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PLANO DE CURSO

CONSTITUCIONALISMO NEGRO, SUJEITO CONSTITUCIONAL INSURGENTE E A


CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA NEGRA NO BRASIL

Samuel Vida1

Ementa: O curso tem como objetivo apresentar a abordagem sobre a formação e o


desenvolvimento da experiência jurídica moderna e seus paradigmas, a partir dos
deslocamentos epistemológicos, teóricos e práticos propiciados pelo campo de
investigações Direito e Relações Raciais (DRR), na contemporaneidade.

1. Referências Epistemológicas, Pedagógicas, Didáticas, Metodológicas e Recursos


Utilizados:

a) Crítica ao paradigma científico hegemônico e ao estatuto epistemológico adotado


pelas ciências sociais modernas, destacando seu caráter parcial, etnocêntrico e
racista, e a consequência de apagamento da participação histórica dos povos e
indivíduos subalternizados durante a formação da Modernidade;

b) Identificação da racialização excludente na razão jurídica moderna, desde o


jusnaturalismo racional ou antropológico, passando pelo positivismo jurídico e
chegando ao pós-positivismo jurídico;

c) Indicar o desafio de resgatar as contribuições e o protagonismo dos africanos e


seus descendentes na diáspora na formação da Modernidade e as implicações para
repensar o Direito e as suas Instituições e Teorias;

d) Identificar a possibilidade de releitura inclusiva das contribuições negras no


desenvolvimento do Direito Moderno, as razões do silenciamento acerca deste
protagonismo e a relevância de sua recuperação para a teoria e a prática jurídicas do
presente;

e) Dialogar criticamente com a historiografia, especialmente a que aborda os


fenômenos da colonização, escravização e desenvolvimento da Modernidade,
contrapondo as idealizações jurídicas que alimentam o imaginário e a prática do
campo jurídico com as realidades históricas efetivamente vividas;

f) Considerar as formulações e reflexões teóricas produzidas nas margens, nas


fronteiras, especialmente aquelas produzidas pelos subalternizados a partir de suas
experiências concretas de resistência e de suas epistemes resistentes ao
epistemicídio;

g) A partir da crítica ao modelo educacional tradicional, centrado na passividade do


aluno e na pretensão de transmissão do conhecimento, será adotada perspectiva
crítica, orientada para abordagens que reconheçam e otimizem o processo
educacional como dinâmica construtiva protagonizada pelos sujeitos envolvidos
(professor, alunos, comunidade(s) envolvida(s) e/ou interessada(s), de caráter

1
Professor da Faculdade de Direito da UFBA, Coordenador do Programa Direito e Relações Raciais –
PDRR – UFBA, Doutorando em Direito, Estado e Constituição – UnB.
Rua do Carro, 136, Edf. Centro de Cultura João Mangabeira, Campo da Pólvora, CEP 40.040-240, Salvador, BA
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histórico-político e relativamente aberta, flexível, conduzida de forma compartilhada e
corresponsável;

h) Combinar a utilização da aula expositiva on line, as leituras sugeridas e a interação


dos cursistas durante os encontros, avaliando, ao final, a possibilidade de continuar o
curso através de novas etapas de aprofundamento e ampliação das temáticas
apresentadas.

2. Conteúdo Programático e Cronograma:

AULA 1 – 11 de setembro de 2020 – Introdução e explicação sobre o curso. Raça na


formação da Modernidade. A falácia da narrativa universalista moderna e a
necessidade de “desocultamento” dos protagonismos das resistências indígenas e
negras. O discurso e a teoria jurídica moderna diante da realidade histórica de
violência, opressão racial e resistência: a estreita conexão entre as relações raciais
assimétricas e opressivas e as ideias, as instituições políticas e jurídicas, os
conhecimentos produzidos pelas universidades. O silenciamento imposto: o Haiti e seu
papel na formação do Constitucionalismo Moderno; A Revolta de Búzios, no Brasil.

Referências Básicas:

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Lisboa: Livraria Sá Costa Editora,


1978.

TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. São Paulo,


SP: Martins Fontes, 1982. 263p

DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro. A origem do "mito da


modernidade". Autor: Enrique Dussel Ano: 1993. Editora: Vozes Páginas: 196.

MOORE, Carlos. Racismo e Sociedade: novas bases epistemológicas para entender o


racismo. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

AULA 2 – 18 de setembro de 2020 – O que é Constitucionalismo, afinal? A formação


do Constitucionalismo Moderno, seus mitos e silenciamentos. Contratualismo,
liberalismo, escravidão negra e genocídio: uma história de cumplicidades. O
Constitucionalismo Inglês e o Tráfico Africano. O Constitucionalismo Norte-Americano
e a Democracia Escravagista. O Constitucionalismo Francês e o Haiti. A Constituição
do Haiti e seu apagamento histórico. Hegel, a Dialética do Senhor e do Escravo e o
Haiti (Pierre Franklin-Tavares; Susan Buck-Morss). Quem é Sujeito Constitucional? O
Constitucionalismo Negro: disputas pela liberdade nas sociedades coloniais, luta pela
cidadania nas sociedades pós-coloniais, disputas político-jurídicas na diáspora, pan-
africanismo, luta pelos direitos civis nos EUA, luta pelas políticas de ações afirmativas
etc.

Referências Básicas:

MBEMBE, Achille. As políticas da inimizade. Lisboa: Antígona, 2017.

JAMES, C. L. R. Os jacobinos negros: Toussaint L’Ouverture e a revolução de São


Domingos. São Paulo: Boitempo, 2000.

BUCK-MORSS, Susan. Hegel e o Haiti. São Paulo: n-1 edições, 2018.


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QUEIROZ, Marcos Vinícius Lustosa. Constitucionalismo brasileiro e o Atlântico
Negro: a experiência constituinte de 1823 diante da Revolução Haitiana. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2017.

DUARTE, Evandro C. Piza; QUEIROZ, Marcos V. Lustosa. A Revolução Haitiana e o


Atlântico Negro: o constitucionalismo em face do lado oculto da modernidade.
In: Direito, Estado e Sociedade, n. 49, jul/dez, 2016.

ROSENFELD, Michel. A identidade do sujeito constitucional. Tradução Menelick de


Carvalho Netto. Belo Horizonte: Mandamentos, 2003

AULA 3 - 22 de setembro de 2020 - O Constitucionalismo Negro, Sujeito


Constitucional Insurgente e a construção da cidadania negra no Brasil. Quilombismo
Jurídico, disputa jurídica contra-colonial e juridicidade alternativa. O Direito Colonial
refletindo a resistência negra: impactos diretos e indiretos. O Direito Nacional do
Império e a resistência negra: A Constituição de 1824, a Lei pra inglês, a Lei de Terras
ver e outras legislações disciplinadoras das Relações Raciais. Esperança Garcia, Luiz
Gama e o uso do direito nos Tribunais: apropriação e disputa. Pós-Abolição e disputas
pela cidadania. Imprensa Negra, Frente Negra e a Convenção do Negro na
Constituinte de 1945. Movimento Negro contemporâneo e suas estratégias político-
jurídicas: a constituinte de 87/88 e a conquista de um sistema constitucional
antirracista. A 3ª Conferência da ONU e o avança na conquista das Ações Afirmativas
e sua institucionalização constitucional e normativa. Outros aspectos do
constitucionalismo negro brasileiro.

Referências Básicas:

ARAÚJO, Maurício Azevedo de. Afirmando a alteridade negra e reconhecendo


direitos: as religiões de matriz africana e a luta por reconhecimento jurídico:
repensando a tolerância e a liberdade religiosa em uma sociedade multicultural. 2007.
120 f. Dissertação (Mestrado em Direito)-Universidade de Brasília, Brasília, 2007.

BERTÚLIO, Dora Lúcia de Lima. Direito e Relações Raciais: uma introdução crítica ao
racismo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019.

ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de. O Jogo da Dissimulação: abolição e cidadania


negra no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

BRITO, Luciana da Cruz. Temores da África: segurança, legislação e população


africana na Bahia oitocentista. Salvador: EDUFBA, 2016.

CARVALHO NETTO, Menelick de. A hermenêutica constitucional e os desafios postos


aos direitos fundamentais. In: SAMPAIO, José Adércio Leite (Coord.). Jurisdição
constitucional e direitos fundamentais. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 141-163

CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da


escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

GOMES, Rodrigo Portela. Constitucionalismo e quilombos: famílias negras no


enfrentamento ao racismo de Estado. Rio de Janeiro: Lumes Juris, 2019.

GOMES, Tatiana Emília Dias. Racismo Fundiário. In:


https://cptnacional.org.br/publicacoes/noticias/artigos/4669-racismo-fundiario-a-
elevadissima-concentracao-de-terras-no-brasil-tem-cor

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NERIS, Natália. A palavra e a voz do movimento negro na constituinte de 1988. Belo
Horizonte: Letramento, 2018.

VIDA, Samuel S. A esfinge que nos devora: Exuêutica Jurídica, Direito e Relações
Raciais (no prelo)

VIDA, Samuel S. Constitucionalismo Negro e o Sujeito Constitucional Insurgente (no


prelo).

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