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ECOLOGIA DO PASTEJO

Plantas e herbívoros têm um histórico de co-evolução. Ao longo da seleção natural, ambos


desenvolveram estratégias que lhes permitem convivência. As plantas desenvolveram uma série de
características que lhes conferem resistência ao pastejo. Já os animais desenvolveram mecanismos e
ferramentas que otimizam a busca do alimento na pastagem. Há uma hierarquia no processo de pastejo,
onde a ingestão de forragem “per se” não é o mais importante, e sim a água. De forma geral, próximo aos foci
como pontos de bebedouro e sombra é que se encontram os locais de maior intensidade de pastejo. Quanto
mais nos distanciamos, menor é a freqüência de pastejo nestes sítios mais longínquos. Um desafio do manejo
de pastagens é o de tentar uniformizar a distribuição do pastejo ao longo da área. Para isto servimo-nos de
técnicas como o ajuste de carga, melhoria de divisões, pastejo rotativo, o pastoreio, a distribuição de cochos
de sal, plantio de bosques em lugares estratégicos, etc. A fundamentação básica que orienta o processo de
ingestão de forragem do animal em pastejo está na tentativa de colheita da maior quantidade de
nutrientes na pastagem com o menor dispêndio energético e de tempo possível. O animal tem, então, que
otimizar o seu tempo. As atividades de um animal em pastejo englobam o tempo efetivo de pastejo, o tempo
de ruminação, o descanso e outras atividades sociais e de ócio. Boa parte do tempo de pastejo se dá nas horas
próximas ao nascer e principalmente próximo ao pôr do Sol, onde a concentração de carbohidratos solúveis
nas folhas está próximo ao máximo e o teor de matéria seca é próximo ao mínimo, maximizando a velocidade
de ingestão (matéria seca/minuto de pastejo). A altura, de forma geral, é indicadora da quantidade de
biomassa presente. Isolando-se o fator qualitativo, quanto mais alto for o pasto, maior a quantidade de
forragem disponível ao animal. Qualquer herbívoro tem o seu consumo de forragem elevado com o
aumento da quantidade de forragem na pastagem, expresso por altura, massa de forragem, índice de
área foliar, etc. Os animais identificam a altura das plantas como concentração de biomassa/nutrientes e
oportunidade de alta colheita de matéria seca. Eles preferem estas áreas, a menos que haja uma elevada
concentração de fibra. Há uma relação linear e positiva entre a altura da pastagem e a massa do bocado. Isto
significa que, quanto maior a altura das plantas, maior a profundidade do bocado e mais o animal
pasteja “com boca cheia”. A massa do bocado é, freqüentemente, o principal determinante do consumo
de forragem em pastejo. A freqüência com que os animais executam estes bocados é inversamente
relacionada à massa do bocado. Isto nada mais é que a expressão do fato de que, com a “boca cheia”, maior o
intervalo de tempo para conseguir dar um novo bocado. Em pastagens baixas, os animais aumentam a
freqüência dos bocados visando compensar a diminuição da massa de cada bocado que ela dá. Em situações
extremas estudos demonstram que, em pastagens próximas a 3 cm de altura, ovelhas e vacas chegam a dar
mais que um bocado por segundo! O tempo de pastejo é outro componente do comportamento ingestivo que o
animal manipula. Os ovinos respondem à diminuição da altura da pastagem aumentando o tempo em que
passam pastejando, tentando sempre compensar a diminuição da massa do bocado. Porém, raramente observa-
se tempos de pastejo acima das 13 horas/dia. Quando os animais entram numa pastagem nova, inicia-se um
processo de aprendizado e memorização que faz parte dos mecanismos de otimização do pastejo. No
início, o número de visitas às áreas de alto valor forrageiro é baixo. Porém, com o passar dos dias, o número
de locais de alto valor visitados vai aumentando, o que indica que os animais memorizam os locais
interessantes e agregam novos locais à sua memória à medida em que os conhecem e se também são de maior
valor. Ao final de alguns dias, o número de visitas às áreas boas da pastagem se estabiliza indicando o
conhecimento pleno de onde se encontram as melhores oportunidades de pastejo. Neste processo os animais
parecem usar dois tipos de memória, uma de curto prazo (memória de trabalho) e outra de longo prazo
(memória de referência) que conferem ao animal um valor de referência em relação ao ambiente que ele
está explorando. À medida em que procede o pastejo, a cada passo que o animal dá e a cada local em que ele
se encontra, o valor daquilo que está a sua frente é contraposto àquele valor de referência. As decisões de
pastejo (1-sim, 2-não/deslocamento) são tomadas através do posicionamento do valor do sítio de pastejo atual
em relação ao valor de referência (1-maior ou igual, 2-menor ou igual) em conjunto com uma avaliação
permanente das condições do ambiente externo (atributos da pastagem, condições meteorológicas, etc.) e do
ambiente interno ao animal (fome, demanda produtiva, etc.). O valor de referência está sempre se alterando,
assim como os próprios valores dos sítios de pastejo (rebrota nutritiva/macega em estádio reprodutivo) o que
faz com que os animais tenham permanentemente que “amostrar” o ambiente de pastejo e “reconstruir sua
base de dados”. O conhecimento do comportamento do animal e de seu processo de pastejo é importante para
que nós, através do manejo, possamos “criar” ambientes mais próprios à produção animal.
BIBLIOGRAFIA
CARVALHO, P.C.F. et al.. In: REUNIÃO ANUAL DA SBZ, Porto Alegre-RS. 1999. p. 253-268.