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COMPRQMI 3o trimestre de 2005

ü u a v j E i j ü i i 5 . y s . li

Ano XIV - N° 54 DAVID BAÊTA MOTTA, for-


COMPROMISSO destina-se a adultos mado em Teologia pelo Seminário
(36 a 64 anos), contendo lições para a Escola Bíblica Teológico Batista do Sul do Brasil
Dominical, estudos temáticos para a Divisão de
Crescimento Cristão (União de adultos), educação (bacharelado e mestrado), formando
musical e outras matérias que favorecem o em Psicologia (Universidade Estácio
desenvolvimento cristão do adulto.
Os adultos de 65 anos em diante podem, obviamente, de Sá), pastor da Primeira Igreja Ba­
usar esta revista, mas a JUERP destina a eles a revista
REALIZAÇÃO, cuidadosamente preparada para a tista de Moça Bonita, Rio de Janeiro,
faixa etária da terceira idade RJ, é o autor dos estudos da EB D da
Escola Bíblica Dominical presente edição de sua revista COM­
Jul. Ago. Set. 2005 PROMISSO. Casado com Rosângela
Publicação trimestral da JUERP Motta, o casal tem duas filhas: Daniel-
Junta de Educação Religiosa e Publicações da
Convenção Batista Brasileira le Dias Motta e Aline Dias Motta.
CGC(MF): 33.531.732/0001-67
Registro n° 816.243.760 no INP1

Redação
Caixa Postal, 320
20001-970 - Rio de Janeiro, RJ P í i Ü j í M V f s t M -SíT-TílS
Tels.: (21) 2544-0304 e 2524-0382

Telegráfico - BATISTAS
Eletrônico - editora@juerp.org.br
Site - www.juerp.org.br
Isafas, Profeta Maior
Direção Geral Denúncia contra um culto hipócri­
Almir dos Santos Gonçalves Júnior
ta e dissociado da prática da justiça, is­
Conselho Editorial to é, do socorro aos mais pobres; de­
Carrie Lemos Gonçalves, Celso Aloísio Santos
Barbosa, Ebenézer S. Ferreira, Gilton M. Vieira, núncia contra autoridades e suas le­
Ivone Boechat de Oliveira, João Reinaldo Purin,
Lael d’Almeida, Lídia de Oliveira Lopes, gislações que atendem seus próprios
Marcílio Oliveira Filho, Margarida Lenios Gonçalves, interesses e exploram os socialmente
Pedro Moura, Roberto A. Souza,
Silvino C.F. Netto e Tiago Nunes Lima mais humildes, em vez de promover
Coordenação Editorial justiça; profecia da vinda do Messias
Solange Cardoso A. d’Almeida e o estabelecimento de seu reino de
(R P/16897)
paz, alegria, justiça e humildade. Estes
Redação
Ciem ir Fernandes Silva são alguns dos temas do profeta Isaí-
Produção Editorial
as, radicalmente relevantes para o nos­
Arte Sette Marketing e Editorial Ltda. so tempo, cujo livro será estudado no
Produção Gráfica próximo trimestre aqui no currículo da
Willy Assis Produção Gráfica
revista COMPROMISSO. Aprovei­
Distribuição te esta oportunidade de conhecer e no­
EBD1” Marketing e Consultoria Editorial Ltda.
Cx Postal 28.506 - Cep.: 21832-970 vamente estudar este maravilhoso li­
Tels.: (21) 2104-0044
Fax: 0800.216768 vro, considerado uma espécie de evan­
E-mail: distribuidora@ebd-1.com.br gelho do Antigo Testamento.
pedidos@ebd-1.com.br
O autor de tais estudos é o Pa
Nossa missão: “Viabilizar a cooperação tor Zaqueu Moreira de Oliveira, de
| >‘W4§^ j entre as igrejas batistas no cumprimento
dc sua missão como comunidade local”
Recife, PE.
DIVISÃO DE
SUMÁRIO CRESCIMENTO CRISTÃO
DCC 1 - Planejamento do trimestre .53
DCC 2 - 0 “Jesus” das religiões
não-cristãs..........................56
DCC 3 - 0 “Jesus” da cristandade ...59
DCC 4 - 0 “Jesus” das igrejas-espetá..
culo.................................. 62
DCC 5 - 0 Jesus das Escrituras
Sagradas........................... 65
DCC 6 - Igrejas: denominacionais
ou independentes?........... 68
DCC 7 - “Busca estratégica de
Deus” ............................... 71
DCC 8 - Espiritualidade para além
das palavras...................... 74
DCC 9 - Santidade é justiça............ 77
DCC 10 - Piedade e justiça social
ESCOLA h o je................................ 80
DCC 11 - Missões: Meu compro­
BÍBLICA DOMINICAL
misso com Deus............. 83
Introdução aos estudos da EB D .......... 11 DCC 12-M issões: Compromisso
da igreja......................... 86
EBD 1 - Deus é único e eterno..........14 DCC 13 - Missões: Compromisso
com a sociedade............. 89
EBD 2 - Deus é criador..................... 17
EBD 3 - Deus é onipotente................ 20 2005
EBD 4 - Deus é onipresente e Missões em um mundo
onisciente.............................23 sem fronteiras
EBD 5 - Deus é santo.........................26 VARIEDADES
EBD 6 - Deus é amor..........................29 1. Espaço dos leitores - Cartas
e mensagens......................................4
EBD 7 - Deus é salvador....................32
2. Ênfase do ano - Evangelho para
EBD 8 - Deus é perdoador.................35 todas as pessoas, apesar clas
fronteiras............................................ 8
EBD 9 - Deus é galardoador...............38
3. Hino do trimestre - “Ouvindo
EBD 10 - Deus é paciente.................. 41 de Jesus” ..........................................10
4. Louvor e liturgia -Adoração e
EBD 11 - Deus é justo........................44 louvor por meio da música.............92
EBD 12 - Deus é consolador..............47 5. Ler, ouvir e compartilhar -
Metade do ano, metade da
EBD 13 - Deus é vida eterna..............50 década... e as leituras?................... 95
ESPAÇO DOS LEITORES

Cart«]« e m@nsaa««ns
IDOLATRIA?

Por que alguns dos nossos livros e revistas da EB D contêm santos de barro e ce­
râmica? Por que prestigiar o clero e o Vaticano e, por conseguinte, a idolatria e Sa­
tanás com ilustrações de santos? Por que trazer na capa do Livro do Trimestre da
EBD (Os Profetas Maiores II) obras de Aleijadinho? Na revista COMPROMIS­
SO (3T04) tem como capa obras renascentistas [sic] que, apesar de terem um méri­
to cultural, prestigiam apenas a igreja católica, mostrando um Cristo de cabelo com­
prido (2T04), quando o correto seria não termos qualquer imagem de Cristo, mas tê-
lo apenas em espírito.
Também já vi fotos de bispos e pessoas ligadas ao clero como fonte de ilustra­
ção da nossa literatura (1T04). Mesmo sendo pessoas boas que contribuíram com
a melhoria da humanidade, por que não prestigiar então missionários ou paisagens
feitas por Deus em vez de gravuras da Capela Sistina?
A Bíblia não apenas fala em adorar imagens, mas não fazer, e eu entendo aqui
“não publicar ou prestigiar”. Vocês, como formadores de opinião, têm uma grande
responsabilidade nesta parte que entendo ter passado desapercebido.
Há pouco tempo, uma irmã da nossa igreja trouxe folhetos (vindos dos EUA -
batistas?) com uma gravura de Cristo encravado e sangrando, bem parecido com
aquela figura católica do “sagrado coração de Jesus”.
Temo que isto seja desvio de doutrina e, como batista que sou, muito apreciaria
ver modificações das capas dos livros e revistas para situações que realmente edi­
ficam e nada nos fazem lembrar idolatria e o catolicismo paganista.
Sugestões para capas: mostrar crianças cantando ou adultos, mostrar igrejas que
crescem, pastores e missionários que realizaram bons trabalhos. Paisagens natu­
rais, pássaros, enfim, mostrar este mundo maravilhoso e este firmamento que ma­
nifestam a glória de Deus.

Ester Evangelista da Costa


Igreja Batista de Águas da Prata, SP (por e-mail)

Nota do redator. Prezada Ester, como cristãos e batistas precisamos, certamen­


te, estar atentos para jamais incorrermos em atos que contrariem o ensino bíblico.
Obrigado por sua carta, preocupações e sugestões, que temos procurado acatar.
Gostaria de ponderar que as obras de arte da humanidade são patrimônio univer­
sal, não da igreja católica. Ao usá-las, raras vezes, para ilustrar nossa literatura,
4 - Compromisso
cremos não estar desrespeitando o princípio bíblico, pois, obviamente, não defen­
demos adoração ou veneração. E apenas uma ilustração.
Na COMPROMISSO do I o trimestre de 2004, todos os líderes que aparecem
na capa são pastores evangélicos.

MUITO CONTEÚDO, POUCO ESPAÇO

Sou injusto se não reconhecer o trabalho do corpo editorial da revista COM­


PROMISSO que, pela iluminação do Espírito Santo, tem elaborado lições espiri­
tuais doutrinárias e edificantes para nosso crescimento na Palavra de Deus. Estou
interessado no conteúdo não na quantidade. Refiro-me ao estudo no livro de João
que é completamente impossível estudar o livro em um trimestre e estudar dois ca­
pítulos do livro em uma lição da EBD, quando dispomos apenas de quarenta e cinco
minutos para a lição. E muito mais ético, aconselhável e produtivo estudar apenas
dez versículos de um capítulo quando se aproveitará muito mais o conteúdo.

Jessé Ferreira, por e-mail

Agradeço a Deus pelo esforço dos irmãos e demais colaboradores da JUERP pe­
lo trabalho missionário e eclesiástico que os irmãos exercem para o povo de Deus
do movimento batista brasileiro e outras denominações evangélicas.
Gosto da revista COMPROMISSO no seu aspecto informativo, mas acho que
a igreja precisa, também, de um material que contemple o aspecto formativo.
Reconheço quanto é difícil escrever uma lição, com base em dez capítulos do
livro de Ezequiel, para uma aula de aproximadamente 40 minutos. Isto é uma ta­
refa muito difícil, mas Deus tem colocado no coração da maioria dos irmãos uma
dose generosa de paciência e amor pela JUERP e seus colaboradores.

Arnaldo Lucas Sacramento


Membro da Igreja Batista Betei de Pouso Alegre, MG

VOCABULÁRIO SIMPLES

Primeiramente tenho que reconhecer a importante publicação que é a revista COM­


PROMISSO, porém, quando comecei a estudá-la no primeiro semestre de 2004, per­
cebi uma coisa: até a volta do nosso Senhor, o domingo continuará a ser o primeiro dia
da semana, e vocês insistentemente o puseram no rodapé da revista, por último. O
sábado, sim, o é.
Nossos irmãos pedem que os senhores usem palavras mais comuns no dia-a-dia. Por
exemplo, na EBD do 2° trimestre de 2004, página 50 há: “...de vacilante a INTI­
MORATOS”. Não importa mais o seu significado, mas fica nossa sugestão.

Daniel Silva
Membro da Igreja Batista do Parque São Basílio,
Rio de Janeiro, RJ, por e-mail.
3Qtrimestre de 2005 - 5
INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DA EBD

A doutrina de
DEUS >
oi com muita oração e disposição que pode ser tudo menos o Deus da
F que avaliei o convite para escre­Bíblia, foram provocadas guerras,
muita gente foi torturada e m orta,
ver estas lições e me lancei à tarefa de
escrevê-las. Isto pelo fato da tremendae o reino de Deus foi envergonhado
responsabilidade que é escrever sobre profundamente.
Deus sem a interferência dos concei­ Hoje a realidade não é muito di­
tos e preconceitos que influenciam a ferente. O secularismo influencia a
nossa percepção da realidade. fé, criando um cristianism o de su­
O homem, em todas as épocas da perficialidade, um cristianismo ma­
história, apresentou a pessoa divina terialista, comercial, mercantil, no
cunhada com as conceituações de sua qual Deus precisa ser forjado com
própria cultura ou invenções cultu­ a cara dos promotores de tal siste­
rais. Por exemplo, qnp.Israelma enganoso.
p.nfrnn na terra^rometida o Deus que Assim, como muitos morreram vi­
se revelara como Senhor passou a tcr timados pelas distorções da fé, os ma­
ca racte.rísticas daiudi^indadas; cana-.
nipuladores da experiência religiosa
néias deyidaA interferênciahurfiana. ou vendedores da fé se enriqueceram
ficando dfiscaracterizari&jm^ua-esr- com seus comércios da imagem de
sênciajCom islo^o culto em israel so= Deus. Entretanto não deixaram de ser
freu profwTdã&-dislorções. Se os res­ julgados por seus atos, pois o Deus,
ponsáveis pelo culto trocavam o co­ perfeitamente justo, não deixa passar
nhecimento de Deus pelas seduções por inocente o culpado.
das religiões pagãs, bem como pelos Daí, o desafio que tive e tenho ao
subornos que recebiam ou pelo sen­ escrever este conjunto de lições. Não
so de onipotência funcional, o povo, é algo fácil escrever sobre Deus com
que possuía uma tendência declarada a isenção necessária dos fatores ge­
para a desobediência, seguia as orien­ rais, quer subjetivos, quer objetivos
tações distorcidas dos seus líderes, e que ficam à volta tentando influen­
todos caíam em desgraça. ciar nossa conceituação. Entretanto,
O mesmo aconteceu na Idade há um senso de prazer inenarrável
Média quando, em nome de um deus quando, pelo menos, se tenta fazer

1 2 - Compromisso
isso. É assim que me sinto ao fazer Estou convicto de que o maior
vir à lume estas lições. Sinto-me res­ propósito desta seqüência de lições
ponsável por escrevê-las em vários está em harmonia com o anseio de
aspectos. Dentre eles cito a minha Deus, que é o de ser conhecido como
devoção e fascínio por Deus que me­ é, dentro da mediada ou da capaci­
rece toda a reverência, todo respeito. dade de conhecimento que nós mor­
Junta-se a isto o senso de responsa­ tais podemos ter sobre ele. Entendo
bilidade que passo a ter em relação à que o cnnjTecimgnl-n Hq á an-
vida de cada leitor. Creio firmemen­ íê sjje tudo, experiencial. Deus de­
te que um ensino distorcido pode fa­ seja ser conhecido pela igreja e pe­
zer com que vidas venham a se per­ lo mundo. Para isso, pessoas que o
der. Creio também que ensinos bem conhecem experimentalmente e que
ministrados ocasionam crescimento se aprofundam em tal conhecimen­
e ganhos espirituais indizíveis. Este to são de extrema relevância para a
último tem sido a minha meta. proclam ação da realidade divina.
Quem conhece o Deus vivo prega
com vida a abundante vida disponi­
PROPÓSITOS DOS ESTUDOS bilizada por ele.
A cada dia mais me convenço de
Diante do que foi escrito até aqui, que Deus deseja ser Deus na igreja.
fica claro que o estudo da doutrina Os deuses humanos, ou melhor, os
de Deus é de extrema relevância em que tentam ocupar o lugar de Deus,
qualquer época e em todos os luga­ na igreja, deixam o verdadeiro Deus
res. Em meio à incredulidade dos he­ do lado de fora. Só que Deus é per­
breus, profetas foram vocacionados feitamente amor. Ele continua a ba­
para mostrar a relevância da verda­ ter à porta daquelas igrejas onde lí­
deira fé, causando momentos de avi- deres usurparam o seu lugar. Deus
vamento em Israel. Na Idade Média, bate à porta para que os fiéis que
outro momento da história acima ci­ foram silenciados ouçam a sua voz,
tado como exemplo, Deus levantou tomem a coragem da fé para abrir a
vozes que tiveram eco na Reforma porta e provem da verdadeira comu­
Protestante do século XVI, onde im­ nhão “eu com ele e ele comigo”.
perou o forte apelo para a volta ao cris­ Assim sendo, o segundo objeti­
tianismo original que durante séculos vo desta seqüência tem a ver com o
sofreu distorções a partir daqueles que despertamento espiritual, com o agu­
com astúcia enganam firaudulosamen- çamento da percepção espiritual pa­
te. O mesmo Deus tem levantado pes­ ra ouvir o pulsar divino à porta, pa­
soas nestes tempos pós-modemos, que ra abri-la, a fim de que ele entre e fa­
é o nosso tempo, para apresentar a re­ ça morada na igreja. Soma-se a is­
alidade da sua divindade, seus atribu­ to o desejo de ver a igreja motiva­
tos, sem as marcas da interferência hu­ da pela ação divina a agir de modo
mana. Diante disso, os estudos a se­ proclamador das realidades espiritu­
guir se cercam de extrema relevância, ais que vive.
daí o senso de responsabilidade ao es­ E natural que o conhecimento ex-
crever sobre este tema. peri^nçifll dfí Dmis produZ-0 cresci-
3-Qtrimestre de 2005 - 1 3
msntoiambêm na4uuensãp intel.ec- tamento sobre Deus, destacando o
luaL. Se o homem como um todo é desenvolvimento de cada conceito
imerso no universo do conhecimen­ dentro dessa parte da Bíblia, bem
to de Deus, sua vida ganha muita re­ como as novas dimensões dadas a
levância no mundo, e Deus vai sendo eles por Jesus.
proclamado pelas palavras carregadas Alguns livros foram importantes
de sabedoria e por vidas que atraem para a feitura de cada lição. Não
outras para o universo da verdadeira estarei fazendo citações bibliográficas
e transcendente fé. Estas dimensões, no corpo das lições, pois preciso
agora mencionadas, formam também aproveitar ao máximo o pequeno
os objetivos das lições. espaço de cada estudo. Das obras
que consultei e indico para leitura
com plem entar destaco: Teologia
ORIENTAÇÕES GERAIS Sistem ática, de Charles Hodge
dentre outras conhecidas. Teologia do
1. Os textos bíblicos básicos para Antigo Testamento, de A. R. Crabtree,
cada estudo devem ser lidos na ínte­ Teologia do Antigo Testamento, de R.
gra, preferencialmente mais de uma L. Smi-th, Dicionário Internacional
vez. Devido ao espaço limitado para de Teologia do Antigo Testamento,
cada lição, os textos não serão traba­ de R. L. Harris, Dicionário In­
lhados com profundidade exegética. ternacional de Teologia do No­
0 ideal é que cada igreja faça estudos vo Testamento, de C. Brown são
prévios em grupos, sempre que possí­ também obras literárias de fun­
vel, para o amadurecimento de cada li­ damental importância. Acrescento o
ção bem como para sua ampliação. livro escrito por G. Fohrer História
2. Na medida do possível, é tam­ da Religião de Israel, o livro A Fé
bém importante a leitura de alguma em Israel da autoria de H. H. Row-
literatura complementar. Ainda, ley, e Deus no Antigo Testamento que
nesta introdução geral, farei algu­ é uma coletânea de textos organizados
mas sugestões de livros que podem por G. Gerstenberger. Uma leitura
ser lidos e que, por certo, ampliarão devocional, porém indispensável, é
os horizontes limitados pelo espaço o primeiro volume dos sermões de
imposto a cada lição. Martyn Loyd-Jones que falam sobre a
3. Praticam ente todas as lições pessoa de Deus. São sermões bíblicos
têm perguntas introdutórias. Elas com profundos ensinos teológicos,
devem ser respondidas previamen­ doutrinários e que enchem a alma do
te e, ao final do estudo, devem ser desejo de conhecer mais de Deus.
checadas com o fim de serem confir­ Minha oração é que o Deus vivo,
madas, negadas ou ampliadas. santo e justo abençoe a sua vida pela
leitura destes estudos, com a mesma
ou maior intensidade com que aben­
CONCLUSÃO çoou a minha vida na produção dos
mesmos. Amém.
O método que usei em cada li­
ção parte da visão do Antigo Tes- David Baêta Motta
1 4 - Compromisso
éunko
3 de julho
D q u s e eteru»
Texto bíblico Texto áureo
Êxodo 15; Salmo 86; Provérbios 8 Salmo 86.12

O tema “Deus vivo” é fundamen­ náveis para todos os autores do Antigo


tal no Antigo Testamento. Outros te­ Testamento. Naquela época não se per­
mas como a “unicidade e eternidade de dia tempo filosofando sobre a existên­
Deus” são também fundamentais e de­ cia de Deus. Eles tão-somente criam.
correntes. Deve-se considerar que, quando se fala
Como o Antigo Testamento traba­ em “crer”, não se evoca a idéia de uma
lha estes temas? Que implicações tive­ fé cega. Para eles o relacionar-se com
ram para Israel, bem como no tempo do Deus não era “dar um salto no escuro”,
Novo Testamento? Qual a importância mas “enxergar no escuro”. Este último
deles para a igreja hoje? aspecto era central para a fé anticotesta-
Nosso objetivo é que, ao final des­ mentária. Somenle o louco duvidava da
te estudo, estas e outras perguntas pos­ existência de Deus. E o que diz o Sal­
sam ser respondidas, e que o interesse mo 14.1a: “Diz o néscio no seu cora­
pela realidade divina seja bem amplia­ ção: Não há Deus.”
do na vida do leitor. O texto áureo do Antigo Testamen­
to sobre a existência e vida de Deus es­
tá em Êxodo 3.14, quando Deus, ao ser
O DEUS VIVO E ETERNO inquirido por Moisés sobre o seu nome,
responde: “EU SOU O QUE SOU. Dis­
Os escritores do Antigo Testamento se mais: Assim dirás aos filhos de Isra­
nunca tentaram provar a existência de el: EU SOU me enviou a vós”. “SER,”
Deus. O pressuposto deles é o de que significa “existir e estar”. Declarando-
Deus existe! Deus é vivo, existe e se se assim, Deus disse EU SOU O QUE
revela. Estes são princípios inquestio­ SOU significando “Eu existo porque

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - Êxodo 15.1-6 Quinta - Salmo 86.1-10
Terça - Êxodo 15.7-11 Sexta - Salmo 86.11-17
Quarta - Êxodo 15.12-19 Sábado - Provérbios 8.22-26
Domingo - Provérbios 8.27-31

3Qtrimestre de 2005 - 15
existo”, isto é, nada me faz existir; sou O Deus de Israel era reconhecido
auto-existente e. ao mesmcLtempo. sou como único Deus. Por exemplo, Deu-
ã fôrçà^êpropulsãQ detudo o que exis- teronômio 6.4 diz: “Ouve, ó Israel;
te. Mais ainda, nesta tremenda revela­ o Senhor nosso Deus é o único Se­
ção está atrelada a idéia de vida presen­ nhor”. Em Êxodo 15.11, Moisés per­
te. O verbo SER significa ESTAR, co­ gunta: “Quem entre os deuses é como
mo citado anteriormente. Ora, “estar” tu, ó Senhor?” O Salmo 86.8 asseve­
significa uma presença viva, ativa e efi­ ra: “Entre os deuses nenhum há seme­
caz. Isto é o que Deus prometera a Isra­ lhante a ti, Senhor, nem há obras co­
el. O Deus vivo e eterno estaria presen­ mo as tuas”. Qual o significado dessas
te no meio do seu povo todos os dias. declarações afirmativas e proclamado-
Isto é o que Jesus também nos prome­ ras da unicidade divina?
teu ao dizer que estaria conosco todos Consideremos o contexto religioso
os dias, até a consumação dos séculos. do Antigo Testamento. Israel viveu em
Quão grandes eram e são as promessas meio a povos que adoravam deuses di­
atreladas à revelação de Deus como vi­ versos. O estudo das religiões antigas
vo e eterno. revela que o politeísmo era comum na­
Dos textos básicos para este es­ quele tempo em que os fenômenos da
tudo, destacam os alguns versículos natureza eram explicados do ponto de
que apontam para a síntese acima ex­ vista religioso. A chuva, o sol, o mar
posta. Êxodo 15.18 afirma que “o Se­ e tudo o mais tinham deuses específi­
nhor reinará eterna c perpetuamen­ cos que os governavam. Rituais diver­
te”. No Salmo 86.12 Davi declara seu sos e mágicos eram usados para evo­
reconhecimento pelo nome e poder re­ car a boa vontade dos deuses a fim de
velados: “Louvar-te-ei, Senhor Deus promover, por exemplo, a fertilidade
meu, com todo o meu coração, e glo­ da terra, objetivando um bom plantio
rificarei o teu nome para sempre”. e uma farta colheita. Cada parte da na­
Provérbios 8.35 afirma que “o que me tureza era governada por um deus. Foi
achar achará a vida e alcançará fa­ neste ambiente de diversidade que Is­
vor do Senhor”. Estes, entre outros rael forjou o conceito da unicidade di­
textos, têm com base a vida e a eterni­ vina. Ao contrário de um deus para ca­
dade de Deus. da parte da natureza, o Deus de Israel
reúne em si todas as partes. O Salmo
24.1 afirma que “do Senhor é a terra
UNICIDADE EM MEIO e a sua plenitude; o mundo e aque­
À DIVERSIDADE les que nele habitam”. Ele é o criador
de todas a coisas. Ele mesmo as susten­
Tendo como pressupostos básicos ta e governa. Tudo ele fez com sabe­
e vitais a vida auto-existente de Deus, doria e perfeição, pois ele é a própria
sua presença ativa e eficaz, vários outros sabedoria: “O Senhor me criou como
conceitos destes primeiros foram evoca­ a primeira das suas obras, o princí­
dos nos tempos bíblicos, dentre eles o pio dos seus feitos mais antigos. Des­
da “unicidade”. de a eternidade fui constituída, des­

16 - Compromisso
de o princípio, antes de existir a ter­ são do ser divino e ter recebido um ex­
ra” (Pv 8.22,23). celente nome. Quanto a este último ca­
Foi mediante uma viva experiência racterístico, a pergunta básica é: Que no­
moldada pela fé que Israel construiu o me Jesus herdou? Tente responder an­
conceito da unicidade de Deus. Um tex­ tes de continuar.
to recordativo, registrado em Isaías 64.4, Paulo afirma, escrevendo aos Fili-
dá sustentação definitiva ao princípio que penses (2.9-11), que Jesus foi exaltado e
estamos estudando. Fazendo um retros­ recebeu um nome excelente. Diante de­
pecto histórico, desde a eleição de Israel le todos se ajoelharão e confessarão que
até o tempo do exílio babilónico, o pro­ Jesus é Senhor. Atente para isso: Senhor;
feta assim se expressou: “Porque desde este é o nome excelente que Jesus rece­
a antigüidade não se ouviu, nem com beu. A palavra gregaj>ara Senhor é tra-
ouvidos se percebeu, nem com os olhos duzida do hebraico, onde “Senhor” sig­
se viu um Deus além de ti, que opera a nifica EU SOU. Isto quer dizer que Jesus
favor daquele que por ele espera”. é o EU SOU da revelação no Sinai. As­
Portanto, a unicidade de Deus é sim, Jesus é a encarnação do Deus vivo,
fator distintivo que aponta para a sua único e eterno, o qual veio trazer vida,
singularidade e marca a sua diferença singularidade e eternidade positiva.
em relação às religiões daquela época.

CONCLUSÃO
JESUS - O DEUS ÚNICO
E ETERNO Grande é o nosso privilégio por per­
tencermos a Deus. Neste tempo de di­
O Novo Testamento deve ser o fil­ versidade não devemos impedir a ação
tro para o estudo do Antigo Testamento. de Deus na igreja com os nossos con­
Este era o entendimento de João quan­ ceitos, invenções e preconceitos. Deve­
do escreveu a respeito de Jesus como o mos dar espaço para que o Deus único e
Verbo de Deus. Atesta ele que Jesus era eterno seja verdadeiramente o Deus úni­
o próprio Deus; era o Verbo que se fez co e eterno da igreja. Que sejam nossas
carne e habitou entre os homens. João as palavras pronunciadas por Moisés aos
enfatiza que a vida estava em Jesus, por­ pés do Sinai, quando o Senhor disse que
tanto, era ele o Deus vivo. Ele fora o não iria no meio do povo. Moisés vol­
princípio ativo de toda a criação, pois ta-se para Deus e diz: “Se a tua presen­
“todas as coisas foram feitas por in­ ça não for conosco, não nos faças su­
termédio dele, e sem ele nada do que bir daqui... acaso não é por andares
foi feito se fez” (Jo 1.1-14). tu conosco e separados seremos, eu e
Nesta mesma direção encontramos o teu povo, de todo o povo que há so­
o sublime texto de Hebreus 1.1-4 onde bre a face da terra?” (Ex 33.15,16) Co­
são feitas declarações sobre a divinda­ mo Deus anseia por igrejas que dcem es­
de de Jesus, das quais destacamos ser paço para que ele seja verdadeiramente
ele herdeiro de todas as coisas, agente Deus; por igrejas que queiram ser genui­
do processo de criação, a exata expres­ namente igrejas de Deus.

3Qtrimestre de 2005 - 1 7
10 de julho Deus 5 é i m

Texto bíblico Texto áureo


Salmo 104 Salmo 104.35

O Deus vivo, único e eterno é o O DEUS DE ISRAEL


Deus criador. Que significado tinha is­ É O DEUS CRIADOR
so para os hebreus, e por que é impor­
tante estudarmos ou re-estudarmos es­ Estudiosos do Antigo Testamento
te tema? afirmam que do primeiro encontro dos
O debate entre criacionismo e evo- filhos de Israel com Deus depreendeu-
lucionismo está longe de terminar nas se o conceito do “ Deus salvador”. Is­
escolas e em outros meios acadêmicos. to significa dizer que, antes de concei­
Há algum meio para conciliá-los ou tuá-lo como criador, Deus era tido co­
não? Ciência natural e fé podem dialo­ mo Salvador, o qual com braço estendi­
gar, ou a tendência do nosso tempo pa­ do e mão forte tirou o seu povo do Egi­
ra o secularismo será mais um obstácu­ to levando-o à Terra Prometida. Penso
lo para o diálogo entre estas duas áre­ que isto é uma questão de ênfase. In-
as do saber? ferencialmente pode-se pensar que, du­
Do ponto de vista bíblico, que rante o tempo em que esteve no Egito,
idéias e sentimentos decorrem da vi­ os descendentes de Jacó tiveram conta­
são do Deus criador? Os questionamen­ tos com relatos de diversos povos sobre
tos são muitos e profundos. Objetiva­ a criação. Seria natural que os filhos de
mos neste estudo afirmar a teologia bí­ Israel atribuíssem a criação ao Deus dos
blica do Deus Criador, de modo a fun­ pais. Moisés, que cresceu na corte egíp­
damentar a nossa fé, provendo as ba­ cia, depois do seu chamamento, por cer­
ses, inclusive para um diálogo com ou­ to considerou o Deus que o comissionou
tras ciências. como criador.

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - Salmo 104.1-5 Q uinta-Salm o 104.16-20
Terça - Salmo 104.6-11 Sexta - Salmo 104.21-24
Q uarta-Salm o 104.12-15 Sábado - Salmo 104.25-30
Domingo - Salmo 104.31

18 - Compromisso
A ênfase primeira recai sobre o Deus (v. 1-10) nos remete a relatos da criação,
salvador devido aos seus atos no livra­ principalmente aos de Gênesis 1 e 2. To­
mento e condução de Israel. Quando fala­ do o Salmo reflete a idéia de Deus como
mos em ênfase, afirmamos que os concei­ sujeito da criação. Assim, não nos ocu­
tos de Deus criador e salvador não eram paremos aqui com a criação, mas com o
excludentes ou totalmente separados. Criador adorado neste grande Salmo.
Tomando como ponto de partida o fa­ Ligando este a outros relatos, o que
to de Moisés ter sido o escritor do Pen- podemos concluir? O versículo 7 faz alu­
tateuco, por que gastou tão pouco espa­ são direta ao poder da “palavra” de Deus:
ço para falar em Deus como criador (Gn “à tua repreensão fugiram, à voz do
1 e 2), usando a maior parte para falar de teu trovão se apressaram”. O primor­
Deus como salvador? Mais uma vez rea­ dial para Israel era a pessoa de Deus co­
firmamos que a questão recai sobre a ên­ mo sujeito ativo da criação e a sua pala­
fase. A salvação era o assunto do momen­ vra como tendo grande poder e que agen­
to, por assim dizer. Moisés sabia que Is­ ciou e ordenou todas as coisas. Gênesis 1
rael não desconhecia a criação como ato faz várias menções à expressão “e disse
divino, mas conhecer Deus como salva­ Deus” (v. 3 ,6 ,9 etc.). O Salmo 148.5 fa­
dor era um fato novo e que merecia maior la do poder da palavra criadora de Deus:
ênfase. Também precisamos considerar a “Louvem o nome do Senhor, pois man­
lógica dos conceitos: a salvação acontece dou, e logo foram criados”.
dentro da história, e a história teve o seu À criação pela “palavra” soma-se
começo através de um ato criador. Portan­ também a criação pelo “fazer”, ou se­
to, era lógico que Israel, que não era alie­ ja, Deus não somente ordena e as coi­
nado no mundo, passasse a conhecer a fa­ sas acontecem; ele põe “mãos à mas­
ce salvadora do Deus criador. Ou seja, a sa”. Em Gênesis 1.26 lemos: “façamos
criação engloba a salvação e ambas vêm o homem à nossa imagem, conforme
de um único Deus. Acrescentamos aqui a nossa semelhança”. Isto significava
um dado que julgamos ser importante. muito para a fé em Israel. Seu Deus não
Houve uma época em que os dois atribu­ é um Deus alienado, distante, um Deus
tos (criador e salvador) receberam a mes­ que somente dá ordens à distância. Ele
ma ênfase por razões contextuais. Isto é está envolvido com o processo criador.
visto a partir de Isaías 40, onde o atributo Ele manda e faz. Um outro fato que me­
criador (recriar um novo Israel) é evoca­ rece relevância na fé bíblica é a cria­
do para justificar a saída de Israel do cati­ ção como produto da vontade de Deus.
veiro na Babilônia e para o reconduzir aos “Digno és, Senhor, de receber glória,
caminhos do plano da salvação. e honra, e poder; porque tu criaste to­
das as coisas, e por tua vontade são e
foram criadas” (Ap 4.11).
RECONHECENDO O DEUS Portanto, ao louvar o Deus criador
CRIADOR (SI 104.1-10) reconhece-se o poder da sua palavra
bem como a perfeição da sua vontade.
O Salmo 104 é um cântico de adora­ Quanto a este último aspecto, veja o que
ção ao Deus criador. Sua primeira parte diz Gênesis 1.3la: “E viu Deus tudo

3Qtrimestre de 2005 - 19
quanto tinha feito, e eis que era mui­ nhor. Senhor, Deus meu, tu és mag-
to bom”. A criação é produto da vonta­ nificentíssimo, estás vestido de gló­
de de Deus. Se tudo o que Deus fez era ria e de majestade... A glória do Se­
muito bom, depreende-se que sua von­ nhor seja para sempre! Alegre-se o
tade é sempre boa; ela é boa, agradável Senhor em suas obrasí... Cantarei ao
e perfeita. Isto precisa ser obedecido e Senhor enquanto eu viver; cantarei
louvado pela igreja. louvores ao meu Deus enquanto exis­
tir” (v. 1,31,33).

EVIDÊNCIAS DA FÉ NO DEUS
CRIADOR (SI 104.11-35) CONCLUSÃO

Além das demonstrações de fé aci­ Em Gênesis 1.26, o verbo “fazer”


ma mencionadas, Israel, ao se dirigir a está na primeira pessoa do plural, o que
Deus como criador, evidenciava outros significa que ali está o inicio da doutri­
elementos de fé que lançaram as bases na da Trindade. Vimos, na lição ante­
sólidas para a sua existência histórica, rior que Jesus estava presente na cria­
bem como para o cristianismo. Cita­ ção. Ele representa, para nós cristãos,
mos, a seguir, algumas destas evidên­ o Deus criador e re-criador. Ele nos ti­
cias: 1) Deus usa, conforme seu dese­ rou do caos original, quando estáva­
jo, a natureza que ele mesmo criou (v. mos mortos em nossos pecados e nos
3,4). 2) Existe um elemento de perfei­ re-criou para uma nova vida. Seu Espí­
ção na criação, e nada pode ultrapassar rito pairou sobre nós, dando-nos forma
os limites estabelecidos pelo Criador (v. e conteúdo.
2,3,5,8,9). 3) Ele ama a todas as criatu­ Pensando na sublimidade da revela­
ras e cuida de todas elas (v. 10-13, 16- ção de Deus por meio de Cristo, Paulo,
18, 25-30), faz provisão para o ser hu­ inspirado pelo Espírito, declara: “Dando
mano feito à sua imagem e semelhança graças ao Pai que nos fez idôneos pa­
(v. 14,15,23). 4) Deus mesmo estabele­ ra participar da herança dos santos na
ce as estações e o tempo (v. 19-23), os luz; o qual nos tirou da potestade das
quais estão sob sua direção. trevas, e nos transportou para o reino
Além disso, a criação revela a per­ do Filho do seu amor; em quem temos
feita sabedoria de Deus (v. 24), e a sua a redenção pelo seu sangue, a saber, a
superioridade sobre a ordem criada (v. remissão dos pecados; o qual é imagem
32). Isso conduziu Israel a acreditar num do Deus invisível, o primogênito de to­
Deus que está acima da criação, sendo da a criação; porque nele foram cria­
independente da mesma. Entretanto, das todas as coisas que há nos céus e
toda a criação, inclusive o ser humano na terra, visíveis e invisíveis, sejam tro­
que é feitura de suas mãos, são depen­ nos, sejam dominações, sejam princi­
dentes dele, devendo estar submissos à pados, sejam potestades: tudo foi cria­
sua vontade. do por ele e para ele. E ele é antes de
O salmista tinha razões de sobra para todas as coisas, e todas as coisas sub­
dizer “Bendize, ó minha alma, ao Se­ sistem por ele” (Cl 1.12-17).

20 - Compromisso
€ 3>ONIPOTENTE
Texto bíblico Texto áureo
2Samuel 22 2Samuel 22.31

O Deus único, eterno e criador é A ONIPOTÊNCIA DIVINA


também onipotente. Algumas pergun­
tas preliminares são necessárias. Co­ Nesta primeira parte, queremos nos
mo Israel conceituou a onipotência di­ deter brevemente na origem do conceito
vina? O que isto significou para a fé is­ de onipotência de Deus. Consitfcre-se.
raelita e o que significa para nós? em primeiro lugar, que os conceitos que
Os seres tanto racionais como irra­ Israel nutria sobre Deus eram resultantes
cionais são atraídos e lutam pelo po­ de muita observação e reflexão, e geral­
der. Há um fascínio na idéia de poder. mente estavam associados com a visão
Afirma-se por aí que o “poder corrom­ concreta do mundo.-Quanto a este últi­
pe”. Acrescentamos que possivelmen­ mo aspecto, lembremo-nos que não ha-
te “o poder absoluto corrompe abso­ viaeíjpatp.para, abstrações naquela épo-
lutamente”.
Desde o início da história, tanto na çõese profundas reflexões sobreiatos e
visão bíblica quanto na visão secular, manifestações concretas de Deus. D_ayçL
a luta pelo poder sempre esteve pre­ alto nível de tangibilidade na visão so­
sente e ditando as normas de conduta bre Deus que se desenvolveu na histó­
das pessoas em quase todas as instân­ ria da religião dos hebreus.
cias da sociedade. Como Israel enten­ Relembremos também que Israel
deu e depositou fé na onipotência divi­ não vivia alienado do mundo. Ele in-
na? Diante do fascínio e da força sedu­ tercambiava com outros povos. Con­
tora do poder, como devemos agir co­ ceitos que já existiam, muitas vezes, há
mo filhos de Deus? séculos, foram absorvidos por Israel e,

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - 2Samuel 22.1-6 Quinta - 2Saniuel 22.21-27
Terça - 2Samuel 22.7-14 Sexta - 2SamueI 22.28-33
Quarta - 2Samuei 22.15-20 Sábado - 2Samuel 22.34-43
Domingo - 2Samucl 22.44-51

3Qtrimestre de 2005 - 21
mediante a fé reflexiva, ganharam no­ a qual se desenvolveu, alcançando pata­
vos e singulares contornos. Este é o ca­ mares elevados de sublimidade.
so da onipotência divina.
=#> Quando os patriarcas (Abraão, Isa-
que e Jacó) peregrinaram na terra de Ca- O DEUS ONIPOTENTE
naã, tiveram contatos com a religiosida­
de dos povos que ali habitavam. Obser­ A fé no Deus onipotente também se
varam que em suas adorações havia uma desenvolveu como resultado de obser­
multiplicidade de deuses, com poderes vações e reflexões sobre a pessoa de
escalonados, e no pico de organização Deus propriamente dita e teve conse­
encontrava-se um deus conhecido como qüências fenomenais para Israel. Por
“el”. Este era soberano em relação aos exemplo, enquanto os deuses das ou­
outros deuses. Entretanto, como resulta­ tras nações lutavam entre si para se
do de sua observação, os patriarcas con­ manter no poder, de acordo com re­
cluíram que aquele deus nunca se mani­ latos descobertos por arqueólogos, o
festara como o Ser divino que a eles, os Deus de Israel não tem concorrente.
patriarcas, mostrara poder. Daí atribuí­ Todo o poder está reunido nele. Diz o
ram ao Deus que lhes aparecera e fala­ salmista: “Porque o Senhor é Deus
ra de modo audível o poder suposto no grande, e Rei grande acima de to­
nome da divindade maior dos cananeus. dos os deuses” (SI 95.3). Em seu cul­
Observe que eles não copiaram um mo­ to, Israel celebrava a onipotência do
delo de culto ou assumiram o deus cana- seu Deus, declarando que “todos os
neu como deles. Da mesma forma que, ydeuses dos povos são coisas vãs; mas
séculos mais tarde, Paulo, ao chegar em Senhor fez os céus” (SI 96.5). A so­
Atenas, deparando com um altar dedica­ berania de Deus, seu poder, que vai
do ao “deus desconhecido”, proclamou além das fronteiras de Israel, também
o Deus verdadeiro, os patriarcas assumi­ era celebrado no culto: “Pois tu, Se­
ram que o verdadeiro “el” era aquele com nhor, és o Altíssimo em toda a terra;
quem eles se relacionavam pessoalmente. muito mais elevado que todos os deu­
Ao nome “el” acrescentaram outras ex­ ses” (SI 97.9).
pressões (epítetos), das quais destacamos Algumas outras conclusões pode­
“Shaddai”, que significa “Todo-Podero- mos agora mencionar como decorrên­
so”. Assim, o título El-Shaddai veio a sig­ cia da fé no Deus Onipotente. Primei­
nificar o Deus Todo-Poderoso. O mes­ ro, o fato de ser o Todo-Poderoso dá-lhe
mo aconteceu com o termo Yahweh (Se­ o direito de exercer a sua vontade com
nhor - EU SOU), o qual já era conheci­ total liberdade. Isto significa dizer que
do entre outros povos, mas que, para Is­ Deus em si mesmo decide e faz o que
rael, a partir da revelação no Sinai, pas­ decide. Ele é totalmp.^tp livra Hp
sou a ter um singular significado, englo­ . jy.Õ£s que poderiam impedi-lo de exer­
bando, inclusive, o sentido de El-Shaddai cer o seu querer. Junto a isto, o senso
(ler Êxodo 6.1-8). de onipotência torna Deus independen­
Nestes breves exemplos, vemos o te de qualquer outro poder existente ou
início de uma fé na onipotência divina, que se acredita existir. Ele não luta por

22 - Compromisso
poder; ele é o próprio poder. Mais ain­ Como os discípulos de Cristo deve­
da, seu poder é imensurável e por isso é riam agir diante do Todo-poderoso? Es­
infinito. Nada foge às possibilidades do perava-se que fossem de todo submissos
seu poder, pois para o Deus Todo-Pode- e que lançassem mão do poder disponí­
roso não há “impossíveis”. vel (para todo aquele que crê). Entretan­
Quando Moisés apresentou a Israel to, houve momentos de oscilação neles
o mandamento de não ter outros deuses como acontece também conosco. Num
diante do Senhor (Ex 20.3), uma das vá­ desses momentos houve uma acirrada
rias conclusões é que diante da onipo- disputa entre eles devido ao fascínio do
tência-singuiar do.Deus que agia^con- poder (Ler Mc 10.35-45; Lc 22.24ss).
cxetamcntfi.a favor,da.seu povo. seria Jesus, com a sabedoria profunda, acal­
um ultraje, ao seu poder, qualquer pes­ ma-lhes os ânimos e faz uma observa­
soa (jo seu povo assumir para si outro ção que deve ser normativa também pa­
deus qualquçr. ra nós: “Não será assim entre vós, mas
O que o povo de Deus deveria fa­ todo aquele que quiser entre vós fa-
zer era se submeter à onipotência divi­ zer-se grande seja vosso serviçal” (Mt
na, pois dela dependia a sua existência. 20.26). Ao dizer “não será assim en­
Esse relacionamento existencial é que tre vós”, Jesus ensinou a eles e ensina a
conduziria Israel a ir mais e mais às pro­ nós que o verdadeiro servo não luta por
fundezas do Todo-Podcroso. poder. Ao contrário, submete-se ao To­
do-poderoso, e quanto mais se subme­
te, mais poder recebe. O povo do Todo-
ENTRE VÓS NÃO SERÁ ASSIM poderoso Deus precisa ser diferente, ou
melhor, sempre será diferente.
Não é apenas no Antigo Testamen­
to que se fala do Deus Todo-poderoso.
Há textos no Novo Testamento que tam­ CONCLUSÃO
bém invocam c reconhecem este atribu­
to divino (2Co 6.18; Ap 1.8; e outros) e A singularidade do Todo-Poderoso
o aplicam a Jesus. Por exemplo, os dis­ deveria ser relevante para a igreja. Num
cípulos de Cristo ficaram pasmados, ate­ tempo em que igrejas, denominações e
morizados e maravilhados, quando a na­ outros ramos do cristianismo se dividem
tureza que parecia indomável se acal­ devido à luta por posição e poder, num
mou diante da voz de poder de Jesus tempo onde há uma indústria crescente
(Mc 4.41; Mt 8.27; Lc 8.25). de “mal-estar” para justificar individua-
O Novo Testamento revela Jesus lismos e isolacionismos religiosos, num
como a encarnação do Deus Todo-po­ tempo como este, os cristãos de verdade,
deroso. Após a ressurreição, Jesus dis­ ou seja, aqueles que não se deixaram en­
se aos discípulos que nele estava reu­ venenar pela sedução do poder, devem
nido todo o poder nos céus e na terra orar incessantemente, a fim de que os
(Mt 28.18). Em ICoríntios 1.24, Paulo homens se abram para o poder que sa­
classifica a Cristo como poder e sabe­ tisfaz a alma, aquele poder que emana
doria de Deus. do Deus que é onipotente. Amém.

3Qtrimestre de 2005 - 23
4ggp> MUS é
24de]u"’° K 1 1 presente
ONI sciente
Texto bíblico Texto áureo
Salmo 139 Salmo 139.14

O Deus onipotente é também onipre­ ca e geograficamente, construir o concei­


sente e onisciente. Estudaremos hoje es­ to de um Deus que vai além dos fatores
tes dois atributos. A meta é apresentar a acima assinalados era sobrenatural. Era
origem desta maneira de pensar de acor­ preciso uma fé ousada para dizer: “Mas,
do com o Antigo e o Novo Testamentos, na verdade, habitaria Deus na terra?
enfatizando como a igreja deve se po­ Eis que o céu, e até o céu dos céus, não
sicionar diante da presença e conheci­ te podem conter” (lRs 8.27). Isto apon­
mento divinos. ta para a crença na transcendência ilimi­
Leia o texto básico e responda: o tada de Deus. Não somente a terra é pe­
que significava para Israel falar da oni­ quena para contê-lo; até mesmo o univer­
presença e onisciência dc Deus? Desta­ so criado é insuficiente para isto.
que também no texto os versículos que Uma vez que Deus é maior que a
apontam para estes dois atributos. Feito criação, sua presença não pode estar li­
isto, leia os comentários a seguir. mitada pela obra criada. Afirma o pro­
feta Jeremias que ele é Deus de perto e
de longe. Sua presença enche a terra e
O DEUS DE ISRAEL o céu: “Sou eu apenas Deus de perto,
É ONIPRESENTE diz o Senhor, e não também Deus de
longe? Esconder-se-ia alguém em es­
Informamos, no estudo anterior, que conderijos, de modo que eu não o ve­
Israel construía seus conceitos refletindo ja? diz o Senhor. Porventura não en­
sobre os atos concretos do Senhor. Num cho eu o céu e a terra? diz o Senhor”
tempo em que cada povo tinha um ou (Jr 23.23,24). Amós assevera que nin­
mais deuses, na maioria dos casos deuses guém consegue se esconder da presen­
nacionais, isto é, limitados espacial, íísi- ça do Senhor. Podem tentar no mais

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Secunda - Salmo 139.1-3 Quinta - Salmo 139.11,12
Terça - Salmo 139.4-6 Sexta - Salmo 139.13-16
Quarta - Salmo 139.7-10 Sábado - Salmo 139.17-22
Domingo - Salmo 139.23,24

24 - Compromisso
profundo abismo, no cumc do Carme- que possa limitar o conhecimento de
lo, ou no fundo do mar. Entretanto, do Deus tanto de si mesmo quanto de tu­
Deus de perto e de longe, do Deus que do o que existe. Exemplos disto são da­
enche todas as coisas, do Deus que es­ dos no salmo em estudo. Deus sonda e
tá presente em todos os lugares não há conhece a nossa vida. Ele esquadrinha
como se esconder. É exatamente isto o nosso andar, conhece todos os nos­
que Israel celebrava nos cultos quan­ sos pensamentos antes mesmo de serem
do relevava e colocava fé naquilo que pronunciados (v. 1-5). Na plenitude do
chamamos de onipresença divina. O ser seu saber, afirma o salmista que Deus
humano não pode fugir do Espírito di­ acompanhou e conhece todo o processo
vino. O seol (as profundezas onde ha­ de nossa formação física, psíquica e es­
bitam os mortos), as alturas, as asas da piritual. Extasiado com o conhecimento
alva, as extremidades do mar, as tre­ divino, o salmista exclama: “Eu te lou­
vas, nada pode ocultar o ser humano varei, porque de um modo tão admi­
da presença transcendente de Deus (SI rável e maravilhoso fui formado; ma­
139.7-11). Era uma reflexão tão profun­ ravilhosas são as tuas obras, e a mi­
da e sublime que conduziu o salmista nha alma o sabe muito bem” (v. 14).
exclamar: “Tal conhecimento é mara­ Israel não especulava quanto ao co­
vilhoso demais para mim; elevado é, nhecimento de Deus. Por exemplo, não
não o posso atingir” (v. 6). havia conflito entre onisciência e von­
Onipresença aponta, portanto, para tade de Deus. Podemos perguntar sobre
o fato de Deus ser ilimitado espacial e determinado acontecimento, principal­
fisicamente. É um indicativo de sua so­ mente quando é algo desagradável: se
berania quanto a estas dimensões cita­ Deus sabia que tal coisa iria acontecer,
das. Significa que Deus é “Todo-presen- por que, então, permitiu? Israel acredi­
te”. Ele pode agir de modo diferencia­ tava que onisciência e vontade nunca se
do em lugares díspares ao mesmo tem­ chocariam na perspectiva divina, A von­
po. Nada pode limitá-lo. tade de Deus é soberana e não definiti­
Assim, Israel deveria reverenciar vamente determinativa. Tanto é que de
o Deus Todo-presente não somente no algum modo, que não é dado ao ser hu­
templo em Jerusalém , mas em qual­ mano o direito de saber como acontece,
quer lugar, pois em todo e qualquer lu­ o Deus soberano pode deixar de fazer
gar Deus está presente. Também, onde o que,a sua vontade determinara. Eze-
estivesse ou aonde fosse, Israel deveria quiel informa que.Deus deixaria de des­
temer a presença divina, pois suas atitu­ truir a cidade, se achasse alguém que se
des atrairiam bênção ou castigo de acor­ pusesse “na brecha perante mim por
do com as circunstâncias. esta terra, para que eu não a destru­
ísse” (Ez 22.30,31). Deus em seu ple­
no conhecimento sabia o que iria acon­
O DEUS DE ISRAEL tecer. Mesmo assim, abriu espaço pa­
É ONISCIENTE ra que sua vontade fosse mudada, ca­
so achasse alguém verdadeiramente fiel
Israel também acreditava que Deus que movesse seu coração e vontade. Is­
conhecia todas as coisas. Nada existe to é um mistério profundo demais para

3Qtrimestre de 2005 - 25
a mente humana. Diante de algo desta de Cristo. Ele não podia exercer a oni­
dimensão, façamos nossas as palavras presença, circunstancialmente, cm fun­
do salmista: “Tal conhecimento é ma­ ção das limitações impostas pela forma
ravilhoso demais para mim; elevado humana. Entretanto, não raro encontra­
é, não o posso atingir” (v. 6). mos expressões sobre ele, as quais afir­
Importante aqui é relacionar a onis- mavam seu conhecimento dos pensa­
ciência e vontade de Deus com a obe­ mentos das pessoas (Mt 9.4; 12.25). Isto
diência humana. Diante da perfeição da mostra a sua onisciência. Também diz
vontade Deus, um Deus cujos caminhos que onde estiverem dois ou três reunidos
e pensamentos são mais elevados que em seu nome aí ele estará no meio deles
os caminhos e pensamentos humanos (Mt 18.20). Em Apocalipse achamos em
(Is 5.8,9), o ser humano deve respon­ vários momentos a afirmativa “conheço
der com uma contínua atitude de obedi­ as tuas obras”. Este conhecimento, den­
ência. Tal atitude resolveria toda e qual­ tre outras possíveis interpretações, é o
quer dificuldade quanto ao entendimen­ perfeito entendimento que Deus tem das
to dos atos de Deus c do próprio Deus, motivações das pessoas. Em seu pleno
até mesmo aqueles obscuros à mente hu­ conhecimento, Deus sabe se estamos fa­
mana. Obedecer é assumir uma atitude zendo algo por motivações certas (glori­
de submissão ao Deus que trabalha a fa­ ficar o seu nome) ou por motivações er­
vor dos que nele esperam. radas (satisfação do nosso ego). Assim,
junto a outras passagens neotestamen-
tárias, vemos que os temas “onipresen­
ONIPRESENÇA E ONISCIÊNCIA ça e onisciência” estão presentes tam­
NO NOVO TESTAMENTO bém nesta parte da Bíblia.

O Novo Testamento enfatiza tanto


a onipresença quanto a onisciência de CONCLUSÃO
Deus. Por exemplo, ao ser interroga­
do pela mulher samaritana sobre o lo­ Uma palavra comum hoje em dia é
cal propício de adoração, Jesus respon­ “motivação”. Como cristãos não deverí­
de: “Deus é Espírito, e é necessário que amos deixar de estar preocupados com a
os que o adoram o adorem em espírito motivação cristã. O que nos move para
e em verdade” (Jo 4.24). A resposta de o exercício de todos os ministérios nas
Jesus era harmônica com a crença na oni­ igrejas deveria ser a glória de Deus. Pes­
presença comum no Antigo Testamento. soas enganam pessoas, mas não enganam
Pessoas que acham que devem subir a de­ a Deus. Este, cm seu Todo-conhecimen-
terminados montes para orar por sentirem to e na plenitude do seu saber está aten­
ali a presença de Deus e criam um sis­ to àquilo que homens e mulheres vêem
tema místico de oração nos montes, tais e àquilo que está oculto aos olhos huma­
pessoas pecam por desconhecer ou não nos. Consideremos com todo o cuidado o
reconhecer a onipresença divina. Deus onisciente e onipresente. Lembre-
Hebreus 1.3 fala de Jesus como sen­ mo-nos destes atributos que devem nos
do o sustentador de tudo. Esta afirmativa causar temor e tremor.
é mais um demonstrativo da divindade

26 - Compromisso
DEUSa
Texto bíblico Texto áureo
Levítico 11; Salmos 77 e 78 Levítico 11.44,45

Considero o tema Deus santo como tão de alimentos puros. Os animais lim­
um dos mais fascinantes da Bíblia. Ho­ pos ou puros, segundo a classificação le-
je nos ocuparemos dele, objetivando o vítica, eram separados para o bem, isto
seu entendimento e a sua aplicação pa­ é, serviam como alimento e como ofe­
ra a igreja que vive os desafios dos dias renda a Deus, ao passo que os animais
atuais. O que os hebreus expressavam impuros eram separados negativamente,
ao atribuírem a Deus o conceito de san­ ou seja, eram rejeitados, eram um tipo
tidade? Que efeito causava isto na vida de anátema, ou consagrados para a des­
do povo eleito? O que fazer hoje diante truição. A classificação em puro e im­
do apelo à santidade? Leia os textos bí­ puro não era meramente uma separação
blicos básicos para esta lição, os quais formal. Mais do que isto, tinha uma re­
remeterão a outros textos bíblicos tam­ presentação espiritual e moral, pois os
bém de muita importância na aborda­ animais puros representavam ou simbo­
gem do nosso assunto. lizavam a vida do ofertante israelita. Ob­
serve que os versículos finais de Lcvíti-
co 11 (v. 43-47) relacionam tudo o que
SANTIDADE: CONSIDERAÇÕES foi antes estipulado com a natureza san­
PRELIMINARES ta de Deus. A obediência às regras mo­
rais e cerimoniais de santidade, em seu
Os textos bíblicos fundamentais pa­ sentido amplo, habilitava o povo à co­
ra este estudo apresentam uma visão que munhão com o Deus santo.
aponta para a santidade de Deus como Se Levítico 11 destaca a santidade,
referencial de conduta a ser seguido. Em tendo ressaltado os cuidados físicos, o
síntese, Levítico 11 descreve o cuidado Salino 78 fala do interior, isto é, fala da
que se deve ter com o corpo pela inges­ alma. Destaca a disposição interior para

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - Levítico 11.44,45 Quinta - Salmo 78.1-18
Terça - Salmo 77.1-12 Sexta - Salmo 78.19-37
Quarta - Salmo 77.13-20 Sábado - Salmo 78.38-58
Domingo - Salmo 78.59-72

32 trimestre de 2005 - 27
a obediência ou desobediência, segundo para qualquer pessoa que dele se apro­
exemplos da história de Israel, sumaria­ ximasse. Exemplo disso é que o que é
da no referido salmo. Obediência e de­ considerado santo não somente se dis­
sobediência são disposições interiores tingue do que é imundo, mas se opõe
que, obviamente, tanto podem agradar tenazmente a ele. Acrescentamos tam­
como podem ferir a santidade de Deus. bém que, neste contexto, não estamos
Os versículos 40 e 41 declaram que a nos referindo somente a pessoas; inclu­
desobediência voluntária é um atenta­ ímos também objetos e lugares que tam­
do contra o Deus santo. bém tinham o sinal temporário ou per­
Já no Salmo 77 ressalta a angústia manente de santidade.
espiritual do ser humano. Retrata a vi­ Cremos que já é possível se chegar
vência de uma espécie de crise espiritual pelo menos a uma conclusão: santida­
e existencial de angústia. Entretanto, há de fala de natureza, de essência, de ca­
uma progressão maravilhosa neste Sal­ ráter. O Deus de Israel é santo. Samuel
mo, progressão esta que vai da angús­ registra que: “Não há santo como é o
tia ou desespero à certeza da fé. O tra­ Senhor; porque não há outro fora de
jeto é sublinhado pela visão da santida­ ti” (1 Sm 2.2). Estes e outros textos de­
de de Deus (v. 13) que ensina ao homem monstram que, quando o hebreu fala­
que a vida santificada é fundamental pa­ va do Deus santo, expressava algo mais
ra que se possa empreender uma cami­ do que um atributo. Acreditamos firme­
nhada vitoriosa. mente que a Bíblia fala da essência de
Deus ou, indo mais além, cremos que
fala da natureza divina. Talvez a santi­
DEUS É PERFEITAMENTE dade divina seja um atributo por exce­
SANTO lência, muito embora defendemos que
ela aponta para a própria constituição
Das considerações feitas acima, con­ divina, de onde procedem todos os ou­
cluímos que o conceito de santidade era tros atributos. Santidade, quando apli­
fundamental para o povo de Israel cm to­ cada a Deus, aponta para a perfeição do
dos os níveis de vida, conceito este que seu caráter, para a perfeição e inviola­
passou às páginas do Novo Testamento. bilidade de sua pessoa. Por ser santo
Concluímos também que o padrão estabe­ em sua natureza, Deus é separado na­
lecido para a santidade era o ser Divino. turalmente de tudo aquilo que é impu­
Quando se conceitua santidade divina ro. Tudo o que é profano, impuro ou
como “separação”, precisa-se ter em men­ imundo não combina com a sua nature­
te pelo menos duas perguntas: (1) Separa­ za. Aproximar-se dele com atitudes ou
do de quê? (2) Separado para quê? coisas não santificadas é um atentado
Alguns princípios estão presentes no contra a sua santidade. Para se relacio­
conceito de santidade. Por exemplo, o nar com ele, o ser humano precisa ser
que é santo sempre deve ser tomado co­ santo, e como a sua natureza é macula­
mo inviolável Isto atrai um outro prin­ da pelo pecado, Deus lhe impõe regras
cípio que era o do estabelecimento de e limites para que possa travar um re­
limites tanto para o santificado quanto lacionamento íntimo.

28 - Compromisso
UM CHAMADO sua praticidade foi descrita por Paulo,
À SANTIDADE segundo lemos em Romanos 12.1,2.
Todo aquele que aceita o chamamen­
O salmista apresenta um questiona­ to vital à santidade deve apresentar-se
mento: “Quem subirá ao monte do Se­ a Deus, não se conformar a este mun­
nhor, ou quem estará no seu lugar san­ do e permitir a ação renovadora de sua
to?” (SI 24.3). Mantendo o mesmo sen­ mente feita pelo Espírito Santo. Isto
tido, o Salmo 15.1 apresenta a mesma exige uma leitura obediente da Pala­
preocupação. Em Hebreus temos uma vra de Deus, assumir os compromissos
afirmativa contundente: “Segui a paz com ele e ser abençoado com o cum­
com todos e a santificação, sem a qual primento das promessas do Deus santo
ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). e fiel àquilo que promete. Realmente
Levítico repetidam ente apela a uma somos chamados à santidade, pois só
vida padronizada na santidade divina pode estar diante de Deus, que é san­
ao dizer “Sede santos como o Senhor to, aquele que foi santificado segundo
vosso Deus é santo” (Lv 19.2). Enten­ os olhos do Deus santo.
demos haver na Bíblia um chamado à
santidade que vai além de uma exigên­
cia simplesmente formal. Em Hebreus CONCLUSÃO
12.14 vemos que o chamado à santida­
de extrapola ao formal e vai ao vital. Sem dúvida vivemos num tempo
Só pode ver Deus quem permite que de confusão. Um tempo em que pesso­
ele exerça em sua vida uma ação san- as inventam padrões de santidade sem
tificadora. que Deus esteja presente, criando um
Jesus, em sua passagem por este cristianismo maculado pelas invencio-
mundo, provou-nos ser possível uma nices humanas.
vida centrada na santidade divina. Ele, Caso você deseje ter uma vida san­
Jesus, foi tentado em tudo e não come­ ta, seja obediente à pura Palavra de
teu uma falha sequer (Hb 4.15). Assim, Deus e ore apresentando-se a ele. As
ele pode socorrer àqueles que falham em coisas começarão a mudar se houver
sua jornada santa (Hb 2.17,18). sinceridade em seu coração, pois é im­
Leia os salmos acima citados e ha­ possível apresentar-se a Deus com sin­
verá de concluir que, em suma, eles fa­ ceridade e ele não atender. Quando vo­
lam de santidade em seu sentido com­ cê começar a ter desprazer com o pe­
pleto, ou seja, partindo do interior pa­ cado, sentir-se insatisfeito com o ní­
ra o exterior. Isto significa que tanto vel de vida espiritual que tem levado,
no Antigo quanto no Novo Testamento quando começar a sentir mais sede de
há, pelo menos, duas atitudes que são Deus e maior vontade de servi-lo e cul­
vitais para uma vida santa: obediên­ tuá-lo, saiba que Deus está santifican­
cia e auto-apresentação. O processo de do a sua vida. O Deus de Israel, o Deus
santificação não é uma simples confor­ que veio a nós, em Jesus, é santo e de­
mação a regras estabelecidas previa­ seja ardentemente santificar nossa vi­
mente. A essência desta doutrina e da da. Amém.

3Qtrimestre de 2005 - 29
7 de agosto

Texto bíblico Texto áureo


João 15; IJoão 4 João 15.12

No estudo anterior, estudamos so­ mos nos ater a alguns momentos da his­
bre a santidade de Deus. Devido à per­ tória de vida do profeta Oséias, conhe­
feição da sua natureza santa, há um dis­ cido como o profeta do amor incondi­
tanciamento de tudo cuja natureza se­ cional.
ja impura. Assim, concluímos que há Resumindo, relembremos que ele
um distanciamento entre a natureza de se casou com uma mulher com incli­
Deus e a natureza do ser humano. A nações para a prostituição, a qual, em
pergunta básica é: o que faz a inter­ determinado momento, deixou a famí­
mediação para a aproximação do Deus lia e foi viver com os amantes, train­
santo com homens e mulheres pecado­ do o voto de fidelidade matrimonial.
res, impuros e, com isto, afastados da Oséias poderia legalmente divorciar-
presença de Deus? A resposta é sim­ se de Gômer, entretanto procurou o ca­
ples, profunda e eternam ente m ara­ minho da reconciliação. Ele lutou pela
vilhosa. O que cobre o abismo entre restauração de sua família, tendo co­
o Deus santo e o homem pecador é o mo base um amor incondicional que,
amor do Senhor. Deus é amor, perfei­ por fim, prevaleceu (Oséias 1-3). Seu
tamente amor. Este é o assunto do pre­ amor fez com que uma esposa avilta­
sente estudo. da pelos seus próprios pecados fosse
restaurada.
A história deste profeta nos dá al­
DEUS E AMOR guns referenciais sobre o amor divi­
no nas páginas do Antigo Testamento.
Os textos bíblicos indicados nos re­ Destaco dois aspectos importantes. O
metem primeiramente à necessidade de primeiro deles é o amor como autodo-
caracterizar Deus como sendo amor. Pa­ ação. Vemos de modo mais específico
ra ficar mais fácil o entendimento, va­ o amor de Deus na relação com o povo

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - João 15.9-11 Quinta -1 João 4.7,8
Terça - João 15.12-16 Sexta -IJoão 4.9-11
Q uarta-João 15.17-19 Sábado-IJoão 4.12-16
Domingo -IJoão 4.17-21

30 - Compromisso
eleito. Basta lermos um pouco da histó­ CONHECENDO O
ria de Israel e depararemos com Deus se DEUS QUE É AMOR
autodoando àquele povo que elege co­
mo seu. Oséias, como vimos, encarna o espí­
Quando João fala do amor divi­ rito do Deus que é amor. O profeta so­
no, dá destaque a este aspecto de doa­ fre com o seu drama familiar, entretan­
ção de si. Leia agora João 15.13; Uoão to não abre mão do seu amor. Impulsio­
4.9,13,14. Certamente, João tinha em nado pela nobreza desse sentimento, ele
mente momentos específicos da histó­ vence a vergonha, vai além do que é le­
ria do seu povo na relação com Deus. gal (o direito ao divórcio), pois o amor
João sabia que Deus sempre desejou se lhe dá certeza da vitória final.
doar a Israel, tendo em mente a felici­ O amor de Deus é conhecido por
dade nacional e o cumprimento da mis­ meio dos seus atos demonstráveis. Sem
são messiânica. entrar em pormenores, uma palavmJie-
Um segundo característico é o amor braica quç recebe várias traduções (he-
como iniciativa. João fala que “nisto sedjLd u m a das mais. fortes expressões do
está o amor, não em que nós tenha­ amoiidivino. E o amor fiel, persistente,
mos amado a Deus, mas em que ele benigno, gracioso. Consideremos que o
nos amou a nós, e enviou seu Filho amor divino é um só, mas tem várias fa­
para propiciação pelos nossos peca­ cetas. Esta que estamos tratando apon­
dos.” (U o 4.10). Isto mostra a inicia­ ta para o amor persistente de Deus para
tiva divina em nos amar independente­ com Israel, formalizado na aliança fei­
mente de o amarmos primeiro. Quem ta no Sinai no tempo de Moisés, pouco
tomou a iniciativa de chamar Abrão depois da libertação da opressão egíp­
e fazer-lhe uma promessa? Quem to­ cia. O amor fiel e persistente de Oséias
mou a iniciativa de renovar a promes­ mantendo-se firme em seus propósitos,
sa a Isaque e Jacó? Quem tomou a ini­ a despeito da traição de sua esposa, re­
ciativa de retirar os filhos de Israel da presenta o amor fiel e permanente do Se­
opressão egípcia? Quem sempre tomou nhor por Israel, apesar de todos os er­
a iniciativa de perdoar os muitos peca­ ros cometidos por este. Este amor é al­
dos de Israel ao longo de sua história? go que surpreende, que atrai e que res­
Quem tomou a iniciativa de libertar os taura, conforme afirma o profeta Jere­
judeus do cativeiro na Babilônia? En­ mias: “o Senhor me apareceu, dizen­
fim, “iniciativa” é uma das caracterís­ do: Porquanto com amor eterno te
ticas áureas do amor divino. No Novo amei, por isso com benignidade te
Testamento vemos a mesma coisa. Em atraí” (31.3).
João 3.16 lemos sobre a doação divina Duas outras palavras são aqui desta­
do seu unigénito Filho como iniciativa cáveis. Primeiro, o conceito de que Deus
para a nossa salvação. Assim, João re­ é amor é obtido da história da relação
leva, de modo categórico, o amor como de Deus com Israel. Em segundo lugar,
iniciativa ao declarar que “nós o ama­ amor não é uma das características de
mos porque ele nos amou primeiro” Deus que se descreve mas, ao contrário,
(1 Jo 4.19). é sua atividade vista em manifestações

3Qtrimestre de 2005 - 31
concretas e inequívocas de sua boa, per­ porque, qual ele é, somos nós tam­
feita e agradável vontade. bém neste mundo” (lJo 4.17).
O amor de Deus pode ser conheci­ Como conseqüência do amor a Deus
do. Ele é disponível para todos. A exi­ vem o amor na relação interpessoal. É im­
gência reside na obediência aos seus possível amarmos a Deus e não amarmos
mandamentos. Israel deveria voluntá­ ao próximo, visto que “aquele que não
ria e prazerosamente obedecer ao Se­ ama não conhece a Deus; porque Deus
nhor. Assim, o amor divino seria experi­ é amor” (1Jo 4.8). João continua a afirmar
mentalmente conhecido: “Ouve, Israel, que a prática do amor é demonstrativo cla­
o SENHOR nosso Deus é o único SE­ ro de que Deus está em nós (1Jo 4.12. Ver
NHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu também o versículo 16). Da mesma for­
Deus de todo o teu coração, e de to­ ma como Jesus viveu neste mundo sendo
da a tua alma, e de todas as tuas for­ obediente ao amor do Pai, guardando os
ças” (Dt 6.4,5). seus mandamentos e sendo vitorioso em
todas as coisas, o mesmo se dará com os
discípulos, caso sigam as pisadas do Mes­
COMUNHÃO tre do amor (Jo 15.9-15).
POR MEIO DO AMOR

Todos os empreendimentos da vida, CONCLUSÃO


para serem implementados, precisam
de um grande impulso motivacional. Em muitos momentos, nos nossos
Não é diferente na vida cristã. Vimos, cultos pessoais, familiares ou como igre­
nos tópicos anteriores, fatores motiva- jas, cantamos que o adorno desta vida
cionais na ação histórica de Deus resu­ é o amor. Temos ressaltado, em outras
midos nas atitudes de autodoação e ini­ lições, características do nosso tempo.
ciativa. João afirma que “qualquer que Ao escrever esta lição, tenho em men­
ama é nascido de Deus e conhece a te várias igrejas fazendo acusações aos
Deus” (U o 4.7). Isto significa que, se seus líderes, líderes que buscam glórias
de fato somos novas criaturas, o amor pessoais ao contrário de buscarem a gló­
divino agora faz parte da nossa natu­ ria de Deus, disputas entre membros de
reza tal qual faz parte da natureza do igrejas e tantas outras atitudes que são
Deus que é amor. Isto demonstra o pri­ atentados contra o Deus, que é amor, e o
meiro nível da nossa comunhão, qual amor divino demonstrado. Lembremos,
seja a nossa natureza modificada passa enquanto temos tempo, que Deus é amor
a se identificar com a natureza daquele e que seu amor é disponível tendo em si
que nos amou primeiro. Tal identifica­ o único poder restaurador e curador de
ção é algo crescente e faz com que re­ qualquer ferida, sem deixar seqüelas. Ao
flitamos as suas atitudes neste mundo. término deste estudo, digamos: “Ama­
Somos representantes vivos do amor dos, amemo-nos uns aos outros; por­
de Deus pelas pessoas: “Nisto é per­ que o amor é de Deus”, e deixe que ele
feito o amor para conosco, para que complete em você e em sua igreja a obra
no dia do juízo tenhamos confiança; que ele mesmo começou.

32 - Compromisso
14 de agosto D E U S â S & I V Ä C lC j /'

Texto bíblico Texto áureo


Romanos 8 e 9; Efésios 2 Efésios 2.8,9

O Deus, que é amor, também é re­ ciativa de Deus. Em todas as suas ma­
conhecido e proclamado como o Deus nifestações e sentidos, Deus ininterrup­
Salvador. Quando Adão e Eva pecaram tamente esteve na dianteira do processo.
e perderam a qualidade de vida perfeita Por exemplo, o Salmo 3.8 declara que a
e livre, tornando-se escravos do peca­ salvação vem do Senhor. Vários textos
do e herdeiros da morte, Deus mostrou afirmam a mesma coisa. Assim, Deus é
amor profundo por aqueles filhos deso­ tido como o agente desencadeador de
bedientes (eles e nós), c pelo seu gran­ todo o processo salvífico.
de amor construiu um plano de resgate. Antes de prosseguir, responda: O
Note que o projeto de salvação é resul­ que é salvação? Muitos falam em salva­
tante do amor de Deus. Paulo afirma em ção como sendo libertação, justificação,
Efésios 2.4,5: “Mas Deus, que é riquís­ santificação, glorificação etc. Entretan­
simo em misericórdia, pelo seu muito to, se pensarmos bem, todas estas coi­
amor com que nos amou, estando nós sas são conseqüências. Em última aná­
ainda mortos em nossas ofensas, nos lise, salvaçãa^ign iflça^iatervÊIlçãü’, ou
vivificou juntamente com Cristo (pe­ “socorro”. Pense neste exemplo: quan­
la graça sois salvos)”. Aleluia! O Deus, do os filhos de Israel estavam encurra­
que é amor, é o nosso Deus Salvador. lados junto ao Mar Vermelho, o fato do
Senhor fazer com que as águas do mar
formassem duas paredes, e os hebreus
SALVAÇÃO - INICIATIVA passassem entre elas, foi uma interven­
DE DEUS ção que causou livramento. Em primeiro
plano vê-se o socorro ou intervenção, e
A história bíblica da salvação ates­ em seguida o livramento. Portanto, en­
ta que ela (a salvação) sempre foi ini­ tendemos que salvação compreende to-

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - Romanos 8.1-17 Quinta - Romanos 9.1-11
Terça - Romanos 8.18-30 Sexta - Romanos 9.6-33
Quarta - Romanos 8.31-39 Sábado - Efésios 2.1-10
Domingo - Efésios 2.11-22

3° trimestre de 2005 - 33
das as intervenções divinas em socor­ o plano de salvação. Hebreus, como to­
ro e para o bem-estar do seu povo. Na da a Bíblia, fala da fragilidade dos agen­
terceira parte desta lição, destacarei al­ tes usados por Deus nos tempos passa­
gumas dentre as muitas conseqüências dos e da necessidade de um agente su­
da salvação. premo, para que a salvação fosse mani­
Esclarecemos acima que a salvação festada a todas as pessoas, necessidade
é sempre iniciativa de Deus. O primei­ esta concretizada em Jesus.
ro contato dos filhos de Israel foi com Deus fez uma derradeira e suficien­
o Deus Salvador. O Senhor saiu em so­ te intervenção na história, num tempo
corro do seu povo e com mão forte e por ele mesmo planejado, o qual Pau­
braço estendido agiu poderosamente lo chama de plenitude dos tempos (G1
na libertação daqueles hebreus escra­ 4.4). Neste tempo o Senhor se esva­
vizados no Egito. Durante toda a his­ zia de sua glória espiritual e, na forma
tória de Israel, a salvação esteve sem­ de homem-servo, entra no tempo his­
pre em relevo. Quando o povo deso­ tórico, ou seja, intervém na história da
bedecia, Deus, mediante o seu “muito humanidade para conceder o socorro
amor”, levantava juizes, livrava o povo que dc nenhuma outra forma podería­
de nações opressoras, alimentava em mos alcançar.
tempos de necessidade, enfim, a ima­ Ele é tentado em tudo, mas não pe­
gem do Deus salvador era muito forte ca, sofre, identifica-se com os humanos,
em Israel. Até mesmo quando não pare­ toma sobre si todos os nossos pecados
cia haver mais esperança, Deus prome­ e, em nosso lugar, morre numa cruz,
tia que haveria um remanescente fiel, vai ao lugar de corrupção (At 2.27-31),
por meio do qual o projeto da salvação é ressurreto pelo poder da ressurreição
seria levado adiante: “Também Isaías (Fp 3.10), e é restaurado à posição ini­
clama acerca de Israel: Ainda que o cial (Fp 2.5-11). O mistério da salva­
número dos filhos de Israel seja co­ ção (Rm 8.18-30) passa a ser entendi­
mo a areia do mar, o remanescente é do como uma intervenção suprema, a
que será salvo. Porque ele completa­ única capaz de dar a concreta salvação
rá a obra e abrevia-la-á em justiça; a todos os que têm esperança. Segun­
porque o Senhor fará breve a obra do Efésios 2.1-10, esta salvação é fru­
sobre a terra” (Rm 9.27,28). to do incomum amor divino, amor este
reconhecido como graça salvadora ple­
na (Rm 9.6-33).
JE S U S -A SUPREMA
MANIFESTAÇÃO DA SALVAÇÃO
HERDEIROS DA SALVAÇÃO
Recordemos duas lições já mencio­
nadas. A primeira enfatiza a salvação co­ Romanos 8.24 afirma que é pela es­
mo iniciativa de Deus e a segunda real­ perança que somos salvos. Romanos
ça a salvação como intervenção e socor­ 9.25-33 fala da universalidade da sal­
ro. Segundo o autor de Hebreus, Deus vação quando Paulo evoca textos dos
usou vários agentes para levar adiante profetas Oséias e Isaías. Pessoas per­

34 - Compromisso
guntam como os que viveram no tem­ mercadores da fé. Ao contrário, a nos­
po do Antigo Testamento foram salvos. sa vitória não é algo superficial. Ela foi
Eles foram salvos pela esperança e por alcançada e doada a nós por um preço
depositarem fé nas intervenções salva­ que ninguém teria condições de pagar.
doras do Senhor na história de Israel, e Somos supervitoriosos devido à vitó­
isto era extensivo tanto para Israel como ria de Cristo contra o império das tre­
para o estrangeiro que passasse a crer vas e a morte.
no Deus de Israel. No tempo do Novo De Romanos 9 e Efésios 2 destaca­
Testamento, Jesus, expressando o gran­ mos algumas outras heranças. Somos
de amor do Pai, estendeu a salvação pa­ filhos da aliança eterna. Recordemos
ra todos os povos. Efésios 2 declara que que, no Antigo Testamento, salvação,
Jesus foi o fator que ocasionou a que­ promessa, aliança e esperança andavam
bra da parede de separação entre judeus juntas. Isto acontece também conosco.
e gentios. Em Cristo não há mais sepa­ Somos herdeiros de uma promessa in­
ração. Nele há um só povo formado por falível, formalizada por uma aliança su­
todo aquele que nele crê e que se torna ficiente que nos dá a certeza da espe­
herdeiro da salvação. Neste momento, rança da vida eterna (Rm 9.6-33). Te­
em que escrevo, louvo a Deus por fazer mos uma relação interpessoal cristã ba­
parte deste povo. Aleluia! Sou herdei­ seada no amor de Deus. Somos conci­
ro da salvação. dadãos dos santos e família de Deus (Ef
Preciso falar, como prometi aci­ 2.19). Convido o leitor a descobrir e
ma, sobre algumas conseqüências da elencar outras bênçãos agregadas à vi­
intervenção salvadora de Deus. De da dos herdeiros da salvação. Tudo is­
acordo com Romanos 8.17, somos fi­ so se resume na nova vida que se inicia
lhos e herdeiros de Deus e co-herdei- aqui e há de se consumar no céu onde
ros com Cristo. Devido a esta sublime o nosso Deus Salvador nos aguarda pa­
intervenção divina, nenhuma condena­ ra estarmos juntos por toda a eternida­
ção há pesando sobre nós, pois Jesus as de. Mais uma vez e com santa emoção
assumiu por nós (Rm 8.1). Temos um exclamo: Louvado seja o nosso Deus-
novo padrão de vida que aponta para a Salvador.
restauração final daquela qualidade de
vida perdida com Adão e Eva. A par­
tir da experiência salvadora, passamos CONCLUSÃO
a andar em Espírito, vencendo a incli­
nação para a carne (Rm 8.1-13). Mais Como escrevi este estudo louvando
ainda, o Espírito testifica, e não nos dei­ ao Deus que, pelo seu muito amor, tor­
xa esquecer que somos filhos de Deus nou-se o Salvador, desejamos concluí-
(Rm 8.16), e que algo glorioso nos es­ lo com um hino: “Salvação Jesus me dá,
tá reservado pela graça salvadora do com amor me guiará, para o céu me le­
nosso amorável Deus (Rm 8.18). Ro­ vará, tu não queres a Cristo seguir? Cris­
manos 8.37 afirma que “somos mais to Jesus, meu Salvador, vela por mim,
do que vencedores” . Ele não fala de vela por ti, Cristo Jesus, meu Salvador,
um triunfalismo barato pregado pelos tudo que é bom fará por ti”. Amém.

32 trimestre de 2005 - 35
DEUS é
21 de agosto
p s r d a a d a p

Texto bíblico Texto áureo


Romanos 3 a 7 Romanos 5.8

No projeto de salvação há muitos 3.9-20 há uma seqüência de “todos” e


elementos constitutivos e dentre eles “não há um sequer”, o que dá a dimen­
destacamos o perdão. O Deus salvador são totalizante do pecado. Isto pode ser
é o Deus perdoador. Perdão significa re- resumido nas palavras gravadas no ver­
missão de pena, indulto e, num sentido sículo 10 do texto citado: “não há um
mais amplo, significa libertação da cul­ justo, nem um sequer”. O Antigo Tes­
pa. Aprendemos que perdoar é esquecer. tamento também fala deste aspecto glo­
Jeremias 31.34 afirma que Deus perdo­ bal do pecado. Em Isaías lemos o se­
aria toda a maldade do povo de Israel e guinte: “Todos nós andávamos desgar­
dos seus pecados não mais se lembra­ rados como ovelhas; cada um se des­
ria. Isto poderia trazer dificuldade pa­ viava pelo seu caminho” (Is 53.6). “To­
ra nós, uma vez que é muito difícil es­ dos” e “cada um” apontam para pecado
quecer o sofrimento. Como conciliar es­ como comum a todos os seres humanos.
tas idéias? Como conceituar Deus como Uma vez que o pecado faz separação en­
perdoador de modo a imitarmos esta sua tre Deus e o homem (Is 59.2), cria um
característica? mal-estar na alma humana e desperta o
desprazer divino, daí, o perdão é visto
como fundamental, fascinante, necessá­
O DEUS PERDOADOR rio e, nalguns casos, até mesmo dolori­
do, Isto pelo fato do perdão ser entendi­
Para entendermos Deus como perdo­ do como reatamento de relações no qual
ador, faz-se necessário relembrarmos a acontece um processo de purificação es­
universalidade do pecado. Em Romanos piritual e mental.

DIA A DIA COMA BÍBLIA


Segunda - Romanos 3.9-20 Quinta - Romanos 5.1-11
Terça - Romanos 3.21 -31 Sexta - Romanos 5.12-21
Quarta - Romanos 4.1-25 Sábado - Romanos 6.1-23
Domingo - Romanos 7.1-25

36 - Compromisso
No Antigo Testamento desenvolveu- que todos pecaram e destituídos estão
se o correto pensar de que só Deus tem o da glória de Deus” (Rm 3.23). Este ver­
poder de perdoar pecado. Isto não foi um sículo precede a declaração do apóstolo
aprendizado fácil, uma vez que era ten­ que coloca o perdão junto ao ato reden­
dência do ser humano (e ainda o é) trans­ tor de Cristo que, em sua paixão e res­
ferir para o ritual (ofertas e sacrifícios) o surreição, gratuitamente nos justificou
poder de perdoar. Em muitos momentos, e nos remiu dos nossos pecados: “Sen­
Israel olhava o sistema sacrifical como do justificados gratuitamente pela sua
sendo algo penitencial. Mas a diferença graça, pela redenção que há em Cris­
entre o alívio circunstancial e a necessi­ to Jesus” (Rm 3.24). João, tendo em
dade de paz permanente fez a diferença. mente o modelo de sacrifícios no Anti­
No Salmo 51 encontramos a dimensão go Testamento e o sacrifício de Jesus, é
correta do perdão. Nos versículos 1-4 o eloqüente ao afirmar que é o sangue de
salmista entende que todo pecado fere Jesus que nos purifica de todo o pecado
a santidade divina. Nos versículos 5-15 (1 Jo 1.7). O escritor aos Hebreus (9.11 -
há o reconhecimento das relações corta­ 15) dá-nos relevante orientação sobre a
das entre o ser humano e Deus e há uma supremacia do sacrifício de Cristo no
série de rogos por uma ação restaurado­ perdão dos pecados da humanidade, em
ra da parte de Deus. A seguir, nos versí­ detrimento de um sistema provisório de
culos 16 e 17 Davi faz a distinção entre sacrifícios que foi estabelecido no tem­
ato meramente penitencial, por meio do po do Antigo Testamento.
oferecimento de sacrifícios, e o reconhe­ Ora, se o sistema de sacrifícios do
cimento de que os sacrifícios são meios tempo do Antigo Testamento com toda
externos de testemunhar algo maior, que a característica de transitoriedade pro­
é a restauração espiritual entre ser huma­ duziu o correto pensar de Deus como
no e Deus, quando aquele entende que perdoador, quanto mais o sangue ima­
somente este último tem o poder de per­ culado de Jesus. O sacrifício de Cris­
doar pecado. to está atrelado ao amorável ato salva­
Desta forma, creio que dá para en­ dor de Deus que, sabendo que o salá­
tendermos que o ser humano feliz é rio do pecado é a morte e que estaría­
aquele que consegue chegar ao enten­ mos eternamente desamparados, pro­
dimento de que somente Deus é perdo- moveu-nos a singular oportunidade
ador: “Bem-aventurado aquele cuja de reflexão e entrega de vida ao único
transgressão é perdoada, e cujo pe­ Deus perdoador.
cado é coberto”. O Deus das páginas
do Antigo Testamento é o Deus per-
doador. EFEITOS DO PERDÃO DIVINO

Não podemos trabalhar o perdão di­


O PERDÃO DE DEUS vino no terreno das hipóteses ou num
MANIFESTO EM CRISTO campo meramente teórico. Perdão é
muito mais do que teoria; é experiên­
O universalismo do pecado é atesta­ cia pessoal, é o encontro da alma do ser
do também pelo apóstolo Paulo: “Por­ humano com o ser divino ávido por de­

3S trimestre de 2005 - 37
monstrar seus sentimentos. Sendo as­ (v. 11). Mesmo tentado a cometer pe­
sim, não temos um modelo tipo bula cados voluntários, mesmo sabendo que
farmacêutica para padronizar as ações continua livre para escolher, o homem
do perdão de Deus. Mesmo assim, pre­ prefere Deus às velhas obras da carne
cisamos de alguns referenciais que au­ e se sente cada vez mais livre em Cris­
xiliem no entendimento do perdão ati­ to para optar por ele (v. 12-23). Ro­
vo e, para isto, devemos trabalhar no manos 7 apresenta um conflito, com o
campo do sentir, ou seja, há sentimen­ qual defrontamos também, que é entre
tos diversos que nos tomam quando o certo e o errado, o ser e o não ser, o
perdoados por Deus. Por exemplo, so­ fazer e o não fazer. Paulo o denomina
mos envolvidos por uma paz singular. conflito do espírito com a carne. Nu­
Paulo diz que, “sendo justificados pe­ ma hora de crise comum a todos nós,
la fé, temos paz com Deus, por nosso o perdão faz a diferença, pois junto aos
Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). Paz outros referenciais, acima citados, ele
não significa ausência de conflitos ou funciona como um agente de inibição
tribulações, mas é a tranqüilidade não para a volta ao pecado. Por isso, Pau­
explicada pelo conhecimento humano lo começa Romanos 8 dizendo que não
quando estamos em meio às maiores há nenhuma condenação para os que
turbulências. Paulo chama isto da paz estão em Cristo, para aqueles que pe­
que excede a todo o entendimento hu­ la força do perdão não cederam à ten­
mano (Fp 4.7). Paz é um estado de har­ tação do pecado.
monia com Deus produzido pela certe­
za de_que os nossos pecados foram per­
doados e que temos a garantia da vida CONCLUSÃO
eterna. É a tranqüilidade de saber que
os nossos pecados não fazem mais se­ Na introdução a este estudo, fizemos
paração entre Deus e nós. Lembre que uma pergunta sobre o conceito de peca­
Jesus tomou sobre si as nossas iniqtii- do em relação ao termo “esquecimento”
dades; o castigo que nos traz a paz es­ diante do texto de Jeremias 31.34. Vou
tava sobre ele (Is 53.5). ilustrar minha explicação. Quando me­
Outro efeito que a Bíblia nos apre­ nino, eu corria muito pelas ruas do meu
senta é a libertação. E o que nos diz bairro e não raras vezes caía e chegava
Paulo em Romanos 6. Todo aquele que em casa com cortes profundos no corpo.
vive em pecado é escravo do pecado, Hoje olho as cicatrizes, lembro das que­
mas quem é perdoado por Deus não es­ das, mas não sinto dor. Note isso: lem­
tá mais sob o jugo do pecado. Nele há bro das quedas, mas não sinto dor. Por
um senso de liberdade humanamente quê? Porque está cicatrizado. O agente
inexplicável. Paulo chama isto de “no­ causador da dor já está curado, isto é,
vidade de vida” (Rm 6.4). O homem não tem mais efeito sobre mim. Quan­
só se dá conta da liberdade verdadeira do aquilo que causa mal-estar no rela­
quando se encontra com Deus. Ele ava­ cionamento entre o ser humano e Deus
lia todos os modelos sutis de escravi­ está curado, não há mais dor, e isto não
dão em que estava envolvido e se sente vem de nós; é proveniente de Deus, o
morto para o pecado e vivo para Deus Deus perdoador.

38 - Compromisso
28 de agosto
DEUS é
galardoador
Texto bíblico Texto áureo
1Coríntios 3; Hebreus 11; Apocalipse 7.21,22 Apocalipse 21.7

Gramaticalmente, galardão é recom­ to de doutrinas que evoluíram, foram fil­


pensa de serviços valiosos, prêmio, hon­ tradas em Jesus e, com isto, se estabele­
ra e glória. Na Bíblia, o conceito de ga­ ceram e se solidificaram. Atente para o
lardão não foge desta definição. O que resumo a seguir. Nos tempos do “antiga­
se tem desde o Antigo Testamento é o mente” (Hb 1.1) havia, pelo menos, dois
desenvolvimento do conceito de galar­ conceitos de galardão. Um mais primi­
dão, como as demais doutrinas. Nosso tivo, definia galardão como recompen­
foco será na pessoa do Deus galardoa­ sa (boa ou má) que se cumpre no tem­
dor. Desta forma, ao fazer menção de po de vida terrestre. Naquela época, o
como as pessoas eram galardoadas, é conceito de vida após a morte, por ser
necessário que se tenha em mente, pa­ abstrato, não era de fácil entendimento
ra fins deste estudo, a visão bíblica do cm função da visão concreta da vida. O
Deus que recompensa e não da recom­ conceito que prevalecia é que tudo o que
pensa recebida. A pessoa divina é o fo­ o homem semear vai ceifar nesta vida.
co do estudo. Uma existência após a morte era algo
muito complexo para eles. DaLo con­
ceito de longevidade. O ser humano fe­
A FE NO DEUS liz é aquele que morre “em boa velhice,
GALARDOADOR (Hb 11.1-6) velho e farto de dias” (Gn 25.7). Sobre
Davi o cronista afirma: “e morreu nu­
Hebreus 11.6 diz que Deus é galar­ ma boa velhice, cheio de dias, rique­
doador. Hebreus tem uma leitura do An­ zas e glória” (lC r 29.28). Esta foi a sua
tigo Testamento a partir do conhecimen­ recompensa.

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - 1Coríntios 3.1-8 Quinta - Apocalipse 7.13-17
Terça - Hebreus 11.1-6 Sexta - Apocalipse 21.1-4
Quarta - Apocalipse 7.9-12 Sábado - Apocalipse 21.5-8
Domingo - Apocalipse 22.12

3Qtrimestre de 2005 - 39
Jó tem um dilema que quase o le­ espirituais pelo tempo de vida cristã, pro­
vou ao limiar da incredulidade: por que vavam sua camalidade por meio das con­
um homem que faz o bem é recompen­ tendas, invejas e dissensões (v. 2), bem co­
sado com um mal súbito? Seu concei­ mo pelo fato de se gloriarem em líderes
to de recompensa era ligado à vida pre­ humanos (v. 9,10). Paulo aproveita esta si­
sente. A pessoa boa recebe o bem, e a tuação para fazer uma exortação. Afirma
pessoa má recebe o mal. Quando Deus que o.galardão está atrelado ao trabalho e
resolveu este dilema, Jó foi de novo re­ não ao resultado. A recompensa auejvem
compensado, e “então morreu Jó ve­ de Deus é concedida em função da moti­
lho e farto de dias” (42.17). vação c não dos resultados. O que planta
Duas palavras importantes. Primei­ e o que rega são um, e cada um receberá
ro o conceito de recompensa no “aqui 0 seu galardão devido ao trabalho desen­
e agora” evoluiu para o conceito de re­ volvido. O Senhor não galardoará os seus
compensa futura. Nisto os profetas fo­ filhos pela quantidade de trabalho apre­
ram importantes ao interpretar situações sentado, mas pela motivação com que de­
que não tinham respostas terreais. Em senvolveram a missão. Isto c afirmado cm
segundo lugar, Deus sempre foi o agente 1Coríntios 3.10-15. Há pessoas que fazem
galardoador. Independentemente da vi­ a obra do Senhor relaxadamente. Outros a
são presente ou futura da vida, Deus gra­ desenvolvem com um amor inspirador. Os
ciosamente honra os que têm fé. primeiros edificam uma construção com
Todos os exemplos dados em He­ madeira, feno e palha, ao passo que os ou­
breus 11 assinalam a graça galardoado- tros edificam com ouro, prata e pedras pre­
ra do Senhor. Abel, por ser justo, alcan­ ciosas. Todos .passaram pelo teste do fo­
çou testemunho divino, o mesmo acon­ go. Quem teve a motivação correta verá a
tecendo com Enoque. Moisés resolveu sua obra intacta e receberá galardão. En­
deixar os tesouros do Egito, pois tinha tretanto, quem teve motivação errada ve­
em vista a recompensa (v. 26). Nestes e rá sua obra destruída e só por um ato da
nos demais casos Deus é graciosamente graça de Deus é que seiá salvo. Em tudo
reconhecido como galardoador. isto vemos a perfeita justiça de Deus em
galardoar. A junção de galardão e justiça é
declarada em Apocalipse: “E, eis que ce­
A RECOMPENSA QUE do venho, e o meu galardão está comi­
VEM DE DEUS (ICo 3.1-8) go, para dar a cada um segundo a sua
obra” (22.12). Portanto, o galardão em
O versículo 8 de ICoríntios 3 diz: seu aspecto positivo é uma recompensa
“Ora, o que planta e o que rega são justa que é do Deus justo (“meu galar­
um, mas cada um receberá o seu ga­ dão”), e que será distribuída por ele.
lardão segundo o seu trabalho”. Preci­
samos ver o que culminou com esta afir­
mativa do apóstolo Paulo. Note que Paulo O GALARDÃO
está falando sobre a imaturidade dos co- EA CULPA (Ap 21.1-8)
ríntios cristãos. Eles são chamados de car­
nais, ou seja, pessoas movidas pelos im­ Dissemos, no parágrafo acima, que
pulsos humanos. Eles, que deveriam ser há um aspecto negativo do galardão.

40 - Compromisso
Ora, se entendemos galardão como re­ rença entre os que têm mais ou menos
compensa e aceitamos a idéia que sa­ galardão. O texto fala de vestes brancas
lário também é recompensa, não nos é e palmas nas mãos. Diz também de um
difícil entender que o galardão do pe­ retumbante louvor que leva todos os se­
cado é a morte. Esta é, segundo enten­ res celestiais à adoração (v. 9-12). Veste
demos, a dimensão negativa do galar­ branca é símbolo de purificação, ou me­
dão ou, de outra forma, este é o galar­ lhor, de ausência de contaminação. Os
dão negativo. glorificados optaram por levar uma vi­
Apocalipse 21.1-8 destaca os dois da santa, sem a qual ninguém verá o Se­
aspectos. O que tem as palavras fiéis e nhor (Hb 12.14). Isto nos permite fazer
verdadeiras, o Alfa e o Ômega, aquele uma inferência. Se Jesus, no tempo de
que dá gratuitamente a água viva, este vida na terra, foi tentado em tudo e não
Deus perfeitamente justo há de galardo­ pecou, se a meta da vida cristã é a iden­
ar positivamente aqueles que creram ne­ tificação com Cristo, creio que galardão
le e, mediante a correta motivação, rea­ não significa ter algum ganho na vida
lizaram a missão que lhes fora confiada. eterna com Deus. Creio que a recompen­
Com o mesmo senso de justiça, ele fará sa dos salvos será a identificação com
distinção entre esses cristãos e aqueles Jesus. Se Jesus é o padrão de santidade,
que com motivações carnais fizeram sua e uma vez que santidade é o oposto de
obra. Os que amaram o pecado também contaminação, aqueles que foram apro­
terão galardão. Quem são estes? Apoca­ vados na “escola da santificação” rece­
lipse 21.8 os chama de indecisos, incré­ berão a recompensa por porfiarem pela
dulos poluídos por crenças que ferem a identificação com o Senhor Jesus.
santidade de Deus. Acrescenta-se a es­
ta relação os homicidas, os que amam a
feitiçaria e os que se desviam da verda­ CONCLUSÃO
de, amando a mentira em todas as suas
dimensões. O galardão destes e de to­ Deus é galardoador. Para nós, huma­
dos os que negam a fé é o lago que arde nos, que vivemos sob a influência do pe­
com fogo e enxofre, que é a morte eter­ cado e diante do perigo da contamina­
na. Reafirmo que, aqueles que tiveram ção, o constante saber e sentir da pre­
os pecados perdoados e a culpa cance­ sença do Senhor é fator de renúncia em
lada, seu galardão é estar no céu eterna­ função da identificação com ele.
mente com o Senhor. Ao dizer a Abraão que seria grandís­
simo o seu galardão, Deus fez com que
mergulhasse na sua transcendência, ca­
A RECOMPENSA DOS minhasse com ele e tivesse como meta
SALVOS (Ap 7.9-17) a sua perfeição. Ter a presença do Se­
nhor e poder se identificar com ele, pe­
A última frase do parágrafo ante­ la comunhão profunda, foi o galardão
rior é confirmada no texto de Apocalip­ de Abraão. Dar a garantia da sua pre­
se 7.9-17, que fala da visão dos márti­ sença, renovar suas promessas e enchê-
res glorificados. A Bíblia não nos afirma lo de inspiração foi obra do Deus ga­
como será o galardão e o que fará dife­ lardoador.

3o trimestre de 2005 - 41
4 de setembro

Texto bíblico Texto áureo


1Cor in tios 15; lTessalonicenses 5; 2Pedro 3 2Pedro 3.8,9

Uma característica básica dos nossos podemos aprender com a paciência de


dias é a velocidade das mudanças. A so­ Deus? Como a Bíblia descreve a paci­
ciedade requer a cada dia pessoas com­ ência divina?
petentes e especializadas, a fim de pro­
duzir o novo com qualidade e em me­
nor tempo. Isto influencia o comporta­ O DEUS QUE
mento humano devido às pressões em­ ESPERA (2Pe 3.1-9)
butidas no processo. O lado negativo
é que pessoas passam a viver um for­ O Deus que salva e perdoa é pacien­
te clima de impaciência pelas cobran­ te e longânimo. Pedro assim se expres­
ças em quase todos os níveis de vida. sa: “O Senhor não retarda a sua pro­
Um exemplo disto está na educação se­ messa, ainda que alguns a têm por
cular. A formação da pessoa não é al­ tardia; porém é longânimo para con­
go que acontece da noite para o dia; é vosco, não querendo que ninguém se
um processo que leva tempo. Uma vez perca, senão que todos venham a ar­
premidos pela pressão da produtivida­ repender-se” (2Pe 3.9). Paciência e
de e da especialização, vê-se profissio­ longanimidade são sinônimas. Tradu­
nais, muitas vezes, impacientes pelo fa­ zem a idéia de “ânimo longo” e expres­
to dos seus alunos não produzirem inte­ sam a forma graciosa e misericordiosa
lectualmente de acordo com a deman­ de Deus em restringir sua indignação no
da. Com isto, criam-se mecanismos que, trato com o homem pecador.
ao contrário de formar, deformam a pes­ Um exemplo é aquele acontecido
soa. Isto acontece no nível da fé? O que no início da história de Israel. O po-

DIA A DIA COM A BIBLIA


Segunda - ICoríntios 15.50-54 Quinta -lTessalonicenses 5.7-11
Terça -ICoríntios 15.55-58 Sexta - 2 Pedro 3.1-6
Quarta -lTessalonicenses 5.1-6 Sábado -2Pedro 3.7-12
Domingo -2Pedro 3.13-18

42 - Compromisso
vo que contemplara as maravilhas do COM O DEVEMOS ESPERAR
Senhor, que com mão forte e braço es­ POR DEUS (2Pe 3.10-18)
tendido o tirou do Egito, não parava de
murmurar ao primeiro sinal de insatis­ Diferente dos falsos mestres, ho­
fação. Israel chegou a forjar para si um mens incrédulos que, para satisfazer
bezerro de ouro em plena afronta ao as suas teorias, distorciam as promes­
Senhor, tornando-se alvo do desprazer sas do Senhor, o cristão deve estar aten­
divino. Moisés intercede pela longani­ to à inesperada vinda do Senhor: “Virá,
midade de Deus. Deus, que é pacien­ pois, como ladrão o dia do Senhor”
te, afirma que não vai deserdar o povo (v. 10). A expectativa deve envolver a
e, como prova disto, restaura a aliança santificação, a piedade (v. 11), e uma
quebrada e promete fazer coisas maio­ ação dinâmica: “aguardando e dese­
res ainda (Ex 33.10). Deus é longâni- jando ardentemente a vinda do dia
mo. Ele sabe que a nossa formação es­ de Deus” (v. 12), isto é, estar em har­
piritual não acontece como algo mági­ monia com o ideal de Deus de conver­
co. A educação religiosa é processual. são do maior número possível de pes­
Para se conhecer a realidade espiritual, soas. Assim, é ordenado ao cristão que
é preciso muita comunhão com Deus, participe da longanimidade divina: “e
o que leva o cristão a passar por um tende por salvação a longanimida­
longo e permanente processo de que­ de de nosso Senhor” (v. 15), apressan­
brantamento. Como tenho dito, não é do a vida do Senhor mediante a procla­
algo que acontece da noite para o dia, mação do evangelho. Junta-se ao fato
daí a necessidade da paciência huma­ do cristão ser exortado ao cuidado de
na e do entendimento da paciência do si o ter atitudes, a fim de ser achado em
Deus que espera. O Senhor acredita na paz, imaculado e irrepreensível quando
mudança do ser humano. Daí a sua lon­ Cristo se manifestar em sua derradeira
ganimidade. vinda (v. 14).
O texto de 2Pedro 3.1-9 fala dos fal­ O crescimento na graça e no conhe­
sos mestres que argumentavam de for­ cimento do Senhor Jesus (v. 18) é im­
ma errada sobre a segunda vinda de Je­ prescindível para aquele que espera pelo
sus. Diziam eles que nada mudou des­ Senhor. As pressões e tentações aconte­
de os dias da criação e que não have­ cerão. Insubordinados mestres com en­
ria julgamento (v. 4). Contradizendo- sinos atraentes e sutis tentarão fazer com
os, Pedro afirma que o dia do juízo ain­ que venhamos a cair da fé (v. 17). Mas
da não aconteceu porque Deus é longâ- aquele que está firme no Senhor não se
nimo. Ele está dando tempo para que deixa iludir, pois está atento às orienta­
todos se arrependam, pois é seu dese­ ções preventivas que são dadas.
jo que ninguém se perca. Pedro afir­
ma que Deus é fiel àquilo que prome­
teu fazer mas, antes de tudo, é fiel ao A FIRM EZA NA ESPERA PELO
seu amor. Por amar o pecador, dá opor­ DIA DO SENHOR (IC o 15.50-58)
tunidades para que se converta. Ele é o
Deus que espera, o Deus das misericór­ Pedro falou de pessoas que detur­
dias que se renovam. pavam o ensino paulino, induzindo ou­

3Qtrimestre de 2005 - 43
tros ao erro mas, acima de tudo, fazen­ to maior deve ser a nossa intensidade na
do distorções que levariam a si mesmos obra do Senhor.
à destruição. Em momento algum Pau­ O cristão tem duas certezas em espe­
lo falou contrário à vinda de Cristo ou cial. A primeira é a certeza de que, quan­
deixou margem para falsas suposições. do Cristo se manifestar, num momento,
Paulo vivia uma grande e positiva ansie­ num piscar de olhos, os fiéis serão trans­
dade pela volta do Senhor. Em lTessalo- formados (ICo 15.51,52). O que é cor­
nicenses 5.1-11 ele ensina sobre a vigi­ ruptível receberá a incorruptibilidade, e
lância, diante da repentina volta do Se­ o que é mortal será revestido da imorta­
nhor, o qual surpreenderá a muitos, se­ lidade (v. 53), e estará eternamente com
jam cristãos ou não. Quando as pessoas o Senhor. A segunda ccrteza é a de que
disserem que há segurança e paz, quan­ agora, em vida, a morte não mais tem
do estiverem distraídas com as coisas da domínio sobre ele. Na certeza da fé pode
vida (lT s 5.3), o Senhor se manifesta­ declarar: “Onde está, ó morte, a tua vi­
rá para emitir juízo e justiça. Os filhos tória? Onde está, ó morte, o teu agui­
da luz, chamados por Paulo de “nós que lhão?... Mas graças a Deus que nos dá
somos do dia” (lTs 5.8), revestem-se da a vitória por nosso Senhor Jesus Cris­
couraça da fé e do amor, tomam o capa­ to” (v. 55-57).
cete da salvação e esperam a manifesta­
ção do Senhor.
Com esta visão límpida da vinda do CONCLUSÃO
Senhor, Paulo entende que, em sua lon­
ganimidade, Deus quer o firme trabalho Infelizmente muitos não estão dan­
cristão a fim de que muitos se salvem: do a devida atenção à volta de Jesus. Por
“Portanto, meus amados irmãos, sede isso há, entre nós, muitos enfermos na
firmes e constantes, sempre abundan­ fé. A igreja precisa dar atenção à volta
tes na obra do Senhor, sabendo que o de Jesus, ao contrário de ficar pregando
vosso trabalho não é vão no Senhor” um triunfalismo falso e uma prosperida­
(ICo 15.58). Diante dos falsos ensinos, de insípida voltados para o tempo pre­
diz Paulo a todos nós: sejam firmes, não sente. Igreja, esteja alerta, pois quando
esmoreçam em sua fé, não se deixem se­ estiverem pregando paz e prosperidade
duzir por quem têm o salário do pecado sem conteúdo de fé, o Senhor se mani­
assegurado. Firmeza exige constância, festará. Prepare-se, pois, num piscar de
isto é, não se deixar abalar por quais­ olhos, os céus se abrirão, e o Senhor se
quer circunstâncias. Os que são segu­ manifestará em glória. Só os que acre­
ros e inabaláveis não são estáticos. Ao ditaram na longanimidade do Senhor,
contrário, são abundantes na obra do Se­ que aceitaram o Salvador Jesus, que se
nhor. Os ímpios são abundantes na obra lançaram incansavelmente na tarefa de
do diabo. Eles desperdiçam energia em comunicar o evangelho salvador, só os
fazendo o mal a si mesmos e aos ou­ que forem firmes, constantes e abundan­
tros. Os cristãos devem ser muito mais tes, somente estes passarão pela porta
abundantes do que o ímpio. Ora, se eles estreita, e estaremos eternamente com
são intensos em sua obra maligna, mui­ o Senhor.

44 - Compromisso
11 de setembro

DEUS
Texto bíblico Texto áureo
Salmo 76; Romanos 1 e 2 Romanos 1.17

A justiça divina é tema normativo na tem em especial duas vertentes entre ou­
Bíblia Sagrada. A partir de sua nature­ tras possíveis. A primeira aponta para a
za imaculada, Deus sempre desejou que excelência moral de Deus. Por exemplo,
os seres humanos tivessem uma relação quando o salmista declara que o Senhor
interpessoal sadia, em que deveria pre­ é justo (119.137), dá ênfase à perfeição
valecer o respeito mútuo a partir do re­ moral do Senhor. Ju stiç ai sinônimo de
conhecimento do direito de cada um. A reiidão. Deus é reto, perfeitamente re­
Bíblia é a carta magna de toda a huma­ to. Os exemplos do nosso mundo são
nidade. Os preceitos retos, invariáveis e insuficientes para expressar a sublimi­
santos estão nela para dar sentido à vida. dade da retidão divina. Um profissional
Como você conceitua justiça e de que pode fazer com que uma determinada
forma aplica tal conceito a Deus e a so­ superfície pareça reta a olho nu. Entre­
ciedade? Junto a isto, responda: como a tanto, por melhor que seja o trabalho do
igreja tem encarado esta questão, ou se­ profissional, colocando aquela superfí­
ja, ela tem se preocupado em cultivar a cie aplainada diante de um equipamen­
justiça interna e externamente? to que possa aumentar em muito o grau
de visibilidade, certamente algumas on­
dulações aparecerão. Com Deus é di­
O DEUS JUSTO (SI 76) ferente. Ninguém jamais verá alguma
“ondulação” (marca, mácula, erro etc.)
Nas páginas do Antigo Testamento, no caráter dele. Se os termos excelên­
o termo justiça, ao ser aplicado a Deus, cia e perfeição podem nos dizer algu-

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - Salmo 76.1-12 Quinta - Romanos 1.16-23
Terça - Romanos 1.1-7 Sexta - Romanos 1.24-32
Quarta - Romanos 1.8-15 Sábado - Romanos 2.1-11
Domingo - Romanos 2.12-16

3Qtrimestre de 2005 - 45
ma coisa que vai além do natural, então vência cristã maculam o ideal divino da
tais termos são aplicados ao Deus justo comunhão. A igreja precisa urgentemen­
com pertinência. te rever suas atitudes. Precisa reler sobre
A segunda vertente, que é conseqüên­ a justiça divina e sobre os ideais do Se­
cia desta primeira, aponta para ajçtidão nhor na relação interpessoal cristã. Se a
.de conduta. O salmista afirma que “Por­ igreja não se repensar em regime de ur­
que o Senhor é justo, e ama a justiça; gência, urgentíssima, sua relevância no
o seu rosto está voltado para os retos” mundo tenderá a se extinguir.
(SI 11.7). O Salmo 76 fala da majesta­ O Deus justo requer obediência ir­
de e glória do Senhor, ao mesmo tempo restrita e moralidade excelente. Roma­
em que celebra a sua justiça em livrar nos 1.16,17 afirma que o evangelho re­
Jerusalém de uma ação planejada pelos vela a justiça de Deus, a qual é aquies­
imperialistas e opressores assírios. (O cida de fé em fé. Ao mesmo tempo afir­
império assírio foi um dos mais violen­ ma que o evangelho é o poder de Deus
tos e injustos da história da humanida­ para a salvação. O evangelho é o úni­
de e dominou o mundo conhecido de en­ co poder capaz de causar transforma­
tão por cerca de 500 anos, vindo a ruir ção moral no indivíduo. Nada pode fa­
,no ano 614 a.C.). O salmista entendeu zer o que o evangelho faz. O cristão ver­
que o Deus da excelência moral só po­ dadeiro é aquele que, pela obediência ir­
de ter uma conduta também excelente. É restrita ao Senhor, se lança à tarefa de
o mesmo que dizer que o Senhor é reto cultivar uma moralidade que prima pe­
em si e correto em suas atitudes. Acres­ la excelência. É bom que se diga que a
centamos também o fato de o Senhor ter excelência divina é a meta. E impossí­
o seu rosto voltado para os que amam a vel que o ser humano chegue à perfei­
justiça. Isto aponta para o ideal divino ção do Todo-Poderoso. Entretanto, fi­
de retidão na relação que os seres huma­ tando os olhos em Jesus, como Paulo
nos desejam manter com ele e da retidão orienta os filipenses, “naquela medida
ou justiça na relação interpessoal. Por­ da perfeição a que já chegamos, nela
tanto, de acordo com a Bíblia, Deus é prossigamos” (3.16).
perfeitamente reto em si, e perfeitamen­ A obediência da fé (Rm 1.5), à qual
te correto em tudo o que faz. fomos chamados, não é uma obediên­
cia cega. Ao contrário, é uma obediên­
cia que vem por meio da comunhão com
O DEUS JUSTO REQUER Deus, o que conduz a pessoa a exami­
OBEDIÊNCIA IRRESTRITA E nar as Escrituras, ver e rever suas atitu­
MORALIDADE EXCELENTE des, analisar todas as coisas e reter aque­
(Rm 1.5; 26-2.16) las que edificam. Os que desprezam o
conhecimento existencial de Deus an­
Deus sempre desejou que as pessoas, dam nos caminhos da depravação mo­
fossem retas em suas atitudes. As injus­ ral e são entregues pelo Senhor à dis­
tiças que são cometidas em igrejas que posição mental reprovável deles (Rm
se levantam contra seus líderes espiri­ 1.26,28). Não há desculpas para eles
tuais, atitudes pecaminosas, outras que (Rm 2.1). Os injustos declarados bem
norteiam e ferem o princípio da convi­ como aqueles que encobrem suas injus-

46 - Compromisso
tiças, julgando os atos errados dos ou­ Paulo afirma que Deus não cometerá
tros, todos eles receberão o prêmio da nenhum ato que deixe qualquer sombra
injustiça. Os que perseveraram em fa­ de injustiça. Sua ira, seus juízos e puni­
zer o bem, isto é, os que primaram por ções são corretos, conforme temos estu­
se identificarem com a justiça divina re­ dado. Assim, pessoas que negam o co­
ceberão o prêmio da justiça. Obediência nhecimento da verdade e mudam a gló­
e moralidade excelente são inalienáveis ria do Deus incorruptível em semelhan­
na verdadeira vida de fé. ça da imagem de homens, aves, animais
e quaisquer outras coisas, que são cor­
ruptíveis, tornam-se indesculpáveis e
O DEUS JUSTO REQUER haverão de provar de sua própria injus­
HONRADEZ E FIDELIDADE tiça (v. 21-26).
(Rm 1.18-25) Desta forma, aqueles que, sob a ca­
pa do cristianismo, praticam atos de in­
A injustiça, ou seja, pensamentos justiça receberão o galardão da injusti­
e ações que contrariam a retidão divi­ ça, ao passo que os que com fidelidade
na, muitas vezes chega à igreja de mo­ honraram o justo Senhor, estes terão o
do sutil e sedutor. É alarmante o núme­ prêmio da retidão.
ro de grupos que dizem ser igrejas e que
não trabalham a transformação moral do
indivíduo nem da sociedade. Tal qual CONCLUSÃO
acontecia entre os romanos (1.18-27),
nossa sociedade tem perdido sistemati­ Como temos visto, Deus é_cet o
camente os seus referenciais de morali­ no caráter e correto nas atitudes. Em
dade e retidão. Pior que isto, igrejas que Deuteronômio há a seguinte declaração:
deveriam ser coluna e esteio da verda­ “Ele é a rocha; suas obras são perfeitas,
de, agora, movidas pelo mercantilismo porque todos os seus caminhos são
da fé, deixam-se seduzir pelos, muitas justos; Deus é fiel e sem iniqüidade;
vezes, sutis padrões moralmente frou­ justo e reto é ele” (Dt 32.4). Seu senso
xos da sociedade, e criam um tipo tam­ de justiça vai muito além daquilo que
bém frouxo de fé, onde impera o “va­ o entendimento humano consegue
le tudo”. São igrejas que, idênticas ao alcançar. Ejenunca pratica-atos-defustiça-^
mundo corrompido, “trocaram a ver­ isolados do_sen amnr_mcandicinnal.
dade de Deus pela mentira, e adora­ Sua justiça é disciplinadora|. retríhutiva
ram e serviram à criatura antes que e restauradora. Exceto àqueles que
ao Criador” (v. 25). Padrões injustos pecam de modo irreversível, ou seja,
dc pensamento e comportamento não os indesculpáveis do texto bíblico
são aceitáveis no universo da verdadei­ estudado, sempre que a justiça divina
ra fé. Quem assim age fere a justiça di­ se m anifestar como castigo, a meta
vina e se torna alvo da sua justa retri­ ,será a restauração, pois a retribuição
buição: “Pois do céu é revelada a ira e a disciplina visam exatamente isto.
de Deus contra toda a impiedade e in­ A final de contas, o Deus Santo e
justiça dos homens que detêm a ver­ Salvador ama a quem castiga e castiga
dade em injustiça” (v. 18). a quem ama.

3Qtrimestre de 2005 - 47
18 de setembro
Deus é
CONSOLADO a
Texto bíblico Texto áureo
João 14-16 João 14.26

A cada dia mais, somos convenci­ demais rígido e cruel. Quem pensa as­
dos de que a fé em Deus além de con­ sim não conhece o Deus da Bíblia, ou
duzir a pessoa à cura espiritual, também tem uma visão equivocada dele. Desde
a conduz nas dimensões mental e físi­ Gênesis vemos um Deus sempre pron­
ca. Deus se preocupa com o ser humano to a perdoar. Um Deus que, em função
nos aspectos espiritual, mental e físico. do seu muito amor, deixa-se misteriosa­
Em tempo de lutas e perturbações, pre­ mente mover pela oração do justo (Ez
cisamos de consolo espiritual e mental. 22.30; Ex 3.3.12-17), compadece-se dos
O Deus verdadeiro e justo, em todos os filhos que erram e consola os abatidos
seus caminhos, é o Deus que amoravel- de alma. O profeta Isaías conclama com
mente toma-nos nos braços e nos conso­ vigor a terra a celebrar o Deus consola­
la nos tempos de aflição. Você tem sen­ dor, dizendo: “Cantai, ó céus, e exulta,
tido o consolo divino? Antes de se lan­ ó terra, e vós, montes, estalai de júbi­
çar ao estudo desta lição, você pode re­ lo, porque o Senhor consolou o seu po­
cordar e compartilhar alguma experiên­ vo, e se compadeceu dos seus aflitos”
cia significativa que teve ou está tendo (Is 49.13). O salmista declara que a lem­
com o Deus consolador? brança dos justos juízos faz com que se
sinta consolado: “Lembro-me dos teus
juízos antigos, ó Senhor, e assim me
O DEUS QUE HABITA E consolo” (SI 119.52).
ESTÁ EM NÓS (Jo 14.15-19) No Novo Testamento, em especial
no texto desta lição, encontramos Jesus
Há pessoas que ainda nutrem o pen­ fazendo a seguinte promessa: “E eu
sar que o Deus das Escrituras, princi­ rogarei ao Pai, e ele vos dará outro
palmente no Antigo Testamento, era por Consolador, para que fique convosco

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda-João 14.15-19 Q uinta-João 16.1-7
Terça - João 14.20-26 Sexta - João 16.8-14
Q uarta-João 14.27-31 Sábado-João 16.15-22
Dom ingo-João 16.23-33

48 - Compromisso
para sempre”. Ao usar a palavra “ou­ para o céu, para preparar lugar para os
tro”, quer dizer “alguém além de mim, seus, mas que não os deixaria sem a pre­
mas como eu”, isto é, “outro do mes­ sença do Consolador que viria da parte
mo tipo”. Jesus desenvolveu o ministé­ do Pai, ato contínuo à sua ascensão. Os
rio do consolo. Aos cansados e sobre­ discípulos não ficariam órfãos (v. 18).
carregados, ele convida dizendo: “Vin­ O Senhor os conforta e consola dizen­
de a mim, todos os que estais cansa­ do-lhes que teriam uma viva experiên­
dos e oprimidos, e eu vos aliviarei” cia de fé, por meio da qual adquiririam
(Mt 11.28). O Consolador a ser envia­ a plena certeza de que o Deus vivo es­
do por Deus iria substituir Jesus que es­ taria diariamente ao lado deles (v. 19).
tava prestes a encerrar o ministério sal­ Ao mesmo tempo, Jesus reafirma que a
vador encarnado na forma humana. O missão de conforto e consolo é restriti­
Consolador estaria conosco para sem­ va. Isto é, ela será recebida por aqueles
pre, encorajando, dando forças, socor­ que amam a Deus e guardam a sua Pa­
rendo, convencendo etc. Uma vez que lavra. A estes, Jesus, na forma do Espí­
a palavra grega para Consolador apon­ rito Consolador, se manifestará (v. 21).
ta para alguém “chamado ou designado” Na certeza confortadora de que em es­
para estar “ao lado de”, este outro Con­ pírito, ou na pessoa do Espírito Santo
solador não é ninguém mais, ninguém (v. 17), Jesus estaria com eles, residia
menos que o Deus que habita e está em na experiência de que as palavras de Je­
nós. Esta conclusão vem pela fé. E uma sus estariam sendo confirmadas em su­
promessa feita aos cristãos. Isto porque as vidas. Isto pelo fato do Espírito San­
o Consolador por vir é “O Espírito de to “que o Pai enviará em meu nome,
verdade que o mundo não pode rece­ esse vos ensinará todas as coisas, e vos
ber, porque não o vê nem o conhece; fará lembrar de tudo quanto vos te­
mas vós o conheceis, porque habita nho dito” (v. 26).
convosco, e está em vós” (v. 17). Ale­ Os discípulos estavam sendo cons­
luia! O Consolador habita em nós e es­ cientizados de que a paixão de Cristo
tará conosco para sempre. não seria a frustração da esperança, mas
o caminho da inequívoca, surpreenden­
te e retumbante vitória sobre o pecado
O DEUS QUE CONSOLA e a morte. Atentemos para o fato de ter­
E CONFORTA (Jo 14.25-27) mos hoje a história completa da paixão
e da vitória de Cristo, mas os discípulos
Os discípulos estavam entristeci­ estavam vivendo a história que hoje te­
dos, pois tinham acabado de ouvir uma mos completo conhecimento. Para eles
palavra de Jesus sobre traição, separa­ que estavam vivendo um momento som­
ção e negação (Jo 13). De modo con­ brio e de iminente perda, para eles que
solador, conhecendo-lhes o ânimo, Je- precisavam de uma palavra de consolo
sus lhes diz: “Não se turbe o vosso co­ e conforto, para eles que não deveriam
ração” (Jo 14.1). Como vimos no item se perder no emaranhado de idéias sem
;interior, Jesus informa a eles que iria sentido que poderiam surgir, Jesus dei­

32 trimestre de 2005 - 49
xa algo que os consolaria e organizaria ças para desprezar a afronta, suportar a
suas mentes nas dimensões física e es­ cruz e se tornar vencedor. Esta alegria
piritual: “Deixo-vos a paz, a minha paz é inexplicável ao homem natural. Só o
vos dou: não vo-la dou como o mun­ espiritual é que a conhece e a tem. A
do a dá. Não se turbe o vosso coração, dor do parto é grande, mas a alegria de
nem se atemorize” (v. 27). dar à luz suplanta a dor e dá ânimo à
mãe (v. 21). Jesus termina dizendo que
“a vossa alegria ninguém vo-la tira­
O DEUS QUE TRAZ ALEGRI A rá” (v. 22).
E PAZ (Jo 16.22,33) O segundo sentimento a que Jesus
faz menção é a paz. Em Filipenses 4.7,
Jesus sempre foi realista em seus Paulo fala da paz que excede todo o en­
ensinos. Diferente daqueles que fanta­ tendimento. Jesus acalma os discípulos,
siam a vocação para o serviço cristão, dizendo da ação do Espírito Santo so­
Jesus coloca os discípulos frente a fren­ bre eles, a fim de que tivessem paz. Este
te com os dissabores do ministério cris­ sentimento os abrandaria, os livraria das
tão (Jo 16.1,2). Os discípulos não deve­ confusões mentais e os deixaria em con­
riam se escandalizar, isto é, tropeçar ou dições de refletir sobre as dimensões so­
perder a coragem diante dos sofrimen­ brenaturais da fé e vida cristã. Em suma,
tos. No versículo 33 é dito que no mun­ o Consolador daria a eles alegria e paz
do teriam aflições. Seriam perseguidos, em meio às maiores adversidades.
expulsos das sinagogas e poderiam per­
der a vida. Creio que isto era apavoran­
te para os doze. Entretanto, Jesus lhes CONCLUSÃO
renova a promessa do Consolador. Es­
te iria ensinar aos discípulos a como Jesus termina estas orientações so­
enfrentar as adversidades. Ao mesmo bre o Deus Consolador com uma palavra
tempo, Jesus lhes informa sobre dois de estímulo e um exemplo de vida. Ele
sentimentos que iriam ter em meio às orienta os seus a terem bom ânimo. Isto
aflições. Primeiro declara que teriam é, ensina-lhes a que mantenham o foco.
alegria. Alegria, neste caso, é mais que Jesus estava a dizer-lhes: não se deixem
um sentimento passageiro; é um estado administrar pela fúria das adversidades.
de alma permanente. Por mais parado­ Mantenham-se em pé, firmes, não esmo­
xal que pudesse ser, o Espírito Conso­ reçam, pois eu venci o mundo.
lador concederia uma alegria inexpli­ Vem-me à mente uma parte da estrofe
cável a eles em meio às maiores prova­ de um hino que diz: “Quando opresso eu
ções, perseguições e tentações. Jesus, me sinto sob um peso esmagador, é Jesus
segundo o escritor aos Hebreus, foi o o amigo que eu quero ter”. Sim, ele é o
exemplo deste paradoxo da alegria. Ha­ nosso amigo, o nosso maior amigo, Deus
via nele uma alegria muito grande ao Consolador em quem podemos confiar.
pensar em todos que iriam crer no seu Nele, somente nele, reside a nossa fonte
sacrifício. Nesta alegria ele reuniu for­ de manutenção do bom ânimo.

50 - Compromisso
25 de setembro

VIDA
Texto bíblico Texto áureo
Mateus 25; Apocalipse 22 Apocalipse 22.14

Na lição inicial deste trimestre, estu­ terra. Era muito difícil para Israel bem
damos o conceito de “Deus vivo e eter­ como para os povos da época pensarem
no”. Nesta última lição, estudaremos o em algo além da vida aqui na terra, devi­
tema “Deus é vida eterna”. Como tem do à visão concreta da vida. Tanto é que,
sido feito, começaremos conceituando por não saberem lidar com a sobrenatu-
vida eterna no Antigo Testamento, de­ ralidade da vida, o primeiro conceito de
pois iremos ao Novo Testamento para lugar dos mortos (sheol) era indistinto,
ver o desenvolvimento do conceito em ou seja, todos os que morrem vão pa­
estudo, à luz dos ensinos escatológicos ra lá, e isto era algo em que os hebreus
de Jesus. Inicialmente tente responder às não concentravam atenção. Outro exem­
seguintes perguntas: Como se entendia o plo disto é que Deus, mesmo sendo eter­
conceito de vida eterna no Antigo Testa­ no, era conhecido por seus atos concre­
mento? Que implicações há em tal con­ tos. Conceitos de vida de Deus, o Deus
ceito segundo os ensinos de Jesus? presente, o Deus que age eram mais re­
levantes porque eram manifestos, toca­
dos e sentidos. A história da relação en­
DEUS É VIDA ETERNA tre Israel e Deus se dá num mundo cheio
de ações concretas. A eternidade era um
Encontramos no Antigo Testamento mistério que ia muito além da capacida­
tuna teologia em desenvolvimento. No de de entendimento do povo.
locante à vida futura, há dois momen- No segundo momento, começa a
los em especial. O primeiro está atrelado ser delineada a concepção de uma vida
>io desenvolvimento do reino de Deus na organizada após a morte, e os profetas

DIA A DIA COM A BÍBLIA


Segunda - Mateus 25.31-33 Quinta - Mateus 25.41-43
Terça - Mateus 25.34-46 Sexta - Mateus 25.44-46
Quarta - Mateus 25.37-40 Sábado - Apocalipse 22.1-5
Domingo-Apocalipse 22.6-21

3Qtrimestre de 2005 - 51
foram de grande relevância reinterpre- são histórica, já estava bem estabeleci­
tando a ação de Deus da história. Havia do, e dois modos de pensar eram bási­
promessas que não se cumpriam na vi­ cos nesta escatologia: julgamento divi­
da presente, bem como palavras de bên­ no e universalidade do governo de Deus.
çãos ou castigo que também não se cum­ O conceito de Deus nacional, cultivado
priam. Isto trazia certo grau de questio­ durante séculos por Israel, dá lugar, na
namento para Israel. Daí, os profetas, nova interpretação profética, ao concei­
iluminados por Deus, fizeram re-estu- to de um Deus soberano sobre todas as
dos sobre ações e intervenções divinas nações. Jesus, em seu sermão profético-
e viram que a história, como eles co­ escatológico (Mt 24 e 25), fala do po­
nheciam, não era suficiente para con­ der divino de emitir juízo sobre todos os
ter algo tão grande (ver “céus novos e povos: “Quando, pois vier o Filho do
nova terra” em Isaías 65.17). Somen­ homem na sua glória, e todos os an­
te a eternidade poderia conter a pleni­ jos com ele, então se assentará no tro­
tude das palavras divinas. Com isto, to­ no da sua glória; e diante dele serão
ma forma definitiva o conceito do Deus reunidas todas as nações”. Como Se­
Eterno que dá vida eterna. Portanto, em nhor da história e como Senhor da vi­
última análise, Deus ê vida eterna oor- da, depois da história, pode julgar to­
que é eterno. dos os povos de todas as épocas. Ele é
o Deus que julga.

O DEUS QUE JULGA


(Mt 25.31,32a) A SEPARAÇÃO ENTRE A VIDA
E A MORTE (Mt 25.32b,33)
O modo de pensar a eternidade não
deixaria de passar pelo conceito de so­ Como temos estudado, o Deus sobe­
berania divina. O Deus eterno é senhor rano é onisciente. Assentado no trono, o
da história. Uma vez que nos seus pro­ Deus que conhece todas as coisas, o Deus
jetos haverá um novo tempo (novo céu que é perfeitamente justo em seus juí­
e nova terra), é lógico concluir que ha­ zos há de fazer separação entre os her­
verá um rompimento com a ordem atu­ deiros da vida eterna e os herdeiros da
al para que uma nova ordem seja ins­ morte eterna. O conceito de separação
talada. Lógico também é pensar que entre classes ou tipos de pessoas era bas­
Deus mesmo comandará cm sua sobe­ tante conhecido em Israel, bem como o
rania aquele momento de rompimento. entendimento da metáfora do lugar de
É assim que entendemos conceitos pro­ honra para quem estivesse à direita e de
féticos como “o Dia do Senhor” e “Na­ desonra para quem estivesse à esquer­
quele Dia” (Am 5.18; Os 2.18). Será um da (Ec 10.2; SI 16.8; 110.1). Acrescen-
tempo em que o bem e o mal terão um te-se também que o gado de muito valor
confronto guerreiro final, e Deus rom­ (ovelhas) era costumeiramente separado
perá e exterminará com o sistema per­ daquele de pouco valor (cabritos). Eze-
verso deste mundo. quiel 34.11 ss fala do pastor que recolhe­
No tempo de Jesus, o conceito de es- rá suas ovelhas e as salvará, separando-
catologia, a se cumprir além da dimen­ as daquelas que não têm valor.

52 - Compromisso
Diante do conhecimento prévio dos que, diante de ensinos anteriores, ele
judeus sobre lugar de honra, lugar de de­ tem em mente a motivação correta pa­
sonra e sobre o conceito de separação, ra se fazer boas obras. O que Jesus es­
Jesus fala sobre o julgamento que oca­ tá a dizer é que boas obras não causam
sionará a instalação de um novo estado bom caráter, mas bom caráter sempre
de coisas: “e ele separará uns dos ou­ dá origem a boas obras. O julgamento
tros, como o pastor separa as ovelhas sábio e justo do Deus sábio, oniscien­
dos cabritos; e porá as ovelhas à sua te e justo parte das motivações interio­
direita, mas os cabritos à esquerda” res para os feitos exteriores.
(v. 32b,33). Em seu discurso, Jesus reafirma a
esperança da vida eterna para os que ti­
veram o caráter mudado pela ação di­
A ESPERANÇA DA VIDA nâmica do Espírito Santo, e a existên­
ETERNA E A EXISTÊNCIA DA cia da morte eterna para os incrédulos,
MORTE ETERNA (Mt 25.34-45) ou seja, aqueles que não permitiram que
o Espírito Santo transformasse sua vida
A palavra de ordem no sermão esca- à imagem e semelhança do caráter di­
lológico de Jesus é “vigilância”. Isto é vino. A estes últimos estão reservadas
ilustrado nas parábolas da figueira (Mt as trevas exteriores: “E irão eles para
24.32-44), do bom e do mau servo (v. o castigo eterno, mas os justos para a
I >-51), das dez virgens (Mt 25.1-13) e vida eterna” (v. 46).
dos talentos (v. 14-30). Acrescente-se
também que, em suas palavras exorta-
t ivas sobre o juízo final, Jesus faz men- CONCLUSÃO
i, no de boas obras (alimentar os famin­
tos e sedentos, hospitalidade, vestir o Deus é vida eterna e, por ser as­
despido e visitar os enfermos). Isto foi sim, todo aquele que nele crer tem a vi­
r niida é conflitante para pessoas que da eterna. Meu desejo é que, após estes
adiam que Jesus está enfatizando as estudos, tenha havido um verdadeiro
boas obras como um fim em si mes­ processo de transformação e confirma­
mas, Entretanto, se tomarmos os en- ção de fé na vida do leitor. De uma for­
»iu>s de Jesus dentro de um contex­ ma ou de outra, todas as lições estuda­
to maior, veremos que tudo o que fa­ das apontam para o passado (o que Deus
ia la/, sentido. Por exemplo, no Ser­ fez), para o presente (o que Deus está fa­
mão do Monte (Mt 5-7) Jesus salien- zendo) e para o futuro (o que Deus fa­
in essencialmente o caráter do discí­ rá). Assim, com base nos relatos teste­
pulo cristão. Isto é enfatizado em to- munhais das Sagradas Escrituras, per­
du.N os seus ensinos. O caráter modifj- mitamos que o “Deus que É” seja tudo
Bido faz com que as obras seiam relç- em nós. Consintamos que ele molde o
latilc.s, c obras relevantes apontam pa- nosso caráter à imagem e semelhança
fliiiáter aperfeiçoado. Aplicando isto do seu, santificando e justificando nos­
§p ir\|o em estudo que fala sobre jul- sa vida. Somente desta forma estaremos
yaniriito, quando Jesus discursa e en- eternamente com o Deus que é vida pre­
síím sobre boas e más obras, claro é sente e eterna. Amém.

3Qtrimestre de 2005 - 53

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