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Tão Perto

Série Homens de Roterdã – Volume 1

Márcia Lima
Copyright © 2015 Márcia Lima

Capa: Márcia Lima


Revisão: Silvia Ligieri
Diagramação Digital: Márcia Lima

Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as pessoas. Nomes, personagens, lugares e
acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.

Todos os direitos reservados.


São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através de
quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o consentimento escrito da autora.

Criado no Brasil.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo
artigo 184 do Código Penal.
Para o meu amor, por ter sido meu grande incentivador, mesmo quando
criticava.
Você sempre disse que eu conseguiria, mas nunca entendeu que eu só
consegui porque você estava meu lado.
Sumário

Agradecimentos
Prólogo
Adrian
Capítulo 1
Laura
Adrian
Capítulo 2
Laura
Adrian
Capítulo 3
Laura
Adrian
Capítulo 4
Laura
Adrian
Capítulo 5
Laura
Adrian
Capítulo 6
Laura
Adrian
Capítulo 7
Laura
Adrian
Capítulo 8
Laura
Adrian
Capítulo 9
Laura
Adrian
Capítulo 10
Laura
Adrian
Capítulo 11
Laura
Adrian
Capítulo 12
Laura
Adrian
Capítulo 13
Laura
Adrian
Capítulo 14
Laura
Adrian
Capítulo 15
Laura
Adrian
Capítulo 16
Laura
Adrian
Capítulo 17
Laura
Adrian
Capítulo 18
Laura
Adrian
Capítulo 19
Laura
Adrian
Capítulo 20
Laura
Adrian
Capítulo 21
Laura
Adrian
Capítulo 22
Laura
Capítulo 23
Adrian
Capítulo 24
Laura
Adrian
Capítulo 25
Laura
Adrian
Capítulo 26
Laura
Adrian
Epílogo
Laura
Adrian
Agradecimentos
Chegar até aqui foi a realização de um grande e antigo sonho. Não é o
ponto de chegada, mas o ponto de partida para uma longa caminhada.
Nessa caminhada, não posso deixar de agradecer ás pessoas
importantes que estiveram ao meu lado.
Agradeço aos meus pais e familiares que me incentivaram e estiveram
comigo sempre, mesmo antes disso tudo começar. Vocês são as minhas
raízes, e uma árvore com boas raízes suporta qualquer tempestade.
A Wendy e a Camila porque nunca me deixaram desistir e sempre me
ajudaram á ir além do que eu achava que conseguia. Vocês foram minhas
fadas madrinhas e as melhores amigas que alguém poderia querer.
Ao quinteto mais cheio de amor que eu poderia encontrar. Wendy,
Margarete, Alessandra e Janaina, vocês tornam os meus sonhos mais
possíveis e eu sempre vou precisar do apoio de vocês.
Á Monica, minha amiga e revisora, por se preocupar em me ajudar a
tornar o livro lindo para que vocês pudessem aproveitá-lo melhor.
A Daiane que me fez ficar super orgulhosa da minha nova assinatura,
criada por ela. Obrigada Dai, você é uma daquelas pessoas que a gente sabe
que já conhece de muitas vidas.
Á todas as minhas, novas e nem tão novas assim, amigas do Wattpad.
Graças á vocês, eu comecei a acreditar que isso tudo aqui poderia realmente
dar certo. Vocês são como luzes na minha vida, sempre me mostrando o
caminho á seguir.
Prólogo

Adrian
Era uma tarde chuvosa quando eu a deixei. Era uma tarde fria, chuvosa
e triste.
Meu corpo estava prostrado, ajoelhado contra a grama molhada. A
calça do meu terno preto estava molhada e suja de lama, pela terra recém-
revolvida.
Apoiei minha mão contra a lápide de mármore, correndo os dedos pelas
inscrições, sentindo como se fosse um último adeus. Uma última vez em que
eu iria tocar algo que ainda tivesse o cheiro dela.
Fechei os olhos, deixando minha mente vagar em busca da garota de
olhos verdes. Linda, cheia de vida. A garota que eu havia ajudado a destruir.
Eu me lembrava exatamente da primeira vez em que a vi. Eu me lembrava de
pensar que nunca uma garota como ela iria querer um cara como eu. Eu me
lembrava do primeiro beijo e de como ela tentava parecer confiante, mesmo
estando assustada em meus braços, quando eu a fiz minha. Suspirei, sentindo
as lágrimas completarem o trabalho que a chuva havia começado.
Nesse mesmo instante, a mão repousou sobre meu ombro, calma,
gentil, mas forte, como eu precisava que fosse. Virei-me para encontrar os
olhos claros de Alexander. Meu amigo. Meu irmão. Ele não disse nada. Tinha
os mesmos olhos vermelhos, o mesmo semblante triste, cansado que eu tinha.
Haviam sido muitos meses de dor e sofrimento. Muitos meses de noites em
claro com um bebê recém-nascido nos braços esperando que a mãe estivesse
forte o suficiente para embalá-lo, até que ele mesmo desistiu, apegou-se ao
colo que podia ter. Meu, de Alex, de John, foi assim, até que ela finalmente
desistiu. Não podia mais lutar e eu não podia mais vê-la lutar.
Levantei-me e olhei ao meu redor. A maioria das pessoas já haviam ido
embora. Estávamos apenas Alex, John e eu. Meu filho tinha uma rosa cor de
rosa nas mãos. Ele caminhou até a grama revolvida da lápide e a colocou ali,
correndo os dedos pela placa de mármore fria, como eu havia feito há pouco.
Olhos vermelhos perdidos no horizonte, jovem demais para aquele terno
preto.
Lembro-me de tudo como se fosse hoje. Lembro-me do cheiro da terra
molhada e da dor lancinante que senti ao ver meu filho sofrer daquele jeito.
Eu me lembro de sentir que faria qualquer coisa para que a dor que ele sentia
viesse toda para mim. Eu não pude. Não havia nada que pudesse fazer
naquela hora. Eu havia passado tempo demais preocupado comigo mesmo
para entender que eles precisavam de mim. Eu havia passado tempo demais
aproveitando minha vida, meu dinheiro, minha fama. Tempo demais perdido
comigo mesmo.
Egoísta – minha mente repetia em silêncio – tudo isto está acontecendo
porque você foi egoísta demais para olhar para o lado e perceber que eles
precisavam de você.
Apertei meu filho contra os meus braços sentindo sua resistência em ser
consolado. Ele era forte. Era maduro e bom. Muito melhor do que eu nunca
havia sido.
Fechei os olhos, sentindo finalmente sua cabeça pender contra o meu peito,
soltei o ar devagar, jurando que nunca mais me permitiria estragar a vida de
alguém. Eu viveria por eles. Eu os protegeria. Cuidaria deles. Eu seria o pai
que não havia sido até agora. Eu seria o pai que o meu não foi. Eu nunca mais
me permitiria ser levado por sentimentos. Nunca mais.
Capítulo 1

Laura
Estávamos no fim do inverno e a primavera começava a despontar
pelos canteiros e praças de Amsterdã. Era um daqueles dias raros de sol que
se tem aqui, pelos arredores dos Países Baixos. Nós passamos a maior parte
do tempo com aquele céu cinzento e pesado querendo desabar em nossas
cabeças, então, eu estava animada. Você deve imaginar como é para uma
brasileira acostumada ao sol tropical das nossas terras tupiniquins, estar há
tanto tempo longe de casa. Bem, não que eu tenha exatamente saudades de
casa, para ser sincera, sair de casa foi minha grande carta de alforria, mas o
sol, esse sim, me fazia falta.
Acordei um pouco antes do despertador – o que não acontecia com
frequência – tomei um banho relaxante, penteei os cabelos no meu coque
costumeiro, vesti uma saia lápis verde escura e uma blusa bege de seda fina
com um padrão floral. Encarei a figura feliz no espelho, depois do monte de
merdas com que tenho lidado desde a formatura, sentir-me bonita e
respeitavelmente profissional certamente contribuiria para um dia agradável
no escritório. Calcei meus scarpins pretos e peguei minha pasta. Enchi um
dos potinhos de Mia com leite e o outro, que ficava ao lado da água, com
ração para gatos. Olhei para a almofada sobre o parapeito da janela e a vi ali,
preguiçosamente procurando um raio de sol. Esticada sobre a almofada
bordada, encarando os transeuntes pelo vão da cortina semiaberta. Se você
nunca visitou Amsterdã, certamente irá estranhar o quanto o povo holandês
não se preocupa em ser observado.
Confesso que nos primeiros dias em que me vi em um apartamento
tão pequeno que era possível ver toda a área comum pela janela da frente, eu
estranhei e corri até a primeira loja de departamentos que encontrei em busca
de uma cortina. Tarefa quase impossível – holandeses não usam cortina.
Nunca. Em lugar algum. Eles não se importam em serem vistos e menos
ainda em ver os outros. Nesses quase seis anos em que me encontro por aqui,
foram raras às vezes em que percebi alguém de olho no meu apartamento –
que fica no térreo de uma ruela não muito movimentada, no Jordaan ― e
percebi na hora que se tratava de um turista e não de um local.
Tranquei a porta da frente e dei uma última olhada em minha grande
e gorda gata laranja, esticada ao sol, pensando em como tinha sorte de ter-me.
Ou seria eu que tinha sorte de tê-la? Não sei. O fato é que formamos uma
boa dupla, desde sempre.
Continuei caminhando até o ponto do tram, observando o vai e vem
de turistas nas ruas principais, maravilhados com a arquitetura e a beleza dos
canais. Amsterdã é uma cidade encantadora. Mesmo morando aqui há tanto
tempo, ainda não me canso de encarar a beleza da cidade.
Estava há alguns quarteirões do ponto quando uma brisa caramelada
golpeou meu estômago com tanta força que eu tive que parar e me permitir
um stroopwafel. Simplesmente não consigo enjoar desse maldito biscoitinho
holandês e atribuo a ele o fato de nunca mais ter perdido aqueles “três
quilinhos” que todas nós queremos perder. Peguei meu biscoito, um copo de
café daqueles com tampa, encaixei a alça da pasta de couro ao redor do
antebraço, copo em uma mão, biscoito na outra e lá fui eu, ainda mais feliz,
esperar meu transporte até a área comercial da cidade.
Que a Holanda é o país dos moinhos, praticamente todas as pessoas
do mundo sabem, mas poucas delas pensam sobre as razões práticas disso –
vento. Na Holanda o vento é constante. Sim, constante. Oscilando entre brisa
e vendaval com a mesma velocidade em que alguém pisca. Estávamos em um
momento brisa, e de repente, um vendaval me golpeou com força, soltando
algumas mechas castanhas dos meus cabelos e me deixando
momentaneamente sem enxergar. Eu estava ali, tentando colocar meu cabelo
rebelde atrás da orelha com a mão que segurava o biscoito e equilibrando a
pasta e o café quando me choquei contra algo duro. Não tive muito tempo
para pensar ou reagir. Tudo que consegui foi perder o equilíbrio e lambuzar
meu cabelo com o caramelo quente do biscoito, enquanto meus sapatos
patinavam naquela lamazinha nojenta que se forma quando a neve derrete nas
ruas e o sol não é suficientemente quente para secá-la. O copo se foi em
direção ao muro de terno na minha frente e eu juro que quis impedir, mas não
pude, eram os meus joelhos contra a calçada ou o café contra o terno do
homem. Pensei que ele sentiria menos dor em sujar o terno do que eu sentiria
em ralar os joelhos no cimento da calçada. Antes que eu tivesse certeza de
que não cairia, senti sua mão firme em torno do meu pulso, sustentando-me e
colocando-me em posição confortavelmente vertical novamente.
Ainda não tinha olhado para cima, mas então, pareceu inevitável
encarar meu salvador. O salvador sujo de café, graças a mim. Meus olhos
subiram pelo terno escuro, minhas bochechas corando pela mancha grudenta
e escura na camisa imaculadamente branca – até segundos atrás – era um
peito forte e definido, mesmo sob o terno, eu podia ver que ele tinha uma bela
constituição física. Gravata de seda cinza, ombros largos, pele clara com uma
barba bem aparada que oscilava entre o castanho claro e o louro e a boca
mais linda que eu já havia visto em um homem, e então parei nos olhos.
Os olhos dele me queimavam de dentro para fora. Aquele tipo de
olhar que faz você querer se cobrir porque sente que o outro está olhando
dentro da sua pele. Os olhos eram castanhos, levemente esverdeados.
Estreitos e profundos como se o mundo o entediasse. Ele tinha a mão ainda
em torno do meu pulso – seu toque firme não era gentil, nem delicado. Nada
naquele homem era delicado. Sabia que ele deixaria uma marca e sabia que
não seria apenas no meu pulso.
― Desculpe-me – pronunciei no holandês mais polido que eu consegui,
embora meu holandês fosse ruim como o inferno.
Ele não respondeu pelo que me pareceu tempo demais, os olhos
perdidos dentro dos meus. E então ele se abaixou elegantemente, sem deixar
os olhos se perderem dos meus, os lábios apertados, sem nenhum esboço de
sorriso em sua boca linda. Eu só percebi o que ele ia fazer, quando me
entregou as primeiras folhas de papel manchadas de lama e café que haviam
caído da pasta com nosso choque. Ele as pegou, uma a uma, e me entregou.
Quando peguei a última e coloquei dentro da pasta, ele deslizou a mão pelo
cabelo claro, ajeitando uma mecha que insistia em descer por sua testa,
alisando-a para trás novamente. Ele cheirava tão bem que eu rezava
mentalmente para que se movesse mais e espalhasse aquele aroma delicioso
pelo ar em volta de mim, mas ele não era de mover-se demais. Era contido,
elegante e certeiro; calculista, planejado. Eu me sentia como uma maluca nos
poucos minutos em que estávamos perto um do outro. Eu gesticulava demais,
movia os pés demais, eu me sentia nervosa, descontrolada, ansiosa. Meus
cabelos estavam uma bagunça de vento e caramelo, o biscoito idiota
repousando entre os meus dedos.
― Espero não a ter ferido – ele me disse em inglês, com o sotaque mais
erótico que já ouvi. Provavelmente percebendo que eu não era holandesa. Eu
queria cavar um buraco na calçada com minhas unhas e me atirar nele,
humilhada e suja de caramelo.
― Não. Não se preocupe. Sou desastrada mesmo – eu falava
descontroladamente. Queria parar, mas simplesmente não podia. Minha
mente maluca tentando aumentar o que provavelmente era uma despedida
curta entre dois estranhos – Sinto muito pela camisa. Se quiser eu posso
mandar lavar. Basta dizer onde devo buscá-la.
Rezava para que ele me desse um endereço. Que me dissesse onde
buscar a maldita camisa, provavelmente feita sob medida, para que eu tivesse
alguma esperança de encontrá-lo novamente. Corri os dedos por sua mão
esquerda. Não havia aliança, mas havia uma pequena marca ali, quase
sumindo. Ele esperou pacientemente que eu terminasse de tagarelar como
uma gralha, sempre em silêncio, os olhos focados nos meus. Eu sentia uma
onda estranha de calor que começava dentro do meu umbigo e se espalhava
até minhas bochechas, que já pegavam fogo.
― Não será necessário, senhorita. – Sua voz apertava botões dentro de mim
que eu nem sabia que existiam. – Espero apenas que me perdoe e desejo que
tenha um dia agradável, apesar do ocorrido.
Ele acenou levemente com a cabeça, virou-se e se foi. Sumindo na
pequena multidão que tentava atravessar a rua. Nem um nome, nem um
aperto de mão, e menos ainda um convite para qualquer coisa que me
incluísse. Eu ainda estava meio atordoada com todo o acontecido quando vi o
pequeno trem se aproximar e corri, sem um décimo da elegância do espécime
perfeito de homem com quem eu tive o prazer de trombar.
Entrei, passei meu cartão pela máquina de cobrança e me sentei. Fiz
uma varredura de mim mesma e conclui que nada – além do meu orgulho e
do meu cabelo – havia se perdido com o fatídico esbarrão. Encarei o maldito
biscoito na minha mão e dei uma mordida, grande demais, tentando
compensar a fome que eu ainda sentia. Seu perfume estava no meu pulso,
vermelho pelo toque, e eu queria mais.
Cheguei ao escritório com dez minutos de atraso, esperando ser
repreendida – ultimamente eu vinha sendo repreendida muito mais do que
gostaria – mas Hans não estava lá. Hans Andersen, meu chefe, mentor e tudo
mais que você possa considerar importante. Hans foi o responsável por eu
poder permanecer na Holanda, uma vez que eu não havia encontrado pista
alguma do meu pai.
Eu o conheci seis meses depois de chegar aqui, enquanto ainda tinha
esperanças sobre meu progenitor misterioso. Ele me ajudou no que pode,
dentro dos meus poucos euros disponíveis e me arranjou uma bolsa para a
faculdade depois de presenciar um dos telefonemas incrivelmente
desconfortáveis que tive com a minha mãe. Quando estava no terceiro
semestre da faculdade de direito, ele me deu um estágio. Pagava muito mais
do que eu merecia e, apesar de tentar, compreendia minha dificuldade na
língua.
Eu falava inglês muito bem, quase sem sotaque, mas o holandês era
outra história, eu me sentia como uma velhinha banguela falando e todo
mundo me corrigia. Com o tempo, fui desistindo e firmando meu inglês. Eu
trabalhava com direito internacional, então não era assim tão difícil não falar
holandês, uma vez que meus clientes, em geral, falavam inglês.
Hans era para mim como o pai que eu nunca tive, uma vez que o
maldito holandês que me gerou, deixou minha mãe grávida com alguns
milhares de reais e um pedido de aborto. Vida difícil? Nem tanto. Essa é
apenas a parte fácil. A parte realmente difícil foi descobrir que tudo isso
podia não ser verdade e que minha adorável mãe podia não ser tão sincera
assim. Resumindo, quando fiz dezenove anos eu fugi com meu passaporte e
tudo que consegui de dinheiro com minha avó para a Holanda. Eu tinha
certeza de que minha vida acabaria como aqueles filmes em que a garota não
sabe quem é o pai e descobre que ele é algum tipo de príncipe. Como Anne
Hathaway em “O Diário da Princesa”. Não foi exatamente assim que as
coisas aconteceram, mas eu considero que terminei muito bem, considerando
a vida que teria se tivesse ficado com minha mãe em São Paulo.
Voltando às represálias frequentes, eu estava em débito com Hans.
Arrastei o nome do escritório do anonimato direto para a beira do meio fio
com o escândalo que resultou do meu primeiro caso. Era um caso importante.
Uma empresa belga usando mão de obra quase escrava com trabalhadores
bolivianos. Eu tive um prazer quase sexual em vencer esse caso, porque me
sentia ligada às pessoas de alguma maneira. Eles eram sul-americanos como
eu e estavam em uma situação ruim, eu me sentia em dívida e quis ajudá-los.
O fato é que eu acabei desagradando às pessoas erradas e no fim, embora eu
fosse brilhante em defender o que acreditava, conseguiram sair com uma
história hedionda na mídia de que eu havia ganhado o caso porque ofereci
favores sexuais ao juiz.
Primeiro eu quis morrer, enterrei-me em casa, debaixo das cobertas e
chorei até não aguentar mais com um pote de Häagen Dazs. Depois eu quis
matar. Fui até o escritório do canalha que inventou a mentira toda e quase saí
de lá escoltada pela polícia. Por último, Hans me convenceu que nem uma
das duas coisas iria mudar o que metade da Europa estava convencida a
pensar e que só o tempo poderia realmente exercer algum bem sobre esse
assunto.
Voltei ao trabalho e passei a escolher casos menos polêmicos para
meter meu narizinho arrebitado. Já fazia quase um ano e eu ainda tinha que
lidar com olhares tortos quando pisava em um maldito tribunal de justiça,
mas ali estava eu, uma brasileira que não desistia nunca – clichê, mas era
verdade.
Entrei em meu escritório, encostei a porta, sentei em minha cadeira e
liberei todo o ar dos pulmões, puxando uma lufada de vento para dentro pela
primeira vez desde o fatídico esbarrão – eu ainda podia sentir o peito firme
dele contra a pele do meu rosto. O perfume delicioso de roupa limpa e algo
masculino e sofisticado. Lambi os lábios sem querer, caneta brincando na
boca, olhos perdidos na janela, mirando o mar lá no fundo, sentindo minha
respiração se acalmar e fluir quando minha porta bateu.
Hans estava lá, calça escura, camisa clara, blazer xadrez, óculos na
ponta do nariz aquilino, olhar de interesse.
― Ou eu estou perdendo meu faro para palpites, ou algo a deixou mais fora
de controle que o costume.
Ajeite-me na cadeira, fechei a boca e deixei a caneta descansar no
porta-lápis – a pobre coitada já estava mordida e babada o suficiente para
uma manhã de trabalho.
― Hum – comecei – se foi pelo atraso, eu sinto muito Hans. Realmente não
pretendia me atrasar, eu não me esqueci do seu compromisso com o tal
executivo importante. Sério. Se contasse você nem acreditaria – parei a
história por aí porque eu realmente não queria dividi-la com ele e nem sabia
como fazer isso sem parecer imbecil.
Ele se sentou na cadeira de frente para a minha, do outro lado da mesa.
Cruzou as mãos sobre a mesa e me deu um sorriso divertido, acendendo um
cigarro.
― Para a sua sorte, Srta. Soares, eu estou com muito tempo livre esta manhã,
uma vez que meu cliente teve um infortúnio e desmarcou nosso encontro,
então, eu adoraria ouvir o que a fez se atrasar.
Estava me preparando mentalmente e repassando a história em minha
mente da maneira mais sensata que pensei quando Berta bateu na porta.
― Sr. Andersen, – ela disse com a voz baixa – telefone para o senhor na
linha dois. É o Sr. Persen. Posso transferir para cá?
― Claro! – Hans respondeu. – Transfira que eu mesmo atendo.
Berta saiu e Hans deu um longo trago no cigarro.
― Ele é metódico. Extremamente metódico. Confesso que fiquei curioso
para conhecê-lo e um pouco desapontado quando desmarcou, hoje de manhã.
O telefone tocou em seguida.
― Sim, pois não, você fala com ele mesmo. Claro que sim Sr. Persen, eu
mesmo irei a Roterdã pela manhã. – Uma estreitada de olhos de Hans em
minha direção e uma longa pausa na conversa me deixou nervosa. – Claro.
Eu entendo. Sei que sim. – Mais uma pausa. – Não estou certo disso. Seria
arriscado demais. Não quero manchar a carreira dela. – Meu coração
martelando em meu peito agora. – Bem, aí seria diferente, mas ainda assim
Persen, você sabe que eu tenho muito apreço pelo trabalho dela. Não, eu não
acho que notícia alguma seja verdadeira, eu conheço meus empregados. –
Agora eu estava desesperada, realmente desesperada. O homem era metódico,
vai ver pediu minha demissão como condição para entregar algum caso a
Hans. Pronto, esse era o fim da minha carreira.
Hans desligou e eu fiquei sem saber se queria ou não ouvir o que ele
tinha para me dizer, esvaziando mentalmente minhas gavetas e olhando
minha pequena planta carnívora sobre a janela, pensando que ela teria que
dividir a janela com Mia de agora em diante.
― Tenho boas e más notícias Laura, o que quer primeiro? – Hans me disse.
Respirei fundo, endireitei os ombros, soltei o ar com cuidado. Se ele
iria me despedir eu receberia isso de peito aberto, Hans merecia isso de mim,
ele merecia que eu fosse corajosa e eu seria.

Adrian
Minha mente estava longe enquanto eu dava goladas esparsas no meu
uísque. Longe. Perdido. Sozinho. Minhas forças e minha paciência levadas ao
limite. Eu estava a ponto de cometer algum tipo de loucura. Eu os queria de
volta. Eu os queria comigo. Eu não podia mais postergar isso. Meu coração
se apertava e eu não sabia mais o que fazer. Havia tentado evitar toda essa
merda judiciária porque não queria procurar meu pai.
Não queria ouvi-lo me dizer que avisou. Dizer que eu estava errado
que tinha metido os pés pelas mãos que havia jogado meu futuro fora e todas
as coisas que nos fizeram discutir desde o nascimento de John. E então Collin
me ligou chorando e me disse que sentia saudades e que queria voltar.
Perguntou-me sobre Chucrute e disse que sentia falta de casa.
Ele respirou fundo, e me perguntou se eu não o queria mais e então
me coração desmoronou. E tudo ao meu redor perdeu o brilho e o sabor e
nada mais importava se eu não pudesse trazê-los de volta, os três.
Liguei o notebook. Já fazia anos que eu não lidava com esse tipo de
coisa, estava enferrujado, mas minha licença era válida, e embora não
pudesse cuidar desse caso sozinho, eu podia encontrar alguém bom o
suficiente para o caso. Pensei em Alex e descartei o pensamento assim que
me ocorreu. Eu precisava dele em outros assuntos, não poderia simplesmente
comprometer meu melhor advogado e deixar todo o resto desamparado e eu
queria alguém à minha disposição. Eu sabia que o caso exigiria algumas
viagens e isso era impossível para Alex, especialmente com Alissa prestes a
dar à luz.
Respirei fundo, lembrando o momento exato em que segurei John em
meus braços. Eu era um garoto bobo e mimado e não tinha ideia do que
estava fazendo, mas aquele pedacinho de gente nos meus braços mudou tudo
isso. Eu olhei nos olhinhos dele e prometi que faria meu melhor por ele. Eu
prometi que não permitiria nunca que nada o magoasse e eu falhei. E o vi
derramar mais lágrimas do que eu queria. E o vi crescer. E o vi tornar-se tão
diferente de mim. E o vi se afastar. E agora ele estava lá, com milhares de
quilômetros de distância de mim e tudo que eu queria era ele aqui, ouvindo
aquelas músicas barulhentas e chatas, e deixando os tênis sujos esparramados
pelo meu tapete de pele de ovelha. Minha casa estava silenciosa demais.
Abri o navegador e digitei “caso Fergusson” na caixa de pesquisa. Eu
me lembrava do acontecido muito bem. E me lembrava de todos os
problemas que ele trouxe consigo. Procurei por uma foto da advogada
envolvida, mas não encontrei. Ela havia conseguido uma liminar proibindo a
divulgação de imagens dela. Não encontrei nada, apenas o nome – Laura
Soares. Ela era impetuosa. Havia ido até a sede da Fergusson para confrontar
o diretor a respeito das falsas acusações sobre os acontecimentos de caráter
sexual entre ela e o juiz Albert Reign. Sorri com a lembrança – ela não havia
feito isso e eu sabia bem. Encontrei um currículo dela na rede. Eram quase
cinco páginas e começava assim.
“Laura Soares, vinte e seis anos, brasileira, formada pela Academia de
Direito Internacional de Haia, concluindo especialização em direito
corporativo”.
Era um currículo impressionante para uma garota tão jovem. Ela
lembrava a mim com a idade dela. Ela havia trabalhado em vários casos
importantes e, se não fosse toda a merda que a Fergusson lançou sobre ela, já
estaria muito longe do escritoriozinho em que trabalhava, provavelmente
ocupando uma cadeira no departamento jurídico da União Europeia. Ela era
competente, mas esse não foi o ponto mais importante da minha escolha por
ela. Ela era brasileira, e isso sim era o diferencial. Eu queria alguém que
pudesse falar com destreza, convencer o júri, ainda que no Brasil, de que não
havia lugar melhor para os meus filhos do que ao lado do pai.
Peguei o telefone e disquei o número comercial. Uma voz feminina
atendeu no segundo toque.
― Andersen Advogados Associados, em que posso ajudá-lo?
― Gostaria de um horário com a Srta. Soares. Preciso da ajuda dela em um
caso.
A mulher pensou por um tempo, procurando pela resposta mais
adequada.
― Sinto muito. – Ela me disse com pesar. – A Srta. Soares não está pegando
casos novos. Posso indicá-lo a outro advogado. O Sr. Andersen tem muita
experiência em direito internacional. Poderia agendar uma hora com ele, – e
completou – tenho certeza de que o Sr. Andersen poderá ajudá-lo no que o
senhor necessitar.
Respirei fundo – a pobre garota estava na geladeira. Hans Andersen não
iria colocar sua pequena reputação no lixo por causa de uma recém-formada,
por mais que ela fosse brilhante. Concordei.
― Seria ótimo que eu pudesse falar com ele amanhã, pela manhã – eu disse.
― Infelizmente a agenda do Sr. Andersen está completa pela semana.
Poderia ser na próxima terça?
Suspirei mantendo minha irritação sob controle.
― Eu realmente preciso de urgência. É um caso importante e tenho certeza
de que o Sr. Andersen entenderá assim que nos encontrarmos. Acredito que
ele tenha outros casos esperando, mas realmente preciso de urgência. – E
então eu suspirei novamente, lançando mão da minha melhor carteirada. –
Diga a ele que o Juiz Reign me indicou.
Ela demorou alguns minutos, provavelmente consultando o tal Hans
Andersen. Estava me afogando em frustração quando ela retornou.
― As nove então, – ela respondeu – o senhor tem o endereço do escritório?
― Sim. Tenho sim.
― E a quem o Sr. Andersen deve esperar? – Ela me perguntou.
― Alex Persen – menti.
Eu quase sorri. Albert Reign, o nome que abre portas. Todas as portas,
sempre. Abri o celular novamente e disquei para Alex. Ele atendeu no
terceiro toque.
― Alex Persen.
― Alex. Preciso que me faça um favor amanhã. Preciso que me encontre em
Amsterdã, – Alex permaneceu em silêncio, então eu continuei – preciso que
me encontre em um escritório de advocacia no centro novo, perto do porto.
― E o que exatamente precisamos fazer em um escritório de advocacia no
centro de Amsterdã? – Ele me perguntou.
― Bem – comecei – eu preciso que convença o Sr. Hans Andersen que quero
a funcionária dele trabalhando para mim – suspirei – Collin me ligou esta
tarde.
Alex pensou por alguns minutos. A linha muda. Apenas sua respiração
se fazendo ouvir. Ele era muito mais meu amigo que meu advogado.
Havíamos divido coisas demais nesses quinze anos de amizade. Desde o
quarto no dormitório da universidade, haviam sido noites e dias de conquistas
e decepções, todas partilhadas com ele. Éramos muito mais que amigos,
éramos como irmãos. Quando Collin nasceu, Alex foi o único que entendeu e
ficou ao meu lado.
― Sabe que será um desafio trazer Collin de volta. Não sabe? – Não
respondi. Eu sabia. – Uma hora dessas os pais de Patrícia já devem ter feito
todos os testes possíveis.
― Eu sei – disse de repente.
― Se quiser mesmo entrar com um processo, eu mesmo posso pedir a
restituição de guarda. Hanna e John estariam aqui antes do fim de semana.
Quanto a Collin... Não acredito que esse tal Andersen possa fazer algo
melhor do que eu poderia. Francamente Adrian. Não entendo.
― Não vou apenas pedir restituição de guarda – continuei – eu vou processá-
los por cárcere privado. Meus filhos são menores. Vou me valer da
convenção de Haia.
― Tem certeza de que quer entrar nessa briga? Você sabe que Patrícia usou
certas, – ele parou a frase no meio sem saber como continuar – certas
peculiaridades do relacionamento de vocês para deixar os pais a favor dela.
Será uma briga feia.
― Sei disso Alex. E é por isso que não quero você encarregado disso. Como
sabe os negócios não podem parar e eu não confio em ninguém mais para
tocá-los enquanto eu estiver no Brasil.
― Então você está mesmo decidido – ele concluiu.
― Sim. Estou. – Respondi. – Mas como você sabe não posso representar a
mim mesmo e não sou fluente em português como gostaria. Preciso de
alguém que faça isso por mim.
― E acha que Andersen é capaz – completou.
― Não exatamente – continuei – você se lembra da garota do caso
Fergusson?
― Como se fosse ontem. Rimos um bocado da situação.
― Então você se lembra de que ela é brasileira.
― Adrian, Adrian. Não me diga que está fazendo isso apenas para atingir o
juiz.
Eu sorri – seria interessante, mas não era essa a razão.
― Não. Eu realmente acho que ela é capaz. É impetuosa, jovem, ousada. Não
baixa a cabeça fácil. Ela precisa de algo que limpe sua ficha – sorri – eu sou o
cara certo para isso. Não acha?
Alex riu alto contra o telefone.
― Nenhum ponto sem nó para Adrian Van Galagher.
― Nunca.
― E por que eu faço parte desse seu plano tão perfeito?
― Simples. Preciso convencer o Andersen de que a garota pode pegar o caso
sem arrastar o nome do escritório dele pela lama e estou sem vontade alguma
de perder tempo com isso. Como eu nasci rico e você não, você fará isso por
mim enquanto eu esperarei por você e pela Srta. Soares tomando uma bela
xícara de café no Waldorf.
― Seu bastardo filho da puta! – Ele xingou. – Se você não assinasse meu
contracheque todos os meses – brincou.
Eu sorri e desliguei o telefone, mandando uma mensagem de texto com
o endereço e o horário do encontro.
Não sei quanto tempo levei para pegar no sono aquela noite. Cenas
antigas correndo em minha mente. Cenas de um tempo que nunca mais vai
voltar. Um tempo em que pensei que minha vida estava certa, finalizada.
Cenas de um Adrian que não existia mais. Acordei cedo demais, o corpo
doendo, a garganta seca. Andei por cada um dos três quartos vazios no andar
de cima da minha casa. Encarei a guitarra sobre a cama de John, os pôsteres
de bandas de rock distribuídos pelas paredes. Revistas de criação de cavalos
sobre a escrivaninha. Uma foto de Patrícia sentada sobre a grama na fazenda.
Será que meu filho me odiava tanto quanto eu odiava meu pai? Não eu não
odiava o pai, apenas não conseguia conviver com ele. Meu pai era um
homem complicado, difícil. – Pensei por um momento. – John provavelmente
pensava o mesmo sobre mim.
Caminhei até o quarto de Hanna. Minha menininha. As paredes tinham
um tom de amarelo suave como a luz do sol. Hanna era o meu sol. Sentei-me
sobre o edredom de flores cor de rosa. Eu me lembro de acordar no meio da
noite apenas para vê-la dormir. Seus cabelos louros espalhados pelo
travesseiro brilhavam como raios de sol. Não importa o quão duro fosse o
clima lá fora, aqui dentro eu tinha sol. Agora minha casa estava perdida em
um inverno sem fim. Ajeitei a boneca sobre os travesseiros e me levantei.
Entrei no quarto de Collin e senti meu coração apertar. Os brinquedos
empilhados nas estantes. A cama feita, as almofadas no lugar. Nada
costumava ficar assim com ele aqui. Collin era o meu pequeno furacão. Eu
quase podia ouvi-lo correr pelo quarto com a toalha nas costas me dizendo
que era o Superman. Collin era feliz e animado. Diferente dos irmãos ele não
sofreu com a morte da mãe. Era jovem demais quando ela o deixou. Quando
Collin nasceu eu pensei que poderia corrigir todos os erros que tinha
cometido com John. Eu era mais maduro, menos infantil, mas nós não
tivemos tanto tempo quanto eu gostaria. Ele se foi rápido demais. Olhei uma
fotografia de Collin no berço, as mãozinhas estendidas em direção a
Chucrute, que dormia debaixo do berço. Chucrute não estava mais aqui. Eu o
havia mandado para a fazenda. Não tinha condições de cuidar de mim e dele.
Além disso, ele era feliz demais para essa minha nova vida. Eu não queria um
cachorro feliz abanando o rabo para mim a cada manhã, quando tudo que eu
queria era esquecer a vida.
Fechei a porta da minha suíte e acendi a lareira. Tirei o paletó e desatei
o nó da gravata. Abri os botões da minha camisa e deixei que ela caísse sobre
o tapete. Desfiz-me dos sapatos e da calça e caminhei até o banheiro. Encarei
o homem no espelho. Ele parecia muito mais vivido do que os trinta e sete
anos que tinha. Ele parecia sofrido, triste. Os olhos pareciam nublados. E
estavam. Eu não via mais cor no mundo depois de tudo que vivi. Eu aprendi a
duras penas que o dinheiro não compra tudo. Não comprou para mim. Não
comprou para minha mãe e não comprou para Patrícia.
Encarei meus braços tatuados. Pequenos pedaços de tudo que eu
havia vivido até aqui. Lucian, mamãe, Galápagos, Patrícia, John, Hanna e
Collin. Todos estavam ali, de alguma maneira, tatuados sob minha pele. Tudo
que era importante para mim estava ali, ao longo dos meus braços e ombros,
descendo até o meu tórax. Meu pai odiava tatuagens, então tudo tinha
começado como uma forma de dizer que eu não me importava com a opinião
dele. Seis meses depois que Lucian morreu, eu havia tatuado o nome dele,
entre duas mãos estendidas, com asas de anjos ao redor, no centro das minhas
costas. Era minha maneira de dizer que o tinha entregado a Deus. Que ele
agora era um anjo, olhando por nós lá de cima. Então mamãe se foi e eu
tatuei três rosas em meu peito, perto do coração. Éramos eu, ela e Lucian e
estaríamos sempre juntos.
Havia feito uma tatuagem no braço com um cavalo correndo na praia.
Ela circundava toda a parte superior do meu braço. Era meu Galápagos. Meu
primeiro cavalo. Ele tinha esse nome porque seu pelo era da mesma cor das
areias que encontrei quando visitei Galápagos. Patrícia sempre me perguntava
por que eu não havia tatuado nada para ela. Eu me esquivava, não parecia
certo. Não queria que fosse eterno. Eu achava tudo efêmero e passageiro
sobre nós. Eu estava certo. Depois que tudo aconteceu eu soube que estava
certo. E então ela adoeceu, e eu soube que estava errado, e percebi nas
lágrimas do meu filho que ela seria eterna em nossas vidas, mesmo que não
fosse mais minha esposa. Tatuei uma cena nas costelas, era uma garota
entrando em um jardim, com um ramo de margaridas na mão. Ela tinha os
cabelos ondulados, varridos pelo vento. Era minha Patrícia. A garota alegre
que conheci na faculdade. A garota cheia de vida que me deu três filhos e que
me deixou estragar a vida dela com as minhas merdas.
Havia os três anjos pequenos e gorduchos tatuados no lado aposto das
minhas costelas. Eram John, Hanna e Collin. Meu outro braço era coberto por
padrões de arabescos e algumas imagens que eram importantes para mim.
Um pôr do sol, uma gaivota voando, a data da minha formatura. E por último,
a dama da justiça na parte baixa das costas, com seu vestido esvoaçante e
seus olhos vendados, segurando a balança. Era minha última paixão, meu
trabalho. Mesmo que eu estivesse afastado dele, ainda era minha paixão.
Entrei na banheira e fiquei ali, deixando o tempo passar e esperando o
dia clarear para me trocar e seguir com os meus planos.
Capítulo 2

Laura
Eu tamborilava meus dedos sobre a mesa sem querer. Estava nervosa.
Refazendo mentalmente os planos de quantos meses eu poderia ficar
tranquila com minha poupança depois que Hans me dispensasse. Decidi que
não tornaria as coisas mais difíceis para ele e me adiantei.
― Hans, eu sei que é difícil para você. Sei que confiou em meu trabalho e eu
o desapontei, então, tudo bem. Eu entendo. Eu até acho que você tem seu
ponto.
Hans fitou meus olhos por um tempo, estudando meu comportamento.
Fiquei ali, pensando em como um dia bom podia ter se transformado em um
dia péssimo em menos de três horas – praga do cara de terno! Só podia ser.
― Exatamente que ponto você acha que eu tenho Laura? – Ele me perguntou.
Engoli em seco – ele realmente queria que eu pedisse demissão?
Ajeitei uma mecha insistente em meu coque recém-refeito.
― Em me dispensar – soltei de uma vez – você está certo. Não é como se eu
pudesse esperar na geladeira até que as coisas se acalmem. Você tem clientes
importantes. Eu entendo.
Tentei levantar para começar a ajeitar minhas coisas, mas Hans fez
sinal para que eu me sentasse novamente.
― Porque acha que eu pretendo dispensá-la?
Agora eu estava irritada! Maldito holandês do inferno! Eu não sei
oras! Talvez porque o ricaço metódico e chato não me queria perto dos seus
negócios? Não respondi por alguns segundos, pensando em que falar.
― Pelo que eu entendi da conversa – comecei – Alexander Persen não me
quer perto do caso dele.
Soltei o ar sentindo meus pulmões doerem. Era a verdade, mas era uma
verdade dolorosa. Eu, com minha experiência sexual irrisória carregaria o
estigma de prostituta de luxo para sempre.
― Alexander Persen me impôs apenas uma condição – Hans começou – a de
que você tomasse conta do caso dele pessoalmente.
Engasguei. E tossi. E senti como se minha glote se fechasse em um
instante, fazendo todo o ar faltar.
― Oi? – Perguntei.
― Ele acabou de me ligar e dizer que, devido os problemas que teve hoje
pela manhã, espera que você possa encontrá-lo ao final da tarde no Waldorf
para uma xícara de chá. Ele quer discutir o caso com você e ver se você se
interessa.
Minha boca parecia colada às orelhas, impedindo-me de fechar o
sorriso, mas o medo era um fantasma rondando minha felicidade.
― E você acha que eu não deveria – conclui.
― Ao contrário, acho que nada poderia ser melhor para sua carreira. Persen
veio com indicação do Juiz Reign. É um homem influente. Fiz uma varredura
sobre ele. Descobri que é um advogado importante, braço direito de um
grande empresário holandês. Se ele a escolheu tão especificamente foi por
seus méritos como profissional – Hans parou por um instante, descansando a
mão sobre as minhas, cruzadas sobre a mesa – só não queria que fosse
sozinha. Eu preferia estar ao seu lado e garantir que tudo sairia bem, mas ele
foi muito específico quanto a isso. Disse que quer você no caso. Exigiu
confidencialidade.
Acariciei a mão de Hans sobre as minhas. Então era isso, preocupação
comigo. Eu quis beijá-lo, mas os europeus não são como os brasileiros e
aprendi nesses anos que contato físico aqui é meio limitado.
― Obrigada – eu disse.
Hans sorriu e então eu continuei.
― Obrigada por me dar todas as oportunidades da minha vida. Obrigada por
estar ao meu lado e por confiar em mim quando ninguém mais fez. E,
principalmente, obrigada por concordar com Alexander Persen.
Hans sorriu e eu continuei.
― Sei que tenho sido meio displicente, mas acredite desta vez vou tomar
cuidado. Vou me proteger e vou ganhar esse caso. E vou trazer essa vitória
para o nosso escritório.
― Dezessete horas no Waldorf – ele me disse levantando uma sobrancelha
para mim enquanto passava pela porta – não importa o que aconteça não se
atrase Soares. Você se atrasa e Persen nunca mais a recebe. Desgraça total
para sua carreira. Última pá de terra sobre algo que já está semienterrado.
Passei o que restou do dia no escritório. Eu não queria dar chance para
que nada acontecesse entre o intervalo de tempo de minha conversa com
Hans até o encontro com Persen. O único momento em que saí foi para ir ao
mercado orgânico que funcionava próximo ao escritório e comprar macarrão
integral e molho de tomates italianos com manjericão. Esquentei no micro-
ondas do escritório, abri minha embalagem de suco de toranja e comi com o
máximo de cuidado que consegui. Já bastava o cabelo caramelizado, pelo
menos minha blusa podia estar em sua melhor forma.
Depois de almoçar, enquanto todos ainda estavam fora, caminhei até a
pequena varanda. Ela estava ali apenas para abrigar o ar condicionado, mas
era meu lugar preferido para pensar. Debruçada sobre o parapeito da varanda,
tinha uma visão completa da baía. Detive meu olhar no horizonte, apreciando
o movimento dos barcos, sentindo o vento balançar meus cabelos que agora
estavam soltos.
Olhei para o pulso, não havia mais uma marca ali. Não havia mais
perfume. Tudo sobre o misterioso homem de terno havia desaparecido.
Porque então ele estava em minha mente? Ele era bonito. Educado, cortês.
Parecia rico e sofisticado. E isso tudo por si só já era razão suficiente para
que alguém se fizesse lembrar, mas havia algo nos olhos dele. Não
exatamente no formato ou na cor – por melhores que fossem – era o que ele
escondia no olhar. Suspirei – eu queria ter a chance de vê-lo novamente. Se
pelo menos eu tivesse uma direção. Eu nem sabia se ele era holandês ou se
era apenas um executivo de passagem. Ele era uma agulha em um palheiro e
já sabia pelo meu pai, que não era boa em solucionar mistérios.
Fechei os olhos e deixei o tempo passar, fantasiando em minha mente
como seria beijar aquela boca linda pelo menos por um minutinho. Eu quase
podia sentir o gosto do beijo dele. Olhos fechados, cara de idiota, pensando
em um homem que eu certamente não veria nunca mais. Céus como isso
soava preocupante. Eu precisava de um namorado, na velocidade da luz!
Quando meu relógio marcou dezesseis e trinta eu deixei o escritório.
Meus cabelos soltos sobre os ombros. Franja devidamente lavada e ajeitada
com uma presilhinha para trás – coque não tinha sido meu melhor visual de
hoje. Peguei o tram assim que cheguei ao ponto e desci algumas estações do
terminal central de Amsterdã. Caminhei até o Waldorf, um hotel chique no
centro velho. Entrei, caminhei até o café e avisei o garçom que esperava pelo
Sr. Alexander Persen. Ele me indicou uma mesa no fundo do salão, com vista
para o Amstel.
Sentei-me, coloquei a pasta na cadeira ao lado, peguei meus óculos para
ler o cardápio e estava no terceiro nome de chá, quando o homem parou à
minha frente.
― Eu sou Alexander Persen – o homem disse em um inglês britânico perfeito
e quase sem sotaque.
Corri meus olhos para cima, observando o homem ali parado. Alto,
esguio, apesar de forte. Ombros largos. Terno impecável, sapatos lustrados,
relógio caro. Ele tinha a pele clara e olhos pálidos que oscilavam entre o
verde e a avelã. Cabelo escuro e liso, penteado para trás, barba por fazer que
deixava sua pele ainda mais clara. Ele era bonito. Realmente bonito. Não
bonito de um jeito perturbador como o homem da trombada da manhã.
Alexander Persen era o tipo de homem confiável de quem você fica logo
amigo depois de uma xícara de chá e dez minutos de conversa.
Estendi minha mão em cumprimento e segurei a dele. Seu aperto era
firme, seguro, gentil. Alexander sorriu.
― Você é um pouco mais jovem do que eu imaginei – ele pontuou – e muito
mais bonita também.
Corei. Não era algo que pudesse impedir. Essa maldita pele branca
herdada do meu pai me fazia corar com a mesma facilidade que eu respirava.
Sorri de volta, tentando não parecer afetada.
― Obrigada! – Limitei-me a dizer, evitando parecer que flertava, embora ele
fosse realmente o tipo com o qual eu gostaria de flertar.
Alexander fez sinal para que eu me sentasse e sentou-se à minha frente.
Eu pedi uma xícara de chá indiano e algumas Madeleines.
Encarei Alexander um pouco mais, enquanto ele escolhia o chá. Ele
tinha mãos bonitas, suaves, mas não delicadas. Dedos longos como os de um
jogador de basquete, mas elegantes como as de um maestro. Tinha pequenas
sardas sobre o nariz e a boca tinha um tom rosado que causaria inveja em
metade das mulheres que eu conhecia. Não havia marca alguma de aliança
em seu dedo. Alexander Persen era um homem perfeito. Digno de um
editorial de moda. Ele chamou o garçom e fez o pedido em holandês. Sorriu
de volta para mim antes de continuar a conversa em inglês.
― Eu soube que estudou na academia de Haia – ele disse.
― Sim – respondi – formei-me há quase um ano.
― Então está familiarizada com direito internacional. – Assenti – Já pegou
algum caso de guarda, Srta. Soares?
Oh! Ele tinha filhos. E se tinha filhos talvez fosse divorciado. Ou talvez
não usasse aliança. Eu estava curiosa, traçando padrões para a vida de
Alexander Persen.
― Estou mais familiarizada com direito empresarial, mas não tenho objeção
alguma quanto a casos diferentes.
Eu e minha boca grande não resistimos.
― O senhor tem filhos, Sr. Persen?
O garçom voltou com uma bandeja. Deixou nossas xícaras de chá, meu
prato de Madeleines e um pedaço gigantesco de torta de maçã com sorvete de
creme para Alexander. Ele deu uma golada no chá e uma garfada certeira,
bem no meio da torta. Parou um pouco antes de levá-la à boca e respondeu
minha pergunta.
― Não. – Ele disse – Bem, não ainda! – Corrigiu – Minha noiva está grávida.
Esperamos nossa Louise para o final da primavera. Alissa se recusou a casar
parecendo um balão. – E sorriu. – Palavras dela, não minhas.
Eu sorri, sentindo meu peito se apertar. Ele era realmente o homem
perfeito e, fosse quem fosse a tal Alissa, tinha muita, muita sorte. Meus olhos
correram até meu estômago plano, liso, triste. Eu provavelmente nunca teria
essa sorte. Forcei o sorriso novamente.
― Meus parabéns Alexander.
― Alex – ele interrompeu – pode me chamar de Alex. – E emendou. – Na
verdade quando alguém me chama de Alexander eu penso que estão falando
com meu pai, sabe?
Sorri com mais vontade.
― Não, mas imagino.
― Mas voltando ao nosso pequeno arranjo, Srta. Soares.
― Laura – eu o interrompi.
― Laura. – Ele corrigiu. – Preciso de sua ajuda com um caso de guarda.
― Posso fazer uma pergunta Alex? – Ele me encarou e assentiu. – Por que
fala comigo em inglês?
Alex sorriu.
― Porque sei que não é holandesa, e esta é uma das grandes razões para que
esteja aqui, sentada à minha frente, Laura. – Parou, deu outra golada no chá e
continuou. – É brasileira. – Não era uma pergunta e então eu não respondi. –
O caso que tenho para você envolve a justiça brasileira.
Wow! Pensei, mas não falei. Fiquei com o olhar mais focado que
consegui.
― Se você não tem filhos Alex, não entendo que tipo de caso de guarda
estamos falando.
― Não sou eu o solicitante, Laura. A corporação que eu represento, ou
melhor, o diretor dela, é o solicitante. Como deve imaginar ele dispõe de
pouco tempo – assenti – e pediu-me que a inteirasse do processo. Caso você
aceite, marcaremos uma reunião com o Sr. Galagher.
Senti minha animação murchar um pouquinho, já tinha me afeiçoado a
Alex e pensado que seria realmente fácil trabalhar com ele e então havia um
alto executivo – provavelmente o metódico e chato da história toda – com
quem eu realmente trabalharia. Pensei em um daqueles holandeses barbudos
e carecas, com cara de pirata, que mal falava inglês e achava que o mundo
todo tinha obrigação de compreendê-los. Realmente, não era o meu dia de
sorte. Senti o doce sendo tirado de mim pela segunda vez no mesmo dia.
― Laura? – Alex me chamou e eu percebi que tinha fantasiado o pirata por
tempo demais. – O que você acha?
Oh meu Deus que imbecil eu sou!
― Desculpe-me. – Disse envergonhada. – Mas Alex, não sei por que um
homem importante como o Sr. Galagher poderia querer colocar uma recém-
formada como eu em um caso relevante.
― Ah não, não se preocupe, Galagher é advogado. Um excelente advogado,
diga-se de passagem. Ele precisa apenas que você o ajude. Como você sabe,
ele não pode representar a si mesmo.
Deus! O homem era advogado e faria de mim sua estagiária – tudo que
eu sonhei. Encarei os olhos claros de Alex Persen – poderia pelo menos ser
para ele que eu trouxesse o café!
― Conte-me mais sobre o caso – eu disse cruzando as mãos sobre a mesa.
― São três menores. Com idades entre dezessete e quatro anos. Eles estão no
Brasil contra a vontade do pai.
― Restituição de guarda – eu disse.
― Entre outros, mas Galagher quer contar-lhe tudo pessoalmente. Quero
apenas saber o que você acha do caso. Se você tem disponibilidade para
aceitá-lo. Sabe que isso envolverá algumas viagens ao Brasil.
Brasil – a palavra golpeando meu estômago como um soco. Brasil –
minha mãe. Minha avó. Meu passado. E então me lembrei de que o Brasil
não é como a Holanda. E que eu provavelmente poderia passar por lá sem
nem mesmo deixar rastros. Qual era a chance de o caso ser em São Paulo?
― De qual parte do Brasil estamos falando, Alex? – Perguntei.
― São Paulo.
Revirei mentalmente meus olhos – claro!
― Laura, – Alex disse com os olhos focados em mim – eu sei que teve
problemas com seu último caso. – Senti outro golpe no estômago. – Quero
que saiba que não haverá problemas com esse. Galagher é muitas coisas,
muitas coisas mesmo. – Ele sorriu e revirou os olhos. – Mas ele sempre honra
a palavra dele. Se você tiver um pouquinho de jeito com ele... – Deus! O
homem era a personificação do demônio, pelo visto. – Sei que terá um grande
aliado em relação aos problemas com Fergusson.
Eu estava me preparando para responder quando ele continuou.
― Também quero que saiba que, financeiramente, esse será o melhor caso
que já teve. Galagher não costuma medir esforços para ter o que deseja.
Engoli em seco. Eu precisava de dinheiro, claro, como noventa por
cento da população mundial. Mas eu precisava muito mais de alguém
poderoso o suficiente para carimbar meu passaporte profissional de “não
vadia” e talvez um velho e influente magnata holandês fosse perfeito. Eu
teria que aguentar algumas manias chatas? Talvez! Isso iria doer? Bem
menos do que abrir os jornais e ver meu nome arrastado na lama. E o mais
importante: o homem queria os filhos e isso era louvável. Eu não via muitos
homens por aí, brigando internacionalmente pela guarda dos filhos, como
exemplo perfeito estava meu próprio pai. Suspirei profundamente.
― Eu aceito, Alex. Aceito o caso.

Adrian
Depois do acontecido eu decidi voltar para Roterdã e desmarcar o
encontro com o tal Hans Andersen. Eu não estava mal-humorado. Na
verdade, para alguém que teve uma camisa Armani manchada de café de
copo de plástico, eu estava até bem-humorado. Havia passado o dia todo em
casa. Abri a porta do quarto, desatei a gravata e abri os botões da camisa.
Deixei-a sobre a cama. Caminhei até a varanda, acendi um cigarro, dei uma
tragada longa. As sensações da minha mão fechada em torno do pulso fino
dela despertaram coisas demais dentro de mim.
Eu a segurei firme, muito mais firme do que precisava, queria sentir a
pele dela contra meus dedos. Queria sentir sua pulsação. Queria deixar meu
toque gravado ali, na pele clara dela. E então ela se atrapalhou em um sorriso
nervoso, os olhos curiosos sobre os meus. O peito subindo e descendo
nervosamente, a renda da lingerie se apertando contra a seda fina da blusa. O
vento espalhava o perfume dela ao meu redor e eu tive que me segurar. Ela
não parecia o tipo de garota para o qual eu abro a porta do Mercedes e
consigo uma noite de sexo. Ela não tentou me seduzir. Estava ansiosa. Podia
jurar que ela me queria, mas não fez nada além de falar e falar. Sua voz
subindo meio tom a cada vez que eu estreitava meu olhar. Ela era como um
coelho assustado e eu adorava perseguir minha caça.
― Adrian, Adrian. Esse é um jogo perigoso. – Eu disse para ninguém.
Sorri para mim mesmo – sorte dela que não faço ideia de quem seja. Eu
havia examinado as folhas caídas no chão em busca de algo que me fizesse
encontrá-la, caso eu desejasse, mas não havia nada. Eram partes desconexas
de coisas digitadas. Não havia nem um timbre ou logotipo. Sentei em minha
espreguiçadeira, sentindo o sol em minha pele, aproveitando meu cigarro.
Talvez devesse ter deixado meu cartão com ela. Ou pedido o dela. Não fiz
nenhuma das duas coisas. As folhas das árvores balançando suavemente,
criando padrões de pequenas sombras sobre minhas pálpebras entreabertas.
Com o tempo elas foram ficando mais fechadas, o escuro dominando, mais
fechadas, mais fechadas. Adormeci.
Eu estava em meu escritório. Observando o porto pelo vidro da janela
quando senti suas mãos em mim. Meu corpo reagindo instantaneamente, ela
deslizou a mão pelo blazer até abrir os botões, retirando-o pelos meus
ombros. Seu toque era tão suave, arrastava uma onda de calor pela minha
pele.
― Você quer brincar, anjo? – Perguntei e ela assentiu. Seu nariz tocando de
leve minhas costas com o movimento.
Eu me virei e a segurei junto a mim, uma mão em sua nuca, perdendo-
se entre as ondas castanhas, a outra segurando seu quadril junto ao meu,
sentindo minha ereção pulsar contra seu estômago. Ela fechou os olhos e
sorriu e eu tomei sua boca na minha, abrindo caminho com a minha língua.
Mordi seu lábio inferior, segurando-o entre meus dentes, puxando o
suficiente para sugá-lo inteiro. Ela gemeu, aumentando minha urgência.
Virei-a de frente para a janela, apoiando minhas mãos no vidro e baixando
meu corpo o suficiente para que minha boca estivesse em sua orelha.
― Vê aquilo tudo lá embaixo? – Ela assentiu. – Sou o dono de metade de
tudo que você vê. Sabe do que eu gosto? – Ela negou. – Gosto de ter tudo. E
nesse momento tudo que eu quero é você. O que você quer anjo?
Ela deixou a cabeça pender contra meu peito.
― Eu quero você Adrian. Eu quero você agora.
― Só tem uma coisa baby – eu continuei. Minha língua brincando na concha
da sua orelha. – Quero você aqui. Quero que o mundo lá fora veja que você é
minha. – E completei. – Só minha.
Ela não se moveu. As mãos levemente trêmulas, a respiração
descompassada num misto de desejo e medo. Eu adorava essa sensação de
controle. Abri os botões da sua blusa um a um, minhas mãos brincando na
renda da lingerie, apertando seus seios contra minhas palmas, comprimindo
minha ereção contra sua bunda, mais e mais forte. Escorreguei minhas mãos
em seu corpo, descendo até a barra da saia e a puxei para cima, expondo sua
calcinha. Com a mão em sua nuca eu baixei seu tronco, empinando sua bunda
em minha direção. Acariciei sua pele branca contra a calcinha escura e não
resisti apertando a carne com força, marcando minha palma ali. Desafivelei
meu cinto, abri o botão e baixei o zíper, encaixando meu comprimento duro
contra sua pele, sentindo como eu me encaixava ali. Ela gemeu e se inclinou
mais.
― É isso que você quer anjo? – Ela assentiu.
Puxei sua calcinha de lado e tracei o caminho com os meus dedos,
sentindo sua umidade quente contra minha pele. Ela me queria e eu podia
sentir ali. Baixei minha boxer o suficiente para liberar minha ereção e
posicionei-me em sua entrada. Eu tinha uma visão maravilhosa dali. Podia
ver sua bunda redonda e empinada como um coração, ali, pronta para mim,
com aquele pequeno pedaço de renda completando o visual. Empurrei dentro
dela com força, tomando o que eu queria. Ela gemeu, arqueando um pouco as
costas, sentindo-me preenchê-la completamente.
― Assim baby – eu disse em seu ouvido – toda minha. Toda.
Apertei minha mão contra a carne suave de sua bunda uma vez mais,
sentindo a pele vermelha aquecer com a pressão. Queria marcá-la. Queria
enchê-la com os meus dedos e o meu pau. Queria possuí-la da maneira mais
funda que eu pudesse.
― Queria que você pudesse ver o que vejo baby! – Disse em seu ouvido,
enquanto o vai e vem do Porto continuava lá embaixo.
Eu gemia mais e mais, abafado contra seus cabelos, meu desejo se
apertando, concentrando-se no fundo do meu estômago e eu queria mais.
Mais fundo. Mais forte. Mais intenso. E então o telefone me acordou.
Pisquei algumas vezes porque não conseguia distinguir a realidade do
sonho, meu corpo suado, rígido, ofegante. O cigarro apagado caído contra o
deck de madeira. Cocei a barba por fazer e deslizei as mãos no rosto até os
cabelos.
― Alex, seu maldito bastardo! – Disse assim que atendi. – Diga-me que
Louise nasceu ou eu mato você por me acordar.
Alex sorriu.
― Houve um tempo em que você trabalhava, meu amigo.
Sorri.
― Houve um tempo em que eu não era bilionário. – Parei por um segundo. –
Não, na verdade não houve.
― Seu arrogante filho da puta! Você deveria ser grato à minha competência.
― E sou, por isso o contratei.
― Ok. Que seja! Mas veja como você deve me amar, eu acabei de falar com
a tal Laura Soares. – Parou e eu soube que sorria. – Sem Hans Andersen. Ela
aceitou o caso. Agora diga se eu não sou seu melhor amigo.
Sorri novamente, levantando-me e seguindo para dentro do quarto.
― Você é o melhor amigo que um cara pode ter Alex Persen. E sou muito,
muito grato mesmo por ter colocado aquele anúncio no quadro de avisos
dizendo que eu precisava de um colega de quarto. Mas você deve imaginar
que eu quero mais detalhes do que isso.
― Se você abrir a porta da frente, você terá meu amigo.
Parei em frente ao armário, meio atordoado pelo sonho, o corpo
trêmulo, a respiração ainda alterada. Eu havia sonhado com ela. Ela, a moça
da trombada de hoje de manhã. Fechei os olhos por um segundo, sua imagem
tomando forma em meu pensamento mais rápido do que eu gostaria. Havia
algo no olhar dela, em seu sorriso bobo e afetado. Um brilho que eu não tinha
mais. Uma leveza fácil. A garota era bonita. O corpo era atraente, mas não
era exatamente isso. Ela havia me seduzido com seu brilho. Eu a queria.
Queria mais do seu brilho em meu mundo cinza. Apoiei a mão contra o
armário, suspirando fundo. Peguei uma camiseta e a vesti. Para a sorte dela,
Adrian Van Galagher não podia encontrá-la.
Desci os degraus da escada com urgência, varrendo a garota e tudo
mais que ela havia me feito sentir para longe. Abri a porta. Alex estava lá,
parado, esperando por mim. Fiz sinal para que ele entrasse e caminhei até o
bar. Destampei a garrafa de uísque e coloquei duas doses, uma em cada copo.
Entreguei um a ele.
― Tudo. Eu quero absolutamente tudo sobre Laura Soares.
Alex pegou o copo, sentou-se em minha poltrona, cruzou as pernas
displicentemente e sorriu.
― Tenho que dizer que ela é muito mais bonita do que eu imaginei. Acredite,
o juiz seria um homem de sorte se a tivesse levado para a cama.
Bebi um gole do meu uísque, encarando Alex.
― É gentil e sensível. Parece competente, mas eu senti alguma emoção
borbulhando em sua superfície quando mencionei o Brasil.
― Saudade talvez?
― Talvez. Sei que ela está aqui há quase seis anos. O que você disse a ela?
― Que são três menores. E que estão no Brasil contra a sua vontade.
― O que seu faro de advogado diz sobre a Srta. Soares? – Perguntei.
― Sinceramente?
― Sempre.
― Que ela é jovem demais para lidar com um caso tão complicado. – Ele
parou, tomou outro gole de bebida. – Mas se for bem direcionada, pode dar
certo. Laura me parece obstinada em limpar as marcas do passado. Ela irá se
empenhar em agradá-lo. – Eu quase sorri e então ele continuou. – O que me
preocupa não é Laura. – Olhei curioso. – O que me preocupa é você.
Ele terminou o uísque e levou o copo até o bar. Deixou-o sobre a
mesinha. Andou até a janela, encarou a noite lá fora. Eu estava tentando
decifrá-lo. Não iria perguntar por que ele se preocupava comigo porque eu
tinha uma breve ideia da razão.
― Eu conheço você bem demais Adrian. – Ele continuou e eu levantei uma
sobrancelha em sua direção. – Não brinque com Laura.
Terminei meu uísque em uma golada só.
― Não estou em busca de divertimento. – Limitei-me a dizer.
― Laura é doce e meiga. Ela é jovem. Bonita. Ela tem vinte e quatro anos
Adrian, merece ter sonhos e merece alguém que realmente a faça feliz. Não
faça isso.
Estreitei meus olhos para Alex.
― Se eu não o conhecesse, Alex Persen, diria que quem está interessado em
dar tudo isso a Srta. Soares é você.
Alex limpou a garganta, pigarreando um pouco. A garota havia mexido
com ele.
― Eu amo Alissa. – Disse por fim.
― E eu amo meus filhos Alex! Nada, nem ninguém irá entrar em meu
caminho até eles.
Capítulo 3

Laura
Passei o resto da noite e parte da madrugada debruçada em cima dos
meus livros de faculdade e pesquisando casos parecidos na internet. Não
podia desapontar o tal Sr. Galagher. Abri meu exemplar da Conferência de
Haia de Direito Internacional Privado e debrucei minha mente sobre ela.
Debrucei, literalmente, em algum ponto da noite. Acordei no outro dia, com o
rosto amassado e agradeci por meu livro não ser feito de papel jornal, ou eu
estaria, de fato, marcada pela lei.
Estava atrasada. Tinha dormido pouco e tarde demais. Era uma jornada
de pouco mais de meia hora de trem expresso e mais algum tempo
caminhando de saltos pelas ruas, eu não sabia exatamente porque não
conhecia o lugar. Já fazia um tempo que eu não ia à cidade e Roterdã
continuava crescendo na velocidade da luz. Abri o pote de cereais e despejei
na tigela, cobrindo com leite. Comi três colheradas, entre o tempo em que
calçava meus sapatos e vestia o casaco. O dia estava frio, típico. E o vento
sacudia as folhas das árvores lá fora, ainda mais típico.
Desci na estação central de Roterdã com pouco mais de quarenta
minutos para minha reunião com o Sr. Galagher. Estava perdida.
Completamente perdida e literalmente perdida, sem saber em que direção ir e
temendo qualquer minuto de atraso. Os holandeses são meio britânicos no
quesito “atraso”. Toquei na tela do meu celular e conversei com o “Google
Now”.
― Google trace uma rota até o endereço da Galagher Corporation. – Ainda
me sentia meio idiota de falar com o celular, mas correndo pela rua, era a
maneira mais segura de não trombar em outro bonitão de terno.
O telefone me respondeu alguns minutos depois, com sua voz metálica,
dizendo que estava a vinte minutos de distância a pé. Segui pela rua e
contornei na Hofplein e segui pela Coolsingel até a Erasmusbrug. O prédio
da Galagher Corporation ficava em Katendrecht, um braço debruçado sobre o
canal. Assim que avistei os prédios imponentes do lugar soube que meu
prédio era, obviamente, o mais alto. Era um prédio arredondado, todo em
pele de vidro que se estendia em direção ao céu. Era uma bela visão, as
nuvens refletidas sobre o vidro azulado.
Assim que passei pelas portas giratórias conferi meu relógio –
11h05min – o que significava cinco minutos de atraso. Praticamente corri em
direção à recepcionista.
― Eu tenho uma reunião com o Sr. Galagher. – Disse em holandês, rezando
para o trânsito tê-lo segurado por mais tempo que eu.
― A quem devo anunciar?
― Laura. Laura Soares. Ele provavelmente está me aguardando.
Ela pegou o telefone e discou. Algum segundo depois se virou em
minha direção e respondeu:
― O Sr. Galagher a aguarda na sala dele. – E continuou digitando algo em
sua tela de LCD.
― Desculpe-me. – Comecei. – É a primeira vez que venho até aqui, pode me
dizer qual é a sala dele?
― Oh sim, claro, perdão! – Desculpou-se. – Último andar.
“Claro!” Pensei, mas não falei. Tão clichê!
― E em qual sala do último andar devo procurá-lo?
― O andar todo é do Sr. Galagher. Não se preocupe, o elevador parará
exatamente na antessala, a Srta. Helst a anunciará.
Ótimo. Além de velho e rabugento, o pirata ainda tinha mania de
grandeza. Um andar inteiro? Sério? Quem precisa de tanto espaço para
trabalhar? A menos que ele trabalhe montado em um elefante indiano!
Entrei no elevador e fiz o que as estatísticas mostram que as mulheres
fazem em elevadores espelhados – conferi o visual. Eu estava bem. Minha
saia preta combinando com as meias grossas de inverno e os sapatos de bico
fino. Uma camisa rosada de botões e meu casaco cinza comprido. Meus
cabelos estavam soltos. Ajeitei-os com as mãos, colocando-os atrás das
orelhas. Repassei o batom e coloquei meus óculos. Eu queria parecer menos
jovem, depois da observação de Alexander – príncipe – Persen.
Uma senhora sentada à mesa, de frente para as portas do elevador
sorriu.
― Você deve ser a Srta. Soares. – Ela me disse em um holandês pesado,
arrastado.
― Sim. Eu mesma. – Confirmei.
― O Sr. Galagher a espera. – Ela se levantou e caminhou até a porta dupla,
ao lado da sua mesa. – Tenha a bondade.
Ela abriu a porta, eu passei por ela, e a porta se fechou atrás de mim.
Fiquei sem ar. Observando a beleza da vista. O prédio era alto o suficiente
para que tivéssemos uma vista panorâmica privilegiada desde o Euromast até
o porto. O parque parecia uma colcha de retalhos coloridos. Pisquei algumas
vezes, enquanto o ouvia falar ao telefone em um idioma que eu não conhecia,
mas que parecia alemão.
Concentrei-me na conversa, apesar de não a entender. Ele não parecia
velho. Tinha uma voz sexy e profunda. Senti algo dentro de mim se revirando
com o som. Era como se ele falasse ao meu ouvido. Senti uma onda de
arrepio percorrer meu corpo desde os dedos dos pés até o cabelo e dei uma
sacodida discreta para espantar. Abri minha pasta e comecei a revirar meus
documentos em busca das anotações. Pelo menos estava preparada, fosse
quem fosse. Pensei. E me enganei.
Sr. Galagher desligou o telefone e virou a cadeira em minha direção e
eu senti como se um furacão interno me atingisse de baixo para cima,
arrepiando cada um dos pelos do meu corpo numa espiral crescente de
adrenalina e desespero – era ele. Simplesmente ele – o homem do encontrão
da manhã passada.
As folhas caíram das minhas mãos uma a uma, como se eu fosse
incapaz de manter algo entre meus dedos, espalhando-se ao meu redor,
confirmando minha teoria do furacão interno.
Minha boca aberta, meus olhos esbugalhados em direção a ele. Eu
balbuciei algo que nem eu mesma compreendi, então não esperava que ele
compreendesse e rezei para que não acabasse babando nos sapatos lustrados
dele. Ele caminhou até mim. A mesma boca sem sorriso. O mesmo rosto
sério. Os mesmos olhos perturbadores e enlouquecedores. O mesmo perfume
incrivelmente sedutor espalhando-se pelo escritório enquanto ele caminhava.
Deus eu teria uma síncope. Antes que ele me tocasse novamente,
infelizmente.
Eu podia sentir meu coração batendo tão forte que dei uma olhadinha
rápida para baixo, conferindo se minha camisa não estava pulsando. Não
estava para minha sorte. Fechei a boca, evitando engasgar com a saliva
depositada ali e pisquei algumas vezes. Sim, eu era idiota. E deslumbrada,
mas acredite, não era sempre que isso acontecia. Na maior parte do tempo,
eu parecia bem normal.
Sr. Galagher caminhou até mim com seu belo conjunto de calça e
blazer claros, camisa azul marinho, sem gravata. Sapatos sociais reluzentes e
um relógio que provavelmente custava muito mais do que eu ganharia em dez
anos na Andersen Advogados Associados. Meu avô me disse, muito tempo
atrás, que um homem se reconhece pelos sapatos e pelo relógio. Bem, daí
vem meu fascínio por homens que sabem usar esses dois itens. E o Sr.
Galagher certamente fazia parte do diminuto clube.
Ele se abaixou, recolhendo as folhas com a mesma elegância de ontem,
deixando uma sensação de déjà vu. Ele estava mais uma vez aos meus pés,
mas eu sentia lá no fundo que a posição inverteria em breve e não sei se me
levantaria novamente.
Esperei que ele dissesse algo desesperadamente. Eu sentia minha mente
girar. Queria ter algum indício de que eu havia feito pelo menos cócegas
naquela superfície inquebrável dele. Ele estendeu as folhas para mim sem
dizer uma palavra, deixando-me ainda mais desconfortável. Tinha medo que
se abrisse minha boca para dizer qualquer coisa seria uma avalanche de
palavras sem sentido. Segurei as folhas e ele me estendeu a mão.
Encarei a mão estendida em minha direção. Milhares de pensamentos
voando em minha mente. Queria desesperadamente aquele toque, mas uma
sensação estranha revirava meu estômago. Aquele homem tinha mexido em
pontos dentro da minha cabeça que eu nem sabia que estavam ali, isso sem
contar o que ele fazia com o meu corpo.
Estendi a mão e segurei a dele. Mão grande. Dedos longos e macios,
pele grossa. Aperto firme, sólido. Não era gentil como Alex Persen. Ele não
tinha nada de Alex Persen. Era como se ele achasse que fazia um favor ao
mundo por existir. Sobrancelhas baixas, olhos estreitos, sorriso escasso. Se
Alex Persen era um príncipe, aquele homem na minha frente era um deus. E
eu tinha medo do isso significava.
― Sou Adrian Van Galagher. – Disse-me em inglês com aquele sotaque que
me atingia como um soco, ou um beijo francês, ou os dois. Sua voz soava
como um convite para qualquer coisa obscura que eu já havia aceitado antes
mesmo de saber o quê. – Você deve ser Laura.
Não havia emoção alguma em Adrian Van Galagher. Ele era uma rocha
sólida. Um iceberg gigantesco e holandês, enquanto eu forçava minha boca
idiota a manter-se reta, sem se curvar como uma colegial idiota.
― Sim. Sou Laura Soares. – Disse rezando desesperadamente para que ele
não percebesse meu desespero iminente.
― Atrasos são comuns no Brasil, Srta. Soares? – Disse-me tirando a mão da
minha e sentando-se novamente em sua cadeira.
Eu quis morrer. Todo o meu mundo de fantasia em que Adrian Van
Galagher era um deus, cavalheiro e gentil, que me levaria para passear em um
corcel branco se desfez em pequenas bolhas de sabão, estourando uma a uma,
ao meu redor. Meu rosto queimando de vergonha e raiva. Cinco minutos!
Eram cinco minutos e não cinco horas! Maldito pirata presunçoso e
arrogante! Só não era velho.
― Não senhor. Peço que me perdoe, não estou familiarizada com a cidade,
tive dificuldades para encontrar o endereço.
Adrian me encarou por uns instantes antes de falar. Foram instantes,
mas pareceram horas. Eu me sentia desconfortável com seu olhar. Ele parecia
ver dentro de mim, e eu ainda não sabia se isso era bom ou ruim, mas era
diferente. Seu olhar picava toda a superfície da minha pele.
Ele cruzou as mãos sobre a mesa e eu juro que pude perceber um
princípio discreto de sorriso curvar sua boca linda.
― Não se preocupe Srta. Soares, eu nasci aqui e ainda me perco nas ruas de
Roterdã.
Sorri muito mais do que gostaria, mostrando um pouco dos meus
dentes, ajeitando uma mecha solta atrás da orelha novamente.
― Roterdã é uma cidade realmente bonita. – Disse. – Imagino que tenha
muito para ver. Eu me perderia com alegria. – Brinquei.
Adrian estreitou os olhos, naquela postura que lembrava um guerreiro,
preparando-se para o golpe final. Seus olhos eram como espadas, afiadas,
rasgando o véu de controle que eu ainda tinha.
― Espero ter a oportunidade de levá-la para conhecer minha cidade, Srta.
Soares. Seria um prazer.
Deus do céu! Ele flertou comigo? Oh meu Deus! Oh meu Deus! Oh
meu Deus!
Eu queria pensar em algo inteligente e perspicaz para responder a ele.
Mas tudo que eu conseguia pensar era em gritar “Sim!” E isso não era
perspicaz. Era bem óbvio até. Eu ali, naquela guerra mental, e Adrian Van
Galagher com os olhos dentro dos meus, divertindo-se muito mais do que eu
gostaria, quase sorrindo para mim.
Limpei a garganta fazendo o mínimo de barulho possível, mas
parecendo Mia, minha gata, quando queria comida e então eu tossi. Porque,
obviamente, meu corpo pretendia me trair, deixando-me idiota e vulnerável
perto de Adrian Van Galagher.
― Seria um prazer Sr. Galagher. Tenho certeza de que teremos oportunidade,
já que trabalharemos juntos.
Fiquei feliz comigo mesma. Segura, gentil, sem parecer uma louca que
não faz sexo há mais de um ano, embora essa seja a verdade.
Adrian conferiu o relógio caro e em seguida olhou em minha direção
novamente, aquele olhar lançado por cima das sobrancelhas que me fazia
apertar as coxas um pouco mais fortes, como se minha calcinha pudesse sair
correndo, hipnotizada pela intensidade dos olhos dele.
― Creio que não tenha almoçado ainda, Srta. Soares. ― Não era uma
pergunta. Adrian Van Galagher era um homem de respostas, não de
perguntas.
― Não senhor. Eu respondi.
― Então acho que teremos uma pequena oportunidade hoje. – Minha mente
viajando nas palavras lentas e profundas dele. Cada sílaba soando como um
convite sexual. – A senhorita me acompanha no almoço? – Ele parou por um
instante e eu tentei absorver tudo que ele causava em mim. – Podemos
discutir o caso durante a refeição.
Pronto. Não era um convite sexual, era um almoço de negócio,
obviamente. Uma parte de mim sentia-se segura novamente, confortável.
Outra parte, a parte maior, sentia-se desapontada como uma criança que
descobre que Papai Noel não existe. Sorri delicadamente.
― Será um prazer.

Adrian
Eu não conseguia deixar de olhá-la. Simplesmente não conseguia.
Meus olhos varrendo ao redor dela, meu olfato buscando o perfume da pele
dela. Queria puxá-la contra mim com força, queria enfiar minha mão no meio
dos seus cabelos e puxar sua boca para a minha. As memórias do sonho
fazendo o espaço em minha calça diminuir insistentemente. Laura. Minha
doce e delicada Laura. As palavras de Alex sondando meus pensamentos.
“Laura é doce e meiga. Ela é jovem. Bonita. Ela tem vinte e quatro anos
Adrian, merece ter sonhos e merece alguém que realmente a faça feliz. Não
faça isso. ”
Havia um sentimento estranho, confuso, irritando-me. Encarei Laura
uma vez mais, correndo meus olhos detidos pelos seus lindos olhos
castanhos, sua boca bem formada, doce, suculenta. Queria mordê-la inteira.
Queria correr meus dedos em sua pele clara. Eu queria Laura. Cada parte do
meu corpo reclamando por ela. Exigindo o controle sobre Laura. Lembrei-me
do desconforto de Alex quando eu o questionei sobre ela. Agora eu sabia a
razão. Laura era o tipo de mulher que mexe com os instintos mais sombrios
de um homem e o que não me faltavam eram instintos sombrios.
Pensei sobre minha promessa a Alex. Eu sabia que ele estava certo.
Jovem demais, bonita demais, sonhos demais. Demais. Laura era tudo que eu
não precisava agora. Laura seria minha ruína e eu sabia disso. E então ela
sorriu, ajeitou o cabelo, espalhando aquele perfume enlouquecedor pelo ar ao
redor de mim e se desculpou e eu me acabei naquele momento, pego em sua
teia. Não importa o que eu tivesse que fazer, ou eu a tirava daquele escritório
ou a debruçaria sem calcinha, sobre minha mesa.
Agradeci mentalmente a Deus por ela ter aceitado almoçar comigo.
Caminhamos juntos para fora da minha sala, em silêncio.
― Karol, desmarque meus compromissos desta tarde. Tenho assuntos com a
Srta. Soares.
― Sim Sr. Galagher. Devo dizer ao Sr. Persen que o senhor não voltará ao
escritório?
Persen! Persen mais uma vez. Eu estava começando a me irritar com
Alex, embora ele não tivesse feito realmente nada. Não era uma manhã boa
para ele.
― Diga a ele que quando eu estiver em casa ligarei e conversaremos. Não
quero ser interrompido.
― Sim senhor.
Acabei soando mais autoritário do que gostaria, mas Karol estava
acostumada com minhas manias. Ela trabalhava comigo desde antes de tudo
acontecer.
Entramos no elevador. Laura em silêncio, provavelmente pensando que
eu era um boçal.
― Desculpe-me por isso. – Disse sem entender bem do que estava se
desculpando. – Acredite, eu não sou sempre assim.
Era verdade. Eu não era um bárbaro em tempo integral. Eu vinha tendo
tempos difíceis e esses tempos vinham se prolongando cada vez mais, mas
algo na menina ao meu lado me fazia querer ser melhor e isso era confuso,
para dizer o mínimo.
Abri a porta do Mercedes e fiz sinal para que ela entrasse. Entrei em
seguida e dei as coordenadas ao motorista. Chegamos à torre alguns minutos
depois. Subimos em silêncio, Laura e eu. Sentia aquela sensação estranha de
que precisava tocá-la mais. Queria sentir meu toque em sua pele. Queria
saborear seu aroma espalhando-se ao redor de mim, mas me mantive focado,
sério, concentrado no foco do nosso encontro – meus filhos.
― Sr. Galagher – disse o garçom – é um prazer tê-lo novamente em nosso
restaurante.
Agradeci com um aceno de cabeça e segui para minha mesa
costumeira, no fundo do salão, longe da agitação. Esperei que Laura se
aproximasse e puxei sua cadeira. Ela se sentou, os cabelos esbarrando em
minhas mãos, enviando ondas de eletricidade através da minha pele. Tudo
que eu queria era sentir os cabelos de Laura grudados de suor, escorrendo por
suas costas nuas enquanto eu investia dentro dela com força. Sentei-me antes
que Laura ou outra pessoa qualquer percebesse visualmente o quanto eu
estava abalado.
― Já veio a este restaurante, Srta. Soares? – Perguntei.
― Não tive o prazer. – Ela me disse.
Seus olhos estavam admirados, olhando ao redor, apreciando a vista
em 360° de minha cidade natal. Olhei ao redor também, apreciando uma vez
mais minha vista preferida da cidade. Aquele lugar era a razão de eu ter
escolhido Katendrecht como sede do meu império. Era meu pedaço de
mundo preferido. Eu gostava de olhar o mar e pensar que nada mais me
prendia. Nada mais tinha fim, tudo se perdia em um talvez, levado pelo
horizonte. Laura deixava o mundo mais colorido. Era como se eu estivesse
descobrindo Roterdã pela primeira vez.
― Se me permite uma recomendação, – continuei – você deveria provar o
carré de cordeiro ao molho de frutas vermelhas.
Meus olhos estavam escuros, pensando em degustar a boca de Laura.
Absorvê-la entre meus lábios e sugá-la com força. Cordeiro nenhum no
mundo mataria minha fome. Eu queria Laura. Uma overdose dela.
Laura estava com o cardápio aberto na folha de saladas. Os olhos
perdidos nos meus, fazendo um esforço imenso para não transparecer o
quanto minha presença mexia com ela.
― Acreditaria em mim se eu dissesse que nunca comi cordeiro, Sr.
Galagher?
Fechei a carta de vinhos e sorri em direção a ela.
― Esse é um terrível engano, Srta. Soares. – Era inevitável. Eu estava
flertando, seduzindo Laura. – Engano este que eu terei prazer em reverter.
Não existe nada mais saboroso que um belo pedaço de cordeiro, preparado
com maestria. Experimente. Prometo que não irá arrepender-se.
Laura engoliu em seco, o movimento dos seus lábios aumentando meu
desejo.
― Eu gostaria de um cordeiro. – Ela disse ao garçom.
Não posso negar que o simples fato de que ela tivesse aceitado minha
sugestão encheu minha mente de ideias e que nenhuma delas era exatamente
sobre o cordeiro ou qualquer outra coisa que estivesse no cardápio.
― Traga dois cordeiros e uma garrafa de Malbec. – Eu disse ao garçom.
E eu decidi que era hora de iniciar o assunto realmente importante.
― O que exatamente Persen lhe contou sobre mim, Srta. Soares?
― Ele me disse que se trata de um processo de restituição de guarda. Ou pelo
menos uma parte de todo o processo era isso. Ele realmente não me forneceu
muitos detalhes.
― Está familiarizada com o assunto? – Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
Eu esperava que ela demonstrasse suficiente interesse.
― Não tenho experiência, se é o que deseja saber, mas garanto ao senhor que
isso é uma questão de tempo. Eu adoraria me envolver em algo novo.
Diferente do que costumo fazer.
Minha boca quis curvar-se em um sorriso muito mais irônico do que eu
desejava, mas eu não permiti. Eu tinha que deixar claro desde o início a Laura
que não importava o tipo de arranjo que teríamos, eu ditaria as regras.
Sempre.
Abri minha carteira e coloquei uma foto sobre a mesa. Nela estavam
Hanna e Collin, sentados no deck, em frente ao rio que cortava nossa
fazenda.
― Estes são Hanna e Collin – eu disse – meus filhos mais jovens.
Ela pegou a fotografia, os dedos correndo sobre os rostos das crianças.
Eu podia sentir uma pequena ponta de emoção borbulhando em Laura. Ela
permaneceu em silêncio.
― A mãe deles é brasileira?
― Sim.
― O senhor se divorciou há quanto tempo Sr. Galagher?
Sua curiosidade quanto ao meu estado civil deixava-me tentado. Eu
queria sentir seu interesse.
― Não me divorciei Srta. Soares.
Eu queria aguçar sua curiosidade, levá-la ao limite. Queria ver até onde
o interesse e a curiosidade de Laura Soares iriam.
Ela me encarou. Sobrancelhas baixas, rosto sério. Correu os olhos pela
minha mão esquerda, onde a marca da aliança quase não era visível.
― Não entendo. – Ela disse por fim.
― Fiquei viúvo há três anos.
Seu rosto se quebrou. Triste. Pesaroso. Senti meu coração se apertar.
Não era o que eu queria.
― Sinto muito. – Ela disse por fim.
― Obrigado! – Respondi. – Mas não se preocupe. Meu casamento não foi
exatamente um conto de fadas. Patrícia e eu tínhamos um acordo de
separação de corpos quando ela faleceu. Eu decidi estar ao lado dela durante
a doença, apenas isso, cumpri com minhas obrigações – e adicionei – por
meus filhos, eles precisavam que eu estivesse ao lado deles.
Eu podia sentir a tensão como uma teia de eletricidade entre Laura e eu.
Tínhamos tantos fantasmas escondidos dentro de nossos corpos que
estávamos pesados. Eu queria saber quais eram os fantasmas de Laura, mas
não tinha certeza se queria que ela descobrisse os meus. Havia coisas em meu
passado com Patrícia, coisas em meu próprio passado que eu não tinha
certeza se queria que alguém soubesse. Meu pai tinha razão, eu era monstro.
Um monstro escondido atrás daquele terno caro. Laura interrompeu meus
pensamentos.
― São três, correto? – Ela me perguntou.
― Sim.
Retirei a fotografia de John. Era uma das poucas fotografias em que
estávamos juntos ― John e eu. O potro de Ginger havia acabado de nascer e
John o segurava para a câmera. Suspirei fundo, encarando as fotografias
sobre a mesa. Eu os queria de volta.
Laura pegou a foto de John e sorriu.
― Acho que o senhor foi pai realmente cedo, Sr. Galagher. – Ela disse
encarando o garoto na foto.
John tinha a mesma altura que eu. Ombros largos como os meus. Um
pouco mais magro, mas forte, bem constituído. Meu filho já era um homem.
Tinha cabelos castanhos como os da mãe, mas tinha coisas minhas demais
nele. Os mesmos olhos amendoados. A mesma boca arrogante. A mesma
teimosia. Eu queria que ele se parecesse menos comigo. Eu não era uma
pessoa fácil de conviver.
Laura continuou.
― Ele tem os seus olhos e imagino que se o senhor sorrisse, teriam o mesmo
sorriso.
Encarei os olhos de Laura. Lindos e desprotegidos olhos castanhos.
Queria saber o que havia ali. Queria saber tudo que havia ali. Queria despir
Laura completamente e eu não falava apenas das suas roupas.
― Se eu tivesse dezessete anos, Srta. Soares, provavelmente sorriria mais.
Ela sorriu mais. Por alguma razão ela estava se divertindo com a foto
de John. Corri os olhos pela fotografia. Era um momento diferente deste. Eu
não estava trabalhando, não era diretor de uma corporação, naquela imagem
eu era um pai. Estava vestindo jeans desgastados e uma camiseta branca que
estava suja de feno e de Ginger. Não havia sido uma boa escolha.
Nosso almoço me salvou de mais algum tempo de apreciação de um
momento constrangedor em que eu mesmo havia me colocado. Guardei as
fotografias na carteira e esperei que o vinho me fosse servido.
O garçom abriu a garrafa e me passou a rolha. Observei. Estava intacta,
então ele serviu. Agitei a taça, girando o líquido vermelho dentro dela,
liberando os aromas frutados e amadeirados da bebida. Laura me encarava, os
olhos curiosos. Levei minha boca à taça com os olhos em Laura. Inspirei o
aroma com cuidado e então deixei que o líquido entrasse em minha boca.
Laura mordeu o lábio inferior e descansou a língua sobre ele.
― Gosta de Malbec, Srta. Soares?
― Oi? – Ela me perguntou, como se voltasse de algum tipo de viagem
interna. – Desculpe-me. Eu não bebo quando trabalho.
Soltei a taça. Cruzei os dedos sobre a mesa e a encarei.
― A senhorita aceita trabalhar para mim, Srta. Soares?
Ela pensou por alguns segundos, não entendendo a pergunta e então
respondeu.
― Sim.
― Então temos duas regras. – Comecei diante de seu olhar curioso. – Em
primeiro lugar eu exijo exclusividade total. Enquanto estivermos juntos nesse
caso a senhorita trabalha apenas para mim. Não se preocupe com honorários.
Eles serão suficientes. – Continuei. – Eu sou um homem egoísta, Srta. Soares.
Não estou acostumado a dividir o que quer que seja. E em segundo lugar, se
come comigo, bebe comigo. Eu exijo experiência completa. – E acrescentei.
– Concorda com minhas regras, Srta. Soares?
Laura corou. A pele rosada e a respiração tensa. Eu podia imaginar o
que se passava em sua mente porque era exatamente o que eu queria
despertar nela. Desejo. Desejo pelo desconhecido. Desejo por mim, tanto
quanto eu a desejava.
Ela não me respondeu. Segurou a taça e esperou que a servissem. Eu
não disse nada também. Ficamos em silêncio até que o garçom estivesse
longe e nossas taças cheias.
― À nossa nova parceria! – Ela disse levantando a taça.
Toquei minha taça na dela.
― Será uma parceria de sucesso, imagino.
Capítulo 4

Laura
Dei a primeira garfada na minha carne, a faca escorregando por sua
maciez. Era de longe o prato mais bonito que eu já tinha comido na Holanda.
Eu não era rica. Não tinha muitos encontros, e a Holanda não era exatamente
um país gourmet. Pelo menos para nós, meros mortais.
O sabor golpeou meu olfato antes de ser absorvido pelas minhas papilas
gustativas. Quente, macio, rico. Havia um leve gosto ferroso, diluído na
imensidão silvestre das frutas vermelhas. Eu queria levar aquele prato para
casa e colocá-lo ao meu lado na cama.
― Hum... – Gemi, arrancando um olhar curioso de Adrian.
― Devo presumir que eu estava certo. – Ele me disse.
“Como se alguma vez você estivesse errado!” Pensei, mas não falei.
Limitei-me a sorrir.
― Simplesmente maravilhoso! – Eu disse por fim.
― Gostou do vinho?
― Perfeito para o prato.
Adrian não sorriu. Sua boca fez apenas menção de curvar-se e então
parou, ali, naquele estado tão “Adrian de ser”. Ele estava acostumado a
elogios, obviamente, mas isso não significava que ele não gostasse de recebê-
los.
Eu tinha decidido, depois de ouvir suas regras, que o deixaria ganhar
esse jogo. Se ele tinha suas duas razões, eu tinha uma lista de pelo menos dez
para não desejar encrenca com Adrian Van Galagher. Entre elas, a mais forte,
era que ele poderia salvar minha carreira e não era esforço algum estar ao
lado dele.
Dei uma golada no vinho, observando o horizonte ao fundo. Não
acreditava que em mais de cinco anos morando na Holanda eu não tinha
conhecido este lugar. Deus era absolutamente fantástico.
― Gosta da vista?
Suspirei.
― É incrível. Eu quase quero chorar.
As palavras deixaram minha boca rápido demais. Quando percebi que
parecia, novamente, uma adolescente deslumbrada, já era tarde. Adrian me
encarava em um misto de curiosidade e o que eu chamaria de pena, contida,
mas ainda pena – ou pelo menos era o que eu achava.
― Devo supor que você nunca subiu até o observatório. – Ele constatou.
― O senhor é bom em suposições, Sr. Galagher – brinquei.
Ele não disse mais nada. Esperou pacientemente que eu me deliciasse
com meu cordeiro. Terminou de comer e bebeu o vinho da taça. Chamou o
garçom.
― Eu gostaria de usar o Euroscoop. Peça para que o liberem e o reservem.
Assim, simplesmente “Fechem o lugar que eu quero usar”. Engoli
meu último gole de vinho, encarando as pobres pessoas subindo aquele
monte de escadas para descobrirem que o tal Euroscoop estaria fechado.
Alguns minutos depois, o garçom voltou e falou algo próximo ao
ouvido de Adrian que eu não escutei. Ele se afastou e Adrian se levantou.
― Vamos? – Ele me disse.
Levantei, empurrei minha cadeira de volta ao lugar e vesti meu casaco,
acompanhando Adrian Van Galagher até a saída.
Como eu já disse e reitero, Holanda e vento são sinônimos. Quando
passamos pela porta, para a plataforma de acesso ao observatório, o vento
praticamente me carregou, arrastando-me até Adrian. Bati com o nariz em
seu peito. Foi um segundo de toque, antes que ele me amparasse com suas
mãos grandes e firmes, mas eu juro que fui ao céu e voltei. Eu pude sentir o
calor, a solidez, o perfume de Adrian em cada ponto do meu corpo, do nariz
ao estômago. E Deus! Sim, eu estava disposta a deixar Adrian Van Galagher
ganhar! Por mim ele já tinha ganhado o jogo, eu faria qualquer coisa por um
pouco mais dele.
― Desculpe-me. – Eu disse meio sem graça, meio abalada ainda.
― Não se preocupe. – Ele respondeu.
Adrian não se afastou. Sua mão esquerda permanecendo em meu
ombro, amparando o vento forte com seu corpo grande. Ele era alto, muito
mais alto que eu, de forma que funcionava muito bem como uma barreira
para o vento, mas seu perfume estava todo em mim agora, espalhando e
fundindo-se em mim.
Entramos e subimos até uma câmara completamente escura. Eu estava
excitada e ansiosa, parte porque eu imaginava o que me aguardava e eu e
alturas não nos dávamos muito bem, e parte porque estava ali, no escuro,
sentindo a presença de Adrian atrás de mim. Alguém fechou a porta e eu senti
a mão de Adrian deslizar para baixo, quebrando nosso contato. Praguejei
mentalmente, mas jamais eu daria a ele o prazer de saber que eu estava com
medo.
O chão começou a se movimentar, subindo. Foi rápido, mas meu
coração parecia que sairia pela boca, minhas mãos suavam e eu sentia minha
cabeça martelar. Apertei meu maxilar, impedindo que ele tremesse. E então,
as luzes se acenderam e eu me perdi. Estávamos no alto. Muito, muito alto.
Eu sentia que flutuava, enquanto a plataforma girava suavemente, mostrando
uma vista completa de Roterdã. Tudo que me separava da queda era o vidro,
completamente transparente à minha frente.
Eu sentia minhas bochechas pegando fogo, mas imagino que a coisa
toda era um pouco pior do que eu pensava porque Adrian advertiu.
― Não olhe para baixo.
Pronto! Olhei! E quase morri – o chão, era todo feito de vidro. Eu
flutuava em direção a um abismo de cento e oitenta e cinco metros de altura.
Foi instintivo, nada intencional. Minha mão procurou um apoio,
segurança e eu encontrei a mão de Adrian. Grande e sólida. Seu aperto firme,
concreto, protetor. Pensei em soltar, mas não fui capaz. Adrian entrelaçou os
dedos nos meus, capturando minha mão pequena na sua. Eu me sentia frágil,
pequena, mas completamente protegida. Não tive mais medo. Encarei o
horizonte, observando a cidade girar ao redor, oferecendo-se para mim.
Suspirei profundamente, deixando o ar sair devagar dos meus pulmões.
― É uma bela vista. Não acha Srta. Soares? – Ele me perguntou sem me
olhar. Minha mão repousando dentro da sua.
― É a coisa mais incrível que eu já fiz. – Respondi por que era a verdade e
eu não queria jogar agora. Queria me perder naquele infinito.
Adrian aumentou o contato das nossas mãos um pouco mais. O esboço
costumeiro de sorriso em seus lábios, olhos perdidos no além mar.
― Essa não será a última vez que ouço essa frase deixar os seus lábios, Srta.
Soares.
Novamente não era uma pergunta e eu não queria mesmo responder,
mas queria que ele estivesse certo.
Quando paramos, meu sorriso se perdeu – eu queria mais. Não queria
parar. Não queria a realidade de volta e principalmente, eu não queria perder
o toque de Adrian em minha mão.
Abriram a porta e eu esperei que Adrian quebrasse nosso contato, ali,
ressentida, triste, mas ele não o fez. Seguiu na frente, puxando-me pela mão
atrás dele. E eu saí sorridente, feliz, rindo como uma imbecil apaixonada.
Apaixonada? Talvez. Imbecil? Sem sombra de dúvidas. O que eu
tinha na cabeça? Adrian Van Galagher, desde nossa trombada, ontem pela
manhã.
Não tive muito tempo para questionar minha capacidade mental.
Passamos pela porta do restaurante novamente e antes que pudéssemos seguir
para baixo, demos de cara com Alex Persen. Instintivamente, tentei soltar
minha mão. Não que existisse algum problema em Alex me vir de mãos
dadas com Adrian, mas, naquela situação, eu me senti no mínimo fácil e
previsível – seduzida pelo milionário. E não era bem isso que estava
acontecendo. Ou era? O fato é que Adrian não me permitiu. Ao contrário,
apertou o toque ainda mais, puxando-me suavemente para o seu lado. Alex
sorriu.
― Hey, Laura! Um prazer revê-la. – Ele me disse com aquele sorriso que
fazia todo dia parecer primavera.
― Hey! – Eu disse. – Prazer em revê-lo também.
Ele beijou meu rosto e eu fiz o mesmo. Não era exatamente um beijo,
era mais um toque de bochechas, como se faz quando se cumprimenta
alguém, mas os olhos de Adrian pareciam gelo sobre mim.
― Como vai Alissa e seu bebê, Alexander? – Adrian perguntou. As palavras
calculadas, medidas, certeiras. Se ele as tivesse atirado com uma arma,
marcaria o centro do círculo.
― Muito bem. – Alex respondeu sem parecer abalar-se. – Ela foi ao
banheiro. – E adicionou fazendo graça... – Grávidas!
Eu sorri. Adrian não. Seus olhos continuavam focados em Persen, sua
mão apertada na minha. Eu me sentia como um tipo de osso, sendo guardado
por um buldogue.
Uma moça jovem caminhou sorrindo para nós. Ela tinha os cabelos
longos e lisos, em vários tons de dourado, emoldurando seu belo rosto. Os
olhos eram de um verde tão limpo e sólido que pareciam brilhar. Ela era alta
e esguia, e parecia ainda mais bonita com a barriga redonda que estava. A
blusa descia solta até os quadris, fazendo um tipo de saia ao redor das calças
justas de gestante. Ela me fazia lembrar uma daquelas fadas de desenhos
animados. Ela se aproximou e deixou a cabeça cair contra o ombro de
Alexander e ele a abrigou em seu peito, passando a mão por suas costas.
Naquele momento eu percebi como eu não me encaixava naquele
contexto. Como eu estava perdida e sozinha e como eu era idiota. Alexander
e Alissa pareciam um daqueles casais de filmes da Disney que eu assistia
quando ainda achava que romances davam certo. Alissa era a garota por
quem os príncipes se apaixonam, não eu. E se eu não era a garota certa para
um príncipe, era ainda menos certa para um deus como Adrian.
― Você está linda Alissa. Como se sente? – Adrian disse.
― Ótima! – Ela disse e fez uma careta. – E gorda. Já você continua
galanteador como sempre, Adrian. Diga como pode um homem como você
continuar solteiro? – Ela disse sorrindo e eu comecei a pensar que a Cinderela
estava mais para madrasta.
Adrian sorriu. Não foi um sorriso divertido e alegre, foi um sorriso
mecânico, do tipo “vou sorrir porque sou educado”. Eu não sorri. Não tinha
sido tão bem-educada assim.
― Eu já tive minha dose de casamento e ela não foi tão homeopática assim.
Isso! Muito bem! Ponto para Adrian Van Galagher! Permaneci em
silêncio.
― Amor esta é Laura, ela também é advogada. Está trabalhando com Adrian
no processo das crianças. – Acrescentou Alex.
Os olhos de Alissa caíram direto para minha mão perdida dentro da de
Adrian. Ela me puxou em um cumprimento que forçou nossa pequena
separação.
― Oi Laura, é um prazer conhecer os colegas de trabalho do meu noivo. –
Ela disse. – Especialmente se são jovens e bonitas como você. – Ela falava
comigo, mas não era para mim que olhava. Ele olhava na direção de Adrian e
sorria. Não era um sorriso falso. Era um sorriso cortês, contido, discreto. –
Espero que tenha sucesso. – Ela disse olhando para mim agora. –
Especialmente no caso de Collin.
Adrian pigarreou. Alex tossiu e eu tive certeza de que o que eu sabia
era apenas a ponta de um grande iceberg.

Adrian
Eu nem sabia por que aquele encontro me incomodava tanto. Na
verdade, eu nem tinha parado para pensar até que o olhar de Alissa denunciou
sua teoria – Laura.
Alissa era uma garota bonita. Era inteligente e bem-educada. Eu a
conhecia há muito tempo, muito antes de Alex conhecê-la. Ela era de uma
família importante, ele não. Alexander Persen era o filho bastardo de um
corretor de seguros e uma estudante belga. Por isso ele não tinha o “Van” em
seu nome. E Alissa fazia questão de deixar claro sempre que podia como ele
tinha sorte de estar com ela. Alex era meu melhor amigo e eu não me
importava em que condições ele havia nascido. Toda essa bobagem de
sociedade importava para meu pai, não para mim, e importava para os pais de
Alissa também, para o azar de Alex. Ela o amava. Isso era um fato, mas em
alguns momentos eu a sentia recuar, fazendo o que os pais queriam.
Para ser sincero, eu sempre achei que o pai de Alissa esperava que
nós dois terminássemos juntos, já que nos víamos em muitos lugares quando
mais jovens, mas eu decidi burlar todas as regras e engravidei minha
namorada do colégio, aos dezenove anos. Saí de casa, casei-me com ela.
Então deixei de ser o bom partido que ele me considerava. Anos mais tarde,
após a morte de Patrícia, eis que eu surjo como “novo bom pretendente” para
a filha dele, o viúvo milionário. Para minha sorte e terror dele, Alissa já
estava saindo com Alex.
Eu às vezes me pergunto se Alissa não estivesse grávida, se os dois
ainda estariam juntos. Bem, essa é uma resposta que não vou ter.
Quando Alissa puxou Laura eu senti uma sensação estranha. Não
queria soltá-la. Não queria deixá-la ir. Eu me sentia um pouco ridículo, mas
ao mesmo tempo me sentia cheio, completo. Eu nem lembrava mais como era
me sentir assim.
Laura era doce e meiga. Seus olhos sorriam muito antes de sua boca
se curvar. Ela ainda sorria como uma menina, deslumbrada com a vida, e isso
me fazia crer que talvez, só talvez, eu pudesse voltar a sorrir assim.
Despedi-me de Alex e Alissa e os deixei no restaurante. Acompanhei
Laura até o carro novamente. Ela estava em silêncio. Um silêncio
perturbador. Eu não gostava do silêncio de Laura. Eu não sabia o que ela
pensava. Eu não a compreendia. Eu era bom em decifrar pessoas. Elas, em
geral, seguem em uma linha de raciocínio. Laura não era assim, seu
raciocínio dava voltas, criava uma espiral de pensamentos aleatórios. Ela
falava mais rápido que pensava na maioria das vezes. Eu gostava disso. Podia
saber o que ela pensava simplesmente porque acabava me dizendo, mas agora
ela estava em silêncio.
Cruzei as mãos sobre meu colo, encarando o canal, enquanto
passávamos pela Erasmusbrug. Ela havia ficado em silêncio desde o
momento em que encontramos Alexander. Ela havia tentado retirar sua mão
da minha. É claro que sim. Ele era muito menos complicado do que eu. Laura
não fazia o tipo que se deslumbrava com meu dinheiro. Ela havia se
deslumbrado com o que eu apresentei a ela, não com quanto tudo aquilo
custou. Suspirei. Alex tinha muito mais capacidade de fazê-la feliz do que eu.
Ele sabia como. Ele sempre sabia transformar coisas ruins em coisas boas.
Ele havia feito isso para mim tantas vezes. Meus filhos o amavam. Patrícia o
amava. Até meu pai o amava. Eu não. Eu era o cara errado. O cara ruim. Eu
era o monstro sempre. Eu era como Midas ao contrário, que destruía tudo que
tocava. E era por isso que eu devia ouvir o conselho de Alex e me manter
longe de Laura.
Encarei a garota ao meu lado, no banco de couro do meu carro de
luxo. Não podia perder meu foco com Laura. Ela não era uma mulher
descartável. Eu precisava dela para outros fins. Tinha que pensar com minha
mente e manter minhas bolas fora disso. Não Laura. Não com ela. Mas uma
coisa era certa – se eu não teria Laura, Alexander Persen não teria também.
― Quero que entre em contato com o juizado de menores, Srta. Soares.
Desejo ver meus filhos o quanto antes e como deva imaginar, eu não domino
o idioma. Quero que informe que entrarei com o processo de restituição. John
completará dezoito anos em menos de um ano. Eu o quero de volta à Holanda
antes que atinja a maioridade. Não vou perder meu filho. – Disse cortando o
silêncio estranho entre nós.
Eu não pretendia parecer autoritário, mas acabei soando assim, pela
segunda vez. Respirei fundo, mas não me desculpei. Era melhor que ela
percebesse de uma vez que eu estava longe de ser um gentleman como
Persen.
Laura se virou em minha direção com o olhar quase triste, mas
profissional. Não sabia se era por minha causa ou se era por causa de Alex. E
eu não tinha certeza se queria descobrir.
― Sim Sr. Galagher. Pode ficar tranquilo. Assim que chegar a Amsterdã farei
isso.
― Eu prefiro que trabalhe aqui. No prédio da empresa temos escritórios que
servem para uso esporádico. A senhorita pode escolher um e utilizá-lo pelo
tempo que durar nossa associação.
Era melhor que ela estivesse por perto. Assim eu poderia me focar
nisso. Poderíamos discutir sobre o caso e montar um processo sólido mais
rápido. Era necessário que Laura estive próxima. Não era? Necessário para o
processo, claro! Os pensamentos formando nós em minha cabeça e ela
parecia querer explodir.
― No entanto por hoje terminamos – eu disse taxativo – Harold a levará para
sua casa assim que me deixar no escritório. Ele também a pegará, amanhã
pela manhã. Esteja pronta às oito horas, Srta. Soares. Eu gosto de começar o
trabalho logo pela manhã.
― Ok.
Ok. Apenas ok e nada mais. Nem uma discussão, nem olhos brilhando
nem nada mais da garota com a qual eu havia trombado. Isso era estranho. Eu
não estava familiarizado com a sensação de rejeição e ela não entraria no hall
das sensações que eu esperava repetir.
Entrei em meu escritório. Peguei minha pasta e saí. Passei por Karol
sem dizer nada. Eu não estava para muitas conversas nem explicações.
― Já vai embora Sr. Galagher? – Ela me perguntou.
Parei. Baixei meus óculos e encarei os olhos azuis de Karol.
― Esta é uma das vantagens de ser o dono do negócio Karol. Eu decido
quando é hora de parar.
Arrependi-me no segundo seguinte. Nem Karol, nem ninguém eram
culpados pelos meus problemas. Todos eles eram minha culpa. De um jeito
ou de outro. Eu também não era bom em me desculpar, na verdade eu era
péssimo nesse quesito, como em nenhum outro. Esperei que Karol
compreendesse meu arrependimento.
― Se quiser, pode tirar a tarde de folga Karol. Não vou voltar ao escritório
hoje – eu disse como um pedido de desculpas silencioso.
Karol sorriu.
― Eu não sou o chefe Sr. Galagher. Preciso manter tudo em ordem. O senhor
sabe, meu chefe é um homem exigente.
Sorri.
― Sorte dele em ter uma secretária tão competente.
― Se o Sr. Persen perguntar, devo dizer que o senhor está em casa?
Não resisti. Meu gênio dominando novamente.
― Se o Sr. Persen aparecer por aqui diga a ele que deve se empenhar menos
e passar mais tempo com a noiva grávida.
Saí. Eu estava irritado demais com a possibilidade de encontrar Alex e
eu realmente não precisava de tipo algum de lição de moral ou coisa assim
em resposta à minha mão na de Laura. Foi uma bobagem. Não foi? Um toque
casual. Algo perfeitamente dispensável e esquecível. Nada demais. Então por
que eu não conseguia deixar para lá?
Entrei em casa e verifiquei meus recados na secretária eletrônica.
Nada de importante. Tirei o blazer. Soltei os botões da camisa. Acendi a
lareira. Servi-me de uma dose de uísque. Tirei os sapatos e as meias e cruzei
os pés sobre o apoio da poltrona de couro. Fechei os olhos. Laura. Laura
estava ali. Seu corpo tocando o meu pela segunda vez. Seu perfume
impregnado em minha roupa. Em minha pele. Ela havia procurado minha
mão. Ela estava com medo e havia procurado meu toque. Confiado em mim.
Suspirei, deixando o líquido escorregar por minha garganta. Vinte e quatro
anos. Vinte e quatro anos.
― Você sabia que ela tem quase a idade do seu filho? – Disse para mim
mesmo.
Eu não deveria nem ao menos cogitar a possibilidade de me envolver
com Laura. Laura era uma menina. Doce e cheia de sonhos – palavras de
Alex – e eu, bem eu era um homem que não acreditava mais em finais felizes.
Ou melhor, eu acreditava, mas meu final feliz envolvia outra garota em
minha cama, com seus cabelinhos claros e seus olhos amendoados. Era nisso
que eu tinha que me focar. Hanna. Hanna era a única garota da minha vida. E
John e Collin.
Peguei o telefone e disquei. Tocou. Tocou e não obtive resposta. Eu
estava mais irritado. Com raiva.
Liguei novamente. Atenderam no quinto toque.
― Papai! – A voz de Hanna encheu meus ouvidos.
― Hey princesinha! Como você está?
― Com saudades!
Meu coração se aqueceu.
― O que tem feito por aí anjinho? Conte-me.
― Eu estou indo à escola. Estou aprendendo muitas coisas. Acredita que eu
até já consigo falar português?
Senti uma punhalada no fundo do meu peito – se ela estava indo à
escola era porque os avós realmente pretendiam mantê-la no Brasil. Eu queria
pegar o primeiro voo para São Paulo e arrancar meus filhos de lá à força.
Suspirei. Pensei. Acalmei minha mente, mantendo o foco na voz doce e
infantil de minha Hanna.
― Sério querida? Que ótimo!
Suspirei novamente.
― E você está feliz aí anjinho? – Perguntei com tanto medo da resposta que
quase deixei o telefone cair.
― Estou feliz papai – ela me disse e então suspirou – mas quero ir para casa.
Sinto sua falta.
Meus olhos ficaram pesados de repente. Limpei a garganta e funguei,
afastando o que quer que fosse que tentava parar ali.
― Também sinto sua falta querida.
― Papai me responda uma coisa. – Hanna me disse de repente, porque ela
era assim, transformava tudo em novidade. Meu raio de sol! – Já parou de
nevar?
Sorri.
― Já sim querida. As flores começaram a aparecer. Seus morangueiros estão
florindo.
― Ah que pena! Eu queria esquiar – ela disse mal-humorada – agora vou ter
que esperar até o ano que vem para treinar! Acredita que minhas amigas
nunca viram neve? Eu disse que fazemos bonecos de neve no quintal de casa
todos os anos.
Funguei novamente – este inverno havia sido o pior de toda a minha
vida.
― Não se preocupe anjinho. Quando você voltar para casa vou levá-la para
esquiar em Chamonix. Combinado?
― Sim! – Ela gritou e eu sorri.
― Agora chame John para o papai.
Ela se foi gritando o nome do irmão pela casa e xingando em holandês.
Minha princesinha delicada, como sempre.
Algum tempo depois, ouvi a voz do outro lado da linha.
― Sim Sr. Galagher. – Ele me disse.
― Houve um tempo em que você me chamava de pai. – Praguejei.
― Houve um tempo em que eu achava que se plantasse uma moeda, nasceria
uma árvore de dinheiro. – John retrucou.
― Sempre com uma resposta rápida e certeira, não é John Albert Van
Galagher?
― Dizem que puxei meu pai.
Eu quase sorri. Podia ver John deitado na cama, as mãos cruzadas atrás
da cabeça, o telefone sobre o peito, ligado no viva voz. Ele provavelmente
sorria também. Era nosso pequeno jogo de bate-rebate, mas funcionava para
nós.
― Como estão seus irmãos? – Perguntei.
― Eles estão bem pai. Collin tem perguntado muito sobre você. Diga que
tem pensando em uma maneira de levá-lo embora.
Nós falávamos em holandês. Era nossa maneira de manter o assunto
apenas para nós.
― Ele se sente sozinho pai. Não consegue fazer amigos porque não entende
bem a língua. E pai? – Ele disse e então parou. Suspirou. E eu senti meu
coração diminuir.
― Sim meu filho?
― Eu estou entediado. Você sabe, sinto falta do vento. E das tulipas. Veja se
não demora ok?
Ele brincou, mas no fundo eu sabia que era verdade – ele sentia falta
de casa e eu sentia falta dele. John não estava preso lá. Ele estava por vontade
própria. Havia decidido ficar com os irmãos. Collin não falava português e
John era o elo que o ligava a esse mundo para o qual o tinham arrastado. Eles
estavam no Brasil há pouco mais de três meses. Tinham ido para o
aniversário de morte da mãe e não tinham mais voltado. Os avós haviam
entrado com um pedido de guarda junto ao juizado de menores, e dadas às
circunstâncias de Collin não tinha sido difícil. Eu não havia entrado com
processo algum. Conversei várias e várias vezes ao telefone com os pais de
Patrícia. Eu não queria uma briga judicial de cunho internacional. Não queria
meus filhos envolvidos em todas essas coisas. Eles já haviam sofrido demais.
Eles viram meu casamento acabar, viram a mãe morrer. Eles mereciam um
pouco de paz.
― John? – Chamei porque a linha parecia muda.
― Eu estou aqui.
― Vou trazê-los para casa.
Ele ficou em silêncio novamente. Eu queria abraçá-lo. Queria dizer a
ele o quanto eu sentia falta das nossas discussões e de como ele deixava o
leite destampado na geladeira. Eu queria dizer que o amava. Mas eu não
disse. Nem ele.
― Vou dar uma volta pai, tem muitas brasileiras por aqui que se amarram no
meu sotaque. Até mais.
Eu sorri. E pude senti-lo sorrir também. Desliguei. Fechei os olhos
novamente e deixei que a lembrança de John afastasse Laura de minha mente.
Capítulo 5

Laura
Eu estava de volta à minha casa bem antes do que pretendia. Eu não
entendia muito bem o que havia acontecido. Adrian estava irritado, mal-
humorado, contrariado. Eu não sabia o que havia causado isso. Eu não sabia
se era o fato de Alissa mencionar algo sobre Collin ou se era por termos sido
flagrados em um momento que ele provavelmente considerava errado. O fato
é que eu nem mesmo podia me desculpar, porque nenhum dos dois prováveis
motivos tinha sido minha culpa. Entrei em casa e encontrei Mia na janela.
Sentei-me ao lado dela no parapeito e cocei a sua barriga redonda e laranja.
― Você precisa de uma dieta. E eu, se continuar comendo como hoje,
precisarei em breve.
Mia ronronou, demonstrando sua reprovação quanto ao meu pequeno
exame em sua condição física.
Tirei os sapatos e coloquei uma lista de reprodução do meu celular,
deixando o som de “Higher” encher meu pequeno apartamento com a sua
batida marcada, envolvente. Tirei as roupas e entrei no chuveiro, deixando a
água descansar meu corpo do dia. Saí do chuveiro alguns minutos e músicas
depois. Cabelo molhado. Calça de flanela com desenho de carneirinhos e uma
regata justa de algodão branco, que eu amava. Meias nos pés corri para a
cozinha e fiz uma caneca de chá e aqueci um sanduíche pronto. Amsterdã é a
cidade mais prática do mundo, sério! Você pode encontrar quase tudo pronto
para ser aquecido.
Dei a primeira mordida e praguejei contra Adrian Van Galagher por me
mostrar que comida pode ser muito, muito melhor do que isso.
Abri meu computador e comecei a pensar no que escrever no e-mail
que encaminharia para o juizado de menores brasileiro. Tentei. Tentei. Meu
pensamento girando em torno de Adrian. Suas mãos. Seu toque. Sua boca
mastigando. A maneira como seus lábios bem feitos se recusavam a curvar-se
em um sorriso. Deus eu estava perdida! Perdida em Adrian Van Galagher! E
o pior – ele não estava nem perto de se sentir igual.
“Idiota! Idiota! Idiota” – Quer tipo de garota amadora e deslumbrada
se deixa encantar por um homem como ele? Eu queria bater minha cabeça
contra a parede repetidas vezes, mas não acho que isso me faria esquecer o
maldito pirata sexy.
Eu estava lá. Cara de nada olhando para o vazio da parede, parecendo
um gato depois do banho com o cabelo ainda encharcado. Computador
aberto. Revirando meu chá com a colher e pensando em desabotoar os botões
da camisa de Adrian Van Galagher mentalmente, quando uma batida suave
na janela quase me faz cair da cadeira. Ele estava lá, lindo e príncipe como
sempre – Alex Persen, em seu terno bem cortado e cabelo penteado. Sorriso
fácil mostrando um par de covinhas de suspirar, enquanto me olhava lá de
fora.
Cogitei correr, mas para onde eu iria? Malditas janelas holandesas!
Olhei para minha calça de flanela larga e cheia de carneirinhos
fofinhos e pensei que eu não poderia estar menos sexy. Tudo bem que o
homem estava com um pé e meio no altar, mas vamos lá, quem quer ser vista
assim por um pedaço de mau caminho como Alex Persen?
Caminhei até a porta como quem caminha para a forca, porque se eu
me trocasse, ficaria muito claro que havia sido por causa dele e isso seria bem
estranho. Abri a porta e ele sorriu.
― Laura! Linda como sempre.
Forcei um sorriso, mas pareceu mais uma careta.
― O que foi? – Ele me perguntou rindo. – É sério! É uma calça espirituosa!
E fica uma graça em você!
Corei inevitavelmente e sinalizei para que ele entrasse.
― Bem, primeiro eu vou me explicar. Não estou seguindo você ou coisa
assim. – Alex me disse.
Não que eu me importasse em ser seguida por ele.
― Meu pai mora no final da rua. Eu estava na casa dele quando vi o carro de
Adrian deixá-la. Quis vir ver como estava. E se precisava de alguma ajuda.
Acredite, eu conheço Adrian melhor que qualquer pessoa no mundo. – Alex
sorriu meio sem jeito. – Sei lá, seria estranho se você descobrisse que
estávamos na mesma rua e eu não dissesse nada. Não queria parecer que
estava espionando ou coisa assim. – Ele não parava de falar e eu percebi que
tentava se justificar, como eu fazia quando ficava nervosa. – É só que meu
pai mora ali, então eu venho muitas vezes para cá. – O homem coçava a
barba e falava sem parar.
Sorri.
― Acho que veio a calhar.
Não queria que ele ficasse sem graça. Sabia exatamente como era
sentir-se assim. Eu gostava de Alex. Sentia-me confortável na presença dele.
Alex não me perturbava, ele me acolhia. Eu sentia como se fossemos amigos
há anos.
― Quer um chá? Um sanduíche? Uma cerveja?
Alex sorriu, recuperando um pouco do controle.
― Eu diria um uísque, mas acho que cerveja pode funcionar.
Andei até a geladeira e peguei uma garrafinha de cerveja, entreguei a
ele.
Alex girou a tampa e acertou na lixeira de longe.
― Cesta! ― Brincou. – Mas vamos lá, em que minha presença veio a calhar?
Eu queria dizer: “Em tirar Adrian Van Galagher da minha mente!” –
Mas por questões óbvias, eu não disse.
― O Sr. Galagher me pediu que entrasse em contato com o juizado de
menores no Brasil, mas sinceramente – eu o encarei com o olhar mais
derrotado que tinha – não sei se estou fazendo isso da maneira correta.
Alex retirou o paletó, ficando apenas de camisa. Afrouxou a gravata,
sentou-se ao me lado e virou meu notebook para si. Encarou a tela.
― Você traduz para mim? – Ele disse puxando sua cadeira para mais perto
de mim, esbarrando o tecido fino da camisa contra o meu braço.
Eu me sentia estranha. Devia me sentir mal e errada, mas me sentia
bem. Era bom tê-lo próximo, mas não era nem de longe como tocar em
Adrian. Pensei em Alissa e sua grande barriga e tentei me sentir culpada, mas
eu não conseguia. Nós não estávamos fazendo nada demais, certo? O que era
aquilo? Uma conversa de amigos? Colegas de trabalho? Não era como se
Alex Persen estivesse dando em cima de mim ou coisa assim! Ele não estava
sendo sedutor. Estava? Ele era apaixonado pela garota, não era? Sim ele
era. Ponto. E eu não tinha absolutamente nada com Adrian. Então não era
errado!
Percebi que demorava demais para responder e que Alex me encarava.
― Tudo bem? ― Ele disse me estudando.
― Tudo. – Eu disse, mas não me sentia tão certa assim.
Não achei que Alex tivesse concordado, mas ele seguiu em frente,
fazendo o possível para que a situação ficasse mais leve.
― Vamos lá, traduza-me tudo com seu lindo sotaque brasileiro.
Sorri, mas foi mais de nervoso do que de graça mesmo. Li o e-mail
todo, traduzindo para o inglês.
― Sei lá Alex. Não acho que tenha ficado suficientemente embasado. Tenho
medo de falhar.
― Não acho que esteja ruim, – ele começou – na verdade, está realmente
bom. Achei ótimo que você tenha citado o Princípio de Interesse Superior da
Criança. Pelo que sei as crianças têm perguntado muito sobre o pai. Eu sei
como isso pode ser ruim na vida de uma criança.
Os olhos de Alex baixaram um pouco. Seu sorriso diminuiu. Eu não
queria dizer a ele que também sabia como isso podia ser negativo. Não queria
encher a cabeça de Alex com os meus problemas, porque ele provavelmente
tinha os dele.
― Não vou encher você com os meus problemas Laura. – Ele disse lendo
meus pensamentos. – Vamos corrigir apenas a parte final. Imagino que
Adrian queira vê-los ainda este mês. Hanna fará aniversário no final do mês e
ele certamente deseja vê-la antes disso.
Ele foi ditando em inglês e eu fui escrevendo em português, corrigindo
o final do e-mail. Terminei e sorri. Parecia muito melhor.
― Leia para mim novamente Laura. – Alex disse. Seus olhos focados nos
meus. De repente eu sentia um calor se espalhar em meu rosto e isso não era
muito confortável.
Li, fugindo dos olhos claros de Alex Persen.
― O que você acha? – Ele me perguntou.
― Acho que ficou muito melhor, – comecei – acho que parece mais
profissional, menos... – eu girei os dedos ao redor de mim – estagiária.
Alex ainda tinha os olhos nos meus e eu tentava não me concentrar
neles.
― Acho que já estava muito bom, – ele disse – mas, acho que assim você vai
ter uma resposta mais rápida.
― Isso seria ótimo! Adrian ficaria feliz.
Falei sem pensar. Não deveria ter me referido a ele com o primeiro
nome e, principalmente, não deveria ter deixado meus olhos estúpidos
brilharem com isso.
Alex sorriu, mas o sorriso morreu rápido demais. Seus olhos eram
profundos e pesarosos. Aquele verde límpido de repente parecia triste.
― E você gostaria de vê-lo feliz. – Constatou.
Fechei a tela do notebook esbarrando na xícara e derrubando a colher
no chão. Nervosa. Estúpida. Sem jeito. Peguei a colher e quando fui levantar
dei de testa com Alex. Nossos rostos próximos demais. Minha pele
esbarrando em partes demais de Alex Persen.
― Bem, ele me contratou para isso, – comecei sem conseguir parar – eu
ficaria feliz em ser útil, – continuei – seria bom ser reconhecida por um bom
trabalho. Além disso, o Sr. Galagher certamente merece ver os filhos. Eu
acho uma atitude louvável.
Alex colocou a mão sobre a minha, cobrindo-a. Seu toque gentil,
quente, derretendo-se em minha pele.
― O que foi aquilo que eu vi no Euromast? – Ele me perguntou com a voz
calma, suave.
Pensei por alguns segundos, revirando minha mente atrás de algo que
pudesse explicar Adrian e eu de mãos dadas.
― Nada! – Eu disse por fim porque nada pareceu realmente funcionar. – Eu
tenho medo de alturas e, – eu não sabia como continuar – bem, ventava
bastante. Eu sou pequena, então... – Alex interrompeu.
― Então a mão de Adrian apareceu.
Na verdade, tinha sido realmente assim, mas ouvindo da boca dele
agora, pareceu idiota. Fiquei calada.
― Laura, – ele continuou – Adrian é uma das pessoas que eu mais amo no
mundo. Ele é realmente um cara incrível. – Alex suspirou. – É um pai
incrível. É um profissional incrível. Ele é bom em tudo o que faz. Construiu
tudo aquilo com o talento que tem. Ele é o melhor amigo que eu tenho. Quase
um irmão. – Ele suspirou novamente. – Eu provavelmente não deveria estar
aqui. – Seus dedos se movendo sobre a minha mão. – Não quero vê-lo se
magoar. E principalmente, não quero vê-lo magoar você.
― Não se preocupe, – eu disse sorrindo – não pretendo me envolver com o
Sr. Galagher.
Minha voz soou decidida, firme. E eu me senti orgulhosa. Queria que
Alex percebesse que não existia possibilidade alguma de Adrian e eu, bem,
existia?
Alex curvou a boca em um sorriso de lado. Um sorriso daqueles que me
faziam ter certeza de que Deus existia e amava o mundo, criando alguém
como Alex Persen.
― A questão, Laurinha, – ele me disse ajeitando uma mecha de cabelo atrás
da minha orelha, e escorregando os dedos pelo meu rosto, segurando meu
queixo e mirando meus olhos nos dele – é que você já se envolveu. E não há
nada que eu possa fazer.
Eu não sabia o que dizer. Em parte, porque ele tinha razão e isso era
terrivelmente assustador, e em parte porque com Alex assim, tão perto, tão
quente e tão gentil e carinhoso, eu tinha muitas dúvidas sobre o fato de que
ele não poderia impedir que eu me envolvesse com Adrian.
Alex quebrou nosso contato, beijando minha bochecha e se levantando.
Jogou-se em meu sofá, deu uma golada na cerveja e fechou os olhos,
balançando os ombros no ritmo da música que tocava.
― Ah! Eu amo os clássicos! – Ele disse enquanto cantarolava “Sweet Child
O Mine”.
Eu nem tinha percebido que a música ainda tocava no meu celular.
Sorri.
― Eu simplesmente amo os clássicos também.
― Se você me disser que tem “Carry on My Wayward Son” eu sequestro
você e mantenho em cativeiro, no meu apartamento. Só para ter com quem
dividir o gosto musical.
Pronto. Tudo estava bem. Alex parecia ter esse dom. Ele parecia
consertar tudo à sua volta. Peguei o celular. Sentei-me ao lado dele e coloquei
o Kansas para tocar.
Algumas cervejas e músicas depois, Alex se levantou.
― Diga-me quando sua sala começou a girar? – Ele me disse rindo alto.
― Acho que na metade daquela pequena pilha de garrafas.
Ele estava bêbado. Eu estava bêbada. Então tentei manter a maior
distância possível entre Alex e eu.
― Ainda bem que eu tenho a chave da casa do meu pai, – ele disse meio
grogue – não acho que eu deveria ir dirigindo para Roterdã agora.
― Acho que você está coberto de razão, Sr. Persen, – brinquei – o que
mostra que o senhor é um homem sensato.
E então eu não sei o que houve. Em um momento eu estava ali, parada,
fazendo piada, no momento seguinte eu estava entre os braços de Alex
Persen. Presa em um abraço do qual não tinha certeza se queria sair. Suas
mãos segurando meu corpo contra o dele. Era um abraço, nada demais, mas
eu não podia dizer que era completamente imune a Alex Persen.
Ele me abraçava por baixo dos meus braços, forçando meu corpo para
cima, abaixando o dele para se encaixar. Eu podia sentir o peito forte e o
estômago plano e firme dele contra mim. Minhas mãos em sua nuca, tentando
conter-se em não acariciar seu cabelo macio. Seu rosto encaixado na curva do
meu pescoço, sua respiração fazendo cócegas em minha pele.
Fiquei parada. Imóvel. Mas não me afastei. Eu não queria e Alex não
merecia. Toquei seu cabelo com meus dedos. Sentindo o cheiro limpo do seu
xampu se espalhar em minhas narinas. Ele se afastou. Segurou meu rosto
entre suas mãos. Olhos tristes. Boca sem sorriso.
― Eu deveria ter sido sensato há alguns meses.
Ele ficou em silêncio. Eu fiquei em silêncio. E então ele sorriu.
― Foi um prazer revê-la Laurinha.
Caminhou até a porta e eu fiquei ali, meio sem entender, meio sem
querer entender. Abri a porta. Ele parou no batente e me deu um beijo suave
na bochecha.
― Esteja pronta às oito. Vou dar uma carona para você até a empresa.
E se virou, caminhando em direção à esquina.
― Alex, – chamei e ele se virou – Harold virá me buscar.
― Não se preocupe. Eu avisarei. Tenho certeza de que estarei com uma dor
de cabeça daquelas amanhã e vou precisar do seu bom gosto musical para
melhorar minha manhã.
Não discuti. Não tinha razões para isso. Se eu ia conviver com Alex
Persen por um período razoável de tempo, precisava encontrar uma maneira
de ser imune ao seu charme.
Faltava pouco mais de meia hora para às oito horas, quando minha
campainha tocou. Abri a porta para encontrar um Alexander que eu ainda não
havia conhecido. Ele estava escorado no batente da minha porta, vestindo
jeans escuros e uma camisa listrada de botões, com uma jaqueta de couro por
cima. Olhos cobertos por óculos escuros.
― Você me disse oito horas – brinquei.
Ele sorriu de canto e passou a língua sobre os lábios. Hum. Sedutor.
― Deve ser oito horas em algum lugar do mundo agora.
Sorri e atirei a toalha de rosto nele.
― Entre. Eu termino em alguns minutos.
― Aham. – Ele disse. – Sei como funciona. Sou noivo, lembra-se?
Eu me lembrava. Não havia esquecido em momento algum e rezava
para que Alex se lembrasse também. Pelo visto, a noite de sono o havia
ajudado com isso.
Demorei exatos quinze minutos para vestir uma calça social ajustada
nas pernas. Camisa e um blazer de couro preto. Prendi meus cabelos em um
rabo de cavalo alto. Coloquei meus óculos de sol Clubmaster e peguei minha
bolsa.
Fechei a porta do meu pequeno apartamento para encontrar um Audi
TT prateado, estacionado no meio fio.
― Wow! – Disse sem pensar.
Alex sorriu.
― Gosta?
― Gostar? – Disse. – Eu gosto de café com creme. Gosto de torta de
chocolate. Esse carro é o máximo! Eu não gosto, eu amo esse carro! Ele é... –
Eu andei até o carro e deslizei a mão por toda a pintura brilhante do capô –
ele é simplesmente o príncipe dos carros!
Ele pegou a chave e entregou em minha mão.
― Vamos lá Laurinha. Cuide bem do meu bebê.
Olhei a chave reluzente em minhas mãos e quase tive um surto
momentâneo. Corri até Alex e me pendurei em seu pescoço, beijando seu
rosto.
― Alexander Persen você é o melhor!
Alex sorriu sem graça e entrou no banco do passageiro. Entrei. Fechei a
porta, ajustei o banco. Girei a chave e deixei o motor rugir. Deus do céu. Eu
poderia ter um orgasmo ali, ouvindo o Audi gemer para mim.
Alex ligou o rádio. E deixou um rock suave do “Foo Fighters” tocar.
Seguimos em direção à Roterdã.
Paramos em um drive thru e compramos dois copos de café. Entramos
no prédio da empresa de Adrian e havia uma vaga sinalizada com o nome de
Persen. Estacionei o Audi ali, feliz em ver que a vaga de Adrian permanecia
vazia. Com sorte, eu entraria, tomaria meu café e poderia escovar os dentes,
antes de vê-lo.
Subimos pelo elevador rindo como dois bobos. Alex criticando minha
excitação aparentemente engraçada, atrás do volante.
― Hey! – Protestei batendo de leve em seu ombro. – Eu não dirijo sempre e
certamente não dirijo um carro desses!
― Baby você pode pegar meu carro quando quiser. Alguém precisa
aproveitá-lo, já que Alissa espera que eu o venda antes do bebê nascer.
Ele estava sorrindo, mas eu podia sentir uma nota de descontentamento
por trás do seu sorriso. Cara, a garota devia ser uma chata mesmo!
Alex pegou meus óculos de grau e colocou em seu rosto, fazendo careta
por trás da armação vermelha. Eu sorri e o peguei de volta.
― Hey! Eu estou sem lentes. Não enxergo nada sem eles! – Disse enquanto
caminhava para fora do elevador.
Não dei muitos passos e me choquei contra o corpo duro e forte de
Adrian Van Galagher. Meu copo colidindo contra a imensidão dura do seu
peito. Eu podia ver tudo em câmera lenta – o copo se abrindo, o líquido
escuro escorrendo camisa abaixo e minha boca se abrindo em desespero.
Perdi o equilíbrio em minha tentativa frustrada de impedir o desastre, e senti
uma vez mais a força do braço de Adrian, erguendo meu corpo como se eu
não pesasse mais que alguns gramas.
― Ops! – Soltei sem querer.
Ele continuou em silêncio. Aquele mesmo olhar que me fazia perder a
noção do mundo ao meu redor e esquecer de respirar.
Pisquei. Chacoalhei um pouco a cabeça me desintoxicando do perfume
arrebatador dele.
― Perdão Sr. Galagher! – Eu não sabia o que fazer, estava entrando em
“modo desespero”. – Eu estava distraída. Foi minha culpa. Eu realmente não
queria. – Eu tentava me explicar, mas falava como uma vendedora de
telemarketing maluca. – Alex e eu... – emudeci.
Apertei meus olhos – “Ai caramba, usei o primeiro nome” – foi tudo
que consegui pensar.
Adrian se virou para Alex. O líquido melado empapando sua camisa
azul clara, colando o tecido ao seu abdômen.
― Devo supor que esta pequena festinha era a razão para ter dispensado os
serviços de Harold.
Não sabia se respondia ou não porque eu não sabia se ele falava comigo
ou com Alex. Então fiquei em silêncio. Um terrível e constrangedor silêncio.

Adrian
Quando acordei naquela manhã, eu estava ansioso. Falar com meus
filhos havia deixado o caminho aberto para que eu sonhasse com Patrícia e
sonhar com ela me deixava muito, muito perturbado.
Desliguei o chuveiro e me sentei na borda da banheira por algum
tempo, deixando meu rosto pesar sobre minhas mãos, analisando os últimos
acontecimentos. Levantei-me, enrolei a toalha em volta do corpo e caminhei
até o armário. Peguei a caixa de madeira e me sentei na cama, traçando meus
dedos em torno do padrão de rosas marchetado na tampa. Abri, encarando o
conteúdo.
Meu álbum de casamento era simples. Quando me casei com Patrícia
não éramos ricos nem tínhamos apoio dos nossos pais. Éramos duas crianças
brincando de casinha.
Fui passando as folhas envelhecidas pelo tempo uma a uma, encarando
o sorriso no rosto da minha garota e no meu. Eu podia ver o pequeno volume
sob o vestido claro, arredondando suas formas. John já estava ali, meu
pequeno lutador.
O próximo álbum era dos nossos primeiros anos juntos. Havia fotos do
primeiro apartamento que dividimos. E fotos de um Alexander desajeitado
tentando dar banho em meu filho. Suspirei, afastando as primeiras lágrimas e
engolindo-as em seguida. Sorri – nós éramos uma boa família juntos.
Olhei todos os álbuns de fotos, percebendo a diferença em cada um de
nós. Eu estava mais altivo, mais arrogante, mais rico. Patrícia mais triste,
mais sofrida, mais apagada. Eu fui apagando sua luz com a minha arrogância
pouco a pouco, até que não restou nada.
Corri os olhos por cada um dos bilhetes que eu havia mandado a ela.
Bilhetinhos em pedaços de folhas de caderno. Apaixonados e românticos
como eu nunca mais havia sido.
Havia uma rosa seca sobre uma folha de papel. No papel havia uma
data. Era provavelmente o dia em que ela concebeu meu filho. Eu havia
falhado tanto com ela e com eles que nem sabia por onde voltar consertando
meus erros.
Fechei os olhos e pensei em Laura novamente. Eu me sentia culpado
pela maioria dos sentimentos que Laura despertava em mim, mas eu gostava
do homem que eu era quando ela estava por perto. Eu me preocupava mais
com a maneira como tratava as pessoas. Preocupava-me mais em tentar ser
parte de algo que não fosse apenas sobre mim e o meu dinheiro.
Estava divagando quando meu telefone tocou. Atendi preocupado
assim que vi o número internacional piscando na tela.
― Aconteceu algo com os meus filhos Margarida? – Perguntei sem saber se
queria uma resposta.
― Bom dia Adrian! – Ela me recriminou. – Não! Não aconteceu nada com os
seus filhos. Eles estão ótimos e estão dormindo ainda.
Respirei fundo e me recompus.
― Bom dia Margarida. Desculpe minha falta de educação. Eu estava um
pouco absorto em pensamentos e – antes que pudesse continuar, Margarida
me interrompeu.
― Sonhei com Patrícia hoje, Adrian. – Ela confessou. – Tenho pensado tanto
em minha filha ultimamente.
Senti meu coração se apertar.
― Eu também! – Confessei tão baixo que não tive certeza se ela havia me
ouvido.
― Eles estão bem aqui comigo, – ela me continuou – quero que saiba disso.
― Sei que estão. Nunca tive dúvidas de que você os ama, mas eles são meus
filhos Margarida.
Ela não respondeu. Respirando contra o telefone.
Margarida e eu não discutíamos. Éramos polidos demais para discutir.
Na verdade, não trocávamos mais do que poucas palavras. Durante todo o
tempo que durou meu casamento, haviam sido pequenas conversas medidas e
pesadas, sem sentimento algum.
― Teve notícias de Jens? – Ela soltou de repente, fazendo meu corpo se
retesar.
― É um país pequeno. – Brinquei sem humor. – Sempre ouço algo aqui e ali,
mas nada realmente preocupante.
― Tenho medo Adrian. – Margarida me confessou.
Eu tinha medo também. Tinha muito. Não queria que aquele homem se
aproximasse da minha família. Ele já havia causado danos demais. Mas eu
tinha certeza de que ele não seria burro o suficiente para tentar algum tipo de
aproximação. Ele sabia que precisamos conviver pelos negócios e ele amava
dinheiro mais do que amava qualquer coisa em sua vida.
Jens havia cruzado meu caminho em meu segundo ano escolar. Não
encontramos semelhanças desde o início. Nenhum ponto de interesse comum,
nenhuma razão para sermos amigos. Havia decidido que ele era apenas mais
uma pessoa no mundo, mas ele havia decidido que eu era o seu rival. E isso
não havia mudado ainda hoje. Ele era sobrinho do primeiro ministro, e isso
fazia com que se sentisse o próprio rei da Holanda.
Eu era de uma família importante, mas havia renegado isso porque não
pensava como eles. Não era como meu pai e não era como Jens. Eu jogava o
jogo, dançava a música, mas esse não era eu, esse era Jens. Ele gostava do
jogo. Gostava de se sentir superior, de ser bajulado e aclamado nos jornais
pela Europa. Gostava de desfilar com belas mulheres a tiracolo e manter a
fama de solteiro cobiçado. Ele gostava de mentir e gostava de enganar e ele
gostava, principalmente, de ter o que era meu. Jens era como um rato,
infiltrando-se pelos caminhos do palácio e tomando posse do que achava
necessário. Ele era sujo e desonesto, mas se escondia sob uma carcaça
elegante e um sorriso gentil que fazia com que as pessoas caíssem fácil
demais em sua lábia. Patrícia, inclusive.
Eu havia lutado contra a vontade de socá-lo tantas vezes que podia sentir
a sensação da minha mão batendo contra os ossos da face dele só de
imaginar.
― Não se preocupe. Eu mantenho Jens longe o suficiente, – e completei –
tenho meus meios.
E então me ocorreu um pensamento.
― Por isso você os levou? – Perguntei.
Margarida pensou e pensou por algum tempo. Suspirou contra o telefone.
― Também.
― Eu os quero de volta, Margarida! – Disse baixo mantendo meu tom sob
controle. – Se o problema é Jens ou qualquer outra pessoa, eu tenho plenas
condições de manter meus filhos seguros.
Ela não respondeu. Continuou aquele duro silêncio que me fazia querer
socar alguma coisa, ou alguém.
― Eu vou tê-los, – continuei – você sabe que vou.
E então eu desliguei o telefone porque já não havia razão para continuar a
conversa. Se ela pensava que poderia manter meus filhos longe de mim
apenas porque tinha medo daquele calhorda, estava enganada. Eu não
aceitaria. Não me esconderia e não ensinaria isso aos meus filhos.
Terminei de me vestir sentindo minha cabeça latejar – não era, nem de
longe, um bom dia.
Desci as escadas apressado. Entrei na cozinha e encontrei Harold e
Martina tomando uma xícara de café. Encarei o horário em meu relógio.
― Pensei que estaria em Amsterdã, buscando a Srta. Soares, como eu havia
mandado. – Disse encarando Harold.
― Bom dia Sr. Galagher, – ele começou – recebi um telefonema do Sr.
Persen dizendo que não precisava me preocupar, que ele mesmo a levaria.
Pensei que eram ordens do senhor.
Engoli em seco, ajeitando minha gravata.
― Da próxima vez que tiver dúvidas sobre uma ordem minha, basta que faça
uma ligação. É exatamente por isso que você tem um celular com a conta
paga pela empresa.
Era grosseiro, eu sabia, mas era verdade. Virei as costas e saí sem
responder aos apelos de Martina para que eu comesse algo.
Ela havia assumido minha casa como se fosse dela. Eu gostava de como
cuidava das coisas e mantinha tudo do meu agrado. Martina estava conosco
desde os primeiros anos de Hanna. Era uma boa mulher e me conhecia o
suficiente para saber a hora de não insistir em algo.
Cheguei à garagem e encarei minha moto estacionada – era o que eu
precisava. Um pouco de vento no rosto e talvez eu me sentisse menos irritado
com a petulância de Alexander.
Alguns minutos mais tarde, estacionei a moto e desci, ajeitando meu
terno. Caminhei até a vaga de Alexander e a encontrei vazia – ele queria
mesmo arranjar uma briga comigo!
Subi pelas escadas para ter tempo suficiente de me recompor, antes de
entrar, mas tempo algum seria suficiente para o que eu vi.
Eu sentia o sangue se concentrar em minha cabeça. Latejando. Latejando.
Eu não me importava com a mancha na camisa. Não me importava com o
líquido quente, escorrendo em meu peito. Meus olhos estavam vermelhos
focados no sorriso na boca de Alexander enquanto saía do elevador com
Laura.
Quando foi que os dois ficaram amiguinhos? Que parte da história eu
havia perdido?
Eu queria cerrar minha mão em punho e acertar uma direita fechada, sem
chance de defesa, na lateral do rosto dele. Eu queria sentir o sangue jorrar do
osso da face dele e melar os nós dos meus dedos. Eu queria arrastar Laura
pelos cabelos para a minha sala e ensinar a ela que não se brinca com Adrian
Van Galagher. Eu queria, mas me contive, encarando os olhos de Alex
porque sabia que ele entenderia o que eu não dissesse.
― Não houve festa alguma Adrian. – Ele iniciou a sessão desculpas. – Laura
apenas pegou uma carona comigo. Acabei descobrindo que meu pai mora na
rua da casa de Laura. Não é uma coincidência?
Ele coçou a barba. Deslizou a mão pelo cabelo. Encarou-me com seus
olhos infantis de sempre. Ele estava sem jeito. Pego em sua própria teia.
― E levaram pouco mais de meia hora para formar essa amizade sólida.
Eu estava sendo arrogante e ácido e eu sabia disso. A recepcionista
baixou a cabeça atrás da tela do computador, fugindo da situação.
― Não seja rabugento Adrian. Eu só... – não deixei que continuasse.
― Deixei os processos da Calahan e da Metod sobre sua mesa Alexander.
Espero um parecer até a hora do almoço.
Comecei a andar em direção ao elevador que levava à minha sala. Laura
continuou ali, parada, meio atônita, encarando-me.
― Acompanha-me Srta. Soares? – Perguntei, mas soava mais como uma
ordem. – Ou prefere um escritório conjugado com o Sr. Persen?
Alex pigarreou e Laura engoliu em seco. Pelo menos os dois teriam o
cuidado de não serem pegos em outra sessão de risadinhas.
Entrei em silêncio no elevador, mãos cruzadas sobre o peito melado de
café.
― Sr. Galagher... – Ela começou. A voz quase sumindo. – Espero que o
senhor me perdoe. Eu realmente não o vi. Estava colocando os óculos. Estou
sem minhas lentes de longe. Sei que não é um bom argumento. Eu realmente,
realmente não queria sujá-lo novamente.
Ela estava usando o realmente pela terceira vez na mesma frase. Falando
sem parar, como em nosso primeiro encontro. Eu quase sorri. Quase. Ainda
podia ouvir os risinhos dela com Alex no elevador.
― Espero que seus argumentos jurídicos sejam mais contundentes, Srta.
Soares.
Era uma piada. Ou deveria ter sido, mas ela não sorriu. – Definitivamente
não sou bom com piadas.
A porta se abriu e sinalizei para que Laura fosse à minha frente.
― Bom dia Sr. Galagher! – Karol me disse com os olhos na mancha em
minha camisa.
Cumprimentei com a cabeça.
― Bom dia Karol.
Abri a porta e deixei que Laura entrasse. Ela ficou parada, sem jeito,
esperando por meu segundo passo. Fechei as portas atrás de nós e passei por
ela.
Laura estava linda. Radiante. Algo diferente brilhando em seus olhos,
escondido atrás do medo que ela sentia de mim no momento. Eu queria
descobrir o que era e queria socar Alexander até meus dedos doerem por ter
sido ele a razão do que quer que fosse que a fazia feliz.
Eu não iria permitir que ele continuasse sendo a razão do sorriso por trás
do rosto de Laura. Eu precisava de algo. Algo que a fizesse sentir-se como
ontem, no Euromast. Eu podia fazer isso. Eu era muito bom com isso. Eu
sabia seduzir. Esse era um jogo que eu gostava de jogar. Meu melhor jogo.
― Conseguiu o que eu lhe pedi ontem, Srta. Soares? – Disse afastando-me
dela e mirando a janela, de costas para ela.
― Sim senhor, – ela respondeu – inclusive acabei de receber uma resposta.
Se eu puder ligar meu computador.
― Use a mesa. – Disse ainda de costas, sinalizando a mesa lateral.
Eu a ouvi se afastar e colocar o notebook sobre a mesa. Alguns segundos
depois, ouvi o som de inicialização. Tirei o paletó. Soltei minhas abotoaduras
e puxei a camisa para fora da calça, soltando o cinto. Abri os botões da
camisa. Virei para encontrar Laura me observando. Ela baixou os olhos no
mesmo instante, mas eles não permaneceram lá. Correram através dos
desenhos em meu dorso e costelas. E pararam nas rosas em meu peito.
Caminhei até ela, meus olhos fixos nos dela, capturando sua atenção. Eu
queria Laura. Não sabia se era o correto, mas era o que eu queria e naquele
momento eu realmente não me importava com muitas coisas. Parei perto o
suficiente para que ela tivesse uma melhor visão do meu corpo. Alisei meus
cabelos trás.
― Encontrou o e-mail que procurava Srta. Soares? – Perguntei consciente de
nossa proximidade.
Laura piscou algumas vezes. Os olhos tentando decidir se encarava os
meus ou se matava a curiosidade sobre minhas tatuagens.
Eu tinha plena consciência do que meu corpo marcado causava. As
pessoas não imaginavam que por trás do executivo bem vestido havia um
homem transgressor. Alguém capaz de marcar todo o corpo com tatuagens.
Eu gostava disso. Gostava de surpreender. E eu gostava especialmente da
reação que isso causava em Laura.
― Eu. Eu. Eu. – Ela não completava a frase e eu me aproximei mais,
baixando um pouco meu corpo, por trás dela na cadeira, falando perto do seu
ouvido.
― Quer me mostrar Laura? – Minha voz gutural, baixa, saindo direto da
garganta.
Não era exatamente sobre o e-mail que eu falava. Eu falava sobre ela.
Sobre qualquer coisa dela que ela quisesse me mostrar. Queria vencer a
barreira que ela havia erguido entre nós. Queria que ela me visse como
homem. Eu não queria mais ser o Sr. Galagher, queria que Laura me visse
como Adrian. Que me desejasse como Adrian e que me deixasse mostrar a
ela que homem algum no mundo seria como eu.
Umedeci meus lábios junto à sua orelha, soltando o ar da minha boca
junto ao seu ouvido, sentindo os pequenos pelos ali se eriçarem com a
suavidade do meu toque. Eu tinha consciência de toda a agitação do seu
corpo e esperava por um mínimo sinal, como um leão, esperando pelo
descuido da gazela. Imóvel, controlado. E então meu telefone tocou,
arrancando Laura e eu do nosso pequeno impasse e me fazendo amaldiçoar o
homem que inventou o telefone.
Capítulo 6

Laura
Meu coração queria sair pela boca. Meu corpo imóvel, tenso, sentindo a
presença quente e forte de Adrian em minhas costas. Mesmo sob o tecido
grosso do blazer, eu podia sentir ondas de calor vindas de sua pele se chocar
contra minha pele. Eu sofria de uma overdose – bem-vinda – de Adrian Van
Galagher, quando ouvi batidas na porta.
Adrian se afastou, caminhando lentamente até lá. Eu fiquei ali, sentada,
mãos tremendo, coração acelerado, corpo latejando.
Karol entrou e eu não me virei, desesperadamente tentando recuperar o
controle sobre meu corpo. Corpo estúpido! Corpo estúpido!
― Karol mande lavar minha camisa, por favor, – eu o ouvi dizer – e consiga
algo para que eu possa vestir até a camisa estar limpa e passada. Não se
preocupe em trazer. A Srta. Soares e eu estamos em uma reunião importante.
Ouvi passos se afastando e então a porta se fechou. Meu coração
gritando em antecipação, sentindo a presença de Adrian se aproximar. Ele
parou ao meu lado, meu rosto na altura do seu abdômen. Virei o rosto sem
querer. Cinto aberto, botão da calça também – ele não se deu ao trabalho de
fechar, providencial. O elástico da cueca aparecendo discretamente enquanto
ele se movia. Deus do céu eu estava enlouquecendo! Meu peito subindo e
descendo tão rápido que eu tenho certeza que ele percebeu.
Queria Adrian naquele momento muito mais do que eu queria respirar.
Eu sentia meu corpo a poucos graus de entrar em combustão espontânea. Sua
respiração movendo os músculos do seu corpo lindamente. Eu podia ver o
quanto Adrian era belo e proporcional de muito mais perto do que podia ser
considerado seguro para alguém.
Inspire. Expire. Inspire. Expire – eu ordenava ao meu corpo, mas tudo
que eu conseguia era mais do perfume sedutor de Adrian Van Galagher.
Minha mente projetando cenas eróticas com tanta realidade que eu podia
sentir a mão de Adrian sobre minha cabeça, conduzindo-me até o botão
aberto em sua calça. Eu podia sentir minha mão descendo o zíper devagar.
Podia sentir minha boca beijando sua pele quente, fina, ajustada aos músculos
do quadril. Deus eu queria isso! Queria beijar Adrian sob o elástico da cueca
Calvin Klein e senti-lo arquear contra mim, gemendo de prazer. Queria mais.
Queria puxar sua cueca mais para baixo, queria senti-lo inteiro. Em minha
mão. Em minha boca. Eu queria senti-lo em minha língua.
Pisquei algumas vezes porque minha visão estava escurecendo de
repente. Tirei os óculos com o cuidado de não o tocar. Limpei as lentes com a
barra da blusa e os coloquei novamente. Tentando ganhar tempo antes de
parecer mais uma vadia completa, jogada sobre Adrian Van Galagher.
Adrian não se abaixou. Ele permaneceu ali, parado ao meu lado, a mão
escorada no encosto da cadeira, o corpo tão próximo ao meu rosto que se eu
movesse minha cabeça um centímetro, tocaria os lábios em sua pele. E se eu
fizesse isso, provavelmente estaria perdida para sempre. Como o homem iria
acreditar que não houve nada entre o Juiz e eu se eu me comportasse como
uma vadia?
Respire Laura! Respire. Não se mova. Não se mova. – Pensei
novamente.
― Leia para mim, Srta. Soares. – Ele disse, quebrando minha pequena guerra
mental.
Eu li. Engasgando em um inglês arrastado que nem parecia meu. Tão
nervosa que demorei alguns minutos para perceber o que tinha acabado de
ler.
― Oh meu Deus! Eu consegui. – Disse tão espantada que me movi e toquei
em Adrian muito mais do que devia e muito menos do que queria.
Adrian tinha um olhar indecifrável, escuro, profundo, um sorriso
diabólico no rosto.
― Parabéns Srta. Soares. Sinto que devo lhe parabenizar.
Eu sorri. Era o primeiro elogio que eu ganhava dele.
Ele estendeu a mão em minha direção e eu o olhei em sua totalidade,
realmente, pela primeira vez, sem desviar os olhos, curiosa, hipnotizada.
Adrian era ainda melhor daquela posição. Sua pele clara e suave,
marcada em quase toda a extensão superior por uma série de desenhos em
preto. Ele tinha músculos bem feitos e proporcionais em todo o corpo esguio,
forte. Seus ombros eram largos e os braços bem torneados. Sua cintura era
marcada por uma curvatura em forma de “v” que eu já havia notado e que
sinalizava exatamente onde ele deveria ser melhor, mas o que realmente me
impressionava eram os olhos dele. Eles não tinham mais a arrogância
marcada de Adrian. Ele estava ali, inteiro, só para mim.
Estendi a mão e ele a segurou. Esperei um aperto de mão, mas não tive
isso. Adrian levou minha mão até seus lábios e a beijou, suavemente.
― Obrigada Laura, por tornar possível minha visita aos meus filhos.
Não havia jogo em suas palavras, nem sedução. Nada. Só havia Adrian
e eu. Eu estava derretida como um pote de manteiga no sol do meio dia no
Nordeste. Teria feito qualquer coisa que ele mandasse naquele momento.
Fiquei imaginando como seria acordar todos os dias com um homem como
ele e tive pena da pobre esposa. Deixando-o tão cedo.
Lembrei-me da fotografia dele com o filho mais velho. Esse homem na
minha frente tinha muito mais a ver com aquele cara lindo e descontraído,
segurando um filhote de cavalo. Imaginei como ele seria como pai. Um
Adrian acordando de madrugada para espantar monstros do quarto ou
empurrando a garotinha no balanço. Suspirei perdida em mim mesma. Eu
queria isso. Eu queria esse Adrian. Eu queria uma casa cheia de crianças
sorridentes de olhos caramelo. Eu queria, mas sabia que não poderia ter.
Essa era uma realidade impossível demais e eu poderia fazer uma lista bem
grande de motivos.
― O que você olha tanto Laura? – Perguntou curioso.
Percebi que estava em silêncio há muito tempo. Boca meio aberta, cara
de peixe fisgado pelo anzol. Pisquei e limpei a garganta.
Sua postura era de controle, poder. Adrian sabia quem era. Sabia o
poder que tinha e sabia principalmente o poder que exercia sobre as
mulheres. Sobre mim.
Não encontrava uma maneira de responder. Não podia simplesmente
dizer que já estava imaginando ele todo lindo e tatuado, esparramado sobre a
minha cama e rodeado de crianças. Seria meio assustador.
Ele deu alguns passos, diminuindo nossa distância, meus olhos vagando
em seu corpo, estudando os desenhos, focados nas flores sobre seu peito
sólido. Ele esboçou um sorriso e fechou o botão da calça, levando meus olhos
diretamente do seu peito para a linha de sua cintura. Adrian caminhava como
um felino ao redor de mim, espreitando.
― Acha que eu não faço o tipo tatuado? Com meu terno caro e meu carro de
luxo. Você acha que sabe quem eu sou Laura Soares? – Disse aproximando-
se de mim ainda mais. Meus seios quase tocando sua pele, minha pele
arrepiada sob a roupa. – Você nem faz ideia Laura. – Meu nome soando sexy
em sua voz grossa, seu sotaque arrastado.
Se eu achei que minha calcinha poderia sair correndo antes, eu estava
enganada, mas agora, ela poderia se desfazer com uma pequena ordem de
Adrian Van Galagher, meu pirata sedutor.
Adrian ergueu o braço e levou até o meu cabelo. Puxou o laço de uma
vez, espalhando-o ao redor do meu rosto. Ele se aproximou mais, segurando
uma mecha e levando até seu rosto.
― Eu gosto do seu cabelo, Srta. Soares. – Cheirou meu cabelo, enviando
ondas elétricas em todas as partes do meu corpo e em algumas,
especificamente. – Gosto do perfume que eles têm. – Seus olhos nos meus.
Minha boca seca, admirando a dele, sentindo o seu gosto. – Sabe por que eu
gosto dos seus cabelos Srta. Soares?
Sacudi a cabeça em negativa, como uma criança de dois anos. Eu tinha
certeza de que se tentasse falar, iria babar no sapato dele.
Adrian escorregou pelo meu rosto, enfiando a mão em meus cabelos,
segurando-me pela nuca, num aperto firme. – Eu quase gemi. E me puxou
para si, a centímetros da sua boca.
― Seus cabelos são ótimos para puxar enquanto se faz amor, Laura. Serão
perfeitos quando eu a debruçar sobre a minha mesa. Vou poder trazê-la até
minha boca assim. Seus dedos girando ao redor do meu cabelo, segurando-o
de uma vez, todo nas mãos de Adrian, prendendo-me, puxando-me.
Morri. Ou pelo menos quis morrer. Ali, nos braços de Adrian, nada
poderia valer mais a pena. Minha vida tinha sido completa. Adeus mundo!
E então ele continuou.
― Você quer me conhecer melhor, Laura? – Ele me disse com o nariz
tocando o meu, espalhando seu hálito fresco em minhas narinas. Assenti –
Não posso garantir que você irá apreciar tudo que irá descobrir.
Pisquei algumas vezes. Concentrei-me. Respirei fundo. Se eu queria ter
alguma chance de ter mais que uma transa rápida no escritório com Adrian
Van Galagher, precisava ser mais que uma dessas “modeletes” burras que
devem fazer fila do lado de fora de sua casa.
Endireitei meu corpo. Meus lábios roçando os de Adrian. Encarei
seus olhos, mordendo meu lábio inferior. Eu estava de volta ao jogo. Tateei
seu peito com as minhas mãos, contornando cada músculo, sentindo as
ondulações da tinta em sua pele. Eu podia sentir seu corpo acordado,
vibrando com o meu toque.
― Algumas experiências valem a pena, Sr. Galagher, mesmo quando deixam
marcas.
O rosto de Adrian explodiu em um sorriso sexy, quase real, provocador.
Seus olhos eram uma linha fina e dourada, encarando os meus. Ele podia
derreter o meu cérebro se continuasse daquele jeito.
― Espero que saiba exatamente o que está dizendo. – Disse-me.
Sua mão desceu pela minha blusa, até o cós da calça, os dedos
segurando ali, puxando-me mais perto, tateando a renda da minha calcinha.
― Que graça teria uma vida sem riscos, Sr. Galagher? – Provoquei e ele
sorriu mais.
― Venha Srta. Soares. – Ele me disse e me arrastou pela mão.

Adrian
Saí da sala com a mão de Laura entrelaçada na minha. Aquele sorriso
de excitação em seus lábios mais uma vez. Eu estava me viciando naquele
sorriso.
Não pensei muito em onde isso tudo acabaria. Na verdade, depois de
muito tempo, eu me permiti não pensar. Eu me permiti vivenciar. Eu
precisava disso como precisava de ar. Eu queria o velho Adrian de volta.
Passei pela mesa de Karol e parei em frente a ela.
― Então Karol, conseguiu algo para eu vestir? Ou terei que sair seminu pelas
ruas de Roterdã? – Brinquei. – Saiba que se eu for preso por atentado ao
pudor descontarei a fiança do seu salário.
Karol sorriu. Laura sorriu. Eu não. Sorrir ainda parecia difícil.
― Claro Sr. Galagher, não se preocupe. Consegui sim.
Ela me passou uma camiseta branca, dobrada e com etiqueta de nova.
Puxei a etiqueta e vesti, cobrindo meu peito. Era menor do que eu teria
comprado, ficava ajustada, mas pelo menos cobria um pouco de mim.
Caminhei com Laura até o elevador.
― Desculpe-me por sua camisa, – ela me disse – de novo.
― Não se preocupe – eu disse – de novo.
Ela saiu na frente e eu em seguida. Assim que passamos pela recepção,
demos de cara com Alex, voltando do departamento financeiro.
Ele correu os olhos de mim para Laura algumas vezes, tentando
entender. Parou em mim, estudando, mas não disse nada.
― Quando quer discutir o caso Calahan? – Alex perguntou. – O caso Metod
exige uma certidão que ainda não tenho.
― Amanhã pela manhã discutiremos Alex – eu disse. Minha mão
descansando nas costas de Laura, entre as ondas dos seus cabelos. – Não
pretendo voltar ao escritório hoje.
Sorri quase sem querer. Alex era meu amigo, mas ele tinha pisado em
terreno perigoso. Eu queria Laura. Eu a queria desde antes de saber quem ela
era e depois eu a quis mais. Eu sabia exatamente o que se passava na mente
de Persen, mas não me importava, tudo que eu queria era mostrar a ele que
Laura era minha.
Laura foi saindo pela porta, mas eu a trouxe de volta ao elevador que
dava acesso à garagem.
― Achei que você tivesse vindo com o motorista, – ela me disse – seu carro
não estava na vaga, então eu pensei... – Sorri, interrompendo-a.
― Eu não vim com o motorista Laura. – Limitei-me a dizer.
Eu a conduzi até à moto, parada ali, esperando por nós. Era meu
brinquedo preferido. Encarei os olhos curiosos de Laura.
― Vamos! – Disse entregando um capacete a ela. – Eu prometi que a levaria
para conhecer minha cidade. Eu sou um homem de palavra.
Laura sorriu e colocou o capacete. Eu subi na moto e liguei. Ela ficou
ali, parada.
― Não me diga que tem medo de motocicletas também, Srta. Soares. –
Brinquei.
― Não! – Ela me disse sem jeito. – Só não sei subir em uma.
Eu estendi a mão, segurando a dela.
― Pise aqui com seu pé esquerdo, – eu disse indicando o pedal – agora jogue
o corpo para cima e passe a perna para o outro lado.
Ela se sentou. Longe demais de mim. Sem me abraçar. Eu quase sorri.
― Dê-me suas mãos, Laura.
Ela passou as mãos por baixo dos meus braços, timidamente. Eu as
puxei e cruzei em meu abdômen.
― Você precisa encostar-se a mim. Acredite, é mais seguro assim.
Ela se aproximou um pouco mais.
― Mais perto Laura. Eu preciso ter certeza de que você fará as curvas
comigo.
E então ela se aproximou mais, colando o seu corpo no meu. Minhas
costas preenchidas por ela.
Saímos pela cidade, sentindo o vento bater contra nós.
Eu me deixei levar pelas ruas, sem lugar fixo, cruzando as grandes
avenidas e as pequenas vielas, mostrando uma Roterdã que ela não conhecia
e da qual eu nem lembrava mais. Passamos pela Erasmusbrug, em direção a
outra parte da cidade velha, Hillegersberg. Era uma parte especial de Roterdã
para mim. Eu havia crescido ali. Havia vivido boa parte dos meus melhores
momentos ali.
Enquanto corríamos juntos pelas ruas quase desertas eu me lembrava de
Lucian. De quando éramos crianças. De nós dois chutando a bola no quintal
de casa até mamãe nos chamar para comer torta de maçã. Suspirei fundo.
Essas lembranças não eram mais dolorosas. Eram lembranças boas. Saudades
boas. Eu não me culpava mais pelo acidente. A imagem do meu pai estava se
formando em minha mente mesmo sem eu querer. Já fazia tanto tempo que
eu não o via. Ultimamente, John estava mudando alguns dos meus velhos
conceitos.
Eu me sentia estranhamente feliz ali. Encarei suas mãos pequenas ao
redor da minha cintura, sentindo o corpo de Laura contra o meu. Fazia tanto
tempo que eu não me sentia assim. Realmente muito tempo. Decidi que era
hora de tentar. Hora de deixar o velho Adrian vir à tona, mostrar a Laura
quem eu era de verdade. Talvez ela se desiludisse de vez e se afastasse de
mim, ou talvez... – O pensamento morreu em minha mente. Não Adrian, não
existe talvez.
Parei a moto em um pequeno parque, à beira de um lago. O vento havia
derrubado muitas flores brancas sobre a água. Agora ela estava estática,
límpida, coroada de flores. Laura desceu e eu desci em seguida.
Os olhos dela brilhavam como quando eu a levei ao Euroscoop.
― Oh meu Deus Sr. Galagher! – Ela me disse com a mão tapando a boca. –
Se eu tivesse doze anos diria que estou em um conto de fadas!
― É uma pena que você não tenha conhecido esse lugar aos doze anos então.
– Brinquei.
Ela tirou os sapatos de salto e pisou na grama, deslizando os pés pelo
chão, amassando as pequenas flores. Essa maldita brasileira seria minha
perdição.
Sentei-me na grama e deixei meu corpo cair contra o chão, cruzando as
mãos atrás da cabeça, fechei meus olhos. Fiquei assim até que ela se sentou
ao meu lado.
― Posso perguntar uma coisa Sr. Galagher? – Ela me disse timidamente, e eu
podia jurar que estava mexendo nos dedos nervosamente.
― Claro.
― O senhor não acha mesmo que eu me envolvi com o Juiz Reign, acha?
Eu podia perceber o nervosismo ali, escondido entre as notas vocais.
Ela tinha medo do conceito que eu tinha dela. Eu quis sorrir. Ela nem fazia
ideia.
Permaneci parado, mãos cruzadas atrás da cabeça. Rosto sério. Eu me
divertia em torturá-la assim. Ela tinha muitas perguntas, mas tinha muito
mais medo do que desejo de respostas.
― Tenho certeza de que não. – Respondi por fim, quebrando o desespero
latente dela.
Eu soube que ela sorria mesmo com os olhos fechados.
― Posso perguntar como o senhor tem tanta certeza?
― Pode, se parar de me chamar de senhor. Talvez eu peça que me chame de
senhor em algum momento. – Brinquei, mas não era tão brincadeira assim. –
Acho que Adrian está bom por agora. Enquanto estamos sozinhos.
Pude senti-la sorrir novamente.
― Como tem certeza de que eu falei a verdade no caso do Juiz, Adrian? – Ela
reformulou a pergunta, acolhendo meu pedido.
Levantei, ficando de frente para ela. Apoiando as mãos nas pernas.
Meus olhos encarando o nervosismo nos dela. Sorri.
― É muito simples Srta. Laura Soares. – Eu disse e atirei uma pedrinha na
água, fazendo-a quicar algumas vezes sobre a superfície. – O Juiz Albert
Reign é meu pai.
Laura tossiu, pigarreou e limpou a garganta. Decidi explicar-lhe mais.
― Por isso eu disse a Andersen que ninguém poderia ser melhor em limpar
seu nome. Nada melhor do que o filho do juiz para dizer que você é inocente.
Ter sido contratada por mim redime você. Assim que a imprensa souber. –
Fiz uma pausa e tirei uma folhinha dos cabelos de Laura. – E ela saberá ―
você estará limpa.
Os olhos de Laura estavam nos meus. Tão perto. Tão minha.
― Obrigada – ela me disse ainda sem jeito – por me ajudar. Obrigada. Eu
não sei como faria. Eu não. Eu não... – Ela não sabia como terminar a frase e
eu não queria que ela terminasse.
Puxei seu rosto para o meu, tocando meus lábios nos dela. Fazia tanto
tempo que eu não beijava alguém. Senti a maciez dos lábios dela com a
minha língua. Lambendo ao redor deles devagar, sentindo a antecipação de
Laura. Capturei o lábio inferior entre os meus e a puxei mais, colocando-a
sentada sobre minhas pernas, de frente para mim. Eu queria que ela sentisse
como me excitava. Como eu estava pronto, preparado para ela. Ajeitei seu
quadril e elevei minhas pernas, encaixando-a ali. Minhas mãos na base das
suas costas, pressionando-a contra mim, sentindo meu corpo pulsar de desejo
por ela.
Laura não recuou. Ao contrário, suas mãos estavam em minha nuca,
acariciando meu cabelo, sua boca pronta, desejando a minha, enquanto eu
mordiscava seus lábios, aumentando o desejo dela, e o meu.
Minha língua abriu espaço entre seus lábios, tateando a de Laura,
buscando, sugando. Eu a beijei como se dependesse dela para viver. Mais
forte, mais profundo, puxando sua língua para a minha boca, sugando-a mais
forte até que Laura gemeu, tirando meu senso. Eu me deitei e a puxei sobre
mim, minhas mãos apertando seu quadril contra o meu. Eu estava
dolorosamente duro por ela. Virei de lado, colocando-a na grama.
Era um lugar afastado. Eu sabia que àquela hora do dia não teria
movimento, mas ainda era um parque e isso me excitava mais. Enfiei minha
mão por dentro da blusa de Laura, apertando seus seios em minha palma.
― Adrian, – ela protestou – não acho que... – eu não a deixei terminar.
Coloquei meu joelho entre suas pernas, apertando contra ela, com
movimentos suaves sobre sua calça fina.
― Adrian – ela gemeu. Não era mais um protesto.
― Shhhhhhh – eu disse com o dedo em seus lábios – eu quero você anjo! –
Eu disse contra sua orelha. – E você, me quer?
Ela assentiu com cabeça tonta, presa entre meus beijos.
― Eu quero ouvir você dizer. Diz Laura. Diz o que você quer.
― Você! – Ela balbuciou.
― Então será como eu quiser. Sempre! – Eu disse enfiando a mão dentro da
sua calça.
Eu não pretendia fazer amor com Laura ali. Não nos exporia. Eu era um
homem conhecido demais para me dar esse tipo de luxúria, mas Laura
precisava ser testada. Eu precisava saber até que ponto ela estava disposta a
ir. O que ela estava disposta a fazer comigo.
Deslizei a mão dentro da sua calcinha, tocando-a onde eu queria.
Minha boca em sua boca. Eu sugava sua língua para minha boca ao mesmo
tempo em que mexia meus dedos em espiral em sua carne suave, macia,
quente. Eu sentia meu corpo todo gritar por Laura, meu membro duro,
dolorosamente latejando por ela.
Estava louco, descontrolado, perdido em Laura, possuindo-a com a
minha boca, já que não podia possuí-la como eu queria naquela hora.
― Laura, Laura! – Disse cortando o beijo, passando a língua em sua orelha. –
Você nem imagina como eu quero foder você inteira. E eu vou.
Esperei alguma reação negativa dela. Algo que indicasse que ela estava
desconfortável com o meu linguajar. Eu precisava que Laura indicasse que
não queria algo em mim porque se ela quisesse, eu não seria capaz de negar.
― Hum. Adrian. – Foi tudo que consegui arrancar dela.
Seu corpo amolecendo, perdendo as forças contra o chão, contorcendo-
se em minha mão. Enfiei um dedo dentro dela, sem parar o movimento,
sentindo seu calor, sua umidade.
Deus! Eu estava realmente perdido.
― Como você é pequena Laura, – eu disse contra a sua boca – tão apertada.
Acho que nós vamos ter um probleminha com isso.
Ela não disse nada, enfiando a língua em minha boca, mordendo meu
lábio. Continuei respondendo ao beijo.
― Isso anjo. Goza para mim. Goza na minha mão que eu quero sentir o seu
gosto.
Não demorou muito. Alguns segundos depois eu pude senti-la arfar, seu
corpo ondulando contra minha mão. Eu a beijei por mais alguns minutos,
deixando-a recobrar os sentidos. Ela abriu os olhos e sorriu. Parecia um
pouco envergonhada, mas lutava contra. Garota decidida.
Fixei meus olhos nos dela, retirando minha mão com cuidado da sua
calça. Levei os dedos até minha boca e chupei, absorvendo o gosto de Laura.
― Sabe por que eu não jogo, Srta. Soares? – Perguntei.
― Não faço ideia – ela me respondeu.
― Eu tenho uma tendência nata a me viciar em coisas que me fazem sentir
vencedor.
Ela sorriu.
― Sinto que corro esse risco com você.
Laura se pendurou em meu pescoço, puxando meu rosto para o seu,
deitando-me sobre ela na grama. Ela me beijou. Docemente, profundamente,
como se nunca mais fosse me ver. Meu corpo ainda necessitava dela. Eu não
estava satisfeito. Eu queria mais. Eu queria tudo.
― Se você continuar com isso vou esquecer que estamos na rua. Acredite
isso não seria um problema para mim.
Ela não me deu atenção. Não respondeu. Abriu o botão da minha calça
e enfio a mão lá dentro, por fora da minha boxer sentindo minha extensão
rígida. Gemi contra sua boca.
― Você está navegando em águas perigosas, Srta. Soares. – Adverti.
Estava desesperado por liberação. Precisa dela. Eu queria entrar em
Laura mais do que qualquer coisa, mas não naquele lugar, não daquele jeito.
Laura continuou deslizando a mão desde a ponta até a base, por dentro
da cueca agora, enlouquecendo-me. Eu gostava do toque dela. Queria mais.
Encarei seus olhos e passei meu polegar sobre seus lábios.
― Eu queria sentir a sua boca fazendo isso, anjo.
Ela me beijou mais forte, mais profundo, chupando minha língua e
quase me levando para longe da razão. Sorri contra sua boca.
― O que você quer Laura? Quer me fazer gozar na cueca é isso? Não basta
sujar a minha camisa?
Ela sorriu, parte sem graça, parte satisfeita.
― Sinto informá-la, linda, não vai ser assim tão fácil.

Puxei seus braços contra meu pescoço. Eu precisava parar o que ela
estava fazendo ou ela acabaria descobrindo que também não seria tão difícil
assim. Afinal que tipo de homem eu era? Eu não era mais um adolescente
bobo e apaixonado. Eu tinha controle sobre mim. Sobre meu desejo, sobre
meu corpo. Não tinha?
Adrian não se esqueça – você está no comando.
Capítulo 7

Laura
Eu não havia percebido coisa alguma quando Adrian se levantou. Tão
rápido que eu não consegui acompanhar, e correu. Correu e correu e só
depois de alguns minutos eu percebi a razão. Havia um garoto. Pouco mais
jovem que eu. Câmera na mão, vigiando Adrian e eu. Senti o medo se
espalhar tão rápido que eu estava atônita, parada feito uma idiota, vendo a
cena em câmera lenta.
Adrian não deu tempo algum para que ele pensasse. Arrancou a câmera
com uma mão, segurando-o pelo colarinho da camiseta com a outra. Eu não
ouvi o que ele disse, mas sinceramente, eu no lugar do garoto, teria feito o
que ele quisesse. O garoto ficou ali, com as mãos levantadas em sinal de paz,
rosto corado de desespero, esperando o próximo passo de Adrian.
Levantei-me com cuidado, ajeitei os cabelos com as mãos e caminhei
até onde eles estavam. Ao lado da motocicleta agora.
Adrian retirou um maço pequeno de dinheiro e o entregou ao garoto.
Parei ao lado deles, em silêncio.
― Passe na sede da minha empresa e eu deixarei o restante separado, Sr.
Willen, – Adrian disse – e eu espero que estejamos conversados.
― Sim, Sr. Galagher. – O garoto respondeu, guardando o dinheiro no bolso.
– Posso passar ainda hoje?
Adrian não o olhou mais. Subiu na moto e sinalizou para que eu
subisse. A câmera do garoto amarrada ao seu pulso. Ligou a moto.
― Passe quando quiser. Darei a ordem de pagamento agora mesmo.
Meu peito se apertou. O homem que estava comigo até alguns minutos
atrás não existia mais. Ele tinha dado lugar ao Sr. Galagher, o executivo frio
de sempre.
Subi na moto e o segurei pela cintura. Nossos corpos estavam
novamente próximos, colados, mas Adrian não estava mais ali. Ele havia
ficado para trás, no meu pequeno jardim de contos de fadas, perdido entre o
sonho e a realidade.
Paramos dentro da garagem do prédio de Adrian novamente. Eu
desci. Ele desceu. Silêncio absoluto.
Subimos pelo elevador e paramos na recepção. Adrian pegou um
pedaço de papel e escreveu algo que eu não li. Estava desconcertada,
envergonhada, sem entender muita coisa.
― Quando esse homem vir até aqui, – ele sinalizou o nome no papel para a
recepcionista – entregue este valor em dinheiro.
A moça assentiu. Não discutiu, não perguntou. Ninguém questionava o
Sr. Galagher.
Subimos pelo elevador que dava acesso à sua sala. Adrian caminhando
em minha frente com seus passos largos e eu tentando acompanhá-lo.
― Espero que minha camisa já esteja seca e pronta para o uso, Karol. – Disse
sem a menor sombra de sorriso em seu rosto.
― Sim, Sr. Galagher. Deixei-a sobre sua mesa.
Ele entrou no escritório e eu o segui. Pegou a camisa sem falar comigo
e entrou por uma porta lateral, próxima onde eu estava estática, mãos sobre o
aparador, sem saber se corria ou se ficava.
Adrian voltou alguns segundos mais tarde ― impecavelmente vestido.
Colocou o paletó novamente.
― Vou pedir a Harold que a leve de volta para Amsterdã, Srta. Soares. – Ele
me disse.
Havia uma nota diferente em sua voz que não reconhecia. Não era a
arrogância costumeira. Adrian estava pesaroso, culpado talvez. Eu não queria
ir. Queria entender o que estava acontecendo. Ainda pretendia conhecê-lo
melhor, entendê-lo.
Ele caminhou até a mesa. Apertou um botão no telefone.
― Karol, peça a Harold que venha até minha sala.
― Harold foi até ao Centro Automotivo. Ligaram avisando que o Porsche
está pronto. Assim que ele voltar direi que o senhor o aguarda. – Ouvi Karol
pelo viva-voz.
Era minha deixa. Um pequeno presente do destino. Ele não conseguiria
me chutar tão rápido para longe dele. Aproximei-me.
― Posso ver as fotos? – Pedi.
Ele pegou a câmera e a ligou. Entregou em minhas mãos. Eram fotos
realmente ruins. A câmera era muito, muito boa. Fui passando, passando e
sentindo meu rosto corar.
― Entende porque o que houve hoje não vai se repetir, não é Srta. Soares?
Continuei passando as imagens.
― Eu não posso ter minha vida pessoal exposta desta maneira, Srta. Soares.
Tenho clientes grandes. Pessoas importantes. Não posso pôr tudo a perder
com rompantes adolescentes.
E o sangue ia se concentrando mais e mais em minhas bochechas. Não
era mais vergonha, estava na raiva e ia seguindo em direção ao ódio.
― Se eu quero meus filhos de volta, – ele continuou com os olhos perdidos
na paisagem da cidade, revelada pela parede de vidro – não posso vacilar.
Não posso.
Engoli em seco. Ele não era tão egoísta assim. Estava preocupado com
os filhos e não estava errado. Fosse pelo que fosse que tivessem levado as
crianças, certamente usariam aquelas fotos para mantê-las longe.
Parei ao lado dele. Estávamos um ao lado do outro, sem realmente nos
olharmos. Encarando a cidade lá embaixo.
― Eu entendo Sr. Galagher. – Disse tentando me aproximar.
― Você tem filhos Srta. Soares? – Ele me perguntou.
Uma onda de emoções inundando meu corpo todo. Vacilando as
palavras em minha boca. Lembranças remoendo dentro do meu coração,
levando minha consciência para longe. Para outro tempo. Para outra Laura.
Uma Laura que ainda acreditava em finais felizes. Adrian me fez lembrar que
essa Laura não existia mais. Não eu não tinha.
― Não! – Limitei-me a dizer, sentindo as lágrimas queimando por detrás dos
meus olhos.
― Então você não sabe como eu me sinto.
Adrian disse isso e se afastou. Mexendo em alguns papeis sobre a mesa.
Eu fiquei ali, segurando o meu choro contido, mãos cerradas em punho.
Maxilar apertado. Olhos perdidos na imensidão azul do mar, quando a porta
se abriu.
― Oh desculpe! – Ouvi a voz de Alexander. – Não sabia que Laura estava
com você. Posso voltar em outro momento. – Alex disse vacilante.
Eu não me virei. Não sabia se conseguiria me conter se encontrasse
Alex ali. Pude senti-lo caminhar, seus sapatos batendo contra o piso
brilhante.
― Adrian, – perguntou – quer que eu volte em outra hora?
Adrian vacilou. Eu o vi retomar sua postura tão rápido que poderia
jurar que o vacilo só houve em minha mente.
― Tem os números da Calahan para mim Alexander? – Perguntou com sua
voz autoritária de sempre.
Alex demorou a responder. Imagino que tenha olhado para mim, mas
eu ainda precisava de mais alguns segundos para controlar o meu coração
estúpido.
― Sim, – disse por fim – preparei o processo. Pensei em deixar na sua mesa.
– Mais uma pausa. – Mas vejo que decidiu voltar mais cedo.
― Mais alguma coisa? – Adrian perguntou.
― Não, – Alex respondeu – até amanhã terei os números da Metod.
― Então eu o vejo amanhã. – Adrian respondeu. – Preciso analisar esse
processo com cuidado e eu realmente não quero ser interrompido.
Eu não sabia se Adrian falava com Alex ou comigo. Suas palavras
pareciam respingar em mim como uma garoa fina em um dia de inverno.
― Ok. – Alex respondeu e bufou. – Estarei em casa se precisar.
Ouvi seus passos se afastando e aproveitei. Eu queria fugir e Alex era a
melhor fuga que eu poderia ter de Adrian.
― Alex? – Chamei e me virei. – Você poderia me dar uma carona até a
estação?
Adrian estava parado. Mão perdida sobre o processo. Olhos
contrariados, espantados. Sobrancelhas baixas. Continuei.
― Não quero mais tomar o tempo do Sr. Galagher. Além disso, preciso
conferir algumas coisas em meu escritório. Tenho um estudo de um caso
sobre “Sequestro Inter Parental” que eu gostaria de reler.
Os olhos de Alex vagaram de mim para Adrian algumas vezes.
Sobrancelhas levantadas, como se pedisse algum tipo de permissão ou se
simplesmente esperasse uma negativa de Adrian.
― Se acha conveniente, Srta. Soares... – Foi tudo que ele disse.
― Atrapalho você? – Perguntei a Alex.
Alex encarou Adrian novamente. Coçou a barba. Sorriu.
― Não.
― Ótimo! – Conclui. – Eu o procuro assim que tiver novidades, Sr. Galagher.
Praticamente corri para fora do escritório. Não olhei para trás em
momento algum, apesar de ter deixado uma boa parte do meu coração lá. Eu
já estava acostumada a ir perdendo pedaços dele pelo caminho.
Descemos pelo elevador sem dizer nada, Alex e eu, fugindo dos olhares
um do outro.
Saímos. Entramos no Audi. Alex dirigiu em silêncio. Nenhuma música.
Passamos pela Avenida da Estação Central. Alex não parou. Tomou
uma estrada secundária. Uma que eu não sabia onde levava. Pouco mais de
dez minutos depois, eu pude perceber o aumento de espaço entre as casas.
Mais distantes. Mais distantes. Plantações. Moinhos de vento. Pequenos
riachos. Alex estacionou em uma estrada transversal. Tirou o cinto de
segurança. Virou-se em minha direção, os olhos verdes encarando os meus.
Não aguentei. Eu estava sendo forte há tempo demais. Eu me perdi na
primeira lágrima que escorreu. As outras vieram com tanta força que eu
sentia como se uma comporta tivesse sido aberta. Alex abriu os braços
oferecendo seu abraço e eu me lancei nele. Suas mãos eram suaves em
minhas costas. Seu peito era quente e aconchegante, moldava-se a mim com
tanto carinho, tanta atenção. Afundei meu rosto em seu peito, sentindo o
tecido da camisa molhar com as minhas lágrimas.
― Baby. Baby. Eu queria tanto estar errado... – Foi o que ele me disse.
― Queria que você estivesse errado também. – Solucei.
Ele segurou meu rosto em suas mãos e limpou meus olhos com os
polegares. Seus olhos tristes e profundos. Sua boca sem sorriso.
― Há tão pouco que eu possa fazer! – Concluiu. – Só posso dizer que estou
aqui. Que vou tentar curar as feridas.
Encarei seu olhar por alguns minutos. Deus! Seria tão fácil amar Alex
Persen. Havia tanto para amar ali. Seria tão fácil tê-lo em minha vida.
Porque eu não conheci Alex Persen alguns anos antes? Quando eu ainda
esperava meu príncipe encantado. E ele não era noivo da madrasta má. Sorri,
mesmo sem humor.
― Parece um bom plano para mim – eu disse.
Alex sorriu e eu me aninhei em seus braços de novo.
― Acredite, – Alex começou – ele não é um idiota arrogante.
Eu quase consegui sorri.
― Você não sabe o que aconteceu.
― Nem preciso. Eu conheço Adrian há mais de uma década, baby. Conheço
todos os seus jogos.
Não resisti.
― Acha que ele estava jogando comigo? – Perguntei.
Alex suspirou profundamente.
― Sinceramente?
― Sim.
― Sim ele estava jogando.
Quase tive que recolher os cacos do meu coração no piso do Audi. Eu
não sabia se queria continuar ouvindo, mas Alex continuou.
― Mas ele estava jogando agora, e não antes. – Afundei mais a cabeça em
seu peito. – Aquele Adrian que você viu, divertido e de camiseta, é mais
próximo do cara que eu conheci, muito tempo atrás, do que este executivo
arrogante que deixamos lá.
― Ele parece bem real no papel de executivo arrogante – conclui.
Alex sorriu.
― Eu sei. Tenho convivido com ele há algum tempo.
Limpei meus olhos uma vez mais. Encostei de volta no banco do
passageiro novamente e mirei a estrada à nossa frente.
― Isso é só uma casca, sabe? Um tipo de armadura. Quando alguém sofre
demais, tende a tentar se proteger. – Alex me disse.
Pensei nas palavras de Alex por um tempo. Eu sabia exatamente como
elas eram verdadeiras. Eu só não conseguia ver em que mundo paralelo um
homem como Adrian Van Galagher poderia ter sofrido tanto. Ele ficou
viúvo? Sim, mas segundo ele mesmo, o casamento não era assim tão feliz.
Estava longe dos filhos? Por pouco tempo e ele sabia disso. Ele era jovem,
influente, rico, bonito, atraente, talentoso. Eu não conseguia encaixar Adrian
no perfil de sofredor.
― Acho que a armadura já virou parte dele, sabe, como o Duende Verde.
Alex riu alto.
― É uma ótima comparação. Temos que contar isso a ele algum dia.
Suspirei.
― Nem sei se vou querer falar com ele de novo, algum dia.
Alex deu um daqueles sorrisos de canto que enchiam o rosto de
príncipe dele com um charme irresistível.
― Vai sim. Eu sei disso, e você também.
Ele suspirou e acendeu um cigarro. Ele fez uma pausa, como se
quisesse me contar algo difícil. Encarou a estrada. Pensou.
― Collin não é filho de Adrian. – Ele disse de uma vez.
Encarei-o sem entender. Ele deu uma baforada na fumaça e continuou.
― No Euromast, quando Alissa desejou sorte, era disso que ela falava. Você
iria saber de qualquer jeito, então não acho que seja um problema me
adiantar. Só não diga a ele.
Oh meu Deus! Pensei. Mas não disse nada.
― O que houve? – Perguntei.
― Você nem imagina?
Adrian não parecia o tipo de homem que seria traído. Eu não o trairia,
pelo menos. Fiquei em silêncio, esperando que Alex continuasse.
― Bem é uma longa história, – ele continuou e olhou no relógio – espero que
não esteja com fome.
Sorri.
― Preciso perder três quilos.
― Estávamos na faculdade, quando nos conhecemos. Eu respondi a um
anúncio e encontrei Adrian lá. Não era um tempo fácil para ele. Adrian
contou a você que teve um irmão?
Neguei.
― Ele se chamava Lucian. Era quatro anos mais jovem que Adrian.
Senti meu coração apertar pela segunda vez no dia.
― O que houve?
― Um acidente. Adrian estava ensinando Lucian a pilotar um Jet Ski.
― Oh meu Deus! – Disse tapando minha boca.
― Lucian caiu na água e foi atingido pelo Jet Ski. Não houve muito que
Adrian pudesse fazer. Lucian morreu na hora.
Eu queria chorar. Pisquei algumas vezes, tentando afastar a sensação.
― Eu não fazia ideia.
― E nunca dirá a ele que faz, – Alex advertiu – Adrian odeia falar do
passado. Continuando a história – ele disse – eu o conheci pouco depois
disso, quando Adrian rompeu com o pai e decidiu viver por conta própria. O
juiz o culpou pela morte de Lucian. Por isso dividimos o apartamento. Foram
tempos difíceis para nós dois. Eu havia acabado de me mudar da Bélgica.
Eu o encarei sem entender.
― Ok Srta. Soares. Pronto. Já sabe um segredo meu. Eu não sou holandês, –
ele disse e sorriu – pelo menos não sou de sangue puro. Azul, como o Sr.
Galagher. Mas minhas histórias ficam para outra ocasião. O fato é que
Patrícia apareceu mais ou menos nessa época. Ela era perfeita. Ou nós
achávamos que era. – Ele fez uma pausa e suspirou. – Ela sabia que Adrian
era filho do Juiz Reign. Era uma garota esperta. Ela esperava que com a
gravidez Adrian acabasse reatando com o pai, mas isso não aconteceu. Então
o dinheiro começou a demorar mais do que ela esperava para chegar. Sabe
Laura, o dinheiro determina muitas coisas na vida de uma pessoa.
Baixei os olhos para o chão. Eu sabia. Eu era a garota que havia sido
paga para não existir.
― A mãe de Adrian morreu alguns meses antes de John nascer, o que tornou
a reaproximação com o juiz ainda mais difícil. Adrian lutou muito para se
reestabelecer. Apostou em sua capacidade e usou todo o dinheiro da herança
da mãe para começar seu pequeno império. Quando Hanna nasceu ele já era
dono de metade de Roterdã.
― Imagino que a esposa estava feliz, então. – Conclui.
― Ela estava, mas Adrian não. Começou a sair. Jogar. Beber. Não existia fim
para Adrian Van Galagher. “O céu é o limite” – ele dizia.
― E então ela o traiu – eu disse por fim.
― Eu não a culpo, – Alex continuou – ou pelo menos não a culpo tanto. Não
era fácil estar ao lado dele. Principalmente com duas crianças. Ela se deixou
levar. Apaixonou-se por um oportunista. Quando Adrian soube da traição,
prometeu que não tiraria as crianças dela, se ela não levasse nada do
patrimônio. Ela concordou, mas o namorado não. Ele a deixou. Meses depois
ela descobriu que estava grávida de Collin.
― Oh – eu disse.
― Mas ela só descobriu a gravidez porque se sentiu mal e foi a um hospital.
Patrícia morreu com um tumor no cérebro antes de Collin completar um ano.
Adrian esteve ao lado dela todo o tempo. Não pôde abandoná-la. Por mais
que não houvesse relação alguma, sentia-se culpado. Ele ama Collin, Laura.
Agora eu estava chorando. Não podia mais conter. Na verdade, o que
eu precisava conter era a vontade de voltar correndo ao escritório e me
pendurar no pescoço de Adrian.
― Ele realmente ama Collin. Adrian tem um grande coração. Só aprendeu a
esconder isso das pessoas.

Adrian
Sentei em minha cadeira, girei-a de frente para a parede de vidro. No
que eu estava pensando? Não existia mais lugar em minha vida para o velho
Adrian. Ele estava morto. Foi morrendo aos poucos.
A porta se abriu de uma vez.
― Você é um idiota, – eu ouvi Alex dizer – e pode me demitir se quiser. Eu
não me importo. – Virei a cadeira para ele e o encarei sem humor. – Você
precisa ouvir umas verdades de vez em quando Sr. Galagher – ele disse
debochando do meu nome.
― E imagino que você tenha vindo até aqui defender a pobre donzela em
perigo – eu disse com uma nota de sarcasmo em minha voz.
― Não! Seu imbecil arrogante! – Ele esbravejou. – Vim dizer a você que a
garota está apaixonada por você. E que, por mais que você odeie todas as
mulheres do mundo, Laura não tem culpa das suas merdas!
Pensei por um instante, ajeitando os óculos em meu rosto. Ela não
estava. Não poderia. Eu fui realmente um idiota arrogante com ela. Estava?
Respirei fundo, afastando as bobagens da minha mente.
― Como eu disse, Alex Persen sai em defesa de mais uma bela donzela em
perigo! – Estreitei os olhos para ele. – Como vai explicar essa sua paixonite
por minha advogada à sua noiva?
― Não seja idiota! Não existe paixonite alguma.
Alex estava sem graça. Perdido. Ele não era bom em argumentar
comigo. Ninguém era. Comecei a estalar meus dedos, um por um, apertando
os nós dos dedos com a mão oposta.
― Eu disse a você Adrian. Laura é uma garota doce, – era quase uma súplica
– não faça isso.
― Sim você já me disse. “Não envolva a pobre Laura em seu mundo
destroçado” e todo esse blá, blá, blá poético que você costuma usar. Você
deveria mudar de profissão, Dr. Persen, e se tornar psicólogo. Ganharia mais
dinheiro do que eu.
― Você está errado, – ele me disse – não pode agir como se todas as
mulheres fossem Patrícia.
Golpe baixo. Do tipo que só ele conseguia me dar.
― Patrícia está morta Adrian. Você não.
Explodi.
― Exato. Patrícia está morta. Mamãe está morta. Lucian está morto. Eu
destruo tudo ao meu redor, não é? Destruo tudo que toco. Era o que você ia
me dizer, Alexander? – Provoquei. – Ou prefere dizer que sou um maldito
pervertido, como meu pai sempre diz? Que sou promíscuo e que não mereço
meus filhos? Ou tem uma nova teoria para mim?
Alex me encarou por mais tempo do que eu queria. Seus olhos
estudando os meus, buscando por uma brecha para entrar e vasculhar meu
coração. Protegi-me o máximo que pude.
Ele caminhou até a bandeja. Serviu duas doses de uísque. Trouxe até a
mesa e empurrou em minha direção.
― A nós dois e nossas vidas de merda!
Sorri.
― Porque melhorar se podemos sempre piorar tudo.
Bebemos em silêncio. Era um silêncio confortável. O silêncio de duas
pessoas que já sabem todas as respostas. Quando o uísque acabou, Alex se
levantou.
― Só me prometa que desta vez você não vai jogar contra si mesmo.
Mantive meus olhos no líquido âmbar em meu copo.
― Dê a Laura o benefício da dúvida, – ele fez uma pausa e soltou o ar dos
pulmões de uma vez só – acredite Adrian. Ela vale o risco.
Alex saiu e eu fiquei ali, sozinho em minha sala, vendo o sol se pôr no
Oeste, pensando em tudo que havia acontecido em único dia com Laura. Eu
soube que ela seria minha perdição no instante em que a conheci, mas ela
tinha me dado mais vida em alguns dias do que eu tive nos últimos anos.
Alexander Persen estava certo mais uma vez. Laura valia a pena.
Passei por Karol sem nem olhar. Não avisei aonde ia, não era
necessário. Subi na moto e fui deixando a cidade para trás. Meu coração
estava pesado, tenso, mas ficou mais leve quando avistei a placa “Amsterdã”
em meu retrovisor.
Capítulo 8

Laura
Saí do chuveiro com um short jeans que um dia já tinha sido uma calça
e uma camiseta velha, da temporada passada do Feyenoord. Cabelos presos
em um coque bagunçado. Joguei-me no sofá com o livro de Direito
Internacional sobre a barriga. Peguei o celular e liguei para pedir um
sanduíche. Eu não estava com humor nem para colocar o nariz para fora de
casa.
Fechei meus olhos, deixando o pensamento ir. Eu ainda estava furiosa
com Adrian, mas a fúria pouco a pouco, dava lugar a outras coisas. Eu bem
sabia como era carregar esses demônios dentro da gente. Não podia culpá-lo,
mas não precisava aceitá-lo também. Existia uma guerra interna sendo
travada pela boa Laura e a má Laura e, de certa maneira, as duas queriam
Adrian por perto, nem que fosse para chutar a bunda rica dele de vez em
quando.
Minha mente vagou por corredores e mais corredores dentro de mim.
Lugares que eu não gostava de visitar. Coisas que eu não gostava de lembrar.
Eu havia enterrado tudo tão profundamente que nem sabia se tinha realmente
lidado com o passado ou apenas escondido debaixo das camadas da minha
cebola interior. Suspirei fundo – eu não estava preparada para voltar ao
Brasil. Adrian havia me lembrado disso e eu queria socá-lo por isso.
Quando a campainha soou, levei um susto tão grande que deixei o livro
cair – e quase caí junto. Levantei e a campainha tocou novamente, insistente.
“Malditos entregadores!” – Pensei e a campainha tocou novamente.
Eu queria xingá-lo, mas sabia que esse é um dos poucos lugares com
entrega aqui no Jordaan, então ajeitei o cabelo dentro do elástico novamente e
gritei.
― Já vou! – No melhor e mais irritado português que podia, afinal ele não
saberia mesmo o que eu disse. – Vai tirar a mãe da forca?
Abri a porta colocando uma mecha de cabelo que insistia em cair atrás
da orelha e quase morri de ataque cardíaco. Não era o entregador de
sanduíches.
Adrian estava lá. Cabelo levemente despenteado pelo capacete, vestido
no seu terno de sempre. Boca sem sorriso, olhar arrebatador, fazendo minha
porta parecer pequena demais com seu tamanho.
Pisquei algumas vezes, usando a maçaneta da porta de escora. Se eu a
soltasse me estabacaria no chão como uma jaca, daquelas grandes e gordas
que caem das árvores no verão do Brasil. Eu não podia acreditar que Adrian
Van Galagher estava mesmo aqui, na minha porta, parado.
― Caso não tenha ficado claro ainda Srta. Soares, – ele me disse, os olhos
divertidos e instigantes nos meus, – eu não falo português, o que significa que
se quiserem me xingar terá que fazer em neerlandês, ou inglês. Podemos
tentar também em francês, caso a senhorita prefira. A senhorita fala francês,
Srta. Soares?
Ele era bom. Muito bom. Era inteligente e perspicaz. Eu gostava de
gente assim. Gostava das piadas sarcásticas de Adrian. Bem, eu gostava de
Adrian. Gostava de praticamente tudo nele, até o humor ácido, eu gostava.
Quase sorri, mas não daria essa vantagem a ele.
― Não senhor, Sr. Galagher. Eu não tive oportunidade de aprender.
Era uma piada. O começo de uma piadinha manipuladora dele para me
fazer cair em seu jogo. O que ele ainda não sabia era que eu adorava ser
desafiada. Finquei meus olhos nos dele, esperando a próxima rodada.
― É uma pena. O francês é mesmo uma bela língua. Tem origem românica.
Sabia Srta. Soares? – Ele me disse encarando um pedaço de pele solto perto
da unha. – E cerca de cento e trinta e seis milhões de pessoas em todo o
mundo se comunicam assim, – voltou a encarar meus olhos, – ainda que
como segunda língua.
Ele queria ganhar tempo. Não queria me dizer o que estava fazendo ali,
parado na minha porta. Queria que eu o ajudasse com seu pequeno passo em
falso emocional, mas não estava disposta a tornar as coisas fáceis para Adrian
Van Galagher. Continuei.
― Espero que a fluência em francês não seja condição determinante para
trabalhar com o senhor, – joguei – porque se for, imagino que o senhor terá
que contratar uma dentre essas cento e trinta e seis milhões.
Adrian quase sorriu, mas ele também não me daria essa vantagem. Seus
olhos se estreitaram e por um segundo, eu realmente achei que ele fosse dar
um passo à frente e me beijar. Eu queria. Sentia ainda a sensação da sua boca
na minha, o gosto do seu beijo, e aquela proximidade toda não me ajudava
muito. O que nos salvou foi a buzina da bicicleta do entregador de lanches.
Quando ela soou próxima à motocicleta, Adrian deu um pulo e eu também,
desconcertados, pegos com a “boca na botija”, quase que literalmente.
― Srta. Soares? – O rapaz perguntou.
― Sou eu – disse pegando o dinheiro no bolso do short e entregando a ele.
Peguei meu embrulho e abri, espalhando o aroma de filé e queijo
Gouda.
― Tudo certo? – O rapaz perguntou.
― Sim! Perfeito. Tenha uma boa noite! – Disse e ele sumiu pela rua com a
sua bicicleta.
Eu estava parada na porta, e Adrian encarando meu pacote de
sanduíche como se ele fosse algum tipo de criatura alienígena que pudesse
devorá-lo.
― Algo contra sanduíches? – Perguntei por que não pude manter minha boca
fechada.
― Não especificamente, – ele respondeu – desde que eu saiba a procedência
e ele venha armazenado da maneira correta. Além disso, pela quantidade de
gordura que manchou a embalagem de papel, devo presumir que você
pretenda ter um acidente coronário antes dos trinta anos.
Sorri. Este era Adrian sendo gentil e divertido, era raro, então eu
precisava aproveitar.
― Caso queira entrar e tomar parte neste meu experimento alimentício – eu
disse e me virei.
Ele bufou. Foi uma bufada suave, quase imperceptível. Adrian odiava
ser contrariado e questionado e principalmente não ser o centro do mundo, o
que, aliás, era um problema existencial de noventa e nove por cento das
pessoas que combinam beleza e dinheiro.
Passei pela sala sacudindo suavemente meu pequeno saco sujo de
gordura. Eu não tinha que agradar a Adrian Van Galagher! Tinha? Bem, ele
estava aqui, não estava? Na minha porta? Então, eu podia agir como Laura e
não como Srta. Soares.
Escutei os passos medidos de Adrian e logo depois o baque da porta
contra o batente. Ele estava dentro – meu coração avisou. Dentro do meu
pequeno apartamento. Sozinho comigo. De repente todo aquele filé e queijo
amarelo não pareciam mais tão saborosos. Eu sentia meu coração bater nas
orelhas.
Adrian parou. Braços cruzados sobre meu balcão. Olhos estreitos.
Abri o pacote, tirei o sanduíche e o coloquei sobre um prato. Peguei
uma cerveja e abri, tomando uma golada, direto da garrafa. Estava nervosa e
gente nervosa fica meio idiota. Ele estava ali, em silêncio. E eu não conseguia
parar de comer e beber, entupindo minha boca com alguma coisa antes que
não resistisse e me atirasse sobre Adrian.
― Laura, – ele começou e eu quase engasguei com um pedaço de sanduíche,
– eu vim me desculpar.
Oh Deus! Oh Deus! Ele pode ficar ainda mais maravilhoso?
Meu coração parecia parado, esperando a próxima frase, o sanduíche
meio mastigado em minha boca.
Adrian caminhou até mim, tirou a cerveja da minha mão e bebeu um
gole. Engoli o sanduíche tão rápido que senti minha garganta queimar. Ele
tirou o prato de sanduíche também. Segurou minhas mãos. Seus olhos
correndo sobre mim, fazendo-me amaldiçoar a ideia de colocar mais uma
roupa velha – eu precisava renovar meu guarda roupas de ficar em casa,
urgente!
― Pode me perdoar, Laura? – Ele disse.
Eu quase gritei que sim! Que eu perdoava qualquer coisa, desde que ele
continuasse ali, com aqueles lindos olhos amendoados parados nos meus,
mas me contive.
― Eu fui impulsivo.
E quando você não é? Pensei.
― Estava irritado.
Novidade! Pensei.
― Não sou bom em lidar com coisas que me contrariam.
Ok! Agora conte outra. Pensei.
― Geralmente não me importo com o que os outros pensam a meu respeito, –
ele continuou – mas com você é diferente.
Opa! Isso sim é novidade! Meu coração martelando tão alto que eu
podia sentir o sangue sendo bombeado em minhas têmporas.
― Espero não ter estragado tudo, – ele continuou e eu já estava quase me
atirando em seus braços, – nós ainda temos algum tempo trabalhando juntos.
Não quero uma situação constrangedora.
Pronto! Agora todo o meu sangue latino estava agitando, gritando,
pulando e se sacudindo dentro das veias. Eu queria matar Adrian Van
Galagher, e queria matá-lo bem devagar, talvez asfixiado com o saco
engordurado do meu sanduíche.
Maldito pirata arrogante!
Soltei minhas mãos e caminhei até a porta. Abri, tamborilando meu pé
descalço no ladrilho, rosto quente de tanta raiva.
― Se foi por isso que se abalou de Roterdã até aqui, Sr. Galagher, perdeu sua
viagem. Não costumo misturar assuntos particulares com profissionais e não
costumo receber clientes em meu apartamento. Se me der licença.
Eu estava lá, parada, esperando que ele passasse por mim como uma
flecha, subisse na maldita moto e fosse para qualquer maldito lugar onde os
sanduíches não tinham gordura e as garotas não eram idiotas, mas ele não foi.
Cruzou minha sala em alguns poucos passos e colocou a mão sobre a minha,
na folha da porta.
Adrian não disse nada. Nem eu. Havia algo queimando, escuro e
profundo em seus olhos. Eu não sabia o que era, mas morria de vontade de
descobrir.
Ele fechou a porta com um único toque, desequilibrando-me. Dei um
passo para frente e me choquei nele. Ele não me deu tempo. Passou o braço
por baixo dos meus e me impulsionou com tanta força até sua boca que foi
quase doloroso. Quase. Eu não tinha do que me queixar.
― Você será minha ruína, Srta. Soares. – Ele gemeu contra o meu pescoço,
mordiscando minha orelha.
Eu não tinha condições físicas e nem psicológicas para responder o que
quer que fosse. Sentia que todo o meu interior tinha sido liquidificado em
algo quente e espesso. Eu nem conseguia parar sobre meus próprios pés.
Adrian escorregou a mão pelo meu short, apertando a carne descoberta
da minha bunda. Suspendeu meu corpo para cima e eu enrolei minhas pernas
em sua cintura. Ele segurava meu corpo perto com uma mão e com a outra
segurava meu queixo. Mordendo minha boca enquanto sugava minha língua
na sua.
Ele não perguntou onde era o meu quarto. Caminhou até o sofá e me
desceu. Virou-me de costas e me empurrou contra o assento. Joelhos no
assento, braços sobre o encosto, lá estava eu, de costas para ele. Ele abaixou
minhas costas com a mão, deixando-me parcialmente de quatro. Encarei a
janela à minha frente, agradecendo mentalmente por ter uma cortina, ainda
que fina, tapando parcialmente o que fazíamos lá dentro.
Adrian segurou meu quadril, encostando seu corpo no meu, encaixando
sua ereção contra mim. Segurou meu cabelo em sua mão, exatamente como
tinha me dito que faria, puxando minha cabeça para trás, encaixando-se entre
minhas pernas.
― Tão incrivelmente linda! – Grunhiu. – Caso eu não tenha dito ainda, Srta.
Soares, não sou nada bom em manter o controle.
Eu não me importava. Tudo que eu conseguia pensar era em como
queria que ele tirasse meu short e me deixasse sentir mais dele. Eu queria
Adrian como nunca me lembrava de ter desejado alguém.
― Não mantenha o controle, Sr. Galagher. – Eu disse entre gemidos.
Ele abriu o zíper do meu short, enfiando a mão por dentro da minha
calcinha, tocando-me como no parque. Deus! Ele era bom nisso.
Adrian me tocava, enquanto apertava sua ereção dura contra mim. Eu
podia sentir seu corpo pulsar, enquanto deixava escapar gemidos contidos.
Ele tirou meu short e encarou minha calcinha da Betty Boop.
Aproximou o rosto da minha orelha.
― O quanto você gosta desta calcinha, Srta. Soares?
Pensei por um instante, amaldiçoando meu guarda roupas nada sexy de
lingeries.
― Não gosto realmente – eu disse.
― Ótimo.
E foi com um puxão certeiro na lateral que ele arrebentou minha
pequena e ridícula calcinha da Betty Boop. Não tive tempo de pensar muito a
respeito. O pequeno pedaço de tecido vermelho ficou ali, preso perto do meu
joelho. Deixando-me completamente exposta.
Ouvi o som do zíper, tremendo de antecipação. Eu podia sentir o desejo
latejando em mim. Podia sentir o calor do corpo de Adrian contra o meu. Eu
não conseguia organizar um único pensamento em minha mente que não
fosse sobre Adrian em mim.

Adrian
Eu estava perdido. Sabia disso desde o momento em que subi naquela
maldita moto que eu estava. Na verdade, sabia desde o momento em que ela
se chocou contra mim naquela maldita rua que eu estava perdido. Eu não
havia conseguido tirar Laura da minha mente um só momento depois disso.
Eu estava tentando alguma maneira menos idiota de dizer a ela que
eu estava lá por ela. Que eu a queria perto. A queria para mim. E então meu
orgulho idiota não havia permitido. Eu quase havia posto tudo a perder.
Quase. Eu não perderia Laura. Não poderia. Resolvi arriscar. As palavras de
Alex martelando em minha mente.
Ele estava certo. Como sempre.
Minhas mãos passeavam pelas curvas do seu quadril, ali, pronta para
mim. Por um momento eu quis prolongar a espera. Quis aproveitar a
ansiedade. Queria sentir Laura de todas as maneiras que fossem possíveis.
Queria guardar mais de Laura em minha mente. Em minha memória.
Corri os olhos em seu corpo, debruçado sobre o sofá. Não tinha ideia
do que estava fazendo, mas eu sabia que não queria parar. Minha razão e
minha emoção brigavam como loucas dentro de mim. Eu sabia que não era
certo trazer Laura para a minha vida complicada, mas sabia que poderia
protegê-la. Não poderia? Mas, então, quem protegeria Laura de mim?
Respirei fundo. Afastando a razão, sentindo o perfume dela se dissipar,
sentindo o calor da pele dela contra minhas mãos. Eu precisava de Laura,
como eu precisava de ar.
Baixei minha boxer o suficiente para que eu pudesse encaixar meu
corpo no dela, sentindo minha ereção pulsar contra a sua carne macia. Laura
arqueou o corpo, oferecendo-se para mim, pedindo, gemendo. Eu não podia
mais esperar. Segurei seu quadril e empurrei contra ela, de uma vez, sentindo
minha carne abrir espaço em seu interior apertado. Laura gemeu mais alto.
― Adrian devagar – ela balbuciou, contraindo o corpo.
Enfiei minhas mãos por baixo da camiseta, sentindo seus seios contra a
renda do sutiã. Apertando em minha palma. Beijando sua têmpora. Seu
pescoço. Mordiscando sua orelha.
― Anjo eu disse que nós teríamos um problema, – constatei – você precisa
relaxar. Assim Laura, – eu disse aumentando os movimentos, – relaxa para
mim.
Baixei minha mão até seu umbigo, desci até a virilha, traçando círculos
entre suas pernas, sentindo-a relaxar. Afastei-me o suficiente para que
pudesse sentir minha carne penetrando-a de novo, enviando ondas elétricas
em meu corpo, tirando minha razão.
Laura não protestou mais. Suas mãos relaxando sobre o encosto do
sofá. Suas pernas se afastando mais, abrindo caminho para o meu corpo.
Segurei seu rosto e puxei sua boca para a minha, enquanto meu corpo
continuava em movimentos ritmados, arrancando gemidos dela.
― Melhor assim? – Grunhi puxando seu lábio inferior entre os meus.
― Muito, muito melhor.
Ela arqueou mais as costas, elevando o quadril, permitindo que eu
estivesse mais fundo, mais forte. Minha ruína. Ela era a minha ruína.
― Anjo, se você continuar fazendo isso, não vou aguentar – confessei.
Ela me beijou. Mais forte. Mais intenso. Enfiando a língua em minha
boca, arrancando o pouco de sanidade que tinha restado.
― E se você continuar fazendo assim, Sr. Galagher, – ela disse enfatizando
meu sobrenome, – não vai precisar aguentar muito.
Não resisti. Aprofundei nosso beijo, mais e mais, até que eu podia
sentir um leve gosto metálico ali, em seus lábios. Meu corpo contra o dela.
Mais forte. Mais fundo. Mais. Mais. Não havia o suficiente de Laura para
mim. Nunca haveria.
― Adrian, – ela gemeu contra minha boca, – acho que... – Ela parou e
gemeu mais forte.
Eu sabia. Eu podia sentir seu corpo mais úmido, relaxado, quente, mas
eu queria provocá-la.
― Acha o quê, Laura? – Provoquei.
― Hum – ela gemeu.
― Eu trabalho com certezas, Srta. Soares. – Eu disse, encaixando meu corpo
no dela, apertando sua carne. – Acha ou tem certeza?
Ela sorriu e eu pude sentir pequenos espasmos se espalhando por meu
corpo. Segurei a respiração. Eu estava no controle. Não estava?
― O que você quer que eu diga Adrian? – Ela me perguntou, a voz
derramando-se de prazer. – Que você vai me fazer gozar? Que é o melhor?
Que fode muito bem?
Sorri contra sua boca.
― Seria um bom começo.
― Ah Adrian, – ela disse e parou, perdendo o controle, – você é incrível.
Incrível.
Minhas mãos apertaram suas coxas, perto da virilha, segurando o corpo
dela o mais firme que eu podia. Queria estar completamente dentro dela
quando fosse gozar. Queria que Laura fosse completamente minha. Deixei
meu corpo ir, embalado pelos espasmos do corpo de Laura. Pequenos
movimentos que foram se intensificando, levando-me com ela.
― Não Laura, – eu sussurrei, porque sabia que ela não iria me ouvir, – você é
quem é.

Deitei no sofá e ela se deitou contra mim. O corpo cansado, entregue,


pesando sobre o meu. Alisei seus cabelos com os meus dedos, sentindo sua
respiração contra a pele do meu peito. Eu não tinha nada para dizer. Nada do
que eu dissesse chegaria perto do que sentia e eu não era muito bom em
expressar o que sentia. Laura não parecia querer falar também, quieta, calada.
Eu só soube que não dormia porque podia sentir seus cílios batendo contra
minha camisa. Sorri.
― Nunca pensei que algum dia eu fosse foder encarando o brasão do
Feyenord – constatei. Eu precisava quebrar aquela onda sentimentalista que
estava me afogando.
Laura sorriu também, como se precisasse do mesmo. Ergueu o corpo,
sentando-se sobre o meu quadril, sem nada além da camiseta cobrindo sua
pele. Prendeu os cabelos no elástico novamente, botou as mãos na cintura.
― Espero que você não torça pelo Ajax.
Eu a segurei. Passei a língua pelo lábio inferior, consciente da garota
incrível sobre mim.
― Se você continuar aí, Srta. Soares, eu vou fazê-la tremer mais que o Kuip
em dia de final.
― Isso seria muito, – ela disse e me beijou – muito interessante mesmo, Sr.
Galagher. Mas antes eu preciso terminar aquele sanduíche antes que morra de
inanição depois de tanto exercício.
Ela se levantou e vestiu o short. Fechei minha calça, deixando a camisa
por fora. Ela estava lá, sentada sobre o balcão da pia, comendo aquele pedaço
estranho de pão meio murcho, meio encharcado de gordura e todo lambuzado
de queijo.
Adrian, Adrian, você está ficando velho! Houve um tempo em que você
comeria isso e acharia bom, – pensei – mas também houve um tempo em que
eu Punk Rock e achava bom e não tinha saudades dessa época.
Ela deu uma golada na cerveja, já quente, e sorriu, com a boca cheia de
sanduíche.
― Comendo desse jeito você vai acabar sendo a heroína do meu filho, – eu
disse puxando uma banqueta e me sentando. – Acredite, ele acha que isso é o
máximo e que eu não entendo nada de iguarias culinárias da moda.
― Nem todo mundo pode se dar ao luxo de comer carré de cordeiro todos os
dias, Sr. Galagher, – ela disse provocativa.
― Então você acha que eu sou um esnobe comedor de carneiro? – Respondi
fingindo-me de ofendido.
― Acho que você reveza entre vitelo e faisão, de vez em quando. –
Continuou fingindo seriedade.
― Pois você está enganada, Srta. Soares. Eu posso comer esse sanduíche
horroroso se for preciso.
Ela empurrou o que restou do sanduíche em minha direção. Um brilho
divertido em seus olhos. Empurrei de volta.
― Se for preciso, anjo, – eu disse – e não é.
Capítulo 9

Laura
Acordei atrasada. O que estava mais rotineiro do que eu julgava bom
para minha reputação. Corpo cansado, dolorido, marcado. Estiquei os braços
para cima e me alonguei. Sorri.
Laura, Laura, então você realmente fez isso! ― Disse mentalmente. –
Sexo selvagem, no sofá, com seu cliente. O que o pobre Hans diria disso? –
Sorri novamente.
Pulei da cama assim que tocaram minha campainha. Vesti um roupão e
corri para a porta.
― Srta. Soares. – O motorista me cumprimentou. Correu os olhos por mim e
sorriu sem jeito. – Não se preocupe. Leve o tempo que precisar. Sr. Galagher
me deixou à sua disposição esta manhã.
Sorri de volta, alisando a bagunça que era o meu cabelo dentro do
elástico e coçando os olhos. Bocejei. Pobre homem! Ficaria traumatizado em
me ver de manhã!
― Hum. Obrigada, – eu disse meio sem jeito, – quer entrar? Eu prometo que
não sou dessas que demoram a vida toda para escolher uma roupa – brinquei.
Harold sorriu.
― Certamente que não senhorita, mas não se preocupe comigo. Como eu
disse leve o tempo que precisar.
Entrei. Liguei o chuveiro enquanto me livrava da camiseta do
Feyenoord. Segurei-a junto ao meu nariz, inspirando o perfume de Adrian
nela. Eu queria tanto vê-lo novamente. Queria olhar para ele e ter certeza de
que não tinha sido um sonho.
Saí do chuveiro e escovei o dente. Deixei meu cabelo solto. Coloquei
um vestido azul marinho ajustado de mangas curtas. Já estávamos na
primavera. E eu me sentia assim, florida, viva, feliz.
Suspirei fundo, sentindo o medo se espalhar. Felicidade não costumava
ser uma coisa constante na minha vida. Em geral, ela vinha acompanhada de
coisas muito, muito ruins. Passei o batom vermelho e mandei um beijinho
para o espelho, afastando os pensamentos ruins.
Saí vinte minutos depois. Harold estava encostado na lateral do
Mercedes, olhos fechados, braços cruzados sobre o peito. Limpei a garganta
para chamar sua atenção.
Ele sorriu. Abriu a porta de trás para mim e eu me sentei – eu poderia
me acostumar com isso!
Chegamos a Roterdã algum tempo depois.
Desci do carro, e assim que passei pela recepção, dei de cara com Alex.
― Laura! – Ele disse abrindo os braços para mim. – Está linda, como sempre,
mas seu sorriso parece melhor. Espero que divida comigo esta felicidade
toda!
Sorri mais e revirei os olhos – não, eu não poderia.
― Efeito primavera, – eu disse – sabe como é, garota tropical, primavera. –
Movi meus dedos, fazendo a ligação.
Alex sorriu também.
― Entendo. Entendo. – Ele disse debochando de mim.
Alex me abraçou, beijando meu rosto suavemente e eu retribui.
― Ah e só para que saiba – ele me disse voltando para sua sala – nosso
amado chefinho está com o humor interessantíssimo hoje.
Devo ter corado sem querer, porque minhas bochechas queimaram no
mesmo instante.
― Deve ser esse “efeito primavera” – ele disse imitando as aspas com os
dedos. – Pelo jeito não são apenas as garotas tropicais que são atingidas.
Peguei o elevador sorrindo. Cheguei ao andar de Adrian e me
recompus, esperando encontrar Karol. Ela não estava na recepção. A porta
estava entreaberta, então entrei.
Senti meu sorriso murchar no mesmo instante – Adrian estava lá,
encostado na mesa. Suas mãos sobre a barriga de Alissa. – Deus eu podia
odiar mais essa garota? Podia!
Alissa sorria, fazendo beicinho para Adrian.
― Louise está voluntariosa hoje, Adrian. Não quer se mexer.
Estreitei meus olhos. Louise eu não sei, mas eu queria. Queria me
mexer e queria mexer especificamente a minha mão na cara dela.
Adrian me viu no instante seguinte. As mãos escorregando
desajeitadas da barriga de Alissa. Ele parecia sem jeito.
― Perdoe-me Sr. Galagher, não achei que estivesse com alguém.
Virei as costas para sair, porque se eu ficasse ali não iria me controlar o
suficiente.
― Não se preocupe, – a voz enjoada de Alissa me fez parar, – eu não
pensava em demorar. Estava apenas esperando meu noivo fujão.
Se eu fosse ele, fugiria também. Pensei.
― Acredita que ele marcou comigo aqui para almoçar e saiu? – Ela
continuou em uma tentativa frustrada de me fazer sorri. Não conseguiu. –
Então eu decidi fazer uma horinha aqui com Adrian.
Eu queria vomitar. Todo o meu pão com filé da noite anterior se agitava
aqui dentro.
Sorri sem vontade, estreitando meus olhos para ela perceber que era
forçado.
― Imagino que esteja ansiosa por encontrá-lo. – Fiz uma pausa e encarei
Adrian. – Sabe o que é estranho? Acabei de encontrar Alex a caminho da sala
dele.
Adrian pigarreou. Alisou o cabelo com as mãos. Encarando-me.
― Ele deve ter acabado de chegar. – Adrian justificou.
― Ah sim, provavelmente. – Alissa completou. – Adrian querido, me
acompanha até lá?
Eu estava ali, parada, analisando em quantos artigos do código penal eu
poderia ser enquadrada, caso jogasse Alissa pela janela. O mesmo sorriso
forçado curvando dolorosamente minha boca.
― Claro! – Ele disse depois de me encarar novamente.
Alissa se pendurou em seu braço. Ele não se negou, mas não parecia a
pessoa mais satisfeita do mundo. E ela parecia não se importar. Ela parou
assim que chegou até mim, tocando meu braço nu com a sua mão fria. Eu
quase recuei, mas me mantive firme.
― Não se importa se eu roubar Adrian um minutinho, não é Laura?
Alarguei meu sorriso falso, tocando a mão dela com a minha, desejando
ter algum poder como o da Vampira dos X Men.
― O Sr. Galagher não me deve nenhum tipo de satisfação, Alissa, não se
preocupe! – Eu disse encarando mais a ele que ela. – Além disso, eu
realmente tenho trabalho à minha espera.
Puxei a cadeira, sentei, analisei a mesa que Adrian havia indicado como
minha outro dia. Meu dia havia passado de ótimo a terrível em uma fração de
segundos, mas eu não permitiria que Alissa, a madrasta má, me pegasse em
sua teiazinha de manipulações. Eu era maior que isso. Não era?
Alguns minutos mais tarde a porta se abriu. Adrian entrou sem me
olhar, uma onda pesada e estranha de energia ondulando entre nós.
― Alex havia saído para resolver um problema no fórum para a empresa –
ele disse sem que eu perguntasse nada.
― Ok – limitei-me a dizer, analisando a tela do notebook.
― Eu e Alissa nos conhecemos desde a adolescência – ele continuou.
Alissa. Alissa. Alissa. Era tudo que minha mente conseguia processar.
Eu não estava pensando claramente, então não queria continuar com o
assunto.
― Ok – disse novamente.
Ele tirou os óculos e o colocou sobre a mesa. Esfregou o rosto com as
mãos.
― Vai me dizer algo além de “ok”?
― Meu passaporte não estará pronto até a semana que vem, então imagino
que o senhor terá que ir ao Brasil sem mim – eu disse erguendo os olhos por
trás do monitor.
Ele não podia reclamar, era algo além de “ok”.
― O que você espera Laura? – Ele disse irritado. – Eu disse! Conheço Alissa
há muito tempo. O que acha que eu deveria ter feito?
Analisei a situação por um instante – ele estava irritado. Se ele estava
irritado, significava que minha raiva o incomodava e se minha raiva o
incomodava – não pude concluir.
― Espera que eu mude tudo em minha vida porque nós dois fizemos sexo?
Soco no estômago. Direto. Em cheio. Bem na boca do meu estômago.
Levantei. Bati a mão na mesa, mais forte do que gostaria.
― Não senhor, Sr. Galagher. Se existe algo que eu aprendi foi a não esperar
o que quer que seja de pessoa alguma! – Eu estava irritada. O sangue
pulsando em minhas têmporas novamente, o que significava que eu não
estava falando exatamente baixo.
― Você está sendo infantil! – Ele pontuou.
― E você está sendo o mesmo babaca arrogante de sempre. Ah não, espera,
você nunca deixa de ser!
Ótimo! Agora estávamos os dois gritando. Pronto! Tudo certo agora.
― Vê Laura? – Ele me perguntou. – É isso que acontece quando as pessoas
não se controlam! É por isso que eu disse que precisávamos manter o foco do
nosso relacionamento em nosso trabalho ― juntos.
Outro soco, na boca desta vez. Eu podia sentir o sangue imaginário
escorrendo. Eu queria revidar. Queria fazer Adrian sofrer.
― Até onde eu me lembro Sr. Galagher, eu não fui até sua casa ontem à
noite.
Wow! Ponto para mim! – Ele estava ali, parado, analisando o que
responder. Seus olhos se estreitaram de um jeito triste. Ele se virou para a
janela e eu comecei a sentir que meu golpe tinha atingido tanto ele quanto a
mim. Doía.
― Você tem razão – ele começou.
Oh meu Deus! Eu odeio ter razão! – Geralmente quando eu tenho razão
eu acabo mais infeliz do que se não tivesse.
― Eu não deveria ter ido até lá. E mesmo que fosse eu deveria ter mantido o
controle. – Ele se virou devagar, mas seus olhos estavam baixos, não estavam
nos meus. – Eu fui impulsivo e fui leviano. Eu não deveria tê-la tratado
daquela maneira. – Não era exatamente esse o problema, mas deixei que ele
continuasse. – Quero que saiba que eu não costumo agir assim Laura. Pode
ficar tranquila. Eu não costumo me envolver com alguém sem proteção.
Engoli em seco, sentindo a realidade bater contra mim como um saco,
cheio de chumbo. Não era de nós que ele falava, era do sexo. Puro e simples.
Sexo.
― Também não faço isso, Adrian. Não se preocupe. – Respondi tentando
parecer a menos afetada possível.
Tirei meus óculos e pisquei algumas vezes, tentando afastar a sensação
ruim, puxando as lágrimas para dentro com meu nariz.
― Imagino que você tome pílula anticoncepcional – ele perguntou sem me
encarar.
Soltei o ar dos pulmões em uma baforada só.
― Como eu disse Sr. Galagher, não tem com que se preocupar.
Cocei meu braço. Meu queixo. Minha nuca. Esse era um assunto
desconfortável que certamente nos levaria a lugares que eu não queria ir.
Queria correr. Queria passar pela porta e correr de volta para a minha casa o
mais rápido que eu pudesse. Queria me enfiar debaixo do meu edredom e
fechar os olhos e fingir que estava tudo bem, mas meus pés pareciam feitos
de cimento.
Ele caminhou mais para perto de mim. Parou em frente à mesa. Olhos
buscando os meus. Adrian também não era a pessoa mais confortável do
mundo.
― Laura. Eu espero que você entenda que eu não pretendo ter mais filhos. Eu
já tenho problemas demais. Não preciso meter outra criança no meio disso
tudo.
Eu simplesmente não podia responder. Minha mandíbula parecia
travada. Minhas mãos tão apertadas que os nós dos dedos estavam brancos.
Eu nunca mais havia falado sobre isso. Eu não havia contado a ninguém.
Ninguém além de Hans sabia do passado. Adrian continuou.
― Se você quiser. Eu posso providenciar uma pílula emergencial. Dessa
maneira nós ficaríamos mais tranquilos.
Eu sentia que meu corpo não era mais meu. Perdido nas memórias do
passado, voando para longe. Eu não sentia nada até que Adrian me tocou. Ele
segurou minhas mãos cerradas em punho entre as dele.
― Laura? – Ele chamou, mas eu não estava mais lá. – Laura?
E então meus pés não eram mais de cimento e eu corri. Puxei minhas
mãos do seu toque e corri. Eu não olhei para trás, não me importei. Eu apenas
ouvi os gritos de Adrian ficando mais e mais fracos enquanto eu descia pelas
escadas de emergência.

Adrian
Eu estava ali, parado, gritando o nome dela, enquanto ela se afastava
cada vez mais. Levei um segundo para perceber que algo não estava certo.
Laura não era assim. Ela não era do tipo que corre das situações. Havia algo
de errado com ela. Algo que eu disse a havia magoado. Não pensei mais.
Apenas senti. Senti que precisava fazer algo. Laura havia levado uma parte
do meu coração com ela, despedaçado e culpado.
Passei pela porta e apertei o botão do elevador sem parar.
― Merda – xinguei.
― A Srta. Soares desceu pela escada, Sr. Galagher – Karol me disse.
Não respondi. Eu apenas corri pelas escadas amaldiçoando meu terno
justo de corte italiano. Poderia correr muito mais rápido de jeans e tênis.
Fui segurando no corrimão e impulsionando meu corpo para baixo por
mais de um degrau de cada vez, na esperança de encontrá-la ainda dentro do
prédio, mas não a encontrei.
Deus essa garota teria que me dizer como corria tão rápido assim de
saltos!
E então eu descobri como. Seus sapatos estavam ali, entre o sexto e o
sétimo andares, provavelmente porque ela queria ser mais rápida que eu.
Peguei os sapatos na mão e continuei.
Saí do prédio para o Kaappark, procurando entre as pessoas por ela. Ela
estava lá, à beira da costeira, do outro lado do parque. De costas para mim.
Os pés descalços no chão. Os cabelos chicoteando com o vento frio do mar.
Abraçando os próprios ombros. Eu não sabia se era de frio, mas eu sabia que
queria estar lá. Abraçá-la. Protegê-la. Corri até ela.
― Até onde eu me lembro Cinderela só deixou um sapatinho – eu disse, na
tentativa de que ela pudesse me perdoar.
Ela não se virou, mas deixou os braços caírem um pouco mais, soltando
os ombros, abrindo a guarda.
― Talvez porque Cinderela tivesse uma carruagem à sua espera – ela disse e
eu sorri.
Tirei meu blazer e o coloquei sobre os ombros dela, puxando seu corpo
para o meu, sentindo suas costas contra o meu peito, deixando meu rosto na
curva do seu pescoço.
― Você quer uma carruagem, baby? – Sussurrei. – Eu consigo uma para
você.
Ela não respondeu, mas eu senti seu corpo um pouco mais relaxado.
Apertei-a mais forte e então eu senti a gota quente cair dos seus olhos na
minha mão.
Virei-a de frente para mim. Seu rosto era triste, perdido. Não era minha
Laura cheia de vida e impulsiva. Ela estava quebrada, debruçada sobre mim,
completamente vulnerável.
Senti uma onda de desespero tomar conta de mim. Eu não era bom
em lidar com o sofrimento das pessoas que amava. Eu sabia lidar com o meu
sofrimento, mas com o sofrimento dos outros... Não, eu não era bom.
Eu amava Laura? O pensamento me golpeou e eu o afastei tão rápido
quanto pude. Eu não amava Laura. Era ridículo. Estava envolvido. Era isso.
Segurei seu rosto entre minhas mãos, limpando suas lágrimas com os
meus polegares, encarando os olhos castanhos dela ganharem um tom de
caramelo com as luzes do sol. Deus eu estava perdido!
― Ah baby, diga-me como eu posso fazer você sorrir de novo? – Perguntei
desesperado por uma resposta.
Os olhos dela se fecharam, deixando mais algumas lágrimas caírem.
― Você quer um bebê, Laura? – Perguntei sem ter certeza se queria uma
resposta.
― Quero! – Ela respondeu no mesmo instante.
― Baby, acredite isso é tão complicado – tentei justificar, mas ela me cortou.
― Mas eu não posso! – Ela completou e se jogou sobre mim.
Eu podia sentir seu corpo tremendo, as lágrimas molhando minha
camisa. Eu não sabia o que dizer. Não sabia como dizer. Cenas dos meus
filhos correndo perdidas em minha mente. Filhos. Era isso. Ela não os podia
ter.
Meu coração estava apertado, dolorido, pequeno. Eu era estúpido
demais. Eu provavelmente havia mexido em memórias ruins. Cego, certo de
que o mundo girava em torno do meu próprio umbigo.
― Desculpe anjo. Eu não fazia ideia.
― Eu fiz uma bobagem Adrian, – ela choramingou – eu fui inconsequente.
Eu... – As palavras morriam entre o choro.
Eu queria impedir que ela sofresse, mas sabia por experiência que pôr
para fora era o melhor tratamento. Deixei que ela continuasse.
― Eu era jovem e era estúpida. Mas não pense que eu tirei! – Ela se
justificou. – Eu não faria isso. Eu queria. Eu queria muito. Mas... – Ela
deixou a cabeça cair sobre mim novamente.
Eu a apertei entre os meus braços e beijei o topo da sua cabeça.
― Vem baby, vamos sair desse vento e então você me conta tudo o que
quiser ok?
Ela assentiu.
― Vamos pegar o carro e vamos sair daqui. Eu vou cuidar de você.
Levei Laura comigo. Debaixo do meu braço. Protegida, como ela
deveria estar. Abri a porta do Porsche. E a coloquei ali. Girei a chave e saí.
Estávamos na estrada quando ela suspirou. Ajeitou o cabelo, secou os
olhos e me encarou.
― Desculpe por isso. Eu realmente não queria. – Ela parou a frase sem saber
como continuar. – Eu agi como uma criança mimada. Você nunca poderia
saber.
Coloquei minha mão sobre sua perna. Laura não era uma criança
mimada. Eu era, na maioria das vezes, ela não. Ela era forte e era decidida e
doce e suave ao mesmo tempo. Ela sabia reconhecer que estava errada e ela
fazia isso parecer tão certo.
― Não baby. Você só deixou a emoção vencer. Isso não faz você fraca, faz
você humana.
Ela abraçou meu braço, recostando o rosto sobre meu ombro.
― Para onde estamos indo Adrian?
― Eu vou cuidar de você.
Eu disse tateando seu rosto com a ponta dos meus dedos.
― Além disso, – completei para quebrar o gelo – eu preciso me trocar. Com
essa são três camisas que a senhorita mancha com algum líquido estranho.
Ela sorriu e eu relaxei.
― Isso não é um líquido estranho, são lágrimas!
― Tanto pior – brinquei – além de sujo corro o risco de uma contaminação
por material biológico.
― Bobo! – Ela disse sorrindo.
Estacionei em frente à casa e desci. Abri a porta e estendi a mão. Laura
correu os olhos pela fachada da casa.
― Vem baby.
Entrei com ela e dispensei os empregados. Eu não queria ninguém em
casa além de Laura e eu. Queria que ela se sentisse à vontade.
Subi até o meu quarto, segurando-a pela mão. Acendi a lareira porque o
vento frio do mar esfriava um pouco o ar lá dentro.
Tirei minha gravata e abri os botões da camisa. Deixei-a sobre a
poltrona. Fui até o banheiro e deixei a banheira enchendo.
― Toma banho comigo? – Sussurrei no ouvido dela.
Aproximei meu rosto do dela e a beijei. Suave, gentil. Eu queria sentir
o sabor de Laura. Aproveitar nosso tempo juntos e eu não tinha pressa para
isso. Abri o zíper do seu vestido e o deixei cair no piso. Livrei-me da minha
calça e do seu sutiã sem cortar o contato das nossas bocas. Apertei seu corpo
contra o meu.
― Anjo, – comecei – você pode ou não me contar o que você quiser. Quero
que saiba que eu estou aqui para ouvir você, mas que não me importo com o
que quer que seja que tenha acontecido. Eu só me importo com você agora. O
que quer que seja que você tenha vivido contribuiu para que você se tornasse
esta mulher, e é isso que importa.
― Ah Adrian, – ela disse e enlaçou as mãos em meu pescoço – não sei se
estou preparada para um príncipe encantado.
Eu sorri e mordi seu lábio, carregando-a até o banheiro.
― Melhor assim – constatei – não estou disposto a me tornar um a essa altura
da vida.
Por mais que meu corpo estivesse excitado – e ele estava – eu não
queria sexo. Eu queria Laura. Entrei na banheira de boxer, sentei, e puxei
Laura para o meu colo. Ela ficou ali, encostada no meu corpo, costas contra
meu peito, respirando devagar.
― Tudo aconteceu muito tempo atrás. – Ela começou e eu a apertei contra
mim, passando os braços em volta dela. – Eu tinha acabado de chegar à
Holanda. Como disse, eu era jovem e idiota. – Ela suspirou. – Eu o conheci
em um bar. Ele era gentil e educado. Tinha aquele maldito sotaque britânico.
Bem, eu fiquei grávida.
Ela parou aí. Suspirando devagar, sem dizer mais nada. Eu não sabia
mais se queria ouvir a história toda.
― Acho que não vou surpreendê-lo se eu disser que ele era um idiota.
― Todos nós fizemos besteira baby, você não é a primeira e não será a
última. – Sorri um pouquinho contra os seus cabelos.
― Até aí tudo bem, eu seria apenas mais uma garota burra que teve um filho
com um idiota, mas não foi só isso Adrian. Evan era violento. Eu achava que
ele melhoraria com o tempo, mas as coisas não foram bem assim. Eu estava
grávida de pouco mais de quatro meses quando voltei para o apartamento que
morávamos mais cedo. Eu o peguei com uma garota lá.
Traição. Eu sabia o quanto doía. Eu sabia exatamente. Puxei seu cabelo
de lado e beijei seu rosto.
― Ah Laura, sinto muito.
― E foi aí que eu fui inconsequente. Deveria ter pensado no meu filho, mas
eu não pensei. Fui para cima dele. Bati nele, eu chutei, eu gritei e então ele
me empurrou da escada.
Eu não sabia quem era Evan, mas se o encontrasse eu provavelmente o
quebraria em dois, com as minhas mãos.
― Baby eu nem podia imaginar.
― Acordei em um hospital. Meu bebê não estava mais lá. Eu havia sofrido
um grave dano em um dos ovários e ele foi retirado. Como resultado do
procedimento, eu fiquei com uma cicatriz na parede do meu útero. Ela torna
uma futura gravidez praticamente nula. Os médicos não me deram
esperanças. Nem mesmo com um procedimento clínico.
Eu a virei para mim, de joelhos, entre as minhas pernas. Segurei seu
rosto entre as minhas mãos e beijei sua boca cuidadosamente.
― Laura você é tão incrível, – eu disse por que era verdade – não deve se
culpar. Foi uma fatalidade. Acredite, – eu disse e suspirei – eu entendo de
fatalidades. E de culpa, principalmente.
Respirei profundamente, deixando meus próprios pesares irem para
longe.
― Se tiver algo que eu possa fazer? – Perguntei.
Ela me beijou, passando a língua pela minha, mordendo meu lábio.
Ajeitou as pernas de cada um dos lados da minha cintura. Eu a puxei para
mim, mais forte, ajeitando seu corpo no meu. Eu queria qualquer coisa que
ela quisesse.
― Quer fazer algo por mim Adrian? – Ela perguntou e eu assenti. – Então me
faça esquecer.
Capítulo 10

Laura
Eram quase cinco da tarde, quando eu finalmente tomei consciência de
que estava acordada, olhos ainda fechados. Eu estava enrolada em lençóis
macios de algodão egípcio. Caros, muito caros. Virei de lado e gemi. Deus!
Eles valiam cada centavo!
Espreguicei-me preguiçosamente. Tateei o espaço ao meu lado, em
busca de Adrian, mas ele não estava.
Abri os olhos e busquei por ele no quarto. A cortina estava fechada. A
luz no quarto era fraca e avermelhada com o pôr do sol. Adrian estava
sentado em uma poltrona de couro ao lado da lareira. Usava uma calça de
elástico e nada mais. Seu peito nu mostrava todos os desenhos, toda a sua
masculinidade, íntegra, elegante e ao mesmo tempo perigosa, instigante.
Parei meus olhos nele. Analisando sua figura. Perna direita flexionada sobre a
esquerda, cotovelos apoiados nos joelhos. Mãos segurando o caderno de
investimentos. Ele me encarava com uma estranha calma que não era
costumeira. Sorri.
― Hey – eu disse e me sentei sobre a cama.
― Bom dia flor do dia – ele me disse com uma sombra de sorriso em seu
olhar.
Levantei, enrolei-me no lençol e caminhei até ele. Tirei o jornal das
suas mãos e os óculos do seu rosto e os coloquei sobre a mesinha. Sentei em
seu colo.
― Eu sempre digo isso à Hanna – ele me disse enquanto eu ajeitava meu
rosto na curva do seu pescoço.
― Bom dia flor do dia? – Perguntei
― Sim, – ele me respondeu – quando eu a acordava pela manhã.
― Você sente falta deles – constatei.
Ele pensou por um instante. Beijou minha testa.
― Desculpe. Eu não queria fazer você se lembrar – eu o interrompi.
Beijei a linha de barba em seu rosto, desde a mandíbula até a boca.
Parei ali. Beijei novamente, prendendo seu lábio entre os meus. Sorri.
― Não fico triste quando você fala dos seus filhos. Na verdade, crianças me
deixam feliz, Adrian, não o contrário. Eu seria uma pessoa péssima se me
sentisse mal por saber que você ama os seus filhos.
Eu não estava mentindo. Crianças me deixavam feliz. Eu gostava de
crianças e se eu nunca pudesse ter as minhas, eu ainda seria feliz. Essa era a
parte superada de tudo que aconteceu. Eu via a relação de Adrian com os
filhos por outro ângulo. Pensava no quanto queria ter meu pai ao meu lado.
Achava linda a maneira como ele parecia protetor e vulnerável ao mesmo
tempo. Estava ansiosa por conhecê-los.
Ele tocou meu rosto, encarando meus olhos sem dizer nada. Olhar
sério, profundo, eu não queria que ele dissesse nada, só queria que ele
continuasse perdido em mim, fazendo-me sentir aquela onda de calor se
espalhando por dentro, como se meu coração estivesse estourando de tanta
felicidade.
Adrian desceu a mão pela curva da minha mandíbula, traçando o osso
da minha clavícula, parando com a mão em concha sobre os meus seios.
Beijou-me profundamente, sua língua se enroscando na minha. Virou-me de
frente para ele, nua, montada sobre sua cintura. Sua mão na parte baixa da
minha coluna, segurando-me firme. A outra, traçando círculos com os
polegares sobre os meus seios.
― Em geral, Laura – ele disse contra a minha boca – eu gosto das coisas um
pouco mais duras.
Gemi, sentindo sua excitação aumentar, apertando-me contra ele.
― Mas você tem me feito mudar alguns conceitos. – Ele deslizou a mão das
minhas costas para baixo e apertou forte a carne da minha bunda. – Mas só
alguns.
― Eu quero como você quiser – eu sussurrei acariciando a sua nuca.
Eu queria qualquer coisa que Adrian quisesse me dar. Queria me afogar
nele, jogar-me do precipício e encarar a queda. Eu não me importava mais.
― Eu sou uma pessoa difícil Laura– ele me disse.
― Pois é, – eu disse, – percebi alguns lampejos disso.
― Eu não sei até onde estou preparado para ir.
Pensei em tudo que Alex tinha me dito sobre o casamento de Adrian.
Pensei na traição, na doença da esposa. Eu tinha meus próprios problemas.
Não sabia até onde estava preparada para ir também. Suspirei fundo, sentindo
como meu corpo se encaixava ao dele, tão fácil, tão certo, tão bom.
― Então não vamos traçar um caminho.
Desci minhas mãos por seu peito nu, sentindo o contorno dos músculos,
ouvindo-o ofegar. Baixei um pouco a sua calça e o encaixei para que pudesse
me penetrar. Ele abaixou meu quadril de uma vez, arrancando um gemido do
fundo da minha garganta. Adrian gemeu também.
Cruzei minhas mãos atrás do seu pescoço, deixando que ele me
apertasse contra ele, forte, profundo. Eu podia sentir a ardência da pele dele
roçando contra a minha, mas isso só me fazia querer mais.
Adrian mordeu meu lábio e desceu pela minha mandíbula, até meu
pescoço. Lambeu em volta do meu mamilo e sugou para dentro, dando uma
mordida suave.
― Deus Adrian! – Gemi contra sua orelha.
― O que anjo? – Ele provocou. – Gosta quando eu faço isso? – Ele disse e
mordeu novamente.
― Sim – gemi.
― E isso, você gosta? – Ele disse colocando os pés sobre a mesinha,
mudando o ângulo da penetração e atingindo alguma parte muito, muito
sensível dentro de mim, fazendo-me arquear de prazer.
Minha pele estava arrepiada, sensível, qualquer parte minha que Adrian
tocasse agora, qualquer sombra de toque, fazia-me gemer e me contorcer,
buscando mais.
― Isso Laura! – Ele me encorajou. – Se entregue a mim. Assim baby. Assim.
E então eu me acabei, explodindo em pequenos pedaços de êxtase sobre
o corpo de Adrian, ouvindo meus gemidos aumentar a intensidade, sentindo o
seu corpo pulsar dentro de mim. Deus! Eu não fazia ideia de que sexo
poderia ser isso. Juro!
Deixei minha cabeça cair contra o peito de Adrian, suada, ofegante,
cansada. Suspirei.
― Preciso levá-la para a sua casa, Srta. Soares.
Senti meu coração murchar um pouquinho. Eu pensava ― idiota como
era -, que poderia dormir com ele. Fiquei em silêncio, curtindo o que me
restava do momento. Ele podia pelo menos, ter a decência de esperar que eu
me recuperasse!
― A senhorita precisa fazer sua mala. Nosso voo parte amanhã ao entardecer.
Estudei os olhos de Adrian sem entender.
― Voo? – Confirmei.
― Sim. Para o Brasil. Lembra-se?
― Adrian, – comecei – não sei se você ouviu mais cedo, quando disse a
você. Eu estou com problemas com o meu passaporte.
Eu queria socar a minha própria cara burra por ter deixado o maldito
passaporte vencer sem me preocupar em renová-lo. Eu era idiota. Burra e
idiota. E agora, eu pagaria o maldito preço.
― Sim, Srta. Soares, eu ouvi. Não sei se a senhorita se recorda, mas eu tenho
em meu time um excelente advogado. Muito competente o Dr. Persen.
Sorri. Minha boca se alargando sem que eu conseguisse impedir. Eu
ainda não sabia se queria ir ao Brasil, mas apenas o pensamento de estar
sozinha com Adrian do outro lado do oceano já me deixava excitada. Ele
continuou.
― O Dr. Persen regularizou sua situação e providenciou toda a
documentação necessária para que possamos embarcar amanhã.
Adrian sorriu. Acariciou meu rosto. Beijou minha testa, e então o
sorriso murchou em seu rosto.
― Preciso que você esteja lá, Laura! – Ele me disse. – Você me faz ser
mais... – ele parou, provavelmente procurando pela palavra certa. Eu podia
pensar em maluco, ou mentalmente desequilibrado, mas fiquei calada –
flexível. Você me faz ser mais flexível e acredite ― flexibilidade não é uma
das minhas qualidades.
Eu sorri. Saber que ele não só queria como achava precisar da minha
presença deixava a viagem bem mais interessante. Levantei e caminhei até o
banheiro. Adrian veio logo em seguida. Abriu a ducha e se livrou das calças
de elástico. Deus ele era ainda melhor sem nada.
Só percebi que estava encarando, quando Adrian falou.
― Cada vez que você me olha assim, com essa ruguinha na testa, eu fico
pensando se você gosta ou não do que vê.
Sorri.
― Ah eu gosto! – Disse rápido demais e então corei de vergonha. – Quer
dizer. Eu acho. Você. Bem...
Adrian me puxou para dentro do Box de vidro e me beijou.
Saí do banho e vesti minha roupa. Eu precisava mesmo ir para minha
casa. Precisava pensar no que fazer com Mia e arrumar as malas.
Adrian vestiu um jeans desgastado e uma camiseta preta. Calçou
tênis e penteou o cabelo para trás. Ele parecia tão jovem e relaxado daquele
jeito. Eu gostava do poderoso Sr. Galagher, o chefe durão e sexy, mas aquele
Adrian à minha frente era mais real, mais sincero. Eu sentia que ele era um
pouco meu. Nem que fosse só um pouquinho e isso me deixava em um misto
de felicidade e medo.
― Vamos? – Ele me disse colocando uma jaqueta de couro por cima da
camiseta.

Adrian
Entramos no Porsche e eu peguei a estrada. Laura estava ao meu lado.
Olhos fechados. Os braços cruzados sobre o encosto do banco, pernas
relaxadas. Eu gostava de vê-la assim. Ela me inspirava a relaxar.
Ela abriu os olhos e encarou a estrada.
― Para onde estamos indo?
― Vou alimentar você anjo, – eu disse – não quero que me acusem de matá-
la de inanição depois de tanto sexo.
Ela corou. E depois sorriu sem mostrar os dentes. Um leve sorriso sexy
que fazia o espaço em meu jeans diminuir consideravelmente.
Dirigi pela cidade. Eu sabia que Laura não fazia ideia de onde
estávamos. Eu estava procurando por um lugar especifico. Queria mostrar a
ela que ela não fazia ideia de quem eu era. Que o que ela achava que
conhecia era apenas a ponta do iceberg.
Estacionei e desci. Laura ficou ali, tentando entender. Encarando a
placa do “Fat Louie’s”.
― Vamos Srta. Soares? – Disse abrindo a porta.
Ela me encarou. Pensou. E encarou o lugar mais uma vez.
― Sério?
Eu quase sorri, mas não faria isso. Mantive meus olhos fixos nos dela.
Sobrancelhas baixas, boca reta, lisa, sem expressão.
― Eu me lembro de ter sido acusado de ser esnobe e elitista. – Comecei. –
Bem, decidi mostrar-lhe que está errada. Não gosto que me definam com
estereótipos fracos, Srta. Soares.
Ela sorriu, eu não. Puxei-a para fora do carro e a levei para dentro do
lugar. Tudo continuava como eu me lembrava. Fazia o quê? Vinte anos?
Talvez mais. Mas o fato é que Louie não tinha nem mesmo trocado os
estofados das banquetas. Meu interior sorria, mas meu exterior permanecia
encarando a reação desconcertada de Laura.
Bati minha mão sobre a banqueta ao meu lado. Laura tentou sentar e se
desequilibrou um pouco, puxando o vestido para baixo para cobrir melhor as
pernas.
― Eu quero dois completos, por favor – eu disse para a atendente.
O “completo” consistia em um prato de papelão com um lanche feito
com pão, uma salsicha enrolada em bacon e frita, repolho em conserva e
muito, muito queijo cheddar derretido, circundado por uma porção generosa
de batata frita engordurada e coberta por maionese caseira.
A garçonete colocou os pratos sobre o balcão.
― Duas cervejas, por favor! – Completei.
Laura encarou o prato por alguns instantes.
― E então você decidiu, que por minha definição fraca sobre você, eu
deveria consumir toda a minha cota de gordura da vida de uma única vez.
Peguei meu sanduíche e dei a primeira mordida, mastigando com a
boca cheia. Bebi um gole de cerveja para ajudar a descer, como tinha que ser.
― Vamos Srta. Soares mostre como as pessoas não elitistas comem cachorro
quente – provoquei.
Ela estreitou os olhos para mim. Pegou o lanche na mão e deu uma bela
mordida, deixando o queijo sujar o canto da boca. Esperei pacientemente.
― Oh meu Deus Adrian! – Ela gemeu. – Isto é... Isto é... Oh meu Deus!
Sorri. Agora ela começava a entender o meu ponto.
Laura não largou o lanche nem um segundo, pelo curto espaço de
tempo em que ele existiu em suas mãos. Depois pegou a cerveja e bebeu até a
metade sem parar para respirar.
Fiquei olhando a garota ali, sentada na banqueta da lanchonete, com
seu vestido elegante, pernas cruzadas e salto alto. Encarando-a beber cerveja,
direto da garrafa, e sujar as mãos de maionese e pensei onde ela esteve
enquanto eu enchia a minha vida de merdas.
Adrian, Adrian, como você se deixou pegar pela recém― formada!
Você não tem mais idade para isso. Você deveria sentar-se em sua cadeira de
couro e esperar pelos seus netos. Sorri do meu próprio comentário. Eu
realmente esperava que John não seguisse meu exemplo.
Estiquei a mão e limpei o que tinha de molho no canto da boca de
Laura, meus olhos mais profundos do que eu gostaria. Ela sorriu, meio sem
jeito.
― Vamos? – Disse antes que me perdesse para sempre.
Deixei Laura em Amsterdã no início da noite. Ela precisava descansar e
precisava resolver o que quer que fosse antes da nossa viagem e eu precisava
colocar minha cabeça no lugar.
Peguei o celular e disquei. Apertei o botão de viva voz enquanto dirigia
de volta para casa. Alex atendeu no terceiro toque.
― Diga que eu não estou fazendo merda novamente – eu disse.
Alex sorriu e me fez sorrir também.
― Você não está fazendo merda novamente, mas, – ele enfatizou – acho que
precisa de uma dose dupla de uísque com o seu grande e sexy melhor amigo.
― Alexander, apenas este comentário seria capaz de me fazer não querer
encontrá-lo nunca mais.
Alex soltou uma pequena gargalhada.
― Vejo você no Jack’s.
Entreguei a chave do carro ao manobrista e entrei no bar. O Jack’s era o
lugar que Alex e eu havíamos elegido como nosso ponto de encontro. Era
nosso pequeno refúgio, um lugar em que não levávamos garota alguma,
nunca.
Meu telefone tocou.
― Sr. Galagher? – Ouvi a voz do outro lado da linha.
― Não para você – brinquei.
― Vovó disse que você vem nos ver.
John tentava parecer frio, sem emoção, mas eu podia sentir sua voz
ondulando contra o telefone. Eu sabia que meu filho estava cansado disso
tudo. Ele não deveria ter que passar por isso, não deveria ter que se preocupar
com os irmãos. De qualquer maneira, era a primeira vez em mais de três
meses que ele me ligava então eu sorri.
― Sim filho. – Respondi. – Eu vou.
Ele ficou em silêncio. Eu podia jurar que era um silêncio bom.
― Então eu posso contar aos pirralhos?
Sorri novamente.
― Pode sim. Diga que chego depois de amanhã, perto da hora do almoço.
Vou ligar para a sua avó e tentar levá-los para almoçar.
Ele não respondeu por um tempo. Ficou calado, pensando. Eu queria
saber o que ele pensava tanto. Queria entender mais dos silêncios de John.
― Pai? – Ele disse de repente. – Posso pedir uma coisa?
Pai! A palavra me golpeou forte, fazendo meu coração diminuir.
Faltava tão pouco e parecia uma eternidade.
― Claro filho, o que quiser.
― Traz a minha guitarra?
Pensei por um instante. – Garoto petulante! Eu oferecendo o mundo e
ele pensando na guitarra velha!
― Eu levo John. Não se preocupe.
― Hum. Ligação do filho rebelde número um? – Alex disse atrás de mim. –
O mundo está mesmo de ponta cabeça. Adrian Van Galagher apaixonado,
John Albert Van Galagher sentindo falta do colo do pai. – Ele brincou. –
Santo Deus! Quando dizem que o amor está no ar na primavera, eles não
estão brincando.
Desliguei o celular e o coloquei no bolso.
― Não seja idiota, – eu disse dando uma golada no meu uísque – eu não
estou apaixonado.
Fugi dos olhos de Alex Persen. Ele me conhecia demais. Eu não
gostava de ser estudado. Eu sabia o que estava fazendo. Eu estava apenas
aproveitando um momento bom, com uma garota legal. Terminaríamos o
nosso negócio e Laura voltaria para a sua vida. Ela era jovem, provavelmente
ainda esperava por coisas que eu não poderia dar a ela. Eu tinha muito com
que ocupar minha mente. Tinha duas crianças e um adolescente rebelde para
tomar conta. Tinha meus negócios e tinha muitas coisas na minha cabeça. Eu
precisava ter. Especialmente agora.
Cocei a barba.
― Laura não é Patrícia, Adrian. – Ele me disse, ignorando minha tentativa de
fugir do assunto.
― Nunca pensei que fosse.
Ele serviu uma dose da garrafa em seu copo. Afastou a cadeira, cruzou
as pernas. Bebeu um gole. Deslizou a mão pelo cabelo e as cruzou atrás da
cabeça.
― Quer saber minha opinião? – Ele perguntou.
Eu não queria, mas ele diria de qualquer maneira. Esse era Alex Persen.
― Você está com medo, – ele disse – morrendo de medo.
Estreitei minhas sobrancelhas, encarando-o.
― Cuidado Persen. Muito cuidado.
― Você está morrendo de medo, como um gatinho assustado. Mostra as
garras de vez em quando, mas está louco para ser adotado. – Ele sorria
enquanto falava, imitando ter um maldito gato nos braços, ninando e fazendo
carinho. – Você quer ser um grande e gordo gato de apartamento.
Alex soltou uma risada alta e eu não pude deixar de sorrir junto.
― Se você não fosse o único imbecil que ainda atura minhas merdas eu juro
que socava a sua cara por esse comentário infeliz.
Ele ergueu o copo em um brinde.
― A dois gatos idiotas, domesticados e medrosos.
Encarei Alex por um instante. Ele não era um cara de reclamações, mas
eu podia ver algo pesar em seu rosto. Ele não estava feliz. Ele fingia que
estava. Seu senso de justiça o deixava mais suscetível a ser manipulado. Eu
odiava isso. Odiava vê-lo assim.
― Sabe que não precisa se casar com ela, não sabe? – Eu disse dando outro
gole em meu uísque.
Ele suspirou, soltando o ar dos pulmões devagar.
― Não vou abandonar minha filha como meu pai fez comigo.
― Você não vai abandonar Louise se não se casar com Alissa, Alex. Não
seja bobo, é uma situação completamente diferente.
― Você se casou com Patrícia por causa de John – ele pontuou.
― Eu me casei com Patrícia porque estava apaixonado por ela, Alex, você
sabe disso. O que aconteceu depois você também sabe. Não faça isso se não
quiser realmente. Casamentos destroem as vidas das pessoas.
― Alissa levaria Louise para longe de mim.
Pensei por um instante. Ele tinha razão. Alissa era capaz de fazer algo
assim apenas para fazê-lo sofrer. Eu conhecia o tipo dela. Eu havia sido do
mesmo tipo, tempos atrás. Mimada e infeliz, cansada dos brinquedos que
sempre teve, das festas que sempre frequentou. Procurando por algo que
nunca encontrará.
― Seria muito idiota da minha parte se confessasse a você que eu já amo
aquele pedacinho de gente sem nem mesmo tê-lo visto? – Ele me perguntou e
eu sorri.
― Não. Não seria.
― Eu não posso abrir mão dela, companheiro. Sou escravo daquela pequena
criaturazinha.
Pensei em minha Hanna. Em tê-la sobre o meu peito, descansando
tranquila depois de mamar. Meus dedos correndo em suas costinhas
delicadas. Eu precisava fazer alguma coisa. Precisava ajudá-lo.
― Não vamos permitir que Alissa tire Louise de você.
― E como iremos fazer isso, meu amigo? A lei não é tão manipulável assim.
― Talvez a lei não seja manipulável, meu amigo, – imitei seu jeito de falar –
mas ela tem seu preço. Caso seja necessário.
― O pai de Alissa não permitiria.
― Como eu disse, a lei tem seu preço. – Bebi o último gole de bebida. – E
neste país quem decide os valores sou eu.
Alex sorriu. Era um assunto delicado, mas eu queria que ele soubesse
que não precisava fazer o que eu fiz. Que não precisava entregar sua vida a
alguém que não a merecia apenas pela filha. Se o que o unia à Alissa era o
medo de perdê-la, então eu queria que ele soubesse que eu iria até o inferno,
mas colocaria Louise em seus braços.
Capítulo 11

Laura
Passei parte da manhã decidindo o que eu deveria levar para São Paulo.
Clima inconstante, situação inconstante, Laura inconstante. Coloquei um
pouco de tudo, sem parecer que pretendia me mudar para lá. Eu sabia que
teríamos provavelmente reuniões e eu não era burra, sabia o meu lugar. Eu
era a advogada coadjuvante do caso “Van Galagher contra a ex-sogra
megera” ― era só isso. Eu iria até lá e faria meu serviço, poliria minha
carreira e com sorte, talvez conseguisse passar um par de noites com Adrian.
Era só isso não era? Ele havia deixado tudo muito claro! Então por que
pensar nisso me incomodava?
Fui até a cozinha e abri a geladeira – bem, pelo menos a parte sobre
deixar a geladeira vazia estava feita!
Abri a caixa de cereais e coloquei na tigela. Despejei um pouco de leite
por cima. Girei a colher algumas vezes, afundando as estrelinhas de mel – se
ele me achava infantil por comer sanduíche, precisava ver o que eu comi no
café da manhã!
Sorri. E depois me policiei, desfazendo o sorriso bobo do meu rosto. Eu
andava sorrindo demais por causa dele ultimamente.
Mia pulou da cadeira direto para cima da mesa, e ficou ali, parada com
seu grande corpo gordo, esperando a porção dela de leite.
― O que eu vou fazer com você hein Srta. Gorducha? Vamos ver se Hans
ainda quer alimentar você.
Peguei meu telefone e disquei. Hans atendeu logo.
― Diga que a moça que estou vendo na primeira página do jornal não é você.
Gelei e endureci, derrubando a colher na tigela e espalhando leite na
cabeça laranja de Mia.
― Oh meu Deus! Hans eu não vi o jornal ainda.
― Então me explique o que a senhorita faz em uma lanchonete suburbana
com ninguém menos que o único herdeiro do Juiz Reign.
Ah meu Deus Adrian vai morrer! – Foi o primeiro pensamento que veio
à minha mente.
― Hans, – comecei tentando me explicar, mas eu não fazia ideia do que
dizer, – eu nem sabia. Na verdade, eu nem sabia quem ele era. Eles nem tem
o mesmo sobrenome.
― Em que mundo você vive Laura? – Hans me perguntou sarcástico.
― Desculpe se eu não conheço todas as linhas de sucessão das famílias
holandesas! – Apelei.
― Isso não é importante. – Ele disse e eu percebi que era uma oferta de paz.
– Diga-me o que estava fazendo com o Sr. Galagher.
― Alexander Persen era apenas o advogado de Van Galagher, – comecei – o
caso é sobre a guarda dos filhos de Adrian Van Galagher. Eu ia passar aí
mais tarde e conversar com você, mas acho que não fui rápida o suficiente.
Os últimos dias têm sido bem malucos.
― Laura, – havia uma nota de preocupação em sua voz, – não é muito
inteligente envolver-se com ele.
Deus! Nós íamos mesmo ter essa conversa! De novo.
― Adrian vai magoar você. Ele não é o tipo de homem que se apaixona por
uma menina como você Laura.
Eu sabia que ele tinha razão, mas eu estava irritada.
― E por uma menina como eu, você quer dizer, pobre como eu.
― Eu ia dizer ingênua como você, mas pobre também se encaixa. Você sabia
que ele tem sido visto com a prima da princesa ultimamente?
Senti como se algo atingisse minha cabeça. É claro que ele estava.
Quem era eu? Uma pobre garota sul-americana com quem ele teve uma foda
rápida.
Pensei. Analisei. Respirando devagar.
― Hans nós apenas saímos para comer, – menti, – não sei o que a imagem
mostra, mas foi isso.
Enquanto eu falava com ele, fui digitando na ferramenta de busca o
nome de Adrian. Estava ali. Várias imagens dele. Muitas e com notícias
diversas. “Van Galagher salva mais uma corporação” ou “Van Galagher
quer a Holanda para si” ou ainda “O playboy ataca novamente” ― onde se
via uma ruiva escultural entrando em seu carro. Fui baixando a tela e
encontrei uma notícia de quinze dias atrás. Ela trazia Adrian de smoking
preto, cabelos penteados e aquele olhar que me fazia esquecer meu nome,
mas ao lado dele não era eu, óbvio. A prima da princesa estava lá, com um
vestido vermelho absolutamente incrível que a deixava ainda mais nobre. Ela
estava de braços dados com ele. Sorrindo como uma idiota. Ele não sorria –
ele nunca sorria – mas parecia satisfeito. O título era “Os Dias de Viúvo
Estão Contados”.
Então era isso. Todo aquele papo de não poder ir até sei lá onde eram
na verdade uma fuga. Ele não queria dizer que tinha um maldito tipo de
compromisso com a branquela real.
Filho da puta desgraçado! – Esbravejei mentalmente.
― Ainda está aí Laura? – Hans perguntou.
― Sim. Procurando a maldita foto. Hans eu passo aí mais tarde ok? – Eu
disse por que não estava em condições de prolongar o assunto. – Acha que
poderia cuidar de Mia?
Ele pensou por um tempo. Quieto, calado do outro lado da linha.
― Claro que cuido de Mia querida! Sabe que eu sou louco por sujar meus
ternos com pelos alaranjados – ele sorriu. Eu fingi que sorri. Então ele
continuou... – Laura, eu só estou preocupado com você! – Disse por fim.
― Sei disso – respondi – e Hans. Não vou fazer besteira dessa vez. Eu juro.
Desliguei o telefone e abri a imagem. Éramos Adrian e eu, sentados na
lanchonete. Ele tinha a mãos no meu queixo e o polegar sobre o meu lábio.
Ele estava limpando o molho, era só isso, mas havia o olhar. Meu coração se
apertou – não era o mesmo olhar que ele dirigia à garota do vestido vermelho,
aquele era o meu olhar. O olhar que me fazia querer que ele não fosse embora
nunca. Fiquei encarando a imagem, traçando meu polegar sobre o rosto de
Adrian – eu não podia crer que ele pertencia à outra.
O celular tocou, vibrando sobre a mesa. Encarei o número na tela.
― Sim Sr. Galagher – eu disse.
― Boa tarde – ele me disse – você leu os jornais de hoje?
Pronto! Agora o meu pequeno castelo de cartas começava a
desmoronar, antes mesmo de eu conseguir habitá-lo.
― Adrian me desculpe! – Disse de uma vez porque eu não queria entrar em
outra discussão sobre exposição. – Eu não fazia ideia de que aquela bobagem
toda sobre Alissa e filhos pudesse terminar desse jeito. Se eu pudesse voltar
atrás eu juro que não tinha comido a porcaria do cachorro quente. Eu. Eu... –
Eu falava sem parar para respirar e sentia as primeiras lágrimas começarem a
aparecer, lá no fundo da minha garganta.
Engoli, engasgando um pouco e dando tempo para ele me
interromper.
― Engraçado você chamar meu lanche preferido de porcaria porque você
pareceu gostar bastante – ele disse ignorando tudo que eu havia dito, exceto
isso.
― Adrian não é uma boa hora para piadas. Além disso, – eu não sabia se
queria continuar – eu vou entender se você – parei e respirei – se você
preferir ir sozinho ao Brasil ou levar outra pessoa.
Pude ouvi-lo respirar forte no telefone – ele odiava ser contrariado.
― E porque, exatamente, eu faria isso?
― A foto, – eu disse – pensei que você não queria esse tipo de publicidade.
E analisando agora, ele provavelmente não queria porque se algo como
isso vazasse a tal namorada branquela real saberia.
― Laura eu posso ser gentil com as pessoas eventualmente – ele disse – não
vejo problema em uma fotografia que demonstra isso. Eu quis apenas avisá-la
que seu rosto não ficou visível, e que, portanto, ninguém poderá ligar isso ao
problema com meu pai.
Fiquei muda por alguns instantes.
― Laura? – Ele perguntou.
― Oi – eu disse depois de alguns instantes.
― Harold irá buscá-la em três horas. Esteja pronta, não gosto de me atrasar.
Ele desligou o telefone eu fiquei com ele ali, parado no meu rosto,
pensando na vida, como uma idiota.
Olhei a imagem novamente – ele tinha razão. Era uma bobagem. Não
tinha nada demais. Ele estava sendo gentil com uma garota, e daí? Isso não
mudava o fato de que os dias de viúvo dele estavam contados. Senti uma
onda de raiva misturada à dor dilacerar o meu coração.
Fazia menos de meia hora que eu havia voltado do meu escritório,
quando Harold parou o carro em minha porta. Peguei minha mala, conferi
meu visual no espelho – profissional, muito profissional, – e saí.
Eu estava disposta a deixar claro para Adrian Van Galagher que, por
mais que ele fosse gostoso, eu não seria a despedida de solteiro de ninguém.
Embarcamos em silêncio. Eu me sentei no banco da janela, Adrian ao
meu lado, na primeira classe. As poltronas eram bem grandes e separadas por
um braço central suficientemente largo para que Adrian e eu não nos
tocássemos, caso não fosse necessário.
Mantive meu olhar na janela, vendo Amsterdã sumir lá embaixo,
durante toda a decolagem.
― Laura – Adrian me disse – algo está errado?
― Não – eu respondi.
Ele não insistiu e eu não continuei o assunto. Algum tempo depois,
anunciaram o serviço de bordo.
A comissária passou oferecendo bebidas e eu me servi de uma dose
dupla de uísque. Adrian pediu uma taça de vinho e ficou me olhando.
― Não vai me dizer o que está errado?
Minha mente formava várias e várias frases para dizer a ele, nenhuma
delas era gentil. E eu não queria começar uma briga sabendo que ficaríamos
pelo menos dez horas naquele mesmo lugar.
― Nada errado Sr. Galagher – eu disse – medo de voar. Apenas isso.
― Você não me parece o tipo que sente medo de voar.
Eu queria dizer “E você não parece o tipo que procura por garotas da
corte, chatas mimadas”, mas eu não disse nada. Limitei-me a sorrir.
Comi meu pato com laranja e tomei mais uma dose de uísque, sentindo
o efeito do álcool me acalmar. Quando as luzes se apagaram, coloquei meu
fone de ouvido e apaguei também.

Adrian
Pousamos pouco antes das nove da manhã. Laura mal falou comigo
durante toda a viagem. Eu não gostava de aviões, mas eu odiava ainda mais
aviões com Laura emburrada. Estava começando a me irritar.
Passamos pelo saguão de desembarque e eu logo avistei a placa com o
meu nome. Caminhei até o motorista.
― Sr. Galagher? – Ele me perguntou e eu assenti.
Entramos no automóvel e seguimos para minha casa. Fazia pelo menos
quatro anos que eu não vinha ao Brasil, mas São Paulo parecia a mesma,
tumultuada e corrida, como sempre. Perto de São Paulo, Roterdã era uma
pobre prima do interior.
O carro passou pelos portões. O gramado estava bem cuidado e as
cercas vivas aparadas. A piscina limpa, as janelas abertas. Pelo menos eu
tinha bons empregados aqui.
O motorista abriu a porta para mim e eu desci. Ofereci a mão para que
Laura pudesse descer, ela aceitou, mas tirou a mão da minha assim que pode.
Entramos e Elza veio nos receber.
― Sr. Galagher é prazer revê-lo – ela me disse.
― É um prazer revê-la – olhei em volta da sala ― e ver que cuidou de tudo
em nossa ausência.
Elza sorriu. Seus olhos passaram de mim para Laura e eu percebi que o
“nós” poderia ter sido mal interpretado.
― Esta é Laura – eu disse gentilmente, com a mão sobre o ombro de Laura,
mas antes que pudesse concluir, ela me interrompeu.
― Sou a advogada do Sr. Galagher – ela disse estendendo a mão e depois ela
terminou a frase em português.
Elza sorriu. Laura sorriu. E eu fiquei ali, sentindo um pequeno complô
feminino se formar.
O marido de Elza levou nossas malas para cima, enquanto ela e Laura
caminhavam felizes e sorridentes para a cozinha. Aparentemente o problema
da Srta. Soares era comigo.
Entrei na cozinha e encontrei uma mesa posta. Havia muitas coisas
sobre ela e eu não conhecia uma boa parte delas. Laura gemeu e disse algo
em português, enquanto enfiava um tipo de panqueca branca e suja de
manteiga na boca.
― Eu agradeceria se pudéssemos manter a conversa compreensível para
todos à mesa – critiquei.
― Perdão, Sr. Galagher! – Elza disse. – É que a senhorita é tão gentil,
percebeu minhas dificuldades com a língua.
Encarei Laura, raiva borbulhando ali, escondida em algum lugar.
― Pois para mim seu inglês é suficiente Elza, não se preocupe.
Ela sorriu. Se Laura achava que colocaria minha empregada contra
mim, estava enganada.
― Quero um pouco dessa panqueca também – pedi – já que a Srta. Soares
parece gostar tanto.
― Oh isso não é uma panqueca, Sr. Galagher. Chama-se tapioca.
Eu ainda sentia a maldita tapioca dentro do meu estômago, quando subi
para o meu quarto. Eu não sabia se me sentia mais enjoado pela panqueca
grudenta e pesada ou se era por causa de Laura.
Tirei minha roupa, abri o chuveiro e tomei uma ducha rápida. Eu não
queria perder tempo algum que eu pudesse passar com os meus filhos e eu os
veria em alguns minutos. Margarida e eu havíamos decidido que eu poderia
almoçar com as crianças, desde que fosse à casa dela. Eu não me importava,
desde que pudesse vê-los. Saí do chuveiro e vesti um jeans e uma camiseta,
era um dia tipicamente quente no hemisfério sul.
Desci as escadas com a guitarra de John presa na capa, pendurada sobre
meus ombros.
― Elza – chamei – avise a Srta. Soares que estou aqui embaixo.
― Não precisa. Já estou aqui, Sr. Galagher.
Ela estava vestida como se fosse trabalhar. Calça social reta e ajustada
nas pernas, sandálias de salto alto e uma blusa de seda marfim que a deixava
com um toque angelical. Maquiagem feita e cabelos presos em um coque,
com alguns fios emoldurando seu rosto. Linda. Eu queria agarrá-la ali na
escada e carregá-la para o quarto, não fosse aquele olhar mortal que ainda
pairava em seus olhos marrons.
― Não precisa vestir-se de advogada para visitar os meus filhos, Srta. Soares.
― Eu sou advogada Adrian, não me visto de uma. Além disso, não entendo
qual é a necessidade de que eu o acompanhe em um almoço.
Cocei minha barba, controlando minha irritação iminente.
― Laura eu não sou bom em adivinhações. Se não me disser o que está
errado eu vou supor que é apenas capricho de uma garota boba e vou ignorar,
como faço com as manhas dos meus filhos.
Senti o efeito das minhas palavras direto em seu rosto, contorcendo
suavemente seus olhos.
― Não há nada errado, Sr. Galagher – ela se limitou a dizer.
Peguei a chave do carro e caminhei para fora, com ela me seguindo.
― Vai dirigir? – Ela me perguntou.
― Algum problema com minha direção?
― Nenhum.
― Ótimo – esbravejei e fechei a porta.
― Ótimo – ela gritou e sentou-se ao meu lado.
Pensei por um tempo, analisando a situação. Deus do céu eu havia me
esquecido como era difícil lidar com uma mulher quando você não a está
fodendo.
― Laura – comecei – é importante eu não parecer furioso e irritado frente à
avó dos meus filhos. Poderíamos pelo menos tentar parecer amigáveis
durante esse tempo?
Meus olhos estavam no trânsito, caótico e infernal, da cidade. Eu não
queria encará-la. Laura pensou por algum tempo também, olhos encarando a
janela.
― Você tem razão Adrian – ela ponderou – estou agindo como uma criança
mimada e não sou assim. Não se preocupe, vamos fazer tudo dar certo nesse
encontro.
Coloquei minha mão sobre o joelho de Laura. Eu queria que as coisas
voltassem a ser como eram, quando estávamos em minha casa.
Laura encarou a mão sobre sua perna por alguns segundos. Seus olhos
pesados, lutando para mantê-la afastada de mim. Tirei minha mão ― se era o
que ela queria, eu respeitaria sua decisão.
Estacionei em frente à casa de Margarida. Desci. Antes que eu pudesse
abrir a porta para Laura, ela desceu. Parei em frente ao portão, minhas mãos
suando, punhos cerrados. Suspirei profundamente. Não era fácil entrar aqui
novamente. Não era fácil encarar tantos fantasmas de uma única vez. Como
se pudesse sentir meus medos, Laura tocou a mão em meu ombro.
― Vai dar tudo certo – ela me disse – sei que vai.
Eu não sabia, mas com ela ali, seria mais fácil.
A empregada de Margarida abriu o portão. Nós a acompanhamos pelo
gramado até a entrada.
Margarida morava em uma casa grande, antiga. Era uma daquelas casas
em estilo modernista da década de cinquenta. Era uma casa bonita. Tinha um
grande gramado na frente e a casa ficava no centro do terreno, com um
jardim tropical na lateral.
Hanna estava à beira da piscina, pulando de um lado para o outro.
Collin foi o primeiro a me ver. Ele correu tão rápido que a babá demorou a
perceber.
― Papai! – Ele me disse agarrando as minhas pernas.
Peguei-o no colo no mesmo instante. Apertando seu corpinho pequeno
contra o meu. Ele parecia mais velho. Não se parecia mais com o meu bebê.
Deus como eu senti falta deste garotinho!
― Hey filhote – eu disse esfregando meu nariz no dele – senti sua falta.
Ele não disse nada. Segurou meu rosto com as suas mãozinhas
melecadas de algo que eu não sabia o que era e não me importava. Encarei
seus olhinhos claros – Collin tinha os olhos da mãe. Ele se parecia com ela.
― Papai você vai me levar para nossa casa? Eu acho que Chucrute sente a
minha falta.
Sorri.
― Tenho certeza de que ele sente amor, vamos resolver tudo. – Eu disse e
toquei meus lábios nos dele, aproveitando o cheirinho gostoso de bebê que
ele ainda tinha. – Eu prometo que vamos.
Ele encarou Laura e sorriu.
― Oi – ele disse em holandês.
― Oi pequeno – Laura respondeu.
― Você é namorada do papai?
Laura pigarreou eu pigarreei e fomos salvos por Hanna, graças a Deus.
― Papai! – Ela disse se atirando sobre mim.
Ajoelhei com Collin ainda em um dos braços e abri o outro para ela.
Hanna se aconchegou em meu peito, seus cabelos se espalhando em meus
ombros.
― Eca papai – ela disse – você está melecado de pirulito!
Coloquei Collin no chão e passei a mão pelo rosto. Eu estava melecado
por algo, se era pirulito eu não sabia, mas tinha cheiro de cereja.
― Aqui, com licença – Laura disse e esfregou um lenço umedecido em meu
rosto.
Sorri, encarando seus olhos. Ela estava agachada em frente a mim e
Collin a estudava.
― Obrigada Srta. Soares.
― Tudo bem, sabe como é, mulher prevenida.
Collin esticou a mãozinha e tentou tocar o rosto de Laura.
― Filho – chamei antes que ele a tocasse – vamos lavar a mãozinha primeiro.
― Acho que podemos dar um jeito nisso – ela disse arrancando mais um
lenço e limpando a mão de Collin.
― Hum – Collin disse com os olhinhos brilhando – tem cheiro de flor papai.
― Eu quero limpar a mão também – Hanna correu para ela.
Sorrimos. Um encarando o outro meio sem querer, fugindo da espessa
camada de sentimentos ali.
― Hey, Sr. Galagher! – John disse caminhando até mim. Eu havia deixado
sua guitarra no banco traseiro do carro.
Ele estendeu a mão para mim e eu o cumprimentei. Depois o puxei
mais para perto e o abracei. Esperei que ele recuasse, mas ele não recuou.
Acho que nós precisávamos de um abraço.
― Algum dia você vai se referir a mim como pai? – Brinquei.
Os olhos dele foram de mim para Laura em uma fração de segundos.
Aquele sorriso ingenuamente malicioso curvando seus lábios para cima. O
garoto era bom. Bom demais para o seu próprio bem.
― Posso pensar em chamá-lo de pai só para que fique bem claro que você é
velho – ele brincou.
Laura sorriu. Pela primeira vez no dia ela realmente sorriu.
― Sinto informá-lo pequeno Sr. Galagher que a moça não fala neerlandês.
― Eu nunca disse que não falava – ela me corrigiu – eu disse que não falava
bem.
John sorriu mais, mostrando aquelas malditas covinhas – garoto
safado! Eu teria uma conversa com ele mais tarde.
― Eu sou John – ele disse estendendo a mão para Laura.
― Sou Laura – ela respondeu apertando a mão dele.
― É um prazer Laura, mas aqui no Brasil as pessoas se cumprimentam assim
– ele disse e a beijou no rosto. Duas vezes.
― Eu sei, – ela respondeu retribuindo o beijo – sou brasileira.
E aí a conversa evoluiu toda em português. E eu fiquei ali, querendo
ensinar algumas liçõezinhas ao meu pequeno conquistador, enquanto Hanna
me trazia uma dúzia de pequenas bonecas de plástico com toda a sua coleção
de roupas.
Margarida apareceu na porta da frente.
― O almoço está servido Adrian, vamos entrar.
Nós já havíamos conversado ao telefone, combinado de não discutir
com as crianças ali. Eu a conhecia pouco, sabia que não gostava de mim e eu
não podia culpá-la, mas ela amava os netos e isso eu sabia. Nós teríamos uma
briga em breve então eu queria aproveitar o que podia do meu tempo com os
meus filhos.
O almoço se limitou a Hanna e Collin disputando quem seria
alimentado por mim e John e Laura rindo e rindo de alguma coisa em
português. Vez ou outra Hanna traduzia alguma coisa da conversa para mim.
Margarida não almoçou conosco. Ela não falava neerlandês e me odiava o
suficiente para não ter interesse em aprender.
― Papai – Hanna me disse – você tem que prometer que vai me levar na
exposição da Barbie. É uma exposição de princesas, pai, você vai amar.
Sorri.
― Tenho certeza de que vou, anjo.
Peguei Laura nos encarando. Seus olhos fugiram dos meus assim que
puderam.
― Laura – Hanna disse descendo do meu colo e se colocando entre as
cadeiras de Laura e John – você pode me fazer uma trança? – Ela pediu. –
Vovó não sabe fazer tranças.
Laura afastou um pouco a cadeira e colocou Hanna de costas, entre as
suas pernas. Abriu a bolsa e sacou uma escova.
― Pois para a sua sorte, Srta. Galagher, – ela disse separando o comprido
cabelo louro da minha filha com as mãos – eu sou uma especialista em
tranças.
Fiquei encarando as duas ali, sorrindo e sendo garotas – minhas garotas
– e pensei que as coisas não poderiam ter sido melhores.
― Feche a boca pai, – John disse passando por trás de mim e dando um toque
no meu queixo, – vai babar na camiseta.
Capítulo 12

Laura
Entrei em silêncio no carro. Eu não queria conversar. Eu estava em um
momento difícil de autocontrole depois de ver Adrian com os filhos. Ele era,
de longe, o pai mais incrível que eu já tinha visto e isso deixaria minha meta
de não me permitir envolver mais por Adrian Van Galagher, meu pirata
sedutor, quase impossível.
Foquei meus olhos na cidade. Minha cidade. Eu não sentia falta de São
Paulo, do meu país, até pisar aqui novamente. Eu olhava os rostos das
pessoas e pensava no quanto eu destoava dos holandeses. Eu não queria
pensar em minha família, mas eu não podia evitar. Eu sentia falta da minha
avó. Já fazia alguns meses que eu não falava com ela. Eu não havia contado
da viagem, porque não queria que minha mãe soubesse de mim.
― Obrigado por hoje! – Adrian disse, quebrando nosso silêncio. – Você foi
muito gentil com os meus filhos.
― Sem problemas, – eu disse – seus filhos foram muito gentis também.
Ele continuou dirigindo sem me olhar. Seus olhos estavam fixos na
estrada, mas seu pensamento estava longe. Eu quis saber em que ele pensava.
Quis saber se fazia parte do que quer que fosse, mas então eu lembrei que não
fazia. Deixei meus olhos vagarem por Adrian por um tempo que pareceu
curto demais. Seu cabelo claro havia sido arrumado para trás pelas mãos,
displicente, elegante. O sol da tarde atravessava a íris cor de avelã e eu podia
contar pelo menos cinco tons diferentes, que iam desde o chocolate até o
amarelo esverdeado. Sua boca vermelha parecia relaxada, suave. Apertei
meus lábios, lembrando o gosto que ela tinha. A barba por fazer deixava seu
rosto com um ar mais cafajeste, menos executivo. Os pelos cresciam até a
linha do pescoço e se perdiam na gola da jaqueta. Era tão pouco tempo, e eu
já tinha uma impressão fiel de Adrian Van Galagher dentro de mim, em
minha alma. Fechei os olhos, a imagem dele de braços dados com outra
mulher não saia da minha mente. Ele não podia! Não podia! Ele era meu.
Suspirei – sim, ele podia! E podia unicamente porque ele não era meu.
Ele nunca seria. Eu era um parágrafo perdido dentro do livro de Adrian. Eu
não era a protagonista. Eu não era nem mesmo a coadjuvante. Talvez eu nem
mesmo fosse uma figurante representativa.
Abri os olhos e percebi que estávamos perto, muito perto da casa dele e
que eu não teria mais a desculpa da direção para não falar com ele. Respirei
devagar, limpando minha mente do turbilhão de pensamentos – não tinha
outra maneira.
― Adrian, – comecei devagar enquanto ele passava pelo portão com o carro,
– eu gostaria de resolver alguns assuntos pessoais amanhã. Se não se
importar.
Ele continuou o caminho até a entrada em silêncio, sem desviar os
olhos nem uma vez. Parou. Desligou o motor e se virou para mim.
― Achei que tivéssemos um acordo, Srta. Soares, mas se prefere assim,
posso pedir ao Dimas para levá-la.
― Prefiro ir sozinha.
Eu podia perceber a irritação correndo pelas veias de Adrian tão rápido
como o sangue era bombeado ao seu coração. Eu podia ver pequenas veias
azuladas formando-se em suas têmporas pela pressão da mandíbula.
― Devo supor que todo esse teatro desde que saímos de Roterdã tinha como
causa esse assunto. Acaso deixou algum namorado para trás? – Ele disse
frisando a última palavra.
Agora o sangue borbulhava em minhas veias, rápido, quente,
incontrolável. Ele era cínico demais. Meu Deus será que ele pensava mesmo
que eu não descobriria?
― Receio que suas suposições sejam equivocadas, Sr. Galagher, – continuei
sentindo minhas bochechas queimarem, – e receio também que eu não
consiga voltar à Holanda com o senhor. Como eu disse tenho assuntos
pessoais a resolver.
Os punhos de Adrian estavam cerrados. Olhos estreitos. Postura rígida.
Respiração lenta e comedida – eu podia jurar que ele pularia sobre minha
jugular no instante seguinte, como um leão sobre a presa.
― Caso não se lembre, você assinou um contrato de prestação de serviços
comigo, Srta. Soares.
Irritação pairando dentro do carro, como uma névoa.
― Sim, estou ciente disso. Não se preocupe. Eu pretendo cumprir com
minhas obrigações. Tenho certeza de que eu e o Sr. Persen conseguiríamos
resolver esse pequeno entrave da distância.
E então os olhos de Adrian estavam mais assustadores do que nunca.
Escuros, profundos e matadores. Ele me encarou por cima das sobrancelhas.
― Entendo. – Ele disse e eu tive medo do que quer que fosse que ele
entendia. – Tenho ciência do quanto a senhorita e o Sr. Persen resolvem
entraves. Agora entendo a relutância dele em se casar com a noiva.
Ele não desviava os olhos dos meus e eu sentia que a cada palavra ele
arrancava um pedacinho do meu coração.
― Adrian não seja ridículo. – Eu disse baixo, querendo fazê-lo parar a linha
idiota de raciocínio. ― Eu nem mesmo sabia que Alex tinha alguma
relutância quanto ao casamento.
― Tem feito bem o seu jogo, – ele continuou – eu quase pensei que estava
com ciúmes de mim, outro dia, em meu escritório. Agora vejo que sua
possível raiva de Alissa tinha outro foco.
O almoço se revirando em meu estômago, levando um gosto amargo
até minha boca.
― Não se preocupe, – ele disse ironicamente, os olhos faiscando de ódio, –
com Alissa ou não, Alexander terá bastante tempo livre com o nascimento do
bebê. Talvez ele até leve o bebê para a senhorita criar. Seria perfeito, não
seria Srta. Soares? Seu próprio bebê?
Pronto! Meu autocontrole se foi! Assim, como se não fosse eu ali, senti
minha mão vagar até golpear forte o rosto de Adrian num tapa cheio,
espalmado, bem na lateral.
Ele não moveu um único músculo, continuou me encarando, como se
pudesse me fuzilar com os olhos.
Abri a porta do carro e corri para dentro com a visão nublada pelas
lágrimas. Bati a porta e passei a chave – a última coisa que eu queria era ver
alguém.
Deixei meu corpo cair no chão, debruçada sobre a cama, rosto coberto
pelas mãos, sentindo as lágrimas descerem cada vez mais rápido. Eu sentia
meu corpo pesado, prostrado, arruinado. Eu não conseguia nem entender o
que doía mais. Não sabia se era o fato de ele supor que eu estava fazendo
algum tipo de jogo entre ele e Alex ou se era a menção a ter meu próprio
bebê. Adrian podia ser o cara mais incrível do mundo quando queria, mas ele
sabia exatamente como magoar. Ter ouvido aquilo foi como um tapa na cara,
muito pior do que ele tinha levado.
Eu queria fugir. Queria correr para longe de Adrian, de tudo, mas não
sabia se conseguiria me manter em pé. Adrian havia penetrado meio à força,
meio convidado, por caminhos dentro de mim que eu jurei não permitir que
mais ninguém entrasse. E agora eu estava ali, uma vez mais, caída no chão
porque alguém pisou em meu coração idiota. Eu queria socar meu nariz bem
no meio e sentir muita dor, para garantir que da próxima vez que trombasse
em um babaca bonito, eu não iria acabar com ele na cama. E pior, abrindo
meu coração.
― Laura abra a porta – eu ouvi.
A voz preenchendo todo o vazio dentro de mim. Forte, poderosa, como
ele era.
― Nós precisamos conversar, Laura. Abra a porta, não seja infantil.
Eu não queria abrir, ou pelo menos achava que não deveria querer, mas
o fato de Adrian agir como se minha raiva fosse sem propósito deixava-me
com mais determinação ainda em não abrir. Não respondi.
― Laura eu só vou dizer mais uma vez – ele advertiu – abra a maldita porta.
Eu não respondi. Não conseguia pensar em nada para dizer. Eu estava
magoada, ferida, com raiva. Ele havia usado meu segredo mais dolorido
contra mim, apenas por capricho e ainda me chamava de infantil.
Adrian socou a porta com tanta força que eu pude sentir a parede vibrar
pelo chão. – Ótimo! Nada como uma mão quebrada para nos fazer pensar
melhor em como somos idiotas! – Pensei enquanto ouvia os passos se
afastando.
Levantei devagar, sem fazer barulho e entrei no banheiro. Tirei a roupa.
Prendi o cabelo no alto da cabeça – eu estava disposta a arrumar minhas
coisas e ir embora o mais rápido possível. Eu não queria lidar com minha
mãe, mas eu queria menos ainda lidar com Adrian. Eu chamaria um táxi e
procuraria um hotel, o mais longe possível de qualquer coisa relacionada
aquele maldito pirata arrogante.
Abri o chuveiro e estava com um pé para dentro do Box de vidro
quando o estrondo me fez pular de susto. Não tive tempo de mais nada.
Adrian estava no quarto, o pé sobre a porta, caída no chão. Eu estava em
choque, observando o pedaço de madeira quebrado ali, arrancado do batente
pela força do chute, imaginei.
Adrian entrou no banheiro. Seus olhos parados nos meus por uma
fração de segundos e eu já não lembrava mais o que estava fazendo ali.
Ele me puxou para si, seus braços fortes envolvendo meu corpo
pequeno. Ele estava ofegante, ansioso. Seus olhos ardiam, mas não era mais
de raiva. Adrian encostou a porta do banheiro e me afastou o suficiente para
que pudesse me olhar, segurando-me pelos ombros. Seus olhos correndo pelo
meu corpo nu, sem se deter em nada especificamente. Ele não disse nada.
Nem eu.
Segurei na barra da camiseta e a puxei para cima, expondo seu peito.
Tateei seu abdômen com as minhas mãos, meu peito se enchendo de tudo que
eu não queria confessar. De tudo que eu não queria sentir. Eu não conseguia
mais negar. Encostei meus lábios na pele quente de Adrian, ouvindo-o gemer
baixo enquanto se livrava da camiseta. Eu o empurrei contra a parede,
mordendo e chupando o caminho de músculos que se perdia no elástico da
sua cueca boxer. Ajoelhei no chão, traçando a linha de músculos com a
minha língua, enquanto abria o botão e descia o zíper da calça. Se era uma
despedida, eu queria tudo de Adrian que eu pudesse ter.
Baixei a calça e a cueca e o toquei devagar, sentindo sua excitação
latejar. Tateando todo o comprimento, até a ponta. Segurei em minha mão,
correndo minha língua pela lateral, indo e vindo, Adrian ofegando contra a
parede. Eu não tinha pressa. Queria sentir tudo. Tocar tudo. Viver tudo. Se eu
ia sair da vida dele, ao menos eu deixaria uma pequena lembrança.
― Pelo amor de Deus Laura, acabe com essa tortura – ele disse com a voz
entrecortada, enquanto eu mordiscava e traçava círculos com a minha língua
na parte sensível da ponta.
Abri a boca sem dizer nada e o suguei para dentro, devagar, deixando
que se acomodasse até minha garganta. Ajustei minha respiração para não
engasgar e comecei a movimentar a cabeça, para frente e para trás, quase
soltando e trazendo-o para dentro novamente. Adrian agarrou meus cabelos,
pela parte de trás da cabeça, numa tentativa desesperada de controle. Deixei
que ele me guiasse. Que tivesse o que queria de mim, como queria. Eu o
queria. Queria inteiro, sem restrições.
Eu podia sentir seu peito subir e descer com cada movimento, mais
forte, mais forte. Suas pernas trêmulas. Suguei mais forte, levando Adrian ao
limite. Eu não queria parar, queria que ele se derramasse para mim, em mim,
na minha boca. Queria sentir o seu gosto, provar mais de Adrian Van
Galagher.
― Laura assim eu não vou aguentar amor – ele disse entre gemidos.
Eu não queria que ele aguentasse. Estava gemendo também, sentindo o
contorno do seu bumbum contra as minhas mãos, apertando, chupando,
devorando. Quando achei que eu mesma não aguentaria mais, Adrian veio em
uma explosão para dentro de mim, derramando-se em minha garganta. Arfei,
engolindo tudo que podia, tocando-o com a minha língua. Até que ele
afrouxou o aperto em meus cabelos e me suspendeu.
Adrian me segurou apertado, junto do seu corpo, seus braços em volta
de mim como uma jaula – ele nem imaginava o quanto eu queria ficar.
― Eu quase posso dizer que o tapa valeu a pena – ele disse brincando. Seu
riso fazendo cócegas em minha cabeça.
Encostei o nariz em sua pele e puxei o ar dele para mim, seu perfume,
seu suor, tudo que eu podia. Eu não queria ir. E cada minuto que eu passava
com ele ali, eu queria menos. Suspirei.
― Adrian – minha voz falhando – eu preciso ir.
Ele me encarou por um instante. Os olhos sem entender. Eu queria
tanto que o que eu pensava ver em seus olhos fosse real.
― Eu preciso mesmo – repeti – eu não vou conseguir. Eu não consigo – disse
e me afundei nele novamente.

Adrian
Ela se apertou contra mim como se quisesse se fundir em minha pele.
Eu nem sabia se a segurava ou se tentava entender o que ela queria dizer com
ir. Para onde diabos essa mulher pensava em ir? Deus do céu ela estava me
enlouquecendo!
Fechei minha calça e desliguei o chuveiro. Peguei minha camiseta e
vesti em Laura. Nós precisávamos conversar e com ela ali, sem roupa na
minha frente eu não conseguia ter muitos pensamentos coerentes.
Levei-a pela mão até meu quarto, já que o de hóspedes estava sem
porta. Sentei-a em minha cama. Sentei-me ao lado. Segurei suas mãos.
― Porque tem que ir? – Eu perguntei.
Ela suspirou. Os olhos analisando meu rosto. Ela parecia sofrer tanto e
eu não conseguia entender o que havia acontecido. Ela esteve comigo o
tempo todo nos últimos dias.
Repassei os últimos acontecimentos em minha mente uma vez mais.
― Laura se foi por causa do que eu disse no carro... – Comecei
desconfortável. Eu odiava admitir que havia sido estúpido. E ciumento. – Eu
não quis dizer aquilo. Eu estava nervoso. Eu espero... – Ela me interrompeu.
― Não é isso Adrian. É que isso, – ela disse girando o dedo entre nós – isso
não tem como ser. Nós... – Ela não sabia como continuar. – Eu. Eu realmente.
Eu queria mesmo ser do tipo que consegue. Eu imagino que você veja muito
disso por aí, mas eu... – Ela parecia desconcertada. – Eu não consigo. Eu
queria, mas eu não consigo.
E se ela que era quem estava pensando não entendia, eu menos.
Encarei-a sem fazer a menor ideia do que ela dizia e então a primeira lágrima
rolou e eu comecei a me desesperar – eu nunca fui bom em ver garotas
chorando.
― Anjo, se foi por causa da fotografia – disse – não se preocupe. Não era
nada demais. Nós podemos tomar mais cuidado até que essa bobagem com
meu pai... – Ela me interrompeu de novo.
― Eu vi a fotografia com a sua namorada, Adrian – ela disse de uma vez.
Tirou as mãos das minhas e secou as lágrimas. Suspirando para retomar
o controle.
― Eu entendo que você se deixou envolver – ela fez uma pausa e deixou as
mãos sobre o colo – e eu facilitei, mas, eu não acho certo. Não sei qual é o
seu ideal de relacionamento, mas eu não acho certo.
Ela falava e falava e tudo que eu pensava era “sua namorada”. De que
maldita namorada essa garota estava falando? Claro que eu tive mulheres.
Muitas. Mas namorada? Eu não tive namorada alguma depois de Patrícia.
Nem antes. Patrícia foi a única namorada que eu tive e ela não oferecia perigo
algum ao meu relacionamento com Laura.
― Laura, eu não estou entendendo – disse sincero.
Ela se levantou e começou a caminhar pelo quarto, minha camiseta
cobrindo seus quadris.
― Eu vi Adrian. Via a fotografia da garota.
― Que garota Laura? – Eu estava começando a me irritar de novo. – Imagino
que você entenda que eu não sou nenhum tipo de celibatário.
― A garota, a do vestido vermelho! – Ela bufou. – “Seus dias de viúvo estão
contados”.
Tentei segurar, mas não pude. O riso explodiu em minha garganta e eu
praticamente o cuspi para fora. Laura me encarando com raiva.
― Acha engraçado? – Ela me perguntou. – Eu aqui pensando em uma
maneira de dizer que eu vi a maldita foto sua de braços dados com a nojenta
real e você aí, rindo de mim!
Encarei a garota ali na minha frente. Nervosa, ansiosa. Com ciúmes!
Ela estava com ciúmes de mim. Respirei fundo, controlando meu humor – era
isso! A maldita foto era a razão de toda essa birra de Laura.
― Então era isso? – Perguntei, mesmo já sabendo a resposta. – Toda essa
raiva e mau humor eram por causa de uma notícia de um tabloide
vagabundo?
Ela me encarava processando tudo em sua mente. Seus olhos estavam
quase perdidos, sem saber se tinham mesmo razão ou se eu tinha. Aproveitei.
― Quer dizer que ao invés de simplesmente me perguntar do que se tratava a
senhorita preferiu supor que era verdade, – eu disse levantando e caminhando
até a janela, – que eu era um cafajeste sem escrúpulos e que estava
enganando a pobre moça, minha quase esposa, e tendo sexo casual com uma
funcionária.
Laura não respondeu, ponderando minhas constatações.
― Diga-me Laura? É isso? – Perguntei usando o mesmo tom inquisidor que
costumava usar no tribunal.
Agora Laura era minha suspeita, e eu a estava interrogando, brincando
com sua mente.
― Achou que, por ela ser rica e influente, eu iria me casar com ela, e que
pretendia manter algum tipo de caso extraconjugal com a senhorita – eu
estava afirmando e ela não podia negar.
― Adrian – ela tentou justificar – você precisa entender. Eu não sabia nada
sobre você.
― Responda-me Srta. Soares – eu disse caminhando em volta dela – alguma
vez eu lhe neguei qualquer informação sobre a minha vida?
― Não! – Ela disse derrotada.
― Então porque, ao invés de me perguntar, você decidiu me punir?
Ela pensou. Pensou. Não sabia o que dizer. Estava perdida, envolvida
em minha pequena teia de manipulação. Eu gostava disso. Gostava de sentir
essa eletricidade entre o inquisidor e o acusado. Isso fazia com que eu me
sentisse muito, muito bem.
Laura estreitou os olhos.
― Caramba, você é bom! – Ela disse de repente.
― Sou o melhor, anjo. Nunca perdi um caso.
Ela sorriu discretamente, desistindo de seu ponto.
― Venha até aqui. – Eu disse batendo na cama ao meu lado. – Vou dizer a
você do que se trata a fotografia.
Laura se sentou e manteve os olhos baixos. Segurei seu queixo e elevei
até a altura dos meus olhos.
― Eu não faria isso Laura. Não faria com você e não faria com Clair e eu não
faria comigo. – Eu esperava que ela percebesse a verdade em meus olhos. –
Eu não fui sempre fiel, Laura, mas eu percebi da maneira mais difícil o que a
infidelidade pode fazer a uma pessoa. E eu não faria isso.
Ela suspirou. Estava entendendo meu ponto de vista.
― Agora vou contar a você a breve história entre Clair e eu. Tudo bem?
Ela assentiu.
― Eu a conheci em um jantar íntimo na casa de verão da família real. Eu vou
a muitos lugares que não quero Laura. Faço muitas coisas que não quero,
porque são importantes para os meus negócios.
― Imagino – ela me disse ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
― Não em minha vida pessoal, – continuei – eu não vou me casar com Clair
porque não a amo. Ela é uma mulher egoísta e mimada e eu não gosto de
pessoas assim, em especial mulheres, mas ela é prima da minha princesa e eu
devo respeito e gentileza a ela. Foi o que eu fiz. Eu a acompanhei em um
evento, apenas isso. Não preciso me casar com ninguém para dar um golpe
ou coisa assim, Laura.
Segurei suas mãos entre as minhas. Eu sabia que provavelmente não era
o que ela queria ouvir, mas eu precisava ser sincero com ela. Era algo
importante, uma decisão que eu não estava certo de querer revogar.
― Laura eu não pretendo me casar.
Estudei seus olhos. Eles estavam tranquilos, focados nos meus.
― Eu já fiz isso uma vez e acredite, não foi uma boa experiência. Não quero
repetir. Casamentos destroem o relacionamento das pessoas. Você entende?
― E quem foi que disse a você que eu esperava que se casasse comigo? – Ela
disse sorrindo. – Acha que só porque você é rico e tem esse cabelo bem
penteado – espalhou meu cabelo com os dedos – e esse abdômen definido –
Laura escorregou a mão pelo meu peito nu e parou em minha calça – eu iria
querer me casar com você? Acho que seu filho tem razão. Você está ficando
velho.
Sorri. Eu não sabia se Laura concordava comigo ou se queria apenas
acabar com o clima ruim, mas eu estava disposto à mesma coisa.
Deitei-a sobre a minha cama e afastei suas pernas com o as minhas,
ficando entre elas. Segurei seus braços com os meus, deixando-a presa,
debaixo de mim.
― Então você acha que sou velho? – Perguntei. – E acha isso porque um
garoto bobo de dezessete anos lhe disse – conclui.
Beijei seu ouvido, sugando o lóbulo da orelha devagar. Desci com
minha língua pela lateral do rosto, parando na clavícula.
― Acredite Srta. Soares. Quando eu terminar com a senhorita hoje, vai
agradecer por cada um dos anos que eu tive de experiência. Enquanto a
senhorita assistia a um desenho bobo na televisão.
Continuei o caminho com minha boca por cima da camiseta, beijando
seus seios, chupando por cima do tecido, sentindo seu corpo se arquear em
minha direção. Eu estava louco de desejo, sentindo o sangue fluir rápido pelo
meu corpo. Eu queria Laura mais do que eu queria respirar.
Continuei beijando sua barriga e desci por sua coxa, beijando o interior
dela, sentindo o quanto Laura estava úmida e pronta. Deus essa garota
acabava comigo. Minha ruína. Ela era minha ruína.
― Adrian – ela gemeu cobrindo o rosto com um travesseiro – você acaba
comigo.
Beijei a parte de trás do seu joelho, sua panturrilha e tornozelo e o peito
do pé. Eu podia sentir sua pele arrepiada com o meu toque, mas eu queria
mais. Queria que ela nunca mais sequer cogitasse a possibilidade de outro
homem tocá-la. Eu queria reclamar meu direito de posse sobre Laura. Marcá-
la. Estragá-la para qualquer outro.
Voltei traçando o caminho pela parte de dentro da sua perna, ouvindo
seus gemidos cada vez mais profundos, entregues. Laura não estava usando
calcinha. Eu não a tinha deixado se vestir. Espalmei minhas mãos em suas
coxas, abertas, puxei-a para cima de uma almofada, achando o ângulo
perfeito. Beijei o interior da sua coxa, bem no encontro com a virilha,
demorando-me lá, sugando a carne macia para a minha boca.
― Oh meu Deus! Adrian! – Laura gemeu.
Brinquei com os seus lábios em minha boca, sugando, mordiscando,
deixando minha língua traçar círculos ali. Eu podia sentir que ela estava
perto. Eu podia sentir em minha língua os primeiros espasmos em seu corpo e
então eu não resisti. Enfiei minha língua nela, sentindo seu gosto,
friccionando meu polegar suavemente onde eu a levaria ao abismo. E levei.
Laura veio a mim em ondas de prazer e gemendo meu nome. Meu nome.
Minha Laura.
Suguei tudo que eu pude do gosto de Laura. Sua essência estava em
mim, impregnada em minha língua, em minha pele.
Subi beijando todo o caminho de volta, parando em seu ouvido.
― Espero que não esteja satisfeita, Srta. Soares, – eu disse, beijando o ponto
abaixo do seu ouvido – porque eu não estou.
Abri o zíper da minha calça e baixei o suficiente. Encaixei meu corpo
no de Laura, deixando que ela sentisse o quanto eu não estava satisfeito. Eu
estava duro e pronto, ansioso por senti-la, possuí-la.
― Eu quero foder você Srta. Soares – eu disse – eu quero muito. Muito
mesmo. E caso ainda não saiba, eu consigo tudo que quero.
Fiquei de joelhos na cama e baixei minha cueca boxer, expondo o
quanto eu a queria. Ela me encarou com olhos famintos, mordendo o lábio
inferior.
Segurei-a pelos quadris e a puxei para mim, encaixando-me nela.
Sentindo seu corpo apertar-se ao redor do meu.
― Ah Adrian – ela reclamou – devagar.
Deus eu não podia ir devagar. Eu não conseguia parar. Eu queria
mais. Eu estava completamente dentro dela e eu queria mais.
― Amor você precisa relaxar. Relaxa para mim. Relaxa.
Eu a tocava com o meu dedo, enquanto penetrava fundo nela. Eu queria
me satisfazer, mas eu queria que ela gostasse também.
― Ah Adrian! Ah Adrian! – Não eram mais reclamações. Eram gemidos. –
Ah meu Deus! Adrian!
― Isso amor, geme o meu nome, geme.
Não demorou muito para que eu sentisse as primeiras ondas de prazer
de Laura. Podia senti-la mais quente, mais úmida, ondulando em torno de
mim e assim eu não me contive, deixando meu próprio prazer explodir.
Deitei-a sobre meu peito. Cansada, satisfeita, minha. Laura respirava
devagar, suave, tranquila.
― Adrian? – Ela perguntou.
― Sim.
― Só tenho uma condição.
― Diga anjo.
Ela se virou e fitou meus olhos. Havia um sentimento ali que eu não
conseguia reconhecer. Era algo tão doce e gentil. Eu faria tudo que ela
quisesse.
― Enquanto você estiver comigo – ela disse devagar – não quero dividir
você.
Eu sabia exatamente do que ela falava. Eu sentia o mesmo. Não tinha
intenção alguma de dividir Laura, mas decidi brincar.
― Não será possível, anjo, você sabe, tem uma garota em minha vida e eu
não posso abrir mão dela.
Laura continuou me encarando e eu continuei.
― Sabe como é, jovem, bonita, lindos olhos cor de caramelo. Um fascínio
obscuro por tranças.
Laura sorriu, batendo a mão em meu peito.
― Bobo! Não quero que abra mão dela. Nem eu sei se quero abrir mão dela.
– Laura brincou.
― Ótimo porque ela espera você e eu para uma exposição de bonecas
amanhã.
Capítulo 13

Laura
Se alguém me contasse como Adrian Van Galagher se comportou em
um shopping lotado de garotas correndo e gritando por causa de bonecas, eu
diria que essa pessoa estava completamente louca. Mas ali, encarando com
meus próprios olhos, eu quase podia rir da situação, não fosse a quantidade
de olhares fulminantes de mães desacompanhadas.
Collin, sentado ao meu lado, tentava brigar desesperadamente com o
sono e terminar o sorvete.
― Querido, desse jeito você vai acabar lambuzando a sua testa! – Eu disse e
peguei o potinho das suas mãos. – Prometo que deixo você comer mais
sorvete depois que você acordar.
Ele estendeu os braços em minha direção e eu o segurei. Não
precisamos de muito esforço para que ele se aconchegasse sobre o meu peito
e fechasse os olhos. Collin tinha uma doçura latente, arraigada. Ele parecia
tão bom e gentil que me fazia querer apertá-lo ainda mais em meu colo, seu
corpinho de frente para o meu, as perninhas uma de cada lado da minha
cintura, debruçado contra o meu peito. Fiquei acariciando seus cabelinhos
castanhos até John se sentar ao meu lado.
― Desse jeito o garoto vai babar na sua blusa – ele me disse displicente,
passando a mão pelo cabelo.
― Não me importa que ele babe, – disse beijando o topo da cabecinha de
Collin que já dormia, – ninguém nunca disse a você que baba de bebê é
limpinha.
John sorriu, mostrando um par de covinhas que certamente encantava
um monte de garotas por onde ele passava.
― Eu limpo a boca desse garoto desde que ele nasceu e acredite, não é
limpinha. – Ele disse me imitando. – Mas se você acha – ele continuou – o
pirralhinho parece feliz.
Eu estava encarando Adrian, ao lado de uma pequena cadeira rosa,
vendo Hanna pentear o cabelo vermelho de uma boneca sereia, quando John
me pegou no pulo.
― Então – ele começou – não vai me dizer que ele pegou você com essa cara
de pai paciente.
Sorri.
― Ele não me pegaria com essa cara de paciente em nenhuma situação –
brinquei – eu trabalho com ele, lembra?
John sorriu e algo no seu sorriso torto me dizia que ele não estava bem
convencido do tipo de relacionamento entre Adrian e eu.
― Margarida me perguntou sobre você – ele começou.
― Garoto você não chama ninguém pelo grau de parentesco não? – Eu disse
achando graça.
Ele cruzou os braços sobre o peito, deslizando na cadeira, cruzando as
pernas sem pressa.
― Posso chamar você de madrasta, caso você prefira, mas sei lá, não acho
que combine com seus lindos olhos castanhos.
Engasguei. Tossi. E limpei a garganta, sentindo minhas bochechas
corarem.
― Ah tudo bem Laura! – Ele me disse sorrindo. – Não é como se não fosse
meio óbvio?
Oh meu Deus! Eu estava sendo óbvia – e ridícula. E agora a ex-sogra
megera provavelmente me odiava, e eu estava colocando tudo a perder.
― Eu disse a ela que você era a advogada do papai, – ele disse, cortando
minha pequena confusão mental, – não acho que ela tenha se convencido,
mas eu disse.
Eu não sabia mais o que dizer. Estava ali, engasgada com a situação.
Minha mão parada sobre a cabeça de Collin, quase sem respirar. Quando a tal
Margarida chegou.
Ela era elegante, bem vestida, bonita. Cabelos curtos e escuros,
levemente ondulados. Olhos verdes. Não muito alta, nem baixa. Corpo
elegante. Imaginei que Patrícia deveria ser uma mulher bonita. Ela parou ao
lado de John, com as mãos sobre os ombros dele.
― Hanna parece feliz – ela mencionou me ignorando.
― Ela gosta do Sr. Galagher.
Eu não sabia se deveria dizer algo, ou se continuava fingindo que não
estava ali. Senti-me meio estranha, meio invadindo uma família que não era
minha. Fiquei em silêncio.
― Vejo que tem jeito com crianças, Srta. Soares, – ela disse, dirigindo-se a
mim.
― Laura – respondi – pode me chamar de Laura.
― John disse que você é brasileira Laura – ela constatou.
― Sim, sou. Sou daqui mesmo de São Paulo.
― Entendo – ela concluiu – e o que seu namorado acha de sua viagem às
pressas com Adrian? Sim, porque imagino que uma moça bonita como você
tenha um namorado.
John abafou uma pequena risada tossindo e eu quis pisar em seu All
Star de propósito.
― Não senhora, infelizmente meu trabalho não me deixa muito tempo para
encontros – desconversei.
― Seu trabalho ou Adrian Van Galagher?
Pronto! Eu estava sofrendo uma possível tentativa de inquisição
espanhola, ali, na cadeira do shopping.
― O Sr. Galagher é bastante exigente. – Pontuei. – Ele exige muito
profissionalismo e velocidade em seus negócios.
Eu queria parecer polida, distante, reservada. Não queria que a
mulher pensasse que eu estava na cama de Adrian Van Galagher – porque eu
estava.
Adrian se levantou e pegou Hanna no colo, caminhando até nós. Eu
queria beijá-lo por me salvar da megera. E queria beijá-lo porque ele parecia
incrivelmente sexy de jeans e camiseta segurando a filhinha nos braços.
― Margarida – ele cumprimentou e ela respondeu com um aceno de cabeça.
― Vejo que as crianças estão se divertindo – ela constatou.
― Espero que sim – ele disse sorrindo e batendo a mão livre nos cabelos –
porque eu acho que tenho gliter em todo o meu cabelo.
Ela não respondeu. Virou-se para mim calmamente.
― Acha que pode ajudar Adrian com as crianças esta noite, Laura? – Ela me
perguntou, pegando todos de surpresa. – Eu tenho um jantar e não consegui
uma babá para cuidar de Hanna e Collin.
Meus olhos correram de Margarida para Adrian. Eu podia notar um
sorriso discreto em seus lábios.
― Sim papai! – Hanna gritou, segurando as bochechas de Adrian. – Sim!
Sim! Sim!
Collin se mexeu e eu o ajeitei novamente, puxando-o mais para cima.
― John provavelmente irá à casa da tal garota misteriosa – ela continuou – e
eu não quero deixá-los apenas com a empregada.
― Eu vou? – John disse meio sem entender.
― Você sempre sai John Albert. Sempre. Aliás, preciso ter uma conversa
com seu pai sobre seus hábitos noturnos.
― Bem, acho que é minha deixa – John disse rindo e se levantando – eu
definitivamente não quero participar dessa conversa. Amo você – ele disse
beijando a avó – e estou quase amando você – ele disse me beijando. – Já
você eu não vou beijar não, cara, – ele disse para o pai – mas pelo jeito vejo
você em casa mais tarde.
Fiquei encarando John se afastar, meio sem saber o que eu deveria
dizer.
― Acha que pode Laura? – Margarida repetiu.
― Claro! Respondi. Eu adoraria – eu disse sorrindo – assim eles poderiam
ficar mais tempo com o pai.
― Ótimo. Vamos até o estacionamento que eu preparei uma bolsa para cada
um deles.
Adrian colocou Hanna no chão e pegou Collin do meu colo. Ajeitou-o
nos braços e eu dei a mão para Hanna. Margarida seguiu em silêncio,
correndo os olhos entre Adrian e eu. Eu não sabia se gostava de ser avaliada
assim, especialmente em uma situação tão delicada.
Pegamos as bolsas e a cadeirinha de Collin. Ajeitamos os dois no banco
do carro de Adrian e seguimos para casa. Assim que Hanna desceu, cantando
e dançando pelo jardim, Elza correu para nós.
― Não acredito que eles estão aqui, Sr. Galagher! – Ela disse sorridente. –
Que felicidade!
Hanna sorriu com a mochila das princesas nas costas.
― Você sabe fazer bolo de chocolate? – Ela perguntou para Elza.
― Com cobertura de marshmallow. O que me diz? – Ela perguntou a Hanna.
― Ela dirá que você é o novo amor da vida dela, Elza. – Adrian brincou.
― Se você fizer esse bolo eu vou dizer que você é o amor da minha vida
também, Elza! – Constatei. – Eu simplesmente amo chocolate!
Adrian pegou Collin na cadeirinha e subiu com ele para o quarto.
― Eu estou tão feliz. – Hanna me disse enquanto entravamos.
― É mesmo? – Perguntei. – Isso é muito bom querida. Sei que seu pai está
muito feliz também.
Eu a levei pela mão até a sala.
― Vem – ela me disse – vou mostrar a você o meu quarto.
Subimos pelas escadas e caminhamos até o corredor. Do lado oposto ao
quarto de Adrian, Hanna abriu a porta. Era o sonho de qualquer garota de seis
anos – rosa, todo rosa.
― Acredita que nem me lembrava deles? Ela me perguntou abraçando os
ursinhos em cima da cama.
Não pude deixar de sorrir, mas não era um sorriso feliz. Era triste
pensar nessa divisão que existia na vida deles. Eu queria que Adrian
resolvesse os problemas com a megera e que tudo isso pudesse ficar no
passado. Tenho certeza que era o que Patrícia queria também.
― Ah! Não se preocupe querida, – eu disse me abaixando ao nível dela, – sei
que eles entendem.
Hanna abriu os braços e se lançou sobre mim, afundando a cabecinha
nos meus cabelos.
― Laura eu estou tão feliz, mas não é só por causa do papai! – Ela me disse
ainda sem me olhar.
― Não querida? E porque você está tão feliz assim? – Eu disse fazendo
cosquinhas nela.
Ela ajeitou os cabelos bagunçados com as mãos e suspirou.
― Eu sempre quis uma mãe, sabia?
Engoli em seco todo o bolo de sentimentalismo que surgiu dentro de
mim. Suspirei profundamente, encarando seus olhinhos amendoados. Sorri.
― Eu não me lembro da mamãe, – ela continuou – quer dizer, eu lembro um
pouco. Mas às vezes é tão difícil lembrar. Papai me deu um retrato dela. Ele
disse que quando estivesse difícil de lembrar eu poderia olhar a fotografia.
Senti as lágrimas se formarem lá no fundo da minha garganta e as
engoli, afastando dos olhos.
― É uma boa coisa Hanna. Assim você pode se lembrar de todos os detalhes
da sua mãe.
Ela pensou por um instante e depois sorriu com toda a sua inocência.
― Você pode ser a minha mãe se você quiser!
Laura, Laura! Terreno perigoso, muito perigoso. Controle seus
sentimentos! Não seja estúpida. Adrian já deixou muito, muito claro que não
é por esse caminho que as coisas seguirão – eu disse mentalmente.
― Eu não posso ser sua mãe Hanna – comecei devagar – porque você já tem
uma mãe, mesmo morando no céu. Mas – continuei sorrindo – eu posso ser
uma amiga muito, muito especial para você! Com que você sempre poderá
contar.
― Uma amiga quase mãe? – Ela insistiu.
Sorri, vencida.
― Sim querida, quase mãe!
― Ótimo porque uma quase mãe é melhor que nenhuma mãe.
Deixei Hanna na cozinha com Elza. Banho tomado, cabelo penteado,
pijama vestido, e subi para o quarto de Adrian.
Ele estava na cama. Cabelos molhados, penteados para trás, camiseta
regata branca e uma calça de exercícios. Collin aconchegado em seu peito,
folheando um livro colorido. Parei no batente da porta e sorri.
― O que acha de se juntar a dois homens elegantes na cama? – Adrian
brincou.
― Parece um bom convite – respondi.
Deite-me ao lado de Collin, deixando-o entre nós dois.
― É uma história de piratas – Collin me disse – papai conta muito bem. Ele
faz a voz do pirata de um olho só ficar engraçada.
― Ah! Eu tenho certeza que faz Collin.
Algumas páginas mais tarde, Hanna entrou, segurando uma bandeja
cheia de bolo de chocolate.
― Oba! Oba! Oba! – Ela dizia olhando para os pedaços.
― Não pense que irá comer besteiras todos os dias. Certo, mocinha? –
Adrian disse sentando-se e arrumando Collin. – Estamos abrindo uma
exceção hoje.
Ela bufou, mas concordou, assentindo enquanto mastigava o bolo.
― Papai você sabia que Laura topou ser minha quase mãe?
Tossi, engasgada com o bolo de chocolate. Adrian riu alto, não sei se de
mim ou de Hanna.
― É mesmo?
― Sim.
― Ela disse “quase mãe” porque eu já tenho a mamãe no céu. – Hanna
explicou.
― Isso mesmo anjinho, você tem a mamãe no céu.
― Laura você quer ser minha mamãe também? – Collin perguntou.
Estávamos ali, em uma daquelas situações difíceis que casais com
filhos têm e nós nem éramos um casal propriamente dito. Encarei os olhos
verdes de Collin, tão claros e delicados.
― Laura eu também quero que você seja minha mãe. – John disse
aparecendo na porta. – Mas acho que ninguém vai acreditar, então você pode
ser a minha prima sexy do Canadá – ele brincou – ou você pode ser a
namorada jovem, muito jovem do meu velho pai.
Sorri.
― Bobo!
Adrian não sorriu. Pareceu mastigar o bolo por tempo demais,
encarando John. Olhou no relógio.
― Um pouco cedo para um boêmio principiante – brincou.
― Sabe como é, estou cansado das mesmas garotas. – John brincou de volta.
– Pensei em dormir mais cedo. Acho que é uma crise de saudades de casa. Se
não passar, me interne!
Eu podia ver um pequeno sorriso se formar nos lábios de Adrian,
acompanhado pelo sorriso torto de John. Era engraçado e intenso como os
dois se relacionavam. Quase como irmãos.
John girou nos calcanhares e se afastou da porta. Colocou a cabeça de
volta no batente um segundo depois.
― Sr. Galagher, – ele disse – acha que ainda consegue tocar guitarra?
Adrian levantou uma sobrancelha. Não sorriu, mas o sorriso estava ali,
em seus olhos, admirando o filho na porta.
― Dizem que é como andar de bicicleta.
― Será que a gente podia praticar um pouco amanhã? – John concluiu.
― Claro filho. Quando você quiser.
John sorriu. Era um sorriso falso e sem humor, mas o sorriso verdadeiro
também estava ali, em seus olhos.
― Ah! E pai? É bom estar em casa.
Adrian
Acordei com Hanna e Collin em minha cama. Sentei-me devagar, para
não os despertar e fiquei observando enquanto dormiam. Eu estava feliz, mas
havia uma sensação ruim, bem lá no fundo do meu peito que me dizia que
amanhã eu teria que deixá-los e eu não estava preparado para isso.
Procurei por Laura no quarto de hóspedes, mas não a encontrei. Desci
as escadas e escutei vozes na cozinha. Três vozes, distintas e conhecidas,
rindo e brincando em uma linguagem que eu não entendia. Sorri – eu
precisava aprender esse maldito português logo, ou meu filho acabaria
colocando Laura contra mim.
― Eu agradeceria se todos nós pudéssemos falar em um idioma comum, –
praguejei pegando uma xícara e enchendo de café, – eu odeio ser insultado
em línguas estrangeiras pela manhã.
― Nós estamos no Brasil, – Laura começou – portanto, não é exatamente
uma linguagem estrangeira.
― Muito boa Laurinha! – John concluiu.
Levantei uma sobrancelha para ele, em silêncio, e concentrei meu olhar
em Laura.
― Bom dia Srta. Soares – eu disse provocativo.
― Bom dia Sr. Galagher – ela respondeu.
Nossos olhares estavam fixos um no outro. Não era fácil esconder tanta
atração, especialmente se eu não estava disposto a fingir. Não para John, nem
para Elza. Meu filho já era um homem. Além disso, ele já tinha me visto com
outras mulheres.
Caminhei até Laura, encostada no balcão de refeições, John estava do
outro lado, sentado sobre uma banqueta, comendo um pedaço de pão doce.
Parei na frente de Laura, perto demais, vendo-a sem jeito, sem
entender. Levei a mão até seu rosto, e a puxei para mim, pela nuca.
Mordendo seu lábio inferior e trazendo seu corpo para o meu com a outra
mão.
― Adrian! – Ela xingou.
Apertei minha boca na dela, mordendo seus lábios, brincando com ela.
― Adrian! – Ela repetiu, tentando se soltar.
― O que foi amor? Acha mesmo que ele não sabia? – Eu ri alto. – Anjo, você
é ingênua demais para o seu próprio bem.
― Ok pai – John me disse levantando para pegar uma maçã – já provou seu
ponto. Você é o macho alfa soberano.
Beijei o rosto de Laura e a apertei contra o meu peito.
― É sempre um prazer esclarecer as coisas para você Johnny.
John sorriu – era um apelido antigo, de quando ele ainda era criança.
Era um pequeno elo com o passado. Fazia muito tempo que eu não o
chamava assim.
― Papai? – Collin chamou lá de cima.
Eu estava me virando para ir vê-lo quando Laura tocou meu braço com
a mão.
― Eu vou vê-los. Aproveite o café de macho com a sua cria.
Fiquei encarando-a sumir pelo corredor, com a caneca de café na mão.
― Sério Sr. Galagher, esta sua cara de bobo quando olha para ela é
engraçada.
― Que cara de bobo garoto? Perdeu a noção do perigo? Acha que só porque
tem quase – eu frisei bem – a minha altura pode falar comigo como se eu
fosse um de seus amigos?
Não era uma bronca de verdade. Era uma brincadeira mascarada de
bronca. John me conhecia o suficiente para saber disso. Ele sabia que no
fundo eu só queria tirar a atenção do verdadeiro foco – Laura.
― Você é pai – John me disse.
Ele abriu a porta que dava para o jardim. E saiu pela calçada.
― O que eu sou garoto insolente?
― Um dos meus amigos – ele disse com aquele maldito sorriso que fazia
meu coração derreter – um dos melhores. Está entre os cinco mais.
Sorri sem querer.
― E pai – ele continuou, já de costas para mim – ela é uma garota legal. Não
estraga essa, ok?
Atirei uma uva em suas costas, em cheio, entre as omoplatas.
― Por acaso você anda falando com o Alex, garoto? – Brinquei.
― Algumas vezes.
― Pois eu vou cancelar sua conta de telefone celular.
Eu tinha mandado construir um pequeno estúdio no quintal, quando
John aprendeu as primeiras notas. Ele estava indo até lá, eu sabia disso. Eu
havia dito que tocaria com ele. Era um pequeno momento entre pai e filho.
Era o jeito dele de reclamar um pouco da minha atenção. Não era fácil, tendo
dois irmãos tão pequenos. John acabava sempre negligenciado. Hoje eu não
faria isso. Já que eu tinha Laura comigo, eu me dedicaria a ele.
Terminei meu café e caminhei até o estúdio. John estava sentado com
a velha guitarra no colo. Era a que ele havia pedido que eu trouxesse. A que
ele mais amava. Uma guitarra que eu havia comprado muito tempo atrás.
Fechei a porta e me sentei no sofá ouvindo-o tocar.
Era uma melodia conhecida, “Red House”. Uma música que eu
costumava tocar para ele quando era pequeno, antes de Hanna nascer. Havia
negligenciado muito meu casamento, mas por mais que eu fosse jovem e
imaturo, meus erros com John nunca foram por falta de amor. Eu o havia
amado desde o primeiro choro. Desde o primeiro sorriso. Quando encarei
aqueles pequenos olhinhos amendoados na vitrine do berçário, eu soube que
não poderia amar nada mais no mundo do que eu o amava. E foi exatamente
assim com Hanna, anos mais tarde e com Collin também, mesmo não sendo
meu.
― Então pai? – Ele interrompeu meus pensamentos. Abri os olhos e o
encarei.
― Hendrix ficaria orgulhoso.
Ele não disse nada. Continuou tocando, mas seus olhos estavam cheios
de orgulho por ter o talento reconhecido.
Ficamos ali por um longo tempo, ouvindo a música ecoar pelas
paredes, curtindo o momento, em silêncio. Os dois. Nós não éramos homens
de muitas palavras, mas nosso silêncio era confortador.
Depois de algum tempo, John cortou o silêncio entre nós.
― Vovó anda meio triste, pai, – ele me disse – meia calada. Encontrei-a
chorando outro dia. Ela estava com uma foto da mamãe nas mãos.
Senti meu peito se apertar. Pensar em Patrícia ainda me fazia sofrer.
Era um erro que eu não podia consertar, por mais que tentasse.
Suspirei, encarando os olhos do meu filho. Eu sabia que ele sofria tanto
quanto eu.
― Eu queria que as coisas tivessem sido diferentes, filho, – eu disse – eu
realmente queria. Queria ter sido um marido melhor. Um pai melhor.
― Acho que você vai ter seus pedidos atendidos, Sr. Galagher, – ele me disse
erguendo a sobrancelha exatamente como eu fazia.
Eu sabia que ele falava de Laura, mas não sabia como explicar a ele que
eu não estava disponível para isso. Eu não queria outro casamento. Outra
esposa infeliz, suportando minhas manias e meu gênio ruim. Eu gostava de
ser apenas eu. Gostava de mandar em minha casa e em minha vida. Eu não
era bom em dividir as coisas.
― Não estraga essa, ok pai? – Ele repetiu. – Sério! Não estraga.
― Acho que você fala demais porque só sabe tocar essa maldita música – eu
disse encerrando o assunto.
John sorriu. Um riso alegre e aberto, alto, realmente feliz.
― Deixa-me dar uma volta na sua moto que eu toco o que você quiser – ele
provocou.
― Faça dezoito anos e tenha uma habilitação e eu deixo você dirigir o que
você quiser. – Eu disse vendo seus olhos se acenderem. – Menos o meu
Porsche – conclui.
― Essa é uma coisa que me faria voltar à Holanda, Sr. Galagher.
― Minha moto? – Perguntei.
― Não. Seu Porsche.
Hanna entrou pela porta como o pequeno furacão que era.
― Papai! Papai! Papai! – Ela disse pulando sobre mim.
― Sim anjo. Diga.
― Vovó está aí.
Eu não queria entregá-los. Não estava preparado ainda. Eu havia rezado
a noite toda para que Margarida só aparecesse no final da tarde. Eu queria
aproveitar o último dia com eles. Queria aproveitar cada minuto.
Olhei para John e ele para mim. Nós dois sabíamos exatamente o
quanto custava mais uma separação.
Peguei Hanna no colo e saí para o jardim. Laura estava sentada no deck
da piscina com Collin, Margarida em pé, observando.
― Bom dia Margarida – eu disse.
― Bom dia Adrian.
― Pensei que viria mais tarde – continuei – eu havia prometido a Hanna que
brincaríamos na piscina.
Margarida me analisou por alguns segundos. Olhos pesados, profundos.
Havia algo diferente ali. Algo que eu não conseguia decifrar. Ela não parecia
mais a mesma mulher forte e poderosa, disposta a brigar por tudo e todos.
Desde que eu a havia visto, no dia em que chegamos eu percebi algo
diferente nela. Ela encarou Hanna demorando-se por um tempo longo
demais. Correu os olhos até Laura e Collin. John a puxou em um abraço.
― Bom dia! Bom dia Sra. Tavares! – Ele disse beijando sua testa. – Faz um
lindo dia hoje, não acha?
Ela sorriu.
― Acho sim, pequeno Sr. Galagher. Acho que faz um lindo dia.
Sua cabeça pendeu levemente contra o peito de John e eu quis entender
o que havia de errado. Eu não tinha nada contra ela. Nada além do fato de ela
querer roubar meus filhos de mim. Eu nunca quis afastá-los dela. Nunca quis
que se esquecessem da mãe ou da família dela.
― Papai eu não quero ir embora – Collin choramingou.
― Mas você precisa filhote. Sua avó deve ter algum compromisso por isso
veio buscá-los – eu disse baixando até ele.
― Na verdade – Margarida interrompeu – eu não vim buscar as crianças.
Vim convidar Laura para almoçar.
Meus olhos correram direto para Laura e os dela para mim. Nenhum de
nós fazia ideia do que isso significava.
Capítulo 14

Laura
Encarei os olhos de Adrian porque, sinceramente, eu não sabia se
queria ouvir o que a tal Margarida queria me dizer.
E lá estava o fantasma do meu dedo podre para a felicidade, rondando
minha vida novamente.
― Então Laura – ela disse, dirigindo-se diretamente a mim e em português –
almoça comigo?
― Bem, – comecei rezando para que Adrian ou qualquer um me ajudasse a
terminar a frase – não sei se seria possível. Adrian e eu temos alguns
negócios a resolver – conclui.
Os olhos amendoados de Adrian eram confusos quando ele começou a
falar.
― Acho que – ele disse mais lento do que o costume – acho que seria bom
Laura. Eu posso resolver os... – Ele fez mais uma pausa para que tentássemos
conversar nas entrelinhas. – Os assuntos que discutiríamos hoje.
Não tínhamos assunto algum para discutir hoje! – Só para esclarecer.
― Então – eu disse ainda olhando mais para ele do que para Margarida –
acho que seria bom. – Não tinha certeza, mas não sabia como dizer o
contrário.
― Ótimo! – Margarida disse passando os olhos entre Adrian e eu. – Podemos
ir? Eu queria algum tempo para conversarmos.
― Claro! – Eu disse me levantando. – Vou me vestir e podemos ir.
Subi as escadas meio sem saber o que pensar. Era estranho almoçar
com a mãe da ex-esposa do meu seja lá o que for que fôssemos. Vesti um
jeans e uma blusa de botões. Calcei sandálias de saltos altos e amarrei meu
cabelo em um coque folgado. Estava terminando de passar o rímel, quando
Adrian entrou e fechou a porta do banheiro.
― Laura, – ele disse atrás de mim, seu reflexo preocupado no espelho, – não
faço ideia do que Margarida quer. Realmente não faço.
Virei-me de frente para ele. Eu sabia que ele estava nervoso. Se era
difícil para mim, para ele era pior. Ele suspirou e continuou.
― Quero que tome cuidado com essa conversa. John me disse que ela
demonstrou interesse em nossa relação. Não sei como ela reagiria se soubesse
de algo.
Sorri.
― Não se preocupe Sr. Galagher. Tudo que a Sra. Tavares saberá é que eu
trabalho com o senhor, e nada mais. Sigilo é um direito do cliente, caso não
se lembre.
Adrian sorriu, prensando-me contra a bancada da pia. Sua boca
passeando pelo meu pescoço, arrepiando minha pele. Ele mordeu todo o
caminho até minha boca e puxou meu lábio inferior entre os seus.
― Hum – ele gemeu – o sabor do profissionalismo deixa você ainda mais
gostosa, minha linda advogada.
Cruzei meus braços em suas costas, por baixo dos braços, puxando-o
para mim. Adrian apertou o ritmo do beijo, invadindo minha boca com sua
língua. Arrancando um gemido involuntário do fundo da minha garganta.
Suas mãos na base da minha coluna.
― Acho melhor pararmos por aqui, Sr. Galagher, ou a pobre mulher vai
morrer de fome.
Adrian sorriu.
― Se tiver qualquer problema, amor, ligue em meu celular e eu resolvo. Não
se deixe intimidar por Margarida. Ela pode ser bem arrogante quando deseja.
Quando saí pela porta, eu estava em um misto de desespero e excitação
pelo que ouviria. Seria interessante ouvir alguém que não gostava, admirava
ou queria ir para a cama com Adrian falar dele.
Entramos em um carro com motorista e saímos pelas ruas da cidade. O
motorista parou em frente ao restaurante Fasano nos Jardins. Eu não
conhecia, óbvio, quando saí do Brasil, meu salário mensal mal pagava um
almoço no Fasano.
Descemos do carro e nos sentamos em uma mesa.
― O que gosta de comer, Laura? – Ela me perguntou.
― Não tenho restrições quanto à comida – eu respondi – eu realmente como
de tudo. Tem algo a me recomendar?
Eu queria ser simpática. Não queria começar minha relação com a
mulher parecendo sisuda e chata. Eu nem tinha motivos para isso, ela havia
sido simpática comigo desde que nos conhecemos.
― Neste caso – ela continuou – tenho sim. ― Ela indicou um prato no
cardápio e eu li. – Minha filha adorava este.
Era um prato com cogumelos. Parecia uma ótima opção.
― Parece bom – eu disse e sorri.
― Sei que pode parecer um pouco ridículo recomendar algo a você que
Patrícia gostava, mas acredite, ela tinha um gosto apurado.
Margarida sorriu sem humor. Eu podia sentir a dor e o sofrimento por
trás das suas palavras.
― Não vejo porque seria ridículo. – Eu disse fechando o cardápio. – Se é um
bom prato, então, ficarei feliz em experimentar.
― Fico feliz que pense assim. Não queria que Adrian apagasse minha filha
da vida dos seus filhos. Sei que você pode ajudá-lo com isso.
Era uma preocupação genuína. Eu podia compreender perfeitamente as
razões que a levaram a ter esse medo. Eu sabia da traição, mesmo que não
fosse por Adrian.
― Não penso que ele tenha essa intenção, Margarida. – Eu disse.
― O quanto você sabe da relação de Adrian com minha filha, Laura? – Ela
me perguntou.
Pensei por um tempo curto, o suficiente para dizer a coisa certa, sem
me complicar depois.
― Sei o suficiente.
― Então sabe que ele a traiu repetidas vezes. Sabe que a deixava sozinha
repetidas noites. Que era agressivo e que sempre deixou claro o quanto era
machista e retrógrado. E deve saber também, que bem, – ela parou a frase no
meio procurando pelas palavras certas, – o relacionamento íntimo deles era
um pouco – mais uma pausa – intenso demais.
Senti o rubor correr por minhas faces. Eu sabia de algumas dessas
coisas, imaginava outras, mas ouvir dela era bem desconfortável.
― Tenho certeza de que ele não age assim com os filhos.
― Esse Adrian que eu vi nos últimos dias, Laura, é completamente
desconhecido para mim. Resta saber qual dos dois é o verdadeiro Adrian.
Bebi um gole do vinho.
― Bem, eu o conheço há pouco tempo, – continuei – mas, não o vejo tendo
nenhuma dessas atitudes com os filhos. Sei que ele os ama muito.
― Eu tenho acompanhado muitos dos relacionamentos de Adrian desde a
morte de Patrícia. – Ela disse mudando de assunto. – Devo dizer que a
senhorita não se parece com nenhuma das possíveis namoradas.
― Não sou namorada de Adrian, Margarida. – Eu disse taxativa.
― E por que, não é?
Wow! Pergunta interessante! – Por que eu não sou? Ah, sim, porque
Adrian Van Galagher não tem relacionamentos.
― Não sei o que pensa que está acontecendo, mas posso garantir... –
Comecei e fui interrompida.
Margarida cobriu minha mão com a sua sem me dar tempo de impedir.
― Eu penso que você conseguiu em algumas semanas, uma mudança que
Patrícia tentou por anos.
Engoli o vinho de uma vez, sentindo o álcool queimar minha garganta
em seu caminho de ida. Eu queria sorrir, meu coração se enchendo de algo
perigoso. Foco Laura, foco!
Nossos pratos chegaram e nos fizeram adiar a conversa por um
momento. Dei a primeira garfada em meu medalhão com cogumelos.
― Acho que sua filha tinha realmente muito bom gosto para comida. – Eu
disse sorrindo e tentando uma trégua em nosso assunto complexo.
Margarida deu uma garfada em seu salmão e bebeu o vinho.
― Adrian está apaixonado por você, Laura. Eu teria que ser muito cega para
não perceber.
Engasguei. Tossi. Cobrindo minha boca com o guardanapo de linho.
Sentindo as lágrimas aparecerem pelo engasgo. Bebi meia taça do vinho em
uma única golada.
― E eu diria, pela sua reação, que também está apaixonada por ele.
Limpei a garganta. Limpei a boca com o guardanapo e respirei fundo.
― Margarida, – comecei – Adrian e eu não vamos por esse caminho. Eu
realmente o admiro muito. – Tentei parecer confiável. – Sei que ele gosta do
meu trabalho, mas não acho que as coisas sejam assim.
Margarida suspirou profundamente, abriu a bolsa e retirou alguns
papéis. Entregou-os a mim.
Peguei as folhas e comecei a ler. Eram exames. Vários e vários exames
que eu não conhecia. Pareciam muito específicos.
― Patrícia tinha uma doença – ela me disse – ela era portadora da doença de
Von Recklinghausen.
*Von Recklinghausen – As neurofibromatoses, também conhecidas
como Doença de Von Recklinghausen, são doenças genéticas autossômicas
dominantes que têm em comum o surgimento de tumores benignos múltiplos
no sistema nervoso. As neurofibromatoses são de evolução progressiva e
imprevisível.

Fiquei em silêncio. Eu não conhecia a doença, sabia apenas que ela


tivera um tumor na cabeça inoperável e que morreu por isso. Encarei os
nomes no alto das folhas e eles não eram de Patrícia, eram de Margarida
Maria Tavares.
― Essa doença é hereditária – Margarida esclareceu – e agora eu fui
contemplada com o meu quinhão dessa herança. É uma neurofibromatose,
Laura. Ela pode causar tumores diversos pelo sistema nervoso.
― Oh meu Deus! – Eu disse baixinho. – Sinto muito Margarida. Eu
realmente sinto.
Eu sentia mesmo. Não pensava que ninguém merecia saber que poderia
desenvolver um tumor em algum lugar do sistema nervoso e ficar entrevado
ou morrer. E pior, que não havia nada que se pudesse fazer para evitar.
Analisei melhor os exames, constatando alguns pontos.
― Como pode ver, eu estou doente, – ela concluiu – tenho um tumor na
espinha. Eu provavelmente não vou mais poder andar em alguns meses.
Eu não sabia o que dizer. Era um daqueles momentos em que não
sabemos como fazer a pessoa se sentir melhor sem mentir, e Margarida não
me parecia o tipo que gostava de mentiras.
― Adrian não sabe de nada disso – constatei.
― Não ele não sabe. Ele nem mesmo sabe que Patrícia tinha essa doença. Os
médicos não associaram o tumor à doença na época, porque ninguém em
nossa família havia desenvolvido o problema. Ou pelo menos não que
soubéssemos.
― Margarida. Sei que a medicina está evoluindo rapidamente. Quem sabe em
alguns anos não seja possível reverter o quadro.
Eu queria dizer algo que a deixasse mais animada.
― Não estou preocupada comigo Laura. Eu sou uma mulher velha. Mais dia,
menos dia eu não iria mesmo poder andar – ela disse sem pesar. Não parecia
mesmo preocupada com o problema – Eu tive muito medo que meus netos
tivessem a mesma falta de sorte da mãe deles, Laura. A razão para eu tê-los
segurado no Brasil foi essa.
Oh meu Deus! Então era isso! Não era dinheiro. Nem raiva ou mágoa.
Na verdade, não tinha nada a ver com Adrian. Ela estava preocupada com os
netos.
― Sei que deveria ter conversado com Adrian, – ela começou, tirando as
palavras da minha boca, – mas você deve entender que aquele homem que eu
conheci não era exatamente o que eu esperava para criar meus netos
sozinhos. Eu esperei que a morte de Patrícia amadurecesse Adrian, mas isso
foi lento demais. Ele não estava preparado para enfrentar um problema como
esse. Agora que ele tem você – ela me disse, segurando minha mão
novamente – sei que você o ajudará nessa tarefa complicada.
Engoli as palavras de Margarida com medo de que viria seguir. Era
uma pergunta para a qual eu não saberia se gostaria da resposta. Mesmo
assim, perguntei.
― Está tudo bem com as crianças?
Margarida respirou fundo, fazendo a saliva travar em minha garganta.
― John Albert e Hanna têm genes fortes. Parece que o sangue dos Van
Galagher é realmente ruim.
Era uma piada, mas nós duas não rimos.
― E Collin?
Minha mente passava e repassava a imagem daqueles lindos olhinhos
claros e eu queria chorar antes mesmo de saber.
― Collin não teve a mesma sorte.
Soltei os papéis sobre a mesa, vendo-os espalharem-se sobre o tampo,
sentindo as primeiras lágrimas brotarem.
― Ah não, Laura, não se preocupe. Collin está bem. Ele não tem indícios de
tumores. Tem um crescimento normal. O que acontece é que foram
encontradas algumas células anômalas, elas podem indicar que ele é portador
da doença. Isso não significa que ele irá desenvolver algo ou quando irá
desenvolver.
Eu não conseguia parar de chorar, sentindo as lágrimas virem mais e
mais rápido para fora dos meus olhos. Eu não podia crer que depois de todo o
sofrimento que aquele pequeno garotinho tinha passado ele ainda teria que
enfrentar tudo isso.
― Entende porque eu os queria aqui? – Ela me perguntou. – Eu queria
protegê-los. Queria ter certeza de que tudo estava bem.
Assenti.
― Eu não queria entregar Collin para Adrian porque não sabia se ele
realmente se comprometeria com os tratamentos preventivos dele. Eu tive
medo que ele apenas os entregasse a uma babá e continuasse vivendo sua
vida, como fez, durante todo o casamento.
Fazia certo sentido. Se eu conhecesse esse Adrian a quem ela se referia,
eu teria pensado o mesmo. Não era como uma briga por herança ou coisa
assim – eles eram os netos dela, eram tudo que restou da sua única filha.
Sorri.
― Eu compreendo.
― Nesses últimos dias, Laura, esse novo homem que eu conheci, bem, acho
que ele tem o direito de criar os filhos e o fará muito melhor que uma pobre
velha entrevada em uma cadeira de rodas.
Toquei sua mão com a minha.
― Vou desistir da guarda de Collin. – Ela me disse. – Mas vou fazer isso
com uma condição.
Continuei escutando, enquanto estendia-os de volta para ela.
― Quero que Adrian se case com você.
Derrubei as folhas dentro do prato de salmão de Margarida.
― Oh Deus! – Exclamei. – Desculpe-me, Margarida.
Margarida sorriu.
― Não se preocupe, o almoço era o menos importante. Eu só queria que
soubesse o que eu tinha em mente antes de Adrian. Eu não quero forçá-la a
nada Laura, mas preciso de garantias sobre o futuro dos meus netos.
― Margarida de tudo que eu podia sequer pensar em ouvir, isso
definitivamente, não está nem perto. Não sei nem o que dizer. Como
advogada de Adrian... – Comecei, mas ela me interrompeu.
― Como advogada do Sr. Galagher eu, sinceramente, não sei o que deve
pensar a respeito do que eu lhe disse, mas e como mulher, Laura? Eu não sou
cega, sei que Adrian é um homem muito bonito, envolvente, poderoso. O que
pensa de se casar com ele?
― Eu não sei. Não pensei no assunto. – Menti. – Eu realmente não pensei em
nada do tipo com Adrian... – Menti de novo. – Como eu lhe disse, nosso
relacionamento é profissional. – Mentira, mentira, mentira.
Uma avalanche de mentiras, revirando o pouco de comida que eu tinha
colocado para dentro.
― Se disser que não me quer... Que não deseja nem de longe ser a Sra.
Galagher, eu não vou dizer nada e veremos o que fazer no caso de Collin.
Hanna e John podem voltar à Holanda quando quiserem. Não quero ser
acusada de sequestro Inter parental, nem de retenção indevida. Você só
precisa me dizer que não Laura.
Eu não disse nada. Não poderia.

Adrian
Parei em frente ao Parque Villa Lobos horas depois de sair com
Margarida. Minha cabeça girava tanto que eu quase não conseguia ter um
pensamento coerente. Collin estava doente. Meu menininho. Meu garotinho
tão pequeno e frágil. Meu bebê. Eu faria qualquer coisa por ele! Qualquer
coisa! Mas casar? Ela simplesmente queria que eu me casasse.
Estacionei o carro e desci. Encostei-me ao capô, deslizando as mãos
pelos cabelos. Eu nem sabia como entrar em casa e encarar Laura.
Peguei o celular no bolso e disquei.
― Então, como anda o clima nos trópicos? – Alex respondeu assim que
atendeu.
― Quente, meu amigo, o clima anda quente. Eu diria que é quase como uma
erupção do Vesúvio e eu me sinto como Pompeia.
Alex sorriu.
― Não me diga que a megera criou algum tipo de problema, – ele me disse –
se for isso eu pego um voo agora mesmo e vou até aí chutar a bunda dela com
o Código Civil.
Cocei minha barba – porque era o que eu fazia quando estava nervoso.
― Collin está doente Alex.
― Oh meu Deus! Adrian! O que ele tem? Algo que possamos fazer? Você
precisa de mim?
Suspirei – meu amigo, sempre ao meu lado.
― Por enquanto, nada que possamos fazer, mas vou mover os céus e o
inferno até encontrar algo que garanta uma vida perfeita para o meu filho.
― Minhas suspeitas a respeito de Patrícia estavam corretas?
― Sim.
― Sinto muito Adrian. Eu realmente sinto. Você sabe como eu queria estar
errado.
― Tem mais. – Continuei. – Ela quer que eu me case, Alex. – Eu disse de
uma vez.
― Quem? Laura?
― Margarida.
― Oi? Acho que não entendi. Margarida quer se casar com você?
Suspirei – eu odiava explicar as coisas.
― Não seja ridículo Alex. Margarida quer que eu me case com Laura.
― Wow – ele disse – tiro certeiro.
― Não é uma brincadeira Alexander. – Corrigi. – Margarida exige que eu me
case com Laura para ter a guarda de Collin. Esta é a condição dela. Sem
briga, sem tribunal.
Alex ficou em silêncio por tempo demais. Eu podia ouvir sua
respiração no telefone, mas ele não disse nada. Alexander me conhecia muito
bem, ninguém melhor que ele sabia o que o casamento significava para mim.
Eu não queria me casar. Eu havia jurado sobre o túmulo de Patrícia que não
me casaria mais.
― Seria algo tão ruim assim se casar com Laura? – Ele disse de repente.
Repassei as palavras em minha mente sem dizer nada. Respirei fundo,
soltando o ar dos pulmões bem devagar.
Era uma coisa ruim me casar com Laura? Laura era uma garota gentil,
inteligente. Muito bonita. Seria um sacrifício tê-la ao meu lado?
Sorri! Ela certamente tornaria os intermináveis jantares chatos em
algo mais divertido.
Eu poderia preparar um bom acordo para ela. Ela sairia desse acordo
financeiramente tranquila, e isso certamente encerraria qualquer tipo de boato
sobre seu passado. Ser a Sra. Adrian Van Galagher limparia qualquer mancha
da imprensa jogada sobre ela. E, além disso, ela ainda me livraria de
mulheres como Clair. Eu poderia conversar com Laura, acertar os detalhes
desse acordo. Talvez acabasse por ajudar nós dois. E eu poderia cuidar de
Collin muito melhor. Eu poderia levá-lo a qualquer médico, pagar qualquer
tratamento. Eu poderia garantir o melhor a ele.
― Tem razão Alex – eu disse por fim – isso pode ser uma coisa boa. Quer
dizer, um acordo interessante para nós dois. Ela pode me devolver meus
filhos e eu posso resolver todo o seu futuro. Não vejo como não possa dar
certo.
Alex suspirou.
― Não era bem o que eu tinha em mente, mas o que eu sei, não é? – Ele disse
irônico.
― Não estou entendendo Alexander, seja mais direto.
― Adrian só não se esqueça do que eu já lhe pedi.
Bufei.
― Não magoar Laura, porque ela é doce e meiga e não merece. Eu já sei
disso tudo Alexander. Estou cansado de ouvir de você e de John. É
exatamente por isso que vou assegurar os direitos de Laura em um contrato
pré-nupcial.
― Ah! Meu amigo! Você é tão inteligente e às vezes faz-se de burro, mas
tudo bem, não estou aqui para lhe julgar. O que quer que eu faça como seu
advogado, Sr. Galagher? Já que como amigo você não quer me escutar.
― Quero que prepare um bom acordo. Que seja generoso. Mande-me ainda
hoje e eu o revisarei antes de falar com Laura.
― E de quanto tempo deve ser esse acordo?
As palavras entraram por meus ouvidos e me trouxeram um turbilhão
de emoções. Quanto tempo? Quanto tempo eu queria com Laura? Cenas da
última noite passando em minha mente como um filme. Eu queria um prazo?
Afastei os pensamentos da minha mente. Não era real. Isso não era um
casamento real. Não era como se estivéssemos apaixonados. Isso era um
acordo. Era algo necessário para que eu tivesse Collin.
― Coloque dois anos como prazo. É o que eu preciso para regularizar toda a
situação de Collin.
― Mando o documento em trinta minutos.
Trinta minutos foi mais ou menos o tempo que levei para voltar até
minha casa. Entrei em meu escritório e fechei a porta. Não demorou muito
para que Alexander me mandasse o documento. Revisei-o algumas vezes. Era
uma quantia considerável em ações da minha companhia. Um milhão e meio
de euros em dinheiro para despesas emergenciais. Uma propriedade em
Amsterdã, a casa no Brasil, entre outros bens de menor valor. Era um bom
acordo.
Inclui uma cláusula sobre fidelidade. Eu queria ter certeza de que,
apesar de ser um acordo, Laura se comportaria como minha esposa. Eu não
poderia lidar com o contrário. Eu não saberia como reagir.
Li a última parte com pesar. Era uma cláusula sobre herdeiros. Ela dizia
que eu teria o direito de guarda absoluta caso viéssemos a ter um filho – o
que não aconteceria – porque, se houvesse alguma possibilidade de eu ter
outro filho, não abriria mão dele, como não abri de nenhum dos três. E dizia
também que, caso eu morresse, Laura teria a guarda absoluta dos meus filhos,
mas Alexander ainda responderia pela herança deles.
Eu não me importava com isso por dois motivos, não pretendia morrer
em tão pouco tempo, e não conhecia ninguém melhor para cuidar dos meus
filhos do que ela e ninguém melhor para cuidar do meu dinheiro do que ele.
Imprimi o documento, deixei-o sobre a mesa e caminhei pelo corredor.
Encontrei Laura saindo do quarto de Hanna.
― Pronto! Estão todos dormindo. – Ela me disse sorrindo. – Quer dizer,
menos John. Acho que ele saiu.
Sorri.
― Laura, – eu disse calmamente, – precisamos conversar.
Ela suspirou.
― Sim. Eu sei.
― Venha até o escritório.
Caminhamos até o meu escritório. Entramos. Fechei a porta e ela se
sentou em uma poltrona. Eu acendi um cigarro e soprei a fumaça pela janela.
― Não precisa fazer isso se não quiser – eu disse sem encará-la – você
realmente não precisa. Nós podemos seguir pelo caminho legal.
Laura ficou em silêncio por um tempo. Seus pensamentos estavam
longe.
― Quero que saiba que, caso aceite, teria um prazo – expliquei – não precisa
ser definitivo. Você não precisa estar nessa situação para sempre. Seria um
acordo bem estruturado.
Ela continuava me encarando sem dizer nada.
― Quero que seja bom para você Laura. Que seja um bom acordo, um
acordo justo.
Eu me aproximei dela e baixei ao seu nível, segurando suas mãos entre
as minhas.
― Não seria muito diferente do que temos hoje, amor, eu só precisaria que
usasse uma aliança com o meu nome por algum tempo.
― Um acordo? – Ela me perguntou. – Com um prazo?
Eu não conseguia saber o que se passava dentro dela. Não sabia o que
ela achava disso tudo.
― Exato.
― E o que aconteceria se algum de nós quebrasse o acordo?
― Teríamos uma multa, mas não acho que isso aconteceria. Eu estou
disposto a fazer o que for preciso para que esse acordo funcione. Quero meus
filhos mais que qualquer coisa no mundo.
― Quanto tempo? – Ela me perguntou dando um trago em meu cigarro.
― Dois anos.
― Você redigiu um documento? – Ela continuou e soltou a fumaça.
Peguei as folhas sobre a mesa e entreguei a ela.
― Nenhum ponto sem nó para Adrian Van Galagher.
― Nunca anjo.
Ela correu os olhos pelo documento.
― Algumas coisas são necessárias legalmente você sabe.
Eu não queria que ela se magoasse pela cláusula sobre filhos. Depois de
um tempo ela colocou os papéis de volta sobre a mesa.
― Só tenho uma ressalva.
― Diga.
― Não quero que esse contrato mude nada entre nós. Nós combinamos que
deixaríamos as coisas acontecerem. Quero que continue sendo assim, sem
obrigatoriedades.
Aproximei-me dela novamente, encarando seus olhos.
― Não pretendo mudar as coisas, Laura, estou muito, – disse traçando o
contorno do espaço entre seu polegar e o indicador com meus dedos, – muito
satisfeito com o que tem sido.
― Então eu preciso de uma caneta, Sr. Galagher. E acho que preciso de um
anel.
Capítulo 15

Laura
Deixei Adrian no chuveiro e fui até a cozinha. Bebi um pouco de
refrigerante e comi um pedaço de torta de frango. Eu não havia comido nada
desde o almoço e sentia meu estômago urrando de fome.
Subi as escadas e não resisti. Entrei no quarto de Collin. Aproximei-me
da cama. Ele estava ali, dormindo um sono tão profundo. Os olhinhos
fechados, bochechas vermelhas pela pressão do travesseiro, sugando a
chupeta sem parar. Ajoelhei-me e sentei-me sobre os tornozelos, correndo a
mão sobre seus cabelinhos.
“Vou cuidar de você anjinho.” – Eu disse em pensamento para ele. –
“Sei que não teve sua mãe por perto, mas ela vai olhar por nós lá do céu e
vai me ajudar a ser uma boa mãe para você.”
Eu podia sentir as lágrimas começando a cair.
“Vamos mostrar ao cabeça dura do seu pai que ter uma família pode
ser uma coisa boa.”
Eu estava dividida entre as lágrimas e um pequeno sorriso que se
formava em meus lábios – me casar. Eu iria me casar com Adrian Van
Galagher. Isso era algo que eu não podia sequer sonhar.
Fechei meus olhos e pensei no acordo que tinha acabado de firmar.
Uma parte de mim queria a oportunidade de ter Adrian, mesmo que fosse por
um tempo e de maneira limitada. Outra parte de mim gritava desesperada em
alto e bom som que eu havia me vendido, exatamente como todas as garotas
estúpidas das capas de revista que eu condenava.
Beijei o topo da cabecinha de Collin, sentindo seu cheirinho de colônia
de bebê se espalhar por minhas narinas. Eu sabia que era um caminho
perigoso. Que me deixar levar por Adrian ou pelas crianças era um caminho
direto ao sofrimento, mas eu queria um pouquinho daquela felicidade. Queria
experimentar o que significava ter uma família também. Viver por alguém
além de mim mesma. E então a conclusão explodiu sobre mim como uma
bomba – não era pelo dinheiro. Não era pelo poder ou pela fama de Adrian
Van Galagher. Eu queria o homem por trás de tudo aquilo. Queria... ele.
Queria Collin e Hanna. Eu queria aquele café da manhã com John falando
bobagens e desafiando o pai. Eu queria risadas e mãozinhas sujas de bala em
minhas camisas de seda. Era isso.
“Espero que você esteja feliz com isso tudo.” – Eu disse mentalmente,
analisando a foto da garota dos olhos verdes com um Collin bebê nos braços.
– “Eu quero cuidar deles, Patrícia. Dos quatro. Sei que as coisas não foram
tão fáceis para você.” – Continuei sentindo meu coração pesar. – “Prometo
que vou amá-los e não vou deixá-los se esquecerem de você.”
Suspirei fundo, traçando o rosto da moça com a ponta do meu dedo. –
“Ajude-me a vencer aquela armadura do nosso pirata.”
Sorri para mim mesma. Era estranho conversar com alguém sobre o que
eu sentia por Adrian, mas parecia fácil falar com ela. Eu não sentia ciúmes ou
qualquer coisa assim a respeito de Patrícia. Eu sentia pesar. Era triste saber o
que a vida reservou a ela. Eu não queria apagá-la da memória de nenhum
deles.
Estava ajeitando o cobertor sobre Collin, quando senti o peso das mãos
de Adrian em meus ombros e deixei minha cabeça cair para trás, apoiando-
me em suas pernas.
― Ele vai ficar bem. – Adrian me disse, mas acho que era mais para ele
mesmo do que para mim.
― Nós vamos garantir que isso aconteça – conclui.
Ele me ergueu, levantando-me e me abraçando pela cintura, de costas
para seu peito. Beijou minha clavícula com carinho e deixou o rosto ali, na
curva do meu pescoço.
― Às vezes eu acho que você é mesmo um anjo, Laura.
Sorri.
― Nem sempre, Sr. Galagher. Nem sempre.
― O que só torna as coisas muito mais interessantes – ele brincou.
Virei-me de frente para ele e o beijei. Suave, deixando que ele
aumentasse o ritmo do beijo devagar.
― O que acha de sairmos um pouco esta noite? – Adrian me perguntou. – É
nossa última noite no Brasil, pensei em exibir minha noiva pelas ruas de São
Paulo.
Sorri.
― Acho que eu quem deveria pensar em exibi-lo, Sr. Galagher.
Adrian estreitou os olhos em um sorriso que me fez lembrar John.
― Seria um prazer.
Coloquei um vestido vermelho de seda, um pouco acima do joelho. Ele
caía justo sobre meu corpo e ressaltava um pouco minhas curvas. Era um
vestido sexy.
― Anjo é a última coisa em que consigo pensar quando eu a vejo neste
vestido, Laura. – Adrian sussurrou em meu ouvido, parando bem atrás de
mim.
Ele estava de calça social escura. Camisa branca, sem gravata. Mangas
dobradas até os antebraços, exibindo parte das tatuagens que eu amava tanto.
Seus cabelos estavam arrumados displicentemente para trás, sem gel, apenas
ajeitados com as mãos. Ele parecia tão jovem. Pendurei-me em seu pescoço,
aspirando seu perfume para dentro de mim.
― Eu amo o seu cheiro – sussurrei contra sua pele.
Adrian segurou meu queixo com a ponta dos dedos, traçando o
contorno dos meus lábios com a mão livre. Não sorriu. Seus olhos estavam
pesados de sentimento, mas ele não disse nada.
― Você é uma mulher perigosa, Srta. Soares. – Ele me disse com a boca tão
próxima à minha, que eu sentia seu hálito em meu rosto. – É preciso manter
os olhos bem abertos para não perder o controle.
Eu sorri. Não era um sorriso de humor, era um sorriso de sedução. Ele
nem fazia ideia de como eu queria que ele perdesse o controle.
― Acho que deveríamos ir de uma vez, ou vou acabar com meu vestido todo
amassado, – eu disse dando um beijo suave em seus lábios, – e a noiva de
Adrian Van Galagher não deve andar por aí com vestidos amassados.
Ele me virou de costas, com as mãos espalmadas em cada lado do meu
quadril, corpo pressionado contra o meu. A boca colada em meu ouvido,
nariz fazendo cócegas em minha pele.
― Hoje eu quero foder você com esse vestido, futura Sra. Galagher.
Engoli a saliva que se formou em minha boca toda de uma vez.
― Será um prazer satisfazê-lo.
Saímos para o jardim para encontrar um carro diferente. Era uma
Limusine preta. Tinha um motorista ao lado dela.
― Precisamos mesmo de tudo isso, Adrian? – Perguntei achando graça.
Ele fez sinal para que o motorista abrisse a porta para mim e nós
entramos. Sentamos um ao lado do outro dentro do carro.
― Este é o nosso primeiro encontro Srta. Soares, não me faça perder o jeito –
ele disse fingindo-se de sério.
Sorri.
― Ok. Mas acho que, em geral, os homens impressionam as mulheres antes
do pedido de casamento – brinquei.
Ele me puxou para perto de si, segurando meu rosto e beijando minha
boca devagar, escorregando até meu pescoço, arrastando ondas elétricas por
onde passava.
― Bem, Srta. Soares, esta é a diferença do que a experiência faz com os
homens. Não desejo impressioná-la. Desejo deixá-la sem palavras. – Sua mão
subindo por minha coxa, até a renda da calcinha. – Sem ar! – Seus dedos se
aproximando mais de mim até que eu soltei um gemido abafado. – Sem chão!
Ele estava bem próximo do êxito, eu não tinha mais palavras, mas eu
não iria dizer isso a ele.
Paramos no estacionamento de um Shopping Center e Adrian desceu,
dando a mão para que eu descesse também. Havia uma moça com um terno
preto nos esperando. Era uma moça bonita e bem maquiada.
― Sr. Galagher, senhorita! – Ela disse sorrindo gentilmente. – É um prazer
tê-los em nossa loja. Se puderem me acompanhar.
Circulamos até um elevador que não era público. Subimos dois andares
e a porta se abriu. Estávamos dentro de uma loja. Ela estava fechada. As
luzes apagadas. Eu podia sentir meu coração martelar contra o peito. Estava
ansiosa. Apertei a mão de Adrian na minha e ele repousou a mão livre sobre
meu ombro, deixando-me mais calma.
As luzes se acenderam e ele alcançou outro de seus passos, deixar-me
sem ar. Era uma loja da Tiffany & Co.
― Oh meu Deus! Adrian! – Eu disse tapando a boca com as mãos.
― Você me disse mais cedo que precisava de um anel. – Ele me disse. –
Bem, eu pensei a respeito e cheguei à conclusão de que você tinha razão.
Meus olhos corriam pelas muitas joias expostas nas bancadas, sem
quase conseguir respirar, vendo o brilho dos diamantes refletirem em todas as
cores do arco-íris.
― O que quiser – ele disse em meu ouvido – é seu.
A moça sorriu para mim, indicando com as mãos uma parte específica
da loja, decorada com objetos de noivas. Tinha uma liga branca, e um
pequeno buquê de flores, arrumado junto a uma grinalda.
― Venha senhorita, vou mostrar-lhe nossos melhores anéis de noivado.
Anel de noivado! A palavra ressoando em meus ouvidos, revirando meu
estômago de um jeito bom e assustador ao mesmo tempo.
Eu me sentei em uma cadeira e ela expôs vários modelos de anéis com
diamantes imensos à minha frente. Eu não podia deixar de pensar que um
anel daqueles poderia pagar o meu aluguel vitalício em Amsterdã.
Não Laura! – Forcei-me a pensar. – Não mais!
Meus olhos pousaram em um com um grande diamante no centro. Era
uma pedra quadrada, emoldurada por outros diamantes menores, presos por
garras com um desenho intrincado que me fazia pensar em renda. Era um
anel absolutamente inacreditável.
― Acho que deveria experimentar este. – Adrian disse, estendendo o anel
para mim. – Espero que tenhamos acertado no tamanho.
Coloquei o anel no dedo, vendo-o deslizar perfeitamente.
― Como sabia o tamanho? – Eu perguntei curiosa, encarando o anel em meu
dedo.
― Digamos que eu mexi em algumas coisas suas, enquanto você se banhava,
amor. Espero que não tenha ficado brava.
Brava? Gato, eu nunca mais ficaria brava em toda a minha vida depois
de provar este anel no dedo! – Pensei.
Sorri.
― Nenhum ponto sem nó para o Sr. Galagher – eu disse.
Adrian sorriu, tirando o anel do meu dedo.
― Nunca! – Ele me disse e entregou o anel à vendedora. – Vamos levar este.
Saí do shopping sem o anel. Adrian o estava carregando em uma
sacolinha azul clara.
Entramos no carro e seguimos para outro ponto – o Terraço Itália.
Sorri.
― Adrian! – Exclamei.
― Achei que minha noiva merecia um jantar com vista panorâmica. Já que
não estamos em Roterdã, isso é o mais próximo que posso chegar do
Euromast, anjo! – Ele disse dando a mão para que eu saísse do carro. – Eu
diria que este é o Euromast de São Paulo.
Subimos até o restaurante, na cobertura. Era uma noite agradável e
Adrian levou-me até o terraço. Eu estava contemplando a cidade, sentindo-a
sobre meus pés, quando ele alcançou o terceiro passo da noite – deixar-me
sem chão.
Ele se ajoelhou aos meus pés e desfez o laço branco da caixinha azul.
Abriu-a expondo a joia.
― Sei que temos nossas particularidades, Srta. Soares, mas garota alguma
deve ficar sem seu pedido de casamento.
Eu sorri como uma boba vendo-o ali, aos meus pés, querendo
desesperadamente que tudo fosse mais que um acordo.
― Daria a honra de chamá-la de minha esposa?
As lágrimas fechavam minha garganta, fazendo-me derreter ali,
encostada na sacada.
― Sim! – Eu disse e nada era mais verdadeiro que isso.

Adrian
Eu estava encarando Laura de frente para mim no banco da Limousine.
O anel brilhando em seu dedo anelar. Suspirei. Havia tantos sentimentos
dentro de mim que eu nem conseguia entender. Era um misto de coisas e
sensações e alguns medos. Eu tinha medo do fracasso e tinha medo do êxito,
porque acabaria, infalivelmente, levando-me ao fracasso.
Afastei os pensamentos de mim e estreitei os olhos para Laura.
― Venha até aqui Laura – eu disse autoritário, exigindo meu direito sobre
ela.
Ela veio. Os olhos vidrados nos meus. Achegou-se para sentar-se ao
meu lado e eu a segurei de frente para mim, correndo a mão por suas pernas
nuas até a calcinha de renda. Laura gemeu e colocou as mãos sobre o encosto
atrás de mim, debruçando-se para mim. O painel que separava o motorista
estava fechado. Tínhamos vidros escuros e eu não tinha intenção de esperar
até chegarmos.
Puxei sua calcinha para baixo, deixando-a cair por suas pernas.
― Agora se sente sobre mim – eu disse sem tirar os olhos dos dela.
Ela se sentou. As pernas abertas sobre minha cintura, deixando-me duro
de imediato. Segurei-a com força, forçando-a contra mim para que percebesse
como eu a queria.
― Quer mesmo fazer isso aqui, Adrian? – Ela me perguntou.
― Eu disse que iria foder você com este vestido, lembra-se?
― Uhum – ela disse contra os meus lábios.
― É exatamente o que eu pretendo fazer.
Abri o botão e baixei o zíper da minha calça. Laura soltou os botões da
minha camisa, escorregando as mãos em meu peito, até minha cueca,
tocando-me sobre o tecido fino. Segurei seu rosto entre minhas mãos,
apertando o beijo, mordendo seus lábios, sugando sua língua dentro da minha
boca, arrancando gemidos dela.
Ela baixou o elástico da minha cueca, deixando-me exposto, tocando
suas mãos em minha pele sensível. Gemi, erguendo-a o suficiente para
encaixá-la sobre mim, puxando-a para baixo, sobre mim, sentindo sua carne
apertar contra minha extensão rígida. Eu podia sentir meu corpo latejar de
desejo. Laura estava quente, úmida, sedenta de mim. Ela me beijava e se
movia sobre mim com pressa.
― Ah amor! – Eu gemi contra sua boca. – Desse jeito você vai me convencer
a dar um diamante por dia, juro.
Ela sorriu, mas não cortou o contato das nossas bocas, gemendo e
arfando, até que eu pude senti-la soltar o corpo sobre o meu, deixando os
espasmos levarem-me com eles, explodindo em êxtase dentro dela. Segurei
seu quadril forte, apertando-me contra ela, tendo tudo mais profundo,
encaixando-me mais.
Laura sorriu contra o meu pescoço.
― Algum dia estas loucuras vão acabar? – Ela me perguntou.
― Espero que não amor – eu disse – acredite, eu tenho muita criatividade.
Chegamos a casa em silêncio, fazendo o mínimo de barulho possível.
Laura subiu as escadas segurando as sandálias nas mãos. Ajudei-a se despir e
deitar, abraçada a mim, cabeça contra meu peito nu, respirando em minha
pele. Fechei os olhos e me deixei ir.
Acordei pouco depois das oito da manhã. Laura ainda dormia.
― Precisamos acordar amor – eu disse suave, beijando sua testa – temos que
fazer certo anúncio a três pestinhas e nos preparar para voltarmos para casa.
Laura se espreguiçou, beijando meu peito e mordiscando minha pele.
― Oh meu Deus! Eu dormiria por um dia inteiro.
― Eu não duvido – eu disse – nunca vi ninguém gostar tanto de ficar na
cama como você.
Laura jogou a perna sobre as minhas, enlaçando-me nela.
― Posso pensar em tantas coisas para fazer em uma cama com você, Sr.
Galagher, que demoraríamos pelo menos um mês para podermos levantar.
Sorri.
― Sinto informá-la, senhorita, que sua lua de mel inclui duas crianças e um
adolescente chato, não sei se seríamos capazes de tanto tempo sozinhos.
Laura sorriu.
― Por que meu Deus? Por que de todos os homens incríveis que eu encontrei
em minha vida imaginária, o Senhor me mandou justo um pai?
Levantei-a da cama comigo e a puxei para o chuveiro. Tomamos um
banho rápido e nos vestimos. Andamos pelo corredor e paramos em frente às
portas das crianças.
― Você acorda a garota e eu acordo os garotos – eu disse a ela.
Entrei no quarto de Collin e beijei sua testa.
― Hey filhote, vamos tomar café com o papai?
Ele abriu os olhinhos meio sem entender. Sorriu e assentiu esfregando
os olhinhos.
Peguei-o nos braços, com o pijaminha do Barney e o coloquei de lado,
encaixado em minha cintura.
― O que acha de acordarmos o John?
Ele sorriu.
Caminhei com ele até o final do corredor. Abri a porta e encontrei John
esticado na cama. De costas. Cabelo despenteado, coberta embolada sobre a
cintura. Sorri. Deus! Este garoto fazia sentir-me velho!
Coloquei Collin sobre a cama, ajudando-o a caminhar até as costas de
John. Ele se sentou ali.
― Vamos cavalinho! ― Ele disse pulando. – Vamos!
John fungou.
― Algumas pessoas desta casa precisam de mais horas de sono, sabia Sr.
Galagher? – Praguejou.
― Algumas pessoas desta casa têm anúncios importantes a fazer e não
esperam fazê-lo mais de uma vez – praguejei de volta.
Ele se virou, fazendo Collin cair ao seu lado sorrindo.
― Vamos filho, – eu disse pegando Collin no colo novamente – é um dia
importante.
Ele esfregou os olhos e bocejou.
― Vai se casar com Laura? – Ele me perguntou. – Porque isso explicaria o
fato dos dois terem chegado de madrugada, de Limousine e tentando não
fazer barulho, mas sorrindo como idiotas.
Tentei reprimir o sorriso, fazendo John sorrir.
― Cesta! E John Albert marca de novo.
― Anda garoto! Levanta e venha fingir que isso é uma novidade para você.
Deixei John brigando com as cobertas e desci com Collin de cavalinho
em minhas costas. Laura estava preparando leite com chocolate para Hanna,
que estava sentada sobre a bancada da cozinha, batendo as perninhas em sua
camisola cor de rosa.
― Papai, é verdade que vamos voltar para casa hoje? – Ela disse sorridente.
― Vou conversar com a vovó e decidiremos como fazer.
― Oba! Eu vou ver o Chucrutinho! – Ela exclamou erguendo os braços.
― Vamos pedir ao tio Alex para se encarregar de levar o Chucrute de volta à
nossa casa, anjo, prometo.
― Eu posso falar com ele? – Ela pediu. – Estou com saudades do tio Alex! O
bebê dele já nasceu?
― Ainda não. – Respondi.
― Ótimo porque eu prometi que estaria com ele quando isso acontecesse. –
Ela disse como se fosse realmente importante. – Ele me disse que tem medo
de hospitais. E eu disse a ele que seguraria a sua mão.
Laura sorriu.
― Você é uma garota muito corajosa! – Ela disse a Hanna. – Sei que Alex
vai amar segurar sua mão. E você ainda vai poder ensinar várias coisas de
menina à Louise.
― Sim! – Hanna concordou empolgada.
― Sr. Galagher. – John disse entrando na cozinha. – Sra. Galagher. –
Cumprimentou Laura.
Ela me olhou se entender.
― O que eu posso fazer? – Defendi-me. – O garoto é bom! Deveria trabalhar
na polícia.
Ele beijou Hanna e Collin e caminhou até Laura. Parou e a puxou em
um abraço que ela não se negou a dar.
― Seja bem-vinda e parabéns, mas, – ele disse levantando um dedo, – depois
não diga que eu não avisei. O cara é velho! – Ele disse sério. – E cheio de
manias. Você deveria trocar por um modelo mais novo.
― Laura sorriu, dando um soco de leve no peito de John.
― Garoto bobo! Seu pai não é velho! – Ela disse com os olhos encarando os
meus.
Mordi um pedaço da minha maçã e respondi.
― Viu garoto? Agora, se não se importa, você já pode soltar a minha garota.
Ele soltou, pegando um pedaço de bolo e enchendo uma xícara com
café.
― Papai a Laura pode ir com a gente para casa? – Hanna perguntou inocente.
Coloquei Collin ao lado dela na bancada.
― Vocês gostariam que Laura morasse conosco? – Perguntei.
Eles assentiram.
― E o que achariam se o papai namorasse a Laura?
― Eu acharia muito legal – Hanna disse limpando a boca – porque teríamos
outra garota em casa. E eu poderia fazer muitas tranças.
Laura sorriu.
― E você, filho? – Perguntei a Collin.
Ele não disse nada, apenas assentiu, como se não fosse nada demais e
então falou.
― Acho que você deveria beijar a Laura papai, – Collin falou, – como a
garota de cabelos amarelos que John beijou na praça.
Sorri.
― E como foi esse beijo, filhote?
― Na boca ué, como os adultos se beijam.
Estiquei o braço e chamei Laura. Ela veio até mim sorrindo. Eu a
abracei e segurei seu rosto entre as mãos. Toquei meus lábios nos dela.
― Pronto filho, agora Laura já é minha namorada.
― Não pai! – Hanna me disse. – Você precisa abrir a boca e fingir que está
mastigando uma bala.

John soltou uma gargalhada e acabei sorrindo também.


― Prometo que vou treinar mais, querida.
Capítulo 16

Laura
Deixei Adrian com as crianças e resolvi dar um passeio sozinha. Eu
precisava de um tempo para colocar as coisas em ordem na minha mente. Era
coisa demais para tempo de menos.
Adrian insistiu que eu usasse o motorista, mas consegui convencê-lo de
que podia me virar pelas ruas de São Paulo sem ajuda.
Vesti um jeans e uma blusinha de alcinhas finas, com uma camisa
xadrez por cima. Eu queria parecer uma garota normal. Não queria ser a
noiva do milionário. Calcei meus tênis e passei pelo portão depois de me
despedir das crianças. John veio caminhando comigo até a calçada.
― Vai dar a notícia à sua família? – Ele me perguntou. – Porque tenho
certeza que se for isso, o Sr. Galagher ali é quem deveria ir fazer o pedido –
brincou.
― Na verdade John – comecei mesmo sem saber como explicar – é meio
complicado.
― E o que não é? – Ele brincou dando de ombros.
― Minha família não é bem um modelo de conduta – confessei.
― A minha também não Laura, acredite. A diferença é que por aqui todos
sabem como fingir.
Sorri e ele sorriu comigo.
― Se precisar de ajuda com algo, – ele disse e pegou o celular das minhas
mãos, – vou anotar meu telefone, ok? Pode me ligar mesmo que não queira
que o abominável homem das neves saiba.
Sorri mais, porque o apelido era realmente bom, e peguei meu celular de
volta com o contato de John anotado.
― Pode deixar.
― Sério Laura. Pode contar comigo sempre que quiser e para o que quiser. –
Ele sorriu e depois deu de ombros. – Já que vai mesmo entrar para esta
família, pelo menos posso ajudar você a sobreviver.
John me deu um beijo na testa e entrou. Eu caminhei pela calçada até
encontrar um táxi. Dei sinal e o motorista parou. Eu não iria pegar um ônibus
lotado até a Zona Norte com uma pequena fortuna pendurada no dedo.
A viagem demorou quase uma hora. Era um dia típico de trânsito
caótico em São Paulo. Eu não estava chateada com isso. Para ser sincera, eu
estava feliz. Era bom respirar o ar poluído da minha terra uma vez mais. Eu
estava com mais saudades do que imaginava.
Quando o motorista parou em frente à casa de portão alto eu suspirei
fundo. Fazia tanto tempo. Eu nem mesmo sabia o que iria encontrar.
Paguei a corrida e desci. Toquei a campainha sentindo meu coração
martelar. Pingo veio até mim mais devagar do que costumava andar quando
eu o deixei.
― Hey garotão, – eu disse coçando sua cabeça marrom, – você engordou um
bocado! Ainda se lembra de mim?
O cachorro abanou o rabo peludo para um lado e para o outro me
mostrando que sua memória estava melhor que sua condição física.
― Vá chamar a vovó! – Eu disse dando um tapinha em sua cabeça peluda.
Não demorou mais de meio segundo para que ela aparecesse no corredor
estreito. Tapou a boca com a mão, derrubando a colher de pau que carregava.
Meu rosto se iluminou assim que a viu.
― Será que ainda tem bolo de fubá para uma pobre repatriada? – Brinquei.
Vovó sorriu. Pegou a colher do chão e caminhou até o portão. Enfiou a
mão no bolso do avental e pegou a chave. Abriu o portão e eu me lancei
sobre ela.
― Laurinha, meu amor! Como você está bonita! Eu nem sei o que dizer!
Quando nos separamos, meu rosto molhado de lágrimas refletia o dela,
igualmente molhado. Era tão bom sentir o cheiro de roupa limpa dela. O
toque macio da sua pele. O aroma de camomila dos cabelos. Eu tinha tantas
lembranças boas.
― Quase morri de saudades, vovó.
― Entre! – Ela me disse. – E não se preocupe sua mãe não mora aqui há
algum tempo. Na verdade, eu nem mesmo sei por onde ela anda no momento,
– e completou, – você sabe como sua mãe é.
Eu sorri. Primeiro porque eu sabia exatamente como mamãe era e
segundo porque era muito bom saber que ela não estava em casa. Eu havia
adiado tanto minha visita à casa da minha avó justamente porque não queria
encontrá-la e principalmente porque não queria encontrar meu padrasto.
Chegamos à cozinha e o cheiro da comida invadiu meus sentidos como
um soco no estômago.
― Vovó que delícia! Ah meu Deus! Como eu senti falta do seu tempero!
Vovó sorriu enquanto partia um pedaço de bolo para mim. Pegou um
copo e encheu com café da garrafa térmica – outra coisa que eu não via há
muito tempo – e me serviu.
― Como estão as coisas por aqui, vovó? – Eu perguntei. – Como a senhora
está?
― Tudo bem agora querida. Passamos maus bocados, sua mãe e eu. Você
sabe como o Xavier era. Sua mãe tem as culpas dela, mas a maior bobagem
foi se apaixonar por aquele homem, você sabe.
Eu sabia. Sabia muito bem. Tinha algumas marcas no corpo para
comprovar que havia entendido na prática o quanto Xavier era ruim, mas o
“era” soou estranho para mim.
― Como assim “era”? – Eu perguntei.
― Ah querida já faz mais de dois anos. Ele se foi. Graças aos céus!
― Oh meu Deus! Ele morreu? – Eu disse alto demais e tapando a boca,
arrancando alguns latidos de Pingo.
― Afogado.
― Jesus! – Continuei espantada. – Que coisa horrível. Até mesmo para ele.
― Sim, foi horrível. – Vovó continuou a história. – Ele saiu para pescar com
alguns amigos e acabou bebendo, o que não era novidade. – Ela disse fazendo
careta. – E então aconteceu. O destino sempre cobra seu preço, querida.
― E mamãe? Deve ter sofrido muito.
― Sofreu. Apesar de tudo ela o amava. Para ter sacrificado você como fez.
Eu podia sentir o pesar nos olhos de vovó. Ela nunca havia perdoado
completamente mamãe por tudo que fez. Ao meu pai e depois a mim. Mamãe
era inconsequente, leviana, mas amava Xavier mais do que amava a si
mesma.
― Xavier foi dado como desaparecido por dois dias. Os bombeiros
procuraram por ele incansavelmente. Sua mãe tinha esperanças, mas eu já
sabia que não viria coisa boa desse desaparecimento. Na tarde do segundo
dia, um mergulhador do Corpo de Bombeiros o encontrou. Estava com o pé
preso em alguns galhos no fundo da represa. Sua mãe ficou arrasada.
― Puxa! Que coisa horrível.
Eu podia odiar Xavier com todas as minhas forças, mas eu não desejava
uma morte assim a ninguém. Era cruel e triste e era especialmente cruel e
triste com quem ficava, no caso, minha mãe maluca.
― O velório foi rápido e com o caixão fechado. Sua mãe chorou por uma
semana inteira. Eu pensei que teria problemas com ela. Então na semana
seguinte ela saiu do quarto com uma mochila nas costas. Sentou-se aí nesse
lugar e me disse que iria embora. Eu perguntei para onde ela ia, mas ela disse
que não sabia. Tive medo de que fosse procurar por você e fiquei muito feliz
em não ter passado sua direção a ela.
Vovó acabou de mexer a panela no fogo e sentou-se comigo. Pegou uma
xícara e encheu de café para ela mesma.
― Você sabe que amo sua mãe Laurinha, – ela disse com pesar, – mas eu
desisti dela há muito tempo. Dalva não merece minha preocupação, – ela
colocou a mão sobre a minha, acariciando, – a única coisa boa que ela fez foi
você. Agora vamos parar de falar de coisas ruins e me conte de você! Está tão
linda e radiante! Está com cara de apaixonada.
Respirei fundo – vovó me conhecia bem demais para que eu pudesse
esconder o que quer que fosse dela, mesmo assim, eu precisava ir com calma.
― Vovó, – comecei com a voz meio trêmula, – eu estou noiva.
― Oh meu Deus! Que notícia maravilhosa! Querida, que felicidade em ouvir
isso!
Respirei fundo novamente.
― Não exatamente o que parece, vovó, – continuei – é meio que um acordo.
― Acordo? Algo a ver com a sua permanência na Holanda? Sabe que pode
voltar agora que estou sozinha, querida. Não precisa se casar se não quiser
realmente.
― Não é que eu não queira realmente, – tentei explicar me enrolando ainda
mais, – é meio complicado de explicar vovó.
Minha avó me encarou por um longo tempo. Olhos experientes sobre
mim, analisando a situação. Deixei que ela percebesse meus sentimentos.
Meus medos. Minhas dúvidas. Vovó e Hans eram as duas únicas pessoas que
eu tinha no mundo e eu não queria mentir para nenhum dos dois.
― Você está apaixonada por ele. – Ela constatou bem rápido. – Disso não
tenho dúvidas.
― Adrian é um homem complicado vovó. Ele tem uma vida complicada.
― Mas colocou esse anel aqui no seu dedo. – Ela continuou a constatação e
eu assenti. – Então devo supor que ele sente o mesmo por você.
― Às vezes acho que sente algo por mim, outras penso que sou apenas a
tábua de salvação.
― Salvação para quê?
― Os filhos.
― Hum... – Vovó resmungou. – Ele tem filhos.
― Três.
― Não perde tempo o tal Adrian, – vovó brincou, – ele não deve ser um
velho gagá ou você não estaria com essa carinha de apaixonada.
Sorri.
― Acredite, ele está longe de ser velho e gagá.
― E porque você seria a tábua de salvação, Laurinha?
― Porque ele está brigando judicialmente pela guarda dos filhos com a ex-
sogra. A esposa dele faleceu há alguns anos, – expliquei, – e a tal Margarida
impôs a condição de que nos casássemos para entregar a guarda do caçula
que ela detém.
― E qual é o propósito dessa tal Margarida? Sim, porque me parece estranho
querer dar a guarda dos netos a uma desconhecida.
― Nem eu sei, – confessei, – ela disse que Adrian é um novo homem quando
está comigo e, bem, ela está doente.
― E quando eu penso que nossa novela irá acabar Laurinha volta com novos
capítulos – vovó brincou.
― Não sei o que fazer – confessei deixando o riso morrer rápido demais.
― Porque você o ama e tem medo que ele não sinta o mesmo.
Não respondi, mexendo no bolo à minha frente com o garfo, sem
conseguir encontrar as palavras certas.
― Não é pelo dinheiro vovó. Juro que não é. Na hora me pareceu um acordo
bobo, mas depois eu pensei um pouco e entendi que poderia ser uma maneira
de estar mais tempo perto dele. Esse negócio de amor é complicado. A
senhora sabe – continuei soltando o ar dos pulmões devagar – depois de tudo
que aconteceu.
Vovó me abraçou. Seu corpo gordinho abrigando o meu com carinho e
cuidado. Ela beijou minha testa e eu pude sentir que sorria. Afastou-se um
pouco e secou minhas lágrimas com a ponta do avental.
― Esse Adrian deve ser especial querida. Ou você não teria se apaixonado
assim. – Ela sorriu mais antes de continuar. – Eu conheço minha menina e sei
que ela é dura na queda. – Parou e pensou, deixando o rosto sério novamente.
– Não deixe que o passado a torne dura demais. Não permita que essas
cicatrizes todas na sua vida tão curta levem a sua doçura e a sua esperança.
Eu sorri, afundando meu rosto em seu ombro, sentindo mais do perfume
dela.
― Ah vovó! Eu tive tanta saudade! A senhora sempre sabe a coisa certa a
dizer.
― Agora me diga, quando eu vou conhecer o seu Adrian?
O telefone tocou em meu bolso no instante em que vovó falava. Peguei e
encarei o número na tela sorrindo.
― Acho que não vai demorar muito vovó.

Adrian
Aproveitei que Laura havia saído e fui até a casa de Margarida. Eu precisava
acertar algumas coisas com ela e não podia mais postergar. Nossa conversa
sobre o casamento havia sido curta demais e eu estava tão em choque que não
consegui prolongar.
Assim que meu carro parou em frente ao portão, ele se abriu. Estacionei
e desci, caminhando pelo gramado até a porta.
― Dona Margarida o espera no escritório, Sr. Galagher.
Caminhei até lá. Eu conhecia a casa.
― Bom dia Margarida! – Eu disse cumprimentando-a.
― Bom dia, Adrian! – Ela me respondeu. – Sente-se. Precisamos conversar.
Eu me sentei. Cruzei as pernas e coloquei os punhos sobre a mesa.
Esperei que ela começasse.
― Sei que ficou admirado com minha atitude. Acredite, eu pensei muito
sobre isso. Não sabia o que fazer em relação às crianças. Eu preciso de mais
tempo para me cuidar. Não pretendo morrer cedo – ela brincou, mas não foi
uma piada de humor verdadeiro.
Eu conhecia Margarida bem demais para saber que ela estava com
medo. Ela era uma mulher forte que ficou viúva cedo e aprendeu a lidar com
tudo sozinha. Pensar em ficar em uma cadeira de rodas era apavorante para
pessoas como ela e como eu. Margarida e eu éramos muito mais parecidos do
que eu gostaria.
― Margarida, – comecei usando um tom baixo, amistoso, – sabe que se
precisar de algo, pode contar comigo. Não estou falando apenas de dinheiro.
Sei que você não precisa do meu dinheiro, mas se precisar ir à Europa. Se
existir algum tratamento fora, eu ficarei feliz em ajudar.
Era sincero. Eu queria mesmo fazer algo por ela. Eu tentei fazer o que
pude com Patrícia e não foi suficiente, quem sabe eu poderia ajudar
Margarida e Collin.
Margarida soltou o ar dos pulmões com força, baixando um pouco o
olhar.
― Desculpe-me por tê-lo culpado pela morte da minha filha, Adrian. Não foi
justo.
Soltei o ar dos pulmões com força também.
― Não estou livre de toda a culpa. Sei que poderia ter cuidado melhor dela,
como eu prometi a você tanto tempo atrás.
― Laura parece uma boa garota – ela disse mudando de assunto.
― Laura é uma boa garota. Muito melhor do que eu merecia.
Ela pensou, encarando-me por um tempo. Tocou a mão sobre as minhas.
Era a primeira vez em um longo tempo que Margarida me tocava.
― Faça por merecer. – Ela disse com a sombra de um sorriso nos lábios. – E
agora vamos à parte prática. Meus advogados prepararam um documento.
Ela me entregou os papéis e começou a lê-los comigo em voz alta.
― Em primeiro lugar, não quero aquele homem perto de Collin.
Ela se referia ao pai biológico dele. Eu não tinha objeção alguma quanto
ao pedido de Margarida, no que dependesse de mim, ele nunca chegaria perto
do meu filho.
― Não se preocupe, eu não pretendo permitir que ele se aproxime do meu
filho! – Eu disse a ela.
― Em segundo lugar, quero garantias de que se casará mesmo com Laura.
Não me venha com tramoias jurídicas, Adrian, eu conheço você bem demais.
Não sou boba, sei que provavelmente existe um acordo entre você e Laura,
mas sei também que você está apaixonado por ela. – Ela fez uma pausa, mas
não me deixou responder. – Nem tente fingir que não está.
Reprimi um sorriso – nenhum ponto sem nó para Margarida Tavares
também. Era uma disputa boa.
― Prometa que vai colocar cabresto em John. Não o quero cometendo o
mesmo erro que você e Patrícia! E prometa que vai cuidar bem da minha
garotinha. Sei o quanto é difícil para uma garotinha crescer sem a mãe,
Adrian.
Sorri com mais humor.
― Não se preocupe, vou colocar John Albert no lugar dele, prometo. E
prometo que vou fazer o possível para minimizar a falta que Patrícia fará na
vida de todos eles. Eu nunca quis que eles se esquecessem da mãe,
Margarida. Nunca quis me esquecer dela.
Respirei pesadamente, sentindo o peso da saudade que eu sentia da
minha garota bonita.
― A vida continua Adrian! – Margarida disse como se percebesse meus
sentimentos. – Patrícia ficaria feliz em vê-lo seguir em frente.
Depois de assinar os papéis e me despedir, já dentro do carro, peguei o
telefone e disquei o número de Laura, eu estava preocupado com a falta de
notícias. Ela atendeu no terceiro toque.
― Oi amor – comecei – tudo bem com você?
― Sim, estou com a minha avó. – Ela disse com a voz tranquila.
― E eu vou poder conhecê-la em algum momento, ou você está com
vergonha de me apresentar? – Brinquei e Laura sorriu.
― Bobo! Porque eu teria vergonha do homem mais incrível e sexy do
mundo?
Sorri.
― Ótimo! Passe o endereço.
― Você não vai encontrar sozinho! São Paulo é maior que Roterdã, sabia? –
Brincou.
― Tudo bem, amor, eu tenho um guia particular. Acho que o pequeno
conquistador ficará feliz em conhecer sua avó.
Recebi a mensagem de texto com o endereço pouco antes de estacionar
em frente ao meu portão. Disquei o número de John.
― Filho preciso que me ajude com uma coisa. Pode vir aqui fora?
John apareceu no portão alguns segundos depois. Ajeitando os cabelos
com as mãos.
― O que houve Sr, Galagher? A quem vamos matar esta manhã? – Brincou.
― Entre. – Eu disse destravando a porta. – Vamos conhecer a avó de Laura.
Entrei no carro e John sentou-se ao meu lado, no banco da frente. Eu
não estava bem certo se era uma boa coisa chegar lá com um garoto que mais
parecia meu irmão caçula do que meu filho, mas eu precisava da ajuda dele.
― Você vai ter que me dizer o caminho filho, – pedi – sabe que não conheço
São Paulo. E vai ter que me dar uma ajudazinha com a língua – confessei.
John sorriu, enquanto ajeitava o cinto de segurança.
― Tudo bem, Sr. Galagher. Podemos até fingir que sou seu primo, se isso
deixar você menos nervoso.
― Quem disse que eu estou nervoso, garoto? – Perguntei sério. – Acha que
estou nervoso? Não seja bobo! Eu não estou nervoso.
John abafou o riso, olhando para frente, com aquela cara de deboche de
sempre dele.
― Ahan – ele resmungou – eu entendo pai. Não se preocupe. Eu salvo você,
ok? Você fica me devendo uma.
Dirigi em silêncio. Era um silêncio ruim. Pesado. Eu estava mesmo
nervoso, mas não iria dizer isso ao John. O garoto andava muito seguro de si
ultimamente e alguém precisava colocá-lo de volta no lugar dele.
― Acho que é no final da rua pai. Laura disse que era uma casa amarela.
Parei o carro ao lado do meio fio. Desliguei o motor, mas não desci.
― Ah relaxa pai! – John brincou. – Você é um cara bonitão e rico. Relaxa.
Eu sabia que ele estava brincando e sabia que a brincadeira era verdade.
Eu era um homem atraente. Era rico e importante. Eu era um dos melhores
partidos da Holanda e isso era inegável, mas por alguma razão, eu não queria
que a avó de Laura me visse assim. Eu queria que ela visse o Adrian. Que
visse o homem por trás da fama e do dinheiro. Eu queria mesmo que ela
gostasse de mim e eu nem sabia por que queria isso!
“Isso é um acordo Adrian.” – Repeti para mim mesmo. – “A opinião
dela não faz diferença. É apenas um acordo.”
John tocou a campainha e Laura veio até nós no instante seguinte. Eu
tentava parecer o menos formal possível. Não queria que a pobre senhora me
achasse um esnobe. Eu estava de jeans e camiseta e botas de couro. Alisei
meus cabelos para trás tentando não parecer nervoso demais.
― Olá Adrian! – Laura me disse ficando nas pontas dos pés para me beijar.
Beijei-a e ela segurou minha mão.
― Vem, vamos entrar.
Era uma casa simples. Muito, muito diferente de todas as casas em que
eu já havia entrado. Patrícia era uma garota rica. Margarida morava em uma
mansão em um dos bairros mais caros de São Paulo. Ela havia mandado a
filha estudar na Europa porque queria uma boa formação para ela. Laura não
era como Patrícia. Sua história de vida era tão diferente. Ela havia fugido
para a Holanda em busca de uma nova vida. Sem dinheiro, nem posses.
John caminhava sorridente à nossa frente. Não parecia se importar com
nada. Pelo menos meu filho não era um esnobe elitista como o avô.
Uma senhora de cabelos grisalhos e avental veio ao nosso encontro.
Sorriu para John que se lançou nos braços dela como se a conhecesse.
Meu filho beijou a bochecha da mulher arrancando-lhe um sorriso –
conquistadorzinho safado, este meu filho!
A mulher disse algo a John que eu não compreendi, mas que o fez sorrir.
― Ela está dizendo que John é um jovem muito bonito. – Laura me traduziu.
– Acho que ainda não entendeu que é seu filho. – Ela constatou sorrindo.
Eu falava muito pouco português e compreendia muito pouco também,
mas eu precisava usar tudo que tinha para não ficar de fora dos
acontecimentos.
― Sou Adrian Van Galagher! – Eu disse estendendo a mão. – É um prazer
conhecê-la.
A senhora sorriu para mim e eu pude sentir a doçura iminente em seu
sorriso. Era tão acolhedor e carinhoso. Ela abriu os braços e me puxou para
dentro deles, fazendo-me baixar um pouco o corpo para que minha altura
ficasse igual à dela.
― Sou Guilhermina e o prazer é meu, querido! – Foi o que compreendi de
tudo que ela falou enquanto me abraçava.
― Vovó está dizendo que agora sabe a quem John puxou. E está dizendo
também que entende porque eu resolvi me casar – ela disse rindo – e o que
mais ela disse eu não vou traduzir porque é constrangedor!
John riu e Laura riu e eu acabei rindo, mesmo sem entender.
A senhora me pegou pela mão e me colocou sentado em uma cadeira.
Pegou café de um tipo de garrafa e me ofereceu. Aceitei.
Levei o copo à boca e dei a primeira golada. Estava meio frio e fraco e
muito, muito doce, mas eu sorri e agradeci.
John gesticulava e sorria e fazia algum tipo de piada enquanto eu só o
observava – o garoto deveria seguir a carreira política!
― Prova pai. – Ele me disse entregando-me um pratinho de bolo. – Este é o
melhor bolo que já provei na vida.
Encarei o pedaço de bolo amarelo em frente pensando no gosto estranho
do café. Respirei fundo e dei uma garfada, deixando a massa adocicada se
desfazer em minha boca.
― Oh! – Exclamei. – Isso é mesmo muito bom.
Era diferente de tudo que eu já tinha provado. Era suave e delicado e
cremoso e parecia derreter na minha boca. Bom, muito bom.
Dei mais uma garfada encarando o olhar curioso de John.
― Falei que você ia gostar – ele me provocou.
― Vovó faz bolos para vender, Adrian. – Laura explicou. – Foi assim que ela
me criou.
Pensei por um segundo, tentando compreender como alguém conseguia
sobreviver apenas da venda de bolos em casa. Essa era uma realidade que eu
não conhecia. Eu sabia como era viver com pouco, já havia passado por isso
quando rompi com meu pai, mas o pouco que eu conhecia estava longe, bem
longe disso. Sorri.
― Pois eu a contrataria com exclusividade e contrato vitalício! – Brinquei e
esperei que Laura traduzisse.
Dona Guilhermina sorriu e veio até mim. Segurou meu rosto entre as
mãos como se eu fosse um menino. Eu sentia falta disso. Sentia falta de ser
só o Adrian e a avó de Laura me fazia lembrar mamãe. Respirei fundo,
sentindo o toque gentil dela.
― Vovó disse que trabalharia de graça para você e que você é muito bonito,
mas que ela não gosta das tatuagens.
Acabei sorrindo e John e Laura sorriram também.
Continuamos nosso bolo perdidos em conversas em mais idiomas do
que parecia possível. Laura traduzia tudo que se falava em português para o
inglês para que eu pudesse compreender e John falava em neerlandês quando
queria fazer alguma piadinha secreta. Eu tentava me virar entre os dois sem
parecer que era estúpido para a pobre senhora.
Depois de alguns pedaços de bolo e xícaras daquele líquido turvo e doce
que nem de longe parecia com o café que eu costumava tomar pelas manhãs,
eu encarei o relógio preocupado. Já passava das duas da tarde e nosso voo
sairia às seis. Depois de acertar tudo com Margarida, eu tinha pressa em levar
meus filhos para casa.
― Laura, sei que faz tempo que não vê sua avó, mas eu comprei passagens
para às seis horas. Desculpe amor, não sabia que você viria aqui.
Laura sorriu.
― Tudo bem, Adrian, era uma visita rápida. Vovó sabe disso.
― Pode me ajudar, amor? – Pedi à Laura. – Eu gostaria de falar com sua avó.
― Claro.
Levantei-me e me aproximei de Dona Guilhermina. Segurei suas mãos.
Comecei falando em inglês e esperando que Laura me traduzisse.
― Eu agradeço muito por ter cuidado tão bem de Laura, Dona Guilhermina.
Eu sei o quanto é difícil criar uma criança sozinha. – Eu queria que ela
entendesse o quanto eu a admirava. – Quero que saiba que Laura é uma
garota incrível. Eu não conheço nenhuma melhor. – Eu disse sorrindo e Laura
sorria junto enquanto repetia as palavras em português. – Vou fazer o melhor
que puder para honrar meus compromissos e fazê-la feliz.
Dona Guilhermina me abraçou, impedindo-me de continuar.
― Vovó disse que você está se saindo bem por enquanto. – Laura repetiu
sorridente.
Quando deixamos a casa simples no subúrbio da cidade eu me sentia
mais leve. A vinda ao Brasil havia sido muito melhor do que eu podia
imaginar e eu estava confiante de que as coisas começariam a melhorar daqui
para frente. Eu estava disposto a fazer minha parte, queria que tudo desse
certo.
Quando o avião decolou de volta para Roterdã, fechei meus olhos e pude
descansar. Eu estava voltando com meu coração completo, não havia mais
pedaços dele espalhados por aí e Laura parecia ser a melhor cola que eu havia
encontrado.
Capítulo 17

Laura
Acordei sentindo um peso diferente em minha mão. Abri os olhos para
encontrar um diamante gigantesco, brilhando ali. Sorri, tirando o cabelo do
rosto para apreciar melhor minha aliança.
Suspirei profundamente, tendo tantos sentimentos diferentes dentro de
mim que nem sabia o que fazer. Estava me espreguiçando na cama, quando
ouvi batidas suaves na porta.
― Senhora? – Uma voz diferente chamou. – O Senhor Galagher pediu que a
despertássemos.
Adrian não estava na cama e a suíte estava silenciosa. Sentei-me na
cama.
― Pode entrar – eu disse para a voz que eu não conhecia.
Uma senhora com idade para ser minha mãe entrou. Ela tinha os
cabelos claros ainda mais claros pelo grisalho e um rosto bondoso.
― Sou Martina. – Ela me disse enquanto colocava uma bandeja de café na
cama. – Espero que eu tenha acertado nas preferências da senhora, já que o
Sr. Galagher não nos deu tempo para nos conhecermos.
Ela sorriu e eu sorri também, encarando a bela bandeja com torradas e
omelete de batatas, frutas, suco e uma xícara de café.
― Martina se você continuar me tratando assim vou engordar. Isso sim! –
Respondi rindo do banquete.
― Vou avisar à Elena que a senhora está terminando o café e já irá descer. –
Martina me disse.
Pensei por um segundo, dando uma golada no café.
― Quem é Elena?
― Ah a Srta. Elena cuida dos eventos que o Sr. Galagher organiza. Ela faz
isso há algum tempo. Imagino que o senhor tenha lhe falado a respeito.
“Na verdade, não, ele não falou.” – Pensei, mas não disse nada.
Limitei-me a sorrir.
― Sim, ele me disse algo a respeito. – Menti. – Diga a ela que se quiser, pode
subir. Assim não precisa me esperar.
― Certamente senhora. – Martina respondeu. – Quanto à escola das crianças,
Karol agendou algumas entrevistas. Uma delas para hoje, logo antes do
almoço. John pediu que lhe avisasse que saiu com o Sr. Persen, mas que volta
com tempo para ir à entrevista com a senhora.
Oh meu Deus! Foi tudo que minha mente processou. Então essa era a
vida de uma esposa de Adrian Van Galagher. Suspirei. E eu feliz porque
tinha ganhado um diamante!
Suspirei e depois sorri.
― Ok. Martina. Muito obrigada por tudo. Juro que tentarei dar conta.
Martina sorriu.
― Nem vou perguntar à senhora o que devo preparar para o almoço e jantar.
Vou deixá-la habituar-se à rotina da casa primeiro.
― Martina já gosto muito de você! – Brinquei e ela saiu sorrindo.
Estava mastigando o primeiro pedaço da minha omelete, quando uma
moça de cabelos avermelhados entrou. Era jovem e bonita, mas tinha um ar
profissional. Ela parou na porta e sorriu.
― Bom dia Srta. Soares. O Sr. Galagher me pediu que viesse discutir com a
senhorita os detalhes do jantar de sexta e pediu também que iniciássemos os
preparativos do casamento.
Tossi. Engasgada com minha omelete. Ok. Eu sabia que me casaria,
mas não sabia que seria assim, tão rápido.
Ela colocou os papéis sobre a mesinha e caminhou até a cama.
― A senhorita está bem? – Perguntou enquanto eu tossia.
― Sim – respondi sentindo as lágrimas em meus olhos – só me afoguei.
― Entendo, – ela disse sorrindo, – Adrian Van Galagher é um pouco... – Ela
parou na palavra, tentando encontrar um adjetivo educado. – Eloquente e
decidido quando deseja algo.
Eu sorri.
― Apenas um pouco.
Elena sorriu.
― Claro.
― A propósito, sou Laura – eu disse – pode me chamar de Laura.
Estendi a mão e Elena a segurou gentilmente.
― É um prazer conhecê-la, Laura. E a propósito, desejo toda a felicidade do
mundo! – Ela me disse encarando o diamante em meu dedo. – Imagino que
tenha sido um amor fulminante. Para que o Sr. Galagher tenha finalmente
decidido terminar com seus dias de solteirice.
Era uma piada. Uma piada gentil. Sorri, mas não era um sorriso
verdadeiro. Eu sabia que amor não era exatamente o que unia Adrian a mim.
Isso era um acordo. Um acordo estranho e complicado de lidar. Um acordo
que eu queria que fosse eterno, mas que tinha um prazo para acabar. Suspirei,
bebendo um gole do café para disfarçar.
― Você sabe como Adrian é... – Brinquei imitando sua polidez. – Eloquente
e decidido – e completei – como uma mula empacada.
Elena sorriu, mesmo sem entender a piada, e eu decidi que gostava
dela.
― Vamos aos nossos negócios, Elena! – Eu disse afastando a bandeja de
café. – De que se trata esse jantar de sexta?
― Um jantar de noivado, Laura. Sr. Galagher quer apresentá-la à sociedade
holandesa. Não seria de bom tom que não o fizéssemos antes que a notícia do
casamento corresse à mídia.
― Entendo.
― Algum problema para você?
― Não, – respondi – perfeito para mim. Não tenho problemas com isso.
― Preciso que me passe sua lista de convidados – ela continuou – e que me
diga que tipo de evento deseja. Se quer algo mais suntuoso ou mais
campestre. Eu pensei em fazer o jantar aqui mesmo na mansão e pensei em
realizar a festa do casamento no salão do Waldorf.
Ela falava e falava e minha mente viajava nas palavras “Jantar de
Noivado” e “Casamento”. Tudo que eu queria era Adrian e as crianças. Alex
e Hans e minha avó. Eu não tinha ninguém mais com quem quisesse dividir
isso tudo. Queria um casamento simples e romântico, à beira de um lago.
Queria pensar em caminhar para o meu marido com pétalas de flores
espalhadas pelo chão. Queria um sol suave sob nossas cabeças e uma brisa
fresca brincando com meu vestido. Eu não queria uma festa. Eu não queria
mídia ou sociedade. Eu queria realidade, e isso eu não poderia ter. Eu tinha o
homem dos meus sonhos, mas tinha também um acordo e eu precisava
cumpri-lo.
― O que acha que Adrian preferiria? – Perguntei.
Elena pensou por alguns instantes, como se repassasse tudo em sua
mente.
― Bem, penso que o Sr. Galagher preferiria algo suntuoso. Podemos
inclusive reservar uma ala do Museu Van Gogh. Vejo o Sr. Galagher em uma
recepção mais moderna e elegante, nada muito provinciano. Além disso, ele é
um apreciador de Van Gogh, doou algumas obras ao museu. Sei que seria
realmente um prazer aos administradores, poderem sediar o casamento.
Suspirei – eu estava realmente dando um salto no escuro, só tinha
medo de que não tivesse água lá no fundo e eu batesse com a cabeça no
concreto.
― Parece perfeito para mim, Elena. – Menti, mas menti sorrindo
convincentemente.
― Quanto à decoração? – Ela me perguntou.
― Não faço ideia – respondi – mas sei que você pensará em algo realmente
incrível.
Ela me encarou meio sem entender por um longo tempo.
― Realmente não quer escolher a decoração do seu casamento, Laura?
Porque eu tenho certeza, pela maneira como Adrian Van Galagher fala de
você, que se você desejasse girassóis amarelos ele mandaria buscar.
Sorri, sentindo uma pontinha de dor lá no fundo do meu peito. – Sim,
ele buscaria, mas era por Collin, e não por mim.
― Eu realmente não me importo com as flores, Elena, – eu disse
sinceramente – só quero que seja uma festa agradável. Não entendo muito de
festas assim, nem me lembro de ter ido a algum casamento legal, então,
ficaria feliz que você cuidasse de tudo.
Elena sorriu, repousando a mão sobre a minha.
― Será uma festa maravilhosa, eu prometo.
Ela estava se preparando para sair quando John apareceu na porta.
― Vem Alex, ela ainda nem se levantou. – Ele disse sentando-se na cama
comigo e me dando um beijo na bochecha.
― Sra. Galagher, Sra. Galagher, a senhora precisa aprender que o dia do seu
marido costuma ter pelo menos trinta horas. Estamos quase atrasados para a
entrevista em minha nova escola. E lembre-se, a senhora é minha nova mãe.
Sorri.
― Ele não é meu marido ainda – respondi – então acho que posso dormir um
pouco mais.
― Ainda! – Completou Alex beijando minha testa.
Elena se despediu e saiu. Alex e John saíram em seguida para que eu
me vestisse. Tomei uma ducha e vesti uma calça social e uma camisa de seda.
Calcei meus saltos e prendi o cabelo em um coque. Peguei meus óculos
escuros e minha bolsa e desci.
Hanna e Collin me esperavam na sala, embolados com um buldogue
acinzentado e gordo. John e Alex riam de algo pela janela.
― Laurinha, se quiser posso acompanhá-la. – Alex ofereceu. – Eu tinha uma
audiência em Haia que foi cancelada, estou livre.
Encarei as crianças no chão, rolando e rindo enquanto o cão tentava
lamber seus rostos e pensei que eu realmente precisava de um curso intensivo
sobre maternidade.
Suspirei.
― Seria ótimo Alex.
Saímos da nova escola de John atrasados para o almoço.
― O que acha de mandarmos as crianças para casa com Harold e você fazer
uma surpresa para seu noivo? – Alex propôs. – John pode acompanhá-los.
Sorri.
― Estes olhinhos e este sorriso bobo me dizem que eu tive uma boa ideia. E
sim, vou cobrar por isso em um momento oportuno. Lembre-se, Alex Persen
nunca se esquece de cobrar um favor!
John riu alto e Alex o acompanhou.
― Não entendi – afirmei.
― Ah Laura, ele é um garoto bobo. Não se preocupe.
Chegamos ao escritório de Adrian alguns minutos mais tarde, Alex e
eu.
― Bom dia Karol! – Alex falou e eu sorri para ela.
― Ah Alex, que bom que está aqui! – Ela respondeu. – Alissa estava mesmo
à sua procura. Ela está com o Sr. Galagher.
Senti um bolo de bílis subir esôfago acima. – Deus alguém precisava
ensinar uma lição a essa garota oportunista!
Respirei fundo, acertando meus passos determinados, controlando o
sangue a se espalhar, quente, pelo meu rosto. Passei pela porta e encarei
Alissa sentada na cadeira de Adrian. Ele estava em pé, fumando um cigarro
perto da janela. Os dois riam animadamente.
― Laura! – Ela me disse sorridente. – Desculpe por usar a cadeira do seu
noivo. – A palavra soando estranha em sua voz. – Mas como vê, minha
condição exige um pouco mais de conforto.
Sorri, fingindo humor.
― Não se preocupe Alissa. – Eu disse chegando até Adrian, minhas mãos
brincando em sua gravata, sentindo seus braços prenderem-se ao meu redor. –
Não me importa que use a cadeira do meu noivo. – Demorei-me na palavra,
puxando a boca de Adrian para a minha. – Como pode ver, tenho tudo de
Adrian que podia querer.
Eu podia ouvir o som da saliva em sua boca, sendo engolida a
contragosto e quase, quase gargalhei. Ao invés disso sorri para Adrian.
― Vim ver se gostaria de almoçar comigo, Adrian. – Eu disse com minha
voz mais sensual. – Senti sua falta na cama hoje de manhã.
Adrian sorriu. Ele sabia que era um misto de provocação e sinceridade
e estava se divertindo com isso.
― O que não é mentira. – Alex completou beijando Alissa. – Ela nem tinha
saído da cama quando eu cheguei.
Os olhos de Adrian passaram de curiosos a escuros e assustadores em
uma fração de segundo. E senti um arrepio percorrer minha espinha.
Alissa fingiu dar um tapa no ombro de Alex.
― E posso saber o que o senhor estava fazendo na cama de Laura? – Ela
perguntou piorando a situação.
― Eu não estava na cama baby. – Ele disse sem perceber o tamanho do
problema que havia causado. – Estava no quarto.
Adrian se soltou de mim como se eu desse choque. Ele acendeu outro
cigarro e voltou-se para a janela.
― Eu gostaria de saber em que momento exatamente você deixou de
trabalhar, para estar em meu quarto, com minha esposa, Alexander.
Alex suspirou, percebendo a mudança em Adrian e meu desespero
iminente. Eu me encostei à mesa do outro lado, sem saber o que fazer.
― Não seja idiota Adrian! Eu não estava em seu quarto com sua esposa.
Passamos pelo quarto, quando Elena estava lá, – ele consertou – John e eu,
para avisar à Laura sobre o horário da reunião no colégio.
― Entendo. – Adrian disse. Sua voz soava fria e cortante, como a lâmina de
uma espada samurai.
Seus olhos pararam nos meus e eu tentei demonstrar o mais de
veracidade possível.
― Alex me ajudou com as crianças, – afirmei – eu não sabia exatamente o
que fazer. Nunca fui a uma reunião de colégio.
Adrian caminhou até mim. Prensando-me contra a mesa com seu corpo,
sua mão firme parada em meu quadril. Deu um trago no cigarro e o apagou
no cinzeiro, soltando a fumaça para cima. Sua voz ainda era gelada quando
ele falou, mas tinha uma nota potente de sensualidade e luxúria, ele tomava
posse de mim, marcava seu território. Seus lábios brincando próximos ao
lóbulo da minha orelha.
― Desculpe-me, amor, – ele disse, arrepiando minha pele com seu hálito
quente – eu não achei que ir a uma reunião de colégio fosse algo difícil para
uma advogada tão brilhante.
Ele segurou meu queixo e mordeu meu lábio. Não era um gesto
carinhoso, era agressivo e possessivo, mas eu estava derretida em seus
braços, sentindo a onda de poder sibilante ao redor de Adrian Van Galagher.
Não importava o que ele dissesse, soava como erótico e delicioso em meus
ouvidos, embora fosse um aviso silencioso de que eu deveria ter mais
cuidado.
― Da próxima vez que precisar de ajuda com meus filhos, espero que peça a
mim. – Ele disse entrelaçando os dedos nos meus e puxando-me ao seu lado.
– Agora vamos almoçar, amor, tenho certeza de que Alex e sua noiva têm
assuntos importantes a resolver.

Adrian
Ciúme borbulhava em meu peito como lava quando eu entrei em casa
naquela tarde. Passei pelo gramado sem dizer uma palavra. Hanna e Collin
brincavam no jardim com Martina. Subi as escadas degrau por degrau. Entrei
na suíte e ouvi o som do chuveiro ligado. Esperei. Soltei minha gravata e tirei
o paletó. Retirei as abotoaduras e a camisa de dentro da calça. Abri os botões.
Esperei que o som do chuveiro cessasse.
Caminhei até o banheiro para encontrar Laura nua, pele molhada,
cheirando a sabonete de calêndula. Os cabelos presos para cima de maneira
desarrumada. Corri os olhos por seu corpo, sentindo minha fúria se converter
em luxúria, crua e pesada, transbordando sentimentos que eu não conseguia
controlar. Cheguei até ela em poucos passos, minha mão pesada sobre seu
ombro, sustentando-a de frente para mim, sua proximidade nublando meus
sentidos.
― Nunca mais me desafie – sibilei.
Ela piscou algumas vezes, talvez porque não entendesse, talvez porque
tivesse medo. Eu não me importava.
― Do que exatamente estamos falando, Adrian? – Ela perguntou com a voz
firme, soando provocadora.
― Eu não vou admitir esse tipo de coisa Laura. Eu já fui claro com você
sobre isso.
― O quê? – Ela provocou. – O que você não vai admitir? Que seu filho entre
em nosso quarto? Que traga o seu melhor amigo junto? Enquanto eu estou
vestida e conversando sobre o nosso casamento com uma mulher que você
mandou aqui? Seja especifico sobre o que, exatamente, não vai admitir Sr.
Galagher. Porque aí eu posso me comportar de maneira apropriada para sua
futura esposa de mentira!
Eu não me importava que ela gritasse comigo, que fosse provocativa.
Eu gostava. Achava sexy como inferno a maneira como Laura me tirava do
sério. O que me incomodou foi o final da frase ― “me comportar de maneira
apropriada” e “esposa de mentira”. Eu podia ver Patrícia em minha frente,
tendo uma de suas crises, exigindo que eu me comportasse como seu marido.
Afrouxei o aperto em seu ombro, vendo a marca avermelhada da minha
brutalidade em sua pele clara. Eu me afastei, virando-me de costas e saindo.
Eu precisava ficar longe, recobrar minha sobriedade.
― Não tente me manipular – eu disse já do quarto – eu não vou admitir esse
tipo de joguinhos, Laura. Acredite, eu conheço todos eles. Quando se tem um
casamento de merda por mais de dez anos, aprendemos a reconhecer esse tipo
de manipulação barata.
Eu podia ouvir os passos dela se aproximando, rápidos. Não me virei.
― Eu não sou Patrícia, Adrian. – Ela sibilou com mais ódio do que eu
gostaria de ter causado. – Eu não vou trair você.
As últimas palavras batendo em mim como um soco, forte, espalhando-
se em meu rosto. Traição. Ela sabia da traição.
― Quem contou a você? – Perguntei ignorando todo o resto.
Laura pensou. Pensou. Irritando-me mais.
― Deixe-me ver se adivinho. Alexander Persen.
― Não seja bobo Adrian, ele me contou com a intenção de que eu
compreendesse você melhor! – Ela continuou – Não transforme tudo em uma
coisa ruim.
― O que mais ele contou? – Esbravejei. – Que eu fui um imbecil? Que
aceitei uma mulher adúltera de volta à minha casa? Que crio um filho que não
é meu? Ou será que ele também contou que matei meu irmão caçula
atropelado e minha mãe de desgosto. Diga Laura, o que mais Persen contou a
você?
Ela parou. Olhos focados nos meus, impedindo-me de desviar. Eu
podia ver seu peito subir e descer, comprimindo seus seios contra o sutiã de
renda. Eu podia esperar um tapa, um grito, mas não podia esperar o que veio.
Laura esticou o braço e sua mão tocou meu rosto devagar, cheia de
sentimento, calma, tateando toda a extensão da minha bochecha, descendo
em minha mandíbula, escorregando em meu peito pelos botões abertos da
camisa.
― Acha que eu penso que você é imbecil porque perdoou sua esposa? – Ela
me perguntou e eu não respondi. – Acha que penso que é imbecil porque ama
uma criança que não nasceu com seus genes?
Eu podia sentir seu toque acalmando meu peito, meu coração.
Enchendo-me de algo estranho e quente. Um sentimento forte demais.
Permaneci imóvel.
― Você é o homem mais incrível que eu conheço Adrian. – Ela sussurrou
contra minha pele, seus lábios tocando meu peito suavemente, enquanto ela
me envolvia pela cintura em seus braços. – Eu não poderia querer ninguém
mais do que quero você. Tudo bem que você tem um gênio terrível – ela
brincou. Seu sorriso fazendo cócegas em mim. – Mas ainda assim eu não
mudaria nada em você.
Não resisti. Desarmado por sua doçura. Envolvido por seu carinho.
Perdido em seus braços. Livrei-me da camisa, puxando-a para mim,
apertando-a contra meu corpo.
Minha boca procurando pela sua, enquanto eu a conduzia até a cama.
Livrei-me das minhas roupas, sem pressa, sentindo suas mãos percorrerem
minha pele, explorarem meu corpo. Sua boca recebendo minha língua,
sugando-a, mordendo meus lábios, meu queixo, meu pescoço. Deitei-me
sobre ela, encaixando meu corpo. Eu não queria uma transa. Não queria fodê-
la. Eu queria fazer amor com ela. Queria que ela sentisse o que eu sentia
agora. Queria trasbordar esse calor que ela me dava de volta para ela.
Laura tentou dizer algo que eu silenciei com um dedo. Meus olhos nos
dela. Não tinha nada que precisássemos falar. Nada a dizer. Nada a contar.
Nada importava. Coloquei-me dentro dela devagar, sentindo sua carne
abrigar a minha, ouvindo um gemido baixo sair de sua garganta. Meus
movimentos aumentando com os dela, meu corpo sentindo o dela, minha
boca em sua boca, até que nada era suficiente. Forte, profundo, mais e mais.
Eu me consumia em Laura e ela se entregava, até que caí sobre ela, cansado,
ofegante, sentindo nossos corpos trêmulos, ondularem.
Laura acariciou meu cabelo suado, beijando minha cabeça, apertando-
me contra ela.
― Quando eu penso que não poderia ficar melhor, Sr. Galagher, o senhor me
surpreende – ela brincou.
― Excelência é a alma do negócio, Srta. Soares – respondi, girando meu
corpo e colocando-a sobre mim.
Laura sorriu, beijando minha boca devagar.
― O que acha de um jantar não muito convencional com aqueles três
pestinhas lá em baixo? – Perguntei.
― Eu adoraria Sr. Galagher.
― Então se arrume enquanto eu cuido dos pequenos. – Eu disse. – A
propósito – continuei fechando o zíper da minha calça – precisamos contratar
uma babá, Srta. Soares. Eu gostaria que minha noiva tivesse suficiente tempo
livre para sanar minhas próprias necessidades.
Laura pulou da cama e pendurou-se em meu pescoço, ainda nua,
cheirando ao meu perfume. Puxou minha boca para a sua e eu retribuí o
beijo, profundo, sensual, forte.
― Sanar suas necessidades me enche de prazer, Sr. Galagher. – Ela disse
sorrindo. – E mande Hanna aqui que eu cuido dela. Coisa de meninas.
Usei todo o meu autocontrole para deixá-la no quarto e descer as
escadas. Peguei Collin no colo, e chamei Hanna.
― Anjo – eu disse a ela – Laura vai ajudá-la a se vestir. Suba e vá até o
quarto do papai que ela está esperando você para ajudá-la com o banho.
Não precisei falar mais nada. Hanna correu escada acima feliz e
saltitando de degrau em degrau. Subi as escadas com Collin pendurado nas
minhas costas. Parei em frente à porta de John e bati.
― Filho? – Chamei.
― A porta está aberta, Sr. Galagher, pode entrar.
Coloquei Collin no chão e entrei.
― Se vista. Vamos comer algo fora com Laura.
John sorriu. Um sorriso sarcástico que fazia arrepender-me de tê-lo
convidado.
― E o poderoso Sr. Galagher, agrada a noivinha novamente. – Ele brincou. –
Não estou reconhecendo você, pai. Sério.
Sorri, fechando a janela do quarto e puxando a cortina.
― Achei que você gostava de Laura – constatei.
― Ah eu gosto pai, relaxa. E olha, não reconhecer você é uma coisa boa, –
ele disse se levantando – eu não curtia muito o velho Galagher. Ele era
rabugento e chato demais. Prefiro o novo Galagher sabe! O apaixonado!
― Quem disse a você que eu estou apaixonado, garoto? Andou bebendo? –
Eu disse fingindo-me de sério, sem entender bem o incômodo que isso me
causava. Eu não estava apaixonado.
John passou por mim, tirando a camisa e a calça e caminhando até seu
banheiro.
― Pai – ele me disse concentrado – entenda. Existem coisas que são óbvias,
e não precisam ser ditas, como por exemplo, o fato de que o sol sempre
nasce, mesmo que nós não o vejamos e coisas que não são óbvias, e que
precisam ser explicadas, como o fato de que, na verdade o céu não é azul.
Você é como o sol pai. Óbvio demais.
Arremessei a bola de basquete em sua direção e ele se esquivou.
― Apresse-se e vista algo decente.
― Ah não se preocupe Sr. Galagher, – ele me disse sorrindo – eu vou me
esforçar para não ficar mais bonito que você. Prometo. Afinal, nós não
queremos que a garota desista do casamento.
Cuidei de Collin e voltei para o quarto. Laura estava sentada na
poltrona. Hanna entre suas pernas, enquanto ela penteava seus cabelos. Laura
usava um vestido claro. O tecido era fluido e destacava sua pele delicada.
Ela terminou e Hanna se levantou, exibindo sua trança recém-feita.
― Estou bonita papai? – Ela me perguntou.
― Linda, anjo! – Eu disse e beijei sua testa.
Caminhei até Laura e beijei sua boca suavemente.
― Você também está linda, amor. Só me dê um minuto e eu me arrumo
também.
Saí do chuveiro e vesti jeans e uma camisa. Penteei os cabelos e saí
para o quarto. Laura estava na cama, com Collin e Hanna ― cada um de seu
lado -, e John na poltrona, pés sobre a mesinha, divertindo-se em me ver.
― Agora a família Galagher está completa – ele brincou.
― Adrian você deveria dar um corretivo neste garoto insolente – Laura
brincou.
― Eu vou amor – eu disse – amanhã mesmo vou cancelar o depósito da
mesada dele.
― Ah não Sr. Galagher! Aí não pode! Você sabe, eu preciso de grana. Ah! E
por falar nisso, – ele disse sério – favor rever os valores e convertê-los
novamente para euros. A vida em Roterdã está pela hora da morte. Você
precisa ver.
Sorri.
― Eu vejo garoto! Sou eu quem paga as suas contas.
Laura riu alto enquanto ajudava as crianças a irem lá para baixo.
Entramos no Louie’s algum tempo depois. Eu não precisava mais me
preocupar se alguém iria me fotografar ao lado de Laura ou não. Na verdade,
eu ficaria grato se alguém o fizesse, seria mais fácil de fazer Margarida ver
que eu estava falando sério.
John se sentou com Laura e as crianças em uma das mesas perto da
porta, enquanto eu me dirigi ao balcão para fazer o nosso pedido. Voltei
algum tempo depois com as bandejas cheias.
Fiquei observando meus filhos ali, perto de mim, ao alcance das minhas
mãos. Eu não conseguia pensar em algo que pudesse ser melhor do que estar
ali, ao lado deles. Laura sorria, enquanto ajudava Collin com o cachorro
quente, sujando as mãos de queijo para alimentar o meu filho.
― Tirou a sorte grande, hein, Sr. Galagher! – John disse baixinho, batendo o
ombro no meu. – Vovô vai adorar conhecer essa aí. – Ele disse esticando a
sobrancelha em direção à Laura. – Talvez ele até repense o fato de que, como
é mesmo? “Você estragou sua vida quando jogou sua carreira fora para se
casar com mamãe”.
― Não seja bobo filho. Eu não joguei nada fora, – corrigi – não teria feito
nada diferente.
John sorriu, mas não disse mais nada por um pequeno espaço de tempo.
Quando falou de novo, sua voz não tinha traço algum de sarcasmo. Seus
olhos encaravam Laura rindo com Hanna e Collin.
― Acho que ela gosta de você pai. Eu não entendo, mas acho que ela gosta.
Eu sorri, mas também não disse mais nada. Pensei que eu era mesmo
um imbecil por não a valorizar mais. Que esta garota era a melhor coisa que
tinha me acontecido depois de ser pai. Pensei em como eu tinha sorte e em
como queria continuar tendo.
Suspirei – talvez eu pudesse convencê-la a transformar esses dois anos
em vinte ou trinta, quem sabe?
Capítulo 18

Laura
Na quarta à tarde, passei em meu antigo escritório para ver Hans. Eu
precisava resolver uma série de coisas antes do bendito jantar de sexta – meu
jantar de noivado.
Entrei e cumprimentei Luce, nossa secretária.
― Laura! – Ela disse levantando-se para me abraçar. – Oh meu Deus! Tenho
que confessar que você virou minha heroína!
Sorri.
― Luce, nem sei se pergunto a você por que – brinquei.
― Como assim? – Ela disse indignada. – Qualquer uma que consiga enfiar
uma aliança no dedo de Adrian Van Galagher merece toda a minha
admiração!
― Especialmente se ela não pretendia fazer isso. – Hans disse vindo pelo
corredor.
Abracei-o.
― Diga que não está chateado comigo – pedi.
― Pelo quê? – Ele perguntou. – Por se casar com o segundo homem mais
importante da Holanda? Um que só perde para o rei? Ah não se preocupe,
Laura eu posso lidar com isso!
Sorri.
― Isso ainda me assusta.
― Venha, vamos conversar em meu escritório. Mia espera você lá.
Entrei no escritório de Hans, sentindo uma onda de familiaridade se
espalhar por mim. Sentei-me em uma das cadeiras e deixei que Mia pulasse
em meu colo. Alisando seu pelo macio.
― Explique-me como você passou de advogada assistente à noiva em menos
de um mês. Porque em minha idade, Laurinha, nós temos dificuldade em
aceitar esses rompantes amorosos como coisas boas.
Suspirei – eu não conseguiria mesmo esconder nada de Hans e nem
pretendia.
― Não é exatamente amor Hans – comecei.
― Engraçado porque esse beijo não me deixa muitas dúvidas – ele disse me
entregando o jornal.
Abri na página que ele indicou. Era uma foto de Adrian comigo.
Estávamos encostados no carro. Ele me segurava pela cintura e sua boca
estava colada na minha. Era um beijo apaixonado, ou parecia, pelo menos.
Fechei o jornal e suspirei.
― É um acordo Hans. Um acordo pela guarda de um dos filhos dele. O
caçula.
Hans levantou uma sobrancelha para mim sem entender.
― Eu sei, parece idiota. – Constatei. – Eu me sinto mesmo idiota quando
penso, mas é o que é. Um acordo. Não posso dizer que é um acordo ruim.
― Tenho certeza disso. – Hans constatou. – Você não parece muito
interessada em se livrar das garras de Van Galagher querida.
― Não é isso Hans, – ou é? – Essa foi a condição da ex-sogra. Ela propôs
que eu me casasse com Adrian, em troca da guarda do filho caçula.
― E, claro, ele não poderia simplesmente entrar com um pedido de
restituição de guarda. Precisava casar-se com uma garota de classe média
apenas para poupar uma briga judicial, dentre as muitas que ele enfrenta
todos os dias.
Deixei minha cabeça pender contra as palmas das minhas mãos.
― Falando assim parece idiota.
― É idiota querida! – Hans constatou. – Eu só não entendi que tipo de
idiotice é. Quero saber o quanto essa idiotice vai magoar você. Você sabe
exatamente quem é Adrian Van Galagher, Laura? – Hans me perguntou.
Neguei com a cabeça. Eu não sabia muito a respeito dele. Sabia apenas
o que Alex e Margarida haviam me contado e depois do episódio idiota com
a tal garota do vestido vermelho, eu não havia procurado mais nada sobre ele
na internet.
― Adrian Van Galagher ganha dinheiro com manobras arriscadas no
mercado financeiro Laura. Ele compra empresas falidas e as vende em partes.
Ele destrói os grandes para dominar os pequenos. É o que ele faz. Não é
completamente ilegal, mas também não é muito ético.
Pensei por um tempo. Não era realmente ilegal. Antiético? Talvez. Isso
era um problema para mim? Não exatamente. Não era como se eu fosse uma
profunda conhecedora de direito empresarial ou mercado financeiro.
Permaneci em silêncio.
― Agora o que não faz sentido para mim – Hans continuou – é que um
homem acostumado a brigas ferrenhas em tribunais, prefira casar-se em um
acordo ao invés de simplesmente brigar pelo filho. Alexander Persen é o
melhor advogado da Holanda, não acho que seria um problema para Van
Galagher reaver a guarda dos filhos.
― Hans. Existem muitas coisas nisso tudo. Coisas confusas. – Tentei
consertar tudo, mas parecia mais enrolada a cada palavra. – Adrian. Ele. Ele.
É complicado.
― Imagino! – Hans disse sarcasticamente. – Só espero que saiba o que está
fazendo Laura. Você nunca me pareceu o tipo que se vende por alguns
milhares de euros.
Suspirei profundamente. Não era pelo dinheiro. Realmente não era. Era
por Collin. Não era? O garoto precisava do pai e o pai precisava dele. Era
isso. Era uma boa ação. Eu queria ajudar. Minha cabeça dava voltas em torno
do inadmissível. Eu negava e fingia, mas era para mim mesma. Eu não queria
admitir. Eu não podia. Se eu admitisse uma vez, então eu seria tragada nessa
espiral de sentimentos. Minha respiração de repente estava mais difícil, mais
tensa.
Eu não tinha muitos amigos na vida. Não tinha ninguém em quem eu
pudesse confiar, ou alguém com quem eu pudesse desabafar. Meu único
amigo era Hans. Ele era o cara para quem eu sempre corria quando algo dava
errado. De uma gripe a um aborto. E lá estávamos nós novamente.
― Eu estou apaixonada por ele Hans – confessei com medo das palavras que
saíam da minha boca.
Hans se levantou e me abraçou, deixando minha cabeça pender contra
seu peito.
― Isso eu já sabia querida. – Ele disse acariciando meu queixo. – O que eu
quero saber é o que Van Galagher pretende com você. Ele pode ser o dono da
Holanda, eu nem me importo. Ele pode ser o canalha safado que alguns
dizem, ou o anjo salvador que outros dizem, não me diz respeito, mas ele não
pode brincar com a minha garota.
Ele ergueu meu rosto e encarou meus olhos marejados.
― Se ele fizer isso eu vou até aquela mansão e chuto a bunda rica dele. Juro.
Sorri.
― Hans você é o melhor quase pai que uma garota poderia ter!
Quinta feira chegou mais rápido do que eu imaginei. Eu havia acabado
de acertar a contratação de uma babá para Collin e Hanna quando vi John
sentado no deck perto do lago. Peguei duas garrafas de soda e caminhei até
ele. Sentei-me ao seu lado e entreguei-lhe uma das garrafas.
― Eu preferia cerveja, mas tudo bem, isso vai servir – ele me disse batendo
sua garrafa na minha.
― Eu não seria uma madrasta responsável se deixasse você beber cerveja.
John sorriu, dando uma golada no refrigerante.
― Estranho, não é? – Ele me perguntou. – Essa de madrasta. Nunca pensei
que eu realmente fosse ter uma.
― Eu tive um padrasto – confessei a ele – o cara era um imbecil.
John sorriu.
― Já tive mais sorte que você então.
Suspirei profundamente, observando o sol fraco de primavera brilhar na
água clara do lago.
― Tudo bem para você? – Perguntei. – Sabe, essa coisa toda de acordo. Eu
entrando na vida de vocês assim tão rápido. Não quero invadir nada John. Eu
sei como é difícil ter alguém que não é realmente parte da família fingindo
que é.
John bebeu um gole da soda. Deixou a garrafa ao seu lado. Atirou a
tampinha na água, vendo-a quicar algumas vezes. Sorriu.
― Sabe Laura. Eu lembro exatamente da minha mãe. Não preciso de foto
alguma, como Hanna e Collin. Eu me lembro dos olhos dela, e do seu sorriso.
Eu me lembro do cheiro do seu cabelo e de como ela me beijava todos os dias
antes de dormir. Eu sinto falta dela todos os dias.
Eu podia sentir a umidade aumentar em meus olhos consideravelmente.
Funguei um pouco para evitar chorar. Eu não queria uma cena. Queria estar
forte para ele. Ampará-lo.
John suspirou e sorriu de repente, passando o braço pelo meu ombro e
me puxando para ele. Beijou minha testa.
― Mamãe teria gostado de ver o Sr. Galagher com você.
Sorri, deixando uma pequena lágrima correr.
― Ah não vai chorar Laura. Nós não temos uma garota em casa há muito
tempo. Hanna não conta. Não sou muito bom com essas coisas.
Limpei meus olhos com as mãos e beijei sua bochecha.
― Você é um garoto incrível, John.
― Não o suficiente para merecer uma cerveja, mas tudo bem. Eu posso lidar
com isso. E respondendo à sua pergunta, nova Sra. Galagher, eu estou bem
com isso. Estou feliz que você tenha entrado em nossas vidas. Meus irmãos
precisavam que alguém colocasse um cabresto no Sr. Galagher.
― Eu não coloquei um cabresto no seu pai! – Defendi-me.
― Isso! – Ele me disse – continue fingindo que não. Ele não lida bem com
cabrestos. É como meu potro. Precisa achar que está no comando.
― John! – Eu disse indignada.
― E quanto ao acordo – ele continuou – é a coisa mais idiota que eu já ouvi,
sério, mas se vocês ficam mais felizes fingindo que isso é realmente um
acordo, tudo bem para mim.
Ficamos ali, curtindo os raios fracos do sol em nossa pele, tomando
nossa soda. John era um garoto incrível. Não. Ele não era um garoto. Era um
homem. Jovem demais para sua maturidade. Ele era um amigo. E eu estava
feliz que me aceitasse.
Entrei pouco mais de uma hora depois. Martina havia tirado o uniforme
das crianças e elas estavam na cozinha, terminando o café. Sentei-me ao lado
de Hanna.
― Vamos fazer o dever antes de o papai chegar? – Eu disse a ela.
― Você me ajuda Laura?
― Claro, querida. Nós podemos usar a mesinha da sala. Assim o Chucrute e
a Mia podem participar.
Estávamos sentados no tapete, ao redor da mesinha. Hanna com os
cadernos abertos e Collin colorindo um livro de desenhos, quando o Juiz
Reign passou pela porta.
― Vovô! – Hanna gritou e correu até ele.
O juiz a pegou nos braços e caminhou até nós. Ele não cumprimentou
Collin.
― Srta. Soares. – Ele me cumprimentou. – É um prazer encontrá-la
novamente.
Havia uma nota de desconfiança em sua voz. Algo que eu não sabia
como interpretar.
― Se eu não visse com meus próprios olhos, não acreditaria. Então o
inconsequente do meu filho, realmente decidiu ser um homem de família.
Eu me levantei para cumprimentar o Juiz. Collin permaneceu sentado,
olhos na folha de papel. Eu queria pegá-lo no colo. Sentia um dever estranho
de proteção. Estendi a mão para o Juiz.
― É um prazer revê-lo também Juiz Reign – eu disse.
Soltei sua mão e peguei Collin nos braços. Beijei sua testa e ele se
aconchegou em meu peito.
Eu sabia que deveria ignorar o comentário sobre Adrian. Eu sabia que
os dois não eram os melhores amigos do mundo, mas ele criticar Adrian me
incomodava. Não resisti.
― Sinceramente, Juiz Reign. Não vejo Adrian de outra maneira, que não um
homem de família.
― Ah querida, isso provavelmente se dá ao fato de que você acabou de
conhecê-lo. Meu filho é um grande manipulador. Ele é especialista em tirar
proveito das situações. – Ele disse colocando Hanna no chão e sentando-se
em uma das poltronas. – Eu posso compreender perfeitamente. Você é uma
jovem promissora. É inteligente e muito bonita.
― Fico feliz que aprove minha escolha, pai. – Adrian disse beijando minha
testa e pegando Collin em seus braços.
Eu não o havia visto entrar, então eu não sabia qual parte da conversa
ele tinha ouvido, mas eu estava feliz que Adrian estivesse em casa.
― Filhote, – ele disse para Collin – o que acha de atirar pedrinhas no lago
com John?
Collin sorriu.
― Ótimo! Hanna vai com você até lá. John vai cuidar de você enquanto o
papai e Laura conversam com o vovô.
Hanna levou Collin pela mão. Ficamos nós três ali. Adrian se sentou no
sofá e deu-me a mão para que me sentasse ao seu lado.
― Gostaria de um café pai? Ou veio apenas conferir se desta vez eu fiz uma
boa escolha? – Adrian provocou.
A mão de Adrian estava em minha perna. Firme, sobre o meu joelho.
Era um gesto protetor. Ele queria deixar claro que eu pertencia a ele.
Recostei-me mais perto dele, deixando minha cabeça pender suavemente em
seu ombro.
― Eu gostaria de um café sim, meu filho. – O Juiz rebateu. – Afinal nós não
nos falamos desde quando mesmo? Acho que desde que você perdeu seus
filhos.
― Amor, – ele disse beijando minha têmpora, – você poderia pedir à Martina
para providenciar um café para nós três?
Sorri.
― Claro Adrian.
Eu me levantei e saí. Martina já havia preparado o café e o estava
colocando em uma bandeja. Esperei que ela terminasse e a segui até a sala.
Ela colocou a bandeja na mesinha e serviu Adrian e o pai. Eu estava passando
por Adrian quando o Juiz continuou a conversa.
― Então Laura, o que você acha dessa fixação do meu filho por uma criança
que nem mesmo tem o nosso sangue? – Ele me perguntou em um tom
arrogante.
Eu podia ver Adrian apertar o maxilar com tanta força que surgia
uma veia azul em sua têmpora. Repousei minhas mãos sobre seus ombros.
― Acho admirável que ele ame uma criança como filho, mesmo que não
existam laços consanguíneos – eu disse firme.
O Juiz deu uma golada no café e colocou a xícara na mesa novamente.
― Sabe que o garoto irá dividir a herança da nossa família com seus futuros
filhos, não sabe querida?
Respirei fundo, soltando o ar pela boca. Eu estava irritada. Muito.
Furiosa. E eu precisava me controlar porque era exatamente o que o Juiz
queria – fazer-me perder a calma.
Sorri.
― Não vejo problema, Juiz Reign. Eu não saberia dizer de qual tamanho é a
fortuna do meu futuro marido, mas tenho certeza de que não temos problemas
financeiros iminentes. Quanto à herança, pelo pouco que sei, foi conquistada
com as habilidades de Adrian, então acho que ele é quem deve decidir com
quem dividir ou não.
― É uma excelente advogada de defesa, Srta. Soares. Eu sempre soube disso.
E me chame de Albert. Acho mais apropriado, já que se casará com meu
filho.
Eu sorri em resposta. Não era um sorriso sincero, mas era um sorriso
necessário.
― Se não se importam, vou cuidar das crianças. Está ficando tarde.
Adrian
Quando meu pai cruzou a sala em direção à saída, eu só pude
agradecer. Não gostava de suas visitas. Não que eu me importasse de
qualquer maneira com o que ele pensava a meu respeito – suas opiniões já
haviam deixado de importar muito tempo atrás. O que me incomodava era a
maneira como ele tratava Collin. Eu odiava que ele fizesse distinção entre os
meus filhos. Eu contaria a Collin, eventualmente, que ele não tinha o meu
sangue. Eventualmente, quando chegasse a hora. Essa não era a hora.
Subi as escadas sentindo meus ombros pesados pela conversa e meu
coração leve pela atitude de Laura. Ela havia desafiado meu pai. E isso não
era uma coisa fácil. Eu mesmo havia passado tempo demais aceitando suas
opiniões distorcidas a respeito da vida, por puro medo de desafiá-lo. Ela não
tinha medo. Era forte e corajosa. Minha garota.
Entrei em meu quarto em busca dela, mas não a encontrei. Caminhei
pelo corredor e a ouvi murmurando uma música bem baixinho. Eu não
conhecia a música, parecia ser em português.
― Durma bem anjinho! – Eu a ouvi dizer e então entrei.
Laura bateu com o nariz em meu peito, bem no momento em que passei
pela porta. Eu a segurei em meus braços.
― Isso está virando uma rotina Sr. Galagher – ela brincou.
― Mas desta vez eu a segurei – respondi – e não pretendo soltá-la.
Laura sorriu, cruzando os braços em minhas costas, por baixo dos meus
braços.
― Ótimo! – Ela me disse encarando meus olhos. – Eu não queria mesmo que
me soltasse.
Encarei por um longo tempo, eu queria aproveitar cada segundo.
― Obrigada por me defender. – Eu disse beijando sua testa. – Foi muito
corajosa. Não é qualquer um que enfrenta o poderoso Juiz Reign.
― Ah! Não tem problema. Minha reputação já não é lá essas coisas mesmo.
― Vem amor, – eu disse puxando-a pelo corredor – vou cuidar da minha
garota.
Entramos em nosso quarto e eu encostei a porta. Enchi a banheira e
entrei com ela, deixando a água morna relaxar nossos corpos, beijando suas
costas suavemente.
― Adrian, – ela perguntou de repente – será sempre assim?
― Não anjo às vezes vamos tomar banho no chuveiro mesmo. Eu sou um
homem ocupado – brinquei.
― Não seu bobo – ela me corrigiu – nós dois. Nosso relacionamento. Será
sempre assim?
Suspirei profundamente.
― Provavelmente não. Em um mês ou dois, você estará fingindo dor de
cabeça e eu estarei inventando reuniões de trabalho.
― Que horror Adrian! Como você é pessimista!
― Não sou pessimista amor, sou realista. Acredite, eu já passei por essa
situação.
Laura suspirou profundamente.
― Bem, então, acho que devemos ficar felizes que temos que suportar isso
por apenas dois anos.
Ela sorriu, mas não era um sorriso feliz. Eu também não estava feliz.
Sentimentos estranhos perturbavam minha alma. Apertei-a mais forte contra
mim.
― Amor, vamos só aproveitar enquanto tudo está bem – eu disse
descansando minha boca na curva do seu pescoço.
― Acho uma ótima ideia, Sr. Galagher.
Laura adormeceu algum tempo depois. Eu me levantei, vesti uma calça
de elástico e me servi de uma dose de uísque. Fui até a janela. Abri a porta de
correr e saí para a varanda. Era uma noite fria, mas eu não me importava.
Sentei na cadeira e acendi um cigarro. Amanhã eu estaria noivo.
Dei um trago no cigarro e deixei a fumaça se espalhar ao redor de mim
devagar. Minha mente voava entre o passado e o presente. Eu tinha medo de
cometer os mesmos erros. Tinha medo de frustrar Laura como havia frustrado
Patrícia. Patrícia.
Não isso não iria acontecer. Chacoalhei minha cabeça, tentando
afastar as bobagens da minha mente, enquanto saboreava minha bebida.
Laura não era Patrícia. Ela não esperava de mim o que Patrícia esperava. O
que nós tínhamos era um acordo.
Um acordo era uma coisa boa. Não havia surpresas. Nós sabíamos
exatamente o que esperar um do outro. Não sabíamos? Então por que eu me
incomodava tanto em pensar nisso como um acordo? Porque eu sentia tanto
ciúme? Ela não era minha. Ela ia seguir com a vida dela em algum tempo. Ia
conhecer outra pessoa. Um cara com quem pudesse se casar de verdade. Um
cara que iria tocá-la e beijá-la de verdade. Apertei minhas mãos em punho.
Um cara que iria amá-la. Um cara gentil e bom. Um cara como Alexander.
Atirei o copo o mais longe que consegui, acertando o tronco da
castanheira. Ele se partiu em centenas de pedaços de vidro. Ela poderia ser de
outro algum dia, mas hoje, hoje ela era minha.
Entrei. Fechei a porta e tirei minha calça. Levantei as cobertas e
encaixei meu corpo no de Laura, por trás, enfiando minha mão dentro da sua
calcinha, tocando-a, pressionando meu corpo no dela, sentindo sua excitação
aumentar. Eu estava pronto. Duro. Excitado. Eu queria possuí-la.
Baixei minha cueca e me encaixei próximo à sua entrada, sentindo o
calor da sua pele.
― Adrian, – ela balbuciou – não acredito que você quer mesmo fazer isso
agora – constatou.
Forcei minha entrada, tocando-a devagar com uma mão e apertando a
carne da lateral do seu quadril com a outra. Encostei minha boca em seu
ouvido, traçando a curva da sua orelha com a minha língua.
― Você nem faz ideia de como eu quero, amor. Nem faz ideia.
Capítulo 19

Laura
Eu estava terminando o café, quando Martina me chamou.
― Srta. Soares. Entrega para a senhorita.
Encontrei um homem de terno na porta. Ele tinha uma grande caixa nas
mãos. Peguei-a e assinei o protocolo de recebimento. Subi as escadas e entrei
em meu quarto. Coloquei a caixa sobre a cama e a abri. O conteúdo estava
coberto por papel de seda branco.
Soltei o papel com cuidado para encontrar um vestido dobrado. O
tecido era leve e fluido, claro, quase branco. Havia pequenos detalhes de
ramos de flores, em um tom suavemente mais escuro. Era delicado,
discretamente transparente e muito, muito elegante. Era perfeito.
Embaixo do vestido havia um par de sandálias de salto alto e um
bilhete dobrado. Abri para encontrar a caligrafia de Adrian Van Galagher.

“Amor,
Não tenho dúvidas de que acertei o tamanho, afinal, eu passei boa parte da
noite passada assegurando-me de conhecer cada detalhe do seu corpo.
Espero que goste e o use para mim nesta noite especial.
Adrian”

Li e reli o papel sorrindo como uma idiota. Ele conseguia! Ele sempre
conseguia me deixar com este sorriso bobo preso nos lábios.
Passei o que restou do dia ansiosa, sentindo como se meu coração não
coubesse mais dentro do meu tórax. Inflado, grande, leve, como se eu
pudesse voar.
Adrian havia insistido para que eu passasse o dia em um SPA ou coisa
do tipo, mas eu não queria. Queria ficar aqui, em nosso quarto, sentindo a
presença dele, seu perfume na roupa de cama. Eu estava vivendo um
momento único, e por mais que fosse um acordo, o que eu estava sentindo
não era. Era forte e real. Eu estava assustada, mas estava envolvida demais
para dar um passo atrás.
Martina e Lila, a nova babá, haviam se encarregado de cuidar das
crianças e Adrian havia decidido que se eu não queria um SPA, então ele
deixaria o quarto todo para mim e se arrumaria no quarto de John.
Eu não discuti, queria mesmo um tempo a sós. Queria relaxar e me
preparar para a noite. Eu não estava acostumada a ter esse tipo de regalias,
um dia todo na cama, mas com pouco mais de uma semana sendo mãe e
esposa em tempo integral, eu comecei a perceber que a vida de advogada não
era tão dura quanto eu imaginava.
Pouco antes das oito da noite, eu estava pronta. Ajeitei algumas mechas
dos meus cabelos caindo pelos ombros e encarei a figura no espelho. Sorri –
eu estava bonita. Bonita, elegante e delicada, como a noiva de Adrian Van
Galagher deveria ser.
Uma música suave tocava vinda do andar de baixo. Eu podia escutar as
pessoas conversando. E podia sentir meu coração apertar – meus nervos
pareciam feitos de gelatina.
Desci as escadas devagar, apoiando a mão no corrimão para me
segurar. E então, tudo se acalmou, não havia nada mais além dele. Ele se
virou para mim e sorriu.
― Senhores, eu lhes apresento minha bela noiva Laura Soares! – Adrian
disse.
Ele caminhou até mim e estendeu a mão. Estava usando um smoking
preto. Seus cabelos bem penteados para trás. Eu segurei sua mão estendida e
deixei que ele me conduzisse pelos últimos degraus, enquanto as pessoas nos
aplaudiam.
Adrian beijou minha mão, sobre o anel de noivado. Era um beijo
discreto, mas seus olhos ardiam como brasas sob minha pele. Ele tinha um
poder sobre mim e meus desejos que eu nem havia imaginado ser possível.
Eu vi Hans encostado em uma das pilastras da sala, parecia
desconfortável em seu traje. Sorri, mas não consegui caminhar até ele.
― Vem amor, – Adrian me disse, puxando-me para o lado oposto – quero
que conheça a princesa.
Eu sabia quem era a princesa da Holanda, obviamente, o rosto dela
estava em pelo menos um tabloide a cada dia, com as mais diversas
manchetes, mas como mera mortal comum de um país presidencialista, eu
nunca havia realmente chegado perto de uma princesa.
Ela era elegante e delicada. Bonita de um jeito discreto. Muito bem
vestida. A princesa não estava sozinha, ao seu lado, a garota loura do vestido
vermelho, sorria para mim.
Eu sabia o que Adrian queria. Ele queria deixar claro para mim, que a
tal garota não significava nada para ele. Sorri de volta para ela.
― Princesa! – Adrian a cumprimentou com uma pequena reverência. – Esta é
Laura, minha futura esposa.
Eu imitei sua reverência. Não sabia ao certo o que fazer. Estender a
mão? Abraçar? Chamar de majestade? Não era algo para o qual eu estivesse
preparada. Esse não era o meu mundo, pelo menos até agora.
― E está é Clair. – Ele disse indicando a moça da foto.
― É um prazer conhecê-la, Laura! – Ela disse. – Adrian precisava mesmo de
alguém em sua vida. Já era hora de se apaixonar novamente.
Senti um golpe duro no fundo do coração – não era paixão – mas sorri
mesmo assim.
― É um prazer conhecê-la também, Clair! – Eu disse a ela.
Nós caminhamos pela sala, cumprimentando as pessoas. Em sua
maioria, pessoas que eu só conhecia das capas dos tabloides. Toda a
sociedade holandesa estava lá, incluindo, obviamente, Alissa.
Fiz o máximo que pude para fugir dela. Eu não queria nenhum tipo de
cena hoje. Não queria que nada estragasse meu momento.
― Você está se saindo muito bem, Sra. Galagher. – John cochichou em meu
ouvido quando passamos por ele. – Continue assim por mais uma ou duas
horas.
Sorri e estiquei a sobrancelha para ele – fazia parte do meu papel, por
mais que eu não quisesse.
Um homem se aproximou de nós e cumprimentou Adrian
― Adrian! Quanto tempo! Eu tive que vir até aqui e conhecer sua bela e
jovem noiva – ele disse sorrindo e estendendo a mão para mim. Agora
entendo porque você decidiu se casar. – Seus lábios tocaram a pele fina da
minha mão. – Eu faria o mesmo. Sou Jens.
A mão de Adrian em minha cintura ficou mais firme, forte. Seus dedos
apertados contra a minha carne, mantendo-me ali, nem um centímetro longe
do seu corpo.
― Sou Laura. É um prazer.
Adrian estreitou os olhos, encarando o homem à nossa frente. Ele era
bonito. Atraente. Da idade de Adrian ou um pouco mais jovem. Tinha
encantadores olhos azuis escuros. Uma boca bem delineada, corpo esguio,
atlético. Eu podia ver a pequena veiazinha azul pulsando na têmpora do meu
noivo. Retirei minha mão da de Jens e a coloquei sobre o peito de Adrian, na
lapela do smoking. Beijei seu rosto suavemente.
― Acho que está errado Jens. Eu é que tenho muita sorte por ter encontrado
Adrian. Não me vejo com homem algum além dele.
Adrian não disse nada. Permaneceu em silêncio. Punhos cerrados, olhos
estreitos, mas a pequena veia em sua têmpora não estava mais lá. Descansei
meu rosto contra seu peito.
― Amor eu gostaria de cumprimentar Hans. – Falei depois de alguns
instantes de silêncio.
Ele beijou minha testa, demorando a boca em minha pele.
― Claro amor, – ele disse devagar – já que Jens veio apenas para conhecê-la,
penso que sua tarefa já está completa.
Eu nem conhecia o tal Jens. Não sabia quem ele era, mas eu jamais
conseguiria falar com alguém daquele jeito, naquele tom. Aquele era o tom
Adrian Van Galagher de falar e eu não conhecia ninguém além dele capaz de
usá-lo com tanta mestria.
― Hans! – Eu disse pendurando-me em seu pescoço.
Hans me segurou em um abraço.
― Hans este é ao que parece – eu disse com a mão no ombro de Adrian –
meu noivo, o Sr. Galagher.
Adrian estendeu a mão para Hans.
― É um prazer conhecê-lo Sr. Andersen. Laura tem muito carinho pelo
senhor.
― Eu não tive filhos, Sr. Galagher. Não tive esse prazer, mas o destino me
deu Laura. Eu a amo como se fosse minha filha. O senhor deve imaginar
como me preocupo com ela. Espero que a faça feliz.
Era uma ameaça silenciosa de Hans. O tipo de ameaça que Adrian não
costumava tolerar. Senti o sangue gelar em minhas veias.
Contrariando meus pensamentos, Adrian sorriu. Beijou minha testa e
me aconchegou em seu peito.
― Não pretendo desapontá-lo, Sr. Andersen. Não se preocupe.
O quarteto de cordas tocava uma música suave, romântica.
― O que acha de termos nossa primeira dança amor? – Adrian me perguntou.
― Será um prazer, Sr. Galagher.
Adrian me puxou junto dele, minha cabeça recostada contra seu peito.
Uma mão contra minhas costas, a outra, segurando a minha junto ao seu
peito. Nossos corpos encontrando um ritmo só nosso. Novamente, não existia
nada além de Adrian e eu. Foi assim por mais tempo do que eu podia pensar
em dançar com alguém. Até que Alexander se aproximou de nós.
― Então você vai monopolizar Laurinha a noite toda? – Alex brincou. –
Acho que seria justo que ela dançasse pelo menos uma música com um cara
legal como eu.
E então, em uma fração de segundos, a veiazinha azul estava lá de
volta, pulsando apertada em sua pele.
Adrian parou de se movimentar, ainda me apertando contra ele, sua
mão protetora em minha cintura.
― E você não julga justo que eu deseje minha noiva apenas para mim,
Alexander, meu amigo?
― Não seja rabugento e ciumento – Alex disse separando-me de Adrian –
pelo menos esta noite, tente ser um cara legal.
Alexander segurou minha mão e me puxou junto a ele com uma mão
firme em minhas costas. Adrian se afastou contrariado, os olhos fuzilando
Alex e eu. Ele nos observava dançar de longe, mas seus olhos não nos
deixavam nem um minuto se quer.
― Quero que saiba que, apesar de ter ciência dos termos, – Alex disse contra
o meu ouvido – eu realmente espero que você e Adrian sejam felizes! – Ele
fez uma pausa e encarou Adrian sem sorrir. – Mas se não for, Laura, quero
que saiba que eu estou aqui.
Sorri.
― Obrigada. É bom saber que posso contar com você.
Alex encarou meus olhos desta vez. Seu rosto era sincero, doce, gentil.
― Eu estou falando sério quando digo isso. Adrian é meu melhor amigo, e é
por isso que eu o conheço bem. Ele tem essa tendência a dominar tudo e
todos. Não quero que ele faça isso com você. Eu nem sei exatamente porque,
mas acredite, eu realmente gosto muito de você. Eu sei lá, eu sinto como se...
– Ele parou a frase e fez uma cara engraçada. – Por mais idiota que possa
parecer, eu sinto que é meu dever cuidar de você.
Recostei minha cabeça em seu ombro. Era estranho, mas eu entendia
exatamente o que ele queria dizer. Havia algo entre Alexander e eu. Um laço
profundo. Algo que eu não conseguia explicar, mas que sentia como
verdadeiro.
― E que garota não ficaria feliz em ter Alexander Persen como seu protetor?
– Brinquei.
― Bem, dentre todas, acho que aquela loura alta ali não anda muito feliz com
a escolha que fez – ele brincou erguendo uma sobrancelha na direção de
Alissa.
― Ah isso deve ser por causa do bebê Alex, – eu o animei – acredite isso
mexe com os hormônios da gente! Pense em todo aquele peso em seu corpo e
se imagine sendo sugado de dentro para fora – brinquei – é mais ou menos
assim.
Alex sorriu.
― Nem quero ver quando Louise nascer então! Acho que vou acabar me
esquecendo de como se faz sexo.
Ri mais alto do que gostaria.
― Ah não se preocupe. Dizem que é como andar de bicicleta.
― Cara – John disse se aproximando de nós no intervalo de uma música – se
eu fosse você devolveria logo a garota, e reforçaria meu seguro de vida – ele
brincou – tem um homem ali do lado com cara de quem mataria você com a
espátula do patê.
Beijei Alex no rosto e segurei na mão de John.
― Vamos melhorar o humor do seu pai.

Adrian
Eu estava irritado. Contrariado. E eu odiava me sentir assim. Dei a
última golada em meu uísque enquanto John trouxe Laura até mim. Ela
sorriu, segurando a lapela do meu smoking e tocou seus lábios nos meus.
― Sabia que você está muito, muito sexy com esse olhar de quem vai matar
alguém? – Ela brincou.
― Conte-me a piada, Laura, – eu pedi autoritário – eu quero rir também.
Vocês dois pareciam bem felizes.
― Não seja rabugento. Era uma bobagem.
As mãos de Laura brincavam em meu peito. Eu não a abracei. Mantive
minhas mãos dentro dos bolsos das minhas calças. Se ela achava que me faria
esquecer seu pequeno episódio com Alexander manipulando meus desejos,
ela estava errada.
― Diga-me – insisti sem humor.
Laura fungou irritada.
― Sabia que você consegue ser insuportável quando quer? – Perguntou.
― Apenas diga-me o que ele disse que a fez rir tão espontaneamente e
seguiremos com a nossa noite.
― Era uma bobagem, dentro de um contexto. Fora dele vai parecer outra
coisa e eu realmente quero evitar interpretações equivocadas.
― E você supõe que eu não tenha condições de entender o contexto da
piadinha de vocês dois – constatei.
― Ok! – Ela disse tirando as mãos de mim. – Você venceu! Você sempre
vence, não é?
― Posso dizer que tenho mais vitórias que derrotas em minha longa ficha de
ações.
― Alexander disse que está com problemas com Alissa. Problemas de
relacionamento. – Ela me disse a contragosto. – E eu lhe disse que deveria ser
por causa do bebê. Eu disse que a gravidez mexe com os hormônios
femininos.
― Sim.
― E ele me disse que então acabaria por se esquecer como se faz sexo.
Meus olhos correram até Alexander. Maldito conquistadorzinho barato.
Então era isso, ele estava fazendo piadinhas sobre sexo com minha noiva.
― Espero que se lembre de que nosso contrato tem uma cláusula de
fidelidade, – constatei – acredite, você não conseguiria pagar a multa.
Laura suspirou. Era um suspiro triste, de quem desiste. Não era o que
eu queria. Eu queria que ela estivesse feliz. Queria que fosse uma noite feliz
para nós dois. Puxei o ar para dentro dos pulmões e me preparei para dizer
algo que pudesse ajudar a consertar minha frase infeliz, mas ela não me
deixou continuar.
― Não se preocupe, Sr. Galagher. Em momento algum eu vou esquecer que
isso se trata de um acordo, e também não vou esquecer os termos desse
acordo.
Ela disse isso e se virou para ir longe de mim. Olhos tristes, sem brilho.
Senti como se algo apertasse meu coração de dentro para fora. – Eu não iria
afastá-la de mim. Não iria fazer isso novamente.
Segurei-a pelo pulso, girando-a e puxando-a para mim. Cruzei suas
mãos ao redor da minha cintura e segurei seu rosto entre minhas mãos.
Beijei-a devagar, puxando seu lábio inferior entre os meus. Tateando com a
minha língua, até que ela não ofereceu mais resistência. Beijei-a mais, mais
profundo, sugando sua língua para a minha boca, apertando seu corpo no
meu. Eu não pedi desculpas. Não podia me desculpar por dizer a verdade,
mas queria que ela soubesse que apesar da verdade, existiam mais coisas que
não estavam naquele pedaço de papel.
Descansei seu rosto sobre meu peito e alisei seus cabelos com a ponta
dos meus dedos.
― Então pai? – John me disse interrompendo nosso momento. – Tudo bem
se eu tirar a garota para dançar ou você vai rosnar para mim também?
Levantei uma sobrancelha, e dei um leve sorriso, beijando o topo da
cabeça de Laura.
― Não acho que você ofereça suficiente perigo para que eu precise marcar
meu território aqui – brinquei.
― Continue pensando assim, velho, e em um ou dois anos eu terei vencido
sua marca de playboy holandês.
― Não será uma tarefa impossível! – Laura disse dando um tapinha nas
costas de John. – O grande Sr. Galagher está aposentado! Não está Sr.
Galagher?
― Com toda a certeza amor, – eu respondi – agora vá até lá e deixe este
garoto se exibir com a mulher mais linda da festa.
Quando os dois se afastaram eu percebi que o sorriso dela deixava meu
coração em paz. E eu estava descobrindo que gostava de ter o meu coração
em paz.
― Papai, papai! – Hanna disse segurando-se em mim. – Eu quero comer mais
um pedaço de torta e Lila disse que eu não posso – ela reclamou.
― E porque ela disse que você não pode Hanna? Explique-me – perguntei.
Eu conhecia minha filha, aliás, eu conhecia os três. Eles tinham muito
mais de mim do que eu gostaria. Três pequenos manipuladores criados para
conquistar o mundo, mas não comigo. Eu sabia e conhecia todos os truques.
Hanna pensou um pouco e depois bufou, cruzando as mãozinhas sobre
o peito.
― Porque ela disse que três pedaços eram suficientes e que eu acabaria tendo
dor de barriga amanhã, – ela disse desanimada – mas eu juro que não vou ter
papai.
Peguei Hanna no colo, enquanto ela me abraçava pelo pescoço.
― Anjo eu acho que Lila tem toda razão. Acho que três pedaços de qualquer
coisa são suficientes para uma garotinha do seu tamanho.
― Mas papai... – Ela tentou argumentar.
― Se você se comportar hoje eu prometo que a levarei para passear amanhã.
E podemos comer cachorro quente. O que acha?
Hanna sorriu e eu a aconcheguei em meus braços, levando-a pelo salão
até onde a babá estava com Collin. Seus bracinhos presos ao redor do meu
pescoço, suas perninhas ao redor da minha cintura, perdidas em um mar de
tule cor de rosa.
― Papai eu estou tão feliz – ela me disse de repente.
― Que bom que está feliz anjo – respondi beijando sua testa.
― Você está feliz papai? – Ela me perguntou.
Meus olhos correram para a garota no vestido florido. Linda, dançando
nos braços do meu filho. Seus cabelos castanhos ondulando em volta do seu
pescoço. Ela riu de algo que John disse, baixando o rosto contra seu ombro.
Sim! Eu estava feliz. Estranhamente feliz. Desconfortavelmente feliz.
Eu não conhecia muito desse sentimento. Era algo perturbador e confortável
ao mesmo tempo. Sorri.
― Se você está feliz, então eu estou feliz, anjo.
Quando todos se foram e estávamos apenas Laura e eu, eu a peguei pela
mão.
― Quero lhe mostrar uma coisa – eu disse saindo com ela para o jardim.
Eu sentia tantas coisas diferentes que nem sabia pelo que deveria me
deixar guiar. Eu queria me redimir com ela por ter tocado no assunto do
acordo. Eu não queria que ela se lembrasse dele. Na verdade, tudo que eu
queria era que pudéssemos esquecer que isso era um acordo. Eu queria me
entregar. Tinha muito, muito medo. Tinha medo de sofrer e tinha medo de
fazê-la sofrer. Eu não era muito bom com sentimentos, mas tudo que eu sabia
era que eu queria tentar. Então fechei os olhos da razão e só deixei que a
emoção me levasse.
Caminhei com ela pelo jardim, passei pela garagem e avistei o estúdio.
A porta estava trancada. Peguei a chave em meu bolso e abri.
― Uau! – Ela me disse assim que acendi a luz. – Lugar legal.
Sorri. Não era um lugar legal. Era mal decorado e velho. Tinha um sofá
cama que ficava no apartamento que Alex e eu dividíamos na época da
faculdade, e alguns móveis do meu antigo quarto de solteiro, da casa dos
meus pais. Tinha um pôster do Led Zeppelin e alguns carrinhos em miniatura
que eram de Lucian. Suspirei. Fazia tempo que eu não entrava aqui.
― Não precisa me agradar amor, o lugar é um lixo, eu sei – constatei.
― Eu discordo, – ela disse tirando a sandália e sentando-se no velho sofá –
acho que tem muita personalidade. Acho que, na verdade, isso é muito mais a
sua cara do que o seu escritório no Katendrecht.
Sorri, sentando-me ao lado dela e afrouxando minha gravata.
― Acho que a senhorita pode ter razão, Srta. Soares.
Cruzei as mãos na nuca e coloquei os pés descalços sobre a mesinha,
em cima de um velho livro de Direito Constitucional.
― Eu costumava vir aqui quando queria fugir da vida, – eu comecei sem
encará-la, – este é o meu refúgio. Um dos poucos lugares em que eu posso ser
eu mesmo.
Laura se aproximou mais, descansando a cabeça em meu peito.
― E porque você me trouxe até o seu refúgio, Sr. Galagher? – Ela me
perguntou curiosa, os olhos brilhando.
― Eu trouxe você aqui, porque aqui não sou o Sr. Galagher, – continuei –
aqui eu sou apenas Adrian. Sem disfarces. Apenas o garoto que curtia rock e
tocava guitarra. Aquele das camisetas velhas que gosta de cachorro quente e
cerveja no estilo alemão.
Laura ergueu a saia do vestido e sentou-se sobre minha cintura,
ajeitando as pernas de cada lado do meu quadril, desabotoando a minha
camisa.
― Se você me trouxe até aqui, devo supor que não quer fugir de mim – ela
constatou.
Meus olhos estavam nos dela, perdidos na imensidão castanha e
profunda. Eu não queria admitir certas coisas, mas queria tanto que ela me
compreendesse. Eu queria que ela pudesse ler nas entrelinhas e esperava
realmente que ela o fizesse.
Laura beijou minha boca, demorando-se nos meus lábios, tocando com
sua língua, seu corpo despertando meu desejo ali, colado ao meu. Suspirei.
― Eu trouxe você aqui amor, porque não quero mais fugir. Nem de você,
nem de nada.
Ela sorriu. Aquele sorriso genuíno que enchia meu coração de algo
estranhamente bom. Esticou os braços para cima e esperou que eu deslizasse
o vestido para fora de seu corpo. Tirou minha camisa e soltou o fecho do
sutiã. Eu a vi despir-se devagar, aproveitando cada segundo da sua presença.
― Pois saiba que eu gosto muito, muito mesmo de rock, – ela disse beijando
meu pescoço, – e de guitarras e de cerveja no estilo alemão. – Beijou a
tatuagem sobre minha clavícula. – E principalmente, eu gosto muito deste
garoto aqui.
Capítulo 20

Laura
Três semanas mais tarde, eu estava em frente ao espelho, admirando
meu vestido de noiva.
― Acha que seu pai vai gostar? – Eu perguntei a John.
Eu não tinha muitas pessoas com quem dividir este momento. Minha
mãe não era exatamente o tipo de pessoa que eu queria que soubesse que eu
me casaria com um bilionário europeu e minha avozinha não estava em
condições de vir à Holanda apenas para me ajudar com um vestido de noiva,
mas eu tinha John. Ele havia se tornado muito mais que um enteado. Éramos
amigos. Parceiros no crime, confidentes. Eu podia até tentar ser mãe para
Hanna e Collin, mas com John era diferente. Nós éramos como iguais. Ele
me protegia e eu o protegia.
Ele se aproximou e parou atrás de mim no espelho, suas mãos
segurando minha cintura, seu rosto apoiado na curva do meu pescoço.
― Acho que você é a garota mais linda que já vi e se ele não gostar, baby,
você pode esperar mais um mês e meio e eu me caso com você.
Sorri e John sorriu também.
― Se o velho sabe que eu digo essas bobagens para você ele vai se assegurar
que eu não complete dezoito anos, madrasta.

― Sabe que eu não gosto quando você me chama de madrasta! – Reclamei. –


Faz com que eu me sinta velha, feia e rabugenta!
John ajeitou a franja para trás, arrancando um pequeno suspiro da
garota que me ajudava com o vestido.
― Madrastas são sexys Laurinha! Você deveria assistir mais televisão.
Ultimamente as madrastas sofreram uma remodelagem – ele brincou.
― Eu não tenho muito tempo para televisão John Albert. Caso você não
saiba eu tenho dois filhos postiços pequenos e um marido rabugento.
-Ah! Eu entendo perfeitamente, Sra. Galagher. Eu durmo no quarto ao lado,
lembra-se?
― John! – Praguejei.
John desviou da luva que joguei nele sorrindo.
― Eu sou um cara sincero, Laura, você sabe.
Seguimos de trem para Amsterdã, John e eu, sentados perto dos
degraus, vendo a paisagem correr pela abertura de vidro da porta.
Ele estendeu o braço e me puxou para dentro, abracei-o pela cintura.
― Sabe Laura, eu nunca tive alguém assim.
― Assim como? Meio maluca, que curte andar de trem ao invés de dirigir
uma Mercedes do ano? Ou assim estranha que cantarola músicas em espanhol
enquanto prepara o jantar?
John sorriu. Não era um sorriso divertido e debochado como ele
costumava ter. Era um sorriso sincero, profundo, cheio de sentimentos.
― Não! Sua boba! Alguém assim, com quem eu realmente pudesse contar.
Alguém para dividir a carga, sabe? Não tem sido fácil desde que mamãe
morreu. O velho parece forte, mas ele sempre precisa que alguém esteja ali,
nos bastidores.
Eu o abracei mais forte – eu sabia exatamente como ele se sentia. Eu
não havia perdido minha mãe, mas ela não era exatamente o tipo de mãe que
espera o filho chegar da escola com biscoitos e chocolate quente. Eu sabia
exatamente a que carga ele se referia. Era difícil cuidar de si mesmo sem ter
ninguém com quem dividir as experiências. E ele tinha razão sobre Adrian.
Adrian era forte e poderoso quando era o Sr. Galagher, mas quando ele tinha
que ser só o Adrian, o pai, o marido, o filho, aí ele era inseguro e dependente.
Ele precisava que alguém o apoiasse.
― Você sempre vai poder contar comigo, John, – eu disse beijando sua
bochecha.
― E você comigo. Juro que chuto as bolas dele se ele magoar você.
― As bolas não – brinquei – chute as canelas. Eu preciso menos das canelas
do que das bolas dele.
― Eca! Que coisa horrível de se falar para um garoto! – John brincou
fingindo nojo. – Eu sou virgem, sabia?
Sorri.
― Eu também sou sincera ué.
Pouco tempo depois, estávamos em Amsterdã, entregando a chave do
meu antigo apartamento ao senhorio. Adrian e as crianças estavam nos
esperando para o almoço, depois de visitarem a Casa de Anne Frank. Mandei
que o caminhão seguisse com minha pequena mudança para Roterdã na
frente. Eu queria um tempo em família.
As últimas semanas haviam passado rápido demais. Eu ainda custava a
acreditar o que estava realmente prestes a acontecer – eu iria mesmo me
casar com Adrian Van Galagher, meu pirata arrogante.
Caminhei pelas ruas da minha antiga cidade sentindo uma pontinha
de saudade. Eu podia não ter nascido em Amsterdã, mas eu a havia escolhido
como lar há muito tempo.
Passei pela esquina em que tinha me chocado com Adrian, pouco
mais de um mês atrás e sorri. Eu não poderia nem sonhar com o que a vida
havia me reservado, naquela época.
― Acreditaria se eu contasse a você uma história engraçada? – Perguntei a
John.
― Sou todo ouvidos – ele respondeu.
― Eu e seu pai nos trombamos exatamente aqui, alguns dias antes de nos
conhecermos de fato.
John sorriu, mostrando um letreiro imaginário com as mãos.
― E assim começa a história de amor de Adrian e Laura Van Galagher.
― Seu bobo! Não deboche da minha história!
― Isso é clichê Laura! Você tem que concordar comigo que esbarrões e
tropeços já viraram moda nesses romancezinhos que vocês mulheres leem
suspirando.
― Eu não leio romance suspirando! – Reclamei. – Eu nem mesmo leio
romances! Eu leio livros profissionais. Coisas sobre Direito.
― Ahan – ele brincou – eu sei. Vi aquele livro de Direito com o escocês
fortão de kilt abraçando uma mocinha indefesa na capa.
― John! – Praguejei.
― Ah me desculpe! – Ele disse rindo. – Eu não sabia que era um segredo.
― Aquele livro nem era meu – me defendi – era de Lila e eu nem gosto de
livros com escoceses. Eu prefiro os livros com piratas holandeses – brinquei.
― Sério, Laura, essa sua paixonite pelo velho beira à doença mental.
Continuamos caminhando, rindo e brincando, mas assim que eu o vi, meus
olhos pararam em Adrian, abaixado, amarrando os sapatos de Collin. Ele
estava absolutamente maravilhoso de camiseta azul marinho e jeans claros.
Suspirei.
― E o mundo todo acabou para Laura Soares – John brincou – fim da
história.
Apressei o passo e me atirei nos braços de Adrian.
― Senti saudades – eu disse sem me importar se iria parecer ridícula ou não.
Eu não me importava mais. Desde o dia no estúdio, nós estávamos
realmente tentando. Adrian não fugia mais de mim. Não fugia mais dos seus
próprios sentimentos. Eu podia senti-lo um pouco mais perto a cada dia. Um
pouco mais meu a cada abraço. E nada me deixava mais feliz.
Ele me apertou contra seu peito. Beijando o topo da minha cabeça.
― Isso é muito bom Sra. Galagher! – Ele me disse. Havia começado a me
chamar assim depois da noite no estúdio. Eu não era mais a Srta. Soares. Era
a Sra. Galagher agora. – Porque eu pensei que acabaria aceitando a oferta
deste aspirante a Don Juan e me trocaria por um modelo mais novo.
Sorri.
― Eu prefiro os clássicos.
― Papai eu estou com fome – Collin reclamou.
― Eu também papai. Nós podemos comer agora? – Hanna completou.
― É claro. Nós podemos sim. – Adrian respondeu pegando Collin nos
braços. – Vamos perguntar a Laura onde podemos comer, já que ela conhece
muito melhor o Jordaan do que nós.
― Nós podemos comer sanduíche de filé com queijo gouda! – Eu disse
sentindo a saliva aumentar em minha boca. – Eu simplesmente amo filé com
queijo.
Adrian sorriu.
― Ah eu me lembro disso, Sra. Galagher.
Corei, lembrando-me da nossa primeira vez e disfarcei sorrindo.
― Dada a cor das suas bochechas, juro que não quero nem saber a história do
tal sanduíche. Eu já fui traumatizado demais por um dia só. Se continuar
assim vou precisar de uma psicanalista. Loura e sexy, de espartilho vermelho.
– John brincou.
Adrian estreitou os olhos para ele e eu sorri.
― Dramático como uma velha virgem espanhola – brinquei.
Descemos a rua em direção à lanchonete que eu mais gostava em
Amsterdã. Nós nos sentamos em uma das mesinhas do lado de fora, na beira
da calçada. Era um dia de sol na Holanda e as ruas estavam animadas e
felizes. Adrian entrou para pegar os sanduíches e eu fiquei ali, brincando com
as crianças.
Poucos minutos depois ele voltou, carregando uma bandeja cheia de
comida. Distribuímos um para cada e Collin se ajeitou em meu colo para que
eu o alimentasse. Assim que abri o embrulho o aroma da gordura do queijo
bateu como um soco na boca do meu estômago. Não tive tempo para mais
nada além de descer Collin e me debruçar sobre a lata de lixo.
Não era elegante, mas eu não podia evitar. O vômito veio tão forte que
agradeci aos céus por Adrian ser rápido o suficiente para segurar meu cabelo
para fora do caminho.
― Isso é terrível, – eu disse meio zonza – desculpe-me.
Adrian riu.
― Por vomitar? Por respingar em meus sapatos? Ou por quase arrastar a
mesa junto com você? – Ele brincou.
― Por tudo. Não é nada sexy ver a noiva vomitando – constatei.
― Eu disse que esse sanduíche era quase uma bomba nuclear, amor. Você
não quis me ouvir.
Ele ajudou a me levantar e pegou uma toalhinha de boca de dentro da
mochila de Collin. Molhou-a com a água da garrafa e limpou meu rosto.
― Desculpe, nós não temos toalhinhas umedecidas cheirosas aqui. Vai ter
que se contentar com água mesmo.
Sorri.
― Desculpe-me, – repeti – isso é terrível. Eu não tenho me sentido muito
bem nos últimos dias. Devo ter pegado alguma virose ou coisa assim.
― Não se preocupe amor, essa não foi a coisa mais nojenta que eu
presenciei. Acredite. Eu sou pai de três filhos.
Eu me sentia fraca e sem coragem, mas mesmo assim continuei
sorrindo como uma idiota.
― Papai a Laura está dodói? – Collin perguntou. – Ela vai ter que tomar
injeção?
― Acho que não será preciso filho. – Adrian respondeu. – Laura só precisa
descansar um pouco. Nós vamos para casa e ela vai descansar para ficar
melhor logo e comeremos algo lá em casa, tudo bem?
Collin assentiu e nós nos levantamos.
― Hey, eu vou levar meu sanduíche, – John disse pegando o embrulho – se
vocês não se importam eu estou com fome e isso está delicioso.
― Eca John – Hanna reclamou – a Laura acabou de vomitar!
John deu uma mordida no sanduíche.
― Ela não vomitou neste aqui – ele disse indicando o sanduíche – o que
significa que ele está perfeito para o consumo e seria um desperdício não
consumir. Sabia que o desperdício é a grande cólera da humanidade.
― Blá, blá, blá – Adrian brincou – coma logo essa bomba de colesterol e
aproveite seu metabolismo de dezoito anos. Ele não será assim para sempre.
Eu sorri. Esta era minha família, e eu não poderia ter escolhido uma
melhor.

Adrian
Laura passou o que restou do dia na cama. Estava pálida e sem ânimo
para nada. Tomou um pouco de chá e comeu alguns biscoitos e mais nada.
Depois de colocar as crianças na cama eu desci para a cozinha e peguei uma
bandeja. Coloquei um prato de sopa e um copo de suco de laranja nela.
Coloquei também dois bombons de cereja e subi.
Abri a porta e encontrei-a repassando os canais de televisão com o
controle remoto.
― John me disse que preciso ver mais televisão – ela afirmou.
― E, claro, a opinião de John é algo que não pode ser dispensado – brinquei.
― Ele me disse que as madrastas foram remodeladas e que agora são jovens
e sexys. Eu preciso ver isso. – Ela disse sorrindo.
Peguei o controle e coloquei no canal em que passava uma série de
televisão nova, sobre contos de fadas remodelados.
― Você será uma madrasta jovem e sexy, não precisa se preocupar com isso,
mas, se quiser, era desta série que John falava.
Sentei-me ao lado dela na cama e arrumei a bandeja sobre suas pernas.
― Você precisa comer algo – eu disse ajeitando uma almofada atrás das
costas dela.
― Não estou com fome Adrian. Na verdade, ainda me sinto mal. Zonza e
enjoada.
― E é por isso que precisa comer. Se não comer nada, não vai melhorar.
Vamos lá, ou você come, ou vou tratar de você como faço com Collin –
brinquei.
― Hum! Isso pode ser interessante! – Ela brincou. – Eu gostaria de ver você
tentar.
― Você nem faz ideia de como eu posso ser persuasivo, Sra. Galagher.
― Tente – ela provocou.
Cheguei mais perto dela, tocando sua orelha com meus lábios, devagar,
percorrendo o contorno suavemente, arrepiando a pele do seu pescoço.
― Se você não comer tudo que tem nesta bandeja, minha doce noiva, vou
dormir no escritório até o dia do nosso casamento – eu disse e me afastei.
― Não é justo! – Ela xingou. – Não era desse tipo de convencimento que eu
estava falando! Isso é golpe baixo.
― Quando terminar o jantar você me chama e volto.
Saí do quarto sob uma chuva de protestos de Laura. Eu estava sorrindo
quando entrei em meu escritório. Sentei em minha cadeira e acendi um
cigarro, folheando o jornal aleatoriamente. Não demorou muito para que meu
celular apitasse.
Havia uma mensagem de Laura.
“Pronto Sr. Galagher. O senhor venceu novamente. Pode mandar
buscar o prato. PS ― Não se atreva a não dormir neste quarto.”
Fechei o jornal e apaguei o cigarro no cinzeiro. Subi as escadas e abri a
porta do quarto.
― Muito bem. Isso mesmo: obedecendo a ordens e sendo sensata, – brinquei
– eu acho que estou fazendo um bom trabalho com a senhora.
― Bobo! – Ela me disse sorrindo. – Assim eu me sinto um poodle.
Tirei a bandeja de cima dela e a encarei por um segundo. Linda, mesmo
doente. Beijei sua testa, e brinquei com uma mecha do seu cabelo, colocando-
o atrás da orelha. Beijei sua bochecha e segui até sua boca. Demorando-me
ali, sentindo a maciez dos seus lábios contra os meus.
Eu queria dizer tanta coisa a ela, mas não sabia como começar. Eu não
era um homem de sentimentalismos. Eu não costumava expressar meus
sentimentos. Fechei os olhos e esperei que ela percebesse o que eu queria
dizer com aquele silêncio. Sentindo seus lábios nos meus, acariciando seu
rosto entre minhas mãos.
― Adrian, – ela me disse de repente, sem me afastar, quase como se não
quisesse que eu ouvisse, – eu amo você.
Senti como se o mundo todo girasse ao redor de mim. Como se tudo se
perdesse em uma espiral de sentimentos. Eu mal podia respirar. Eu podia
sentir cada célula do meu corpo responder, eu queria responder, mas minha
mandíbula parecia colada. Meus dentes estavam presos uns nos outros. Soltei
o ar de uma única vez, incapaz de deixar qualquer som sair da minha boca.
Laura sorriu.
― Sabe que essa é a forma mais encantadora de alguém não responder a um
“eu amo você”? – Ela me disse.
Sorri, porque não tinha nada mais que eu pudesse fazer.
― Tudo bem amor – ela me disse beijando minha bochecha – eu sei que você
vai me dizer o que sente quando chegar a sua hora. – Ela fez uma pausa e
encarou meus olhos, acariciando a linha da minha barba. – E eu sei que será
na hora certa.
Acordei na manhã seguinte e me preparei para trabalhar. Eu tinha uma
reunião com alguns investidores em um caso grande na Alemanha. Eu não
falava alemão, mas Alexander falava e iria me acompanhar. E eu estava grato
por tê-lo ao meu lado, mais uma vez.
Laura ainda estava na cama. Ainda indisposta. Saí do banheiro de cueca
boxer e sentei-me na beira da cama.
― Se você não melhorar até quando eu voltar da reunião vou levá-la a um
hospital amor. Não quero que enfraqueça e acabe adoecendo mais.
― E eu estou bem! – Ela me disse, mas, não era verdade. – Vou melhorar
logo. Eu devo ter pegado algum tipo de virose ou coisa assim. Não sou de
ficar doente.
― E é exatamente porque você não é de ficar doente, que vamos procurar
atendimento médico.
― Não! – Ela disse fazendo manha. – Eu não preciso de um médico. Eu
preciso de você. Se você ficar aqui, na cama comigo, eu juro que melhoro.
Ela ergueu as cobertas e bateu na cama para que eu me sentasse ao seu
lado. Encarei-a descabelada, usando uma camiseta branca larga de algodão e
uma calça de flanela com carneirinhos sorridentes desenhados e sorri
também. Deus! Esta garota conseguia ficar sexy até usando isso!
― Tentador amor, – brinquei encarando os animais desenhados no tecido, –
mas eu realmente preciso trabalhar.
Vesti-me enquanto ela protestava debaixo das cobertas. Beijei sua boca
e me despedi. Entrei no Porsche e segui para o escritório.
Quando cheguei Alexander já estava com os alemães em nossa sala de
reuniões. Conversamos por algumas horas, enquanto eu lhes explicava
minhas intenções para um grupo de empresas navais escandinavas que eu
pretendia adquirir. Era um negócio vantajoso. Algo que acrescentaria alguns
milhões de euros e muito poder de decisão sobre o rumo do meu país. Eu
gostava do poder. Gostava de ser o dono da bola, o cara que decide. Eu era
como um leão. Sorri para mim mesmo diante da comparação, enquanto
caminhava de volta para o meu escritório. Meses atrás, uma importante
revista de economia havia publicado uma matéria comigo. O título era “O
leão de Roterdã”, fazendo uma alusão ao símbolo do meu país. Eu gostava
de ser o leão de Roterdã. Eu era muito bom nisso.
― Então, como vão Laura e as crianças? – Alexander me perguntou assim
que deixou os alemães na recepção e retornou para o meu escritório.
― As crianças vão bem. Laura está um pouco indisposta.
― Ah nem me fale de mulheres indispostas! – Alexander brincou. – Se
Louise não nascer logo acho que Alissa e eu vamos nos matar. – Ele disse
dando um tiro imaginário em sua própria cabeça.
Eu sorri.
― Sei exatamente como se sente. – Eu disse acendendo um cigarro. – Passei
por isso algumas vezes. Mulheres são criaturas complicadas, meu amigo. –
Eu disse tragando o cigarro. – Deveriam ter um curso regular sobre como
entendê-las. Hoje, por exemplo, eu deixei a bela Laura descabelada e com
uma calça de carneirinhos fazendo birra sobre a minha cama.
Alexander riu.
― Ah aqueles carneirinhos sorridentes são medonhos – ele constatou.
Meus olhos estreitaram no mesmo instante. Algo se rompendo dentro
de mim, um zumbido perturbado em meus tímpanos. Como ele sabia?
Soltei a fumaça devagar, deixando-a se espalhar ao redor do meu rosto.
Levantei-me e encostei à mesa, cruzando os braços sobre o peito.
― Diga-me Alexander, em que momento você viu Laura usando esse
pijama? Uma vez que ele esteve na casa dela, em Amsterdã.
Capítulo 21

Laura
Eu ainda me sentia meio zonza, mas decidi que era hora de me levantar
e estar menos destruída para quando Adrian voltasse. Eu queria aproveitar a
tarde com ele.
Levantei e tomei um banho. Vesti um jeans e uma camiseta. Calcei
meus tênis e estava prendendo meu cabelo quando escutei uma
movimentação diferente lá em baixo. As crianças estavam na escola, então eu
sabia que não eram elas. Corri.
Encontrei Adrian furioso, discutindo sobre algo com Alex. John entre
eles, mantendo-os afastados.
― Acha que eu sou idiota Alexander? – Ele rosnava.
― Acho! – Alex rebatia. – Acho que é um idiota se não confia em mim. – Ele
praguejava. – Eu até posso entender que você tenha desconfianças sobre
Laura, afinal, você mal a conhece e tem seus fantasmas, mas desconfiar de
mim? Como você pode desconfiar de mim! Ninguém esteve tantas vezes ao
seu lado como eu! Ninguém segurou a barra com você como eu! Acha que eu
faria isso? Que trairia você debaixo do seu nariz assim? Você só pode ser um
imbecil! Ou maluco!
Desci mais alguns degraus, tentando entender a conversa, assim que
ouvi meu nome.
― Porque ele desconfiaria de mim? – Perguntei meio atordoada. – O que eu
fiz?
Adrian desviou os olhos para os meus. Raiva, ódio, mágoa, era tudo
que eu via ali. Ele caminhou até mim, enquanto eu descia os últimos degraus.
Sua figura altiva em minha frente, fazendo-me sentir ainda mais baixa. Não
era o meu Adrian, era o Sr. Galagher ali, ou pior, era um Sr. Galagher que eu
nem mesmo podia reconhecer.
― Você quase me convenceu com seu discurso apaixonado, doce Laurinha!
– Ele debochou. – Juro. Eu quase acreditei.
― Não se atreva a descontar nela as suas frustrações! – Alexander xingou.
Adrian me agarrou pelo pulso. Forte, fazendo-me reclamar. Ele não
afrouxou o aperto, arrastou-me pela sala até próximo a Alex e me jogou em
cima dele. Dei alguns passos para trás até que Alex me segurou pelos
ombros.
― Seu estúpido! – Praguejei. – Pode me dizer o que houve pelo menos?
― O que houve? – Ele perguntou furioso. – O que houve Srta. Soares, é que
a mentirinha de vocês dois veio à tona.
― Ele é um idiota Laura! – Disse-me Alexander. – Enfiou na cabeça dura
dele que eu e você temos algo além do que ele sabe! – Alex respondeu para
mim, mas era nos olhos de Adrian que ele olhava. – Ele é uma merda de
garoto mimado! É isso que ele é! Acha que pode pisar nas pessoas quando
elas o desagradam! Ele sempre faz isso. Cansa do jogo pega a bola e entra em
casa. Não se importa com ninguém.
― Pode levar a bola para você quando quiser. – Adrian praguejou acendendo
um cigarro. – Eu não gosto de restos.
Eu podia sentir o sangue borbulhar dentro de mim. Podia senti-lo fluir
rápido em minhas veias.
― É isso que eu sou? Um maldito brinquedo para você? Então você se
cansou e resolveu que não quer mais? Seu filho da puta arrogante! – Gritei.
Adrian caminhou até mais perto de mim, altivo, arrogante.
― E o que você pensou, doce Laurinha, que eu iria me apaixonar por você?
Que poderia chegar a amá-la?
Eu o encarava sentindo meu peito doer. Era como se alguém tivesse
arrancado meu coração e estivesse sapateando sobre ele. Eu nem conseguia
me defender. Senti as primeiras lágrimas forçando-se em meus olhos e
traguei todas para dentro. – Eu não iria chorar.
― Pois eu tenho uma novidade para você, minha querida noiva, isso é um
acordo. É apenas isso. Eu nunca quis que fosse diferente. Precisava do meu
filho aqui, e eu faria qualquer coisa por ele. Você foi o que eu precisei fazer.
Um efeito colateral.
Forcei para me soltar do aperto de Alexander, mas ele não permitiu.
― Não! – Ele advertiu baixinho. – É exatamente o que ele quer. Magoar
você. Fazê-la perder a calma. Não entre no jogo dele.
― Isso! Não entre no meu jogo. Pegue seu amante e saia. Não temos mais
nada a conversar. Quanto aos termos do contrato que você assinou, meus
advogados a procurarão. – Ele fez uma pausa e atirou o cigarro pela janela. –
Outros advogados, claro, este não faz parte mais do meu quadro de
funcionários.
John permanecia parado, olhos focados em Adrian, punhos cerrados.
Eu não queria que ele estivesse ali. Não o queria vendo aquela cena. Busquei
seus olhos na tentativa silenciosa de que ele compreendesse que nada daquilo
era verdade. Que eu não tinha feito nada que justificasse aquela cena.
― Pegue suas coisas e saia! – Adrian disse uma vez mais. – Eu não quero vê-
la mais em minha casa. Não quero vê-la perto dos meus filhos.
Respirei fundo, tentando concentrar minha mente em algo coerente. Eu
sentia tudo girar. Ordenei minha respiração e me virei de volta para a escada.
― Se é o que o senhor deseja Sr. Galagher, o senhor terá. O senhor sempre
tem o que quer, não é?
Adrian não respondeu. Permaneceu de costas para mim. Subi as
escadas o mais rápido que consegui. Peguei uma valise grande e coloquei o
máximo das minhas coisas que consegui. Joguei sobre o ombro e peguei Mia
nos braços. Desci as escadas sentindo como se carregasse o mundo todo em
minhas costas.
Parei no último degrau, perto de onde Adrian permanecia, de costas,
postura rígida, mãos cerradas em punho.
― Adrian! – Eu chamei e ele se virou.
Seus olhos eram vazios. Perdidos. Eu podia ver pequenos fragmentos
do Adrian que eu amava ali, perdidos naquele mar de arrogância, suspensos
dentro da máscara do implacável Sr. Galagher.
― Eu quero que você saiba que tudo que eu disse ontem era verdade. Quero
que saiba que tudo que eu senti não foi parte do acordo. Eu espero que não
seja tarde demais quando você perceber que está cometendo um erro.
Ele pensou por um segundo, o verdadeiro Adrian faiscando ali dentro.
Rezei para que ele tivesse força de sair. Para que ele pelo menos me
permitisse entender do que eu estava sendo acusada, mas eu não tive sorte. O
pirata arrogante estava no controle.
― Eu não cometo erros, Srta. Soares. Alguns equívocos, às vezes, mas
nenhum erro.
Senti a primeira lágrima cair, quente, sobre a pele da maçã do meu
rosto. Era a primeira, de muitas que eu não podia mais segurar. Dei as costas
para ele.
― Se Laura vai sair, eu vou com ela! – John disse depois de permanecer em
silêncio.
― Não seja ridículo! – Adrian praguejou. – Eu sou seu pai e ela não é nada
sua. Você é menor, faz o que eu disser para fazer.
― Tente me impedir, Sr. Galagher! – John provocou. – Eu só não vou agora
porque quero esperar meus irmãos voltarem do colégio para cuidar deles. Eu
não vou deixá-los sozinhos com o senhor. Não vou deixar que encha a cabeça
deles com as suas merdas.
― Eu só preciso de um telefonema John. Só um telefonema à polícia e você
volta para minha casa como o garoto bobo e inconsequente que é. Saia se
quiser, você vai voltar antes do anoitecer.
Eu podia ver raiva latejando nos olhos de John. Eles eram escuros e
profundos, assustadores demais para o garoto doce que ele era.
― Faça isso, papai e amanhã mesmo todos os jornais saberão que Collin não
é seu filho! É disso que você foge, não é? Da traição da mamãe? De ser
trocado? Deixado de lado? De não ser o centro das atenções? Pois bem, Sr.
Galagher, eu tenho uma novidade para o senhor. O senhor não é o centro do
universo! – Ele se afastou de Adrian e se aproximou de mim. – E
respondendo à sua pergunta, Laura é minha amiga. Sabe o que é o que é um
amigo, Sr. Galagher? É alguém como Alex sempre foi para o senhor. Alguém
que aguenta as suas merdas. Alguém que está segurando seu ombro enquanto
o senhor chora vendo o caixão da sua esposa se afundar na terra. Alguém que
fica com o terno babado e sujo de ajudar a alimentar os seus filhos. Alguém
que dorme sentado ao lado de um berço porque o bebê que dorme lá dentro
acabou de perder a mãe! É isso, Sr. Galagher. Isso é o que um amigo faz. E se
o senhor não aprendeu a valorizar isso, eu sinto muito, mas seu mundo
distorcido não me interessa.
Eu estava sem ar. Deus do céu! O garoto sabia exatamente em que
pontos atirar! Eu não tinha mais dúvida alguma do quanto ele se parecia com
o pai.
Eu não estava feliz com isso. Não os queria brigando, mas não
conseguia pensar em nada que eu pudesse dizer para ajudar. Deixei a casa de
Adrian de cabeça erguida. Eu havia entrado pela porta da frente, como noiva
dele e deixaria a casa da mesma maneira. Parei perto da porta e retirei o anel
de noivado do meu dedo, deixando-o sobre o parapeito da janela. Eu não
queria levar nada dali que não fosse meu.
Sentei no banco do conversível e deixei que as lágrimas todas viessem
à tona. Alex descansou a mão sobre meu joelho.
Seguimos para fora da propriedade de Adrian em silêncio. Alexander
com o pé afundado no acelerador do carro.
Eu sentia que o mundo havia me prendido em uma bolha e que tudo
que acontecia ao redor não era exatamente comigo. Eu não conseguia
entender em que momento meu conto de fadas se transformou em uma
história de terror. Eu havia dormido com meu príncipe e despertado com a
bruxa má do Oeste.
― Ele vai se acalmar Laura. Ele faz essas coisas às vezes, fica irritado e
desconta nas pessoas erradas. Não é a primeira vez que eu o vejo ter uma
crise dessas. – Alex disse puxando conversa depois de um tempo.
Limpei meus olhos com as costas das mãos. Engoli as lágrimas que
estavam presas na garganta e soltei o ar devagar.
― Eu nunca mais quero saber de Adrian Van Galagher, Alex. Eu não quero
saber das suas crises ou do seu gênio ruim. Eu não quero saber se ele estava
certo ou errado. Ele morreu para mim e eu vou enterrá-lo, não importa quanto
tempo demore.
― Não diga isso Laura. Não é o que você quer dizer, eu sei como são essas
coisas. Dê um tempo.
― Eu vou dar um tempo. Vou dar um tempo para mim, eu vou me recuperar.
Não será a primeira vez que eu caio Alex. Eu já me levantei de coisas piores,
vou me levantar de Adrian Van Galagher.

Adrian
Eu fiquei parado onde estava. Olhos perdidos na janela, vendo minha
vida se despedaçar uma vez mais. Engoli as palavras de John sem responder.
Eu não queria responder. Não queria me arrepender de algo que pudesse dizer
ao meu filho. Havia outras coisas nas quais eu precisava me concentrar.
Eu precisava pensar no que diria a Hanna e a Collin quando
voltassem para casa. Ao contrário do que John pensava, eu não queria criar
uma cena. Eu não queria que eles soubessem da traição e de Laura. Meus
filhos não mereciam sofrer mais esse golpe. Eu precisava pensar.
Entrei em meu escritório, enchi um copo com uísque e me sentei em
minha poltrona. Era uma tarde ridiculamente ensolarada, em comparação a
como eu me sentia. Eu era um furacão de emoções distorcidas. Raiva. Ódio.
Medo. Amor. Culpa. Tudo se revirava em minha mente mais e mais rápido
até que eu pensei que não fosse suportar. Afrouxei o nó da gravata e abri o
primeiro botão da camisa. Fechei os olhos e tentei concentrar minha
respiração – ela havia me traído. Ela e ele.
Desde quando estavam juntos? Será que ela tinha intenções de
continuar com ele depois que nos casássemos? Não. Era um acordo. Eu sabia
disso. Ela sabia também. Sabia dos termos. Talvez ela tivesse a intenção de
ficar com ele quando o acordo acabasse. Desde que voltamos de São Paulo,
ela não havia saído sozinha. Não havia possibilidade de ter se encontrado
com ele de qualquer maneira. Então não era exatamente uma traição. Porque,
então, isso me incomodava tanto? Porque ela havia me trocado? John tinha
razão? Eu era mesmo um egocêntrico?
Soltei o ar de uma vez e engoli, sentindo o líquido queimar minha
garganta. Não importavam quais eram os termos ou as condições, ela havia
me traído, e com meu melhor amigo. E isso era algo que eu não podia apagar.
Levantei, peguei a chave do carro e saí.
Parei em frente ao portão do colégio e pedi para levar meus filhos
mais cedo. Eu queria ter um tempo com eles. Precisava me focar no que era
realmente importante. Eu não podia permitir que uma mulher qualquer me
fizesse esquecer o que realmente importava – meus filhos.
― O que aconteceu papai? – Hanna me perguntou assim que me viu.
― Nada anjo, eu quero apenas conversar com vocês dois um pouco.
― Cadê a Laura papai? – Collin perguntou.
― É sobre a Laura que vamos conversar filhote. Nós vamos tomar um
sorvete e vamos conversar, ok?
Eles assentiram e eu os coloquei dentro do carro. Alguns minutos
depois eu parei o carro em uma pequena praça no centro, entre grandes
prédios de escritórios. Comprei dois potes de sorvete. Deixei que eles se
acomodassem no banco. Destampei os potes e entreguei-os a cada um dos
meus filhos.
Eles sorriram. Pareciam felizes. Balançando os pezinhos para lá e para
cá no banco, levando colheradas do creme gelado à boca. Eu não sabia como
começar. Não sabia o que dizer. Era como se todo o tempo difícil, depois da
morte de Patrícia, estivesse de volta, assombrando-me.
Eu podia me ver no corredor daquele hospital, saindo de dentro da
Unidade de Tratamento Intensivo com a pior notícia do mundo para dar aos
meus filhos. Eu podia ver John sentado no banco de ferro, cabeça apoiada
sobre as mãos, olhos fechados, esperando que eu lhe dissesse que a mãe o
havia deixado para sempre. Eu podia ver os olhinhos perdidos de Hanna
enquanto via o caixão ser baixado para dentro da cova. Fechei os olhos e
inspirei devagar, deixando o ar encher os meus pulmões e soltando. Abri os
olhos novamente.
Pensei por um instante, encarando a estátua à minha frente. Era uma
estátua famosa, sempre cheia de turistas registrando a visita ao “Homem sem
Coração”. O nome correto era “Cidade Destruída”*, não tinha nada a ver
com o coração ou não nesse sentido, pelo menos, mas ninguém se importava
muito. Ele era o homem sem coração e isso parecia bastar. Pensei que eu me
parecia muito com ele. Eu era o homem sem coração. Ninguém se importava
tanto em conhecer a realidade, em perguntar o que eu sentia, do que se
tratava. Sabiam apenas que eu era “Adrian Van Galagher, o homem sem
coração”.
Suspirei. Eu faria como ele. Eu me levantaria, ainda que tivessem, de
fato, levado meu coração embora uma vez mais.
Corri os olhos pelo porto, encarando o pôr do sol lá no horizonte – eu
era como Roterdã, me reconstruiria novamente após esse bombardeio.
― Papai você disse que iria falar de Laura. Quero saber o quê? – Hanna
insistiu, interrompendo meus pensamentos. – Ela vai ter um bebê? Porque
quando as pessoas se casam, elas têm bebês, não têm?

Sorri sem humor – Não Laura não teria um bebê. Não teria um bebê
meu, pelo menos.
― Não exatamente anjo – comecei – Laura terá que se afastar de nós por um
tempo.
― Não! – Hanna retrucou. – Não quero que ela se vá. Eu não quero papai!
Não é justo!
Eu podia perceber as primeiras lágrimas se formando em seus olhinhos
cor de mel, mas não era ela que me preocupava, era Collin. Ele baixou a
cabecinha e permaneceu em silêncio. Não disse nada. Não perguntou. Não
chorou.
― É necessário, filha, – tentei explicar – são coisas de adultos. O papai e
Laura não vão mais ficar juntos.
― Mas papai, Laura é minha amiga! Eu gosto dela e ela gosta muito de mim!
E ela prometeu que cuidaria de mim! Eu não quero que ela se vá.
Suspirei – eu não queria também. Não queria nada disso. Eu queria
voltar no tempo e apagar Laura das nossas vidas para que ela não tivesse
que nos deixar.
― Sei que parece uma coisa ruim anjo, – continuei – mas não se preocupe,
nós vamos superar. Nós já superamos muitas coisas juntos, não é? –
Perguntei.
Hanna assentiu tristemente.
― Nós superamos a perda da mamãe.
― E agora a mamãe é uma lembrança boa, não é verdade? – Continuei.
Assentiu novamente.
Collin deixou o sorvete no banco, de repente, para ele não parecia mais
uma coisa boa. Cruzou as mãozinhas sobre o colo.
― Papai nós podemos ir? – Ele me perguntou. – Não quero mais sorvete.
Peguei meu filho no colo. Tão pequeno ainda, e com uma carga tão
pesada de sofrimentos. Acariciei seus cabelinhos castanhos, beijei o topo da
sua cabeça, aconchegando-o em meus braços. Collin me agarrou pelo
pescoço, sua respiração quente na pele do meu pescoço.
― Eu nunca vou deixar você, filhote, – eu disse por que sabia o que se
passava em sua cabecinha.
Collin sentia que havia sido deixado mais uma vez e eu não podia
permitir que ele pensasse que isso era culpa dele. Ele havia sido o que menos
sentiu a morte da mãe, mas era o que menos tinha boas lembranças dela.
Patrícia era uma parte tão pequena da vida dele que não havia o que lembrar.
Ele não tinha sentido o amor da mãe.
― Eu vou estar sempre ao seu lado. Sempre meu filho! – Suspirei
profundamente e soltei o ar dos pulmões. – Você é meu bebê. Não importa o
que as pessoas digam ou o que tenhamos que enfrentar, nós vamos fazer isso
juntos. O papai sempre vai amar você.
Senti suas mãozinhas mais suaves em meu pescoço, menos tensas e
entendi que havia me compreendido.
Levantei-me com ele nos braços e segui de volta para o carro, com
Hanna ao meu lado.
Minha casa parecia tão fria e silenciosa agora que não sentia prazer
algum em entrar. Encontrei Lila na cozinha.
― Sr. Galagher, Martina me disse que Laura não voltará para casa. – Ela me
perguntou meio sem jeito, evitando palavras desconfortáveis perto das
crianças. – Eu gostaria de saber como devo proceder.
― Você foi contratada para cuidar dos meus filhos, Lila, e não de Laura.
Deve proceder da mesma maneira que sempre procedeu, cuidando deles.
Era grosseiro, eu sabia disso, mas eu esperava que fosse o suficiente
para encerrar qualquer pergunta idiota sobre Laura ou nosso relacionamento.
Passei pela sala e vi o diamante brilhando no parapeito da janela.
Peguei o anel e o apertei contra minha mão fechada, subindo as escadas.
Entrei em meu quarto e fechei a porta. Sentei-me na poltrona e fiquei
girando o pequeno pedaço de platina nos dedos – eu era um idiota. Um idiota
completo e absoluto. Burro. Mais uma vez, traído.
O que tinha de errado comigo, afinal? Eu não era suficiente? Não era
bom o suficiente?
Atirei o anel pela janela com tanta força que ele se perdeu dentro do
lago. Não fazia diferença, ele não voltaria mais para o dedo dela de qualquer
jeito.
Levantei, tirei a roupa e tomei um banho rápido. Penteei meu cabelo.
Vesti um jeans e uma camisa de botões escura. Calcei os sapatos e vesti uma
jaqueta preta de couro por cima. Borrifei um pouco de colônia e saí.
Entrei no Porsche disposto a ter uma noite das antigas. Eu iria me
divertir sem ela. Ela não era a única mulher do mundo e definitivamente, eu
não perderia mais tempo pensando nessa bobagem. Se ela era tão importante
para Alexander, que ele fizesse bom proveito dela afinal, eu tinha tido meu
tempo. Tinha satisfeito meus desejos, era isso, uma garota bonita que ficou
em minha cama por um tempo. Agora era hora de passar à outra.
Parei o carro em frente a uma boate que eu costumava ir. Era um bom
lugar, discreto, elegante. Só a nata da sociedade holandesa. Era o que
precisava ― uma garota do meu mundo, uma que eu pudesse comprar com
algo material. Uma que não exigisse um telefonema pela manhã.
Entrei, correndo meus olhos pelo lugar – eu precisava encontrar minha
presa. Precisava caçar. Sentir a adrenalina correndo nas veias novamente.
Sentei-me no bar e pedi um uísque duplo.
― Veja se não é o grande Sr. Galagher! – Uma voz feminina disse atrás de
mim. – Achei que estaria em casa com sua noiva.
Eu me virei para encontrar Charlotte, filha de um dos meus contatos de
negócios. O pai de Charlotte era um corretor da bolsa, nós sempre
negociávamos coisas juntos. Era um bom homem. Honesto, justo, leal, mas
ele não fazia ideia de quem a filha era. Charlotte era uma garota bonita.
Muito bonita. Cabelos claros e ondulados, corpo bonito, olhos azuis, e um
instinto quase mortal para dar o golpe do baú. Eu sabia o que ela queria e ela
sabia que eu não daria isso a ela, mesmo assim, nós sempre jogávamos esse
jogo quando nos encontrávamos.
― Como pode ver, achou errado. – Eu disse sorrindo.
Ainda não estava preparado para dar a notícia do rompimento. Eu
precisava entender melhor em que isso implicaria em relação a Collin. Eu não
podia correr risco algum. Eu havia decidido pensar no assunto por um tempo
e conversar com meus advogados antes de dar a notícia. Eu sabia que
Alexander manteria o segredo, porque o conhecia bem demais, apesar de
tudo, Alexander era um homem justo e ele amava Collin, como eu amava.
Charlotte se aproximou mais, parando de frente para mim, entre minhas
pernas, que se abriram para acomodá-la. Pegou o copo e deu um gole no meu
uísque.
― E isso significa que você está de volta ao jogo – ela constatou.
Bebi o que sobrou do uísque no copo e o coloquei no balcão, deixando
minhas mãos sobre os joelhos, raspando os dedos na barra do vestido curto
dela devagar.
― Isto significa que eu nunca saí do jogo, anjo.
Não demorou muito tempo para que eu estivesse no apartamento de
Charlotte. Eu não a levaria para minha casa. Não com meus filhos lá.
Também não iria com ela a um motel, não era fácil despistar repórteres e
curiosos e eu não queria um escândalo. Charlotte era o tipo de mulher que
passava invisível em minha vida. Era como eu gostava.
Ela acendeu a luz da sala e preparou uma bebida para nós. Eu podia vê-
la esforçando-se para me seduzir e quase podia sorrir – ela não precisava me
seduzir, isso era sexo casual. Era só o que era e para isso eu não precisava
ser seduzido.
Apoiei meu corpo contra o balcão que dividia a sala da cozinha, cruzei
os braços sobre o peito.
― Tira a roupa para mim – eu disse com os olhos focados nos dela.
Eu não estava para beijos e carícias. Não era o objetivo. E eu não iria
fingir para ela e menos ainda para mim. Eu estava no comando. Charlotte
sempre soube disso.
― Adrian, o mandão de sempre. – Ela disse fazendo manha. – Você deveria
me convencer.
― Não preciso convencer você. Você já sabe que não se arrependerá.
Charlotte sorriu, descendo o zíper do vestido. Deixando-o cair aos seus
pés, revelando um conjunto de lingerie de renda vermelha. Passei a língua
sobre os lábios. Eu não podia negar que ela era uma garota muito, muito
sexy.
Tirei minha jaqueta e a deixei sobre o balcão. Charlotte se aproximou e
começou a desabotoar a minha camisa. Eu não me movi, deixei que ela
fizesse o que queria com o meu corpo. Estendi o pulso para que ela soltasse o
botão de uma manga, depois da outra, sem tocá-la. Ela tirou minha camisa,
deixando-a sobre o balcão também.
Segurei-a pelos cabelos, puxando-os todos em meu punho e girando-a
de costas, apertando seu corpo contra o meu para que ela sentisse que eu
estava pronto.
― Ai! – Charlotte reclamou. – Você poderia ser um pouco mais gentil.
Enfiei a mão na parte da frente da sua calcinha, tocando-a devagar.
Corri minha boca na pele do seu ombro, até o pescoço, parando perto da
orelha, falando baixinho.
― Eu não sou gentil. Não sou seu namorado e não serei. Isto é o que nós
podemos ter. Você só precisa me dizer que não quer e eu vou embora.
Ela não disse nada, e eu supus pelo seu gemido que ela não esperava
que eu fosse embora.
Caminhei com ela até o quarto e a deitei na cama. Tirei minha calça,
enquanto ela se livrava da lingerie. Por uma fração de segundo, outra pessoa
tomou o lugar de Charlotte. Eu a vi sorrir para mim, com seus lindos olhos
castanhos. Pisquei algumas vezes para mandar a lembrança embora. Ela não
foi. Fechei os olhos e deslizei a mão pelos cabelos.
Laura. Eu podia ver o rosto de Laura. O corpo de Laura. Podia ouvir a
sua voz, o seu riso. Eu podia até sentir o perfume de Laura.
― Algum problema, Adrian? – Charlotte perguntou.
― Nenhum. Acho que bebi demais, só isso! – Eu disse e ajoelhei na cama,
entre as pernas dela.
Comecei a beijar o corpo de Charlotte, mas não era o dela que eu
queria. Se eu fechasse meus olhos era Laura quem estava comigo. Parecia
errado, estranho, desconexo. Insisti, apertando meu corpo contra o de
Charlotte.
Ela abriu a gaveta do criado e pegou uma embalagem de preservativo.
Abriu com os dentes e segurou entre os dedos, oferecendo-me.
E então minha mente virou uma confusão completa. Eu podia ouvir as
palavras de Hanna ― “Quando as pessoas casam, elas têm bebês”. Pensei
em Patrícia. Em como era sexo com amor. Em como era não ter que me
preocupar se a relação geraria uma vida. Eu quis cada um dos meus filhos. Eu
os fiz com amor. Passei muito tempo tentando esquecer essa diferença, mas
Laura havia lembrado e agora eu não conseguia mais esquecer.
Eu não queria Charlotte, eu queria um pedaço de carne para me
aliviar e isso, minhas próprias mãos poderiam me dar, e sem efeitos
colaterais.
Afastei-me. Vesti minha calça novamente.
― Não posso fazer isso com você Charlotte – confessei.
― Claro que pode. Eu estou aqui por vontade própria, sabia? – Ela brincou.
― Não, você não está. Você está aqui porque acha que algum dia vai me
convencer de que podemos ter mais do que isso, mas não é verdade.
― Adrian. Não estou reconhecendo você. Você nunca foi do tipo que se
preocupa com os efeitos colaterais das suas transas.
Sorri saindo do quarto com Charlotte atrás de mim.
― Acho que a velha frase “As pessoas mudam” enfim surtiu efeito em mim,
anjo.
Charlotte fechou o roupão e sorriu.
― É! A garota tem mesmo sorte! – Ela me disse. – Tirou você da pista de
vez.
Engoli as palavras dela como pequenos cacos de vidro, mas não disse
nada. Vesti minha jaqueta e beijei a testa de Charlotte.
― Desculpe-me, – eu disse sinceramente – acho que estraguei a sua noite.
Ela me abraçou, demorando as mãos sobre o meu peito.
― Sabe Adrian, talvez você esteja certo e eu errada. Acho que a frase está
começando a surtir efeito em mim também.
Sorri.
― Isso é uma coisa boa.
― Espero que sim. – Ela disse me soltando. – Boa sorte na sua nova vida.
Você só precisa parar de tentar ser um cara que você não é. Não há problema
em sentir, Adrian, sentimentos são coisas boas.
*Cidade Destruída – É o nome dado a uma escultura de
Zadkine (artista plástico). A estátua fica no centro de Roterdã e simboliza o
sofrimento da guerra. É um homem com os braços elevados ao céu, em
desespero por ter o coração arrancado. Ela simboliza o orgulho holandês à
resistência a Hitler. Simboliza a frase: “Nós nos levantaremos, mesmo que
arranquem nosso coração”.
Capítulo 22

Laura
Alexander parou o carro em frente a um prédio elegante. Eu não
conhecia o lugar.
― Vem Laura, vou cuidar de você esta noite.
Ele estava visivelmente entristecido. Os lindos olhos esverdeados eram
distantes e sofridos. Não brilhavam como costumavam brilhar de costume.
Não era justo. Adrian não podia ter feito isso comigo, não podia ter feito isso
com Alex.
Encarei a entrada do prédio por um instante. Eu não queria entrar. Não
queria ter que encontrar Alissa. Eu não estava forte o suficiente para não
deixar que as farpas de Alissa me atingissem e eu tinha medo de que isso
pudesse magoar Alexander ainda mais.
― Não Alex. Eu prefiro voltar para Amsterdã. Eu não quero atrapalhar a sua
vida, você tem um bebê a caminho. Tem que cuidar de Alissa e da sua vida.
Deixe-me na estação e eu volto para Amsterdã com Mia.
Sorri, mas era um sorriso sem humor, forçado. Um sorriso que dizia
“Não se preocupe, está doendo, mas eu vou me curar”.
Alex sorriu.
― Ah não Laura, não se preocupe, Alissa não mora comigo.
Encarei-o confusa.
-Não?
― Não. Ela acha meu apartamento pequeno e mofado, como ela mesma diz,
e preferiu ficar na casa dos pais até que terminem a reforma da nossa casa.
Afinal, eu não era a única com problemas. Levantei uma sobrancelha
para ele sem entender direito.
― Acho que por esta noite está bem então. Amanhã bem cedo eu volto para
Amsterdã.
Alex abriu a porta do carro e pegou minha bolsa. Passou o braço me
torno dos meus ombros e me conduziu para dentro.
Era um apartamento claro, moderno, elegante, – não tinha nada de
pequeno e mofado, diga-se de passagem. Tudo se parecia com Alexander lá
dentro. Era aconchegante e iluminado, como Alex costumava ser. Ele deixou
minha bolsa sobre um banco na entrada e eu coloquei Mia no chão. Alex me
abraçou. Um abraço profundo, cheio de sentimentos. Afundei minha cabeça
em seu peito, sentindo-o beijar suavemente minha testa.
― Você não fez nada de errado, Laura. Nem eu. Não vamos permitir que ele
faça isso tudo parecer errado. Eu não... – Ele estava se abrindo, deixando os
sentimentos virem à tona. – Eu não... Eu nunca faria isso. Eu não faria. Eu
não trairia Adrian. Eu não sou esse cara.
― Sei que não é! – Eu disse erguendo a cabeça e tocando meu nariz em seu
queixo. – Eu nunca achei que você pudesse fazer algo assim. Nunca vi nossa
amizade dessa maneira, Alex.
Ele pensou por algum tempo. Os olhos claros perdidos dentro dos
meus. Nossos corpos estavam tão próximos como era possível. Não era
sexual. Era um entendimento tão profundo. Eu sentia como se tivesse
conhecido Alex a vida toda. Era como um reencontro.
― Você sabe que é uma garota linda, não sabe? – Não respondi. – Sabe que
atrairia qualquer homem. Você sabe que me atraiu muito quando eu a
conheci, mas, não sei explicar Laura. Eu só... Só senti que não deveria ficar
longe. Eu juro que não dei razão alguma para que Adrian pensasse que... –
Ele pensou na escolha das palavras. – Que... – Eu o interrompi.
― Que nós dois estávamos transando pelas costas dele – conclui.
― É! – Ele disse sorrindo e me soltando. – Eu estava pensando em uma
maneira bonita de dizer, mas é basicamente isso que ele pensa.
― E porque ele pensa isso Alex? – Perguntei. – Porque pela manhã não havia
nada de errado. O que aconteceu?
Os olhos de Alexander baixaram um pouco, encontrando as tábuas do
assoalho de madeira. Permaneceram ali por algum tempo. Ele suspirou,
soltando todo o ar de uma vez.
― É nessa parte que entra a minha culpa – ele me disse derrotado.
Segurei-o pela mão e caminhei com ele até o grande sofá em forma de
L no centro da sala. Sentei-me e o puxei para o meu lado. Alex se sentou,
deixando o rosto cair entre as mãos.
Alisei seu cabelo curto para trás, acariciando sua cabeça.
― Não importa o que tenha sido, tenho certeza de que você não quis que
nada disso tivesse acontecido, Alex, não se preocupe.
― Ele estava falando de você. Estávamos falando de garotas, na verdade, um
papo bobo de amigos. Ele fez um comentário sobre sua calça de carneirinhos
e eu não resisti e fiz uma piada. Deveria ter ficado quieto. Eu nem sei por que
disse aquilo, era uma bobagem. Eu nem lembrava de que ele não sabia que eu
tinha ido à sua casa naquela noite. Foi um erro não termos dito nada a ele. Na
época eu quis que ele ficasse satisfeito com a sua competência, não que você
não tenha, é só que, bem, é só que eu estou mais acostumado com essas
coisas. Eu sou mais experiente.
Alex falava sem parar, enrolando-se mais e mais nas palavras e
justificativas. Ele tinha razão quando disse que deveríamos ter contado a
Adrian. Realmente deveríamos. Ter escondido dele só deu razão para que ele
pensasse que algo foi feito às suas costas. Havia sido uma completa idiotice
esconder, mas era algo que tínhamos acordado juntos, Alex e eu. Eu tinha
tanta culpa quanto ele.
― Está tudo bem Alex – eu disse por fim, porque não havia nada que
pudéssemos fazer mesmo.
― Não, não está Laurinha. Eu prejudiquei você, mesmo sem querer. Eu sou
meio impulsivo na maioria das vezes, acabo morrendo pela boca. Sinceridade
demais. Juro que tentei explicar. Eu tentei contar exatamente o que houve
naquela noite. Eu tentei dizer que vi você por acaso, que não era nada como
um encontro, que eu quis apenas ajudar no caso das crianças. Ele não quis me
ouvir. Ou melhor, ele até ouviu, mas só absorveu o que quis. Você o conhece.
Alex sorriu sem humor. Eu o conhecia o suficiente para saber que era
sincero. Alex era sempre sincero, era o cara legal. O cara gentil. Ele era o
príncipe, incapaz de magoar ou ferir de propósito. Esse era Adrian, o que
sabia usar as palavras para ferir. Alex não, ele era o cara gentil, sincero
demais para o próprio bem. Sorri.
― Não importa. Ele deveria ter confiado em você. É como você disse na sala
da casa dele, ele podia até desconfiar de mim porque me conhece há pouco
tempo, mas ele conhece você há tanto tempo, deveria saber que você não
faria isso.
Alexander virou a cabeça e a deixou cair em meu colo. Continuei
fazendo cafuné em seus cabelos macios.
― Isso tudo tem a ver com Patrícia. Adrian finge que superou a traição. Ele
finge que superou a perda, mas não é verdade. Ele se culpa muito por tudo e a
traição de Patrícia foi um golpe duro demais. As coisas que ela disse a ele
quando foi embora de casa com as crianças destruíram-no. Ela foi dura
demais. Estava magoada, Laura. Não era o que ela queria realmente dizer. Ela
não pensava daquele jeito.
Continuei acariciando seus cabelos em silêncio. Não havia muito que
eu pudesse fazer. Eu não conhecia o passado de Adrian como Alex conhecia.
Eu nem mesmo havia conhecido Patrícia. Tudo que eu sabia dela era o que
Adrian, Margarida e Alexander me diziam e cada um me falava de uma
Patrícia diferente.
Quando cheguei à Holanda, há tanto tempo, eu comprei um pequeno
bibelô de porcelana, um daqueles tradicionais holandeses com um garoto e
uma garota se beijando e um moinho de fundo. Era lindo e delicado e eu o
deixava sobre a mesinha de cabeceira de qualquer lugar em que eu dormisse.
Ele me acompanhou nos albergues e hotéis até que eu o levei para minha
primeira casa. Um dia, esbarrei nele sem querer e ele caiu no chão. Quebrou-
se inteiro. Eu podia ter comprado um novo, mas gostava daquele, era como
um marco na minha vida, então eu o consertei. Eu colei todas as pequenas
partes com cola de contato e deixei que secasse. Meu bibelô ficou lindo
novamente. Muitas pessoas nem percebiam as linhas e marcas em sua
superfície.
Adrian era como o meu bibelô. Muitas pessoas não reparavam, mas ele
estava quebrado. Marcado por cicatrizes profundas demais. Nunca mais seria
inteiro, nunca mais seria completo. Sempre faltaria uma peça, por menor que
fosse.
Houve um momento em que eu pensei ser capaz de consertá-lo, mas eu
estava enganada.
Alex virou a cabeça de lado, encarando meus olhos perdidos nas
lembranças.
― Eu deveria estar consolando você, – ele me disse ajeitando-se em meu
colo, – mas acho que não sou muito bom nisso. Vou ser um péssimo pai! –
Brincou. – Minha filha vai vir com os joelhos ralados e eu vou chorar mais
que ela!
Sorri com mais vontade desta vez.
― Você será um ótimo pai. Louise tem muita sorte! E você é muito bom em
consolar, acredite, eu não poderia querer outra pessoa me consolando. Eu não
sou muito boa em deixar as pessoas me consolarem – confessei.
Ficamos ali, eu meio deitada, meio sentada, e Alex meio apoiado, meio
deitado em meu colo. Não falamos de muitas coisas mais. O riso foi
morrendo na mesma velocidade em que os fatos iam revivendo em minha
mente. Eu não fazia ideia como seguir em frente, para onde deveria ir. Pensei
no que Collin estaria fazendo agora. Meu menininho. Eu havia me apegado a
ele rápido demais. Hanna. Minha garotinha que ficaria com os cabelinhos
sem tranças. Não teríamos mais um dia de meninas, nem falaríamos mais de
príncipes encantados e contos de fadas. Não existiam contos de fadas, pelo
menos não para mim. E ainda tinha John. Eu não poderia permitir que ele se
colocasse contra o pai. Ele não podia tomar partido em uma briga que não era
dele. Eu não faria isso.
Deveria ter ido devagar, deveria tantas coisas. Deveria ter deixado
Adrian do lado de fora. Deveria tê-lo impedido naquele dia no parque.
Deveria ter seguido meus instintos de sobrevivência e me afastado. Deveria,
mas não fiz. E tudo que eu tinha agora era esse grande rombo do tamanho de
uma cratera da lua.
― Vou arrumar a cama para você, Laura. – Alex disse de repente. – Eu sei
que você está doente e, depois de tudo isso, o mínimo que eu posso fazer é
cuidar de você.
Ele se levantou e eu me levantei junto com ele. Ele seguiu para a suíte
com a minha mala na mão.
― Alex eu não vou ficar com o seu quarto! – Discordei. – Não é justo. Você
teve um dia péssimo também, merece descansar. Eu fico com o sofá.
― Não estamos em negociação, Srta. Soares, – ele brincou.
― Eu sou menor que você, vou ficar confortável no sofá.
― Suas considerações foram rejeitadas pelo júri, senhorita! – Alex disse.
― É sério Alex, eu sou mesmo menor. Acredite! Eu já dormi em lugares
piores que esse seu incrível sofá de design assinado.
― Repito, – ele disse sério – não estamos em negociação. E só para constar,
o sofá não é assinado, mas obrigado por validar o meu bom gosto. Agora
tome um banho que eu vou preparar algo para que você possa comer.
― Não estou com fome, Alex, – confessei.
― Imagino que não, mas isso também não está em negociação.
Sorri e ele sorriu de volta. Um sorriso carinhoso, mas ainda triste.
Decidi que ia permitir que ele cuidasse de mim, se havia possibilidade de que
isso trouxesse seu sorriso verdadeiro de volta.
Saí do chuveiro alguns minutos depois, de calça de ginástica e uma
blusinha de alças. Mia já havia aceitado a oferta de Alex há tempos – estava
esticada sobre a cama, apreciando a vista da janela. Prendi o cabelo em um
rabo de cavalo frouxo e caminhei de volta para a cozinha. Alex cozinhava
algo. Cheirava bem.
― Macarrão – ele disse antes que eu perguntasse – ao molho pesto. É uma
das poucas coisas que eu sei fazer, Laurinha. Não sou muito bom na cozinha.
É isso, ou macarrão instantâneo.
― Macarrão ao molho pesto parece ótimo para mim, mesmo sem fome,
embora eu tenha recorrido a macarrão instantâneo muitas vezes. Eu poderia
escrever um livro inteirinho de variações de macarrão instantâneo – brinquei.
― Eu ficaria feliz em receber um exemplar. – Alex disse brincando também.
Eu me sentei sobre o balcão de pedra e ele ficou em pé. Comemos
nosso macarrão sem encontrar muitas palavras para dividir.
― Amanhã eu volto para Amsterdã Alex, – confessei – preciso começar a
reconstruir o estrago. Preciso falar com Hans e voltar a trabalhar. Minhas
contas não vão se pagar sozinhas.
― Amanhã eu vou ao escritório de Adrian. Preciso organizar minhas coisas e
encerrar alguns assuntos pendentes. Ele pode ser um garoto mimado, mas eu
não sou. Vou concluir minhas responsabilidades. Esta noite também vou
revisar o seu contrato com ele. Tenho certeza de que você não precisa se
preocupar, financeiramente quero dizer. Adrian não pode provar a traição, o
que significa que, na verdade, ele quebrou o contrato. Você não tem que se
preocupar com dinheiro, Laura.
― Não quero o dinheiro dele, – eu respondi sem humor – eu nunca quis.
Nunca tive dinheiro mesmo, não ter novamente, não muda nada.
― Mesmo assim, como seu advogado, – ele brincou – não vou deixá-la ser
lesada pelos caprichos de Adrian Van Galagher. Eu vou cuidar disso e se
você não quiser o dinheiro, nós doamos para a caridade – ele concluiu.
― Não quero vê-lo Alex.
― Você não irá. Eu cuido de tudo. Vou fazer uma procuração e você passará
as responsabilidades a mim.
Ao contrário do que eu pensava, dormi. Não demorou praticamente
tempo algum para que eu simplesmente desabasse de sono nos travesseiros de
Alexander Persen. Foi um sono profundo, exausto, sem sonhos.
― Então é isso que eu encontro ao voltar para minha casa! – Eu escutei lá no
fundo da minha mente.
Era um grito histérico, com uma voz que eu conhecia. Esforcei meu
cérebro a voltar a trabalhar e abri os olhos devagar. Alissa!
Ela estava parada, em frente à cama, olhos frios e cortantes como gelo
dividindo-se entre Alex e eu. Ele estava de calça. Peito nu, exibindo algumas
tatuagens escuras em contraste à sua pele clara. Cabelos despenteados, boca
cheia de espuma. Olhos arregalados tentando explicar o inexplicável.
― Oh meu Deus! Não! – Eu gritei assim que a história fez sentido. – Eu
dormi aqui sozinha! Juro Alissa!
― Então era isso, Alexander? – Ela perguntou furiosa. – Toda a sua
mudança! Toda a sua falta de interesse por mim e pelo nosso casamento!
Toda a sua falta de interesse em Louise!
― Hey, calma! Eu nunca estive sem interesse por Louise! Você não pode
dizer isso!
― Claro! Por que para você tudo o que eu sou agora é a caixa que carrega
sua preciosa cria! Porque o seu amor, o seu interesse, o seu desejo estavam
ali! – Ela disse apontando para mim que já estava em pé, agradecida por estar
vestida.
― Você está louca Alissa! – Alexander gritou enquanto eu tentava uma
maneira de sair do quarto. – Só pode estar falando de você mesma e não de
mim! Acha que eu não sei o quanto se arrependeu de ter dado aquele furo e
engravidado? Acha que eu não sei que não sou seu tipo de homem? Você
achou o quê? Achou que só porque eu iria me casar com você iria ficar
babando aos pés do seu pai por um lugar na empresa dele? Achou que iria me
convencer a ser outra pessoa?
Minha cabeça doía. Meu estômago revirava. Eu sentia como se
estivesse em uma casa barco, em um dia de mar revolto. Caminhei meio sem
equilíbrio até as portas duplas, rezando para que eles me permitissem ficar de
fora da discussão.
― E você? – Alissa disse apontando para mim. – Não podia se contentar em
ter Adrian? Tinha que querer o outro também? O que você tem pelo amor de
Deus, garota? Olha para você! Tão provinciana e medíocre com esse ar de
autossuficiência!
Eu podia sentir o meu sangue latino gritar em cada uma das minhas
veias, pequenas e grandes. Eu sabia que a garota estava grávida e que ela
tinha lá seu fundo de razão, afinal, eu estava na cama do noivo dela, mas eu
já estava tão no limite da minha razão que não pude me conter. Soltei o ar dos
pulmões devagar, tomando um pouco de fôlego para não cair.
― Não Alissa, esta é você! A garota que, apesar de estar carregando um bebê
de um aí dentro, fica se derretendo pelo outro! Esta não sou eu, esta é você!
― Alex, você vai permitir que ela fale comigo assim? – Ela provocou.
Alexander limpou a boca na beirada do lençol.
― Não posso dizer que ela está errada.
Alissa se sentou na cama, fazendo a cena da pobre grávida indefesa.
― Oh meu Deus! É muito pior do que eu imaginava! Vocês dois estão
tentando fazer parecer que eu estou errada quando na verdade eu acabo de
pegar os dois na cama!
Alex se sentou ao lado dela, segurou suas mãos gentilmente. Eu ainda
queria voar na garganta dela, então achei que deveria deixá-los ali, sozinhos,
e fui para a sala. Aproveitei para colocar um agasalho e calçar meus tênis.
Mia se aconchegou ao meu lado, olhos preguiçosos me diziam que ela não
fazia ideia da enrascada em que eu nos tinha metido.
― Baby não diga isso. Você não nos pegou na cama. Você pegou Laura
dormindo e eu no banheiro, escovando os dentes. Não seja infantil. Nós não
dormimos juntos. Eu nem dormi na verdade. – Eu podia ouvi-lo tentar fazê-la
entender a verdade. – Eu estava trabalhando no processo que vou mover
contra Adrian, baby. Você sabia disso, eu expliquei a você tudo ontem.
― Por telefone Alexander! Você me avisou por telefone que seu melhor
amigo achava que você estava dormindo com Laura! Eu chego à sua casa de
manhã e o que eu vejo? Laura! Na sua cama!
― Alissa não seja infantil! – Alexander praguejou. – Você parece estar
procurando por uma razão.
― Uma razão para quê, Alexander? – Ela provocou. – Uma razão para deixar
você?
― Baby não diga isso. Eu não quero perder você. Eu já perdi tudo. Eu já
perdi meu emprego, já perdi meu melhor amigo. Eu não posso perder vocês
duas.
Eu estava mal. Pior ainda do que na noite anterior. Eu não só tinha
destruído a minha vida, como tinha arrastado Alexander comigo pelo
caminho.
― E o que você pretende fazer? Porque sem dinheiro não vamos conseguir
dar uma vida decente para Louise. Ou você espera que eu trabalhe e deixe
Louise em uma creche qualquer?
A voz de Alissa me enjoava mais e mais a cada palavra. Deus! Como
um cara como Alexander Persen pôde se envolver com essa criatura?
― Não Alissa. Eu não espero que você volte a trabalhar agora. Eu entendo
que a responsabilidade é minha. Eu vou encontrar algo. Você sabe que eu
vou. Eu sou muito bom no que eu faço.
Ouvi a movimentação no quarto e me preparei encostada no balcão da
cozinha, com Mia em um braço, e bolsa no outro. Alissa veio gritando pela
porta com Alexander logo atrás dela.
― Eu não me importo com o que quer que seja que você vai fazer! Eu não
vou ficar de favor na casa do meu pai com um bebê recém-nascido! Droga de
vida! Droga de momento em que eu me envolvi com um fracassado!
Apertei Mia em meu braço para não enfiar a mão na cara de Alissa
naquele momento. Ela não fazia ideia do homem que ela tinha ao seu lado.
Ela não o merecia.
― E eu não quero mais ver esta garota aqui! Eu não quero mais vê-la perto
de mim ou do meu bebê. Se você quer ser o cara das boas ações ou se você
quer manter a sua amante por perto, leve-a para a casa do inútil do seu pai!
Alex permaneceu parado, postura firme, mãos ao lado do corpo.
Punhos cerrados. Olhos concentrados. Não parecia o Alex que eu costumava
ver. Era alguém frio, calculando o próximo passo.
― Saia da minha casa. – Ele disse devagar.
Alissa olhou primeiro para mim e depois de volta para ele. Ela parecia
não entender o que estava acontecendo.
― Desculpe? – Ela perguntou.
― Saia da minha casa, – ele repetiu – você não tem respeito por mim, nem
pelas pessoas que eu amo. Saia da minha casa.
― Você está terminando comigo? – Ela perguntou incrédula. – Por causa
dela? – E apontou para mim.
― Não Alissa, eu estou terminando com você porque eu não suporto mais
fingir que isso vai dar certo algum dia. Eu tentei. Eu quis. Eu realmente quis
muito que isso desse certo. Eu queria muito dar um lar diferente do que eu
tive para minha filha, mas eu não posso mais. Não consigo mais. Eu estou
dizendo a você que vou acertar todas as arestas da minha vida e que você era
a maior delas.
― Você não pode estar falando sério! – Ela disse com os olhos arregalados. –
E Louise?
― Louise sempre será minha filha e eu a farei saber o quanto eu a amo.
― Alex... – Ela tentou uma vez mais.
― Saia.
Alissa passou pela porta como um foguete. E eu, instintivamente, fui
atrás dela. Eu não poderia deixar a garota sair por aí desembestada como
estava e naquele estado. Eu sabia melhor do que ninguém o quanto isso tudo
poderia terminar mal.
― Alissa! – Chamei, mas, ela continuou pelo corredor.
Corri. Eu não estava carregando peso adicional, então, alcancei-a antes
que chegasse ao elevador.
― Espera – eu disse com a mão no ombro dela.
Ela encarou minha mão em seu ombro como se fosse algo sujo, mas eu
não me importei, eu não estava nem aí para o que ela pensava ou não a meu
respeito, mas eu me importava com o que iria acontecer com o bebê dentro da
barriga dela. Podia ser egoísta da minha parte, mas era a realidade. Eu faria
qualquer coisa para salvar o bebê de Alexander.
― O que você quer? – Ela me perguntou furiosa. – Você já ganhou tudo!
Suspirei – era mais fácil falar com Hanna e até com Mia, do que falar
com Alissa.
― O que foi que eu ganhei Alissa? Caso você não tenha entendido, eu até
agora só posso computar perdas.
A porta do elevador se abriu e ela entrou. Entrei junto. Eu pelo menos
iria tentar acalmá-la para que pudesse voltar para casa em segurança.
― Você tem o grande Sr. Galagher aos seus pés – ela começou gesticulando
para mim – e agora tem o fiel escudeiro também. Até aqueles três pestinhas
você conseguiu convencer. Sério, você deveria dar cursos por aí, faria um
grande sucesso.
Respirei fundo – concentre-se Laura. Concentre-se. Pense em Alex.
Pense em Alex.
― Alissa, Adrian e eu terminamos. E Alex... – Comecei, mas ela não me
deixou terminar.
― E Alex correria uma maratona, descalço no gelo, se você pedisse. O que
mais você pode querer?
― Eu amo Adrian, Alissa, – tentei insistir.
Alissa se encostou emburrada como uma criança, no batente da porta
do elevador, fazendo-a permanecer aberta, deixando as pessoas esperando.
― Ah Laura, não seja ingênua! É claro que você ama. – Ela disse dando
ênfase à última palavra, usando-a como se fosse um jogo. – O que há em
Adrian Van Galagher para não se amar?
Eu estava irritada. Cruzando a linha tênue da paciência para o
desespero, para não dar umas boas chineladas na bunda de Alissa. Minha avó
costumava dizer que chinelada e canja de galinha curavam tudo! O que uma
não resolvia, a outra cuidava.
― Alissa dê licença para que as pessoas possam usar o elevador, – pedi
gentilmente.
― Eles que esperem. Eu não me importo.
Contei até três mentalmente.
― Por favor, Alissa, vamos conversar ali fora. – Eu disse indicando uma
pequena praça em frente ao apartamento de Alex. – Hum – insisti – por
favor?
― Ok!
Ela saiu a contragosto e eu pude perceber um ou outro olhar de
agradecimento dirigido a mim. Acho que eu não era uma pessoa tão terrível
assim, afinal.
Alissa não foi à praça, como eu havia pedido, ao invés disso ela apertou
o alarme de um belo carro de luxo e entrou. Eu fui junto e fiquei na janela.
― Você não deveria sair por aí dirigindo alterada. Você deveria pensar no
seu bebê, – pontuei.
― E quem é você para me dizer como eu devo ou não seguir com a minha
vida? – Ela retrucou.
Pensei alguns segundos na resposta, sentindo as palavras arranharem o
que já estava sangrando.
― Eu sou alguém que já se arrependeu de uma bobagem como essa e que não
pode mudar o passado.
Alissa pensou um pouco. As mãos sobre o volante. Cabeça
descansando sobre elas. Respirou fundo. E eu pude ver que tinha absorvido o
que eu disse.
― É isso? – Ela me perguntou de repente. – Você também está preocupada
com a preciosa cria aqui dentro?
Assustei tanto com o tom que ela usou para se referir à filha que nem
consegui responder.
― Não se preocupe, Laurinha, – ela disse debochando, – eu vou me
preocupar com a pequena Louise. Eu vou fazer tudo que eu puder para que a
pequena Louise tenha uma ótima vida.
Alissa arrancou com o carro e eu fiquei ali, em estado de choque,
pensando que se eu tinha alguma dúvida de que ela era completamente
maluca, as dúvidas tinham sido sanadas agora.
Capítulo 23

Adrian
Esperei o dia amanhecer encarando a janela aberta do meu quarto. Eu
não havia cochilado mais do que algumas poucas horas e isso não parecia um
problema – eu estava sem sono.
Observei quando John se sentou no deck, apreciando os primeiros raios
de sol. Decidi que era hora de ter uma conversa difícil com ele. Eu estava
adiando isso demais.
Vesti uma camiseta e saí. Pés descalços na grama molhada,
caminhando até o meu filho.
― Bom dia filho, – eu disse antes de me sentar ao lado dele.
― Deve ter sido boa para o senhor, Sr. Galagher, – ele disse sem humor – eu
vi quando saiu.
― Você viu quando eu cheguei? – Perguntei atirando uma pedrinha no lago.
Era algo que eu o tinha ensinado a fazer. Uma coisa que fazíamos
juntos. Eu não podia permitir que nosso vínculo se rompesse. Que John se
afastasse de mim novamente.
― Não. Eu estava com dor de cabeça. Tomei um comprimido e dormi.
― Eu voltei para casa antes da meia noite, filho. Não tinha nada lá fora que
eu quisesse.
John suspirou, mas não me perguntou nada. Ele estava magoado e eu
queria fazê-lo entender.
― John você já é um homem, quero falar com você de homem para homem.
Ele se virou para mim devagar, os olhos encarando os meus. Eu podia
me ver neles.
― Filho você sabe que eu amava muito a sua mãe, – não esperei que ele
respondesse, eu precisava falar, – você também sabe que eu errei muito com
ela.
― Você vai cometer os mesmos erros com Laura, pai. Você vai acabar
jogando-a nos braços do Alex, como você fez com mamãe e aquele cara.
Engoli as palavras dele sentindo minha garganta doer.
― John, eu não posso perdoar o que ela fez.
― Pois é pai, você também não podia perdoar mamãe e quando decidiu que
podia, era tarde.
Engoli mais uma vez.
― John as coisas são mais complicadas do que isso. Eu e sua mãe tínhamos
uma história. Tínhamos vocês. Eu precisava cuidar dela, era minha obrigação.
Nós acabamos de conhecer Laura.
― Pai! – Ele me disse sério. – Você disse que eu sou um homem e que
conversaria comigo como um, então eu vou tratar você assim. Você nunca
amou mamãe como você ama Laura. Eu não sou bobo pai, eu vejo as coisas.
Eu via a sua cara de bobo olhando para ela.
Permaneci em silêncio, sem encarar os olhos do meu filho.
― Você babava nela o tempo todo pai. Eu sei que Laura é uma garota linda e
jovem e que qualquer cara ficaria feliz com uma mulher como ela, mas não é
só isso com você. Você a ama de verdade. Só que não quer admitir. Isso é
covardia pai. E você me ensinou a não ser covarde.
Atirei mais uma pedrinha no lago. Eu estava contrariado e triste. Podia
sentir a dor em cada respiração, mas eu estava orgulhoso. Enfim, eu tinha
feito algo de bom – John era meu melhor projeto.
― E o que você acha que eu devo fazer John? – Perguntei.
Eu queria que ele se abrisse comigo, que me visse como um amigo.
Queria ouvir o que ele tinha a dizer. Ele tinha crescido tanto. Tinha
demonstrado isso quando se colocou ao lado dos irmãos no meu lugar.
Quando assumiu a responsabilidade de ser o pai para que eu pudesse ser o
marido traído. Ele merecia um voto de confiança. Talvez ele tivesse mais
coisas a me oferecer do que eu pensava.
― Acho que a primeira coisa que você deve fazer é conversar com Alex, pai.
Acho que você foi um imbecil ontem, com ele e com Laura, mas acho que a
primeira coisa a ser consertada é a sua amizade com ele.
Atirei mais uma pedrinha, deixando-a quicar. Não fazia vinte e quatro
horas que eu e Alex havíamos brigado e eu já precisava de um conselho dele.
Um conselho dele, para me ajudar a resolver a briga com ele. Irônico.
― Pai! – John interrompeu meus pensamentos. – Ninguém nunca vai amar a
gente como o tio Alex.
As últimas palavras bateram como um soco em meu peito – Tio Alex.
John chamava Alex assim. Ele dizia que, já que Patrícia e eu não tínhamos
irmãos, Alex era o seu único tio. E ele era meu irmão. Eu precisava pelo
menos falar com ele. Precisa pelo menos ouvi-lo.
― Obrigado, filho, – eu disse deixando minha mão sobre seu ombro, – eu
precisava do conselho de um cara sensato – brinquei, mas não era tão
brincadeira assim.
John me abraçou.
― Até que você não é tão arrogante assim, pai.
Deixei John na cozinha, tomando café com os irmãos. Eu tinha
decidido que eles poderiam perder um dia de aula e ficarem em casa. Eles
precisavam de um tempo para que pudessem se recuperar dos últimos
acontecimentos.
Cheguei ao meu escritório cedo. Entrei dando apenas um aceno de
cabeça às pessoas que encontrei. Eu queria evitar qualquer comentário ou
pergunta. Não tive dificuldade, meus funcionários me conheciam
suficientemente bem para não insistir em contato visual.
― Bom dia Karol! – Eu disse ao entrar. – Assim que Alexander chegar, diga
a ele que eu quero vê-lo.
― O Sr. Persen já está em sua sala, Sr. Galagher. – Karol disse meio
desconcertada.
Respirei fundo antes de abrir a porta da minha sala – seria uma
conversa difícil.
Entrei. Alexander estava lá, de costas para mim. Mãos cruzadas nas
costas, encarando Roterdã lá embaixo. Virou-se assim que fechei a porta.
Caminhei até ele, deixando minha pasta sobre a mesa.
― Alexander, nós precisamos conversar.
― Sim, precisamos. – Ele disse entregando-me algumas folhas impressas.
Peguei-as. Dei uma olhada rápida. Era um processo, eu sabia, conhecia
bem. Li o nome no alto da folha. Adrian Van Galagher – ótimo, era um
processo contra mim.
― O que é isto? – Eu perguntei, embora já imaginasse.
― Como advogado da Srta. Soares, eu o estou processando. Rompimento de
contrato, calúnia e difamação, danos morais e materiais, entre outros.
Respirei fundo. Tentando manter a calma.
― Trata-se disto então? – Perguntei. – Meu dinheiro.
― Trata-se de atingi-lo onde dói. E nada é mais importante para você do que
o seu império, Sr. Leão de Roterdã.
Ele estava ironizando. Estava com raiva e tinha suas razões, mas ele
não estava certo. Eu os tinha pegado em algum tipo de rede de mentiras e era
ele que tinha coisas a me explicar. Eu queria dar uma chance a ele. Queria
que pudéssemos conversar, mas havia percebido que seria difícil.
― Alex, – tentei mais uma vez, – nós precisamos conversar.
― É o que nós estamos fazendo, Adrian.
― Você não pode ser advogado de Laura, você é meu advogado, – insisti –
além disso, não é necessário nenhum tipo de processo. Eu vou arcar com
minhas obrigações contratuais. Você só precisa me dizer o que eu devo fazer.
― Consulte seus advogados quanto à sua conduta, Adrian. Caso não lembre,
você me demitiu ontem. Eu não esqueci e por isso vim mais cedo. Eu
precisava deixar minha sala em ordem para quem quer que seja o substituto.
― Alex não seja tão intransigente.
― Eu não sou. Você sabe, ou melhor, você deveria saber. Achei que durante
esses quase vinte anos de amizade eu tinha deixado claro a você quem eu sou,
mas não estou mais certo disso.
Eu estava irritado. Alexander não me deixava falar. Eu estava ficando
nervoso, perdendo a linha. O filho da puta transava com a minha noiva, pelas
minhas costas, e ainda se sentia injustiçado!
― Isso é tudo Alexander? – Perguntei irritado, arrogante, parando em frente
a ele e aproveitando meus centímetros a mais.
― Não.
Eu não pude me defender, não tive tempo, tudo que pude sentir foi o
punho fechado de Alexander batendo forte contra o meu nariz. Caí, como um
garoto apanhando na escola, de costas. Minhas costas batendo forte contra a
parede. Tentei abrir os olhos, mas a dor ainda era forte, aguda. Meus olhos
lacrimejavam contra a minha vontade.
Alexander sempre foi bom de briga, era magro e esguio, mas era
rápido e forte, eu sabia disso, já o tinha visto em ação outras vezes.
Abri finalmente os olhos, sentindo o líquido pegajoso escorrer até meu
lábio. Limpei com as costas das mãos, sentindo o gosto metálico em minha
boca. Tateei o local do golpe com a mão. Eu tinha um osso quebrado no
nariz, com certeza. E tinha um corte na parte inferior do olho esquerdo – filho
da puta desgraçado.
Levantei, recuperando minha postura. Alexander abria e fechava a mão
– ele tinha quebrado meu nariz, mas tinha quebrado a mão junto. Quase pude
rir.
― Isto é tudo? ― Repeti a pergunta.
― Sim, – ele me disse saindo – por enquanto.
Assim que Alexander saiu eu soquei a parede. Não queria me
arrepender de mais nada. Não podia simplesmente sair socando as pessoas
por aí. Eu não era mais um garoto de colégio brigando com o amigo por
causa da garota.
Fui até o banheiro e lavei meu rosto. Olhei no espelho, encarando os
ferimentos. O inchaço no meu nariz começava a aparecer e o sangue a jorrar.
Enfiei um chumaço de papel higiênico nele. Eu podia ver o indício de um
hematoma abaixo do meu olho, perto do corte.
Sequei o rosto e esperei que o sangramento fosse contido. Tirei a
gravata e dobrei a camisa até os cotovelos. Ela estava suja de sangue no
punho e eu não queria parecer pior do que já estava. Arrumei o cabelo e
coloquei meus óculos escuros. Saí sem dizer nada. Não havia o que dizer.
Provavelmente Karol havia ouvido o barulho.
Voltei para minha casa antes do almoço. Meus filhos estavam
brincando no jardim. Tentei passar despercebido e subi para o meu quarto.
Funcionou com Hanna e Collin, mas não com John. Ele entrou no quarto
alguns minutos depois de mim. Eu estava trocando minha roupa.
― Ele acertou você em cheio, hein pai! – John brincou rindo.
― Esse é o seu tio, o cara legal. – Eu disse apontando para o meu rosto. – E
eu nem mesmo revidei! – Concluí.
Ele me encarou sério por um tempo analisando o estrago no meu rosto.
Depois sorriu e atirou a toalha de rosto para mim.
― Você mereceu pai, eu teria feito o mesmo, – e sorriu, – agora limpe esse
nariz que está escorrendo sangue aí.
John saiu do quarto e eu acabei sorrindo e sentindo a dor de
movimentar o rosto – o filho da puta tinha destruído meu rosto.
― Pai? – Escutei John me chamando pelo corredor.
― Sim? – Eu respondi assim que vesti a calça de exercício.
― Alissa está lá embaixo.
― Já vou descer filho. Peça a ela para me esperar.
― Rápido, hein, pai! – Ele constatou. – Pensei que demoraria mais um
pouco.
― Não entendi John. – Eu disse, embora não fosse uma verdade completa.
Ele estreitou as sobrancelhas para mim, depois arqueou uma. É... Eu
não era bom em fingir para John.
Desci as escadas devagar. Alissa estava na sala, andando de um lado
para o outro. Eu era bom em interpretar pessoas e eu sabia que aquilo não era
desespero real. Ela queria parecer nervosa, desesperada. Eu já imaginava
onde toda a conversa iria nos levar, mas ela merecia ser ouvida, afinal, assim
como eu, ela havia sido traída.
― Boa tarde Alissa, – eu disse assim que ela se virou para mim.
Ela não respondeu, correu até mim e se atirou nos meus braços.
Abracei. Não que eu achasse que ela precisava ser consolada. Eu já havia
percebido que Alissa não amava realmente Alexander, mas eu era educado, e
não faria isso com ela.
― Adrian você não sabe como eu estou. – Ela começou choramingando. – Eu
passei na casa do Alex hoje de manhã e... – Ela fez uma pausa para chorar. –
Eu os encontrei na cama!
Ou Alexander era realmente burro demais ou Alissa estava mentindo
em algum ponto da história toda. Porque levar a amante para a própria casa e
colocá-la na cama que você divide com outra mulher é o cúmulo da estupidez
que um cara poderia cometer! E Alexander era um cara esperto.
Não disse nada. Esperei que ela continuasse, enquanto eu acariciava seu
cabelo devagar.
― Eles. Eles... – Ela queria dar ênfase aos fatos. – Eles estavam lá.
― Nus? – Perguntei por que não resisti.
― Não! – Ela disse ofendida. – Ela estava na cama dele. Ah Adrian! Você
não imagina as barbaridades que ele me disse!
― Alissa você não deveria ter se exposto a isso. Você sabia que os dois
estavam juntos. – Eu disse devagar. – Você precisa pensar em Louise.
― Louise! Louise! Todo mundo só se preocupa com ela! E eu? – Ela
perguntou. – Eu preciso de um pouco de atenção! E afeto!
Oh Deus, não! Por favor, me diga que eu não vou ter que ficar aqui
com a cara inchada e sangrando escutando a rainha do drama choramingar
porque o mundo não gira em torno dela! – Fiz uma prece silenciosa.
― Hey querida, – eu disse devagar, aconchegando-a em meu peito, – não é
verdade. Eu estou preocupado com você. Só estou dizendo que você precisa
se cuidar. Você está tão perto de terminar a gravidez, não vai querer causar
um problema para você e para o seu bebê. Não pode passar por esses
rompantes de sentimentos.
Não era sincero, nem genuíno, mas Alissa não se importava. Ela queria
atenção. E se era o que eu precisava fazer para manter Louise segura, então
eu faria.
Ela finalmente levantou os olhos e encarou meu rosto machucado.
― Oh meu Deus, Adrian! Você foi assaltado? Sequestro relâmpago? Oh meu
Deus! Esse mundo está perdido! – Constatou.
― Não Alissa. Eu não fui assaltado ou qualquer coisa assim, – eu disse sem
vontade – eu tive um encontro não muito amistoso com Alexander.
― Alex fez isso?
Assenti.
― Adrian você deveria ir a uma delegacia!
― Está tudo bem Alissa. Não é nada demais.
― Como não é nada demais? Aquele boçal destruiu o seu rosto!
Ela tentava alisar meu rosto com a mão e eu tentava me esquivar sendo
gentil e delicado – era um jogo difícil.
Eu podia não estar mais com Laura. E podia ter sido traído por
Alexander, mas eu não faria o mesmo. Eu não tinha intenção alguma em
permitir que Alissa tivesse esse tipo de pensamento.
― Venha! – Eu disse conduzindo-a. – Vamos ao meu escritório e você me
conta exatamente o que viu.
Alissa assentiu sem reclamar. Entrei com ela no escritório e fechei a
porta. Eu não queria que meus filhos a vissem alisando meu rosto e tivessem
alguma ideia errada. Laura havia acabado de sair das nossas vidas, eu não
queria que pensassem que eu a havia substituído assim tão rápido.
― Diga-me querida, o que houve exatamente esta manhã, no apartamento de
Alexander.
― Eu cheguei lá e entrei. Bem eu tenho a chave, claro, – ela começou – fui
direto para o quarto. Eu queria acordar Alex, mas ele não estava na cama.
Laura estava! Ela estava dormindo nos meus lençóis Adrian. Foi horrível!
― E Alexander?
― Estava no banheiro.
― Não estavam dormindo juntos então – constatei.
― Não quando eu cheguei! Mas, Deus sabe lá, o que fizeram a noite toda!
Eu estava me irritando mais e mais a cada minuto do meu dia. Não era
só Deus quem sabia o que os dois poderiam ter feito naquele maldito
apartamento! Eu tinha ideia não muito vaga também.
Respirei devagar, controlando meus nervos. Eu não queria que ela
percebesse o efeito que surtia em mim.
― Querida, – comecei – eu sei o quanto deve estar doendo, mas você precisa
seguir em frente. Talvez o casamento não fosse realmente o melhor para
vocês.
― Eu sei – ela me disse baixinho – talvez não fosse mesmo.
― Então. Pense em seu bebê. Hum? – Eu disse sorrindo. – Logo, logo você
terá Louise nos braços e, acredite isso irá compensar todo o resto. Eu digo
com conhecimento de causa.
― Adrian você é o melhor pai do mundo, – ela disse atirando-se sobre mim
novamente, – queria que Alexander fosse como você. Oh meu Deus! Se eu
pudesse voltar no tempo. Quer dizer, não que eu não quisesse Louise, mas eu
podia ter feito uma escolha melhor de pai.
Não era verdade. Nada do que ela dizia. E eu não era burro. Eu não era,
nem de longe, o melhor pai do mundo e Alexander era um cara incrível com
crianças. Ele havia sido melhor pai que eu em muitos momentos. Eu podia
estar magoado com ele e tinha um rombo no rosto que não me deixava
esquecer isso, mas eu não gostava de ouvi-la dizer essas coisas sobre ele.
― E agora, ele nem mesmo tem um emprego. O que eu vou fazer? Vou ficar
na casa do meu pai até quando? Sabe Adrian, papai não vai aceitar bem isso
tudo. Ele vai me culpar, vai dizer que me avisou e todas aquelas coisas que os
pais dizem. Oh meu Deus!
Respirei fundo novamente. O nariz dela fazia cócegas em meu pescoço
e não era de um modo bom.
― Eu vou cuidar disso Alissa. – Eu disse na tentativa de encerrar o assunto. –
Eu vou cuidar para que não falte nada a você ou a Louise. Não se preocupe.
Não precisa pedir nada ao seu pai. Diga o que precisa, e eu providencio.
Ela sorriu. Alissa nem mesmo queria a mim. Ela queria o meu dinheiro,
sempre foi sobre o meu dinheiro. Ela não se importava com quem Alexander
dormia ou não, desde que o dinheiro que entrasse fosse suficiente para que
ela continuasse levando a vida que gostava.
― Agora venha! – Eu disse me afastando e levando-a pela mão. – Eu vou
levar você até sua casa, e Harold levará seu carro. Não é seguro você
continuar dirigindo por aí com esta barriga tão grande.
Ela assentiu, já havia conseguido o que veio buscar mesmo.
Abri a porta do Porsche e a ajudei a entrar. Subi a capota – porque a
última coisa que eu precisava era de uma foto minha com a cara estourada em
todos os jornais amanha, e com Alissa, no banco do passageiro.
Parei o carro em frente à casa dos pais dela alguns minutos depois.
― Agora você precisa entrar e contar ao seu pai que o noivado acabou,
querida, – eu disse – quanto mais esperar, pior será.
― Eu sei – ela disse encostando a cabeça em meu peito novamente.
― E não se preocupe com dinheiro. Vou cuidar de você e de Louise.
― Ah Adrian! Você é um gentleman.
Alissa disse isso e tocou os lábios nos meus. Não foi exatamente um
beijo e não sei o que ela esperava em reação, mas eu não me movi. Também
não me afastei, não queria parecer indelicado. Depois de algum tempo ela se
afastou.
― Depois que Louise nascer, – ela começou – eu terei mais tempo. Vou
poder voltar a ser eu mesma, fazer as coisas que fazia antes.
― Claro que vai – concordei sem vontade porque não me lembrava de nada
importante que ela fazia antes de estar grávida.
― E aí nós podemos, – ela fez uma pausa, pensando nas palavras e me
deixando assustado, – podemos tentar seguir em frente. Quero dizer, eu posso
ser uma boa mãe.
Engoli em seco – nem em um milhão de anos esta mulher iria ficar
perto dos meus filhos!
― Alissa você sabe que eu a considero muito, não sabe?
― Sim – ela disse sorrindo.
― Alexander é meu amigo, meu melhor amigo. Ainda que ele tenha me
traído, eu nunca faria o mesmo. Você e ele tem uma história longa e
complicada demais.
Fui taxativo. Não tinha como enrolar e eu não queria fazer isso. Não
queria que ela pensasse que isso poderia acontecer em algum momento,
porque não era verdade.
Alissa bufou contrariada. Desceu do carro sem me encarar.
― Vamos dar um tempo às coisas – ela disse já do lado de fora do carro.
― Isso – concordei – com o tempo as coisas se acertarão.
Saí o mais rápido que consegui. Eu estava ainda pior. Sentindo-me
estranho, sujo. Eu estava acostumado a mulheres que queriam meu dinheiro,
isso não era uma novidade, mas hoje, me fez mal. Eu podia sentir o perfume
dela dentro do meu carro e isso me enjoava. Alisei os cabelos para trás,
sentindo asco da minha própria pele. Minha boca. Ela havia me beijado – ou
quase isso – e pela primeira vez eu me senti mal por isso.
Adrian Van Galagher, sentindo-se mal por ser beijado por uma
mulher bonita! Comecei a achar que Charlotte tinha razão – Laura havia me
estragado!
Laura! De novo, ali, em minha mente. Serpenteando pelo meu carro,
espalhando seu perfume.
Afundei o pé no acelerador, sentindo o ciúme corroer minhas veias
devagar. Ela havia dormido com ele! Será que ela já havia me esquecido?
Será que não sentia mais atração por mim? Será que era fingimento? Não
importava, eu iria descobrir!
Estacionei em frente ao prédio de Alexander. O prédio não tinha
garagem e eu não encontrei o carro dele no estacionamento de rua em que ele
costumava deixar. Talvez ele não estivesse em casa. Talvez tivessem saído.
Entrei. Passei pela portaria e apenas cumprimentei o segurança. Eu
sempre ia ao apartamento de Alexander, não era uma novidade.
Toquei a campainha. No segundo toque Laura abriu a porta. Meus
olhos encontraram os dela assim que a viram. Lindos olhos castanhos, meus
olhos castanhos. Ela parecia ainda mais bonita.
Laura deixou a caneca cair, estilhaçando-se em vários pedaços,
respingando chá em minha calça. Tentou fechar a porta em um impulso, mas
eu não permiti. Cobri sua mão com a minha, enquanto fazia uma varredura do
local. Silencioso e vazio, ela estava sozinha. Entrei.
― Oh meu Deus, Adrian! Você está bem? – Ela perguntou encarando meu
rosto.
Respirei devagar. Eu não queria contar a ela sobre a briga. Não
conseguia organizar minha mente na verdade. Eu não sabia o que dizer.
― O que você quer Adrian? – Ela me perguntou tentando soar firme, mas eu
podia sentir a pequena ondulação em sua voz.
Eu não respondi novamente. Havia pensando em muitas coisas para
dizer. Muitas coisas para exigir, mas nada fazia mais sentido. Eu não queria
nada. Nada além dela.
Cruzei o espaço entre nós dois em poucas passadas. Rápidas e longas o
suficiente para encostar Laura na parede de tijolos da sala. Encaixei meu
corpo no dela e enfiei minha perna entre as suas, minha coxa mantendo-as
aberta, segurei suas mãos abertas, de cada um dos lados da sua cabeça, seus
dedos entrelaçados nos meus.
Senti o aroma do seu hálito assim que ela soltou o ar dos pulmões e
perdi o pouco de sanidade que ainda tinha – eu queria Laura. Eu queria agora
e eu conseguia tudo que queria. Sempre.
Apertei minha boca na dela, duro, forte. Não era um beijo carinhoso.
Mordi seu lábio inferior, sentindo o gosto metálico se espalhar em nossas
bocas. Eu não sabia de quem era o sangue, e não me importava – o gosto de
Laura era o melhor que eu já havia sentido.
Subi minha coxa o suficiente para senti-la mais, sob o tecido fino da
calça de ginástica.
― Adrian... – Era um misto de protesto e gemido. Eu não ia parar.
― Diz que me esqueceu! – Eu exigi. – Diz que alguém faz você se sentir
assim!
― Adrian... – Ela disse tendendo mais para o gemido que para o protesto.
― Amor eu quero você tanto! – Eu disse sugando sua língua para a minha
boca, aprofundando nosso beijo. – Tanto! Não acredito no que você fez. Você
não podia. – Desabafei.
E então ela me afastou, soltando as mãos e empurrando meu peito com
força.
― Não! – Ela xingou. – O que você pensa que está fazendo? Foi você quem
terminou comigo! Vai embora Adrian!
― Por quê? – Perguntei enfurecido. – Por que agora você é dele? – Insisti. –
Quer dizer que você podia ser dele quando era minha, mas não pode ser
minha quando é dele?
Mais uma vez eu não pude desviar do tapa. Para a minha sorte, Laura
não batia tão bem quanto Alex, então além do ardor no meu rosto já
machucado, tudo que eu senti foi mágoa. O desprezo dela era como uma
bomba de mágoa dentro do meu peito – ela não me queria.
Virei as costas sem dizer nada e saí. Eu precisava ficar longe dessa
garota ou ela ia terminar de me destruir.
Capítulo 24

Laura
Eu estava sentada no sofá, cabeça caída contra as mãos no maior acesso
de choro quando Alex entrou. Eu podia sentir cada músculo do meu corpo
tremendo.
― Laura! O que houve baby? – Ele perguntou ajoelhando-se na minha frente.
Não respondi de imediato, eu não conseguia falar. Estava nervosa
demais, sentindo ainda a presença de Adrian aqui.
― Pelo amor de Deus, Laura, não me diga que... – Não o deixei continuar.
― Ele esteve aqui – eu disse chorando.
Alex bufou – soltando o ar dos pulmões de uma vez.
― Eu imaginei que isso poderia acontecer. Só não achei que fosse tão rápido.
– Alex pensou por um instante. – Não me diga que ele fez algo estúpido.
― Não! – Respondi recobrando um pouco de calma. – Mas eu quase fiz.
― Hey, baby, – ele disse me puxando para o seu lado – não se preocupe, eu
vou proteger você.
Tentei segurar em sua mão e Alexander a puxou de volta. Percebi o
ferimento no mesmo instante, fazendo a ligação mental.
― Não me diga que você... – Eu comecei e ele não me deixou terminar.
― Eu meio que soquei a cara dele.
Sorri.
― Sua mão parece melhor que o rosto dele, apesar de tudo, – brinquei.
― Essa era a intenção, baby, – ele disse sorrindo, mas o sorriso murchou
rápido demais – eu estive com Alissa. Por isso acabei demorando a voltar. Eu
cheguei bem cedo lá, ela não estava. Esperei. Então eu vi quando ela chegou
com Adrian e imaginei que isso pudesse acontecer.
Eu mal podia acreditar na rapidez da garota – nem esperou o lençol
esfriar e já estava lá, em cima de Adrian. Senti meu estômago revirar.
― Eu achei que deveria procurá-la depois de tudo que houve aqui. – Alex
continuou sem humor. – Achei que ela merecia uma chance, por tudo que
vivemos. Eu não queria que terminássemos assim.
― Acho que a conversa não seguiu exatamente como você planejou –
constatei.
― Não. Alissa me disse algumas coisas ruins. Estava chateada e magoada.
Pelo que pude perceber ela não tinha conseguido de Adrian o que esperava.
Ele parecia triste, mas parecia conformado. Eu ainda não tinha
entendido se Alexander sempre soube quem era Alissa, e fingia por causa do
bebê; ou se ele fingia que estava menos magoado do que na verdade estava.
Eu não estaria tão calma no lugar dele.
― Agora me diga o que ele queria com você? Não me diga que tem algo a
ver com o processo.
Suspirei.
― Pegue a caixa de primeiros socorros primeiro e eu conto o que você quiser
depois. Precisamos cuidar da sua mão.
Alexander se levantou e entrou no quarto. Voltou alguns minutos
depois, sem camisa e com uma caixinha vermelha nas mãos. Sentou-se no
sofá e colocou a mão sobre meu colo.
― Vamos ver os seus dotes – ele brincou.
Limpei com uma gaze úmida com água boricada e analisei o ferimento.
― Acho que não quebrou – constatei – ou já estaria inchada.
― Acho que não mesmo. A dor está melhorando. Enfim, a cabeça de Adrian
Van Galagher não é tão dura assim, – ele disse abrindo e fechando os dedos e
constatando que os movimentos estavam todos bem.
Passei antisséptico e envolvi com uma faixa limpa, pregando com
esparadrapo.
― O que ele queria aqui, Laura? – Alex me perguntou.
Suspirei – era uma coisa complicada de confessar. Como eu diria a ele
que Adrian queria sexo?
Alex estreitou a sobrancelha para mim e eu soltei o ar dos pulmões de
uma vez, admitindo mentalmente o problema e esperando que ele
compreendesse.
― Ele só queria provar que estava no comando. Queria provar que as coisas
eram como ele queria. – Eu disse por fim, rezando para que ele pudesse ler
nas entrelinhas.
― Sexo – Alex disse lendo meus pensamentos – ou coisa do tipo.
― Coisa do tipo.
Alexander segurou minha cabeça entre as suas mãos, analisando meus
olhos.
― Sei que vai parecer idiota da minha parte, mas eu não seria seu amigo se
não fizesse você pensar – ele começou – Adrian gosta muito, muito de você
Laura. Acredite, eu o conheço o suficiente para saber disso. Eu poderia
apostar que ele ama você.
As palavras apertando mais e mais meu coração, fazendo a vontade de
chorar aumentar. Eu podia sentir ainda o toque dele, o perfume dele. Eu
podia sentir a sensação dos seus lábios nos meus. Seu corpo contra o meu.
Oh Deus! – Eu podia realmente sentir Adrian em cada célula do meu
corpo.
― Tem muitas coisas que Adrian van Galagher precisa aprender antes de
amar alguém, Alex.
Alexander sorriu. Um sorriso genuíno e divertido.
― É, o pobre Sr. Galagher nem imagina em que problema se meteu.
― Ele nem faz ideia – eu disse sorrindo.
― Bem, Srta. Soares pegue suas coisas que nós vamos passear! – Alex disse
levantando-se e indo para o quarto. Voltou usando jeans e uma camiseta.
― E aonde nós vamos?
― Vamos encontrar um lugar mais tranquilo para a senhorita descansar. Eu
não quero que fique aqui sozinha porque eu terei que fazer uma pequena
viagem.
― Eu posso me virar Alex, – eu disse – de verdade. Estou bem. Posso me
virar. Na verdade, eu preciso! Preciso encontrar um lugar para mim e Mia.
― Tenho uma ideia melhor. Vamos. Pegue suas coisas que eu levo Mia.
Paramos em minha antiga rua, algum tempo depois. Eu pude perceber
que meu apartamento já estava ocupado. Suspirei triste – eu tinha esperanças
que talvez pudesse reocupá-lo.
Alexander desceu do carro e abriu a porta para que eu descesse. Pegou
minha mala no banco de trás e eu desci com Mia no colo.
― Aonde vamos? – Eu perguntei.
― Vou lhe apresentar o velho Sr. Persen. Mas não se iluda, ele não é tão
bonito como o filho.
Sorri.
― Tenho certeza de que isso não seria possível – eu disse abraçando-o pela
cintura.
Alex bateu na porta, primeiro, e em seguida entrou.
― Pai? – Ele chamou.
Continuamos seguindo pela sala e atravessamos uma cozinha pequena,
mas muito limpa e organizada. O cheiro de algo doce e caramelizado golpeou
meu estômago e me fez salivar. A porta estava aberta e os fundos da casa
davam para um canal. Era um pequeno canal secundário, vazio, exceto pelos
patos e marrecos que nadavam despreocupados. Havia um homem de cabelos
grisalhos sentado em uma cadeira.
Alexander se aproximou dele e o beijou no topo da cabeça.
― Como estão as coisas hoje, Sr. Persen? – Ele perguntou.
― Estou muito bem, meu filho, – o homem respondeu – eu fiz torta de maçã,
se sua namorada estiver com fome.
E então o homem virou os olhos para mim e parou, encarando-me por
alguns instantes. Eu podia perceber que havia algo de errado com o Sr.
Persen. Seus olhos pareciam tão distantes e perdidos. Ele me olhava, mas
parecia não me ver.
― Dalva! – Ele disse de repente. – Você chegou!
Dei um passo para trás meio sem entender. Dalva era um nome que eu
não ouvia há muito tempo!
― Não pai! – Alexander corrigiu. – Está é Laura. E Laura é minha amiga, e
não minha namorada.
Estendi a mão, esperando que ele me cumprimentasse. O Sr. Persen
coçou a cabeça, passando-a pela testa devagar.
― Desculpe-me Laura, eu às vezes tenho dificuldades para separar o passado
do presente.
― Papai tem Alzheimer, Laurinha, mas ele é um cara ótimo.
Segurei a mão do Sr. Persen que retribuiu carinhosamente.
― Muito prazer, eu sou Vrijg.
― Muito prazer – eu respondi.
― Pai! – Alexander disse com as mãos no ombro do pai. – Laura vai passar
uns tempos aqui com o senhor, tudo bem?
Eu estava me preparando para dizer que não, quando o Sr. Persen sorriu
e se levantando da cadeira, segurou-me em um abraço, acariciando minhas
costas gentilmente.
― Ah querida, será uma honra! Terei com quem conversar! Sabe – ele disse
com a mão no meu ombro, levando-me para dentro – eu passo tempo demais
sozinho. Sei que ninguém quer um velho bobo e doente por perto, mas eu
ainda tenho muito a contribuir – ele disse sorrindo.
E eu sorri de volta. Não consegui dizer que não aceitava. Eu precisava
mesmo de um lugar, isso eu não podia negar, e o Sr. Persen era gentil demais
para ser magoado.
― Venha querida, – ele me disse puxando uma cadeira – darei a você um
pedaço da minha torta e você nunca mais irá embora!
Sorri e esperei que ele me servisse – eu queria mesmo experimentar a
tal torta. Peguei o garfo e tirei o primeiro pedaço da torta, quentinha,
soltando fumaça. Coloquei na boca e parei, sentindo o sabor se espalhar
devagar em minha boca.
Alexander, sentado sobre o braço do sofá ria de mim.
― Oh meu Deus, Sr. Persen! – Eu disse em êxtase.
― Ele sempre convence todo mundo com essa torta – Alexander pontuou.
― É minha especialidade – o Sr. Persen disse.
Terminamos a torta e Alexander foi comigo até o quarto de visitas. Era
um quarto pequeno, com uma janela de duas folhas que dava para o canal.
Era um quarto agradável, daqueles em que você se sente em casa, desde o
primeiro dia.
― Laura eu trouxe você aqui porque preciso ir à Bélgica, – Alex começou, –
eu tenho alguns assuntos para resolver por lá. Caso você não saiba – ele me
disse forçando o sotaque francês – eu sou belga.
Sorri.
― Isso explica o seu charme – brinquei.
― Entre outras coisas. – Ele respondeu brincando também. E depois ficou
sério novamente. – Eu recebi uma proposta de emprego por lá, há algum
tempo. Era algo que me interessava muito, mas na época não interessou à
Alissa, então eu recusei. Ontem eu liguei para um amigo no parlamento e ele
me disse que a vaga ainda era minha, se eu quiser.
Senti meu coração diminuir um pouquinho com as palavras de
Alexander. Eu não podia crer que ele ia me deixar. Era egoísta e eu sabia
disso, mas não queria que Alexander fosse. Suspirei.
― Hey! – Ele disse sorrindo. – Isso é uma coisa boa baby, eu não vou deixá-
la aqui! Eu terei um cargo importante, precisarei de uma assistente.
O sorriso nasceu em meu rosto sem querer.
― Na Bélgica? – Perguntei.
― Sim baby, você vai amar Bruxelas! Acredite em mim, é uma cidade linda
e tem os melhores doces do mundo todo! Nós vamos encontrar um lugar legal
e vamos recomeçar.
Eu o abracei apertado. Ainda não sabia se queria me mudar para a
Bélgica. Não sabia nem o que faria quando o dia amanhecesse, mas eu sabia
que não poderia ter encontrado um cara mais legal.
Alexander me deixou algumas horas mais tarde. Ele tinha uma
passagem no trem expresso para Bruxelas no último horário. Tomei um
banho e vesti um agasalho de moletom. Saí de volta para o pequeno quintal.
O Sr. Persen estava em sua cadeira, acariciando Mia em seu colo.
― Ah desculpe, Sr. Persen, – eu disse me aproximando – eu nem perguntei
ao senhor, se estava tudo bem eu trazer minha gata para cá. Eu posso pedir a
um amigo para cuidar dela, o senhor não precisa se preocupar.
― De maneira alguma, Laurinha, – ele disse com o mesmo tom que
Alexander costumava usar. Era terno e doce e me fazia sentir amada. – Eu e
essa mocinha já nos tornamos amigos. Será um prazer receber duas garotas
tão belas em minha casa.
Sorri, descansando minha mão sobre Mia, acariciando suas costas,
enquanto o Sr. Persen acariciava suas orelhas.
― Faz muito tempo que eu não cuido de ninguém Laura, – ele continuou – às
vezes acho que foi por isso que eu adoeci. Eu tenho dificuldades às vezes, –
ele disse entristecido. – Não lembro muito das coisas que deveria lembrar. E
já peço desculpas de antemão.
― Não se preocupe Sr. Persen! Nós vamos nos dar muito bem, tenho certeza.
– Eu disse e era verdade. – Eu não queria dar trabalho ao senhor e nem ao
Alex. Eu é que preciso me desculpar. Acabei me tornando um peso para todo
mundo. Prometo que amanhã mesmo eu volto ao meu antigo emprego e logo,
logo o senhor se livra de mim e dessa bola de pelos – brinquei.
― Não faça isso! Não me deixe tão rápido. Espere alguns dias. Eu sinto que
você precisa de alguns dias de descanso e paz.
Era verdade, eu não podia negar então sorri.
― Você é a primeira garota que Alexander traz à minha casa – ele constatou
– imagino que seja especial para ele.
― Bem, acho que descobrimos que somos especiais um para o outro – eu
disse depois de pensar por alguns segundos.
― Ele merece alguém que o ame de verdade. – Sr. Persen disse com os olhos
perdidos nas águas do canal. – A garota loura não o ama.
Fiquei em um impasse. Eu não sabia se contava algo sobre a situação
de Alex a ele ou se fingia não saber. Era estranho, mas assim como com
Alex, eu sentia que conhecia o Sr. Persen há muitos anos.
― Ele vai encontrar alguém que o ame, Sr. Persen! – Eu disse por fim,
optando por omitir uma parte dos fatos. – Alguém especial como Alex,
merece realmente alguém que o ame muito.
― Mas esse alguém não será você – ele constatou.
Suspirei.
― Não desse jeito.
O Sr. Persen desviou os olhos do canal e os cravou em mim, límpidos
olhos azuis, como o céu de primavera. Ele era um homem sensível, percebia
as sutilezas fácil demais.
― E quem é o seu cavaleiro, doce Laura?
Pensei por um tempo, desviando meus olhos, e encarando o canal
também – aquele canal fazia a gente pensar na vida, isso era inegável. O vai
e vem das águas brilhando com o sol era muito, muito revelador.
― Acho que ele está mais para o cavalo do que para o cavaleiro nesse
momento, Sr. Persen. – Brinquei, mas era uma meia verdade.
Sr. Persen sorriu. Um riso alegre, divertindo-se com as minhas
bobagens.
― E eu conheço esse cavaleiro rebaixado à montaria?
― Adrian Van Galagher – eu disse.
Não era um segredo e eu não via problema algum em contar ao Sr.
Persen. Na verdade, era bom falar com ele. Ele era alguém que via os fatos de
fora, talvez pudesse clarear meus pensamentos.
― Bom garoto, o Adrian, – ele disse como se visse outra pessoa no lugar do
Adrian Van Galagher que eu conhecia, – um jovem esforçado. Você fez uma
boa escolha, Laura, – ele me disse e eu fiquei meio sem entender – a garota o
fez sofrer muito. Ele merece alguém que cure o coração dele.
Eu ouvia e ouvia e não podia deixar de pensar mais do que gostaria nas
palavras do Sr. Persen.
― Adrian está me devendo uma partida de xadrez. – Ele me disse sorrindo. –
Acredita que dá última vez eu ganhei? – Ele coçou a cabeça. – Eu ainda me
pergunto se ele me deixa vencer de propósito! – E encarou o canal
novamente. – Bom garoto, o Adrian.
Ficamos ali, pensando na vida, olhando o movimento da cidade ao
fundo, enquanto a tarde começava a cair. As noites ainda estavam frias e
quando o vento começou a soprar mais forte, ajudei o Sr. Persen a entrar. Ele
cozinhou uma sopa de batatas com pão caseiro para nós dois. Eu já me sentia
melhor. Estava faminta. Não havia comido muito nos últimos dias e o meu
estômago roncava tanto que eu tive medo que ele percebesse.

Adrian
Dirigi até a fazenda. Eu precisava de um tempo longe de tudo, de todos.
Eu precisava pensar. Precisava colocar minha cabeça no lugar. Na verdade,
eu precisava de um conselho de Alexander, mas eu não podia pedir, então
teria que pensar sozinho. Encontrar a solução ― sozinho. Eu estava sozinho.
Estacionei o carro e entrei. A tarde começava a cair. Assim que passei
pela sala, Brigite veio me cumprimentar.
― Sr. Galagher! – Ela disse surpresa. – O senhor não avisou que viria. Não
preparei nada para recebê-lo. As crianças estão com o senhor?
Eu poderia ter respondido que não era da conta dela, e que eu iria a
minha própria fazenda quando quisesse, mas eu não queria mais agir assim.
Eu estava cheio de problemas por causa do meu gênio e se queria começar a
resolvê-los, esse era o primeiro ponto.
― Não se preocupe Brigite, eu não pretendia almoçar. E as crianças não
vieram comigo. Eu preciso de um tempo sozinho.
Ela sorriu. Brigite estava comigo há muitos anos. Ela estava comigo
desde antes da fazenda ser minha, quando ainda era dos meus pais. Eu havia
herdado a fazenda e Brigite com ela. Ela me conhecia desde criança. Havia
feito muitos biscoitos para mim e para Lucian.
Brigite havia ficado viúva há alguns anos, mas ela ainda coordenava a
fazenda melhor que qualquer capataz que eu já tive. Ela amava aquele lugar
tanto quanto eu.
― Vou preparar alguns biscoitos para que o senhor leve para as minhas
crianças, – ela disse sorridente – e vou deixar algo pronto no fogão à lenha.
Assim o senhor pode comer quando tiver fome.
Sorri e dei um aceno de cabeça. Subi para o meu quarto. Tirei o sapato
e vesti minhas botas de montaria. Abri o celular e disquei. John atendeu no
segundo toque.
― Filho, – comecei – tudo bem se eu pedir um favor a você?
― Ih! Pelo jeito a loura aguada encheu mais o seu saco do que eu pensei, –
ele brincou – mas diga lá, Sr. Galagher, o que eu posso fazer pelo senhor
hoje?
― Eu estou na fazenda John. Preciso de um tempo sozinho. Volto para casa
amanhã. Tudo bem?
Ele pensou por um tempo, analisando a situação.
― Tem certeza que não quer companhia? – Ele me disse por fim. – Eu posso
pedir ao Harold para me levar, pai. Os pirralhos vão ficar bem com Lila e a
Martina.
Não pude deixar de sorrir com a preocupação dele. Meu garotinho.
― Não filho. Tudo bem mesmo. Acho que um tempo sozinho me fará bem.
Eu só quero que você cuide das coisas por aí. Sabe que pode me chamar se
precisar de algo. Em menos de uma hora eu estou de volta.
― Relaxa pai. Tudo certo por aqui. Vou chamar umas garotas e dar uma festa
na sua sala. Nada demais, um pouco de bebida e outras coisas ilícitas.
― Claro, – eu disse rindo – chegue perto de qualquer coisa parecida e
esqueça seu presente de aniversário.
― E pai – ele disse sério, meio baixo, como se não quisesse realmente que eu
ouvisse – eu amo você.
Deixei o telefone cair. Não pude responder. Eu amava John mais do
que a mim mesmo. Eu faria qualquer coisa por ele, para ele. Então porque eu
simplesmente não disse isso?
Suspirei fundo e desci as escadas. Caminhei até o estábulo entrei na
baia Chuvisco estava lá, encarando-me com os seus grandes olhos negros.
John havia escolhido o nome dele por causa das pintas. Ele era branco,
todo manchado de negro, quase como um dálmata. John me disse que ele
parecia com o chuvisco do inverno, só que ao contrário.
Quando minha Ginger morreu, tudo que eu pude guardar dela foi o
Chuvisco. Ginger não teve outros filhotes, Chuvisco era único.
Cheguei perto dele devagar. Mostrei a maçã em minha mão e me
aproximei. Ele era um cara arisco. Chuvisco e eu éramos parecidos de muitas
maneiras.
― Hey garotão, – eu disse alisando seu pelo macio, escorregando minha mão
ao longo do seu dorso, – senti sua falta.
Chuvisco comeu a maçã em uma mordida. E cuspiu o que não queria,
de volta em minha camiseta. Limpei os restos de maçã mastigada de mim e
ele relinchou.
― Rindo de mim, não é? – Eu disse ajeitando a sela em suas costas. – Vamos
ver como se comporta quando eu estiver no comando. – Brinquei.
Terminei de arrumar a sela e saí com Chuvisco para o gramado. Assim
que eu o montei, Chuvisco correu. Deixei que ele me guiasse, mais longe,
mais rápido, sentindo o vento bater contra o meu rosto. Eu podia sentir pouco
a pouco, minhas inquietações diminuírem, meu coração desapertar, se
acalmar.
Chuvisco parou à beira do rio. Eu desci e o puxei para que pudesse se
refrescar. Sentei-me ao lado dele. Observando o sol se pôr. Tantas coisas
passavam em minha mente. Tantas lembranças.
Suspirei, lembrando o passado. Eu quase podia ver Lucian correndo de
mim à beira do rio. Eu quase podia ouvir a sua risada fácil. Ele me admirava
tanto. Tudo que eu fazia, Lucian copiava. Ele era muito, muito melhor do que
eu. Era doce e gentil. Fechei os olhos, sentindo o calor dos últimos raios do
sol.
― Hey companheiro, – eu disse para ninguém – sinto a sua falta, sabia? Não
tem um único dia em que eu não pense em você. Queria que estivesse aqui
agora. – Suspirei, sentindo minha garganta fechar. – Queria poder pedir um
conselho a você. Não sei o que faço, cara, – eu confessei. Não esperava uma
resposta, ou pelo menos meu lado racional não esperava. – Tem tantas coisas
que eu queria mudar.
O vento soprou forte contra o meu rosto, bagunçando o meu cabelo e
espalhando folhas ao redor de mim. Encarei a tela do celular. John me
lembrava de Lucian. Era forte e gentil ao mesmo tempo. Tão pronto a ajudar
às pessoas sem esperar nada em troca. Naturalmente bom.
Porque eu simplesmente não disse a ele que eu o amava? Porque eu
simplesmente não conseguia demonstrar o que sentia? Do que eu tinha tanto
medo afinal?
Eu era melhor em dizer que o amava quando ele estava longe. Agora
que ele estava aqui, perto, ao meu alcance, eu hesitava.
Senti meu coração apertar – eu precisava melhorar. Precisa ser o pai
que os meus filhos mereciam ter. Eu precisava começar o meu processo de
cura. Uma cura verdadeira, profunda. Eu havia enterrado coisas demais sem
que as tivesse deixado morrer primeiro. Elas eram como os zumbis saídos dos
filmes que o meu filho assistia, perseguindo-me por todos os lugares. Eu
precisava deixá-las morrer.
Levantei, montei Chuvisco novamente, mas eu estava no controle
agora. Deixei-o em sua baia e voltei para casa. Subi as escadas devagar.
Entrei no quarto, tirei a roupa, suja da montaria. Abri o chuveiro. Deixei que
a água quente levasse uma parte das minhas preocupações.
Vesti uma bermuda velha e uma camiseta. Sentei na cama. Acendi um
cigarro. Eu podia ouvir os grilos lá fora. Fechei os olhos, liberando minha
mente, deixando-a calma, tranquila.
Peguei o celular e disquei.
― Filho, – eu comecei antes que ele dissesse qualquer uma das gracinhas que
sempre dizia – eu amo você e prometo ser o pai que você merece.
John não respondeu de imediato. Ficou respirando contra o telefone e
eu esperando para ouvir sua voz.
― Ah pai, para! – Ele me disse de repente. – Desse jeito eu vou acabar
chorando!
Desliguei o telefone sorrindo. Era um riso profundo, feliz – eu tinha
sorte! Eu tinha três lindos filhos esperando pelo meu amor e tinha um grande
amigo que merecia um voto de confiança. Eu precisava encontrar um jeito de
falar com Alexander sem que terminássemos nos engalfinhando como dois
garotos de rua. Eu precisava dele ao meu lado. Alex era parte da minha vida,
eu não sabia como seguir sem ele. Quanto à Laura... Laura era um problema
maior. Eu precisava reaprender a amar, mas eu precisava principalmente
reaprender a deixar que me amassem.
Capítulo 25

Laura
Acordei cedo e me vesti. Quando saí do quarto, o cheiro de café fresco
me golpeou o estômago.
― Bom dia Sr. Persen! – Eu disse assim que o vi, arrumando alguns
pãezinhos em uma cesta. – O senhor acordou cedo!
― Ah! Eu gosto de pegar a primeira fornada de pães, Laurinha, – ele me
disse – são feitos com mais cuidado que os outros.
Ele encheu uma caneca com café e me ofereceu um pãozinho coberto
de açúcar. Aceitei.
― Vou dar uma saída, Sr. Persen. – Eu disse mordendo o pãozinho. – Preciso
saber se ainda tenho um emprego.
― Volta para almoçar comigo? – Ele perguntou sentando-se na outra cadeira
e servindo-se de café.
― Hoje, vou deixá-lo sozinho, – eu disse terminando meu café – mas
prometo que vamos jantar juntos. E podemos jogar uma partida de xadrez, se
o senhor quiser, é claro.
Os olhos azuis do Sr. Persen se acenderam como luzes e eu sorri.
― Oh! Isso seria maravilhoso, querida! Vou esperá-la ansioso.
Cheguei ao escritório de Hans pouco mais de uma hora depois – seria
uma conversa difícil. Entrei direto, eu não queria falar com ninguém. Bati na
porta.
― Hans? – Perguntei. – Posso entrar.
― Claro, Laura, entre.
Entrei com a cabeça baixa. Olhos no chão. Sentei na cadeira e deixei
meus braços caírem contra a mesa. Minha cabeça caiu contra os antebraços.
― Hans, Adrian e eu terminamos. – Eu disse de uma vez. Não sabia outra
maneira de começar a conversa.
― Eu sei – ele me disse.
― Sabe? – Perguntei sem entender.
Hans não respondeu. Abriu o jornal na coluna social – maldita coluna
social.
Havia duas fotos separadas por uma espécie de raio. Elas ocupavam
metade da folha. Em uma delas eu aparecia abraçada a Alex numa pose
muito, muito íntima. Não era a realidade, mas para quem olhava a foto,
parecíamos realmente amantes. Na outra, uma loura alta entrava no carro de
Adrian. O título da matéria era: “Há algo de podre no Reino da Holanda”.
Bufei, fechando o jornal – era uma coisa horrível para se dizer do fim
do relacionamento de alguém. Era cruel e leviano. E o que mais me
incomodava era saber que quem publicou nem mesmo sabia o que estava
acontecendo. E ainda tinha aquela foto. Maldita foto horrorosa!
Então ele não tinha demorado muito para me substituir.
― Eu não fiz isso Hans! – Eu disse encarando-o. – Eu não traí Adrian ou
coisa assim. Alexander e eu somos apenas amigos.
― Sei que não. – Hans me respondeu. – Eu sei que você o ama. O que eu não
sei é como as coisas acabaram assim.
― Adrian acha que Alexander e eu temos um caso. Uma bobagem que Alex
disse o fez pensar isso, e ele não nos deu a chance de explicar o contrário.
Hans se levantou e me abraçou gentilmente. Eu retribuí no mesmo
instante. Era bom me sentir amada, ser compreendida sem ser censurada.
-Não se preocupe querida, as coisas se acertam. Elas sempre se acertam.
Eu não queria chorar. Estava determinada a não fazer a cena da
mocinha desesperada, mas não pude. Assim que deixei meu rosto cair contra
o paletó de Hans eu desabei, colocando tudo para fora. Eram coisas demais.
Lembranças demais. Tristezas demais. Hans apenas me apoiou. Não
perguntou nem falou nada. Depois de um tempo, quando eu consegui parar e
me desgrudar dele, Hans encostou contra a mesa, em minha frente.
― Precisa de um lugar para ficar? – Ele me disse. – Sabe que pode ficar
comigo, sem problemas, até encontrarmos um lugar para você.
Eu sabia. Hans nunca me abandonaria. Ele era assim, meu protetor
gratuitamente, desde sempre.
― Tudo bem por enquanto Hans. Eu estou com o pai do Persen. Estou no
Jordaan mesmo que é um lugar que eu amo... – Parei a frase e suspirei. –
Acha que tudo bem se eu voltar a trabalhar aqui? Quer dizer, se o escândalo
não for grande demais.
Hans sorriu.
― Ah! São coisas diferentes Laura. Isso não é exatamente um escândalo
profissional, relacionamentos começam e acabam todos os dias. Além disso,
eu não deixaria minha garota na mão. De jeito nenhum!
― Então, amanhã estou de volta Sr. Andersen. Acho que consigo terminar
alguns casos que deixei parados – eu disse determinada.
Hans tinha um almoço com clientes então eu o deixei e saí pela cidade.
Era um dia de folga e eu queria aproveitar. Queria comprar um par de sapatos
novos e comer batata frita no cone com muito molho, ou seja, eu queria trazer
a velha Laura de volta.
Meu telefone tocou assim que saí do prédio. Olhei para a tela e sorri.
Era John. Ele havia colocado uma foto em que me abraçava por trás e beijava
meu rosto como sua imagem de toque. Atendi.
― Veja se não é o homem mais incrível do mundo todo me ligando a essa
hora da manhã! – Brinquei. – Deve ser meu dia de sorte.
John riu alto contra o telefone.
― Tem razão, deve ser seu dia de sorte porque tem outro cara lindo aqui ao
lado, querendo falar com você.
Gelei na hora, sem conseguir dizer nada.
― Relaxa Laura, é só o Collin.
Sorri – eu estava morrendo de saudades de Collin!
― Laura! – Ele gritou contra o telefone. – Eu estou com saudades. Quando
você vem me ver?
― Ainda não sei querido, – eu respondi um pouco triste demais, – mas eu
prometo que vou assim que puder.
― Eu vou pedir ao papai para me levar para ver você. Eu quero que você
veja o meu caminhão novo. Ele é vermelho e tem uma luzinha que acende na
frente, – ele falava e falava e eu sentia o meu coração encher de alegria, – ele
tem um controle que a gente pode apertar e aí ele anda sozinho!
Senti a primeira lágrima correr e a limpei com as costas das mãos.
― Agora chega pirralho, – ouvi a voz de John próxima ao telefone, – eu
preciso falar com a Laura. Coisa de adultos. Vai brincar na piscina com
Hanna.
― Até logo Laura! – Ele me disse. – Eu amo você.
― Também amo você amorzinho. – Eu respondi sentindo outra lágrima rolar.
― Se me disser que está chorando eu vou ficar deprimido! – John brincou. –
É só o pirralho! Calma! Você ainda o verá muitas vezes. Não se preocupe.
Sorri.
― John você tem o dom de me fazer sorrir! – Eu disse a ele.
― Ah isso é ótimo. Dizem que se a gente consegue fazer uma garota sorrir, a
gente consegue qualquer coisa dela.
― Não deixa de ser verdade, – eu respondi – diga vai, o que você quer de
mim?
― Quero um endereço. Eu quero ver você hoje.
― Não estou em Roterdã, John.
― Imagino que não, mas a Holanda não é tão grande assim, acho que
consigo encontrá-la para o almoço.
Parei e analisei por um segundo.
― Ah vamos Laura! – Ele insistiu. – Não tem chance alguma de eu me
reportar ao velho Sr. Galagher, juro!
― Ok John! Encontre-me na entrada nordeste do Vondelpark ― e completei
– eu quero me entupir de batata frita com molho tártaro!
― Parece um bom plano para mim! – Ele disse e desligou.
Caminhei até a linha do tram, entrei e me sentei. Segui para o parque
apreciando a paisagem da cidade – eu nunca me cansaria de Amsterdã.
Entrei no parque e me sentei na grama. Deitei de costas, com as pernas
ainda dobradas, olhos fechados sob a lente dos óculos escuros, sentindo o sol
na minha pele. O parque era absolutamente lindo na primavera. As flores
estavam mostrando suas cores por toda parte. O lugar estava cheio de pessoas
e cães. Eles corriam felizes e latiam em busca das suas bolinhas e bastões.
John chegou sem fazer barulho e se sentou ao meu lado.
― É um lindo dia no reino da Holanda, não acha? – Abri meus olhos assim
que ouvi a sua voz. – Eu discordo que haja algo de podre por aqui. – Brincou.
― Você viu o jornal, devo supor.
― Eu e toda a Holanda, incluindo o Sr. Galagher, provavelmente.
― Eu odeio tabloides! – Confessei e John riu.
― E olha que você ficou pouco mais de um mês na mira deles! Eu estou há
quase dezoito anos.
Não respondi. Ele tinha razão. Eu estava reclamando de algo com o que
ele havia convivido a vida toda. John era um Galagher, ele não podia fugir
disso. Estaria sempre em evidência onde quer que fosse.
As pessoas passam boa parte da vida buscando fama e reconhecimento
público, mas não têm ideia do que vem junto, nesse pacote. Não é uma coisa
boa acordar pela manhã e abrir um jornal para encontrar uma foto sua usada,
de propósito, de maneira errada.
― Então – ele disse depois de um tempo – estou esperando nossa pequena
avalanche de batatas fritas e molho.
Ele se levantou e me deu a mão, puxando-me para ficar em pé. Passou a
mão em volta do meu ombro e seguimos até um dos quiosques de comida do
parque.
Em frente ao quiosque, havia um deck e algumas mesinhas que se
projetavam sobre um dos lagos. Era um lugar agradável. Eu me sentei,
enquanto John foi buscar o nosso almoço. Voltou com dois cones gigantes de
papel, cheios de batatas fritas engorduradas e cobertas de molho e dois
refrigerantes. Era uma coisa difícil de não amar. A combinação fritura +
molho + batata era simplesmente perfeita.
Comemos nossa batata e rimos de todas as pessoas e situações
engraçadas que víamos, sempre em português, para que ninguém nos
entendesse. E eu quase engasguei com a minha batata quando ele começou a
comparar as pessoas com seus cães.
― Não quero que você vá embora – eu disse quando terminamos nossa
refeição.
― Esse é o meu efeito sobre as mulheres, – ele disse fazendo piada, – todas
querem John Galagher.
Bati em seu ombro de leve e ele me abraçou.
― Ah não se preocupe Laura, você não vai se livrar tão fácil de nós. Os
pirralhos querem vê-la. Vou conversar com o abominável homem das neves e
convencê-lo a me deixar trazê-los até aqui.
Sorri. Não tinha nada que eu quisesse mais! Na verdade, tinha, mas
isso eu não poderia ter.
Cheguei à casa do Sr. Persen no final da tarde. Eu havia trazido uma
torta folhada de morangos para nós dois. Era um dos doces que eu mais
amava. Entrei. Chamei por ele.
― Sr. Persen?
― Estou aqui fora, querida! – Ele respondeu do quintal.
Coloquei a torta sobre a bancada da pia e abri a embalagem. Cortei dois
pedaços e entreguei um a ele. Sentei-me no degrau da porta da cozinha ao seu
lado e dei a primeira garfada.
― Teve um bom dia? – Ele me perguntou.
― Tive sim! Eu encontrei alguém que amo muito. Alguém de quem eu
estava com saudades.
― Adrian? – Ele me perguntou.
― O filho dele.
Sr. Persen sorriu.
― Filhos são uma dádiva, Dalva. Eles são o que sobra de bom depois que o
amor acaba. Eu não soube da existência de Alexander por muito tempo.
Quando ele veio para mim já era quase um homem. Tentei recuperar o tempo
perdido como pude, mas ele sempre soube que eu o amava. O que eu
realmente sinto é não ter podido criar a minha filha. Porque você não a trouxe
como prometeu, Dalva?
Pensei por um tempo sem saber se deveria ou não o corrigir. Depois
sorri. Não me importava que ele me chamasse por qualquer nome, embora
fosse engraçado que entre todos os nomes do mundo, ele me chamasse assim.
― Eu acho que o senhor fez um ótimo trabalho, não se preocupe. Alexander
o ama muito. – Completei deixando a história do nome para lá.
― Ele foi tudo o que restou para mim depois que vocês se foram Dalva! – Sr.
Persen insistiu.
Não resisti.
― Sr. Persen, por que o senhor me chama de Dalva?
Ele me encarou por um tempo. Os olhos perdidos, tentando entender as
coisas. Deu uma garfada na torta.
― Você não é Dalva! – Constatou. – É Laura, a amiga de Alexander!
― Isso! – Respondi
Ele sorriu, comendo mais um pedaço da torta.
― Posso perguntar mais uma coisa ao senhor? – Perguntei.
― Claro querida!
― Quem é Dalva?
Sr. Persen deixou a torta sobre o colo. Encarou o canal por um tempo
longo. Suspirou.
― Dalva era a mulher que eu amava. Estou esperando que ela traga minha
filha para mim até hoje. Eu as deixei no Brasil, muito tempo atrás.
A última coisa que ouvi foi o som do prato caindo das minhas mãos de
encontro ao piso cerâmico do degrau. Tudo ficou escuro e eu não me lembro
de mais nada.
Adrian
Pela primeira vez em muitos anos, eu consegui dormir mais de quatro
horas seguidas. Levantei-me, tomei uma ducha e me vesti. Desci as escadas e
encontrei Brigite na cozinha. Sentei, servi-me de um pouco de café e alguns
biscoitos.
― Bom dia Brigite! – Eu disse assim que ela me olhou. – Teve uma boa noite
de sono?
Ela sorriu. Eu não era um homem de muitas palavras, pelo menos
ultimamente.
― Sim! Dormi muito bem, Sr. Galagher. Tivemos uma noite muito
agradável, o senhor não acha?
― De fato, – eu disse dando mais uma golada no café e abrindo o jornal, –
sabe que pode me chamar de Adrian, não é Brigite? Afinal, você me conhece
há algum tempo – brinquei.
Ela não respondeu nada. Limitou-se a sorrir.
Meus olhos pararam na imagem no mesmo instante em que a viram.
Ela estava lá, abraçada a Alexander, sorria. Não era um sorriso feliz, era um
dos sorrisos que ela dava quando queria convencer as pessoas de que estava
bem. A mão sobre o ombro dela era a mesma que ele havia usado tantas
vezes comigo. Era um tipo de abraço que dizia: “Não importa o quê, eu estou
aqui”. Não era romântico. Não era sexual. Era carinhoso e gentil, eu podia
ver isso na foto, mas ninguém mais podia. Ninguém o conhecia como eu.
Não era justo com ele, nem era justo com ela. Esse mundo sujo em que eu
vivia não era para eles. Já a minha foto, essa era real. Era suja, mesquinha e
real. Eu realmente estava colocando uma mulher qualquer dentro do meu
carro.
Suspirei. Eu era mesmo um grande monte de merda.
― Não o vejo fazendo uma coisa dessas. – Brigite disse encarando o jornal. –
Eu me lembro da primeira vez em que o senhor o trouxe aqui. Ele é como um
tipo de anjo ou coisa assim. – Ela disse e sorriu.
― Um anjo que quase quebrou meu nariz, – constatei arqueando a
sobrancelha para ela.
― Adrian, – ela me disse, – sabe que eu o amo como se fosse meu filho,
certo?
Assenti.
― Pois saiba que eu já quis lhe dar umas belas palmadas muitas vezes.
Sorri.
― Isso é algum tipo de complô do mundo contra mim? – Brinquei. – Até
você Brigite? Daqui a pouco vão querer me colocar em um corredor polonês
para me castigar.
Brigite sorriu, entregando-me um pote cheio de biscoitos enfeitados
com glacê.
― Para as minhas crianças – ela me disse.
Entrei em meu carro, como o pote de biscoitos ao meu lado. Eu estava
preocupado com aquela notícia. Eu não me importava com o que ela dizia,
não fazia diferença, mas eu me preocupava com o que Margarida pensaria
quando visse a notícia. É claro que Collin estava aqui, estava ao meu lado.
Não seria fácil tirá-lo daqui à força, mas eu não queria isso. Nunca quis,
desde o começo. Cogitei ligar para ela, mas tive medo de que, se eu desse
importância a notícia, ela assumisse ainda mais ares de verdadeira.
Coloquei o celular sobre o console do carro e liguei o sistema de
comunicação. Alexander atendeu pouco antes de cair. Não disse nada, então
eu comecei.
― Alex nós precisamos conversar – eu disse e esperei.
― Não creio que será possível – ele disse depois de um tempo.
― Ah cara, pelo amor de Deus! Até quando você vai me tratar como se não
me conhecesse? ― Desabafei irritado. – Você me conhece! Sabe como eu
sou! E vamos combinar que não foi uma situação fácil, Alexander!
Ele não dizia nada, então eu resolvi continuar, porque pelo menos ele
iria me ouvir.
― Alex você sabe o quanto eu sou ciumento. E com Laura? Ah Alex! Você
sabe o quanto eu... – As palavras morreram em minha boca, meio sem querer
sair.
― O quanto você ama Laura? – Ele disse finalmente. – É claro que eu sei! E
é exatamente porque eu conheço você e porque eu sei que você deveria ter
me escutado. Deveria ter me deixado explicar. Seu babaca arrogante e
estúpido – ele xingou.
Eu não me importava, se ele estava me xingando era porque havia
parado de me tratar como se eu fosse um desconhecido, e isso já era melhor
do que nada.
― Tem outra coisa Alex. – Eu disse por que precisava dele ao meu lado
nisso. Eu não conhecia ninguém melhor do que ele. – Aquela notícia no
jornal, – não citei a notícia na esperança de que ele a tivesse visto e me
poupasse de explicar, – se Margarida souber...
Parei a frase por ali. Eu não sabia o que fazer. Não sabia como agir e
que passos eu deveria seguir. Eu queria cuidar do meu filho. Eu já havia
marcado um médico especialista em doenças genéticas para avaliá-lo. Eu não
podia simplesmente perder Collin agora.
― Maldito folhetim! – Alex disse. – Me fez parecer uma merda de
oportunista!
Ele ficou calado por um tempo e eu imaginei que estava pensando na
própria situação.
― Não vamos permitir que Alissa use isso contra você, – eu disse, – eu
prometi que vou dar Louise para você, e eu vou.
Alexander ainda estava em silêncio. Provavelmente analisando os fatos.
Era o que ele fazia! – Pensava. Enquanto eu agia como um imbecil impulsivo
em mais de noventa por cento das vezes.
― Eu vou conversar com Laura. Vou ver o que ela acha Adrian. Vou propor
que entremos em um tipo de acordo. Uma fachada ou algo assim, até que sua
situação em relação a Collin se resolva.
― Eu posso falar com ela – disse e em seguida me arrependi.
― Ela não quer ver você Adrian.
Engoli as palavras sentindo o peso que elas tinham – ela não queria me
ver. Não queria nem mesmo me ver. Eu tinha conseguido transformar uma
coisa boa em uma merda completa. Era minha especialidade.
― E você? – Eu perguntei. – Pelo menos você vai conversar comigo? Vou
vê-lo no escritório amanhã? Sabe que eu não pretendo colocar ninguém no
seu lugar, não sabe?
― É melhor você começar a pensar em alguém Adrian, – ele me disse
devagar, – eu vou ajudá-lo com Collin, mas não vou mais voltar a trabalhar
para você.
Apertei minhas mãos contra o volante, sentindo a costura de couro em
minha pele. Merda! Merda! Merda! Ele queria me fazer implorar.
― Alex eu já disse que estava errado, ok? Já pedi perdão. Já disse que
preciso de você. Não sei mais o que fazer.
― Adrian, – ele começou – não tem nada a ver com a sua maldita
impulsividade. Minha vida está uma merda completa, caso não tenha
percebido. – Ele debochou. – Eu preciso de um tempo. Preciso de um tempo
de você e preciso de um tempo de Alissa. E eu não vou conseguir isso na
Holanda.
― Como assim, na Holanda? – Eu não sabia se queria uma resposta.
― Eu estou em Bruxelas – ele me disse confirmando minhas dúvidas.
― O trabalho com a ONU – constatei sem querer.
― Sim.
Eu não poderia culpá-lo ou me entristecer porque ele estava seguindo
seu destino. Isso era parte importante de amar alguém. Quando se ama
alguém, se quer a pessoa feliz. Alexander não era um homem de negócios.
Ele era bom, como seria bom com qualquer coisa que decidisse fazer, porque
simplesmente ele era dedicado e inteligente, mas ele não gostava daquele
mundo. Não era o mundo dele. Ele tinha outras ambições. Queria salvar o
mundo. Queria fazer a diferença.
― Bem, não posso dizer nada além de que a causa humanitária levou meu
melhor advogado, – brinquei, – espero que ela não tenha levado meu melhor
amigo.
Alexander não respondeu. Ele estava realmente magoado. Eu havia
desconfiado dele e isso era algo eu não conseguiria mudar facilmente.
― Você volta para Roterdã? – Perguntei.
― Sim. Eu vou ajudá-lo com Collin, conforme prometi. Depois eu volto para
Bruxelas, definitivamente.
Estacionei o carro e desci. Hanna e Collin, que estavam na piscina,
saíram correndo até mim. Ajoelhei no gramado e os abracei.
― Papai eu falei com Laura hoje! – Collin me disse com sua inocência
infantil. – Ela disse que está com saudades de mim!
Queria que ela dissesse algo parecido para mim também! Pensei, mas
não disse nada. Apenas sorri.
― Que bom filhote! – Eu disse a ele.
― Papai o que aconteceu com o seu rosto? – Hanna me perguntou.
Sorri.
― Nada demais filha. O papai caiu, foi só isso.
― Ah coitadinho! – Ela disse beijando o curativo sobre o meu rosto. – Eu
vou cuidar de você papai.
― Obrigada anjo, eu preciso muito dos seus cuidados. Vou vestir algo
melhor e desço para que você possa cuidar de mim, ok?
Hanna assentiu e eu me levantei. Antes que eu pudesse me afastar ela
continuou.
― Acha que nós podemos chamar a Laura para vir aqui em casa? – Hanna
me perguntou.
― Acho que Laura está um pouco ocupada, querida, – eu disse tentando me
esquivar das perguntas, – mas vamos pensar em alguma coisa. Quando o tio
Alex voltar.
Foi o suficiente. Uma resposta. Uma possibilidade. Era o que eles
queriam. Entrei em casa e subi. Martina estava terminando de fazer a cama de
John.
― Onde John está Martina? – Eu perguntei e ela demorou a responder. – Ele
foi ver Laura – conclui.
― O senhor sabe que John não me ouve, – ela se justificou, – eu disse que o
senhor não iria concordar.
Sorri.
― Tudo bem Martina, John sabe o que faz. – Eu disse com a mão sobre seu
ombro. – Além disso, não é como se Laura fosse proibida aos moradores
desta casa.
Segui para o meu quarto, diante do olhar curioso de Martina – eu devia
ser mesmo um cara terrível, porque quando tentava ser gentil, todo mundo
me olhava com espanto.
Vesti uma sunga e um calção de banho por cima – eu não iria ficar
desfilando de roupa de banho na frente da babá. Conferi o hematoma em
meu rosto. Amarelado nas bordas e ainda roxo no centro, mas estava
melhorando. O corte não sangrava mais. Eu quase podia respirar sem sentir
dor novamente – era um bom começo.
Passei pelo deck em silêncio. Cumprimentei Lyla com um aceno de
cabeça. Eu estava acostumado a ser olhado, admirado, cobiçado, mas não era
algo que eu queria agora. Eu queria me sentar e curtir os meus filhos. Eu
estava perdendo todo mundo que amava, ficando cada vez mais sozinho, eu
não queria ser desejado, eu precisava ser amado. E o olhar que a garota me
lançou não estava ajudando. Tentei ignorar, amaldiçoando-me mentalmente
por não ter colocado uma camiseta.
Sentei-me em uma espreguiçadeira, colocando os óculos escuros de
volta em meu rosto. Cruzei os braços sobre o peito, ouvindo os gritos
histéricos das crianças na piscina. Não demorou muito para que eu sentisse o
peso de Hanna sobre minha barriga. Ela estava montada sobre mim,
perninhas estendidas de cada um dos lados do meu corpo, molhando-me todo.
Abaixou a cabeça perto do meu rosto, respingando água do cabelo sobre as
lentes dos meus óculos.
Tirei os óculos e deixei sobre a mesinha. Sorri, encarando seus olhinhos
amendoados.
― Papai você é tão lindo! – Ela me disse.
― Sou mesmo? – Eu perguntei sorrindo.
― Você parece um príncipe de contos de fadas! – Ela completou. – A Laura
pode ser a sua princesa!
Suspirei – ela poderia, se eu não fosse tão imbecil!
― Mas você já é a minha princesa, – eu disse fazendo cócegas nela, – eu não
preciso de outra! Além disso, anjo, a Laura está chateada com o papai.
Hanna pensou por alguns segundos. Arrumou os cabelos, coçou o nariz.
― Mas pai – ela continuou – eu acho que você pode conversar com ela. Sabe,
no filme da “Bela e a Fera”, a Bela também está com raiva da Fera, mas ela
perdoa porque eles se amam. Pai, o amor vence tudo, – ela me disse e eu sorri
mais – é verdade! Está escrito no meu livro das princesas.
Talvez eu fosse mesmo parecido com a Fera. Arrogante e estúpido para
não revelar o medo de ser rejeitado. Suspirei. Talvez, só talvez, o livro das
princesas não fosse tão bobo como eu julgava!
Capítulo 26

Laura
Acordei sentindo minha cabeça latejar. Respirei devagar sem abrir os
olhos e tentei levar a mão à testa. Tentei, quando puxei o braço senti uma dor
aguda nas costas da mão.
― Ai – reclamei.
Abri os olhos para encontrar um acesso venoso ali, mandando algo
transparente para dentro das minhas veias e um grampo, preso ao meu dedo
indicador. Analisei o ambiente, meio zonza. Era um quarto de hospital. Era
um lugar bonito, claro, cheirando a éter, como todo hospital. A cama era tão
confortável como poderia ser uma maca hospitalar, mas não se parecia nem
de longe com o hospital público que eu conhecia.
Minha cabeça ainda latejava forte. Ergui a mão livre e passei pela
minha cabeça, buscando o local da dor. Bem atrás, perto da nuca, havia um
ponto de inchaço. Dolorido, muito dolorido. Tentei refazer os últimos
acontecimentos em minha mente. Meu pai! Deus do céu, meu pai! Eu não
havia confirmado nada com o Sr. Persen, mas dado o tamanho das
coincidências, eu não conseguia pensar em nada além daquilo.
Meu pai – o som das palavras ainda parecia estranho.
Se o Sr. Persen era meu pai, então significava que Alex... – Oh meu
deus! – Alexander era meu irmão? Meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Minha cabeça doía – muito. E eu nem conseguia entender se era pela
queda ou pela revelação.
Antes que eu pudesse tocar a campainha de emergência e chamar
alguém, um homem entrou de jaleco branco. Era um senhor de cabelos
grisalhos. Um pouco mais velho que Adrian. Elegante e com ar gentil. Ele
carregava uma prancheta nas mãos.
― Oh vejo que acordou! – Ele disse sorrindo. – O que é ótimo porque
precisamos conversar.
Sorri, mas era um sorriso de gentileza. Eu estava nervosa, odiava
hospitais. Estava sozinha e presa àquela cama. Eu podia sentir minha
respiração ficando mais e mais difícil. Eu me lembrava de tantas coisas ruins
da última vez em que estive em uma cama como essa que fosse o que fosse
eu não queria conversar com aquele médico.
Ele se aproximou mais um pouco e checou a tela do monitor cardíaco.
Parecia normal para mim, mas nunca se sabe, eu já me preparava para que ele
se sentasse ali e me dissesse que eu tinha poucos dias de vida, ou poucos
meses, na melhor das hipóteses, mas eu não podia nunca me preparar para as
palavras que vieram a seguir.
― Sou o Dr. Perkins, – ele começou, – é um prazer finalmente conhecê-la de
fato.
Dr. Perkins sorriu mais uma vez e deixou a prancheta sobre a lateral da
minha cama.
― Bem Laura – ele continuou – apesar de não ter tomado as vitaminas
necessárias, eu quero deixá-la tranquila quanto ao desenvolvimento do
embrião, mas o desmaio indicou uma deficiência grande de ferro, e isso é
muito preocupante no início da gestação.
Eu simplesmente parei entre as palavras “embrião” e “gestação” não
entendia nada além delas. Todo o resto parecia árabe.
Pisquei algumas vezes sem conseguir responder. Levantei o olhar para
a prancheta e confirmei meu nome ali. Laura Soares.
Respirei algumas vezes, tentando fazer o teto parar de girar, mas ele se
recusava. Dr. Perkins colocou a mão espalmada sobre minha testa.
― Sente-se bem Laura? – Ele me perguntou e eu lutei para não desmaiar
novamente.
Respirei devagar. Olhos fechados. Concentrada.
― Estou bem doutor, – eu respondi assim que me senti melhor, – só não
entendi o que o senhor me disse.
― Oh meu Deus! – Ele disse sorrindo. – Você não sabia! – Constatou. – Que
péssima maneira de dar uma notícia! Desculpe minha falta de tato, Laura, eu
acabo de pegar o seu prontuário e como o seu marido estava ansioso por vê-
la, achei que já tivessem contado a vocês a novidade.
Meu marido? – Pronto o teto rodava novamente.
A camareira entrou com uma bandeja nas mãos, interrompendo o Dr.
Perkins.
― Muito bem. Tome seu chá, enquanto eu lhe explico tudo e tenho certeza
que a sensação de desmaio irá diminuir.
Eu me sentei, enquanto o doutor levantava mais a cama e esperei que a
camareira arrumasse a mesinha sobre meu colo. Eu estava com fome. Sentia
meu estômago reclamar. Abri um pacotinho de bolachas e dei uma dentada.
Dr. Perkins segurou minha mão do acesso e sorriu.
― Você está grávida, querida. Entre a quinta e a sexta semana de gestação,
provavelmente.
Ele pegou a prancheta e me mostrou uma imagem de ultrassonografia.
Era um círculo pequeno, com uma manchinha dentro. Eu conhecia aquilo. Já
tinha passado por tudo isso. O que eu não conseguia compreender era como
isso havia acontecido.
― Dr. Perkins – eu comecei – alguns anos atrás eu sofri um aborto. Na
época, o médico que me atendeu disse que eu não poderia mais engravidar.
Eu não entendo.
Dr. Perkins sorriu.
― Bem Laura, eu sou médico há mais de quinze anos e posso lhe dizer, sem
sombra de dúvidas, que já vi alguns milagres acontecendo.
Soltei o ar dos pulmões devagar, controlando a respiração e bebendo
um gole de chá.
― E não se preocupe que está tudo perfeitamente dentro da normalidade com
o seu bebê. – Dr. Perkins me tranquilizou. – Vê esta marca aqui? – Ele
apontou uma linha esbranquiçada próxima ao círculo. – Bem, isso é o que
sobrou da cicatriz que você teve em consequência do aborto. Seu embrião
encontrou uma maneira de se fixar, não se preocupe. É claro que é muito
cedo para que eu possa lhe dar garantias, mas não vejo nada com que
precisemos nos preocupar.
Ele pegou a prancheta de volta e começou a escrever e escrever nela.
― Bem, não tenho porque mantê-la aqui, mas vou lhe dar algumas
recomendações e pedir que faça repouso absoluto de pelo menos uma
semana. Por causa da sua cabeça, e não do bebê, – ele explicou – e espero
que comece a tomar suas vitaminas e a se alimentar muito bem. Vou passar
um suplemento de ferro, mas a alimentação ainda será sua melhor arma para
vencer a anemia.
Ele arrumou alguns papéis sobre a mesinha ao lado da minha cama.
― Aqui está a sua alta. – Ele disse colocando uma última folha sobre a mesa.
– E agora acho que posso chamar o Sr. Galagher, – e completou – antes que
eu precise interná-lo também de tanta ansiedade!
Pensei. Pensei. Pensei, encarando o relógio de parede à minha frente. –
Um bebê. Deus! Um bebê! – O sorriso nasceu meio sem querer. – Um bebê.
E então o sorriso murchou rápido demais. – Um bebê de Adrian Van
Galagher.
As cláusulas do contrato passando como um filme em minha mente.
“Se tivermos um filho, é claro que a guarda será minha, mas isso é
apenas uma formalidade, Laura, já que não teremos um bebê” – as palavras
de Adrian batendo contra mim como tapas.
Oh meu Deus ele vai tirar o meu bebê de mim! – Pensei, sentindo o
sangue gelar em minhas veias.
Minha boca estava preparada para gritar que não! Que eu não queria
que ele entrasse que eu não queria que soubesse. Que eu não queria vê-lo. –
Eu nem sabia o que ele estava fazendo ali! – Quando a porta se abriu e
Adrian entrou.
Ele caminhou até a cama em silêncio, olhar preocupado, cara de quem
não tinha dormido muito. Parou ao lado do Dr. Perkins e então eu surtei. Não
pude mais controlar meus instintos protetores. – Eu iria proteger o meu bebê!
― Saia daqui! – Eu gritava. – Saia! Saia! Você não tem o direito de estar
aqui! Você não tem!
Gritei tão alto que assustei a todos, incluindo um enfermeiro que
passava pelo corredor e entrou correndo, esperando uma cena de luta ou coisa
assim.
Era o que eu queria. Um escândalo. Adrian odiava escândalos, então eu
esperava que fosse embora logo, mas ele não foi.
― Laura! Laura! Ele gritava mais alto do que eu. Pare! Pare! Você não pode
ficar assim, amor. Precisa se acalmar!
Acalmar? Amor? – Eu não queria me acalmar, queria que ele fosse
embora. Que sumisse e me deixasse sozinha com o meu bebê. Meu bebê!
Meu bebê! Não dele!
― Vá embora Adrian! – Eu chorava e gritava. – Vai! Vai! – Gesticulava. Eu
queria ter certeza que o Dr. Perkins não conseguiria contar a ele sobre o bebê.
― Laura! – Adrian gritou. – Pelo amor de Deus se acalme.
E o bip do meu monitor ficou mais e mais rápido e então eu não vi mais
nada novamente.
Acordei sentindo alguém segurar minha mão e abri os olhos depressa –
Alex.
Sorri, soltando ar dos pulmões de uma vez. Havia uma enfermeira
mexendo no meu soro.
― Está mais calma, Srta. Soares? – Ela me perguntou.
Encarei os olhos esverdeados de Alexander sorrindo para mim.
― Agora vou ficar bem! – Eu disse apertando sua mão contra a minha. –
Meu anjo da guarda está aqui.
A enfermeira sorriu e demorou mais tempo do que o necessário,
analisando meu anjo, ali sentado, em seu belo terno claro e camisa azul
marinho.
― Isso é muito bom – ela respondeu ainda sorrindo – porque não podemos
lhe dar um calmante.
Ficamos sozinhos ― Alex e eu. Havia tanto a dizer. Tanto a contar. Eu
nem sabia por onde começar. Tracei meus dedos pelos dedos dele, sentindo
seu toque macio, gentil, carinhoso. Brinquei com meus dedos em sua mão
sem dizer nada, até que ele disse.
― Minha irmãzinha.
Eu sorri.
― Parece brincadeira, não parece? Acho que precisamos de um teste de DNA
– brinquei.
Alex sorriu, levando minha mão até sua boca e tocando os lábios ali,
devagar.
― Não precisamos.
― Precisamos ter certeza Alex – continuei – talvez seja apenas uma
coincidência. Existem muitas Dalvas em São Paulo.
Alexander sorriu.
― Eu soube ontem, Laura. Estava esperando o momento certo para contar a
você. Eu não queria simplesmente entregar a você uma folha de resultado de
um exame. Parece que cheguei tarde.
― Quando você soube?
― Quando papai chamou você de Dalva, – ele começou. – Eu fiz uma
pesquisa para Adrian, depois da proposta de Margarida. Uma pesquisa sobre
o seu passado. Ele queria ter certeza de que não teria problemas em relação à
sua família, ou coisa assim. Então, quando papai chamou você de Dalva,
imaginei que não era apenas uma coincidência e cruzei os pontos da história
toda. Então eu peguei um fio de cabelo seu em meu banheiro e pedi o teste.
Desculpe ter feito isso sem lhe dizer, mas eu não queria que você tivesse uma
falsa esperança.
Fiquei encarando Alexander por um segundo. Ele não se parecia em
nada comigo. Tinha a pele muito mais clara do que a minha, tinha uma boca
rosada e angelical. Incríveis olhos esverdeados. Sorri novamente.
― Parece que papai andou diversificando a coisa toda por aí.
Alex sorriu.
― Parece que sim.
― Isso será difícil de explicar.
― Um pouco, mas eu não me importo. Eu era um cara meio solitário até
alguns dias atrás. Primeiro eu tinha apenas minha mãe, depois da morte dela,
eu só tinha papai. – Alexander tocou minha barriga com a sua mão. Quente e
gentil, por cima da camisola do hospital. Acariciou toda a região calmamente,
em silêncio. – Parece que agora eu ganhei uma família de verdade.
Eu o puxei para perto, abraçando-o apertado, descansando meu rosto
em seu peito. Era engraçado como agora tudo fazia sentido. Eu havia amado
Alexander desde o início. Desde o primeiro encontro as coisas eram tão
fáceis entre nós. Eu sempre pensei que parecíamos nos conhecer de outras
vidas. Acho que não eram outras vidas afinal.
Alex era meu irmão! – Eu mal podia crer.
Era um momento feliz. Daqueles em que eu começava a ter medo de
que algo acabaria mal. Eu não era boa com momentos felizes, eles sempre
terminavam da maneira errada! Suspirei. Eu não conseguia esquecer a
ameaça iminente.
― Ele vai querer tirar o meu bebê de mim, Alex, – choraminguei – não é
justo.
Alexander sorriu, beijando minha testa.
― Ele não vai. Acredite, eu sei que não vai, – ele disse cobrindo minha mão
com a sua – mas, caso ele tente, nós não vamos permitir. Você confia em
mim? – Ele me perguntou.
Sorri – eu não confiava em ninguém mais do que confiava em
Alexander Persen, meu irmão.
Eu tinha a sensação de que estava com cara de boba, sorrindo feito uma
idiota, mas eu não conseguia parar. Irmão, pai, bebê – era coisa demais para
um dia só.

Adrian
Eu não queria deixá-la. Não podia sequer pensar nisso. Eu havia ficado
ali, com ela o tempo todo, Sr. Persen e eu. Esperando uma notícia, temendo
pelo pior.
Eu sentia meu coração martelar tão forte que pensei que quem não
aguentaria seria eu. Então eu saí para pegar um café.
Quando o Sr. Persen me ligou eu simplesmente entrei em modo
automático. Vesti um jeans e entrei no carro. Não conseguia pensar. Não
conseguia processar nada. Tudo que vinha à minha mente era Patrícia. O
hospital, as crises, as sessões de tratamento, os desmaios, as quedas – não era
possível! Tinha que ser uma piada de mau gosto do destino! Eu não podia
crer que passaria por tudo isso novamente.
Tudo que o Sr. Persen conseguiu me dizer foi que estavam conversando
e ela simplesmente desmaiou. Desmaiou e bateu a cabeça contra o piso.
Laura estava desacordada quando eu cheguei. Peguei-a nos braços o
mais rápido que pude e acomodei-a no banco de trás, com o Sr. Persen
segurando sua cabeça.
― Sr. Persen, pode ser que ela convulsione, – eu avisei – se isso acontecer o
senhor precisa me avisar.
Eu tinha experiência demais com tudo isso. Eu sabia o que fazer. Eu
tinha feito tantas vezes. Eu tinha segurado o rosto de Patrícia tantas vezes
para que ela não se afogasse. Tinha limpado, tinha cuidado, tinha protegido e
mesmo assim ela não estava mais aqui.
Deus não permita que Laura esteja doente. Não tire minha Laura de
mim!
Eu não era um homem religioso. Não me lembro de ter ido a uma igreja
depois do meu casamento, mas eu não conseguia pensar em mais nada além
de rezar agora. Eu rezava e rezava e esperava profundamente que Deus
ouvisse o meu desespero.
Chegamos ao hospital no menor espaço de tempo possível. Eu abri a
porta e peguei Laura nos braços. Entrei correndo com ela, passando por todas
as portas, chamando por um médico desesperadamente.
Eu não sou um homem de escândalos. Eu os evito ao máximo, mas eu
não conseguia me controlar. Eu queria chorar e queria gritar. Eu queria
acordar do pesadelo, mas eu não conseguia.
Coloquei-a sobre a maca e deixei que a levassem pelo corredor da
emergência, afastando Laura de mim.
Escorei-me perto da porta. Mão sobre a testa. Olhos fechados.
Respirei devagar.
― Tenha calma Adrian, – Sr. Persen me disse, – não deve ser nada sério. Ela
chegou bem. Talvez seja apenas uma queda de pressão. Laura come como um
passarinho! Provavelmente é uma fraqueza de mulher, nada demais.
Podia ser. Podia ser apenas uma indisposição, ela já estava indisposta
dias atrás. Podia ser uma virose forte, mas podia ser um tumor. Podia ser
câncer. Podia ser um acidente vascular cerebral. Podia ser tanta coisa e minha
mente não processava nada de bom. Eu não estava calmo e não ficaria calmo
até que Laura estivesse a salvo ao meu lado.
Sentei no banco de metal do corredor. Eu estava desesperado, não sabia
mais o que fazer, nem a quem recorrer. Abri o telefone.
― Alex, – eu chamei antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, – eu sei que
você me odeia e que não pretende me perdoar, mas eu preciso de você aqui.
Meu desespero deveria estar saltando às palavras, porque Alexander
não discutiu. Não questionou.
― Onde você está? – Ele me perguntou.
― Estou no hospital. Com Laura.
― Chego aí o mais rápido que puder. Já estou pegando as chaves.
Eu não conseguia esperar. Eu precisava de notícias. Precisava saber
dela. Levantei e fui até o posto de enfermagem.
― Eu preciso saber como minha esposa está – eu disse mais autoritário do
que gostaria.
― O médico conversará com o senhor assim que a trouxerem da tomografia.
– A enfermeira me disse mal-humorada. – O senhor precisa esperar.
― Tomografia? Porque tomografia? Ela não caiu nem da própria altura! Ela
estava sentada! Apenas bateu a cabeça! – Eu gesticulava tentando explicar
mais a mim mesmo do que a ela. – Porque ela precisa de uma tomografia?
― Senhor, – ela repetiu deixando-me mais irritado, – não tenho informações
sobre a paciente. Tudo que posso dizer é que o doutor está examinando-a.
Quando tivermos notícias o senhor será avisado.
Voltei para o banco, Sr. Persen não estava. Havia ido buscar um café.
Ela estava fazendo uma tomografia. Tomografia. Por quê? Só podia ter algo
errado com a cabeça dela! Só podia!
Senti a mão sobre meu ombro e soube na hora de quem era. Eu nem
podia imaginar como precisava dele aqui, até ele chegar. Meu coração se
acalmou no momento exato em que eu encontrei os olhos de Alexander.
Soltei o ar dos pulmões que eu nem sabia que estava segurando.
― O que houve? – Ele me perguntou sério.
― Ela caiu. Estava conversando com seu pai em casa e simplesmente
desmaiou. Seu pai tentou falar com você, mas como seu celular estava fora de
área, ele me ligou. – Alexander se sentou no banco de metal ao meu lado e eu
deixei minha cabeça cair contra minhas mãos. – Alex eu sei que sou um
imbecil filho da puta, mas eu não posso perdê-la. Eu realmente não posso. Eu
preciso dela. Eu faço qualquer coisa, Alex, qualquer coisa.
― Comece se acalmando, – Alexander disse ainda sério – antes que
precisemos interná-lo também.
Respirei fundo. Eu havia perdido tudo que mais amava por ser
impulsivo demais. Alexander estava certo, eu precisava me acalmar.
Precisaria estar centrado quando Laura pudesse me ver. Eu precisava
conversar com ela, dizer o quanto lamentava.
Alexander se sentou ao meu lado e me entregou uma pasta de plástico
com alguns papéis dentro.
Encarei a pasta em minha mão sem entender.
― Uma prova – ele disse – material e circunstancial de que Laura e eu não
temos, nem teremos um caso.
― Alex eu não disse que precisava de uma prova. Eu queria apenas
conversar com você – eu respondi sem olhar os documentos.
― Quando eu quis lhe explicar você me chamou de traidor e disse que não se
mistura com traidores. Expulsou-me da empresa que eu o ajudei a construir e
foi bruto e estúpido com a minha irmã, na minha frente. Sei que muitas vezes
você me magoou Adrian, e eu o perdoei, mas duvidar da minha lealdade é
algo que eu não posso esquecer. Talvez eu consiga seguir em frente e espero
que possamos ter uma convivência respeitosa, mas não espere mais minha
amizade.
Eu ouvi cada uma das palavras dele. Eu processei todas que eu pude,
magoado, ferido, mas merecendo cada uma delas. O que eu não conseguia
entender era de onde vinha essa irmã! De que maldita irmã Alexander
falava?
Abri a pasta e folheei os documentos devagar. Havia documentos de
Laura. Coisas que eu mesmo o havia mandado pesquisar. E no final de tudo,
havia uma folha de exame. Era um exame de paternidade. Os
requerentes eram Alexander Dubois Persen e Laura Soares.
Meus olhos passaram e repassaram o resultado muitas vezes, sem que
pudessem compreender.
― Laura e eu somos irmãos por parte de pai – Alexander disse por fim – é
isso que o exame prova.
― O pai dela – eu disse refazendo o caminho da história em minha mente – é
o seu pai?
― Exato.
― Então a tal garota que o deixou... – Continuei e Alexander me
interrompeu.
― Dalva – ele disse – era sim, a mãe de Laura.
― Oh Deus! – Eu disse alisando meu cabelo para trás.
Sorri.
― É sério mesmo? – Confirmei ainda rindo.
Alexander tentou permanecer sério, mas foi traído pelo próprio sorriso,
sufocado em um limpar de garganta.
― Ao que parece.
Eu não sabia o que dizer. Eu queria abraçá-lo e dizer que isso era
incrível e eu adoraria que ele fosse, de fato, parte da família que eu pretendia
construir, mas esse não era o momento. Eu precisava primeiro desfazer as
merdas do passado. Precisava que Alexander voltasse a confiar em mim, que
voltasse a ser o meu melhor amigo, então eu me calei.
Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa a mais, uma enfermeira
apareceu no corredor.
― Quem é da família da Srta. Soares? – Ela perguntou.
― Nós somos! – Eu respondi antes que Alex tivesse tempo de dizer qualquer
coisa. – Sou o marido dela e Alexander, o irmão.
― Bem, o Dr. Perkins mandou chamar o senhor. – Ela disse olhando para
mim. – A paciente já está no quarto e o doutor irá explicar-lhes tudo o que
devem fazer daqui para frente. – Ela se dirigiu para Alexander em seguida. –
O senhor pode esperar até que o Sr. Galagher retorne e então pode vê-la
também.
Alexander sorriu para a enfermeira e se dirigiu a mim.
― Tudo bem. Vou encontrar papai e espero até que você volte. – Ele me
disse sério. – Não faça bobagem alguma.
Caminhei pelo corredor ao lado da enfermeira. Nervoso, estralando um
a um, todos os meus dedos. Paramos em frente a uma porta. Ela estava
entreaberta.
― O senhor pode entrar se quiser, Sr. Galagher. O Dr. Perkins está com sua
esposa.
Respirei fundo e abri a porta devagar. Laura estava lá. Meus olhos
foram para os dela no mesmo instante. Soltei o ar dos pulmões de uma vez,
sentindo o peso do desespero diminuir. Ela estava bem. Estava falando e
sorrindo, então ela estava bem. Pelo menos por agora.
Eu quis dizer que sentia a falta dela. Que estava arrependido e que nada
me faria mais feliz do que tê-la em minha vida novamente. Eu estava
preparado para implorar e ouvir todas as condições que ela pudesse impor,
mas eu não estava preparado para o que aconteceu – Laura me olhou e gritou.
Gritou alto e forte.
― Saia daqui! – Ela gritava. – Saia! Saia! Você não tem o direito de estar
aqui! Você não tem!
Eu não soube como reagir. Tentei me aproximar, mas quanto mais
perto eu tentava chegar, mais alto ela gritava. Eu não queria isso. Eu não
queria uma briga. Eu queria dizer que não podia viver sem ela. Queria dizer
que não importava o quê, eu faria por ela. Ela não me deixou nem ao menos
tocar em sua perna.
― Laura! Laura! – Tentei gritar mais alto que ela. – Pare! Pare! Você não
pode ficar assim, amor. Precisa se acalmar!
Ela me encarava como se visse outra pessoa em meu lugar. Um
monstro. Ou talvez ela só estivesse certa. Baixei a cabeça e tentei me
controlar. Eu não queria desistir.
― Vá embora Adrian! – Ela chorava e gritava. – Vai! Vai! – Gesticulava.
― Laura! – Gritei. – Pelo amor de Deus se acalme.
Eu não sabia o que fazer e a julgar pela cara do médico, nem ele. Eu
não conseguia entender o que havia causado aquela reação em Laura. Eu
sabia que ela estava magoada comigo e que não me queria mais, mas Laura
não era uma louca irracional.
Não tive tempo de entender nada. Laura desmaiou e eu corri para seu
lado na cama. Ela estava lá, inerte. Olhos cerrados, mãos largadas ao lado do
corpo. Eu podia sentir uma avalanche de sentimentos sendo revirados dentro
de mim. Segurei sua mão com cuidado, sentindo meu peito apertar, minha
respiração ficar difícil.
― Não se preocupe Sr. Galagher, – Dr. Perkins me disse, – isso é
perfeitamente normal no estado de Laura. Ela ficou abalada com a notícia. Dê
um tempo a ela e ela entenderá tudo melhor.
Eu não conseguia encarar o médico. Uma parte de mim não queria
saber o que Laura tinha e essa parte estava no controle agora.
Beijei sua testa suavemente.
― Amor, eu vou cuidar de você, – eu disse próximo ao seu ouvido, – não se
preocupe com nada. Nós vamos vencer o que quer que seja e eu vou me
redimir. Eu juro.
Por um momento, eu nem lembrava que o médico ainda estava ali. Eu
só conseguia pensar em Laura. Minha Laura ali, deitada naquela cama. E
tudo que eu possuía não era suficiente para tirá-la dali. Minha menina
valente.
― Porque não me espera lá fora, Sr. Galagher? – O médico me disse. – Vou
cuidar dela e já saio para conversar com o senhor.
Concordei com um aceno de cabeça e saí, fechando a porta atrás de
mim.
― O que houve? – Alexander me perguntou nervoso. – Eu estava voltando
com papai quando ouvi os gritos dela ecoando pelo corredor.
Suspirei.
― Ela simplesmente surtou quando me viu. Não me deixou nem falar. – Fiz
uma pausa e deixei o ar sair dos pulmões devagar. – Acho que desta vez eu
estraguei tudo mesmo, Alex.
Alexander me encarou por alguns segundos, lutando contra os próprios
sentimentos e então colocou a mão sobre meu ombro.
― Se você quiser mesmo ela de volta – ele disse sincero – terá que aprender
a ter paciência. Ir devagar. Esperar o tempo dela. Faça isso e as coisas
poderão ser resolvidas – ele esboçou um pequeno sorriso. – Agora me dê
licença que eu preciso ver a minha irmãzinha.
Alexander entrou e o Dr. Perkins saiu.
― Venha Sr. Galagher, vamos até minha sala e conversaremos.
Minha respiração estava inconstante, difícil. Eu podia sentir o suor se
formando nas palmas das minhas mãos, minha glote se fechando, eu não
queria saber. Eu não estava preparado para enfrentar tudo de novo, para ver
minha Laura sofrer. Respirei fundo – eu precisava. Eu precisava ser forte.
Precisava apoiá-la. Precisava cuidar dela.
Entrei na sala do médico e sentei-me na cadeira do outro lado da mesa.
Dr. Perkins se sentou e cruzou as mãos sobre a mesa. Antes que ele dissesse
qualquer coisa eu comecei a falar. Eu precisava.
― Doutor, não importa o que seja eu quero que o senhor saiba que vou
dispor de qualquer recurso por ela. Se existe algum tratamento específico.
Algum tratamento novo fora da Holanda, basta que o senhor me diga o que
fazer e eu faço.
Dr. Perkins esperou que eu falasse, sério, olhos focados em mim.
Quando eu terminei ele sorriu.
― Não se preocupe Sr. Galagher, o que Laura tem se curará em pouco mais
de trinta semanas, não há com quem se preocupar.
Estreitei os olhos sem entender – que maldita doença era essa que
tinha prazo de validade?
― Laura está grávida! – Ele disse por fim, como se fosse algo perfeitamente
normal. – Parabéns, o senhor será pai novamente.
Congelei por um segundo, encarando o detalhe de gesso no teto.
Pisquei. Pisquei. Forçando minha visão a permanecer clara, mas não obtive
sucesso, o verde claro foi ficando turvo, mais turvo, enquanto a voz do Dr.
Perkins se distanciava.
― Adrian? – Ele falava. – Adrian?
Suas mãos estavam em minha nuca, forçando minha cabeça para baixo.
― Tente levantar a cabeça – ele dizia – vamos! Force para cima enquanto eu
forço para baixo, assim você não vai desmaiar.
Devagar, o sangue foi fluindo melhor, minha respiração se tornando
ritmada novamente. A sala voltou a ter a cor clara de sempre. Suspirei.
― O senhor me disse que – comecei meio sem acreditar – Laura vai ter um
bebê?
― Exatamente, Sr. Galagher. Laura não está doente. Está grávida. Ela
desmaiou por causa da gravidez. Talvez alguma emoção forte tenha
desencadeado o desmaio, como aconteceu agora há pouco. Ela tem uma
deficiência de ferro bem séria, que precisa ser observada de perto, mas não
vejo outro problema qualquer.
Ele falava e falava e falava e eu havia parado em “bebê”. Um bebê.
Outro bebê. Outro filho. Eu teria outro filho. Deus do céu eu teria outro filho!
Com Laura. Minha Laura.
Sorri como um idiota, sem conseguir encarar o Dr. Perkins.
De tudo que Laura podia sonhar. De tudo que ela podia querer, eu
havia dado a ela o impossível.
Lembrei-me do dia em que corri atrás dela e a encontrei mirando o
mar. Lembrei-me de apertá-la contra os meus braços e perguntar se ela queria
um bebê. Lembrei-me da tristeza em seus olhos por não poder conceber um
filho. E lembrei-me principalmente do sentimento estranho que surgiu dentro
de mim. Um sentimento forte e quase irreconhecível de querer dar isso a ela.
Eu quis, desde aquele momento, que Laura concebesse um filho meu.
Sorri novamente, incapaz de manter minha boca reta – Deus, eu
havia conseguido!
Respirei fundo e tomei uma decisão. Se eu não estava disposto a abrir
mão de Laura antes, agora eu definitivamente não faria isso. Eu estava
acostumado a correr atrás do que eu queria. A ter meus desejos saciados, mas
agora, era mais do que isso. Eu queria mais do que ter Laura para mim. Eu
queria ser dela. Queria entregar a ela o meu coração e solidificar a nossa
família. Nossa família, porque agora nós já não éramos mais um casal,
éramos uma família.
Epílogo

Laura
Alexander e eu descemos do carro em frente à casa do Sr. Persen.
Encarei a porta e tentando controlar as emoções que surgiam em mim. Não
era fácil encarar esta parte da minha vida. Eu havia passado tempo demais à
procura dele. Havia sofrido demais, esperado demais, desejado demais, para
saber que o homem por quem eu cruzei metade do mundo, estava ali, no final
da rua.
Quando eu era criança, lembro-me de fantasiar e sonhar que meu pai
viria me buscar. Depois que vovó me contou a verdade sobre minha mãe e
ele, eu cheguei a pensar que um dia meus sonhos pudessem se tornar
realidade, mas nada aconteceu por tempo demais.
Houve um tempo em que pensei que ele estivesse morto ou doente
demais para procurar por mim e então eu decidi procurar por ele. Depois de
toda a minha procura e de encontrar Hans, eu decidi que ele era uma página
virada na minha vida. Que se ele não se importava, eu não me importaria
mais.
Agora eu estava ali, parada em frente à soleira da porta da casa do meu
pai, sem saber se queria ou não entrar.
Alexander passou o braço pelos meus ombros como se compreendesse.
Abriu a porta devagar.
Sr. Persen estava ali, sentado em sua poltrona. Levantou-se assim que
nos viu. Ele segurava movia as mãos uma na outra nervosamente. Eu podia
ver que queria sorrir, mas ele não sabia como. Era um encontro estranho,
cheio de sentimentos bons e ruins.
― Laura – ele disse simplesmente e parou.
Respirei fundo primeiro, sem conseguir dizer nada. A palavra “Pai” não
parecia caber ali.
― Como se sente? – Sr. Persen continuou.
― Estou bem – eu disse dando mais alguns passos para dentro – minha
cabeça ainda dói um pouco, mas ficarei bem.
Eu podia sentir a ansiedade do Sr. Persen como uma nuvem espessa
entre nós, misturando-se com a minha. Ele não tentou me abraçar. Era um
velho homem holandês e eu sabia como eles eram. Eu não me aproximei
mais também. Ficamos nos olhando, encarando os olhos um do outro, como
se pudéssemos compreender o que se passava dentro de cada um.
Alexander permaneceu ali, parado ao meu lado, sendo minha fortaleza.
― Venha para o quarto, querida! – Sr. Persen disse depois de um tempo que
pareceu longo demais. – Você precisa descansar.
Ele estendeu a mão e eu a segurei. Eu precisava mesmo descansar e eu
não podia simplesmente esquecer o quanto o Sr. Persen havia sido gentil
comigo, mesmo sem saber quem eu era.
Entramos no quarto que eu ocupava na casa do Sr. Persen. Ele estava
todo limpo e com cheiro de lavanda. Alexander puxou as cobertas e eu me
ajeitei na cama, meio sentada, apoiada nas almofadas.
― Vou deixá-la descansar – Sr. Persen me disse com o olhar triste – se
precisar de algo basta chamar.
Ele fechou a porta e Alexander se sentou ao meu lado na cama.
― Dê um tempo e as coisas se ajeitam – ele me disse e eu sorri – todas elas –
concluiu dando um tapinha sobre as costas da minha mão.
Fiquei encarando o canal pela janela do quarto. Era estranho como eu
me sentia mais à vontade na casa do Sr. Persen quando não tínhamos
nenhuma ligação sanguínea. Agora parecia estranho e eu me sentia meio
intrusa. Alisei os pelos macios de Mia que já havia pulado sobre o meu colo.
― Vou até a farmácia e resolver algumas coisas que preciso e volto o mais
rápido que puder. – Alexander me disse depois de alguns minutos. – Acha
que fica bem sozinha com o velho lobo do mar? – Brincou.
Sorri e assenti.
― Acho que fico sim.
Alexander beijou minha testa e saiu. Fiquei um tempo na mesma
posição, apreciando o vai e vem das águas lá fora, vendo o movimento das
casas barco. Depois de algum tempo, acabei adormecendo.
Não sei por quanto tempo dormi, mas acordei com uma leve batida na
porta.
― Laura, querida. Está acordada? Posso entrar? – Sr. Persen chamou da
porta.
― Claro. Pode entrar sim.
Sr. Persen passou pela porta com uma bandeja nas mãos. Eu podia
sentir o cheiro de torta de maçã se espalhando pelo ambiente. Ele tinha uma
caixa branca de madeira, debaixo da bandeja. Deixou a caixa aos meus pés,
montou a bandeja sobre meu colo e destampou a xícara, misturando o aroma
do caramelo da torta com o aroma de ervas do chá. Era delicioso e
confortável.
Uma garoa fina começou a cair lá fora, agitando as águas do canal. Sr.
Persen fechou o vidro da janela e voltou para sentar-se e puxou a poltrona
para mais perto da cama. Esperou que eu comesse a torta com paciência. Seus
olhos eram gentis e cheios de carinho nos meus.
Coloquei o último pedaço de torta na boca, pensando que com ele,
acabaria nosso silêncio. Nós dois tínhamos muito que conversar e eu não
poderia mais postergar isso.
Quando terminei de mastigar e dei a última golada no chá, Sr. Persen
retirou a bandeja e pegou a caixa de madeira. Colocou sobre o meu colo e a
abriu. Dentro, havia várias coisas. Pedaços de papel com bilhetes, velhas
fotografias.
― Eu conheci a mãe de Alexander em uma festa. Ela era uma jovem doce e
gentil. Alexander tem muito dela nele. A mesma doçura, o mesmo carisma.
Eu me apaixonei imediatamente.
Os olhos dele não estavam mais nos meus, estavam perdidos em algum
ponto do passado que ele não podia mais encontrar.
― Eu pensava em me casar com ela. Poucas semanas, e eu já pensava em me
casar com ela. Eu sabia que Seléne era belga, mas não sabia que ela pretendia
voltar à Bélgica tão cedo. Acordei em uma manhã sem ela na cama. Havia
um pedaço de papel na escrivaninha.
Ele pegou a carta, escrita em francês e me entregou. Eu não a li, não era
necessário de qualquer maneira. O que ele queria era dividir comigo uma
parte do passado.
― Nunca mais soube dela. Não sabia onde procurar. Cheguei a ir a Bruxelas
e tentar saber algo sobre seu paradeiro, mas não a encontrei.
Ele respirava profundamente, como se as lembranças ainda o
magoassem.
― Eu nunca soube de Alexander. Nunca soube que tinha um filho, até que
ele bateu em minha porta. Já era quase um homem e havia pouco que eu
pudesse fazer para recuperar esse tempo. Tudo que eu tenho é essa fotografia.
Ele me entregou uma fotografia envelhecida, em preto e branco. Havia
uma moça bonita de cabelos lisos e escuros com um bebê nos braços. Na
parte de trás havia o nome de Alexander e uma data.
― Ele me deu essa fotografia e esta outra carta quando chegou aqui com uma
pequena mala nas mãos.
Entreguei a fotografia ao Sr. Persen e continuei ouvindo a história.
― Seléne não tinha família. Quando descobriu o câncer já estava em um
estado avançado e então ela preparou Alexander para vir ao meu encontro.
Ele bateu em minha porta pouco mais de uma semana depois do funeral da
mãe.
― Sinto muito – eu disse sinceramente.
― Eu conheci sua mãe pouco mais de um ano antes de Alexander chegar
aqui. Eu havia decidido passar as férias no Brasil e depois de Seléne, achei
que enfim havia encontrado o amor da minha vida.
Respirei fundo, sentindo o pesar do Sr. Persen.
― Eu fiquei com sua mãe no Brasil por quase seis meses. Depois desse
tempo, precisava voltar para a Holanda para ajeitar tudo e esperar que ela
viesse comigo para cá. Poucos dias antes de eu viajar, ela me contou que
esperava você. Eu não era mais um menino e ser pai era um grande sonho
para mim. Voltei para casa feliz e ansioso por sua chegada. Eu contava os
dias para que pudéssemos enfim ser uma família. Sei que nada justifica o fato
de eu não ter ido encontrá-la, mas quero que veja uma coisa.
Ele pegou outra carta e entregou em minha mão. Eu reconheci a
caligrafia na hora – era uma carta da minha mãe.
Corri os olhos pelos parágrafos sentindo minha cabeça latejar mais e
mais a cada linha.
Na carta, ela dizia basicamente que havia perdido o bebê e que
precisava de mais dinheiro para o hospital.
― Cinco anos depois dessa carta, eu recebi outra.
Ele me entregou mais uma carta. Dentro dela havia uma fotografia
minha. Encarei a garotinha na foto. Cabelos compridos presos em dois
rabinhos, vestidinho de bolinha, sentada no meio fio, em frente à casa da
minha avó. Naquela época, eu não fazia ideia de que em algum lugar do
mundo, meu pai me veria.
Na carta da fotografia, minha mãe dizia que havia mentido por medo de
um namorado abusivo. Ela pedia socorro e dizia que queria ir embora para a
Holanda.
― Eu juntei todas as minhas economias e mandei para sua mãe. Eu esperava
que ela viesse em algumas semanas, mas ela nunca veio. Tentei encontrá-la
de todas as maneiras possíveis, cheguei a ir ao Brasil, mas não encontrei pista
alguma de vocês duas.
Eu me lembrava de que foi mais ou menos quando eu tinha cinco anos
que nos mudamos para a casa da vovó, Sr. Persen não poderia ter nos
encontrado, ele nem fazia ideia de onde vovó morava.
Respirei fundo, deixando os pensamentos se ordenarem em minha
mente. Ele não havia me abandonado. Ele passou cinco anos pensando que eu
não havia nascido e outros vinte e um sem saber o que havia acontecido
comigo. Era triste. Era muito triste.
Sr. Persen tocou sua mão sobre a minha.
― Sei que não posso pedir a você que me veja como pai. Faz tanto tempo –
ele disse mirando a janela – eu nem sei nada sobre você.
Eu não sabia o que dizer. Eu sentia coisas estranhas e sentimentos
desconhecidos. Eu tinha um carinho grande pelo Sr. Persen, mas era
realmente difícil que a palavras “pai” saísse da minha boca. Eu não queria
dizer que não, mas eu não podia dizer que sim.
― Só tenho um pedido a lhe fazer, minha filha, – Sr. Persen disse com minha
mão entre as suas – me dê uma chance de ser o pai que você merece. Eu
prometo que vou fazer o meu melhor.
Sorri, e beijei seu rosto suavemente.
Eu não precisava ter pressa. Nós tínhamos a vida toda para
encontrarmos o que minha mãe havia nos roubado. Aconcheguei-me nas
almofadas e encarei a chuva fina pela janela, não havia nenhum outro lugar
para que eu quisesse ir naquela hora. Aquele era, enfim, meu lugar no mundo.
Eu havia passado quase cinco anos no lugar certo sem saber que a felicidade
estava ali, tão perto.

Adrian
Depois que saí do hospital, eu precisava de um tempo para pensar.
Precisava organizar meus pensamentos, acalmar meu coração, minha mente.
Eu precisava de Laura. Minha Laura. Tudo que eu queria era estar sentado ao
lado dela naquela maldita poltrona desconfortável, folheando algumas
revistas, vendo-a sorrir enquanto planejávamos de que cor seriam as paredes
do quartinho do nosso bebê, mas ela não queria isso. E eu nem podia dizer
que ela não tinha razão.
Dirigi de volta para Roterdã porque tinha certeza que Alex cuidaria
bem dela. Eu precisava organizar as coisas em minha mente e em minha vida
para poder dedicar à Laura e ao nosso bebê todo o tempo que fosse
necessário. Agora que Alex não estava mais comigo na empresa, eu não tinha
com quem contar.
Burro! Estúpido! E impulsivo! – E por causa disso, eu estava sozinho.
Estacionei ainda bem cedo em frente à minha casa. Desci do carro e
sentei-me no deck. Eu não tinha certeza se queria falar com alguém, ainda
estava processando tudo em minha mente.
Fechei os olhos, sentindo o calor dos primeiros raios de sol em meu
rosto. Eu podia ouvir a aproximação. Sabia quem era pelos passos
despreocupados e arrastados. Sorri. John se sentou ao meu lado alguns
minutos mais tarde.
― Não estava na farra – ele disse simplesmente – ou não estaria com essa
cara de que precisa me contar algo terrível.
― Nem tão terrível assim – brinquei.
Abri os olhos e contemplei o rosto do meu filho com outros olhos. Ele
era um homem incrível. Eu tinha orgulho de ter participado de tudo de algum
jeito.
John era a prova viva de que eu poderia fazer algo bom, certo. Eu
queria que o bebê fosse como meu John, forte e decidido. E algo me dizia que
tendo os genes de Laura misturados aos meus ― isso aconteceria
infalivelmente. Sorri.
― Vamos ter outro bebê – eu disse finalmente.
Esperei pela reação dele por mais tempo do que eu gostaria. John ficou
calado, encarando as águas calmas do lago, pensando, sem demonstrar muitas
coisas. Quando eu estava a ponto de desistir ele abriu a boca em um sorriso
largo.
― Isso é terrível pai – ele disse, mas o sorriso em seu rosto o denunciou do
contrário, – agora que estávamos quase nos livrando do último.
Acabei rindo com ele.
― Você os ama! – Eu disse dando um soco de leve em seu ombro. – E vai
amar o bebê de Laura ainda mais.
Ele se deitou contra o deck de madeira, mãos cruzadas atrás da cabeça,
sorriso calmo descansando nos lábios. Fechou os olhos.
― Pai? – Ele disse devagar, como se não tivesse acabado de descobrir que
teria outro irmão. – Se for um menino, eu acho que deveríamos chamá-lo de
Lucian, como seu irmão. Acho que o tio Lucian ficaria feliz.
Engoli o bolo que se formou em minha garganta, mas não pude conter
as lágrimas que chegaram a seguir. Eu não queria mais ser o Adrian que não
sentia nada. Havia tantas coisas que eu queria sentir.
― Ah para pai! Assim eu vou acabar chorando também.
O movimento veio espontâneo quando o puxei para mim e o abracei.
John e eu não fazíamos o tipo sentimental, mas eu não senti resistência
alguma por parte dele. Meu filho deixou o rosto pender contra o meu ombro.
Seguro, abrigado em meus braços, como quando era um bebê. Pensei que não
havia nada mais no mundo que eu pudesse querer. Deveria haver algo de bom
em mim para que eu recebesse tanta felicidade.
Naquela hora, com John em meus braços mais uma vez, eu fiz outra
promessa. Prometi que resgataria o velho Adrian de volta. Prometi que nunca
mais deixaria que as coisas realmente importantes ficassem em segundo
plano. Eu tinha a felicidade em minhas mãos e eu não a deixaria escapar por
entre os dedos. Eu a manteria ali, dentro do meu abraço, tão perto.
FIM

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