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Caso 9 – Beto

Beto, um menino afro-descendente, de 7 anos, foi trazido para uma clínica de saúde mental
por sua mãe porque “ele está infeliz e sempre se queixando de enfermidades”. Vive com seus pais,
seu irmão mais jovem e uma avó. Sua mãe o descreve como uma criança que jamais foi muito feliz
e jamais desejou brincar com outras crianças.
Desde que iniciou na escolinha maternal, queixa-se de dores estomacais, cefaleias e vários
outros problemas físicos, que são mais intensos pela manhã, quando está se aprontando para ir à
escola. Nos últimos meses, suas queixas somáticas aumentaram, levando a um exame médico
completo, incluindo exame neurológico e eletroencefalograma, cujos resultados foram todos
normais.
Foi encaminhado ao serviço de psicologia.
Dados da entrevista psicológica indicaram que Beto saiu-se bem na primeira série, mas agora,
na segunda série, está tendo dificuldade para completar seus trabalhos. Ele precisa de muito tempo
para fazer seus deveres e, frequentemente, sente que precisa refazê-los, a fim de que fiquem
“perfeitos”.
Em vista de suas queixas somáticas frequentes, é difícil fazê-lo sair para ir à escola, todas as
manhãs. Se recebe permissão para ficar em casa, preocupa-se com o atraso na entrega de seus
trabalhos ou tarefas. Quando vai para a escola, frequentemente é incapaz de fazer os trabalhos, o
que o faz sentir-se impotente diante dessa situação.
A fim de passar bem o dia, ele leva consigo um bilhete que a mãe escreveu-lhe seguindo suas
instruções: “Você não vai sair cedo da escola hoje. Se sentir que precisa fazer várias vezes seu
trabalho, por favor, simplesmente faça-os o melhor que puder. Não pense sobre a hora do dia e esse
passará rapidamente.”
Suas preocupações expandiram-se além da escola, e ele frequentemente é agarrado e exigente
com os pais. Ele teme que cheguem atrasados em casa ou saiam sozinhos e algo lhes aconteça. Nas
duas últimas semanas, ele insistiu que seu irmão menor dormisse ao seu lado, porque temia dormir
sozinho à noite.
Embora a mãe de Beto reconheça que ele jamais foi realmente feliz, nos últimos 6 meses, ela
percebe que ele se tornou muito deprimido. Ele, frequentemente, fica andando pela casa, dizendo
que se sente demasiadamente cansado para fazer coisa alguma. Ele não demonstra interesse ou
prazer em brincar. Seu apetite diminuiu. Ele tem problemas para adormecer à noite e várias vezes
acorda no meio da noite ou muito cedo, pela manhã.
Três semanas atrás ele falou, pela primeira vez, acerca do seu desejo de morrer e disse que
talvez se dê um tiro.
A mãe de Beto engravidou 2 meses após casar-se. Ela nãos e sentia pronta para ter filhos.
Durante a gravidez sofreu de hipertensão e estava emocionalmente abatida. O parto foi complicado
em razão da crescente hipertensão. No momento do parto, conforme relatos, Beto quase teve uma
parada cardíaca. Durante sua primeira semana de vida, ele desenvolveu vômito em jato que persistiu
por 2 semanas. O menino teve enurese noturna até os seis anos.
Durante a avaliação, Beto permitiu que a mãe fosse para outra sala, para ser entrevistado, mas
após 20 minutos tornou-se aflito, começou a chorar e insistiu em ser levado a ela. Depois, dispôs-se
a sentar-se fora da sala onde estava sua mãe, desde que a porta ficasse aberta e pudesse vê-la.
Beto foi incapaz de terminar algumas tarefas durante a avaliação. Quis levá-las para casa, a
fim de fazer com calma para que ficassem perfeitas. Ficou muito preocupado com isso e, embora a
psicóloga avisasse que ele não precisava fazer isso, insistiu muito para leva-las.