresas e negócios através dos membros da
sua associação comercial. A CCIA já organiza formação para os seus membros e talvez seja
possível uma formação conjunta sobre a OMC, SADC, os EPA, economia e formulação de
política comercial com a formação existente da CCIA para alcançar um segmento maior do
sector privado e mais empresas e negócios. Isto seria mais eficaz do que a concentração
noutras associações comerciais por si só.
AS INSTITUIÇÕES COMERCIAIS E O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES 67

Uma conferência anual sobre comércio e o ambiente comercial para o sector público e privado
poderia demonstrar ser um fórum útil para fazer um inventário dos obstáculos ao
desenvolvimento comercial, à monitorização do progresso e à procura de consenso sobre a
reforma da política comercial.

REFORÇAR A RECOLHA, A DIVULGAÇÃO E A ANÁLISE DE DADOS


Em Angola os dados e a informação são escassos e a sua recolha e disseminação são
inconsistentes. Os dados sobre o comércio e o investimento, especialmente de estatística
comercial, não são nem adequados nem fiáveis. Os dados sobre o volume das exportações e
importações só podem ser obtidos das fontes originais e mesmo assim as unidades comuns de
medida nem sempre são utilizadas. Os dados fornecidos por diferentes ministérios e
departamentos governamentais, muitas vezes, são contraditórios ou inconsistentes. Tudo isto
dificulta:

 A análise do desempenho das exportações em geral, assim como nos mercados em que
Angola recebe acesso preferencial (por exemplo, no âmbito do Protocolo Comercial da
SADC);

 A identificação de alterações no volume das importações que afectam a robustez ou a


concorrência das indústrias nacionais;

 A previsão de tendências no comércio;

 A análise de opções da política comercial; e

 Os serviços de apoio adequados para os exportadores e importadores.

Algumas informações sobre o comércio estão disponíveis através do INE, do Banco Central e
das Alfândegas, mas o sector privado ou não tem conhecimento disso ou não sabe como
utilizar essas informações. Dados de estatística sobre mercados estrangeiros, mesmo os
mercados tão grandes e tão ricos em informações, como os dos Estados Unidos e da Europa,
ainda são mais raros.
6. Barreiras Comerciais
Tarifas
Angola aplica o tratamento de MFN (nação mais favorecida) a todos os seus parceiros
comerciais. As tarifas de Angola, tal como o seu sistema de importações em geral, têm sido
consideravelmente revistas e liberalizadas desde Maio de 1999, quando uma nova Pauta
Aduaneira baseada no Sistema Harmonizado (versão de 1996) foi introduzido. Nessa altura, a
taxa máxima dos direitos foi reduzida de 135 por cento para 35 por cento.

A última classificação tarifária para importações e exportações, baseada no Sistema


Harmonizado de 2002, com uma taxa máxima de 30 por cento, foi introduzida em 2005 sob o
Decreto-Lei No. 2/05.43 Segundo as autoridades, os objectivos da nova classificação tarifária
destinam-se a:

 Alinhar a estrutura tarifária com a do Sistema Harmonizado de 2002, segundo os requisitos


da OMC e da Organização Mundial das Alfândegas (World Customs Organization);

 Rever os direitos alfandegários para proteger a produção nacional sem prejudicar os


interesses dos consumidores e garantir o fornecimento de bens essenciais a preços
competitivos;

 Proteger a indústria nacional de práticas de dumping; promover, como uma estratégia e


com vantagens comparativas como um guia, um processo gradual de substituição para as
importações de bens essenciais e para relançar exportações de sectores não petrolíferos;

 Conceder benefícios tarifários aos sectores produtivos da economia e criar uma equidade
fiscal.

Especificamente, a estrutura da nova tarifa procura reduzir taxas tarifárias que afectam as
importações de matérias-primas; manter ou aumentar ligeiramente as tarifas sobre os
produtos acabados que podem ser adquiridos localmente em quantidade e qualidade
aceitável; impor taxas mínimas sobre bens essenciais e produtos intermédios que não são

43A pauta aduaneira de 2005 (em .pdf) está disponível em


http://www.ita.doc.gov/td/tic/ tarifa/ country_tarifa_info.htm#Angola.
70 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

produzidos localmente ou cujos níveis de produção não satisfazem as necessidades locais; e


impor taxas máximas sobre bens usados não incorporados em produtos locais. 44

CONSOLIDAÇÕES DAS TARIFAS MFN


Todas as tarifas alfandegárias de Angola estão consolidadas na sua classificação do GATT de
1994 (Classificação CXXIX). A média aritmética das taxas consolidadas é de 59,1 por cento. Os
direitos sobre os produtos agrícolas (definição da OMC) são consolidados na generalidade a
um limite máximo de 55 por cento, com algumas linhas consolidadas a taxas mais baixas de
10 por cento ou de 15 por cento. As tarifas consolidadas sobre produtos industriais são
geralmente estabelecidas a um limite máximo de 60 por cento, com algumas taxas a 80 por
cento. Esses limites das consolidações, se bem que sejam válidos no sistema da OMC,
proporcionam um âmbito considerável para os aumentos tarifários bem acima dos baixos
níveis actuais da maioria das tarifas aplicáveis em Angola.

DISPERSÃO TARIFÁRIA E MÉDIAS


A tarifa aplicada em Angola tem seis faixas de 2 por cento, 5 por cento, 10 por cento, 15 por
cento, 20 por cento e 30 por cento. Nenhumas linhas são isentas de direitos alfandegários. A
tarifa segue o Sistema Harmonizado ao nível de 8 dígitos. Entre as 5.384 linhas de tarifa na
classificação, 66 por cento (3.570 linhas) são classificadas a 2 por cento ou 5 por cento; 38,5 por
cento (2.074 linhas) são a 2 por cento e classificáveis como “taxas burocráticas” (Figura 6-1).
As duas taxas mais elevadas de 20 por cento e de 30 por cento aplicam-se conjuntamente a
10,5 por cento das linhas de tarifas, ou seja 565 linhas.

A simples tarifa MFN média aplicada em 2005 é de 7,4 por cento, por sector principal
(definição da OMC), a tarifa média sobre bens agrícolas é de 10 por cento (comparada com
uma média consolidada de 52,6 por cento), e a tarifa sobre bens não agrícolas é de 6,9 por
cento (comparada com 60,1 por cento de média consolidada) (Figura 6-1).

44 Informação fornecida pelas autoridades angolanas.


BARREIRAS COMERCIAIS 71

Figura 6-1
Decomposição das Taxas MFN Aplicadas, 2005
Number of tariff lines Percentage
2,500 100

90
(38.5)
2,000 80

70
Number of lines
(27.8)
1,500 Cumulated percentage (right hand scale) 60

50

1,000 40
(12.6) 30
(10.6)
500 (7.8) 20

(2.7) 10
(0.0)
0 0
0 2% 5% 10% 15% 20% 30%
Nota: Angola tem 5.384 linhas de tarifas; os números entre parêntesis correspondem à percentagem do total de linhas

FONTEAngola hasdo5,384
: Cálculos tariff lines;
Secretariado the figures
da OMC, in brackets
com base correspond
nos dados fornecidostopelas
the percentage
autoridadesofangolanas.
total lines.

WTO Secretariat calculations, based on data provided by the Angolan authorities.


PROGRESSIVIDADE TARIFÁRIA
A estrutura tarifária de Angola oferece um padrão diferente de progressividade tarifária e,
presumivelmente, de protecção eficaz. Isto é, para uma determinada actividade uma
protecção baixa ou não existente dos meios de produção conjugada com uma alta protecção
da produção implica uma margem de lucro potencialmente mais elevada, enquanto que
tarifas elevadas sobre os meios de produção e baixas ou não existentes sobre a produção,
reduziriam ou eliminariam mesmo as margens de lucro dos produtores nacionais. Com base
no nível de 2 dígitos dos títulos da ISIC (International Standard Industrial Classification), o
único sector com um padrão distinto de progressividade de tarifa é o de têxteis e vestuário.
Em geral, as tarifas descem progressivamente entre as primeiros e segundas fases de
processamento e a progressividade manifesta-se entre a segunda e a terceira; mas isto não é
compatível entre os sectores a este nível.
72 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Figura 6-2
Progressividade das Tarifas com base nas Indústrias de 2 Dígitos pela ISIC
Per cent
25.0

Raw materials Semi-processed Fully processed


20.0

15.0

10.0

NOT APPLICABLE

NOT APPLICABLE
5.0

0.0
All products

Food, beverages

Chemicals,

Non-metallic
mineral

Basic metal

Fabricated metal
Wood products

plastics

products
Textiles,

manufacturing
products

products
apparel

Other
Mining
Agriculture

Paper, printing

Nota: Os cálculos não têm em consideração as concessões tarifárias.

FONTE: Cálculos do Secretariado da OMC, com base nos dados fornecidos pelas autoridades angolanas.

CONCESSÕES DE DIREITOS E DE TAXAS


Uma vasta gama de concessões de direitos de importação está disponível para os investidores
em Angola. Um plano geral está disponível para os investidores em regiões prioritárias e
planos separados estão disponíveis para os investidores nas indústrias do petróleo, dos
diamantes e de mineração. Estas concessões estão ligadas a zonas de desenvolvimento
prioritário definidas na política de investimentos em Angola e à contribuição para projectos
de investimento com vista ao desenvolvimento destas zonas. A amplitude e a extensão das
isenções dos direitos das importações significam que virtualmente qualquer investidor pode
importar os bens necessários para a produção e o equipamento capital, assim como alguns
produtos para uso final, sem pagar direitos. (Consultar o Capítulo 8 para obter uma discussão
sobre estas isenções).

PREFERÊNCIAS TARIFÁRIAS
Presentemente, Angola não concede preferências tarifárias a importações provenientes de
qualquer fonte. A aplicação do Protocolo Comercial da SADC exigiria que Angola concedesse
tratamento preferencial a mercadorias da SADC; e as condições preferenciais acordadas
durante as negociações do Acordo de Parceria Económica (Economic Partnership Agreement -
EPA) com a União Europeia ainda não estão a ser aplicadas.
BARREIRAS COMERCIAIS 73

AVALIAÇÃO DO SISTEMA TARIFÁRIO


Em geral, é provável que as tarifas angolanas ofereçam níveis elevados de protecção eficaz aos
produtores nacionais em sectores seleccionados (ver o Anexo 6-1). 45 A maior parte das tarifas
sobre meios de produção industriais, bens capitais e equipamento são baixas, ou a níveis
“burocráticos” (2 por cento ou 5 por cento). Além disso, as concessões substanciais isentas de
direitos estão disponíveis para os investidores em zonas prioritárias, assim como para as
indústrias petrolíferas e mineira. A combinação de tarifas baixas e de concessões significa que
a maior parte dos investidores paga poucos ou nenhuns direitos alfandegários sobre meios de
produção, equipamento e bens capitais, pelo menos durante o período inicial (até 10 anos) das
suas actividades e, quanto às indústrias petrolíferas e de mineração durante o período de
duração das suas actividades. No outro extremo, um certo número de bens finais nacionais
“sensíveis”, incluindo certos materiais de construção, são taxados com direitos alfandegários
nominais relativamente altos de 20 por cento ou 30 por cento. Devido aos direitos baixos e às
concessões tarifárias sobre os bens usados na produção, a protecção efectiva do valor
acrescentado, nestas áreas, tem probabilidade de ser muitas vezes mais alta do que as taxas
nominais dos direitos sobre os bens finais indicariam.

Medidas não Tarifárias

INSPECÇÃO ANTES DA EXPEDIÇÃO


A inspecção antes da expedição das mercadorias com destino a Angola tem estado em vigor
desde 1980. O regime foi revisado, ao abrigo do Decreto 34/02 de 28 de Junho, de 2002 e do
Despacho 192/02 de 9 de Agosto de 2002, e uma nova agência de inspecção antes da
expedição (BIVAC International) foi nomeada por contrato até ao fim de 2005. O contrato foi
prorrogado para 2006.

Anexo 6-1
Direitos de importação, taxa efectiva de protecção e eficácia económica

A taxa efectiva de protecção mede até que ponto os direitos aplicadas à produção importada e os
direitos de importação protegem os produtores respectivos meios de produção. A TEP também
nacionais ineficientes, da concorrência das depende fortemente do conteúdo nacional da
importações. Consideremos uma firma nacional que actividade da produção. Os cálculos seguintes
produz óleo alimentar que vale USD 100 por mostram como o efeito de protecção pode ser
unidade no mercado mundial. Se os direitos de poderoso, assumido as mesmas taxas de direitos
importação sobre o óleo alimentar forem 25 por mencionadas acima:
cento, então a firma pode cobrar o equivalente de
Contéudo nacionalt TEP
até USD 125 na moeda local e, mesmo assim,
20% 115%
competir contra importações no mercado nacional.
40% 59%

45 A protecção eficaz é uma medida de protecção fornecida a uma indústria por toda a estrutura tarifária, tendo
em consideração os efeitos dos direitos sobre os meios de produção assim como sobre a produção. Ver
Corden, W. Max (1966).
74 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Suponhamos que a firma usa meios de produção 60% 40%


importados, que custam USD 60 no mercado 80% 31%
mundial, sujeitos a uma taxa média dos direitos de 100% 25%
2,5 por cento, o custo dos meios de produção no As conclusões que se podem tirar daqui são de certo
mercado nacional é de USD 61,5. Esta firma pode modo dignas de nota. Primeiro, os diferenciais
enfrentar ou ultrapassar a concorrência da tarifários em vigor em Angola podem dar guarida a
importação, desde que a margem entre o preço da actividades altamente ineficientes. Segundo, as
produção e o custo dos meios de produção tarifas de protecção favorecem investimentos com
importados não exceda USD 125 – USD 61,5 = USD um baixo conteúdo nacional; esta distorção
63,5, o valor nacional acrescentado. No mercado desencoraja o desenvolvimento de integrações
mundial, os produtores competitivos convertem os verticais. Terceiro, níveis muito elevados de
mesmos meios de produção em óleo alimentar com protecção podem ser empregues sem reduzir a zero
uma margem de valor acrescentado de USD 100 – o direito sobre meios de produção importados.
USD 60 = USD 40.
Em Angola, muito pouca produção industrial possui
A taxa efectiva de protecção é a diferença entre o uma alta percentagem de conteúdo nacional. Por
valor nacional acrescentado e a margem do valor conseguinte, em alguns casos, a protecção efectiva
acrescentado, expresso como uma fracção da poderia ser aumentada reduzindo simplesmente as
última, que representa a norma competitiva tarifas sobre os meios de produção, em vez de
internacional. Neste caso, a taxa efectiva de aumentar as tarifas sobre as importações em geral,
protecção (TEP) é como alguns sugerem, de acordo com uma política
geral que favorece a liberalização.
TEP = (UDS 63,5 – UDS 40)/USD 40 = 59%
Calcular as TEPs com precisão em Angola requer
A isto se chama a taxa efectiva de protecção, porque
estudos de custo detalhados que identificam
mostra até que ponto a produção nacional é
proporções precisas de meios de produção nacionais
protegida, na medida em que o processo de
e importados para os produtos individuais. Esses
transformação pode operar a um custo mais
estudos servirão de base para uma futura análise e
elevado de 59 por cento (neste exemplo) do que os
formulação da política.
rivais internacionais e ainda competir no mercado
nacional. O nível da TEP depende das taxas dos

Nota: Conteúdo nacional é definido como a diferença entre o valor do produto e o custo por unidade dos meios de produção
importados (avaliados aos preços no mercado mundial).

FONTE: Nathan Associates Inc., 2004.

Segundo o Decreto 34/02, todas as mercadorias e bens importados por pessoas colectivas, de
um valor CIF de USD 5.000 ou mais, estão sujeitas a uma inspecção antes da expedição; para
importações pessoais, o limite mínimo é de USD 10.000. 46

A fim de emitir um relatório claro sobre os resultados, a BIVAC exige que o comerciante
forneça a factura comercial e o documento de transporte, juntamente com outros documentos
específicos mencionados acima. Um relatório da inspecção não negociável é emitido para o
importador, no caso da inspecção revelar inconformidade e as discrepâncias não forem

46 Folha de dados da BIVAC, Inspecção antes da Expedição das Importações para Angola. Disponível na
Internet em: http://www .bivac.com/ webapp/servlet/FileServlet?
mode=preview&downloadfile=/693ANGOLA+Data+sheet+Rev+7.pdf.
BARREIRAS COMERCIAIS 75

corrigidas, ou se a documentação completa não for entregue pelo exportador dentro de 30


dias a seguir à inspecção.47

A Direcção-Geral das Alfândegas visa eliminar gradualmente a inspecção antes da expedição,


à medida que são reforçadas as capacidades para aplicar o Acordo da OMC sobre a
determinação do valor aduaneiro (WTO Agreement on Customs Valuation). 48 As autoridades
afirmam que a capacidade das alfândegas para estabelecer o valor e a classificação dos bens e
mercadorias está a ser reforçada através de uma formação intensa de quadros técnicos; isto
inclui formação sobre inspecções após as importações e auditoria das mercadorias.

DETERMINAÇÃO DO VALOR ADUANEIRO


Na altura da reunião de Revisão da Política Comercial da OMC em Fevereiro de 2006, Angola
estava a utilizar a Definição de Valor Aduaneiro de Bruxelas e o conceito de “preço normal”
nela contido como base para a sua determinação de valor aduaneiro. 49 O preço normal pode
ser geralmente aceite como o valor contido no documento de importação relevante ou como o
valor quando os bens ou mercadorias são entregues ao comprador no porto ou no ponto de
entrada no território angolano. Os direitos de importação baseiam-se no valor CIF dos bens
no ponto de entrada.

As autoridades notam que, segundo os Artigos I e II da Definição de Valor Aduaneiro de


Bruxelas, a agência encarregada da inspecção antes da expedição estabelece o valor dos bens
com base no preço pago ou a ser pago. Em caso de discórdia, o valor é estabelecido em relação
a bens ou mercadorias idênticos ou semelhantes exportados para Angola do mesmo país de
origem ou pelo mesmo exportador. Segundo a BIVAC, existem 10.084 expedições
sobrefacturadas de Março de 2002 a Outubro de 2004, avaliadas em USD 18,6 milhões e 10.166
expedições subvalorizadas, avaliadas em USD 95,6 milhões.

Uma nova legislação aduaneira (ou Pauta Aduaneira) incorporando as disposições do Acordo
da OMC sobre a determinação do valor aduaneiro, foi aprovada pelo Conselho de Ministros
em Maio de 2005 e pela Assembleia Nacional em Agosto de 2005. A nova pauta aduaneira
entrará em vigor 90 dias após a publicação do Decreto-Lei correspondente no Diário da
República. A entrada em vigor da nova pauta aduaneira permitirá a adopção do método da
OMC de determinação do valor aduaneiro; foi criada uma unidade de determinação do valor
aduaneiro para apoiar este processo.

REGRAS DE ORIGEM
Angola possui um único conjunto de regras de origem para as importações de todas as fontes
e a todas é aplicado o tratamento de MFN. A tarifa aduaneira de 2005 especifica que se
considera que os produtos são originários de determinado país se forem “completamente
obtidos” nesse país (minérios extraídos, plantas crescidas, animais nascidos e os produtos

47 Folha de dados da BIVAC, Inspecção antes da Expedição das Importações para Angola.
48 Decreto de 05/04 de 15 de Janeiro de 2004 e Adenda de 11 de Maio de 2004.
49 Decreto-Lei de 2/05, Artigo 6. O preço normal é definido como o preço que se obteria, na altura da inspecção
pela alfândega, numa transacção livre entre um comprador e um vendedor independentes.
76 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

obtidos desses animais, produtos de caça e pesca, produtos extraídos do solo ou do subsolo,
resíduos e fragmentos de produtos completamente obtidos, bens produzidos a partir de
produtos previamente mencionados ou em navios-fábrica registados no país, bens dos quais
25 por cento do custo da produção é da responsabilidade do país, ou bens que foram
submetidos à última fase de processamento no país). Quando a produção de um produto é
levada a cabo em um ou mais países, o país de origem é o último país onde a “transformação
economicamente justificável” se realizou, resultando num novo produto ou numa fase muito
importante da sua produção. Valor acrescentado adicional de menos de 25 por cento não
concede situação de origem das mercadorias. As operações que têm em vista a conservação e
outras operações simples não são consideradas como transformação economicamente
justificável.50

Os regulamentos aduaneiros exigem que os bens e mercadorias importados sejam


acompanhados por uma prova de origem documental, sob a forma de um certificado de
origem ou documento equivalente, emitido por uma organização responsável no país de
origem e apresentando garantias adequadas.51

A participação no Protocolo Comercial da SADC exigirá que Angola solicite regras de origem
da SADC quando apresentar um plano de redução tarifária para os produtos com origem na
SADC. Da mesma forma, a participação da SADC num EPA com a União Europeia exigirá a
adopção de regras de origem adequadas. Por conseguinte, as regras de origem em Angola têm
probabilidade de se tornarem mais complexas no futuro.

OUTROS IMPOSTOS E TAXAS


Para além dos direitos de importação, todas as importações estão sujeitas ao imposto de
consumo, que está indicado na Pauta Aduaneira juntamente com os direitos de importação
numa base de linha por linha. As taxas do imposto de consumo são 2 por cento, 10 por cento,
20 por cento e 30 por cento. À grande maioria dos produtos é imposta uma taxa de 10 por
cento; as taxas de 20 por cento e de 30 por cento são aplicáveis sobretudo a produtos de
“luxo” (por exemplo, certas jóias, carros com motores de maior cilindrada), enquanto que a
taxa de 2 por cento é aplicável a uma variedade de produtos “básicos” (por exemplo,
sabonetes, mas não detergentes) ou em alguns casos, bens de meios de produção ou máquinas
industriais. As autoridades declaram que a taxa de 2 por cento é aplicada ao equipamento que
se destina a promover a reindustrialização de Angola, enquanto que a taxa de 10 por cento é
aplicada sobretudo a produtos para uso doméstico e outras máquinas cujo fabrico é possível
em Angola. A diferenciação nas taxas do imposto de consumo reforça a protecção eficaz
proporcionada pela estrutura tarifária. Dado que a maioria dos produtos têm que ser
importados, o imposto de consumo, efectivamente constitui outra taxa sobre as importações.
No entanto, a maioria das importações são produtos acabados e, por isso os impostos “em
cascata” são minimizados, mas o efeito cascata poderá vir a ser um problema significativo no
futuro. Além disso, os requisitos burocráticos e de controlo associados ao imposto do IVA são

50 Decreto-Lei 2/05, Artigos 20 e 21.


51 Decreto-Lei 2/05, Artigo 22.
BARREIRAS COMERCIAIS 77

demasiado dispendiosos para implementar actualmente, mas isto também poderá mudar à
medida que a produção nacional é reactivada.

OUTROS DIREITOS
Outros direitos que estão em vigor:

 Imposto de selo de 0,5 por cento sobre o valor CIF dos produtos (valor aduaneiro) (Decreto
Executivo 71/04 de 9 de Julho)

 Taxa geral aduaneira de 2 por cento sobre o valor aduaneiro (Decreto-Lei 11/01)

 Emolumentos pessoais de 1 por cento do valor aduaneiro para as mercadorias consignadas


avaliadas até Kz 700.000,00; para produtos avaliados de 700.0000,00 até 1.800.000,00 pagam
um valor de Kz 1.800,00 e para mercadorias avaliadas acima de 1.800,00 pagam um valor de
Kz 2.000,00.

 “Subsídios” para transporte e movimentação dos produtos e do pessoal aduaneiro


(Subsídios de Transportes e Deslocações), para os produtos expedidos por mar, Kz 0,35 por kg,
com um valor mínimo de Kz 15.500 e um valor máximo de Kz 28.000; e produtos expedidos
por via aérea, Kz 12,80 por kg, com um valor mínimo de Kz 4.500 e um valor máximo de Kz
9.000.

Angola não assumiu nenhuns compromissos vinculativos referentes a “outros direitos e


taxas” da sua classificação tarifária da OMC.

PROIBIÇÕES DE IMPORTAÇÕES E CONCESSÃO DE LICENÇAS


O artigo 30 da Pauta Aduaneira de 2005 especifica os bens e mercadorias que é proibido
importar. O artigo 31 especifica os bens e mercadorias que estão sujeitos a um regime especial
de aprovação de importações. Estas medidas estão a ser aplicadas para fins sanitários, de
segurança e de protecção.

EMPRESAS DO ESTADO
A principal lei angolana que rege as empresas públicas é a Lei No. 9/95 de 15 de Setembro de
1995. Angola não tem notificado a OMC sobre quaisquer actividades comerciais do estado
levadas a cabo por entidades no âmbito das disposições do Artigo XVII: 4(a) do GATT de
1994. Angola mantém mais de 60 empresas que são propriedade do estado dedicadas a
actividades relacionadas com o comércio em indústria fabril, engenharia, serviços de utilidade
pública, transacções comerciais, finanças, radiodifusão e telecomunicações.

CONTRATOS PÚBLICOS
Angola não é signatário do Acordo Plurilateral da OMC sobre Contratos Públicos (Plurilateral
Agreement on Government Procurement). As autoridades não forneceram informações sobre
78 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

procedimentos e praticas relativos a contratos públicos. Segundo fontes publicadas, 52 o


governo de Angola solicita licitações para mercadorias e serviços 15 a 90 dias antes do prazo
para as licitações. Em geral, os documentos da licitação são obtidos de um ministério,
departamento ou agência governamental específico e sujeitos a uma taxa não reembolsável.
Regra geral, as licitações completas, juntamente com um depósito de garantia especificado,
são submetidas directamente ao ministério em questão. A mesma fonte também comenta que
“o processo de licitação, muitas vezes, não cumpre as normas internacionais de objectividade
e transparência. Além disso, as informações sobre projectos e propostas governamentais não
estão prontamente disponíveis por parte das autoridades apropriadas e as partes interessadas
devem gastar um tempo considerável a pesquisar”.

NORMAS E OUTRAS EXIGÊNCIAS TÉCNICAS


As actividades de normalização em Angola, com excepção das que se relacionam com a saúde
animal e as condições fitossanitárias, estão sob a autoridade do Instituto de Normalização e
Qualidade (IANORQ), estabelecido em Outubro de 1996. 53 Os objectivos do IANORQ são
coordenar e gerir as actividades de normalização, no sentido de formular normas e
documentos relacionados. As suas actividades são delegadas para comités técnicos e participa
em subcomités do Codex Angola (Comité Nacional para o Código Alimentar). O IANORQ
abrange todas as áreas referentes a normas, avaliação da qualidade, certificação e metrologia.

O IANORQ é membro correspondente da Organização Internacional para Normalização


(International Organization for Standardization - ISO) e membro do Programa do País
Afiliado (Affiliate Country Program) da Comissão Electrotécnica Internacional – CEI
(International Electrotechnical Commission - IEC). Como membro da SADC e da SADCAS,
Angola participa, através do IANORQ, no Programa da SADC de Normalização, Garantia de
Qualidade, Acreditação e Metrologia. Os objectivos deste programa de qualidade da SADC
são “a eliminação progressiva de barreiras técnicas ao comércio entre os Estados Membros e
entre a SADC e outros blocos regionais e internacionais de comércio e a promoção de
qualidade e de uma infra-estrutura para a qualidade nos estados membros”. 54 Até agora,
foram harmonizadas normas para 19 produtos, 55 e a SADC adoptou as directrizes ISO para
testes e ensaios, calibração, acreditação de organismos de certificação, sistemas ambientais e
outros. Angola está a adoptar algumas normas ISO, mas a implementação das normas
harmonizadas da SADC é limitada devido à falta de tradução para português das normas
relevantes.56

52 USTR 2005.
53 Decreto 31/96.
54 Informações disponíveis em: http://www.sadc-sqam.org/regionalsqam/sqamobjectives. html.
55 Estes são cimentos comuns; cimentos de alvenaria; pneus e pneus recauchutados para veículos automóveis e
atrelados; peixe enlatado, os seus produtos e moluscos; crustáceos enlatados; peixe congelado, produtos e
moluscos, lagostas congeladas e moluscos e camarões, lagostins e caranguejos congelados; instalações
eléctricas; dispositivos de protecção para as crianças; cintos de segurança; sinais de trânsito; enquadramento
para portas e caixilhos para janelas; refrigerantes; e sinais de segurança para colocar em edifícios e fábricas.
Para obter uma lista completa, consultar a informação online da SADC. Disponível em:
http://www.sadcstan.co.za/ Sadcstan_Projects.aspx .
56 Informação sobre a SADC online. Disponível em: http://www.sadcstan.co.za/Harmonized_Standards.aspx.
BARREIRAS COMERCIAIS 79

Angola está a envidar esforços para estabelecer um organismo de acreditação; até agora, não
existe nenhuma regulamentação que abranja questões de acreditação. Um ponto focal de
acreditação nacional foi designado. O IANORQ assumiu as responsabilidades e está a actuar
como ponto nacional de investigação sobre as normas. As autoridades afirmaram que
notificarão a OMC sobre este facto.

Durante o período de 2002 a 2004, foi formulada uma versão preliminar das normas nacionais
pelo IANORQ sobre sal, farinha de trigo, farinha de milho, trigo e milho em grão, culturas
antecipadas e principais de batatas, leite em pó, manteiga, margarina, óleo de girassol, águas
minerais naturais e peixe salgado seco, incluindo bacalhau. A versão preliminar da legislação
foi redigida sobre rotulagem e especificações técnicas de produtos em português e condições
para a comercialização de carne e de produtos à base de carne, peixe e produtos à base de
peixe e pão e produtos à base de pão.

Medidas Sanitárias e Fitossanitárias


Em 1990, Angola juntou-se ao Codex Alimentarius da FAO (Organização das Nações Unidas
para a Agricultura e Alimentação). Em relação a medidas sanitárias e fitossanitárias, as
autoridades estabeleceram o comité Codex Angola no Ministério de Agricultura e
Desenvolvimento Rural em 2003.57 O director da Direcção Nacional de Comércio Internacional
(DNCI) no Ministério do Comércio é o presidente do Codex Angola, e o director do IANORQ
é o presidente adjunto. Os objectivos do Codex Angola são: proteger a saúde do consumidor;
acompanhar a harmonização das normas e dos padrões internacionais; assegurar práticas
leais do comércio em produtos alimentares e promover e coordenar para Angola o trabalho
por governos, organizações internacionais e ONGs no sector de normas alimentares. No
âmbito do país, as suas incumbências consistem em prestar apoio técnico e contribuições para
as normas alimentares e os regulamentos técnicos; servir de ponte entre a indústria agrícola e
alimentar, os produtores, os comerciantes e os consumidores; apoiar o governo a tomar
decisões políticas e técnicas em campo. Nesse sentido, foram estabelecidos comités provinciais
do Codex em Cabinda, Benguela, Húila, Namibe e Kuanza Sul.

As medidas de saúde pública são regulamentadas pela Lei No. 5/87, que estabelece o
Ministério da Saúde como o principal ministério responsável. A lei consulta as normas da
OMS em relação a venenos e níveis tolerados de pesticidas ou de outros produtos químicos
em alimentos.

Nos últimos anos, o Codex Angola tem preparado propostas para adoptar princípios gerais
internacionais sobre higiene alimentar; um memorando sobre política para os organismos
geneticamente modificados e uma proposta para o Conselho de Ministros sobre uma
regulamentação referente a importações e à utilização de sementes e cereais geneticamente
modificados; e propostas sobre a utilização de aditivos alimentares, inspecção e certificação de
alimentos, sal iodado, farinha de trigo, farinhas de milho e de sorgo e óleo de girassol. O
Codex Angola também tem organizado conferências sobre regulamentos alimentares e
controlo da qualidade dos bens de consumo, assim sobre organismos geneticamente

57 O Decreto No. 58/2003, estabeleceu o Comité Nacional para o Codex.


80 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

modificados.58 Tem avaliado a capacidade de laboratórios de análises em Angola, apresentado


ao governo propostas sobre a protecção do consumidor e a segurança e as propostas para
melhorar os sistemas de distribuição para carne, peixe, pão e produtos relacionados.

Angola anunciou que o Codex Angola é a sua autoridade nacional de notificação sobre
medidas sanitárias e fitossanitárias ao comité relevante da OMC. 59

Apesar destes esforços, ainda há muito a fazer para apresentar medidas sanitárias e
fitossanitárias e para melhorar a capacidade de Angola para aplicar essas disposições. Na
primeira assembleia-geral do Codex Angola, realizado em 28 de Fevereiro de 2005, foram
identificadas as seguintes necessidades: a necessidade de que todos os membros da rede do
Codex se envolverem activamente; a necessidade urgente de formular normas nacionais sobre
produtos alimentares; a necessidade para reforçar a situação financeira do secretariado do
Codex; a necessidade urgente de melhorar as capacidades técnicas dos membros do
subcomité; a necessidade de criar mais subcomités provinciais para o Codex Angola; a
necessidade de melhorar a comunicação com instituições sociais, produtores, comerciantes e
consumidores; a necessidade de reforçar as capacidades dos laboratórios; a necessidade de
estabelecer um rápido sistema de alerta para confiscar produtos contaminados ou perigosos; e
a necessidade de cooperar mais de perto com organismos regionais e internacionais.

A reunião propôs várias recomendações destinadas a reforçar as capacidades técnicas e


humanas dos laboratórios angolanos; racionalizar os gastos com as deslocações e viagens e
garantir uma contabilidade apropriada e informações adequadas; criar mecanismos práticos
para controlar a entrada no país de organismos modificados geneticamente; reforçar a
estrutura do trabalho sobre aditivos, contaminantes, e resíduos de pesticidas em produtos
alimentares e em resíduos de medicamentos veterinários; estabelecer um subcomité sobre
rotulagem de alimentos; e publicar directrizes para inspecções de fábricas e de explorações
agrícolas. Também se recomenda que Angola deposite o seu instrumento de aceitação do
Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (PCB). 60

Na reunião do segundo aniversário do Codex Angola, o presidente do Comité Nacional


reiterou cinco preocupações principais: o nível de contrabando, as imitações e falsificações, e a
venda de produtos alimentares suspeitos no país; a falta de capacidade de análises
laboratoriais para aditivos, contaminantes e hormonas; a ausência de normas alimentares
actualizadas na legislação nacional; a isenção de muitos produtos alimentares da inspecção
antes da expedição; e a falta de uma sede nacional para a Codex Angola. Solicitou a criação de
uma rede de laboratórios de referência nacional, acreditados a nível nacional e internacional, a
cooperação estreita com o FAO-Codex Alimentarius; reforçar as capacidades nacionais
através da formação profissional; e a publicação e aplicação das medidas sanitárias e
fitossanitárias internacionais.61

58 Informação fornecida pelas autoridades.


59 Vero o documento da OMC G/SP/NNA/8.
60 Informação sobre a DNCI. Disponível em: http://www.dnci.net/codex/noticias.asp.
61 Apresentação pelo Dr. Gomes Cardoso, Presidente do Comité Nacional do Codex Angola, 30 de Maio de
2005.
BARREIRAS COMERCIAIS 81

Símbolos, Rotulagem e Empacotamento


Segundo a BIVAC, a rotulagem em português é aconselhável para produtos alimentares,
perfumes e cosméticos, produtos farmacêuticos e químicos. Recomenda-se que as embalagens
individuais de produtos relevantes contenham as seguintes informações obrigatórias: 62

 Produtos alimentares — nome do produto, nome do produtor, número do lote, condições


de armazenamento, datas de produção e de validade, composição da gordura, volume,
percentagem de álcool e outras informações. A restante duração em armazenagem deve ser
de seis meses (cinco meses para comercialização e um mês para transporte).

 Produtos farmacêuticos — nome do fabricante, rótulo, nome do produto, quantidades


básicas das composições, número de lote, origem e fabrico e datas de validade em cada
embalagem de venda a retalho. A restante duração em armazenagem para os
medicamentos não deveria ser inferior a 50 por cento da duração total do produto em
armazenamento, com um mínimo de seis meses.

 Cosméticos e produtos de perfumaria — nome do fabricante, nome da marca, percentagem


de álcool, descrição, fornecedores/vendedores, datas, e outras informações afins. As
embalagens protectoras têm que estar marcadas com os termos “Frágil” ou “Vidro” ou
outras indicações afins.

 Produtos químicos — nome do produto, composição química, volume, recomendações de


manuseamento, Organização Marítima Internacional (OMI) – código de “International
Maritime Dangerous Goods”para produtos perigosos, 63 peso bruto e peso líquido, nome da
entidade importadora e destino.64

Incentivos à Exportação
Angola não tem zonas de processamento das exportações, subvenções para as exportações,
nem um organismo oficial de promoção das exportações.

62 Despacho 192/02, Anexos 1-4.


63 Informação online sobre a OMI. Disponível em: http://www.imo.org/Safety/mainframe.asp? topic_id=158.
64 Consultar a ficha de dados da BIVAC, Inspecção antes da Expedição de Importações para Angola.
Disponível em: http://www.bivac.com/webapp/servlet/FileServlet?
mode=preview&downloadfile=/693ANGOLA+Data+sheet+Rev+7.pdf.
7. Facilitação do Comércio
Direcção Nacional das Alfândegas
A Direcção Nacional das Alfândegas faz parte do Ministério das Finanças. Dispõe de 783
funcionários activos, dos quais 427 se encontram na região de Luanda; os outros 356 estão na
região norte (Cabinda), na região central do sul (Lobito) e na região sul (Namibe). Existem
planos para transformar a Direcção Nacional das Alfândegas em um Instituto com
personalidade jurídica e com autnomia financeira.

Antes de Setembro de 2000, a Direcção Nacional das Alfândegas carecia de direcção e estava
sobrecarregada de sistemas e de procedimentos ineficientes e insuficientes. A sua capacidade
para cobrar receitas, detectar fraudes e subterfúgios e facilitar o comércio legítimo tinha sido
seriamente reduzida. Tanto o sector público como o sector privado consideravam que a
Direcção Nacional das Alfândegas era ineficiente, insuficiente e mal administrada. A falta de
confiança nas alfândegas resultou num aumento de procedimentos burocráticos que
continuavam a não ser suficientes para resolver o problema básico de controlo do movimento
de produtos e mercadorias através das fronteiras do país. As deficiências na cobrança das
receitas constituíam um problema específico. Segundo as administrações dos portos e das
alfândegas, 80 por cento dos atrasos em desalfandegar as mercadorias e os produtos no porto
de Luanda são devidos actualmente aos pagamentos atrasados dos importadores. No
aeroporto esta situação e cerca de 60 por cento. O preenchimento incorrecto do Documento
Único causa atrasos de 7 por cento dos casos no porto, e de 14 por cento dos casos no
aeroporto de Luanda.

O governo decidiu implementar o Programa de Modernização e Expansão das Alfândegas


para racionalizar a administração das receitas do país. Os objectivos principais do programa
eram aumentar as receitas, facilitando simultaneamente o processo de desalfandegamento e
reduzindo os custos das transacções para as alfândegas e para os comerciantes. A uma
empresa independente, a Crown Agents, foi adjudicado um contrato de cinco anos para
administrar as operações da Direcção Nacional das Alfândegas e apoiar a implementação do
Programa de Modernização e Expansão das Alfândegas. A assistência técnica da Crown
Agents tinha os seguintes objectivos principais:

 Desenvolver os conhecimentos técnicos do pessoal aduaneiro a todos os níveis;


 Fazer recomendações sobre melhoramentos na legislação, nos sistemas e procedimentos
alfandegários;
 Implementar um sistema informático integrado de informação e gestão aduaneira;
 Recomendar os melhoramentos dos termos e condições do emprego do pessoal aduaneiro;
 Instituir medidas para aumentar a responsabilidade e a transparência das operações
alfandegárias;
 Investir na infra-estrutura, ferramentas e equipamento exigido pelo pessoal aduaneiro.

O Ministério das Finanças estabeleceu a Unidade Técnica para a Modernização das


Alfândegas destinada a gerir e monitorizar o Programa de Modernização e Expansão das
Alfândegas. O programa continua a estar sob o domínio do Ministro das Finanças e a unidade
está subordinada ao gabinete do Ministro das Finanças.

Antes do Programa de Modernização e Expansão das Alfândegas, 119 leis relacionadas com
questões alfandegárias e criadas pelos portugueses entre 1931 e 1967, ainda estavam em vigor.
O Programa de Modernização e Expansão das Alfândegas incluiu os componentes que se
seguem para modernizar a legislação alfandegária:

 Nova redacção de uma Pauta Aduaneira consolidada;

 Nova legislação em conformidade com os requisitos de avaliação da OMC e a criação de


um novo Código Aduaneiro e seu Regulamento;

 Transição da Definição de Valor Aduaneiro de Bruxelas para os métodos de avaliação da


OMC;

 Eliminação do programa de inspecção antes da expedição e passagem da responsabilidade


de avaliação para as alfândegas de Angola;

 Formação sobre avaliação para o pessoal aduaneiro e para os comerciantes.

A nova Pauta Aduaneira, em conformidade com os regulamentos internacionais, foi


aprovada. Apresenta muitas modificações que afectam as operações alfandegárias e as
relações com as empresas e negócios, tal como um novo método de avaliação (compatível com
o Acordo sobre Avaliação de Direitos Alfandegários da OMC), um mecanismo de resolução
de litígios e uma melhor definição de transgressões às formalidades alfandegárias. 65

Os procedimentos de desalfandegamento têm sido modernizados, simplificados e acelerados


desde 2000 através das medidas seguintes:

 Apresentação de um único documento administrativo, o primeiro país membro da SADC a


fazer isso, segundo as autoridades angolanas;

 Adopção do Sistema Harmonizado de classificação tarifária;

 Implementação de um sistema de processamento informatizado e a adopção de controlos


baseados no risco, para exames físicos selectivos;

65 A SADC também está a preparar uma pauta aduaneira para os estados membros, mas uma primeira análise
verificou que a pauta aduaneira angolana está mais actualizada do que a pauta aduaneira proposta pela
SADC.
FACILITAÇÃO DO COMÉRCIO 85

 Clarificação sobre a legislação alfandegária;

 Melhoramento das aptidões e dos conhecimentos técnicos do pessoal alfandegário; e

 Redução das oportunidades de corrupção ao nível alfandegário.

Os agentes de expedição, os importadores e os exportadores têm afirmado em entrevistas que


os novos procedimentos alfandegários são praticáveis e não afectam negativamente o
ambiente comercial.

Os sistemas e procedimentos para a importação e exportação de mercadorias têm sido


clarificados e simplificados. Equipas flexíveis de combate ao contrabando têm sido
seleccionadas e treinadas para detectar o contrabando comercial. Estas equipas têm
estabelecido sistemas de informação para determinar o risco e identificar possíveis sub-
declarações e contrabando. As equipas não operam em zonas alfandegárias fixas, mas em
áreas de riscos de receitas maiores, a fim de que a sua presença não possa ser pré-determinada
por pessoal local ou interesses comerciais. O elemento de surpresa e a imprevisibilidade
constituem um considerável meio de intimidação para os comerciantes ilegítimos.

A Direcção Nacional das Alfândegas tem planos ambiciosos para desenvolver processos
electrónicos de desalfandegamento. Vai ser instalado um novo sistema de tecnologia da
informação. O sistema informático de gestão desenvolvido pela Crown Agents já está a ser
utilizado em algumas zonas, incluindo o Centro de Carga Aérea do Aeroporto Internacional 4
de Fevereiro em Luanda. É necessária a ampla divulgação de informações e formação
profissional dos importadores, exportadores, agentes de desalfandegamento e outras
autoridades dedicadas à inspecção, para que a tecnologia da informação adoptada pela
Direcção Nacional das Alfândegas seja utilizada com eficiência. O objectivo das alfândegas
angolanas de operar a partir de uma única janela para desalfandegar mercadorias, só pode ser
alcançado quando os outros participantes no processo tiverem as mesmas aptidões e
conhecimentos, atitude e recursos e estiverem na disposição de cooperar.

Registo e Requisitos de Documentação

REGULAMENTOS DE COMÉRCIO
Angola é membro da OMC e da SADC. Concordou recentemente em aderir ao Protocolo de
Comércio Livre da SADC, que procura facilitar o comércio através da harmonização e
redução das tarifas e do estabelecimento de políticas regionais sobre o comércio, as alfândegas
e a metodologia, mas está a discutir as formas sobre como implementá-lo gradualmente. Está
a reexaminar a necessidade de reduzir as tarifas e as barreiras não tarifárias, mas este
processo está a decorrer vagarosamente. Os alvos são de 85 por cento de mercadorias com a
tarifa a zero em 2008 e 98 por cento com a tarifa a zero em 2012.
86 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Os importadores e exportadores estabelecidos em Angola devem registar-se e obter uma


licença do Ministério do Comércio 66
possuir um cartão de contribuinte válido. 67 Os produtos
ou as mercadorias com um valor superior a USD 1.000 têm que ser desalfandegados através
de um agente transitário ou despachante oficial.

O documento único, introduzido pela Crown Agents em 2002 tem reduzido o número de
formulários que as alfândegas angolanas exigem e o tempo necessário para processar a
documentação, de uma média de 25 dias para 5 dias. No entanto, o tempo dispendido pelos
despachantes que fornecem as informações pode variar grandemente e tem um impacto
substancial sobre o tempo que as mercadorias levam a desalfandegar. A função dos
despachantes está a ficar obsoleta e é recomendado um estudo sobre métodos alternativos
para desalfandegar as mercadorias.

Para as importações com um valor inferior a USD 100, as expedições são processadas
imediatamente, apesar dos agentes alfandegários terem o direito de inspeccionar o conteúdo
contra a factura, se o valor declarado for julgado ser insuficiente. Para as importações com um
valor superior a USD 100, os agentes alfandegários analisam a documentação e inspeccionam
aproximadamente 30 por cento de todas as importações com base no perfil dos riscos.

Não existem zonas de comércio livre nem portos livres em Angola. No entanto, em 2002 o
governo estabeleceu um entreposto aduaneiro para produtos alimentares, onde seleccionados
comerciantes estrangeiros, que regularmente importam para Angola, podem depositar
produtos para os vender directamente ao mercado angolano. O plano é alargar este conceito a
outras áreas do país.

PROCEDIMENTOS DE IMPORTAÇÃO
Apenas pessoas a título individual ou empresas que tenham uma licença do Ministério do
Comércio podem importar. Também têm que ter o cartao de contribuinte da Direcção-Geral
dos Impostos do Ministério das Finanças.

A maioria dos produtos e mercadorias, dependendo do seu valor, está sujeita a uma inspecção
antes da expedição. Algumas mercadorias requerem uma inspecção antes da expedição,
independentemente do seu valor: iates ou outros barcos de recreio ou embarcações; barcos de
desporto; produtos ou mercadorias importados por instituições governamentais ou entidades
públicas; sucata; em alguns casos transmissores radiotelefónicos, radiotelegráficos e de
televisão; e outras mercadorias especificadas pelas alfândegas.

São exigidos os serviços de um despachante oficial para produtos ou mercadorias com um


valor superior a USD 1.000.

São necessários os documentos que se seguem para o desalfandegamento de mercadorias:

66 Decreto No. 29/00.


67 Ministério das Finanças, Decreto No. 29/92.
FACILITAÇÃO DO COMÉRCIO 87

 Documento de desalfandegamento, o chamado “documento único”, adquirido na Imprensa


Nacional por cerca de USD 10 e normalmente preenchido pelo despachante oficial em nome
do importador;

 Factura comercial;

 Prova da propriedade, o conhecimento de carga, por exemplo a carta de porte para


mercadorias transportadas por via aérea e B/L para mercadorias transportadas por via
marítima;

 Relatório de resultados adequados para os produtos ou mercadorias sujeitos a inspecção


antes da expedição;

 Vários certificados dependentes do tipo de produto ou mercadoria, tal como o certificado


de sanidade animal (produtos de carne) e o certificado fitossanitário (legumes, produtos
alimentares) e o certificado de fumigação para roupas usadas e o certificado de acidez para
vegetais.

 Certificado da Associação Nacional de Transportadores Marítimos de Angola.

O objectivo é alcançar um período de desalfandegamento de 48 horas. Os produtos ou


mercadorias podem ficar 30 dias no aeroporto e 60 dias no porto, após os quais são vendidos
em hasta pública. (Decreto Executivo conjunto 12/95 de 28 de Abril)

Têm que ser pagas várias outras taxas, tal como já foi referido no Capítulo 6:

 Emolumentos aduaneiros gerais Decreto Executivo (11/01 de 23 de Novembro) na


importação aplicam-se 2 por cento ao valor aduaneiro (valor da mercadoria, frete e seguro)
e na exportação, 1%;
 Imposto do selo ( Decreto Executivo 71-04 de 9 de Julho) aplicam-se 0,5 por cento ao valor
aduaneiro.
 Emolumentos pessoais por serviços prestados, variam em função do valor aduaneiro. (1
por cento para produtos ou bens avaliados até Kz 700.000; uma taxa fixa de Kz 1.800 para
produtos ou bens avaliados entre Kz 700.000–1.800.000; e 0,1 0.1 por cento para produtos
avaliados a mais de Kz 1.800.000)
 Imposto de consumo de 2 a 30 por cento
 Custos de transporte até Kz 6.000.

PROCEDIMENTOS DE EXPORTAÇÃO
Com algumas excepções, não existem controlos sobre as exportações, mas as mercadorias
devem ser registadas para fins de estatística. As antiguidades e os objectos raros e de colecção,
os diamantes, os produtos petrolíferos e outros produtos específicos podem requerer um
certificado de exportação. Os direitos alfandegários sobre as exportações foram recentemente
abolidos.
88 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Financiamento do Comércio
Uma das principais restrições identificada pelos importadores e exportadores, é a falta de um
sistema bancário eficiente e de opções de financiamento. As elevadas taxas de juro cobradas
pelos bancos locais são um desincentivo significativo para quem precisa eventualmente de
pedir empréstimos e podem constituir um dos maiores obstáculos às actividades comerciais
em Angola. A falta de um sistema consagrado ao financiamento do comércio externo significa
que as empresas de exportação, e a maioria das outras empresas, têm que se basear nos seus
próprios recursos ou de financiamento proveniente de fora de Angola.

O sistema fiscal inclui algumas disposições para estimular o investimento (ver o Capítulo 5).
O governo baixou alguns impostos, incluindo o imposto sobre actividades comerciais, os
direitos alfandegários e os impostos indirectos em 1999/2000, mas o nível fiscal mantém-se
elevado. O imposto de consumo (imposto sobre o valor acrescentado) cuja faixa é entre 2 por
cento e 30 por cento é pago sobre os produtos manufacturados e importados para Angola. Os
lucros das sociedades estão sujeitos a um imposto de 35 por cento, enquanto que os lucros
provenientes de actividades agrícolas estão sujeitos a um imposto de 20 por cento. Um
imposto de 10 por cento com retenção na fonte é cobrado sobre dividendos e direitos
proporcionais de exploração. O imposto sobre os ganhos de capital é de 15 por cento. Os
impostos sobre os contratos são de 3,5 por cento para a construção e 5,25 por cento para todos
os outros contratos. O imposto sobre o rendimento das pessoas singulares situa-se entre 4 por
cento e 15 por cento. As taxas notariais e outros emolumentos permanecem altos e não estão
claramente identificados. Uma avaliação das condições comerciais por juristas nomeados pelo
governo em 2001, concluiu que a falta de um sistema fiscal objectivo e claro, constitui um
obstáculo sério para atrair investimentos. A avaliação nota que a ineficiente implementação
das leis e dos regulamentos, agrava o impacto negativo do sistema fiscal.

O governo anunciou recentemente a sua intenção de canalizar uma parte significativa das
receitas petrolíferas (até 5 por cento), através de um banco de desenvolvimento de Angola
recentemente constituído. Apesar de ser uma boa ideia fazer incidir as receitas petrolíferas
sobre investimentos produtivos, ainda não está claro como serão tomadas as decisões sobre os
investimentos nesta nova entidade financeira, nem quem as tomará. Os antecedentes de
bancos de investimento patrocinados pelo governo noutros países não inspiram optimismo.
Problemas comuns incluem a incapacidade desses bancos de canalizar os fundos, com êxito,
para actividades que têm os retornos mais elevados, tendo em conta as pressões políticas às
quais estão, inevitavelmente, sujeitos. Além disso, fornecer fundos de investimento a essas
entidades através do orçamento do governo tira a ênfase da mobilização da poupança e leva à
dependência de transferências fiscais que militam contra a sustentabilidade financeira a longo
prazo. A própria experiência de Angola com a CCAP (Caixa de Crédito Agropecuário e
Pescas) demonstra a relevância destas observações para o próprio país.
8. Desenvolvimento do Sector
Privado
Tal como se verifica em muitos outros países africanos, o sector privado em Angola tem
estado mais activo nos sectores de exploração mineral. As companhias do sector petrolífero
são modernas e sofisticadas, mas coexistem com um sector informal de firmas indígenas que
operam fora da estrutura e organização jurídica. Com efeito, Angola tem dois sectores
privados com procedimentos operacionais e características distintos. Por exemplo,
aproximadamente 65 por cento dos negócios nas zonas urbanas fazem parte do sector
informal e o auto-emprego encontra-se à frente das categorias informais, representando 43
por cento da actividade económica (ver a Figura 8-1). 68

Figura 8-1
Importância do Emprego Informal na Economia Urbana

FONTE: Cain (2004).

68 Segundo revelou a pesquisa sobre as causas do crescimento do sector informal, a burocracia excessiva e a
intervenção do governo no mercado são as principais culpadas.
Segundo um censo de empresas realizado pelo INE em 2002 e publicado em 2004, 19.119
empresas provadas em Angola empregam cerca de 340.000 pessoas. 69 Destas firmas, 14.484 (75
por cento) empregam de 1 a 9 pessoas. Luanda e as zonas fronteiriças são o centro da
actividade económica do país e do comércio internacional. Luanda constitui não só o
principal centro de procura, mas também o centro de tomadas de decisão, produção e
comércio internacional. Cinquenta e cinco por cento das firmas de Angola situam-se na região
da capital, enquanto que as províncias de Benguela, Kuanza-Sul, Huíla, Cabinda, e Huambo
em conjunto têm 26,6 por cento. As outras 12 províncias têm 30 por cento das firmas, mas
estão desconectadas dos mercados de Luanda e Benguela, devido à falta de ligações entre
estes grandes pólos económicos.

As perspectivas de Angola em relação ao crescimento no mercado internacional encontram-se


inextrincavelmente interligadas com o crescimento da sua economia geral. Actualmente, a
legislação angolana trata a maioria das empresas nacionais e estrangeiras da mesma forma,
pondo igualmente à disposição de todos, por exemplo, os incentivos de promoção do
investimento. Esta situação é marcadamente diferente do passado, quando o partido dirigente
de Angola abraçava uma estratégia de desenvolvimento baseada no controlo do estado. Esta
estratégia juntamente com a guerra limitava grandemente a medida em que o sector privado
era capaz de crescer ou estava na disposição de investir no crescimento. O desafio actual
consiste em implementar a política declarada pelo governo de adoptar uma economia de
mercado liderada pelo crescimento do sector privado. 70 Isto exigirá explorar oportunidades e
ultrapassar fraquezas em várias áreas, tais como as infra-estruturas, o clima para os
investimentos e o sistema bancário e de crédito.

Infra-estruturas
A maior parte das infra-estruturas de Angola encontra-se num estado de degradação extrema.
Enquanto que o sector privado tem que assumir a liderança no sector de investimentos
produtivos, o governo tem que fazer investimentos complementares nos bens públicos, como
uma condição prévia para um crescimento substancial e sustido liderado pelo sector privado.
Isto é particularmente verdade em relação aos transportes; a falta de estradas, por exemplo,
está a isolar o sector agrícola, um dos maiores potenciais produtores de bens comerciáveis de
Angola. A infra-estrutura urbana também se tem deteriorado extraordinariamente. As ruas na
maioria das zonas urbanas estão em ruínas e os sistemas de esgotos e de escoamento das
águas não estão a funcionar. O sistema de telefones de linha fixa é antiquado, de cobertura
muito limitada, e propenso a interrupções de serviço, enquanto que as duas pequenas redes
microcelulares, que tentam servir toda a capital, não têm capacidade para satisfazer a procura
e são deficientes em comparação com outros países na região e no mundo.

69 Esta é a única fonte de informação sobre o sector privado de Angola.


70 Este capítulo baseia-se no Capítulo V do Memorando Económico do País do Banco Mundial [World Bank’s
Country Economic Memorandum] (prestes a ser publicado).
DESENVOLVIMENTO DO SECTOR PRIVADO 91

A ineficiência no fornecimento de serviços pelas empresas do estado é generalizada. A maior


parte dos prestadores de serviços de infra-estruturas têm que se conformar com preços
inadequados e, por conseguinte funcionar com prejuízos. Os custos são superiores às receitas
e as empresas dependem de subvenções do governo central. As subvenções cobrem
proporções variáveis das despesas de capital e de funcionamento, não são alvo de objectivos e
não fornecem nenhum incentivo para melhorar o rendimento. Um inquérito recente de
agregados familiares que foi comissionado pelo Banco Mundial para investigar a incidência
de subsídios e a satisfação da população com os serviços de utilidade pública indicou uma
situação desoladora. Uma grande percentagem de respondentes achou que os serviços eram
minimamente satisfatórios. Mais de 50 por cento dos agregados familiares estavam
minimamente satisfeitos com estradas e esgotos, enquanto que cerca de 30 por cento estavam
minimamente satisfeitos com escolas, abastecimento de electricidade, serviços dos centros de
saúde, água canalizada nos domicílios e transportes públicos. Em suma, poucos domicílios
gozam de serviços públicos fornecidos, apesar de muitos concordarem que estes serviços são
muito importantes.

O trabalho de reconstrução das infra-estruturas tem sido dirigido quase inteiramente pelo
governo ou por doadores. No seu Memorando Económico do País, o Banco Mundial
comunica que as telecomunicações são o único sector de infra-estruturas para o qual Angola
estabeleceu um organismo regulamentar. Alguns outros sectores usam contratos de gestão
que têm sido razoavelmente bem sucedidos (por exemplo, o abastecimento de água em Soyo e
Caxito, a recolha de detritos sólidos em Luanda, serviços terminais no porto de Luanda,
serviços de movimentação em terra no aeroporto de Luanda). Novos contratos de concessão
estão a ser formulados para recolha de detritos sólidos e para operações terminais no porto,
uma concessão foi recentemente adjudicada a Alrosa no sector de electricidade e quatro
licenças de novas linhas fixas estão a ser emitidas no sector de telecomunicações. No entanto,
é possível e provavelmente benéfico para o sector privado, começar a envolver-se
directamente na reedificação e na reconstrução para reforçar as capacidades locais para
operações independentes (por exemplo, usar empreiteiros locais para construir estradas pode
estimular a capacidade do sector de construção civil).

Investimento Directo Estrangeiro


Em 2003, Angola foi o terceiro maior recipiente em Africa de investimento directo estrangeiro
(USD 1.415 mil milhões),71 a seguir a Marrocos e à Guiné Equatorial. Segundo um relatório
recente feito pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico), 72
três fenómenos estão a impulsionar este investimento: (1) a descoberta de novos campos
petrolíferos; (2) o aumento cada vez maior da relação custo/eficácia da exploração de águas

71 United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), World Investment Report 2004: The Shift
Towards Services. New York and Geneva: 2004. [Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e
Desenvolvimento, Relatório sobre o Investimento Mundial de 2004: A mudança para os Serviços. Nova Iorque e
Genebra: 2004]
72 Ver OCDE (2005).
92 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

profundas considerando os preços elevados do petróleo; e (3) o interesse estratégico das


empresas americanas e dos parceiros não tradicionais da OCDE, tais como a China e a Índia,
no potencial de energia do Atlântico Sul. A Chevron Texaco, por exemplo, tem destinado USD
11 mil milhões para investimento durante os próximos cinco anos. Mas grandes corporações
em Angola, particularmente no sector petrolífero, tendem a funcionar como enclaves,
importando mais empregados e meios de produção. O resto da economia atrai muito pouco
IDE devido às restrições institucionais e aos riscos económicos.

RESTRIÇÕES INSTITUCIONAIS
Talvez que o único maior obstáculo ao IDE em Angola seja a corrupção, um problema comum
em países de baixo rendimento e ricos em recursos. A investigação recente, por exemplo, tem
indicado que a qualidade das instituições de um país hospedeiro são muito importantes para
os investidores potenciais.73 Estas instituições estão envolvidas no sistema de equilíbrio dos
poderes que escoram a democracia, a legislação sobre contratos e propriedade e os
mecanismos de regulamentação que escoram a economia de mercado. Num país com
instituições enfraquecidas, a falta de um sistema de equilíbrio dos poderes não refreia a
corrupção e esta impede o desenvolvimento económico gerando ineficiências que bloqueiam a
entrada e a concorrência.

Angola tem um desempenho medíocre numa comparação internacional sobre percepções de


qualidade institucional entre os países ricos em petróleo; o facto destas percepções durarem,
apesar do governo ter estado a simplificar e a reformar a estrutura regulamentar demonstra as
dificuldades de promover investimentos fora dos sectores do petróleo e dos diamantes. Para
consolidar a sua posição sobre a política económica pró-mercado, o governo comprometeu-se
em 2002-2003 a reorganizar a estrutura legislativa para a actividade do sector privado. Essa
estrutura baseava-se nos códigos comerciais dos portugueses que datavam de 1888. Entre as
nove leis e vários decretos que constituem a estrutura legal de Angola para o investimento
privado nas infra-estruturas, uma foi revista em 2002 e quatro são instrumentos legislativos
homologados em 2003: a Lei de Delimitação dos Sectores da Actividade Económica (revista
em Maio de 2002), a Lei de Bases do Investimento Privado, a Lei de Agências Nacionais de
Investimento, a Lei sobre os Incentivos Fiscais Aduaneiros para o Investimento Privado e a
Lei da Arbitragem Voluntária (todas elas homologadas em Abril de 2003). Uma Lei sobre
Estrutura da Propriedade foi homologada em 2004 para clarificar os direitos de propriedade e
regime fundiário.

Mesmo após estas reformas, os investidores ainda enfrentam riscos substanciais. As cláusulas
das leis sectoriais, por exemplo, permitem que o estado nacionalize bens quando considera

73 Collier, P. e A. Hoeffler (2005), “Resource Rents, Governance, and Conflict,” Journal of Conflict Resolution,
9:625-33; Hausmann, R., D. Rodrik e A. Velasco (2005), “Growth Diagnostics,” apresentado na 2005 PREM
Week, Banco Mundial, Washington; Fosu, A. e S. O’Connell (2005), “Explaining African Economic Growth:
The Role of Anti-Growth Syndromes”, apresentado na Annual Bank Conference on Development, Dakar,
Senegal; Rodrick, D., A. Subramanian e F. Trebbi (2002), “Institutions Rule: The Primacy of Institutions over
Geography and Integration in Economic Development” Harvard University, mimeo; Rodrick, D. (1999),
“Institutions for High Quality Growth: What They Are and How to Acquire Them,” Harvard University,
mimeo.
DESENVOLVIMENTO DO SECTOR PRIVADO 93

que deve fazê-lo a bem dos interesses do país. Apesar de ser garantido ao investidor
estrangeiro o direito de compensação se a nacionalização ocorrer, em conformidade com a
legislação internacional e os procedimentos de resolução de diferendos ou litígios
internacionais, isto ainda constitui um problema de maior. Além disso, as estruturas
regulamentares estão muito pouco desenvolvidas. O único organismo regulamentar das infra-
estruturas existente (sector das telecomunicações) não tem autonomia suficiente do governo.
Sem uma estrutura jurídica mais sólida para a regulamentação das infra-estruturas, é muito
elevado o risco de intervenção política na concessão de licenças e concessões e na
determinação de preços.

RISCOS E INCENTIVOS ECONÓMICOS


Os investidores também enfrentam riscos puramente económicos quando investem num país
com antecedentes de taxas de câmbio instáveis, inflação alta e variável e uma série de pacotes
para mudar a política económica. Angola tem trabalhado arduamente para resolver estes
riscos, nomeadamente em relação à estabilização das taxas de câmbio durante os últimos dois
anos, mas as percepções dos investidores mudam lentamente. A estabilidade
macroeconómica tem que continuar, dado que se trata de uma condição prévia para atrair o
investimento.

Impostos
Em Angola as taxas de imposição são altas em comparação com as de outros países da SADC.
A principal legislação é a Lei de Política Fiscal e Níveis (Lei No. 5/99). Uma série de outras
leis existem para determinados impostos. As taxas podem ser alteradas apenas através de leis
de emenda. Os lucros corporativos estão sujeitos a encargos tributários de 35 por cento
enquanto que os lucros provenientes da agricultura, silvicultura ou criação de gado estão
sujeitos a uma taxa única de imposto corporativo de concessão de 20 por cento. As empresas
públicas estão sujeitas a impostos sobre os lucros à taxa corporativa (35 por cento), assim
como a outras taxas. O imposto sobre contratos é lançado à taxa de 3,5 por cento sobre a
construção, melhoramento, e reparação de bens imóveis e a 2,5 por cento para todos os outros
contratos. As taxas do imposto sobre o rendimento em relação a vencimentos e salários,
bónus, e benefícios situam-se entre 4 e 15 por cento. As contribuições para a segurança social
são obrigatórias; a contribuição dos empregados é de 3 por cento e a da entidade patronal é de
8 por cento.

Tarifas e Controlos do Comércio


Tal como foi discutido nos Capítulos 6 e 7, o regime comercial de Angola é relativamente
aberto, com uma média simples da tarifa de nação mais favorecida (MFN) que se aplica a 7,5
por cento.74 Não existem restrições quantitativas sobre comércio internacional e nenhuns

74 Um novo regime tarifário foi introduzido em Março de 2005. Os pormenores deste regime não estavam
disponíveis quando este relatório foi redigido. As alterações previstas incluem a redução da taxa máxima de
35 por cento para 30 por cento; o aumento da taxa tarifária para os produtos em que Angola tem uma
vantagem comparativa; redução das taxas tarifárias para matérias-primas e bens de capital e intermédios; e a
eliminação das tarifas sobre as exportações.
94 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

incentivos para as exportações. Todas as actividades comerciais estão sujeitas à obtenção de


licenças, mas as licenças são concedidas quase automaticamente. Certos produtos (por
exemplo, transmissores, receptores, explosivos, plantas, frutos, sementes, medicamentos) só
podem ser importados por autorização ministerial. Não existe um sistema de incentivos à
exportação em vigor (por exemplo, draubaque dos direitos, entrepostos aduaneiros, zonas
francas industriais), mas os sectores de produção petrolífera e de mineração estão isentos de
direitos de importação e o sistema geral de incentivos para os investimentos aplica-se
igualmente a todos os sectores, quer sejam ou não relacionados com o comércio.

AMBIENTE COMERCIAL E NORMAS COMERCIAIS


O ambiente comercial em Angola continua a ser difícil. Segundo o relatório do Banco Mundial
de 2006, intitulado Doing Business Report: Creating Jobs, Angola ocupava a última posição entre
os 155 países que responderam ao inquérito. Entre os factores que contribuem para esta
classificação existe o facto de que leva uma média de 146 dias para estabelecer uma empresa
ou companhia em Angola, o que é mais do dobro da média na região. A obtenção de licenças
é um processo moroso e dispendioso. O cumprimento de todas as condições referentes a
licenças e autorizações leva cerca de 326 dias, ou seja, quase um ano. O imposto a pagar como
percentagem do lucro bruto é metade da média da região e menos do que na OCDE. Uma
importação em média requer 10 documentos, 28 assinaturas e 64 dias, o que é comparável aos
requisitos de outros países da região.

Custos Associados às Actividades Comerciais


Apesar das reformas recentes terem progredido muito para mitigar a sobrecarga burocrática
dos procedimentos relativos às importações e às exportações, continuam a ser necessárias
reformas noutras partes da economia. Leis de trabalho com medidas restritivas,
procedimentos de registo de propriedade complicados e um ambiente comercial dispendioso
e inseguro, fazer subir os custos associados às actividades comerciais. Como indicado no
relatório do Banco Mundial de 2006, intitulado Doing Business Report: Creating Jobs, Angola
ocupava o número 135 numa amostragem de 155 países. As restrições incluíam, (1) faltas de
flexibilidade do mercado de trabalho, (2) tempo e despesas para começar uma actividade
comercial, (3) acesso e custo associado a financiamento, e (4) execução de contratos. Estas
restrições dificultam a entrada e a concorrência na economia formal, encorajam a
informalidade, e nutrem práticas de procura de rendas. Angola precisa de criar um ambiente
encorajante ao investimento do sector privado. O Anexo 8-1 mostra a pontuação de Angola
sobre os indicadores que descrevem a facilidade de realizar actividades comerciais.

Anexo 8-1
Pontuação sobre as actividades comerciais, 2006

Começar um Negócio Protecção dos Investidores


Procedimentos (número) 14 Índice de âmbito de divulgação (0-10) 5
DESENVOLVIMENTO DO SECTOR PRIVADO 95

Tempo (dias) 146 Índice de âmbito responsabilidd director (0-10) 6


Custo (%de rendimento per capita) 642,8 Índice de facilidade de acções judiciais por accionistas
Min., capital (% rendimento per capita) 485,4 (0-10) 6
Índice de solidez da protecção do investidor (0-10)
Obtenção de Licenças
5,7
Procedimentos (número) 15
Tempo (dias) 326 Pagamento de Impostos
Custo ($ rendimento per capita) 1674,7 Pagamentos (número) 30
Tempo (dias) 656
Contratação e Despedimento de Trabalhadores
Imposto total pagável (% do lucro líquido) 32,5
Índice de dificuldade de contratação (0-100) 33
Índice de inflexibilidade de horas (0-100) 80 Comércio Transfronteiriço
Índice de dificuldade de despedimento (0-100) 80 Documentos para exportações (número) …
Inflexibilidade de emprego (0-100) 64 Assinaturas para exportações (número) …
Custos de contratação (% de salário) 8 Tempo para exportações (dias) …
Custos de despedimento (semanas de salário) 62 Documentos para importações (número) …
Assinaturas para importações (número) 10
Registo da Propriedade
Tempo para importações (dias) 64
Procedimentos (número) 7
Tempo (dias) 334 Execução de Contratos
Custo (% do valor da propriedade) 11,1 Procedimentos (número) 47
Tempo (dias) 1,011
Obtenção de Crédito
Custo (% de dívida) 11,2
Índice de solidez dos direitos legais (0-100) 3
Índice de info sobre liquidez no crédito (0-100) 4 Fechar um Negócio
Cobertura de registo público (% adultos) 2,9 Tempo (anos) 6
Cobertura de serviço privado (% adultos) 0,0 Custo (% de património) 22
Taxas de recuperação (cêntimos por dólar) 0,6

O período de tempo necessário para registar uma empresa ou uma actividade comercial em
Angola é significativamente mais longo do que a média na região. Não é de admirar que
muitos empreendedores não registem as suas empresas, contribuindo assim para o
crescimento do sector informal. Também é difícil executar um contrato; em dias civis, leva
1.011 dias a resolver um litígio, a partir do momento em que o autor apresenta a demanda
judicial ao tribunal e até ser obtida a liquidação ou pagamento. A resolução de litígios entre os
países vizinhos de Angola e os seus possíveis competidores leva muito menos tempo, 274 dias
na Zâmbia, 270 dias na Namíbia e 154 dias em Botsuana.

Tal como estes dados e a classificação geral do país sugerem, Angola está entre um dos países
onde é mais difícil realizar uma actividade comercial. As 10 categorias medidas pelo relatório
do Banco Mundial de 2006, intitulado Doing Business Report: Creating Jobs, afectam
enormemente o sector industrial. Apesar de Angola ter adoptado recentemente uma
alternativa de serviços mais rápidos a troco de um determinado montante para a expedição
da formação de uma empresa ou actividade comercial, ainda leva muito tempo e custa somas
consideráveis de dinheiro para estabelecer uma empresa. Através da utilização de canais
administrativos normais, sem assistência de expedição, demora cerca de 146 dias. Medido
como um múltiplo de rendimento per capita, custa quase 6,5 vezes ou mais do que USD 6.500
96 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

para constituir uma sociedade comercial de responsabilidade limitada. 75 Obter licenças para
operações comerciais ainda é mais complicado e dispendioso, requerendo esforços envidados
durante quase 11 meses e, custando mais de 16 vezes o rendimento per capita. Registar a
propriedade também leva cerca de 11 meses e custa mais de 11 por cento sobre o valor da
propriedade. A protecção do investidor não é alta quando comparada com a que existe em
países semelhantes e a obtenção de crédito também é igualmente difícil.

No entanto, alguns indicadores, melhoraram em 2006. O índice de contratação diminuiu de 44


para 33 pontos, e o índice de despedimento diminuiu de 100 para 80. Os custos de
despedimento foram os que diminuíram mais, baixando de 116 semanas de salário para 62
semanas. A obtenção de crédito mostrou resultados mistos. Por um lado, o custo per capita
para garantia de colateral, diminuiu de 6,9 por cento para 3 por cento em termos gerais, 76 e o
índice de informação sobre crédito baixou de 4 para 2,9 pontos. Por outro lado, o registo
público de cobertura de crédito e os direitos legais dos emprestadores e dos prestamistas
pioraram em 2004 e 2005, os anos em que os dados foram realmente recolhidos, apesar de
terem sido comunicados em 2005 e 2006. Cada vez se torna mais difícil fechar uma empresa. O
número de anos necessários para fechar uma empresa aumentou de 4,7 para 6, a percentagem
do custo para o património subiu de 18 por cento para 22 por cento e a taxa de recuperação
das responsabilidades baixou para metade, de 1,2 cêntimos por dólar em 2004 para 0,6
cêntimos por dólar em 2005, respectivamente.

Crédito e Sistema Bancário


Uma das restrições sobre o desenvolvimento do sector privado, citadas com frequência, é a
falta de crédito adequado e de outros serviços financeiros. O sistema financeiro em 2005
contava com doze (12) bancos comerciais a operar no país. Dois (2) bancos de capitais
públicos (BPC e BCI), cinco (5) bancos de capitais estrangeiros (BFA, BCP, BTA, Novo Banco e
BESA) e três (3) bancos de capitais privados maioritariamente residente (BRK, BSOL, e BAI) e
um banco equitativamente partilhado por capital residente e estrangeiro (BCA). Em 2005 o
activo total dos dois bancos públicos (BCI e BPC) representava 31 por cento dos activos do
sistema bancário. Em 2004 existiam três escritórios de representação: Equator, Paribas e Banco
Rural Europa. Actualmente existem cinco escritórios de representação do Equator, Paribas, o
State Bank of India, o Standard Bank e o Banco do Brasil, tendo o Banco Rural Europa
encerrado a sua actividade no país. Em Dezembro de 2005 os dois bancos públicos
representavam 31 por cento dos activos, 17 por cento dos fundos próprios, 31 por cento dos
depósitos, 34 por cento do crédito e 65 por cento do crédito vencido. Em 2002 os empréstimos
ao comércio correspondiam a kz 10.435.047.000, equivalente a USD 167.320 ou seja 7,4 por

75 O per capita em Angola em 2005, assim como indicado no relatório do Banco Mundial de 2006, intitulado
Doing Business Report: Creating Jobs e em outras fontes era mais de USD 1.000.
76 Este valor deve ser interpretado com cuidado, dado que o rendimento per capita subiu quase 30 por cento
durante o ano, sobretudo como resultado da subida abrupta das receitas provenientes do petróleo. Por isso,
em termos ponderados, o custo per capita para criar a garantia de colateral melhorou, mas apenas na ordem
de 25 por cento e não de 56 por cento que os valores brutos parecem indicar.
MINADER/FAO (2004); CIA (2005).
DESENVOLVIMENTO DO SECTOR PRIVADO 97

cento dos activos totais dos bancos comerciais avaliados em kz 140.694.655.000, ao câmbio de
62.36559 equivalente a USD 2.255.966. (Ver dados do sistema 2002). O crédito é concedido às
empresas e a particulares mediante a capacidade de pagamento e dos respectivos
rendimentos do mutuário.

Com a taxa de juros de curto prazo interbancos a 96 por cento em 2003, os empréstimos
comerciais tinham, em média, taxas de juro anuais à volta dos 100 por cento (porque na
mesma maturidade para o crédito a particulares foi 103.44 por cento e ao sector empresarial
93.41 por cento). No entanto, a partir de 2004, as mesmas encetaram reduções passando para
70.42 por cento no final do ano e 46.87 por cento em 2005, perspectivando-se que na sequência
da queda da taxa de inflação, as mesmas venham a registar em 2006 uma redução
proporcional à registada no ano anterior. Contudo, o custo de financiamento continua a ser
uma considerável restrição do desenvolvimento do sector privado em Angola e,
provavelmente, as pequenas empresas são sofrerão maiores restrições. Todos estes factores
têm restringido a capacidade das empresas para investir na tecnologia e nas aptidões
necessárias para a produtividade e concorrência.

Iniciativas recentes para melhorar o crédito ainda não tiveram um impacto significativo. Em
2000, as autoridades estabeleceram uma instituição de crédito, o Fundo de Desenvolvimento
Económico e Social (FDES), a fim de encaminhar algumas das receitas do petróleo para apoiar o
investimento no sector privado. O FDES encaminha empréstimos que vão de USD 10.000 até
USD 500.000 através de bancos comerciais para uma maioria de pequenas e médias empresas.
Previa-se que o FDES USD 150 milhões dos “bónus” do petróleo em 2000, mas até meados de
2004 apenas USD 30 milhões tinham sido desembolsados. O FDES financiou 170 projectos,
com uma média de USD 20.000, sobretudo nos sectores de transportes e da indústria da pesca,
gerando mais de 4.500 empregos. A sua actividade tem sido dificultada pela escassez de
recursos financeiros e as fraquezas do sistema financeiro através do qual opera. Os bancos
intermediários, por exemplo, não têm sido capazes de monitorizar projectos adequadamente,
devido a más informações e análise de crédito.

Recentemente, a microfinança também tem recebido atenção. Pelo menos dois bancos têm
programas para emprestar dinheiro a pequenas empresas. Segundo um relatório elaborado
pela OCDE e pelo AfDB, o Novobanco, um banco de microfinança activo noutros países da
África Austral, desenvolveu instrumentos financeiros e um sistema de linhas de crédito que
ultrapassa a burocracia que dificulta o acesso ao financiamento para as empresas
estabelecidas.77 Durante os três meses após a sua abertura em Luanda, em Setembro de 2004, o
Novobanco tinha proporcionado mais de 120 linhas de crédito totalizando USD 600.000 (o
empréstimo médio era de USD 5.000, vencendo de três a cinco anos, com uma taxa de juro
mensal de 4 por cento), quase inteiramente a clientes do sector comercial. Uma utilização tão
bem sucedida foi tornada possível pela fórmula flexível oferecida aos pequenos empresários.
Essa fórmula inclui uma conta sem taxas, sem a obrigação de um saldo mínimo, garantias
informais (habitação própria e um fiador), uma relação estreita com os funcionários

77 Consultar o capítulo sobre Angola em African Economic Outlook, OCDE (2005).


98 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

encarregados da concessão de crédito. Estes funcionários avaliam a qualidade e acompanham


os clientes, pelo qual são pagos salários relacionados com o desempenho. O relatório nota que
o programa que é financiado pela USAID carece de um componente de assistência técnica, o
que é considerado ser uma condição essencial para o desenvolvimento de pequenas empresas.
O relatório também nota que outras iniciativas recentes têm linhas de crédito a pequenas
empresas combinadas com formação e assistência técnica. Particularmente, um banco local, o
Banco Sol, já começou a financiar empresas individuais da sua clientela tradicional,
requerendo uma garantia de colateral informal e baseando-se nas ONGs internacionais para
fornecer aos clientes monitorização e assistência.

Toda a carteira do Novo Banco é constituída por microcrédito, com quatro faixas de crédito:

 Micro Express, com valores até USD 1.000


 Micro empresas com valores de USD 1.000 até USD 10.000
 Small com valores de USD 10.000 até 25.000
 Medium com valores de USD 25.000 até USD 40.000

Em Setembro de 2004 a carteira de crédito do Novo Banco era de Kz 20.663.659 ao câmbio de


85,799946 o que correspondia a USD 240.837. A taxa de juro praticada, o prazo das operações
e a facilidade retratada em termos de flexibilidade e pouca burocracia no crédito aos
pequenos comerciantes, são aspectos reais do NVB confirmados pela última inspecção do DSI
realizada em Fevereiro de 2006. A carteira de crédito do Banco Sol em Dezembro de 2005 foi
de Kz 2.454.466.034 o que correspondia a 1,75 por cento do mercado e só 10 por cento são
direccionados para microcrédito, ou seja Kz 245.446.603.

Promoção do Investimento
Para promover o investimento em Angola, o governo oferece aos investidores nacionais e
estrangeiros uma variedade de incentivos. Os incentivos aplicam-se aos investimentos
domésticos superiores a USD 50.000 e aos investimentos estrangeiros superiores a USD
100.000. Os sectores particularmente importantes para a reabilitação da economia, assim como
os investimentos em determinadas regiões, qualificam-se para os incentivos. O petróleo, os
diamantes e outros minerais estão sujeitos aos seus próprios regulamentos. Recentemente,
Angola levou a cabo certas reformas directamente relacionadas com as operações comerciais.
Estas incluem:

 Homologar uma lei do investimento que trata igualmente das firmas nacionais e
estrangeiras, com algumas excepções;

 Promulgar em 2004 um código comercial para substituir o código comercial de 1888 e a lei
de 1901 sobre sociedades de responsabilidade limitada (requer algumas cláusulas
adicionais para entrar completamente em vigor);

 Estabelecer a Agência Nacional de Investimento Privado (ANIP); e

 Criar um departamento de registo de guiché único para as empresas.


DESENVOLVIMENTO DO SECTOR PRIVADO 99

A lei básica do investimento privado de 2003 estabeleceu a ANIP. Os investidores privados,


nacionais ou estrangeiros, apresentam um projecto de investimento e após aprovação recebem
um Certificado de Registo. Isto é necessário para começar uma empresa, e é processado
rapidamente com a aprovação concedida automaticamente se não for tomada uma decisão
dentro de 30 dias. A ANIP também é responsável por implementar incentivos de
investimento que concede de acordo com o sector e a localização geográfica do investimento
proposto. Os investimentos até USD 5 milhões devem ser aprovados pela ANIP, e a ANIP tem
que tomar uma decisão dentro de 15 dias após a apresentação da documentação requerida. Os
investimentos superiores a USD 5 milhões têm que ser aprovados pelo Conselho de Ministros
assim como pela ANIP; uma decisão sobre esses investimentos tem que ser tomada dentro de
30 dias. A ANIP também promove Angola como um local para o investimento externo e
interno. Tem criado vários guias de investimento que podem ser obtidos sob forma impressa e
no seu website.

Subordinado ao Concelho de Ministros, o departamento de registos de guiché único, ainda


tem que demonstrar resultados práticos. Uma restrição enfrentada pelo departamento é o
atraso na publicação de novas firmas no Diário da República, devido à falta de representantes
da imprensa nacional oficial no departamento. Segundo as informações obtidas, os
investidores podem satisfazer todos os requisitos burocráticos (licenças, autorizações) através
do departamento, simplificando grandemente o processo de aprovação e reduzindo o tempo
passado a satisfazer os requisitos legais. Apesar de pretender facilitar a formação de
sociedades de responsabilidade limitada e de corporações no prazo de 30 dias por uma taxa
de USD 300, o Guiché Único ainda não alcançou inteiramente os seus objectivos. Informações
empíricas sugerem que os requisitos burocráticos levam cerca de 2 a 3 meses a completar na
maioria dos casos, apesar da pressão exercida sobre o notário público e a conservatória do
registo civil onde ocorrem os maiores atrasos, especialmente na última. Os atrasos têm
suscitado numerosas queixas de que o Guiché não está a oferecer os seus serviços dentro do
prazo prometido. Em vez de ser um verdadeiro guiché único, parece que se limita a
encaminhar a documentação da entidade que deseja constituir uma sociedade. É necessária a
mesma documentação burocrática e as despesas são as mesmas, para além das taxas
adicionais de USD 300 para o Guiché.

A Lei dos Incentivos Fiscais e Aduaneiros ao Investimento Privado (Lei 17/03) contém
incentivos fiscais para os investidores privados em Angola. É dada prioridade aos sectores
seguintes:

 Exploração agrícola e criação de gado;


 Processamento industrial;
 Pescas e indústria de produtos derivados;
 Construção civil;
 Saúde e educação;
 Estradas, caminhos de ferro, portos, aeroportos, telecomunicações, infra-estrutura de
energia e água;
100 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL

 Cargas pesadas e equipamento para passageiros.

Para fins de concessão de incentivos fiscais e aduaneiros para operações de investimento, o


país está dividido em três zonas de desenvolvimento:

 Zona A — Província de Luanda, as municipalidades que são capitais das províncias de


Benguela, Huíla, Cabinda e a municipalidade do Lobito;

 Zona B — As restantes municipalidade das províncias de Benguela, Cabinda e Huíla e as


províncias de Cuanza-Sul, Bengo, Uíge, Cuanza-Norte, Luanda-Norte e Luanda-Sul.

 Zona C — As províncias de Huambo, Bié, Moxico, Cuando, Cubango, Cunene, Namibe,


Malanje e Zaire.

As operações de investimento estão isentas de direitos aduaneiros e de taxas (com excepção


do imposto de selo e das taxas lançadas sobre serviços e bens e o equipamento utilizado no
lançamento e desenvolvimento de uma operação, incluindo veículos pesados e tecnológicos
durante um certo período dependendo da Zona). Para os investimentos na Zona A, o período
de isenção é de três anos; na Zona B é de quatro anos; e na Zona C, seis anos. Os
investimentos em bens incorporados ou consumidos directamente na produção de outros
bens estão isentos de direitos aduaneiros e de taxas (com excepção do imposto de selo e de
outras taxas para o fornecimento de serviços) durante cinco anos a partir da data em que essa
produção tiver início, incluindo as operações de provas. Os lucros estão isentos do imposto
industrial durante 8 anos na Zona A, 12 anos na Zona B e 15 anos na Zona C.

Privatização
Após uma inundação inicial de vendas, a privatização parou, apesar de estarem planeadas
vendas significativas para o futuro próximo. Em 1989, o GARE (Gabinete de
Redimensionamento Empresarial) foi criado para coordenar e executar um programa de
privatização em duas fases. Durante a Fase 1, de 1990 a 2000, 409 empresas foram
reestruturadas e parcialmente ou completamente privatizadas, rendendo cerca de USD 100
milhões. A Fase 2, de 2001 a 2005, abrangeu cerca de 90 empresas públicas, a maioria das
quais tinham estado implicadas na Fase 1. Essas empresas situavam-se nos seguintes sectores:
indústria da pesca, comércio, hotelaria e turismo, transportes, agricultura, indústria, petróleo,
geologia e mineração, electricidade e água, comunicações e financeiro. Dados oficiais indicam
que o volume de receitas na Fase 2 atingiu o máximo em 2002 a cerca de USD 14 milhões. Nos
primeiros seis meses do ano corrente, o estado cobrou USD 2,5 milhões da privatização de
oito empresas. Até agora, a Fase 2 já cobrou USD 20,5 milhões. Quatro companhias de cerveja,
a CUCA, a NOCAL, a N’GOLA e a EKA, estavam para ser privatizadas até Dezembro de
2005.
DESENVOLVIMENTO DO SECTOR PRIVADO 101

Direitos de Propriedade Intelectual e Industrial


O Ministério da Indústria é responsável por fazer respeitar as patentes e marcas comerciais,
enquanto que o Ministério da Educação e Cultura é responsável por fazer respeitar os direitos
de autor. Angola é signatário da Convenção sobre a Organização Mundial da Propriedade
Intelectual e aceitou o Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes e a Convenção de Paris
para a Protecção da Propriedade Industrial. Também é signatário da Convenção de Berna
para a Protecção das Obras Literárias e Artísticas. Como país menos desenvolvido (LDC – less
developed country), Angola está a tirar partido da prorrogação do período de tempo para
implementação permitido para a execução do Acordo da OMC sobre os Aspectos dos Direitos
de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio.

Protecção do Ambiente
A lei básica de protecção do ambiente foi homologada em 1998 e procura proteger o
património e a biodiversidade do ambiente do país. Nesse sentido, tem em conta a avaliação
ambiental das infra-estruturas e dos projectos industriais. Angola faz parte da Convenção
sobre a Diversidade Biológica, da Convenção Internacional para a Conservação do Atum no
Atlântico e a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e à Seca (UNCCD).
Ratificou a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e a Convenção
de Viena e o Protocolo de Montreal para a Protecção da Camada de Ozono.
9. Potencial dos Sectores Essenciais
Agricultura
A agricultura, incluindo o gado e a silvicultura, representa cerca de 8 por cento do PIB de
Angola. As culturas principais são as bananas, as bananas da terra, a cana do açúcar, o café, o
sisal, o milho, o algodão, a mandioca (tapioca), o tabaco e os legumes; o gado e os produtos
florestais também poderiam passar a ser significativos 78, dado que Angola tem um potencial
agrícola considerável. A área do país é de 124 milhões hectares, 54 milhões dos quais são
zonas de pastagem natural e 35 milhões são aráveis. Das três principais zonas agrícolas e
ecológicas, uma é dependente da estação das chuvas, a segunda é uma zona de transição,
apropriada para plantar culturas resistentes às secas e a terceira é uma zona árida que
necessitaria de uma irrigação substancial para a agricultura. As áreas da floresta pluvial ou
tropical são substanciais, assim como o potencial hidrológico e hidroeléctrico do país.

Antes da independência, Angola era um produtor agrícola muito importante, auto-suficiente


em alimentos e um país exportador substancial de muitas culturas. Presentemente, não tem
exportações agrícolas formais e mesmo o comércio informal transfronteiriço com países
interiores é insignificante considerando a escassez das populações ao longo das fronteiras do
leste e as distância entre essas fronteiras e a principais áreas de produção. Os estragos
causados pela guerra civil forçaram o país a tornar-se num importador líquido principal de
alimentos e produtos agrícolas e um beneficiário de ajuda alimentar, apesar dessas
necessidades estarem a declinar actualmente. 79 A Figura 9-1 mostra os antecedentes da
produção das culturas agrícolas principais, desde o princípio dos anos da década de 1960 até
ao presente. As culturas dos cereais principais foram adversamente afectadas durante a
guerra, mas a produção do café foi a mais gravemente afectada, baixando para quase zero. As
culturas de plantas de raiz e de tubérculos foram menos afectadas e têm-se desenvolvido
extraordinariamente nos últimos anos, sobretudo a mandioca. A presença de minas terrestres
em certas zonas do país, apesar do programa de desminagem, tem desnorteado a reabilitação,

78 MINADER/FAO (2004); e CIA (0005).


79 As projecções do World Food Program (WFP) para 2005 sugerem a necessidade de cultivar recursos
alimentares (cereais, óleos, leguminosas, e outros) avaliados em USD 83,6 milhões. Mas os esforços do WFP
estão concentrados no retorno e na reintegração através do transporte das pessoas e da reparação das infra-
estruturas, assim como programas levados a cabo com outras agências da ONU em áreas como a produção
agrícola, o acesso dos beneficiários a mercados e serviços, ao ensino primário e a consciencialização do
HIV/SIDA (WFP 2004).
apesar de que, também esta tem continuado a progredir. 80 A produção tem-se atrasado
bastante em relação ao crescimento da população e essa é a principal razão devido à qual este
sector precisa de ser revigorado.

Figura 9-1
Antecedentes da produção de culturas agrícolas principais 1960–2003

7,000

600 Grains

6,000

500

5,000

400
4,000
Maize
1000 mt

1000 mt
300
3,000
Coffee

200
2,000

Roots and Tubers (2nd axis)


100 1,000

0 0
61 64 67 70 73 76 79 82 85 88 91 94 97 00 03
Source: FAOSTAT year

Actualmente, a maior parte da produção agrícola (cerca de 80 por cento) é de subsistência ou


pequena escala, servindo-se de tecnologias manuais ou rudimentares e com uma
produtividade baixa; 18 por cento da produção calcula-se que seja proveniente de explorações
agrícolas e tamanho médio e apenas 2 por cento de agricultura comercial. 81 No entanto, se as
infra-estruturas forem reconstruídas, a agricultura comercial tem grandes possibilidades.

A pobreza rural é generalizada. A malnutrição afecta 50 por cento da população e o índice de


mortalidade infantil é alto; 78 por cento das famílias rurais são consideradas “pobres” e 70 por
cento “extremamente pobres”. 82 A “deslocalização” da população (isto é, a movimentação de
aldeias e vilas rurais para zonas urbanas) tem exacerbado a pobreza rural diminuindo a
capacidade produtiva e o acesso a alimentos. Por conseguinte, a reconstrução da infra-
estrutura rural destruída e a reconstrução das regiões rurais (juntamente com o programa de
desminagem), constituem prioridades do governo. 83

80 Ver, por exemplo, ICBL (2004), que calcula que mais de 20 milhões de metros quadrados (4.500 quilómetros
quadrados) foram desminados entre 1999 e 2003.
81 Ver MINADER/FAO (2004), secção 3.4.
82 Em comparação com 61 por cento e 10 por cento, respectivamente, em centros urbanos (MINADER/FAO,
2004). Ver o Capítulo I para obter as definições de "pobre" e "extremamente pobre".
83 Ver MINADER/FAO (2004).
COMÉRCIO EM PRODUTOS AGRÍCOLAS
Antes da independência as províncias das terras altas produziam cereais de base em
quantidade suficiente para alimentar todo o país e para exportar. A partir da independência,
estas exportações passaram a zero e grandes quantidades de alimentos importados são
necessários para alimentar a população que entretanto triplicou. A balança alimentar nacional
em produtos de base oscilou de um excedente para um défice em todas as culturas, excepto a
da mandioca. Angola ainda depende grandemente de importações de alimentos para
satisfazer as necessidades básicas (Quadro 9-1). O porto de Luanda lida com o maior volume
de produtos agrícolas comerciáveis, mas o porto de Lobito também é importante e é provável
que ainda se torne mais importante quando o caminho de ferro para Huambo estiver
concluído.

Política comercial
Protecção tarifária. A taxa nominal média da protecção tarifária para “agricultura,
silvicultura, caça e pesca”, tal como definida na International Standard Industrial
Classification (ISIC) é de 10,3 por cento, com taxas médias para os subsectores de “agricultura
e caça”, “exploração florestal de material lenhoso” e “pescas”, a 8,2 por cento, 20 por cento
18,9 por cento, respectivamente. As taxas máximas de 30 por cento são aplicadas aos produtos
indicados nos seguintes capítulos do Sistema Harmonizado: 5 (produtos de origem animal), 9
(café, chá, chá mate e especiarias), 21 (preparações comestíveis diversas), 22 (bebidas, bebidas
alcoólicas e vinagre), e 44 (madeira e artigos de madeira).

Os meios produção agrícola ainda estão sujeitos a tarifas, apesar de algumas taxas serem
apenas a nível burocrático. Não obstante, quando várias taxas são combinadas, mesmo uma
taxa burocrática é mais do que uma mera taxa burocrática. Por exemplo, a maioria das
ferramentas agrícolas e maquinaria estão sujeitas a cinco taxas de 2 por cento ou menos que
chegam a um total de 8 por cento. A sobrecarga total aumenta para 26,5 por cento quando
outras taxas normais são acrescentadas (por exemplo, o imposto de selo, 0,05 por cento; os
direitos aduaneiros de serviços, 5 por cento; taxas portuárias, EP14 e EP17, calculadas a 3 por
cento; taxas de transporte, 10 por cento). Em princípio, alguns meios de produção agrícolas
são isentos de algumas taxas, mas na prática mesmo as isenções “automáticas” requerem
atrasos substanciais e trâmites burocráticos.

Protecção não tarifária das fronteiras. A classificação de direitos aduaneiros de 2005 proíbe
as importações de animais e de subprodutos provenientes de áreas afectadas por doenças
epizoóticas, de plantas de áreas afectadas por doenças epífitas e de cereais e sementes
geneticamente modificados ou transgénicos, com excepção dos que forem fornecidos por
programas de ajuda alimentar. O Decreto No. 92/04 de Dezembro de 2004 reforçou a
Quadro 9-1
Ficha da balança alimentar de Angola, ano de culturas 2002-2003, campanha de comercialização 2003-2004 (toneladas)

Cereais Outros

Mandioca Batatas e
Disponibilidade/ Painço/ Total de (produto batatas
Finalidade Milho Sorgo Arroz Trigo cereais Feijões Amendoins fresco.) doces
Disponibilidade
total 628.684 88.090 14.831 5.000 736.605 234.408 60.849 6.647.758 817.524

Stocks iniciais 10.000 5.000 4.000 5.000 24.000 2.000 2.000 20.000 5.000

Sector comercial 4.000 0 4.000 5.000 13.000 1.000 1.000 0 0

Stocks do
produtor 6.000 5.000 0 0 11.000 1.000 1.000 20.000 5.000

Produção total
(2002-2003) 618.684 83.090 10.831 0 712.605 232.408 58.849 6.627.758 812.524

Utilização 717.360 200.419 243.827 225.225 1.386.830 320.792 67.567 3.082.992 830.156

Consumo humano 641.496 186.343 239.059 213.225 1.280.123 302.922 61.059 1.339.952 703.228

Outras utilizações 65.864 9.076 768 0 75.707 15.870 4.508 1.723.040 121.928

Sementes 16.369 2.429 551 0 19.349 10.263 4.508 0 29.760

Rações para
animais 6.187 2.493 0 8.680 0 0 689.216 27.166

Perdas 43.308 4.155 217 0 47.679 5.607 2.354 1.033.824 65.002

Stocks finais 10.000 5.000 4.000 12.000 31.000 2.000 2.000 20.000 5.000

Importações 88.676 112.328 228.996 220.225 650.225 86.384 6.718 12.633

Excedente 3.564.776

Exportações 0 0 0 0 0 0 0 0 0

Défice 88 44 6.1 2.2 53 73 90 216 98

FONTE: MINADER.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 107

legislação de Angola referente aos organismos geneticamente modificados (OGM) fornecidos


para ajuda alimentar. O decreto diz que o Ministério da Agricultura deve conceder
autorização para essas importações e que os cereais e as sementes geneticamente modificados
que entram no país como ajuda alimentar devem ser imediatamente reduzidos a farinha após
a sua chegada.84

Taxas de exportação e restrições. Uma taxa de exportação de 20 por cento é aplicada a couro e
peles por curtir e uma taxa de 10 por cento sobre exportações de marfim não trabalhado.
Angola não é membro da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies de
Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção). Exportações de animais, de partes e de
produtos animais estão sujeitos a autorizações de exportação.

A SADC e o Comércio Futuro


As perspectivas de Angola em relação ao comércio internacional em produtos agrícolas serão
grandemente afectadas por oportunidades apresentadas pela sua entrada na Southern African
Development Community (SADC). Efectivamente, os países da SADC estarão abertos às
exportações angolanas, enquanto que o mercado de Angola estará, contingente a negociações,
continuará a estar protegido durante vários anos antes das barreiras comerciais internas
serem eliminadas em relação a outros países da SADC. Dada a escassez crónica de alimentos
em vários países da SADC e o potencial de Angola para ser um exportador de alimentos, os
produtores agrícolas de Angola poderá ter um futuro brilhante. Além disso, os países da
SADC negociarão em conjunto com a União Europeia para gozarem de acesso preferencial ao
mercado europeu. Na medida em que Angola faz parte desta negociação e pode tirar partido
das suas disposições, conseguirá obter novas oportunidades substanciais. No entanto, o
mercado europeu, requer uma qualidade de produtos e medidas fitossanitárias muito mais
exigentes do que aquilo a que os produtores angolanos estão habituados. Aceder a este
mercado lucrativo exigirá um investimento muito maior e tempo.

DESAFIOS DO SECTOR DA AGRICULTURA


Base de Recursos Naturais
Angola é dotada de um clima variado e de numerosas áreas adequadas para o cultivo de
culturas tropicais e semi-tropicais. No entanto, as terras altas centrais, o tradicional celeiro de
trigo do país, estão a ter problemas com a fertilidade do solo. Na verdade, a principal restrição
à agricultura nessa região é a falta de melhoramentos do solo necessários para aumentar as
colheitas. Felizmente, muitos pequenos agricultores nas terras altas centrais sabem da
existência de fertilizadores, porque já os utilizaram desde os esforços de agricultura extensiva
dos anos de 1970, se bem que a um nível muito mais reduzido desde a independência. Isto
significa que os serviços de agricultura extensiva não precisam de ser tão ambiciosos como
teriam que ser em muitos outros países da África Subsaariana. A água é uma outra restrição.
Muitas partes do país, incluindo as terras altas centrais, precisam de medidas de controlo de

84 IRINNEWS.ORG (2004). Ver também Science in Africa, "Angola bans genetically-modified seed", Abril de 2004
(http://www. scienceinafrica.co.za/2004/april/angolagm.htm).
108 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

água. Apesar de dos sistemas de irrigação em grande escala terem poucas probabilidades de
ser rentáveis, mesmo se estivessem à disposição fundos para construir novos perímetros, as
medidas menos agressivas, tal como pequenas captações de água, pequenas represas
artificiais, e tanques e fossos de água, podem contribuir muito para aumentar a
produtividade. Ao mesmo tempo, a agricultura comercial não será possível em algumas áreas,
particularmente no litoral e no sul, sem irrigação. O governo pretende reabilitar os sistemas
de irrigação nessas situações, mas ainda não iniciou as novas obras de construção devido aos
custos elevados.

Taxa de Câmbio Real e Contexto Macroeconómico


O aumento da taxa de câmbio real devida a grandes influxos de receitas provenientes do
petróleo e dos diamantes constitui um sério desafio para o sector agrícola. Se a moeda
nacional fosse mais fraca, os preços doa alimentos importados seriam mais elevados. Todavia,
actualmente, as importações baratas tendem a deprimir os preços para os produtores e a
rentabilidade proveniente das actividades agrícolas, por vezes até ao ponto de passar a ser
negativa. A mais-valia num país rico em recursos, tal como Angola, pode ser inevitável e, por
conseguinte os produtores nacionais precisam de melhorar a produtividade e a eficácia para
continuarem a ter rentabilidade. No entanto, abundam as possibilidades de reduzir os custos
das unidades de exploração agrícola irregulares, dado que Angola (1) tem uma pluviosidade
superior a muitos dos seus países vizinhos, (2) tem produções substancialmente mais baixas, e
(3) não tem estado a par dos avanços tecnológicos relativos a novas variedades ou outras
áreas durante décadas. Diminuir os custos levará o seu tempo e, por conseguinte, a protecção
do comércio agrícola só deveria ser reduzida à medida que as melhorias da produtividade se
concretizam. A pergunta fundamental é se os lucros da produtividade podem ser
suficientemente grandes para contrabalançar as desvantagens decorrentes da moeda forte e
dos custos elevados do transporte. Esta pergunta só poderá ser respondida quando a
estrutura do custo de produção for estabelecido através de análises precisas de orçamentos
para culturas agrícolas.

Finalmente, a política do governo do “kuanza forte”, estabilizou suficientemente a


macroeconomia para que os produtores e os consumidores tenham alguma confiança nos seus
cálculos de custo-benefício. Essa estabilidade é importante, não só para o investimento e a
produção, mas também para fomentar o crescimento dos mercados de crédito, dado que a
falta de crédito constitui um grande impedimento do sector agrícola.

A consideração final refere-se às verbas do orçamento nacional autorizadas para o


investimento agrícola e as despesas relacionadas. Presentemente, calcula-se que essas verbas
sejam 4 por cento, bem abaixo das recomendações da NEPAD (Novas Parcerias para o
Desenvolvimento Africano) de um mínimo de 10 por cento para o desenvolvimento rural. 85
Tendo em conta o compromisso manifestado pelo governo de alcançar esta meta de
implementação da ECP (Estratégia do Combate à Pobreza), juntamente com a capacidade do
sector petrolífero em fornecer os recursos para fazê-lo, razões não faltam para esperar que as

85 Ver o Memorando Económico do País (a publicar em breve).


POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 109

actividades necessárias para apoiar o desenvolvimento agrícola possam ser lançadas nos
próximos anos.

Infra-estrutura de Transportes
A construção das estradas é crucial para a reabilitação do sector agrícola. Mesmo que nada
mais se fizesse, restabelecer o acesso e o contacto de mercado para as populações isoladas
constituiria um grande melhoramento. O governo e os doadores principais já empreenderam
um programa para reabilitar troços das estradas principais e rotas ferroviárias importantes
para o interior. Uma tal reabilitação é uma condição essencial para a exportação de produtos
agrícolas e para garantir que os produtores têm acesso a meios de produção e a bens de
consumo. O actual projecto rodoviário tem um componente de estradas terciárias, mas é
limitado do ponto de vista geográfico e deveria ser considerado como projecto-piloto para um
esforço posterior, mais ambicioso. Na verdade, muitos pequenos agricultores vivem em zonas
que estão quase inacessíveis porque as estradas e as pontes têm sido abandonadas há dezenas
de anos. Em muitos casos, mesmo um pequeno investimento poderia proporcionar a
integração de vastas áreas nos mercados nacionais e internacionais.

Recapitalização
A descapitalização dos bens públicos, tais como as estradas e os caminhos de ferro, tem a sua
contraparte na descapitalização das explorações agrícolas. Tanto os pequenos agricultores
como os grandes produtores têm falta de máquinas e de tracção animal. Tradicionalmente, a
região do sul de Angola tem fornecido tracção animal para as outras zonas, particularmente a
região das terras altas, mas os anos de guerra e de privação causaram uma perda quase total
da população animal em vasta áreas. A tracção animal é fornecida pelos bovinos e,
provavelmente constituirá o principal único bem de muitos produtores. É inevitável que o
desenvolvimento da tracção animal leve tempo.

Comercialização
Após a independência, a comercialização rural em Angola desapareceu, à medida que os
comerciantes que dominavam o sector regressaram a Portugal. Estes comerciantes forneciam
bens de consumo aos pequenos agricultores, compravam o excesso de produção e forneciam
serviços incalculáveis através da oferta de crédito informal, tanto para os meios de produção
agrícola como para os bens de consumo. A seguir, os anos de guerra e a concomitante
destruição das estradas, o uso generalizado de minas de terra e a destruição e deterioração de
outras infra-estruturas da comercialização, tal como os entrepostos ou armazéns, impediram o
renascimento de um sistema viável de comercialização. Muitos produtores rurais ou fugiram
para as cidades e campos de refugiados ou reverteram para um modo de subsistência de
produção com poucas ou nenhumas ligações de mercado. A não existência de um sistema
bem estruturado de marketing permite a intervenção de um grande número de comerciantes
informais, tais como retalhistas, grossistas, transportadores/intermediários, para estabelecer a
ligação entre os produtores e os consumidores.
110 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Mercados dos Meios de Produção


Para além de reflectir problemas de comercialização, os preços elevados dos produtos
agrícolas reflectem os elevados custos dos transportes, a deficiente organização dos
produtores e o alto custo dos meios de produção, nomeadamente dos adubos e fertilizantes.
Provavelmente, entre todos os meios de produção, os adubos e os fertilizantes são os mais
importantes e, apesar disso, têm sido sujeitos a demasiadas interferências e má administração
do governo, não só em Angola, mas em todo o mundo. O crescimento de um sistema privado
de fornecimento viável será essencial para o aumento da produção dos cereais de base. A
viabilidade da produção de adubos e fertilizantes nacionais deveria ser estudada,
considerando a abundância de matérias-primas provenientes da produção de petróleo (a
maioria do gás natural descoberto com o petróleo é simplesmente queimado) e a procura
crescente em Angola e nos países limítrofes. 86 Outros meios de produção, tais como
ferramentas e máquinas também sofrem de sistemas de distribuição ineficazes. As restantes
barreiras ao comércio deveriam ser eliminadas para proporcionar às margens de lucro
agrícolas o mais alto nível de protecção eficaz possível, compatível com o compromisso do
governo para com a diminuição das tarifas em geral.

O governo comprometeu-se para com um desenvolvimento orientado pelo mercado, o que


significa que não se encarregará da comercialização nem da distribuição dos meios de
produção. Por conseguinte, tem-se despojado de muitas operações geridas pelo estado. No
entanto, continua a persistir a tendência para recorrer ao governo em relação a factores que
anteriormente eram geridos por organizações paraestatais. A empresa do estado de máquinas
agrícolas, a MECANAGRO (anteriormente ENAMA) está a expandir abrangendo áreas rurais,
apões de décadas de ausência e da cessação das actividades agrícolas. Relatórios das
províncias centrais indicam que tem um recorde deficiente quanto à pontualidade dos
serviços, mas a importação privada de equipamento agrícola debate-se com limitações
burocráticas.

A dificuldade está na promoção do crescimento de fornecedores privados de meios de


produção, apoiando ao mesmo tempo os produtores. Um sistema de vales comprovativos
poderia ser útil neste sentido. Os pequenos agricultores (ou os agricultores médios e grandes)
poderiam usar vales comprovativos para adquirir adubos e fertilizantes ou outros meios de
produção de fornecedores privados. Um sistema de vales comprovativos introduziria um
subsídio temporário através do preço dos vales, garantindo simultaneamente um mercado
para os meios de produção. Anteriormente, a baixa procura nas regiões rurais e a distribuição
esporádica de meios de produção gratuitos dissuadiam os fornecedores privados de se
dedicarem a uma comercialização em grande escala. Contudo, esses sistemas são vulneráveis
à corrupção e a possibilidade de que tal suceda, deve ser cuidadosamente considerada, antes
de ser concebido ou implementado um sistema.

86 Estudos anteriores não têm recomendado esse tipo de produção, mas aumentos de preço recentes indicam
que esses estudos deveriam ser reexaminados.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 111

Regime de Propriedade e Superfície das Explorações Agrícolas


O sector agrícola de Angola desde há muito que tem estado dividido entre grandes
explorações agrícolas comerciais e pequenas explorações agrícolas familiares. As pequenas
explorações agrícolas dependem grandemente de apetrechos e ferramentas manuais
tradicionais e de tecnologia, enquanto que as explorações agrícolas comerciais usam máquinas
e meios de produção modernos. A maioria dos angolanos reside no sector das explorações
agrícolas familiares, mas o sector comercial é capaz de produzir grandes excedentes durante
relativamente pouco tempo. O Quadro 9-2 mostra as diferenças marcadas nas produções
obtidas nos sectores comerciais e familiares.

Quadro 9-2
Produção por hectare (kg)

Culturas Comercial Familiar


Café 433,1 280,1

Arroz 900,0 1184,8

Milho 1288,9 466,3

Batatas 5841,6 2405,6

Algodão 998,0 1138,8

FONTE: Estatística actual do sector agrícola, 1970/71 (MIAA).

Criar um ambiente propício à produtividade e à comercialização agrícola prestará apoio não


só às explorações agrícolas pequenas como às grandes. Construir estradas e dar início a
políticas que promovem o crescimento dos mercados privados, beneficiará todos os
agricultores. Qualquer visão realista do futuro da agricultura em Angola inclui uma mistura
de explorações agrícolas grandes e pequenas, estando todas elas orientadas cada vez mais
para uma produção para o mercado.

Grandes explorações agrícolas mecanizadas podem apresentar uma opção mais fácil para
aumentar rapidamente a produção, mas não promovem o desenvolvimento rural, se
funcionarem como enclaves que excluem a população rural que vive ao nível da subsistência.
Ao mesmo tempo, os pequenos agricultores angolanos podem, de novo, voltar a ser capazes
de fornecer alimentação às zonas urbanas e de produzir para o mercado de exportações.
Fizeram ambas as coisas antes da independência 87, e com um nível tecnológico não muito
diferente daquele que usam hoje em dia. Qual é, então, a função das grandes explorações
agrícolas numa estratégia de reintegração de Angola nos mercados agrícolas mundiais?

 Muitos grandes agricultores estão bem posicionados para responder rapidamente às


incentivas de mercado, tendo em conta as suas boas ligações ao mercado e acesso a capital;

 As grandes explorações agrícolas podem servir de “pólos de crescimento” para os pequenos


agricultores nas proximidades, prestando apoio quanto ao acesso ao mercado em relação
aos meios de produção e à produção;
87 As exportações de milho antes da independência de 400.000 TM (toneladas métricas) por ano eram
produzidas quase exclusivamente por pequenos agricultores.
112 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

 As grandes explorações agrícolas muitas vezes têm acesso a fundos de investimento e não
se baseiam tanto nos mercados de crédito ainda muito pouco desenvolvidos.

Para que as pequenas explorações proporcionem um nível de vida adequado para as famílias
dedicadas à lavoura e produzam um pequeno excedente comerciável, provavelmente terão
que ter uma superfície de cerca de 5 hectares, tendo em conta as condições do solo e do clima
no planalto. (Um crescimento significativo para além disto exigiria explorações agrícolas,
maiores, talvez com cerca de 10 hectares). Esta superfície implicaria necessariamente o recurso
à tracção animal ou qualquer outra tecnologia que se sirva da terra e economize o trabalho. Os
animais de tracção são bem conhecidos nestas áreas, apesar da população animal ter ficado
muito reduzida durante os longos anos de conflito e de deslocação. Um inquérito sobre a
superfície das explorações agrícolas forneceria os conhecimentos básicos que faltam nesta
área.

Regime de Propriedade e Outorgamento das Terras


O quadro legal para o regime de propriedade é de certo modo pouco claro, assim como o
quadro legal em outras áreas que afectam a agricultura. Uma nova legislação agrária entrou
em vigor em 2005, mas os regulamentos ainda não foram redigidos. Esses regulamentos
determinarão como a lei afecta realmente os produtores agrícolas.

Ao abrigo da legislação actual, os pequenos agricultores angolanos não podem obter o regime
de propriedade absoluta. Podem gozar de direitos de usufruto às terras durante 45 anos e
podem renovar o título uma vez, o que implica um período total de 90 anos. As autoridades
podem outorgar concessões de terras ao cidadãos privados e já o fizeram em certas instâncias.
No entanto, as questões jurídicas têm pouca relevância para os pequenos agricultores, que não
foram directamente deslocados por grandes subvenções. O regime de propriedade
oficialmente reconhecido não se aplica aos pequenos agricultores familiares. Em vez disso, as
autoridades locais tradicionais, os sobas, distribuem terras entre as famílias, numa
determinada zona. Todavia, o registo oficial é raro, mesmo no caso dos latifundiários, dado a
complexidade dos procedimentos e a incapacidade das estruturas burocráticas corroborantes.

Vários estudos sobre o registo predial e cadastro das terras denotam uma extrema
incapacidade na gestão do sistema de registo predial aos níveis centrais e provinciais. 88 De
acordo com isso, qualquer iniciativa para melhorar o regime de propriedade e o sistema de
outorgamento das terras em Angola, deveria envolver a assistência técnica para os sistemas
de mapeamento e de registo predial e para os métodos participativos, a fim de assegurar que
os direitos de todos os interessados sejam respeitados.

Crédito
O crédito agrícola foi uma vítima do desaparecimento do sistema de comercialização rural na
altura da independência. Presentemente, a maioria das regiões rurais carecem de todos os tipo
de serviços financeiros. Fora de Luanda, as 41 filiais bancárias de Angola localizam-se todas
em capitais provinciais.89 Enquanto que a maioria das províncias costeiras tenham cinco ou
seis bancos com escritórios na capital provincial, apenas o Banco de Poupança e Crédito e o
88 Ver “Land Tenure Study,” World Bank Economic Sector Work, Angola, 2004.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 113

Banco de Comércio e Indústria, ambos propriedade do estado 90, têm algo que se assemelha a
uma rede nacional. Em consequência disso, apenas um ou dois bancos servem a maioria das
capitais provinciais do interior. A actividade do banco comercial limita-se grandemente a
linhas de crédito comercial de curto prazo, em que a agricultura e o gado correspondem a
cerca de 1,3 por cento dos empréstimos.

Várias agências governamentais e não governamentais suplementam o sistema bancário


formal com programas de microfinanciamento, tais como os operados pelo Ministério da
Família e Promoção da Mulher e o Development Workshop. O Banco Sol também é activo em
minicrédito e um novo banco apoiado pela USAID e pela ChevronTexaco, o Novo Banco, foi
aprovado e entrará em funcionamento muito em breve. Não obstante, o minicrédito em
Angola está muito pouco desenvolvido. O Development Workshop, que opera o maior
programa de microcrédito do país, chega a menos de 4.000 clientes e tem um portfolio de
menos de USD 500.000, só na zona urbana de Luanda e Huambo. As operações de
microcrédito rural estão quase completamente subdesenvolvidas. A falta de legislação sobre
microfinanciamento tem deixado as poucas agências activas num vácuo legal e têm tornado a
aquisição de capital mais difícil. Taxas de juro reais negativas devidas a depósitos a taxas
baixas e a continuação da inflação não encorajam a mobilização da poupança de médio a
longo prazo.

Uma variedade de ONGs têm ajudado a promover a utilização do crédito entre os


agricultores em Angola. O Banco Sol tem sido um precursor na ligação com as ONGs para
empréstimos a pequenos agricultores. O crédito, nos locais onde tem sido bem sucedido, tem
sido ligado à aquisição de meios de produção e não tem sido contraído independentemente. O
repagamento tem sido contratualmente ligado aos lucros de comercialização, em vez de
atribuir a responsabilidade do repagamento directamente aos agricultores. Programas bem
sucedidos envolvem as associações de agricultores, resolvendo assim o problema da selecção
adversa e proporcionando economias do ponto de vista da administração. Repetir estes êxitos
pode promover o investimento e o envolvimento no mercado. No entanto, mesmo sob as
melhores circunstâncias, o crescimento do mercado financeiro rural constitui um esforço a
longo prazo.

O crédito para os empreendimentos rurais de comercialização e outros pequenas empresas,


tal como o implemento da indústria agrícola ou de processamento de alimentos, também
precisam de financiamento e de investimento de capital. Não é provável que o sector formal
alargue o crédito a esse tipo de empreendimentos por si só num futuro próximo,
considerando a sua fraqueza geral e a falta de experiência em empréstimos para essas áreas. O
alargamento das iniciativas de microcrédito citadas acima às pequenas empresas dedicadas à
comercialização, ao transporte e ao implemento da indústria agrícola ou de processamento de
alimentos em pequena escala, poderia ser útil.

89 O Sistema Financeiro e de Crédito Rural em Angola. Robert Telleria e Isabel Monteiro, Working Paper No.9,
TCP/ANG/2907, FAO. Janeiro de 2004.
90 O BCI foi programado para privaatização em 2003, mas isso não aconteceu.
114 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Produção Agrícola, Sementes e Investigação


As produções agrícolas angolanas estão muito abaixo do seu potencial; só a produtividade da
mandioca se encontra a par dos outros países da região (Quadro 9-3). Investimentos
relativamente pequenos poderiam aumentar a produção agrícola significativamente,
considerando as favoráveis condições de crescimento em Angola. As variedades que
produzem mais, assim como as culturas importantes de variedades resistentes a doenças e a
rotação de culturas melhoradas, poderiam aumentar significativamente os rendimentos dos
pequenos agricultores.

Quadro 9-3
Produções agrícolas comparativas para as culturas principais, 2003

Rendimento
Desenvolvimento Angola b comparativo
Cultura africano (kg/ha) a (kg/ha) (por cento)
Milho 1.423 550 39

Mandioca 8.835 8.850 100

Painço 703 350 50

Amendoins 855 390 46

Feijão (seco) 608 220 36

Café (verde) 448 19 4

a FAOSTAT Abril de 2004.

b FAO/WFP Crop and Food Supply Assessment Mission to Angola, 2003 (except coffee, from FAOSTAT) [Missão de
Avaliação das culturas e do fornecimento de alimentação a Angola, 2003 (excepto o café, da FAOSTAT].

Abrir este potencial exigirá que se leve a cabo uma investigação cuidadosa aplicada e o
fornecimento de serviços de extensão que disseminem as tecnologias aperfeiçoadas. Uma
grande parte da investigação que é necessária é adaptável; variedades que se podem adquirir
e tecnologias já se encontram prontamente acessíveis e podem ser adaptadas às condições
angolanas dentro de um período de tempo relativamente curto. Os rácios de custo-benefício
de uma tal estratégia representam uma grande oportunidade. Actualmente, esses esforços
estão limitados pela falta de capacidade da investigação e das instituições de extensão, mas os
lucros potenciais fazem do reforço destas entidade uma prioridade principal. Uma iniciativa
que poderia beneficiar os trabalhos de investigação de melhoramento das plantas seria a
colheita e a conservação de variedades de sementes de culturas locais. Isto é particularmente
importante considerando a vasta disseminação de variedades comerciais através da
distribuição de alimentos e de outros programas dos últimos anos.

Extensão
Os serviços de extensão precisam de ser virados para o mercado, para prestar apoio na
adopção de novas tecnologias e de outros meios de produção. Isto exigirá uma variedade de
iniciativas a todos os níveis, especialmente ao nível local mais chegado aos agricultores: as
EDAs ou extensões de desenvolvimento agrário locais do serviço de extensão nacional, o
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 115

Instituto de Desenvolvimento Agrário. À medida que a presença das EDAs é reconstruída, as


funções centrais do Instituto também têm que se reforçadas para que este possa apoiar as
unidades e afastar-se cada vez mais do seu modo de operação imposto pelos dirigentes (do
topo para baixo), mudando da propagação de informações para a recolha de informações.
Além disso, as necessidades de extensão precisam de ser ligadas à investigação aos níveis
macro e micro, talvez através de um comité de para estabelecer a conexão.

Os serviços de extensão podem chegar a mais agricultores através das associações de


agricultores. Se as associações forem independentes do governo, os interesses dos agricultores
podem ter mais peso em operações de mercado, tanto em relação aos meios de produção
como à produção. As associações também podem fazer com que a comunicação e a coberturas
dos serviços sejam muito mais eficientes e forneçam um ponto de partida para as actividades
de extensão e de crédito. Particularmente em relação ao crédito, as associações apresentam
um mecanismo que ultrapassa os problemas de monitorização e de informação inerentes a
esse tipo de esforços.

REACTIVAÇÃO DA AGRICULTURA E DO COMÉRCIO AGRÍCOLA


O redesenvolvimento do sector agrário de Angola enfrenta desafios sérios. A estabilidade
macroeconómica é importante para o progresso económico geral, mas certas políticas,
particularmente a manutenção de uma forte taxa de câmbio forte numa situação inflacionária,
restringe o desenvolvimento agrícola. Do ponto de vista do Ministério da Agricultura, é
importante corrigir a taxa de câmbio de acordo com a taxa de inflação para que a taxa de
crescimento dos custos para os produtores nacionais corresponda a um aumento do preço dos
bens importados, com os quais estão a competir. 91 Outras restrições são o nível e os preços dos
alimentos importados, que muitas vezes são subsidiados externamente; as subvenções dos
preços nacionais e os controlos das margens de lucro que desencorajam o comércio rural; as
ligações rodoviárias e ferroviárias e as infra-estruturas rurais limitadas; a capacidade de
armazenamento inadequada; e os inadequados sistemas financeiros e de crédito para a
produção e o comércio rural.

Os controlos das margens de lucro são particularmente problemáticos e representam algo que
fazia parte do sistema regulamentar desenvolvido segundo o modelo de desenvolvimento
económico administrado ao nível central. Oficialmente aplicadas pelo Ministério do
Comércio, as margens de lucros regulamentadas sobre o comércio de venda por grosso ou
atacado, apesar de não serem aplicadas regularmente, podem ser utilizadas pelas autoridades
locais para controlar os comerciantes nas suas áreas. A eliminação desses regulamentos
poderia beneficiar todas as actividades do sector privado, bem como a agricultura.

Instituições
O Ministério da Agricultura e do Desenvolvimento Rural (MINADER) é responsável pelo
desenvolvimento rural agrário, do gado e da silvicultura. Três institutos nacionais dependem
deste ministério. O Instituto de Investigação Agrária (IIA), baseado no Huambo, trabalha de

91 MINADER/FAO (2004).
116 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

perto com a Faculdade de Ciências Agrárias, conta com 12 estações de investigação e coloca a
sua investigação e as suas tecnologias à disposição dos trabalhadores de extensão. O Instituto
de Investigação Veterinária (IIV), também no Huambo, era responsável pela saúde animal e
pela investigação baseada nos animais através de uma rede de estações veterinárias
provinciais antes da guerra. Quase todas as estações foram seriamente destruídas ou cessaram
as suas actividades devido à guerra. O Instituto de Desenvolvimento Agrário encoraja o
desenvolvimento dos pequenos agricultores através de uma rede de trabalhadores de
extensão. O Ministério também é a agência patrocinadora de um certo número de
empreendimentos públicos. O desafio que o governo enfrenta consiste na revitalização destas
instituições face a novas opções de política e na determinação do que poderá ser melhor
concretizado juntamente com o sector privado. Em todos os casos, a carência de quadros
formados e apetrechados profissionalmente constituirá uma limitação. O aumento dos
salários e a melhoria das condições de trabalho constituirão incentivos importantes para
melhorar esta situação no futuro.

Reforma da Política Agrícola e Prioridades


O MINADER, com o apoio da FAO, está a consagrar-se à estratégia de redesenvolvimento
agrícola do governo.92 Essa estratégia abrange as culturas, o gado e o redesenvolvimento das
infra-estruturas relacionadas com as explorações agrícolas (subsistência) familiares e as
explorações comerciais de grande escala. As prioridades incluem a segurança dos alimentos, a
reactivação da economia agrária, o desenvolvimento e reforço institucional, e o
desenvolvimento de recursos naturais sustentáveis.

Até agora, o governo tem dedicado recursos insuficientes para intervir profundamente no
sector agrário. Consequentemente, procura criar políticas, estratégias e recursos que
estimulem a participação privada e revitalizem as instituições públicas. A política declarada
visa a concentração do governo em funções básicas, intervindo apenas onde o sector privado
tem menos probabilidades de investir, devido a lucros mais baixos ou riscos mais altos.

Não obstante, mesmo a julgar por esta norma, o investimento do governo no sector dos
pequenos agricultores tem sido muito baixo. Não se pode esperar que os pequenos
agricultores invistam na investigação, extensão e educação, mas os retornos das despesas do
governo nestas áreas têm probabilidades de ser extremamente altos, se bem que a longo
prazo. De acordo com isso, deve defender-se um grande aumento das despesas em serviços
de apoio à agricultura.

Apesar do governo ter manifestado o seu desejo de deixar que o sector privado tome as
decisões sobre o que produzir e quanto produzir, ainda tem que continuar a investir em bens
públicos (água, electricidade, comunicações, pontes, estradas, etc.) que promovam
determinadas regiões ou produtos. Tendo em conta o programa de reconstrução de estradas e
investimento em serviços de extensão do governo, as expectativas de que os produtos
individuais passem a ser exportações importantes ou substitutos para as importações
deveriam ser examinadas.

92 MINADER/FAO (2004).
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 117

O governo tem especificado os seguintes objectivos para a agricultura para o futuro imediato:

 Contribuir para as necessidades alimentares do país;

 Aumentar a produção alimentar reabilitando a capacidade de produção dos pequenos


agricultores e o sector empresarial envolvido na agricultura, produção animal e silvicultura;

 Promover o marketing para o comércio dos produtos agrícolas e trocas comerciais entre as
áreas rurais, periurbanas e urbanas;

 Criar os incentivos certos para o estabelecimento de explorações agrícolas comerciais.

Substituição de Exportações e Importações


Ao descrever o principal problema enfrentado pela agricultura angolana, um estudo da FAO
publicado em 198693 diz que “a escassez de uma produção comercializada em resposta ao
aumento da procura de alimentos é, em larga medida, o resultado da estagnação ou do
declínio da produtividade do trabalho”. Esta estagnação resultou de vários factores,
nomeadamente, a disrupção da produção e da comercialização provocadas pela guerra, a falta
de investimento, grande escassez dos meios de produção e continuou até ao fim da guerra em
2002 e persiste em muitos sectores. Tal como acontece na maioria dos países pós-conflito, a
reactivação de culturas agrícolas de alto valor para satisfazer a procura urbana a nível
nacional será a primeira prioridade para o sector da agricultura reabilitado de Angola. No
entanto, Angola também pode vir a ser um fornecedor significativo de cerais básicos a nível
regional, sobretudo tendo em conta a importância do milho na economia local (alimentação e
rações para animais) e os seus antecedentes como um país exportador principal. As
perspectivas para as anteriores culturas de exportação, tal como o café, são menos claras,
considerando as modificações acentuadas dos mercados internacionais e as condições de
produção em Angola. Alcançar estes objectivos exigirá o melhoramento da tecnologia agrária
para inverter décadas de incúria e o investimento nas infra-estruturas; na sua maioria os
centros de procura também são portos através dos quais passarão os fluxos de comércio. A
política comercial, excepto possivelmente em relação ao trigo, não é provável que seja o factor
de limitação para o crescimento nessas áreas.

CONCLUSÕES
Angola precisa de (1) alimentar uma população que aumentou 300 por cento durante os
últimos 30 anos e de (2) continuar a explorar o seu potencial para exportar produtos agrícolas.
Poderá fazê-lo se investir nas infra-estruturas destinadas a permitir o acesso a mercados e a
aumentar a produção das colheitas dos seus níveis actuais extremamente baixos. Angola
também deve servir-se do facto de ser membro da SADC para exportar produtos agrícolas
para os membros da SADC que sofrem de uma escassez de alimentos crónica. No entanto,
tem que tratar de introduzir gradualmente as reduções tarifárias da SADC para que o sector
da agricultura tenha a oportunidade máxima de aumentar a sua produtividade para níveis

93 Les politiques d’incitation et d’approvisionnement en facteurs de production, Annexe V. [As políticas de incitamento e
de fornecimento dos factores de produção, Anexo V.]
118 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

competitivos e para assegurar que a legislação e as normas pertinentes aos alimentos sejam
harmonizadas com as da região da SADC.

Indústria
Considerando o estado delapidado do sector da indústria em Angola e a dependência das
importações para satisfazer as necessidades de bens de consumo e de capital, a reactivação do
sector tem que concentrar-se no mercado nacional e não no mercado de exportação, durante
os tempos mais próximos. Um componente da estratégia de reactivação deste sector angolano
é a “substituição das importações”. Os antecedentes de, literalmente, dezenas de outros países
mostra que a substituição das importações pode estimular o crescimento a curto prazo, mas é
provável que resulte em estagnação e ineficiência a longo prazo. Por conseguinte, a estratégia
de reactivação também deve visar preparar o sector para produzir para o mercado de
exportações de médio a curto prazo, a fim de poder evitar completamente estes problemas
prognosticáveis. Mesmo agora, as necessidades e os requisitos do mercado internacional
deveriam ser considerados. Dado que a pressão interna pesará profundamente do lado da
redução da dependência das importações, um método gradual talvez seja melhor; à medida
que o sector renasce com vista a satisfazer as necessidades domésticas, preparar-se-á para
entrar no mercado de exportações, através da produção de bens que satisfazem as normas de
qualidade e as especificações técnicas desse mercado. O êxito de um método desse tipo
depende da melhoria das infra-estruturas físicas e da cadeia de fornecimento que apoia a
indústria e o clima empresarial, especialmente o quadro legislativo e regulamentar que afecta
o desenvolvimento do sector privado. Tal como acontece com a agricultura, os desincentivos
de uma forte taxa de câmbio rela restringem a reactivação.

ANTECEDENTES DO SECTOR
O sector industrial de Angola alcançou o ponto máximo antes da independência a 11 de
Novembro de 1975. A quota do sector no PIB em 1974 era quase 30 por cento. 94 Os valores do
Ministério da Indústria 95
indicam que o sector estava a crescer a uma taxa anual rápida de 22
por cento em 1974. O sector teve um papel muito importante no fornecimento básico de bens
de consumo básicos para o “Império Português”. O sector e a economia como um todo,
caíram abruptamente quando a comunidade empresarial colonial portuguesa desertou o país
em massa na altura da independência. A produção agrícola básica na cadeia de fornecimento
de processamento agrária perdeu a sua base de conhecimentos e de mão-de-obra e continuou
a ser destruída pela guerra civil que acabou em 2002.

Com poucas excepções, o sector da indústria continuou a declinar durante quase cerca de 20
anos, alcançando o seu segundo ponto mais baixo em 1994. Desde 1995 que o declínio
constante se tem invertido, com o sector a mostrar um pequeno crescimento incremental até
chegar ao nível mais baixo em 2000. No seu estudo de 2001, Alves da Rocha demonstrou

94 Alves da Rocha, Manuel José, Os Limites do Crescimento Económico em Angola (2001).


95 IDIA, dados do Ministério da Indústria.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 119

como o índice industrial tombou de uma base de 100 em 1974 para 24,32 em 1989 e, depois
para 11,14 em 2000. Em 1974 o sector representava 29,6 por cento do PIB; em 1989, 7,2 por
cento; e em 2000 uns meros 3,3 por cento. 96 Desde que registou o crescimento a quase 1 ponto
de percentagem em 2001, o sector tem estado a oscilar entre 3 por cento e 4 por cento por ano.
Tal como indicado no Quadro 9-4, a quota da indústria no PIB é bastante baixa quando
comparada a outros sectores.

Quadro 9-4
O sector industrial em relação a outros sectores 1996 — 2004 (percentagem)

Sector 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004
Indústria 3,4 4,4 6,3 3,2 3,0 3,9 4,1 3,7 4,8

Ag/Silvicultura/Pescas 7,0 9,0 13,0 6,3 5,9 8,2 8,8 7,9 9,7

Mineração 61,2 52,3 43,2 66,0 66,5 57,4 61,0 51,9 54,8

Petróleo e gás 57,9 47,9 37,7 57,8 60,1 53,5 55,4 49,0 52,0

Outros 3,3 4,4 5,4 8,2 6,4 3,9 5,6 ND 2,8

Electricidade 0,0 0,0 0,1 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2

Construção 3,1 4,1 6,2 3,1 2,8 3,6 3,8 3,5 4,7

Comércio 15,0 16,1 19,3 14,8 14,3 15,4 15,7 15,0 13,8

Outros serviços 8,2 11,7 10,6 6,4 7,3 9,3 11,8 15,5 12,0

PIB (a preços de mercado) 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

FONTE: BNA Annual Economic Report; MinPlan; IMF; OECD Africa Economic Perspectives, 2004/2005.

Flutuando entre uma percentagem baixa de 3,0 por cento e uma alta de 6,3 por cento, a
produção do sector tem oscilado durante a maior parte da última década. Em termo
comparativos do PIB, o sector industrial de Angola coloca o país na metade mais baixa dos
países da SADC, apesar de que em termos absolutos esta posição será ligeiramente mais alta. 97

Em Setembro de 2005, 243 unidades industriais foram registadas no cadastro industrial. 98 As


actividades industriais são contadas em unidades, dado que uma empresa pode ter mais do
que uma unidade comercial em várias partes do país. Na maioria dos casos, as actividades
industriais são levadas a cabo em empresas independentes. O Quadro 9-5 apresenta unidades
industriais no cadastro industrial por subsector. A maioria das unidades registadas concentra-
se nos subsectores de alimentos processados e de bebidas. Em conjunto, correspondem a
quase 38 por cento das unidades. Os próximos seis subsectores, têxteis e vestuário, gases
químicos e engarrafados, produtos de metal, plásticos, tubos e canos, em conjunto
representam cerca de 85 por cento das unidades registadas. Por mais desoladora que esta
situação possa parecer, devemos ter em conta que cerca de 39 por cento destas unidades
registadas, não estavam em funcionamento em Setembro de 2005. O Quadro 9-6 apresenta as

96 Alves da Rocha, et al.


97 Alves da Rocha, et al.
98 Segundo análise de dados do Ministério da Indústria.
120 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

produções cumulativas das unidades industriais em termos equivalentes em dólares 99 de


Janeiro a Setembro de 2005.

Quadro 9-5
Unidades industriais registadas por subsector, Setembro de 2005

Actividade Número Percentagem


Alimentos processados 53 21,81

Bebidas 39 16,05

Tabaco 4 0,01

Têxteis e vestuário 33 13,58

Sapatos 4 0,01

Trabalho em madeira 9 0,04

Papel e livros 4 0,01

Gases químicos e engarrafados 33 13,58

Plásticos e tubos e canos 20 8,23

Minérios não ferrosos 4 0,01

Produtos de metal 26 10,70

Máquinas e equipamentos 2 0,0

Equipamento e artigos eléctricos 6 0,02

Equipamento de transportes 2 0,0

Total 243 100a

a
Percentagem arredondada
FONTE: Compilação de dados obtidos do GEP, Ministério da Indústria
Quadro 9-6
Produção das unidades industriais por subsector, Janeiro a Setembro de 2005

Milhões de
Actividade USD Percentagem
Alimentos processados 234,2 41,4

Bebidas 130,8 23,1

Tabaco 6,9 0,01

Têxteis e vestuário 1,0 0,0

Sapatos 0,0 0,0

Trabalho em madeira 2,6 0,0

Papel e livros 0,3 0,0

Gases químicos e engarrafados 7,1 0,01

Plásticos e tubos e canos 6,4 0,01

Minérios não ferrosos 108,8 19,2

Produtos de metal 67,1 12,0

Máquinas e equipamentos 0,0 0,0

Equipamento e artigos eléctricos 0,9 0,0

Equipamento de transportes 0,0 0,0

Total 565,1 100 a

99 Taxa de câmbio Kuanza para USD 85,1.


POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 121

a
Percentagem arredondada
FONTE: Compilação de dados obtidos do GEP, Ministério da Indústria

DESAFIOS NO SECTOR INDUSTRIAL


Reactivar o sector industrial de Angola exigirá ultrapassar as barreiras institucionais e físicas.
Os desafios institucionais implicam governação, administração pública, instituições públicas e
privadas, empreendimentos comerciais, relações laborais e corrupção. As infra-estruturas não
destruídas pela guerra têm sido seriamente descuradas: pontes, estradas, carris, centrais
hidroeléctricas, centrais de energia eléctrica, e linhas de transmissão de energia eléctrica. As
infra-estruturas socioeconómicas, escolas, centros de formação profissional, e hospitais e
clínicas, também foram abandonadas e não se têm mantido a par das exigências da migração
urbana. Os refugiados rurais exerceram uma pressão desmesurada sobre as infra-estruturas
urbanas destinadas a comporta uma fracção da população actual. O governo está a levar a
cabo tarefas de envergadura de reabilitação e de desenvolvimento; por exemplo, a maior parte
de um recente empréstimo da China no valor de UDS mil milhões, será utilizado para o
desenvolvimento de infra-estruturas.

As infra-estruturas existentes não podem satisfazer as necessidades actuais, quanto mais as


exigências que se prevêem. As restrições das infra-estruturas impossibilitam os sistemas de
ligação ao mercado e às operações das cadeias de fornecimento. Os produtores produzem
menos do que contrariamente poderiam devido ao fornecimento e aos canais de distribuição
inadequados; ninguém investe nos canais de fornecimento e de distribuição devido à
insignificante circulação de bens. Acabar com este ciclo vicioso exigirá coordenação e
planeamento públicos e privados para permitir o investimento estratégico que estimule e
apoie o aumento da produção. Cada subsector tem planos para o desenvolvimento das infra-
estruturas e algum trabalho já começou. A instalação e o fornecimento de serviços levarão
tempo e limitarão o crescimento económico durante algum tempo. Por conseguinte, deverão
ser redobrados os esforços para expandir a capacidade das infra-estruturas em todas as áreas,
a fim de satisfazer as necessidades crescentes nas áreas de crescimento, particularmente as
que são requeridas para apoiar o crescimento industrial.

PLANO DE REINDUSTRIALIZAÇÃO
Segundo dados sobre os investimentos locais, o sector industrial atrai a maior parte dos
investidores fora do sector do petróleo. Desde 2003, tem sido o sector não petrolífero que tem
crescido mais rapidamente em número de aprovações de investimento e volume de
investimentos.100 O número de investimentos industriais aprovados durante os últimos três
anos tem crescido quase exponencialmente, de USD 8,3 milhões em 2002 para USD 50,9
milhões em 2003, para USD 155,8 milhões em 2004 e USD 141 milhões durante a primeira
metade de 2005.101 A grande maioria dos empreendimentos industriais está planeada para a

100 No entanto, em 2004, o sector da construção aumentou mais de nove vezes para USD 2,2 mil milhões acima
dos valores de 2003 de USD 24,3 milhões.
101 Para os valores de 2004, consultar Angola e as Oportunidades de Investimento da ANIP (Luanda). Os
valores para 2005 provêem de comunicação pessoal com a ANIP.
122 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

grande Luanda. Cerca de 90 por cento do investimento é investimento directo estrangeiro


(IDE). Portugal é a fonte principal de IDE, seguido da África do Sul, China, Reino Unido,
França e Índia. Segundo fontes do Ministério da Indústria, este interesse é devido ao plano do
país para o sector industrial, “Reindustrialização de Angola”. Liderado pelo Ministério da
Indústria, este plano procura transformar o país num colosso industrial da África Austral.
Tendo sido concebido há já algum tempo, desde os últimos anos de 1990, o plano progrediu
rapidamente com o advento da paz em 2002.

Objectivo e Estratégia do Plano


O objectivo da politica e da estratégia industrial de Angola consiste em:

 Reviver o sector industrial e transformá-lo no motor principal do crescimento económico;


 Desenvolver uma economia de mercado eficaz, baseada num sector privado dinâmico;
 Melhorar indústrias sustentáveis que utilizam melhor os recursos nacionais;
 Promover as exportações e reduzir gradualmente as importações; e
 Garantir um crescimento equilibrado a par do sector de recursos extractivos.

Espera-se que o sector privado se transforme no motor do desenvolvimento e crescimento


industrial numa economia de mercado; e espera-se que o IDE traga capital, tecnologia,
conhecimentos prático e tecnológicos (know how) e mercados para edificar a capacidade dos
recursos humanos locais. O objectivo fundamental é integrar Angola na SADC para tirar
partido do seu forte mercado de 250 milhões.

O Ministério da Indústria, que está a definir políticas de estratégia e o quadro regulamentar,


concebeu um método baseado em quatro objectivos:

 Desenvolver um sector industrial de produtos básicos com um alto coeficiente de mão-de-


obra, para melhorar a distribuição de rendimentos, o poder de compra e a poupança;

 Expandir a produção de bens comerciáveis em sectores industriais seleccionados, a fim de


substituir a actual dependência quase total das importações (por exemplo, refrigerantes,
têxteis e vestuário, lacticínios, produtos da indústria da pesca, moagem de cereais,
produção de óleo vegetal, rações para os animais, moagem de arroz, produtos de borracha e
de madeira, materiais de construção, trabalho em madeira, adubos e fertilizantes, plásticos);

 Desenvolver o sector industrial em áreas com vantagens comparativas (por exemplo,


produtos à base de petróleo, minérios não ferrosos, produtos de madeira, tabaco, pedras
semipreciosas, óleos vegetais);

 Desenvolver o sector industrial em áreas com vantagens competitivas (por exemplo,


produtos petroquímicos, fundição de aço e de alumínio, gás natural liquefeito (LNG) e
produção de metanol, amónia, adubos e fertilizantes industriais);

O Ministério concebeu três programas—(1) restaurar as infra-estruturas industriais, (2)


reorganizar os recursos humanos, e (3) integrar o sector privado e seis subprogramas:

 Desenvolvimento de indústrias de exportação competitivas;


POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 123

 Desenvolvimento de indústrias que produzam bens comerciáveis capazes de substituir as


importações actuais;
 Promoção e apoio industrial a pequenas e médias empresas;
 Desenvolvimento das infra-estruturas para capacitar o restabelecimento empresarial;
 Recuperação de indústrias competitivas; e
 Reforço da capacidade do Ministério da Indústria.

Implementação
Para implementar o plano, o Ministério da Indústria está a assumir as seguintes pré-
condições:

 Rede rodoviária e ferroviária básica cobrindo todo o país;


 Aeroportos em todas as cidades principais;
 Capacidade instalada adequada nos principais portos de mar;
 Acesso a electricidade de baixo custo;
 Boa rede de vias marítimas;
 Alto crescimento da população com uma alta proporção nas idades pré-laborais;
 Grande reserva de mão-de-obra (56 por cento da população).

Então, como é óbvio, o plano de industrialização depende de vários outros planos para a
implementação das infra-estruturas. Entre estas pré-condições, as principais insuficiências
actuais encontram-se nas estradas e nos carris, aeroportos e portos de mar. Tal como referido,
estas tarefas não são pequenas, mas estão claramente prioritizadas, não só através deste
relatório, mas pelo governo.

Prevê-se que a estratégia de reindustrialização seja implementada em duas fases. Durante a


fase 1, instalações fabris economicamente viáveis que podem competir com outras empresas
numa economia de mercado serão reabilitadas e melhoradas. Na fase 2, serão criadas
empresas modernas e competitivas que podem gerar empregos sustentáveis e utilizar
substancialmente mais recursos naturais nacionais.

Zonas de Processamento Industrial


O Ministério da Indústria considera a criação de três zonas de processamento industrial (ZPI)
estrategicamente localizadas ou pólos de desenvolvimento com privilégios de isenção de
impostos. Estas zonas têm estado em fase de planeamento desde 1998. As ZPIs serão grandes
complexos de infra-estruturas que promovem o desenvolvimento industrial de uma forma
responsável do ponto de vista ambiental. Os objectivos das ZPIs incluem:

 Criar novos empregos;


 Atrair o investimento estrangeiro,
 Aumentar a transferência de tecnologia,
 Incrementar o valor acrescentado à produção doméstica, e
 Constituir ímanes nacionais para o desenvolvimento económico.
124 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

O Ministério tenciona pôr terrenos à disposição das ZPIs através de arrendamentos a longo
prazo de 40 a 60 anos. Espera-se que os serviços de utilidade pública e outros sejam
fornecidos a preços atraentes. O Ministério afirma que três ZPIs estão em várias fases de
desenvolvimento, de planeamento avançado a início:

 A ZPI em Viana na Província de Luanda, está a 20 quilómetros da cidade e abrange 8.000


hectares.

 A ZPI em Catumbela, na Província de Benguela, abrange 2.100 hectares.

 A ZPI em Fútila, na Província de Cabinda, tem uma área de 2.345 hectares.

Ainda não existem nenhumas ZPis e ainda não foi aprovada legislação para este tipo de infra-
estrutura industrial. Um comité liderado pela Sonangol e pelo Grupo da Coreia do Sul,
Samsung, está a intentar trabalhar em conjunto para criar a primeira ZPI no Lobito, na
Província de Benguela. Espera-se que algumas empresas industriais importantes angolanas,
tais como a Lobinave, a Sonamet se mudem para esta ZPI num futuro próximo. Uma refinaria
petrolífera também está planeada para um data posterior.

Considerando o mau rendimento das ZPIs noutros países africanos e noutras partes do
mundo, seria sensato proceder com cuidado antes da implementação de qualquer proposta.
Os planos experimentais na Tanzânia, no Malawi, na Zâmbia e em Moçambique têm sido
dispendiosos e não têm ido ao encontro das expectativas.

ANÁLISE DA ESTRATÉGIA DE REINDUSTRIALIZAÇÃO


O sector industrial de Angola está delapidado, repleto de fábricas e maquinaria velhas e
obsoletas, com carência de gestores industriais e de uma força de trabalho industrial treinada.
A “reindustrialização” não capta verdadeiramente os desafios enfrentados pelo sector.

A estratégia da reindustrialização baseia-se num modelo de substituição das importações e


presta pouca atenção às oportunidades das exportações. Na verdade, considerando a
dependência de Angola das importações de bens de consumo e de capital, os seus
antecedentes industriais, legado de recursos, tamanho de mercado moderado e potencial
industrial, as políticas de substituição das importações têm probabilidade de atingir algum
sucesso a muito curto prazo. Mas a substituição das importações, raramente é bem sucedida
durante um período de tempo longo. Comporta riscos e exige pelo menos três condições para
ser bem sucedida:

 Um tamanho de mercado interno, que permita as economias de escala necessárias para um


sector industrial lucrativo. Angola têm uma população de cerca de 13,5 milhões, mas o seu
alto índice de pobreza limita o poder de compra, a muito menos de metade da população.

 Uma tecnologia moderna, um sector industrial eficaz, inovação e uma força de trabalho
treinada e produtiva. Estes são os factores de competitividade, que actualmente escasseiam
em Angola.

 Operários especializados, devidamente treinados e capazes de demonstrar uma alta


produtividade e inovação, através de investigação e desenvolvimento.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 125

Estas condições não existem nesta fase da transição de Angola para uma economia de
mercado. Se o governo decidir que uma estratégia de substituição das importações constitui a
melhor opção para reviver o sector, é provável que Angola venha depara-se com problemas
substanciais a médio prazo, tal como tem sido o caso de todos os países nos quais as pré-
condições descritas acima, para se obter êxito, não estavam estabelecidas. Ao considerar as
próximas etapas para a promoção da produção industrial, é imperativo que a estratégia
escolhida posicione também o país para vir a ser um exportador num futuro previsível. Isto
pode ser realizado através da promoção do investimento na tecnologia e know-how, da
formação e treino dos trabalhadores para que se tornem mais produtivos e da introdução de
normas para produtos fabricados que cumpram as condições dos mercados internacionais.

Ao ter por objectivo a produção de bens de consumo e de produtos básicos para o mercado
nacional, a estratégia para reactivar o sector industrial é mais uma visão do que uma
condição. A não ser que Angola tencione continuar a manter empresas do estado, os
investidores privados, cada vez mais, terão a última palavra sobre onde, quando e para que
segmentos de mercado é que os investimentos irão. 102 Os investidores querem obter lucros e o
maior retorno possível sobre os seus investimentos. Investirão em segmentos de mercado que
prometem o maior retorno sobre o seu investimento. Consequentemente, os bens só serão
produzidos para o mercado nacional, se os investidores privados julgarem que esse mercado
é mais lucrativo do que o mercado das exportações.

Angola tenciona fazer parte do acordo de zona de comércio livre da SADC. Com efeito, isto
proporcionará a Angola toda a região da SADC como mercado potencial para a produção
nacional. A troco disso, Angola tem que abrir os seus próprios mercados após um certo
período de tempo durante o qual gozará de exportações isentas de tarifas sem ter de competir
com as importações fabricadas no estrangeiro.

Finalmente, deve chamar-se a atenção para o facto de que a maioria dos subsectores
destacados pelo governo como tendo potencial para um aumento da produção, não exigem
uma mão-de-obra abundante. Este factor indica que não se pode esperar que o sector
industrial possa prestar uma contribuição significativa para com a geração de emprego, nem
que venha a ter um impacto significativo sobre a pobreza.

NOVA CLASSIFICAÇÃO TARIFÁRIA


Angola tem estado a aplicar as normas comerciais internacionais e regionais (SADC) a alguns
sectores de produção industrial e de produtos alimentares. Em 1996 introduziu o Sistema
Harmonizado e adoptou uma nova pauta aduaneira em Maio de 1999. Desde aí, a sua
classificação tarifária e sistema de importações têm sido revistos e liberalizados. Os direitos
alfandegários têm baixado de uma taxa máxima de 135 por cento para 30 por cento. Por
conseguinte, a última revisão da classificação tarifária em Angola tem reduzido grandemente
a faixa tarifária, criando, segundo parece, uma barreira mais baixa para a entrada das
importações.

102 O governo tem declarado repetidamente a sua intenção de se desfazer destas empresas.
126 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

A nova estrutura criou uma vantagem comparativa “artificial” no sector industrial através de:
(1) reduzir as taxas aduaneiras que afectam as importações de matérias-primas para o sector;
(2) manter ou diminuir levemente as tarifas sobre os produtos manufacturados que podem ser
adquiridos localmente em quantidade e qualidade aceitáveis, estimulando assim a produção
local indirectamente (estes aumentos tinham a finalidade de harmonizar as faixas tarifárias de
Angola com as dos outros países da SADC); (3) impor taxas mínimas sobre bens essenciais e
produtos intermédios que não são produzidos localmente ou cujos níveis de produção não
satisfazem as necessidades básicas; e (4) impor taxas máximas sobre bens usados não
incorporados em produtos locais, com o objectivo de ter um impacto benéfico sobre a ecologia
e minimizar as importações de peças sobressalentes, reduzindo também assim as despesas de
moeda forte.

Apesar da máxima taxa aduaneira de Angola ser baixa em comparação com as normas dos
países em vias de desenvolvimento, um efeito provável é a protecção eficaz moderada dos
produtores nacionais em certos sectores. A maioria das tarifas sobre os meios de produção
industrial, bens de capital e equipamentos é baixa e considerada como uma “taxa
burocrática”, (2 por cento ou 5 por cento). Além disso, substanciais concessões de isenção de
direitos alfandegários estão disponíveis para os investidores em ZPIs e regiões deprimidas. A
combinação de tarifas baixas e de concessões significa que a maioria dos investidores paga
poucos ou nenhuns direitos alfandegários sobre meios de produção, equipamentos, e bens de
capital, pelo menos durante um período inicial, dependendo da localização das suas
actividades. No outro extremo, alguns bens nacionais “sensíveis”, incluindo certos materiais
de construção, são taxados com direitos alfandegários nominais relativamente altos de 20 por
cento ou 30 por cento, para estimular a produção local.

A nova classificação tarifária de Angola tem um impacto estimulante geral sobre o sector
industrial, pelo menos a curto prazo. Por outro lado, devido a direitos e concessões tarifárias
baixos sobre os bens usados na produção, a protecção eficaz do valor acrescentado tem
probabilidade de ser mais alta do que as taxas nominais de direitos alfandegários sobre os
bens finais implicaria. Isto é vantajoso, especialmente para a produção de bens acabados que
utilizam matérias-primas e meios de produção importados. No entanto, apenas algumas
zonas, parecem estar protegidas pela nova classificação tarifária.

O facto de Angola ter diminuído as suas barreiras tarifárias e de direitos alfandegários antes
de reactivar o sector industrial, apresentará um desafio ainda maior para a produção
industrial numa economia dominada por importações. É provável que a maior ameaça ao
sector industrial de Angola seja constituída por importadores de bens manufacturados e não
por outras produções industriais. Isto é especialmente verdade nos segmentos em que as
margens comerciais são utilizadas (isto é, produção, venda a grosso e a retalho), porque os
intermediários preferem “fazer propaganda” dos bens importados que não estão sujeitos a
uma margem imposta, em contraste com os bens nacionais. Mas do ponto de vista da
competitividade, barreiras de importação mais baixas constituem verdadeiros incentivos que
estimularão a concorrência e a eficácia do sector. Na verdade, é provável que os produtores
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 127

menos eficazes sucumbam neste ambiente competitivo, enquanto que os que sobrevivem e
prosperam, fá-lo-ão devido à sua eficácia.

Isto é a evolução normal da situação numa economia de mercado. A sua introdução em


Angola provocará algumas queixas e alguma amargura, mas os resultados definitivos serão
benéficos. Isto é particularmente verdade tendo em conta a admissão na SADC. Assim que
tiverem um mercado regional muito maior no qual podem vender, os fabricantes beneficiarão
significativamente do facto de alcançarem uma produção eficaz e de aderirem às normas
internacionais.

RECOMENDAÇÕES
Angola importa tudo, incluindo produtos em relação aos quais tem uma vantagem
comparativa. As importações de mercadorias representam cerca de 30 por cento do PIB. Dado
que Angola é o segundo maior exportador de petróleo da África Subsaariana, a sua conta
comercial tem gerado um excedente médio de cerca de 40 por cento durante a última década.
Apesar deste grande saldo da balança comercial, Angola incorreu num défice da conta
corrente desde 1975 até 2000, quando tinha um excedente de UDS 637 milhões. A tendência
negativa retornou em 2001 até 2003 e em 2004 parece ter passado a ser positiva. Esta súbita
viragem positiva parece ser devida ao aumento pronunciado dos preços do petróleo.

Não existem dados precisos sobre o volume de entrada de bens manufacturados em Angola,
mas o volume é suficiente para levar o Ministério da Indústria e os peritos económicos a
sugerir que a produção para o mercado nacional é o ponto inicial lógico para reactivar o
sector a curto e a médio prazo. A estratégia do ministério concentra-se num sector industrial
interno com pouca atenção prestada às exportações. No entanto, alguns investigadores,
argumentam que uma estratégia focada no mercado nacional deveria marcar uma transição
para uma estratégia que dá ênfase às exportações. A dependência das importações para
satisfazer as necessidades nacionais, o potencial da produção do país e a procura acumulada,
parecem ser razões válidas para dar início a uma estratégia industrial incidindo primeiro
sobre o mercado nacional e, depois, sobre o mercado das exportações.

São muitos os desafios para a reactivação do sector. As recomendações que se seguem


destinam-se a ajudar a ultrapassar esses desafios.

 Acelerar a reposição das infra-estruturas edificar infra-estruturas modernas e eficientes. Os


serviços de infra-estruturas precisam de ser reabilitados e modernizados para apoiar uma
produção e distribuição eficazes. Isto implicará investimentos nas unidades e sistemas de
infra-estruturas e anos de planeamento e construção. Todos os sectores que fornecem
serviços de infra-estruturas devem ser visados, a fim de fornecerem uma cadeia de
fornecimento abrangente e contínua, a par de um sistema de transportes multimodal, que
movimenta os bens e as pessoas eficientemente. Os sectores da energia eléctrica, da água e
das comunicações, assim como a construção civil, também precisam de ser melhorados.

 Melhorar o ambiente de capacitação empresarial. O ambiente para o investimento e as


operações deve ser expurgado de práticas administrativas deficientes e de uma burocracia
128 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

enraizada em décadas de intervenção do estado e má administração das unidades de


produção. As medidas já tomadas para melhorar o quadro legislativo e regulamentar para a
criação do investimento e do comércio, não resolve completamente as dificuldades de fazer
negócios em Angola.

 Levar a cabo uma avaliação abrangente do clima de investimentos. Os problemas na


cadeia de valores empresariais precisam de ser identificados e recomendados os
melhoramentos concretos.

 Combater a corrupção no ambiente empresarial. A corrupção generalizada tem que


extirpada para suprimir os custos onerosos relacionados com as actividades comerciais e
para remover a economia paralela de procura de rendas, que prevalece no sector público.

 Rever a nova classificação tarifária e de direitos alfandegários e fazer os ajustamentos


necessários para apoiar um sector industrial competitivo. Segundo os peritos, a recente
revisão da classificação tarifária e dos direitos alfandegários em Angola, diminuiu os limites
em todos os sectores. A estrutura actual deveria ser reexaminada para identificar tarifas e
direitos alfandegários sobre os meios de produção que podem ser reduzidos para apoiar a
produção dos bens comerciáveis no sector industrial a curto e a médio prazo.

 Introduzir a qualidade como um requisito para conceder incentivos na legislação


destinada à promoção do investimento. Os objectivos do investimento enumerados na Lei
sobre Incentivos Fiscais e Aduaneiros ao Investimento Privado são sobretudo quantitativos
mas devem encorajar explicitamente os investidores a empenhar-se em obter produtos de
qualidade.

 Adoptar normas e especificações sobre a qualidade para guiar os fabricantes. Angola


deveria adoptar normas elevadas sobre o design e a produção de produtos, a fim de
cumprir os requisitos do mercado internacional. Ao fazê-lo beneficiará os consumidores
nacionais e ajudará a preparar os fabricantes para os mercados de exportações.

 Adoptar um plano de formação de recursos humanos para apoiar o sector. O sector carece
de uma classe de gestores e de operários especializados; vagas sucessivas de inflação
durante mais de 20 anos têm aumentado os salários, que são considerados altos segundo as
normas africanas. Em Luanda, por exemplo, os salários no sector industrial variam entre
USD 150 e USD 180 por mês. Em Benguela, os salários variam entre USD 100 e USD 130 por
mês. Os gerentes e os trabalhadores precisam de ser formados e trienados para assumir a
chefia e para alcançar a produtividade requerida para um sector industrial dinâmico.

Turismo
Tal como muitos dos seus vizinhos que estão a desenvolver lucrativos sectores do turismo,
Angola possui um clima variado que abrange o deserto, a savana e as florestas tropicais,
quilómetros de uma costa litoral subdesenvolvida e um património cultural único. De médio
a longo prazo, o sector do turismo apresenta oportunidades extraordinárias, à medida que o
país recupera da guerra civil, reabilita as infra-estruturas, restabelece a segurança e reaviva o
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 129

interesse dos operadores turísticos, das empresas turísticas e dos turistas. As etapas imediatas
para abrir o potencial do sector incluem (1) reformar o ambiente regulamentar, (2) reconstruir
as infra-estruturas e restabelecer as redes de transportes, e (3) garantir a segurança em todo o
país.

POLÍTICA E AMBIENTE REGULAMENTAR


O sector do turismo sofre de uma forte intervenção do estado o que impede o novo
investimento do sector privado. O Ministério de Hotelaria e Turismo foi criado em 1994 e está
encarregado da política do turismo. Apesar das intenções governamentais e das declarações
que apoiam uma economia de mercado, o quadro regulamentar para o sector do turismo
continua a ser muito intervencionista. A Lei 6/97 rege a maioria das funções do Ministério do
Turismo. Estas funções incluem:

 Promover actividades sustentáveis em zonas turísticas nacionais que podem beneficiar do


desenvolvimento económico e social das comunidades locais,

 Identificar e organizar locais turísticos com base no interesse público e na prioridade de


intervenção,

 Promover o turismo interno, regional e internacional, e

 Promover e mobilizar o financiamento e o investimento estrangeiro.

371. As funções do Instituto Nacional de Fomento Turístico, estabelecido pelo Decreto-Lei


62/97, sob a égide do Ministério do Turismo, incluem:

 Preparar projectos organizacionais e financeiros, incluindo a organização física de produtos


turísticos potenciais, e

 Ajudar a promover o interesse nacional integrando o capital privado nacional e estrangeiro,


a fim de implementar projectos racionais e integrados em segmentos turísticos já sob
exploração.

A Lei 54/97 regula o estabelecimento e as licenças das agências de viagens e a Lei 66/75
regula o estabelecimento e os trâmites de obtenção de licenças para os hotéis, restaurantes e
actividades comerciais semelhantes.

O quadro jurídico e institucional encoraja as práticas restritivas que criam oportunidades para
a corrupção. Sob a estrutura actual, o governo controla completamente a determinação das
políticas, o planeamento e regula o estabelecimento e operação dos serviços turísticos. O nível
de controlo limita a concorrência; impede o desenvolvimento de novos hotéis de propriedade
privada e outras infra-estruturas turísticas; e impede as iniciativas privadas para promover o
turismo ou desenvolver destinos turísticos. Várias associações comerciais, tais como a
Associação de Agências de Viagens e de Operadores de Excursões Turísticas (AAVOTA), a
Associação de Gestores de Hotelaria (AADHA) e a Associação de Manutenção e
Abastecimento de Hotéis (HORESIL), são activas na reforma do quadro regulamentar. Estão a
envidar esforços para apoiar os seus membros a garantir a qualidades dos serviços e a
130 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

promover o diálogo com as instituições governamentais, tais como o Ministério do Turismo e


Hotelaria e o Instituto de Promoção Turística.

RECURSOS
Um inventário dos recursos turísticos levado a cabo pela KPMG e pelo Ministério do Turismo
e Hotelaria foi publicado no fim de Agosto de 2005 e apresentou os seguintes factos e
conclusões.

Organização Regional e População


Angola tem 18 províncias compostas por 168 municipalidades. A sua população é de cerca de
15 milhões de pessoas e continua a aumentar 2,8 por cento por ano. A densidade populacional
é baixa, constando apenas de 11,49 habitantes por quilómetro quadrado. Mais de 70 por cento
dos angolanos vivem em cinco províncias, Luanda, Benguela, Huambo, Bié, Uíge e Malange.
A idade média é 20 anos e mais de 50 por cento tem menos de 19 anos. A pressão sobre o
mercado laboral é forte, à medida que a oferta de mão-de-obra não especializada aumenta
continuamente devido às deficiências no sistema educativo.

Recursos Naturais
Angola é um país vasto com o deserto na zona do sudoeste e as florestas tropicais na zona
norte. A planície costeira atinge 200 quilómetros no norte e cerca de 15 a 20 quilómetros em
Benguela. Os altos planaltos no centro descem suavemente para o sul e para o norte. As
montanhas de Canda, Nambuangongo e Pungu Andongo localizam-se no norte; as
cordilheiras de Cuando e de Quembo no leste atingem uma altitude de 1.500 metros. As
altitudes mais altas são de 2.620, 2.582 e 2.554 metros com as montanhas de Moco, Mepo e
Lubange no sudeste cobrindo as províncias de Huambo, Bié e Huíla. De norte a sul, Angola
possui uma das mais belas paisagens em África, com montanhas, baías, altos planaltos, o
oceano e quedas de água. As 37 zonas protegidas do país, reservas de caça, parques, praias,
florestas e parques nacionais, cobrem 188.650 quilómetros quadrados ou 15,1 por cento do
território nacional.

Angola tem duas estações: a estação seca (cacimbo) de Maio a Agosto e a estação das chuvas
de Setembro a Abril. O noroeste tem um clima tropical quente e o sudoeste um clima tropical
desértico e o interior varia entre tropical húmido e muito temperado. O litoral é muito quente,
com uma média entre 35 e 40º C. A flora e a fauna também são variadas: a floresta densa e
húmida, as florestas abertas e fechadas, as savanas com e sem árvores, os desertos secos, 920
espécies de pássaros e várias espécies muito raras, tais como o antílope negro gigante e o
rinoceronte branco no interior.

Angola tem cerca de 1.650 km de praias naturais desde a fronteira com o Congo a norte, até à
fronteira com a Namíbia a sul. Os rios principais incluem o Cubango (975 km), o Kuanza (960
km), o Cunene (945 km) e o Cuando (750 km). Alguns rios têm maravilhosas quedas de água,
tais como Kangadala em Malange e Ruacaná em Malange e Cunene. Estes recursos oferecem
possibilidades para um turismo de desportos aquáticos, praias e rios. A pesca desportiva e a
vela já são desportos concorridos entre os angolanos e os poucos visitantes estrangeiros.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 131

Outros desportos, como rafting, campismo, snorkeling e mergulho submarino também são
prometedores.

Recursos Culturais e Históricos


Os locais culturais e históricos de Angola têm séculos de existência. Os locais com um grande
potencial turístico incluem monumentos dedicados à história da escravidão e ao património
católico português que data dos séculos XV e XVI. Vestígios do Reino do Congo na cidade de
M’Banza Congo e circundando a Província do Zaire, datam do século V. Os museus,
monumentos, edifícios históricos e arquitectónicos e as estações arqueológicas espalhadas
pelo território angolano também poderiam atrair os turistas. As infra-estruturas circundantes
e a manutenção dos locais precisam de ser melhoradas. Outras atracções incluem o trabalho
artesanal, a cerâmica, o artesanato, as exposições comerciais, a cozinha tradicional, os
instrumentos musicais, os tecidos e panos localmente produzidos, as esculturas, as máscaras,
a dança, o teatro, a religião e os eventos culturais.

Alojamento e Restaurantes
Em 2004, a oferta de alojamento em Angola constava de 10 mil quartos e 11.452 camas. A taxa
de ocupação era de 96 por cento. O alojamento varia entre casas de hóspedes e grandes hotéis
internacionais categorizados pelo Ministério do Turismo e Hotelaria como de 1-4, 1-3 e 1-2
estrelas. Na categoria 1-4 existem cerca de 48 hotéis que obtiveram licenças no fim de 2004 e
têm uma capacidade de 2.667 quartos e 3.682 camas. Luanda contribui com mais de 60 por
cento da capacidade e tem alojamentos muito melhores do que outras cidades. As empresas
nacionais conhecidas a nível internacional incluem Serafim L. Andrade, que explora o Hotel
Trópico e o Alvalade; o Grupo Equador, que é proprietário do Hotel Continental; e uma
empresa portuguesa que explora o Hotel le President Meridien. Na categoria 1-3 existem cerca
de 136 hotéis mais pequenos (pensões) fornecendo 6.691 quartos e 7.054 camas; a qualidade é
muito inferior à que é oferecida pelos hotéis maiores. A categoria 1-2 consta de alojamento
com pequeno-almoço (APA) oferecendo 621 quartos e 716 camas. Geralmente, os clientes são
angolanos que auferem salários baixos e que se movimentam entre províncias e cujas estadias
são muito curtas. Os restaurantes, os bares e outros negócios semelhantes têm crescido
consideravelmente. Em 2004, o número de restaurantes registados era de 5.691 em
comparação com 5.544 em 2003. Um número significativo de hotéis e restaurantes ainda são
explorados pelo estado e precisam de reabilitação. Atrasos no processo de privatização
combinados com procedimentos burocráticos limitam o envolvimento do sector privado. Mais
uma vez, Luanda tem a maior densidade de restaurantes, dado que é o maior mercado e o
mais seguro.

Agentes de Viagem, Operadores de Excursões e Serviços de Aluguer


As 42 agências de viagem privadas de Angola fornecem uma variedade de serviços a clientes
nacionais e internacionais, de bilhetes e reservas de hotéis a assistência a passageiros e
pedidos de visto. A maioria das firmas tem um certo grau de propriedade ou capital
estrangeiro, devido à falta de crédito local. Os serviços de aluguer de viaturas existe, mas
132 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

muitas agências de viagem e outras empresas (por exemplo, hotéis) oferecem aluguer em
pacotes de serviços.

Concorrência com os Países da SADC


A SADC inclui países com uma longa história de turismo: a África do Sul, a Repúblicas das
Seicheles, a Suazilândia, a Zâmbia, a República da Maurícia, a Namíbia, o Zimbabué e
Botsuana. De 1990 a 2001, Angola contou com uma média de menos de 2 por cento dos
turistas que entraram países membros da SADC; a África do Sul contou com 30 por cento e o
Zimbabué 18 por cento. Para ser um país competitivo na região, Angola terá que oferecer
experiências de turismo semelhantes a preços competitivos. As agências de viagem angolanas
podem tirar partido de forjar parcerias com agências de viagem de países vizinhos e com
agências de viagem regionais para criar pacotes que dêem a possibilidade aos visitantes à
região para acrescentar uma semana ou mais para visitar Angola. Devido à sua proximidade,
os circuitos turísticos da Namíbia e de Botsuana poderiam ser um dos alvos dos grupos de
excursões de Angola na criação desses pacotes. Além disso a maioria dos turistas em
Moçambique e na Zâmbia são sul-africanos. As empresas e os cidadãos sul-africanos são uma
das fontes principais de comércio em Angola e constituem um alvo lógico para a edificação do
turismo em Angola.

PRODUTOS
A procura turística é satisfeita através do marketing de uma vasta gama de serviços que
constitui uma cadeia de fornecimento da indústria. Uma indústria de turismo saudável pode
beneficiar outras firmas e sectores ao longo desta cadeia, inclusive agricultores, fornecedores
de transportes e artesãos. A cadeia de fornecimento em Angola tem falta de elos de ligação,
devido às infra-estruturas deficientes e ao envolvimento excessivo do governo.

A procura continua a ser muito baixa e o país ainda não recuperou da guerra. Entre 1990 e
1995, o número de turistas que visitou Angola diminuiu significativamente, mas desde aí tem
estado a aumentar, cerca de 45 por cento entre 1995 e 2000. O número de turistas subiu para
194.329 em 2004, uma aumento de 82 por cento em relação a 2003. Aproximadamente 52 por
cento dos turistas são da Europa, sobretudo de Portugal. Outras origens incluem o Brasil, a
África do Sul, o Zimbabué e Moçambique. O turismo de negócios (business tourism) é de
longe o segmento maior, devido às oportunidades comerciais e de negócios, desde que a
guerra acabou. O turismo recreativo ou de lazer é praticamente inexistente. Setenta e quatro
por cento dos turistas que visitaram Angola em 2004 foram transportados por via aérea e 24
por cento em transportes terrestres. Os maiores problemas enfrentados pelos turistas em
Angola têm a ver com o alojamento e os transportes. Em 2004, as taxas de ocupação dos hotéis
atingiram 96 por cento com estadias de uma média de 8 noites. A maioria dos hotéis em
Luanda aceitam reservas em excesso e pode ser difícil conseguir quartos, mesmo nos hotéis de
qualidade mais baixa. Os preços são elevados comparados com a maioria dos países membros
da SADC e não reflectem qualidade.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 133

Não existe uma informação estatística fiável sobre a contribuição do turismo para o PIB. Os
dados provenientes do Ministério do Turismo e Hotelaria são inconsistentes e dispersos
porque o ministério se baseia noutras fontes, tais como os serviços de imigração e os hotéis.
No entanto, a contribuição do turismo, pode ser medida pelas receitas declaradas às
autoridades (Quadro 9-7). Devido aos regulamentos fiscais e de contabilidade pouco
rigorosos, julga-se que esta contribuição é certamente muito superior a USD 97 milhões por
ano. Os valores do Quadro 9-7 não incluem outros aspectos desta indústria (por exemplo,
transportadores, serviços de hotelaria e restaurantes e agências de aluguer de veículos).

Quadro 9-7
Receitas turísticas brutas em 2004 (USD milhões)

Actividade Receita Percentagem


Hotéis 64,5 66,5

Restaurantes 3,1 3,2

Agências de Viagem 29,4 30,3

Total 97,0 100,0

Desde o fim da guerra que o governo empreendeu um plano para reestruturar o sector do
turismo e reabilitar os hotéis e restaurantes. O plano, que inclui a revisão do quadro legal e
regulamentar, a fim de promover a participação do sector privado, estabelece provisões para a
mobilização de financiamento para os projectos de investimento. Neste sentido, o Ministério
do Turismo e de Hotelaria tem definido zonas de prioridade para o turismo:

 Curto prazo — Províncias de Luanda, Cabinda, Bengo, Benguela, Kuanza Sul, Namibe,
Huila e Cunene.

 Médio prazo— Províncias do Zaire, Uíge, Kuanza Norte, Malange, Huambo e Bié.

 Longo prazo — Províncias de Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico e Kuando Cubango.

Estas prioridades baseiam-se nos destinos da maioria dos turistas (sobretudo cidades
costeiras), nos recursos naturais e humanos de cada província e na dinâmica do sector
privado. Apesar do dinamismo agressivo do sector privado, que tem estado a investir todos
os anos na construção de atracções em Luanda, Sumbe, Benguela e Huíla, o governo ainda
não implementou o plano. Contratou uma firma de consultoria para preparar um Plano Geral.
O Anexo 9-1 resume a situação e o potencial do sector do turismo em Angola:

PLANO GERAL DE DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO


Tal como mencionado no programa económico do governo, esta indústria tem que
desenvolver produtos e diversidade para atrair mais turistas. O Ministério de Hotelaria e
Turismo contratou uma empresa de consultoria para levar a cabo um estudo diagnóstico do
sector apresentar um plano geral de desenvolvimento turístico. O plano aborda e propõe
políticas estratégicas com objectivos específicos:
134 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

 Estruturar e diversificar produtos turísticos;


 Atrair investimentos importantes;
 Aumentar a oferta de alojamento de boa qualidade;
 Promover as PME (pequenas e médias empresas) do sector;
 Fornecer melhores aptidões para a força de trabalho;
 Aumentar o consumo nacional de produtos turísticos;
 Lançar, consolidar e aumentar a oferta de produtos turísticos no mercado internacional.

Anexo 9-1
Pontos fortes, fracos, oportunidades e ameaças do sector do turismo

PONTOS FORTES PONTOS FRACOS


Disposição do governo para prioritizar o sector Capacidade deficiente das instituições
Reformas institucionais no Ministério de Hotelaria governamentais
eTurismo . Governos regionais deficientes
Experiência em turismo de negócios a nível Base económica nacional deficiente
internacional, enquanto Luanda fornece 60 por cento Difícil acesso à maioria das regiões
da capacidade nacional em hotéis Oferta deficiente e irregular de infra-estruturas básicas
Diversidade do clima (por exemplo, água, sanidade pública, energia,
Meio ambiente equilibrado e bem preservado comunicações)
Praias de areia branca Algumas praias poluídas
Oceano com temperaturas agradáveis, ondas baixas e Sector privado fraco
uma vida marinha abundante Oferta de alojamento insuficiente
Paisagens diversas Altos preços
Atracções ecológicas Mão-de-obra pouco especializada
Reservas de caça com uma fauna e flora diversas Carência de formação de qualidade
Rios navegáveis com peixe em abundância Promoção e intervenção pública burocráticas e
Importante património etnográfico e cultural deficientes
Populações amistosas e amáveis Sistema financeiro deficiente
Restrições aplicáveis aos vistos
OPORTUNIDADES
Transportes aéreos dispendiosos e escassos
Paz completa e duradoura
Condições deficientes dos aeroportos regionais
Tendências internacionais de turismo
Fraca intervenção das agências de viagem
Integração regional através da SADC
Ideias preconcebidas das agências de viagem para
Procura do mercado nacional
com deslocações de saída
Procura do mercado internacional
Construção de novas estâncias balneares AMEAÇAS
Maior ênfase ao ecoturismo e ao turismo de aventura Capacidade deficiente do Ministério de Hotelaria e
Desportos náuticos Turismo para facilitar e promover o turismo
Reabilitação e protecção das reservas de caça Minas terrestres e falta de segurança fora de Luanda e
outras cidades principais
Contratempos nos planos de descentralização e de
promoção do Ministério do Turismo
Alta incidência de pobreza e malária
Altos preços
Concorrência de outros países da SADC
Imagem negativa resultante de uma longa guerra
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 135

O plano destina-se a ser implementado de 2005 a 2013 através de uma variedade de


programas e é provável que custe cerca de USD 21 milhões (Quadro 9-8). O plano parece ser
muito ambicioso, dado que o Ministério do Turismo e Hotelaria não dispõe de recursos
humanos nem financeiros para o implementar. Além disso, o plano pouco faz para resolver
restrições existentes na política e para capacitar um ambiente que actualmente dificulta o
crescimento do sector privado e a inovação. Os problemas relacionados com os regulamentos
para a obtenção de vistos, as infra-estruturas, o registo de empresas que começam, a utilização
de terrenos, os direitos de propriedade, as restrições ao investimento e a burocracia não são
abordados com o pormenor necessário para promover o desenvolvimento do sector.

Quadro 9-8
Programas e projectos do plano geral de desenvolvimento turístico

Prazos
Programas Objectivos Projectos
Desenvolvimento das Desenvolver a capacidade
Rever e modernizar o quadro legal CP
capacidades de gestão do Ministério de Hotelaria
e Turismo para tratar de
políticas de turismo a Criar uma Junta de Turismo CP
nível macro
Estabelecer um Fórum Regional MP

Requalificar as competências dos


quadros do Ministério CP

Planeamento Fornecer um quadro de Estabelecer modelos de ocupação


médio a longo prazo, para territorial e espacial CP
evitar o desenvolvimento
anárquico Definir e criar zonas de
desenvolvimento turístico MP

Fomento Estabelecer linhas de Atrair os investimentos CP


actuação para promover,
apoiar e atrair os Financiar projectos turísticos MP
investimentos
Apoiar as PME MP

Estruturação e Estruturar produtos Turismo de negócios CP


diversificação da oferta turísticos baseados na
turística existência de recursos Turismo MICE (motivar a
naturais e culturais participação em reuniões, incentivos,
congressos e eventos) MP

Turismo marinho e náutico CP

Ecoturismo e turismo de aventura CP

Turismo cultural CP

Marketing Estabelecer Turismo nacional CP


procedimentos de
informação e de Turismo internacional MP, LP
marketing para fazer
Bolsa de valores do turismo de
publicidade a Angola e
Angola LP
oferecer uma boa imagem
do país Plano estratégico de marketing MP

Notas: CP — curto prazo (3 anos); MP — médio prazo (4 a 6 anos); LP — longo prazo (7 a 8 anos).

Ainda não estão envolvidos neste sector nenhuns doadores. A Câmara de Comércio
Internacional [International Trade Chamber – ITC] está a apoiar uma sondagem do mercado
136 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

em Angola, a fim de avaliar o potencial das exportações de serviços e pode mobilizar fundos
para apoiar a formação profissional em associações de comércio e serviços.

RECOMENDAÇÕES
O sector do turismo em Angola tem grandes possibilidades. No entanto, primeiro terá que
ultrapassar os efeitos da guerra sobre a sua imagem internacional, o ambiente e a população e
melhorar a experiência e os pacotes turísticos que pode oferecer. Atrair turistas sem os
satisfazer, só prejudicará a reputação de Angola. Recomendam-se as seguintes etapas para
desenvolver esta indústria a curto, médio e longo prazo:

 Atrair um turismo de recreio e de lazer de curto a médio prazo.

 Reconstruir e renovar as estradas, os caminhos de ferro, os aeroportos que ligam as


cidades e as atracções turísticas principais e as infra-estruturas urbanas (estradas,
passeios e serviços de utilidade pública) em Luanda, Benguela, Lubango e Huambo.

 Facilitar o trânsito para Luanda e dentro da cidade, facilitando os requisitos de


obtenção de vistos, tornando os voos mais fiáveis e frequentes e melhorando os
transportes locais e regionais (táxi, autocarro, automóvel).

 Capacitar o sector privado de forma a liderar o crescimento do sector, através da


privatização do alojamento e facilitando o registo e gestão de uma empresa ou
negócio.

 Aumentar a oferta e a diversidade de produtos turísticos redobrando as opções de


alojamento de qualidade internacional em Luanda e noutras cidades principais,
facilitando as reservas de quartos em hotéis e aluguer de veículos e, também os
preparativos para pacotes de excursões e passeio dentro e fora de Angola.

 Resolver as necessidades turísticas de um grande grupo de expatriados que trabalham em


Angola no sector do petróleo e dos diamantes. Presentemente, estes visitantes ficam em
Luanda ou nos seus locais de trabalho (por exemplo, Cabinda, Soyo), mas poderiam usar
fins-de-semana e férias para conhecer melhor o país. Resolver as necessidades deste
segmento do mercado ajudaria a indústria do turismo a edificar relações com determinados
países, tais como Portugal, a África do Sul, o Brasil, a França, o Reino Unido e os Estados
Unidos, tornando mais fácil planear férias para os visitantes desse país e desenvolvendo a
reputação turística do país.

 Atrair o investimento fornecendo infra-estruturas básicas e políticas de reforma. Angola


ainda tem que levar a cabo uma reconstrução a grande escala, mas os recursos são
inadequados. Os problemas estruturais da economia limitam ainda mais o investimento
privado e desencorajam os investidores estrangeiros. Entretanto, as oportunidades
empresariais em alojamento, caça, turismo de aventura e ecoturismo existentes dentro e
fora de Luanda, definham. As províncias de Kuanza Sul, Benguela, Huila e Namibe que
possuem atracções naturais e culturais poderiam atrair grandes fluxos de investimento se o
governo resolver problemas básicos, relacionados com a água, a energia, as
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 137

telecomunicações e as estradas e reformular o quadro regulamentar e legal. Fornecer infra-


estruturas básicas e um ambiente acolhedor para o mercado, pode atrair investidores
nacionais e internacionais para o sector.

 Implementar medidas para reduzir a desorganização burocrática e as oportunidades de


suborno ou corrupção, dado que estes podem afectar o turismo. Os procedimentos que
permitem aos turistas entrar e sair do país deveriam ser simplificados e clarificados, assim
como os procedimentos que afectam os turistas durante a sua permanência em Angola.

O Plano Geral de Desenvolvimento Turístico é um passo na direcção certa, mas se outros


ingredientes para promover o sector privado e a competitividade de mercado não estiverem
estabelecidos, o plano não passará de um mero exercício político.

Indústria da Pesca
O litoral de Angola beneficia da junção da Corrente de Benguela com as águas mais quentes
do Atlântico tropical, uma zona descrita como “um dos principais sistemas de correntes do
mundo limitado a leste, rico em populações piscícolas pelágicas e bentónicas, impelido por
uma intensa subida natural das águas profundas junto ao litoral”. 103 Antes da independência,
um grande sector da pesca industrial tinha-se desenvolvido nos portos da costa sul de
Benguela, Namibe e Tômbwa. A guerra diminuiu o sector, apesar da actividade ainda ser
considerável. Calcula-se que o consumo de peixe seja de 15,5 kg por pessoa por ano, e o
mercado interno de peixe fresco, seco ou processado, é considerável. Além disso, Angola
exporta peixe e produtos derivados de peixe para a República Democrática do Congo, a
República da Coreia, Espanha e Japão. Os barcos estrangeiros, oriundos sobretudo da China,
Coreia e Espanha, em regime de leasing ou em joint-ventures com empresas angolanas,
pescam nas águas. Segundo a nova Lei dos Recursos Biológicos Aquáticos e seus
regulamentos, os barcos estrangeiros não podem pescar em águas angolanas; por esse motivo,
o leasing ou as joint-ventures são a norma.

RECURSOS E EXPLORAÇÃO
A costa litoral de Angola tem 1.650 km de comprimento com uma plataforma submarina até
200 m de cerca de 51 mil quilómetros quadrados. A principal influência sobre as condições
afastadas da costa é a corrente fria de Benguela, que flui para o norte ao longo da zona do
sudeste da costa. A corrente angolana transporta as águas quentes equatoriais para sul. Estas
correntes divergentes criam um forte sistema de subida natural das águas profundas que
suporta a alta produção principal dos recursos marinhos.

Em 2004, a FAO comunicou que a sobrepesca e as mudanças climáticas das águas tinham
reduzido grandemente o potencial da indústria da pesca, actualmente calculado ser cerca de
360 mil toneladas por ano, constando de 285 mil toneladas de espécies pelágicas (sobretudo
carapaus e sardinelas) e 55 mil toneladas de espécies bentónicas (incluindo 7 mil toneladas de

103 Lankester (2002). Variedades encontradas nas águas angolanas incluem o carapau, as sardinelas, a pescada
e o atum (grande e pequeno), assim como os camarões e a lagosta.
138 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

camarão de águas profundas). O Ministério das Pescas supervisiona e controla as actividades


pesqueiras, excepto a pesca do atum em alto mar, por ligação de satélite. Todos os barcos têm
que estar equipados com o sistema de monitorização. Angola também tem três barcos de
protecção das pescas e colabora na protecção com a Namíbia e a África do Sul, em
conformidade com um acordo regional da SADC.

Duas espécies de carapau dominam o volume e a procura no mercado nacional. Uma espécie
é partilhada com a Namíbia, enquanto que a outra se encontra apenas nas águas angolanas. A
biomassa combinada das espécies tem flutuado imensamente com as mudanças das condições
climáticas das águas. A biomassa declinou de 700 mil toneladas em 1987 para 60 mil toneladas
em 1995 (quando El Nino estava presente), mas recuperou para 500 mil toneladas em 1996. Os
cientistas angolanos calculam que a biomassa em 2005 é de 400 mil toneladas. Uma alta
percentagem de peixes jovens levou o governo a banir a captura de carapaus com barcos que
usavam redes de arrasto pelágico. O objectivo era permitir que os peixes crescessem para
dimensões que permitissem a desova (18 a 20 cm). Esta proibição começou em 2003 e ainda
estava em efeito em 2005. O total admissível de capturas (TAC) para estas espécies foi
reduzido; para compensar, as importações de carapau (140 mil toneladas em 2004; 30 mil
toneladas em 2005) foram permitidas. Angola partilha uma espécie de sardinha com a
Namibia e tem duas espécies de sadinelas. A biomassa destas espécies para 2006 foi calculada
a 360 mil toneladas. Os cientistas angolanos consideram que estes recursos são saudáveis.

Os recursos bentónicos (por exemplo, garoupas, sargos e lucianos) tinham uma biomassa de
83 mil toneladas em 2005 e são considerados saudáveis pelos cientistas angolanos. Os recursos
de camarões são considerados estáveis. A biomassa de caranguejos de águas profundas não é
conhecida. O atum costumava ser pescado por barcos nacionais de pesca à cana. No entanto,
as fábricas de conservas fecharam por falta de matéria-prima. Actualmente, nenhumas
espécies de atum estão incluídas nos TAC.

Em 1989, o TAC era de 295 mil toneladas; em 1990, de 307.500 toneladas; em 2002, de 253.200
toneladas; e em 2005, de 277.800 toneladas.

ABASTECIMENTOS DE PEIXE
Tamanho das Capturas
O total das capturas declinou de 424.700 toneladas em 1986 para 322.500 toneladas em 1989.
Em 1999 o total das capturas era de 202.500 toneladas, aumentando para 283.500 toneladas em
2002 e diminuindo para 242.000 toneladas em 2003 e para 231.500 toneladas em 2004. A maior
quota das capturas de barcos estrangeiros, de longe, era a da expedição conjunta de pesca de
Angola e da antiga União Soviética. Estes barcos, que utilizam redes de arrasto pelágico, que
não são permitidas nas pescas angolanas, já deixaram de pescar nas águas angolanas. As
capturas por espécies da frota nacional mostram que as principais espécies pelágicas
(carapaus, sardinhas) eram pescadas principalmente ao largo das províncias de Namibe e de
Benguela e que entre elas, estas duas espécies correspondiam a 41 por cento do total de
capturas em 2004.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 139

Esforço de Pesca
Em 2004, a frota nacional constava de 6.160 barcos: 34 por cento em Luanda, 28 por cento em
Benguela e 18 por cento em Cabinda. A frota constava de 109 barcos industriais, com 20
metros de comprimento ou mais (1,8 por cento), 199 barcos semi-industriais com 14 a 20
metros de comprimento) (3,3 por cento) e 5.852 barcos artesanais de até 14 metros de
comprimento (95 por cento). Seis por cento dos barcos industriais não estavam operacionais,
tal como estavam 35 por cento da frota semi-industrial e 1 por cento dos barcos artesanais. A
frota industrial constava sobretudo de barcos estrangeiros, muitos dos quais são modernos e
em estão boas condições. Os barcos semi-industriais, que são sobretudo angolanos,
geralmente são demasiado velhos para manter bem e os proprietários, muitas vezes não têm
recursos para comprar peças sobressalentes ou para substituir equipamento danificado ou
obsoleto.

AS PESCAS NA ECONOMIA NACIONAL


Víveres, Emprego e Balança de Pagamentos
O abastecimento anual per capita de peixe para o mercado nacional declinou de 18,4 kg em
1989 para 15,9 kg em 2003 e para 15,5 kg em 2004. O consumo anual de peixe pouco antes da
independência, quando a população tinha cerca de 5 milhões de habitantes, era da ordem de
26 kg per capita. Em 2001, o peixe representava cerca de um terço do abastecimento per capita
de proteína animal em Angola.

Quadro 9-9
Abastecimento anual de peixe ao mercado nacional, 1989 e 2003-2004

Conservado
Fresco e em sal e
congelado seco Outros Total Abastecimento
(000 (000 (000 (000 População per capita
Ano toneladas) toneladas) toneladas) toneladas) (milhões) (kg/ano)
1989 100,9 39,7 26,9 167,5 9,1 18,4

2003 169,2 36,6 10,6 216,4 13,6 15,9

2004 148,9 39,6 26,7 215,2 13,9 15,5

O governo comunicou que o emprego directo nas pescas aumentou de 21.600 pessoas em 1989
para 31.500 pessoas em 2004, com pronunciados aumentos do emprego no sector privado e
nas pescas artesanais. Usando uma definição muito mais lata de emprego, a FAO calcula que
as pescas empregaram 235.000 pessoas em 2002. O emprego concentra-se na captura (86 por
cento em 2004, tendo aumentado desde 42 por cento em 1989), enquanto que a reparação dos
barcos, o processamento e a distribuição empregam cerca de 4.500 a 7.500, um declínio
marcado em relação a mais de 52 mil, que estavam empregados nos anos 1980s.
140 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Quadro 9-10
Emprego nas pescas por tipo de entidade, 1989 e 2003-2004 (000 pessoas)

Tipo de
entidade 1989 2003 2004
Estado 13,8 N/a N/a

Cooperativas 1,2 N/a N/a

Sector privado 1,2 7,1 11,0

Artesanal 5,5 20,4 20,5

Total 21,6 27,5 31,5

A indústria da pesca e o processamento do peixe correspondem a 3 por cento do PIB. Em 1989


a contribuição do sector para a balança de pagamentos era negativa em cerca de USD 9,3
milhões, mas em 2003 o valor das exportações era quase o dobro do valor das importações. As
exportações em 2004 tinham um valor de USD 10,5 mil milhões, dos quais quase 92 por cento
provinham do petróleo e dos derivados do petróleo, deixando cerca de USD 850 milhões para
as exportações não petrolíferas (Afrol News). Esta fonte comunicou que as exportações
correspondentes às pescas angolanas em 2004 eram quase de USD 12 milhões, representando
cerca de 0,11 por cento das exportações totais e 1,4 por cento das exportações não petrolíferas.

Pescas no Interior e Aquacultura


As pescas no interior do país são tradicionais em Angola, que possui muitos rios e pequenos
lagos. Existem poucas informações sobre a importância dessa actividade, mas a FAO (2004)
calcula que mais de 150 mil homens e mulheres estão envolvidos na captura, processamento e
comercialização do peixe. Calcula-se que as capturas sejam aproximadamente de 10 mil
toneladas por ano, enquanto que se julga que o potencial para as capturas é de 50 mil
toneladas por ano ou mais. A tilápia (cacusso) e o bagre dominam as capturas no interior. Os
principais tipos de material utilizado são as redes, armadilhas e canas de pesca ou linhas de
mão. As canoas de madeira (pirogas) são o tipo de embarcação principal.

A aquacultura ainda não teve um impacto significativo na disponibilidade dos alimentos ou


nos rendimentos. Dados actuais e fiáveis sobre aquacultura não estão disponíveis. Foi
divulgado que uma joint-venture, entre sócios locais e brasileiros vão cultivar a tilápia para o
mercado nacional do Bengo. Também se fala da cultura do camarão no Bengo.

Exportações e Importações
As exportações de peixe e de produtos de pescas estão sujeiras a uma taxa de exportação de
um por cento sobre o valor FOB. Os pormenores da exportação estão apresentados no Quadro
9-11. Os principais mercados de exportação são a Espanha (camarão, caranguejo), Japão
(caranguejo), Coreia (peixe) e Namíbia (farinha de peixe). Os produtos de exportação, muitas
vezes, são transbordados no mar, não sendo registados como exportações angolanas. Em
2002-2003, Angola suspendeu voluntariamente as exportações de pescas para a UE, para
evitar uma proibição devido a razões de sanidade. Foram feitos esforços para que as
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 141

instalações cumpram as normas. Um laboratório capaz de uma vasta gama de testes (água,
recursos, controlo de qualidade, biológicos, químicos, oceanográficos), fornecido pela
cooperação espanhola, foi instalado no Instituto Nacional de Investigação das Pescas (INIP).
Desde que as exportações para a UE começaram de novo, só um carregamento foi rejeitado
(pernas de caranguejo com sulfitos incorrectamente aplicados). A nomeação do INIP como
Autoridade Competente foi transferida para a Direcção Nacional de Infra-estruturas e
Pesquisa de Mercado.

Quadro 9-11
Exportações dos peixes principais e dos produtos das pescas, 2004-2005

Quantidade Valor Valor


Espécies (toneladas) (milhões USD) (milhões Euro)

2 0 0 4

Peixe e moluscos 7.729 15,5

Mariscos 459 3,2

Caranguejo 604 4,2

Farinha de peixe 5.366 Confuso

Total 14.805 23,3

2 0 0 5 ( P R I M E I R A M E T A D E )

Peixe 1.902 2,7

Moluscos 749 1,4

Camarão (gamba) 1.039

Camarão (alistado) 8.566 4,5

Caranguejo 229 1,1 0,2

Produtos à base de
caranguejo 1.603 5,8

Total 14.715 5,5 4,7

O Ministério das Pescas comunicou importações de carapau da Mauritânia, Namíbia, África


do Sul e República da Maurícia; as importações foram autorizadas para compensar os baixos
TACs. Os angolanos preferem o carapau de 20 a 25 cm de comprimento; os tamanhos maiores
são difíceis de vender. As importações de conservas de peixe e de farinha de peixe preocupam
o Ministério do Comércio, do qual não estava disponível informação estatística. As
importações de peixe vivo, fresco e congelado são sujeitas a impostos de 35 por cento,
enquanto que os produtos preparados e enlatados são sujeitos a uma taxa de 20 por cento
sobre o valor CIF.

Processamento
A maior parte dos desembarques, especialmente o peixe proveniente de pescas artesanais e do
interior, pressupõe-se que deve ser comercializado fresco, frequentemente inteiro, mas por
vezes em filetes, postas ou outros cortes. O processamento inclui a congelação, a salga e a seca
142 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

e, o processamento em farinha. O processamento de congelação ainda é importante, mas


declinou assim como o processamento em farinha; a salga e a seca aumentaram. O
processamento e outras instalações junto à costa, apesar de não terem sido investigados para
este estudo, sabe-se que estão delapidados e em condições precárias.

Quadro 9-12
Produtos provenientes de peixe processado (toneladas)

Método 1997 2000 2001 2002 2003 2004


Congelação 27.222 49.580 57.821 43.886 36.173 48.624

Salga e
seca 8.097 5.818 6.917 10.070 12.200 13.196

Conserva
em lata 1.165 3 1 20 0 4

Óleo e
farinha de
peixe 1.409 20.651 7.938 4.448 2.732 5.993

JURISDIÇÃO E LEGISLAÇÃO GOVERNAMENTAL


Agências Regulamentares
Em Outubro de 2004, Angola adoptou a Lei dos Recursos Biológicos Aquáticos. 104 Esta lei visa
estabelecer

Medidas regulamentares que procuram garantir a conservação e a utilização


sustentáveis dos recursos biológicos aquáticos existentes nas águas que se encontram
ao abrigo da soberania do estado angolano, assim como as bases gerais para o
exercício das actividades relacionadas elas, particularmente as pescas e as actividades
de aquacultura.105

Cobre as águas territoriais, a Zona Económica Exclusiva (ZEE), as águas das marés, os
estuários e as águas interiores. Também cobre as actividades dos barcos angolanos no alto
mar ou (sem prejuízo das leis de outros estados) a pesca em águas ao abrigo da jurisdição de
outros estados. Os novos regulamentos adoptados em 2005 regem a concessão dos direitos de
pescar; a investigação científica dos recursos de pescas nas águas angolanas; a piscicultura; a
pesca em geral; e a tributação das pescas. 106 Novas leis e decretos estabeleceram a estrutura do
Ministério das Pescas, do Instituto de Desenvolvimento da Pesca Artesanal e Aquacultura
(IPA) e o Instituto Nacional de Investigação Pesqueira (INIP). 107

Segundo a Lei de Outubro de 2004, o Ministério das Pescas fixou TACs para cada espécie
anualmente. Os TACs são continuados ano após ano, a não ser que se verifiquem alterações
nos níveis de biomassa. Os TACs podem ser reduzidos por decreto executivo, caso novos
dados mostrem o risco de redução, extinção ou não renovação de espécies ou zonas, ou numa

104 Lei 6-A/04, que substitui a Lei das Pescas anterior (Lei 20/92).
105 Lei 6-A/04, Artigo. 2.
106 Decretos 14/05, 38/05, 39/05, 41/05, e 43/05.
107 Decreto-Lei 3/05, Decreto 45/05 e Decreto 47/05.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 143

situação de emergência. As quotas de peixe são atribuídas como percentagens dos TACs para
cada espécie ou zona, sujeitas a pagamento de uma taxa periódica. As quotas podem ser
reduzidas proporcionalmente se os TACs forem reduzidos; também podem ser aumentadas
se forem adquiridos novos barcos ou feitos outros melhoramentos, desde que o TAC em geral
ainda não esteja esgotado.

Os direitos de pesca na ZEE em Angola podem ser concedidos, individual ou colectivamente,


a nacionais ou a estrangeiros, se estiverem associados a nacionais em empresas com interesses
preponderantes angolanos.108 Sem prejuízo das cláusulas da Convenção das Nações Unidas
sobre o Direito do Mar, o Protocolo de Pescas da SADC, ou outros acordos internacionais dos
quais Angola faz parte, a lei estipula que os angolanos devem ter preferências sobre os
direitos pesqueiros. Os direitos em águas territoriais são concedidos a angolanos ou a outros
nacionais da SADC com os quais existe reciprocidade. As concessões podem abranger
empresas pesqueiras de outros estados da SADC com os quais existe reciprocidade. Os
direitos de pesca artesanal e sobre rios internacionais ou águas interiores sob jurisdição
angolana, são concedidos unicamente a nacionais angolanos.

Os direitos pesqueiros são concedidos durante um período de 20 anos e podem ser


transferidos com a aprovação do Ministério. Os direitos são atribuídos por concorrência
aberta; no entanto, é dada a preferência a nacionais angolanos e àqueles que possuem
processamento baseado em terra e centros de venda. Os proprietários de direitos podem usar
as quotas de peixe como garantias de crédito, com a autorização do Ministério. O Ministério
concede licenças a barcos com a bandeira angolana para pescar no alto mar. A concessão de
licenças de pesca de alto mar a barcos com bandeiras estrangeiras é proibida, assim como o
transbordo da captura no mar.109

Para controlar as pescas, o Ministério pode usar diários de pesca, registos de informação
mensais, programas de observação para as pescas, programas de observação da comunidade
local e equipamento de monitorização contínua. Os capitães devem manter diários de bordo
de pesca, registos de informação mensais, o certificado de pesca da embarcação, o certificado
de navegabilidade e uma cópia autenticada do título de direitos pesqueiros. 110 As capturas
devem ser descarregadas em portos angolanos, salvo seja acordado em contrário no título de
direitos pesqueiros. Todas as cargas têm que ser declaradas, mesmo as que forem
transbordadas no mar. Tal como foi mencionado acima, foi introduzido um sistema de
localização por satélite.

A nova lei estabelece um sistema altamente abrangente para gerir e controlar as pescas nas
águas de Angola até à ZEE de 200 milhas náuticas. 111 A sua eficácia na preservação das
populações de peixes e na gestão das pescas em benefício mútuo dos angolanos e dos
parceiros estrangeiros dependerá da eficácia dos mecanismos de gestão e de monitorização.

108 Lei 6-A/04, Artigos 40-62.


109 Lei 6-A/04, Artigos 118 e 123.
110 Lei 6-A/04, Artigos 143 e 145.
111 Tal como definido pela Convenção das Nações Unidas sobre a Lei do Mar, Parte V. Disponível em:
http://www. un.org/Depts/los/convention_agreements/texts/unclos/part5.htm.
144 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Isto dependerá dos recursos humanos, técnicos e de transporte disponíveis em Angola ou


com ajuda internacional

Acordos com Nações e Organismos Regionais


Multilaterais. Angola ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. 112
Não ratificou o acordo relacionado com a Parte XI da Convenção que trata da exploração de
recursos minerais sobre ou sob o fundo oceânico, nem o acordo para a implementação das
cláusulas da convenção relativas à conservação e à gestão das populações de peixes
transzonais e das populações de peixes altamente migradores.

Angola é membro da Convenção Internacional para a Conservação dos Tunídeos do Atlântico


(ICCAT), uma organização intergovernamental de pescas. A compila dados estatísticos sobre
pescas dos seus membros e de todas as entidades que pescam estas espécies no Atlântico;
coordena a investigação, incluindo a avaliação das populações de peixes para os membros;
desenvolve conselhos de gestão cientificamente baseados; e fornece um mecanismo para as
partes contratantes acordarem sobre medidas de gestão. 113

Regionais. Angola é signatário da convenção da Organização Pesqueira do Atlântico Sudeste


(South East Atlantic Fisheries Organization - SEAFO), que providencia um regime de gestão
que assegura a longo prazo a preservação e a utilização sustentável dos recursos em peixe no
alto mar do oceano Atlântico Sudeste. A convenção entrou em vigor em Abril de 2003 depois
da entrega dos instrumentos de ratificação pela Namíbia e Noruega e a aprovação pelas
Comunidades Europeias. A SEAFO será responsável por impor e manter o regime, através do
estabelecimento e implementação da preservação e medidas de gestão. A sede da SEAFO, na
Namíbia, foi aberta em Março de 2005. O Ministério das Pescas e de Recursos Marinhos da
Namíbia ocupa as funções de secretariado interino. 114

Angola é um observador do Comité das Pescas do Atlântico Centro-Este (COPACE) [Fisheries


Commission for the Eastern Central Atlantic Region - CECAF/COPACE/CPACO], um órgão
subsidiário da FAO, cujo secretariado está sediado em Acra, na República do Gana. O
COPACE foi criado em 1967 para promover a utilização óptima dos recursos aquáticos vivos,
através de uma gestão adequada e do desenvolvimento das pescas e das operações pesqueiras
e a melhoria do processamento e da comercialização. Apesar de ter tido uma função
importante na investigação e desenvolvimento dos estados costeiros da região em vias de
desenvolvimento, não tem uma função regulamentar. 115

Como membro da SADC, Angola adere ao Protocolo de Pescas da SADC. Este protocolo
estabelece uma cláusula sobre o tipo de nação mais favorecida entre a SADC e outras nações

112 Data da ratificação: 5 de Dezembro de 1990. Ver UN em http://www.un.org/ Depts/los/reference_files/


status2005.pdf.
113 O ICCAT tem 41 partes contratantes. Ver ICCAT em: http://www.iccat.es/contracting.htm.
114 Os membros da SEAFO são Angola, as Comunidades Europeias, Islândia, Coreia, Namíbia, Noruega, África
do Sul, Reino Unido (em nome de St. Helena e das suas dependências, Ilha de Tristão da Cunha e Ilha da
Ascensão) e Estados Unidos. Ver a informação online sobre a SEAFO. Disponível em
http://www.seafo.org/.
115 O COPACE tem 33 membros. Angola, Portugal, Rússia e o Reino Unido são observadores. Ver FAO em:
http://www.fao.org/fi/body/rfb/CECAF/ cecaf_home.htm.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 145

pesqueiras.116 Não proíbe o tratamento preferencial para embarcações da SADC; tal como
mencionado, a legislação nacional de Angola estipula o acesso preferencial às embarcações da
SADC para os recursos de pescas angolanos.

Em Junho de 2005, Angola e a Namíbia concluíram um acordo bilateral no âmbito da SADC


para cooperação de formação em pescas e aquacultura; a Namíbia oferecerá centros de
formação para as tripulações e oficiais angolanos (para operarem barcos de pesca industriais e
semi-industriais), para os inspectores e observadores da indústria da pesca (incluindo a
presença de barcos da Namíbia de protecção pesqueira) e para os técnicos de aquacultura,
resultando na entrega de certificados reconhecidos a nível internacional.

Inter-regionais. Angola mantinha um acordo de pescas com as Comunidades Europeias entre


1987 e 2004. Os dois lados têm estado em negociações desde a sua perda de validade, mas a
UE interrompeu as negociações em Junho de 2005, fundamentando-se no facto de que a
proposta de Angola de um novo acordo, feita à luz da nova legislação, era demasiado
restritiva.117 Actualmente, não existe um acordo em vigor. 118 Na ausência de um acordo, os
armadores europeus (sobretudo espanhóis) estabeleceram acordos de associação com
empresas angolanas. Dez barcos de pesca de camarão têm autorização para pescar nas águas
de Angola para exportar para a UE. Para a pesca ao atum, os operadores estabeleceram
acordos com o Ministério das Pescas, que concede direitos pesqueiros. A frota de águas
profundas foi reduzida de 48 para 35 barcos.

Protecção Contra A Pesca Ilegal, não Participada e não Regulamentada


Angola faz parte do Programa de Monitorização, Controlo e Vigilância da SADC e da UE a
nível regional (Monitoring, Control and Surveillance – MCS). O programa teve início em
Junho de 2002 e terminará em Abril de 2006. A opinião expressa é que os recursos das pescas
marinhas da região estão em risco de sobrexploração, ameaçando o ambiente e minando as
sociedades e as economias que dependem destes recursos. O objectivo do programa é
melhorar a gestão dos recursos marinhos, através do estabelecimento de uma capacidade
nacional de monitorização, controlo e vigilância, eficaz, rentável e sustentável e do
estabelecimento dos mecanismos para uma cooperação regional eficaz.

É difícil determinar a extensão da pesca ilegal, não participada e não regulamentada nas
águas angolanas.

116 Artigo 10 dos estados do Protocolo: 1. Os estados deverão, segundo a sua respectiva legislação nacional,
cooperar no estabelecimento de termos e condições mínimos harmonizados sobre o acesso por barcos de
pesca com bandeiras não pertencentes à SADC aos seus recursos pesqueiros; 2. Os termos e condições
segundo os quais os barcos com bandeiras pertencentes à SADC, pescam nas águas de outros estados da
SADC não devem ser menos favoráveis do que os do parágrafo 1; e 3. Os estados podem considerar a
negociação conjunta de acordos de acesso a pescas estrangeiras com uma dimensão regional ou sub-regional,
particularmente em relação a espécies altamente migratórias. Ver TRALAC em:
http://www.tralac.org/scripts/ content.php?id=449.
117 Ministério das Pescas, Notícias, 22 de Junho de 2005, "UE decidiu romper negociações com Angola".
Disponível em: http://www.angola-minpescas.com/Home.aspx?tab=1&tab2=1&news=110.
118 Europa op.cit.
146 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Protecção Tarifária
As tarifas angolanas sobre peixe fresco são elevadas, reflectindo a protecção do sector. Numa
base de SH, 94 das 96 linhas tarifárias para peixe fresco, arrefecido ou congelado (SH, capítulo
03) este é submetido a taxas de 20 por cento, com um importo de consumo a acrescentar mais
10 por cento; para o peixe mais processado, a tarifa é 15 por cento, mais uma vez com um
imposto de consumo de 10 por cento.

Os regulamentos sanitários e sobre a saúde relativos às pescas estão nos Decretos No. 297/96,
sobre a preparação e venda de sal para consumo humano; o decreto 13/99 prevê o
estabelecimento de normas de produção e inspecção da qualidade dos produtos piscícolas; o
decreto 14/99, prevê o estabelecimento de um programa de inspecção regular para os barcos
de pesca e para as fábricas de processamento de peixe; o decreto executivo 37/02, aprova um
sistema de monitorização para a saúde e a qualidade sanitária de produtos piscícolas; e um
decreto executivo conjunto 44/02, estabelecendo normas químicas e microbiológicas para a
análise de produtos piscícolas. Um regulamento adicional sobre os requisitos de saúde e
sanitários para os produtos piscícolas, incluindo a piscicultura, está sob processo de
publicação.

AVALIAÇÃO
Vantagens
A abundância de recursos de pescas marinhas em Angola fornece uma base sólida de
desenvolvimento. Nos anos imediatamente anteriores à independência as capturas anuais,
geralmente eram de aproximadamente 300 mil a 600 mil toneladas por ano. Em anos recentes,
as capturas têm sido de 200 mil a 300 mil toneladas por ano, o resultado de medidas de
preservação impostas pelo governo. As pescas podem fornecer capturas mais altas nos
próximos anos, se as medidas tomadas para permitir a recuperação de certos recursos forem
bem sucedidas. Outros argumentam que a sobrepesca e as mudanças climáticas das águas
têm reduzido drasticamente o potencial das pescas, que actualmente se calcula ser de cerca de
360 mil toneladas.

O potencial de Angola não se baseia no desenvolvimento de recursos marinhos não


explorados (excepto em relação aos tunídeos no mar alto), mas em tirar partido dos recursos
já a ser pescados. Desenvolver os recursos de pescas no interior, actualmente mal utilizados e,
a aquacultura também oferece possibilidades.

Angola tem belos portos naturais que oferecem excelente protecção e possibilitam que os
barcos de pesca se posicionem ao longo do cais para descarregar as suas capturas. Como
produtor de petróleo, Angola não deveria ter dificuldade em fornecer a indústria da pesca
com combustível diesel, desde que as refinarias estejam disponíveis. O sistema rodoviário de
Angola, quando estiver em boas condições, é considerado adequado para transportar o peixe
dos portos principais para os centros de distribuição nas províncias do litoral e do interior.
Concluindo, a produção tradicional de peixe salgado e seco torna possível fornecer as áreas
remotas com um investimento mínimo em centros de distribuição.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 147

Restrições
Embora sejam bem geridas, as pescas das espécies pelágicas de pequenas dimensões, que
constituem a produção em massa angolana, estão sujeitas a grandes oscilações dos recursos, à
medida que as condições climáticas das águas variam. A indústria da pesca importa quase
todos os meios de produção, excepto a mão-de-obra, o combustível diesel, a electricidade e a
água doce, apesar do fornecimento de água e electricidade não serem de confiança em alguns
portos. Luanda, que constitui, indubitavelmente, a principal fonte de procura nacional de
peixe, não tem um mercado grossista de peixe e venda na lota.

Potencial para Crescimento e Quota de Mercado


Em termos de mercado, Angola tem dois grupos de espécies: o peixe pelágico de valor
reduzido e o peixe bentónico de valor alto. As espécies pelágicas de pequenas dimensões
representam de longe a maior parte da captura angolana. Estas contam sobretudo de carapaus
(trachurus spp) e sardinelas (sardinella spp). Os principais mercados de exportação para os
carapaus são os países da África Ocidental no Golfo da Guiné, especialmente a Nigéria, e a
Costa do Marfim, os Camarões, a Libéria e outros. Geralmente o peixe é vendido congelado
inteiro em blocos de 10 ou 20 kg. O tamanho do peixe e qualidade do acondicionamento são
importantes nestes mercados. Em geral, o peixe maior é mais caro.

As principais fontes de fornecimento para estes mercados africanos são as peixarias da zona
ocidental da Europa, predominantemente do carapau do Atlântico (scomber scombrus). Os
Países Baixos, particularmente, têm uma frota de arrastões pelágicos muito grandes e
eficientes que congelam as capturas a bordo, para poderem oferecer carapau de excelente
qualidade a baixos preços.

Existe pouca procura de sardinela congelada para exportar, apesar das sardinelas serem uma
das espécies utilizadas na produção de peixe salgado e seco angolano, parte do qual tem sido
tradicionalmente exportado para os países limítrofes.

O atum de conserva era produzido em Angola, mas foi comunicado que as fábricas de
conservas fecharam por falta de matéria-prima. É muito pouco provável que os conserveiros
angolanos possam competir nos mercados de exportação com preços FOB de menos de USD
20 por caixa de latas de 48 x 6,5 onças de atum de cor clara em água, fornecido pelos
conserveiros da Tailândia e de outros países do sudeste asiático. Os conserveiros angolanos
também costumavam produzir pequenas quantidades de carapau em caixas de 15 onças. Ë
pouco provável que os conserveiros angolanos pudessem competir em mercados de
exportação com preços FOB de USD 10 ou menos por caixa de latas de 24 x 15 onças de
carapau em água das fábricas de conserva peruanas.

Os principais recursos bentónicos são as pescadas (merluccius spp), os sargos, o camarão de


águas profundas e o caranguejo de águas profundas. Estas espécies têm sido frequentemente
apanhadas por barcos estrangeiros e transbordadas no mar para fornecer os mercados
europeus. Apesar das capturas ocorrerem nas águas angolanas, os carregamentos não são
considerados exportações de Angola e não figuram na estatística de exportações de Angola.
148 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

Preparação do Produto
Manuseamento no mar. A principal parte da captura consta de espécies pelágicas de
pequenas dimensões. Desde a proibição das redes de arrasto pelágico, actualmente, estes
peixes são apanhados sobretudo por barcos de pesca com redes de cerco, e quase nenhuns
barcos têm quaisquer meios de conservação a bordo. Também não usam gelo. Geralmente, os
peixes manuseados desta forma não são de qualidade desejável para exportar, salvo
possivelmente quando forem processados em farinha de peixe. A maioria dos arrastões
pelágicos, assim como os arrastões que apanham as espécies bentónicas, congelam as suas
capturas no mar. Desde que tenham sido correctamente manuseados, os peixes e os
crustáceos congelados no mar, normalmente, deveriam ser aceitáveis para exportar. Em
alguns casos, os produtos congelados no mar atingem preços que são mais altos do que os
preços obtidos pelos mesmos produtos numa instalação em terra.

Processamento. Apesar da produção de peixe congelado ter alcançado 57.821 toneladas em


2001 e 48.624 toneladas em 2004, foi comunicado que as empresas eram muito ineficientes. A
oportunidade de reabilitar ou de expandir as capacidades ou de construir novas instalações
dependerá de uma análise detalhada das instalações.

Os processos de salga e de seca são rudimentares e não são higiénicos, mas satisfazem os
requisitos dos compradores noutros países africanos. Segundo as informações obtidas, o
aumento recente da produção é devido ao investimento crescente nas pescas artesanais. As
pessoas deslocadas que procuram uma actividade de subsistência nas zonas litorais, também
estão envolvidas na salga e na seca.

Segundo as informações colhidas as três fábricas de conserva existentes estão delapidadas e


possuem uma tecnologia obsoleta. Têm problemas na obtenção do peixe, da chapa de folha-
de-flandres e de outros materiais. A sua viabilidade económica é questionável, mesmo se
forem remodeladas. À semelhança das fábricas de congelação, é necessário um estudo
detalhado para avaliar a viabilidade da reabilitação ou a construção nova.

Uma empresa na província de Namíbe produz farinha de peixe e óleo de peixe. Segundo as
informações obtidas, as instalações estão em condições muito deficientes. A produção
declinou de 16.0460 toneladas em 2000 para 2.128 toneladas em 2003, mas recuperou para
5.367 toneladas em 2004.

O INAIP tem estudado as perdas devido à incapacidade para processar cabeças, o interior dos
peixes e outros peixes miúdos, que constituem os resíduos do processo da salga e da seca. As
perdas também ocorrem quando as capturas acidentais são deitadas fora. Estas perdas ainda
não foram definidas em termos de valor nem de quantidade. A eliminação inadequada dos
resíduos e das capturas acidentais estão a causar problemas ambientais de contaminação e
odor. Poderiam ser instaladas pequenas fábricas de farinha de peixe para processar os
resíduos e as capturas acidentais.
POTENCIAL DOS SECTORES ESSENCIAIS 149

Posição Competitiva dos Exportadores


Custos. Ao considerar a viabilidade da exportação dos produtos da pesca, deve comparar-se o
custo dos meios de produção em Angola com o custo dos mesmos meios de produção nos
países com os quais os exportadores angolanos têm que competir. Uma comparação
detalhada desses custos está fora do âmbito deste relatório, mas não é provável que Angola
tenha vantagens competitivas neste sentido. Muitos países dispõem de mão-de-obra muito
mais barata e muito mais produtiva. O combustível diesel é subsidiado em Angola, o que
significa que é barato em termos internacionais.

Fretamento. Existem ligações de transporte tradicionais com a UE e outros mercados de


exportação. Actualmente (2005), quase toda a carga é de entrada (principalmente alimentos e
bebidas) e muito pouca é de saída. Por conseguinte, não deveria ser difícil obter contentores
frigoríficos para a exportação de camarões e de outros produtos de alto valor.

Incentivos. Muitos países oferecem incentivos para fomentar o desenvolvimento e o


crescimento das indústrias de exportação. Estas podem assumir a forma de assistência ao
investimento de capital (empréstimos de longo prazo com taxas de juro preferenciais, isenção
de direitos alfandegários sobre o equipamento e materiais importados); em operações
(assistência em marketing, acesso a capital de exploração com taxas de juro preferenciais,
assistência na negociação de taxas de fretamento); e na subvenção a preços de exportação
(isenção de direitos alfandegários, isenção temporária do imposto, pagamentos em
numerário). A Agência Nacional de Investimento Privado (ANIP) foi criada para facilitar e
estimular o investimento privado em Angola. A pesca e os produtos derivados estão incluídos
na lista dos sectores com prioridade de investimento.

Desincentivos. Os exportadores angolanos de produtos de pesca têm que pagar direitos de


exportação de um por cento do valor FOB e outroas taxas.

RECOMENDAÇÕES
 Estabelecer grupos relacionados com a exportação de produtos de pesca por subsector.
Dado que a indústria da pesa em Angola é composta por cadeias de fornecimento distintas
(exportação, importação, nacional), talvez não seja prático o estabelecimento de um grupo
geral. O melhor será explorar grupos por subsector. Um grupo inicial poderia constar de
indivíduos envolvidos na exportação de peixe e de produtos de pesca, que sejam capazes
de discutir questões de política. O grupo poderia discutir oportunidades para melhorar esta
parte da cadeia de fornecimento, nomeadamente, a profissionalização dos negócios de
exportação de produtos de pesca, a investigação e o desenvolvimento do mercado de
exportação, o desenvolvimento e a instalação de uma base de dados sobre pescas,
disposições para o pré financiamento à exportação e modernização da frota para melhorar a
qualidade do peixe. Para determinar a viabilidade e o compromisso para com o
estabelecimento de um grupo encarregado das exportações de produtos de pescas,
recomendam-se reuniões com o Ministério das Pescas e exportadores. Se as discussões
indicarem que é viável a existência de um grupo, a próxima etapa seria determinar o que os
participantes propostos pensam do grupo e até que ponto é que estão na disposição de
150 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

participar. Se a formação do grupo for considerada viável, deveria ser fornecida assistência
técnica para estabelecer e apoiar um grupo.

 Estabelecer um fundo de rotação pré-exportação. A exportação de produtos de pesca carece


de capital de exploração. O estabelecimento de um fundo de rotação pré-exportação ou
outra forma de financiamento à exportação é digno de consideração. Isto poderia ser
discutido no grupo, se este for formado.

 Estudar meios para reduzir as perdas. A instalação de pequenas fábricas de farinha de


peixe para processar os resíduos e as capturas acidentais está sob consideração. Quer a
matéria-prima possa ser trazida para as fábricas em boas condições para assegurar que seja
produzida uma farinha de peixe de alta qualidade e, quer a produção seja capaz de
competir em preço com a farinha de peixe importada, ainda está para se ver. Se puder ser
produzida farinha de peixe de qualidade e preço competitivos, esta poderá substituir a
farinha importada. Recomenda-se que seja fornecida assistência ao INAIP para estudar a
questão das perdas e identificar formas de diminuí-las, o que poderia levar ao
desenvolvimento de produtos valiosos provenientes dos resíduos actuais.

 Identificar as necessidades para a produção de sal. Angola costumava exportar sal, mas
agora importa-o. Alguns projectos de recuperação das zonas de produção de sal têm sido
empreendidos, mas a maior parte do equipamento é obsoleto. Se a produção de sal puder
ser suficientemente aumentada, Angola poderá deixar de importar sal e começar a exportá-
lo de novo. A assistência na identificação daquilo que é necessário modernizar e aumentar
na produção de sal é recomendado.

 Conceber um sistema para compilar as informações do mercado. Recentemente, o


Ministério das Pescas estabeleceu uma Direcção Nacional de Infra-estruturas e Pesquisa de
Mercados para compilar informações sobre os preços do peixe. As entidades estaduais
costumavam distribuir o peixe e os produtos das pescas e eram obrigadas a fornecer
relatórios sobre as suas actividades. Agora que a comercialização está grandemente nas
mãos do sector privado, esse tipo de informação deixou de estar à disposição das
autoridades. A Direcção Nacional de Infra-estruturas e Pesquisa de Mercados deveria ser
apoiada na concepção e implementação de um sistema para colectar e processar os preços
do peixe e outras informações de mercado.

 Estudar a viabilidade de um mercado grossista de peixe. Em quase todos os países,


desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, os mercados grossistas de peixe fazem parte
integral do mercado nacional. Angola não possui esse tipo de mercados. Recomenda-se que
seja prestada assistência para estudar a necessidade e a viabilidade de mercados grossistas
de peixe em Angola.
10. Assistência dos Doadores
Desde há muito que Angola tem recebido ajuda humanitária e de emergência,
particularmente ajuda alimentar, para fazer face a deslocações induzidas pela guerra e
escassez de produtos alimentares. A assistência ao desenvolvimento, muito simplesmente,
não era praticável em zonas inseguras. Assim que a guerra acabou em 2002 e a reintegração e
transferência das populações se tornou uma prioridade, uma parte substancial dos
carregamentos de emergência foi-se transformando em assistência à reintegração das
populações (por exemplo, sementes e ferramentas) para ajudar o restabelecimento dos
refugiados e para ajudar as tropas desmobilizadas a se reintegrarem na sociedade e na
economia. A incapacidade, de longa data, do governo para conseguir chegar a acordo com o
FMI, excluiu a assistência multilateral e bilateral ao desenvolvimento em grande escala
durante muitos anos. A aprovação do FMI era recusada e estava pendente da resolução da
instabilidade macroeconómica do país e da questão bem conhecida da prestação de contas das
receitas petrolíferas. Estas questões foram resolvidas, mas a aprovação do FMI ainda não se
concretizou sob a forma de um Programa de Monitorização dos Quadros ou de outro
instrumento oficial mutuamente acordado. Apesar disso, doadores importantes têm levado a
cabo uma variedade de iniciativas considerando o progresso óbvio de Angola, a cessação da
guerra e o restabelecimento da administração governamental em todo o território nacional.

O Quadro 10-1 resume os principais veículos para a assistência de doadores. A Comissão


Europeia e o Banco Mundial são, de longe, os principais doadores seguidos da UNICEF,
apesar dos doadores bilaterais europeus e americanos terem uma presença significativa. O
Quadro 10-1 concentra-se na ajuda ao desenvolvimento em geral; os valores apresentados
ainda incluem uma quota substancial do tipo de ajuda para a reintegração das populações e
para emergências, assim como para projectos com vários graus de relação com o comércio.

Apenas alguns doadores estão a fornecer, ou têm capacidade e interesse em fornecer, o


reforço para as capacidades comerciais em Angola. O PNUD, que administra o IF Trust Fund,
tem sido capaz de fornecer assistência adicional a Angola relacionada com o comércio. Tal
como foi referido anteriormente, fornecia um contrato de seis meses a um assessor externo
para prestar apoio a questões relacionadas com a SADC e o EPA. O PNUD continua
interessado e na disposição de financiar comércio adicional e actividades de reforço e
desenvolvimento da capacidade económica. Igualmente, a União Europeia (UE) tem interesse
em financiar a capacidade de reforçar o comércio em Angola. Através do seu programa
Trade.com, pode colocar um assessor para o comércio num ministério (por exemplo,
Ministério do Comércio) (programa do tipo “Hub and Spoke”). Para obter esta assistência é
necessário apenas uma carta a solicitá-la ao Ministério do Comércio (MINCO).

Quadro 10-1
Assistência de doadores principais para o desenvolvimento em Angola (excluindo a Ajuda
Humanitária)

Valor
País ou (USD
Instituição Período milhões) Sectores Visadoss

A J U D A B I L A T E R A L

França 2004-05 10 Agricultura, educação, reinserção social, geologia e mineração

Alemanha 2004-06 8 Saúde básica, grupos vulneráveis

Itália 2004-05 36 Saúde básica e educação, água e sanidade pública, solidificação da


sociedade civil

Países Baixos 2004-05 4 HIV/SIDA, direitos humanos

Noruega 2004 9 Ensino básico, eficiência do sector público, solidificação da


sociedade civil

Portugal 2004-05 30 Saúde básica, ensino básico e superior, formação profissional

Espanha 2004 8 Grupos vulneráveis, saúde básica, água e sanidade pública

Suécia 2004 7 Saúde básica, infra-estrutura, direitos humanos

Suiça 2004-05 3 HIV/SIDA, saúde básica, governação política

Reino Unido 2004-06 36 HIV/SIDA, água e sanidade pública, clareza e responsabilidade

Estados 2004-05 21 Agricultura, saúde, democracia, desenvolvimento do sector


Unidos privado

A J U D A M U L T I L A T E R A L

AfDB 2005 1 Ensino básico, pescas, saúde, reinserção social, meio ambiente

CE 2004-07 300 Ensino básico, saúde básica, infra-estrutura

Ajuda
Internacional 2004 4 Reforçar o governo local, gestão ambiental

IFAD 2004-05 <1 Segurança alimentar

OHCHR 2004-07 4 Direitos humanos

UNDESA 2004-07 2 Eficiência do sector público

PNUD 2005-07 12 HIV/SIDA, clareza e responsabilidade, reforçar a sociedade civil

UNESCO 2004-07 9 Ensino básico, gestão do ambiente, conhecimentos e inovação

UNFPA 2004-07 17 HIV/SIDA, saúde básica, eficácia do sector público

UNHABITAT 2004-07 3 Reforçar o governo local, gestão do ambiente

UNHCR 2004-07 2 HIV/SIDA, intervenção incidindo sobre os refugiados

UNICEF 2004-07 90 HIV/SIDA, educação básica, saúde básica

UNIFEM 2004-07 0.2 HIV/SIDA, reforçar a sociedade civil

Banco Mundial 2004-07 331 Serviços básicos sociais, reintegração social, HIV/SIDA, gestão
macroeconómica e reforço das capacidades, reabilitação das infra-
estruturas e desenvolvimento do sector privado

OMS 2004-06 14 HIV/SIDA, saúde básica, água e sanidade pública


ASSISTÊNCIA DOS DOADORES 153

FONTE: Inquérito de Dezembro de 2004 do Banco Mundial [World Bank Survey December 2004].
A UE financiará um assessor para o comércio para o MINCO através do seu Programa “Train
for Trade” (Formação para o Comércio). Em Dezembro de 2005, a UNCTAD (Conferência das
Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento) apresentou uma avaliação e proposta de
projecto que colocará o assessor em Angola até Junho de 2006. No âmbito deste programa,
foram criados módulos de formação para o comércio que estão prontos para implementação.
Este projecto de 4 anos e da ordem de USD 4,8 milhões está pronto para começar em 2006. A
UE também financiará um estudo de impacto do EPA para o Ministério da Indústria, com
início no princípio de 2006. A UE também pode financiar assistência para o desenvolvimento
de capacidades para o comércio para o grupo multisectorial para a SADC e o EPA, mas
aguarda uma carta do Ministério da Indústria a solicitar a assistência.

A OMC dedicou-se à revisão da primeira política comercial de Angola em Fevereiro de 2006 e


empreendeu 90 actividades de assistência técnica com a participação angolana, a partir de
1998 até 2005. Estas actividades incluíram:

 Sessão didáctica da OMC sobre políticas comerciais

 A criação de um centro de referência nacional da OMC no Ministério do Comércio em 1998


(e a actualização do centro em 2004);

 Um seminário nacional sobre acordos da OMC em 2000;

 Seminários sobre agricultura, o acordo de TRIPS, serviços e medidas sanitárias e


fitossanitárias (SPS) (o último para os países africanos de expressão portuguesa como
grupo) em 2002; e

 Uma missão técnica sobre medidas antidumping, política da concorrência, e medidas


sanitárias e fitossanitárias (SPS), assim como um seminário nacional sobre técnicas de
negociação em 2003.

Representantes oficiais angolanos participaram nas actividades de assistência técnica da OMC


a nível regional ou global em África, em Genebra e em qualquer outra parte. Em 2004, a OMC
organizou uma sessão didáctica sobre política comercial e um workshop nacional sobre a
Agenda de Desenvolvimento de Doha (ADD) e sobre questões aduaneiras em Angola.

Em geral, a quantidade de assistência técnica relacionada com o comércio que Angola tem à
sua disposição é notável. No entanto, o problema é que uma grande parte da assistência não é
aproveitada porque o governo não é capaz de responder suficientemente depressa para
mobilizar a assistência. Quando os pedidos são feitos, a assistência é facultada (por exemplo,
o assessor da SADC e o assessor a longo prazo para o MINCO).

A assistência do Quadro Integrado relacionada com o comércio também aumentará a


quantidade de assistência técnica disponível. Será importante que seja identificado um
facilitador do QI para garantir que os fundos disponíveis sejam utilizados efectivamente e
com eficácia.

Outros doadores, tais como a USAID e o Departamento para o Desenvolvimento


Internacional (DFID) do Reino Unido, estão a fornecer assistência para o desenvolvimento e
154 ANGOLA ESTUDO DIAGNÓSTICO DE INTEGRAÇÃO COMERCIAL

reforço das capacidades para o comércio na região, mas não em Angola. Parte do problema
decorre do facto que estes doadores não têm estado empenhados em discussões relacionadas
com o comércio e não têm sido contactados a níveis suficientemente altos para fornecer esse
tipo de assistência. Por exemplo, o DFID financia membros do Overseas Development
Institute (ODI) para fornecer assistência a ministérios em países em vias de desenvolvimento.
Muitos membros do ODI estão na região e oferecem um excelente apoio relacionado com o
comércio a instituições governamentais, mas nenhuma delas se encontra em Angola. O
Southern Africa Global Competitiveness Hub, um centro de comércio para as exportações
africanas apoiado pela USAID, é outro possível parceiro para reforçar e desenvolver as
capacidades para o comércio. A assistência pode ser solicitada através da USAID/Angola.

O Modelo de Acção (Action Matrix) deste relatório indica como a assistência de doadores
figurará nos esforços envidados por Angola para integrar a sua economia no mercado global.
A necessidade de assistência para a reabilitação das infra-estruturas é particularmente
pronunciada e já está a ser resolvida (ver o Quadro 10-1). As estradas são especialmente
importantes dada a sua condição de extrema degradação e o isolamento de grande parte das
regiões rurais. A assistência na remodelação de laboratórios e outras estruturas relacionadas
com o comércio também será importante. Angola precisará dessas instalações para satisfazer
completamente as condições de mercado mundial, em relação à qualidade dos produtos e
cumprimento das medidas fitossanitárias. O desenvolvimento e reforço das capacidades e a
formação profissional são necessários numa variedade de sectores, especialmente no
cumprimento das regras aduaneiras e nas operações portuárias. Nestas áreas, as melhorias
precisam de ser substanciais e exigem formação e reforço das capacidades para pôr Angola a
par das normas mundiais. Identicamente, em relação às actividades comerciais e empresariais,
os efectivos (força de trabalho) precisam de formação profissional e de desenvolvimento das
capacidades para operar num clima empresarial internacional.