Você está na página 1de 28

Financiadores do Projeto Entidades Executoras Financiador do Pronaf

Realização
Centro Vianei de Educação Popular
Avenida Papa João XXIII, 1565
Bairro: Ipiranga – Lages/SC
CEP: 88505-240
Fone/Fax: (49) 3222-4255
E-mail: vianei10@brturbo.com
Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí (Apremavi)
Rua: XV de Novembro, 118
Edifício Marcon – sala 27, 2º Andar
Rio do Sul/SC Caixa Postal: 218
CEP: 89160-000
Fone/Fax: (47) 3521-0326
E-mail: info@apremavi.org.br - www.apremavi.org.br

Centro de Motivação Ecológica e Alternativas Rurais – CEMEAR


Rua Rudolf Becker, 107
Centro, Presidente Getúlio – SC
CEP: 89150-000
Fone/FAX: 47 3352 0118
E-mail: cemearpq@hotmail.com

Texto
1
Karoline Lisanne Fendel

Revisão de Texto
2
Rainer Prochnow

Fotos
Rainer Prochnow
Karoline L. Fendel
Marcos Marques

Editoração
Super Nova Comunicação – (49) 3224-7934

Impressão

Tiragem

Apoio Financeiro
PNF e FNMA

Lages – SC
junho de 2007

1
Karoline Lisanne Fendel – Bióloga, Diretora da ONG V-Ambiental e Coordenadora da comissão de permacultura
e agroecologia de Itajaí - CPA
2
Rainer Prochnow – Engenheiro Agrônomo M.Sc. Agroecossistemas-UFSC.
2
APRESENTAÇÃO

É chegada a hora que nós seres humanos possamos perceber que fazemos parte desse

maravilhoso mundo de ciclos naturais e então, cooperar e interagir de alma e coração com

aquela que sempre nos deu tudo, a Mãe Terra.

Esta cartilha contém informações que podem ser úteis as pessoas que se interessam por

uma vida mais harmônica e conectada com a terra. A cartilha é apenas uma etapa e uma

síntese de muitos trabalhos e informações, que foram geradas através do estudo e de

observações, de muitos agricultores, antigos povos e ambientalistas, para poder interagir mais

harmoniosamente com a natureza.

Um planejamento agrícola ecológico integrado com a natureza é mais harmonioso,

funcional e produtivo e é uma maneira de diminuir o impacto negativo que ainda é causado por

todos nós no planeta.

A velha frase: “Pensar globalmente e agir localmente” é bastante significativa quando se

pensa em conexões entre tudo e todos, nossas ações e pensamentos são ressonados no

universo e refletidos para nós novamente.

Fazendo o bem para as pessoas, aos animais, a terra e à natureza em geral é estar

fazendo o bem a nós mesmo, pois todos somos um só.

“Quando eu único homem chego à

plenitude do amor, neutralizo o ódio

de muitos milhões”

Mahatma Gandhi

Karoline Lisanne Fendel

3
SUMÁRIO

Introdução ............................................................................................................................. 5
Parte 1 – Planejamento Ecológico da Unidade Agrícola Familiar ......................................... 5
O Contexto e a Importância do Planejamento Ecológico do Imóvel Rural ............................ 6
Fundamentos Para o Planejamento ...................................................................................... 6
Mudança de visão – um novo paradigma .......................................................................... 6
Bases éticas e teóricas para criar ambientes cultivados de longa duração ....................... 7
A natureza nos ensina ....................................................................................................... 8
Características básicas de um planejamento ecológico de imóvel rural .......................... 10
Leitura do ambiente ......................................................................................................... 11
Auto-suficiência................................................................................................................ 12
A Realidade Local............................................................................................................ 13
Características gerais do terreno ..................................................................................... 13
Microclimas ...................................................................................................................... 14
Vegetação........................................................................................................................ 15
Planejamento das águas ................................................................................................. 15
Aqüacultura – Policultura na Água................................................................................... 16
Zonas e Setores............................................................................................................... 17
Zonas............................................................................................................................... 18
Setores ............................................................................................................................ 18
Glebas ............................................................................................................................. 19
Animais ............................................................................................................................ 20
Desenho do Planejamento Ecológico da Unidade Agrícola Familiar ............................... 21
Implantação e Manutenção.............................................................................................. 22
Planejamento da Paisagem em Escalas Maiores ............................................................ 23
Glossário.......................................................................................................................... 24
Referências...................................................................................................................... 27

4
Introdução

M uitas vezes ficamos em dúvida a respeito de certos posicionamentos de elementos,


como galinheiro, horta, pomar, gado, casa, lago dentro de um sítio. A idéia de planejamento
rural vem de encontro com essa indagação para facilitar e estimular o pensamento lógico de
observação e percepção da natureza para posicionar estes elementos.

A propriedade pode ser dividida em zonas e setores para facilitar a divisão de energias,
como também o posicionamento dos elementos, priorizando a quantidade de visitas e uso da
área. Mesmo sítios pequenos possuem áreas mais e menos visitadas que podem receber
tratamentos e manejos diferentes.

O planejamento e a reutilização dos recursos renováveis como água e energias tais


como vento e sol, podem e devem ser aproveitadas. Uma lagoa pode ter muitas funções dentro
do sistema, sendo um ambiente super-produtivo, aproveitando o sol para secagem de frutas e
outros materiais é uma maneira de utilizar um recurso vindo de graça do céu.

Pequenas mudanças no nosso cotidiano e novas ações podem mudar nossa relação
com o ambiente a nossa volta transformando-o num local mais pacífico e integrado com a
natureza. Esta cartilha é um instrumento resumido de muitos materiais de planejamento rural
ecológico que encontramos em algumas bibliotecas.

Esse conhecimento não é novo para ninguém, na verdade ele é um conhecimento antigo
de povos tradicionais que viviam em contato com a natureza. Assim como faço aqui este
conhecimento deve ser dividido e repassado para muitas gerações vindouras, para que
possamos mais uma vez viver em harmonia com a natureza.

Parte 1 – Planejamento Ecológico da Unidade Agrícola Familiar


Todos nós percebemos que o mundo está passando por um processo de crise ambiental
e social. Problemas como mudanças climáticas, mau uso do solo, exaustão dos recursos
naturais e excesso de poluição são alguns dos problemas mais percebidos. Ao nível social
vemos famílias desunidas, jovens sem rumo e desunião comunitária. Valores históricos e éticos
estão se perdendo e a conexão com a terra está sendo esquecida. Esses acontecimentos
mundiais são refletidos também em nosso país, estado e município. Ao mesmo tempo em que
nos sentimos impotentes em respeito a tudo isso, podemos mudar esse cenário agindo
localmente começando em nossas casas. Assim como uma pedra ressona ao ser jogada num
lago de dentro para fora, nossas ações ressonam no universo.

Através de um planejamento ecológico da unidade agrícola podemos tornar nosso lar


menos impactante para o ambiente, otimizando espaços, energia e produções deixamos a
unidade familiar mais harmoniosa com a natureza. O planejamento ecológico é uma das
alternativas que possibilita o homem organizar e obter do ambiente sua subsistência, sem
degradá-lo, convivendo de forma positiva e ética.

Esta cartilha vem como um subsídio para os agricultores e agricultoras que querem
planejar seus imóveis rurais de forma harmoniosa e funcional, permitindo que a unidade
agrícola familiar esteja enquadrada nas leis ambientais.

5
O Contexto e a Importância do Planejamento Ecológico do Imóvel Rural
Uma propriedade agrícola independente do seu tamanho e local pode ser bem
planejada de forma que traga benefícios para o agricultor e para a natureza, melhorando a
paisagem rural.

A base para um bom planejamento provêm da observação da natureza, topografia,


solo, ventos, clima e de microclimas. A partir disto poderemos posicionar estruturas, plantas e
animais nos locais mais favoráveis. Focalizar energias benéficas e dispensar energias hostis
como ventos fortes e frios intensos.

Informações sobre a área como também mapas facilitam o processo de planejamento.


Sendo assim, um bom planejamento resulta em otimização dos espaços, melhora da qualidade
da produção, qualidade da água, economia de energia dentro do sistema e também diminui os
impactos negativos no ambiente e na paisagem visual. Obtêm-se por fim, uma diversidade de
produtos como fibras, lenha, madeira, plantas medicinais, produtos animais, frutas, corantes,
essências, provenientes de jardins, hortas, pomares e agroflorestas e serviços ambientais.

A maior eficiência no uso da energia que permite um planejamento rural ecológico, é


resultado das conexões que se realizam entre os elementos do sistema (sítio rural). Colocados
em diferentes zonas e setores, esses elementos quando conectados, mantidos e manejados
corretamente exercem auto-regulação. Assim como nosso corpo mantém a nossa temperatura
corporal, pH sanguíneo, fluxo de células, distribuição de nutrientes para as diferentes partes,
braços, pele, órgãos que funcionam separados e juntos ao mesmo tempo.

Fundamentos Para o Planejamento


Mudança de visão – um novo paradigma

Muitos costumes e tecnologias atuais tem grande influência da Revolução Industrial e


da segunda Guerra Mundial. Nossa agricultura tornou-se altamente mecanizada e os
agroquímicos aparecem como solução simples e rápida. As monoculturas facilitam cultivos em
grade escala, sendo uma solução rápida que prioriza lucros e acumulação de capital, levando à
destruição dos ecossistemas e da agricultura tradicional de pequena escala. Como seqüela
destes fatos, fomos levados a acreditar num padrão de uniformidade, refletidos na sociedade,
agricultura, costumes e principalmente no pensar.

Fomos levados a acreditar que a fábrica servia de modelo à floresta ao invés da


sociedade tomar a floresta como modelo. A floresta não á apenas uma fonte de madeira e sim
de diversos produtos como água, forragem, alimento, remédios e etc.

Esse olhar extrator de produção sobre a floresta, é uma visão reducionista e


fragmentada. Essa visão fragmenta os acontecimentos, sem a percepção de causa e efeito,
que também nos induz a acreditar que não existe conexão alguma entre os agrotóxicos, o
câncer e a contaminação dos recursos hídricos.

Hoje, algumas pessoas sabem que esse caminho não foi uma boa escolha, e que a
visão reducionista deve ser substituída por uma visão holística, olhar para a floresta e para os
outros seres vivos e perceber a interação que há entre eles, como também olhar o sítio como
fonte de energia e nutrientes.

6
A visão holística é uma forma de conhecer o todo para entender as partes, isto é, temos
que imaginar que estamos olhando uma situação de cima de um avião e ver como cada ação
causa uma reação e perceber a incrível conexão entre tudo e todos.

A vida existe numa condição de fluxo, não de controle imposto e responde a qualquer
forma de controle de um jeito novo. Por isso devemos ter responsabilidades com cada ação
que podemos causar.

Figura 1: Interações entre os seres vivos, a teia da vida.

A visão holística também nos mostra que o todo é muito maior que apenas a soma das
partes, por exemplo: A água é constituída pela ligação dos gases oxigênio e hidrogênio, no
entanto ela apresenta propriedades físico-químicas diferentes dos dois gases. Esta visão
enfoca as interações entre as partes.

O ser humano é apenas um fio da teia que envolve toda a vida na Terra, interagindo o
tempo todo com outros sistemas, incluindo o Universo. Nossas ações assim como de qualquer
coisa viva, são refletidas no ambiente onde vivemos em diferentes escalas de tempo, essa
resposta do espaço-tempo a essas ações chama-se retro-alimentação (feedback), ou
conhecida como a lei universal do retorno.

Na vida como a conhecemos, todo acontecimento provêm de uma causa, assim como
pragas na horta podem ser devido à baixa fertilidade do solo e/ou falta de algum nutriente,
deixando a planta fraca e acessível para insetos. A natureza o tempo todo nos diz o que está
acontecendo através das conexões, apenas temos que entendê-la e trabalhar junto com ela.

Bases éticas e teóricas para criar ambientes cultivados de longa duração

Os povos antigos passavam para as gerações seguintes seus conhecimentos de


convivência com a terra, através de tradições orais, relatos históricos, mensagens de alerta e
conduta com o meio ambiente. Essas antigas comunidades tradicionais tinham entre elas um
acordo de convivência, que conhecemos por ética e princípios.

As bases éticas de cuidado com a natureza, possibilitavam uma convivência de


respeito e integração com o meio ambiente, como também um cuidado com as pessoas da
comunidade, e o mais importante, a simplicidade e o cooperativismo, fortalecendo a repartição
da produção.

Para planejar é necessário que saibamos a grande responsabilidade que temos com a
terra, respeitar todas as formas de vida e entender que todas elas são necessárias para o meio
em que vivemos. O bom senso e alguns padrões de consumo precisam ser re-avaliados para
que possamos estar abertos para entender a complexidade de inter e intra relações existente
na natureza.
7
Um dos princípios mais usados no planejamento ecológico é a observação e interação
dos sistemas naturais. Interagir com o clima, épocas do ano, animais, plantas etc., além de
observar os ciclos astronômicos, como alguns agricultores tradicionais que usavam as fases
lunares para realizar plantações.

Para desenvolver um ambiente estável, devemos observar mais de perto os ciclos de


interdependência e interações dos organismos vivos. Todas as formas vivas possuem energia,
sendo que esta circula dentro do sistema e é sempre transferida para outras formas, e nesse
processo, parte da energia é perdida na forma de calor.

Os princípios pelos quais a energia flui se aplicam a todo o Universo, do mundo


molecular ao vasto sistema estrelar. Na floresta e nas cadeias alimentares podemos perceber
essa transferência de energia muito claramente, formando ciclos.

Os ciclos são uma estratégia da natureza para retornar a energia e ciclar os materiais,
todo ciclo é um evento único e, nós seres humanos deveríamos nos sentir privilegiados por
fazer parte de tamanha renovação.

A floresta como ecossistema possui seu próprio ciclo, cumpre a tarefa de moderação
climática, ciclagem de nutrientes e manutenção da umidade. Devido às conexões, um ciclo
afeta outro causando interações com outros microclimas ou mesmo climas regionais e globais.
Essas interações de ciclos acontecem no planeta Terra de forma regulatória e compensatória.
Desta forma podemos entender que a Terra funciona como um super-organismo auto-regulado
(teoria Gaia).

Dentro de uma propriedade rural é importante utilizar ciclos de forma a conservar ao


máximo a energia dentro do sistema. Aumentar ciclos é aumentar a oportunidade de produção,
todo ciclo é um potencial de mudar, diversificar e reintegrar energias.

Uma forma simples e aplicável deste princípio é utilizar o lixo orgânico e restos
vegetais para produção de composto orgânico, um material rico em nutrientes que serve como
ótimo adubo.

O esterco e o húmus formado de restos vegetais, são ótimos insumos gerados dentro
da propriedade que servem para adubação e enriquecimento do solo, principalmente para a
produção ecológica de hortaliças.

Um solo vivo, com microorganismos, minhocas, rico em nutrientes como o de uma


floresta é a garantia de uma boa produção. Agroflorestas são uma boa maneira de trabalhar
com um solo desgastado e pobre, muitas plantas, principalmente leguminosas tem como
função nutrir o solo assim como também a serrapilheira ou palhada ajudam nesse processo,
garantindo humildade e proteção a terra.

A natureza nos ensina

Observando a natureza cuidadosamente podemos notar que existem vários padrões que
se repetem, como o padrão arredondado. Dificilmente se encontra algo quadrado na natureza,
existem diversas formas como elíptico, oval, ondulado e hexagonal. O entendimento dos
padrões da natureza é importante, pois nos ajuda a criar paisagens que funcionam como
sistemas naturais saudáveis, onde o uso da energia é otimizado sendo ela conservada.

No desenho e planejamento os padrões são utilizados na construção de caminhos de


acesso, hortas, pomares, curvas de nível e divisões de zonas e setores. Um bom exemplo
8
simples de como um padrão pode ajudar no planejamento funcional é um espiral de ervas.
Fazendo um espiral ascendente de pedras, tijolos ou outro material disponível no local, com
uma base de 2 metros e uma altura de 1 metro, pode-se plantar muitas ervas que necessitam
de diferentes ambientes. O espiral cria diferentes microclimas como áreas úmidas, secas,
ensolaradas e de sombra.

Karoline Fendel

Fotos: Demonstrando a associação


entre o padrão espiral e o caramujo.

O padrão espiral é muito comum na natureza, em cipós, nas galáxias, caramujos, a


circulação global de ar e também no sistema solar, ele permite que em uma pequena área você
consiga plantar diferentes plantas com diferentes necessidades, permitindo uma boa drenagem
e fácil acesso às plantas. Podemos relacionar outros padrões como também a hidrologia com a
nossa corrente sangüínea e com os galhos de uma árvore, o feijão com um embrião.

Karoline Fendel

Foto: Padrão curvilíneo, Florianópolis-SC.

Olhando uma floresta percebe-se que diferentes plantas crescem juntas em completa
harmonia, essa observação mostra que muitas vezes uma planta pode ajudar ou mesmo
facilitar o crescimento de outra. Um bom exemplo prático pode ser misturar hortaliças e plantas
medicinais na horta e observar o crescimento delas, ou mesmo diferentes árvores no pomar.
Esse consórcio vegetal pode resultar em uma maior ou menor produção e qualidade das
plantas. O solo também se beneficia pois diferentes plantas requerem diferentes nutrientes,
possibilitando o não esgotamento do solo, causado por monoculturas.

Analisando de cima, podemos notar que uma floresta possui uma grande diversidade de
espécies animais e plantas, e são todas estas conexões ali existentes que dão estabilidade
dinâmica ao ecossistema.
9
Se observarmos a sucessão de espécies numa clareira, percebe-se que ao longo do
tempo, espécies de leguminosas e pioneiras começam a crescer com função de preparar o solo
para as seguintes. A partir da evolução desse sistema outras diferentes espécies que
necessitam de um solo com mais nutrientes substituem as pioneiras e assim por diante, até
chegar ao clímax de uma floresta.

Podemos usar esta observação prática para acelerar ou mesmo otimizar essa evolução
natural. Os sistemas agroflorestais são um grande exemplo disto, a mistura certa de espécies,
a utilização dos diferentes extratos e a otimização de espaços é um modo de imitar a floresta
de maneira criativa e funcional.

Ao mesmo tempo em que uma pioneira está crescendo e melhorando o solo, incluindo a
fixação de nitrogênio, ela também está fazendo sombra para outras espécies que necessitam
de menos luz para crescer, como também produz muitas sementes, lenha e frutos; isso nos
leva ao conceito de multifuncionalidade: uma espécie com muitas funções.

1 2
Figuras: A figura 1 mostra a repetição do padrão da folha de samambaia e a figura 2: O padrão
dendrítico mostra a similaridade entre os galhos de uma árvores e a circulação sangüínea
(veias e artérias).

3 4
Fotos: Representam padrões ondulados, nos rios e na areia.

Características básicas de um planejamento ecológico de imóvel rural

Para planejar uma propriedade ecológica e funcional faz-se necessário saber a


intenção que se deseja, ou seja, subsistência familiar, produção orgânica vegetal e animal, ou
10
todas elas. Quanto mais diversificado e bem planejado for o sistema, mais funcional e estável
ele se tornará.

Na hora de planejar, mapas e desenhos são importantes, como também informação


sobre a legislação. Segundo o código florestal brasileiro, as propriedades rurais da região Sul
devem deixar no mínimo 20% do total da área em floresta nativa, como Reserva Legal (RL),
além das Áreas de Proteção Permanente (APPs): mata ciliar, nascentes, topos de morro e
declives com mais de 45 graus. Na RL é possível intervir com manejo agroflorestal e
madeireiro, e nas APPs pode-se tirar folhas, frutos, tubérculos e outros alimentos e
medicamentos, mas não lenha e madeira.

Importante salientar que não existe um “pacote” de planejamento, cada área possui
diferentes características topográficas, climáticas e ambientais. O planejamento deve ser feito
com cuidado com ajuda de pessoas que moram na região e possam ajudar nas dúvidas a
respeito de acontecimentos sazonais.

Para planejar dentro de um orçamento limitado deve-se manter os pés no chão, utilizar
os recursos locais e evitar grandes obras. Sempre começar com um sistema em pequena
escala, usando sistemas intensivos e soluções lentas. Trabalhar conjuntamente com a natureza
e ter paciência, pois estaremos trabalhando com o tempo da natureza e não do homem.

Muitas coisas podem dar errado, por isso é importante ter criatividade para responder
as mudanças que podem ocorrer, transformar problemas em soluções e desvendar o porquê do
sucesso ou fracasso, sendo importante não se apegar a nenhum resultado imediato pois eles
estão sempre mudando.

Fotos: Mata Ciliar no Rio Trombudo em Trombudo Central/SC. set./1999 e dez./2005

Leitura do ambiente

A sensibilidade de interpretação da natureza e dos acontecimentos vem gradativamente


com a prática: “Talvez aquele seu vizinho velhinho que mora ali há anos possa te ajudar a
entender mais do clima da região, do movimento da água no local e te ajudar a enxergar coisas
que você às vezes pode não estar vendo. Porém, saiba filtrar as informações!”

11
Karoline Fendel

Foto: Árvore deitada, mostrando ventos fortes, furacões e tornados na região.

No planejamento da área é importante colocar-se como parte da natureza, tentar


interagir e não apenas tirar proveito do ambiente natural, preze a qualidade de vida que muitas
pessoas que moram nas cidades grandes não têm, respire o ar puro, agradeça, tente viver com
o suficiente e respeite tudo que está ao seu redor: microorganismos, animais, plantas, vizinhos,
a paisagem e as conexões invisíveis.

Auto-suficiência

O caminho para auto-suficiência completa pode ser bem complexo se formos imaginar
todos os produtos diversos que hoje nós utilizamos, porém em questão alimentar, a auto-
suficiência pode ser mais simples de alcançar. Um bom planejamento com um bom manejo e
criatividade podem ajudar.

Uma horta pode fornecer verduras e legumes, uma vaquinha garante leite, queijo, nata,
carne e o esterco, a galinha fornece os ovos, carne e aduba a terra. Uma agrofloresta garante
raízes, frutas, lenha, condimentos, ervas medicinais e fibra, que podem ser usados para
produzir outros inúmeros produtos. A água da chuva pode ser coletada do telhado da casa e
armazenada numa cisterna, a água quente pode ser aquecida por um aquecedor solar ou
mesmo por uma serpentina que sai do fogão à lenha.

Marcos Marques Marcos Marques

12
Fotos: Horta mandala familiar, diversidade e consórcio de plantas no Sítio Vagalume em
Rancho Queimado-SC.

O fogão à lenha é um ótimo exemplo de um elemento multifuncional, além do


aquecimento e cozimento dos alimentos, ele pode estar gerando calor para a casa se
posicionado corretamente, ele também pode aquecer a água do chuveiro e ajudar a secar as
roupas.

Uma região de ventos fortes pode fornecer energia eólica e quem sabe uma plantação
de girassóis ou mamona pode garantir um bio-combustível para o seu carro. Nada é impossível
com um pouco de criatividade, paciência e perseverança.

Mesmo que você não seja auto-suficiente, o pouco que você conseguir evitar comprar
do supermercado e das grandes indústrias, já é um grande avanço na direção certa. Às vezes o
seu vizinho pode cooperar com alguma coisa e vocês podem fazer trocas, quem sabe ele saiba
fazer um pão caseiro e você o queijo, trabalhar em rede é um grande passo para a auto-
suficiência.

A Realidade Local

Qualquer pessoa pode fazer o seu próprio planejamento ecológico, primeiro deve-
se ter uma área, que não precisa ser grande. Aliás quanto menor melhor, pois sistemas
em pequena escala são mais fáceis de manejar e controlar.

Não subestime a qualidade do seu solo ou o valor da sua terra, qualquer terra
pode ser planejada e manejada de forma ecológica e o solo pode ser trabalhado com
adubação verde e leguminosas.

Mesmo que você já esteja morando na área, você pode mudar algumas coisas de
lugar, melhorá-las ou conectá-las com outros elementos. O importante é interagir e não
reagir contra a natureza.

Se não podemos manter ou melhorar um sistema, devemos deixá-lo em paz,


minizando danos e deixando a natureza seguir seu curso. Não existe área ruim, a
natureza irá mostrar a tendência da área. Para um bom resultado do planejamento da
unidade rural algumas observações são necessárias, essas serão citadas abaixo:

Características gerais do terreno

A topografia (forma da terra) exerce um efeito no microclima, na drenagem da


água e no paisagismo do sítio. Aqui estão os parâmetros a serem observados:

• Encostas voltadas para o sul e norte, a encosta norte possui a maior incidência de
sol (hemisfério sul), ela pode ser aproveitada de várias maneiras, como por
exemplo para plantações que necessitem de bastante sol.

• Os cursos de água, sabemos hoje que a água é um bem muito valioso, quanto mais
você conseguir manter a água dentro da sua propriedade melhor. A água altera a
temperatura do ambiente, criando microclimas. As áreas encharcadas podem ser
aproveitadas para diferentes plantios ou para lagoas.
13
• Áreas com erosões, inclinações muito acentuadas, necessitam de um tratamento
especial, inclinações muito acentuadas devem sempre permanecer com vegetação
devido à tendência de deslizamento de terra.

• O clima regional é um fator muito importante pois é ele que irá ditar as plantas e os
animais daquela região, mas a topografia pode influenciar o microclima do seu sítio.
Dependendo da quantidade de morros, cursos de água você pode acabar tendo um
sítio mais úmido, seco, frio ou quente.

• O vento num sítio pode ser reduzido por uma barreira de árvores (quebra vento) ou
canalizado em forma de brisa. O ar frio é mais pesado que o ar quente, por tanto a
dependência do ar frio é descer, os vales vão ser sempre mais frios com alta
probabilidade de geada, porém a 20 metros acima do vale já é mais quente e livre
de geadas. A observação de árvores e arbustos do sítio pode indicar a direção
predominante do vento naquela região.

• O solo também tem influência no microclima, devido à quantidade de calor que


conduz. Uma análise do solo da área pode ajudar a repor certos nutrientes ou
mesmo plantar certas plantas.

Microclimas

Microclimas são condições específicas criadas através de situações locais. Um


microclima pode ser uma sombra em baixo de uma árvore, um lago ou a borda de uma
floresta. Os microclimas são uma fonte rica de diversidade, nestes espaços especiais você
pode plantar algo que necessite de um ambiente específico.

Criar microclimas é uma forma diferente de aproveitar os espaços do seu sítio,


eles podem ser criados através de um lago, através da sombra de alguma árvore ou
aproveitando os declives do terreno usando zonas úmidas ou secas.

A palhada posta na horta ou no pé das árvores assim como a serrapilheira de uma


floresta protegem o solo, garantem umidade e o gotejamento da água.

As bordas são formadas pela interação entre dois diferentes meios, são as
interfaces entre a partícula de água/solo, terra/mar, lago/terra, pomar/plantação,
estuário/oceano.

Quando o mar e o rio se encontram formam um ecossistema chamado estuário,


este é a borda entre dois diferentes meios (água salgada e doce), o manguezal é um
berçário para várias espécies de peixes, pássaros e caranguejos.

As bordas são ambientes de grande quantidade de energia. Você pode notar que
na borda de uma floresta especificamente vivem diferentes plantas e animais, ali você
pode estar plantando espécies que exigem ambientes mais quentes e protegidos.

Observando as diversas bordas existentes notamos que elas também seguem o


padrão curvilíneo da natureza, uma horta com várias bordas aumenta a área disponível
para as plantas.

14
Vegetação

É impressionante como a vegetação pode mudar o clima e o solo do local.


Sabemos que dificilmente acontece geadas na floresta, e que em dias quentes, a
temperatura é agradável dentro dela. O solo geralmente esta seco e permanece sempre
úmido, devido ao gotejar da água através das copadas das árvores.

A função de quebra vento também é exercida pela vegetação, que pode reduzir ou
mesmo direcionar ventos frio ou quentes. O microclima causado na floresta possibilita o
cultivo de plantas que necessitam de um clima estável, úmido e pouca luz.

Para usufruir das bordas, uma mistura de floresta, clareira, agrofloresta manejada
e cultivo intensivo pode produzir em pequenas propriedades uma grande variedade de
produtos.

As árvores são também fonte de um recurso de longa duração muito valioso. Além
de fornecerem frutos, fibras, folhagem podem fornecer também madeira. O plantio de
madeira de lei local pode ser muito útil para construção e fabricação de móveis.

Espécies exóticas como eucaliptos e pinus não manejados podem danificar e


causar problemas ao solo, ou mesmo à floresta local. Estas espécies quando adensadas
em monocultivos devido ao crescimento rápido para produção de lenha, acabam
esgotando terra e secando o lençol freático.

Muitas árvores nativas como a Araucária, Guanandi, Louro-pardo, canela entre


outras espécies podem exercer uma melhor performance ambiental e madeireira do que
as espécies exóticas. Assim como o Bambu, que tem inúmeros usos domésticos pode ser
manejado com o plantio de espécies entouceirantes e não alastrantes para que este não
possa invadir a floresta nativa.

O bambu é uma alternativa viável para áreas em erosão e deslizamento, o bambu


possui um crescimento muito rápido e pode ser utilizado com apenas 3 anos. Com um
tratamento correto ele pode servir como calhas, mobília e reforço em concreto, os brotos
são comestíveis e suas folhas podem ser usadas como palhada no jardim.

As árvores caducifólias (aquelas perdem as folhas no inverno) podem ser muito


bem aplicadas perto da casa onde protegem a casa do sol forte no verão e permitem o sol
aquecer a casa no inverno quando não possui folhas.

Planejamento das águas

A água é hoje o bem mais valioso que se pode ter dentro de uma propriedade,
sabemos como é difícil viver e plantar sem água. Desta forma um bom planejamento deve
otimizar e manter a água dentro do sistema. Existem várias formas de fazer isso:

• Proteger nascentes, matas ciliares e áreas de APP. São elas que garantem uma
boa qualidade da água, cristalinidade e controle contra o desbarrancamento da
terra. Como também promovem um habitat para vários animais e plantas.

• Fazer açudes, lagos e lagoas. Coletar água de valos de estrada e conduzí-los para
lagoas. Aproveitar a declividade do terreno e área que são naturalmente
encharcadas e alagadas quando recebem muita chuva.
15
• Coletar água da chuva do telhado através de cisternas. Existem muitas maneiras de
fazer cisternas eficientes de vários volumes, que podem garantir água para as pias
da cozinha e dos banheiros, lavandeira, horta e plantações.

• Sistemas simples como o de reutilização de águas, como por exemplo direcionar a


água usada da pia e/ou do chuveiro (água cinza) para a privada ou mesmo
direcioná-la para o jardim, passando por canos perfurados ao longo de canteiros.

Karoline Fendel

Foto: Chuveiro ao ar livre com aquecimento solar.

É importante cuidar para que a sua água esteja livre de agrotóxicos e poluição,
devolva a água assim como você está recebendo da natureza, limpa e pura. Portanto não
jogue lixo nos córregos e respeite a próxima pessoa que irá beber daquela água.

Aqüicultura – Policultura na Água

Lagos e lagoas são elementos essenciais que devem estar dentro do


planejamento de um sítio. São sistemas super-produtivos e é uma forma eficiente de obter
proteína animal com baixos insumos.
Uma área coberta com água pode dar até 30 vezes mais do que uma produção de
mesma superfície coberta com terra, devido à forma tridimensional da água e a
necessidade de pouca energia que os peixes precisam para manterem-se vivos.

Um açude com 3 metros de profundidade ou até menos e estreito já pode


sustentar várias cadeias e teias alimentares, serve de habitat para vários animais como:
rãs, sapos, peixes, patos, gansos, insetos e plantas aquáticas.

16
Figura 2: Cadeia alimentar em um lago.

Podemos citar outras funções desse elemento:

• Refletem a luz;
• Esfriam ventos quentes do verão e aquecem os ventos de inverno;
• A água fica muito mais rica em nutrientes;
• Serve como proteção contra o fogo;
• Produzem bordas produtivas, com diversas plantas funcionais.

Um lago é um elemento que também fecha ciclos dentro do sistema devido ao


escoamento de nutrientes e toxinas das partes altas do sítio. Uma boa posição para um
lago normalmente é abaixo das edificações, onde tenha bastante luz para o
desenvolvimento de microorganismos e brisas para a oxigenação da água.

As bordas que surgem são super-produtivas, elas devem ser protegidas desde o
começo com plantas para evitar a erosão. As plantas nas bordas são importante pois
filtram a água, seguram o solo, reciclam nutrientes e podem ser colhidas e usadas.

Um sistema de aqüicultura diverso garante vários produtos ao invés do


monocultivo intensivo de apenas uma espécie, que funciona a base de químicos. Muitas
espécies misturadas dão uma produção mais elevada que monoculturas e têm maior
probabilidade de se tornarem auto-sustentadas.

Zonas e Setores

Uma planta como sendo um organismo por si só, possui muitas estratégias de
economia de energia, como por exemplo muitas árvores perdem suas folhas no inverno
para economizar energia, num sistema de planejamento ecológico rural também se utiliza
essa estratégia.

Desta forma dividimos o sítio por zonas e setores, começando pela zona 0, a
residência. As zonas são basicamente divididas por necessidade de atenção, energias
internas do sistema, necessidade de hortaliças todos os dias, ovos, madeira, lavoura,
ervas para a cozinha. Imaginemos como seria se a horta ficasse longe da casa? Ninguém
nunca iria querer colher hortaliças para o almoço, quanta energia seria gasta por dia para
colhê-las?

17
A divisão setorial, é utilizada para controlar energias externas da propriedade,
como sol, vento e fogo, essas energias podem ser bloqueadas, canalizadas ou
intensificadas pelo planejamento. A observação da mudança de áreas que acabam sendo
ensolaradas pelo sol de inverno e do verão.

O planejamento das zonas e setores facilitam na hora de posicionar os elementos


dentro do sítio, pois elas nos faz pensar no gasto de energia e atenção que cada elemento
necessita. Para ajudar a distinguir as zonas dentro do seu sítio um mapa topográfico ou
uma foto da paisagem pode ajudar bastante.

Zonas

As zonas são uma forma encontrada de planejamento para economizar energia,


não precisam ser desenhadas milimetricamente e muito menos ser do mesmo tamanho ou
forma também não precisam ser divididas por nenhuma barreira física. São zonas
divididas espacialmente por vezes de uso e visitas, devem estar conectadas umas as
outras porém não necessariamente na seqüência numérica. As principais zonas, partindo
da zona 0 (zero) a casa, são cinco:

Zona 1 – Zona que necessita de muita atenção, é a mais intensiva de todas, o centro das
atividades, como horta, estufa, compostagem, oficina, galinheiro e viveiro de plantas.

Zona 2 – Pode ser um pomar manejado ou uma agrofloresta, é considerada uma zona
que necessita de apenas 1 visita diária ou 3 a 4 vezes por semana.

Zona 3 – Esta zona é caracterizada por uma agricultura mais intensiva como também um
lago para produção de peixes.

Zona 4 – A floresta manejada, uma agrofloresta com alguns animais soltos, como gado e
abelhas. Área de pasto para gado e outros animais.

Zona 5 – A floresta natural, esta zona é reservada para que a natureza encarregue-se
sozinha da restauração de ambientes da manutenção e preservação da biodiversidade.
Esta área é dita como uma área de aprendizado e de observação, preservando a
harmonia da floresta.

Setores

O setores são também uma maneira de facilitar o planejamento, minimizando ou


aumentado as energias externas que entram no sítio. Como por exemplo os ventos
gelados vindos do sul ou os ventos quentes de verão. Os setores funcionam como uma
proteção para a propriedade e também servem para tornar o ambiente mais agradável.

Para o planejamento setorial da propriedade é importante o conhecimento local,


histórico de enchentes, incêndios e grandes tempestades. Esses dados são necessários
para que se possa construir a casa no lugar certo ou mesmo plantar árvores em forma de
cinturão para proteger o sítio contra ventos e incêndios.

Áreas que sofrem grande risco de incêndio podem ser protegidas com espécies
suculentas, árvores caducifólias, lagos e lagoas. Os pinheiros devem ficar

18
preferencialmente longe da casa pois pegam fogo muito rápido, uma floresta úmida é pode
ser uma boa proteção contra o fogo.

Os caminhos e as estradas na propriedade também devem ser feitas para que se


tenha acesso a todas as áreas do sistema, contornando as curvas de nível sempre que
possível. Atentar para o escoamento de água da estrada que pode ser usado para a
irrigação natural do sistema.

Glebas

As glebas são áreas destinadas a algum cultivo de espécies perenes (árvores e


arbustos de vida longa). Para que a escolha das espécies possa ser bem sucedida, é
importante observar: o clima local, a localização do espaço e o microclima.

A diversificação das espécies pode fornecer diferentes produtos tais como:


forragem para animais, frutas, flores que sejam atrativas para abelhas, melhora do solo,
fibras entre outros produtos, tudo depende do seu objetivo.

Foto 5: Diversidade de abóboras.

O conhecimento tradicional local pode ser muito útil nesse processo, facilitando a
escolha de espécies nativas adaptadas ao local que possam ajudar no desenvolvimento
do sistema.

Alguns fatores tais como o custo da implantação das espécies, a mão de obra
disponível, o tempo e o dinheiro são fatores determinantes para qualquer projeto. A área
disponível deve ser cercada contra os ruminantes, as mudas pequenas precisam de uma
atenção especial e a palhada no processo inicial é essencial.

Um sistema agroflorestal pode comportar espécies perenes como também


bianuais e anuais. O manejo de uma agrofloresta inclui podas das árvores para a entrada
de luz e a incorporação destes restos vegetais no solo, para a incorporação dos nutrientes
pelas culturas. Uma agrofloresta pode gerar produtos diversos o ano todo e, é hoje uma
alternativa muito viável para a recuperação de ambientes degradados.

19
Karoline Fendel Karoline Fendel

Quintal Agroflorestal: Taiás com bananeira e outros consórcios em Itajaí – SC.

Animais

Os animais são elementos indispensáveis dentro do sistema, além de funções


alimentícias eles fecham o ciclo dentro de uma propriedade. Disponibilizam o esterco,
adubo essencial para a produção orgânica e também em alguns casos o controle de
pestes do jardim função exercida pela galinha.

Assim como nós os animais devem ser bem tratados e devemos disponibilizar a
eles uma vida digna e tranqüila. Gansos, patos, abelhas, galinhas todos tem importantes
funções dentro do sistema.

O sistema de pastoreio racional Voisin é uma opção de criação de animais


principalmente gado de forma ecológica e menos impactante, criado por André Voisin em
1957, possibilita um equilíbrio entre os três elementos solo-pastagem-gado, onde cada
elemento tem um efeito produtivo nos outros dois.

A área de pastagem é dividida em piquetes, onde os animais fazem rotação entre


os piquetes, possibilitando o desenvolvimento da pastagem e descanso para o solo e a
morte de alguns carrapatos de ciclo curto.

A pastagem ecológica pode ser feita em qualquer região, permitindo diversificação


de forrageiras, arborização e conforto ao animal, exclusão de adubos químicos,
herbicidas, fogo e roçadas. Os piquetes podem ser feitos com cerca elétrica, sendo mais
prático e mais barato.

Este sistema pode ser aplicado com galinhas, gado e outros animais. Existem
bons exemplos de fazendas no Brasil que abraçaram esse sistema, devido às várias
vantagens propostas. Muitos livros também foram escritos sobre o assunto, é sempre
válido consultar um técnico agrícola ou especialista no assunto antes de começar a
implantar na sua área.

20
Karoline Fendel Karoline Fendel Karoline
Fendel

Fotos: Animais diversos.

Desenho do Planejamento Ecológico da Unidade Agrícola Familiar

Para facilitar o planejamento ecológico você pode fazer desenhos em cima de


mapas ou fotos da sua área. Como foi dito anteriormente não existe o modelo de uma
propriedade ecológica, porém existem bons exemplos de planejamento. Com criatividade
é possível aos poucos adaptar e implantar um planejamento integrado com a natureza.
Aqui vão algumas exemplos:

1) Melliodora - David Holmgren, Australia. O sítio do David possui 1 hectare e produz


grandes quantidades de alimentos, frutas de clima temperado, ovos, leite e nozes.
Podemos notar a diferença entre o sítio dele e dos vizinhos ao lado.

2) Sítio Vagalume – Rancho Queimado –SC. A área é de 12 hectares sendo 2 hectares em uso
e 10 com floresta nativa. Possui 3 hortas, 1 açude, bambus e frutíferas.

21
Marcos Marques Marcos Marques

Implantação e Manutenção

O sistema pode ser implantado ao longo do tempo começando pela zona 0, a casa
e paralelamente a zona 1, mais visitada e manejada. Aplicar um planejamento ecológico
dentro da casa parece se complicado mas, na verdade é muito simples.

Começamos pela separação do lixo orgânico (restos da cozinha) do reciclável (plástico,


papel, latas e vidro), o lixo orgânico pode ser usado na produção de húmus e o reciclável
pode ser encaminhado pela prefeitura para ser reutilizado.

Se a sua cidade não tem coleta seletiva, ela pode ser incentivada pela
comunidade. A reutilização do lixo reciclável pode dar-se na residência, reaproveitando
potes e também os dois lados dos papéis.

Economia de energia, podemos viver com 40% menos de energia sem sacrificar
nada de valor. Podemos também ajustar nossas casas para a eficiência energética,
aproveitando a luz do sol.

Economia de água em todas as ações cotidianas, podemos coletar água do


telhado das nossas casas armazenando em tanques ou cisternas. Sabemos hoje que 97%
da água do planeta não são consideradas potáveis, em razão ao seu índice de poluição.
Na Zona 1 podemos começar com uma horta, espiral de ervas, ou seja, produção
de alimentos, minhocário e também uma compostagem que pode ser feita com esterco,
materiais grossos, como galhos, folhas e troncos.

Uma vez implantado a zona 0 e 1, e definido as outras zonas, a implantação


destas vêem surgindo e podem ser trabalhadas paralelamente. Assim como a implantação
do setoriamento da área.

Depois de implantado e distribuído as zonas e setores, o manejo consiste em


interagir. Mantendo o sistema dinâmico como em uma floresta porém em equilíbrio,
otimizar e não maximizar recursos. Não se apegue as soluções pois elas estão sempre
mudando como tudo na natureza, seja criativo e mantenha a mente aberta para novas
estratégias e idéias.

O planejamento nunca termina ele é contínuo pois nada é estático na natureza,


uma zona 3 pode virar uma zona 4 e muitas coisas podem mudar ao longo do tempo, o
22
importante é ter consciência que cada ação tem uma reação dentro do universo, sem
interação e harmonização com a natureza caminharemos rumo ao caos.

Defina metas e ideais que você deseja alcançar com o seu sítio, reflita sobre elas,
estude, comente com amigos e tenha sempre como base a interação homem-natureza,
pois na verdade somos todos um. A zona -1 (menos 1) também é importante, temos que
nos trabalhar por dentro, mudar nossos antigos conceitos monoculturais e expandir nosso
pensamento.

Planejamento da Paisagem em Escalas Maiores

Quando se planeja grandes paisagens é necessário definir objetivos e estudar a


área com cuidado, o relevo, para o planejar o lugar das residências, a hidrografia para a
construção de açudes, os ventos para posicionar a casa e os quebra-ventos, assim como
também a vegetação e solo da micro-região.

Materiais como mapas e informações da microbacia pode ser encontrada na


prefeitura do município ou mesmo com os técnicos agrícolas da região. Anotações e
observações dos acontecimentos sazonais podem ser úteis na hora de planejar.

O contato com vizinhos e produtores locais faz parte do planejamento pois eles
podem ceder várias informações. O envolvimento com a comunidade local pode estimular
uma rede de trocas ou uma associação. Mesmo você não produzindo todos os alimentos
que você consome, você pode estimular a agricultura local comprando ou trocando alguns
produtos com seu vizinho, estimulando assim um consumo consciente.

A produção de alimentos locais é um grande passo para a sustentabilidade da


micro-região. As pessoas que moram nas cidades podem também fazer isso, aproveitando
jardins ou sacadas, para produzir temperos e ervas, ou então uma horta comunitária
aproveitando terrenos ociosos no meio da cidade para produção de alimento. Esta
também é uma oportunidade para compostar o lixo orgânico.

Feiras municipais também são uma opção para fortalecer e incentivar agricultores
locais, normalmente quase todas as cidades tem uma feirinha e às vezes existem
produtores orgânicos.

Atitudes pequenas como estas podem ajudar bastante gente, motivando os


produtores a continuarem cuidando da terra e produzindo produtos orgânicos. Na área
urbana ainda podemos diminuir o consumo de sacolas plásticas, reciclar o lixo e consumir
uma alimentação saudável e local que produza menos resíduos.

23
Karoline Fendel Karoline Fendel

Fotos: Horta Comunitária em Balneário Camboriú-SC.

Incentivando a agricultura local orgânica, produzindo produtos ou comprando


alimentos que são feitos naquela bioregião, você destina o seu dinheiro a pessoas que se
preocupam com o planeta ao invés de grandes corporações que não se importam. Além
de não contribuir para a poluição causada pelo transporte de alimentos.

Pessoas conscientes na cidade ajudando produtores conscientes no campo


ajudam a tornar o planeta um lugar mais agradável e harmonioso para se viver, pois por
mais que exista competição na natureza a cooperação sempre prevaleceu e mostrou ser
um caminho bem sucedido.

Figura 3: União entre os seres por um objetivo comum.

Glossário

Adubo verde
---Vegetal incorporado ao solo com a finalidade de adicionar matéria orgânica que vai se
transformar, parcialmente, em húmus, bem como em nutrientes para a planta. Os adubos
verdes podem consistir de ervas, gramíneas, leguminosas, etc.

Aeração
24
---Reoxigenação da água com ajuda do ar. A taxa de oxigênio dissolvido, expressa em % de
saturação, é uma característica representativa de certa massa de água e de seu grau de
poluição. Para restituir a uma água poluída a taxa de oxigênio dissolvido ou para alimentar o
processo de biodegradação das matérias orgânicas consumidoras de oxigênio, é preciso
favorecer o contato da água e do ar. A aeração pode também ter por fim a eliminação de um
gás dissolvido na água: ácido carbônico, hidrogênio sulfurado.

Cadeias Alimentares
---A capacidade de produzir e utilizar compostos orgânicos existentes no meio varia de uma
para outra espécie vegetal ou animal. Cada espécie apresenta, assim, exigências particulares
ou específicas com relação à composição e estrutura do meio ambiente.

Dessa forma, segundo o professor Samuel Murgel Branco, "o tipo de alimentação de cada
espécie é um dos mais importantes fatores ecológicos a determinar a existência, a abundância,
a predominância ou o equilíbrio em um determinado ambiente".

Essas exigências particulares de alimento levam à existência de cadeias alimentares em cada


ambiente ecológico. As cadeias se compõem de diferentes espécies de produtores e
consumidores, uns sendo o alimento dos outros. Assim, a reprodução de cada um deles tem
que ser suficientemente grande para, além de dar continuidade à própria espécie, fornecer o
alimento indispensável à espécie que dela depende.

A destruição de um só dos elos dessa cadeia pode ter efeitos catastróficos, causando o
desaparecimento total do elo seguinte (dependente do primeiro) e a superpopulação do meio
pelo elo anterior. A eliminação de aranhas de uma região, por exemplo, pode causar o
desaparecimento total do vespão que delas se alimentam e, conseqüentemente, a
superpopulação de insetos.

O desequilíbrio pode ocorrer também com a introdução de um elemento estranho à cadeia e


cuja proliferação se torna muitas vezes incontrolável. Por exemplo: a introdução do coelho na
Austrália, para destruir cactos e plantas daninhas, gerou problemas ainda mais sérios que o
anterior. O animal passou a dizimar plantações e não havia, na fauna local, outra espécie capaz
de destruí-los.

Esses elementos estranhos podem ser também substâncias - fertilizantes, por exemplo - que o
homem utiliza para elevar a produção por área. Essas substâncias nutrem excessivamente
organismos autótrofos e heterótrofos, quebrando o processo de síntese e decomposição.

Quando se introduz, por exemplo, resíduos sólidos ou líquidos nas águas de um lago, isso pode
conduzir a uma superpopulação de bactérias que consomem todo oxigênio, levando à morte
peixes e outros seres aeróbios (processo de eutrofização).

Código Florestal
---Código instituído pela Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965 em cujo artigo 1º está previsto
que as florestas existentes no território nacional e as demais formas de vegetação,
reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse comum a todos os
habitantes do país.

Compostagem
---Técnica de elaborar mistura fermentada de restos de seres vivos, muita rica em húmus e
microorganismos, que serve para, uma vez aplicada ao solo, melhorar a sua fertilidade.

Conservação da natureza
25
---Uso ecológico dos recursos naturais, com o fim de assegurar uma produção contínua dos
recursos renováveis e impedir o esbanjamento dos recursos não renováveis, para manter o
volume e a qualidade em níveis adequados, de modo a atender às necessidades de toda a
população e das gerações futuras.

Conservação do solo
---Conjunto de métodos de manejo do solo que, em função de sua capacidade de uso,
estabelece a utilização adequado do solo, a recuperação de suas áreas degradadas e mesmo a
sua preservação.

Ecossistema
---A comunidade total de organismos, junto com o ambiente físico e químico no qual vivem se
denomina ecossistema, que é a unidade funcional da ecologia.

Erosão
---Processo pelo qual a camada superficial do solo ou partes do solo são retiradas pelo impacto
de gotas de chuva, ventos e ondas e são transportadas e depositadas em outro lugar. Inicia-se
como erosão laminar e pode até atingir o grau de voçoroca.

Espécie pioneira
---Espécie vegetal que inicia a ocupação de áreas desabitadas de plantas em razão da ação do
homem ou de forças naturais.

Habitat
---O local físico ou lugar onde um organismo vive, e onde obtém alimento, abrigo e condições
de reprodução.

Holismo
---Teoria filosófica, aplicada às ciências ambientais para a compreensão das relações entre os
componentes do meio ambiente, pela qual os seus elementos vivos (todos os organismos,
inclusive os homens) e não vivos interagem como um "todo", de acordo com leis físicas e
biológicas bem definidas. Neste sentido, o holístico significa total, abrangente, que considera as
inter-relações de todos os componente do meio ambiente.

Húmus
---Fração orgânica coloidal (de natureza gelatinosa), estável, existente no solo, que resulta da
decomposição de restos vegetais e animais.

Leguminosas
---Plantas que possuem associação com bactérias nas raízes e fixam nitrogênio do solo,
ajudando outras plantas perto a ela se desenvolverem, são típicas de clareiras e solos em
recuperação em estágio primário.

Manejo
---Aplicação de programas de utilização dos ecossistemas, naturais ou artificiais, baseada em
teorias ecológicas sólidas, de modo a manter, de melhor forma possível, nas comunidades,
fontes úteis de produtos biológicos para o homem, e também como fonte de conhecimento
científico e de lazer.

Microclima
---Conjunto das condições atmosféricas de um lugar limitado em relação às do clima geral.

26
Palhada
---Camada natural de resíduos de plantas mortas espalhadas sobre a superfície do solo, para
reter a umidade, protegê-lo da insolação e do impacto das chuvas.

Planejamento ecológico
---É o ordenamento, sob forma de mapas, informações relativas ao tipo de vegetação, geologia,
solo, clima, recursos hídricos, climáticos e áreas de preservação, de uma determinada região.

Preservação ambiental
---Ações que garantem a manutenção das características próprias de um ambiente e as
interações entre os seus componentes.

Qualidade de Vida
---São aqueles aspectos que se referem às condições gerais da vida individual e coletiva:
habitação, saúde, educação, cultura, lazer. alimentação, etc. O conceito se refere,
principalmente, aos aspectos de bem-estar social que podem ser instrumentados mediante o
desenvolvimento da infra-estrutura e do equipamento dos centros de população, isto é dos
suportes materiais do bem-estar. Queimada
Queimada de mato, principalmente para utilização do solo na agricultura.

Reciclagem
---É qualquer técnica ou tecnologia que permite o reaproveitamento de um resíduo, após o
mesmo ter sido submetido a um tratamento que altere as suas características físico-químicas.

Reflorestamento
---Processo que consiste no replantio de árvores em áreas que anteriormente eram ocupadas
por florestas.

Tratamento de Água
---É o conjunto de ações destinado a alterar as características físicas e ou químicas e ou
biológicas da água, de modo a satisfazer o padrão de potabilidade adotado pela autoridade
competente.

Vegetação
---Quantidade total de plantas e partes vegetais como folhas, caules e frutos que integram a
cobertura da superfície de um solo.

Zoneamento
---É o instrumento legal que regula o uso do solo no interesse do bem-estar coletivo,
protegendo o investimento de cada indivíduo no desenvolvimento da comunidade urbana.

Referências

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Legislação Brasileira. 2002. Disponível


em: <http://www.mma.gov.br >Acessado em: 22 mai. 2007.

GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: Processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto


Alegre: universidade federal do rio grande do sul – UFRGS, 2000.

HOLMGREN, D. Permaculture: Principles & Pathways Beyond Sustainability. Austrália:


Holmgren Design Services, 2002.
27
HOLMGREN, D. Holmgren Design Services: Melliodora. 2004. Disponível em:
www.holmgren.com.au> Acessado em: 1 de jun. 2007.

MELADO, J. Fazenda Ecológica. Pastoreio Voisin e Pastagem Ecológica: Bases para uma
Pecuária Sustentável. 2006. Disponível em:
http://www.fazendaecologica.com.br/news/news.asp?codigo=324> Acessado em: 1 jun. 2007.

MOLLISON, B. Introdução a Permacultura. Austrália: Tagari Publications, 1991.

MOLLISON, B. Permaculture: A Designer Manual. Austrália: Tagari Publications, 1988.

MOLLISON, B. & Holmgren, D. Permaculture One. Austrália: Tagari Publications, 1982.

MORROW, R. Permacultura Passo a Passo. Austrália: Kangaroo Press, 1993.

VIVAN, J. L. Agricultura e florestas: princípios de uma interação vital. Guaíba: Agropecuária,


1998.

Referências Eletrônicas

Figura 1, Disponível em:


http://www.rainhadapaz.g12.br/projetos/ciencias/ecologia/bonito/Cap%20II/eco_Cadeias%20e%20teias.ht
m> Acessado em 28 de maio de 2007.

Figura 2, Disponível em:


http://www.editorasaraiva.com.br/EDDID/CIENCIAS/explorando/5_agua_6.html> Acessado em 28 de
maio de 2007.

Figura 3, Disponível em: http://geocities.com/cr1ciclo/page2.html> Acessado em 28 de maio de


2007.

Foto 1, Disponível em: http://www.inf.ufsc.br/~visao/2000/fractais/image066.jpg> Acessado em 28


de maio de 2007.

Foto 2, Disponível em: http://centros.edu.xunta.es/iesurbanolugris.malpica/mates> Acessado em 28 de maio


de 2007.

Foto 3, Disponível em: http://www.peld.uem.br/images/planicie-rio%20PR.jpg> Acessado em 28 de


maio de 2007.

Foto 4, Disponível em: http://members.cruzio.com/~clayton/images/Coastline/38_Sand_Patterns.jpg


Acessado em 28 de maio de 2007.

Foto 5, Disponível em: http://www.obesitynetwork.info/food-pyramid-2005.shtml> Acessado em 28


de maio de 2007.

28