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Aula 3: A evolução dos direitos humanos das mulheres

Objetivos de aprendizagem

Nesta aula, vamos analisar o processo histórico de construção


dos direitos humanos das mulheres. Ao final dos seus estudos,
você tera visto conteúdos que lhe permitirão:

compreender o caráter histórico de documentos internacionais


e nacionais no âmbito da proteção da mulher em casos de
violência de gênero;

identificar os mecanismos jurídicos existentes no direito


internacional dos direitos humanos das mulheres, no âmbito
dos sistemas internacional, regional e nacional.
1. INTRODUÇÃO AO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

1 Introdução ao Direito Internacional dos


Direitos Humanos

Os direitos humanos das mulheres não foram construídos de forma pacífica. São
o resultado de lutas pela inserção da mulher na sociedade e pela igualdade de
gênero.

Em uma perspectiva geral, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948,


trouxe uma concepção universalista desses direitos, garantindo a todas as pessoas
direitos básicos como a liberdade e a dignidade (PIOVESAN, 2014). Assim, pode-se
afirmar que:

“[...] os direitos humanos não se referem apenas à pluralidade e autonomia


de sistemas sociais e discursos, reagindo ao perigo da “desdiferenciação”
(sobretudo política e econômica, mas também religiosa, midiática etc.) da
sociedade, mas também dizem respeito à inclusão de pessoas e grupos.
Do ponto de vista pragmático dos portadores ou destinatários, os direitos
humanos têm a pretensão de validade universal. Todo homem é portador
dos direitos humanos.”
(NEVES, 2005, p. 5)

Essa concepção universalista surge depois


da Segunda Guerra Mundial, período em que Saiba mais!
foram cometidos inúmeros crimes contra a
Com o Tribunal de
humanidade, como aqueles praticados contra Nuremberg (1945
os judeus, vítimas do regime nazista (SOUSA, – 1946), os crimes
2015). contra a humanidade
e de guerra foram
Nesse sentido, “se a Segunda Guerra significou julgados e considerados
imprescritíveis,
a ruptura com os direitos humanos, o Pós-
garantindo que “os crimes
Guerra deveria significar a sua reconstrução” de maior gravidade
(PIOVESAN, 2012, p. 71). fossem condenados
independentemente do
tempo decorrido de sua
prática” (SOUSA, p. 179).
1. INTRODUÇÃO AO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

É a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) que se inicia o


desenvolvimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Daí surgem
instrumentos internacionais e regionais de proteção, como a criação das Nações
Unidas (PIOVESAN, 2012).

“Sob este prisma, a ética dos direitos humanos é a ética que vê no outro um
ser merecedor de igual consideração e profundo respeito, dotado do direi-
to de desenvolver as potencialidades humanas, de forma livre, autônoma
e plena”
(PIOVESAN, 2012, p. 72).

Esses direitos buscam a igualdade entre pessoas, não no sentido meramente formal
(do que está previsto em lei), mas numa perspectiva material, como explicitado por
Boaventura de Sousa Santos (2003, p. 56.): “temos o direito a ser iguais quando a
nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa
igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de “uma igualdade que reconheça
as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as
desigualdades.” (SANTOS, 2003, p. 56).

O Direito Internacional dos Direitos Humanos é formado por um sistema de


organizações, normas e procedimentos que possuem como finalidade a proteção
dos direitos humanos. Pode ser dividido em:

SISTEMA INTERNACIONAL
SISTEMA Composto pela ONU, OIT e outras
REGIONAL organizações internacinais.

DIREITO
INTERNACIONAL SISTEMA REGIONAL
SISTEMA DOS DIREITOS
INTERNACIONAL HUMANOS Formado pela Corte
Interamericana, a Corte
Europeia, entre outras.
1. INTRODUÇÃO AO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

Atualmente, na perspectiva normativa global, a Lei Internacional de Direitos


Humanos é, na verdade, uma denominação que engloba três instrumentos, que
constituem a base legal e ética para todo o trabalho da Organização das Nações
Unidas (ONU) sobre direitos humanos.

1. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, datada de 1947 e adotada em 1948,


proclamou no seu segundo artigo a igualdade de direitos entre todos os seres
humanos, sem distinção de qualquer espécie, como um dos princípios básicos
das Nações Unidas.

2. PACTO INTERNACIONAL SOBRE OS DIREITOS ECONÔMICOS,


SOCIAIS E CULTURAIS

O Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, adotado


em 1966 (embora vigente só em 1976), estabelece, em seu artigo 3º, que todos
os Estados integrantes do pacto devem se comprometer a assegurar a homens
e mulheres igualdade no gozo de todos os direitos econômicos, sociais e
culturais enumerados nesse documento legal.

3. PACTO INTERNACIONAL SOBRE OS DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS

O Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos também foi adotado em


1966 (com vigência apenas 10 anos depois). Destaca-se desse mecanismo legal o
artigo 2º, que determina o respeito e a garantia dos direitos a todos os sujeitos,
sem discriminação nenhuma por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião,
opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, situação
econômica, nascimento ou qualquer condição. Já o artigo 14 estabelece que
todas as pessoas são iguais perante os tribunais e as cortes de justiça.

Assim, o mundo assistiu ao lento e progressivo processo de construção internacional


de um conjunto de conceituações, codificações e regulamentos, aos quais foram
(e ainda vão) aderindo, com mais ou menos reservas, os países-membros da
Organização. Surge a primeira diretriz internacional de combate à violência contra
as mulheres, em razão da nomenclatura da Declaração Universal difundir igual
humanidade a todos os humanos. Por mais lógico que isso possa parecer, as
1. INTRODUÇÃO AO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

realidades culturais teimavam (e infelizmente ainda teimam) em revelar o contrário.

Saiba mais!
Foram Eleanor Roosevelt e as latino-americanas da Comissão sobre o status
das Mulheres que conseguiram introduzir a palavra “sexo” no segundo
artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Veja os debates da
Comissão na obra de Glendon (2001).

E quanto aos direitos das mulheres?


Foi a Declaração Universal de Direitos Humanos de Viena (1993) a primeira a
afirmar que “os Direitos do homem, das mulheres e das crianças do sexo feminino
constituem uma parte inalienável, integral e indivisível dos direitos humanos
universais” (ONU, 1993). Assim, vamos analisar os principais documentos que tratam
da proteção da mulher em caso de violência de gênero no âmbito internacional,
regional e nacional.
2. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO ITERNACIONAL

2 Proteção da mulher no âmbito internacional

Embora existissem alguns documentos internacionais de proteção aos direitos


humanos, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), nenhum
tratava especificamente da violência de gênero contra as mulheres ou da
necessidade de igualdade de gênero. Somente em 1975 é que surge o primeiro
documento a proteger as mulheres no âmbito do direito ao trabalho, à saúde,
à educação e aos direitos civis: a Convenção sobre a Eliminação de todas as
Formas de Discriminação Contra as Mulheres (BARSTED, 1995).

A Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres,


conhecida por sua sigla inglesa CEDAW, foi redigida a partir da Declaração sobre
a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres, adotada pela Assembleia
Geral da ONU em 1967. Essa convenção “definiu o que constitui discriminação
contra as mulheres e apresentou uma agenda de atividades nacionais visando
eliminar essa discriminação” (PRÁ; EPPING, 2012, p. 39). A CEDAW foi aprovada
pela Assembleia Geral da ONU em 1979 e entrou em vigor em 1981. Contou com a
assinatura de 20 países.

A CEDAW, contudo, foi muito criticada por países (como o Egito, por exemplo)
que consideravam que o documento continha práticas imperialistas. Esse tipo de
argumento expõe a desigualdade existente entre os gêneros e reforça a necessidade
de democratização do espaço da mulher no âmbito privado (PIOVESAN, 2012).

A CEDAW foi ratificada pelo Brasil em 1984 e define discriminação contra a mulher
no artigo 1º:

“[...] toda a distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha


por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou
exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, sobre a base
na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e das liberda-
des fundamentais das esferas política, econômica, social, cultural e civil ou
em qualquer outra esfera”.
2. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO ITERNACIONAL

Desse modo, a Convenção “relembra que este tipo de discriminação viola os


princípios da igualdade de direitos e do respeito da dignidade humana, dificulta
a participação da mulher, nas mesmas condições que o homem, na vida política,
social, econômica e cultural de seu país” (TEIXEIRA, p. 674).

Embora esse documento não cite explicitamente a violência de gênero contra a


mulher, o Comitê da Convenção trouxe uma importante recomendação para que
os Estados-partes incluam nos seus relatórios periódicos ao Comitê informações
sobre:

1- A legislação em vigor para proteger as mulheres da incidência de todos os


tipos de violência no cotidiano (inclusive violência sexual, abusos na família e
assédio sexual no local de trabalho);

2- Outras medidas adotadas para erradicar a violência de gênero contra a


mulher;

3- A existência de serviços de apoio a mulheres vítimas de agressão ou


abusos;

4- Dados estatísticos sobre a incidência de violência de todos os tipos contra


as mulheres e sobre as mulheres vítimas de violência.

A CEDAW também firma duas diretrizes que deverão ser observadas pelos Estados-
nações.

1- Isonomia entre os sexos para os devidos fins do exercício dos direitos,


sem desconsiderar situações específicas do sexo (gestação, maternidade,
lactância).

2- Necessidade de se eliminar a discriminação contra as mulheres em


todas as esferas da vida, privada ou pública. Os Estados devem assumir as
seguintes diretrizes: abolir práticas discriminatórias; modificar a legislação
que não esteja de acordo com a Convenção e criar novas leis para concretizar
os preceitos desta, bem como fomentar políticas públicas de conscientização
e concreção da equidade.

É necessário reconhecer que a CEDAW representa o maior esforço da ONU


2. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO ITERNACIONAL

O documento é constituído por um preâmbulo e 30 artigos, dos quais 16 contemplam


direitos substantivos que devem ser respeitados, protegidos, garantidos e
promovidos pelos Estados. Vamos conferir alguns dos principais artigos.

ARTIGO 10 - neste artigo, revela-se a preocupação com o âmbito institucional:

“Os Estados-Partes adotarão todas as medidas apropriadas para eliminar a dis-


criminação contra a mulher, a fim de assegurar-lhe a igualdade de direitos com
o homem na esfera da educação e em particular para assegurarem condições de
igualdade entre homens e mulheres [...]”.

ARTIGO 11 - busca proteger as mulheres trabalhadoras:

“Os Estados-Partes adotarão todas as medidas apropriadas para eliminar a discri-


minação contra a mulher na esfera do emprego a fim de assegurar, em condições
de igualdade entre homens e mulheres, os mesmos direitos, em particular [...]”.

Saiba mais!
No parágrafo segundo do mesmo artigo, a Convenção demonstra a
preocupação com as mulheres trabalhadoras que são casadas e exercem
a maternidade. Esse item busca, na verdade, assegurar a essas mulheres o
seu direito ao trabalho:

“A fim de impedir a discriminação contra a mulher por razões de casamento ou


maternidade e assegurar a efetividade de seu direito a trabalhar, os Estados-Partes
tomarão as medidas adequadas para: a) Proibir, sob sanções, a demissão por
motivo de gravidez ou licença de maternidade e a discriminação nas demissões
motivadas pelo estado civil; b) Implantar a licença de maternidade, com salário
pago ou benefícios sociais comparáveis, sem perda do emprego anterior,
antiguidade ou benefícios sociais; c) Estimular o fornecimento de serviços sociais
de apoio necessários para permitir que os pais combinem as obrigações para com
a família com as responsabilidades do trabalho e a participação na vida pública,
especialmente mediante fomento da criação e desenvolvimento de uma rede de
serviços destinados ao cuidado das crianças; d) Dar proteção especial às mulheres
durante a gravidez nos tipos de trabalho comprovadamente prejudiciais para elas”.
2. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO ITERNACIONAL

ARTIGO 16 - não deveria a responsabilidade de continuidade da humanidade ser


de todos? Examente por isso, o artigo 16 se preocupa com a contenção e superação
da discriminação nos espaços relacionais e familiares:

“Art. 16. Os Estados-Partes adotarão todas as medidas adequadas para eliminar


a discriminação contra a mulher em todos os assuntos relativos ao casamento
e às relações familiares e, em particular, com base na igualdade entre homens e
mulheres, assegurarão:

a) O mesmo direito de contrair matrimônio;

b) O mesmo direito de escolher livremente o cônjuge e de contrair matrimônio


somente com livre e pleno consentimento;

c) Os mesmos direitos e responsabilidades durante o casamento e por ocasião de


sua dissolução;

d) Os mesmos direitos e responsabilidades como pais, qualquer que seja seu


estado civil, em matérias pertinentes aos filhos. Em todos os casos, os interesses
dos filhos serão a consideração primordial;

e) Os mesmos direitos de decidir livre a responsavelmente sobre o número de


seus filhos e sobre o intervalo entre os nascimentos e a ter acesso à informação, à
educação e aos meios que lhes permitam exercer esses direitos;

f) Os mesmos direitos e responsabilidades com respeito à tutela, curatela, guarda


e adoção dos filhos, ou institutos análogos, quando esses conceitos existirem na
legislação nacional. Em todos os casos os interesses dos filhos serão a consideração
primordial;

g) Os mesmos direitos pessoais como marido e mulher, inclusive o direito de


escolher sobrenome, profissão e ocupação;

h) Os mesmos direitos a ambos os cônjuges em matéria de propriedade, aquisição,


gestão, administração, gozo e disposição dos bens, tanto a título gratuito quanto a
título oneroso.”
2. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO ITERNACIONAL

Vamos conhecer agora um pouco da evolução histórica da construção dos direitos


humanos das mulheres, a partir da Declaração Universal de Direitos Humanos de
Viena, de acordo com a qual os direitos humanos das mulheres e crianças do sexo
feminino são inalienáveis, integrais e indivisíveis dos direitos humanos universais
(artigo 18), sendo o primeiro documento a reconhecer, conforme já vimos, os direitos
das mulheres como direitos humanos e a considerar imprescindível a igualdade de
condições no âmbito político, econômico e laboral de mulheres e homens (ONU,
1993).

1993
Ainda em 1993, a Declaração sobre a Eliminação da Violência Contra as Mulheres foi
proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, na sua Resolução n. 48/104,
de 20 de dezembro de 1993. O documento destaca que a violência contra a mulher
é um limitador a todos os demais direitos fundamentais previstos em documentos
internacionais e nacionais, bem como define violência como um ato físico, sexual e
psicológico (PIOVESAN, 2014).

Saiba mais!
Nesse sentido, a declaração conceitua que violência contra as mulheres é:
 
“qualquer ato de violência baseado no gênero do qual resulte, ou possa resultar,
dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico para as mulheres, incluindo
as ameaças de tais atos, a coação ou a privação arbitrária de liberdade, que
ocorra, quer na vida pública, quer na vida privada” (ONU, 1993).

1994
Em 1994, a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento cria o
Programa Ação de Cairo, que expõe a necessidade da promoção da igualdade de
gênero, do acesso igualitário à educação para meninas e da supressão de qualquer
tipo de violência de gênero contra as mulheres (ARAUJO, 2016).
2. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO ITERNACIONAL

1995

A Quarta Conferência Mundial sobre as Mulheres, realizada em 1995, adotou a


Declaração de Pequim como Ação para a Igualdade, Desenvolvimento e Paz, rea-
firmando e reconhecendo direitos discutidos e previstos em outras conferências
e convenções. Cumpre destacar que esse documento considera os direitos das
mulheres como direitos humanos, bem como protege a igualdade de direitos e
oportunidades e de acesso aos recursos.

2010

Por fim, em 2010, é criada a ONU Mulheres (UN Women), unificando-se todos os ór-
gãos de igualdade de gênero e empoderamento (ARAUJO, 2016). A ONU Mulheres
tem como objetivo a defesa dos direitos humanos das mulheres, especialmente
mulheres negras, indígenas, trabalhadoras domésticas e rurais. Como áreas prio-
ritárias, destaca-se o fim da violência contra mulheres e meninas e o empodera-
mento econômico.

Saiba mais!

Cabe destacar também as Resoluções n. 11/2, de 2009, e 14/12, de 2010, do Conse-


lho de Direitos Humanos da ONU. Elas criam e fortalecem métodos efetivos para a
eliminação da violência de gênero contra as mulheres. Possuem como foco o alcance
universal de todas as mulheres, especialmente as minorias, como mulheres indígenas,
negras e trabalhadoras rurais (PIOVESAN, 2014).

OBSERVAÇÕES

• Recomenda-se a leitura do documento “Resolution 11/2. Accelerating efforts to eliminate all for-
ms of violence against women” na íntegra (em inglês): http://www.un.org/womenwatch/daw/
vaw/humanrights/A_HRC_RES_11_2.pdf .
2. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO ITERNACIONAL

• O documento “Accelerating efforts to eliminate all forms of violence against women: ensuring
due diligence in prevention” encontra-se disponível em inglês no site: https://documents-dds-
-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/G10/147/99/PDF/G1014799.pdf?OpenElement .

Até o momento, vimos a construção dos direitos humanos das mulheres e dos
mecanismos de proteção e defesa desses direitos no âmbito internacional. Agora,
vamos abordar a violência de gênero contra a mulher no âmbito do sistema
regional, especialmente o do continente americano, no qual o Brasil se insere.
Para isso, estudaremos os documentos regionais do continente americano e casos
da Comissão e da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
3. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO REGIONAL

3 Proteção da mulher no âmbito regional


No âmbito regional, destaca-se a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir,
Erradicar a Violência contra a Mulher, também chamada de Convenção de Belém do
Pará. A Convenção foi aprovada no âmbito da Organização dos Estados Americanos
(OEA), em 1994, e ratificada pelo Brasil no ano de 1995 (PIOVESAN, 2014).

1. Esse documento reconhece que a violência de gênero contra a mulher é


resultado do contexto histórico da desigualdade de poderes entre homens e
mulheres. Além disso, é o primeiro tratado de direitos humanos que reconhece
a violência de gênero contra as mulheres como um fenômeno generalizado,
ou seja, que alcança a todos, independentemente da religião, classe, etnia,
cultura ou país (ARAUJO, 2016).

2. O artigo 2º da Convenção entende que a violência abrange aquela de caráter


físico, sexual e psicológico:

“a) ocorrida no âmbito da família ou unidade doméstica ou em qualquer


relação interpessoal, quer o agressor compartilhe, tenha compartilhado ou
não a sua residência, incluindo-se, entre outras formas, o estupro, maus-
tratos e abuso sexual;

b) ocorrida na comunidade e comedida por qualquer pessoa, incluindo,


entre outras formas, o estupro, abuso sexual, tortura, tráfego de mulheres,
prostituição forçada, sequestro e assédio sexual no local de trabalho, bem
como em instituições educacionais, serviços de saúde ou qualquer outro
local; e

c) perpetrada ou tolerada pelo Estado ou seus agentes, onde quer que


ocorra” (BRASIL, 1996).

3. O texto reconhece outros tipos de violência, como a psicológica e a moral,


e admite que o Estado pode ser autor da violência quando há omissão no
âmbito de políticas públicas ou de legislações protetivas. Nessa perspectiva,
 
“O diferencial do presente texto reside em abranger a violência psicológica,
posto que é a primeira a ser perpetrada como meio para a violência física
3. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO REGIONAL

e sexual; além de identificar o sujeito ativo da violência, seja na família ou


unidade doméstica, na comunidade, ou perpetrada pelo Estado ou seus
agentes” (TEIXEIRA, p. 677).

4. A Convenção de Belém também trouxe instrumentos que permitem que as


vítimas peticionem à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Esses
pedidos podem ser feitos por organizações não governamentais ou por grupos
de pessoas (PIOVESAN, 2014).

Fique alerta!
É importante destacar que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos
difere da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Pode-se afirmar que a
Comissão é uma espécie de ministério público, onde se verifica a possibilidade
de ajuizamento da ação, e a Corte é um órgão jurisdicional. Para mais
informações, recomenda-se a seguinte leitura: OEA. Comissão Interamericana
de Direitos Humanos: mandato e funções. O que é a CIDH? Disponível em:
<http://www.oas.org/pt/cidh/mandato/que.asp>. Acesso em: 10 ago. 2017.

Ainda no âmbito do sistema americano, o Programa da Ação Regional para as


Mulheres da América Latina (1995 – 2001), de iniciativa da ONU e de 33 Estados,
tem como objetivo a consolidação dos direitos humanos das mulheres na região
latino-americana e eliminar quaisquer resquícios de violência de gênero contra as
mulheres (CEPAL, 2017).

Vamos, agora, fazer uma análise da proteção da mulher no âmbito do Brasil,


especialmente a Lei n. 11.340, conhecida popularmente por “Lei Maria da
Penha”, promulgada em 7 de agosto de 2006, após a condenação do Estado
brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos.

A lei leva esse nome em decorrência de Maria da Penha, mulher que sofreu
inúmeros atos de violência praticado pelo seu ex-marido, como o cárcere privado,
a tortura e o choque elétrico, o que a deixou paraplégica. Como não havia
3. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO REGIONAL

condenação no âmbito judicial, ela buscou ajuda na Comissão Interamericana de


Direitos Humanos (LAVIGNE, 2009).

Saiba mais!

Para mais informações sobre a biografia de Maria da Penha, recomenda-se a


leitura de seu livro “Sobrevivi posso contar” (2010), pela editora Armazém da
Cultura.
 
Para uma análise mais profunda do caso de Maria da Penha na
Comissão Interamericana de Direitos Humanos, recomenda-se a
leitura do resumo disponível no site da Comissão: http://www.cidh.org/
annualrep/2000port/12051.htm#_ftn9 .

E por que o Brasil foi condenado?


A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) concluiu que o Estado
brasileiro violou a Convenção Interamericana de Direitos Humanos por ter
demorado na aplicação jurisdicional e processual em casos de violência doméstica
(CIDH, 2000).

**A Convenção Americana de Direitos Humanos é conhecida também como Pacto


de São José da Costa Rica e foi ratificada pelo Brasil em 1992. Encontra-se disponível
em: https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm .

A Comissão entendeu, ainda, que o Brasil também violou a Convenção de Belém


do Pará, especificamente, o artigo 7º, de acordo com o qual os Estados-partes
condenam todas as formas de violência contra a mulher e concordam em adotar,
por todos os meios apropriados e sem demora, políticas destinadas a prevenir,
punir e erradicar tal violência, bem como em empenhar-se para (CIDH, 2017):

1. abster-se de qualquer ato ou prática de violência contra a mulher e velar


para que as autoridades, seus funcionários e pessoal, bem como agentes e
instituições públicos ajam em conformidade com essa obrigação;
3. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO REGIONAL

2. agir com o devido zelo para prevenir, investigar e punir a violência contra a
mulher e incorporar na sua legislação interna normas penais, civis, administrativas
e de outra natureza que sejam necessárias para prevenir, punir e erradicar
a violência contra a mulher, bem como adotar as medidas administrativas
adequadas que forem aplicáveis;

3. adotar medidas jurídicas que exijam do agressor que se abstenha de perseguir,


intimidar e ameaçar a mulher ou de fazer uso de qualquer método que danifique
ou ponha em perigo sua vida ou integridade ou danifique sua propriedade;

4. tomar todas as medidas adequadas, inclusive legislativas, para modificar


ou abolir leis e regulamentos vigentes ou modificar práticas jurídicas ou
consuetudinárias que respaldem a persistência e a tolerância da violência
contra a mulher;

5. estabelecer procedimentos jurídicos justos e eficazes para a mulher sujeitada


a violência, inclusive, entre outros, medidas de proteção, juízo oportuno e
efetivo acesso a tais processos;

6. estabelecer mecanismos judiciais e administrativos necessários para


assegurar que a mulher sujeitada a violência tenha efetivo acesso a restituição,
reparação do dano e outros meios de compensação justos e eficazes, bem
como adotar as medidas legislativas ou de outra natureza necessárias à
vigência da Convenção de Belém.

Quais as medidas tomadas pelo Estado brasileiro?

Como resposta à Comissão, o Estado brasileiro criou ações políticas e legislativas


para combater a violência de gênero contra as mulheres. Criou-se a Secretaria
Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e, no âmbito jurídico, a Lei Maria
da Penha e a Lei n. 13.104 (Lei do Feminicídio), de 2015.

A Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio são consideradas marcos para o


enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres no Brasil. Vamos
conhecer um pouco mais sobre elas.
3. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO REGIONAL

1. LEI MARIA DA PENHA

A Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340/2006) conceitua violência doméstica e familiar


contra a mulher como “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.
A legislação tem como objetivo a criação de “mecanismos para coibir e prevenir a
violência doméstica e familiar contra a mulher” (BRASIL, 2006).

Saiba mais!

Em 2017, a Lei completou 11 anos de vigência e, embora os índices de violência


ainda sejam altos, contribuiu para que houvesse redução de 10% no número
de homicídios, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(IPEA). Em números reais, significa dizer que a lei evitou que milhares de
mulheres fossem vítimas da violência doméstica e familiar (IPEA, 2015).

2. LEI DO FEMINICÍDIO

A Lei n. 13.104, de 2015, conhecida como “Lei do Feminicídio”, adiciona ao artigo


121 do Código Penal o inciso VI, estabelecendo que feminicídio é crime “contra a
mulher por razões da condição de sexo feminino”. Prescreve, ainda, que:

“§ 2º A – Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o


crime envolve:

I – violência doméstica e familiar;

II – Menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

[...]
§ 7º A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o
crime for praticado:
3. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO REGIONAL

I – durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto;

II – contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos ou


com deficiência;

III – na presença de descendente ou de ascendente da vítima” (BRASIL, 2015).

Saiba mais!

Nesse sentido, essa lei é um marco no enfrentamento da violência de


gênero, já que “o crime de feminicídio é a expressão extrema, final e fatal
das diversas violências que atingem as mulheres em sociedades marcadas
pela desigualdade de poder entre os gêneros masculino e feminino
e por construções históricas, culturais, econômicas, políticas e sociais
discriminatórias” (FUNDAÇÃO ROSA LUXEMBURGO; INSTITUTO PATRÍCIA
GALVÃO, p. 10).

Cabe destacar que a lei por si só não enfrentará a violência doméstica no país,
sendo necessário ir de encontro à ideologia machista e patriarcal, e principalmente,
desmiuçar e extirpar a desigualdade entre poderes de homens e mulheres na
sociedade brasileira.

Todos esses fatores limitam os avanços para acabar com a violência contra as
mulheres. Entretanto, deve-se considerar que, há apenas algumas décadas atrás,
o assassinato da esposa, em caso de traição desta, era justificado em nome da
legítima defesa da honra. (IPEA, 2015).
3. PROTEÇÃO DA MULHER NO ÂMBITO REGIONAL

Saiba mais!
Embora a Constituição Federal de 1988, no artigo 226, parágrafo 5o, tenha
igualado as funções entre homens e mulheres na sociedade conjugal, somen-
te em 1995 foi revogado o artigo 35 do Código de Processo Penal, que esta-
belecia que a mulher casada não poderia exercer o direito de queixa sem o
consentimento do marido, exceto se estivesse separada (IPEA, 2015).

Por essa razão, faz-se necessária, além da legislação, uma mudança cultural no
país, para que se possibilite um acesso igualitário a oportunidades para todas as
mulheres brasileiras.

Revisão
Encerramos aqui esta primeira aula. Vamos revisar o que estudamos
até o momento?

Nesta aula, você pode verificar que abolir a violência de gênero é um


desafio de longas décadas. A legislação não será capaz, por si só, de
mudar essa realidade, sendo necessária também uma mudança cultural
na sociedade brasileira.

Você viu, ainda, que todas as legislações sobre o tema existentes


hoje no ordenamento jurídico brasileiro derivam de convenções e tratados
internacionais, que contribuíram para que se construísse no Brasil marcos
jurídicos para coibir a violência de gênero, como a Lei Maria da Penha e a
Lei do Feminicídio.

Cabe aos operadores de direito a busca pela aplicação dessas leis


numa perspectiva de gênero, considerando a história de desigualdade
existente entre homens e mulheres.

Até a próxima aula!

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