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Título original: A Outra Margem do Mar

Autor: António Lobo Antunes

Edição: Maria da Piedade Ferreira

Revisão filológica: Norberto do Vale Cardoso

Revisão tipográfica: Ana Lúcia Parga

Capa: Rui Garrido

ISBN: 9789722068444

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António Lobo Antunes

A outra margem do mar


1
Claro que a casa, para chamar casa a uma espécie de barraco, de certeza
que não existe já, existem quando muito, isto sou eu a imaginar, telhas
quebradas e tijolos no chão, a hortazita substituída por caniços e espinhos, o
muro de pedra vã meio caído e depois piteiras e o mar lá em baixo, tão
estranho de noite, uma ausência apenas com luzes de barcos ao longe,
suspensas do nada, e a certeza de me bastar estender a mão para agarrá-las,
a Domingas
— É melhor voltar a pôr as luzes no sítio antes que a sopa esfrie
e espantava-me que os meus dedos chegassem secos da água, palavra de
honra que apesar de me ter vindo embora há anos nunca saí dos lugares que
habitei ou são eles que me acompanham sempre, oiço a nespereira, oiço o
assobio da erva, a Domingas para mim
— Olha o vento menina olha o vento
e eu escutava, eu via, do mesmo modo que escuto a vazante cheia de
dentes na voz recolhendo com a manga os caniços e as algas da praia, têm
tantos bolsos as ondas, às vezes um caranguejo torto no quintal, não só
canhoto, torto, avançando um após outro os saltos altos difíceis das patas
num vagar monstruoso de bicho convencido que grande embora fosse
pequeno, com a sua gaivota azul e branca, de pescoço esticado de fome, a
gritar-lhe por cima e a Domingas, meio desequilibrada nos chinelos,
tentando afugentá-la de vasculho, lembro-me de casas maiores do que a
nossa
(todas as casas maiores do que a nossa, éramos os mais pobres)
até aos pinheiros da estrada que em setembro, no equinócio, rangem o
tempo inteiro protestos de arcas, na segunda, de jardinzeco em torno, da
senhora para quem a Domingas também trabalhava, um sapo de loiça a
fumar cachimbo e aos sábados cadeiras de lona sob um alpendre que
conversavam, conversavam, um chapéu de palha enfeitado por cerejas de
plástico, uma delas a baloiçar, mal presa, reparou em mim
— Foi essa aí que veio de África?
a senhora num cochicho com um suspiro dentro
— É escusado falar o gato comeu-lhe a língua não deita um som
a ajeitar melhor a blusa e eu que vim de África calada porque mesmo em
Portugal o algodão do Cassanje começa a sussurrar baixinho e o meu pai
desce as escadas da varanda na direção do jipe batendo com a chibata na
caveira de hipopótamo lá em cima, seguido pelo preto que o acompanhava
sempre e que ele nem olhava, às vezes pergunto-me se o via, saltava para o
banco de trás com a espingarda e desapareciam na vereda de mangueiras
que levava ao portão, lembro-me dos cães que soltavam à noite ladrarem
nas jaulas, da minha mãe em camisa de folhos a pentear-se, o cabelo dela
que eu julgava curto de súbito interminável a calcular pelo sem fim dos seus
gestos, as colinas brancas em torno onde às vezes centenas de mandris a
seguirem-nos, de pupilas quase unidas poisadas nos focinhos e o cheiro da
terra, sobretudo o cheiro da terra, não me interessa o do mar que é um rio só
com uma margem e entristece-me ver árvores plantadas na água sem
pássaros nos galhos, de coração tão rápido a pulsar no pescoço, a Domingas
— Quando voltamos a Angola
sabendo que não voltamos a Angola, acabou-se a Baixa do Cassanje, a
minha mãe penteava-se no gesto infinito de um braço infinito na janela do
quarto, os morcegos tentavam comer as lâmpadas durante a noite inteira, os
capatazes do algodão de joelhos quando o meu pai se zangava
— Senhor senhor
e o preto da espingarda ao lado deles a manobrar a culatra no estrondo de
quem cerra uma porta final, ficam os caranguejos a aproximarem-se da
gente no seu mancar oblíquo, fechando sobre nós as pinças oxidadas, fica o
meu passado a enterrar-se na areia de forma que não sei se o encontro ou
invento, se calhar nunca houve algodão na minha vida, nunca houve aldeias
de pretos, nunca vi sipaios sepultarem uma mulher viva diante do quimbo
dela, a mulher de braços e pernas partidos, enrolados no tronco, e os olhos
abertos enquanto lhe jogavam terra, sempre abertos, impassível, calada, foi
desaparecendo a pouco e pouco mas os olhos abertos continuavam a fitar-
me de onde não os vejo, tenho a certeza que os cabíris ainda a procuram a
farejarem a erva que lhe cresceu por cima, sempre que a Domingas traz a pá
a fim de se entreter com umas florzitas magras penso que os olhos vão
surgir de novo a fixarem-me, ao mesmo tempo indiferentes e alerta, o chefe
de posto para o meu pai no armazém, a guardar o dinheiro na camisa
— Precisa de mais gente?
enquanto palpava o relevo das notas no bolso, morava acompanhado de
uma cabrita de Luanda vestida como para um baile, de cabelo desfrisado,
com a qual a minha mãe, a perder a luta contra a gordura, evidentemente
não falava, a cabrita para ela
— Madame
e a minha mãe sem a ver, quando o meu pai ia buscar pessoal ao
Mussende visitava-a com o preto da espingarda à espera dele no jipe
vigiando os sipaios e o meu pai menos zangado nesses dias, às vezes
beliscava-me a orelha
— Cafeco
com dois dedos que cheiravam a perfume, não como o da minha mãe que
o avião da Cotonang trazia, desse barato quase igual ao álcool do
enfermeiro que se compra na cantina e se despeja de uma garrafa grande
para os frascos que levamos, uma ocasião pus um bocadinho e fiquei a
tresandar à rua de Malanje, perto do terminal das camionetas, com raparigas
à espera da tropa, chamando soldados
— Nosso cabo nosso cabo
às vezes com uma branca no meio, obedeciam a um cafuzo que a
brilhantina quase desfrisava, a anunciar à tropa
— Nenhuma doença senhor nenhuma doença
e por trás delas um candeeiro de teto sem ampolas, apenas uma vela
acesa achatada num pires, dois tropas um para o outro, esperançados
— Tens dinheiro?
de sentirem dedos e moedas
— Quanto vale um mindinho?
o cafuzo com um relógio de pulso maior do que os seus, três mostradores
e dúzias de ponteiros fosforescentes
— Não há descontos depois do escurecer
iluminando a noite com as fases da lua e a hora de Nova Iorque e do
Sudão, o mar, tão agitado hoje, a encher-me o quarto de água e a ir-se
embora tropeçando em si mesmo, pareceu-me que a minha mãe acolá a
pentear-se sem olhar para mim e os suspiros dos cães que tomavam conta
da gente, ou seja o mundo inteiro trazido pelas ondas mais os morcegos à
procura de ratos e de crias de mocho nas mangueiras, a Domingas no
compartimento ao lado
— Não dá por Angola menina?
mas faltavam-me o hálito violento da terra e o crepitar do algodão não
mencionando as botas da insônia do meu pai corredor adiante e a chibatinha
contra os móveis, de vez em quando ele para a minha mãe
— Anda cá
e a fechadura do quarto a girar duas voltas, um espaço de silêncio, a
ordem
— Quieta
com a palavra toda uma sílaba apenas e a sua respiração, com tosse
misturada, aumentava, a casa de súbito um fole interrompendo-se sem aviso
e no silêncio uma respiração aflita que demorei a reconhecer como sua
— O que se passa comigo?
o silêncio comprido antes que ele num rogo de criança
— Pela tua saúde não contes a ninguém
com uma lágrima a baloiçar pendurada da frase, pés descalços para cá e
para lá, lentos, hesitantes, abrindo e fechando a janela
— E agora?
a minha avó a sorrir-lhe de longe, de sorriso transformado numa
expressão de desprezo que desaparecia em seguida, a minha mãe sentada na
cama a olhá-lo enquanto ajeitava uma alça resignada e o algodão a crescer,
sem parar de crescer, o algodão para o meu pai
— Pelo menos és rico
o algodão a troçá-lo
— Tão rico
a minha mãe a pegar no espelho da cômoda e a começar a pentear-se
repetindo
— Tão rico
não numa voz de mangação, baixinho, distraída
— Tão rico
o meu pai em pé como uma criança no quarto dos pais quando não
conseguia dormir, sozinho no fim da cama com um brinquedo a baloiçar do
braço, todos os homens passam a vida inteira no fim da cama dos pais
porque não conseguem dormir, de que maneira se dorme, como se faz para
adormecer, não me deixem sozinho, não me mandem embora, fico num
canto sentado no chão e não faço barulho, não digo nada, palavra que não
choro, o meu pai sem entender
— O que se passa comigo?
e à sua volta tanto algodão, ele rico, para o preto da espingarda
— Dispara para mim
sentado no jipe atento aos cães, ao algodão, a um grupo de mandris na
encosta, ao mar da filha em Portugal remexendo coisas esquecidas,
pedrinhas, desgostos, a filha apostava que desde há anos esquecida de si, se
a olhasse mirava-a a coçar a bochecha
— O tempo passa não é?
e perdia-a logo, passou de pessoa a retrato e de retrato a nada, a mãe para
o pai, a afastá-lo da cama
— Ao menos deixa-me dormir
de súbito cotovelos somente, os ombros cotovelos, as costas cotovelos, as
pernas cotovelos, a voz cotovelos, sobretudo a voz cotovelos
— Ao menos deixa-me dormir
um relevo confuso e meia dúzia de madeixas no travesseiro, se calhar o
preto com ela nas vezes em que saía sozinho, os macacos de Baixa do
Cassanje a gritarem e a minha mulher a pentear-se à janela de escova a
descer devagarinho peito fora esculpindo-lhe o corpo enquanto os olhos se
fechavam num sorriso feliz, a Domingas para mim
— Está contente menina?
devolvendo um caranguejo à praia, daqui a nada as ondas do equinócio a
misturarem tudo e a afastarem Angola numa pressa de espuma, a minha
mãe sentada na sala a fumar diante das mangueiras zangada com o meu
tamanho, o meu corpo
— Devia proibir-te de crescer sabias?
passando os dedos na cara à procura de vincos, observando com desgosto
as ancas que alargavam e a agonia do peito, a escova do cabelo, agora
inútil, abandonada no tampo da cômoda, um dos sapatos mais lento que o
outro, mais gasto, tão pesado o pobre, o meu pai furioso com os óculos que
o enchiam de surpresas
— Vejo demais com isto
cicatrizes, rugas, os ombros fracos, um duplo queixo inseguro, o preto da
espingarda subindo para o jipe numa dificuldade empenada enquanto o
algodão crescia à sua volta e a minha mãe a pentear-se, só depois de chegar
da fazenda, sentado na poltrona da sala com um cigarrinho nos dentes e os
pés num alguidar de água morna respondia às conversas, lembro-me de o
ver olhar para mim afastando-me com o dorso da mão numa careta
desgostada
— Vais ser mulher também
recebendo chefes de posto que lhe traziam camionetas de pretos de
Cangandala ou do Quela que ele conferia um a um verificando os músculos
e as gengivas, recusando os mais velhos com o lábio inferior enquanto o
relógio de pêndulo na parede baloiçava a barriga satisfeita na lentidão dos
gordos, às vezes, se julgava que eu distraída, sentia-lhe nos olhos uma
espécie de beijo, uma ocasião em que o meu pai, sozinho na sala,
adormeceu na poltrona, aproximei-me e toquei-lhe na bochecha, interessada
pelos picos da barba
— Como sou filha dele quando crescer vou ter barba também?
pelas orelhas tão grandes, pelo nariz enorme, pelo cabelo que nunca
penteou à janela e começava a faltar-lhe em cima e aqui atrás neste sítio,
com a pele à vista e um sinal meio roxo, tudo quase tão grande como a
caveira do hipopótamo, tudo quase assim estranho, a aumentar e a diminuir
devagarinho numa espécie de assobio rouco que subia e baixava como se
um motorzito lá dentro a animar aquilo em segredo, a Domingas para mim
no degrau da cozinha, perto de onde a erva assobiava
— Olha o vento menina olha o vento
e eu escutava-o, eu via-o do mesmo modo que vejo a vazante cheia de
soluços na voz e o meu pai recebendo e expulsando os caniços e as algas da
praia, não sei se ele a dormir ou acordado do mesmo modo que não sei se o
mar a dormir ou acordado, se calhar a dormir e acordado, igual às ondas
que se afastam e regressam e às palmas dos velhos esfregando-se sem
pressa nas calças, distraídas, eternas, por quantos anos, pergunto eu, o mar
continuará assim com o seu barulho de parafusos para diante e para trás
dentro de uma gaveta que não para, talvez Angola e os campos de algodão
sejam a outra margem do mar e a minha mãe nela a pentear-se muito mais
lenta que as ondas, muito mais comprida, de olhos não em mim, no espelho
porque só ela existe, só ela e o preto da espingarda existem, isso conto
depois, não conto, pode ser que conte, olha um pardal na nespereira, como
será agora a Baixa do Cassanje, quem semeia algodão, percebem-se os
mabecos a ladrarem pela encosta abaixo, nunca vi cães tão pessoas, não me
espreitem desse modo, toquei na cara do meu pai que pareceu aproximar-se
de mim, deu-me ideia que um gesto seu a roçar-me nas costas e com o meu
pai o relento do girassol, das mangueiras durante o dia pesadas de
morcegos, da terra, não da terra daqui, da terra de África mais terra terra,
mais próxima, mais quente, mais viva, eu agora em bicos de pés a roçar a
nuca do meu pai, o pescoço onde um cortezinho de navalha secava, os
pretos, enquanto o relógio de parede esse suspiro metálico que precede as
badaladas, numa pausa em que o pêndulo inchou de súbito como as costelas
antes de um espirro, os pretos de Cangandala e do Quela amontoados em
silêncio a meio dos quimbos, descalços, quase nus, não choram, não riem,
não se queixam, não fogem, um ou outro com um pedaço de cobertor ou
uma raiz de mandioca, impenetráveis, atentos, olha os milhafres lá em cima,
olha as nuvens pequenas antes das nuvens de chuva, olha um cão a trotar no
meio deles, esquelético, alheado, palpando o ar com o focinho, o horizonte
de colinas brancas, as camisas rasgadas, os bichos que fogem, o meu pai a
fingir que não dava por mim, uma das botas dele, só uma, a outra inquieta, a
tremer, o preto da espingarda sentado na caveira de hipopótamo à espera,
não tinha mulher esse, dormia num canto da arrecadação nas traseiras da
casa sob um pano de saca, nunca lhe conheci uma companhia, nunca lhe
conheci um amigo, nunca lhe ouvi a voz da mesma forma que antes de se
desinteressar percorrendo a fazenda ou murmurando
— A chuva
quando o primeiro relâmpago muito ao longe e a terra a dilatar-se,
côncava, a fim de receber a água, o meu pai a acordar na poltrona ou a
fingir que acordava, baixinho
— Serei crescido eu?
para a minha mãe ou para mim, para nós duas numa voz que eu não
reconhecia
— Serei crescido eu?
o meu pai na travessa de Malanje com as raparigas à espera da tropa e o
cafuzo a anunciar
— Nenhuma doença senhor nenhuma doença
enquanto ele as olhava quieto conforme olhava por trás delas uma vela
esmagada num pires e uma cama sem lençóis, o cafuzo para o meu pai
— É servido senhor?
o meu pai a bater o pingalim no joelho, de músculos da mandíbula a
crescerem
— Quanto?
o cafuzo a avaliar-lhe a roupa
— Fazendeiro amigo?
a segredar-lhe o preço, mais cafuzos
(e brancos e pretos)
nas portas seguintes ou encostados às árvores, cães e aleijados a trotarem
na rua, um sujeito no chão para quem ninguém olhava, a Domingas de pé à
minha frente
— A sopa esfria menina
enquanto o mar subia a praia de novo em busca do que lá esquecera ou
seja as mesmas coisas dispersas que deixei no Cassanje, a minha mãe e a
voz distante de um criado a falar quimbundo na cozinha entre tinidos de
loiça, eu pequena para a Domingas que não havia ainda, apontando uma
poltrona que deixou de existir
— Leva o meu pai daqui
enquanto o caranguejo torto do quintal me subia a camisa avançando um
após outro os saltos difíceis das patas num vagar monstruoso de bicho
convencido que grande embora fosse pequeno, com a sua gaivota azul e
branca, de pescoço esticado de fome, a gritar-me por cima, o cafuzo
apontando a entrada
— Setenta por meia hora
com uma criatura magrinha, indiana ou isso, a coçar o tornozelo sentada
num banco junto a uma toalha num prego enquanto o meu pai pensava
— Há de haver uma santa a que falta um bocado numa prateleira
a hesitar, a espreitar a janela, a hesitar de novo, o meu pai sem cabelos
brancos, muito mais magro, com arestas nos gestos que a gordura não
disfarçava ainda, tentando negociar o dinheiro enquanto a minha mãe se
penteava de olhos nas colinas brancas, sentava-se à mesa conosco
enxotando-me se me aproximava dela
— Agora não
incomodada comigo
— Por que carga de água não és bonita tu não és loira?
descontente que eu fosse morena
— Tresandas a catinga
enervada com os meus gestos
— Não és capaz de estar quieta?
aborrecida pela minha relação com as coisas
— Tão trapalhona
ou um dos dentes da frente que cavalgava um bocadinho o outro
— Que horror
e a boneca que arrastava no tapete puxando-me pelos pés e pisei sem
querer quebrando-lhe o tornozelo
— Que horror
a Domingas diluída no vento que sacudia a nespereira
— Não lhe apetece comer menina?
remexendo a erva do quintal e as ondas lá em baixo, um vento diferente
daquele que antecedia as trovoadas inclinando o algodão no sentido da casa
e curvando as mangueiras onde os morcegos se escondiam, suspensos dos
ramos como frutos estranhos que gritavam à noite, a minha mãe com medo
deles
— Os morcegos
enquanto os mandris fugiam de rabo entre os trovões, o cafuzo abriu a
porta ao meu pai, perdido num cubículo que cheirava a desinfetante e a
pouca água sem olhar a mulher descalça, com um vestido às três pancadas,
imóvel junto à cama, o cadáver de um rádio numa prateleirinha, o preto da
espingarda ainda não com o meu pai, apenas uma pistola a pesar-lhe no
bolso, a vizinha da casa ao lado para as outras cadeiras
— Não se habitua a Portugal aquela
e como posso habituar-me ao que não conheço, vou aprendendo o frio, as
marés, a secura das pedras, o cafuzo fechou a janela e Malanje desapareceu
na penumbra, distinguiam-se a almofada, um balde, conversas lá fora
— Vai ter de esperar senhor
uma música distante, o meu pai imóvel diante da mulher que desabotoava
o vestido demasiado grande não se interessando por ele, o primeiro
relâmpago a estremecer o mundo, a impressão que se o chamasse começava
a chorar como em pequeno diante dos meus avós e eu sem coragem de
pedir-lhe
— Não chore
sem saber como se pede a um homem
— Não chore
a Domingas para mim, preocupada
— Passa-se alguma coisa menina?
de carapinha grisalha e um copo de água vibrando na mão, somos tão
velhas não somos, o que esperamos ainda, tão pouca coisa em nós que nos
obedece agora não é, o corpo não, a memória não, a esperança não, gestos
que não nos pertencem, um vagar esquisito, se eu pudesse abraçar-te, se
conseguisse abraçar-te, se fosses branca também, se a minha mãe fosse a
tua igualmente e se penteasse para as duas a minha mãe
— Não me toquem
e o meu pai não da poltrona, daquele quarto em Malanje, tão nervoso
quanto eu, tão perdido quanto eu, não quero ouvir a nespereira a chamar-me
— Filha
nem os passos da minha mãe que se afastam, estamos sozinhas não é, diz
o meu nome
— Menina
e fica como aqui, a caveira do hipopótamo aqueles buracos nas narinas,
aqueles buracos nos olhos, o meu pai a despir-se em Malanje com medo de
se despir, já descalço, em busca de um gancho onde deixar a camisa e as
calças, os sapatos vazios sob a cama
— Isso tudo arrumado rapaz isso tudo como deve ser
dado que a recordação da madrasta por trás dele enquanto a mulher o
esperava sem um sorriso, um gesto, conforme suponho que a minha mãe
sem um sorriso ou um gesto igualmente, continuando a pentear-se, há
quanto tempo não encontro o seu olhar, se tento explicar-lhe cala-me com
um gesto, se tento aproximar-me surge logo uma palma que me afasta
comigo a descobrir, surpreendida, tantos ângulos inesperados em si ao
passo que a criatura de Malanje não empurrou o meu pai porque não o via,
quem era ele, um incômodo, paga primeiro e umas notas depois, uma tosse,
uma rótula aflita que lhe aleijava a coxa, um braço apoiado nas costelas a
esmagá-la, uma boca
— Ai Jesus
a morrer lá em cima, uma falha num canino e toda a infância nessa falha
sem que ninguém se incomodasse
— Rapaz
a solidão é ter caído sem companhia, olhar para diante e as couves do
quintal sem se ralarem, um ângulo vingativo de pedra a espreitá-lo ou um
pedaço de loiça cruel, o meu pai para mim, da poltrona
— Sai daqui
não confundindo-me com a mulher de Malanje, confundindo-me consigo,
se eu pudesse pendurar-me de você como os saguins pequenos, solitários
numa barriga que não dá por eles a amarinharem mangueiras acima, o
cafuzo de repente tão grande a mostrar-lhe as notas em leque
— Faltam duas amigo
e as luzes dos bares alisando-se e enrugando-se nas poças de água do
chão, tanto cor de laranja no mundo, tanto brilho prateado a colorir a noite,
a Domingas enquanto o mar lá em baixo se afastava
— Não está boa a minha sopa?
e descansa que está boa Domingas, nunca comi sopa tão boa, sou eu que
tenho dificuldades em regressar de Malanje, continuo na fazenda, vejo o rio
da Chiquita, o meu pai para mim na sala
— Deixa-me descansar
com o preto da espingarda quieto no terreiro, perto do jipe, tomando
conta dele, gostas de ser cão do meu pai não gostas como gostavas que a
minha mãe
— Anda cá
de porta não fechada, entreaberta, um hálito morno a perfume, a carne tão
branda, tão doce
— Anda cá
sabendo quem eras, não te procurando no espelho enquanto retirava
qualquer coisa da escova sem te olhar
— Anda cá
porque existias sem existir
— Anda cá
porque a porta a abrir-se mais, devagarinho, embora ela se penteasse
longe de ti e um gonzo a girar te impedisse de ouvir, sabias que
— Anda cá
o vestido fora do corpo, aos seus pés
— Anda cá
batendo a escova no colchão
— Anda cá
e tudo tão branco, até as mangueiras lá fora brancas, até a palmeira
grande branca, a mata a norte sem algodão e no entanto branca, a minha
mãe sem lhe tocar
— Aqui
com a cicatriz também branca que lhe deixei no ventre ao nascer, o
cafuzo de Malanje a despedir-se
— Sempre às ordens amigo
enquanto piscava o olho a um compincha que me troçava como os
arbustos me troçavam, como as fachadas me troçavam, como um bêbedo a
vomitar de gatas no chão me troçava, eu um caranguejo torto, não só
canhoto, torto, avançando um após outro os saltos altos difíceis das patas
num vagar monstruoso de bicho convencido que grande apesar de pequeno,
eu pequeno, uma gaivota azul e branca, de pescoço esticado de fome, a
gritar-me por cima e a Domingas tentando afugentá-la com o vasculho, pai
mãe eu, pai mãe eu, pai mãe eu, desde que cheguei de África nunca escrevi
aos meus pais, não lhes respondi às cartas, não as li sequer estão numa
gaveta acolá até que mais nenhuma depois de um envelope mandado por
outra pessoa e que não li também de modo que a partir desse envelope nem
me lembro onde em Angola já, a Domingas às vezes
— Não tem saudades de África, menina?
e não sei, para responder francamente não sei, a minha mãe a olhar-me
— Tu
com a escova de cabelo na mão
— Por favor lava-te primeiro antes de me dares um beijo
os frascos de perfume na cômoda, os anéis numa tacinha de vidro, o
primeiro relâmpago ao fundo da chana e o capim a arder enquanto os
macacos lhe respondiam aos gritos, fugindo do algodão no sentido da mata,
dezenas de macacos, centenas de macacos, milhares de macacos a ladrarem,
o jipe do meu pai que chegava da fazenda com o preto da espingarda
sentado atrás dele, o candeeiro da sala de jantar aceso, a mesa posta à
espera, o meu pai sentado primeiro do que nós, a minha mãe de testa no
prato, eu a quem a Domingas punha o guardanapo ao pescoço numa
cadeirinha com uma prancha onde se colocava o prato mais pequeno que o
deles e mais alto para que eu não me sujasse, de colher lá dentro e um copo
de água ao lado, um empregado de casaco amarelo a aparecer com a
travessa, o algodão zunia no escuro, o meu pai ainda com o cafuzo de
Malanje na ideia e a mulher na cama sem o olhar, espreitando a janela para
traseiras de barracos com quintais de hortaliça, chovia, uma chuvinha
mansa de cacimbo que o arrepiou de frio, a mulher acendeu um paviozito
que dançava sobre uma rolha num púcaro de azeite enquanto o meu pai
fitava as nódoas do colchão a pensar
— E agora?
a pensar
— E depois?
com ganas de puxar o revólver das calças e poisá-lo ao seu lado enquanto
o cafuzo conversava em quimbundo na rua ignorava com quem, uma pessoa
a rir, deu-lhe ideia que um tiro para os lados do liceu, que a mãe dele
— Não tens mais nada que fazer?
o pai a desprezá-lo, quase de queixo no prato
— Enquanto não apanhar uma doença não descansa o camelo
de modo que se voltou para a mulher enquanto a mãe
— Até que enfim que te mexes
e o meu pai a engolir não a sopa, a própria língua pensando
— E agora?
no momento em que o cafuzo abria a porta e lhe puxava o braço
— Desampare-me a loja o seu tempo acabou.
2
Vim para Angola por causa das pretas e por me terem dito que um primo
nosso enriqueceu aqui, no meio dos leões e dos escarumbas, graças ao
algodão, o pai da minha namorada, desejoso de se ver livre de mim
— Não faz nada na vida só pensa no bilhar
tanto pássaro e tanto guindaste no cais de embarque meu Deus, tudo
aquilo aos gritos e lembro-me que chovia, custa muito menos irmo-nos
embora quando o tempo está triste, com frio e estrangeiras por toda a parte,
maiores que eu, gosto disso, se calhar ficava por lá assim, gaivotas no
telhado de um armazém, quietas, à espera, com aqueles bicos e aqueles
olhos ferozes, contei, palavra de honra, dezassete, não me esqueço, o pai da
minha namorada emprestou-me de sociedade com a minha madrinha e para
se livrar de mim, o dinheiro da passagem, como nunca mais me enxergaram
devem jurar-me pela alma agora
— Eu não disse que ele era um vigarista?
enquanto a minha namorada se justificava entre lágrimas abraçada à mãe
(mulheres)
— Mas que culpa tenho eu?
(ela que a esta hora, aposto singelo contra dobrado, já casou há séculos,
bom proveito)
à medida que o pai, dissolvido no jornal, lhe soprava
— Cala-te
com mais gengivas que lábios, desse ao menos safei-me, talvez um dia
apareça em Lisboa só para lhe apertar o gargalo, não gosto de homens com
um pedaço de perna ao léu, sem pelos visto que a idade nos vai tirando
tudo, entre a meia e a calça, dezassete gaivotas, palavra de honra, que nos
meus sonhos me parecem trezentas ou mil e os olhos delas dão medo, os
pios acordam-me, Lisboa telhados cada vez mais confusos até desaparecer
na água suja ou nas mangueiras da Baixa do Cassanje, substituída pelas
flores do algodão, às vezes à noite, longínqua dentro da orelha, a queixa da
minha madrinha
— O que te entreguei faz-me falta pequeno não sou rica
a coxear para mim dado que uma queda em criança lhe dificultava o
tornozelo cada vez mais para trás coitada, tinha sempre um chocolatito
barato para me oferecer, desses de merceeiro, na algibeira do avental, entre
cordéis e molas de madeira, agarrado à prata de modo que se o lambia
ficava um bocadinho espetado no nariz
(pergunto-me se tenho saudades das gaivotas e não sei responder)
não era rica de fato, via-a tantas vezes almoçar uma maçã e até o toco
mastigava
— Quando me dá a fome vêm-me ganas de me comer a mim
portanto se você estivesse aqui em África comigo
(gaivotas, gaivotas, haja qualquer recordação de Portugal a acompanhar-
me)
empanturrava-a de fuba e de grilos, não me apareceu nas lavras nem no
armazém quanto mais em casa apesar de saber, e sabe de certeza, que não
estou sozinho, não é necessário perguntar, nota-se logo nos olhos, nunca a
vi na cantina à procura de peixe seco nem a fumar na sanzala quando um
chefe de posto trazia pessoal para venda, de Xá Muteba ou de Quiriba,
batendo-lhes com a chibatinha no músculo da perna
— Por mais que se rasguem nos espinhos aguentam a safra toda amigo
e não tornei a vê-la porque António Mariano, descalço e de túnica, entrou
na Baixa do Cassanje com os discípulos e começou a levantar as sanzalas
contra nós, escutava-os a cantarem à noite enquanto os morcegos riscavam
o escuro com os traços vermelhos dos gritos, percebia-os nos arbustos
depois da casa, esta cabana de chefe de posto onde moro, tão rápidos, tão
inesperados, tão pedaços de guarda-chuva ao vento, a albina que mora
comigo, a fechar a janela
— Não tens medo que nos chupem o sangue?
os discípulos de António Mariano quase todos do Congo, armados de
canhangulos e paus, e embora não respondesse à albina também tinha medo
dos morcegos, claro, os olhos furiosos, as unhas, os dentes, em criança a
minha mãe prendia-me melhor a manta enquanto eu engolia lágrimas que
me sabiam ao vinagre do galheteiro e lhe puxava o braço
— Nervoso porquê palerma não há nenhum gatuno no corredor não
arranjes desculpas para não dormir
o meu pai a remexer a cadeira lá dentro
— É para hoje?
eu que continuo a inventar desculpas para não dormir, o cotovelo da
albina, mesmo que me suspenda dele, não me resolve nada, o algodão vai
murchando ao vento, de flocos a voarem de arbusto em arbusto, a
empardecerem, a sumirem-se e nenhum escarumba de nenhum chefe de
posto nas redondezas, as sanzalas vazias, as cubatas desertas, as lavras de
mandioca mortas, cães a trotarem ao acaso, nenhuns cafecos a lavarem
roupa, nenhuns velhos a fumarem mutopa, os capatazes lá em baixo, com os
discípulos de António Mariano, a aprenderem a Boa Nova de Maria e a
contarem o peixe e o tabaco roubados das cantinas, o deus Zumbi
escondido, uma galinha minúscula que resiste ainda, daqui a pouco um
falcão virá despedaçá-la com as unhas, sobra uma pena, duas penas, o que
parecem pingos de sangue na terra, uma cobra a girar ao acaso, as chuvas
de janeiro depois do primeiro relâmpago, logo que as nuvens se abrem, a
albina para mim não por
— Tu
a albina para mim
— Senhor
e o corpo imóvel sob o meu, com um colar de missangas na cintura e as
raízes densas dos pés afinal tão leves, o amarelo das palmas embora os
vincos de pele negros, a tatuagem áspera da raiz das coxas, as pupilas que
me escapam sempre, se lhe perguntava
— Não queres ver-me?
silêncio, não sorria, não falava, parecia não me notar sequer
— Porque me foges?
e silêncio
— Porque te afastas?
e silêncio
— Porque não falas comigo?
e silêncio e no entanto o teu cheiro na casa toda, mais forte que o do
adobe nas paredes e o da mandioca lá fora na esteira enquanto o teto
apodrece devagarinho em largas placas cinzentas e mosquitos e lagartas
gordas na lâmpada, estas cinzas, este calor, o que recordo de Lisboa já não é
a cidade nem os meus pais, são, debaixo da chuva, as dezassete gaivotas no
cais de embarque, ora desfocadas ora nítidas, tão quietas, pardas ou brancas,
onde estou eu ao certo explica-me, nunca disseste o meu nome, nunca me
sorriste, pareceste contente por me ver chegar e no entanto não te foste
embora, encontrava-te sempre encostada à parede, imóvel como se me
esperasses, comprei-te ao teu pai, paguei cinco cobertores e duas cabras
quando uma rapariga da tua idade custa para aí quatro cobertores apenas,
durante o cacimbo, quando o paludismo crescia, o teu peito molhado não de
febre, de uma espécie de água quente e sabia ao primeiro orvalho nas
mangueiras antes da manhã e então falavas baixinho, tu que não falavas,
duas ou três frases confusas sempre de olhos fechados que pareciam
abertos, embrulhada no pano do Congo como num sudário, uma ocasião
pedi-te
— Não me morras
e desconheço o motivo de haver pedido
— Não me morras
visto ser-me indiferente que vivesses ou morresses, pelo preço que
custaste comprava duas nos quimbos, também novas, obedientes, prontas a
beber o chá para o aborto no caso de engravidarem, mulatos nem pensar,
gaivotas, gaivotas, não julguem por um momento que sinto saudades de
vocês, gai, prontas a cavarem e a sepultar lá dentro o que iria ser um filho, o
que já era um filho e as gaivotas em torno do barco como eu em torno de
nós aqui, gritando enquanto olhava Lisboa na amurada, da janela dos meus
pais víamos os guindastes do Tejo muito ao longe a girarem, António
Mariano falava de sanzala em sanzala com os sobas e os pretos do algodão
comprados aos chefes de posto, escutávamos-lhes os batuques, as
cantilenas, as palmas compassadas, as exclamações em uníssono
— Euá
e ninguém para a colheita comigo, eu de mãos nos bolsos a olhar a
plantação na colina
— Vai morrer
eu que tive de me inclinar para a frente e encostar a orelha à boca da
minha madrinha no hospital para a escutar, tão magra, num soprozito
— Adeus filho
eu com esta vértebra empenada, desde que me conheço, por alturas da
cintura, custa mais dobrar-me do que assistir à sua morte, para quê pena se é
o destino dos velhos, durou até aos oitenta anos, um número redondo, que
diabo continuava a fazer por cá além de empatar, maçando as pessoas com
histórias intermináveis, sempre as mesmas, que não adiantavam nem
atrasavam a gente e ainda por cima de um tempo que eu não vivera, sei lá
quem foi a avó Berta, sei lá quem foi o senhor Osvaldo, isto na melhor das
hipóteses, ou seja quando ela se lembrava dos nomes, no que me diz
respeito queria era o chocolatito no fim, não me interessava um tusto a sua
vida, olha a maçã do jantar que era preciso cortar-lhe visto que a mão mal
aguentava a faca quanto mais
(o algodão perdido esvoaçando no cacimbo juntamente com os
remoinhos das folhas)
e depois das orações de António Mariano o batuque dos morcegos,
apavorados, abandonando as mangueiras enquanto os discípulos
desarmavam, entre cantorias, os sipaios, roubavam o milho e a mandioca
das lavras e as malas das cantinas, disparavam sobre as cabras e depois do
— Adeus filho
a minha madrinha a distanciar-se de mim permanecendo ali, cada vez
mais longe no travesseiro ao mesmo tempo que a minha mãe se afastava da
marquise onde eu dormia a caminho do quarto, só chinelos cada vez mais
pequenos no corredor para mim curto e para ela compridíssimo porque a
sua voz muito longe, garantindo ao meu pai
— Adormeceu
e apesar de muito longe, que estranho, a mola partida na cama deles
perto, a garrafa de água da cabeceira a tinir contra o copo, o meu pai a dar
corda ao despertador aqui mesmo e a poisar o relógio que sem mover o
braço eu podia tocar de modo que não estava de certeza na marquise,
achava-me entre eles nos abismos das coisas que lhes pertenciam, sob o
rádio no apartamento de cima e o que se me afigurou um riso por baixo, o
agente da Cotonang que me visitou sem sair do jipe
— Aguente-se amigo que eles vão desistir
com uma arma na posição de rajada no banco ao seu lado, entregando-me
um cunhete de munições
— Tem a espingarda não tem?
a examinar-lhe a culatra, a experimentar o gatilho, a devolver-ma
esquecendo-se de a travar, a deixar-me conservas e não ando pelos quimbos
descanse, quero lá saber dos quimbos, só me interessa o algodão, a minha
mãe para o meu pai, puxando uma alça da camisa
— Dorme que nem um santo o miúdo
enquanto as minhas pálpebras passavam do cor-de-rosa ao negro ao
apagarem a luz, como o quarto parece descer um andar quando tudo se
some à minha volta deixando os meus pais lá em cima e eu sozinho com os
ruídos da casa, os canos no interior do estuque, as tábuas que se dilatam ou
encolhem, os degraus da escada inventando passos de inquilinos antigos,
amanhã encontro o meu cão, esventrado pelos discípulos, girando numa
corda as pupilas apagadas e a albina a bater o pilão nas traseiras nos gestos
sem arestas dos pretos que me queimam as sementes da próxima colheita no
armazém, incendiando o petróleo que lhe entornaram e as criaturas que o
trouxeram a pularem em torno enquanto um avião, de mistura com os
milhafres da serra, girava no alto e os discípulos de António Mariano
destruíam picadas e pontes, o soba para mim não
— Patrão patrão
o soba
— Vai-te embora
enquanto dançava a rezar num dialeto do Congo, com a camioneta do
chefe de posto, vazia, em torresmos acolá e a albina calada a olhar o rio sem
me ver, passava horas de cócoras no degrau da casa mirando as próprias
mãos, não falava comigo, era eu que dizia
— Anda cá
eu que às vezes, no escuro, julgando-me em casa dos meus pais, lhes
tocava nas pernas enquanto dormiam, como serão agora, estarão vivos
ainda, a minha mãe a protestar baixinho
— Com o miúdo aqui não
e o meu pai a respirar com força sem que conseguisse vê-lo
— Caramba
a claridade da janela iluminava apenas um sapato de lado, o meu pai esse
sapato e a respiração que crescia, um dos braços da minha mãe agarrou-me
com força e deixou-me a seguir
— Mais devagar agora
e o despertador para a esquerda e para a direita na mesa de cabeceira
— Sim não
com uma aorta de lata a inchar e a desinchar lá dentro, em pequeno era
grande ou melhor ora assim assim ora grande, um joelho súbito
(de quem?)
afundou-me a barriga e desapareceu de seguida enquanto uma voz
tropeçava nas pedras das sílabas a respirar com força
— O miúdo está aí não está?
Malanje a duas horas com as acácias em flor, um comboio que chegava,
um comboio que partia, o meu pai, de gestos trocados, a acender a luz
— Tenho sede
de costas para mim com o pijama aberto e pelos nas omoplatas e nas
costas que estranho, sentado no rebordo do colchão porque o quarto existia
de novo, as nódoas na caliça do teto, a santinha na moldura, a cadeira com a
roupa em cima, ao acaso, a escorregar para o chão, o que as coisas quietas
se movem meu Deus, tudo isto sem que eu visse a cara dele, a nuca apenas,
mais vermelha que o costume, marcas de unhas no pescoço, ele de pé a
puxar as calças do pijama e por um instante uma nádega, por um instante os
rins, a torneira da cozinha no interior de um copo, a voz ampliada pelos
azulejos, diferentíssimos da sua, quantos pais tenho, não sei
— Queres água?
a voz de início ferrugenta e a seguir limpinha
— Queres água tu?
enquanto a minha mãe me tocava de leve na cara com dedos diferentes,
às vezes penso nela, no sinal da sua espádua e na sua queixa ao jantar
— O médico diz que tenho um rim flutuante
o meu pai tentando entender
— Como os patos de plástico?
ou seja minha mãe uma banheira e um brinquedo lá dentro, com a pintura
escarlate do bico ausente aqui e ali e os riscos que representavam as asas
tão pálidos já, não direita, torta, a palma contra o fim da espinha e os olhos
a boiarem no vazio da dor, tudo isto no meio das queimadas do cacimbo e
das aldeias desertas, as lavras de mandioca defuntas, os morcegos chegados
com o crepúsculo, o algodão quase inexistente a estalar, o meu pai
— E agora?
para a minha mãe ou para mim, que já dormia sozinho no sofá da sala
— Cresceste
a escutar os vizinhos longe dele que em certas noites, no escuro
— Quieta
de respiração atrapalhada de pressa porque uma voz úmida
— Quieta
para ninguém acho eu dado que não lhe respondiam ou respondia o
suspiro cansado de não sei que criatura a lamentar-se, gaivotas
— Meu Deus
numa resignação parecida com a da minha mãe a apontar-lhe nódoas no
casaco
— Meu Deus
enquanto no quarto dos meus pais, a partir do rim, silêncio, o despertador
de folha apenas, à direita ou à esquerda consoante o baloiçar do mecanismo,
por vezes parecia suspender-se como o coração numa angústia de queda
quando tombamos de súbito, incapazes de respirar, do penhasco de nós
mesmos e ao dizermos
— Morri
de olhos perdidos no vazio em torno enquanto uma palma
(de quem?)
nos segura de súbito e os móveis recomeçam a existir, ninguém morre
com a roupa de amanhã na cadeira, ninguém morre com uma camisa mal
engomada à espera, a albina não comigo agora, acocorada
(e a nuca dela tão clara)
entre os pés de mandioca nas traseiras junto aos eucaliptos e ao rio, se ao
menos falasses ou seja se entendesses o que não te digo, agora há
momentos em que, agora há momentos e chega, os discípulos de António
Mariano cortaram picadas, destruíram plantações, queimaram armazéns,
atacaram sipaios, deixaram nas veredas ameaças e avisos, uma ocasião, ao
chegar mais cedo, pareceu-me que um homem a conversar com a albina ou
se calhar, sei lá, uma sombra numa agitação de trepadeira, procurei marcas
de pés e ninguém, nem um galho quebrado, nem um vestígio no chão, não
me deixes sozinho, o cabíri que me deram em Xá Muteba calado, julguei
que galinhas do mato a fugirem na direção das árvores, se ao menos o meu
pai aqui
— Rapaz
mesmo sem me olhar eu gostava, quem me conheceu em Lisboa, quem se
lembra de mim, a minha namorada, já com filhos crescidos, aumentando o
vinco das sobrancelhas
— Esse?
e quem de fato, não é, ao tempo que isto foi, o filho daquela que arranja
roupa para fora e às vezes coxeia da ciática, será que a minha namorada
ainda se abraça à mãe a perguntar
— Mas que culpa tive eu?
e o laço do cabelo de veludilho, a pulseira de cobre, a unha do polegar
sempre a perder o verniz, o sobrinho do dono da garagem, o gago, a olhar-
te, no caso de eu
— Nunca viste?
pedia logo desculpa, escarlate de timidez, meu Deus como chovia quando
entrei no barco para aqui e nem a minha mãe nem o meu pai nem a minha
madrinha no cais, dois fulanos a empurrarem caixotes, um velhote a acenar
com um lenço, os discípulos de António Mariano não queriam brancos em
Angola, a pele da albina não branca, transparente, viam-se os ossos e as
veias lá dentro, às vezes de manhã, no cacimbo, o nevoeiro escondia a
plantação toda, notavam-se vultos mas não se distinguiam os mandris dos
pretos e quais deles são macacos aliás, quais deles guincham, quais se
perseguem aos uivos, quem corre de mãos na terra, ao fim do dia, na
direção das sanzalas, se por acaso o meu pai comigo claro que nunca
comigo, pendurava-se-me da manga
— Tudo isto é teu a sério?
quase a tratar-me por
— Senhor
ele que guiava guindastes numa empresa de construção, nasceu nas faldas
do Douro e a sua cara pedra também, o nariz, a testa, o queixo, as palavras
calhaus que rolavam na direção da água, as mãos pedaços de videira
fechados sobre si mesmos, Lisboa demasiado grande para ele como África
demasiado grande para mim, a albina nunca dizia o meu nome, dizia
— Senhor
sem se atrever a olhar-me, com as pupilas mais pálidas que as dos
animais à noite quando a lanterna os mostrava, as vendas das aldeias
roubadas e os discípulos de António Mariano a dançarem em torno entre
cânticos e risos e gritos e os tambores a chamarem, os tambores em Malanje
onde dizem que a primeira tropa chegava de Luanda a dançar nas picadas,
impossíveis de ver porque os rodopios da poeira e as folhas do cacimbo e o
fumo do gasóleo a doerem nas pálpebras, tinha guardado as sementes da
próxima plantação no armazém até que a albina a meio da noite
— Senhor
ela que não falava
— Senhor
não
— Patrão
senhor, sem mover os lábios nem me tocar
— Senhor
e não alto, um murmúrio
— Senhor
enquanto a minha madrinha, essa
— Filho
olhando para mim sem me ver como a albina olhando para mim sem me
ver, como a minha namorada em Lisboa não me via também, quem até hoje
se preocupou comigo, os meus pais
— Não és capaz de estar quieto rapaz?
isto é as vozes apenas embora o resto deles ali, os corpos as caras, quem
se interessa por mim, quem procura ajudar-me durante o medo da noite,
quem escreve o que não digo, quem apaga o medo que sinto, quem vê as
lágrimas que não tenho, a albina
— Senhor
sem me apontar o armazém que ardia e os discípulos de António Mariano
a crescerem, enormes derivado às labaredas no mato, um deles levando uma
cabra, outro perseguindo uma galinha com um rim flutuante visto que se
atrapalhava com as patas, embatendo contra a vedação de pescoço esticado,
a albina que não sei o que sente e o que pensa, obedece apenas, por que
motivo não te vais embora tu, por que razão continuas comigo, porque me
olhas sem me olhar e os cabíris que sobram na aldeia tão sujos, tão lentos, o
relógio que tenho acolá na parede, desde há séculos que só com o ponteiro
das horas a designar um momento qualquer alheado da vida como tu, a
tropeçar em si mesmo, o que acham de mim, não entendo o tempo dado que
não entendo os pretos, risos e nenhum motivo para risos, falando sem
razões para falar, sempre longe de nós ainda que perto, nem da dor se
queixam, indiferentes, nunca te vi preocupada da mesma forma que nunca
te vi alegre, nem um suspiro, nem uma queixa, nem um gesto, se
perguntasse, se conseguisse perguntar e não consigo
— Gostas de mim?
um silêncio no qual, acho eu, nenhuma onda interior se movia, a minha
mãe para o meu pai, quando o lenço principiou a agitar-se aumentando para
ela
— Olha que o miúdo não está a dormir
não só a erguer-se, a respirar mais depressa, com mais força, a passar
sobre mim na direção da voz da minha mãe porque a minha mãe corpo
algum, voz apenas, quando se deitava dava-me ideia que se tornava líquida,
a voz água derramada a procurar o caminho entre os azulejos com as tábuas
no chão do silêncio, a janela um quadrado mais claro com o que parecia
uma árvore ou o halo de um candeeiro da rua onde a sombra oblíqua de um
pássaro e um galho de vento, não de copa nenhuma, a tremer, o lençol do
lado da minha mãe agitou-se igualmente, com mais força que o dele
— Não és capaz de estar quietinho ao menos?
num protesto zangado e eu a sensação que o universo só existia sobre a
minha cabeça visto que abaixo dela as inutilidades do mundo, roupa vazia
no chão, uma peúga do meu pai junto à cômoda
(a outra desaparecia sempre)
a saia da minha mãe a escorregar oblíqua da cadeira, um chinelo castanho
com a pon, gaivotas, ta furada, uma moeda junto ao rodapé, um prato de
restos de comida que pareciam de gesso, o ramo de uma tipuana do largo
que atravessava o vidro com ganas de me tocar, o que diriam os meus pais
se vissem onde moro, se vissem a albina, a minha mãe
— O que é isto?
o meu pai a ensurdecer, de mão em concha
— Perdão?
às voltas com o joelho desde que
— Isto aqui
me conheço, avisando a minha mãe logo que a rótula começava a existir,
os discípulos da António Mariano, espera, avisava a minha mãe logo que a
rótula começava a existir e ele no sofazito a sossegá-la com massagens, de
súbito com tantos incisivos escuros do tabaco ao léu, a minha mãe
— Já viste isso no espelho meu Deus?
a minha mãe
— Não te esqueças de tirar o guarda-chuva do alto do armário que sexta-
feira chove
os discípulos de António Mariano
dançavam a cantar à sua volta esmagando a pele de tambor do chão com
os calcanhares enormes, sem ligarem a uma avioneta de tropa sobre as suas
cabeças, muito mais pequena que os pés deles, a terra não escura, lilás, e
uma flor de algodão, vinda intacta da encosta que eles queimaram, a pairar
sem destino, não me viam, não me pediam dinheiro, não me
cumprimentavam
— Muata
não me faziam mal, eu de pistola no cinto e coldre aberto pertinho dos
dedos, uma cabra trotou a coxear junto a mim e sumiu-se num trilho,
António Mariano, com uma vara de soba, voltava as palmas ao alto
enquanto os discípulos cantavam, não imaginava que a terra fosse vazia por
dentro, cheia de ecos sem fim, o que existirá no seu bojo para além dos
mortos que lhe damos, a minha madrinha por exemplo, que se me
pendurava da manga para se levantar
— Ai rapaz
o profeta com uma túnica de saco de algodão a repetir ao povo
— Maria
e os tambores não a afogarem o nome, a aumentarem-no, estica-se a pele
aproximando-se do fogo, a Boa Nova de Maria protege-nos dos brancos,
protege-nos das balas, protege-nos da morte, os sobas antigos voltam de
noite expulsando a Cotonang e os colonos, destruíram as sementeiras,
destruíram as pontes, destruíram as picadas, os armazéns, as cantinas, a
aguardente, as galinhas que não são brancas e os pássaros que levam rãs e
galos impedindo-nos de os comermos e eu com saudades de Lisboa,
gaivotas, gaivotas, dos meus pais e das tarde de verão, ao domingo, quando
ao fim do dia vinha à janela olhar a paz da rua com os automóveis de todos
os vizinhos estacionados lá em baixo, homens de casaco de pijama a
conversarem à porta do cafezito fechado, dois miúdos com um triciclo no
passeio, o cachorro que demorava séculos diante de cada cheiro,
preocupadíssimo, as duas filhas do sargento apontando não sei quê, talvez
eu na janela, e a rirem-se de mim, se lhes dizia adeus desviavam a cara
ofendidas comigo, coisas assim que me pesavam no peito um chumbo de
saudade, quem quer casar com a carochinha que é solteira e bonitinha, a
professora de óculos do prédio quase em frente afastava a cortina sem me
olhar, nunca me olhou, e ia-se embora outra vez, o céu quase transparente
antes da noite com a primeira estrela por cima de uma chaminé, que
estupidez ter-me vindo embora por causa das pretas e do primo que
enriqueceu aqui, no meio dos leões e dos escarumbas, graças ao algodão,
olha só o resultado, o que eu não dava para, chega de lamúrias mas
realmente o que eu não dava para, o quiosque dos jornais que a dona, de
cabeleira postiça derivado aos tratamentos, cada vez mais pálida, cada vez
mais magra
Dona Ilda
fecha ao meio-dia aos sábados colocando os taipais de ferro ondulado
cada qual com o seu trinco, realmente o que eu não dava para, a minha mãe
a passar-me o dorso da mão na testa
— Não andes a cair da boca aos cães que não tens febre nenhuma
e eu a animar logo, aliviado, afinal não me doem as pernas, não tenho o
nariz entupido, nenhum mal-estar, nenhum arrepio, nenhum enjoo, o peso
no peito desapareceu que foi uma maravilha, palavra, não preciso de chá
para mais com quatro colheres de açúcar que exagero, guarde a manta, que
cheira a novembro que se farta, no armário, não abra a arca que não preciso
de cobertor nenhum na cama, foi você quem jurou que eu não tinha febre
portanto para quê tanta mariquice agora, devia ter criado mais filhos para
me desamparar um bocadinho a loja, por favor não procure o termômetro na
gaveta da mesa de cabeceira que estou ótimo, não o sacuda contra a luz para
o mercúrio descer aos trinta e cinco, não me obrigue a despir a manga da
camisola para mo enfiar debaixo do braço, não me ordene
— Aperta com força
não lhe experimente a ponta a verificar se está bem preso, não me
espreite dessa forma à cata de palidezes de olheiras, de uma careta
moribunda, não me apareça com um chá demasiado quente e colheres de
geleia, sobretudo não me obrigue a bebê-lo com um vinco preocupado na
testa apesar de eu
— Não insista senhora
primeiro só com uma mão vertical no ar, depois com as duas mãos postas
— Eu disse não insista senhora não disse?
e você a despentear-me o cabelo
— Continuas a ser o meu menino
eu com vergonha que alguém a tenha ouvido
— Continuas a ser o meu menino
embora só estejamos nós nesta casa mas nunca se sabe porquê tantos
mistérios na vida, de onde menos se espera é que vêm as surpresas, pimba,
está-se muito bem e nisto zás, toma lá para aprenderes, acabe o jantarinho
em paz mãe, está segura que não deixou um tacho ao lume, desses que com
o calor o que está dentro sobe a borbulhar, se entorna para o esmalte, apaga
os bicos todos, o lume desaparece mas o gás, palavra de honra, continua e
como agora não tem cheiro, modernices idiotas dado que o cheiro avisava,
estes gases modernos não previnem a gente, há de haver alguém, um sádico
qualquer no governo, que deseja a morte do povo, quando o meu pai chegar
a casa encontra-nos os dois geladinhos, de pupilas de fora, não faça caretas
que é verdade, estendidos no parquê de barriga para cima, mortíssimos da
silva de boca escancarada, o meu pai primeiro zangado que estas coisas são
mesmo assim
— Acabem com a brincadeira seus parvos que é isto?
e compreendendo a pouco e pouco coitadinho, não queria estar na pele
dele
— Minha santa esposa meu querido filho
de joelhos no tapete, gastando as rótulas, a pesquisar-nos o pulso, mais
acima, mais abaixo e claro que pulso algum, era naice mas pulso algum,
acabou-se a papa doce, amanhã no jornal Tragédia Doméstica Em Lisboa
Mãe E filho Faleceram Intoxicados Com Gás e as nossas fotografias lado a
lado, por acaso saí mais à sua família reparou, tinha que sair a alguém não
é, a gente a olharmos os leitores na expressão triste daqueles que se
adivinham condenados a um fim doloroso e se por acaso agora, apesar de
defunto, levantar as pálpebras, encontro a albina acocorada à minha frente,
pela primeira vez a olhar-me.
3
Já estava farto de Angola até à raiz dos cabelos, toda aquela confusão,
toda aquela miséria, todo aquele silêncio que me ensurdecia porque mesmo
as árvores a gente escuta crescer, mesmo o capim, mesmo as nossas unhas,
não há nada que não aumente empurrando-nos para o mar cada vez mais
distante a impedir-nos de fugir, ele à noite
— Tenho pena de ti que ficas cá sem remédio
a remexer a areia dissolvendo o passado, o sorriso da minha mulher por
um momento
— Adeuzinho
a desaparecer em si mesmo e eu com medo, palavra de honra, de perder
também um triciclo vermelho que sei lá porquê nunca me saiu da memória
como não saíram as serras da escola, Peneda Suajo Gerês Larouco Falperra
e por aí fora, que baú esquisito a cabeça, o que ela abandona e o que ela
armazena senhores, uma figueira que não me serviu de nada a mim que não
gosto de figos, gostava da sua sombra e pronto, a luz das seis da tarde
parada, sem entrar pela cortina da sala e a cor do vento em outubro, claro
que não falo disto a ninguém, claro que escondo eu que não escondo muita
coisa, por exemplo que estava farto de Angola até à raiz dos cabelos e não
havia maneira de me mandarem para casa, mais três meses tenha paciência
que pensamos em si, mais seis meses, mais um ano, tome lá um louvor
como a lembrar, tímido, Peneda Suajo Gerês e toma lá uma
condecoraçãozita de caca, convencidos que me fariam feliz, eu
— Falperra
eu
— Larouco
não assim, ao contrário, Larouco primeiro Falperra depois, por favor não
me troquem a ordem das recordações na prateleira da memória que depois
me vejo grego para alinhá-las como deve ser, qual é o sítio do meu pai, qual
é o sítio do sarampo que me dão ideia de faltarem, mesmo antes da primeira
pequena com quem estive o incisivo quebrado por uma diferença de opinião
aos dezasseis anos, não me vem o nome dela mas não tirou as ligas pretas,
felizmente que a amiga do general ligas pretas e anéis a brilharem
pertíssimo de mim quando me prendeu o queixo
— Maroto
comigo a segurar-me sabe Deus com que dificuldade, no caso da minha
mulher demoro séculos a pegar fogo, com a amiga do general ainda nem
risquei o fósforo e já ardo que é uma beleza, estávamos nesta vidinha
quando principiaram as maçadas na Baixa do Cassanje, os pretos e os
plantadores de algodão às turras e desafios e ameaças e pontes destruídas e
sanzalas desertas e os armazéns em chamas e os brancos a amontoarem-se
em Malanje, a seguir à serra da Falperra a serra do Gerês, o professor
— E depois e depois?
eu vazio a folhear a memória enquanto a régua crescia
— Estende a mãozinha idiota
isto não em Angola claro, em Viseu ou seja numa vila perto de Viseu,
cheia de vento e pinheiros e a escuridão do granito e miséria, na encosta
onde o meu pai tinha a farmácia com a balança, as pastilhas da garganta, o
falcão empalhado e o xarope de curar as tênias que eu bebia às escondidas
porque me aquecia como uma manta por dentro, olha a chuva, olha a neve,
olha o inverno nove meses por ano, olha os bandos de viúvas só narizes e
queixos e a minha avó entre elas a subirem a rua, escondidas nos xailes,
num temporal de pantufas até à capela lá em cima de visita a um Deus que
embora mais pequeno e pobre que o da igreja do largo se empenha como
um danado em responder às promessas, a amiga do general para mim, a
pintar de escarlate, quem não gosta da cor, as unhas espalmadas no meu
joelho
— O velho diz que te vai mandar à Baixa para acalmar os macacos
enquanto as pestanas descidas lhe davam sombra às bochechas, há
coisinhas assim pequenas que alegram um homem e a minha mulher não
percebe, quer dizer se fosse minha amiga em lugar de esposa aposto que
percebia, mal se casam desaprendem a maneira de pôr a gente a ferver, o
descuido do cabelo, a roupa a trouxe mouxe, o pedregulho do calcanhar
apoiado na nossa rótula a esmagar-nos para a massagem do joanete
— Olha-me esta miséria
e o joanete, vá lá, a desinchar coitado, um dia inteiro com no nosso
roupão
— É mais confortável desculpa
que cheira a homem e a cigarro frio, o pobre, e desanima a boa vontade
que vai murchando com os anos, uma cabeça cheia de rolos, por exemplo,
assusta mais do que anima, a cera das pernas aplicada com uma espátula e
puxada entre gemidos de extração de queixal empurra-nos contra a janela
porque as torturas arrepiam, nós interessados nos gestos das adolescentes
que penduram calcinhas na varanda com a leveza fácil dos braços, voltando
na nossa direção sorrisos que apetece morder, eu para a amiga do general,
esquecido das unhas dela, tão brilhantes que lhe refletiam o sorriso
— O velho o quê?
onde explodem sanzalas, tiros, sacos de sementes, gritos, correrias de
bichos e pessoas tão parecidos uns com os outros, arreganhando-se ao
mesmo tempo de fúria e de medo, as vilas abandonadas pelos brancos, os
hotéis e os restaurantes de Malanje cheios de hóspedes que não pagavam, o
receio que os pretos invadissem a cidade, os plantadores de algodão à
espera, nas varandas das casas, das sementes que a Cotonang não podia
trazer, o general ao telefone
— Quero-o aqui amanhã
a Boa Nova anunciada pelos discípulos de António Mariano e os
tambores das sanzalas, mesmo em Malanje se escutavam os cantos, a minha
mulher para mim
— O que vem a ser isto?
eu com ganas de responder
— São as cubatas a arderem na Baixa do Cassanje ou o perfume da
amiga do general já não sei
o medo dos belgas da Cotonang, o medo dos brancos porque os
escarumbas cada vez mais próximos e o vento que nos traz as plantações
desertas, as hastes calcinadas do algodão antigo, restos de jipes nos trilhos,
restos de sacos de sementes e o frio nos ossos, são os cães a fugirem, as
galinhas perdidas, as cabras que não cessam de trotar, são os catequistas
bacongos que atravessaram a fronteira a pregarem, pregavam em Milando,
em Tembo Aluma, em Marimba, sou eu a repetir mil vezes os nomes das
serras do sistema galaico duriense e o professor, de régua no ar
— Outra vez
e
— Outra vez
e
— Outra vez
grande, gordo, terrível, de bigode, a intimar-me
— Não pares menino
debruçado para mim
— Não pares menino
de boca quase contra a minha boca
— Mais alto não pares
que visitei antes de vir para África quando me fui despedir dos meus pais,
à beira de Viseu, e lá estavam eles coitados a aquecerem-se na braseira
apesar de julho, como são gelados os ossos dos velhos, quase cegos os
olhos e quase inúteis as mãos, tudo lhes cai, tudo os abandona, tudo se
afasta deles, a minha mãe
— Menino
o meu pai calado a desconfiar de mim, a aceitar, a sorrir
— És meu filho, não és?
o meu pai para a minha mãe, a desconfiar de novo
— Tens a certeza?
e eu para o professor, sentado lá fora numa cadeira junto ao degrau da
casa, de cachecol e chapéu, tão magrinho
— Diga-me já as serras do sistema galaico duriense por ordem e sem
falhar uma
ele a esconder as mãos nas costas, apavorado com as minhas reguadas
— Já me esqueci desculpa
enquanto o general me esperava no quartel
— Acabe primeiro com isso do seu professor temos tempo
também grande, gordo, terrível, também de bigode, a pedir à amiga, de
joelhos, com lágrimas na voz, a tilintar insígnias e condecorações
— Há aqui um problema
não, isso para mim, para a amiga
— Não me deixes
e para mim
— Há aqui um problema
instalando-se à secretária sem me mandar sentar, com a fotografia do
presidente na parede atrás dele e a bandeira nacional a pender de uma vara
— É necessário meter os coloridos na ordem o senhor presidente e o
ministro telefonaram-me
a amiga por uma vez respeitosa, direita, sem lhe chamar
— Bichaneco
de súbito a admirá-lo, reduzida a um
— Pedrinho
enquanto a minha mulher indiferente aos joanetes porque na sua opinião
não mereço uma esposa sem joanetes e portanto desprezando-me
— Nunca serás general tu pois não?
a parada do regimento na janela, camionetas militares, palmeiras junto à
caserna à esquerda, mulatos em calções a jogarem futebol, o cachorro
manco que os quartéis têm sempre, abandono, preguiça, o céu sem chuva
ainda, apenas as nuvens mais pesadas que a antecedem, uma delas, humilde,
a correr de vergonha para leste, o general apontando uma cadeira à amiga
num sopro tímido, depois de certificar-se que a porta fechada
— Princesa
perdão, o general, sem timidez alguma, apontando-me uma cadeira das
três que se encostavam lado a lado à parede sob um mapa de Angola, nem
olhando a porta
— Sente-se
e a impressão, que esquisito, do joelho esquerdo me custar mais a dobrar,
quarenta já cá cantam, significa envelhecer sem remédio e envelhecer,
sendo honesto comigo, significa, que horror, tornar-me igual aos desenhos
animados desse gato que persegue um canário e a quem não param de
acontecer infelicidades ou seja o mundo a cair-lhe continuamente em cima,
objetos que se despenham na cabeça, telhados que o afundam no chão, um
automóvel que o esmaga, um poço onde desaparece etc, isto é no meu caso
não tarda nada, já estou a ver daqui, o colesterol a trepar, a memória que
falha, o corpo que hesita, desaparece, regressa, volta a hesitar e eu quieto,
de mão no peito, à espera, não mencionando as escadas a multiplicarem
degraus e um minutozito de repouso ofegante em cada patamar, a boca
cheia de molares que me cravaram a martelo
(apieda-te de mim, Senhor)
atafulhando-me a boca de pedregulhos cruéis que não davam lugar para a
comida, isto sem falar nos óculos que pelo menos não doem e no horror da
decrepitude, é a vida, a minha mãe, Deus a guarde, diante de cada prega
nova no espelho
— É a vida
também, enquanto os ombros amoleciam de desânimo, a pedir-me com os
olhos, calada
— Não consegues ajudar-me?
e não consigo senhora, não está nas minhas mãos, não sei parar o tempo,
ainda não sou Deus por enquanto, que quer você que eu faça, se os médicos
e os padres não conseguem livrá-la dos anos quem sou eu para imobilizar
milhões de relógios no planeta inteiro com um comprimido ou uma reza,
pode não acreditar e não acredita, não por mim, por si mesma, mas também
envelheço palavra, mesmo debruçando-se da janela de Portugal não
consegue ver-me aqui tão longe e se visse mal me reconhecia, de manhã
encontro sempre mais cabelos brancos no espelho ou um pé de galinha a
crescer e que ainda por cima é feio, a minha mulher, coitada, tem-nos às
dúzias, nas garinas notam-se mais depressa que em nós, compra cremes no
cabeleireiro, qualquer dia só há boiões lá em casa como qualquer dia, já
agora, aproveitando a expressão, a amiga do general para mim, cansada de
esperar, à procura da camisa de dormir enrodilhada no tapete ao lado da
cama e a vesti-la aos puxões
— Não me digas que estás a ficar como ele
a esconder o desgosto com um lamento que os olhos desmentiam
— Dormi mal esta noite
examinando-se no travesseiro a suplicar ao próprio corpo
— Não me deixes ficar mal por favor
certa que até os ossos amoleceram também, qualquer dia a amiga do
general a afastar-me com o cotovelo perguntando ao teto
— Já não há homens em Malanje?
e como não há homens em Malanje começando a interessar-se por pretos
que não sendo bem pessoas funcionam de outra maneira claro, atrás de uma
cadela com cio, para não ir mais longe, os machos são às dúzias e alguns
apesar de coxos ou minúsculos ali esperançados, veementes, ao passo que
eu, Nossa Senhora, nem tento acompanhá-los, fico a cheirar um candeeiro
numa resignação melancólica, deitadinho da silva, o general para mim
afastando-se aliviado porque a cadela e a sua cauda de machos já longe
— Telefonaram de Luanda a exigirem que a gente ponha os coloridos na
ordem
e que parelha, sim senhor, Luanda foi arranjar a fim de pôr os coloridos
na ordem, o pobre cão inútil do general, quietinho a um canto, incapaz de
trotar com os outros numa exaltação babada e eu, um pré rafeiro sem
esperança, seguro que um dia, nem sequer muito longe aposto, um suspiro
não desiludido, trocista
— Não me digas que estás a ficar como ele
batendo os saltos dos chinelos de quarto, com uma borla cor-de-rosa, no
sentido do chuveiro, fazendo subir e descer alternadamente, numa harmonia
que outrora me exaltava, os alcatruzes cheios das nádegas com a minha vida
inteira lá dentro, a minha alegria e a minha fé, a minha capacidade de voar,
os meus bolos de velas de adulto que me troçavam agora
— Já não és capaz de apagá-las?
e umas ocasiões sou e outras não minha querida, o problema consiste nos
que não, quenão quenão quenão, cada vez mais frequentes, por favor
arranja uma camisa de dormir vaporosa, curta e um desses sutiãs de renda
com malmequeres doirados, que não precisam da ajuda de ninguém a fim
de colocarem o mundo para cima, basta-lhes existir não é, basta estarem
aqui, o general a bater o lápis na mesa
— Vou arranjar-lhe um batalhão de caçadores e você soluciona isto
ao mesmo tempo que trocava a ordem dos papéis cheios de palavras e
setas, com frases sublinhadas a vermelho e acrescentadas nas margens, o
general a emendar um esquema
— Soluciona isto
eu com ganas de responder
— Pelo menos no que diz respeito à sua amiga acho que tenho
solucionado
os dois sentados no sofazito cor-de-rosa da salinha dela onde mergulho
num pântano perfumado de cetim e suspiros e os seus pés começam a
pedalar devagarinho
— Ai maroto maroto
eu sugado pela concha de um ventre
(só se vê o branco dos olhos)
que me leva num suspiro sem fim onde as pálpebras dela, não mais que
as pálpebras dela, se transformam em asinhas que desaparecem e voltam, o
general a empurrar documentos com o lápis na minha direção
— Dou-lhe um batalhão eventual e a Força Aérea apoia
largando o lápis na ponta da mesa
— Está aqui tudo escrito custou-me dois dias
dois dias sem a amiga, a corrigir, a aperfeiçoar, a discutir com os
coronéis, os majores, aquele capitão novo em que toda a gente põe
esperanças
— O que acha você disto Mendes?
e o capitão Mendes a tomar notas coçando a bochecha, sempre brilhante
o Mendes, sabe Clausewitz de cor, papou aquilo tudo, esse rapaz vai longe,
o gênero de homem que a amiga do general até nem acha feio, deem-lhe
mais cinco ou seis anos e faz-se um coronel e peras, a amiga do general
para ele, numa pastelariazita discreta
— Não é casado a sério?
a amiga do general a dilatar-se no vestido
— Jura pela sua mãe que não é casado?
e mais sol nessa tarde, uma alegria nas coisas como não me lembro há
que tempos, as árvores de Malanje, reparando melhor, bem bonitas, aponta
com o mindinho, não com o indicador, olha-me a direito, uma cicatriz no
queixo quase enternecedora na qual se adivinha, Mendes soa bem, é curto e
desliza, na qual se adivinha uma queda em menino, apetece ao mesmo
tempo pegar-lhe ao colo e submetermo-nos a ele, Mendes disse você,
simpatizo com Mendes, sou sensível a apelidos, engraçado não é e agora
ainda por cima vai lutar por nós na Baixa do Cassanje e trazer paz a esta
terra que os africanos martirizam, por mais missionários que lhes
mandemos não se transformam em pessoas, aqueles cérebros, coitados, não
dão senão aquilo e os portugueses bem tentam, somos queridos para o
mundo inteiro, é a nossa fraqueza e quanto aos chimpanzés há que
desculpá-los e pronto, além de Mendes é Ramos, não é verdade, como as
japoneiras e as sarças ardentes que pegam fogo sem se consumirem, não sei
se lhe chame Mendes ou lhe chame Ramos mas se prefere Filipe não vejo
inconveniente, fica Filipe e pronto, Filipe não está mal, Filipe Filipe Filipe,
habituei-me num instante é giro, reparou nas minhas pernas, que simpático,
para trinta e dois anos, trinta e três em setembro, por acaso dia onze, vão
aguentando coitadas, ainda por cima uma mulher como eu que não se
preocupa em cuidar-se, às vezes, imagine, penso que para quê palavra de
honra, ainda não esbarrei no príncipe encantado, não se ria de mim mas
tenho a certeza que hei de tropeçar nele quando menos espere, vai achar-me
uma miúda ou coisa parecida mas acredito em fadas, não se pode ser adulta
a sério sem ser criança também mas voltando à vaca fria Mendes e Ramos
soa lindamente, eu cá Araújo, todos lá em casa Araújo palavra, boa piada
não é, os meus avós, os meus pais, tios a dar com um pau, um deles quase
foi engenheiro, trabalhava com os guindastes, está a ver, no porto de
Leixões, vimos do norte, nós, que é gente de confiança, a sua família de
Mortágua que alívio, o meu pai sempre disse, e tinha razão, o infeliz, que
está no Céu há uns anos, o médico esclareceu-nos desde o princípio que o
cancro não perdoa, antes de falecer disse-me Filha, exatamente assim que
eu não minto, desconfia das criaturas de Lisboa onde os homens roubam e
as mulheres são perdidas, a propósito de Lisboa o Filipe é desse sítio não é,
só espero que diferente deles porque detestava não confiar em si, quando
acredito em alguém é até ao fim do mundo e pronto, seja o que Deus quiser,
outro café não obrigada mas talvez, para o acompanhar, um chazinho de
macela que tranquiliza os nervos porque existe qualquer coisa no seu rosto,
talvez os olhos claros, há perguntas que não faço, que me agitam cá dentro,
o general para mim, a afastar sombras com as palmas
— Partem quando a Força Aérea graças às vassouras lá deles tiver limpo
um bocado a paisagem
enquanto os primeiros relâmpagos chegavam de Cangandala, quer dizer o
céu negro e nenhuma chuva ainda, a minha mulher interrompeu a conversa
com uma amiga tapando o bocal do telefone
— Vais andar fora quanto tempo?
cheia de arestas nos gestos e na voz, Peneda, Suajo, Gerês, Lar, a
desconfiança das sobrancelhas quase unidas ao nariz, já não me lembro de
como era quando a conheci, tenho ideia de um sorriso a flutuar em torno da
boca e uma veia no pescoço que pulsava, o general empurrou na minha
direção, depois de lhe bater não sei quantas vezes com o lápis, uma
mensagem que a ordenança lhe entregou
— As companhias chegam amanhã e a Força Aérea vai cá estar na
segunda
enquanto eu pensava se ele sabia da amiga e de mim e do que ela me
conta de modo que imaginei-o logo na consulta de um médico em Luanda,
não militar, claro, que o segredo profissional é uma treta e depois Urologia
há sempre quem desconfie, basta somar dois e dois
— Um tratamento que me ajude a ficar mais homem percebe?
mantendo a custo as lágrimas lá dentro mas a boca a tremer, a gente
pensa que não e todavia, observando no espelho, a boca mesmo a tremer,
coça-se um canto na esperança que ela pare e não para e depois uma prega
nova na testa, e depois os olhos sem rumo, Falperra, Falperra, essa por
acaso nunca estive lá perto mas de certeza que os mesmos calhaus, os
mesmos falcões, os mesmos gatos bravos de súbito com um coelho nas
unhas, as mesmas carroças de ciganos solenes a tilintarem na estrada com o
mesmo burro preso por uma corda, a protestar atrás, não conhecia nenhum
nome dos oficiais que vinham, como conseguiria eu preparar em condições
madraços habituados a roçarem o cadáver, à paisana, nos cabarés de
Luanda, a mulher do general uma senhora que não pintava o cabelo, sempre
de cinzento, tão tímida, Falperra, a minha mãe no Céu há seis anos, o meu
pai sozinho na vila com a empregada que se calhar lhe batia
— Mesmo com a fralda consegue molhar-me o lençol não tem vergonha
senhor Couto?
sentava-se à tarde no café mais um amigo maneta
(um acidente na fábrica)
e nenhum deles conversava, olhavam para ninguém enquanto o chá de
limão ia arrefecendo na xícara, a manga vazia do maneta dobrada para
cima, presa com um alfinete de ama ao enchumaço do ombro, a empregada
do meu pai vinha buscá-lo às sete horas puxando-lhe o sovaco
— Upa senhor Couto o que é isso aguente-se
e o meu pai, meio desequilibrado, a tentar um sorriso, a tentar um passo
— É que estou velho pequena
o maneta a segui-lo num desvelo de irmão
— Temos de ser uns para os outros
conforme me explicou há anos
— Temos de ser uns para os outros senhor major
na última vez que fui lá cima de visita, esperançado de me promoverem a
tenente coronel em outubro e só aconteceu em novembro, dezasseis de
novembro, isto das promoções é uma tourada pegada que a gente, que
remédio, aguenta furiosos, onde é que eu ia, a empregada do meu pai
— Muito bem senhor Couto
e ele mal penteado, o pobre, com uma nódoa de ovo numa das lapelas,
procurando, tijolo a tijolo, reforçar com uma espécie de sorriso a parede da
cara e o sorriso a tremer, a dissolver-se, a tombar queixo abaixo, a
empregada lá o limpava com o que fora um lenço cinco mil anos atrás e
agora um trapo difícil de extrair da algibeira de mistura com um cadáver de
cigarro e uma moeda pequena visto que principiava a confundir o dinheiro,
metam-se-lhe as cangalhas no nariz para ele avaliar o capital colando-o às
lentes
— Quanto vale isto agora?
e não se preocupe, paizinho, vale imenso, basta estender a moeda para lhe
darem logo um automóvel sabia, um dia destes experimenta no estande e
logo vê, os empregados todos à sua volta a admirarem-no
— É milionário o sortudo
e o infeliz da manga a segui-lo com respeito, orgulhoso do amigo
— Até nos sócios que me apareceram a vida foi generosa
grato à bondade infinita de Deus, sempre a olhar por ele num desvelo
materno, paizinho, paizinho, vou fazer-lhe uma confissão, a vida é uma
merda ouviu bem, a vida é uma merda pegada, eu só major e você um
espantalho, deviam empurrar-nos com a vassoura para o quintal das
traseiras já habituado a receber o lixo, fixe bem o que eu digo e não torne a
esquecer-se, a vida é uma grande merda, lembra-se de me pegar ao colo nos
baloiços do parque, o seu cabelo preto, o seu sorriso, a tarde em que afastou
com um pontapé de herói o cachorro que teimava em farejar-me, eu
agarrado à sua perna guinchando de medo e você numa energia fácil
— Não inquietes o menino meu idiota
cabrão do cão não é, você o meu herói, ainda hoje o meu herói, para
sempre o meu herói, a minha mãe para si
— Até a carne lhe cortas aos bocadinhos não o deixas crescer
o meu pai a meter-se entre os dois
— Não faças bochecha de macaco miúdo
a esclarecê-la
— Vai ter a vida toda para comer sozinho coitado
e de fato, que miséria, é verdade, ando há séculos a comer sozinho e sem
bochecha de macaco para não escandalizar a clientela dos restaurantes
— Olha-me aquele matulão de quarenta anos no mínimo a fazer
bochecha de macaco se calhar é atrasado
e se calhar sou atrasado, gosto de ser atrasado, que bom ser atrasado, se
não se calam já ele mete tudo na ordem como meteu o cão, não se atrevam a
brincar com o meu pai que se arrependem logo e sobretudo não pensem que
é velho, qual velho, nunca foi velho, teve-me um bocadinho tarde, pronto,
mas evidentemente ainda era novo, agora passa os dias com um amigo da
idade dele e por conseguinte jovem também, perfeitos de saúde, perfeitos de
cabeça, o que não falta são viúvas com eles debaixo de olho, palavra, o
general para mim, a apontar a secretária com a mão da aliança, ou seja és
casado e tens uma amante, não é bonito pá, eu sou apenas um sócio sem
capital que te ajuda a mantê-la por aqui
— Depois de amanhã de manhã às oito quero a sua ordem de operações
nesta mesa e se a Força Aérea estiver pelos ajustes e eu aprovar reunimo-
nos à tarde e sexta-feira começamos antes que isto fique incontrolável
ou seja, Peneda, Suajo, os discípulos de António Mariano a entrarem
Malanje dentro aos tiros e aos berros nessa confusão dos pretos, milhares de
maltrapilhos nas ruas primeiro e nas casas depois, a saquearem tudo, a
roubarem tudo, a incendiarem tudo, a dançarem, nas praças, a rirem-se de
nós, a matarem-nos, não só os discípulos de António Mariano, os
catequistas que vieram do Congo e andam por Milando e por Tembo Aluma
a rezarem, a dançarem, a cantarem, a destruírem tudo, quero uma ordem de
operações que limpe a província não importa o preço, não importa como,
ouviu bem o que eu disse nosso tenente-coronel, promovi-o agora, mesmo
que tenha ouvido talvez não seja inútil responder, devo andar a trabalhar
demais amor, ando de certeza a trabalhar demais, querem fazer de mim um
escravo mas não fazem, garanto-te que não fazem, juro que sou um homem
normal, sempre fui um homem normal, quando eu era alferes chamavam-
me Casanova sabias, o general para mim, a passar a mão na cara afastando
fantasmas ou seja pretos, o algodão, os armazéns destruídos, o pânico dos
brancos
— Exijo este distrito limpo em quinze dias entende quinze dias
sem dar conta que repetia a ordem mais para o urologista do que para
mim
— Exijo o meu problema resolvido em quinze dias doutor
porque tenho uma pequena à espera, porque ainda conservo o orgulho,
porque sinto vergonha, porque já não sou capaz de me olhar ao espelho para
fazer a barba de manhã ou até pentear-me, não sou capaz de me sentir
homem e o urologista de galões na bata e quase pena dele o urologista pena
dele, o urologista a pensar
— Não tarda nada põe-me a mão no ombro
a pensar
— Não tarda nada abraça-me
a pensar
— Não tarda nada desata para aí a chorar e eu a secá-lo com uma
compressa que vergonha
o urologista a mandar colocar por ele as armas na posição de rajada,
quero essas gê três na posição de rajada meninas, quero homens decididos,
Peneda, Suajo, Gerês, Larouco, Falperra, Montejunto e Sintra, não quero cá
paneleiros ouviram bem, não suporto paneleiros, quero António Mariano
morto percebem, quero esse António Mar, por favor aguente-se pai, iano
bem morto, não virgens cheias de medo a brincarem aos jantarinhos, todas
coradas, todas tímidas, que não servem de nada, isso não o urologista, isso
eu a partir de sexta-feira, o urologista com amizade e respeito, sobretudo
respeito, sempre é um general senhores, a poisar a palma no joelho do
cheché
— Descanse que vai correr tudo bem meu general há de ter dúzias de
mulheres a chamarem-no meu herói encantadas consigo
enquanto o meu pai para o compincha aleijado a designar-me com o
braço um bocado trêmulo mas apesar de tudo estendido
— Sei ou não sei fazer filhos diz lá?
e o capitão Mendes nem sonha o que o espera o cretino, marchazinhas de
quarenta quilômetros na mata porque necessitamos de poupar gasolina,
agora atacam Mangando que estão por lá cem mil pretos, quais cem mil, um
milhão, acabas com aquilo e arranjo-te uma cruz de guerra póstuma para
enfeitares o caixão, a amiga do general, quando lhe contei, a disfarçar as
lágrimas numa palidez que me divertiu
— Sei lá quem é o capitão Mendes boneco
tentando que a boca não tremesse ao falar, tentando não se ir embora,
tentando sorrir
— Não faço ideia boneco
enquanto o general uma embalagem de comprimidos que ajudam no
bolso
— Tem de tomar meia hora antes de
e o general a resolver
— Qual um tomo dois
observando os comprimidos afinal tão pequenos, como é que uma dose
de criança consegue alguma coisa porra, não se erguem pontes levadiças
com o mindinho, o general a pensar no esforço à beira da hérnia que os
guindastes, apesar de enormes e cheios de músculo, necessitam de fazer até
erguerem do cais bidões de gasóleo, fardos sei lá de quê, contentores, e
agora expliquem-me como é que as pastilhas do médico, coitadinhas, que
aposto nem se sentem na língua, ainda se fossem injeções de beber, ainda se
fossem essas cápsulas gigantescas que tropeçam logo na garganta e eu a
acenar à minha mulher, sufocado, incapaz de pedir socorro, incapaz de um
gemido, eu a escorregar pouco a pouco da cadeira numa desistência de
trapo, arrastando a toalha e a terrina do almoço sem mencionar o molho e as
batatas em cima, se me tivessem aconselhado um medicamento que pudesse
fitar com respeito entendia, agora estes grãos, apesar da ranhura ao meio
que lhes tenta aumentar o prestígio, quem no seu juízo perfeito, Peneda,
Peneda, falcões lebres silêncio, consegue acreditar neles, quando muito,
parto sexta-feira para a Baixa do Cassanje e dou cabo de todos os Antónios
Marianos do mundo, agora estes grãos quando muito mindinhos de viúva,
capazes de aguentar, sabe Deus como, curvados em argola, a guita de um
pacotinho de cento e vinte e cinco gramas de bolachas destinadas aos netos,
o general para a amiga
— És servida?
e aqui para nós, meu general, é servida de quê, ela completamente
vestida, ou seja brincos compridos e saltos agulha que a protegem de cima
abaixo do frio
— Sou servida de quê?
o general para dentro a engolir lágrimas interiores
— Oxalá não a vejas
lembrando-se da mãe a convidá-lo de joelhos diante do oratório do quarto
— Reza uma Avé Maria comigo que mal não te faz
e não faz mal nem bem, para ser sincero não faz nada percebe, a mulher
para ele
— Deves estar parvo tu agora queres que eu reze contigo?
enquanto o general de barriga para o alto, sexta-feira começo a matar
chimpanzés de sanzala em sanzala e eles a gritarem, a fugirem, a
ameaçarem-me ainda, eles apesar de finados, a ameaçarem-me ainda, uma
criança que deixa de correr e ajoelha antes de tombar, um manco que me
fita gemendo baixinho, um leproso, dá-me ideia que um leproso
estendendo-me os cotos
— Amigo
enquanto o general se ajoelha com a mãe diante da santinha de barro da
cômoda, que lhe sorri com os pés apoiados numa nuvem quebrada.
4
Angola fica já ali na outra margem do mar que é como chamam a este rio
com mais água e mais espuma que os outros, esfregando os seus penedos
para trás e para a frente a remexer gavetas à procura, tirando o que nos
devolve a seguir, conchas, pedrinhas, bocados de madeira vindos de onde
meu Deus, com um motor enorme, meio avariado, a tropeçar por baixo e
quando se retira lá estão os caranguejos a coxearem na direção da gente
nessa determinação teimosa dos aleijados e por cima vazio, pássaros, a
folha sem árvore de uma gaivota reduzida a bico e olhos, eternamente à
espera, eu para a Domingas, sem as palavras
— O que fazemos aqui?
aguardamos que nos levem de regresso a África onde o rio, que finda
neste sítio, entre palmeiras, começa a devolver-nos o que fomos, olha a
minha mãe, olha o meu pai, olha o preto da espingarda e tanto algodão
queimado à minha frente, ninguém se penteia já na varanda lá em cima,
ninguém me manda embora
— Sai da frente miúda
inclinada para mim e portanto de costas nos espelhos e é nos espelhos
que lhe sinto o perfume, é nos espelhos que existe porque nenhuma boca
me fala deste lado, nenhum braço sai do vidro para me tocar, o meu pai
vendo a plantação a arder a seguir às mangueiras e os gritos dos últimos
bichos na direção da picada, o meu pai para o preto que o acompanhava
sempre
— Solta os cães
e os outros, que trabalhavam na casa, o cozinheiro, os criados, o que se
ocupava do jardim desaparecidos, levaram-nos durante a noite, descalços,
entoando hinos, com túnicas feitas de sacas e sipaios fugidos ao chefe de
posto entre eles, deixando móveis, objetos, comida, a Domingas a apertar-
me contra o avental impediu-me
— Menina
de ver o saguim, sempre preso à corrente, degolado, pelo menos já não
me persegue quando durmo nem tenta puxar-me a blusa com os dedos
negros, mas os olhos, cheios de pelos, continuam comigo embora os meus
se dissolvam nas ondas que partem e regressam, mostrando-me e guardando
episódios, lembranças, nesta margem do mar o silêncio cheio de ecos de
Dala Samba à tarde, cruzes de missionários enterrados, os túmulos dos
sobas no alto das colinas, o vento que principia nas palmeiras a zunir
mistérios que não entendo, a minha mãe que sorria a um belga da Cotonang
(o corpo dela diferente)
ao dar por mim o cotovelo nele, o belga a afastar-se um passo e a minha
mãe palavras baixinho e logo séria outra vez, o chefe de posto para o meu
pai
— Talvez a tropa dê cabo dos escarumbas amigo
o chefe de posto para o meu pai
— Depois de estarmos todos mortos vão querer saber da gente
nós que caminharemos, como os caranguejos, deste armazém às ondas,
obstinados, coxos, às vezes tenho a certeza que vejo Angola daqui e claro
que vejo Angola daqui, a minha mãe a chorar junto de um berço vazio
primeiro e depois berço nenhum, o meu pai, sem lhe pegar na mão, sentado
na cama a coçar-se
— Vais passar toda a vida a deitar lágrimas tu?
o meu pai
— Quero-te lá em baixo ao jantar
e o vento ao mesmo tempo nos pinheiros e nas mangueiras da outra
margem do mar que se vê mal deste sítio, o belga da Cotonang para a minha
mãe, de repente tão pálido
— Não acredito
a acender o cigarro noutro cigarro acabado de acender e apagando ambos
esmagando os dedos, que não deitavam fumo, num cinzeiro de vidro
— Não pode ser
a outra margem do mar que é como chamam a este rio com mais água e
mais espuma que os outros, para trás e para a frente roubando-nos o que nos
devolve a seguir, a minha mãe sentada entre o meu pai e o belga, de olhos
tão brancos como a pele, levando à boca branca uma colher branca de sopa
branca em gestos brancos que tropeçavam uns nos outros até a colher
tombar no prato branco num ruído branco que sujou a toalha branca de
nódoas brancas e a minha mãe ao mesmo tempo continuando ali e a subir as
escadas para o quarto onde ficou a tarde inteira a pentear-se de modo que se
eu agora olhasse pela janela as ondas brancas também, a areia branca, os
penedos brancos, o vento nos arbustos branco, a Domingas branca
— Menina
com a sua voz branca nos meus ouvidos brancos, preocupada comigo
— É ainda África menina?
e claro que ainda é África Domingas, não sairemos mais desta margem
como nunca sairemos de lá, eu à mesa com o meu pai e o belga escutando
as vozes dos discípulos ao longe e daqui a pouco os insetos da noite, as
luzes do petróleo que hesitam nos pavios, o ruído insuportável que habita o
silêncio, se o meu pai me perguntasse
— O que foi?
dado que eu apertava as orelhas nas mãos, ensurdecido pelas gaivotas
aqui e os pássaros que seguem as traineiras de Luanda na sua tosse de
gasóleo, respondia-lhe
— Nada
com uma lanterninha para a direita e para a esquerda na popa, o belga e o
meu pai olhando o topo das escadas de onde ninguém acenava, nenhuma
luz nas cubatas onde moravam os pretos que trabalhavam conosco na
cozinha, nas limpezas, nas flores da minha mãe, no motor da eletricidade
que chocalhava as bielas ao fundo, de tempos a tempos, depois do
escurecer, a Domingas perguntava
— Continua a ouvir o mar menina?
comigo escutando-a antes que falasse visto que o silêncio diferente, no
caso dela perto, às vezes a minha mãe quando nós sozinhas
— Está ali a Domingas
e logo à entrada do quarto
— Senhora
o belga da Cotonang não tornou a visitar-nos, encontraram o jipe
tombado na picada, abraçado a uma árvore com uma das rodas vazia e a
minha mãe a olhar o meu pai, a deixar de olhá-lo, a olhar outra vez sem
tocar na comida, o meu pai numa voz mais lenta, difícil
— Não comes?
atravessando a frase de língua em bicos de pés a fim de não escorregar
nela porque certas letras molhadas
— Perdeste o apetite?
ora todas numa bochecha, ora todas na outra, a ajudarem as sílabas
empurrando-as com toquezinhos no ombro, a minha mãe, de olhos em
nenhum de nós, a aperfeiçoar uma bola de pão entre o indicador e o polegar,
tentando engolir não sei o quê com o monta cargas da garganta e os
morcegos tão grandes lá fora nas mangueiras que uniam a casa ao portão, a
minha mãe quase a voar no meio deles ora perto ora longe, passando rente a
nós num grito sem som que transtornava as sombras negras dos cães, um
sentado a uivar, outro a fugir dos canteiros, na margem do rio em Angola,
depois do escurecer, a água toda só lágrimas e a lua fatias paralelas em
baixo que ficavam na praia, os discípulos de António Mariano cantavam
enquanto ele
— Euá
numa voz que ia aumentando de colina em colina sobre labaredas e
cinzas, parece que em Marimbanguengo e em Quirima os plantadores
fugiam, que os bailundos do Huambo desciam a Lucala, afogavam-se no
Cambo ou no Cuango no meio dos jacarés, com os dentes fora da boca
fechada e olhos que os seguiam quietos, reemergiam em Nharea e no
Bimbe, de pássaros a bicarem-lhes as escamas, se calhar não bichos,
troncos que a pouco e pouco se transformavam em coisas aceitando avejões
nas escamas do dorso, o inspetor da Pide na sala com o meu pai e dois
agentes que pareciam não dar por mim, cada qual com a sua arma, à espera
dele lá fora junto ao jipe
— A Cotonang está disposta a esquecer o problema do belga desde que
baixe para metade durante cinco anos o preço do algodão
e a minha mãe sentada no sofá, de cabeça baixa, a odiá-los a ambos, à
noite fechava-se no quarto e o eco lá em cima aterrava-me, nunca escutei
uma chave tão grande às voltas, estremecendo os pingentes de plástico dos
lustres, estremecendo as paredes, a certeza que era a casa inteira que girava,
o trinco quieto, nunca imaginei senhores, que tivesse força para fazer
rodopiar janelas, móveis, tetos enquanto jarras e bonecos de barro
regressavam aos naperons na ordem do costume sem se quebrarem sequer,
tanto silêncio onde você dormia, sem uma tosse, uma gaveta, um passo
sequer, as folhas das mangueiras apenas, o murmúrio do capim antes da
chuva não tranquilo, arrepiado, tenso, como querem que me habitue a esta
margem do mar, a Domingas para mim
— Não voltamos menina?
e claro que não voltamos porque ninguém nos espera, passeamos
sozinhas na fazenda desfeita, na casa só uma ou duas paredes depois dos
discípulos de António Mariano e dos bombardeamentos dos aviões da tropa,
depois dos macacos destruírem as plantas, depois das patas dos bichos, tu és
Angola Domingas, és o cheiro e a cor da terra, és o vento, és onde fui feliz
o inspetor da Pide para o meu pai
— A sua filha cresce depressa
e cresço, é verdade, porque não olha para mim senhor, não recebi de si
quase nenhuma palavra, quase nenhum sorriso, apenas um cotovelo que me
afastava se por acaso eu no caminho, o fato de eu crescer assustava-o, o fato
de me ir tornando mulher fazia-o espiar-me às escondidas, perplexo,
confundido ou orgulhoso, não sei, ele para o inspetor da Pide
— Baixar o preço do algodão para metade?
o belga que se ocupava das fazendas mais próximas de Marimba e a
minha mãe a olhá-lo sequer o meu pai notasse qualquer coisa mais funda
que se alterava na respiração dela, a Domingas a espreitar-me de longe
— Não se passa nada menina
e tanta ruga na boca do belga, tantos músculos salientes na cara, os
braços tensos como se daqui a nada um salto, o pescoço da minha mãe
curvado, aceitando, dava-me ideia que mais que aceitando, pedindo, as
ancas à espera enquanto o meu pai e eu perto deles, flores da algodão que o
vento soltou no terraço da casa, esvoaçavam na varanda da frente onde
começava um vale com um riozito ao fundo em que os animais vinham
beber a lua dando a impressão que a noite se movia sozinha, comigo na
varanda a perguntar-me para onde caminhávamos no escuro, para onde a
outra margem do mar se deslocava levando-nos consigo, o belga à mesa
conosco, sorrindo à minha mãe quando julgava que o meu pai não via e ela
apinocada como para uma festa a olhá-los a ambos, o meu pai curvado
sobre o prato a comer, de pistola sempre à cintura e a testa que luzia sob os
reflexos das lâmpadas, não lhe reconhecia os gestos mais cuidadosos, mais
lentos, não lhe reconhecia a voz nem um tendão a crescer no pescoço e a
minha mãe aflita entre eles, o meu pai a conversar com o belga, não
zangado, amável, acenando à Domingas para que lhe apresentasse a
travessa de novo ou servisse mais vinho e o belga a aceitar mais vinho, um
silêncio em que tropeçavam gestos e a nuca a brilhar de um suor tenso,
atento, palpando o coldre da pistola no que ele imaginava que o meu pai
tomava por um gesto casual, o meu pai para ele a conseguir um sorriso
— Não há como uma refeição entre amigos
aumentando o sorriso
— Não acha?
a minha mãe calada a medi-los a ambos, a Domingas para mim, sem as
palavras
— Menina
procurando avisar-me do que eu não sabia o que era enquanto um preto
de farda ia mudando os pratos e as ondas, em Portugal, limpavam a areia de
caniços, algas, detritos, um pedaço de cesto, uma gaivota morta, o meu pai
falava do algodão desse ano e os leprosos do Cambo, sem dedos, de gatas,
olhavam-no junto ao rio coçando-se com pedaços de raízes e cascas, uma
criança sem orelhas afastava um cabíri que tentava mordê-la, de braços só
com dois dedos no fim e a chaga de um joelho que ia roendo um osso, um
vento leve nas folhas, um jacaré ao sol, o meu pai, de súbito amável, a
servir vinho à minha mãe e a mim, a minha mãe baixinho
— Queres matar-me com ele?
e o meu pai a sorrir-lhe, ou seja caninos só, não trinta e dois, há muito
tempo que não trinta e dois, cem, duzentos e o meu pai tão tranquilo
— Espero não o desiludir com a próxima colheita
enquanto pássaros negros atravessavam a janela e o preto da espingarda
verificava o jipe, tão bonitas as mangueiras nesse mês de fevereiro, com
mais frutos que morcegos e uns e outros à espera, a minha mãe a olhar-nos
e a deixar de olhar-nos, a torcer o guardanapo no colo, a deixar cair o garfo
e a agarrá-lo de novo a limpar-se sem notar que se limpava e um risco de
baton vermelho no linho, o belga mais alto que o meu pai, com mais cabelo,
mais novo, mais bonito, bigode loiro quando o meu pai bigode algum, bem
vestido, de pele clara e as mãos melhor tratadas, o jipe do belga da
Cotonang mais novo também, mais caro, à frente do nosso e o preto da
espingarda a olhá-lo com inveja tocando de leve o tecido dos estofos, a
minha mãe uma sombra imóvel na janela do quarto, a observar-nos sem
afastar as cortinas, pareceu-me distinguir-lhe a boca quando olhei para
cima, que a mão para a direita e para a esquerda num gesto que se me
afigurava de adeus, com o meu pai a entender e a Domingas a entender
também e a olhar para mim numa espécie de alarme, numa espécie de pena
aumentando um
— Não se rale menina
lá dentro, tão forte que mal o entendi, olha o vento Domingas, olha o
vento e depois do jipe do belga o meu pai a ligar o nosso, com o preto da
espingarda no banco de trás e os cães saltando em volta a tentarem
acompanhá-los e a tornarem ao pátio sentando-se na terra, dois jipes um a
seguir ao outro na picada a rodearem a Chiquita, a venda, a missão com
cruzes a maior parte tombadas e nenhuma com nome, o que resistia ainda
do edificiozito onde os padres moravam, o que sobrava do pátio, o que
sobrava da capela, afastaram-se dos quimbos de uma sanzala vazia com
uma mãe de cabra a espreitá-los, deu-me ideia que mabecos a trotarem ao
longe mas podia ser o vento no capim como podia ser dos meus olhos,
quantas vezes vejo o que invento ou invento o que vejo, quantas vezes me
engano, quantas confundo uma com a outra as duas margens do mar, a
única diferença é que um navio distante aqui e nenhum navio em África,
quem quer saber de África, eu em ambas as margens e tanta água senhores,
tanta espuma, de resto os mesmos caranguejos caminhando sem fim e os
mesmos olhos ocultos
— Ai de ti menina ai de ti
atentos, fixos e estranhos, o belga à nossa frente a pular na picada
contornando uma plantação cheia de marcas de pés, a cheirar a marufo,
onde ainda ardiam hastes, com a cantina desmantelada e o armazém em
cinzas, os torresmos deslocando-se segundo os caprichos do vento, pássaros
que se escapavam de nós a voar, uma cabra, fugida de um quimbo, de patas
independentes umas das outras, arrastando um pedaço de corda, um tiro e o
belga a tentar travar sem conseguir travar, a embater num talude, a embater
noutro talude, a estoirar um dos pneus, a tombar de banda com as rodas de
cima girando sempre e pó e fumo e galhos de arbustos quebrados e bichos
que fugiam, o belga de gatas, o belga a olhar para o meu pai que estacou o
jipe quase contra o dele e um pneu rasgado, torto no seu eixo, o belga
tentando levantar-se e permanecendo sentado, a olhar-nos, com sangue no
nariz, com sangue na testa, uma das calças rasgada e o meu pai e o preto
junto dele, mirando-o sem falarem um com o outro, o meu pai à procura de
cigarros nos bolsos a oferecer-lhe um já aceso que lhe parecia não ver, um
pássaro, dois pássaros, três pássaros lá em cima a espiarem-nos em ramos
de que não sei o nome, o belga para o meu pai numa tentativa de sorriso que
não era um sorriso
— Veio matar-me não veio?
o meu pai debruçado para ele, indeciso
— Não sei
olhando em torno enquanto o preto esperava de espingarda horizontal
entre o cotovelo e o flanco, uma sanzala à direita, o vento e a Domingas
atrás de mim
— Menina
as ondas em Portugal mais altas do que aqui onde um albatroz numa
escarpa, restos de barracos ao comprido de uma estradita antiga, o meu pai
para o belga
— Levante-se
e o belga despenteado, com um rasgão na camisa, tentando segurar-se à
porta do jipe sem que o corpo obedecesse, obrigando-o a permanecer de
gatas
— Não consigo
e que idade teria eu nesse tempo, sete, oito anos, a minha mãe fazia-me
tranças magoando-me ao arrepelar-me a cabeça
— Não te mexas agora
viam-se as labaredas de uma plantação, duas plantações a arderem,
davam-se pelos estalos do fogo, percebiam-se vozes numa sanzala, um
batuque, latidos de mabecos à esquerda, percebiam-se as vibrações de um
resto de algodão
— Não tornamos a ver-nos
e um armazém de sementes, com as paredes tombadas, junto a um trator,
eu para a Domingas
— Quando voltarmos a Angola
mas não voltamos a Angola e sabemos que não voltamos a Angola, já
não existem os meus pais, já não existe a casa, já não existe quem nos
conheça na Baixa do Cassanje, os cães da fazenda, se por acaso continuam,
aposto que não nos cumprimentam, somos velhas agora, que é da minha
saia azul, que é das minhas sandálias, a vizinha apontando-me às amigas
— Ela não pertence aqui
entre caranguejos, gaivotas e este som de ondas a que não me habituo, tão
diferente de África, como podem as duas margens do mar serem tão opostas
expliquem-me, a Domingas e eu a mesma casa e portanto eu mulata
também, eu quase preta, eu preta enquanto os caniços de milho vão
estalando, estalando, a expulsarem-nos daqui, o belga a olhar a espingarda
do preto
— Vão matar-me não é?
acocorado no chão sem receio do meu pai, quase a sorrir, a sorrir e
depois, esquecido do português, a falar estrangeiro ou antes a não falar,
cantarolando em estrangeiro, não com força, baixinho, na ideia de se
esquecer da espingarda do preto e se esquecer de Angola, o belga com
olhos não de homem, de criança e gestos não de homem, de miúdo também,
sentado na sala dos pais dele, não no pó de África, a brincar, o belga da
Cotonang de repente feliz a sorrir para a gente, a encontrar uma pedrita ou
um inseto no chão, um inseto que não há pedritas em África e a brincar com
ele, se por acaso lhe pedíssemos
— Emprestas-me isso?
encostava-o contra o peito no pavor que lho roubássemos de forma que
quando o preto ergueu a espingarda não se assustou sequer, perguntou
apenas
— Queres brincar comigo?
não se preocupando com o cano da arma nem com o estalo da bala que se
encaixava na culatra nem com o fecho de segurança a saltar, o preto afastou
as pernas apontando melhor, o meu pai com o dedo esticado
— Não tentes o coração que nunca está no mesmo sítio tenta a cara dele
à medida que a minha mãe no quarto, sem o ver, pintava as unhas com
um pincelinho molhado num frasco, se calhar a pensar no belga, se calhar
esquecida, a retirar o excesso de tinta com um algodão molhado, a minha
mãe, de olhos baixos, a soprar nos dedos a fim de que secassem depressa,
de corpo sacudido de repente pela explosão do tiro e a levantar a cabeça
com o algodão na direita e o frasquinho na esquerda, de lábio inferior a
vibrar e órbitas não assustadas, vazias, as órbitas vazias, o queixo tombado,
o que se me afigurou um suspiro, o belga enrolado junto ao jipe, quietinho,
o inspetor da Pide para o meu pai
— Metade do preço nos próximos cinco anos é um bom acordo amigo
cinco anos de cinto um bocadinho apertado passam num instante
e passaram num instante realmente, ao fim de cinco anos já eu me tinha
tornado mulher, eu para a Domingas a mostrar-lhe as calcinhas
— O que é isto?
com medo de estar a falecer de uma doença esquisita e não era doença,
eram dois grãos duros no peito que às vezes me incomodavam, além das
calcinhas a voz diferente, o cabelo grosso, as feições redondas, os gestos
sem ângulos, mais medo de osgas mas menos medo do escuro, a minha mãe
rugas que me surpreendiam e um dos pés lento ao subir as escadas, o meu
pai óculos que não tinha dantes para ler o jornal e o preto da espingarda às
vezes a palma nos rins, vagaroso a obedecer às ordens, com os dedos em
concha na orelha, um dos cães enterrado, a minha mãe a queixar-se
— Já não consigo usar saltos
porque uma dificuldade na espinha ou assim, Malanje maior, mais
automóveis, comboios, mais tropa, a fazenda enorme, o inspetor da Pide a
despedir-se enquanto as hastes do algodão assobiavam no cacimbo
— Estou há que tempos à espera que me chamem já deito Angola pelos
olhos
impedindo-me de dormir, tinha a certeza que vozes ameaçando,
chamando, pedindo aquilo que não imaginava o que fosse, a Domingas
vinha sossegar-me à cama e não cheirava como nós, cheirava a fuba, a terra,
aos mabecos que de vez em quando passavam ao longe de focinho rente ao
chão, escanzelados, a trotarem sem fim consoante eu, mesmo quieta, trotava
sem fim a murmurar, comendo ratos, coelhos, pulando sobre uma fêmea de
mandril que berrava de medo, a Domingas para mim
— Não é nada menina
empurrando-me contra o colchão
— Sossegue
a mão dela raízes de mandioca, não ossos e pele, já não tens força agora a
não ser para dizer-me
— Olha o vento menina olha o vento
porque somos idosas não é, porque já não temos força, porque
morreremos olhando as luzes dos barcos suspensas do nada, escutando a
vazante que não se interessa por um casal de criaturas gastas, cheias de
gengivas na voz, recolhendo com a manga os caniços e as algas da praia,
têm tantos bolsos as ondas e nós lá dentro palavra, o inspetor da Pide
— Talvez vocês voltem como eu para a outra margem um dia
na qual a minha mãe a pensar no belga e o meu pai a compreender que
ela pensava no belga, o empregado da Cotonang para nós
— Vou mandar-lhes mais pretos
do Huambo, do Bié, de Camacupa, do Cuamba, cada qual com o seu
saquito, obedientes, calados, a quem os capatazes distribuíam cubatas a que
faltavam adobe e placas de zinco que impedisse a chuva e os capatazes
espevitando-se com canhangulos e varas, mulheres grávidas, crianças
inúteis, coxos, os chefes de posto para o meu pai
— Não tínhamos mais gente
a jantarem em nossa casa conosco, a aceitarem o dinheiro, a
desaparecerem mangueiras fora na direção do portão depois de contarem as
notas
— Faltam aqui três
e o meu pai a negociar com eles entregando-lhes só uma
— Vêm carregados de doenças não aguentam a safra
a minha mãe lá em cima a pentear-se, liberta do meu pai que não dormia
com ela, mandou montar uma cama de alumínio no escritório
— Essa puta
a lembrar-se do belga, sem falar com ninguém, de modo que a minha mãe
um fantasma de quarto em quarto, em silêncio, escutava-lhe às vezes os
chinelos na cozinha ou na escada, embrulhada num roupão, sempre o
mesmo, que lhe sobrava dos ombros, que lhe sobrava do corpo, sem uma
queixa, em silêncio, não me pedia fosse o que fosse, não falava comigo, em
certas ocasiões, se me voltava de repente, surpreendia-a a espreitar-me, uma
ocasião pareceu-me que
— Filha
e
— Filha
alguma, calada, não existo pois não, não me pareço consigo, pareço-me
com ele, não tenho olhos azuis como o belga, não se lembra de mim em
pequena, não a faço sonhar, a Domingas a abraçar-me quando eu na cama
— Menina
e os caranguejos começavam a subir devagarinho, um após outro, da
praia para mim, canhotos, tortos, teimosos na direção de Angola, em que
margem do mar me encontro agora, diz-me, de onde são estes pássaros, o
belga calado, de gatas no chão, a olhar o meu pai e o preto que puxava o
gatilho sem que nenhum deles falasse, nem as ondas, nem o vento, nem a
nespereira sobre o mar se ouviam agora, o belga sentado no chão contra o
jipe e o preto da espingarda e o meu pai em frente dele, da janela lá em
cima viam-se as fazendas arderem da mesma forma que se encostasse o
ouvido à terra escutava cânticos, batuques, rezas, dizia-se que António
Mariano no Quela, que António Mariano em Mangando que António
Mariano aqui, bandos de gente passavam mais numerosos que os mabecos,
mais numerosos que os mandris, na direção de Dala Samba, na direção da
Chiquita, roubando de caminho a mandioca e o milho, destruindo as casas
dos chefes de posto e os edifícios de adobe das missões, sentiam-se, mais
do que se ouviam, os tambores, as danças, os gritos, explosões de
canhangulo, o vento e olha o vento menina, olha o vento, atrás da nossa
casa, sob as mangueiras, os quimbos dos cozinheiros e dos criados vazios,
os cães miúdos deles por ali ao acaso, arranhando a terra com as patas numa
esperança de grilos raspando a porta das traseiras na ideia de entrarem, com
um casal de pássaros grandes por cima, imóveis e no entanto às voltas, o
saguim, preso por uma corrente a um poste, a coçar-se, os olhos dele ao
mesmo tempo inocentes e cruéis, o meu pai sentado junto à caveira de
hipopótamo na varanda da casa, meio oculto pelas trepadeiras, a apertar-me
o braço
— O que vai ser de ti?
enquanto um bando de sujeitos de túnica, com crianças de túnica
também, passava lá em baixo, o primeiro relâmpago que antecede a chuva,
o segundo relâmpago, ambos sem som ainda, os túmulos dos padres no
pátio da missão a surgirem um a um e a sumirem-se depois, este relento de
liamba, esta desordem do vento, a nossa casa na Baixa do Cassanje tão
vazia senhores, a minha mãe não sei onde e o que vai ser de mim nesta
margem do mar, não sob os pássaros grandes de Angola, gaivotas apenas
que tentavam equilibrar-se na corda de dois ventos, a dona da moradia ao
lado a apontar-me às amigas
— Ainda não acabou de vir de África aquela
e é verdade madame, ainda não acabei de vir de África, lá está o belga a
um canto da picada, imóvel, sem que o levem meu Deus, uma das rodas do
jipe solta que não para de girar, o meu pai molhando um trapo na gasolina
do depósito, a acender um fósforo e a jogar-lho por cima, o inspetor da Pide
— Descanse que a Cotonang manda para a Bélgica uma urna vazia
do mesmo modo que a gente mandava para Portugal tantas urnas vazias,
mesmo se pessoas lá dentro as urnas vazias como se não houvesse estado
ninguém na outra margem do mar, como não está ninguém na outra margem
do mar exceto os caranguejos coxos e a Domingas e eu, quer dizer a
Domingas na porta do quintal a repetir
— Olha o vento menina olha o vento
e as ondas lá em baixo a afastarem-se de nós arrastando a praia consigo,
um pássaro numa rocha, os fiapos do vento, que rio esquisito este, tanta
espuma amarela, a senhora a apontar-me às amigas
— Coitada
enquanto os mandris de colina em colina entre os pés do algodão,
enquanto os pretos do Congo rezavam em bailundo, enquanto o meu pai
— O que vai ser de ti?
e a esquecer-me, nós dois sozinhos na varanda sem olhar um para o
outro, nós dois lado a lado em frente das mangueiras sem morcegos agora,
em frente do macaco escondido no interior da casota e do preto da
espingarda que nos olhava à espera, a minha mãe na porta de repente
— E agora?
para os campos de que ninguém se ocupava, a minha mãe sentada na
varanda sem me ligar, agora igual às pretas com os seus pés descalços e os
seus panos do Congo, a pentear-se em silêncio à medida que as nuvens de
chuva cresciam a leste, a senhora da casa ao lado da nossa para as outras
cadeiras de lona sob o alpendre
— É escusado falar com ela o gato roubou-lhe a língua não deita nem um
som
e é verdade, não deita nem um som de fato, estou aqui sentada à espera
ouvindo o algodão a crescer, ouvindo as ondas não sei se nesta ou na outra
margem do mar, acho que na outra margem do mar, acho que no que sobra,
no pouco que sobra, acompanhada pela Domingas que daqui a nada me
pega no ombro e ordena
— Venha cá.
5
De início, enquanto estava a dormir ainda, pensei no interior do sono
dado que se pode pensar no interior do sono
— Estou a sonhar com as dezassete gaivotas poisadas no armazém do
cais na manhã em que embarquei na outra margem do mar para aqui
porque as notava imóveis como há tantos anos ao longo do rebordo do
telhado a fitarem-me, voltei a contá-las e dezassete de fato, o que é a
precisão da memória, não indo mais longe a última vez que vi a minha mãe,
por exemplo, tinha um vestido amarelo a que faltava um botão nas costas,
aliás lembro-me melhor da ausência do botão que do vestido, as dezassete
gaivotas e mais umas tantas, dispersas, que subiam e desciam os degraus do
vento para além das casas, quase tocando a água, ora perto ora longe e eu
tão longe agora, enrugando-a com a crueldade dos olhos, o que pensam, o
que querem, o que desejam de mim, às vezes com um peixe a torcer-se no
bico e depois a pouco e pouco, à medida que acordava, o vestido substituído
pelo cheiro denso, a papel velho, da lavrazita de mandioca da albina, a
roubar-me as ondas e os pássaros trocando-os por galinhas e cabras,
galinhas cujos pescoços fazem mover as patas e cabras cujas patas fazem
mover o pescoço, não mencionando a terra que parece puxar-nos para as
raízes das árvores onde os mortos habitam, sentem-se os pés a caminharem
sob os nossos, eu para a albina que me fitava da esteira
— Ainda estás a dormir?
e deves estar a dormir da mesma forma que não acordei por enquanto
visto que o meu pai descalço, só com a metade de baixo do pijama
amarrada à cintura com uma fita de nastro, a ensaboar as bochechas, com
um pincel desgrenhado, no espelho sobre o lavatório, depois a afiar a
navalha para diante e para trás numa fita lustrosa de couro, tenho saudades
de um prato de loiça azul com um castelo estampado, preso à parede por
três ganchinhos, como tenho saudades da santa na cômoda, de pé numa
nuvem de barro a olhar para o teto e a gente a falarmos com respeito perto
dela, o meu pai para mim
— Essa conversa é com quem filho?
enquanto a albina me fitava da esteira em Angola na outra margem do
mar sem gaivotas nenhumas nem navios nem casas, quase sem ondas
sequer, a albina no interior do seu pano do Congo que mudava de forma
consoante respirava, ora pequeno, ora grande, ora sem relevo nenhum, ora
devagar se um cotovelo por baixo, afastando-o de súbito quantos membros
achava, fui perdendo as gaivotas numa Lisboa que cessara de haver e o meu
pai a diminuir igualmente tornando-se uma lembrança cada vez mais
imprecisa, mais pálida, dobrado para diante a aperfeiçoar o bigode no
espelho, de início castanho do tabaco, depois castanho e branco, depois
dando-me ideia que postiço como um adereço de teatro, depois embaciando
a cara com o hálito de modo que lhe fui perdendo as feições para sempre,
onde está você agora senhor, se calhar no sítio onde vivemos juntos, tenho
ideia de um triciclo, tenho ideia de um baloiço, tenho ideia de ser mais alto
que você mas se calhar invento, se calhar engano-me, se calhar a sua voz
— Com quem estás a conversar filho?
faz parte do meu sonho sem fazer parte da gente, uma terceira margem do
mar que nenhum de nós alcançou ao passo que da minha mãe conservo o
baton e o vestido e da casa a santinha a aumentar na cômoda, vieram
despedir-se de mim ao cais, receosos das dezassete gaivotas, com a roupa
dos domingos e a cheirarem ao perfume do frasco do quarto, apenas percebi
que me davam pelo ombro, eles sempre tão grandes, porque o meu pescoço,
não a minha bochecha, essa seca, molhado, de maneira que fui esfregando o
colarinho com o lenço à medida que perdia gaivotas, é possível que se
voltar ainda encontre umas quinze, não faço a menor ideia do que esses
pássaros duram como não faço a menor ideia se haverá mais margens, que
não conheço, no mar, o meu pai para mim, a apagar desgostos do nariz
— Se o emprego que te ofereceram falhar temos umas economiazitas no
fundo da lata do açúcar sabias?
e a minha mãe, em lugar de ralhar-lhe, voltando-se de costas com os
ombros a pularem, há alturas em que certas partes nossas se manifestam
sozinhas, existem tantas maneiras diferentes de reagir dentro do mesmo
corpo, ainda estendeu a mão para me coçar o cabelo e não me tocou, tudo o
que encontrei dela foi a boca, cada vez mais distante de mim, que tremia e
ela meteu na ordem a ralhar com o meu pai
— Nem um boné trouxeste enquanto não morreres de insolação não
descansas
apesar de sol nenhum porque o céu cor de farda, não sei se faleceram
visto que desde que estou aqui, neste posto em Marimba, nunca chegaram
cartas, chegavam as camionetas dos agentes da Cotonang carregadas de
pretos que vinham trabalhar no algodão e os milhafres por cima a rondarem
perseguindo as galinhas, António Mariano com os discípulos em
Marimbanguengo depois de atravessarem o Cuango e os cânticos deles a
destruírem as picadas e as pontes enquanto o algodão morria, os primeiros
armazéns de sementes a que pegaram fogo, o vento do cacimbo em
remoinhos de pó, os morcegos das mangueiras a guincharem de medo, eu
para a albina
— Vais deixar-me não vais?
quando o povo começou a abandonar as lavras porque o algodão comia a
terra inteira, a mandioca, a fuba e as cantinas vazias, eu para a albina na
casita do posto
— Vais deixar-me não vais?
e ela quieta a olhar-me no degrau das traseiras, não falava comigo, não
me respondia, nunca me sorriu e no entanto, se te fosses embora, dezassete
gaivotas aqui, quietas no telhado, à tua espera nesta margem do mar, isso
mesmo no interior do meu sono visto que se pode pensar no interior do
sono escutando os cânticos e os batuques de António Mariano, as explosões
dos canhangulos, os hinos, os crocodilos do Cambo não na água, na areia,
os cães selvagens que passavam a latir no capim, o rumor das mangueiras
cada vez mais forte, expulsar os brancos de Angola, expulsar os brancos do
Congo, a noite tornada mais extensa pelos coros das rezas, as casas dos
fazendeiros pilhadas, a polícia da Cotonang a assaltar as aldeias, a tropa e
os aviões de Luanda que chegavam a Malanje, comprei por três ou quatro
cabras, já não me lembro ao certo, a albina ao pai dela, mais um galo para o
soba e mais cobertores para o angolar que traduzia as conversas, tinhas doze
ou treze anos, acho eu, quem consegue adivinhar a idade dos pretos,
enquanto ela fechada numa palhota com as velhas de cachimbo de cabaça
que a guardavam, a tatuagem vermelha e negra do púbis, o peito enfaixado
em panos, o cabelo amarelo e ela calada sempre, indiferente, com a brasa de
um cigarro aceso no interior da boca e ao olhar lembro-me de repente, sei lá
o motivo, da minha irmã que morreu ainda eu não andava na escola e de
quem os meus pais não falavam, tenho a ideia confusa de uma menina
conosco, maior do que eu, a afastar-se na direção da cozinha e mais nada,
não me recordo das feições nem da voz, apenas que uma tarde me fecharam
na marquise
(e se eu falasse nas gaivotas agora?)
disseram
— Depois abro-te a porta
e fiquei sentado num balde ao con
(nas gaivotas)
trário à espera, a olhar a rua lá em baixo, o meu pai a conversar com dois
homens e depois uma furgoneta, depois uma caixa a entrar na furgoneta,
depois a minha mãe a olhar para cima sem dar por mim, depois a voz de
António Mariano a cantar
(isso passado muito tempo)
depois motores que partiam, depois uma voz
— O funeral?
depois, claro, dezassete gaivotas e a margem do mar em Lisboa, depois
margem nenhuma, noite, depois tiros de novo, depois o meu pai na
marquise e a minha mãe na cozinha vestida de domingo, a fazer o jantar, e
depois quatro pratos na mesa, depois só três na mesa, depois o meu pai para
mim
— Não tens sono?
e tinha e não tinha, surpreendido de poder pensar no interior dos
pesadelos, e depois os discípulos de António Mariano a falarem ao povo,
ainda não os aviões, ainda não as bombas ainda não o Exército, ainda não o
napalm na Baixa do Cassanje, estou a contar como foi, não minto, depois
não podia ser, depois podia, depois entregaram-me a albina, depois a polícia
de Malanje a disparar sobre o povo, depois os morcegos a embaterem nas
mangueiras, depois o meu pai para a minha mãe
— Ele não perguntou nada?
depois a minha mãe a calá-lo com um gesto
— Não
depois o meu primo
— Em África ganha-se mais dinheiro
quando eu trabalhava de estafeta nos Correios, a albina veio para a casa
do chefe de posto atrás de mim, sem falar, as gaivotas não me largam,
desculpem, foi ela quem trouxe a esteira e o pano do Congo, António
Mariano falava aos pretos do algodão agitando uma vara de soba e os pretos
— Euá
enquanto os ar, dezassete gaivotas, bustos principiavam a arder e os
sipaios tentavam apagá-los com pás de terra e ramos secos, lembro-me de
cadáveres de cabras, de cubatas tombadas, dos discípulos avançarem de
mistura com congoleses como me lembro dos mabecos assaltarem o gado
desarticulando-lhes a garupa, os quadris, os joelhos, eu para a albina
— Como te chamas tu?
e silêncio, não a olhar-me em silêncio, de olhos baixos em silêncio,
indiferente a si mesma, uma velha também derivado a que tantos anos nos
olhos, tantos anos nos gestos, os dedos dos pés afastados uns dos outros, os
joelhos tão estreitos, o corpo de criança, ao mesmo tempo presente e
ausente sob o meu que criava raízes em ti, nenhuma das tuas mãos nas
minhas costas, nenhum dos teus joelhos enrolado em mim, a tábua
indiferente do peito que me tocava e deixava e ao deixar-me eu sozinho,
sem encontrar o meu corpo, os discípulos de António Mariano batiam-me
no sangue, por que razão não te vais embora, por que razão continuas
comigo, por que te sentas, à noite, na lavra das traseiras, quieta entre a
mandioca e o que sobra do milho, esta lua às vezes incerta de Angola, estas
estrelas que não conheço, estas gaivotas que não há, estas sementes de
algodão à espera, estes grilos, assados num pauzinho, que não sou capaz de
comer, estes sipaios com espingardas antigas que todos os dias me deixam,
chamados pelos discípulos de António Mariano uma vez que sou branco,
até ficar sozinho depois de me pintarem as paredes com sangue de cabrito
vais morrer, vais morrer, já não me lavam a roupa, não me trazem água, não
me dão frangos para a muamba, o comerciante cafuzo de joelhos na cantina
— Por favor não me matem
quando as catanas e os paus se aproximaram dele, a primeira bala nas
costas e ele de gatas no chão, quando uma pedra na nuca, quando um vazio
branco, quando um congolês a roubar-lhe a camisa, quando uma sandália
vazia, quando por fim nada, a minha mãe na manhã do embarque e nada
também, água quase imóvel, manchas de gordura e óleo, um resto de
caixote, ela
— Não te vais esquecer de escrever-nos pois não?
com a cara do meu pai longe do corpo dele, longe dali, dedos que
alisavam o cabelo, verificavam se o sobretudo direito, ajeitavam a gravata
duvidando
— É a gravata isto?
desinteressados da minha resposta, a terra do algodão sem sementes
nenhumas, os sacos das camionetas, que os pretos não traziam,
abandonados, a minha mãe para o meu pai, a compô-lo melhor
— Que falta de cuidado meu Deus
um vitelo que tentava fugir dos mabecos a ajoelhar-se à espera, com tão
poucos dentes na boca aberta, a albina quase ao meu lado, quase encostada
a mim, o meu pai a apertar-me o ombro com os dedos aflitos
— Diz à tua mãe que no fim do ano voltas rapaz tem paciência
e descanse que no fim do ano volto senhora, é um instante, arranje-me
um emprego e eu volto, o que é isso de Angola afinal, pode ter a certeza,
descanse, prometo-lhe que nunca mais saio daqui e a minha mãe
agradecida, aliviada, contente
— És bom filho
os pretos mataram um plantador branco, dois plantadores brancos,
roubaram-lhes as casas, os móveis, os utensílios de cozinha e as gavetas da
roupa, o colono cego, cheio de filhos mulatos
— O que fazemos amigo?
um avião de Malanje tombado num morro e os discípulos de António
Mariano a pularem-lhe em torno, os dois sipaios que eu tinha
— Vamos embora muata
sem uniforme, descalços, repetindo à entrada do posto
— Vamos embora muata
não zangados comigo, com medo, fugindo na direção contrária ao Quela,
para Mussende ou Uaco, com as mulheres, os filhos e um velho numa
padiola, na esperança de desaparecerem na mata com um quimbo, uma
lavrazita, a tranquilidade do crepúsculo, paz, a chuva do cacimbo que
amansava o mundo, um cão de olhos de vidente estendido aos seus pés, um
cheiro feliz na liamba, um cheiro feliz nas mangueiras, uma paz infinita nos
gestos, António Mariano esquecido, a primeira margem do mar em Luanda,
a segunda à espera em Lisboa, a minha mãe quase sem me olhar quando lhe
bati à porta
— Chegaste
e um lugar para mim, entre os meus pais, à mesa
— Felizmente temos umas economiazitas filho
no fundo de uma lata de chá, consegue-se começar um negócio com
aquilo, um cafezito, um quiosque, uma capelista tranquila onde se vendem
utilidades tranquilas, bugigangas, jornais, sobem-se dois degraus para
alcançar a rua e logo este sol, esta luz, esta tarde, felizmente temos umas
economiazitas filho, falando devagar, quase a medo, filho, as gaivotas já
não podem ouvir-nos, a água em silêncio, quase em silêncio, a água em
silêncio no cais, o barco, que não sai do mesmo sítio, em que a gente entra
para descer de novo e no fim da descida uma paz de maio em redor, tudo
exatamente no sítio em que devia estar o gesto de que precisávamos, o
soslaio que nos fazia falta, só me dói o remorso pela albina que deixei em
Angola, estendi-a ao meu lado, no soalho, sob o seu pano do Congo, de
pálpebras abertas mesmo quando fechadas, não deixando de me ver e eu
feliz pela mão com que termina o seu braço, os dedos próximos de um
mistério que não entendo qual seja mas de quem, palavra de honra, a minha
vida depende de modo que provavelmente fico nesta margem, em África, o
que posso fazer, o que posso realmente fazer, sentado tardes a fio numa
cadeira de bordão ao lado da porta, sob uma fila de mangueiras de um lado
e um quartel abandonado do outro, casernas desfeitas da tropa que já não
há, restos de arame farpado, emblemas de batalhões de gesso que perderam
a tinta, duas ou três camionetas sem pneus que se afundam a pouco e pouco
na terra, as cubatas de uma sanzala vazia onde um cachorro que tem
escapado aos mabecos, os morcegos das mangueiras no reflexo da lua,
nenhuma gaivota, claro, nenhum barco, nenhum caranguejo a mancar
escapando-se de nenhuma onda, apenas os remoinhos do cacimbo com
folhas velhas e areia, a albina a lavar a minha roupa e os nossos pratos de
alumínio no rio, as luzes de petróleo ou azeite, juntamente com a claridade
dos grilos, das sanzalas ao longe, a névoa de Lisboa a que não voltarei, a
minha mãe a apontar-me uma embalagem amolgada de chá
— As economiazitas estão aí agora
de vez em quando as camionetas de sementes ou um jipe da Cotonang a
percorrer as lavras, o meu pai à janela a chamar a minha mãe
— Tens a certeza que não é aquele ali a sair da esplanada?
olhando um homem qualquer, muito mais novo que eu e a apontar uma
cara iluminada por um fósforo que se transformava em fumo que se
transformava em nada, a minha mãe à procura dos óculos no roupão que
conhecia desde miúdo e cheirava a tisana e a sono, cheirava a mim em
pequeno ao seu colo e aos medos e ruídos da infância em que a existência
das coisas tão nítida embora não me lembre dos meus pais inteiros, lembro-
me de pormenores deles, uma cicatriz no dedo não sei de quem que se me
roçasse me assustava, uma tosse a meio da noite que me alterava a direção
dos sonhos, uma torneira a cuspir água na pia, não me deixem, não se
afastem de mim, não fiquem, só as dezassete gaivotas, cada vez mais
confundidas com as pessoas, os caixotes, as manchas escuras de água no
cais, economiazitas, filho, pelo menos não vos verei morrer, não saberei de
nada, apenas, meses depois, as condolências do Estado, Estimado Amigo é
com profundo pesar, do Secretário da Administração Civil de Malanje que
nunca reparou, indiano de merda, ainda para mais com uma orelha
defeituosa, na minha mão estendida com a qual por me coçar num sorriso
difícil para que a secretária, uma feia coitada e portanto boa pessoa, o que
havia ela de ser, arrastando um bocadinho a perna no começo das chuvas,
não se apercebesse da humilhação, ela num sorriso idêntico a uma
palmadinha nas costas
— Deixe lá que é a mesma coisa com todos
comparando-me consigo eu que que pelo menos não manco e tenho um
nariz normal, direitinho, numa das últimas vezes em que fui a Malanje
encontrei-a sozinha no mesmo restaurante que eu, felizmente para além do
ordenado tenho umas economiazitas também, ao entrar senti que reparavam
em mim, uma espécie de peso, não bem peso, não sei explicar mas
compreende-se o que digo, a gente sente nas costas e quando damos por nós
já nos viramos a olhar, a secretária, sozinha, a apontar-me com o garfo a
cadeira ao seu lado, como se me perguntasse no mapa os afluentes de um
rio e deu-me a impressão esquisita de ter molhado o rabo ao sentar-me,
oxalá nenhum caranguejo me morda a nádega agora com uma boca feroz
entre duas pinças, morava num largo com palmeiras cheio de pretos a
conversarem sentados no chão, naqueles gestos moles deles, com um riso
sem motivo para riso e uma alegria inexplicável batendo as palmas por
cima, a secretária tirou o cestinho do croché da almofada ao seu lado para
que eu me sentasse, contente de não ser incluído, bordado, no naperon,
voltou para Portugal meses depois e pergunto-me quanto tempo terá ficado
na outra margem do mar com as dezassete gaivotas no rebordo do armazém,
não me esqueço dos dedos dos pés dela, magros, compridos, com o
segundo, em cima do maior, no qual os meus tornozelos tropeçavam, ao
olhá-la das escadas cá em baixo tive pena de nós, não é que quisesse
abraçá-la, apetecia-me apenas, não, a sério, apetecia-me apenas, pode
parecer ridículo, palavra de honra que me apetecia apenas poisar-lhe o
braço no ombro e apertar-lhe a mão, não de homem para mulher, de homem
para homem, apertar-lhe a mão, no cubículo onde morava nem um retrato
de família, nem um naperon feminino, nem um recordação mimosa, uma
jarra de flores, uma boneca de loiça, uma aguarela de ninfas num riacho, a
vida apenas, quer dizer a solidão da vida, um dos peitos maior do que o
outro mas a surpresa do púbis tão suave embora as feições, apenas de perto,
longíssimo de mim, se pensasse melhor nela se calhar comovia-me, por
muito que a gente não mostre isto de viver é difícil, há coisas piores, não
vou dizer o contrário, mas é difícil palavra, via-se tão bem no caso dos
meus pais como era difícil, felizmente temos umas economiazitas filho e no
entanto custa, a gente bem disfarça mas custa, que duros são os dias, que
duro olhar um calendário, olhar um relógio, que maldade nos ponteiros, nas
datas, o que me comovia, palavra de honra, para não ir mais longe, ver os
meus pais comerem, limparem a boca no guardanapo apagando todas as
feições, olharem para mim depois, só de vê-los saírem à rua dava-me, se
assim me posso exprimir, pena, ela de braço no dele e eu pena, bastava que
a minha mãe
— Firmino
porque tão verdadeiro o
— Firmino
para que eu com pena, nenhuma palavra tão sincera como
— Firmino
nenhuma outra palavra que explicasse tão bem, ela
— Firmino
e logo o corpo do meu pai ao seu lado, as economiazitas guardadas na
latinha do chá da despensa, dentro de um embrulho de plástico, o que
pensarão as gaivotas, o que acham elas do mar, as economiazitas vão ajudá-
lo descansem, apesar de tudo uma esperança não é, um apoio, ter economias
talvez auxilie, não morram às vezes, à noite, se acordava de súbito e entrava
na sala com medo do escuro achava-os cada qual na sua cadeira, a minha
mãe a coser, o meu pai a estudar as próprias palmas, à espera, de expressão
semelhante à da albina de cócoras na lavra de mandioca, cavando com um
sachinho na esperança de grilos, nunca lhe escutei uma palavra, nunca lhe
vi um sorriso, às vezes, quando lavava a roupa, uma velha procurava-a no
rio, as duas escondidas num repuxo de caniços e a impressão que a boca
dela se movia perguntando o quê, respondendo o quê, por que razão não
foges como os discípulos de António Mariano, não destróis as fazendas, não
destróis os quimbos, não deitas fogo às pontes, não incendeias o milho e
continuas comigo a ajudares-me a caminhar quando esta perna desiste, a
encostar-me a ti se grito de noite, sem me dar conta, com medo das
sombras, dos passos de quem morou aqui antes de nós, o escuro à medida
que os primeiros soldados começavam a chegar ao Cassanje e os
plantadores brancos cercavam os quimbos, à medida que os aviões de
Luanda bombardeavam os campos, tantas mulatas à noite em Malanje,
tantas janelas acesas, tantos homens fardados na rua, já não conheço a outra
margem do mar, já não conheço Lisboa, onde é a nossa casa senhores, onde
morei com vocês, lembro-me de um chafariz, de escadas, de velhas num
jardim, com gabardinas de homem e cartuchinhos de milho, a minha mãe
um prato de sopa em cada mão
— Onde é Angola filho?
o meu pai na consulta do hospital, com sangue na urina
— Descansem que não deve ser nada grave a partir dos sessenta quem
não tem sangue na urina?
uma vez que tudo se vai gastando não é, os dentes, as pernas, o açúcar cá
dentro
— Nada de açúcar amigo
qualquer coisa num olho que só vejo metade, o meu pai, sem me
perguntar nada, a repetir sozinho
— Angola
ou seja o meu pai ou eu diante da janela sem afastar a cortina e dezassete
gaivotas no cais, dezassete, o pescoço dele tão magro, o cheiro do algodão
que ardeu, o cheiro das cinzas de um lado para o outro na terra, tão magro,
olhado assim por trás demasiado casaco e demasiadas calças para o corpo
que tinha, o olhar da minha mãe, não a boca
— Pois é
e como posso ir-me embora para a outra margem do mar se ele não chega
ao Cassanje de modo que tenho de ficar aqui entre os milhafres e os morros,
as palmeiras junto às quais se enterravam os sobas, em Dalatando o vento
dos mortos arrepiava-me ao descer o capim, percebiam-se brilhos de
panelas velhas, catanas, varas pintadas de vermelho e amarelo, as
camionetas com as sementes à espera, às vezes, ao acordar a meio da noite,
de um sonho confuso, a albina debruçada para mim a fitar-me, o que
pensam os pretos aliás quando parecem não pensar em nada e têm medo de
si mesmos nos espelhos, o que pensarás quando te empurro para o lado e
adormeço, a minha mãe
— Chamas-lhes pessoas?
e a albina começa a procurar, de gatas, o seu pano do Congo, coçando-se
devagarinho para se despir de mim, a tropa de Luanda nas ruas de portas
abertas à noite com um candeeiro lá dentro e uma mulher com uma espécie
de vestido e um único chinelo, um fragmento de chinelo, sentada no
colchão a raspar matacanhas com uma colher de folhas fitando-os através
do cabelo, enquanto os insetos esperneavam de raiva, o meu pai para a
minha mãe
— Gostava de ver o rapaz antes de morrer
quando não lhe interessava nem meia ver-me, foi o modo que ele
arranjou, o idiota, de disfarçar o medo, nada sobrava já de mim na sua
cabeça a não ser a vaga ideia de uma criatura calada
(sempre falei pouco)
à mesa com eles, a minha mãe furiosa com o meu pai
— Tenho a certeza que é teu filho gostas de insultar-me tu?
ao voltar de Malanje para o posto dei com o armazém a arder de uma
fazenda, sombras dançando no chão tontas de marufo e liamba, a
aquecerem os tambores em montes de palha, as caras dos pretos à noite tão
profundas, tão grandes, as narinas, os dentes, pareceu-me ver o professor no
meio deles a cantar como me pareceu que palancas e uma família de
mabecos a vigiá-las do capim, empurrando-se, mordendo-se, o dono de uma
fazenda veio no sentido da Chiquita com dois jipes de brancos armados, um
velho com um bastão de soba aproximou-se deles, tombou de joelhos e os
pretos atrás do velho de repente parados no instante em que os mabecos
principiavam a galopar na direção das palancas, pendurando-se-lhes dos
cachaços, mordendo-lhes as patas, escorregando das garupas e voltando a
assaltá-las, uma metralhadora desatou a disparar atrás de uma missão
abandonada enquanto os pretos corriam nos arbustos do algodão que lhes
prendiam os panos com os espinhos compridos, um homem de joelhos
estendeu-se-me para o jipe sem conseguir agarrá-lo, tudo parecia um sonho,
entre estampidos e fumo enquanto os jipes aumentavam na picada, vindos
da vila acho eu, os agentes ordenavam aos pretos
— Para trás para trás
tentando juntá-los num terreiro de sanzala e os discípulos de António
Mariano a murmurarem quietos num dialeto do Congo, recordo-me de
crocodilos de boca aberta na areia do rio e dos pássaros que lhes passeavam
nas escamas a bicarem, não gaivotas, claro, nenhuma margem aqui, apenas
terra e árvores e mulheres a correrem, uma com o filho escarranchado à
cintura a dizer-me
— Muata
e a avançar para mim, a estender-me a criança, a roubar-ma quando eu ia
pegar-lhe, a ir-se embora, garantem que os pretos são todos iguais mas não
me esqueço deste, da barriga, das pernas finas, do cabelo quase sem cor da
mesma forma que o meu quase sem cor agora, eu que desde a reforma vivo
no Namibe, nesta ponta do mar, com o café junto à praia e a cantinazinha, a
albina ajuda-me quando o joelho recusa, uma maçada qualquer numa
artéria, disse o enfermeiro, que este clima não é para nós, o sangue
engrossa, amigo, mas a viagem cara e há imensos anos que não conheço
ninguém em Lisboa, viveria de quê, a minha antiga namorada a fechar-me
uma moeda na palma, sem me reconhecer dado que não me pareço comigo,
já velha como eu
— Tome lá
por você claro, não por tu
— Tome lá
sem olhar para mim, a olhar as nódoas na gravata
— Tome lá
e eu, sem vergonha, a aceitar a moeda, reconheci-a por causa do sinal no
lábio, uma borbulhinha castanha que me fazia impressão, que patetice, se
lhe tocar talvez se pegue que horror, quem me vai querer depois, eu a ir-me
embora com a moeda e o que ainda aguenta do sapato arrastado, os agentes
da Cotonang a ordenarem aos pretos
— Para trás para trás
e as espingardas, e um disparo de bazuca, e o repuxo vertical de terra que
uma granada erguia, e os pretos a fugirem empurrando-se uns aos outros, e
os discípulos de António Mariano a reunirem-se de novo, e uma jangada de
congoleses a desembarcarem lá em baixo, e relâmpagos em
Marimbanguengo, e um quimbo deserto com uma única galinha, dessas
minúsculas deles, a bicar por ali, a minha mãe
— Felizmente ainda temos umas economiazitas filho
e o vento, não sei porquê tanto vento, tanta folha no pequeno cacimbo,
mangueiras que rodopiam, este nevoeiro de súbito, uma jiboia junto ao rio
com metade de uma cabra de fora, uma mensagem pelo rádio a oferecer
sipaios, como guias, à tropa, umas economiazitas, filho, sempre são uma
ajuda, o meu pai a sorrir-me
— Cresceste
e eu contente de haver crescido, mando em vocês, sou grande, o nariz do
meu pai mais baixo que o meu, as sobrancelhas erguidas para me ver
melhor, o primo dele
— Que idade tens rapaz?
e o meu pai logo, sem me deixar falar
— Quinze
orgulhoso de mim, eu aborrecido
— Isso só em outubro
a minha mãe, felizmente do meu lado
— Treze de outubro às nove horas da manhã
às nove horas da manhã, recordo-me de um ursito de borracha e de uma
ambulância de lata com um dos pneus, sempre a soltar-se, perdido sob a
cômoda, nós três de barriga no chão a apanhá-lo com o cabo da vassoura, a
minha mãe
— Assim não se consegue
e a vassoura a aparecer juntamente com a tampa doirada de um frasco, a
minha mãe surpreendida
— Andei semanas à procura desta tampa palavra
guardando-a no bolso do avental e ao pôr-se em pé
— Que é dela?
os bolsos e as mãos vazias, comigo abismado com os mistérios da vida,
às vezes vem-me a impressão de sentir a outra margem do mar, com tanta
espuma como esta, com tantas ondas como esta, quando as primeiras
nuvens da chuva começam a acotovelar o cacimbo e os nossos ossos
gelados na direção do norte, a albina sentada sozinha num caixote do
quintal, não cresce nunca, essa, não irá crescer nunca, o administrador de
circunscrição
— Preferia que ela não morasse consigo temos de dar o exemplo
um paquistanês de Moçambique, gordo, grande, sempre de chibatinha no
ar, a quem a Cotonang pagava pelos pretos que os chefes de posto traziam,
apontando cada cabeça com o dedo, cento e vinte, quarenta e sete,
trezentos, metidos nos restos de cubatas da safra anterior com a avioneta a
vigiá-los dos morros, recebi a confirmação pelo rádio de que a tropa de
Malanje vai sair amanhã, que a Força Aérea chegou de Luanda, que os
quimbos a arderem e os discípulos de António Mariano fugindo para o
Congo, que os mortos enterrariam os mortos e tudo em ordem de novo, tudo
tranquilo, tudo em paz, as colinas tão brancas, António Mariano, sem
discípulos, na cadeia em Malanje, os pretos perseguidos pelo napalm, as
bombas, corpos que as hienas levavam, deem-me a minha margem do mar,
deem-me as minhas gaivotas, os meus caranguejos avançando na praia e o
seu coxear implacável, eu no quintal com a albina, isto é a mandioca, o
feijão, as galinhas no barracozito de arame, tão enfezadas, tão miúdas, o
meu pai para a minha mãe
— Achas que ele volta tu?
numa Lisboa que não sei como é, já não conheço as tipuanas, as ruas, já
não sei onde se mora, que é dos pombos de antes, marquises e marquises
onde ninguém nos espreita o meu pai
— Já é tarde não achas?
e tem razão senhor, é muito tarde já, o que faria eu convosco, metido no
meu quarto a observar a parede à espera de quê, a escutar os grilos do
quintal em África chamando chamando, no caso de se lembrar de mim a
minha namorada
— Foi para Angola coitado
a minha namorada
— Ao princípio zanguei-me
a minha namorada
— Depois tive pena
a minha namorada
— Depois claro esqueci-o
mas terá esquecido de fato, a gente nunca esquece pois não, o meu pai,
por exemplo, não cessa de pensar na prima que casou na província e agora
viúva, tontinha, sempre
(tão ridícula)
com um chapelito de pena quebrada, a mostrá-lo aos estranhos
— É bonito não é?
orgulhosa, contente, repetindo
— É bonito
enquanto se afasta, os discípulos de António Mariano a aproximarem-se
da gente
— Euá
com canhangulos inúteis e uns cacetes sem préstimo, a prima do meu pai
a compor a peninha
— É bonito
ao mesmo tempo que as gaivotas, dezassete gaivotas, abandonam uma a
uma o telhado do armazém, giram sobre a água escura do rio, afastam-se,
regressam, onde estou eu ao certo enquanto a minha mãe, no sofazito,
apanha o cesto da costura, retira lá de dentro as agulhas, os novelos o
bocado já feito que continua a crescer, debruça-se para diante com os óculos
no nariz, na expressão serena que sempre me acalmou, olha-me por cima
das lentes
— Miúdo
numa espécie de sorriso sob sorriso nenhum, contente, tranquila, desejosa
de acabar a minha camisola antes que chegue o outono porque a umidade,
porque a chuva, porque os meus pulmões sempre foram fraquinhos,
piscando o olho à albina
— Tens de ter cuidado com ele
antes que durante uma porção de dias andes para aí a tossir.
6
Como nunca mais regressei a Angola estou aqui em paz, julga a minha
mulher, a gozar a reformazinha em Lisboa, depois de quarenta anos no
Exército, no apartamento que em má hora herdamos dos meus sogros, com
uma claraboia lá em cima suja de pombos e nuvens
não sei qual destas duas coisas embacia mais os vidros como não sei qual
arrulha ou passeia as patinhas na minha cabeça, sei que a partir do primeiro
piso os sapatos duas bolas de chumbo de condenado às galés e eu abraçado
ao corrimão, entre dois patamares, na esperança que os pulmões, que me
saem pela boca, se dignem voltar ao peito consentindo-me avançar uns
degraus cambaleantes
(no que eu me tornei)
na direção do enfarte e alcançar o capacho num desmaio final, a que se
segue a luta entre a chave sempre a mudar de bolso, com asas parecidas
com as das nuvens e dos pombos, diabos levem o mundo, e a ranhura que se
escapa, ora mais alta ora mais baixa, ora mais à esquerda ora mais à direita,
um dia destes tenho de pôr-me de joelhos porque ela junto ao capacho ao
passo que com a minha mulher se oferece com paixão, a aumentar na
madeira
— Estou aqui
(recebeu de certeza dos meus sogros o amor que lhe dá e a embirração
que me destina)
e portanto eis-me no apartamento a cheirar a velho que de início pensava
ser dos pais dela e agora acho que é meu, devo haver-me tornado, com o
tempo, uma arca de sótão tão cheia de polainas e rendas a que se acrescenta
o bolor de álbum antigo dos meus setenta anos, repleto de fotografias de
bicicletas de bigode e carrapitos severos, com Prima Alexandrina e uma
data antediluviana, enfeitada com espirais a tinta roxa num canto, no tempo
em que os ornatos violeta e os anzóis de cabelo na testa embelezavam o
mundo, bisavó Ascensão, tia Natividade, a risca ao meio do padrinho
Aureliano, ferroviário, numa exatidão cuidadosa, no apartamento dos meus
sogros onde as nuvens arrulham e os pombos trazem março e a chuva,
existe sempre alguma coisa perfidamente avariada, uma torneira que pinga
insônias às duas da manhã, um cano roto a seguir os desníveis dos azulejos
na cozinha, o autoclismo a funcionar sem ajuda numa independência
vulcânica, a campainha da rua que só toca quando não lhe carregam,
havemos de falar um dia, com tempo que estes assuntos são graves, acerca
da perfídia dos objetos inanimados porque nunca encontrei nada mais cruel,
tenho meia dúzia de opiniões acerca da conjura deles, comecei por dizer
que nunca mais fui a Angola e portanto não faço ideia como estará Malanje
agora, talvez menos distante do mar, talvez no mesmo sítio e os túmulos
dos sobas nos montes em torno, talvez os pretos, sem os portugueses por
perto
— Tuga tuga
convencidos que mandam, os idiotas, eles que mal falar sabem
— Euá
com os americanos a fazerem o que lhes apetece no que diz respeito ao
petróleo, aos diamantes, ao algodão, à terra, tudo o que aquilo dá sem que
se mexa uma palha enquanto os escarumbas sentados a fumarem mutopa à
entrada das cubatas, já não nus, de anel e gravata, com o automovelzinho
cheio de antenas e faróis ao lado, esperando que os trocos deixados pelos
brancos lhes vão caindo em cima, moradias arrebicadas, não cubatas, onde
a gente adormece de mistura com esteiras e galinhas, ou nada disto se
calhar, a miséria de antes, prédios a caírem, lixo, cotas, centenários de
cachimbo, eu para a minha mãe
— Devia comprar um
e ela a olhar para mim sem me entender
— Estás a falar em cachimbos?
enquanto as nuvens caminhavam claraboia adiante, a estrada de Salazar
que se transforma de súbito em mato e aldeias de cabras, galinhas e crianças
nuas sentadas no chão, os morros ao fundo com os túmulos dos sobas no
alto, em círculos de palmeiras cheios de silêncio, a missão dos padres
espanhóis onde um sujeito de batina branca podava um limoeiro, as mãos
deles sempre mais macias que as nossas, não entendo porquê, deve ser a
intimidade com o Divino Espírito Santo, as esposas dos oficiais a
conversarem nas cadeiras desconfortáveis da messe sem olharem a gente,
espiando os alferes novos que as espiavam a elas, a minha mulher a subir de
novo da revista, em Lisboa
— Um cachimbo?
comigo a pensar porque diabo casei contigo meu Deus, tímida, magrinha,
a corar se eu falava, voltavas do cabeleireiro com vergonha de mim,
passando muito depressa na direção do quarto
— Não repares
e encontrava-te diante do espelho a tentar desfazer o penteado com a
escova arrependida
— Pareço um carneirinho mé mé
de pescoço para diante onde eu outrora um beijo e agora beijo nenhum,
uma palmadinha no ombro às vezes e tão distante logo, mesmo à mesa
havia alturas em que demorava a reconhecer-te, não sei a quem pertence
este nariz, estes gestos, a sensação de que te encontrei e te perdi não sei
onde, que te esqueci há que tempos, quem foste tu, quem és agora, a tua
maneira de pegar nos talheres enervava-me, a tua maneira de mastigar
enervava-me, o teu cotovelo esquerdo sempre em cima da toalha enervava-
me, a dentadura postiça do teu pai a estalar se jantávamos com ele, e
jantávamos com ele aos domingos, até os dedos dos pés me fazia dobrar,
arrepiados, se suspeitava que ia rir-se encolhia-me todo porque me
acotovelava e detesto que me acotovelem, sobretudo quando me amolga a
barriga logo abaixo das costelas de modo que tu sempre aflita quando o
visitávamos, saías de lá exausta de tomar conta de nós a espreitar-nos
fingindo não espreitar, farta de cotovelos, farta de barrigas, a pedir em
silêncio
— Não o mates
com medo que eu agarrado à faca do queijo num grunhido assassino,
aquela com a ponta da lâmina para cima terminando não num bico, em dois
bicos letais, o baton da tua boca a suplicar um
— Por favor
constante, ias duas ou três vezes ao quarto de banho assoar lágrimas de
aflição no espelho, quase me davas pena juro, quase me apetecia cochichar-
te
— Não lhe faço mal descansa
com um sorriso que desejava tranquilizador e no entanto tinha a certeza
que com imensos dentes assassinos ao léu, aposto que se os visse num
reflexo qualquer me assustava também, o general
— Temos cá a Força Aérea amanhã e começamos segunda-feira a meter
as coisas na ordem quero tudo isto em paz numa semana no máximo
comigo a pensar, pela firmeza da voz, que os comprimidos do médico já
faziam efeito, a amiga para mim, surpreendida
— Começa a parecer outro palavra
a sobrancelha direita mais carregada que a esquerda, costas mais sólidas,
os gestos mais pausados, uma segurança nova na voz, talvez não fosse mau
consultar agora eu o doutor porque das duas ou três vezes, desde que
regressei a Lisboa, ou seja esta margem do Tejo e as dezassete gaivotas em
fila no telhado do armazém, não dezasseis nem dezoito, dezassete, conto-as
de novo e dezassete sempre, das duas ou três vezes que acompanhei
senhoras a lugares discretos, partindo do princípio que as pensões discretas,
senti uma preguiça, se assim me posso exprimir, um desinteresse, uma
moleza a que não estava habituado, uma hesitação compridíssima, um
desempenho medíocre que necessitou de ajudas alheias, estímulos vários,
elogios, impaciências
— É para hoje?
o general de almofada encostada à cabeceira da cama, crucificado de
orgulho no lençol
— O resto do corpo pode ter envelhecido mas em baixo tenho vinte anos
menina
enquanto as camionetas da tropa não paravam, um ou dois comboios, a
pista de aviação aumentada, mapas pregados com tachas no gabinete do
comando, cheios de riscos vermelhos e azuis, a amiga do general para mim
— O que o velho se assanhou até tive medo que lhe desse uma coisa
enquanto os pretos continuavam a destruir pontes e a queimar armazéns,
nunca pensei vir a ter saudades de Malanje e a sério que tenho, meu Deus a
falta que me faz o cheiro das mangueiras, caminhar pela avenida sem que
os ossos dos joelhos tropecem uns nos outros nem as costas me doam neste
sítio ao fundo da espinha, não há dúvida que aqui em Lisboa as nuvens
sujam mais a claraboia que os pombos, o meu sogro desamparou-nos a loja
há que tempos, ocupado a babar-se num lar, com um chinelo que o encanta
a desfazer-se na mão, reuni-me com os comandantes das companhias e os
pilotos a explicar-lhes as operações enquanto os discípulos de António
Mariano continuavam a atravessar o Cuango, com soldados congoleses,
sem uniforme, misturados naquilo, a vida ensinou-me que os pretos, as
mulheres e os cães nunca agradecem o que fazemos por eles, olha a minha
mulher de boca aberta a sofrer os calores da menopausa, sacudindo-se com
a revista que tinha na mão a servir de leque, sufocada pelos vapores das
glândulas, eu de pé no gabinete do general explicando os movimentos dos
tropas, porquê dezassete gaivotas sempre, porquê aqueles olhos cruéis,
porque não quinze ou vinte e duas, no quintal da casa do meu pai, por
exemplo, um melro, os comandantes de companhia nenhuma pergunta,
nenhuma dúvida, entendem tudo aqueles, já nasceram espertalhões, já
nasceram vivaços, a amiga do general sempre desculpas agora
— Não me sobra tempo para nada se sonhasses o que tem sido a minha
vida entendias
e com o general e um tal capitão Ramos por acaso até sonho, levar as
tardes a correr de uma pensão mais cara para uma pensão mais barata não
custa acreditar que canse, despir, banho, vestir, despir, banho, vestir e isto
tudo sem trocar nomes nem preferências mói, se ao menos o general se
divorciasse e não se divorcia ou o capitão quisesse descasar e não quer,
garanto que se trabalha muito mais quando não se tem emprego, as pessoas
deviam pensar nisso e não pensam, respeitar esta canseira e não respeitam,
tratar-me com deferência e não tratam, não sou uma prostituta, passo o que
sobra das noites no mesmo quarto alugado, a olhar pela janela o silêncio das
árvores, com a cara cheia do creme das rugas e as manhãs, de óculos, a
ajardinar as sobrancelhas com uma pinça cromada que dói, despindo-me
pelo a pelo do que não são olhos quando o que eu queria, às vezes, era ser
ceguinha, não saber, não dar por isso, não me interessar por mim mesma,
ajudar os meus pais no café em Esposende com as ondas, uma a uma, a
acabarem em mim, as ondas, parecendo que não, a espreitarem-me sem que
eu adivinhe o que pensam, o comandante da Força Aérea para o general
— Claro que sim claro que sim
a propósito do apoio que podiam dar-nos e o esfoliante e o napalm,
vestido com uma espécie de fato macaco com galões para fingir que ainda
voava, a partir dos cinquenta já não têm mão para aquilo e eu agora, em
Lisboa, setenta e um palavra, não se acredita mas eu mais velho que o
general em Angola, mais velho que o brigadeiro, a minha mulher às vezes
uma massagem nas pernas e ganas de pedir-lhe
— Toma conta de mim
porque volta e meia me falta o equilíbrio, porque tropeço em degraus,
porque as tardes no inverno me custam, ainda existirá Angola na outra
margem do mar, ainda existirá até a outra margem do mar que só conheci ao
chegar a Luanda e quando me vim em, toma conta de mim, bora pássaros
brancos em Luanda, tão grandes, saindo das palmeiras, voltando às
palmeiras, as cabanas na ilha em frente com roupa de mulher a secar entre
elas, decidi partir com a primeira companhia em direção a Quela onde os
discípulos de António Mariano queimaram, cantando sempre, as instalações
da Cotonang e os postos da administração enquanto a manhã crescia, de
baixo para cima, ao longo das palavras e dos trilhos aumentando o capim, o
céu transparente ainda sem nuvens de chuva, a lua a dissolver-se
devagarinho entre duas árvores, manchada de ramos, parecida com a
claraboia do teto do prédio cheia de sombras de pombos, onde estou eu ao
certo, uma perna contra a minha na cama, uma bochecha amolgada no
travesseiro soprando uma palavra confusa que a fronha dissolvia antes de
chegar a mim, os dedos da minha mulher, de repente sem sardas nem rugas
quase a tocarem-me o ombro, a lembrança súbita de uma fotografia tua,
numa moldura de metal a fingir prata, ao centro do naperon na cômoda da
sala, escondida de timidez atrás de ti mesma, protegida por um sorriso
postiço, quase do teu tamanho, que me impedia de ver-te
(se eu riscasse a película com a unha aparecerias por trás?)
o mesmo com que me contaste a notícia da médica que talvez tu qualquer
coisa no peito e o sorriso
— Desculpa
a aguentar-se, a tremer, a aguentar-se de novo e não fui sequer capaz de
um beliscãozito camarada na bochecha, fiquei a olhar, ao mesmo tempo, os
discípulos de António Mariano cada vez mais próximos de nós a cantarem,
para o pedido de exame e para ti, isto com pupilas independentes, cada qual
para sua banda como os camaleões, estranhando que a casa igual, a rua
igual, o sujeito do prédio em frente à janela com o mesmo pijama azul e os
mesmos botões trocados, como de costume sem se interessar por nada, ali
apenas enquanto eu perguntava
— E agora?
não por amor a ti, claro, por receio de ficar sozinho, desejando que a
amiga do general, já não nova também e portanto menos exigente, tivesse
regressado a Esposende que não deve ser assim tão, disse ao comandante da
companhia que saíamos às oito da manhã e saímos às oito da manhã,
comigo o capitão Ramos, o jeitoso, na viatura da frente, o primeiro
relâmpago a leste e o cheiro da caixa de fósforos da cozinha da minha mãe
no ar, com os fósforos usados também lá dentro de mistura com os novos,
Esposende dizia eu, quer dizer pensava eu, não deve ser assim tão grande,
ao fim de uma semana na rua já se encontrou toda a gente e ela não devia
ter mudado tanto que a não reconhecesse, aqueles modos, aqueles olhos,
aquela forma de andar, a minha mulher surpreendida
— Parece que ficaste alegre de repente
e não fiquei alegre de repente, fiquei um bocadinho esperançado, livrava-
me da fotografia da cômoda e entregava a tua roupa à paróquia a fim de que
o padre a distribuísse pelos pobrezinhos que acreditam em Deus, aliás são
sempre os pobres que acreditam em Deus, os ricos não precisam, é fácil,
com uma conta no banco, acreditar nos juros o que não é muito diferente,
vontade de pedir à minha mulher que me deixasse escrita a receita de
bacalhau dela, dezassete gaivotas, e já agora me explicasse como a máquina
de lavar roupa funciona, eu que costumava ligar as coisas elétricas com uma
palmada, curioso como os objetos inertes se enfrenesiam de imediato,
desejosos de nos agradarem, com uma simples palmada, nunca vi nada mais
medricas que um eletrodoméstico, a mesma coisa com as lâmpadas que se
fingem fundidas, a mesma coisa com o televisor que simula avarias, não sei
porquê Esposende faz-me pensar em nevoeiro e frio, até ao fim da vida terei
sempre diante de mim a minha mulher sentada no sofá, com o papel da
médica na mão, a olhar-me, não triste, não aflita, não zangada, a olhar-me
somente, com aquele vestido, aqueles sapatos, aquele cabelo de súbito mais
descuidado, a aliança tão sozinha no dedo, sem nenhum anel a fazer-lhe
companhia, que de repente me comoveu, a perguntar como quando, saímos
do quartel de Malanje às cinco da manhã, nos casamos, a mim tão nervoso
como ela
— Não vais magoar-me pois não?
a mim que pensava
— Como é que eu faço?
tentando alargar devagarinho a gravata, embaraçada no nó que de repente
me apertava em lugar de desfazer-se
— E agora?
nunca vi ninguém tão sozinho como tu nesse dia e eu a sentir de súbito,
apesar de estares ali, a tua ausência em toda a parte, a boca que de vez em
quando tremia um bocadinho, uma espécie de sorriso que bem tentava,
coitado, aguentar-se, comigo a pensar
— Nunca vi um sorriso tão pobre
como nunca vi uns sapatos tão pobres, um vestido tão pobre, um cabelo
tão pobre, um anel tão pobre, o teu pai a puxar o lenço das calças na igreja,
a olhar que tempos o lenço, a pensar para que serviria aquilo, com os
pombos e as nuvens da claraboia do prédio na ideia, não existe nada mais
importante no mundo do que, eu na segunda viatura, o tal capitão Ramos na
terceira, as árvores de Malanje às escuras ainda, os pombos e as nuvens da
claraboia a crescerem, daqui a nada acabou-se Malanje, daqui a nada a
mata, daqui a nada a picada, daqui a nada os discípulos de António Mariano
a cantarem, daqui a nada a chana do Quela ao longe, o pai da minha mulher
no altar também, a assoar-se, a minha sogra baixinho
— Jorge
os soldados a baloiçarem nos carros, o teu pescoço que me pareceu tão
estreito, uma veia na testa que se fechava e abria
(na tua testa ou na minha?)
a minha voz independente de mim
— Aposto que o exame vai dizer que isso não é nada
enquanto a médica aumentava para ti no corredor, as primeiras árvores da
mata, o primeiro capim, uma cantina abandonada e a médica continuando a
aumentar no corredor, de estetoscópio ao pescoço, com um
— Bom dia
no braço estendido
— Ora cá estamos nós
e cá estávamos nós de fato, cá estava eu a pensar
— E agora?
cá estavam as nuvens e os pombos a aumentarem sempre, cá estavas tu a
concordar ao meu lado
— Ora cá estamos nós
cá estava o apontador de metralhadora a montar o tripé, mulheres de bata
verde entre duas portas, uma mesa vazia encostada à parede, a minha sogra
baixinho para o meu sogro
— Tem termos Ernesto
o capim da manhã com um ventinho em cima, árvores, deu-me ideia que
um bicho pequeno a desaparecer numa cova, começamos a subir uma colina
com os primeiros pássaros a fugirem de nós e a primeira chuva dentro do
cheiro do gasóleo e dos soluços dos motores, Esposende na outra margem
do mar portanto gaivotas de certeza, caranguejos, frio, mais empregadas de
bata verde, uma maca vazia, um telefone embutido na parede a tocar sem
que ninguém respondesse, eu finalmente a desabotoar a camisa
— E agora?
tu fechada no quarto de banho, aposto que sentada no bidê, imóvel, sem
tocar na roupa com que te casaste, a perguntares também
— E agora?
ou a escrever a receita do bacalhau numa página rasgada, puxada do
caderno das contas da casa que alisaste com o cutelo da mão, se eu a
encontrar depois do funeral, e oxalá não encontre, fico a olhá-la horas, de
vez em quando fazes erros sabias, de vez em quando faltava uma palavra,
de vez em quando a tinta a falhar, tem de se ler pelos vincos, a amiga do
general a chamar-me apontando uma linha
— Não percebo isto aqui
e eu com a mão no ombro dela, não no teu e de óculos, claro, a partir dos
quarenta óculos, o pai do Pinóquio, olha lembrei-me disso, óculos, como se
chamava ele que a memória começa a faltar-me, eu tentando decifrar, eu
para a amiga do general
— Nunca aprendeu gramática como deve ser coitadita
por exemplo as duas ou três cartas que recebi dela, em tantos anos um
com o outro, uma confusão de emendas e riscos, a mesma coisa a passar o
ferro, por exemplo, na camioneta atrás da nossa tanta espingarda e a
metralhadora oscilando no tripé, um quimbo deserto à esquerda com uma
cabra a trotar para longe de nós, uma primeira ponte intacta, uma segunda
que um furriel experimentou e aguentava conosco, os relâmpagos mais
próximos, o início da chuva, gotas que se esmagavam na gente, muito mais
escuras que a água, muito mais pesadas, uma chefia de posto sem ninguém,
uma aldeia deserta, esteiras de mandioca ainda, arbustos de liamba, um
garrafão tombado, África tão grande agora, as árvores, os passos, o que me
pareceu um bicho a escapar-se entre dois troncos caídos, uma enfermeira de
bata verde chamou a minha mulher de uma porta entreaberta e fiquei ali, no
corredor, à espera sem nenhuma cadeira nas redondezas, primeiro apoiando-
me num pé, depois no outro, depois encostado à parede com macas a
passarem de vez em quando por mim, criaturas de socas a conversarem em
voz baixa
— E ele disse o quê?
segundas criaturas empurrando um guarda-vento com a palma
— Já te conto
apontando-me com uma sobrancelha para cima e a boca em funil
— Já te conto
enquanto um tenente gordo ao meu lado ia estudando um mapa, de tampa
de esferográfica na boca
— Agora temos cinco quilômetros de picada melhor
com os soldados atrás de nós em silêncio, chocalhando uns contra os
outros, tantos cantis, tanta ração de combate, tanto caixote de munições, a
porta que se fechou sobre a minha mulher um quadrado de vidro fosco à
altura dos olhos com uma claridade leitosa por trás, de vez em quando
vozes que não se percebiam, a roda empenada de um aparelho qualquer, um
aviso
— Não é esse é o outro
e um som de coisa arrastada, a minha mulher uma ausência que pela
primeira vez me custava, eu que em tantas ocasiões desejei que me
desaparecesses da frente, encontrava-te sempre ao chegar a casa, ensurdecia
com o teu silêncio, não te escutava as perguntas, continuavas a utilizar a
loiça dos teus pais e as florinhas ridículas impressas nos pratos, a medalha
de esmalte cor-de-rosa, com Tarzan & Jane senhores, tenham pena de mim,
o sino da igreja, dois quarteirões a seguir, com uma melancolia de outono
mesmo em junho, provocava uma tristeza de doença enchendo-me de folhas
mortas e flores desmaiadas, o que estarão a fazer-te agora
— Não respire
do que estarão à espera
— Deite o ar fora devagarinho
o que terão
— Um momento
o que terão encontrado, apetecia-me proteger-te mas de que maneira,
impedir a maldade do mundo e não sei como se faz, andar com o tempo ao
contrário mas em que botão se carrega, as camionetas da tropa subiram um
morro a baloiçarem, com os soldados agarrados uns aos outros, e
principiaram a descer entre oscilações de carroça, uma sanzala em
torresmos, outra sanzala em torresmos, uma aldeia de leprosos nas
imediações de um riozito com um cão miúdo a seguir-nos, nunca ladram em
África, existem em, Tarzan & Jane, silêncio, Tarzan & Jane que horror, às
vezes, a dormir, afagavas-me as costas e sacudia-te logo com o cotovelo de
arame farpado com que te sacudia sempre, recuavas sem um protesto, não
te queixavas, torna não torna, se calhar engano-me e Deus queira que me
engane, parecia-me, estou enganado de certeza, parecia-me que choravas,
quer dizer um soluço, quer dizer um soprozito, uma lágrima que a fronha
apagava entre duas pestanas e, a propósito de pestanas, para quê essa linha
ridícula, tantas vezes desenhada, tantas vezes apagada com um bocado de
papel higiênico ao comprido das pálpebras, levava-o para a casinha na
ponta de dois dedos e despejava-lhe logo uma carga furiosa de autoclismo
em cima, ficava a vê-lo rodopiar antes de sumir-se, adeusinho, lá vão os
teus desgostos no sentido do Tejo com dezassete gaivotas, todas em fila, à
espera no armazém com aqueles olhos maldosos, aqueles bicos ferozes,
aquela expressão de raiva sem piedade e entretanto começamos a encontrar
as primeiras plantações de algodão destruídas, um trator a que faltavam
rodas, um armazém desmantelado ainda a cheirar a petróleo, a túnica de um
discípulo de António Mariano oscilando de uma vara, a impressão de
escutar cânticos ao longe, a ideia que tambores fazendo eco na terra, de vez
em quando pássaros, de vez em quando o que pareciam macacos, de vez em
quando não sei que bichos
(papagaios?)
nas árvores, os cânticos mais próximos, os cânticos mais longe conforme
o vento e a direção da chuva que levavam e traziam não as vozes dos pretos
a acabarem com as sanzalas, a roubarem os postos e as cantinas, a
desfazerem os depósitos de algodão e as missões protestantes, a minha
mulher passou por mim empurrada por um maqueiro de socas, uma criatura
de olhos fechados com um frasco de soro a baloiçar-lhe por cima, um
médico todo canetas no peito e estetoscópio ao pescoço atravessou o
corredor de um gabinete para outro, um dos tubos de flúor do teto
pestanejou, apagou-se, acendeu-se de novo, o soldado que conduzia a nossa
camioneta, de costas para mim, ia dançando aos saltos a cada desnível da
picada, três palancas a trote paralelas a nós, atrás de uma das portas do
corredor um homem a rir-se e a suspender-se de súbito com a voz a
sublinhar-lhe o silêncio
— Nunca mais cresces tu
seguida de sons metálicos que eu não entendia, graças a Deus nunca
tivemos filhos, disseram na clínica que não havia problemas com ela,
propuseram-me exames que fui adiando até deixares de falar nisso e embora
não falasses via-te as palavras nos olhos ou por cima do croché porque,
mesmo de nariz na agulha, a boca mudava num dos cantos e eu
— Cala-te
sem que me respondesses, a tua mãe uma ocasião
— Vocês
e logo uma tosse tua e silêncio, não uma tosse forte, apenas o som a
limpar a garganta e a tua mãe embaraçada
— Não é que me esqueci do que ia dizer?
a mexer ninharias na carteira, o porta-moedas, cartões, a tua mãe para ti,
de súbito interessada nas agulhas
— Hás de ensinar-me esse truque
o cadáver de um sipaio na picada, com o Quela já perto dado que as
primeiras lavras, um cheiro de liamba, colinas de algodão abandonadas,
pássaros que se afastavam e nisto um tambor, dois tambores lá para trás,
disparos, nenhum disparo, um cântico à esquerda, não sei onde, que
principiava a crescer, diminuía, recomeçava ganhando força, euá, euá, a
terra uma pele de tantã distante que nascia a vibrar, eu para ti, perdão, eu
para o condutor
— Deixa a picada nessa curva vamos entrar por trás
porque nenhum rio no esquema a impedir-nos, nenhum pântano a travar-
nos, os oficiais e os furriéis foram passando a mensagem, como os nossos
ossos dançavam senhores, tem duas margens o mar e nós tão longe de
ambas, não tive filho nenhum porque já me chega a minha vida, nuvens
negras quase pegadas às árvores sem explodirem ainda, tem duas margens o
mar e ninguém me espera em nenhuma salvo as gaivotas, é claro, que não
esperam ninguém, odiando-me, odiando-se, o que elas gritam em maio, a
minha mulher apareceu por fim, ainda a compor a gola, não morreu vá lá,
acompanhada por uma senhora de bata cheia de canetas e agendas e uma
espécie de livro, de páginas marcadas por papelinhos coloridos, na algibeira
gordíssima, eu para ti calado, quer dizer só com as narinas maiores
— Por favor compõe o cabelo e endireita essa manga
eu com vergonha de ti, deixa de pedir perdão ao mundo, não te desculpes
aos outros de continuares viva, a senhora de bata a sorrir-lhe
— É um alívio não é?
a transferir o sorriso da minha mulher para mim, não trazia pulseiras nem
cachuchos, trazia um relógio quase de homem, é lésbica, é lésbica, de
certeza que é lésbica, como o mundo está cheio desta gente estranhíssima,
de modo que me surpreendeu que a voz dela suave
— Graças a Deus tudo bem acabou-se o sustozinho
ou então é uma freira dessas que não usam hábito e vivem como toda a
gente a fingirem-se normais, cheias de modernices, rezando às escondidas,
a espécie de livro com papelinhos coloridos deve ser uma Bíblia, sabem
aquilo de cor, uma ocasião abri a da minha mãe e dei logo com Jesus a
anunciar
— Eu sou a Porta
imagine-se, a senhora de bata para nós e a lesbiquice a surgir-me de novo
na cabeça, qual a diferença, aliás, entre uma freira e uma lésbica, nunca
usam saltos nem se pintam, eu sou a Porta, ora toma, se tu és a Porta, ó
Jesus, eu sou o postigo das traseiras e adeusinho
— Em todo o caso faz-se uma revisão em junho ou julho para ficarmos
completamente descansadas a partir dos quarenta não é deve tomar-se
atenção
e à medida que nos afastávamos dela continuava a senti-la parada lá atrás,
cada vez mais lá atrás, tão sozinha quanto nós, nítida no corredor
iluminado, cheia de canetas e agendas e Bíblia medindo as pessoas com um
aparelho qualquer, encha o peito de ar, pausa, deite o ar fora, pausa, encha o
peito de ar, pausa, deite o ar fora, pausa, encha o peito de ar, pausa, deite o
ar fora, pausa, numa voz distorcida, seguindo nódoas escuras e claras que se
afastavam e uniam, tudo isto através de um microfone que lhe distancia a
voz, com uns óculos de armação antiga que pareciam dilatarem-se e
encolherem-se também, comparando as nódoas com películas a preto e
branco de exames anteriores, rodeada pelos discípulos de António Mariano
que lhe pulavam em torno cantando, vozes que principiávamos a escutar
das camionetas, que escutávamos, cada vez mais fortes, da picada, no
centro de uma aldeia rodeada de quimbos onde centenas de criaturas
dançavam no cheiro do marufo e da liamba e das explosões dos tambores,
com calcanhares a furarem a terra e soluços e gritos e risos e ordens e
bichos degolados e fogueirinhas e marufo e crianças a baterem em latas
com pedaços de ramos e as palmas dos velhos e galinhas e cobras e vozes
antigas de mortos e a amiga do general para mim
— Hoje não tenho tempo desculpa o dentista a costureira uma amiga
doente na próxima semana talvez
sem sorrir para mim, sem me tocar quase, sem me ver sequer e não num
quarto de hospedaria, na rua, dentro de uma blusa que eu não conhecia e um
penteado diferente, de cor diferente que não a melhorava nem piorava, a
transformava numa estranha afastando-se na direção de uma esplanada,
onde não íamos nunca, na qual um homem sozinho a olhar como se não nos
visse e pelo menos a mim não me vendo
— Não me vê não me vê
a quem ela explicava que eu um parente qualquer ou o marido de uma
amiga sempre a pedir-me que fale com ela na esperança de ajudar a compor
as coisas entre eles, vocês fazem asneiras e depois arrependem-se porque os
homens não crescem, tão cretinos, tão parvos, sempre com tendência para
mentiras idiotas, basta um rabo de saia a abanar para estragarem a vida e
depois ó tio ó tio com a gente e
— Desculpa
e
— Dá cá um beijinho
como se o beijinho resolvesse e depois um cachucho que pensam que a
gente pensa ser caro e se vê logo que não vale um tostão, e depois chamam
as nossas amigas eles que até embirravam com elas
— A tua sócia nem para atacadores que horror
amabilíssimos, simpáticos, de beicinho a tremer, dá aí uma mãozinha,
tem paciência, que ela gosta de ti, ela ouve-te, pela alma de quem lá tens
resolve-me esta maçada e a gente, claro, temos pena das pessoas, não
prometo nada, vamos ver se consigo mas põe-te a pau com a escrita e
aprende bem a lição, faço um milagre de cada vez, curo os cegos uma vez e
chega, eles a fingirem que uma lágrima onde lágrima nenhuma
— Juro que não te vais arrepender
e fazem-nos uma festinha no lóbulo da orelha já hesitando, os cretinos, a
gente a sacudi-los
— Estás totó da cabeça ou fazes-te?
eles a caírem em si
— Não é o que tu pensas palavra
e de fato não é o que a gente pensa mas é o que eles pensam, os cretinos,
julgas que tenho ilusões, o joelho da amiga do general, sob a mesa, contra o
joelho do homem e sabendo, claro, que contra o joelho do homem, que
hipocrisia esta vida, as camionetas entraram em Quela com as
metralhadoras, as bazucas e as espingardas apontadas aos pretos que
continuavam a dançar com os discípulos de António Mariano e os
feiticeiros à frente, até crianças, até velhos caquéticos, até aleijados, as
cabras e os cães a fugirem e galinhas degoladas correndo ao acaso a
esbarrarem contra uma vara de palhota e a caírem esperneando, sacos de
sementes da Cotonang vazios no chão, garrafas de cerveja quebradas, os
angolares, nus da cintura para cima, dando ordens aos saltos, não apenas
sacos de sementes, sachos, machados, catanas, um sipaio com um
canhangulo quebrado, o cheiro do tabaco, o cheiro do marufo, o cheiro dos
relâmpagos mais próximo agora, dei ordem aos soldados para se apearem
na posição de fogo, os oficiais e os graduados à frente, numa espécie de
meia lua diante da sanzala, mandei trazer a bazuca para junto de mim,
ladeada por duas metralhadoras e um lança-granadas um bocadinho atrás
enquanto dois aviões surgiam entre as árvores, os discípulos de António
Mariano
— Não matam não matam só deitam água na matam
as dezassete gaivotas no armazém de Alcântara, inquietas, à espera, e a
margem do mar contra a pedra, suja de palha e óleo, a bater, a bater, tanta
escama de luz, tanto relento de óleo, tanto pedaço de caixote a aproximar-se
e a partir, a amiga do general, de costas na esplanada, a beliscar num risinho
a bochecha do homem
— Seu maroto
inclinada para a frente a aumentar o decote batendo na mão do sujeito
uma palmadinha indignada
— Sabe-la toda não é se eu acreditasse em você
e a barriga das pernas, palavra de honra, perfeita, um bocadinho, só um
bocadinho é óbvio, de ombro ao léu que avançou e recuou numa lentidão
pensada, tudo aquilo, enfim, que a minha mulher não tem, o corpo
encolhido no sofazito, o peito já sem força o cabelo sem brilho, essas rugas
que o tempo vai cavando nos lados do nariz, na testa, no pescoço como os
perus do Natal, a médica lésbica, ou freira, ou as duas coisas sei lá, com o
relevo imenso
(Eu sou a Porta)
da Bíblia na bata, a sorrir para nós
— Deviam jantar fora e comemorar
eu a escutá-la com dificuldade porque a bazuca, as granadas, a
metralhadora, porque os cânticos, as bombas do avião a tremerem e a
caírem, os discípulos de António Mariano
— É só água não mata
à medida que tombavam também
— É só água não mata
a minha mulher no automóvel
— Não é preciso jantar fora que exagero faço-te qualquer coisa aqui em
casa
eu que não me lembro de alguma vez ter estado num restaurante contigo,
que maçada um restaurante contigo, os dois em silêncio o tempo inteiro, o
que podias dizer que me interessasse, pronto, está bem, já não é mau não
ires morrer e talvez não te apeteça morrer ainda, não sei, nunca me passou
pela mona perguntar e se por acaso me faltasses desde que estivesse aí a
receita do bacalhau garanto que não me fazia diferença, ou seja acho que
me sentia tão perdido que não me fazia diferença e portanto já agora, se não
te importasses, se não for um sacrifício muito grande para ti, se pudesses
dar-te a essa maçada, pela alma de quem lá tens e quero lá saber do
bacalhau, o que me interessa o bacalhau, pela alma de quem lá tens e
detesto implorar assim, que horror, onde é que eu pensava implorar assim,
enche-te de paciência para comigo, vinte anos de paciência, aliás, já são
obra mas se for preciso peço-te de joelhos, contigo aí à porta, peço-te de
joelhos que não me deixes nunca.
7
Claro que Angola continua comigo nesta margem do mar, basta que
espreite em torno para ver as mangueiras à roda da casa e descobrir os
morcegos a dormirem nas copas, mais pequenos que os frutos que não
gritam nem voam, pendurados de si mesmos embrulhando-se nas
sombrinhas das asas à espera da noite para me girarem em torno, dizem que
os olhos deles cegos, são os guinchos que veem, como basta que me levante
para encontrar a casa e o meu pai no alto dos degraus dando a impressão
que a sorrir-me ele que não sorria nunca, fechado como sempre no interior
das feições a esconder-se de mim, com vergonha de ser criança como eu de
modo que a pistola no coldre à cintura me pareceu um brinquedo, se por
acaso carregar no gatilho de plástico tem de fazer
— Pum
enquanto dois dedos contentes da mãe o despenteiam ao passarem por ele
a caminho da cozinha
— Estás a matar o dono da mercearia agora?
que não aceitava que levassem fiado
— Eu não sou rico dona Margarida
isto na margem do mar onde estou, claro, muito longe de Angola, numa
vila do norte da qual a sua infância só recordava a chuva, os pinheiros e a
chuva, para além do senhor Casimiro, é evidente
— Eu não sou rico dona Margarida
de bata de riscado e sem a última falange do mindinho esquerdo de que o
meu pai se lembrou até ao fim da vida, a pensar admirado
— O que a gente guarda na cabeça meu Deus
porque as coisas importantes não se pegam à memória, é óbvio, são as de
cacaracá que não nos largam nunca, o mindinho de um velho qualquer,
palavra de honra ou as gotas de água a tremerem no rebordo das telhas a
seguir à chuva, o meu pai a pensar, diante delas
— Qual vai cair primeiro?
e nunca era a gota que apontava, uma segunda mais longe e o meu pai
surpreendido que nenhum estrondo ao esmagar-se na terra, a vizinha
corcunda que morava por baixo a espreitar de um janelico
— Estás a olhar para quem?
de vasculho na mão, desinteressada das coisas essenciais da vida, gotas
por exemplo ou o fato de a noite, em lugar de começar no céu, ir subindo da
terra, já hora de jantar nos pés e da cintura para cima tanto dia ainda, um
milhafre da montanha num círculo largo palpando o ar com as asas na
esperança que o meu pai se distraísse e ele o levasse nas unhas como levava
os pintos, um reboliço no quintal e o milhafre a erguer-se logo, cheio de
músculos nas penas, o meu pai refugiado no avental a minha avó,
afastando-o com o cotovelo
— O que é isto?
convencido que a mãe uma galinha de bico aberto a ameaçar o milhafre,
elas, que fogem da gente, de súbito sem medo, o meu pai a pegar-me ao
colo
— Menina
de boca num sopro morno quase no meu ouvido e eu contente, Marimba,
Marimba, isto entre a Chiquita e Marimba e eu garota, eu contente, cheirava
a algodão, cheirava à outra margem do mar, cheirava à cama da minha mãe
às vezes, ao cabelo dela quando acordava, descendo mais o lençol e
procurando-me baixinho
— Não está por aí a miúda?
de cabeça a afastar-se da almofada e as pupilas amarelas a vasculharem o
quarto enquanto as costas do meu pai diminuíam e aumentavam, com o
nariz e o queixo desaparecidos na almofada, o meu pai, só nuca e sopros, a
prevenir
— Está quase
de vez em quando um calcanhar, de vez em quando uma nádega, pelos
nas costas onde a minha mãe nenhuns, a minha mãe uma voz que
empurravam e puxavam, ora presente ora ausente, ora presente ora ausente,
ora presente ora ausente
— A miúda?
de súbito afogada, de súbito ali, de súbito afogada de novo, a voz um
caranguejo a tentar salvar-se das ondas, a conseguir, a não conseguir, a
conseguir, a voz dela ainda não bem a voz dela, a encontrar-me
— A miúda
enquanto o meu pai se amontoava lentamente ao seu lado numa espécie
de morte ou de sono, a voz a tatear as palavras como se as usasse pela
primeira vez
— A miúda o quê Nossa Senhora?
e eu ofendida por não se ralar comigo, por ao pegar-me ao colo e ao dizer
— A miúda
e aposto que não sentia nada que horror, mentia-me, fingia, tentava
beijar-me e eu não me aperte, não corra atrás de mim, escondida na
despensa ou agachada atrás do sofá para que não me despenteasse, eu a
escapar pelas mangueiras adiante quase até ao portão porque não tínhamos
muro mas tínhamos portão, a meio da picada o portão e toda a gente entrava
e saía por ele, quem não gosta de portões ainda por cima com grades
doiradas, ainda por cima com lanças pequeninas, ainda por cima com dois
pilares de cimento, cada qual com o seu leão de pedra, onde se encontra
pedra no outro lado do mar em que tudo respira e a pedra sem pulmões tal
como os crocodilos pulmões nenhuns, só escamas, com um olho verde de
um lado e um olho verde do outro ou se calhar não são olhos porque não
fitam a gente, ali vazios, estagnados, os olhos verdadeiros devem ser as
narinas abertas lá na ponta, o meu pai para a minha mãe
— Deixa a miúda em paz
se ela ralhava comigo e afinal tanta indiferença, estendida na cama a
respirar muito fundo, com um brilho de prega do pescoço e uma das palmas
voltada para cima no que parecia um pedido incompleto, ela que não pedia
fosse o que fosse a ninguém, se eu tivesse paciência talvez metesse a minha
lá dentro, de leve, sem a acordar, não por amor é óbvio, que amor, acho que
não gostei de ninguém até hoje, para o que faço na vida uma só mão chega
e sobra dado que me limito a apanhar caranguejos e a devolvê-los à areia,
onde estão os olhos deles, onde param os dentes que nunca os vejo, com
que parte da casca pensam, sinto a Domingas lá atrás na cozinha como a
sentia em Angola só que já não me pegava ao colo, tão magra, com o
mesmo cigarro, desde que a conheço, enfiado ao contrário na boca de modo
que de vez em quando uma nuvenzinha de tabaco a apagar-lhe as feições
— Olha o vento menina olha o vento
como de vez em quando o seu corpo atrás do meu a olharmos juntas esta
margem do mar a que faltam palmeiras, a que faltam os pássaros grandes,
de pescoço comprido, de Angola, a que faltam as nuvens longas, escarlates,
do crepúsculo sempre às seis horas da tarde e nós duas de repente,
invisíveis no escuro como se não existíssemos, vontade de chamar
— Domingas
e a sombra das mangueiras a comer-me a voz, vontade de chamar
— Domingas
como agora vontade que estejas aqui e não me deixes nunca, por favor
não adormeças enquanto eu acordada na cama ao teu lado, no único quarto
que temos, com o mar lá em baixo não cessando de chamar-me
— Olha o mar menina olha o mar
de modo que chego a perguntar se existimos de fato e no caso de
existirmos quem fomos depois das plantações de algodão principiarem a
arder a seguir às mangueiras, os gritos fosforescentes dos morcegos, os
últimos animais, a criação, os cães escapando-se pelas traseiras no sentido
da picada, o meu pai a vestir-se à pressa enquanto a minha mãe o fitava da
cama
— Tu
e eu a ouvir-lhes melhor as vozes no espelho que no quarto, o
— Tu
no espelho diferente do
— Tu
no quarto porque os espelhos canhotos e portanto
— Tu
não bem
— Tu
e com os animais a fuga dos pretos que trabalhavam na casa, o
cozinheiro, os criados, o jardineiro que ressuscitava os arbustos com um
movimento das palmas em cálice e que se por acaso morrêssemos nos
ressuscitaria também, vi tantos defuntos sentados nas aldeias a olharem a
gente, na sanzala Santo Antônio, na sanzala Macau, nas duas sanzalas da
Chiquita logo acima do rio e em Marimbanguengo, em Mangando,
enquanto as plantações de algodão continuavam a arder, com as árvores em
volta aproximando-se a pouco e pouco das chanas, a dobrarem-se, a
torcerem-se a arderem também, os primeiros leprosos a fugirem lá de baixo,
da água, caminhando de gatas sobre os troncos disformes, as caras sem
nariz, sobrolhos que faltavam, velhos seios vazios que as feridas comeram,
pretos descalços entoando hinos, com túnicas feitas de sacas de sementes,
sipaios fugidos aos chefes de posto, de canhangulo, entre eles
— Aiué mamá aiué mamá
e mamá nenhuma, de cachimbo, algumas de bochechas tatuadas, a salvá-
los, pretos iguais aos caranguejos desta margem do mar, caminhando de
patas tortas na direção do Congo, na direção da gente, a minha mãe, que
continuava deitada, para o meu pai que tentava calçar-se confundindo os
dedos com os atacadores, puxando o cabelo para trás com a vassoura do
pulso
— Nem a tua filha respeitas
com o belga da Cotonang ainda na ideia, não viu o jipe, não viu o corpo,
compreendeu tudo, a meio do jantar, nos olhos do meu pai e o queixo dela a
tremer, o queixo dela de repente a tremer, o guardanapo atirado para cima
da toalha, os sapatos escada acima
— Odeio-te odeio-te
na direção do quarto, a porta a
(Eu sou a Porta)
explodir nos gonzos, o meu pai para mim, continuando o jantar
— Não tens fome?
e não sei se tenho fome senhor, não dá pela minha mãe a chorar, não dá
por objetos quebrados no sótão, não dá pela voz dela
— Odeio-te
que, de tão baixinha, se ouvia mais que os trovões, como os cochichos se
ampliam, como os segredos nos ensurdecem enquanto o meu pai verificava
o cinto e o coldre da pistola olhando pela janela o preto da espingarda em
pé junto ao jipe e julgo que só então dei conta de uma rasgadura numa das
calças e manchas escuras não de terra, o que parecia sangue e a caveira do
hipopótamo lá fora, no alto dos degraus, tão grande de súbito, os buracos
dos olhos enormes, os das narinas, o queixo, o macaco preso ao poste a
subir arrastando a corrente e a coçar-se no alto troçando de mim, abraçado
ao prato de alumínio da ração, se não havia comida batia-o contra si mesmo
a chamar-nos, de braços arregaçados a uivar, acordava de noite escutando lá
fora o tinir dos anéis de metal que o prendiam e ao procurá-lo na janela não
achava ninguém, só a luz rápida dos morcegos de mangueira em mangueira,
não bem as silhuetas, as vozes deles iradas ou seja os guinchos que lhes
serviam de bengala apontando bichos pequenos na erva, lagartos, ratos,
pássaros minúsculos, reboliços de osgas mas nenhum caranguejo a coxear
de banda nos saltos altos das patas, tropeçando penedos fora até chegarem à
praia, de tempos a tempos a Domingas varria-os mais para longe com eles
perguntando-se, cegos, em que margem do mar estavam quando
compreendiam que não África aqui porque tudo estreito, mais pálido, mais
tímido, tudo sem violência nem pressa, tudo pequeno até o vento, a chuva, o
calor, a morte sem os defuntos a dançarem conosco, felizes de marufo e
liamba, que ela engole à pressa para nos esperar de imediato, de imensa
boca aberta, a seguir, comigo a lembrar-me do berço vazio na cave onde a
minha mãe não entrava, uma ocasião, em pequena, abri sei lá porquê, com
mãos que não se me afiguravam as minhas mas que achei nos meus braços
e se moviam na ponta das minhas mangas como as outras, a gaveta de baixo
de uma cômoda cheia de roupa de criança e fotografias e brinquedos e um
boneco de feltro e sapatos ainda mais pequenos que os meus nesse tempo e
retratos de uma menina parecida comigo mas que não era eu, de certeza que
não era eu porque um sinal que não tenho na bochecha direita e os olhos,
embora iguais, claros, enquanto os meus escuros com pestanas mais densas
e nisto a minha mãe, surgida não sei de onde, do nada como o deus Zumbi
durante os funerais, quer dizer não bem a minha mãe, uma criatura grande,
violenta, informe, a puxar-me com força o cabelo, a empurrar-me para trás,
a bater-me na cabeça a gritar
— Não toques na minha filha
cerrando a gaveta com força enquanto eu principiava a chorar, a minha
mãe, imensa, odiando-me, quase a bater-me, quer dizer a minha mãe e não a
minha mãe a detestar-me
(Eu sou a Porta)
— Não toques na minha filha
ou seja uma mulher que eu nunca tinha visto, as sobrancelhas,
desenhadas a lápis, de súbito mais grossas que as do macaco no topo do
poste, de pelo eriçado, com todos os seus mil incisivos ao léu, a uivar contra
os cães que o aguardavam lá em baixo ou os discípulos de António Mariano
a esmagarem as sementes do algodão e a ameaçarem os brancos, dezenas,
centenas, milhares de caranguejos subindo praia acima, nesta margem do
mar, para mim
— Não tornes a tocar na minha filha
cheia de lágrimas entre a cômoda e eu, ora gigantesca ora frágil, pronta
ao mesmo tempo a bater-me e a abraçar-me, tão indefesa, contra si, a minha
mãe um caranguejo de súbito minúsculo desejoso de se me esconder na
mão cochichando
— Se sonhasses o que é a minha vida
de súbito sem força, vencida, apontando-me uma criança quieta, tão
pálida, vestida de domingo, sobre a colcha da cama, de sapatinhos brancos,
vestidinho branco, o cabelo, quase loiro, penteado não como o das meninas,
o cabelo quase loiro arranjado como o das senhoras, o cabelo com a idade
que eu tenho agora e o resto dela dois ou três anos, frágil, incompleto, quase
não sendo ainda, a minha irmã que não conhecia, não conheço, não
conhecerei nunca, a minha irmã para a qual a Domingas também
— Menina
e para quem, se ela estivesse aqui, igualmente
— Olha o vento olha o vento
nesta casa de pobres que o salitre, a pouco e pouco, vai desmantelando
sob o inverno e as ondas, sem nenhuma fotografia, nenhuma cortina,
nenhum tapete, apenas as paredes que se desfazem inverno fora e o teto
cada vez com menos telhas, uma única lâmpada pendurada de uma trancita
de fio, o meu pai, na outra margem do mar, afastando a minha mãe de mim
— Deixa-a lá
segurando-lhe os pulsos, segurando-lhe os ombros, o meu pai de pijama
aberto
— O que é isto?
enquanto eu os olhava do chão a tentar entender, enquanto a Domingas
me pegava ao colo, me cobria com o lençol, apagava a luz e me espreitava
da porta
— Dorme menina
a Domingas sempre a espreitar-me da porta
— Menina
e os pretos a dançarem na sanzala de Marimba
— Menina
velhas que rodopiavam curvadas, homens que esticavam a pele dos
tambores inclinando-os para uma fogueirita e recomeçando a bater
— Euá
e o cheiro do marufo, o cheiro do marufo, o cheiro do
— Euá
marufo, mandris a correrem ao longe, uma manada de palancas que os
mabecos perseguiam, hão de apanhar uma cria, hão de rasgar-lhe as patas,
filar-lhe a espinha e tombá-la no capim, a minha mãe de boca escondida no
ombro do meu pai
— Quero a minha filha
num soluço para ele
— Ajuda-me
e no dia lá fora as mangueiras enormes com os frutos dos morcegos a
crescerem nelas e o vento para a direita e para a esquerda baloiçando as
mangas enquanto as ondas em baixo tão longe de Angola, a minha mãe para
mim
— Desculpa
mais nova do que eu
— Desculpa
a tentar beijar-me
— Desculpa
enquanto o meu pai, descalço, a levava para o quarto e eu com pena dele,
com pena dos dois, tanta pena dos dois, o meu pai para o mulato da rua das
mulheres, em Malanje
— Quero aquela
a fim de se esquecer de quem era, de recomeçar do princípio a emendar
os dias, ele que viera para África na ideia de nascer de novo e apenas
— Quero aquela
aprendendo a morrer num cubículo sujo, de paredes enodoadas de
fungos, roupa velha em monte a um canto e uma santinha de loiça a tremer
numa prateleira dado que o pavio de uma lamparina acesa a ia sacudindo,
dobrando, torcendo, a compunha de novo e a santinha a fitá-lo indiferente
enquanto o meu pai se despia a escutar lá fora estrondos, risos, conversas,
uma porta
(Eu sou a Porta)
a fechar-se, um motor a desaparecer numa esquina, a minha mãe
debruçada para mim a meio da noite
— Perdoa
não vestida, em camisa de dormir, descalça, com o cheiro da carne, tão
vivo nela, de quando não tinha perfume, não da pele, o da carne mesmo por
baixo que agitava o meu pai ainda na sala, de nariz ao alto, visto que logo a
seguir
(o cheiro do mar em Angola muito mais intenso que aqui, as margens tão
diferentes)
visto que logo a seguir a minha mãe baixinho para que eu não percebesse
— Agora nem penses tem paciência
(tão diferentes)
dado as pessoas não entenderem que os cochichos mais ruidosos que os
gritos, som de molas de colchão, sons de coberta, a minha mãe, mais forte e
portanto mais tênue
— Eu disse agora não não ouviste?
e a gaveta da cômoda onde escondiam a minha irmã a agitar-se, a gaveta
da cômoda em segredo e eu com medo dela
— Podíamos ser amigas sabias?
não me atrevendo a abri-la, talvez pudéssemos ser amigas de fato, brincar
juntas, crescer juntas, conversar disto e daquilo, jogarmos pedaços de fruta
ao macaco no poste, ora para baixo ora para cima agitando ainda mais as
argolas, olharmos ambas os caranguejos e essa chuva triste, a Domingas,
inquieta
— Tome cuidado com os mortos menina
porque sabe-se lá o que querem de nós, a minha irmã que ficou na outra
margem e eu com ganas de dizer-lhe
— Mana
escondida numa gaveta que não sei se existe ainda, diante das colinas
brancas do algodão e do frio do cacimbo, das mangueiras imóveis e dos
mandris lá em baixo trotando para o rio, a minha irmã comigo não a
chamar-me
— Menina
a dizer o meu nome, há quantos anos, meu Deus, não oiço o meu nome, a
senhora da casa ao lado, quando vem aos domingos, um aceno rápido
apenas enquanto o marido nem um olhar sequer, sentado numa cadeira de
lona, em calções, escondido no jornal, reduzido a um bonezinho verde em
cima das páginas e as pernas magras debaixo não uma ao lado da outra,
uma sobre a outra, ambas de chinelos, um deles assente na terra, cheio de
dedos, com a cicatriz de uma queda em criança que de vez em quando
esfrega devagar, a segunda baloiçando como os ramos da nespereira, aposto
que muito menos magras que as da minha irmã que nunca vi, se por acaso
perguntasse
— Como era a minha irmã?
Tenho a certeza que a Domingas calada, se calhar é o vento que afasta as
palavras e a impede de
— Olha o vento olha o vento
e a impede de ouvir, mesmo que tome atenção, e tomo atenção, palavra
de honra que tomo atenção, não consigo escutar os meus pais, há alturas em
que apostava que conversam mas se calam ao verem-me, substituem as
palavras por um sorriso ou uma espécie de tosse, não bem tosse, um raspar
de garganta que significa
— Está ali a miúda
que significa
— Cuidado
com o vento a principiar nas mangueiras ou numa nuvem a leste, para
além do algodão, trazendo a chuva consigo porque qualquer coisa diferente
no ar, uma espécie de umidade, um bafo de calor, um tom mais claro nas
árvores, o meu pai para o preto da espingarda apontando-nos às duas
— As minhas filhas
e a cara do preto bifurcada pelo golpe de catana do sorriso, a Domingas
quase com pena de mim, com pena de mim
— Menina
enquanto as folhas do jornal do vizinho ganham um som de copa ao
mudarem de página, com o bonezito verde escondido lá dentro, minha irmã
a apontar-me os caranguejos que tropeçavam na areia
— Isto é que é a margem de que tu me falavas?
sem entender os penedos, sem entender os barcos ao longe, sem entender
este mar cinzento e a espuma amarela conforme eu não entendia o algodão
queimado devorando as colinas e as cinzas para cá e para lá empardecendo
a manhã, a minha mãe esquecida da gaveta da cômoda
— Vocês duas nunca param pois não?
e de fato não paramos senhora, se corrermos mais depressa que os dias
nenhum ponteiro de relógio nos apanha, palavra, a minha mãe tentando
fazer as pazes comigo quase pronta a tocar-me, um beijo, um abraço ou isso
e no entanto incapaz de aproximar-se, durante todo o tempo em que estive
com ela incapaz de aproximar-se
— Um dia ficas grande e com filhos e então vais entender
e não sei porquê eu quase vontade de lhe pegar ao colo, apertar-lhe os
dedos que descobriram um botão esquecido na blusa e tentavam prendê-lo
sem acertarem com a casa, a minha mãe de súbito tão indefesa, tão nova,
tão sozinha, palavra que me dá pena vê-la tão sozinha, senhora, nada no
mundo é mais órfão do que os olhos às vezes, ali perdidos na cara sem
ninguém que os ajude, desejosos de se abraçarem à gente
— E então vais entender
sozinha no meio das mangueiras, da plantação, dos morcegos, ela que
veio para Angola aos seis anos com os pais e ainda se lembra de Lisboa
— Uma cidade tão grande
e das dezassete gaivotas no cais de embarque ao partir poisadas uma após
outra ao longo de um telhado não contando as restantes sobre a água em
círculos compridos, todas cinzentas e brancas, os bicos delas meu Deus, as
patas como os chinelos do senhor do jornal, os gritos curtos que a
magoavam por dentro, a minha avó a protegê-la dos pássaros
— Não vão levar-te descansa
e depois o marido encontrado em Malanje, a fazenda, os mandris,
ninguém que a acompanhasse, o que me vale é esta escova com a qual me
penteio, eu diante do espelho sem me habituar a mim
— Que queres tu?
e depois a minha filha a ajudar-me a nascer, a boca dela que me mordia o
peito, o sorriso por fim, dezassete gaivotas senhores que não tornei a ver,
vejo falcões e morcegos, os morcegos nas mangueiras e os falcões de
braços abertos, à espera, o enfermeiro indiano da Cotonang para a minha
mãe
— Nestas idades o paludismo
com o meu pai à porta do quarto sem se atrever a entrar, misturando os
dedos uns nos outros baralhando-os, perdendo-os, a contá-lo devagar,
dezassete dedos, dezassete gaivotas sem mencionar aquelas que voavam
sobre a água cinzenta, o enfermeiro indiano uma injeção, duas injeções e os
cabelos molhados da minha irmã presos à testa, às bochechas, a boca aberta
que se afastava, tão distante na almofada, tão longe, a minha mãe para mim
— Tu
e era o
— Tu
que me abraçava, não ela, ela com medo que eu morr igualmente, ela
com medo que eu morr e não morr, prometo que não morr nunca, estamos
nós duas e a minha mãe aqui, oiço os vizinhos e os amigos dos vizinhos a
conversarem no terraço aos domingos, de feições escondidas no creme
branco para o sol e de chapéus de palha com fita colorida
(não preciso de chapéu de palha, sou preta, enfim quase preta, enfim
gostava de ser preta para o
— Olha o vento Domingas olha o vento)
com nenhuma das dezassete gaivotas a fitá-los, com apenas o cão
minúsculo da amiga a trotar por ali, inquieto, medroso, de patas inseguras,
farejando um quadradito de relva já não verde, amarela e lambendo-a com
as patas, gostava de ser preta para dizer
— Olha o vento menina olha o vento
feliz por me ocupar de alguém enquanto os caranguejos iam aumentando
impedindo-me esta margem do mar de modo que eu em África sempre,
sentindo o algodão não por fora, no interior do meu corpo porque eu terra,
eu raízes, eu chuva, eu um eco de kissanje perdido na mata, eu aquele
silêncio a rebentar de sons, eu as constelações diferentes daquele céu que
perdi, eu a agradecer
— Euá
a presença do mundo, eu chuva, eu a crescer no capim, o meu pai de
espingarda também porque os discípulos da António Mariano se
aproximavam da gente, tinham passado o Quela, tinham destruído as pontes
do Lucala e do Cambo e incendiado os armazéns da Cotonang mais
próximos, as armas dos brancos não matam, deitam água senhor, nenhuma
luz nas cubatas dos pretos que trabalhavam conosco, as lavras de mandioca
secas, as de milho desfeitas, uma cabra a balir numa sanzala vazia e daqui a
nada os mabecos, dois ou três bastavam, a abrirem-me de golpe, quero
voltar para África Domingas, agora que sou velha quero voltar para África,
não sei se existe a casa na Baixa do Cassanje ou o hipopótamo no topo dos
degraus e o pó do silêncio a amolecer tudo embora em Angola o silêncio
não a ausência de som o imenso ruído, que não somos capazes de ouvir, do
interior da terra que me acordava à noite e eu quieta de medo, a palma da
Domingas na minha nuca de súbito, por favor leva-me às costas, enfaixada
num pano, para longe daqui, ensina-me a comer raízes, janta grilos comigo,
a minha mãe no espelho
— Não me distraias que estou a pentear-me
no meio dos frascos de perfume e dos boiões de pintura, olhando-me em
diagonal
— Tantas rugas já viste?
a aproximar a cara do vidro percorrendo-as com o dedo e não só as rugas
no espelho, os ombros mais estreitos, o corpo mais largo, a pele das mãos
diferente
— Que miséria não é?
olha estas manchas amarelas, estas escamas na pele, a rótula esquerda
que me dificulta o andar, o tempo é uma empresa de demolições sabias,
quantos dentes me faltam, quantos pés de galinha, quanta lágrima que não
seguro que não vem dos olhos, são desgostos antigos, o teu pai finge que
não nota e se calhar não nota, mesmo com óculos não nota conforme não
me nota a mim, até sozinha me dá vergonha despir-me sabias, repara no
meu peito por exemplo, no novembro que eu sou, nos ouvidos que
endurecem, no risco das pálpebras cada vez mais incerto, no baton fora dos
lábios como os palhaços do circo porque me tornei um palhaço, nos caroços
das mãos, nas sardas que não tinha, diz-me se não pareço um fantasma, não
pareço um espantalho, colocas-me numa horta e afugento os pardais, o
médico a verificar-me os ossos
— Não lhe posso dar vinte anos
fecha-me na gaveta da cômoda como fechei a minha filha e não me
espreites lá dentro, repara como a seguir ao almoço adormeço no sofá,
basta-me sentar ali consoante a minha mãe se sentava para sem que dê
conta me afastar e tanto defunto ao meu lado também mudos, quietos, não
se interessando eles que dantes
— Rapariga
sem me conhecerem sequer, a limparem a boca, a experimentarem uma
careta difícil, de sapatos sem atacadores porque os atacadores custam como
se chega a eles se a espinha não dobra, a senhora da casa ao lado um
domingo destes a olhar-me segredando à amiga e a rirem-se ambas, a
segredarem de novo e a amiga a chamar o marido com o anzol do dedo, a
apontar-me o queixo, a rirem os três e eu a sentir-me sei lá porquê nua
diante deles vestidos, eu
— Aiué mamá
como os pretos sem que ninguém me ajudasse porque a Domingas a
estender roupa na corda enquanto os caranguejos conti
— Serei assim tão ridícula?
enquanto os caranguejos continuavam a avançar para nós, primeiro um,
depois cinco, depois dúzias, depois centenas, depois milhares galgando as
rochas, determinados, lentos, canhotos, tombando, recomeçando, tornando a
tombar, a maior parte vermelhos, alguns esbranquiçados, um ou outro
castanho, um pássaro qualquer
(não uma gaivota acho eu, um papagaio do mar?)
aproximou-se deles de bico aberto e subiu num grasnido com as páginas
molhadas das asas a baterem, os senhores da casa ao lado continuavam a
olhar-me sem se rirem agora, apiedados de mim, pareceu-me que o cãozito
desinquieto, a ladrar, vi a Domingas no degrau com o que parecia um tacho
ou uma caçarola na mão, vi a escova da minha mãe sempre no mesmo
movimento a penteá-la sem fim, vi o preto da espingarda sentado no jipe, vi
o meu pai à entrada da sala a explicar
— Infelizmente não posso fazer nada filha
abrindo os braços com dó e tornando a esquecê-los, cada qual do seu lado
do corpo
(pai, pai)
— Infelizmente não posso
enquanto a Domingas voltava para dentro, tentei chamá-la
— Domingas
e não fui capaz de nenhum som, nenhum gesto, nenhum pedido de ajuda,
o preto da espingarda de costas para nós no pátio frente à sala, o macaco a
comer uma maçã no alto do seu poste, o primeiro morcego, o segundo
morcego, um mocho ou uma coruja lá em baixo com um rato nas unhas,
isto à medida que os caranguejos chegavam a mancar à nespereira e no
momento em que iam tocar-me a Domingas
— Está quase a dormir menina
cobrindo-me a cabeça com o lençol
— Já está a dormir
e eu na cama ou na gaveta da cômoda da sala, voltada para as colinas de
algodão estendidas sobre nós como um sudário sem fim.
8
Não há gaivotas aqui. Não há gaivotas aqui. Não há gaivotas aqui, há o
mar e o deserto sem fim do Namibe, ambos do mesmo tamanho, um barco
com albatrozes por cima ou seja um fumozito trêmulo, incerto, que não nos
visita nunca, há a albina e eu no cafezinho da praia onde moramos também,
a estrada para o Lubango, a estrada para Tômbua, de vez em quando uma
sanzala plantada no silêncio porque não existem árvores que fabriquem o
vento, a albina de costas a murmurar sozinha, António Mariano deitado
morto na cadeia em Malanje, de boca aberta na cela, a olhar a gente com os
dentes como fazem os mabecos antes de saltarem sobre nós, a tropa e os
aviões voltaram para Luanda e aposto que o algodão por esta altura a
crescer apesar das cicatrizes do napalm nas sanzalas ainda, para além do
cafezinho algumas casas, lavrazitas de mandioca e milho que restolham
toda a noite chamando por nós, se tomar atenção dou com a voz da minha
mãe, baixinho
— Ainda temos algum dinheiro de parte sabias?
na esperança de se despedirem sem entenderem que sou um preto agora,
durmo numa esteira, frito grilos, há semanas e semanas que não uso
sapatos, é a albina
(quantos anos terá agora?)
quem vende as malas de peixe e os caricocos, já não me lembro bem de si
mãe, como não me lembro do meu pai, a minha namorada enquanto a
despia
— O que estás a fazer?
e se queres que te diga não sei bem, não tenho a certeza, desculpa se te
aleijo, o teu padrasto só chega às oito não é, a tua mãe, de cabeça arranjada
no salão e um vernizito nas unhas, insegura de si mesma
— Não pareço um palhaço?
tão nervosa coitada, com saudades do avental na aldeia dos teus avós para
o batismo de um sobrinho de modo que a gente em paz não é, o fecho do
sutiã abre-se como, explica, puxa-se ou tem de se apertar primeiro, dá aí
uma ajuda que não me entendo com eles, os ganchinhos não se soltam,
tenho medo de aleijar-te, ainda te rasgo isto sem querer, até parece que te
somes pelo sofá abaixo, daqui a nada apoio o braço no soalho e apanho-te
pelo colar, eu que não sou guindaste, da sala do vizinho enquanto a albina
se estendia ao meu lado e o mar recuava e avançava não faço ideia se em
Lisboa ou cá, a minha namorada, confundida com as ondas
— Promete que não vais aleijar-me
um cotovelo a empurrar-me o peito e o segundo a puxar-me a nuca de
modo que me quebras o pescoço e não tarda nada sou dois, o mar do
Namibe, à noite, tão suave, tão lento, a minha namorada para mim, de boca
no meu ombro
— E agora?
quase a chorar
— E agora?
o fazendeiro de caveira de hipopótamo no alto das escadas, sempre
acompanhado por um preto de espingarda
— Agora como os problemas na Baixa do Cassanje acabaram já nos pode
voltar a trazer gente do Huambo para trabalhar no algodão não é?
com a mulher dele a pentear-se sem fim numa janela em cima, a escova
descia-lhe da cabeça quase até à cintura, recordo-me da filha com uma
boneca ao colo a olhá-la, a olhar-me, das mangueiras até ao portão e dos
morcegos pendurados dos ramos, à espera, das colinas, outrora brancas de
algodão, queimadas, em cinzas, onde os mandris gritavam, a minha
namorada a verificar-se no espelho
— Assim que a minha mãe voltar do batizado dá logo com esta marca no
pescoço e depois?
se calhar continua viva agora, claro que viva, tem a minha idade, com um
marido também velho, é lógico, mas menos gasto que eu, um bigodinho
grisalho, um cachucho a cobrir a aliança, um soslaio de desafio, com quem
te casaste tu, talvez atualmente recordada de mim, afastando-me com um
gesto
— Esse
apesar de eu tão longe a olhar as ondas da varanda do cafezito como olhei
António Mariano deitado no chão da cadeia em Malanje, de túnica,
descalço, sem metade da cara, as pernas magras dele, as raízes negras dos
pés, um
— Euá
silencioso que não terminava nunca, os aviões de regresso a Luanda, os
soldados longe de novo, a Cotonang a distribuir as sementes de algodão aos
fazendeiros, a mãe da minha namorada de regresso do batizado à procura
dos óculos
— Que mancha é essa no pescoço menina?
o padrasto da minha namorada descalçando-se a custo com a ajuda de
uma colher, sentado num banco da cozinha
— Responde à tua mãe
enquanto as ondas do Namibe, sem caranguejos nem pássaros, cresciam e
diminuíam quase desprovidas de som, a albina sentada atrás de mim em
silêncio, não pergunta nada, não diz nada, espera que eu me levante para se
levantar e me deite para se deitar, de vez em quando sinto que ela com febre
pelo cheiro do cobertor na esteira e os olhos apagados mas continua a
degolar as galinhas e a cozinhar a muamba, vira-me as costas enquanto
como porque as pretas viram as costas enquanto os homens comem, quando
me quero servir dela aceita-me sem um gesto, não se queixa, não se alegra,
nunca a ouvi falar, o que serei para ti, limitas-te a aceitar-me sem me
tocares, o que pensas, o que sentes, o que achas de mim, uma ou duas
ocasiões a tua barriga aumentou, uma ou duas ocasiões tu de costas na
lavrazita a esconder não sei quê
(sei o quê mas não digo o que sei)
na terra, isto à noite sem que o vento restolhasse na meia dúzia de hastes
de milho que temos e quando finalmente principiaram a murmurar sem
descanso, acordando-me à noite, pingos de sangue na esteira, se por acaso
te perguntasse
— Era o meu filho?
não me respondias nunca, apenas outra cara dentro da tua cara, os teus
gestos mais lentos, a outra cara a sumir-se a pouco e pouco de ti, qual o
motivo de não falares comigo tu que compreendes as palavras, a tua mão
fechada com força, e ao abrir-ta, uma pedrinha lá dentro que deixavas na
lavrazita também, tudo isto sem chorares, é óbvio, nem olhares para mim,
não sei se tinhas pena, não sei o que pensavas, não sei o que sentias mas
não pensavas nem sentias pois não, era-te indiferente confessa, os pretos
não são exatamente pessoas, ignoro o que sejam, não entristecem nem se
alegram, aceitam consoante tu me aceitas, por que motivo não me quiseste a
crescer em ti, por que motivo recusaste o meu filho, os discípulos de
António Mariano a trabalharem nas fazendas de novo depois de dispararem
sobre eles e dos oficiais esbofetearem os sobas, os bailundos vieram ocupar-
se do algodão, apinhados em camionetas antigas, chegou uma carta de
Malanje a despedir os chefes de posto, a despedir-me e apesar da minha
mãe, numa caligrafia difícil porque a gota, porque a idade, porque nos
apressas a morte derivado a não sabermos de ti
(eu já nem sei há quantos anos não, há quantos anos não te vejo filho)
dado que não voltei à outra margem do mar, para quê quando muito
encontrava dois velhos juntos no mesmo sofá dado que agora sempre com
frio, embrulhados em casaquinhos mesmo no verão, num andarzito
acanhado que subiam conquistando duramente, numa tenacidade lenta, cada
degrau, o que faria eu sentado entre vocês
— Estás mais magro
medindo-me com desgosto os joelhos agudos e os enchumaços dos
ombros, o governador de Malanje a mirar-me com dó
— Ainda bem que o reformei porque África gasta
enquanto aposto que a minha namorada, por não ter saído de Lisboa, a
engordar sem sobressaltos, longe de mabecos e morcegos, sobre o croché,
de nariz junto à agulha enquanto o padrasto dormitava de mantinha nas
pernas e mata moscas contra os zumbidos do ouvido que ele tomava por
insetos e portanto a batalhar contra o nada
— Tanto bicharoco no mundo a esfregar as patinhas
igual ao dono da casa de penhores quase em frente, sempre a ensaboar as
palmas
— Muito bem muito bem
contemplando, feliz, os azares dos outros arrumados nas prateleiras sob a
forma de fios em estojozitos de veludilho e palhacinhos de loiça, dando
piparotes à cinza de cigarro que lhe enfeitava o colete, de modo que vim
para o Namibe onde as cartas, pensava eu e enganava-me, não conseguiam
chegar, mas pelos vistos os Correios, mais competentes a ajudar as pessoas
idosas do que as escadas dos prédios, capazes de darem conosco mesmo
que fôssemos Jonas em duodenos de baleia, aposto que as dezassete
gaivotas do telhado de Lisboa hão de aterrar aqui um dia, hoje uma, amanhã
cinco, segunda-feira as restantes por encomenda postal, nem precisava de
vê-las para as reconhecer logo pela, a albina, pela inquietação do mar, a
albina às vezes lá ao fundo, embrulhada, descalça, no seu pano do Congo,
olhando o silêncio da água dado que os pretos tão diferentes de nós, veem
ruídos e escutam cores, o governador de Malanje a assinar papéis antes de
subir as lentes dos óculos para a testa num gesto deli
— Está em Angola há quan
num gesto delicado
— Está em Angola há quanto tempo você?
a olhar o telefone que soluçou um desgosto antigo na mesa, pareceu
voltar-se sem pressa para o outro lado de si mesmo, ajeitando-se melhor no
descanso e continuou a dormir, as mãos do governador uniram-se formando
uma espécie de gaiola com a sua autoridade lá dentro, aproximou o nariz de
um dos polegares que o coçou sem pressa, obediente, antes de se prender ao
colega e se apoiarem ambos na boca fechada que se alongou numa espécie
de beijo, de olhos na parede em frente por cima do meu ombro até as mãos
se afastarem uma da outra a chegarem ao teclado, comigo já a ouvir as
notas que ele não tocara ainda, corrigindo um centímetro, com as nádegas, a
posição da cadeira enquanto tudo em mim se tornava côncavo para lhe
receber melhor o talento, os olhos do governador roçaram-me e
abandonaram-me, atentos para dentro a escutarem-se melhor a si mesmos, o
primeiro acorde em segredo, o segundo ainda mais ligeiro, o queixo dele
subitamente enorme, modelando uma nota antes de ma entregar embora
nesse momento eu nem sequer existisse, existia a tensão côncava, em mim e
no público atento logo a seguir a mim, ou seja o retrato do presidente, o
retrato do ministro, o retrato antigo, com uma farda antiga, de um militar de
bigode amarelo do tempo, com o que me pareciam árvores ou soldados
confusos, de bigode igualmente, aguardando os sons, o primeiro acorde,
baixinho
— Ora bem
meio apagado pelo motor de uma camioneta lá fora e o segundo acorde
um bocadito mais forte
— Estive a ler o seu processo
erguendo meio centímetro uma espécie de caderno com algumas folhas
soltas e deixando-o cair repetindo a nota de abertura
— Ora bem
como repetiu o acorde duas oitavas abaixo
— Estive a ler o seu processo
inclinando-se lentamente para, e deu-me ideia, inclinando-se lentamente
para o piano da secretária e deu-me ideia que algures na assistência, a
seguir ao presidente, a seguir ao ministro, a albina a fitar-me descalça, com
o seu pano do Congo, das mangueiras de Marimba que os morcegos dos
violinos da orquestra iam cruzando sem fim, ora perto ora longe,
fosforescentes, regressando, partindo, tornando a regressar, as mãos do
governador agora ao alto, em garra
— A partir do fim do mês quero-te fora do posto
você e os outros que não lutaram contra os discípulos da António
Mariano, permitiram que incendiassem os armazéns, as sementes e as
plantações de algodão, aceitaram o chinfrim nas sanzalas, não puseram os
pretos na ordem, não os enforcaram no primeiro galho, não dispararam
sobre eles, não os afogaram no Cuango, não os entregaram aos mabecos e
aos crocodilos, não lhes queimaram os quimbos, os deixaram à solta, como
os mandris nas colinas, até ao fim do mês quero o posto vazio e você e o
seu chimpanzé na rua da mesma maneira que não admito tornar a vê-los em
Malanje nem sequer na rua das putas onde comprou de certeza esse bicho e
agora desapareça-me da vista e não se esqueça de fechar a porta ao sair de
modo que acabei neste cafezito de madeira aqui no Namibe, longíssimo do
algodão, de Malanje e das mangueiras sem fim, ainda temos algum
dinheiro, filho, sabias, guardado num envelope no fundo da lata do açúcar
ou por baixo da roupa na gaveta do armário, podemos pagar-te um bilhete
de barco para Lisboa e se for preciso cabes sempre aqui em casa, nunca
mexemos no teu quarto desde que te foste embora, às vezes espreitamos lá
para dentro, palavra, seguros que te vamos encontrar a dormir na tua cama
porque continuas, juro-te, a passar as noites conosco, ainda há semanas o
teu pai, António Mariano morto na prisão de Malanje, me mandou
— Cala-te
inclinando a orelha para o corredor
— Não te pareceu que o miúdo a chorar?
de modo que inclinei a orelha também, nós dois quietos no sofá e
qualquer coisa de fato, uma espécie de soluço, uma espécie de sopro, um
estalo da cama porque deves ter mudado de posição nos lençóis, o teu pai a
olhar para mim de uma maneira que me fez pena, coitado, tão magro agora,
setenta e nove anos é obra eu que sempre detestei a velhice, sinceramente
nunca me passou pela cabeça termos uma idade assim, é horrível vais ver,
não é só a vida que se perde, é a surdez, o cansaço, todas as escadas do
mundo centenas de degraus, uma súbita gratidão pelos corrimãos, um amor
sem fim aos patamares, quem neste mundo é esse António Mariano de que
estás sempre a falar, os óculos de enxergar ao perto a melhor invenção deste
mundo apesar de uma das hastes com adesivo por se ter perdido o parafuso
que a ligava às lentes, tão minúsculo que nenhum de nós dá por ele, de
certeza que em qualquer sítio
(uma frincha no chão?)
onde troça da gente, as coisas aliás passam a vida a esconderem-se, tanta
tampa de caneta, tanto alfinete, tanta chave, tanta moeda escondida entre as
almofadas do sofá, se meteres um dedo entre elas, dois dedos, vá lá,
encontras sempre o passado, o teu pai a tirar de baixo de si um brinco que
eu não via há anos
— Olha o que estava a beliscar-me o rabo
António Mariano de olhos abertos, morto na prisão de Malanje, um
oficial empurrou-lhe o corpo com a bota
— Cabrão
e por um minuto os cânticos dos discípulos por ali e os aviões a chegarem
de Luanda, toc toc, a albina às voltas com a mandioca, de cócoras nas
traseiras do café de modo que se percebiam as vértebras todas, desde a nuca
à cintura, com duas ou três galinhas por perto que acabarão em muamba
não tarda, ou seja um destino parecido com o nosso
— A partir do fim do mês quero-o fora do posto
o pescoço delas para trás e para diante, isto é a alavanca que faz mover as
patas, a minha mãe para o meu pai a empurrar-lhe a manga com o garfo
— Deixa a asa na travessa que é o que o miúdo mais gosta
e o meu pai, resignado, a escolher uma coxa, pelo menos uma das
vantagens de eu não estar é ter licença de comer todas as asas que lhe der na
gana paizinho, a sua maneira de lhes tirar a pele, a sua maneira de cortá-las,
a sua maneira de subir do prato a olhar para nós, ao mesmo tempo culpado
e feliz, com medo que lhe ralhássemos, não me esqueço das sanzalas a
arderem, não me esqueço das paredes dos armazéns tombando uma a uma e
da cinza que o vento ia empurrando capim fora, eu no café, diante do mar,
com um mestiço, reformado dos caminhos de ferro
(ajudante de maquinista)
em Bibala, sempre com um frasco de marufo
— É servido?
na algibeira das calças, a albina trazia dois copos e depois de nos servir o
mestiço guardava o frasco no bolso, achatando a rolha no gargalo com uma
palmada
— Nunca fui a Lisboa
e não perde nada amigo que não são casas nem árvores são dezassete
gaivotas num telhado junto à margem do mar, mais meia dúzia a bicarem a
água e é tudo, junte-lhe os meus pais que não são para aqui chamados e a
minha namorada num andarzito com o marido ocupado com as palavras
cruzadas do jornal
— Batráquio sete letras sei lá só me lembro de rã duas letras e sapo
quatro que espiga
a olhar o vazio que é a única forma de se olhar para dentro, a porção de
tralha que a gente descobre quando tem apenas uma parede à frente, só não
vemos batráquios, o resto todo ali, por exemplo observo a água e aparece-
me a Baixa do Cassanje inteira mais os mandris e as palancas, as queimadas
do cacimbo, o silêncio povoado de ecos, uma mulher com quem nunca falei
a pentear-se numa janela alta e o vento remoinhos de folhas, a professora da
escola em Marimba a escrever Portugal na ardósia, claro que peguei fogo ao
barraco onde morava, o governador
— Estou a ler o seu processo
que mande construir outro para quem vier depois e lhe ponha osgas junto
à lâmpada, pode ser que engulam mosquitos naquela atitude de corrida que
os lagartos têm parados, ao chegar o mestiço não me dizia
— Boa tarde
sentava-se primeiro, sempre distante, a coxear um bocadinho
(- Este joelho este joelho)
e olhava o mar uma porção de tempo antes de olhar para mim, dava ideia
que cumprimentando as ondas e só depois reparava na minha presença ao
seu lado, tocando-me de leve no ombro enquanto declarava
— Pois é
como se continuasse uma conversa interrompida e julgo que na sua ideia
continuava de fato uma conversa interrompida, o que seria a minha vida se
a albina falasse impedindo-me de estar comigo mesmo, o que terá
acontecido à mulher na fazenda da Baixa do Cassanje que se penteava sem
fim por cima de uma caveira de hipopótamo, numa janela alta, não
entreguei o barraco nem os papéis ao que veio para o meu posto, não
cheguei a encontrá-lo sequer, trazido por um jipão do distrito com a família
e as malas, às vezes é difícil distinguir a família das malas mesmo partindo
do princípio que os filhos não se abrem com uma chave, vim-me embora
antes no calhambeque de serviço, mais habituado a picadas do que a
alcatrão e que deixei, agonizante, em Benguela, sob uma palmeira, aí sim
pássaros que não eram gaivotas para cima e para baixo junto a esta margem
do mar, alguns deles a chamarem-nos em gritos severos, pergunto-me qual a
maldade dos pássaros grandes, ao contrário da inocência dos pequenos, tão
zangados sempre, os cânticos dos discípulos de António Mariano que pelo
menos riam e gritavam a tropeçarem em si mesmos, a maior parte de túnica,
outros com roupa que não lhes pertencia, de brancos, enquanto
esquartejavam plantações, quimbos inteiros, armazéns, mesmo quando a
tropa avançava, mesmo quando a metralhadora varria, tontos de liamba e
marufo, dançando com os pés, as ancas, o peito
— Euá euá
saudando os aviões primeiro e fugindo das metralhadoras e das bombas
depois enquanto a tropa os perseguia de quimbo em quimbo, os gritos das
galinhas, os cacarejos dos cabíris, os latidos das mulheres, crianças
espantadas só olhos, os girassóis de cabeças amarelas ao alto e depois
escuros, tombados, os mandris a chamarem-se ladrando de colina em
colina, sentados sobre si mesmos e fugindo a seguir, tratores que ardiam
também, uma camioneta, atrelados que perderam as rodas, um deles ao
contrário com pretos que gemiam lá dentro, os padres espanhóis, ou
catalães, ou bascos da missão, com uma enfermariazita e uma escola, a
guardarem pessoas nos claustros de cimento e no cemiteriozinho com as
cruzes de gesso dos religiosos defuntos, sem nome, a cruz apenas, sob
árvores de fruto da Europa, macieiras, pereiras, que lá se aguentavam mais
ou menos e África não deixava crescer, o Exército a disparar, António
Mariano de pé, com as mãos no ar, descalço, dançando sempre, de túnica
tomando a cada movimento a forma do seu corpo, no claustro da missão
dos espanhóis um poço ao centro com um balde de alumínio vazio no
rebordo, um limoeiro seco, sem vida, o mestiço para mim, a coçar uma
perna através da fazenda
— Pois é
enquanto um barco quase no horizonte, um paquete ou um cargueiro, sei
lá, não entendo bem essas coisas a fugirem-me, a minha mãe
— Continuamos a guardar o dinheiro para ti
aposto que o meu pai a ler o jornal com uma das hastes consertada a
adesivo e a minha mãe mais magra, de casaco de malha em agosto, quer
dizer o casaco de malha ainda aguentava um ou dois anos, não muito
coçado, aceitável, só lhe faltava um botão, há de dar por isso senhora, é
uma questão de tempo, procurando na caixinha entornando-a na palma, um
parecido ou assim visto que só olhando de perto comparando com os outros
é que se nota a diferença, portanto no que diz respeito ao botão estamos
conversados, o tapete suponho que no fio agora, mas há de haver saldos por
aí, havia sempre saldos por aí, não é, de modo que discutindo o preço
compõe-se, tudo se resolve, não vale a pena afligirmo-nos, não se trata de
uma, uma metralhadora começou a cantar e António Mariano de joelhos,
não se trata de uma doença grave pois não, a metralhadora começou a
cantar e António Mariano de joelhos primeiro e de gatas depois, com a boca
aberta, surpreendido, a esvaziar-se pelos olhos que não fixavam ninguém,
qualquer coisa na boca dando ideia de sangue e que aumentava, aumentava,
um pingo, dois pingos, um fio vermelho a baloiçar, a tremer, o pescoço
mais inchado, mais estreito, aqui no Namibe a albina meia dúzia de
galinhas para além da lavrazita e dois pés de liamba que fazem jeito às
vezes, ainda se pode fumar um bocadinho e sonhar, a minha mãe para mim
— O que é isso?
eu, de olhos fechados
— Um tabaquinho inglês não quer provar senhora?
não para o meu pai, é evidente, dado que a próstata sei lá, os diabetes, a
tensão, o diabo a quatro, a minha mãe desconfiada, que ela tem antenas
— Tabaco inglês uma ova
embora não pesque um boi destas coisas, preferindo esquecer-se depois
de
— É que é doce e esquisito
de modo que me deu ideia que bem disposta só de cheirar aquilo, a minha
mãe se tivesse a minha idade era pessoa para pintar a manta, o governador
de Malanje, por exemplo, nunca se atreveria a despedi-la, olha quem, e no
entanto, com o meu pai, sempre atenta, tirando-lhe uma nódoa com uma
chávena de água quente ou a raspar-lhe uma crosta no canto da boca
— É a primeira vez que encontro um pai mais novo que o filho
com ele a olhar para mim
(conversas mudas de homens)
erguendo a resignação das sobrancelhas sem se atrever a mover-se até
que a minha mãe se afastasse
— Pronto brinquem lá entre crianças
logo dois miúdos para tomar conta não era mãe, até com o gás do fogão
se atrapalham quanto mais com a vida, para que servem vocês, e no entanto
a sorrir, e no entanto, quando nós já à mesa, surgia de avental da cozinha
com os pratos da sopa
— Gosto de dar de comer aos meus homens
o mestiço do Namibe antes de dissolver na água os olhinhos minúsculos
— Nunca fui a Lisboa
onde tanta mulher branca amigo, tanto luxo, dezassete gaivotas junto à
outra margem do mar e os gritos delas iguais aos gritos da tropa na Baixa
do Cassanje, a cercarem uma aldeia onde o povo cantava com os discípulos
enquanto os feiticeiros, dançando sempre, matavam galos e pintavam o
peito e a cara com o sangue, mulheres de joelhos derivado aos tiros e os
leprosos a subirem do rio onde dantes pacaças que bebiam, a terra a crescer
com o batuque, eu para o mestiço
— Não ouve?
sentado comigo junto à praia deserta, apenas a albina acocorada em
silêncio, atrás de nós, a minha mãe
— Filho
verificando se eu dormia, o meu pai a surgir-lhe do ombro
— Está sossegado o rapaz?
e estou sossegado descansem, reparem no meu corpo tranquilo embora
não durma realmente senhora, finjo que durmo como quando o meu pai
vinha despedir-se antes do trabalho, a voz dele para a minha mãe
— Até logo
eo
— Até logo
a transformar a casa numa espécie de poço no qual a minha mãe e eu nos
íamos afundando, eu inquieto, com medo, imaginava-lhe os passos nos
degraus e nenhum
— Pai
me saía, já não tenho garganta para o chamar na rua, vai-se afastando
sempre, de costas, até se diluir numa esquina, vejo o chafariz, a farmácia, o
seu boné cada vez mais pequeno, outras pessoas que o ocultam de mim, não
sei nada do governador, não sei nada da Baixa do Cassanje agora onde
suponho que o algodão continua, camionetas de Luanda, camionetas do
Uíje, apitos de capatazes, de tempos a tempos uma gaivota fugida do mar à
procura, outro chefe de posto a mandar nos meus sipaios cada qual com
duas mulheres, três mulheres, a minha mãe para o meu pai
— Que conversas são essas com a empregada da farmácia não te chego?
e o meu pai, fingindo que não ouvia, a tentar sorrir, a empregada da
farmácia de sardas em combustão e cabelo vermelho, mais nova que a
minha mãe, mais alta, a afastar o cabelo para trás
— Não é preciso pesar-se aqui todos os dias não se emagrece assim tão
depressa sabias?
deslocando o cursor, o meu pai em casa mais calado, indiferente, sem me
ajudar a descobrir as sete diferenças nos dois desenhos iguais do jornal,
uma chaminé no prédio de cima, nenhuma no de baixo, a gola do casaco
maior aqui, mais um ramo nesta árvore não é e o meu pai distraído, sem
olhar sequer
— Não reparei nisso
consoante a minha mãe fingia não reparar nele, ao jantar trazia só o meu
prato em vez dos pratos dos dois de forma que o meu pai tinha de ir à
cozinha servir-se
— Esqueceste-te de mim?
e ela calada como se não o ouvisse e se calhar não ouvia sei lá, mais
simpática comigo que o costume
— Tens a certeza que não te apetece mais?
o meu pai à mesa sozinho apesar da gente ali, a olhá-la de banda fingindo
não olhar, Namibe, Namibe, talvez morra aqui como o mestiço morreu no
ano passado, não na cama, no chão, tenho a certeza que a insistir num
— Pois é
silencioso pela boca fechada, um pé calçado, o segundo descalço e a
camisa a subir-lhe, oblíqua, pelas costas acima, acabou-se o seu desejo de
Lisboa, não há de ver as gaivotas, não apenas as que giram sobre o porto
mas sobretudo as dezassete poisadas no telhado do armazém, não se
esqueça senhor Clemente, custou-me lembrar o nome como já me custa
tudo, António Mariano por exemplo, dezassete por favor veja se não falta
nenhuma, torne a contá-las devagarinho, certifique-se bem e diga que
dezassete, sossegue-me, o que me aconteceria se faltasse alguma, o sítio
onde ele morava um quartito apenas, o teu pai deixou de ir pesar-se à
farmácia, o sítio onde o senhor Clemente morava um cochicho, o teu pai ao
passar diante da montra, às vezes olhava lá para dentro, abrandando um
bocadinho, quando deixou de abrandar a minha mãe voltou a trazer-lhe o
prato, sem um sorriso, modesta na sua vitória, como se interessou de novo
pelas diferenças dos bo
— Há uma chaminé neste não há uma chaminé naquele
pelas diferenças nos bonecos do jornal, enterraram o mestiço, apesar da
alma negra, no cemiteriozito minúsculo dos brancos e achei bem, se calhar,
não estou certo, somos todos idênticos para Deus e a cor das almas
igualzinha para o pessoal inteiro, ou seja nenhum de nós vale um pito e no
que respeita à cor lá estarei para ver, tenho as minhas ideias mas não digo
ou digo
— Pois é
e acabou-se, o que não muda grande coisa, já agora o sítio em que ele
morava um quartito apenas, com a fotografia de uma senhora europeia já de
certa idade, com aspecto benigno, de crucifixo no pescoço e tudo, em cima
de um caixote, acompanhada por uma garrafita de marufo que somada à
senhora sempre ajuda a consolar a solidão das noites durante as quais, às
vezes, ao acordar com a albina não deitada ao meu lado, de cócoras como
os macacos na outra ponta da esteira, de braços à roda dos joelhos, tão
imóvel que me assusta, a fitar-me como as mulheres fitavam os soldados à
cata de António Mariano de sanzala em sanzala enquanto os cabíris
ladravam sem fim e o soba da Chiquita agitava a vara, com penas de galo
coloridas, do seu poder
— Não dispara não dispara
não balas de água como ele julgava, de metal verdadeiro
— Não dispara
um homem tentando rastejar para longe da tropa, uma primeira bala na
terra ao lado da sua cabeça, depois da segunda bala deixou de rastejar, as
costas levantaram-se um bocadinho e aquietaram-se depois, apeteceu-me
que a albina me abraçasse, mais nada, um abraço, palavra de honra, há
quem não acredite nisso, ajuda tanto às vezes, não há gaivotas aqui, sei lá se
estas ondas a outra margem ou não, quem jura que o mar, não é verdade,
não falem alto agora, isto é um assunto sério, quem jura que o mar não se
perde também, a albina sem que eu esperasse, de repente para mim
— Tu
exatamente como digo
— Tu
com um bocadinho mais de força, não baixo
— Tu
sem desviar os olhos
— Tu
de modo que estendi a mão para ela a pensar
— Não quero morrer
estendi devagarinho a mão para ela, não muito firme, não muito segura,
consegui estender a mão para ela, não faz sentido mas estendi a mão para
ela sem imaginar que os seus dedos chegassem tão longe mas quase não
tive que estender o braço, a minha mãe coitada
— Se queres voltar ainda temos um dinheirito filho
uma parte na lata do café, outra parte na lata do açúcar, a última parte
dentro de um chinelo no armário, não há gatuno que vá lembrar-se que
notas ou moedas, moedas pequenas, escondidas num chinelo ainda por cima
meio desfeito, abandonado lá ao fundo juntamente com uma calçadeira
quebrada e uma palmilha suja, do tempo da Maria Cachucha, para quando
os sapatos, acontece, largos demais ou um prego traiçoeiro, saliente sabe-se
lá porquê, no sítio em que o pé assenta, o meu pai a concordar com ela
— Talvez não fosse inteiramente má ideia rapaz
(como a sua boca envelheceu senhor, tão pouca carne, tantas rugas)
e de fato não era inteiramente má ideia, a sério, sei que já não pertenço aí
percebem, não é que me sinta pertencer a esta margem mas não pertenço aí
e a culpa não é vossa, é minha, aconteceu tanta coisa desde que me vim
embora que perdi sem remédio o que me deram e não conseguirei tê-lo
outra vez, por favor compreendam, por favor se não compreenderem
desculpem, até das sete diferenças tenho saudades mas não sou capaz, juro
não sou capaz mesmo que a minha namorada, supondo que a minha
namorada, imaginando que a minha namorada
— E agora?
de modo que a única coisa que consigo é estender a mão para a albina,
não muito firme, não muito segura, a única coisa que consigo, a única coisa
que de fato consigo é estender devagarinho a mão e tocar-lhe.
9
Às cinco da manhã as cidades são iguais aos sonhos em que desço da
cama imensa de um quarto imenso que conheço e não conheço, tudo muda
no escuro, com as mãos da minha mãe a entalarem-me a roupa, dizendo
numa voz muito acima de mim
— Enquanto não deitar tudo ao chão não descansa que mal fiz eu a Deus
senhores
dirigindo-se a uma tosse atrás dela que não vejo mas cheira ao meu pai
ou seja uma mistura de tabaco e loção de barba que se estivesse acordado
me serenava e agora me assusta, as cidades iguais aos sonhos porque ao
mesmo tempo tudo real e estranho, o cheiro do meu pai afastou-se
juntamente com uma voz de garagem vazia a ecoar em todos os cantos de
mim
— Deixa a lâmpada do corredor acesa para ver se ele acalma
e como posso acalmar se os motores das camionetas na parada do quartel
não cessam, dúzias e dúzias de soldados, reduzidos a espingardas e botas,
trepando para elas com os furriéis a apressarem-nos
— Vamos lá vamos lá
os oficiais ao lado dos condutores
— Mais depressa
a adaptarem, para a direita e para a esquerda, os corpos de galinhas ao
choco dos assentos
(oficiais prestes a um ovo, de olhos abertos, cegos)
não apenas soldados e espingardas, metralhadoras, bazucas, a voz muito
acima da minha cama
— A lâmpada do corredor acesa não andas bem da cabeça já viste o
preço da luz?
e depois, parecida com essa embora mais pequena, a que iluminava o
sofá da sala enquanto a minha mãe sacudia a fatura da água entre o jornal e
o meu pai
— Já viste isto já viste a partir de domingo dois banhos por semana e é
um pau
pegando com ódio na colher ao jantar acenando que não e eu em Malanje
no meio de tantos tropas, ainda gordurosos de sono porque os gestos
desajeitados, peganhentos, o general à porta do gabinete batendo o pingalim
contra a perna, achado de quando em quando por um par de faróis que o
apanhavam e largavam esquecendo-se dele, iguais aos cães que seguram
pedaços de não sei quê na boca e os deixam depois, iguais à vida que nos
alegra às vezes e a seguir se esquece da gente que ficamos a contemplar as
mãos e a pensar
— E agora?
as árvores do quartel muito maiores de noite, um papel às cambalhotas na
parada que estacava a fitar-nos, a amiga do general para mim, a despachar-
me ao telefone, numa voz que se julgava simpática e não era
— Não imaginas o que tem sido a minha vida quando puder ligo-te
embora a visse às vezes ao longe, na esplanada, a beber uma revista e a
ler o café
(a porção de artigos que uma chávena tem)
olhando em vão os dois lados da rua, endireitando-se de esperança,
pronta a um aceno, sempre que um vulto longíssimo e amolecendo
desânimos
(bem feita)
curvada de desilusão, logo que o vulto se transformava em pessoa e não
era ele que gaita, as camionetas, a chocalharem armas e restos de sono,
foram saindo o portão com as três companhias, uma para Cunda Ria Baza,
outra para Tembo Aluma, out, às cinco da manhã todas as cidades são
iguais aos sonhos, outra para Marimba a fim de estrangularem, o general
para nós
— Temos que estrangulá-los meus senhores
rodando os punhos num pescoço imaginário com uma moleza que não me
deu muita esperança, talvez o urologista tenha também uma pastilha
qualquer contra a falta de energia nas mãos
— Só uma meia hora antes e não exagere na dose que o coração tem
limites
e claro que tem, acredito, o limite do meu, por exemplo, é a amiga do
velho, se por acaso você a visse nua, se por acaso você a visse trabalhar nos
lençóis e depois aqueles olhos palavra, e depois o sinal na bochecha, as três
companhias, uma para Tumba, perdão, uma para Cunda Ria Baza, outra
para Tembo Aluma e outra para Marimba, nomes que me agradam de terras
que não sei onde ficam mas de certeza o costume, meia dúzia de cubatas ao
abandono e o resto mata e miséria, cães magríssimos à deriva, galinhas
minúsculas, lixo, a fim de estrangularem a revolta do algodão, e a seguir ao
quartel, com as camionetas a baloiçarem as ancas na rua, confirmei que às
cinco da manhã as cidades são iguais aos sonhos, ao mesmo tempo
autênticas e inventadas, com restos da minha infância entre as casas, a
empregada da minha madrinha, tão idosa agora, a chamar-me sob a forma
de uma camisa baloiçando, pendurada de uma janela
— Menino
numa voz que me assustava, uma ocasião em que me apanhou a comer a
estearina das velas apontou-me um dedo torto, terrível
— Vais morrer menino
enquanto eu engolia lágrimas de olhos secos, sempre de olhos secos
graças a Deus, quando foi do meu pai bem me apeteceu, quer dizer ao
princípio apeteceu-me mas depois, já na igreja, vieram-me certos episódios
à cabeça e a partir desse momento nem pensar, aguentei todos os pêsames
zangado, enquanto engolia lágrimas, engolia lágrimas, engolia lágrimas que
sabiam a medo, ao cruzarmos com um preto a dormir num degrau fervendo
bebedeiras lembrei-me que já não sonho agora, continuo na cama a ouvir
vozes na sala mas que vozes se não está ninguém, digam-me vocês que não
sei, é melhor escrever continuo na cama na esperança de vozes que não
existem, da minha prima, por exemplo, cujo peito, que mistério palavra,
crescia e crescia, a minha mãe a fitar-me de banda, franzida
— Que história é essa de quereres ter peito tu?
a segredar preocupações ao meu pai, de voz cheia de sobrancelhas
carregadas
— Deve estar parvo esse
enquanto as camionetas passavam perto da estação dos comboios à saída
de Malanje, comigo a detestar o idiota que eu era, a minha camioneta a
primeira, cheia de soldados caladinhos, nem eu consentiria outra coisa,
seguida pela do capitão por quem a cretina da amiga do general se
interessava, ela que nunca mais me chamou
— Benzinho
quanto mais
— Seu cabrãozão
nos momentos supremos que antecediam o fogo de artifício final, quando
a cara se amarrota e desamarrota à volta do nariz enquanto as mãos, de
dedos brancos de esforço, despedaçam às cegas a cabeceira da cama, se
vivêssemos juntos, Nossa Senhora, o que a gente gastava em mobília, é
preferível esta mulher que tenho, perguntando-me com educação
— Já está?
a trotar para o bidé a fim de me expulsar ralo abaixo, lá vou eu de cano
em cano até ser transformado em adubo numa fossa derradeira, desde que
isso me veio à cabeça fujo dos legumes, Malanje foi acabando a pouco e
pouco sob a forma de quimbos cada vez mais dispersos, com paus de
bandeira sem bandeira ao centro, palmeiras olha, sempre tive a impressão
que os pretos não gostavam delas mas que sei eu dos pretos, só lhes
conheço o sorriso
— Meu coronel meu coronel
e para mim basta como discurso, noitibós no alcatrão cada vez mais
picada, primeiro só olhos, depois um saltito de pneu, depois, se nos
voltarmos, um montinho de penas soltas lá atrás, depois cubatas nenhumas,
a mata, o capim, a mata, quantas vezes cacei por aqui, não pacaças, gazelas,
as pacaças mais, há quanto tempo não escrevo aos meus velhos, mais junto
ao rio, em Lucala ou no Cambo, não é que me apeteça muito, digo sempre
as mesmas coisas, o que hei de eu contar, dinossauros não há, senão o dia a
dia da tropa, patrulhas de vez em quando, umas inspeções ao distrito, idas a
Luanda, congoleses que andavam por aí a doutrinar os pretos, falando-lhes
das alegrias da independência e em questões de revolta os pretos mil vezes
piores que nós, matam logo e a gente não, prisãozinha que é uma forma de
não fazer nada e comer sem pagar, claro que se morre na jaula mas pelo
menos não chove como nas palhotas, para além de doutor às ordens e da
missa aos domingos que diminui o tempo no Purgatório e nos empurra para
o Céu numa rapidez de foguete e aí então jantaradas de bem-aventurança,
os missionários que o digam embora os missionários, na minha opinião,
mais amigos deles que da gente e aposto que a minha mulher, enquanto eu
arruíno a coluna com os balanços da camioneta na selva, o tempo inteiro
feliz ao telefone, conversa com as amiguetas na pastelaria, no cinema e em
casa, viúvas de vivos, gaiteiras aos cinquenta anos, palavra, palpando roupa,
sem a comprarem, nas lojas, o general, liberto de rivais, todo cheio das
atenções da pequena, quem sabe se a ordenança a não partilha com ele,
apesar dos comprimidos animarem o velho um rapaz de vinte anos dá jeito,
com vinte anos eu até uma bota de montar, metida pelo cano, aguentava,
cheguei a comer, sem que o estômago vibrasse, trinta e quatro pasteis de
nata seguidos e à medida que avançávamos subitamente dia, luz pássaros
macacos e um friozinho estranho nas árvores, o costume neste sítio, tudo ao
contrário de Lisboa onde até a morte demora tempo demais ó tio ó tio, a
minha madrinha, por exemplo, a pedir que acabassem com ela, toda roída
do cancro e o filho a aparecer de tabuleiro
— É só fraqueza mãe beba este chazinho
enquanto galgávamos um morro e descíamos para o seguinte com as
rodas a bailarem na lama, a certa altura uma aldeia de leprosos gatinhando
entre trapos e lixo, a certa altura um cemitério inesperado, de lápides caídas,
um relâmpago à esquerda, um relâmpago em frente e a reverberação dos
trovões ia e vinha, tudo tão grande, tão vasto, sem um chafariz, sem um
beco, sem um gato para amostra, sem uma viúva num postigo a atirar-nos
um único incisivo nessa fúria das viúvas, mandei parar a procissão para que
a companhia destinada a Cunda Ria Baza saísse para a esquerda, o capitão,
um choninhas, veio a correr despedir-se de pistola a pular no coldre, com a
fralda a sobrar do corpo pingando-lhe em volta, a mulher dele uma ruiva
legítima, tipo égua normanda, que lhe comia as papas na cabeça e o tratava
por
— Esse aí
sem o olhar e ele calado, a pedir perdão a nós todos com o sorriso
— Desculpem ser choninhas
sempre pronto a ajudar, prestável, simpático parvo, desses que alertam,
cheios de boa vontade
— Cuidado com o degrau
quando degrau nenhum, nos acompanham ao posto médico, com
palmadinhas ternas na mão, para o gesso da fratura
— Enganei-me de corredor acontece
eu com a ruiva na ideia enquanto parte das camionetas tomavam uma
picada à esquerda com os soldados a sacudirem-se lá dentro e os
relâmpagos a cercarem-nos sem chuva ainda, o céu liso, direito, negro
apesar de dia, a ruiva um cheiro diferente do nosso, mais ácido, mais forte,
quando sorria sessenta dentes inesperados no mínimo do mesmo modo que
as mãos cheias de dedos e o cabelo uma única labareda a crescer na direção
do teto, as camionetas do choninhas foram-se afastando uma a uma até o
capim as engolir, pode ser que a última alcance Cunda Ria Baza numa
dificuldade de náufrago com os discípulos de António Mariano a cercarem-
na dançando sempre, de calcanhares a baterem
— Mata mata
no tambor da terra e a chuva a espantar as cabras, as galinhas, os cães
pela sanzala fora enquanto a única metralhadora que nos sobrava ia
disparando ao acaso e nós continuávamos a descer pela Baixa do Cassanje
fora, assustando bandos de corvos que se erguiam dos troncos, por vezes
uma casa abandonada, por vezes um cemiteriozito de brancos que o capim
engolia, o que faço eu em Angola, por que motivo não estou na outra
margem do mar, não perto das dezassete gaivotas, claro, no interior da
cidade onde elas não chegam, só pardais e pombos que me não ameaçam
com os bicos nem planam assim chamando-me com ódio, a minha mãe
— São só pássaros dorme
num terceiro andar acanhado de onde não se via o Tejo, apenas a rua lá
em baixo, o jardim do coreto onde os reformados jogavam às cartas
coçando o boné entre duas manilhas e um cego imóvel a sorrir para
ninguém quando falavam com ele
— Já vou
aferrolhado no vazio das suas sombras secretas, a companhia de Cunda
Ria Baza evaporou-se na mata, a suspeita que um rio não muito longe dado
que gazelas saltando na picada, nenhuma colina de algodão ainda, nenhuma
colina, por enquanto, de algodão e mandris, os discípulos de António
Mariano distantes, o rio Cuango tão longe, a amiga do general a arredondar
de perfume a nuca e os ombros, um risinho que nascia dos olhos
— Que maroteco está hoje
com o general a pensar, verificando-se a medo
— Acho que vou conseguir
e com uma ajuda discreta
— Vamos lá vamos lá
talvez conseguisse, estes quartos de pensão todos iguais, que horror, esta
mobília de pinho, esta almofada com rasgões, este armariozito, de um
cabide apenas, ainda a baloiçar do cliente anterior, se procurar sob a cama
há de haver um chinelo, sai-se ao pé coxinho daqui, talvez vitoriosos, talvez
derrotado, com um gosto amargo na alma, uma sensação de
— Para quê?
uma espécie de tristeza que não entendemos, este balde que se abre de
um, Cunda Ria Baza, salto ao carregar no pedal e encontra-se um resto de
algodão ou um penso íntimo solitário no fundo do mesmo modo que um
cabelo comprido no lavatório ainda, uma esfera de plástico transparente
atarraxada aos azulejos, com dois dedos de sabonete líquido que cheirava a
enfermaria de hospital, que miséria isto tudo, que, não estou a exagerar, que
pena de mim, a marca de um cigarro na cortina de plástico, um papel de
rebuçado que se agarra ao calcanhar, se me acontecer pisá-lo fica preso nos
dedos e agora ou o tiro com água no lavatório minúsculo ou vivemos juntos
até a peúga o cobrir, a comadre da minha avó a estender-me a concha da
mão
— Escolhe um caramelo desses filho
amarelos, castanhos, um deles quase, o que faço eu em Angola meu
Deus, um deles quase vermelho, o sorriso da comadre da minha avó, no
caso de me aproximar, engolia-me , o alfinete da gola dela um dragão de
pedrinhas
(a pedrinha do olho ágata)
que se me apanhasse a jeito, aposto o que quiserem, mordia, a amiga do
general a falar pela sobrancelha
— Em que estás a pensar?
e eu, claro, sem mencionar a comadre, tirando a gravata
— Tenho de fazer o nó neste sítio para que não se perceba
tão difícil de conseguir mesmo ao espelho, puxa-se de um lado, puxa-se
do outro, experimenta-se, desiste-se, experimenta-se de novo, colocam-se
os óculos, onde param os óculos, para acertar melhor, a amiga do general de
cotovelos cruzados a cobrirem o peito numa espécie de pudor
envergonhado, súbito
— Pareces o merceeiro da minha mãe a fazer contas às compras
um careca de bigode atarefado que se mexia e mexia a somar para dentro,
de feições todas concentradas incluindo as orelhas, nunca vi orelhas assim
para parcelas difíceis enquanto a palavra merceeiro, com o que ele achava
um sabor de insulto, ia rodando sem fim na cabeça do general, um
merceeiro de aldeia, a esta hora o choninhas já nas plantações de algodão a
distribuir a tropa depois de falar com os alferes, você aqui, você acolá, você
em baixo, você junto àquela viatura desfeita, ao longo da colina, enquanto o
que pareciam os discípulos de António Mariano, acompanhados, ia jurar,
por oficiais congoleses, pegavam fogo aos caules das plantas, o guia atrás
de mim mandou-me virar à direita, apontando árvores
— Tembo Aluma
numa bifurcação da picada onde o capim igual sempre, um bando de
mabecos a fugir de nós sem nos olhar sequer, uma cubata reduzida às
estacas, nuvens negras, enormes, a crescerem no céu, esta terra vermelha,
este relento de enxofre, o general na pensão, para si mesmo
— Vamos lá que remédio
estendendo-se na cama que o engoliu de golpe e o general assustado
— Vai comer-me morri
com todos os ossos numa cova cruel prendendo-lhe os gestos, a amiga lá
em cima, perto dele e longíssimo
— Onde estás tu Bichaneco?
sem dar com o general ao seu lado enquanto vozes de mulatas discutiam
na rua
— Olha o vento menina olha o vento
não, isso outra personagem, as mulatas quimbundo, palavras em
português de vez em quando
— Eu mato-te
e qualquer coisa de metal na cara, uma pausa de espanto, pessoas a
correrem e o estrondo dos passos de parede a parede, Cunda Ria Baza,
Cunda Ria Baza, depois de conseguir trepar a cova da cama até à amiga o
general despenteado, exausto, a ordenar-se para dentro num suspiro
— Vamos lá
a amiga, desconfiada
— O que se passa contigo?
e não se passa seja o que for, desculpa, tive de repente ganas de estar em
casa, em paz e sossego, com a minha mulher só que não posso dizer-te, sem
a angústia de não ser capaz percebes, com um jornalzinho ou um livro ou a
olhar a parede onde a minha infância, que esquisito, continua a acontecer
sob a forma de uma cadela chamada Milú ou da minha mãe a ralhar-me
porque não esfreguei os pés no capacho na volta da escola, ela a apontar-me
manchas
— Que lindo serviço
enquanto ao longe, por cima das copas, à direita, dois penachos de fumo,
o guia atrás de mim, na caixa da camioneta, estendendo o braço que
cheirava a pouca água e a catinga sobre o meu ombro a apontar
— Tembo Aluma
à medida que os rolos de fumo iam crescendo de modo que fiz alto,
chamei o capitão da companhia, não choninhas este mas ruivo, de sardas
em combustão nas bochechas e pestanas transparentes de bácoro sempre a
baterem, baterem, com uma dessas cicatrizes debaixo do lábio, de quando
se cai em pequeno, ou seja um tracinho branco na pele, eu a apontar-lhe o
fumo
— Tembo Aluma
no que a esta distância me dava ideia de um vale, um texugo ou o que
parecia um texugo cruzou a picada diante de nós, sem pressa, e dissolveu-se
no capim, ao dizer
— Tembo Aluma
não senti a boca vibrar e pareceu-me que os dentes não verdadeiros,
postiços, enterrados nas gengivas mas postiços, chocalhando uns contra os
outros, cerrei a boca a pensar
— Vão cair vão cair
à medida que a segunda companhia se afastava camioneta a camioneta de
nós e me apetecia dizer
— Mãe
afundar-me no travesseiro e dizer
— Mãe
até a palma dela me pesar nas costas, é uma maçada ter de esmiuçar tudo
até entenderem, a minha mulher para mim
— És tão criança às vezes
a minha mulher para mim
— Não comes?
de repente numa atenção que me comoveria se me comovesse ainda,
devo estar parvo porque
pai mãe pai mãe
se me contassem não acreditava, primeiro não me lembro dos meus pais e
segundo não lhes sinto a falta, chegou-me aos ouvidos que a inquilina de
cima os ajuda, aquece-lhes a sopa, vai lá ver como estão, sossega-os no que
me diz respeito
— Quanto vale a aposta que um dia destes chega uma carta dele?
e uma fungadelas e um lenço no olho, bem podem esperar sentados que
não chega, enquanto uma das lâmpadas do teto, cardíaca, indecisa,
pestanejava, já quase não se ouviam as camionetas para Tembo Aluma,
pestanejava aflições, a amiga do general
— Nunca falas dos teus pais
desejosa de comover-se, é mulher, o que elas gostam de procurar o lenço
na carteira
— Que lindo
aposto que até a ruiva da messe, aposto que se calhar até eu, tudo é
possível sei lá, ai das companhias se não me põem a Baixa do Cassanje na
ordem ainda por cima com os aviões a ajudarem, não há mal que umas
bombazitas não curem sobretudo quando ajudadas pelas bazucas e as
metralhadoras e agora o caminho de Marimba mal apanhemos a picada que
conduz, mãezinha, à Chiquita, já depois das primeiras fazendas, o medo que
eu tinha das zaragatoas do enfermeiro, a pingarem tintura que ardia, durante
as anginas
— Abre a goela e olha para cima menino
as primeiras fazendas secas e os primeiros armazéns derrubados, restos
de tratores, um cabíri defunto que um mabeco arrastava perseguido por
pássaros de bico comprido a grasnarem, dois cotas mais longe, diante de
uma cubata tombada, no mês que vem promovem-me e sigo direitinho para
a outra margem do mar onde encontro de certeza as dezassete gaivotas no
telhado do armazém, quietas, a fitarem-me, o dono da cantina da Chiquita,
um indiano da minha idade com um turbante sujo e uma espécie de camisa
mais suja ainda, disse-me que os discípulos de António Mariano na sanzala
Marimba e na sanzala Macau depois de destruírem as fazendas em torno,
ameaçando os bundo e bângalas e os bailundos do sul com canhangulos e
catanas e lanças, desfizeram a missãozinha dos padres espanhóis e a capela
e a escola, degolaram, cantando sempre, o criado e três sipaios da
administração de posto enquanto o general para a amiga, devagarinho
— Deixar a minha mulher e casar-me contigo?
transportando a custo as palavras, uma após outra, no carrinho de mão
empenado da boca
— Deixar a minha mulher e casar-me contigo?
enquanto na cabeça dele um
— E agora?
sem respostas, vazio, tirando uma pergunta hesitante
— O que é que eu lhe digo?
para o qual não achava solução, girando sem fim, o que é que eu lhe digo,
insistente, inútil, circular como o Meça aqui a sua tensão arterial sob a cruz
verde da farmácia que desaparecia e voltava, monótono, automático,
imaginou que debaixo da cruz, em lugar de Meça aqui a sua tensão arterial,
a pergunta a sumir-se e a voltar-lhe à cabeça, e conforme nunca viu
ninguém a medir a tensão, a certeza que ninguém se interessaria pela sua
angústia
— O que é que eu lhe digo?
sentindo-se tão sem ajuda, tão só, os oficiais e as mulheres dos oficiais na
messe um cumprimento apenas
— Senhor general
a que ele não respondia, ofendido por não atenderem ao
— O que é que eu lhe digo?
que embora aferrolhado dentro dele gritava sem fim conforme cada passo
seu pedia
— O que é que eu lhe digo?
cada gesto suplicava
— O que é que eu lhe digo?
cada retribuição de um cumprimento
— O que é que eu lhe digo?
o gesto para o major que convalescia da hepatite não significava
— Deixe-se estar sentado a descansar Mendonça
significava
— Você que este doente e teve tempo de pensar na vida ajude-me por
favor o que é que eu lhe digo
com o Mendonça já afundado no jornal aberto, de mão esquerda insegura
porque a página vibrava, de vez em quando, na picada, grupos de pretos que
caminhavam na mesma direção que nós, os motores das camionetas
impediam-me de ouvir mais a sensação, mais sensação que certeza, de
ordens e tambores distantes, o que pareciam tiros, o eco, adivinhado, não
ouvido, e se calhar imagino, se calhar eu com medo, de muitos pés que
dançavam, parecia que as árvores me transmitiam recados e o capim me
falava, o meu pai à entrada do quarto onde eu na cama, de dedo no, de dedo
no interruptor
— Tens medo que te apague a luz porquê?
dava-me ideia que com desprezo por mim e tenho medo que você se
transforme numa silhueta que se vai embora e me abandona sozinho à
mercê de ciganos e monstros, medo que me enfiem num saco e me levem
para um sítio horrível, cheio de bichos enormes com antenas que ameaçam
— Ai menino menino
e onde a minha mãe não chega, despenteada, de roupão, com um prato de
cereais e o meu guardanapo de atar aqui atrás no pescoço
— Não te enforco sossega
com uma rã estampada a saltar ao eixo, não, o guardanapo antes da rã
estampada, sem boneco nenhum, que amarravam à minha avó quando ela
cheché, fitando as pessoas não com os olhos, com a boca aberta sem as
reconhecer, de vez em quando uma palavra
— Teotônio
a minha mãe espantada, a olhar a minha tia
— Teotônio?
e a minha tia, sempre vestida como para um baile, a fazer-lhe festinhas
pacientes no ombro magríssimo
— Já está tantã coitada
uma ocasião vi-a nua durante segundos porque a porta do quarto sem
fecho até que deu por mim e a fechou depressíssimo
— Sai daqui o que é isso?
grupos de pretos que caminhavam pela berma na mesma direção que nós,
que estranhas as mulheres nuas, umas partes direitas, outras partes
redondas, pelos onde eu não pelos, as unhas de baixo encarnadas, não
conseguem fazer chichi para uma jarra vazia porque lhes falta o tubinho,
não acredito que a minha mãe dessa maneira, sou filho dela e portanto
tenho a certeza que igual a mim, grupos de pretos a caminho de Marimba
também, um deles puxando um bode por um pedaço de corda, um segundo,
mais alto, a dançar, nós brancos temos uma única, o general para si mesmo
— O que é que eu lhe digo?
nós brancos temos uma única cintura, eles conseguem dobrar-se por duas,
três, quatro, de ombros ao mesmo tempo móveis e fixos, não sei transmitir
isto bem, o meu pai apenas uma silhueta porque a luz apagada
— Não quero um filho maricas
e a prova que não sou maricas é que estou aqui em África, senhor, sem a
amiga do general parecida com a minha tia até nos pelos, até nas unhas dos
pés, faltava-lhe um dentinho a cavalgar os outros à frente, faltava-lhe a
cicatrizita da testa, o resto igual, a quantidade de vezes eu por pouco não
me saltou
— Tia
ou tive a certeza, enfim quase a certeza de escutar
— Sai daqui o que é isso?
com os meus pais que assistiam a nós sentados num sofá a um canto, o
meu pai para a minha mãe
— Se calhar não é maricas enganei-me
e a minha mãe, de prato de sopa no colo, sorrindo aliviada, ambos velhos,
coitados, de feições a transformarem-se pouco a pouco em caras de caixão
que apesar de parecerem dormir repetem aflitas
— Já viste o que me aconteceu?
os motores das camionetas e os gritos dos discípulos cada vez mais
fortes, dois aviões ensurdeceram-nos e desapareceram nas árvores, um deles
inclinando as asas para a direita e para a esquerda a prevenir
— Já cá estamos
na messe de oficiais os pilotos não fardados como a gente, de fatos
macacos azuis com, o general tão preocupado
— O que é que eu lhe digo?
de fatos macacos azuis com os galões no peito, um tenente e dois alferes
que não falavam conosco, falavam entre si em cochichos secretos, com as
senhoras a espiarem-nos fingindo não dar por eles
— Homens que voam que bom
imaginando-os capazes de planarem em casa, homem que se misturam
com as nuvens, ensinem-me a pairar enquanto eu de luz apagada no quarto
e palma apertada na cara a afogar um
— Mãe
que afugentasse os ciganos, mandei parar a coluna, chamei os oficiais,
disse-lhes
— Vamos dar a volta a Marimba e entrar por trás com as camionetas em
leque só a segunda e o unimogue lhes surgem deste lado
a mostrar com um lápis na tampa de uma ração de combate e as cabeças
deles todas juntas por cima, um pássaro de muitas cores quase nos roçou o
quico e desapareceu num bosquezinho de acácias em flor diferentes das
outras árvores, África tanta coisa, plantas, bichos, trovoadas ao passo que
Lisboa sempre por ordem e nem falo das dezassete gaivotas no telhado do
armazém, como é que o mar consegue ter margens tão diferentes, estes
pássaros brancos, de pescoço comprido, que nunca, a minha mulher ao
almoço
— Em que estás a pensar?
de garfo a meio caminho entre o prato e a boca e eu
— Em nada
que é o que se responde sempre, não é, e vendo bem em nada, o que
interessa o que eu penso, já estou tantã coitado, tudo isto foi há muito
tempo mesmo que tenha sido ontem, que maçadora a reforma, dou uma
volta ao parque, melancolizo-me no café, vejo o letreiro luminoso da
farmácia que em lugar de Meça aqui a sua tensão arterial continua a insistir
o que é que eu lhe digo, o que é que eu lhe digo, o general defunto há
séculos, claro, a esposa num lar, a amiga sei lá onde, se calhar em casa de
uma sobrinha, na província, de manta nos joelhos numa cadeira de baloiço,
a coçar a boca torta com um dedo ao acaso, tudo tão distante, tudo morto,
sobra a lembrança dos discípulos de António Mariano cada vez mais
próximos de mim, distinguiam-se mais vozes, mais passos, mais pessoas,
mais risos, começava a escutar as vozes, os cantos, a percussão dos pés, um
— Euá
que se aproximava e afastava e aproximava de novo, vindo da cinza das
plantações defuntas, dos armazéns vazios de sementes, das máquinas
desarticuladas no chão, dos flocos perdidos que navegavam no ar, o meu pai
a afastar-se corredor adiante
— Deixa-te de mariquices e dorme
a sentar-se na sala porque a cadeira suspirou sob o seu peso, adivinhava a
minha mãe a corrigir o mundo por intermédio do cesto da costura,
compondo-o à nossa medida aumentando-lhe os braços, melhorando-lhe os
ombros, ajustando-nos o comprimento e o volume, a minha tia para a minha
mãe
— No outro dia o teu filho
e a calar-se ao ver-me, eu no outro dia tão espantado, sem conseguir
entender, eu depois do outro dia a entender a pouco e pouco, a amiga do
general para mim, a empurrar-me o pulso
— Não tenhas pressa
de modo que eu a chegar lentamente, de modo que os meus gestos
compridos, as minhas pernas demoradas, a minha avidez a alcançar-te dedo
a dedo, a minha pele tão suave, a minha respiração
— Euá
tão lenta, os meus joelhos quase sem tocarem o, quase sem tocarem o
colchão, a tábua do meu peito chegando pouco a pouco, tu surpreendida
— É para hoje?
a alargares-te porque o teu corpo de súbito enorme, a minha mulher
— Em que estás a pensar?
a minha mulher
— O que quer dizer esse sorriso?
e sei lá o que quer dizer este sorriso, nem dei por ele garanto-te, não
sonhava que fosse capaz de sorrir juro-te, estava a sorrir, não vais
compreender, porque me sinto, sei lá como explicar, feliz dado que me
aceitam, me recebem, me dizem
— Agora
me pedem
— Agora
me ordenam
— Agora
e a vida, de repente, começa a pulsar mais depressa, subindo a pouco e
pouco na direção do sol.
10
E então comecei a acordar aqui, nesta margem do mar tão longe de
África, com o cheiro vindo da água, não dos pinheiros e das urzes lá atrás,
do algodão queimado na Baixa do Cassanje que desorientava os morcegos,
entontecidos pelas nuvens de cinza que chegavam das colinas em torno de
Marimba onde as plantações, os armazéns e as camionetas da Cotonang
ardiam, juntamente com os gritos e os tambores porque a terra uma pele
tensa e escura que vibrava sem fim, nós de repente sem criados em casa
exceto a Domingas e o preto da espingarda que acompanhava o meu pai
enquanto os frutos das mangueiras, pardos, abertos, apodreciam no chão, o
macaco para cima e para baixo no poste, ignorando a comida em guinchos
agitados de medo, a Domingas na cozinha da fazenda ou na cozinha daqui a
jurar
— Não me vou embora menina
e sei lá se não te vais embora tu, foram-se todos exceto os caranguejos
que continuam a avançar, lentos, determinados, cegos, umas galinhas e
umas cabras nas sanzalas desertas, hastezinhas de liamba à entrada das
cubatas, uma mala de peixe seco vazia no chão, um velho de pés enormes e
olhos apagados a mastigar-se a si mesmo, indiferente a nós, o meu pai disse
que a tropa ia chegar amanhã e não chega como não chegou ontem, o
pássaro frágil de um aviãozito apenas, toc toc, à procura da gente sem nos
ver, que parece acenar com as asas e não acenou nunca, limitou-se a
espantar os mandris que corriam, de dentes enormes fora da cara, comem
bichos pequenos, comem os filhos às vezes, passaram a galope, urrando
para nós, quase junto da casa, comandados por uma fêmea que ladrava de
medo, quanto tempo estarei aqui na esperança de uma carta do meu pai que
me mande voltar, o empregado dos Correios para mim, sem olhar as
prateleiras, de carimbo na mão
— Não chegou nada senhora
e lá fora bicicletas, pardais, um horizonte de vivendinhas acanhadas, não
uma planície sem fim, a impressão que a minha irmã morta comigo, não
cessamos de envelhecer juntas as duas, a minha mãe a olhar-me
— Ia jurar que
e a calar-se de súbito, os olhos dela mais idosos que o resto do corpo,
pergunto-me se ainda estará viva agora
— Isto não é uma terra para ti
dizia ela
— Isto não é uma terra para ti
os meus avós trouxeram-na em pequena da outra margem do mar, uma
mercearia em Luanda igual à mercearia na vila mas faltavam os pinheiros,
faltava o frio, o bairro de Alvalade ainda pequeno, sujo, com barracas de
pretos em torno, cães vadios, bicicletas, foi o meu avô, não o meu pai, quem
começou o algodão, a Cotonang distribuía as sementes, o meu pai com o
padrasto numa quintazita ao lado, a minha avó ao conhecê-lo
— Talvez
as duas fazendas juntas, os mandris a espiarem-nos, ao ficarem sozinhos,
de luz apagada, a minha mãe tanto medo, a voz dela
— Espera
a voz dela
— Ainda não espera
e afinal menos difícil do que pensava, uma boca a soprar na sua orelha,
uma palma que lhe ocupava as costas todas, joelhos pesados entre os seus,
um pé que lhe magoou o pé com a unha do dedo grande
(- Homens)
e desapareceu no escuro, os morcegos claro, já me esquecia dos
morcegos, a gritarem por eles
(não fui eu, não fui eu)
às vezes com um rato nas patas, o preto de espingarda já a dormir no jipe,
à espera, o vento levava pedaços de algodão para longe e trazia-os de novo,
em certas alturas, à noite, entravam pela janela segredando recados que ela
não entendia, ao olhar o meu pai na manhã do primeiro dia as feições tão
diferentes dos traços do homem com quem se deitara na véspera, um
estranho
(com um nariz maior por exemplo, teve a certeza que um nariz maior)
que quase nem a olhou, transformado em torneiras e num objeto qualquer
(a navalha da barba?)
a cair no compartimento ao lado, demorou a habituar-se à tosse dele, ao
cheiro dele, à cadeira a um canto com a roupa mal dobrada em cima, por
exemplo um dos punhos da camisa que roçava no chão, os sapatos
alinhados aos pés da cama, muito maiores agora em que ninguém dentro
deles, a minha mãe surpreendida com o meu pai, não em voz alta, para
dentro
— Quem és tu?
a descobrir gestos novos, uma maneira de andar em que não reparara,
olhos que mal ela se fingia desatenta a espiavam, surpreendidos, igualmente
a pensarem
— Quem és tu?
cheios de cerimônia, de timidez, de embaraço, de aflições caladas
— Se calhar magoei-a
com pedidos de desculpa aferrolhados lá dentro
— Perdoe
planeando mais cuidado para logo à noite, menos pressa, menos medo de
desiludir ou magoar, pôs mais perfume no peito, mais talco nas axilas,
pentear-se melhor, ter menos pressa meu Deus, a minha mãe a pensar
— Nunca mais durmo sozinha
receosa que os seus sonhos passassem para ele e quase jurava que o meu
pai, infelizmente tão perto, não lhe escutava as ideias, ao menos nesta
margem do mar a Domingas quase sempre afastada de mim, às vezes eu
com ela, de cócoras, no terrenozito das traseiras, iguais às velhas que
fumavam com a brasa do cigarro no interior da boca, só me lembro do belga
da Cotonang quando eu sete ou oito anos, a negociar o algodão com o meu
pai, sempre de óculos escuros que o escondiam inteiro, mais bem vestido
que nós, mais rico, em silêncio junto da minha mãe se por acaso eu entrava
e não sei quê entre eles que não entendia, quando o jipe chegava a minha
mãe compunha o cabelo em gestos mais rápidos, espiando-me em diagonal
desconfiada de mim
— O que saberá ela?
as feições do meu pai de repente todas juntas em torno do nariz,
repetindo para dentro
— O que se passa aqui?
sentado numa cadeira ao acaso sem olhar nenhum deles, o meu pai
parecido com a caveira de hipopótamo da varanda e o belga a olhá-lo
calado, já não sol nas mangueiras mas não morcegos ainda, as primeiras
nuvens de Marimbanguengo a crescerem ao longe, o preto da espingarda
ligou o motor da luz e a cara do belga tão pálida, os lábios sem cor, o meu
pai a apertar a pistola, a minha mãe a fitá-los calada, as ondas mais fortes
nesta margem do mar trazendo e levando os caranguejos consigo, daqui a
nada as marés vivas de setembro, daqui a nada o frio, a Domingas a cobrir-
me os ombros com uma manta
— Menina
a casa dos vizinhos deserta e nem um melro no quintal, albatrozes e
vento, por que razão não voltamos para África Domingas, não conheço esta
terra, o que fazemos aqui no meio dos estalos dos pinheiros e de umas ervas
tristes, daqui a pouco, como sempre, a noite, o mar para trás e para diante a
repetir o meu nome sem querer saber de mim, a cama da Domingas ao lado
da minha no único quarto, com um janelico para o vento, quando o dinheiro
acabar comemos o quê, os legumes da horta e a meia dúzia de galinhas que
temos, não meia dúzia, cinco, o dono da venda
— Não posso continuar a fiar-lhes
sem olhar para nós, já me ficou com a pulseirita, já me ficou com o colar,
oferece-nos às vezes uma conserva antiga, umas batatas
— A preta também come?
e a Domingas atrás de mim como quando me levava para o quarto à
noite, na outra margem do mar, claro, mas tão longe da água, a minha voz
aflita
— Este era o sítio da minha irmã não era?
porque uma boneca que não me pertencia e um bicho de feltro, com que
nunca brinquei, numa prateleira, o meu pai para a minha mãe lá em cima,
depois de o belga se ir embora, depois de abrir a camisa quase
despedaçando o tecido, quase arrancando os botões, a ordenar
— Quietinha você
na voz com que falava com as pretas
— Tira a blusa e quietinha
não a sorrir para elas, zangado, a mandar, olhando-lhes o peito, a barriga,
as pernas e empurrando-lhes o corpo para o meio do colchão, a minha mãe
tapou a cara com o braço e ele a afastar-lhe o braço
— Eu disse quietinha não disse?
numa voz que o fazia sofrer mais do que ela sofria
— Vou ter de repetir quietinha?
enquanto a minha mãe tapava a cara com as palmas e ele, furioso consigo
mesmo, não com ela, magoando-a
— Eu disse quietinha
e os bichos lá fora, dúzias de mangueiras, um relâmpago no Luremo
muito ao longe, o meu pai a ouvir os gritos dos morcegos que as pessoas
não conseguem escutar, percebemos os ecos, não percebemos os sons, o
meu pai para a minha mãe
— Não te atrevas a tocar-me
segurando-lhe os braços
— Chama-me belga agora diz meu amor diz que sim
enquanto a minha mãe de cara voltada no sentido da parede a mastigar
lágrimas sólidas porque há lágrimas sólidas, a gente tenta engoli-las e não
consegue e pede
— Não me faças mal
enquanto o homem, pesado sobre nós, nos ordena devagar ao ouvido, não
depressa, devagar, a aleijar-nos o peito, a trilhar-nos o pescoço com o
cotovelo enorme, a morder-nos o ouvido
— Diz que és uma puta diz que és uma puta
torcendo-nos o cabelo, amolgando-nos o ombro, apertando-nos a barriga
e dúzias de morcegos, centenas de morcegos, milhares de morcegos
— Diz eu sou uma puta
com as palmas no nosso pescoço a estrangular, a estrangular, aleijando-
nos as coxas, furando-nos com os dedos, penetrando-nos com o pulso
— Mais alto
esbofeteando-nos com força
— Eu mandei que mais alto
da mesma forma que nesta margem o mar mais alto agora, as ondas de
setembro quase até à nespereira, o macaco no seu posto a chamar-me
conforme eu a chamar-te
— Domingas
com medo que me deixes sozinha, no receio que o meu pai
— Mais alto tu também
no compartimento que não temos no fim do corredor que não temos
igualmente, via as chamas do algodão ao longe, escutava os hinos dos
discípulos e os aviões em círculos sem fim sobre eles, as camionetas da
Cotonang, sem rodas, nas picadas, dezassete gaivotas à nossa espera em
Lisboa, quietas num telhado de armazém, o meu pai com a chibata de bater
nos pretos trazido de longe, de Uaco Cungo e do Cassanje, a fim de
trabalharem nas lavras, magros, doentes, que os fazendeiros compravam aos
chefes de posto depois de os examinarem um a um, alinhados nas sanzalas
com as mulheres, os filhos, uma galinha esquelética às vezes, a senhora da
casa ao lado da nossa
— Como é África conte-me
enquanto os milhafres rodavam, rodavam, África é o meu pai a apontar a
minha mãe, no quarto, ao preto da espingarda atrás dele
— És servido da mulher do belga?
e o preto tentando recuar até à porta, encostado à parede
— Senhor
quer dizer primeiro calado, sem entender, e ao entender
— Senhor
de boca tão clara na pele escura, as gengivas e a língua transparentes de
medo, as palmas amolgando o cano da arma, uma veia a crescer no pescoço
— Senhor
parecido com a Domingas a puxar-me o braço
— Menina
e o meu pai não a ouvindo sequer e no caso de a ouvir
— Tu não existes cala-te
porque os pretos só existem quando os chamamos, quando eu quero, só
existem quando se ocupam do algodão para mim, quando rasgam o corpo
nos espinhos, quando me escondem o, dezassete gaivotas, quando me
escondem o sangue, os pretos estúpidos, os pretos doentes, os pretos inúteis,
hei de oferecer um à minha filha depois dela crescer
— Dá-me um neto mulato
eu que não sei se é minha filha ou filha de um estrangeiro
— Dá-me um neto mulato
ou
— Dá-lhe um neto mulato
a vizinha da casa ao lado, tão baixo que quase não a ouvi
— E deu-lhe um neto mulato?
comigo a procurar em vão na memória
— Não sei não me lembro
eu que me lembro de tudo
— Não sei não me lembro
e não me lembro de fato, lembro-me das mangueiras, dos remoinhos do
cacimbo, das estrelas, tão diferentes destas, que iluminavam a noite, do
macaco no seu poste que os discípulos de António Mariano mataram à
catanada, das cabras que trotavam sanzala fora a escaparem-se deles, da
aldeia dos leprosos que gatinhavam junto ao rio, dos mabecos que se
aproximavam a pouco e pouco, do velho que uma fêmea abocanhou de
repente jogando-o contra a erva sem que os outros leprosos se movessem
sequer, o meu pai
— És servido da amante do belga?
e o da espingarda imóvel sem olhar para ele porque não se olham os
brancos, a fêmea tentava arrastar o leproso embrulhado numa espécie de
trapo enquanto lá em cima, na fazenda, a minha mãe se penteava, sentada
num banquito diante do espelho, detendo-se a examinar uma ruga nova no
canto da boca e os braços com mais ossos, que estranho, onde param as
colinas brancas, onde para o algodão, a senhora da casa ao lado da nossa
para mim
— É bonito África?
a vivenda dela quadros, sofás, o retrato de uma senhora de bengala
— A minha madrinha que faleceu há dois anos
e parecia desafiar o fotógrafo
— Atreve-te
com um olho mais fechado que o outro
— A trombose coitada
a impedir-lhe a fala reduzindo os sentimentos a um ódio mudo, feroz e o
passado a episódios a flutuarem sozinhos num nada bolorento, um único
pedido
— Mãe
feito de cuspo e medo, a meio da noite quando menos se esperava
— Mãe
e silêncio de novo, corria-se a perguntar
— Alguma coisa senhora?
e um único olho imenso, carnívoro, a detestar-me com fúria, um último
— Mãe
já de caixão fechado, que a vizinha escutou
— Não acredita em mim?
a minha mãe nunca
— Mãe
um silêncio que parecia desprezar-nos a todos, África, como hei de
explicar, é eu junto à gaveta mais baixa da cômoda a responder
— Estou aqui
e a gente as duas a corrermos sob as mangueiras até ao portão enquanto o
jipe do belga passa por nós sem ver e a nossa mãe a acenar da janela, não, a
nossa mãe continuando a pentear-se, muito mais nova que eu agora, ou a
provar vestidos tirando-os do armário e colocando-os à sua frente diante do
espelho, comparando-lhes a cor com a sua pele, avançando um dos ombros
para verificar como caía e estendendo uma das pernas a medir o
comprimento enquanto, nesta margem do mar, a Domingas me chama da
cozinha
Menina
com um guardanapo desses com uma guita para dar um nó no pescoço
— Não vais estrangular-me?
na mão, o ruído das ondas, dentro da casa, mais forte que no quintal,
exatamente como os búzios onde a água ressoa, aquele barulho fundo dos
peitos que não descansam nunca, aposto que o meu pai assim, no caso de
continuar vivo, agora que está gasto, sentado no terraço o dia inteiro, sem
olhar o algodão, a lembrar-se da margem do mar, contava-me que um dos
calcanhares da minha avó com mais força que o outro porque uma queda
em pequena lhe ofendeu uma anca e portanto o lado direito mais pesado,
não a tratava por
— Mãe
tratava-a por
— Você
conforme ela não o tratava por
— Filho
tratava-o por
— Tu aí
sem o ver porque tinha de concentrar-se no andar, o padrasto do meu pai
— Trotinete
difícil de entender dado que falava sempre no interior do bigode
conforme via do interior das sobrancelhas, se lhe tirassem os pelos aposto
que uma cara de criança que não crescera nunca, a minha avó
— Peguei nesse ao colo mais vezes que nos filhos que tive
sempre atenta a corrigir-lhe os modos e as palavras erradas, isto numa
vila, entre pântanos, no outro lado do Tejo, onde a água subia e des
— É bonito África?
e descia trepando um murozito a pulso, a minha mãe lembrava-se das
ondazinhas sujas, depois a carta de chamada e as dezassete gaivotas no cais,
depois Angola, depois Malanje, o sol uma pedra de calor no posto, a terra
vermelha, montes, o meu pai ainda sem o preto da espingarda, é claro que ia
aumentando a pouco e pouco uma fazenda em Marimba, quer dizer a uma
hora de Marimba quando as picadas deixavam, não tinha parentes nem
dinheiro esse, no escritório da Cotonang disseram-lhe
— Não
depois disseram
— Talvez
depois disseram
— Pode ser
ajudaram-no na autorização do governo, a seguir ajudaram-no com mais
terra, a seguir ajudaram-no com dinheiro, a seguir a casa, ainda não esta,
uma anterior mais pequena que foi aumentando, aumentando, corredores,
quartos, patamares, escadas, anexos, ecos de passos, de vozes, do vento, da
chuva, o silêncio dos mabecos antes de nos assaltarem misturado com o dos
mortos que ainda não havia, o silêncio da minha irmã que ora se
aproximava ora se afastava de mim, uma mulher mais velha do que eu que
se calhar me espera, uma tarde, depois de uma reunião para acertar
percentagens de chefes de posto que alugavam pessoal para tra, a senhora
da casa ao lado
— Como é Angola conte-me
balharem no algodão, voltou para a Baixa do Cassanje com a minha mãe
e não me perguntem mais nada, o preto da espingarda a tomar conta e a
fazenda a crescer até que António Mariano, vindo do Congo no início das
chuvas, como se já não bastassem as missões dos padres espanhóis e as
escolas e os administradores que defendiam os pretos, de modo que
começaram os batuques, os cânticos, os quimbos desertos, as sementeiras
paradas, o peixe seco roubado das cantinas, as camionetas da Cotonang
vazias, os bailundos que não vinham do Huambo e a terra à espera em vão,
os tiros de canhangulo, as pontes desfeitas, as plantações queimadas
— Euá
e os brancos de Malanje com medo, como é Angola de fato, tão longe dos
caranguejos que sobem desta margem do mar para mim, lentos, tortos,
cegos, avançando passo a passo no seu vagar coxo, a Domingas
— Não tenha medo menina
a tentar impedi-los de se chegarem a nós como impedia à noite, no escuro
junto à minha cama, que as vozes que habitam os quartos se estamos a
dormir e nos perseguem, nos cercam, nos sufocam, me fizessem mal, nunca
conheci um homem, nunca deixei que me tocassem, não sou a minha mãe
apesar de prisioneira destas paredes como ela da fazenda em Angola,
penteando-se à janela, guardada pela caveira enorme, a minha mãe que o
meu pai encontrou na rua das putas em Malanje, com o mulato a abrir a
porta e a mostrá-la
— Aquela
ou seja uma mulher sentada numa cama desfeita e que não desejava fosse
o que fosse, não esperava fosse o que fosse, comia não sei o quê de um
tachinho sem os olhar, o mulato para o meu pai
— Tenho uma branca senhor
trazida dos cabarés de Luanda porque em Luanda brancas que os navios
levavam desta margem do mar, sei como é Angola, nasci lá, cresci lá, não
conheço mais nada, a branca que o preto da espingarda, quando o meu pai
disser
— Agora
há de matar um dia, a branca que o belga da Cotonang não salvou, como
podia salvá-la, olha os pinheiros, Domingas, que não cessam de falar para ti
e para mim
— Vocês
enquanto os discípulos de António Mariano vão caindo com os tiros da
tropa, enquanto os leprosos junto ao rio se vão afastando na água, enquanto
os mabecos se aproximam um a um empurrando-se, mordendo-se, o mulato
para o meu pai, a apontar-lhe a minha mãe
— Dezoito aninhos amigo
trazendo-a para a fazenda com a roupa que lhe comprou, as sandálias que
lhe comprou e aqui tem o que é África percebe, aqui tem o que somos, o
passado muito maior do que a gente imagina, isto é não dezassete gaivotas,
trinta, oitenta, duzentas, fitando-me do rebordo de um telhado, ao mesmo
tempo esquecidas e lembradas de nós, aqueles bicos, aqueles olhos, aquele
silêncio meio cruel pontuado de gritos, não me deixes adormecer,
Domingas, que tenho tanto medo, não apagues a luz, não me abandones
enquanto danço diante das camionetas da tropa porque as balas não matam,
são de água, não matam e depois os congoleses conosco, vindos do outro
lado do rio, mandando-nos destruir o que resta do algodão ainda, sobram os
diamantes, as fogueirinhas à noite, as cubatas tombadas, as esteiras de
mandioca apodrecida que nem os bichos comem, os padres espanhóis
zangados com os soldados
— Não pode ser
de modo que aqui tem África senhora, é assim, com falcões da serra a
espiarem-nos, a minha mãe para o meu pai
— Tu
ao princípio deu-lhe um quarto e chamava-a às vezes não a tratava mal,
não a magoava, deitava-se ao seu lado a anunciar
— É dia
antes de fechar a janela e ser noite outra vez de modo que eu ignorava
quem estava ali comigo e adormecia enquanto ele em mim, ou seja qualquer
coisa a mais que não era minha abandonando-me a pouco e pouco antes de
se amontoar na almofada, dedos que me esqueciam, ele ocupado com nada
no interior de si mesmo, passados dias a Baixa do Cassanje em paz de novo,
outra vez as mangueiras, outra vez os morcegos, outra vez as camionetas,
outra vez as ondas cheias de vozes lá dentro, as andorinhas do mar nos
penedos, de longe em longe um albatroz transviado a grasnar, aldeiazitas
demasiado distantes a seguir aos pinheiros, pescadores às vezes, cães vadios
pensativos, nunca vi nada tão preocupado como um cão sozinho a remoer
lembranças, de vez em quando um automóvel lá em cima que não para,
talvez às vezes o jipe do meu pai com o preto lá dentro, a nespereira sem
folhas e as marés do equinócio zangadas, eu de novo no colégio em
Malanje, perto da estação dos comboios, escutando as locomotivas à noite,
tão agudas no escuro, se houvesse um comboio aqui a Domingas e eu a
caminho de Luanda, a caminho do Huambo, cafés, cinemas, musseques, a
pensão da Mutamba com o meu pai que me deixa sozinha no quarto, não de
calções e pingalim, de barba feita e casaco
— Eu já venho
e esquecido de mim de forma que permanecia a olhar os jacarandás da
varanda, a fortaleza, o colégio de freiras e a madre a corrigir-me
— É religiosa a menina?
o refeitório gorduroso, uma colega ruça, uma colega de óculos que não
distinguia os nomes no mapa, de nariz encostado às cidades
— Não vejo
a apontá-las devagarinho, sílaba a sílaba, com o dedo, a conseguir
— Coimbra Lamego
nós todas de uniforme azul e lacinho ao pescoço, o refeitório tão
gorduroso meu Deus, a oração da manhã na capela, a professora, sem
hábito, com um broche na gola, a apontar o mindinho a uma letra escrita no
quadro
— Vvvvvvento vvvvvaca vvvvvila
e a gente a escrever no caderno, eu a olhar a vvvvvizinha da casa a seguir
à nossa
— Rrrrrealmente de Áffffrica o que posso eu ddddizer?
da mesma maneira
mannnneira
que não sei o que posso dizer de Anggggola, o meu pai à mesa, espantado
comigo
— Anggggola?
se calhar ainda na Baixa do Cassanje, se calhar já defunto, outras pessoas
na casa, outro preto noutro jipe, pergunto-me se o algodão ainda,
camionetas de pretos da Gabela, estranhos ao clima, alinhados no terreiro à
espera, um capataz para eles
— E compram a fuba na cantina acolá
mais cara que na venda de Marimba da mesma forma que os caricocos e
o peixe seco mais caros de jeito que aquilo que ganhavam na fazenda
dívidas apenas e portanto meses sem receberem, comiam lagartas e grilos,
no caso da senhora da casa a seguir à nossa para mim
— Já lhe pergunto há tanto tempo e ainda não me contou como é África
respondo-lhe que demora tempo a explicar, demora muito tempo a
explicar, tinha de falar-lhe primeiro da Baixa do Cassanje, dos leprosos dos
rios, das sanzalas perdidas na mata, dos crocodilos adormirem de
mandíbulas abertas, dos mandris a descerem das colinas perseguindo os
mabecos, do galope das pacaças ao comprido das chanas, tinha de
mencionar os macacos e os pássaros a fugirem das queimadas do cacimbo
grasnando, da minha mãe a chegar com o meu pai a casa
— Moras aqui tu?
olhando as salas, os quartos, a mobília, as escadas para o compartimento
lá em cima de onde se alcançavam as colinas brancas e a picada da Chiquita
a dissolver-se na mata, sumindo-se para sempre na mancha escura da mata,
de mencionar o silêncio da noite interrompido por constelações de grilos, de
uma jiboia que encolhia e aumentava perseguindo um cabrito, os sobas a
fumarem mutopa nas cadeiras feitas de tábuas de caixote pintadas de
vermelho, do meu pai na varanda imaginando-se na rua das putas, a
esquecer-se de si mesmo num cubículo qualquer, de santinha num nicho
com um pavio sem nenhum azeite ao lado, da minha irmã, tão pálida,
vestida de branco, com uma frincha dos olhos aberta, sobre a colcha de
cetim azul dos meus pais e embora ainda não tivesse nascido eu para ela
— Mana
e da minha mãe a olhar em torno sem encontrar ninguém, a minha irmã
que tenho a certeza de me chamar
— Mana
também, a minha irmã a propor-me
— Vamos correr até ao fim das mangueiras
de modo que se quer mesmo que lhe diga como é África, se insiste que
lhe conte como é África, se exige que lhe explique como é África convide-
me para me sentar sob o seu guarda-sol enquanto os caranguejos, lá em
baixo, vão subindo, subindo, enquanto os caranguejos sobem os penedos até
nós, enquanto os caranguejos não desistem de subir até nós nas suas patas
demoradas, hesitantes, tortas, teimosas, com as suas pinças cruéis e os seus
olhos ocultos, se quer que eu lhe descreva como é África, se tem a certeza
de querer mesmo que eu lhe descreva como é África repare no meu pai e no
preto da espingarda aproximando-se da minha mãe, sem dar por eles, a
pentear-se à janela, repare na minha mãe a percebê-los finalmente no
espelho sem deixar de pentear-se, a girar penteando-se sempre, não num
cubículo da rua das putas em Malanje, a minha mãe de roupão caro e anéis
caros a subir do banco a pentear-se, a encará-los a pentear-se, quase
sorrindo a pentear-se, a minha mãe
— Foi o mulato lá fora que vos mandou aqui não foi?
a minha mãe não quase a sorrir, a sorrir
— Foi o mulato lá fora que vos mandou aqui
a minha mãe
— Aqui
ou o que parecia
— Aqui
de forma que eu para a senhora da casa a seguir à nossa
— Quer saber como é África não é?
mas sem poder informá-la porque os gritos dos morcegos nas mangueiras
me apagaram a voz.
11
Que triste o Namibe durante o cacimbo, ondas em silêncio, quase
invisíveis, poisando delicadas na areia, não derramando-se nelas, o sol
enorme não se percebe onde, pálido atrás de nuvens que não existem
também, noites que segredam numa língua que conhecemos mas a vida nos
foi tirando com o tempo, a albina, que não fala nunca, a dizer-me

e eu a responder sem me dar conta

igualmente enquanto a sua pele ganha uma tonalidade lunar, de onde virá
esta palidez lá em baixo, à esquerda, onde o deserto começa, esta ausência
que se exprime, esta distância que fala, tão grande Angola não é e no
entanto, durante o cacimbo, uma pequenez nas coisas, lembranças que me
assaltam e me deixam mais sozinho ainda, Lisboa às vezes, ruas e ruas onde
não conheço ninguém, casas onde não entrei nunca, eu para a albina

de novo, esperando o que não podia dar-me, o que é um preto, como é um
preto, o que significa um preto, o governador de Malanje a estranhar,
surpreendido
— E tem amigos no Namibe?
como se fosse esquisito ter amigos no Namibe, quem tem amigos seja
onde for em Angola, sepultaram António Mariano sobre uma tábua de
andaime na horta da prisão, os pretos das sanzalas que lhe enterrem os
discípulos, o algodão semeado de novo que começa a crescer, as cicatrizes
do napalm a desaparecerem da terra e as aldeias em paz, os velhos a
fumarem mutopa as galinhas a ciscarem as lavras, a albina que não se
calava agora a insistir

e eu a concordar com ela

de vez em quando um cota que me comprava marufo ou peixe seco ou
tabaco, uma carta do meu pai que começava
A tua mãe
e não necessitei de ler mais, a tua mãe chega, porque não casa com a
prima dela, senhor, a fim de tomar conta de si, sabe de costura, cozinha,
aprendeu a dar injeções
— Não te mexas agora
previne-o contra as correntes de ar, traz-lhe a boina, se faz sol, para o
dominó na praceta, acompanhada de um cachecol no bolso das calças
— Mais vale prevenir
porque às seis horas o frio, é sempre assim em setembro, pensa-se que o
tempo tal e coisa e enganamo-nos, claro que o meu pai não contou à prima
da minha mãe acerca da lata da cozinha onde escondia o dinheiro no meio
do açúcar, descobriu-o ela uma tarde quando tentou adoçar a tisana e
começou a achar notas ao meter lá a colher, puxando-o pela manga
— Sabias disto aqui?
isto é as economiazitas juntas tostão a tostão de que a minha mãe falava,
destinadas a pagarem-me a viagem se eu voltasse de África e imaginei-me a
desembarcar no cacimbo de Lisboa onde o nevoeiro escondia as dezassete
gaivotas no telhado do armazém, os olhos amarelos, cheios de rancor, delas,
o que os pássaros nos odeiam meu Deus, vi-os bicar o cadáver de um
discípulo de António Mariano que a tropa deixou numa sanzala qualquer,
rasgando-lhe a túnica, rasgando-lhe o peito, rasgando-se de inveja uns aos
outros enquanto os mabecos, medrosos, espiavam sem se aproximarem,
quem me garante que os pombos de Lisboa, por exemplo, não devoram aos
puxões as senhoras de idade, sempre vestidas de luto, que lhes oferecem
pão de ontem nos bancos dos jardins e isto não gaivotas, pombos, pardais,
um melro, todos piando, soluçando, gritando, cheios de unhas e raiva, podia
falar sem fim acerca da crueldade dos bichos, nós, os vivos, pertencemos
aos poucos que até hoje escaparam ou aguardam ainda, trancados em casa,
que os engulam aos gritos, ao abandonarem o discípulo de António Mariano
sobraram um resto de túnica e uns ossinhos dispersos, se verificarmos
melhor somos tão frágeis, meu Deus, com os milhafres de Angola girando-
nos em torno, na realidade são os pássaros que comandam o mundo, o
governador de Malanje
— Não o quero aqui mais
a apontar-me a porta com a caneta enquanto lia um processo, já
esquecido de mim, a secretária, no corredor, a poisar-me a mão no ombro
numa espécie de dó
— Tenha esperança senhor que ele às vezes arrepende-se
tão simpática, tão feia, a transbordar de piedade, morava com uma tia que
sofrera um ataque, encaixada numa poltrona velha, de roupão, sem falar,
mastigando os próprios lábios com um único dente, segurando uma boneca
de verniz estalado na garra imóvel dos dedos, a fitar-nos num ódio vazio, de
vez em quando interrompia o ódio num sorriso para ninguém
— Chamo-me Maria de Lurdes
e continuava a detestar-nos esquecida da gente, a secretária surgia da
cozinha com o que chamava o jantar numa bandeja que tremia
— O cozido de ontem que não saiu mal
agora de chinelos porque sapatos todo o dia, para cá e para lá, pode não
acreditar mas dão-me cabo dos pés, a massajar o dedo grande inclinando-se
de vez em quando para debaixo de mim, só lhe via as costas para a direita e
para a esquerda enquanto a voz submersa no tapete
— Alivia-me sabe?
e a tia a fitar-me
— Chamo-me Maria de Lurdes
numa afirmação satisfeita antes de se ausentar de novo, somos todos
assim, acho eu, gastamos a vida a partir e a chegar, não nos fixamos nunca,
para não ir mais longe eu Lisboa, eu Luanda, em Malanje, eu Marimba, eu
Namibe e se calhar daqui a pouco, com a albina, em Lisboa outra vez, todas
aquelas igrejas, todos aqueles cafés, assim se foi à Índia, assim se foi ao
Brasil, quem não é uma caravela por dentro, quem não morreu de
escorbuto, a secretária do governador uma camazita estreita num esconso
onde o
— Chamo-me Maria de Lurdes
ao mesmo tempo longíssimo e no interior do meu ouvido me dificultava a
gratidão, tenho ideia que costumo mostrar melhor, com outra exuberância,
os meus sentimentos amáveis sem o
— Chamo-me Maria de Lurdes
a perturbar-me o raciocínio e além disso a visitar-me uma porção de
vezes, à noite, sobressaltando-me as meninges, a impressão, palavra de
honra, que até o mar
— Chamo-me Maria de Lurdes
entornando em mim um olho incerto, ele que aliás nunca nos observa de
frente, limita-se a avançar e a recuar numa preguiça distraída pensando
noutra coisa, por vezes palavras que não significam nada

e que apenas a albina me dá ideia de entender porque se dobra para elas
numa atitude de interesse, se realmente voltar a Lisboa
(estou a falar a sério)
embora aqui para nós não acredite que volto a Lisboa, o que faria lá,
medo de encontrar o meu pai numa cadeira idêntica à da tia da secretária, é
possível, quem me garante que ele não
— Chamo-me Maria de Lurdes
também, nessa voz de plástico das bonecas quando a gente as sacode,
para além de preferir ser comido pelos pássaros aqui do que pelos pardais
de Lisboa, raios partam os bichos com penas, no Namibe ao menos nem um
animal para amostra e, que alívio, algodão nem pensar, pretos ainda mais
pobres que os outros, numa sanzala pequena, que de vez em quando me
compram uma mala de peixe seco bichoso, peço-vos que não me voltem a
falar de gaivotas, de Portugal e da crueldade dos pássaros, aqui as ondas em
silêncio do cacimbo, a albina que principia, palavra de honra, a envelhecer
também, sentada na areia, de costas para mim, nenhum discípulo de
António Mariano claro, nenhuma camioneta da tropa, isto, no fim de contas,
parecido com a morte, deve ter sido o que a minha mãe encontrou ao finar-
se, o silêncio do mundo, quem morará na casita do chefe de posto desde que
estou aqui, vejo palmeiras ao longe, uma, duas, não acenando a nada ou a
impressão que um coqueiro, a camioneta do fornecedor, um indiano ou um
timorense, sempre tive dificuldade em distinguir raças estranhas, uma
manhã em cada mês por aqui pediu-me se lhe alugava a albina por uma
hora ou duas, pagou-me com fuba, um garrafão de marufo e dois pacotes de
liamba, mal acendi as primeiras folhas cheguei logo a Lisboa, lá estavam as
dezassete gaivotas, claro, como podiam não estar, olhando-me com a sua
severidade raivosa, de vez em quando uma delas afiava o bico nas asas a
observar-me melhor, a secretária do governador igualzinha quando eu lhe
falava, piscando um soslaio interrogativo, amarelo, se entrasse agora em
casa dos meus pais encontrava-os aos dois, a minha mãe podia lá ter
morrido, sentados nos lugares do costume na sala, ela à procura da caixita
dos botões no cestinho, afastando o tubo vazio de pastilhas da garganta que
servia para os alfinetes e meia dúzia de carrinhos de linhas, o meu pai a
experimentar a barriga com a palma cautelosa arreganhando o nariz em
sopros de desconforto, a minha mãe num suspiro
— Andaste a comer lebre com os amigalhaços no senhor Francisco está
visto
porque na sua opinião ao contrário dos coelhos as lebres comem de tudo,
até sapos, e o estômago, é evidente, não aguenta esse horror, a minha mãe
como se eu não estivesse em África
— Não consegues convencer o teu pai que os vinte anos acabaram há
séculos?
e não consigo convencer o meu pai que os vinte anos acabaram há
séculos, punha tinta no cabelo, punha tinta no bigode, encolhia de manhã a
barriga no espelho
— Diz-me lá honestamente se pareço setenta anos?
para a minha mãe não sei mas para mim é diferente, quem consegue
avaliar ao certo a idade do pai, há o pai de nós pequenos, o pai de nós assim
assim e o pai de nós grandes, se me recordar bem dos três foi sobretudo o
nariz que se modificou, um deles para mim, sem se espantar que eu por
perto, o que a liamba consegue
— Como vão as coisas em África?
não reparando na albina junto à porta vestida como as brancas, de
sandálias e tudo, que ao cumprimentá-la respondeu

e o meu pai a concordar
— De fato é verdade
dado que a liamba melhora o entendimento, um albatroz no Namibe,
vindo de Tômbua, a aparecer no mar, a secretária do governador depois de
limpar a boca da tia impedindo um
— Chamo-me Maria de Lurdes
que lhe pareceu excessivo
— E não torno a ver-te?
igual à minha namorada quando parti para África
— E não torno a ver-te?
dado que são sempre as mesmas coisas que sucedem na vida, os
discípulos de António Mariano também cheirando a liamba, a polícia da
Cotonang a disparar nas sanzalas, o general para a amiga a evitar um beijo,
de autoridade reforçada pelo tratamento do médico que o ajudava na
segurança, no aprumo, não tanto na pensão nem num andarzito que, o
albatroz sempre a girar no Namibe num andarzito que alugou para a banda
do liceu
— Mais dinheiro porquê?
enquanto as companhias iam regressando uma após outra da Baixa do
Cassanje e os chefes de posto tornavam a vender gente aos fazendeiros do
algodão trazendo camionetas de pessoas do Cuíto e do Huambo, algumas
com cabras e galinhas e fuba, através de tanto quimbo perdido na mata, de
túmulos de sobas no alto dos montes que despiam de arbustos e capim
deixando apenas um tufo de palmeiras lá em cima e caçarolas e panelas e
esteiras, soba Caputo, soba Bimbe, soba Santo Antônio, algumas cruzes
dispersas de fazendeiros, o frio do cacimbo à noite, uma camioneta sem
rodas que se desfazia peça a peça, a albina afastando-me o cachimbo de
barro com a palma

o meu pai intrigado
— O que é este cheiro tão doce?
o que é este fumo, o que é esta leveza do corpo, esta alegria, esta paz,
este nevoeiro que engole as picadas, a minha mãe para mim
— Não vais voltar para Angola pois não?
sumindo-se à medida que o fumo da liamba desaparecia também e o
Namibe de novo, as ondas em silêncio, quase invisíveis, poisando na areia,
não derramando-se nela, o sol imóvel não se entendia onde, meia dúzia de
gazelas a trotarem ao longe e os leopardos espiando-as agachados nas
covas, protegidos pelo vento contrário que dispersava a presença, falta-me
Marimba, faltam-me os jacarés do Cambo, falta-me a jangada que
atravessava o rio, faltam-me as noites da Baixa do Cassanje que murmuram,
murmuram, jura que não te vais embora, jura que ficas comigo e a albina
um sopro apenas

embrulhada num pano do Congo desbotado como a sua pele, de costas
para mim, com argolas de borracha de câmara de ar nos tornozelos e nos
pulsos, manchas de tinta azul nas bochechas e um anelzinho de metal na asa
do nariz, o que achas de mim, o que te interessa, o que queres, plantações
de milho seco, pássaros que passavam grasnando muito alto na direção do
sul, com uma fêmea a buzinar na frente, se eu voltasse a Malanje
— Chamo-me Maria de Lurdes
quem me reconhecia, se voltasse a Lisboa o meu pai
— Tem a certeza que é meu filho você?
e portanto não pertenço a nenhum lugar exceto a este deserto talvez, que
faço eu em África digam-me, no caso de perguntar à albina ela

sem olhar para mim, às vezes a dormir sentia as suas mãos no meu peito,
um joelho contra a minha perna, os sopros da boca, por que razão não te
vais embora de fato, por que motivo continuas comigo, se por acaso eu
desaparecer aposto que permaneces aqui, a impressão que um comboio me
espera a fim de me levar ao Lubango e do Lubango a Lisboa, a senhora do
quiosque dos jornais, duas ruas abaixo da nossa, já não de cabelo pintado de
loiro, tão velha
— Ouvi dizer que estiveste em Angola
com os mesmos jornais que conheci pendurados de molas de roupa, as
mesmas revistas, os mesmos bonecos de peluche que ninguém lhe
comprava, a senhora a duvidar
— Tens mesmo a certeza que África existe?
e se quer que lhe diga francamente não sei, se calhar estive este tempo
todo em casa dos meus pais com um desses sonhos esquisitos das gripes em
que às vezes a minha mãe me avaliava a testa com a palma
— Ainda tem febre este
com mais um cobertor na cama, uma tisana, um
— Já passa
e não passa, durou que tempos, a sério, aviões, tropas, algodão em
chamas, pretos a cantarem, uma voz perto de mim
— Chamo-me Maria de Lurdes
a secretária do governador de Malanje, sei lá o que é Malanje, sei lá
quem é ela
— Não te apetece um caldinho?
tão esperançada, a pobre, a embrulhar-me o que deve ter sido um
guardanapo ao pescoço, estendendo-me uma colher onde cintilavam brilhos
de gordura
— Experimenta só
a boca aberta como a de uma criança quando a minha mãe aproximava o
garfo
— O popó vai entrar na garagem
e eu a mastigar o popó com vontade de cuspi-lo, ficava-me na barriga a
buzinar desconfortos, vomito, não vomito
— Não o expulses pela garganta senão morres de fome
a ideia da morte, quando o corpo assim mole, a esperança de sossego,
uma certeza de paz, se quer que lhe responda a sério acerca de África, dona
Otília, acho que não tenho a certeza, se calhar uma coisa que alguém
inventou, se calhar um sítio que talvez exista, sei lá, o mais certo, uma vez
que me pergunta, é o mar a ter uma margem que principia nas dezassete
gaivotas que se calhar são trinta e cinco e não acaba nunca, falam na Índia
ou Brasil, por exemplo, mas alguém já foi lá, a seguir a Lisboa um infinito
de água de modo que o melhor é ficarmos quietinhos entre um segundo
andar e um café, que invenção tonta os pretos, e bicharada e floresta, quem
acredita numa albina que nos responde

e continua a esgaravatar a terra com um pauzinho em riscos ao acaso,
vivemos de fantasias, imaginamos tolices, gente de túnica aos gritos,
espingardas, macacos, insólito tudo isso, que fantasia sem nexo, claro que
não existe África senhora, é a febre da gripe consoante é a febre da gripe
imaginar os meus pais
— E se ele não volta?
nós que não saímos daqui, nunca saímos daqui, não sairemos daqui, a
outra margem um pretexto para nos livrarmos da forma como as semanas
pesam, a outra margem um modo de imaginarmos domingos quando não há
domingos na vida, há um modo diferente de nos aborrecermos, em pijama
todo o dia a olhar a rua à janela e uma vizinha, mais bem vestida, a
regressar do cinema enquanto o corpo da atriz vai abandonando sem
remédio o seu corpo tornando-a Natividade ou Elsa outra vez, não há África
nenhuma, garanto-lhe, que absurdo imaginar Angola, as colinas do algodão,
os mandris, o governador de Malanje, o Namibe, essas invenções da gripe,
esses produtos da febre, enquanto uma voz ao mesmo tempo próxima e
distante nos empurrava o corpo
— Segura bem o termômetro
e a gente percebe o tubo frio na axila que a nossa mãe aperta a olhar o
relógio
— Tem paciência que é só mais um minuto
de modo que esqueça África entende, por amor de Deus esqueça a
impostura de África, qual África, que invenção tão forçada, que tolice, que
mentira, um mar com duas margens onde é que já se viu, a albina, por
exemplo, imaginei tê-la comprado ao pai dela, o que faz a doença,
acompanhou-me durante anos a responder

das duas ou três vezes em que respondeu qualquer coisa, quem entende
um

para mais baixinho, alheado, o governador de Malanje para mim, ele que
não é real, inventei-o ou inventou-o a febre, a gente sofre as invenções, não
as cria nunca
— Por amor de Deus faça alguma coisa útil na vida para variar feche a
porta ao sair
e como não fechei deve continuar com ela aberta desde então, a
fotografia da mulher na secretária e uma palanca de bronze a galopar na
peanha que lhe dava mais trabalho do que Malanje inteira visto que a cada
minuto a corrigia um bocadinho com um único dedo descontente,
interrompendo um relatório porque qualquer coisa, na posição do bicho,
não o satisfazia ainda, acontece-me o mesmo com as dezassete gaivotas que
por mais que lhes troque o lugar nunca estão bem que maçada, a sétima no
lugar da terceira, a décima quinta demasiado longe, às vezes abandonam o
telhado visto que uma prega no rio, uma palha, um caranguejo morto a
boiar, um pedaço de tecido ou um bocado de madeira, sei lá, que lhes
recorda um peixe e ao voltarem ao telhado demoram a sacudir as asas num
lugar diferente ao ponto de me perguntar
— Foi daqui que saíram?
dado que a cinzenta mais longe e uma fêmea grande quase na
extremidade agora, com a cabeça voltada na mesma direção, quando
chegava a noite desapareciam todas no que parecia uma oficina de luzes
apagadas nas traseiras do cais, só janelas negras e uma porta aberta, onde
ninguém entrava salvo um cão ferrugento, esses animais sem dono, de
focinho pensativo, que trotam no meio dos caixotes farejando presenças, se
calhar ainda se recordam da minha quando me fui embora e não era o barco
que partia, era Lisboa a afastar-se, tudo recuando, recuando, casas, igrejas,
o avestruz desmesurado de um guindaste com um fardo esquecido no bico e
depois água suja, e depois nada exceto um rebocador com um petroleiro
cego pela mão, tateando o caminho com os narizes gaguejantes das
chaminés, chamo-me Maria de Lurdes chamo-me Maria de Lurdes chamo-
me Maria de Lurdes, reparem naquilo que a cabeça se lembra de guardar
senhores, faltava-lhe a unha do mindinho palavra, um acidente em criança
ou assim, uma porta que a entalou no quintal, o enfermeiro que fazia
curativos
— Ainda lhe sobram nove dedos vá lá
quando nem sequer necessitávamos de tantos, meia dúzia chegavam,
pareceu-me que a albina uma palavra

mas se calhar engano-me, só o vento no deserto durante o final do
cacimbo quando começava a sentir-se, apesar do céu limpo, a chegada das
chuvas, mais raras que em Malanje, mais fracas, relâmpagos sempre tão
distantes
(um ou outro no mar)
e os meus ossos a darem conta da umidade coitados, os cotovelos, os
joelhos, uma dificuldade neste lado do pescoço que nenhuma massagem
melhora, se explicasse isto ao meu pai ele entendia, no seu caso um
tornozelo a arrastar-se um bocadinho, coitado, tudo se empena comigo, a
minha mãe entre dois batentes
— Se fosse só o tornozelo já reparaste na magreza dele?
os olhos apagados, o silêncio, o fastio, há quanto tempo não lhe vejo um
sorriso, às vezes puxa os lábios um bocadinho, acende os olhos apagados a
acenar que sim e é tudo, quando os homens deixam de queixar-se, não se
aborrecem com a temperatura da sopa e não se zangam mais é preciso
atenção, ou seja não dizer nada fingindo que não estamos a ver, a albina,
pelo contrário, agora faladora, aqui e ali uma palavra ou duas

sentada sobre os calcanhares sem me olhar, nunca me olhou, aceitava o
fato de a ter comprado ao pai e bastava-lhe, continuava, como todas as
mulheres, a pertencer-lhe através de mim e pronto, a namorada que tive em
Lisboa começava logo a crescer no caso de lhe pedir fosse o que fosse
— Mas desde quando é que tu mandas aqui?
com as pessoas na rua a medirem-nos, as famílias não as educam para
serem o que devem ser, em lugar de obediência um risinho de troça só com
metade da boca, o resto da cara sem me ligar sequer, o nariz distantíssimo
de mim
— Olha-me este
e ainda dizem que os pretos são parvos quando em matéria de educação
andam séculos à frente da gente, dão-se os tópicos e pronto, está falado,
nenhum dele protesta, a secretária do governador de Malanje, por exemplo,
apesar de branca tinha alguns princípios assim, era o
— Chamo-me Maria de Lurdes
que me afastava um bocado, dava ideia que estava sempre a tropeçar na
velha, de olhinho alerta em todos os cantos da casa, como é que uma pessoa
imóvel ocupa tanto espaço expliquem-me, a sensação de estar
constantemente a tropeçar numa criatura que apesar de quieta ausente e no
entanto colocava-se sempre, sei lá como, diante de mim de tal jeito que
passava a vida a contornar-lhe as feições meio mortas, perseguido por um
— Chamo-me Maria de Lurdes
tirânico que me dava cabo do juízo, mesmo em momentos íntimos lá
vinha a voz perturbar tudo obrigando-me a voltar ao princípio eu que já
estava adiantado a preparar com desembaraço os manejos finais, a
secretária do governador, sem entender
— Aconteceu alguma coisa?
e eu, que remédio, novamente a juntar as tropas
— Aconteceu-me a velha
trepando outra vez, com mais dificuldade, a colina do amor embora sem
o entusiasmo do primeiro embate, esforçava-me já não por desejo, por
respeito por mim, numa justificação cansada
— A velha desconcentra-me
com ganas de lhe acertar com o despertador de folha da cabeceira,
durante a revolução da Baixa do Cassanje, por exemplo, um
— Chamo-me Maria de Lurdes
a tempo teria impedido, é lógico, a queima das sementes e os aviões do
napalm como se calhar não estava agora aqui no Namibe, continuava em
Marimba, sob as mangueiras, a olhar aos domingos os crocodilos no
Cambo, estendidos ao sol, uma ocasião vi um deles engolir uma gazela
palmo a palmo, de escamas a incharem e a desincharem conforme a
devorava e os olhos chorosos do esforço, lembro-me do meu pai chorar
assim quando o pai dele morreu, estendido na areia da capela entre parentes
imóveis, com os pássaros que lhe bicavam os parasitas do dorso passeando
nele a comer, o meu avô de gravata torta e uma pálpebra escancarada a
informar
— Chamo-me Maria de Lurdes
não, o meu avô calado, com as pontas dos sapatos unidas lá ao fundo,
contrabalançando o nariz agudo também e um botão do casaco descentrado,
sozinho, o meu tio para mim, a mostrar-me uma garrafa no bolso
— És servido?
até adormecer num banco do adro da igreja a cantar no seu sono, cada
vez mais baixinho, a vida acabou por mandá-lo para o Canadá tal como a
torneira do lavatório manda um cabelo desaparecer cano abaixo, ainda
chegou um primeiro postal a pedir dinheiro, um segundo a insultar-nos,
depois dois anos de silêncio sem garrafas nem cantorias e depois uma carta
de um emigrante compincha perguntando se queríamos pagar a viagem do
corpo dele para Lisboa porque não há quem não goste de reunir a família,
os meus pais lá conseguiram o dinheiro mas nenhuma urna é óbvio, trouxe
o meu tio de volta, ele e o compincha beberam o caixão de certeza, entre
saúdes à gente, fervendo de amor para nós
— À minha família
— À tua família
de mão no ombro um do outro, cambaleando aos abraços enquanto a
chuva se aproximava, escura como as nuvens de leste na Baixa do Cassanje,
vindas da Lunda e do Congo, acompanhadas pelos discípulos de António
Mariano que atravessaram o Cuango lá em baixo e subiam batendo palmas,
destruindo de caminho o milho das sanzalas, os edifícios das chefias de
posto, as jangadas de atravessar o Cambo e as sementeiras de tabaco que se
aguentavam ainda, roubando cabras e galinhas, pilhando as cantinas e
incendiando as camionetas, mandados por António Mariano e pelos sobas
da fronteira diante dos quais os meus sipaios fugiam, largando canhangulos
e despindo as fardas, os milhafres da serra, de olhos cegos, voavam em
círculos cada vez mais rápidos, assustados pelos tiros da tropa, os batuques,
as danças, as palmas e os
— Euás
vindos do interior da terra, no funeral do meu avô, palavra de honra, o
meu tio queria obrigá-lo a beber
— Prove-me só isto
levantando-lhe a nuca da almofada, o meu pai num soprozito
— Armênio
e o meu tio, defensor da família
— Desde quando proíbes o pai de divertir-se?
eu na cama do café no Namibe e a albina na esteira, se a chamava para o
colchão mal eu adormecesse fugia, sentia o corpo afastar-se como quando,
em pequeno, a minha mãe se ia embora julgando-me a dormir, tentava
chamá-la
— Mãe
e apenas conseguia

tal como a albina para mim

e o corpo dela longíssimo do meu, rente ao chão, se estendia o braço para
lhe tocar encontrava a esteira apenas conforme com a minha mãe
encontrava o coraçãozinho solitário do relógio de pulso que era o que
sobrava dela, dezassete gaivotas no outro lado do mar, tão longe, e neste um
vazio negro onde nada brilhava, o que me interessa Portugal, o que me
interessa Lisboa, interessa-me uma senhora de idade chamada Maria de
Lurdes
— Chamo-me Maria de Lurdes
a viver sem fim em Malanje onde as colinas do algodão iam nascendo de
novo, ao encontrar os dedos da albina na esteira ela não

como de costume, ela de súbito
— Fico aqui
e eu aliviado, contente, a aceitar
— Fica aqui
tão feliz que ela ficasse aqui e ao dizer
— Fico aqui
me ajudasse a dormir porque, palavra de honra, a única coisa que me
apetecia era que me ajudasse a dormir
— Ajuda-me a dormir
a única coisa que me apetecia era que tomasse conta de mim e me
ajudasse a dormir, impedisse que me fizessem mal e me ajudasse a dormir
porque é em África, não em Lisboa, que quero dormir, neste cheiro da terra,
neste ponto sem origem, nestas árvores que se dobram para o meu corpo
deitado, neste escuro onde uma voz
— Euá
uma dúzia de vozes
— Euá
uma imensidão
— Euá
de milhares de vozes sem fim, a tua por exemplo

e o teu corpo aqui perto, a tua densidade de mulher, o teu corpo aqui
perto

a única coisa que me importa é que tu

para mim, eu

para ti e todo o sangue de África, tão espesso, tão violento, tão forte, a
correr no meu corpo.
12
Nunca me passou pela cabeça como não passaria pela cabeça de qualquer
pessoa normal mas só depois de voltar de Marimba onde acabamos de vez
com a revolta do algodão na Baixa do Cassanje e Angola entrou nos eixos
de novo, por pouco tempo é certo mas entrou nos eixos de novo, quando
chegou a ordem de me transferir para Lisboa a fim de, já não era sem
tempo, entrar no curso de oficiais generais, que a minha mulher me
comunicasse, sem levantar os olhos da revista, que ficava em África, e
então compreendi que dois e dois não são quatro, são um cinco descarado,
meio escondido meio de fora
(somos parvos)
com um bocadinho de atenção, nem era preciso muita, um bocadinho
bastava e tudo claro, evidente, até um cego, meu Deus
(meu Deus é uma forma de dizer, sei lá se Ele existe ou não passa de uma
historieta da padralhada)
percebia, entra pelos olhos dentro mesmo que se vejam em apalpões de
acaso no ar, antes de chegar a Marimba com as camionetas, antes da
Chiquita até, as colinas do algodão todas cinza, as sanzalas vazias, as pontes
reduzidas a tábuas inúteis, nem um cabíri escanzelado a farejar por ali
pronto a mastigar-se a si mesmo e um coro distante, sei lá onde, de pés
enormes, canhangulos, tambores e gritos, tentei mostrar a ordem de
transferência à minha mulher e ela, dantes sempre com saudades de Lisboa,
um tropa é como um cigano daqui para ali, só me falta a pandeireta, sem se
desviar da revista
— Eu fico
comigo de pé diante do sofá, pasmado
— Perdão?
o paquistanês junto à sua venda pilhada mirando as malas de peixe seco
vazias e os garrafões de petróleo sem um pingo dentro, dois aviões da Força
Aérea, ocultos pelas árvores, em círculos lá em cima e esta vértebra, onde
tenho a mão agora, a torturar-me as costas com os saltos da camioneta na
picada, um rio, dois rios, a casa do chefe de posto deserta com a porta e as
janelas abertas, a hortazita calcada e os móveis tombados lá dentro, a minha
mulher de óculos porque aos quarenta e
— Fico em Malanje eu
cinco, quarenta e seis é fatal, envelhecem mais depressa do que nós mas
param aos setenta e a gente infelizmente continuamos, aos oitenta, por
exemplo, a minha mãe toda vivaça e o meu pai de mão atrás da orelha
inclinado numa interrogação vaga
— O quê?
curvo, gasto, esquisito, percebe-se nos sapatos deformados que cinco
dedos em cada pé como a gente, vá lá, mas a voz, mas a tosse que termina
numa espécie de soluço para um lenço aberto que tropeça casaco fora ao
esbarrar na algibeira enquanto um cotovelo maroto tenta amolgar-me o
umbigo
— Viste aquela rapaz?
num sorriso em que flutuam memórias de prazeres distantes, a minha
mulher a apontar o chão com o indicador
— Pode ser que não aches a sanzala da Chiquita boa ideia mas fico aqui
a sanzala da Chiquita vazia, nem uma galinha para amostra e a mandioca,
mais que defunta, a criar raízes nas esteiras, duas ou três cabras
desamparadas, tristíssimas, a roerem ervazitas numa orfandade melancólica,
começou a dar-me a impressão que cantorias ao longe e uma voz aguda a
aumentar sobre elas apesar dos motores convulsos das camionetas atrás da
nossa, subindo a custo degraus interiores que só elas conhecem, por que
carga de água na tropa, fico aqui imagine-se, tudo o que não é gente
ferrugem, cansaço, o motor da eletricidade, os colchões dos beliches, o
fogão que aquece a sopa do rancho até a bandeira no mastro da parada de
queixo pendente, ao voltar-me para trás, certificando-me que a coluna por
ordem, o capitão, compincha da amiga do general, na segunda viatura,
sorriu-me, há de pagar por isso
— Fico aqui
e o que pensa a minha mulher, é só eu acabar com isto e vai ouvir-me, a
idiota, a amiga do general óculos também tendo em vista que tudo passa a
correr, ainda agora nasci e daqui a nada brigadeiro sem contar os
cabelinhos, até escrevi baquelinhos, começo a ficar cheché olha, sem contar
os cabelinhos brancos que se multiplicam todos os dias e a vesícula que o
doutor chama preguiçosa e me proíbe os fritos
— Nem vê-los
quando não me apetece vê-los, quero lá saber do aspecto, apetece-me
senti-los cá dentro a aconchegarem-me a alma que, ninguém me tira isso da
ideia, não me paira por cima da cabeça, enrola-se no estômago a sonhar
com costeletas, volta e meia, às quatro da manhã, se calhar é da idade
igualmente dão-me uns apetites de grávida e lá vou eu à cozinha, de pijama
e chinelos, com um avental por cima, dissolver uma fatia de margarina no
bico do fogão com um naco de vitela a pular nas bolhas, gosto do silêncio
da noite na casa em que tudo tão morno, tão íntimo, com a rua adormecida
lá fora e a ideia da amiga do general a beliscar-me a bochecha
— És guloso maroto
compondo o penteado de braços ao alto numa mistura de atrevimento e
sovaquinho que me aumentava o desejo, tornas-te tão nova sem
maquilhagem, de corpo de menina e um dos incisivos um tudo nada oblíquo
que provocava em mim a minha sensação que a esposa italiana do
farmacêutico quando eu era pequeno, então exuberante e agora de cadeira
de rodas, que me pinçava o queixo quando eu entrava com a minha mãe que
ia medir a tensão
— Ainda sinto tonturas dona Ida
e ela me agarrava entre o indicador e o polegar, debruçando para mim o
corpo enorme que prometia confortos de sofá, a declarar à minha mãe
— Engolia este miúdo sem ser preciso empurrá-lo com um copo de água
enquanto em Marimba os gritos e os cânticos se aproximavam, tiros de
canhangulo, o que pareciam batuques, o que pareciam rezas, mais sanzalas
agora, mais caminhos, mais trilhos, de vez em quando uma casa europeia
destruída por machados e catanas, as primeiras mangueiras, o vento às
vezes, plantações de algodão seco dispersas, gazelas que pulavam a picada
de um salto, uma missão protestante ao abandono com um velho cego num
degrau à entrada, a chuva de quando em quando, trovões a norte rolando as
pedras imensas do ar, o céu ora negro ora azul, ora negro ora azul, ora negro
ora azul e os milhafres a baloiçarem nas nuvens, a voz da minha mulher
— Fico aqui
e eu a olhá-la sem entender, de pé contra a janela
— Ficas aqui?
talvez António Mariano com eles, talvez António Mariano atravessando o
rio ou ainda na outra margem, falando, falando, eu para a minha mulher
sem olhar para ela
— Mesmo não gostando de ti como vivo sozinho?
habituei-me aos teus modos, à tua cara, ao teu corpo, à tua ausência de
— Boa noite
à tua ausência de
— Bom dia
aos jantares frente a frente sem nos olharmos sequer, à gaveta dos
talheres, ao esquentador, ao fogão, à roupa da cama mudada às quintas-
feiras, ao sabor da tua sopa, ao tamanho do silêncio a seguir ao jantar, tu
com as tuas revistas e eu a olhar a parede, a adormecer devagarinho, a
acordar num salto, a perguntar de repente, sem palavras, assustado
— Quem és tu?
com todas as tuas caras de todos estes anos confundindo-se e separando-
se, lembro-me de não me olhares nunca no baile de cadetes onde te conheci,
tu com três amigas, uma delas ruiva, com esse cheiro meio ácido das ruivas
que o perfume não conseguia apagar por completo, o calor da sala
aumentava, aumentava, e um cadete de artilharia do curso a seguir ao meu,
vermelho de aflição, a perguntar-se
— O que faço eu agora?
tão para dentro que toda a gente ouvia, lembro-me de uma lâmpada
instável a piscar no teto, dos teus saltos altos que te desconjuntavam o
andar, de esperar uma música menos rápida que eu fosse capaz de seguir à
medida que ia espiando, a tentar aprender, o que os outros faziam e se os
meus sapatos escorregam no chão, e se te pisam sem querer, e se não
consigo falar e, pior que tudo isso, se me dizes logo
— Não
e viras a cara para um sítio onde eu não estava mas não disseste que não
apesar de não teres olhado para mim, olhaste as tuas amigas e o cadete que
fingiram não me ver, entendi, apesar do ruído da música, que respondias
— Pode ser
e foi o coração, não as minhas palmas, que desatou a suar, reparei que na
tua bochecha um sinal com um pelinho espetado
(nunca mais encontrei o pelinho a não ser depois do casamento porque o
cortavas todas as semanas, dobrada sobre o lavatório, de nariz no espelho)
e os teus olhos desviados de mim, o teu corpo afastado do meu, a tua
palma morta na minha, tão ausente que mal a percebia, a sensação que se a
apertasse se esfumava no ar, as tuas costas rígidas, o teu joelho a tocar-me
sem querer e a sumir-se logo, e o perfume demasiado espesso da tua mãe,
desses que permanecem séculos nos elevadores vazios a gritarem
— Sinto-me sozinha
e o algodão estragado à nossa volta antes da Chiquita, dos armazéns
derrubados, e as camionetas da Cotonang tombadas, e os sacos de sementes
vazios, e as túnicas dos discípulos bailando à frente dos pretos que
trabalhavam nas lavras e tu a voltares à tua cadeira no final da música sem
de despedires de mim, com um vestido que por acaso achei feio e meias que
não ligavam com ele, gostava que fosses mais elegante a andar e os teus
ombros um bocadinho mais largos, uma das tuas amigas segredou qualquer
coisa, as outras riram-se e tu a acenares que não com uma prega na testa
(ainda tens essa prega que reaparece mesmo à noite na almofada, ao
mudares de posição no teu sono quando os teus pulmões parecem subir uma
ladeira difícil)
tu a acenares que não
(porquê meu Deus?)
sem olhar para mim, não olhávamos muito um para o outro não é, se por
acaso estávamos de acordo não dizíamos
— Está bem
dizíamos sem entusiasmo, a maior parte das vezes de costas
— Pode ser
à medida que nos afastávamos, eu sem ruído e tu de saltos a baterem no
chão no sentido do quarto de modo que o
— Pode ser
tão indiferente, tão distante, ou seja existia o
— Pode ser
(pertencia a quem?)
não existíamos nós, mandei o capitão colocar as camionetas umas ao lado
das outras diante dos pretos, os soldados na posição de disparar, com os
morteiros à frente, e ordenei ao rádio que chamasse os aviões enquanto as
pessoas continuavam a cantar troçando da gente
— Não mata não mata
e disse que as bazucas apontassem aos sobas, rodeados pelos angolares e
criaturas que segundo as cores dos panos me pareceram do Congo, alguns
com espingardas russas, outros com canhangulos, à medida que os
relâmpagos se aproximavam de leste, rolando pedras negras que
transformavam as árvores numa espécie de arames cintilantes sobre o capim
dobrado pelo vento e os macacos, os pássaros e as gazelas fugiam, a minha
mulher
— Eu fico
conversava com as amigas batendo o tacão ao ritmo da música, a dona
Ida para a minha mãe que a incitava a sorrir, orgulhosa de mim
— Coma-o coma-o
cada vez mais próxima, de nariz enorme quase encostado ao meu, cheia
de dentes no céu da boca imenso, todo o corpo, apesar de vasto, reduzido ao
céu da boca imenso
— É que o engulo mesmo
enquanto eu, a segurar as lágrimas à beira de um
— Pai
desesperado e inútil, me despenhava no oco gigantesco do seu estômago,
ainda dancei uma última vez com a minha mulher suportando o
— Gostou de ti
trocista de uma amiga por sinal mais bonita que o cadete que as
acompanhava ia vigiando como um gato empoleirado num muro, prestes a
saltar com fúria sobre um pardal distraído, de brincos grandes demais para
lhe
(a minha mulher a folhear a revista na sala de Malanje, indiferente a mim
— Volta para Lisboa se te der na gana eu fico
de brincos grandes demais para lhe pertencerem, apesar de tudo ainda há
mães que em lugar de oferecer as crias a monstros carnívoros as inundam,
desveladas, de perfumes e joias
— Se perdes isso já sabes como ele é o teu pai mata-me
ainda dancei outra vez com a minha mulher, quer dizer tive durante
minutos a sua palma defunta na minha e abaixo da mão um joelho que por
mais que esforçasse a perna, e esforcei, nunca roçou o meu conforme
manteve a cabeça, infelizmente de olhos abertos, o mais arredada possível,
o que eu não dava para lhe sentir a bochecha um momento, o que eu não
dava para que a sua barriga respirasse, uma ocasião apenas, junto à minha
enquanto os discípulos de António Mariano troçavam de nós que
— As armas deles não fazem mal deitam água as armas deles não fazem
mal deitam água
e a minha vesícula decidiu começar a maçar-me, o médico num
assobiozito de dúvida
— Se calhar pedras por aí vamos fazer um exame
e com a sorte que sempre tive, raios me partam, pedras mesmo, os meus
velhos, não lhes perdoo, não tomaram cuidado ao fazerem-me, o meu pai
por exemplo, que só pensava nele, sempre foi do gênero meio bola e força,
gavetas abertas com ódio, portas batidas com força, prendas
desembrulhadas como se os dedos raivosos, as mudanças do carro metidas
só com meia embraiagem, eu encostado, sozinho, a uma coluna da sala de
baile onde as amigas da minha mulher cochichavam risinhos sem me
olharem, de mão à frente da boca, e portanto a certeza que mangavam de
mim exceto uma delas, um bocadinho mulata, que dava a impressão de me
espiar com pena da mesma forma que a ideia de uma lágrima solitária que
não necessitava de chegar à pálpebra para que eu a sentisse ora aí está uma
coisa que não sei bem explicar mas continua a suceder-me às vezes, se a
minha mulher talvez ao menos entendido que um beijo na bochecha, um
simples beijo na bochecha, não necessitava de mais
(sinto vergonha de dizer isso)
me ajudaria, um beijo não custa muito parece-me, a amiga do general por
exemplo, a quem essas miudezas não interessavam, queixava-se às vezes
— És tão distante meu Deus
apesar das cantoria, dos insultos à tropa, dos tantãs e dos pés a baterem
no chão comecei a sentir os dois aviões, vindos de Malanje sobre as árvores
atrás de nós e cujos motores se desembaraçavam a pouco e pouco dos ecos
dos, apesar de tudo a minha mulher não engordou muito com o tempo, ecos
dos trovões, talvez a pele que já não se enruga somente, principia a estalar
aqui e ali apesar do creme e os vértices do peito a olharem para baixo
envergonhados de si mesmos, não mencionando a almofada nas costas da
cadeira porque a espinha sensível, volta e meia puxa a blusa para cima e
estende-me um tubo de creme
— Faz-me aí tem paciência uma massagenzita nas costas
logo seguido de uma careta onde nasce um lamento
— Se conseguires não ser bruto agradeço
acompanhado de uma ordem entre o gemido e o suspiro
— Mais à esquerda meu Deus
precisamente no sítio de onde os aviões surgiram, prateados, sobre as
copas, a baloiçarem as asas no ruído de intestinos atormentados das hélices,
não é gasóleo, é feijoada que lhes dão a comer, mandei que colocassem os
soldados em posição de fogo logo a seguir a um ou dois disparos de
canhangulo dos pretos que pareciam querer aproximar-se de nós com um
feiticeiro, pintado com sangue de galo no umbigo à frente, convencidos que
os discípulos de António Mariano os protegiam, a minha mulher sem se
mexer na cadeira
— Mais creme tem paciência que continua a doer-me
e qualquer coisa de fúria consigo mesma na voz, como é que eu consenti,
sou tão estúpida, que os anos passassem, enquanto uma bicicleta de menina,
sem ninguém a pedalar nela, continuava às voltas num jardim de província,
eu, de fita no cabelo e sapatinhos de presilha, tão contente palavra, se
conseguir ser mais rápida os anos ficam para trás, incapazes de apanharem-
me, hão de acabar por sentarem-se num tijolo, exaustos, a verem-me,
acenando com a desilusão do braço
— Ganhaste-nos
as fotografias dos avós não amontoadas na gaveta, em molduras a
imitarem prata sobre as rodelas de croché da cômoda, Madrinha Feliciana,
Tia Augusta, um retrato do Pirata, ainda cachorro, ao colo da minha prima
Bertília, sepultamo-lo muitos anos depois junto ao limoeiro, nunca entendi
por que carga de água se enterram os cães sob as árvores e sempre me
intrigaram os olhos com que se despedem da gente, não com medo,
tranquilos, o queixo que se vai alargando sobre as patas dianteiras à medida
que recuam afastando-se das pessoas até que de repente já não são eles que
não estão, foram as pessoas que os abandonaram continuando ali, terei
dançado com o meu marido ou com um cachorro, cheio de medo de mim,
no baile dos cadetes, sem se atrever a roçar-me um dedo na mão ou a
poisar-me, fingindo-se distraído, o queixo na testa, não se me dava de lhe
sentir um bocadinho
(eu disse bocadinho)
o hálito no meu cabelo eu que ainda alisava, nesse tempo, pratas de
chocolate com a unha, tinha dezasseis, dezassete anos no máximo e o meu
corpo assustava-me porque tudo mudava que vergonha, as ancas que
aumentavam, as bochechas que diminuíam, vou ter uma cara magra e
comprida, aposto, e aquilo todos os meses que não há maneira de chegar, a
sensação de molhado, o desconforto, a dor, o meu marido outra mulher de
certeza porque de repente suspende a colher durante a sopa olhando o prego
sem quadro na parede que representa o barco emoldurado do padrasto
Belmiro, o baile foi no primeiro dia em que calcei sapatos de verniz a
embaraçar-me naquilo, caminhar com uma rampa em cada pé é difícil não
mencionando as unhas a doerem, apertadas umas contra as outras, pelo
menos aprendi o que sofrem os pinhões metidos lá ao fundo no interior das
pinhas, os aviões em Marimba uma primeira bomba, uma segunda e árvores
e arbustos a arderem, um cacho de mulheres com os panos do Congo em
chamas, os aviões a afastarem-se, cada vez mais altos, na direção de
Malanje e nenhuns cânticos agora, gritos somente, o capitão para mim
— Espero que os pretos comecem a aprender meu coronel que não
brincam conosco
um sipaio deu uns passos na nossa direção a caminhar sobre as tripas, o
coronel para o administrador da Cotonang
— Posso garantir-lhe que não vai ter problemas com o próximo algodão
o cadete do baile escreveu-me uma carta a que não respondi, rasguei-a
para a deitar fora mas acabei por guardá-la numa caixa qualquer, ainda por
aí deve estar, acho que me pedia desculpa numa conversa embrulhada sem
que eu entendesse sobre quê, os pretos tentaram esconder-se na mata com
os pelotões atrás deles, recordo-me de uma criança quieta, de três ou quatro
anos, com elas nunca se sabe até podia ter nove, a olhar para nós
apontando-nos um pauzinho a fingir de espingarda, deve ter sido o pau que
disparou, um soldado caiu e a criança a olhar para ele até que uma granada
a veio apagar, a minha mãe
— Gostaste do baile?
enquanto eu massajava os tornozelos de cócoras na cama
— Não sei
trazendo a coxear uma panela de água morna, mais fria do que morna
mas melhor que os sapatos, entornei um bocado pelo caminho quando um
dos meus calcanhares escorregou mas lá me aguentei embora despejasse um
bocado mais que a minha mãe limpou com a esfregona sem me ralhar, vá lá,
essas bondades incompreensíveis que elas têm às vezes da mesma maneira
que fazem uma cena por uma treta de cacaracá, como é que isto se explica,
quem as compreende que as compre, por estas e por outras dou mais valor
ao meu pai, quando os pretos de Marimba acalmaram mandei-os recolher os
mortos e sepultá-los na mata, os dois ou três enfermeiros que tínhamos, lá
se ocuparam mais ou menos dos feridos, levados em padiolas para as
sanzalas já sem cantos nem gritos contra a gente, submissos, disse aos sobas
que ajoelhassem à minha frente e os oficiais esbofetearam-nos diante do
povo, a polícia política levou os discípulos de António Mariano que
sobraram, de mãos e cotovelos amarrados nas costas, para a prisão de
Malanje
— Fico aqui
os sobetas, depois de chicoteados, prometeram ao administrador da
Cotonang, que os vergastou também, uma plantação sem problemas
— Sangue de Cristo muata sangue de Cristo
afiançando que os do Congo, já do outro lado da fronteira, os haviam
enganado, deixando como penhor mulheres, cabras, filhos e realmente,
embora eles cada vez mais magros, obrigados a comprarem o peixe seco e a
fuba na cantina da fazenda, quase nenhum roubo e a safra em paz, as
colinas brancas de novo, florinhas dançando ao vento, a amiga do general
para mim, durante um intervalo na pensão onde nos encontrávamos agora
— Ele está contente contigo
a esposa amiga da minha mulher, sempre juntas agora, por vezes de mão
dada a cochicharem ao ouvido uma da outra na messe, o general para mim
— Claro que não houve napalm não é verdade?
e não houve, que napalm, o que é napalm, o que significa napalm, o que
se faz com napalm, talvez seja, quando muito, o oleado que não serve para
nada por cima das bombas na arrecadação e portanto, na realidade, bomba
nenhuma, fomos brandos em África senhor, diga-me com sinceridade que
mal fizemos aos pretos, conselhos apenas, proteção, amizade, os padres da
missão espanhola mentem sempre, lá andam eles a ensinarem aldrabices aos
crédulos, de vez em quando morre um com um tiro nas costas que deve ter
dado a si mesmo, olha o algodão a crescer, olha nenhum parasita nos caules,
olha as cantinas cheias, caricocos, mandioca, até relógios, até aparelhos de
rádio, até motorizadas, enfim quase motorizadas palavra, esta margem do
mar que felizmente não tem dezassete gaivotas ferozes no rebordo de um
armazém, prontas a ameaçarem-nos voando sobre a gente a gritarem, ao
passo que na Baixa do Cassanje paz agora, os fazendeiros contentes, os
africanos contentes, os discípulos de António Mariano no outro lado da
fronteira, quietinhos, submissos, o general para a amiga, no apartamento
que lhe ofereceu agora
— Anda cá
feliz com os móveis, feliz com a vista, feliz com a cama
— Anda cá
enquanto começamos a regressar de Marimba derrubando de caminho as
sanzalas, degolando as cabras, incendiando as missões
— Pensávamos que fosse uma aldeia de congoleses senhor padre
desculpe
enquanto os claustros tombavam um atrás do outro, o general para a
amiga
— Deita-te aqui ao meu lado
as pernas dele um bocado esqueléticas da idade, os pelos dele ralos,
grisalhos, as costelas para cima e para baixo em desordem, os dedos que
começavam a falhar as coisas
— Anda cá
e a mulher na messe a cochichar com a minha, tão compinchas, tão
íntimas, a amiga do general para o general, de pulseira nova, também tão
compincha, tão íntima
— Boneco
a pensar no capitão porque de olhos fechados a gente consegue se não
pensar no cheiro a velho, isto é tapar o nariz com dedos invisíveis
— Boneco
satisfeito, claro, de queixinho idoso a tremer, com uma bolha de cuspo a
aumentar-lhe nos lábios, tentando uma palavra que parecia vir e não vinha,
quando muito um suspiro dando ideia que feliz
— Tu
enquanto o médico lhe mostrava uma radiografia cheia de nódoas
confusas, que estranho sou por dentro, a sublinhar um contorno com a
esferográfica e a batê-la no tampo num vagar pensativo
— Parece um aneurisma mas não ponho o carro adiante dos bois posso
estar enganado vamos ver vamos ver
chegamos a Malanje de noite, com a cidade deserta exceto a rua das putas
onde uma indiana sentada ao meu lado porque eu preguiçoso
— O que não falta é tempo não tenhas pressa que eu espero
enquanto o general se enrolava no aneurisma engolindo pensamentos
amargos, quase com ganas de sorrir para a amiga, enganas-te menina o meu
tempo acabou enquanto a indiana lhe acariciava a barriga indiferente a ele,
de unhas quase sem verniz e uma cadeira cheia de um garrafão sei lá de
quê, se calhar desinfetante, onde de tempos a tempos uma bolhinha fervia, o
general sem se dar conta de que falava alto
— Aneurisma
e a indiana a corrigi-lo
— Enganaste-te no meu nome chamo-me Adozinda
como a vizinha de cima de quando ele era pequeno voltando-lhe de
repente, Adozinda também, que encontrava às vezes na escada do prédio e
se espantava, dezassete gaivotas, e se espantava sempre com ele
— Mais um ano ou dois e comes-me as papas na cabeça maroto
ele que não lhe apetecia comer papas em cabeça nenhuma, apetecia-lhe
ver a mãe passar a ferro porque lhe agradava o calor do carvão que o
acalmava sempre numa espécie de moleza feliz, não bem moleza,
serenidade, como há gestos simples que nos auxiliam senhores, ninguém de
que eu goste vai morrer, o pai para a mãe, chegado do escritório, a poisar o
chapéu na arca e a esfregar as mãos, quando se achava contente esfregava
sempre as mãos
— Está sossegado o miúdo
de modo que o general tinha vontade de lhe estender uma toalha para as
secar a seguir como o sacristão fazia ao padre na missa, falando-lhe em
latim, a indiana da rua das putas a quem o tempo parecia começar a faltar
— Vamos então a isto?
de joelhos no colchão, na voz em que se pede ajuda para uma mudança
de pneu, chegamos a Malanje com os morcegos ainda quietos nas árvores
enquanto Marimba continuava em mim, as mangueiras, agitadas pelos ecos
dos tiros, os morcegos, de cabeça para baixo, abotoados dentro do capote
das asas e o edifício da administração de posto vazio, com armários e
cadeiras quebradas nos degraus, o cubículo de enfermagem deserto, o rio
com dois ou três crocodilos achatados na areia onde as camionetas se
afundavam, a indiana para o general
— O que se passa contigo?
enquanto ele sentia o aneurisma palpando-se com dedos que ignorava
possuir dentro dele a crescerem, vontade de explicar
— Tenho medo
de repetir
— Tenho medo
de gritar
— Tenho medo
agora que o algodão ia crescer de novo e o mundo branco à sua volta, a
mulher
— O que se passa contigo que quase não comeste?
com um dente postiço a baloiçar, na gengiva de cima, talvez na África do
Sul me operem, talvez em Lisboa se as gaivotas deixarem, não dezassete,
trinta, cinquenta, mil, a minha mulher, no outro canto da cama, fingiu não
acordar quando cheguei, descendo travesseiro abaixo até onde a não via,
apenas um pedaço de pé que por sinal me comoveu, solitário, meio
enterrado no colchão na outra ponta do lençol, um pedaço de pé que me
ignora, finge não me notar, não se interessa por mim, voltei a encontrar-te
porque te escrevi uma, duas, três cartas antes que me respondesses,
juntamo-nos num café de esquina, desses que se descem três degraus para
entrar, com cachecóis e galhardetes desportivos numa parede inteira, perto
da tua casa, assim, vestida de semana e à luz do dia, tu nem sequer bonita, o
lábio de baixo maior que o de cima, qualquer coisa na língua dificultando as
consoantes que uma sobrancelha a tremer ajudava a saírem, comigo de
repente a dar conta das minhas mãos como partes estranhas que não se
sentiam bem no tampo da mesa, não se sentiam bem nos bolsos, não se
sentiam bem a coçarem-me, o que faço com elas ao mesmo tempo que o
joelho esquerdo teimava, apesar de mim, em encostar-se ao teu que
primeiro fugia, depois deixou de fugir, depois principiou a encostar-se
também, tudo isto sem palavras porque a minha cabeça surpreendida, aflita,
vazia, sem conseguir mandar no rebanho do corpo subitamente feito de
ossos não meus, desejos não meus, apetites não meus, quem me roubou a
mim mesmo e me fez outro senhores, que criatura que não conheço sou
agora, como me chamo de fato, exatamente o que me acontece tantos anos
depois na Baixa do Cassanje onde não era eu quem comandava a tropa, era
outra voz que dispunha as camionetas diante dos pretos, convocava os
aviões, distribuía as metralhadoras, alinhava as bazucas, ordenava
— Fogo
e ordenava
— Fogo
e ordenava
— Fogo
me obrigava a apontar eu mesmo a um preto já sentado, de intestinos ao
léu, ou a uma mulher que tentava fugir e se abatia sobre si mesma dado que
a minha espingarda não me obedecia, encontrei a sua cara, encontrei os seus
olhos, encontrei uma granada ofensiva, puxei a cavilha, contei
— Um dois três
e lancei-a para que o
— Cinco
lhe explodisse no peito com ela sempre a fitar-me e a seguir ao
— Cinco
a esquecer-me, lembro-me de um resto de corpo, lembro-me de sangue,
lembro-me de outros pretos a pisarem-na, lembro-me de já não existir,
apenas pó e gritos e os aviões que voltavam, surgindo de súbito nos
intervalos das árvores enquanto na minha cabeça as lavras inúteis, as
cubatas que tombavam sem ninguém lhes tocar, os cabíris estendidos de
banda, eu a descer da camioneta com uma metralhadora ligeira e o capitão
atrás de mim
— Meu coronel meu coronel
o capitão quase ao meu lado
— Meu coronel
o capitão ao meu lado
— Não avance mais meu coronel
uma granada de napalm à esquerda, uma granada de napalm à direita,
uma outra a fender-se de alto a baixo, numa cabeleira de chamas, o
torresmo de um pássaro grande que me tombou aos pés, o capitão com o
qual a amiga do general se encontrava
— Meu coronel
de súbito diante de mim a olhar-me, ainda levantei a arma e ele calado,
quieto, a entender e quieto, a aceitar e quieto, a consentir e quieto, ele agora
baixinho
— Meu coronel
e eu a esquecer a arma, a largar a arma, a subir para a camioneta, a
ordenar-lhe que subisse para a camioneta atrás da minha e a informar o
condutor, inclinado no banco sem olhar para nada
— Acho que é altura de voltar a Malanje.
13
Não sei se eram os pretos da Baixa do Cassanje ou os caranguejos que
subiam desta margem do mar para nós, conforme não sei se escutávamos as
ondas nos penedos ou os gritos dos discípulos de António Mariano
aproximando-se da gente, sei que a nespereira do quintal transformada
numa fila de mangueiras onde os morcegos entoavam ameaças e hinos,
estarei em África ou aqui com a Domingas, o vento no capim ou nos
arbustos que prolongam a água galgando a escarpa da praia, lembro-me de
eu pequena e de ela me levantar da cama a meio da noite
— Vamos fugir depressa para trás da casa menina
arrastando um lençol no silêncio rodeado de tambores e gritos, o preto da
espingarda e o meu pai imóveis à espera, olhando a vereda, onde os ruídos
aumentavam, que conduzia ao portão, o macaco no poste coçando-se de
medo, com o pelo eriçado e os dentes de fora enquanto os cães, tensos,
atentos, farejavam sons, a Domingas comigo, escondidas entre os tanques
de lavar
— Menina
e eu preocupada com a minha irmã sozinha na gaveta da cômoda cheia de
roupa dela, fotografias, brinquedos, um passado quase sem cor que no
entanto estremecia, ia apostar que a sua voz
— E eu?
no meio de tesouros defuntos à medida que os caranguejos principiavam
a lutar com a encosta oscilando na dificuldade das patas, não só morcegos,
uma coruja a apoderar-se de um rato cujas patas pedalaram um momento no
ar, a minha mãe no quarto, atrás da janela fechada, sem acender as luzes,
uma camioneta da tropa longíssimo, um som de granada, a Domingas
preocupada comigo
— Não tem frio?
porque às vezes a noite, a senhora da casa ao lado a olhar-me, curiosa
— E depois?
com o seu chapelinho amolgado no vértice da cabeça e os seus óculos
escuros, reduzida à testa, à boca e ao creme com que esfregava as pernas
enquanto o marido, em calções, de pé atrás dela
— Nunca gostei das colônias
multiplicava os queixos lutando com uma rolha que não abandonava o
gargalo
— De que nos serve aquilo?
e devo ter adormecido no colo da Domingas porque manhã de súbito, um
ou dois milhafres muito alto, uma suspeita de vento nas mangueiras, um
cheiro distante a cinzas, as lavras invisíveis, uma cabra perdida da sanzala a
trotar por ali, o que conheço eu desta margem salvo a nespereira seca e o
vento do mar, um barco de ancas desiguais, nuvens tão claras, um ou outro
cachorro vadio ao acaso, de focinho rente ao chão em busca de qualquer
coisa que terá deixado cair, os olhos deles não sei porquê afligem-me, tão
perdidos, tão sós, se por acaso me sinto triste acho-me, palavra de honra,
quase capaz de ladrar de modo que a mão da Domingas me acaricia sob o
queixo
— Menina
e eu agradecida, trotando ao seu lado
— Descansa que não vão fazer-nos mal não somos belgas nós
apenas mandamos plantar o algodão não é, apenas enriquecemos com o
trabalho dos pretos que as camionetas dos chefes de posto vão trazendo do
sul, às vezes com galinhas e crianças e cabras, a tremerem de amibiana ou
paludismo porque o clima diferente, a Domingas trouxe-me ao colo de volta
— Foram-se embora menina
e o relento da pele dela e os braços que me seguravam o corpo
serenavam-me, enquanto estivermos juntas ninguém se atreve a fazer-me
mal não é, tu não deixavas, jura, até do vento me defendias
— Olha o vento menina olha o vento
o meu pai mandou-te ficar comigo quando a minha mãe nos deixou
— Não quero nada com essa puta
evitando olhar-me
— Sei lá se é minha filha
o meu pai que encontrei uma vez no compartimento lá em cima, de costas
para mim sem me ver, a beijar, palavra de honra, o pente com que a minha
mãe se penteava, a tocar-lhe de leve nas gavetas da roupa, uma blusa, uma
saia, um casaquinho de malha, com os dedos subitamente tão demorados,
tão leves, a mão no ar ao dar por mim
— Sai daqui
as feições arrumadas na cara de uma maneira esquisita, a boca, o nariz e
os olhos mudando constantemente de sítio, não acredita que sou sua filha
pois não, o meu pai na rua das putas para o mulato que mandava nelas a
deixar cair a garrafa, a tropeçar num caixote, a amarinhar por si mesmo
cotovelo a cotovelo, o meu pai um caranguejo coxeando no alcatrão
— Quero as mulheres todas ao mesmo tempo comigo
tentando abraçá-lo enquanto o outro o empurrava
— Todas numa só cama comigo
a mostrar uma garrafa quase vazia, a mostrar a pistola
— Todas menos a cabra da minha mulher aqui
de joelhos, depois de gatas, depois de borco no chão, não a engolir
lágrimas, a mastigá-las sem fim, o meu pai para o preto da espingarda, a
mudar as palavras, a trocá-las de sítio, a endireitá-las de novo, a tirar-lhe a
arma sem conseguir usá-la
— Aposto que tu o primeiro confessa
afastando as madeixas da cara, a sentar-se no passeio, a gatinhar, a sentar-
se de novo
— Sou um corno não sou digam que sou um corno
enquanto o jipe o ia trazendo de regresso a casa, com o sol do poente a
doirar as mangueiras, de morcegos ainda escondidos nos ramos mais
fundos, os pretos da plantação calados, um capataz a rir-se, esta margem do
mar distantíssima ainda, o meu pai para mim, estendido no tapete da sala
— A tua mãe onde está?
derrubando uma mesa, um banquinho, o móvel das garrafas, o retrato de
uma tia qualquer com uma criança no colo, via passar os pretos de
Marimba, a seguir ao portão, cantando contra a gente, via o vento da chuva
a assobiar nas janelas e os caranguejos desta margem do mar que hão de
alcançar-nos uma semana qualquer, sem que a Domingas dê conta, com os
pretos de Marimba, o relento de liamba e os cabíris também juntamente
com as vozes dos velhos no interior da terra, a minha mãe dizem-me que na
Huíla agora aposto que continuando a pentear-se sem fim, se eu lhe
aparecesse perguntava-me, tão velha
— Quem és tu?
à procura dos óculos na algibeira do avental
— Quem és tu?
sem me reconhecer, lembra-se da minha irmã, não se lembra de mim, em
tantos anos quase não encontrei nenhum homem, eu, não me procuravam
porque o preto da espingarda tomava conta, o meu pai para ele
— No que respeita a cabras já me bastou a outra
de modo que o preto atrás com a espingarda e o meu pai sozinho na sala,
à noite, sem olhar para nada, escutando a chuva lá fora na terra gorda de
África, aqui o mar desta margem a remexer pedras e lixo, continuará vivo
ele, continuará o algodão, uma outra mulher no lugar da minha mãe, às
vezes, de manhã cedo, a sair do seu quarto, descendo para a copa de
chinelos e avental, não elegante como ela, gorda, lenta, a tratar o meu pai
por senhor e depois eu e a Domingas no barco, e depois África que perdi
para sempre mesmo que lá continue, quem deixa África digam-me, aqui
tudo tão acanhado, tão triste, esta casa que pertenceu aos meus avós e os
seus relentos antigos, presenças de não sei quem que não conheci nunca,
uma jarra numa prateleira, um Cristo quebrado, o degrau do quintal gasto
por botas de parentes remotos, aposto que só o mar não mudou, gaivotas em
Lisboa apenas, dezassete, num armazém do cais, a Domingas
— Menina
e sempre que a Domingas
— Menina
eu não sozinha, palavra, o teu cheiro não se alterou, o teu olhar para mim
não se alterou, o teu medo que eu, não, o meu medo que tu, também não,
nós juntas, tu a única mãe que tive de fato, presente, silenciosa, atenta, o
que sentiste pela minha irmã, por que razão a deixaste morrer, por que
motivo não estamos juntas as três, tu uma preta de sanzala, sozinha, sem
homem, protegendo-me do vento
— Olha o vento menina olha o vento
e dos caranguejos do mar que daqui a nada invadem a casa enquanto as
flores do algodão entravam e saíam pelas janelas abertas, brancas,
cinzentas, secas, lembro-me do milho a restolhar no Cassanje, dos mandris
que se aproximavam em silêncio, das noites opacas em que ferviam vozes,
de nós duas nos compartimentos desertos quando o meu pai em Malanje, de
António Mariano a olhar para nós rodeado pelos seus discípulos de túnica,
dos aviões que o procuravam, ora perto ora longe, girando no Cassanje, da
vizinha na casa a seguir à nossa
— Ninguém vos espera em África?
da minha mãe sempre a pensar na minha irmã
— Não me toques
porque não gostava de mim, nunca gostou de mim
— Não me toques
lhe trazia constantemente à ideia o meu pai e a morte do belga, a vizinha
do quintal a seguir ao nosso
— Nesse caso não há lugar para si em nenhuma margem do mar
enquanto os caranguejos caminhavam para nós areia fora, a vizinha
surpreendida
— Quais caranguejos?
a olhar para o marido, a olhar para mim enquanto os discípulos de
António Mariano iam aumentando, aumentando como o perfume da minha
mãe, apesar da gente, a crescer, não me recordo de me pegar
— Pesas tanto
recordo-me de trazer ao colo a saudade da minha irmã, de conversar com
ela, sozinha, enquanto se penteava
— Filha
de como África engole os mortos ao esquecer-se dos vivos
— Tens a certeza que não sou preta Domingas?
comparando a minha pele com a dela, as minhas feições com as suas,
olhando o preto da espingarda
— Tu
que às vezes mandava subir ao seu quarto, julgo que me enxotaram para
aqui porque não existe Angola nem as mangueiras nem os morcegos, é uma
espécie de sonho que vos estou a contar, ao tocar-me de leve no ombro
— Menina
daremos conta que nenhuma de nós existe, o meu pai a passar-me a mão
no cabelo
— Foste tu que inventaste isto tudo
inventei África, as plantações a arderem, inventei este livro, inventei as
palancas a trotarem sem fim, as narinas delas abertas, aqueles olhos
enormes, um bando de leopardos ocultos no capim à espera, nada do que
digo é verdade, estou realmente a contar um sonho, a Domingas não
— Olha o vento menina olha o vento
a Domingas a sacudir-me devagarinho
— Acorda
com o jipe do meu pai lá fora diminuindo no sentido do portão, a minha
mãe a sorrir para mim
— Em que mundo vives tu rapariga?
não, a minha mãe preocupada comigo
— Em que mundo vives tu rapariga?
o que é uma coisa completamente diferente, quantas margens tem o mar
afinal, António Mariano morto em Malanje e os pretos que vieram do sul a
trabalharem no algodão, havemos de sair daqui um dia e tornar a Angola,
sinto a falta da terra, sinto a falta das chuvas, sinto a falta do vento a girar
no cacimbo, o dono da fazenda mais próxima para mim
— Que idade tens rapariga?
gordo, velho
— Que idade tens rapariga?
e a minha voz, não eu
— Treze
gordo, velho, feio, a pegar-me no pulso enquanto a Domingas me fitava
de longe a lavar roupa num tanque, o meu pai a encher o copo de novo
— Treze é verdade
o dono da fazenda, de cigarro na boca
— Muito bem muito bem
a bater a chibatinha na perna
— Muito bem
sem mulher, sem filhos, uma casa maior do que a nossa, mais mangueiras
ainda, via-o à tarde sozinho na varanda, ele um pobre como nós, trabalhou
numa mercearia em Luanda, veio para a Baixa do Cassanje como agente do
mato, a Cotonang deu-lhe dois hectares para começar a fazenda, comprou
môholos a um chefe de posto para trabalharem aqui, depois bundi bângalas,
depois jingas, pediu sementes de algodão e aumentou as colinas, o sorriso
para mim
— Treze
e os meus pais calados, colocou-me a mão na nuca e os meus pais
calados, convidou-me para comer com ele e os meus pais calados, a
Domingas a dizer
— Menina
calada, a gritar
— Menina
calada e eu a ouvi-la calada também, mandou o jipe dele com o preto
dele, também de espingarda, também
— Menina
buscar-me
— Hoje jantas comigo
uma sala igual à nossa mas maior, com mais móveis, um desses retratos
baratos, de feira, de uma camponesa diante de um cenário de flores
pintadas, um grupo de homens vestidos de domingo todos de chapéu e
cigarro nos dedos, a acotovelarem-se numa festa de empurrões, uma
criatura nova, de risca ao meio e saia comprida, com uma criança de touca
— Continuo parecido?
ao colo, de que não se distinguiam as feições e portanto claro que
continua parecido senhor, reparando com mais atenção não mudou nem isto
e ele contente, de palma na minha nuca a garantir
— A gente não muda
e de fato mantemo-nos pobres não é, feições de pobre, claro que
incompletas, desenhadas à pressa, botas enormes, boinas cujas sombras
apagavam os narizes, uma mulher mais nova a quem faltava um dente tal
como a ele lhe faltava um dente, não, mais do que um, tal como a ele
faltavam dentes, mostrou-me uma ausência
— Este arranquei-o com um alicate
consoante me apontou com desprezo a imagem do irmão
— Voltou para Portugal não quis ficar aqui
para morrer de fome entre galinhas e couves, nós na varanda a seguir ao
jantar, diante de uma multidão de sombras que suspiravam às vezes, comigo
a pensar
— E agora?
de mão dele na minha perna, cada vez mais pesada
— Treze anos não é?
e a seguir no meu peito, de súbito
— Treze anos calcule-se
a magoar-me as costelas
— O teu pai é um homem que compreende as coisas
enquanto me puxava os ombros para si, aleijando-me os ossos
— Gosto de homens que compreendem as coisas
ao mesmo tempo que afastava mosquitos com a palma livre
— Um homem só é homem a sério quando compreende as coisas
e portanto o meu pai um homem a sério enquanto a minha mãe apenas
mulher, ocupada a pentear-se no quarto não entendendo nada, não falava
com ele, nunca os vi a olharem-se, o fazendeiro também sem olhar para
mim
— Tira a blusa garota
não um pedido nem uma ordem, uma frase distraída
— Tira a blusa garota
e os meus dedos a descerem botão a botão, a minha pele, que esquisito,
branquíssima de súbito, não a imaginava tão branca, sem resistir aos meus
gestos, a sensação, não, a certeza, ao tocar-lhe, que não me pertencia, não
sou assim, não sou isto, mais pequena, mais à medida da Domingas, não à
medida de um homem que nem sequer me olhava, desinteressado de mim
— O teu pai e eu somos amigos garota
e apenas um morcego a passar, voando numa espécie de quedas
sucessivas e de gritinhos agudos, com um rato nas unhas, aproximou-se,
afastou-se, aproximou-se de novo e sumiu-se para sempre, os meus braços
tão por estrear Domingas, o meu peito a crescer um bocadinho, o preto dele
passou com o jipe lá em baixo, o fazendeiro para mim, apanhando-me da
cadeira entre o indicador e o polegar que tresandavam a algodão e a tabaco,
a algodão e a tabaco
— Eu compreendo as coisas sabias?
e claro que sabia senhor, sou eu quem não compreende como não
compreendo a sua ordem
— Mexe-me aqui miúda
um relâmpago ao longe para as bandas de Mangando, a senhora da casa a
seguir à nossa, entre dois estrondos de ondas
— Como será a vida na outra margem do mar?
e olhe, é isto, um fazendeiro velho cujas pálpebras diminuíam e cuja boca
crescia, de botas que principiavam a tremer, a tremer, cuja papada se
dilatava a estrangular-lhe a voz
— Com mais força garota
e as colinas das plantações tão visíveis agora, uma, duas, três, a fêmea
que comandava um grupo de mandris a chamá-los do alto em latidos de
zanga, aquelas patas negras, aquelas íris peludas, a atenção dos mabecos,
num bosquezito, à espera, agachados na terra, com as caudas a vibrarem e
os focinhos atentos, a Domingas dentro de mim
— Compreende as coisas menina compreende as coisas depressa
a cadeira do fazendeiro um estalo, dois estalos, uma vibração final, uma
bota a que faltavam atacadores, substituídos por uma guita, que se esticou e
encolheu raspando as tábuas da varanda, uma espécie de soluço ou de tosse
cansada que mandava
— Agora que compreendes as coisas põe a blusa miúda
de modo que eu os botões de novo, todos em fila, sem me enganar em
nenhum, com a respiração do fazendeiro a aumentar e a diminuir numa
espécie de tremura ou de lágrima, há pessoas que choram não pelos olhos,
no interior da pele, percebe-se no modo como as pálpebras nos fitam ou um
braço poisa no nosso, ao mesmo tempo firme e inseguro de maneira que me
comovo quando me tocam assim, um cão, se olhar chorando também,
ladrou ao longe e calou-se, espreitando-nos com pena dele e de nós, as
mangueiras segredavam mistérios, meu Deus a quantidade de confidências
que as plantas nos fazem, até o capim, palavra de honra, até as palmeiras,
tão contidas sempre, que só ralham quando o vento as enerva, o fazendeiro
a responder-se a si mesmo
— É verdade
ou seja à pergunta que outra parte sua lhe fizera, ai os pontos de vista
diferentes que existem em nós, a cama do fazendeiro um colchão apenas,
sem lençol, e uma almofada onde a cara se imprimia, côncava, a arregalar-
se com medo do escuro, eu tão surpreendida, palavra
— Afinal não é velho
sentindo-me de repente a Domingas dele, há qualquer coisa nas pessoas
que imaginamos de idade, mesmo contando com aquele odor a bafio, que
traz consigo a ternura desajeitada da infância, as botas arrumadas lado a
lado, no fim das calças, como os sapatos dos filhos perto do banco onde se
amontoa a roupa junto à cama, senti o preto do meu pai lá fora, no graveto
antes das escadas, preocupado comigo enquanto o fazendeiro conversava
com os retratos no seu sono, movendo-se noite adentro numa preguiça de
alga, a senhora da casa a seguir a esta, baixinho
— E casou com ele?
se calhar com medo que a minha mãe a ouvir-nos, felizmente as pessoas
idosas não entenderão nunca, escutava-se o ruído ao longe das camionetas
da tropa, uma após outra no sentido de Marimba e o cântico dos discípulos
de António Mariano diferente, menos disparos de canhangulo, menos
tambores, menos vozes, essa chuvinha branda do cacimbo que não poisa na
terra, um caranguejo, quase a alcançar o quintal, hesitando, o meu pai a
olhar-me calado quando voltei para casa, dirigindo-se ao mulato da rua das
putas
— Não quero ninguém agora
detestando qualquer criatura que se aproximasse dele, sentindo a minha
mãe a pentear-se no quarto como se a escova fosse uma espécie de chuveiro
que lhe descia o corpo, com o preto da espingarda a olhar a janela, primeiro
sentado no jipe, a seguir contornando a parede na direção das traseiras,
depois a minha mãe a olhar, depois a minha mãe poisando a escova no
peitoril sempre a olhar, depois a minha mãe a desaparecer da janela, depois
a janela fechada, depois o reposteiro da janela fechado também, depois eu a
subir as escadas, depois a Domingas à minha frente, atravessada nos
degraus
— Não sobe menina
eu quieta a olhá-la primeiro e a descer sem lhe falar depois, eu no quintal
das traseiras onde flores secas já curvadas nas hastes e uma buganvília
defunta, o motor a gasóleo da eletricidade sempre a vibrar zunindo, a
cozinheira a estender roupa num fio, a praia da outra margem do mar onde a
vazante depositava algas e um albatroz com joanetes a bicá-las, claro que
não gaivotas porque só dezassete, todas arrumadas em fila no armazém do
cais, proibindo-me de regressar a Angola, a mancha de combustível de um
cargueiro distante, guindastes que se transportavam a si mesmos de um
barco para outro girando os pescoços enormes, o ímpeto cego de um
rebocador só músculos puxando a senhora gorda de um paquete, o
fazendeiro abraçado a mim, de olhos de súbito redondos
— Tenho medo de adormecer mãe
não num quarto, na marquise onde o vento estremecia os vidros mal
presos nos caixilhos de ferro, alguns substituídos por cartões, alguns
substituídos por tabuinhas e a chuva de outubro na rua trocando a ordem
das árvores, a tropa regressou a Malanje porque nenhum tiro já, o ronco das
camionetas cada vez mais distante e os discípulos de António Mariano
calados, nenhumas vozes, nenhum hino, nenhum ruído de passos, a senhora
da casa a seguir à nossa
— Já não tem medo de África agora?
e como posso ter medo de África nesta margem do mar onde apenas os
caranguejos caminham praia fora, às cegas, procurando encontrar-me, como
posso ter medo de um sonho se África um sonho apenas, não existem
mangueiras, não existe algodão, não existem pretos a repetirem, cada vez
mais perto de mim
— Euá
se a Domingas entre a porta da cozinha e a nespereira
— Menina
se tudo isto um sonho e portanto nada do que digo é verdade, o
fazendeiro para mim
— Demoras tanto tempo a compreender as coisas garota
o mulato da rua das putas a tentar convencer o meu pai
— Tenho mulheres novas chegadas do Bié amigo
apontando janelas atrás das quais elas sentadas à espera a sorrirem, o
fazendeiro para mim
— Quero-te aqui amanhã
porque se ele adormecer África deixa de existir não é, e deixando de
existir ninguém nos pode fazer mal, nunca se perguntará a si mesmo
— O que faço eu aqui?
ou antes
— Que país é este e o que faço eu aqui?
e os belgas da Cotonang a pagarem o algodão, a encherem camionetas de
algodão, a irem-se embora com o algodão, eu para ele
— Nada disto é verdade
eu
— Vai acordar descanse
eu
Não tarda nada sente-se em Portugal outra vez
na vila do norte onde morava antes de África mãe, onde o meu pai
morava antes de África, onde eu devia morar entre pinheiros e fome
pensando
— Vamos ser ricos em Angola e depois voltamos para aqui onde não há
mabecos nem morte
nem leprosos a mancarem junto ao rio chamando
— Patrão patrão
agitando para nós os cotos dos braços, não me deixem dormir, que isto é
um sonho de fato, o que existe são pinheiros e frio, não capim, não mandris
nem o macaco a subir o poste arrastando a corrente, eu para a senhora da
casa a seguir à nossa
— Nada do que lhe contei é verdade percebe
os meus pais, o fazendeiro, a Domingas, os discípulos de túnica, verdade
são as dezassete gaivotas no telhado do armazém na única margem do mar,
esta e a sua água sem fim, ninguém regressa aqui porque ninguém partiu,
como podemos partir se não chegamos nunca
— Olha o vento menina olha o vento
e apenas o vento de fato, no outono, a chamar-me, uma velha num beco a
remar com a bengala, a minha avó para mim, no banquinho do quintal
— Onde estiveste menina?
eu que nunca me fui embora de fato, eu que a ajudo a levantar-se
— Com cuidado garota
a ajudo a sentar-se, passeio consigo no pinhal à procura de galhos, qual
outra margem diga-me, qual caveira de hipopótamo, quais morcegos, a
minha mãe para o meu pai
— O que ela inventa senhores
a estender roupa num fio
O que ela inventa
o meu pai para o farmacêutico
— Há de haver um xarope que a cure
o farmacêutico a olhar para os frascos
— O que se faz contra os sonhos?
uma das camionetas um tiro ainda, já longe, o general, contente, a
telefonar para Luanda
— Tudo em paz meus senhores
enquanto a amiga olhava a pulseira com pedrinhas azuis
— Isto é para mim a sério?
e o general a dobrar a roupa no cabide do quarto do hotel, sem lhe tocar
ainda
— Claro que é para ti para quem havia de ser?
uma pulseira mais bonita no estojo que no braço dela, mais cara no
veludo que na pele, mais vistosa quando não se usa, ela sem lhe tocar,
despindo-se devagarinho
— Obrigada
a pensar no que diria o capitão ao vê-la, a pensar no que responderia ela
— Chega aqui depressa quero lá saber do velho
em que apesar dos comprimidos do médico o corpo demorava a
responder, meia hora, três quartos de hora às vezes e eles dois à espera, a
olharem, o general
— Parece que já está
e não estava ainda, parecia de fato mas não estava ainda, o general numa
voz difícil
— Tem paciência
e a sensação de velarem um defunto que não iria responder nunca,
olhavam a janela olhavam-se esperançados, tornavam a olhar a janela,
tentavam conversar mas o outro não respondia, sentiam-se clientes a
aguardarem, numa repartição do Estado, que o número do papelinho que
lhes entregaram começasse a piscar no ecrã, olha-se o número, inseguros de
o terem ou não esquecido
— Parece que é aquele
a verificarem uma vez, outra vez, a confirmarem
— É aquele
já não com o mesmo alívio, o mesmo entusiasmo, a levantarem-se sem
muita pressa, a exibirem a senha no balcão
— É esta não é?
e uma cabeça, no outro lado, a estender a mão e a aceitá-la, o general
para a amiga, numa voz sem grande entusiasmo
— Vamos lá
rodando no colchão para ela
— Vamos lá
a tocar-lhe no ombro, a tocar-lhe na cintura, a tocar-lhe na nuca, a
experimentar um beijo sem gosto, de leve, um segundo beijo no peito que
não lhe soube a nada, o pulso da amiga nas costas dele sem o puxar contra
si, poisado apenas, as pupilas no teto, um sorriso forçado, um
— Querido
penoso, sem entusiasmo nem força, um
— Querido
insonso que não se erguia dos lábios, escorregava deles, um dos joelhos
que ao afastar-se do outro lhe magoou um bocadinho a coxa porque
qualquer coisa, que talvez fosse rótula, que esquisito uma rótula bicuda
dantes não bicuda, redonda, a segunda rótula um bocadinho melhor, vá lá,
um pé muito ao fundo que raspava no seu, o general, incapaz de falar de
amor, a mastigar um
— Muito bem
inseguro, achando de caminho a pulseira idiota, por que carga de água
pedem tanto dinheiro por uma pulseira idiota, garantiram-lhe que de oiro e
o mais certo era que um banho de oiro apenas e umas pedritas, mais
vistosas que boas, com demasiada cor para serem realmente caras, que o
general teve medo que lhe riscassem a pele e depois, como a receita do
médico funcionou mais ou menos, ajudada por um dedo de lubrificante que
o obrigou a secar a mão na fronha, lá conseguiu encaixar-se relativamente
no que se afigurou a cova de um estojo de caneta, essas depressões de
veludo, compridas e estreitas, geralmente com uma lapiseira ao lado, a
amiga do general tentando tornar-se cada vez mais côncava
— Não começas a mexer-te?
a mastigar sem apetite um lóbulo de orelha, tentando acertar-lhe um beijo
rápido na boca que encontrou o malar, o general, apoiado nos cotovelos, em
impulsos desajeitados de bomba de água exausta, abriu um dos olhos para
observar a amiga e as sobrancelhas dela aborrecidas no teto enquanto os
dentes iam mordendo o lábio inferior de quem colabora sem entusiasmo
numa operação maçadora, uma ambulância passou aos berros lá fora, a
soluçar numa curva, levando-o a pensar quem transportaria dentro
(serei eu serei eu)
debaixo da janela do quarto uma voz para outra voz
— E ele o que é que disse?
enquanto o general pensava ansioso, embora não conhecesse
— O que é que ele disse de fato?
sem dar conta que falava em voz alta
— O que é que ele disse de fato?
a dar de súbito com a expressão da amiga que o fitava espantada mas sem
ser capaz de deixar de pensar também
— O que é que ele disse de fato?
ao mesmo tempo que sentia o general escorregar-lhe do ventre
magicando sempre
— O que é que ele disse de fato?
ao mesmo tempo que uma salienciazita lhe tombava do corpo e se
dobrava, morta, no colchão, ao mesmo tempo que a voz dela a consolá-lo
— Não foi assim tão mau
quando aquilo que afirmava de fato era
— Que miséria
e o general com o
— Que miséria
na cabeça, passava da cama para o chão, com o corpo a pingar de si
mesmo e pernas sem energia que se equilibravam a custo, tentando abrir a
torneira do duche na esperança que a água o empurrasse no sentido do Tejo
pelo buraquinho do ralo.
14
Quando deu o ataque ao meu avô e o sentaram para sempre na única
poltrona da sala, de manta nos joelhos cada vez mais agudos e os bicos dos
chinelos apontados um ao outro na franja lá em baixo, tão vazios como se
não houvesse pés dentro, com o olho esquerdo subitamente minúsculo e o
direito enorme, a declarar de tempos a tempos, numa voz de gramofone
antigo que parecia saltar uma espira
— Grande gaita
num eco vazio, isso mais ou menos na altura em que decidi ir-me embora
da outra margem do mar porque Angola o único país cor-de-rosa no globo
amolgado, de lata, que tínhamos numa prateleira
(a Austrália, por exemplo, amarela, a China verde e Portugal um
pinguinho castanho, só igrejas e quiosques de jornais a secarem pendurados
de molas de roupa)
o irmão da minha mãe, que passou a mandar na família, preveniu-me
logo
— Se Deus te quisesse em África punha-te uma argola no nariz, fazia-te
preto e passavas a vida a dançar nos batuques
e apesar de haver felicitado os meus pais, designando-me com o lábio
— Vocês puseram no mundo um parvo integral parabéns
lá arranjei o barco, lá comprei o bilhete, lá me despedi do olho imenso do
meu avô, atravessando-me se me ver, que lhe flutuava ao acaso na cara
esbarrando numa verruga, esbarrando no nariz, com um pedaço de pano de
cozinha ao pescoço, de que aproximavam uma colher de sopa
— Abra a garagem senhor que o popó quer entrar
e o queixo dele a mastigar o caldo num
— Grande gaita
confuso de nabiças, desculpe a mariquice mas gosto de si, o orgulho que
eu tinha quando me apoiava a mão na nuca
— Daqui a uns anos já nem te lembras de mim
às vezes, no Namibe, diante do silêncio do mar e dos pássaros brancos
que voam para sul, com uma fêmea à frente a buzinar sem descanso, ainda
lhe sinto a voz antes de adormecer
— Rapaz
chegada não da boca, da sobrancelha vertical, severa, com que punha o
mundo na ordem
— Quando converso com o meu neto de assuntos importantes não quero
escutar nem um pio
exceto acerca da senhora francesa tão bonita, tão gorda, de vestido
prateado, que trabalhava com rolas no circo ambulante e lhe marcava
encontros perto da jaula do tigre que atravessava arcos em pulos sonolentos
com patas gigantescas de feltro, bocejando os caninos enormes, e a minha
avó, que não usava decotes prateados, usava uma bata às riscas, com a
antena do espanador no bolso, furiosa com ele porque cheirava a alpista, o
meu avô para o mundo
— Desde quando cheirar a alpista é crime?
apesar de acompanhado por eflúvios parisienses, a minha avó a ameaçá-
lo com o espanador
— Não tens emenda tu?
enquanto uma rolinha de papo inchado circulava entre eles murmurando
doçuras, o meu avô para mim, a compor o bigode
— Hás de compreender um dia
e, derivado à albina, compreendo mais ou menos o que são as mulheres,
sentadas em silêncio no degrau do café do Namibe diante desta margem do
mar, lembrei-me do meu avô a aumentar de orgulho dentro da dentadura
postiça
— Vai enriquecer em África é como cavacas
e o meu tio a olhá-lo de banda a um canto, bichanando profecias cruéis
sem se atrever a falar, por causa da poltrona e dos olhos desiguais o meu
avô não apareceu a despedir-se no armazém das gaivotas, ficou em casa
com o pijama cheio de nódoas dos popós dos caldos
— Abra a garagem senhor não está a ouvir a buzina?
às vezes penso nele, durante a chegada da noite, apesar de um
— Rapaz
que não vem, o que acharia da albina, por exemplo, o que diria dela, não
há pretas francesas, que eu saiba, a trabalharem com rolas nem perfumes
em África que exaltem a alma, as ondas do Namibe tão longe durante a
vazante, meia dúzia de arbustos, meia dúzia de palmeiras acenando os
ramos a erguerem-se um bocadinho da terra, meia dúzia de cubatas ao longe
onde ninguém morava, dizem que guerra no leste, dizem que guerra nos
Dembos, uma grávida a quem furaram a barriga, homens a quem cortaram
as vergonhas e as introduziram na boca, o governador de Malanje para mim
— A Cotonang não o quer em Marimba porque não impediu os pretos de
queimarem o algodão
queimarem o algodão, queimarem as sementes, destruírem os jipes dos
agentes do mato, são os agentes que têm o dinheiro, percebe, são eles que
mandam em nós, o meu tio para o meu avô
— Sempre disse que o miúdo era um parvo integral paizinho
e o olho enorme do meu avô, enquanto os popós entravam e saíam da
boca, a pensar
— Enganei-me
conforme me enganei ao imaginar que a estrangeira dos pombos francesa,
só percebi quando ela
— Estás a aleijar-me a clavícula
a sua rulote um beliche, um fogão e uma Nossa Senhora fosforescente
sobre uma nuvem de barro que ia perdendo a pintura, o meu avô, um
cavalheiro sempre, inclinado para o seu pescoço num murmúrio cúmplice
— Não há nada que um beijinho não cure
enquanto ela o empurrava e puxava para si ao mesmo tempo
— Um homem que sabe fazer cócegas faz-me perder a cabeça
e nisto lembrei-me de em pequeno ouvir a minha mãe no quarto dos meus
pais
— Maroto
enquanto a cabeceira da cama ia batendo na parede, primeiro devagarinho
e cada vez com mais força depois, acho que o meu pai, acho que a minha
mãe, acho que um deles, tanto faz
— Aguenta
numa espécie de súplica, acho que uma tábua a dar de si, a resistir, a dar
de si outra vez, o olho enorme do meu avô perto de mim na sala, a crescer,
o olho minúsculo quase do tamanho do outro, lembrando-se da senhora
gorda a murmurar
— Sim
a dizer
— Sim
quase a gritar
— Sim
ao passo que a albina a cara tão longe, o corpo tão longe, a vida dela tão
longe, os olhos não a fixarem-me, atravessando os meus, tão longe também
que apesar do seu corpo ali distantíssimo, há quanto tempo morreu o meu
avô que lhe fui perdendo as feições, ficou um eco vazio, não
— Grande gaita
um eco vazio
— Filho
convencido que eu milionário em África, imagine-se, e olhe a minha
riqueza, um barraco junto ao mar no Namibe e eu, numa cadeira de tábuas
de barrica, a olhar as ondas que vão escurecendo, já não transparentes,
negras, invisíveis, se Deus me quisesse em África, tio, tinha-me feito preto
e não fez, tem razão, feições de branco, pele de branco, as mãos que a
pouco e pouco se enrugam e envelhecem, a minha cabeça que vê melhor
Lisboa do que Angola, gente que deixei de conhecer e portanto nada sabe
de mim, isto é as primeiras janelas acesas, a luz verde da farmácia, dois
homens à entrada do café, um deles para o outro
— Então eu
o meu tio a meu respeito, não sei para quem
— Deve ter morrido lá no sertão
o meu tio
— Um parvo integral
a pensar em Lisboa sem se lembrar de Lisboa, quer dizer umas casas,
umas ruas mas se calhar engano-me, o governador de Malanje
— Se fosse a si ia-me embora depressa na esperança que me esqueçam
a sugerir
— Talvez para o Namibe onde ninguém conhece ninguém
porque não há ninguém para conhecer, talvez um homem com o meu
nome nos degraus de um café qualquer e apenas uma albina dá por ele,
pequeno, magro, sem pensar em nada a não ser na margem do mar que
perdeu para sempre, a não ser no avô a queixar-se
— Grande gaita
com uma estrangeira gorda, que não era estrangeira, na ideia, o
governador de Malanje para mim
— No seu lugar sumia-me o mais depressa possível antes que a Cotonang
me encontrasse
eu que vi matarem António Mariano na cadeia, já de pernas partidas, já
de braços pendentes, sentado no chão a olhar para os guardas, com dois ou
três discípulos ainda com ele, Angola, palavra de honra, cor-de-rosa no
globo, o meu avô para mim antes do olho enorme, vazio
— Se eu tivesse menos vinte anos embarcava contigo
de modo que a gente os dois em África, já viu, a gente os dois em
Marimba, lembra-se da jiboia sufocada no Cambo, com metade de uma
cabra no interior da boca, lembra-se dos morcegos ao crepúsculo, para a
direita e para a esquerda a gritarem conosco, a albina não no palácio do
governador, à minha espera na rua, o meu tio a abanar a cabeça com dó de
mim
— Uma preta
não em Angola, claro, com os meus pais em Lisboa
— O que se pode esperar de um parvo integral?
e eu calado, aceitando, eu que em pequeno, à noite, tinha medo das
pessoas no escuro a falarem na sala, todos tão altos, meu Deus, todos
enormes, palavras que não entendia, uma tia minha a tossir, levaram-me a
visitá-la e ela numa cama no meio de outras camas, a conseguir um sorriso
— Menino
antes de se distrair outra vez, muito longe da gente, a enfermeira a abrir
os braços para a minha mãe
— É a vida
outras mulheres, que não conhecia, deitadas igualmente, uma senhora a
limpar a boca de uma delas
— Celeste
com um ângulo de lenço
— Como é que eu me chamo?
à espera de uma resposta que não vinha e António Mariano, calado, a
fitar-nos enquanto os armazéns do algodão ardiam, com o povo a dançar em
torno
— Euá
quando o barco se afastou do cais, em Lisboa, vi a minha mãe acenar lá
em baixo, tive a certeza que o meu pai a animá-la
— Descansa que ele volta
e não voltou senhor, está algures no Namibe a contar as ondas sem pensar
em vocês, a minha tia, por exemplo, deixou de tossir no hospital, deixou de
olhar, o perfil dela de súbito imóvel, os dedos que aumentavam no lençol, a
mão quieta, o corpo inteiro essa mão quieta, a enfermeira para a gente
— É melhor saírem daqui
enquanto a minha avó se debruçava mais
— Rosarinho
tentando puxá-la para este lado das coisas, ou seja aquele em que a gente
vivia, António Mariano disse num sopro
— Euá
e distanciou-se imóvel, é possível ter partido continuando ali, tanto preto
morto pela tropa senhores, os aviões deixavam cinzas no lugar das cubatas,
um fumo denso, tia Rosarinho, que o vento esquecia, a albina acocorou-se
atrás de mim a seguir as ondas também, se subirmos a Luanda havemos de
encontrar um barco que nos transporte a Lisboa se houver Lisboa ainda, o
governador de Malanje a emendar uns papéis
— Feche a porta ao sair
com a secretária de pé ao seu lado sem olhar para mim, deixaste de
existir, percebes, quem se recorda de ti, o olho enorme do teu avô não te
distingue na sala, o teu tio, à mesa
— O parvo integral levou sumiço em Angola
porque o Namibe enorme, porque ninguém o encontra, uma lavrazita de
mandioca, uns insetos, uns ratos, umas algas do mar que se aquecem num
tacho sobre dois pauzinhos em cruz, os mandris em Malanje, penso eu, a
perseguirem cabíris com uma fêmea a gritar-lhes, o meu pai para a minha
mãe, pesando-lhe no ombro
— Ele volta
quando menos esperarmos bate aqui à porta e
— Olá
igualzinho a quando foi, juro-te, os mesmos vinte anos, o mesmo corpo
magrito, o sorriso envergonhado
— Olá
pronto a trabalhar de volta no escritório de contabilista, pronto a reunir-se
com os amigos, ao sábado à noite, no café do costume, ainda se casa vais
ver, ainda nos arranja netos e uma nora para tu odiares debaixo de um
sorriso, tu para mim, depois de se irem embora
— Achas que ela?
de nariz no ar tentando compreender-lhe o perfume
— Deve gastar o dinheiro em coisas caras reparaste no penteado
reparaste no vestido?
às vezes uma camioneta para o Virei ou para Tômbua, um pastor de duas
ou três vacas magríssimas, um navio com pássaros atrás, a tia Rosarinho
com sapatos de sola nova no caixão e eu em casa a tomar conta do meu avô
que não sossegava na poltrona, tentando um
— Grande gaita
que não vinha, ficava preso na garganta a pulsar, não se preocupe que eu
entendo senhor, se quiser digo por si e fazemos de conta que é você quando
ainda falava
— Este meu neto vai longe
e pelo menos, é verdade, fui até ao outro lado do mar onde penso que o
mundo acaba de fato ao acabar o Namibe e depois essa espécie de nada que
de tempos a tempos aparece nos sonhos e encontrei na cara da minha tia ao
fecharem o caixão antes de o baixarem à terra, os olhos não como os do
meu avô, escondidos sob as pálpebras e tudo imóvel nela embora não, como
explicar, embora não tranquilo, feições que não lhe pertenciam, pertenciam
a quem, ensinem-me a morte, a tentarem imitar as suas, que pessoa estaria
ali, tão distante dela mas fingindo ser ela, de tempos a tempos acordo a
meio da noite porque a albina a olhar-me, de nariz tão próximo do meu e a
mão quase poisada no meu peito sem que eu compreenda o que estás a
pensar ou antes compreendendo sem compreender o motivo de não me
deixares sozinho, sentimos os pássaros brancos que nos chegam do mar a
caminho do Lubango ou de Matala e eu comovido com o cheiro da tua pele
no escuro, o peso de carne dos teus gestos, o sopro da tua respiração na
minha pele que me lembra o algodão do Cassanje, tão leve e tão pesado, a
soltar-se do vento, Angola cor-de-rosa no globo mas esta areia branca, estes
arbustos, estas palmeiras dispersas que me falam, o governador de Malanje
nas minhas costas enquanto eu fechava a porta
— Se fosse a si raspava-me para a outra margem no primeiro transporte
antes que lhe aconteça alguma maçada
de modo que ao chegar a Marimba a impressão que os morcegos raivosos
comigo, jogando-se contra os faróis a gritarem, abandonando as
mangueiras, o chefe da polícia da Chiquita sem me deixar sair do jipe, de
coldre da pistola aberto, com dois dedos a passearem na coronha da arma
— Ainda aqui está você?
como estavam os crocodilos do Cambo e a sombra do deus Zumbi a
ameaçar os velhos cercando-lhes os gestos de sombras, eu quase idoso
agora, eu idoso e a albina, como desde que a conheço, uma adolescente
ainda, de corpo incompleto de criança, as ancas por enquanto estreitas do
mesmo modo que o peito por enquanto pequeno, os ossos mais leves que os
pássaros na mata, os pés sem deixarem rastro no chão e no entanto as ancas
aferrolhavam-me o corpo, e no entanto, quem me elucida isto, o meu corpo
cabia inteiro em ti de modo que não se notavam os meus passos na areia do
Namibe onde não nos conhecem, conhecem o velho em que me tornei e a
rapariga que serias sempre na varanda do café junto às ondas, os teus olhos
cor de laranja, a tua pele mais branca do que a minha, os teus dentes,
serrados em triângulo, no meu pescoço às vezes, não mordendo-me nunca,
apoiados de leve, coxas de súbito côncavas alojando-me em ti, a minha
respiração dentro da tua, o meu medo da morte dissolvido na tua paz, as
tatuagens das tuas bochechas, a tatuagem do teu púbis, os teus joelhos de
menina tão leves nas minhas coxas, o silêncio com que me falavas sempre,
as palavras mudas dos teus sonhos, o meu avô na poltrona a soprar-me não
— Grande gaita
a soprar-me
— Rapaz
não, a perguntar ao meu tio
— Eu não disse que ele ia ser rico?
e o meu tio, embora calado
— Talvez tenha razão senhor
o meu tio
— Pensando melhor pode ser que ele não seja um parvo integral
e, da janela, as dezassete gaivotas à espera que eu voltasse um dia e
talvez volte um dia, correndo como um mandril na direção da casa, soltando
os meus gritos breves nos degraus, subindo até ao telhado antes de voltar,
sentado no tapete a coçar-me, deixem-me dar a última colher de caldo ao
meu avô, guiar o último popó na direção da sua boca, limpar-lhe o queixo
com o ângulo de um pano de cozinha, sentir os olhos que me chamam
— Filho
em pequeno levava-me ao jardim a andar de baloiço, apresentava-me aos
amigos da sueca
— O meu neto
quando tirava o boné, ele que não o tirava em casa, algum cabelo
grisalho, sardas, a cicatriz de uma queda em criança, a minha avó apanhava-
o a comer às escondidas a compota da despensa
— Nunca cresceste tu
sem acender a luz de modo que desarrumava os boiões, o meu avô em
bicos de pés a fim de chegar à prateleira, mais novo do que eu, palavra,
mais desajeitado, mais aselha, o governador de Malanje a censurá-lo
— Olhe a linda educação que você deu ao seu neto
com os sipaios da Baixa do Cassanje sem lhe obedecerem, nunca
castigou nenhum conforme não expulsava os pretos que chegavam a cantar
do Congo, os sipaios não
— Muata muata
os sipaios
— Você
um fraco, sempre disse que infelizmente o meu sobrinho um parvo
integral, foi despedido de um escritório, foi despedido de uma oficina antes
de vir para África porque não sabia mandar nem se dava ao respeito,
enganava-se nos papéis, esquecia os prazos de pagamento e o meu pai a
desculpá-lo sempre, esses amores de avô
— É distraído e pronto
há quanto tempo não mandava consertar uma estrada, há quanto tempo os
escarumbas a preguiçarem por ali, que é a natureza deles, sem capinarem a
mata nem trabalharem nas lavras, acompanhado por uma albina que parecia
uma criança e talvez fosse uma criança, sei lá, sempre a seguir-lhe os passos
quase encostada a ele, como é que posso ter alguém assim a chefiar-me um
posto, o próprio tio
— No seu lugar amigo já o tinha despedido há séculos
sentado num caixote cacimbos inteiros e agora no sul, disseram-me,
acocorado na varanda de um cafezito deserto a olhar para as ondas, quando
voltar a Portugal, se voltar a Portugal, nenhum armazém se calhar, nenhuma
gaivota, a casa dos meus avós que já não sei onde fica, ruas que não
conduzem a parte alguma a não ser a si mesmas, pombos em torno de uma
igreja, mudando de cor ao descreverem a curva, jardins de reformados,
velhos e pombos, tanta senhora idosa em Lisboa porque tudo idoso lá, vasos
de alumínio nas varandas, nenhuma sombra, ninguém salvo o meu avô na
poltrona à minha espera, o olho enorme a escorregar para mim
— Até que enfim vieste
eu que estou no deserto de Moçâmedes à espera que um barco venha e
me leve, há de haver outras margens, há de haver outras Angolas, outros
cães magros, sozinhos, a farejarem a areia, a minha mãe a olhar-me
— Já não esperava por ti
com a bata de limpar a casa por cima de um vestido gasto e uns sapatos
antigos do meu pai, sem atacadores, arrastando-se soalho fora, eu pequeno a
um canto
— Senhora
e ela sem dar por mim, sem me ver, a pensar, julgo eu
— Se calhar fiz um filho
porque a vida tão longe já, terei sido nova um dia o meu pai de gravata,
todo timidezes, a forçar a voz que se sentia aqui dentro
— Arranjei um bom emprego eu
isto é trabalhava com um guindaste no cais, faltava-lhe o anelar da mão
direita que uma máquina cortou, a minha mãe a dar por falta do dedo
— O que é isto?
aceitando a pouco e pouco desde que ele não lhe tocasse
— Dá-me impressão desculpa
o meu tio, desagradado
— Não tem um dedo como?
convencido que se ela filhos quatro dedos também, quantas vezes me
disse
(e contava as falanges uma a uma a aliviar-se no fim)
— Que sorte vá lá
parecido com o pai dele mas mais autoritário, mais forte, não ordenava
— Cala-te
ordenava
— Calou
e ficava quieto a mirar-nos exigindo silêncio, zangado que tantos ruídos
no mundo, a mulher não se atrevia a uma resposta, uma frase, deslizava
como um fantasma a varrer, a varrer, os discípulos de António Mariano
escondidos no Congo, do outro lado do rio, onde os jingas iam e vinham a
conspirar contra nós, assaltavam prisões, assaltavam fazendas à medida que
o Exército espalhava tropas no norte tilintando espingardas, o meu tio para
o meu avô, a meu respeito
— Já o devem ter morto
e o olho enorme a ouvi-lo, o outro olho, alarmado
— Não morre
eu para a albina
— Temos de nos ir embora daqui
apesar do deserto tão longe do mundo, de vez em quando a comer ervas
das pedras, de vez em quando cachorros procurando algas na margem, de
vez em quando um pássaro ferido que gritava e bandos muito alto voando
para onde com uma fêmea grande a dirigi-los, um barco para Sumbe, um
barco para casa, olha as nossas cortinas, olha a nossa mobília, olha o meu
quarto vazio agora, nenhum cheiro que me pertença, nenhum objeto meu,
nenhum medo do escuro, a minha cama a um canto, mobília velha,
garrafões tombados, claro que a minha mãe já não a espreitar-me da porta
— Não tiveste medo tu?
quer dizer a silhueta apenas, ou seja a cabeça e os ombros, o resto do
corpo no corredor e não tive medo do escuro, descanse, senhora, quer dizer
tive e não tive, quer dizer não tive medo que os ciganos ou os gatunos
viessem roubar-me com um saco e me levassem com eles degraus abaixo,
sem que fizessem barulho ou eu fizesse barulho uma vez que me tapavam a
boca e ninguém dava por nada, tive medo de acordar aqui no Namibe tão
longe de si, pronta a chamar o farmacêutico se me doesse a garganta, quem
me dará mais um cobertor se estiver muito frio, quem me diz, sobretudo
quem me diz
— É só um sonho descansa
quem estende o indicador para que a minha mão inteira o agarre, quem
me desarruma o cabelo e me mistura as ideias enquanto o meu pai lá de
dentro, da cama deles
— Não me digas que o miúdo continua maricas?
embora só fizesse essa pergunta, que estranho, quando estava sem pijama
da barriga para cima e a voz me soava diferente, a ideia que uma espécie de
pressa ou um tom ofendido
— Que maricas
como se eu a prejudicá-lo sei lá em quê, a impedir-lhe sei lá o quê,
parecia necessitado da minha mãe de uma forma que eu não conseguia
entender, ela na direção do quarto
— Até parece que não podes esperar um minuto
e a resposta um silêncio de amuo durante o qual tive a impressão que o
copo de água na mesa de cabeceira caía e a minha mãe
— Agora é que vais esperar mesmo enquanto varro os cacos
ou seja vestir o roupão porque pode estar alguém na cozinha e a camisa
de dormir dela estrelinhas prateadas nas alças para além do peito a respirar
mais fundo e ademais de varrer os cacos tirar a água com a esfregona,
despejar o balde na pia, passar pelo espelho do quarto de banho a
arredondar o cabelo aumentando-lhe o volume com a leveza das palmas,
mudar uma coisinha de nada o brinco da orelha esquerda de modo a tornar
o malmequer de prata
(de prata?)
mais
(às vezes pensava que de prata)
mais à vista, aumentar o decote com uma parte de renda e outra parte
opaca, na junção das duas partes um laço vermelho, avisar o meu pai da
sensação esquisita que uma borbulha prestes a nascer no queixo, passar o
indicador por ela, de nariz quase encostado ao espelho a embaciá-lo e
borbulha nenhuma, graças a Deus que um defeito no vidro, o que os
espelhos às vezes assustam a, Namibe, Namibe, o que os espelhos às vezes
assustam a gente, gosto do meu nariz, já não gosto tanto da boca mas enfim,
podia ser mais cheia, com o lábio de baixo a arredondar o sorriso, a minha
mãe a estacar surpreendida
— Que palavra tão estranha me veio agora à cabeça Namibe
o meu pai no quarto a desabotoar o pijama
— É para hoje ou quê?
furioso com ela, furioso comigo
— Quem me mandou ter filhos?
afundado na almofada
(Namibe outra vez que mania)
numa expressão de amuo que lhe juntava as feições todas no centro da
cara e o resto da sua pele vazia aproveitando para coçar com raiva um
calcanhar com o outro, ambos mais rugosos do que o resto dos pés, um dia
deste arranjo um creme qualquer para isso, os chinelos da minha mãe da
cozinha para o corredor e do corredor para o quarto
— Aí vou estás pronto?
enquanto eu às escuras com cheiro de perfume, ou do que parecia
perfume do frasco pequeno que ela quase não usava e se me dissolvia em
torno, Nabime ou Namibe, mais parva, a voz do meu pai numa entoação
infantil
(como faria ele com a minha avó dantes?)
— Mais trinta segundos e já estava a dormir
enquanto que a minha mãe, agora já na cama, provocava o lamento de
uma tábua qualquer
— Ora cá estamos nós
e sons de roupa, um suspiro, mais sons de roupa, uma espécie de pausa
durante a qual me dava ideia de acontecerem coisas que eu não entendia,
uma pergunta baixinho
— Perdeste a vontade?
seguida de uma proposta mais baixinho ainda
— Vamos lá animá-lo?
e outra tábua, não a primeira, a estalar por seu turno
(que raio de invenção, Namibe)
a voz da minha mãe satisfeita com o decote, satisfeita com os brincos
— Olha para ele tão alegre tenho de pôr isto mais vezes
enquanto o meu pai um suspiro, dois suspiros, uma palavra feia que não
repito aqui enquanto a respiração crescia e a minha mãe num protesto
sumido
— Cuidado
num protesto menos sumido
— Com calma agora por favor que da última brincadeira andei a cremes
três dias
e as ondas do Namibe a crescerem, uma das gaivotas do armazém
grasnou uma ou duas vezes
— Querido
e calou-se, substituída por ruídos do colchão e por sopros, eu ímpetos de
gritar para o quarto
— Cuidado com a minha mãe não vai bater-lhe pois não?
e a certeza que ia bater-lhe
(o que é que eu faço agora?
porque ela
— Ai eu
cada vez mais com mais energia até que um
— Adalberto
Até que outro
— Adalberto
dado que evidentemente o meu pai a magoava, um terceiro
— Adalberto
seguido de uma frase entre a ordem e a agonia
— Pela tua saúde começa antes que eu acabe sozinha
enquanto a cama dava ideia de se desarticular e as dezassete gaivotas
berravam sem fim, o que elas gritam, meu Deus, lutando umas com as
outras, furiosas, bicando-se e depois um silêncio comprido, no fim do
silêncio comprido a minha mãe
— Namibe
no fim do
— Namibe
um silêncio ainda mais comprido até que a voz do meu pai desconfiada
— Namibe?
e a certeza que ele de pé porque os chinelos a rasparem o soalho
— O que é isso de Namibe?
a minha mãe encostada à cabeceira de pau, numa vozinha aflita
— Apareceu-me assim sei lá
e o meu pai de imediato, compreendia-se que furioso pelo tom da voz a
separar as palavras
— Estás a reinar com o pagode?
a minha mãe num sopro de pânico
— Anda aqui na cabeça há coisas que se pegam deve ter sido a dormir
comigo já no corredor, a trotar para eles depois de me levantar da cadeira
e descer os degraus do café enquanto as ondas iam e vinham lá ao fundo, na
areia, e um ventinho, chegado da água, inclinava as palmeiras, com a albina
a olhar para mim, misteriosa, indecifrável, tranquila, acolá adiante, pela
primeira vez a olhar-me, as pupilas amarelas, a pele branca, a carapinha
sem cor, uma ruga, que não lhe conhecia, a unir as sobrancelhas, enquanto,
dizia eu, as ondas iam e vinham, lá ao fundo, nesta margem do mar, sem
pássaros, sem casas, sem barcos, sem guindastes, sem pessoas, areia apenas
até ao fim da terra, uma estrada lá atrás, distantíssima, onde às vezes uma
camioneta que não parava aqui, um ou outro preto a pedir caricocos,
marufo, a ausência de chuva de um cacimbo eterno, o meu pai para si
mesmo
— Namibe
repetindo
— Namibe
sem lograr entender conforme a minha mãe
— Namibe
sem entender igualmente, ainda pensei que o meu avô em lugar de
— Grande gaita
articulasse
— Namibe
pelo seu olho enorme ou pela sua boca torta, com um pedaço de pano de
cozinha ao pescoço, do qual aproximavam uma colher de sopa
— Abra a garagem senhor que o popó quer entrar
o meu avô para mim, diante do silêncio e do nada um
— Rapaz
chegado não da garganta, da sobrancelha vertical, severa, com que punha
o mundo na ordem, a calar os meus pais prevenindo-os
— Quando converso com o meu neto de coisas importantes não quero
ouvir nem um pio.
15
Às vezes ao acordar, quando começo a subir devagarinho à superfície do
mundo, ainda confuso de restos de sonhos pendurados de mim, parece-me
ser eu mas serei eu de fato, tenho a certeza de estar não em África, na outra
margem do mar, a seguir às gaivotas e como elas gritam agora, no bairro
logo acima de Lisboa que a bondade do Estado
Nós pensamos em ti
mandou construir para os oficiais que o defendem isto é prédios baratos,
idênticos entre si e portanto ouvimo-nos uns aos outros através das paredes,
dos tetos, dos soalhos, desde as conversas às torneiras que não são coisas
assim tão diferentes, cada autoclismo uma explosão atômica que depois se
vai enchendo de novo pingo a pingo, cada tacão um prego que nos fura a
cabeça, cada despertador um choro convulso, se calhar habitamos todos a
mesma sala acanhada, o mesmo corredor com o mesmo cão colérico a
ladrar sem fim, o mesmo quarto que os estores não vedam e o mesmo sol a
magoar-nos os olhos expulsando-nos da cama, sob cujo colchão falta
sempre a segunda pantufa que se procura de gatas, com a manga do pijama
que um cabo de vassoura prolonga, enquanto as nossas mulheres, de costas
para nós, só um ombro com uma alça e cabelo, continuam a subir a custo,
engrenando mudanças mais lentas, uma ladeira de sono
(quem me garante que não uma única mulher que nos pertence a todos,
de mão direita a puxar o carrinho das compras e a esquerda amparando a
ciática que lhe atrasa o andar)
portanto acordo na outra banda do oceano que só ao aquecer o café
começa lentamente a transformar-se em Angola, porque não há tipuanas
que cheirem a Portugal e se começam a sentir lá fora as vozes rugosas dos
pretos, uma oitava abaixo das nossas
— Senhor amigo senhor amigo
e as gargantas em degraus deles, trambolhando som a som, num
desequilíbrio feliz, até se estatelarem no rés do chão do silêncio comigo a
pensar, surpreendido
— Onde estou eu?
hesitando entre a Europa e Malanje dado que a minha esposa não mudou,
fita-me com os olhos fechados que de manhã são os óculos dela, dentro da
camisa de dormir com um botão a soltar-se, encaixando o filtro na máquina
de café na precisão assustadoras dos cegos, os olhos pálpebras sobrepostas
e a papada dos quarenta e cinco anos
(o horror dos quarenta e cinco anos senhores, tão cruéis, tão injustos, o
que a vida, Virgem Bendita, nos fez, não sou tão pecadora assim)
a unir o queixo às clavículas não mencionando a pele gasta da cara e as
sardas dos ombros, para quê tanta pintinha, a rótula esquerda que tropeça
em si mesma a atrasar-me, portanto às vezes nem imagino que Malanje
existe, quando muito sonhei com um lugar esquisito, perto de uma estação
de comboios onde carruagens e locomotivas tombadas de lado na erva,
fitando-me com os olhos de vidro vazio das janelas de modo que talvez
fossem comboios empalhados, o que não falta neste mundo são inutilidades
defuntas, por exemplo o cadáver do teu amor por mim juntamente com a
pistola de fulminantes dos meus oito anos e a recordação confusa de uma
prima do meu pai, imersa num perfume que ainda hoje me exalta e me
punha a fazer chichi em criança
— É para hoje ou quê?
e eu com saudades de colo, lembranças que fazem parte do
compartimento secreto do museu do passado no qual me instalo às vezes
(meti lá uma cadeira de braços)
a fim de me lembrar de uma rapariga que não tornei a encontrar e me
obrigava a uma eficácia apressada
— Vamos lá que a existência é curta e tenho mais que fazer
despertando-me na alma comichões simpáticas que me acompanham
sempre, parece que vive no norte com um ricaço sortudo, ainda hoje a
minha mulher, quando acorda naqueles movimentos ao acaso de fantoche
sem fios com que percorre o espaço à volta, me descobre por vezes numa
exaltação feliz
— Já?
sem notar a prima ao meu lado, não já uma rapariga, uma criatura que se
vai tornando uma bengala incerta amparada a uma senhora de idade, quem
me explica se somos a bengala ou a pessoa e qual das duas compramos na
loja, qual se senta conosco à mesa, qual se lamenta, o general para mim ou
para a amiga que encontrava de quando em quando, de joelhos unidos que
me faziam senti-la ainda mais, no sofá do gabinete dele cheio de mapas e
estandartes e me mandava beijos ocultos numa careta distante
— Com António Mariano morto e a Cotonang satisfeita vamos ter paz
agora
enquanto as esposas
— Fico aqui
me sorriem na messe, como os dedos conseguem apertar-nos não tocando
sequer, a porção de coisas que a gente faz sem que se note do mesmo modo
que não se vê o frio, é um exemplo, a rua das putas quase deserta e uma
inquietação nas sanzalas com mais cabras que gente à medida que os pretos
desciam para o rio e se juntavam no Congo, a minha mulher para mim, de
um casamento de príncipes numa revista
— Dizem que os pretos
eu para a minha mulher, dos convites para encontros do jornal
— Dizem sempre que os pretos
a espreitar-lhe o vestido novo tentando adivinhar quanto me terá custado,
a mulher do general de penteado diferente, sapatos novos, um creme de pele
mais enérgico a lutar contra as rugas, uma pulseira igualzinha à da minha
mulher que ela lhe prendeu no pulso
— Fica melhor em ti do que em mim ficar melhor nas duas
com um coração pendurado e a data em que se conheceram gravada,
comigo zangado por não ganhar o suficiente para joias catitas, já trocam
prendas aquelas, quando eu em Lisboa no curso aposto que se juntarão na
minha casa, a mulher do general a aumentar para o general tanto quanto um
peito de sessenta anos aumenta, há sempre uns truquezinhos não é
— Com o marido em Portugal e ela sozinha coitada podíamos convidá-la
para o quarto do fundo não achas?
a minha mulher ao telefone sem dar por mim, num cochicho que se
transformava em sonho
— Amor
enquanto comigo nunca
— Amor
desde o princípio que nunca
— Amor
apenas uma pergunta distraída enquanto corrigia o verniz da unha
— O que temos agora?
sem me olhar sequer
— Que quer este senhores?
desinteressada, impaciente
— Que mal fiz eu a Deus nesta vida?
de olhos mais pintados, de, os pretos assaltaram a cadeia de Luanda, de
cabelo mais loiro, arrasaram fazendas, quebraram pontes em Lucala e
Quirima, mataram fazendeiros no Uíje
— Tuga tuga
tentaram cortar estradas em redor de Luanda, de onde as traineiras
continuavam a sair à noite com as lanternas refletidas em pedaços na água,
juntando-os compunha-se um barco, o vento aproximava e afastava os
candeeiros da ilha e o resto dos pássaros brancos, automóveis defuntos nas
picadas do Caxito, sanzalas desertas exceto as mulheres que violaram com
paus a pique da vagina à boca, falando ainda pelos dentes quebrados e
bodes de patas decepadas que se arrastavam no chão a pedirem
— Muata
em balidos sem fala, os olhos tão grandes, as narinas enormes, se pudesse
ter aqui a minha mãe agora a pegar-me na mão, mesmo no escuro,
agradecia, o deus Zumbi a derrubar as sanzalas, crianças nuas a trotarem
para nós enquanto disparávamos, galinhas de patas decepadas batendo as
asas sem fim, colares de orelhas, de narizes, de dedos enquanto a tropa
chegava da outra margem do mar com as dezassete gaivotas a grasnarem, o
general para mim, ou seja para ninguém, a desenhar círculos com o ponteiro
no mapa
— O que fazemos agora?
uma ambulância a arder na praia e os feridos a gritarem lá dentro, as
missões dos padres espanhóis desertas, com um único cão a fitar-nos do
claustro, as cruzes dos cemitérios tombadas, as escolas vazias, os barcos
que traziam a tropa e levavam os brancos, nenhuma mulher na rua das putas
— O que fazemos agora?
exceto aquelas que estrangularam nos quartos, de pernas sobre as camas e
as cabeças no chão, não, as camas vazias e as mulheres na ilha diante de
Luanda ou nos cabarés da cidade recebendo a tropa, eu para a minha mulher
— Adiaram o curso
e ela a olhar-me calada, de unhas cravadas nas mãos, o que nos aconteceu
diz-me, o que se passou entre nós, durante anos e anos tomaste conta de
mim e fomos felizes, quer dizer não felizes felizes, quer dizer quase felizes,
colarinhos bem engomados, botões seguros, borbulhas que se espremiam
— Se fazes caretas não consigo
os agrafes que eu prendia no teu vestido atrás, nesses gestos do amor
— O meu marido
— A minha mulher
e nunca me passou pela cabeça tirar a aliança, avisava logo ao princípio
— Sou casado e acabou-se separações nem pensar
volta e meia mandavas-me
— Põe a língua de fora
molhavas o indicador nela
— Não te mexas
e limpavas-me uma nódoa qualquer
— Como tu te sujas meu Deus
da bochecha, ficavas séculos a olhar um ciscozinho
— Tudo se pega a ti palavra
e tudo se pega a mim realmente, devo ter cola eu, as flores atraem as
abelhas, eu atraio tudo o que não presta e tu vieste sem querer com o que
não presta, perdoa, à medida que o deus Zumbi acabava com as sanzalas,
crianças nuas a trotarem para nós enquanto disparávamos
— Querem a independência essas
e mais soldados, mais armas, o napalm continuava no Cazombo e no
Moxico, o meu pai não sei quê na barriga e a minha mãe nas cartas
— Ele perguntou por ti
olha, vá lá, interessou-se, era sempre a minha mãe que escrevia, de
tempos a tempos
— O pai manda saudades
como se eu acreditasse, entretido com a paciência aos piparotes a um
valete sem lugar, irritado com o maricas de bigodinho que o obrigava a
mudar de estratégia
— Só me faltava este
e nem uma dama para amostra onde alojar o palerma, eu que mal me
recordo de como você era senhor, lembro-me mais ou menos de si novo,
quer dizer já um bocado calvo mas novo, a chegar a casa de gravata e
pastinha, zangado com o chefe
— O camelo
a minha mãe, de avental, preocupada com ele
— Olha a tua tensão
lembro-me que às vezes a seguir ao jantar dizia numa voz sonhadora
— A vida
e calava-se a seguir a olhar a parede, afastando manchas diante de um
prego sem quadro a repetir
— A vida
e a calar-se de novo, o que foi a sua, diga-me, e o que esperava você, de
tempos a tempos sorria de leve para qualquer coisa dentro de si que eu,
pequeno, podia agarrar com a mão, devolver-lhe
— Tome lá
e talvez aceitasse, se calhar cheia de pessoas, que não conheci senão dos
retratos, na sua cabeça, vestidas de domingo e de missa, duas tias que não
casaram nunca, a minha madrinha a acenar sempre que sim, de acordo
mesmo quando não lhe perguntavam nada, se o meu pai, como de costume
— A vida
ela a apoiar logo num eco sumido
— É verdade
e o que seria a verdade que nunca a entendi, o que significa a verdade, de
que serve a verdade, o que se faz com ela, até ir para Angola só conheci
estranhos que me faziam uma festa na cabeça
— O miúdo não para de crescer
ou
— Não desiste de empurrar-nos para a morte o malandro
e adeus, tornavam-se cada vez mais pequenos, mais longe,
desinteressados de mim como a minha mulher desinteressada de mim, agora
preocupada com a guerra
— Os pretos querem mandar-nos embora não é?
porque as gaivotas em Lisboa, na outra margem do mar à nossa espera,
aos gritos, afinal aos gritos, olha, não caladas no armazém, enquanto navios
cheios de brancos não paravam de chegar, enquanto António Mariano,
ressuscitado, a odiar-nos, vinham do Congo, vinham do Tembo, vinham de
Carmona e estrangeiros e chineses com eles, a rua das putas cheia de
soldados, o mulato num automóvel grande, a mandar a tropa apressar-se
— Isso depressa depressa
e russos e suecos e emboscadas e tiros, o meu pai para a minha mãe, com
o valete da paciência na mão
— Tens a certeza que está em Angola ele?
e a esquecer-me de seguida, se por acaso me visse e não me via, eu tão
longe, escutava
— Pai
a seguir fechava os olhos e ao abri-los tinha-me perdido como perdia as
paciências, não acredito nem por um momento que se lembrasse do filho, a
minha mãe de quando em quando um bilhete, parecia-me que com medo
por ele e por mim
— O teu pai
ou seja no fim de contas a sua forma de dizer
— A vida
ou seja o meu pai no hospital com o baralho poisado à cabeceira sem que
lhe tocasse, fitando o teto apenas, a minha mulher sem largar a revista
— O teu pai?
ela ao telefone
— Já te ligo querida
ao mesmo tempo que o general para mim
— Preciso deste batalhão na fronteira
comigo a pensar no meu velhote que me levava aos domingos a ver os
pescadores no Tejo e eu quase correndo ao seu lado para não o perder, ao
chegarmos a casa a minha mãe abria a porta antes de nós no capacho
— Os meus heróis
a ralhar-me porque eu sem boné, a amiga do general um vinco que lhe
crescia na testa
— Para o norte?
sentados na cama da pensão sem nos tocarmos sequer, ela com menos
decote, menos pintura, menos colares, menos mãos nos meus ombros
— O norte?
e, palavra de honra, os olhos maiores, diferentes, com a lente de uma
lágrima fixa num deles de súbito enorme, se ainda conseguisse comover-me
talvez simpatizasses comigo, talvez não te fosse totalmente indiferente,
talvez num cantinho qualquer tenhas um lugar, mesmo pequeno, que me
pertença um bocadito, quando lhe disse isto a boca dela vibrou e carregou-
me na ponta do nariz num desses
— Ah ah
que serve para diminuir emoções, quando recebi o telegrama da morte do
meu pai fui eu quem fez
— Ah ah
a si mesmo diante de um capitão, deu-me ideia que com pena, que não
troçou de mim, disse
— O meu padrinho brincava dessa maneira comigo
e afastou a cara
(o corpo permanecia ali)
para onde eu a não visse, curioso como a gente consegue desaparecer dos
outros continuando ali, a porção de quilômetros que viajamos imóveis, a
amiga do general, apesar da garganta difícil
— Depois voltas não é?
e claro que volto, qual a dúvida, nem sonhes que não volto e vingamo-
nos nesta pensão uma semana seguida, não é necessário fazermos nada se
não te apetecer, ficamos só aqui de
— Ah ah
em
— Ah ah
enquanto a minha mulher e a mulher do general soprozinhos, suspiros,
não respondi à carta da minha mãe, para quê, a única coisa que podia
desejar era que o meu pai encontrasse um valete capaz de resolver a
paciência, um dos pescadores do Tejo jogou o isco longíssimo e tantos
peixes negros lutando uns com os outros numa boca de esgoto, os pelotões
começaram a sair na fronteira e minas e ataques mas eu tão longe, palavra,
num gabinetezito entre mapa e setas, a fazer
— Ah ah
e a repetir com a voz dele
— A vida
que história macabra dois alferes mortos, que história aborrecida um
militar sem mãos a olhar-me no vazio
— Meu coronel
sem pedir fosse o que fosse, só a olhar-me no vazio
— Meu coronel
apontando com o queixo o sítio onde eu estava, descobriu-me pelo cheiro
ou pelo medo que eu tinha, por pouco não lhe poisei a mão no ombro, o
helicóptero, a dar e dar como uma galinha, subiu pelas árvores acima, com
as pás a encherem-nos de vento e eu curvado como as ervas, eu uma
hastezinha de capim a acenar adeus a nada, a minha mãe uma carta por mês
agora, uma ou duas páginas quase em branco com o seu nome no fim, o que
tínhamos a dizer um ao outro a não ser eu a pedir já deitado
— Se não quer ficar aqui ao menos deixe a luz do corredor acesa
e os seus passos na cozinha de mistura com ruídos de gavetas, a voz do
meu pai enquanto a minha mãe
— Olha que nesse tom ele ouve-te
a voz do meu pai desiludida comigo
— Que medricas aquele
na camioneta logo atrás do rebenta minas na direção de Quimbele, a
certeza que os pretos a espreitarem-nos da mata, juntamente com um
apontador de metralhadora, o guia e o que mandava no grupo das calaches
enquanto olhos invisíveis nos seguiam dos arbustos, a minha mãe a
desculpar-me
— O miúdo tem só quatro anos coitado
sem convencer o meu pai
— Que medricas aquele
e, embora coronel, eu quatro anos de fato e a impressão que um tubo de
bazuca entre dois galhos, mais os canhangulos dos discípulos de António
Mariano, mais o silêncio dos guerrilheiros de camuflados diferentes dos
nossos embora a maior parte descalços, gostam de sentir lama sob os pés,
gostam do calor da terra, um pássaro, dois pássaros denunciando-os à gente,
o general a mostrar-me os helicópteros que partiam
— Quantas baixas?
e a minha voz, não eu
— Só dois feridos senhor nenhum fio de tropeçar nenhuma mina
a minha mulher para a mulher do general
— Não me voltes a tocar aí porque me excita tanto
a acariciar os próprios tornozelos afastando-os da outra
— Não pedi para não me tocares mazona?
a mulher do general mais nova que o general embora mais idosa que a
minha mulher, com o sutiã a segurar-lhe as costelas e os cremes, apesar de
se notar que cremes, diminuindo um bocadinho as tragédias da idade, o meu
pai apagou a luz do corredor comigo principiando a chorar de medo, a
minha mãe
— Por que motivo lhe desligaste a luz coitadinho?
a defender-me zangada
— Descansa que não é por isso que ele se torna maricas
um dos alferes para mim, entre sacos de areia
— Acaba-se com aquela sanzala?
enquanto o rádio
— Manda pássaro manda pássaro
chamando os aviões, se a minha mãe estivesse comigo acendia as luzes
todas de Angola e África sem meter medo a ninguém, o meu pai no quarto
— Vem aqui um instante que há mais de uma semana que ando a ver
navios
e a tábua do costume a estalar, percebia-se o colchão, o travesseiro, um
objeto que tremia e caiu
— Se me avariaste o despertador mato-te
a rolar sons de lata soalho fora até que um chinelo o impediu de descer as
escadas e acordar o mundo com a campainha feroz, passamos por duas
aldeias que queimamos com petróleo, na segunda um cafeco sozinho
tentando disparar um canhangulo avariado que a fez tombar de joelhos a
mirar-nos, acho que viva, não estou certo, à medida que nos afastávamos,
pelo menos um dos braços dela continuou a mover-se, julgo que ainda
tenho receio do escuro, deixo o candeeiro da sala aceso dado que se por
acaso acordar sinto uma companhia por aí do mesmo modo que todos os
dias, às sete horas, a minha mãe ronda quase sem querer a porta na
esperança que o meu pai entre com a pasta do emprego e se instale na
poltrona olhando sem ver as tipuanas lá fora, pelo menos aqui em África,
com este cafarnaum todo e o valete da paciência à mão sempre se distraía, o
general a mudar a posição dos batalhões no mapa
— Se não pomos isto direito o governo em Lisboa despeja-nos daqui
com a amiga no sofá a compor a maquilhagem sem olhar para nós, o
general assentando-me uma palmadinha quase cúmplice na nuca
— A minha mulher dá-se com a sua como Deus com os anjos nunca a vi
tão contente
e de fato não se fartam de conversar ao telefone, a amiga do general
entornou para mim, inclinando-se para trás de forma a que ele a não visse,
um olhinho que brilhava, com a sua cabeça a trabalhar no interior do
olhinho
— Talvez ele case comigo
eu que já não dormia com ele quando dormia com ele, dormia no sofá
porque não parava de mexer-se a noite inteira sempre agitado, a falar,
quando menos espero cai-me um cotovelo em cima, empurra-me, puxa-me,
não cessa de dar ordens, até isto dos pretos acabar ficas, tem paciência,
compreende, isto não vai durar sempre, na sala, o sofá mais pequeno
transforma-se em divã e talvez dessa forma descansemos os dois, se
continuarmos assim torno-me velha num mês, olha estas pregas que não
tinha, olha a minha cara cansada, uma dor nas costas, mesmo ao lado da
vértebra, que não me deixa, o mulato da rua das putas para ele
— Quer mesmo uma mulher a sério?
porque tenho cá agora uma francesa legítima, não aqui, é claro, numa
vivenda ao pé da estação, com estudos, sabe falar, foi casada com um
veterinário, é claro que é mais cara, as feições amarrotadotas mas a
competência compensa e depois os modos, e depois a conversa, e depois o
doutor garante, inspecionou-a de alto a baixo, que doença nenhuma
elegante, magrinha, um pouco nariguda, com temperamento, garanto-lhe,
enquanto eu, porque apagaram a luz do corredor, a chamar
— Mãe
sem descanso enquanto os morteiros dos pretos principiavam a cair junto
de uma ponte desfeita, o capitão da amiga do general de gatas, incapaz de
mover-se
— Acho que me entrou um estilhaço nos rins
isto é o camuflado rasgado, uma nódoa de sangue, o que me dava ideia de
um pedaço de metal, o furriel enfermeiro
— Por favor não se mexa
a experimentá-lo devagarinho
— Tão quente
estendendo-o, com um ou dois soldados a ajudarem, numa espécie de
maca, cobrindo a ferida com uma compressa e os antebraços vermelhos
enquanto o capitão
— Não me dói
numa voz cada vez mais difícil e numa expressão cada vez mais distante,
os atiradores a apontarem a mata e um alferes a fazer sinais ao helicóptero
que despenteava o capim enquanto os dedos do capitão tremiam e a boca
uma palavra sem som que nenhum de nós entendeu, uma das pernas
dobrou-se devagar, com uma bota subitamente diferente da outra que
parecia não lhe pertencer, pergunto-me se o corpo do meu pai terá mudado
também no hospital antes de morrer, a garganta saliente, as têmporas
côncavas de modo que amanhã acendo as lâmpadas todas da casa sem que
ninguém proteste, a do quarto, a do corredor, a da cozinha, a da entrada cá
fora e flutuo na luz como as dezassete gaivotas na outra margem do mar se
por acaso abandonarem o telhado do armazém suspendendo-se sobre a água
em círculos lentos, enquanto nós embarcávamos para Luanda e nos íamos
afastando a pouco e pouco na direção de África, primeiro o rio, a cidade, os
guindastes, os pontões, depois barcos mais pequenos que se cruzavam
conosco, depois a cor da água mais espessa, mais forte, depois morros ao
longe, depois um único morro, depois nada, depois a agitação da água na
foz, depois um golfinho, depois nenhum golfinho, um detrito qualquer,
depois o general para mim
— Com os pretos no estado em que estão não vamos demorar-nos muito
tempo nesta margem do mar
depois a minha mulher a empurrar-me com o cotovelo na cama
— Se continuas a mexer-te assim como é que eu posso dormir?
e um perfume que não era sempre o dela em cada gesto, depois o motor
do helicóptero com o capitão ferido a diminuir sobre as árvores e o rádio a
anunciar entre silvos elétricos
— Já partiu já partiu
depois a minha mãe para o meu pai, no meu quarto comigo
— Descansa que apago a luz não te vou arruinar
de roupão sobre a camisa de dormir com um relento a café com leite e a
sono, eu para o general
— Como será Lisboa agora?
se é que existe Lisboa, se é que existe a outra margem do mar, a minha
mãe debruçando-se para mim
— Ainda não estás a dormir?
comigo a pensar que já estou a dormir, claro que dou por você, claro que
daqui a nada manhã, a francesa
— Como é que soube onde eu morava?
mais alta do que eu, num português esquisito
— Nunca foi a Paris?
abrindo o bolso da saia
— O pagamento primeiro que isto é trabalho
enquanto a mulher do general para a minha mulher, a apontá-lo
— Coitado
quase com pena, palavra, quase com dó dos homens tão sozinhos os
pobres, tão fracos, não sabem o que fazer se nos perdem, o meu marido, por
exemplo, numa súplica de miúdo
— Não me deixes
porque a secretária nunca parou de o deixar, havia o teu marido, havia o
outro oficial no helicóptero agora, com um frasco de sangue a correr para o
braço e que não vai salvá-lo, estendem-lhe um lençol por cima na
enfermaria de Luanda, a família há de receber um aviso e enquanto recebe e
não recebe dá-me um beijinho aqui, não, mais abaixo, põe a cabeça no meu
peito e sobretudo fecha os olhos porque de olhos fechados nos vemos
melhor, porque só de olhos fechados, li isto não sei onde, é que podemos
ser uma.
16
Depois do jantar o meu pai instalava-se na varanda a sentir o algodão no
escuro que o vento aproximava e afastava de nós porque a terra de África
respira, sentia-lhe o corpo diminuindo e aumentando, ora mais gordo ora
mais magro, murmurando o meu nome
— Menina
conforme sentem os mabecos a trotarem nas plantas em busca de texugos
ou de um noitibó imóvel, com uma asa quebrada, mirando-nos com o único
olho cheio de espanto e medo, de súbito um soluço e um sapo inerte que
uma sombra arrastava, a Domingas a chamar-me entre o corredor e a sala
— Já são horas menina
e eu uma sementinha ao colo dela corredor adiante isto no tempo em que
a Domingas muito maior que eu, não insignificante como agora e
manejando um corpo difícil comigo intrigada
— Porque é que envelheceste?
comigo aflita
— Não vais morrer pois não?
comigo a insistir
— Compreendes que não podes morrer?
como a nespereira morre a pouco e pouco no muro sobre a praia, a
Domingas se calhar em Malanje a obedecer a um mulato, isto não é um
livro, palavra de honra, é a vida, quando tiveres partido quem me alerta
— Olha o vento
quem se preocupa com a minha pessoa, quem me chama
— Menina
e me coloca os sonhos por ordem na cadeira ao lado da cama para eu usar
à noite, o fazendeiro velho para mim
— Anda cá
o meu pai ausente e o preto da espingarda tomando conta dele sem me
ver, os bailundos do algodão amontoaram os sacos no pátio, o fazendeiro
velho para mim outra vez
— Anda cá
e eu a obedecer calada, que estranhas as mãos dos homens, tão
desajeitadas, enormes, a minha mãe para a Domingas
— Toma conta dela promete
antes de se ir embora e o meu pai calado, a bater a chibatinha na perna,
de vez em quando o preto da espingarda trazia uma mulher de Malanje que
tentava vestir de senhora, o meu pai para mim
— Uma tia que tu não conheces
acanhada, nervosa, a olhar-me
— A tua filha não se vai ofender?
e no dia seguinte levava-a de novo, lá ia o jipe ao comprido das
mangueiras, às vezes o meu pai para o preto da espingarda
— Podes ficar com essa
no cubículo atrás da garagem e os morcegos a encherem a noite de mais
gritos ainda, blusas baratas, saias gastas, o cabelo pintado com tinta
amarela, faziam cerimônia em falar, sentavam-se na bordinha dos bancos
como os doentes no médico, em lugar de responderem às perguntas
acenavam que sim, o meu pai para elas
— Não comes?
e quase não comiam, embaraçadas com os talheres, o meu pai para elas
— Toma banho primeiro
enquanto ele na sala sozinho, a pensar na minha mãe que se notava logo,
nenhuma branca nunca, cafuzas ou cabritas de mãos embrulhadas no colo e
os olhos envergonhados no chão, o meu pai pagava-lhes tirando nota a nota
do bolso
— Vê se o dinheiro está certo
humilhando-as, ia encontrá-lo depois no quarto de casal lá em cima,
diante da cama, de costas para mim, ao aperceber-se que eu chegara não se
voltava nunca, dizia baixinho
— Sai daqui
e qualquer coisa no seu corpo a tremer, uma ocasião escutei-lhe
— Que horror isto tudo
e logo a seguir, numa voz que não conhecia
— Some-te também
e me recordava a minha quando, sem querer, não digo, a Domingas num
segredo hesitante
— Não tem importância menina
devia ter gostado da minha irmã, essa, qual de nós, para ela, era eu, qual
das duas, falando francamente, mais morta, não quero voltar a África, não
quero tornar a encontrá-la, mais velha que o fazendeiro velho agora, mais
curvada, mais sozinha, com roupa cada vez menos limpa, o meu pai
descuidado, indiferente, passava os domingos na varanda, armado de uma
garrafa de marufo, a deslocar-se quase de gatas frente às mangueiras ou a
disparar a pistola aos morcegos sem acertar em nenhum, acertou no macaco
do poste e manteve-o no colo até o bicho morrer, tirou a pá do preto da
espingarda e abriu ele a cova, empurrando a Domingas que tentava tirar-lha
— Deixa-me
levantando a mão para lhe bater e, ao dar por mim, a largá-la, limpando a
boca com o polegar limpando ao mesmo tempo um
— Perdoa
sem conseguir colocar as letras da palavra por ordem, apenas uma
espécie de cuspo no interior de uma espécie de soluço, sentia-o, a meio da
noite, para um lado e para o outro no corredor da casa, uma ocasião
encontrei-o com a mão dele a apertar a minha, mal notou que eu estava foi-
se embora a tropeçar
— Não me interessas
derrubando uma mesita no corredor, tropeçando em si mesmo, deixando
tombar não sei quê nas escadas, lembro-me da expressão dele
— Se o meu pai me visse agora
e descanse que não viu, não se preocupe que já ninguém o vê, passeia na
fazenda a tropeçar nas raízes do algodão mas quem repara em si, quem o
percebe na lavra, quem o cumprimenta sequer, o fazendeiro velho
— Endireita-te
o fazendeiro velho
— Já não és homem tu?
e já não sou homem eu, que é da garrafa de marufo que deixei acolá, a
Domingas pela única vez na vida a censurá-lo
— Senhor
ajudando-o a levantar-se, ajudando-o a andar ele a cair sobre ela e ela
quieta à espera, a boca dele devagarinho
— Ajuda-me
acho que sem a reconhecer, uma voz
— Ajuda-me
que nunca tinha escutado, sem idade palavra, uma mulher que o tirava a
um homem
— Não se pega assim numa criança que bruto
e o meu pai pequeno, cheio de lágrimas na boca e de dentes nos joelhos,
o farmacêutico para o empregado
— Chega-me aí a tintura
e pela sua saúde não me faça arder o joelho senhor Ramos nem me deite
numa mesa de ferro pintada de branco não me dobre os braços, não me
dobre as pernas, não sossegue caras que não vejo
— Uma coisinha de cacaracá que maricas
o farmacêutico
— Anda como deve ser não coxeies
se quiseres ponho-te um adesivo aí para fazeres inveja aos teus amigos e
aproveita para mancar um bocado que a tua filha já pouco mais tem a dizer
neste livro, falta-lhe despedir-se da outra margem, de uma nespereira, do
pêndulo do relógio de cuco a bater, a bater, com uma portinha de pau de que
saía, a cada quarto de hora, um passaroco esquisito, a porta abre-se de
estalo mas não surge bicho algum, deve estar encravado lá dentro, entalado
nessas peças complicadas que os relógios têm, sente-se o esforço do animal
mas nem o bico se vê, vê-se uma mola solta que abana, o que parece uma
roda dentada que não consegue libertar-se de outra roda dentada mais
pequena, é preciso abrir aquilo mas o que se faz depois, aliás o cuco nem
parece um animalzinho, é um horror que não faz vênias na porta
escancarada, a minha mãe para o meu pai
— Não mexas nisso que com essas patorras que Deus te deu ainda o
estragas mais nunca vi ninguém tão desajeitado na vida
e o meu pai a estudar as patorras perguntando-se em silêncio
— O que terão elas de mal?
satisfeito com o adesivo do farmacêutico enquanto os pretos acabavam de
encher a camioneta de fardos
— Já não me dói quase nada
desiludido que ninguém lhe perguntasse
— Magoaste-te?
e depois o emprego na serralharia, e depois o emprego num armazém, e
depois falaram-lhe de Angola
— Os pretos trabalham a gente enriquece e além disso há as pretas já
provaste uma preta?
ele que nunca provou nenhuma preta porque cheiram mal, são esquisitas,
repara na maneira de andar, repara na carapinha, só a ideia de tocar naquele
arame todo que têm na cabeça assusta, e depois a cor das unhas, a língua de
vogais e o horror dos pés enormes, o meu pai cada vez mais alheado do
algodão, distraído dos chefes de posto que lhe propunham mão de obra
barata do Huambo e da Huíla, dia após dia sem sair da varanda da casa a
olhar as mangueiras ou sentado lá em cima, no quarto da minha mãe, a
conversar sozinho porque ninguém lhe respondia nem sequer ele mesmo ou
os morcegos que não gritavam já, procurando ratos no capim, percebendo
sons que não havia com as orelhas enormes, o meu pai a olhar os frascos de
perfume, os pentes, os cremes, os vestidos no armário, mais pálidos, mais
antiquados, mais gastos, que um fantasma de que retinha uma presença cada
vez mais vaga usava sem lhe dar atenção nem conversar com ele, se a
chamava pelo nome silêncio, se a procurava no banco do toucador ninguém,
se imaginava descobri-la na cama um odor de ausência no lençol deserto,
buscava-a sem a encontrar no cinema, no café, na rua das putas onde agora
só sargentos e soldados numa folga da guerra aos quais o mulato apontava
postigos fechados
— Vai ter de esperar meia hora amigo tem pelo menos três colegas à
frente
aguardando que uma porta se abrisse e um militar a mover-se com
desgosto numa penumbra acanhada pensando
— Já me tinha esquecido que afinal é só isto
e de fato era só aquilo, um corpo de pessoa sem pessoa dentro que o não
olhava nem fazia perguntas, coçava o cotovelo ou o ombro, desinteressada,
ausente
— Já podes levantar-te miúda
enforcando-se na roupa
— O que é a vida senhores
de maneira que a Domingas me trouxe
— Vamos embora menina
para esta margem do Tejo onde não conhecíamos ninguém salvo a
senhora da casa ao lado
— África é muito diferente não é?
francamente não sei, a gente vai esquecendo, compreende, ainda me
lembro dos mandris, ainda me lembro da chuva, ainda me lembro dos
relâmpagos ao longe, na Chiquita, árvores cheias de braços de luz que
apareciam e desapareciam, a minha mãe para um homem qualquer
— Vamos embora daqui
se calhar outro bela da Cotonang ou um judeu dos diamantes, com um
óculo de relojoeiro engastado na órbita, a separar pedacinhos de vidro,
retirados da areia do Cuango, com uma haste cromada, ao tirar o óculo
ficava uma rodela vermelha na cara, quando a rodela desaparecia outra cara
no lugar da sua, sem feições, deserta
— Isto não vale nada
se por acaso, em lugar dos diamantes, abrisse a gaveta da cômoda onde
os meus pais guardavam o que sobrava da minha irmã, brinquedos, uma
caixinha de plástico com uma medalha de batismo e um fio, um hipopótamo
de feltro, pestanudo, botas de criança que ela nunca usou, um babete com
uma rã de suspensórios impressa a saltar ao eixo por cima de um portão, um
frasco de pó de talco, o judeu para nós, subindo a lente para a testa e
tornando-se unicórnio, a afastar as palmas condoído
— Isto não vale nada
na cave de uma casa com rosas a contarem-se a si mesmas lá fora,
dezoito, dezanove, vinte, não fazem outra coisa as flores, são egoístas, só
pensam em si, o meu pai de tempos a tempos abria a gaveta curvado para
diante, quase de joelhos no chão
— Filha
a murmurar segredos, quem sabe se na rua das putas ele não para uma
mulher
— Filha
da mesma forma que o fazendeiro velho para mim
— Filha
quando o meu pai nos mandou por causa da guerra, à Domingas e a mim,
para a outra margem do mar, quer dizer esta casa sobre as ondas na qual
morou com a madrinha quando o pai faleceu e a mãe o visitou uma ou duas
ocasiões acompanhada por um senhor que se interessava por ela,
conversando com a Domingas, isto é um
— Bom dia
distraído quase sem a olhar, desgostada da casa, desgostada dos
caranguejos, desgostada de nós, o senhor que se interessava por ela
apontando-me o queixo
— Não se parece contigo
a minha mãe com uma lágrima a procurar-lhe um lugar na cara sem o
encontrar e portanto lágrima alguma
— Parecia-se a outra
na expressão com que costumava pentear-se ao espelho no quarto lá em
cima do Cassanje, atenta à própria imagem sem me ver, deu-me sempre a
ideia de nunca me ter visto como não via o meu pai nem a Domingas, via o
preto da espingarda e chamava-o
(o mar nesta margem mais sentido que ouvido)
num gesto
— Anda cá
enquanto o meu pai, de súbito preto também, a olhava calado, de mãos
nos bolsos até aos ombros e os morcegos a gritarem de súbito junto ao
portão, lembro-me de um deles, não estou a inventar, com uma cria de rato,
mentira, estou a inventar, apetece-me inventar, nas unhas, por exemplo a
presença do preto ali inventei-a agora e por isso é autêntica, um caranguejo
quase a alcançar-nos, a janela do quarto lá em cima fechada, a Domingas
para mim
— Acho que se engana menina não entrou lá ninguém
exceto o vento do equinócio, olha o vento, olha o vento, o preto a
entregar a espingarda ao meu pai quando pararam o jipe na lavra a fim de
examinarem melhor o algodão
— Não me mata senhor?
enquanto o helicóptero da Cotonang, com o desinfetante, lhes girava por
cima, o meu pai a olhar a espingarda, a olhar o helicóptero, a olhar para ele
— Quanto vale uma puta?
a entregar-lhe a espingarda
— Achas que uma puta vale mais do que um homem?
enfiadas no quarto do mulato que lhes entregava um tacho à janela
— Daqui a dez minutos venho buscar a marmita
o meu pai a encaixar uma bala na arma e a puxar a culatra
— Achas que uma puta vale mais do que um homem mesmo que o
homem um preto como tu?
a verificar a bala na câmara
— é só isso que vales?
e o preto a mirá-lo em silêncio, os calções dele os antigos do meu pai, as
botas as botas velhas do meu pai, a camisa, ainda com nódoas do sangue do
belga, as costelas a diminuírem e a crescerem, não aflitas, serenas, a
respiração dele tranquila
— Patrão
a receber a espingarda
— Patrão
a voltá-la para si mesmo
— Patrão
a tirar a folga do gatilho
— Patrão
o meu pai a ordenar-lhe
— Vamos voltar para casa
o meu pai
— É preciso descer muito para ser amigo de um preto
o meu pai
— O problema é que não tenho mais ninguém percebes?
a abrir a porta do quarto lá em cima a seguir ao jantar e informando a
minha mãe de costas para ele a pentear-se à janela
— Hoje durmo contigo
e a minha mãe de pente suspenso, calada, a olhá-lo no espelho, o
toucador cor-de-rosa, a roupa cor-de-rosa, o banco cor-de-rosa, o perfume
cor-de-rosa igualmente, o meu pai sentado na cama a despir-se sem pressa,
sujando o tapete, os lençóis, a cortina com a lama das botas, limpando as
mãos e a cara na colcha, jogando o que trazia vestido ao acaso no chão,
secando-se na toalha, sem se ter lavado, consciente de cheirar a estrume e a
lavra, a marufo, ao suor e à umidade de África, de cheirar ao rastro dos
mandris no capim e a mabecos e palancas, a limpar a boca com o naperon
da mesita dos perfumes, derrubando bisnagas e frascos, a minha mãe tentou
dizer não sei quê e ele a calá-la
— Sua cabra
não a gritar, num sopro que todavia ecoou em Malanje, a pegar-lhe no
braço e a jogá-la sobre o colchão com um
— Sua cabra
que se calhar chegou a, o som do mar aqui mais sentido que ouvido,
chegou a Luanda onde as traineiras saíam para a pesca com os seus motores
difíceis tossindo brônquios e óleo, as ondas também mais sentidas que
vistas, semelhantes a um pulmão enorme subitamente pequeno, tudo mais
sentido que visto afinal como a nossa própria morte, afastamo-nos perdendo
partes do que somos sem saber onde, o preto da espingarda
— O único amigo que tenho eu que não tenho ninguém
lá em baixo à minha espera junto ao poste do macaco com o bicho no
topo a olhá-lo, preso pelo tornozelo a uma corrente de argolas que
tilintavam como pulseiras antigas, um macaco já idoso, quase sem pelo o
pobre, que ora subia ora descia, soprando, tossindo, de sobrancelhas
grisalhas na testa cinzenta e o primeiro morcego a surgir da sua mangueira,
ou seja uma espécie de pano rasgado que se abria e fechava sem tocar nos
troncos numa pressa oblíqua, olhos cegos, vermelhos, guiando-se pela
reverberação dos sons, o meu pai para a minha mãe, num ângulo de colchão
a lutar com os atacadores, o meu pai para a minha mãe, igual ao mar, mais
sentido que visto porque as ondas vibram dentro de nós também
— Quero-te deitada na cama que não tenho a vida toda para esperar por ti
lembrado do que sobrava na gaveta da minha mãe, uma blusinha verde,
uma boneca sem o braço esquerdo, uma medalhita de batismo num estojo
fechado, um babete com um canguru, por que carga de água os bichos das
crianças sempre risonhos meu Deus, um bombom por encetar com a sua
prata doirada
— Eu disse de uma vez por todas que te queria deitada na cama
o meu pai na rua das putas para a minha mãe, mantendo as meias
calçadas
— Sei lá quantos tropas andaram por aqui hoje neste chão
empurrando-lhe a testa contra a almofada sem fronha
— Quando eu quiser que te mexas aviso-te
ao mesmo tempo que dúzias e dúzias de caranguejos alcançavam a
nespereira nesta margem do mar e um albatroz, e pedras que ao mesmo
tempo avançavam e fugiam ao ritmo da água, um cesto meio rasgado
prendeu-se na areia, soltou-se, prendeu-se de novo, afastou-se de nós
rodopiando, o meu pai puxou duas ou três notas do bolso e estendeu-as à
minha mãe sem a olhar sequer
— Vou pagar-te adiantado para que tenhas mais alma do que com o preto
o meu pai
— Porque quero que tenhas alma percebes porque quero que me digas
senhor
e cada vez me lembro menos da fazenda, da casa, da outra margem do
mar, lembro-me da chuva, do som mole com que as mangas caíam, da
primeira trovoada a seguir ao cacimbo, do meu pai a estender-se ao seu lado
— Não te mexas agora
de bruços no colchão enquanto a mãe dele
— Não dormes?
eo
— Não dormes?
o meu pai durante todo o tempo de Angola a pensar em Lisboa ou antes
não Lisboa, esta casa onde estou com a Domingas que em criança lhe
parecia grande e afinal tão pequena, quase um quarto apenas, a avó na
hortazinha do quintal a chamá-lo
— Menino
de modo que ele para a minha mãe, imóvel ao seu lado
— Trata-me por menino
a roer lágrimas que não sabia que tinha
— Ainda serei menino?
sem se aperceber que a minha mãe com medo dele
— Vai matar-me como matou o belga
com a mão do meu pai poisada no pescoço
— Tu
um joelho a esmagar-lhe as pernas, a chuva lá fora, a Domingas
— Olha a chuva menina olha a chuva
e a sereia do farol principiando a gritar, há quantos anos não encontrava o
farol, há quantos anos não escutava o avô
— Doem-me os ossos da espinha
dobrado para a braseira com um cobertor nos ombros, a mão a que
faltava o mindinho, o bigode que dava ideia de mastigar se falava e o meu
pai a pensar
— Nunca conversava comigo
o meu pai a pensar
— Quem conversou comigo?
enquanto a nespereira sofria com o vento, os galhos a gemerem, o tronco
que se inclinava cada vez mais para o mar, a minha mãe de olhos fechados
— Vais fazer-me mal tu?
o meu pai com ganas de chamar o preto da espingarda
— Mata-nos
enquanto a caveira do hipopótamo crescia, crescia, enquanto a caveira do
hipopótamo continuava a crescer, o fazendeiro velho para o meu pai a
mostrar-lhe a garrafa
— Mais marufo?
tão longe da outra margem do mar senhores, o que fazemos aqui, flocos
de algodão soltos na colina a subirem, o inspetor da Cotonang
— Muito bem
a bater a palma na coxa
— Muito bem
à medida que os caranguejos se aproximavam um a um da cama dos
meus pais movendo de banda as patas tortas, enormes, com as pinças a
abrirem-se e a fecharem-se sobre os corpos deitados, o meu pai para a
minha mãe antes de se estender sobre ela
— Não me toques
no momento em que o mulato da rua das putas lhe anunciava após duas
pancadas na porta
— Mais cinco minutos e acabou-se amigo que isto não é hotel
e não é hotel de fato, é um lugar para cumprir o serviço como cumpri
com o belga da Cotonang que o meu marido matou antes de me matar a
mim, com o fazendeiro velho, com o preto da espingarda, com um coronel e
um capitão de Malanje, esperava por eles ao espelho a pentear-me, o
coronel para mim
— Tens mesmo a certeza que ninguém dá por nós?
inclinando-se para escutar melhor o silêncio da sala, o silêncio do
corredor, o ramalhar das mangueiras e a ausência de morcegos lá fora
enquanto eu esperava em roupão e a escova me despia e vestia, modelava-
me a cabeça, o pescoço, os ombros, as costas, partindo e regressando ao
comprido do que sou, apesar do roupão eu tão nua, apesar de notá-los sem
os ver nunca, via a lâmpada apagada no teto a baloiçar devagarinho, via a
janela ora a aproximar-se ora a afastar-se, via o retrato da minha filha na
cômoda com uma flor numa jarrinha ao lado, não a que mora na outra
margem do mar com a Domingas, a minha filha a sério, a minha única filha,
a que faleceu aos dois anos mas continua comigo, o coronel para mim
baixinho
— Não deste por tentarem abrir a porta do quarto?
e apesar de eu
— Não te preocupes não é possível não estão mais pessoas cá em casa
claro que sabendo ser ela quem se aproximava da cama porque nós
sempre juntas, desde que a senti pela primeira vez em mim nós duas sempre
juntas e a segunda criança, a que está na outra margem do mar, nunca foi
minha filha, era filha do meu marido somente, o médico a argumentar
comigo
— É mais igual a si que a irmã
insistindo que a cor da pele, os olhos, o sorriso, essas minúcias das
pessoas, tudo sem notarem o meu sangue a gritar, sem entenderem que
mesmo hoje nós unidas, qual de nós lá agora, qual de nós recebe os clientes
do mulato, lhes torna durante um quarto de hora a infelicidade habitável,
palavra, e logo a seguir a sensação de para quê que nos acompanha sempre,
como os olhos dos homens, ao acabarem, ficam tão sozinhos apesar de
ainda dentro de mim, compreendo que terminaram não por se afastarem
visto que continuam exceto os olhos e as feições que partem sozinhas,
apenas compreendemos que sangramos ao perceber que os outros sangram,
no fundo os mortos muito mais acompanhados que a gente dado não
necessitarem de nada, a tal segunda filha na outra margem do mar, diante do
vento na nespereira e dos caranguejos que continuam a aproximar-se sem
chegarem da mesma forma que as ondas não chegam também, vão-se
embora uma a uma no instante em que deveriam tocar-nos de modo que
apesar de estar junto delas não as encontro e portanto as mulheres não têm
outra pessoa a não ser eu que não faço companhia nem a mim mesma, o
meu marido lá fora na varanda num pedido que não quero entender porque
não posso responder-lhe
— Amor
e só posso partir na condição de continuar quieta visto que continuando
quieta ninguém comigo já, a Domingas a chamar a que não é minha filha
— Saia da chuva menina
e nós duas no interior da casa a olharmos lado a lado a terra escura, o céu
escuro, o estalar dos pinheiros, os pássaros molhados que se encolhem nos
troncos, o meu pai na varanda com as flores do algodão, enegrecidas pela
umidade, a vogarem-lhe em torno, o belga da Cotonang para mim
— Posso voltar amanhã?
e eu
— Podes
dado saber que não voltaria porque o meu marido e o preto da espingarda
à sua espera no jipe lá fora, a aproximarem-se dele na estrada que conduzia
ao portão e o primeiro tiro, o segundo, o silêncio depois, qualquer coisa no
olhar dele, qualquer coisa na boca, uma palavra
— Senhores
que se lhe fundia na língua, o preto da espingarda a carregar de novo a
arma e o meu pai
— Não é preciso já
impedindo a culatra de receber outra bala, o meu pai a empurrar o corpo
do belga com a bota
— Chega
e a minha mãe na janela a vê-lo, de pente na mão imóvel de um braço que
descia quase até ao soalho, a minha mãe já vestida, já arranjada, à espera até
que o meu pai se voltou para a janela da casa
(a chuva mais forte nesta margem do mar)
de palma horizontal nas sobrancelhas
(a chuva cada vez mais forte nesta margem do mar)
a dar com a minha mãe nos caixilhos, um dos seus ombros nu porque a
alça da camisa caíra e o peito mais arredondado, maior, a Domingas para
mim
— Não saia lá para fora menina
uma vez que as ondas, o vento, um desses pássaros enormes de uma
árvore qualquer que eu não conhecia, eu com medo do pássaro
— Domingas
quase a encostar-me a ela, a encostar-me a ela, a pedir-lhe que me
protegesse
— Tens mesmo a certeza que ninguém dá por nós?
segura de que nessa noite se sentaria na minha cama até eu adormecer,
afastando as ameaças que me perseguem sempre e a certeza
(quer dizer, o desejo)
que a Domingas me segurasse no pulso até à primeira luz da manhã
— Menina
acordando-me com uma chávena de café com leite e limpando-me a testa
— Continue a dormir que eu não saio daqui.
17
Para quê meter-me num barco de volta à outra margem do mar se já não
conheço lá ninguém, as pessoas da minha família quase todas mortas agora
e aquelas que por acaso continuam vivas não sei onde moram porque depois
de tantos anos é natural que Lisboa diferente, casas e ruas que não faço
ideia como serão, gente nos passeios ou seja desconhecidos que nem
reparam em mim, talvez me lembre ainda de um jardim público, carvalhos,
um pedaço de rua mas logo a seguir uma sucursal de banco nova, um
supermercado com chineses dentro, essa espécie de periquitos mascarados
de pessoas, uma esplanada de estrangeiros de sandálias com demasiados
dedos nos pés, nenhuma cubata, nenhum preto de articulações em sítios
diferentes dos nossos, nenhum trilho em nenhum capim conduzindo a
nenhum rio, o que dá ideia de um parque infantil com velhos em lugar de
crianças entre os baloiços vazios e senhoras com carrinhos de compras
junto a um tanque de patos com mais limos que água, à espera que as
pernas lhes regressem aos chinelos, o que a partir desta idade demora um
bocadinho, a fim de continuarem a andar num esforço empenado, para quê
meter-me num barco se apenas existo aqui no Namibe onde às vezes uns
pretos magríssimos, de olhos vazios, guiam vacas magríssimas, de olhos
vazios também, ao fundo, na areia, a caminho de nada, todos em silêncio
com sapatos enormes de palhaço pobre, a albina
(qual de nós dois é a vaca, qual de nós dois é o preto)
ainda comigo sei lá porquê, nunca me olha nem tocamos de passagem nas
antenas um do outro como as formigas nos carreiros, não falamos sequer,
estamos acolá de cócoras a seguir sempre a mesma onda que nunca se
aproxima desde que chegamos, amarela, quase translúcida, fixa, distraída da
gente, se um de nós morrer aquele que sobra continuará à espera mas de
quê, o meu avô para mim
— O que se passa rapaz?
e não se passa seja o que for, acho que é essa a questão, o que posso eu
aguardar, tenho a certeza que os meus ossos, agora enormes, mais secos que
esta areia, que o tempo imóvel nos relógios salvo em mim que envelheço e
o corpo da albina a modificar-se também, igual às estátuas das princesas a
perderem feições sobre as tampas dos túmulos, de vez em quando pássaros
escanzelados, já sem penas, só pele, cruzando o cacimbo de pescoço
estendido, ninguém me escreve da outra margem do mar porque esta
acabou, o cor-de-rosa de Angola sumiu-se do globo empenado e as cartas
flutuam por aí sem uma gaveta que as recolha, com as saudades todas juntas
numa fitinha roxa, o meu tio na sala abanando a cabeça ao rimo dos
segundos
— Não lhes expliquei logo preto no branco porque falamos de África que
ele era um parvo integral?
apontando-me sem me olhar com o desprezo do dedo e pergunto-me se as
dezassete gaivotas continuarão no telhado do armazém, digam-me que sim
amigos, digam depressa que sim, consolem-me um bocadinho que um
reforço de alma nunca fez mal a ninguém, o meu avô calado, engolindo os
popós do jantar
(- Se faz favor aumente a garagem para não esbarrarmos contra os pilares
da entrada)
de pano de cozinha ao pescoço, mastigando sem fim com os dentes que
faltavam, a boca dele a lamentar-me por um espacito livre
— Infelizmente já não consigo valer-te
puxando espinhas de vogais difíceis com os dedos, a minha mãe a
concordar com o irmão
— Nunca esperei grande coisa desse
o meu pai da trincheira do jornal, protegido por tábuas de notícias
— O problema dele é ser tímido
e os pombos lá fora às voltinhas à tarde, ora cinzentos ora azuis, com o
sino da igreja a implicar-lhes com os nervos, para quê tanta vibração, tanto
eco, convencido que dilatava Deus, um Deus gordo tranquiliza mais as
pessoas e quase nunca se irrita
(- Os homens não são maus coitados)
de modo que o Inferno vazio, que manso este mar do Namibe, vagaroso,
sem cor, tão diferente do Lucala, tão diferente do Cambo, olha um albatroz
a flutuar de costas num oval de espuma que nunca chegará à praia, um
peixe qualquer
(quase não se veem peixes)
há de apanhá-lo esta noite e regressará amanhã sob a forma de penas
dispersas, o meu avô livre do último popó que um empurrão do esôfago
ajudara a engolir
— Esperem que ele cresça e vão ver
numa crença que ainda hoje me comove, obrigadinho senhor, felizmente
para si não viu nada, uma trombose agarrou-lhe no braço e levou-o
enquanto ele protestava
— O que é isto?
primeiro de pijama, depois nu, depois de fatinho completo a protestar
— O que é isto?
até que lhe aparafusaram a tampa de modo que os seus protestos a
borbulharem confusos no que parecia o lodo no fundo dos poços, quem
garante que um dia destes não surge aqui no Namibe e não se acomoda ao
meu lado a espalmar o seu amor nas minhas costas
— Rapaz
e as asas dos íbis, muito altos, a caminho do sul a meio do cacimbo, o
meu avô que às vezes eu não via porque o tempo vai comendo a memória
embora ele me garantisse
— Ainda aqui estou miúdo
numa tosse cada vez mais distante, uma manhã a sua esteira apenas e ele
de novo no cemitério na outra margem do mar, a falar-me pela voz dos
choupos com o ventinho da lua cheia a separar-lhe as palavras e os
gafanhotos, nascidos na África do Sul, só cotovelos e joelhos, em grandes
bandos escuros, dizem que guerra no leste e no norte, os portugueses a
chegarem do cais das dezassete gaivotas que perseguiam os barcos quase
até à foz, se Deus quisesse que eu nascesse em África tinha-me feito preto,
os padres das missões auxiliam os escarumbas, o meu tio para o meu pai
— Porque é que não o mandas voltar?
quando ninguém sabe dele em Malanje, ao governador, por exemplo,
responderam-lhe que parece que o meu sobrinho no sul, talvez no Luena,
talvez na Huíla, talvez no Namibe, um sítio onde quase não mora gente, ou
seja umas dúzias de infelizes escanzelados, noites frias, miséria,
quilômetros e quilômetros de uma espécie de mar amarelado, sujo, às vezes
focas a gritarem na areia com olhos quase líquidos, com barbatanas de
robalo e focinho de cão, a grunhirem uns aos outros arrastando os sacos das
barrigas luzidias na areia, volta e meia navios distantíssimos que não se
apercebem de nós, animais que não conheço à noite, uma espécie de
mabecos, vindos não sei de onde, ameaçando os outros bichos com um
ladrar horrível, o meu tio
— Era isto que tu querias idiota?
e o meu pai sem se atrever a responder-lhe por mim, quando muito
— O meu filho
e silêncio, trabalhou na pesca do bacalhau em solteiro e depois numa
fábrica de tintas até à reforma, a minha irmã, alérgica aos vernizes
— Que cheiro
na cozinha de um restaurante, sempre num halo de fritos, os braços dela
rechonchudos e um defeito num dedo, o que ela suava meu Deus, nódoas
sob os braços, no peito, nas costas, casou com um alemão e nunca mais a vi,
o meu avô, de queixo em mim
— Este miúdo vai longe
e olhe, acertou, eis-me aqui no Namibe com uma albina que comprei ao
pai dela, por conseguinte não foge e no entanto a certeza que desde o
princípio nunca olhou para mim, há alturas em que parece que me espia
quando estou distraído mas se me volto para ela não lhe encontro as feições,
quase sempre de costas a espreitar o mar sem o ver, não se preocupa com as
moscas que lhe poisam na pele, nunca lhe vi um sorriso, nunca a ouvi
chorar, se ela morresse eu, se ela morresse acho que não me fazia diferença,
enterrava-a no areal e vinha sentar-me de novo no degrau da casa, talvez lhe
sentisse a falta do corpo quando o meu o pedia mas quase nunca pedia, há
anos tive a impressão que grávida, depois vi-a acocorada a mexer em si
mesma, depois vi restos de sangue e o corpo dela a tremer, foi na altura em
que tremia que me deu a sensação de fitar-me, tive a certeza que me fitava
numa expressão oca, depois abriu uma cova e meteu lá uns panos sujos de
vermelho ou assim, tapou tudo e afastou-se, ora aí está Angola cor-de-rosa
nos sonhos, ora aí está uma vida feliz, ora aí está África, se Deus quisesse
que fôssemos pretos tinha-nos feito pretos e não é necessário pensar muito
para lhe dar razão, tio, em vez disso pôs-nos em Portugal a comer galinhas
e couves, um caldito de cristas, um caldito de miúdos, uns talos com água e
azeite e uma velha a puxar crianças do interior de uma mulher estendida
que se queixa baixinho, quer dizer um gemidito, um sopro e
— Estou bem
quando não lhe perguntavam nada, de sobrancelhas junto à raiz do cabelo
e a suar sem fim, os homens cá fora à espera com uma garrafa de vinho
escorrendo pescoço abaixo porque as tremuras da boca, porque a garganta
com tosse em lugar de engolir, porque se sentavam no chão amparados a
troncos, sem pensarem, calados, e depois as mãos deles, subitamente doces,
tocando de leve uma cabeça torta que às vezes, devagarinho, principiava a
existir, dedos minúsculos, fechados, feições amarrotadas, o que parecia um
pedaço de tripa que uma tesoura cortava entre dois nós de um cordel, a
placenta atirada a um par de cães que a disputava sem fim, o meu avô, então
novo, a vomitar de joelhos amparado a um muro, uma velha que mandava
em toda a gente a lavar-nos num alguidar e a embrulhar-nos numa fronha,
uma espécie de choro feito de gemidos difíceis
— Está toda aberta ela como é que isto se fecha
e os olhos cerrados, os dentes enormes, os tornozelos a esfregarem-se um
no outro descalçando as socas, felizmente é homem, infelizmente é mulher
e as mulheres tão pouco limpas sempre, o corpo aberto todos os meses e
líquidos escarlates e membranas e dores e
— Ai eu
e quatro ou cinco dias afastadas da gente a esconderem pedaços de toalha
velha na terra, e as caras tão pálidas incapazes de falar, um suspirozito
apenas
— Estou cansada
e as pernas sem energia, e olhos fechados, e uma cara contra a parede a
bufar, e depois a febre, e depois
— Vou morrer
não a queixarem-se. a despedirem-se somente
— Vou morrer
a cadela no quintal a lamber os filhos um a um, por que carga de água as
mulheres não lambem os seus igualmente, lambam-lhes a cabeça, a cara, o
peito, a barriga, as pernas, o cordão do umbigo que escurece, escurece
quando ele cai finalmente, quase negro, tão feio, atira-se para um canto do
quintal e os cães a morderem-se de fome, as mulheres mais velhas a
olharem a criança
— Isto falece muito não é?
e falece muito de fato, tanto sofrimento para falecer muito, os homens
fumando encostados ao muro, um deles a vomitar nos próprios pés
cambaleando ao acaso, o enfermeiro da vila
— É assim que Deus quer
que nos tratava os molares com aguardente e um alicate, às vezes uma
martelada atrás da orelha que faz esquecer o queixal, a albina deve ter
nascido cheia de velhas em torno como sempre com os pretos e um galo
sem coração a escorrer-lhe por cima, tudo fechado numa cubata, tudo à
espera a cantar, em Portugal silêncio e
— Não chores
e
— Cala-te
e sopas de leite, e côdeas, e pedacinhos de frango, e
— Come senão morres
— Tens de comer senão morres
e puré de castanhas que dá força a um defunto e o enfermeiro
— Querem matá-lo não é?
Namibe, Namibe, o que me vem à cabeça aqui no Namibe, no meio da
areia e do silêncio e do mar invisível, à nossa frente não água, um vazio
sem fim que apenas as migrações de gansos e os patos do Cunene, muito
alto, interrompem, não contando as vacas magríssimas que procuram ervas
nas dunas e os mabecos que desceram do interior de Benguela cheios de
fome e maldade, as orelhas agudas, os focinhos agudos, os corpos agudos,
os latidos que doem, o meu avô a apontar-me
— Quando este rapaz for homem a vida muda em Portugal
mas infelizmente viajou para África e esqueceu-se de nós, o que fará ele
por lá, houve a revolta do algodão, houve António Mariano, houve aqueles
pretos do sul do Congo, baixinhos, cabeçudos, cruéis, houve o napalm no
Cassanje, houve a matança, houve os padres da missão no cemitério lá
deles, com as cruzes espetadas não na terra, nos peitos que um tijolo
martelou, houve as sanzalas a arderem, houve as cabras degoladas, houve
os cabíris sem pernas e depois os guerrilheiros a cercarem o Huambo, e
depois os guerrilheiros nos penhascos do norte, Damba, Quibele, Bimbe, as
dezassete gaivotas à minha espera na outra margem do mar, odiando-me,
odiando-me
— Desapareceste daqui
que lhes percebo a zanga, os gritos, o meu tio para a minha mãe
— O parvo do teu filho
o meu tio para a minha mãe
— Que rebente em África esse não faz falta nenhuma
e realmente não faz falta nenhuma, o avô dele enganou-se, pensando
melhor não se enganou só com ele, enganou-se em quase tudo, olha a vida
que teve, podia haver-me posto a estudar e não pôs, podia ganhar dinheiro e
não ganhou, podia dar-nos outro conforto, o idiota do neto, que lhe herdou
as qualidades, corrido do Cassanje para o Namibe, no outro lado do mundo,
onde as pessoas morrem de solidão e fome, a albina um olhar de
— O que é que eu faço?
para mim, procurando grilos na areia como se houvesse grilos aqui, como
se houvesse esses vermes que os pretos fritam no Cassanje e que só de vê-
los, menos que isso, só de imaginar vê-los me dá volta às tripas, se eu cavar
um bocadinho a areia com as mãos, por exemplo, encontro logo ossos
antigos, devem trazer os velhos e os animais que não servem, cabras,
cachorros, para morrerem aqui, a albina e eu neste cemitério com palmeiras
ao longe, sacudindo os braços no vento que não há, a albina debaixo de
mim sem uma carícia, um som, quem serei eu para ela, o que pensa da
minha pessoa, o que imagina de nós, nunca uma preta um som comigo,
inertes, caladas, nunca um braço a rodear-me os ombros, nunca um cotovelo
esquecido nas minhas costas sequer, a mesma coisa com os filhos que
carregam às costas sem se interessarem por eles, nenhuma atenção, nenhum
gesto quanto mais uma carícia ou um beijo, durante a revolta do algodão vi
a tropa assaltar um quimbo, disparar sobre o povo, incendiar as cubatas sem
que ninguém se preocupasse com eles, olhavam-nos de pé, não se movendo,
e caíam um a um, sozinhos sem ameaças nem gritos nem lágrimas, não
sabem o que é a morte, vão desaparecendo da nossa vida sem pensarem em
nada enquanto as chamas lhes consomem a liamba e as lavras, como posso
falecer em África desconhecendo se estou vivo, os homens para mim
— Muata
esperando qualquer coisa que ignoro o que seja, o que significa
— Muata
o que querem dizer com
— Muata
o que pretendem de mim, sou uma criatura que está ali apenas, dá-me
ideia que sem lhes dizer respeito, um branco que veio do mar, não sabem de
onde, os obriga ao trabalho e lhes oferece uma aguardente mais forte que o
marufo e malas de peixe melhores que a fuba enquanto os tambores
continuam a bater não se calando nunca, não fazem perguntas nem
respondem às nossas, sentados em círculo no chão à espera de nada, isto
tardes a fio dado que o tempo não existe, acocorados à chuva que não lhes
diz respeito como não lhes diz respeito o cacimbo, o que significa estar vivo
se os mortos iguais, são os mandris que se preocupam com as crias
defuntas, não nós, até as entregarem à gula dos mabecos, lutando uns com
os outros sobre um cadáver desfeito do mesmo modo que atacam as pacaças
escondidas no capim, o meu tio
— Não são gente
enquanto António Mariano vai cantando, cantando, à frente dos
discípulos de túnica, os belgas da Cotonang para a tropa
— Matem-nos depressa
e as flores a arderem nas plantações destruídas, com que sonhará a albina,
o que deseja, o que pensa, o que sinto por ela, por qual motivo não a mando
embora e não fico sozinho a olhar as ondas ao longe, o governador de
Malanje mandou uma carta a chamar-me de volta, se calhar a secretária
convenceu-o a tentar contratar-me de novo porque pouca gente nas chefias
de posto, porque quase ninguém fora da cidade, porque a desordem da
guerra, porque os jingas se levantaram contra nós igualmente e nem uma
fazenda sobeja no Cassanje a não ser aquelas, quase sem brancos, que a
tropa protege junto ao rio, os feridos a mancarem no pátio do hospital em
Luanda, algumas mulheres ainda com os oficiais na messe, a esposa do
general sempre a conversar a um canto com a esposa do coronel,
comparando os anéis e os brincos uma da outra entre cochichos e risos, às
vezes a mão de uma delas na mão da amiga após um olhar em torno, um
segundo olhar em torno depois das mãos se afastarem, a esposa do general
acenando dois dedos e o general a sorrir-lhe, a esposa do coronel a fingir-se
amada
— Adoras fazer-me ciúmes não é?
a esposa do general a roçar-lhe a testa com a testa
— Como se tivesses razão para ciúmes pateta
e ambas a olharem-se de novo, agora caladas, de bocas em biquinho
numa espécie de beijo no ar, porque não ir a Malanje, porquê ir a Malanje,
já me habituei ao Namibe conforme penso que os mortos se habituam à
noite, há séculos que não escuto o meu avô
— Rapaz
e o meu tio sem entender
— O que é que o velho viu nele?
com cada vez menos popós a entrarem-lhe na boca porque o apetite
desapareceu, ele mais fraco, mais magro, com uma voz diferente, aliás de
vez em quando dava respostas confusas, parecia não nos reconhecer
— Tu és qual?
ou
— Tens a certeza que moras comigo?
de sobrancelhas a subirem e uma prega na testa, interrogativo, a
estranhar, a acomodar-se melhor na cadeira
— Estou cansado
e a esquecer-nos durante horas, de olhos fechados e boca aberta, de súbito
tão longe de nós, o meu avô
— Clara
para a minha mãe que não se chamava Clara, dobrada para ele de
pálpebras a tremerem
— Até o meu nome esqueceu
dava-me ideia que se calhar uma lágrima mas provavelmente engano-me,
deve ser o candeeiro à noite a inventar reflexos, o meu avô de súbito, já me
habituara ao Namibe, a tentar levantar-se
— Quero ir-me embora daqui
sem conseguir apoio nos braços da cadeira nem que as pernas lhe
obedecessem coitado, os olhos a procurarem em torno
— O meu neto?
eo
— O meu neto?
a tropeçar em si mesmo, ansioso, confuso, uma das mãos a encontrar um
copo meio vazio na mesita ao seu lado
— O que é isto?
enquanto a água tombava na manta dos joelhos e o meu avô
— Mijei-me
em busca de si mesmo no interior das calças, sem se encontrar, a minha
avó
— E agora?
enquanto uma manada de vacas caminha junto ao mar, com um preto
quase nu, de aguilhão, atrás delas e um vitelo de focinho quase colado à
traseira da mãe, devem ir para o Virei, devem ir para Tômbua, devem
passar o Cunene a caminho da Namíbia, sanzalas do outro lado da planície,
o que parecia uma fábrica, o que parecia uma igreja, há alturas em que me
acontece pensar que estou de volta a Lisboa, capelas a dar com um pau,
cabeleireiros, cafés, estrangeiras numa esplanada, de chapéu de palha, feias,
com fedelhos do liceu a sorrirem-lhes de longe, o meu tio a empurrar os
ombros do meu avô contra as costas da cadeira
— Deixe-se de ideias senhor onde pensa que vai?
o meu avô não o reconhecendo
— Tragam-me aqui o meu neto
sem que eu entrasse na sala e podia entrar, palavra, sobem-se dois
andares com um carrinho de bebé atravancando o patamar do primeiro,
raios partam as criancinhas todas do mundo, depois toca-se na campainha
do esquerdo, depois diz-se
— Sou eu
e o bengaleiro logo à entrada, cheio de frutos de gabardinas, de mangas
enfiadas para dentro, penduradas dos ramos, o calendário de um março
muito antigo com uma argola em cima, suspensa de um prego, a
empalidecer na parede, depois um corredor com duas portas de maçanetas
inseguras, de loiça, com camas por fazer lá dentro, depois a sala onde a
minha avó apontava o meu avô ao meu tio
— Já está liru não é?
enquanto as vacas do Namibe continuavam a avançar as papadas a
tremerem, mastigando o capinzito da véspera que chamavam do estômago
(coisas de bicho)
o meu tio a espreitar sob a manta nos joelhos do meu avô
— Mijou-se o caraças esteja quietinho senhor
com o meu avô a tentar distingui-lo sem conseguir distingui-lo
— Mário
a minha avó a compor-lhe o colarinho
— Confundiu-te com o irmão coitado
o meu tio de lábios, que esquisito, numa vibração comovida, olha tem
emoções aquele
— Dizer que ele está liru é um elogio que lhe faço está liruzíssimo
comigo a hesitar vou à Baixa do Cassanje não vou à Baixa do Cassanje, a
pensar na albina no café, sentada descalça nos degraus de madeira frente ao
mar, nunca soube a tua idade, nunca soube quem és, nunca existiu uma
palavra entre nós exceto as ordens que te dava, aliás a maioria por gestos,
conheço-te tanto quanto se conhece uma preta, dormias de olhos abertos
porque secavam por dentro, às vezes na esteira, a meio da noite, sentia a tua
mão no meu braço tu que nunca me tocavas quando eu acordado do mesmo
modo que nunca assisti a um sorriso nem escutei uma palavra, como eras
albina não fazias sombra na areia e distinguia-te mal no escuro derivado às
nódoas da lua, às vezes dava pelos teus pés descalços a ciciarem na madeira
do chão e encontrava-te cá fora a assistir às ondas à noite, isto é sempre a
mesma onda que não chegava nunca, se detinha, hesitava, ia aumentando
outra vez enquanto me perguntava se o mar existe de fato, quem me garante
que em lugar dele, em vez de água, não mais areia ainda e mais areia depois
e depois depois até à outra margem, tão longe, onde o meu avô, apesar dos
óculos pendentes de um cordel ao pescoço a conhecer-me
— Rapaz
porque os pobres de espírito se farejam entre si, até o meu tio,
surpreendido
— Olha são compinchas
de modo que talvez um dia destes, quando menos espere, me apareça
aqui no Namibe, de pijama, chinelos e guardanapo de quando eu era
pequeno, com dois cangurus a jogarem boxe, amarrado ao pescoço, sempre
garantiu que eu ia longe e mais longe não existe, isto é o fim do mundo, se
continuarmos areia fora a certa altura caímos no nada de um espaço sem
limites, o médico para a minha avó, a enrolar o estetoscópio
— A vida está cheia de surpresas minha senhora primeiro espera-se que o
seu marido volte do Namibe que às vezes as viagens animam as pessoas e
depois vamos ver
e portanto o meu avô e eu aqui uns tempos, distraídos com as ondas, de
longe em longe um pássaro de asas desfraldadas e ao chamar-lhe a atenção
— Senhor
o meu avô já não estava, nem a minha avó, nem o médico nem o meu tio
sequer, a albina e eu sozinhos como sempre desde o falecimento do
mestiço, aposto que um dia destes, ao acordar, já não estás tu também,
Angola cor-de-rosa no globo amolgado, quem me mandou acreditar em ti,
se fosse preto arranjava uma vaca magríssima e partia com ela nem imagina
Deus para onde porque Angola não acaba, lá estão os discípulos de António
Mariano a cantar, as cabras, o rio dos leprosos a caminharem de gatas entre
duas palhotas, com os mabecos no capim à espera, o comerciante cafuzo
que me vendia os caricocos e as malas de peixe, a mulher dele, gordíssima,
caminhando passo a passo em estrondos de escafandrista, como as solas
ecoam, de botijas de oxigênio no interior do peito, soltando dúzias de
bolhinhas pelo funil da boca, os crocodilos a deslizarem para a água num
vagar oleoso e pássaros pequenos bicando-lhes as escamas no cuidado das
unhas que espremem borbulhas, a namorada que deixei em Lisboa cuidando
que eu a ouvia
— Julgas que sou feliz?
diluindo a saudade num sorriso difícil, tudo por causa de um globo
amolgado, de lata, na prateleira da sala e o meu avô
— Olha o mundo garoto
que por coincidência, apesar de não haver muito espaço, cabia todo lá em
casa, o chapéu no bengaleiro da entrada que as orelhas impediam de me
chegar ao umbigo, os pombos da igreja, um quarteirão abaixo, às voltas
porque os sinos assustam, mudando de cinzento para azul ao descreverem a
curva, de asas todas diferentes a baterem sem fim, as passearem no chão
tornam-se idênticas a porteiros de hotel, de braços atrás das costas e peito
saído, chamando táxis para os hóspedes numa autoridade severa, de cabeças
para trás e para a frente a darem corda às patas, para quê, de fato, meter-me
num barco de regresso à outra margem do mar se já não devo conhecer
ninguém lá, as pessoas da minha família quase todas mortas e aquelas que
por acaso continuam vivas não faço ideia onde moram porque depois de
tantos anos é provável que Lisboa diferente, prédios e ruas que não imagino
onde serão, criaturas que não reparam em mim
(que motivo haveria para repararem em mim?)
talvez me recorde ainda de um jardim público ou assim
(o dos Correios, por exemplo)
um pedaço de beco e eu contente, isto conheço mas logo a seguir uma
sucursal de banco nova, um supermercado com filipinos lá dentro, uma
espécie de periquitos mascarados de pessoas, pequenos, risonhos, a
avisarem enquanto deslizam
— Não entende não entende
uma esplanada de ingleses com demasiados dedos nos pés, treze, dezoito,
vinte e nove, nenhum quimbo, nenhuma cubata, nenhum trilho em nenhum
capim conduzindo a um rio, o que dá ideia de um parque infantil, de
homens em lugar de crianças, jogando às cartas entre baloiços vazios,
senhoras com carrinhos de compras de rodas empenadas junto a um tanque
de patos sujos com mais lodo que água e o ponto de interrogação de um
único cisne a perguntar-nos
— Porquê?
as senhoras à espera que os pés lhes regressem aos chinelos, o que a
partir de certa idade demora um bocadinho a fim de continuarem a andar
num esforço empenado, para quê meter-me num barco se apenas existo aqui
no Namibe onde de quando em quando uns pretos de olhos vazios,
conduzindo vacas de olhos vazios também, lá em baixo na areia, junto à
linha do mar, caminhando em silêncio na direção de nada porque no
Namibe nada, em Angola nada, em Portugal nada, na minha vida nada, a
albina
(qual de nós é a vaca, qual de nós é o preto?)
ainda comigo sei lá porquê, indiferente, tenaz, não nos falamos claro,
estamos ali de cócoras, eu no segundo degrau e tu no degrau abaixo, vendo
sempre a mesma onda que não se aproxima da gente, mansa, fixa, distraída
de ambos visto que não existimos, reduzidos a sombras sem uma palavra,
um contorno, um gesto, apesar do meu avô, coitado, a insistir
— Rapaz
procurando o ombro que não tenho a fim de poisar nele a palma da sua
ternura
— Rapaz
a informar as pessoas na sala
— Vocês não sonham as coisas que o miúdo vai fazer na vida
tão orgulhoso de mim, tão feliz, tão seguro
— Esperem só uns anitos
e afinal eu inútil, de cócoras, a pensar
— Vou-me embora
a pensar
— vou-me embora caso a albina se vá embora
enquanto ela se levanta sem me olhar como sempre, sem querer saber de
mim, já esquecida, sinto-lhe os passos rápidos na varanda do café que se
aproximam, se afastam, deixo de escutar e, quando julgo que os perdi para
sempre, pela primeira vez as suas mãos na minha cara, o seu nariz contra o
meu, o cheiro da sua pele na minha e os seus olhos pálidos que me fixam
enquanto a boca tão próxima, quem acredita nisto, a articular
— Amor.
18
Quando ao chegar a casa contei à minha mulher o que o general disse ela
continuou no sofá a ler, como se não tivesse ouvido, uma revista de
divórcios de atrizes e princesas de que havia sempre uma pilha na mesa de
apoio, e só depois percebi que se desinteressara dos divórcios porque os
olhos a pouco e pouco vazios, a seguir foi-se tornando cada vez mais pálida,
a seguir as mãos principiaram a tremer, a seguir fitou-me de baixo para
cima dando ideia que resolvida a matar-me, a seguir participou em voz
lenta, não com a boca, os incisivos apenas, enquanto um dos joelhos
vibrava
— Não penses que saio daqui
a seguir fitou-me de novo a odiar-me, com uma espumazinha em cada
canto da boca, a seguir arredondou-se num palavrão que nem sonhava que
ela conhecesse, comigo a perguntar-me em que raio de sítio o havia
escutado, se calhar escapou-se-me da garganta, sei lá, num dos raros
momentos em que a gente na cama etc, não só raros, curtos dado que ao fim
de dez segundos pronto, decidia
— Acabou-se a papa doce
e sumia-se no quarto de banho em lavagens intermináveis, murmurando
não sei quê que a torneira me impedia de entender, antes de voltar a deitar-
se, de costas para mim, na pontinha do colchão, proibindo-me de lhe tocar
com um
— Não vês que estou cheia de sono?
definitivo, no que respeita ao palavrão presumo que o roubei dias antes a
uma pequena da rua das putas que não costumava frequentar porém claro
que de vez em quando uma criatura vê-se atacada por necessidades súbitas,
somos humanos não é verdade, passam-nos coisas esquisitas pela cabeça,
impulsos difíceis de amansar, desejos mais de colo que outra coisa, há
sempre uma parte nossa que não cresce, compreende-se, desculpa-se, é a
natureza a mandar e que imprevisível ela é, o que podemos fazer salvo
satisfazê-la, é como a gana de carimbar seja o que for mal aparece um
carimbo a jeito, há os que preferem agrafar e os que não resistem a cortar
papel pela linha picotada, comigo são os carimbos, é a vida, a pequena da
rua das putas deve ter pensado que o palavrão diminuía a demora e em geral
é verdade, estimula os ímpetos, dilata a alma e portanto, com a ajuda de um
— Aguenta
diminui o tempo para alívio das duas partes, depois seca-se o espírito
numa toalha, endireita-se a gravata e andor, quem não conhece estas
insignificante regras da existência, ao meu pai por exemplo, comigo já
deitado e quase a dormir foi
— Caramba
e de imediato cessaram os estalos da enxerga, aliás discretos porque a
minha mãe
— Atenção ao miúdo
num soprozinho que se me afigurava enorme de tão vago dado que
quanto mais baixo mais a gente toma atenção e no dia seguinte, ao aquecer-
me o leite do pequeno-almoço, os olhos dela inquietos, sem acharem os
meus de propósito, e um suplemento de compota, enquanto o meu pai bem
disposto, olha olha, beliscando-me a bochecha ao sair para o escritório
— Maroto
num passo de dança, o que era raro nele, e de cabelo mais solto que o
costume, mais uma vez um
— Caramba
satisfeito, acerca de qualquer coisa que devia ter sido especial visto que
deu direito a uma palmada no rabo da minha mãe e um
— Fernando
cheio de censura que o meu pai atenuou logo dirigindo-se a mim num
— Brincadeiras
desembaraçado e um chupa-chupa no guardanapo ao jantar, disparando a
crítica da minha mãe
— Enquanto não lhe estragares os dentes não descansas
ela que ainda não esquecera a palmada porque de quando em quando
passava dedos avaliadores nos estragos da nádega, preocupada, mas
voltando à vaca fria quando contei à minha mulher o que o general disse
compreendi até certo ponto a reação dela porque Malanje apesar de tudo
visível, com mais brancos do que eu imaginava derivado aos diamantes e ao
algodão, mas de cada vez que mostrava os calhauzinhos que trouxera dos
pretos ao negociante judeu, de tubo de relojoeiro enfiado no olho a imprimir
um círculo escarlate na órbita que desaparecia a pouco e pouco deixando-
lhe as feições embaraçosamente nuas e levando consigo a minha esperança
de enriquecer depressa, isto na cave da vivendinha onde ele morava, cheia
de frascos de reagentes, pipetas e instrumentos metálicos, o judeu de lente
na testa, tornado unicórnio, a empurrar na minha direção, com o desprezo
da pinça, os meus pedacitos transparentes
— Isto é tudo vidro de tampa de galheteiro não vale nada amigo
não senhor coronel, amigo e eu com ganas de lhe torcer o pescoço de
assassino de Cristo ao mesmo tempo que ele deitava um pingo de não sei
quê nas minhas esperanças reluzentes tornando-as uma espécie de
fragmentos de carvão que se dissolviam sem glória, como sempre aconteceu
com todas as minhas ilusões desde que nasci, a existência em geral, pelo
menos a minha, tem sido um rosário de desencantos e calamidades desde
que deixei
— Seu maroto
a casa dos meus pais, o Exército, o casamento, a úlcera do duodeno que
me transforma a barriga num suplício de guinadas e proíbe os temperos,
reduzindo a existência a prazeres insonsos, com a minha mulher a insistir ao
princípio
— Só mais um bocadinho
antes de se afastar de mim, enchendo-se de refogados enquanto eu um
pobre peixinho cozido, sempre de órbita alerta, fitando-nos um ao outro, ele
no prato, cercado de legumes cozidos, e eu planando-lhe por cima, ambos
com pena mútua, numa melancolia cinzenta, acabava por entornar um
esqueleto de espinhas no caixote da cozinha, enxotando-o com o garfo
frustrado que me parecia tilintar risinhos sarcásticos, no fim de contas,
vendo bem, que condenação a existência, salvam-se as mulheres mas depois
de terminar um cansaço desiludido e o desejo de fugir
— O que faço aqui?
de uma criatura de olhos quase fechados a cochichar
— Ias-me matando malandro
com a pupilazinha viva da costa sob o disfarce da careta moribunda, a
pensar na prenda de um vestido, na prenda de um colar, noutro homem
— Aquele sim
ou seja um habilidoso competente que não imagino quem fosse, oculto
numa dobra da vida delas
— Já se foi o palerma?
pronto a esquartejá-las
— Tu matas-me leão
com três facadas viris e a quem entregavam, felizes
— Por favor aceita querido
o dinheiro que tinham, eu que não sou rico, sou tropa, o que lhes podia
dar, este anelzinho que me ofereceu, no prego, é capaz de render, as
senhoras gostam do oiro cor-de-rosa somado ao oiro amarelo e a joia
engastada deve ter no sangue um bocadinho de uma avó ametista porque as
pedras possuem família também, portanto o general chamou-me ao gabinete
com a bandeira, o retrato emoldurado do que manda em nós todos e um
mapa de Angola cheiro de marcas coloridas, convidou
— Sente-se
que é o tipo de atenção que quase sempre precede maçadas, aperfeiçoou
com o lápis o cavalo de bronze da secretária rodando-o um bocadinho, de
patas da frente no ar e a boca convulsa, e informou-me que o Estado Maior,
em Lisboa, decidira, estudada a minha folha de serviços que honrava o
Exército e por extensão o País e que nunca imaginei um prolongamento de
nada, era apenas um bando de criaturas mal pagas que utilizavam para
efeitos de limpezas domésticas, de bata a que chamam farda, no
apartamento mal cuidado da Nação, esfregando, varrendo, puxando lustro
às maçanetas, endireitando o caixilho de uma ou outra aguarela que os
políticos entortaram, manchando tudo com a gordura dos dedos, que o
Estado Maior decidiu adiar-me o curso de oficial general nomeando-me, a
minha mãe ainda a cheira a noite ou seja ao seu corpo deitado, em regra só
com uma vista, a outra a dormir ainda, tentando reunir as peças, cada vez
mais dispersas, de um sonho que desmaiava na almofada, o corpo deitado
tão diferente do corpo em pé, quantas pessoas era você, senhora, antes de se
tornar uma de novo, ou seja aquela que me ordenava, de palavras mais
lentas que o habitual
— Bebe o café com leite todo ainda ontem deixaste a caneca a meio
palavras cada vez menos fluidas, mais sólidas, parecidas com o
— Fernando
batido sílaba a sílaba que dirigia ao meu pai embora existisse um outro
Fernando
geralmente dito em partes da casa onde eu não estava, grave, lento, baixo,
que me provocava, sei lá porquê, uma espécie de comichão no fundo da
barriga e me agitava os nervos de estremeços que eu não entendia, entendi
parcialmente mais tarde quando a nova professora de Português no liceu me
corrigia as redações soprando
— Vírgula aqui
num tom que não lhe saía da boca, me dava ideia de nascer na barriga
endurecendo a minha, comigo a pensar
— O que é isto?
enquanto me sentia, que estranho, crescer, não todo, uma parte que
conhecia mal apenas, acompanhado pela sensação de ter feito umas gotas
de chichi, examinei-me sem entender no intervalo a seguir à aula e afinal
não chichi, palavra, uma espécie de líquido pegajoso, quer dizer uma
amostra de nada mas que me tornava as pernas bambas e a cabeça um
bocadinho tonta de mistura com um prazer confuso, de forma que eu à
espera da aula de Português seguinte e de um novo
— Vírgula aqui
que me tornasse a provocar aquelas reações felizes, a tontura súbita e a
exaltação instantânea, o meu corpo, durante segundos, diferente, a
professora de Português mais alta do que a minha mãe, mais bonita, mais
nova embora não me recorde da cara, que pena, recordo-me da voz, isto é
nem da voz, de uma única frase
— Vírgula aqui
que depois dela ninguém mais me disse, achatando o indicador no
caderno, a única parte nítida sua que continua comigo, ninguém me
ordenara antes dela
— Vírgula aqui
da mesma forma que nunca ninguém me aconselhou depois
— Vírgula aqui
não só com a falangeta, com toda a alma achatada no papel à minha
frente, a unha com verniz cor da pele
(espero em Deus não perder essa unha até ao fim dos meus dias)
uma ordem que infelizmente não tornei a receber de pessoa alguma, fosse
a minha mulher ao princípio, fosse a amiga do general, fossem as pequenas
da rua das putas, fossem outras criaturas que conheci, umas estranhas no
cinema ou numa paragem de transportes, fosse a empregada do banco com
um sinal perto do ângulo da boca, nenhuma delas, palavra de honra
— Vírgula aqui
e o que eu não daria por um
— Vírgula aqui
que oferecesse de quando em quando algum sentido aos meus dias e me
salvasse da melancolia, da certeza da morte da úlcera do duodeno, da perda
dos meus pais, da miséria de África, da falta de cabelo até, desta tristeza de
uma ferradura grisalha na cabeça, a professora de Português já reformada
de certeza, claro, já
(tinha aliança)
viúva, espero, porque a ideia de que pudesse dizer
— Vírgula aqui
a outro homem incendeia-me mais de ciúme do que qualquer outra coisa,
se por acaso a visse, se a reconhecesse com ela a olhar-me sem entender,
coitada, era pessoa para me aproximar de imediato, pedir-lhe
— Não leve a mal minha senhora mas importa-se de me ordenar vírgula
aqui?
a fim de que uma tontura, uma vertigem, uma sensação de chichi que não
era chichi, era, desculpe, um pinguinho de cola que me prendia aos calções
e provocava, juro-lhe, uma tontura eufórica, o pingo mais feliz da toda a
minha vida porque os momentos mais felizes de toda a minha vida os devo
a si e à vírgula enorme que ainda tonto, a levitar, submerso numa emoção
única, desenhava no caderno, em tantas ocasiões, ao redigir uma
informação ou um relatório, encho as frases de vírgulas mas sem sucesso
algum porque me falta o seu dedo a ordenar
— Vírgula aqui
por intermédio do verniz da cor da pele, autoritário, definitivo
— Vírgula aqui
e a afastar-se de seguida já esquecido de mim, que pena, indiferente a
mim, que desilusão, a sentar-se na secretária chamando outro aluno
— Borges
ou
— Fonseca
ou
— Nunes
outro aluno que nunca sou eu, que miséria, nunca sou eu, qual o motivo
de não dizer o meu nome, minha senhora, o general para mim
— Vai ter saudades de Malanje você
a mim a quem Malanje, como todas as cidades de Angola que conheci,
tanto se me dá como se me deu, os mesmos brancos sempre, os mesmos
pretos sempre, os mesmos cafés, as mesmas esplanadas, a mesma manhã às
seis, a mesma noite às seis, estrelas que não conheço nas noites opacas, o
mar sempre o mesmo, embora mais escuro, onde uma colher invisível
remexe camarões monstruosos, tudo aliás monstruoso desde as árvores aos
bichos, os corações a apressarem batendo tambores nas veias de modo que
até estendidos continuamos a correr e o cheiro da terra que ferve sem cessar
trazendo os mortos para cima e jogando-os contra nós, a minha mulher
indecisa
— Ainda estás vivo?
porque a minha pele se foi tornando amarela e os meus incisivos
enormes, comboios que partem e chegam rebolando os ossos das rodas, na
realidade ninguém parte ninguém chega, apenas a tropa aumenta, o general
para mim
— Em vez de Lisboa você no leste como segundo comandante daquilo
ou seja uma cidade muito mais pequena, muito mais pobre, a minha
mulher para mim ao sairmos numa estaçãozita de locomotivas sem rodas e
carruagens tombadas enquanto um capitão e dois soldados nos
transportavam a bagagem para uma espécie de jipe com um farol quebrado
— Aqui vírgula
perdão
— Vírgula aqui
nenhuma, a minha mulher para mim, com um olho nas malas e o outro no
capitão, um helicóptero a alcançar o hospital e o capitão para ela
— Guerra acesa senhora
o que lhe deu a esperança de eu morrer um dia destes, o meu pai para a
minha mãe
— Ele não tem escrito pois não?
dado que um problema na vista, surgido com a reforma, lhe dificultava a
leitura apesar do nariz no interior do papel e lentes que lhe transformavam
as órbitas em insetos confusos que as pálpebras aprisionavam cercando-os
de rugas, pergunto-me se continuarão a espreitar à noite inclinados para
diante
— O que é aquilo Fernando?
as montras da avenida, com uma paragem num banco a acalmar os
pulmões não mencionando esta perna que nos trava, as surpresas da velhice,
já viste os riscos no espelho, alguém vincou o vidro, não nos deformaram a
nós, mostra-me aquele de aumentar que tens na carteira para ser eu outra
vez e não era eu outra vez, era uma cara cansada tentando esconder com o
lábio o lugar vazio de um canino o novo general para mim
— Como os pretos não param de chegar da Zâmbia isto anda mexidote
num gabinete mais pobre que o do comandante em Malanje, nenhum
cavalo de bronze a mostrar a dentuça e a quem a gente desviava um
bocadinho as patas ao reforçar argumentos, uma pagela do presidente com
um defeito na película, a bandeira a pender de um mastro inclinado por falta
de argumentos, duas ou três poltronas gastas, esquemas com setas
vermelhas e azuis numa placa de esferovite, o general para mim
— O meu irmão mais novo foi seu camarada na Academia
também baixo e gordo, sempre a suar na ginástica, durante as refeições o
lábio superior dele enchia-se de gotinhas, ou, francamente, vírgula aqui
também, me tirava um pedaço de apetite, nessas idades em que se tem
apetite, tornando difícil olhá-lo, a minha mulher em casa, a arrumar os
vestidos no armário
— Ainda agora cheguei e só me apetece sumir-me cabides neste sítio é
mentira
o lábio oleoso de gotinhas que o irmão do general enxugava no
guardanapo, a desculpar-se num sorriso hesitante, o general duas alianças
na mão esquerda
— A minha esposa faleceu o ano passado
e eu medo que me convidasse para almoçar, quem me garantia que este
não gotinhas também, a minha mulher às voltas com os frascos dela apenas
de sutiã da cintura para cima e a suar igualmente, só me cai na rifa gente
úmida, tínhamos três batalhões na zona mais os fuzileiros, mais os
catangueses, mais os tê seis para o apoio aéreo e mesmo assim os pretos, de
acordo com as informações treinados por chinas, não paravam de entrar na
intenção de cercarem o planalto do Huambo e enquanto ouvia o rebeubéu
de um major, sinceramente, outra vírgula veio a francesa nariguda de
Malanje à ideia perturbar-me o raciocínio, usava anéis num dos pés que não
me caíam mal, à minha mulher estou certo que nunca lhe passaram pela
cabeça sutilezas dessas, a França é uma civilização adiantada, até o bidé,
para não ir mais longe, foram eles que criaram, não basta saber ler e
escrever, há requintes mais importantes que isso, por exemplo um
bocadinho, não muito, um bocadinho de estrabismo convergente palavra de
honra que ajuda, se eu fosse mencionar imperfeições sedutoras nunca mais
me calava, que confortável Malanje comparada com as Terras do Fim do
Mundo, ia-se a Luanda e voltava-se na calma enquanto aqui bastava só um
centímetro fora do Luso para haver logo chatices, claro que isto para mim,
que não sou ave de arribação, me pesou como um pedregulho no peito, o
diretor da polícia política, a quem o Estado paga para ser otimista,
tranquilizou-me enquanto aperfeiçoava a cinza do cigarro com o mindinho
— Acredite que daqui a nada senhor coronel temos isto tudo em
condições
ou seja os escarumbas quietos nas sanzalas e a gente à vontade com um
cafeco em cada braço, desses a quem ainda não esmagaram o peito para as
gravidezes próximas, não se paga aos pais em dinheiro, paga-se em
cobertores e cabras, cinco cobertores e uma cabra, seis cobertores e uma
cabra, quantos cobertores valerá a minha mulher agora, sempre a telefonar
para Malanje toda enrolada em torno do aparelho, de mão ao lado da boca
de forma a que eu não possa ouvir e olhos a cravarem como pás a parede
fronteira
— Sabes o que significa morrer de saudades?
assoando-se de vez em quando a amarrotar o lenço na mão, a coçar sem
descanso o tornozelo esquerdo com o pé direito e eu a ver o da francesa,
com o segundo dedo mais comprido que o primeiro, de unha tão vermelha,
quase luminosa senhores, ganas de acariciar aquele dedo com a língua,
beijá-lo, chupá-lo enquanto ela murmúrios estranhos, uma espécie de riso e
mais murmúrios estranhos, estará ainda em Malanje ou um fazendeiro
levou-a, quando me ia embora contava o dinheiro duas vezes antes de abrir
a porta a informar, atenta às notas
— Não é que desconfie de ti
e em mais de uma ocasião levantou-as contra a janela a verificar a marca
de água
— É uma questão de princípio sou judia
e com aquele nariz, realmente, não sei, talvez fosse judia, dizem que se
apaixonam mas o que significa o amor, as pestanas dela tão negras, os olhos
tão claros, o queixo uma espécie de curva com uma prega no meio, uma
dessas rugas no pescoço que só aparece aos trinta anos e a pele debaixo da
ruga começando a envelhecer, aposto que mais de trinta, quarenta anos, por
aí, uma cicatriz de apendicite que o tempo apagara um bocado mas se sentia
na pele sob a forma de um tracinho mais duro, o umbigo uma covazita com
uma argola de prata no meio o general para mim
— Não está distraído pois não?
a desenhar trajetos no mapa com o mindinho espetado
— Para Nova Lisboa derivado ao terreno é melhor assim
contornando o Cuíto porque a mata mais densa e mais sanzalas de apoio,
a francesa para mim
— Não te apetece ir embora?
e para ser completamente franco, vírgula aqui, não vírgula nenhuma, não
sei se me apetece, ir-me embora para onde de resto, dar com a mudez
furiosa da minha mulher, com o mau gosto dos móveis da tropa da sala,
estender-me na cama a sentir um perfume de que já me cansei e o calor de
um corpo que me incomoda em lugar de exaltar-me e depois a dificuldade
em adormecer olhando o escuro do quarto a perguntar-me
— Por onde posso fugir?
ou, como moro num primeiro andar
— Onde fica a janela?
e mesmo sem chinelos, descalço, sair para a rua de pijama apenas a olhar
as fachadas, as árvores e a pensar
— Pai
ainda estou para saber porquê mas a pensar
— Pai
e de seguida a dizer em voz alta
— Pai
sem que ninguém me ouvisse porque ninguém na rua, um cão ao longe a
virar uma esquina, a cruz verde de uma farmácia com uma luz lá dentro e
era tudo, o meu pai na sala, distraído de mim, tão sozinho quanto eu, a
minha mãe na cozinha porque se escutavam os passos, comigo sem vontade
de olhar-nos, se calhar estar vivo é só isto, não esperar, não querer e no
entanto em mim
— Pai
e no entanto a gente os dois, e no entanto você, e no entanto qualquer
coisa, que não sei o que seja, a unir-nos, compreende, sem que eu entenda
como, o seu colarinho aberto, a sua gravata pendurada, a sua voz que não
falava e no entanto, palavra de honra, eu ouvia
— E agora?
a gente os dois
— E agora?
não para o outro, para nós
— E agora?
a minha mãe no quarto de banho
— Fernando
(a gente os dois Fernando)
sem que nenhum respondesse e a minha mãe a olhar-nos antes de voltar à
cozinha, naquela maneira de andar que não vou esquecer nunca, mesmo
depois de se ir embora dava ideia de continuar nas redondezas, se calhar,
pensando bem, ela parecida com a gente, a francesa para mim
— Não quer mesmo ir-se embora pois não?
e não é que não queira, compreende, é que não há para onde ir, de tempos
a tempos a minha mãe
— Vocês
e como de costume o meu pai a sorrir-lhe, a minha avó de olhos no
croché
— Pelo menos são felizes
e ora aí está, acertou, somos felizes a sério, temos casa, temos família, até
agora
lagarto, lagarto
temos tido saúde, não se pode querer mais, embora eu ainda na rua das
putas já esquecido da francesa, a verificar a roupa e depois, como sempre, o
eterno problema dos buracos do cinto ou seja em qual destes dois meto o
espigão da fivela, no primeiro as calças, demasiado largas, pingam-me da
cintura e tenho de estar constantemente
(não esqueço as unhas dos pés da estrangeira
estrangeira?
nunca na vida irei esquecer aquela unhas, aposto que daqui a vinte anos,
se permanecer vivo, continuo com elas)
a puxá-las, no segundo a incomodar-me porque demasiado apertadas,
dividindo-me ao meio e eu com medo que por exemplo a comida não passe
de cima para baixo, comigo a sentir que sou dois ou então que as pernas, lá
ao fundo, se calhar de outro homem, quem me garante que se lhes ordenar
— Levantem-se
eles obedecem, o que tenho pensado, senhores, em pedir ao sapateiro que
faça um buraco no meio mas o medo que o cinto recuse
— Nasci assim sou assim é pegar ou largar
faz com que eu hesite, eu para a minha barriga
— Resolvo isso amanhã
e ela, conformada
— Pois sim
enquanto me vou ajeitando com as mãos tão discretamente que toda a
gente repara, curioso como um pormenor ridículo se torna tão vital, a minha
mulher para mim
— Não paras de agitar-te gostavas de ser mais alto não é?
troçando-me, é evidente, quando não tem que ver com a altura, quero lá
saber do tamanho, não quero é ficar em cuecas no meio da rua por exemplo,
que vergonha, ou durante uma reunião de oficiais, a francesa
— Estás sempre a mexer no umbigo dói-te alguma coisa?
não por se preocupar com a minha pessoa, claro, um cliente como os
outros, ainda por cima nem sequer novo, nem sequer bonito, que diferença
lhe faz, apenas o receio que eu uma doença que se pegue e em África, ainda
por cima logo em África, vírgula aqui, o que não faltam são doenças que se
pegam, também com tanto mosquito e um clima destes o que é que se
espera, se ao menos eu em Paris mas aos quarenta e seis anos quarenta e
sete em abril, quem me quer em Paris, sou uma emigrante velha com uma
reforma assim e apenas num sítio como este, um logradouro de pobres, é
que as coisas vão andando, um bocado coxas mas andam, não dá para
aforrar, é evidente, mas a vida ensinou-me a não pensar no futuro que
aquilo que não falta são granadas que mudam tudo de súbito, passei por isso
quando o doutor, um médico de respeito que tomava conta de mim
— Queriducha queriducha
me trocou pela trombose e ficou só com um pedaço de cara e um único
olho a fitar-me com raiva enquanto o outro, sonhador, vagueava parede fora
numa alegria oca, o meu pai para mim, sozinhos na sala dado que que
minha mãe se deitara há que tempos e os homens do lixo, vestidos de
amarelo, despejavam caixotes e gritos numa camioneta com lâmpadas que
giravam no teto e um motor
vírgula aqui
e um motor terrível a ensurdecer o mundo
— Estás contente em Angola?
a ajustar melhor o pijama porque saltara um botão, vivo só com o
candeeiro da costura da minha mulher aceso ao lado do sofá onde cosia
bainhas, de óculos que a tornavam mais mãe e aumentavam a paz de ter
uma família, o meu pai sempre inquieto com o filho
— Estás contente em Angola?
enquanto eu alargava o cinto dando paz ao umbigo, confortável com a
bexiga e as pernas distantíssimas, acabando num par de chinelos que se
coçavam um ao outro num vagar satisfeito
— Não há motivo para se inquietar senhor
enquanto a tropa ia saindo para a mata e minas, e emboscadas, e o
helicanhão disparando sem fim à medida que o meu pai e eu, cada um do
seu lado da mesa de comer, nos olhávamos com esse sentimento idiota a
que chamam, sei lá porquê, amor, comigo a pensar no chupa-chupa que ele
tinha de certeza no bolso do pijama e que daqui a nada me estenderia numa
das duas mãos fechadas
— Adivinha em qual está?
fazendo-me sinal com o queixo para que escolhesse a esquerda.
19
Percebi que tinha morrido e portanto não conseguia falar nem mexer-me
quando acordei a meio da noite e as ondas mais fortes, mais altas, mais
próximas, ultrapassando o pedaço de areia lá em baixo onde os caranguejos
caminhavam no escuro a chegarem-se a nós, os penedos e depois o muro
quase até à nespereira desta margem do mar, comigo deitada na esteira que
desenrolava na salita e a menina, sem dar por nada, lá dentro no quarto, na
cama que temos, deitada de bruços com uma das palmas para cima, estou
certa que à espera da prenda que desde que estamos aqui não lhe dei nunca
e sem me dizer nada aposto que aguarda ainda, se pudesse mexer-me, e não
posso, deixava-a junto à almofada e daqui a horas vinha mostrar-ma, tão
contente
— Domingas
sem que eu conseguisse responder, isto é tenho quase a certeza que
ouvindo-a muito ao longe mas sem conseguir falar-lhe, as minhas pernas
não se movem, o corpo não se ergue, a pele mais fria, talvez um dos meus
olhos, aberto, a afastar-se, talvez os morcegos estremecendo de quando em
quando, em silêncio, na outra margem do mar e depois a gritarem,
zangados, uma espécie de ecos que voam à espera do regresso do
crepúsculo, a menina a inclinar-se para mim, a tocar-me a cara e a recuar
em seguida até se encostar à parede, de boca em forma de lágrima mas sem
choro nenhum, uma espécie de aflição, uma espécie de espanto, uma
espécie de medo, se eu fosse capaz de falar tranquilizava-a
— Menina
esperando que visse o que eu imaginava um sorriso no fundo da palavra
enquanto o vento ia e vinha sacudindo a nespereira, ela a experimentar-me a
testa e a afastar logo os dedos
— E agora?
quando já não há nenhum
— E agora?
para mim, apenas um corpo que deixou de pertencer-me, está para ali
coitado, uma expressão que apesar de não a ver tenho a certeza que não se
parece comigo, algumas telhas vibram lá em cima a agitarem as traves, se
lograsse olhar um bocadinho para fora notava brilhozitos de água que se
aproximam e recuam, as plantas do quintal vergadas pelo
— Olha o vento menina olha o vento
e os cachorros vadios da noite, pequenos e magros, que trotam sem
descanso, de focinho junto à terra, à procura de quê, cachorros, bichos
pequenos, uma coruja às vezes de feições todas juntas em torno do bico,
que se afastou no pinhal, o tijolo onde costumava sentar-me ao lado da
porta da cozinha, à tarde, sem sentir nada, sem dizer nada, sem pensar em
nada e os meus pés tão grandes, cheios de ossos inúteis, de longe em longe
o preto da espingarda para mim, depois de olhar em torno
— Anda cá
e compreendia que acabara porque se ia embora, encostado ao jipe à
espera que o patrão o chamasse, a mulher do patrão
— Tem de ser não é?
a caminho do quarto com pena de nós duas, penteando o algodão num
gesto comprido ao pentear o cabelo como se as colinas fossem parte de si,
quem se sentará, quando vier a manhã, no tijolo lá fora, se ao menos me
levassem para a outra margem do mar à sanzala onde nasci e onde aos oito
anos os mais velhos me fecharam numa cubata grande onde quase nunca se
entrava, me despiram, me estenderam no chão, afastando-me as pernas,
entre cantos e danças à medida que o quimbanda, pintado de tinta verde e
azul, degolava um galo com uma só dentada no pescoço, me rapava com
uma catana, me pintava a testa e o corpo com ele, entoando rezas que eu
não entendia, o sangue não frio, quente, quase a ferver numa cabaça sobre
dois pauzinhos que ardiam, comigo sempre calada pela ordem de um gesto
à medida que o quimbanda me desenhava a canivete a testa, o peito que
ainda não crescera, dois caroços somente e a barriga, riscando tatuagens que
tapava com folhas e lama e penas de uma coruja que degolou também mas
que continuava a soluçar sem descanso, percorrendo-nos a todas com as
órbitas enormes, uma idosa sem uma perna, amparada à forquilha de um
galho, entregou ao quimbanda uma maçaroca de milho que ele exibiu em
torno continuando a dançar, não com dois pés como nós, com muitos
calcanhares a pularem, cheios de argolas de arame, enquanto as mulheres
tocavam uma a uma na maçaroca com óleo de palmeira
— Euá
mergulhando-a na lata onde o sangue do galo continuava a crescer e
aspergindo as paredes à medida que as ancas aceleravam, os tambores
cresciam na sanzala e um vento, chegado não sei donde
— Olha o vento menina olha o vento
se transformava em relâmpagos e água encharcando a cubata, vi a minha
mãe a dançar com as outras
— Euá
de olhos fechados, a tremer, a tremer, inclinada para mim esfregando-me
o ventre com raízes e lama, o quimbanda pegou na maçaroca e ajoelhou à
minha frente enquanto os tambores lá fora me ensurdeciam de ecos e os
morcegos abandonavam as mangueiras antes da chegada da noite, uma
cabra a balir, uma segunda cabra a balir, uma terceira, uma quarta,
perseguidas pelo povo lá fora, e batidas de tambores enormes que me
ensurdeciam, sentia que eu era e não era conforme me aproximava ou
afastava, quase sem dores, palavra, nem um soprozinho flutuando no
interior de mim mesma
(como eu sinto os morcegos do Cassanje rodando em torno da casa, em
que margem do mar estarei afinal?)
o quimbanda ajoelhou no interior das minhas pernas enquanto os
tambores se suspendiam um momento lá fora e começavam de novo com os
— Euá
a crescerem e tantas vozes, tantas exclamações, tantas palmas ritmadas,
tantos joelhos que dançam na sanzala, o quimbanda ergueu a maçaroca do
milho, primeiro vertical, depois horizontal, depois percorrendo o meu peito,
depois descendo contra o meu ventre, depois introduzindo-a de golpe no
meu corpo, depois retirou-a exibindo-a em torno, depois a menina
debruçada para mim na casa da praia
— Domingas
e como podia eu responder-lhe, dizer
— Estou bem
sossegá-la, sentia a sua mão no meu peito a palpar-me as costelas imóveis
— Domingas
a palpar-me o pescoço, a palpar o meu pulso, a encostar
— Domingas
os seus olhos aos meus, a insistir
— Domingas
ajoelhada ao meu lado e a levantar-se de novo, tanto silêncio na sanzala
agora depois das bazucas e dos aviões da tropa, o cadáver de um cabíri, o
cadáver de um porco, as plantações de mandioca e liamba cinzas dispersas,
uma ou outra forma imóvel de bruços, o que sobrava de um preto, com o
que sobrava de uma túnica, tentando avançar no sentido do rio, o meu pai
vendeu-me ao pai da menina por quatro cobertores e uma cabra grávida que
o preto da espingarda trouxe no jipe
— É cara a tua filha
eu ainda não
— Olha o vento menina olha o vento
eu de cabeça baixa, calada, a minha mãe longe, o quimbanda a fumar
mutopa com os outros sem me olhar sequer, terminado o negócio o meu pai
virou-me as costas e sentou-se com eles, o tabaco da mutopa mais forte que
o da cantina ou seja os caricocos que vendiam aos pretos, eu no banco de
trás do jipe com o da espingarda calado ao meu lado, lembro-me de um
milhafre, muito alto, por cima da picada, que conduzia à casa, tudo isto
antes da revolta do algodão, antes de António Mariano, antes do pai da
menina
— Vais aprender a tomar conta da minha filha tu
a mãe da menina para o pai da menina
— Não é nova demais?
lembro-me das duas filas de mangueiras que conduziam à varanda, da
caveira de hipopótamo que se lhe tocávamos um eco enorme, infinito, o pai
da menina para a mãe da menina
— Descansa que ela ganha prática depressa
porque os pretos, apesar de tudo, talvez mais inteligentes que os cães,
curam as feridas com lodo, detestam o nosso cheiro, têm medo de nós, a
mãe da menina sempre a pensar na irmã dela que não conheci
— Só tive essa filha
que continuava na gaveta de baixo da cômoda, cheia de roupa e
fotografias e brinquedos, escutava-a à noite a remexer baixinho os seus
tesouros e aposto que a mãe lá em cima a escutá-la perguntando ao marido,
a apertar-lhe o braço
— Não ouves?
e o pai da menina, sem acordar por completo, a responder que sim, a mãe
da menina, sentada na cama
— Daqui a nada descobre-nos aqui vais ver
mas nenhum som de passos nos degraus, o eco das mangueiras apenas,
quase nenhum morcego hoje, que estranho, apenas o som de fervura do
algodão que principiava a crescer, mesmo nesta margem do mar, tão longe,
continuo a escutá-lo conforme continuo a escutar o quimbanda dançando-
me em torno
— Euá
com a maçaroca numa das mãos e a vara do seu poder na outra, o meu pai
nunca me tocou depois disso nem falava comigo, acho que deixou de me
ver, a minha mãe na lavra e eu quieta, sozinha, a escutar os insetos lá fora e
os mabecos que rondavam as cubatas dos leprosos à beira do rio, tratando
as feridas com ervas movendo os cotos dos membros, a senhora da casa do
lado da nossa para mim
— Gostas de Portugal tu?
e gosto dos caranguejos a escorregarem nas pedras sem nos alcançarem
porque o mar os leva e os atira à gente de novo, o fazendeiro velho para a
menina
— Traz-me a tua preta
ele a subir-me o vestido
— Não te mexas agora
de modo que eu quieta mas sem mulheres a dançarem em torno, apenas a
menina a olhar-me de longe e ele a puxar-me com o pulso que segurava a
garrafa e a mexer em si mesmo, desiludido
— O que se passa aqui?
e não se passava nada exceto a sua boca aberta e os seus olhos fechados,
um joelho a queixar-se entre os meus
— Como o tempo corre senhores
enquanto agitava partes que não lhe obedeciam até que
— Vai-te embora
a empurrar-me com a garrafa
— Sai da frente preta
não algo, não zangado, uma espécie de suspiro
— Já
enquanto o marufo lhe descia do queixo, da garganta, que é dos seus
dentes senhor, que é do seu pescoço sem rugas, as suas mãos tremem não é,
as suas pernas hesitam, tem de amparar-se de vez em quando a uma parede,
às costas de uma cadeira, a uma mesa, o capataz para nós, com pena do
homem cujos olhos, não vamos falar nisso agora
— Desapareçam daqui
enquanto ele permanecia na poltrona a olhar para si mesmo, vencido, sem
se interessar por ninguém, com um
— Nossa Senhora
a alargar-se em silêncio com dó de si mesmo, o que eu trabalhava
amigos, não adoecia, não me deslembrava de nada, torcia um garfo entre
dois dedos, palavra, tinham medo de mim, a mãe da menina para o pai da
menina, desiludida que nenhum som nas escadas
— A minha filha não vem
de costas para ela num canto do quarto, a senhora da casa ao lado para
nós
— Como é Angola afinal?
sem que eu conseguisse descrever-lhe a outra margem do mar, o silêncio,
sempre à beira da explosão, da terra, os mandris a descerem a colina
galopando sem fim, com as crias, agarradas às costas das mães, de pupilas
amarelas cravadas na gente, quando cheguei pela primeira vez à fazenda,
com um vestido demasiado grande que me compraram na cantina, e o
mulato, com uma cicatriz na testa, atrás do balcão
— Não lhe fica mal este
no meio do cheiro a peixe seco, dos chinelos de lona, das garrafas de
álcool barato, da fuba e do aleijado sem pernas a quem o pai da menina
dava sempre uma moeda, a mãe da menina para o pai da menina
— A cozinheira que agarre num frasco de creolina e lhe dê banho
primeiro lhe esfregue a cabeça com petróleo tire as lêndeas lhe rape essas
trancinhas horríveis
de modo que eu nas traseiras do quintal, junto ao tanque da roupa
enquanto me ensaboavam diante dos cães, das galinhas e dos pretos que a
cozinheira afastava com os cotovelos enquanto o da espingarda me
anunciava em luchaze, porque vinha de lá
— Hoje ficas comigo
ou seja a garagem onde dormia entre ferramentas, tratores, dois
automóveis sem rodas, latas amolgadas e cilindros de jipe, nós num pedaço
de colchão sem coberta onde os ratos apareciam e desapareciam na palha, o
pai da menina vinha observar-me de longe, com um cigarro meio pendurado
na boca
— Isso vai?
enquanto eu me lembrava da maçaroca de milho e do sangue dos galos,
sem mudar de expressão, a não olhar fosse quem fosse dado que me
ensinaram a não espiar ninguém, por exemplo quando o meu pai almoçava
a minha mãe e eu de costas para ele, falta-se ao respeito vendo um homem
comer, não me recordo das suas feições nem do seu corpo, recordo-me do
silêncio, de fumar de cócoras à entrada do quimbo a limpar com um
pauzinho, sem arredar as moscas, as feridas dos tornozelos, a minha mãe
para o meu pai
— Compra-lhe outro vestido
também largo demais, sandálias, uma pulseirinha de contas e não lhe
fales em quimbundo, fala só português, não quero que a minha filha
aprenda os gargarejos dos pretos que já me chegam todos esses cafres cá em
casa, a minha mãe lá em cima no quarto a olhar a plantação da janela
anunciando ao meu pai
— Um dia destes quando menos esperares volto para Portugal com a
miúda
e no fim de contas fui eu que saí com a menina
— Olha o vento menina olha o vento
para a margem de cá do mar na qual morri esta noite e as ondas cada vez
mais fortes, mais altas, mais próximas, ultrapassando o pedaço de areia lá
em baixo onde os caranguejos caminham sem descanso aproximando-se de
nós, os penedos e depois o muro quase até à nespereira, que difícil
compreender que o passado não existe, existem sombras que tentam
encontrar uma vida, depois da cerimônia na cubata o meu corpo durante
muito tempo aberto, sentia o frio do cacimbo nele, a umidade, o vento
— Olha o vento menina olha o vento
sobretudo quando o preto da espingarda abria a porta do cubículo onde eu
dormia, comigo a senti-lo chegar no interior do sono, primeiro as mãos no
meu corpo e depois um peso rápido em mim, sem palavras, sem ordens, o
cheiro a álcool do pai da menina na sua respiração apenas, os morcegos a
gritarem, as folhas das mangueiras
(como de costume)
falando, falando, os insetos do escuro à nossa volta, a menina a tentar
acordar-me
— Domingas
e eu sem poder responder-lhe, a senhora da casa ao lado para ela
— Tem a certeza que está morta tem a certeza que a sua preta morreu?
comigo com tanto medo de ficar sozinha nesta margem do mar
— O que é que eu faço agora?
enquanto os caranguejos se aproximavam e a mãe sem a ver, continuava a
pentear-se à janela ao mesmo tempo que o pai olhava o algodão no degrau
da varanda
— O que faço eu aqui?
os amigos da senhora da casa ao lado perguntando como se vive em
África, o que se faz em África, o que esperam as pessoas, uma branca e
uma preta que não conversam conosco nem nos cumprimentam quase, às
vezes a branca uma espécie de sorriso, uma espécie de aceno sem se
aproximar de nós, atenta a ruídos que não escutamos e ela parece sentir, dá-
me ideia que falam com as plantas, dá-me ideia de compreenderem os
bichos, dá-me ideia de conhecerem não as nossas palavras, o que não
dizemos aos outros, ia apostar que não têm família nem quem se interesse
por elas, estão sozinhas aqui e agora que a preta faleceu o que irá a branca
fazer, talvez a sepulte no quintal, talvez se vá embora da casa, há de haver
navios para Angola, talvez o pai à espera
— Chegaste?
sem a olhar, num ângulo da varanda estudando o algodão amontoado em
sacos no armazém que as camionetas da Cotonang vão chegar não tarda, os
pais idosos, o fazendeiro velho a mover a boca em silêncio desejando-se em
Portugal, numa aldeia do norte onde já ninguém o conhece ele que
enriqueceu em Angola, colinas e colinas
— Todos os mandris são meus
e pacaças, e mabecos, e os leprosos do rio sem dedos, gatinhando na areia
procurando bagas e ervazitas pisadas, fritando grilos num espeto, de longe
em longe um padre espanhol dava-lhes comida, remédios, ia-se embora de
novo, os túmulos deles uma cruz de pau tombada, uma ocasião voltei ao
quimbo onde me tinham ido buscar e a minha mãe olhando para mim sem
olhar para mim, ao meu pai largaram-no na mata quando cessou de falar e
um mabeco, dois mabecos, a fêmea a medi-lo sem lhe tocar ainda, um
macho novo a cheirá-lo, uma hiena, de súbito, a afastar os mabecos, a
arregaçar o beiço sobre dentes e dentes, um porco espinho de membros
fininhos passou por ele a correr mas seria o meu pai, se calhar não tenho
ninguém a não ser a menina, vestia-a, lavava-a, dava-lhe de comer,
passeava com ela, quando tinha febre pedia ao quimbanda que lhe tirasse a
doença aplicando lodo na barriga, no peito e a menina
— Domingas
pendurada de mim, a menina às vezes
— Mãe
pendurada do meu pano, a mãe dela para o pai dela
— Não precisa de nós
a mãe dela
— Não faz mal tenho a outra
a murmurar na gaveta da cômoda com inveja da gente, o pai calado, a
olhar para nós pensando não sei o quê com as rosas a tilintarem no outro
lado da casa, mandou-nos para Portugal enquanto a guerra crescia e os
soldados brancos não paravam de surgir na margem do mar, os sinos a
explodirem, os canhões sem recuo, tantos pássaros pelados a comerem
restos de sangue no capim que ardia, os pretos da Cotonang a gritarem
— Uhuru
de lenços vermelhos ao pescoço batendo a mata cantando, cantinas
pilhadas, o comerciante indiano da Chiquita morto que encontramos no
caminho de Dala, um catequista de barriga aberta estendido no chão sem
pedir ajuda, mirando-nos apenas, o preto da espingarda deixou de procurar-
me, sentia-lhe os passos à porta, sentia-o parar, sentia-o ir-se embora
depois, dado que o pai da menina
— Não lhe tocas
o pai da menina
— Porque se lhe tocares tocas na minha filha
até que um dia ficou durante mais tempo, mudo, no outro lado da parede,
a seguir outros passos, mais pesados, mais lentos, aproximando-se dele e a
seguir uma culatra a mover-se duas vezes naquele estrondozinho de
encaixe, a seguir o pai da menina
— Eu não te disse eu não te disse?
e percebi o preto da espingarda calado, percebi que o olhar dele quieto,
percebi que o pai da menina a apontar-lhe a arma
— Palavra de honra que me custa fazer isto
percebi as mangueiras a ondularem de leve, percebi o primeiro tiro com o
preto ainda de pé, percebi o segundo com o preto já caído, percebi uma
nova bala na culatra com o pai da menina a encaixar o terceiro, percebi que
se endireitava a desistir do terceiro, pendurava a espingarda ao ombro e se
afastava sem pressa, percebi a sua voz, mais distante, a ordenar não sei a
quem que enterrasse o preto, percebi a sua tosse ao virar a esquina da casa,
percebi que ia chover dali a pouco pela cor do som do vento apesar de
nenhum relâmpago a leste, onde eles começam sempre a ecoar, diminutos
ao longe, percebi, sem olhar, a menina junto a mim que tentava entender
sem conseguir entender
— O que era aquilo Domingas?
e antes que eu dissesse fosse o que fosse surgiu o primeiro trovão de
modo que lhe respondi
— É a chuva
porque o ar úmido, côncavo, à espera, o ar tão côncavo à espera, pronto a
multiplicar o som e as plantas que se inclinavam devagarinho, humildes,
antes de receberem a água, percebi um galope de palmeiras atrás das
palavras, percebi gente que se aproximava com pás, percebi o meu pai, já
afastado
— Ponham-lhe uma cruz em cima que era meu amigo
percebi a mãe da menina a olhar da janela, calada, percebi as pás a
cravarem-se na terra
— Euá
conversando entre elas, percebi a menina à procura de uma janela aliás
alta demais para si e a desistir da janela à medida que os relâmpagos à
direita e à esquerda, percebi que tínhamos de esperar até eles acabarem,
percebi a água a bater no telhado, percebi o preto da espingarda tombando
morto na cova num som de odre muito cheio, percebi alguém
(não o meu pai)
que falava e alguém que respondia e depois de falarem se afastaram por
seu turno como o pai da menina se afastou, percebi a senhora da casa ao
lado
— Porquê tanta violência na outra margem do mar?
quando não existia violência alguma, era a vida, o primeiro caranguejo
alcançou o muro do quintal, o segundo junto à nespereira, movendo as patas
tortas que escorregavam e recomeçavam chegando-se à menina e não pude
avisá-la porque me achava morta dentro da casa e portanto não conseguia
falar nem mexer-me desde que acordei a meio da noite e as ondas mais
fortes, mais altas à medida que a nespereira se dobrava, comigo na esteira
que tirara da arca para desenrolar na salinha e a menina, sem dar por nada,
lá dentro no quarto na única cama que tínhamos, a conversar no seu sono da
mesma forma que a mãe conversava com a irmã dela, que não cheguei a
conhecer, enquanto se penteava, se conversassem comigo não lograva
responder, quer dizer tinha as palavras mas faltava-me a voz do mesmo
modo que quando o quimbanda me abriu com a maçaroca não senti dor
nenhuma, o meu corpo agora imóvel que estranho, longe de mim apesar de
eu dentro dele, não dou pela primeira luz da manhã, acho que os meus olhos
abertos mas tudo negro aqui, onde para aquela claridade alaranjada que
antecede a aurora, o que impedirá as coisas de se tornarem objetos, o que
impedirá os meus ouvidos de escutarem as árvores onde os últimos
morcegos se calam um a um, o que impedirá o algodão de crescer, se por
acaso o meu pai me chamasse
— Cafeco
não escutaria o
— Cafeco
e se escutasse o
— Cafeco
não respondia, não imagina o esforço que faço mas acabou-se o
— Senhor
eu que ainda o oiço, palavra, quero que saiba que o oiço mas não consigo
falar, a senhora da casa a seguir à nossa escuto-a, longíssimo, quase a
extinguir-se mas escuto
— Já reparou que a cara dela tão grave
mas não sou capaz, perdoe, de lhe responder do mesmo modo que o
corpo não se ergue, sinto tudo o que sentia só que já nada é meu, esta
garganta, este peito, cada músculo, cada nervo, não me pertencem mais,
ficam aí por mim enquanto me afasto a pouco e pouco na direção desta
margem do mar, isso noto, a menina para a senhora da casa ao lado
— Não acredito que tenha morrido
numa voz que não dizia
— Não acredito que tenha morrido
tentava pedir
— Não me abandonem agora
tenho a certeza que a pedir
— Não me abandonem agora
ao mesmo tempo que eu a prevenia
— Olha o vento menina olha o vento
porque apesar de tudo quieto o vento tão forte e as flores do algodão a
rodopiarem sem fim, a casa da Baixa do Cassanje que ia girando, girando,
as telhas que tombavam, as paredes que se dissolviam, a mãe da menina não
no quarto lá em cima, apenas a janela, solta, a abrir-se e a fechar-se, a
caveira do hipopótamo rolando na varanda, o jipe com o pai da menina e o
preto da espingarda a afastar-se de mim, sem ruído de motor mas a afastar-
se de mim da mesma forma que as mangueiras se afastavam de mim, o
fazendeiro velho a sorrir-me ao longe, minúsculo primeiro e depois nada, só
terra, tudo só terra agora, ia apostar que a menina a sacudir-me
— Domingas
tenho a certeza que a voz da menina
— Domingas
com os dedos estendidos sem lograrem tocar-me e eu serena, sem
lágrimas, é só ela que chora, um último
— Domingas
que se calhar não disse a flutuar ali do mesmo modo que um último
— Ainda cá estou
que não disse também, quer dizer julgo que disse mas se calhar não disse
também e no entanto
— Ainda cá estou
juro-lhe
— Ainda cá estou
não tenha medo que a abandone nunca, não tenha medo porque eu
— Ainda cá estou
e apesar de morta talvez consiga deixá-la na outra margem do mar, longe
da água que sobe e dos caranguejos que a cercam, se apoderam de si e eu
impeço que a devorem, não vai acontecer-lhe nada, menina, eu não deixo,
mesmo morta não deixo, mesmo quieta não deixo, mesmo que me enterrem
atrás da casa e erva por cima não deixo, descanse que lhe seguro na mão,
lhe sorrio, lhe garanto
— Estou aqui
e estamos juntas de fato, que é a morte afinal se estamos juntas de fato, a
senhora da casa ao lado para o marido
— Não pensava que ela gostasse tanto da preta
a senhora da casa ao lado para o marido
— De que serve uma preta?
a perguntar numa expressão de súbito diferente
— Será que ela é preta também?
o marido, hesitante
— Pensando melhor se calhar é preta também
de maneira, não é, que somos duas pretas a tomarmos, no cais das
dezassete gaivotas, o barco que nos levará a ambas para Angola, isto é que
nos levará a ambas para a outra margem do mar, a nossa margem do mar, a
única margem do mar e a pouco e pouco o calor, a pouco e pouco a ilha, a
pouco e pouco a baía, as palmeiras da marginal, as traineiras que vão sair
logo à noite com o reflexo de uma lanterna à proa a fazer e a desfazer mil
reflexos na água mas sobretudo este relento das plantas, este relento da
terra, a estrada para Malanje, os morros em redor da Baixa do Cassanje,
estas sanzalas, estas árvores, este capim, a menina que eu oiço e não oiço
— Domingas
e a sanzala, a cubata cheia de mulheres que dançam, a pele dos tambores
aquecida com palmas, o quimbanda
— Euá
a degolar o galo e a beber o seu sangue enquanto me deita no chão
dançando-me em torno, a maçaroca de milho que se aproxima
— Euá
do meu corpo estendido, as pernas que me afastam cantando sempre e
quando a maçaroca entrar no meu corpo eu não morta, eu de olhos abertos a
repetir
— Euá
eu
— Euá euá
a olharmos as duas, felizes de não haver morte, de nunca haver morte, o
crescer do algodão.
20
Às vezes, no Namibe, ao amanhecer sem ninguém ao meu lado, com a
outra metade do lençol amarrotada, deserta, a cheirar a pessoa e no entanto
vazia, não luz ainda, as sombras pálidas que antecedem a manhã, nenhum
ruído na casa, nenhuma voz, nenhuma torneira, nenhuma suspeita de
presença, apenas esses estalos de pau com que as tábuas conversam comigo
perguntando
— Onde estamos?
sem que lhes respondam nunca, sinto a garganta de eu pequeno a chamar
um
— Mãe
de criança numa aflição de medo em forma de lágrima, com os meus
olhos todos
(quantos serão?)
e nenhuma voz, ninguém, nenhum
— Estou aqui
a salvar-me agarrando-me o braço, o que me apavora na noite é a solidão
dos defuntos, com um lençol engomado a cobrir uma das pontas, sapatos
demasiado engraxados, a cheirarem tanto, na outra, e no meio, povoando a
barriga, uma porção de dedos amarelos encaixados uns nos outros sem
conseguirem mover-se algemados num terço terrível que impede o pedido
de socorro de um gesto, cercados de corolas ferozes proibindo-lhes a fuga,
que cruéis os crisântemos que se fingem benignos e as pessoas em torno,
sentadas em bancos corridos e conversando em voz baixa, que nos não
consentem a fuga a informarem
— Acabaste
fingindo lamentar-nos quando na realidade nos proíbem de ser, os
parafusos de uma tampa aferrolham-nos anulando um pedido, uma
indignação, um grito, com um crucifixo de metal em cima que é um mata-
borrão de sons, dispersando súplicas, argumentos, razões e nós vivos lá
dentro a desistirmos aos poucos, transformando-nos em coisas que se
transformarão em nada, isto é um vestido ou um casaco que se esfiam,
arranhando o cetim à medida que desistem enquanto a maldade dos ossos
cujo tutano é aquilo que fomos, vai engolindo a carne até que dentro em
pouco nós um feixe de costelas desirmanadas que se guardam na gaveta de
um muro, sob árvores de costas para nós
(tudo de costas para nós)
portanto às vezes no Namibe
Namibe Namibe
antes que as ondas começassem a esfregar as mãos abertas na areia, para
trás e para diante, libertando-se de peixes confusos e algas secretas,
acordava ao amanhecer sem ninguém ao meu lado, com a outra metade do
lençol amarrotada, vazia, nessa espécie de claridade cinzenta, ainda não luz,
sombras claras, que antecede a manhã, nenhum ruído no café, nenhuma
voz, nenhuns passos, apenas esses sons de pau com que tábuas conversam
consigo mesmas perguntando
— Onde estamos?
sem que lhes respondam nunca, a garganta de eu pequeno a chamar um
— Mãe
de criança numa aflição de medo em forma de lágrima, com os meus
olhos todos
(quantos serão?)
lá dentro, sentia um vibrar contrariado de colchão, uma lâmpada a
acender-se no fim do corredor empardecendo as trevas, a voz furiosa do
meu pai a tropeçar no sono, mais mastigada que dita
— O que quer agora aquele chato?
ele que de manhã demorava a estar de acordo com a vida, tropeçando em
consoantes que lhe desequilibravam a voz obrigando-o a amparar-se nas
vogais que em geral não aguentam o peso de modo que a minha mãe
sempre com medo, não conseguia apanhá-las com o chinelo
— Que maçada
ao rolarem para debaixo da cama
— Segura isso bem na garganta antes que um de nós escorregue ao pisá-
las
enquanto o meu pai as colocava, à cautela, na prateleira mais alta da boca
comigo a teimar
— Mãe
num suspiro onde nascia uma resignação humilde, a minha mãe deixando
um
— Francamente
em paz lá ao fundo entre palavras difíceis, prócere, palimpsesto,
eutanásia que, essas sim, são temíveis, qualquer enfermeiro conhece o
perigo de escorregar um prócere, felizmente os hospitais melhoraram e já
não se coxeia tanto com a maldade deles que dantes exigiam canadianas
eficazes, a minha mãe acabava por surgir no meu quarto no Namibe, em
que as ondas iam aumentando lá em baixo na praia
— Continuas com medo de ficar sozinho nunca mais cresces tu?
enquanto o meu pai torneiras zangadas ao longe
— Quem o mandou estar em África?
culpando o globo de lata amolgada e Angola cor-de-rosa que se mantinha
na sala porque o meu avô gostava de sonhar com países
— Não é bonito Tanzânia diz lá?
e tenho de confessar que Tanzânia é bonito como é bonito Malvinas, não
mencionando Círculo Polar Ártico, por exemplo, que inspira logo respeito,
o meu avô para mim
— Dizer moro no Círculo Polar Ártico não deve ser um orgulho?
isto uns meses antes dos popós goela abaixo, quando ainda tinha
opiniões, quando ainda mandava
— Se eu tivesse sido inteligente não morava em Lisboa morava em Adis
Abeba com uma porção de mulheres Adis Abeba já viste?
numa altura em que os colegas das cartas já não o queriam a jogar porque
trocava os naipes, apontando um dez de paus, indignado
— Como é que não é copas ceguinho?
a enganar-se na casa, a enganar-se no quarto, a falar cada vez menos, a
deixar de falar, olhando para nós sem conhecer quem éramos, chamando-
me
— Artur
chamando-me
— João
depois chamava-me só
— Quem és tu?
depois não me chamava nada, colocávamo-lo diante da janela, à noite, a
olhar a cruz da farmácia até que o meu tio
— Dá-me ideia que ele já morreu há dias
a olhar para a gente numa fixidez oca, do sítio onde morávamos viam-se
as dezassete gaivotas lá em baixo, o telhado do armazém junto aos barcos
que partiam descendo o Tejo sem pressa, como o mundo se torna lento
depois de nos irmos embora senhor, faltam-me os seus exageros e as suas
mentiras que se percebiam logo porque a sobrancelha esquerda a tremer
— Quando digo que era atriz era mesmo atriz compreendes?
seguido de
— E acaba-me com essa carinha que já me estás a irritar
aqui no Namibe sempre as mesmas vacas escanzeladas a caminho do sul,
com cascos enormes, os mesmos pretos sem pressa dado que o tempo não
acaba, o que não falta são horas e a vida, pensando bem, mais eterna que a
noite, as mesmas ondas paradas, de vez em quando camionetas meio
mancas, ao longe, para Bibala ou Quilembes, sempre um branco a dormitar,
de queixo na palma, numa cantina deserta, tudo suspenso aqui, tão sem fim
como os dias, a manhã vá que não vá, agora as tardes infinitas sob o calor e
as palmeiras, gente igual às peças de xadrez que quase nunca se movem, a
minha mãe para mim
— Se eu apagar a luz é que não te roubam porque não sabem que estás
a minha mãe
— Roubam-me a mim roubam o teu pai ficas tu para semente
sem saber ligar o esquentador, sem saber ligar o fogão, sozinho com os
retratos, madrinha Mécia, tio Belmiro, que não conheci nunca, a apontarem-
me a porta
— Não te queremos por cá
defuntos porque a película amarela e as caras confusas, quem és tu garoto
e eu quieto a chorar, na janela em frente um papagaio de pernas para cima,
pendurado do poleiro por uma corrente declarando
— Chamo-me Isidoro
pela curva do bico, acenda as lâmpadas todas, mãe, e não me abandone
sozinho, o meu pai lá dentro na sala
— Se o pequeno não dorme e fica na cama até às tantas vais amanhã à
escola por ele?
a palpar uma borbulha na testa que no seu caso era sinal de nervos, a
minha mãe que sabia de doenças
— Continua continua até apanhares um cancro
ou seja uma ferida que te vai comer todo, palerma, com os braços cheios
de soro, o médico já a pensar na autópsia e o chichi num copo
— Mostre cá amigo
sondas nas veias, um exame à cabeça porque a memória falha, que
número do mês foi sexta-feira, está a ver, já esqueceu enquanto a minha
mãe a pensar
— Que número foi sexta-feira de fato?
procurando relacioná-lo com os outros dias, lembro-me que na véspera
estive no dentista e qual a data do dentista meu Deus, estarei doente
também, recordo-me das sardas da empregada, recordo-me dele a tirar-me o
espelhinho da boca
— Isto não está famoso madame
a percutir-me aqui e ali com um gancho, a tirar-me radiografias metendo-
me coisas no interior da boca, até temos, palavra de honra, uma cárie sob a
gengiva a crescer-lhe aqui, necessitamos de fazer uns cortezitos e levantar
isto tudo, é preciso chegar lá, compreende, e apesar do susto o raio do
número não vem, vinte e qualquer coisa acho eu, vinte e seis vinte e sete,
não, dezanove, o médico para o meu pai
— Temos de fazer um estudo sério à cabeça
enquanto a minha mãe, esquecida do marido, pensava na urgência de um
exame seríssimo à sua cabeça, imaginando-se deitada numa marquesa com
uma bateria de exames complicados a fotografarem-na, a esmiuçarem-na, a
prepararem-na, a injetarem-na e piscar de luzes, vibrações, sacudidelas,
silvos, uma voz invisível, enrouquecida por um microfone
— Não se mexa agora
a tornar-se mais forte
— Não se mexa agora
a zangar-se com ela
— Eu disse para não se mexer agora não disse?
a diminuir num suspiro magoado
— Se todos os doentes fossem como a senhora já me tinha suicidado há
séculos
e mais um preto com duas vacas, armado com um aguilhão, este com um
boné que dizia New York, enodoado, a atravessar o Namibe perto da linha
de água onde búzios ou assim, umas pedritas, quase nenhuma alga ou seja
umas fitas castanhas, defuntas, por ali, sem que eu compreendesse se era ele
que cheirava como as vacas ou as vacas que cheiravam a ele, em todo o
caso os três a caminharem com as mesmas ancas ossudas e, lá em baixo, os
pés sem relação uns com os outros, desirmanados, lentos, a minha mãe ao
lado do meu pai mas a pensar em si mesma
— O que acha do meu marido senhor doutor?
a fim de medir através de outra pessoa a extensão da sua doença, a espiar
à socapa as enfermarias, doentes de roupão que chinelavam a custo como os
animais do Namibe, curvados por um mal interior que se multiplicava no
corpo, a minha mãe a interrogar-se em pânico para dentro
— Vou acabar como as vacas?
sentindo o corpo a esvaziar-se e um duplo queixo pendente, moscas que
tentou sacudir com a cauda até compreender que a não tinha, o que sempre
lhe permitia um fiozito de esperança, não muita aliás, eu disse claramente,
julgo, um fiozito de esperança, o meu avô, agora sempre de guardanapo
amarrado ao pescoço e nuca apoiada numa almofada torta
— Que tal vai isso rapaz?
a esquecer-se logo a seguir de mim mastigando silêncios, a minha avó,
baixinho
— Se caíres na asneira de lhe responder fica horas a maçar-te com
aventuras que ele acha que teve coitado
incluindo uma mulher polícia e uma contorcionista de circo a caminhar
sobre as palmas, de pernas atrás das costas e os calcanhares apoiados nos
ombros, olhando para ele numa careta de esforço que não conseguia
transformar em sorriso
— Isto custa
a subir um escadote de quatro degraus enquanto o apresentador, de
smoquingue prateado e lacinho, recomendava preocupadíssimo
— Não arrisque demasiado Marlene
e ela o tal sorriso semelhante a uma careta de agonia, conseguiu um
degrau, conseguiu o segundo o apresentador a cobrir os olhos com a manga,
de microfone a entrar-lhe na boca
— Não quero assistir à morte de quem considero uma filha
a contorcionista logrou o terceiro num berro lancinante enquanto o meu
avô para mim
— Agora imagina a competência dela na cama miúdo
sem que eu fosse capaz de imaginar pecados naquele caracol enrolado a
cintilar lantejoulas, ainda para mais com os olhos e os dentes todos de fora
enquanto o preto e o boné de New York diminuíam ao longe refletidos na
margem à medida que o meu avô batia na barriga
— Enche-me de popós menino
e devo ter enchido porque me lembro dele gordo, a ocupar o sofá numa
majestade contente, tenho saudades de Lisboa, palavra, embora com tantos
anos de África quase a tenha esquecido conservo algumas ruas, algumas
casas, os telhados de outubro quando já lua e sol ainda, o soalho da sala a
anoitecer primeiro, a minha tia a acenar para fora, a dar por mim e a corar
de vergonha
— Não é o que tu pensas
quando eu não pensava fosse o que fosse, ia à cozinha espreitar o jantar e
a amiga da minha mãe para a minha mãe
— Como ele cresce meu Deus
fazendo-as envelhecer com um suspiro
— Daqui a nada nós
e caladas a seguir, nunca aprendi fosse o que fosse até ao fim nem
conheci as palavras com que se acabam as frases, o meu avô colocava o
chapéu no bengaleiro e todos os dias me espantava com a calvície dele que
me fazia uma impressão horrível tocar, o que se sentirá com o dedo, de que
material é aquilo, o mesmo com as verrugas que simultaneamente me
repugnam e atraem, o meu tio tinha uma no lábio, tiraram-lha no posto de
enfermagem, e a cara de repente tão nua que me assustava para além da
vergonha de passear com ele, assim tão exposto, na rua, devia plantar lá
qualquer coisa, escondê-la com um bigode, não escandalizar quem o visse
despido de súbito, a única vez, por exemplo, que a professora da escola
tirou os óculos na aula senti vergonha por ela porque nunca tinha visto
ninguém tão indefeso à minha frente, palavra de honra, que nem roupa
trazia, percebia-se tudo ali diante de nós, a namorada com que andei não era
o gesto de se despir e dobrar a roupa que me assustava, era o momento em
que punha as lentes de contacto na mesa de cabeceira e a certeza que outra
pessoa, não ela, comigo, ganas de perguntar
— Quem é você?
porque de súbito uma estranha que não conhecia, com um sorriso
primeiro e um ar inquieto depois
— O que se passa contigo?
eo
— O que se passa contigo?
numa voz diferente, diz-me o teu nome verdadeiro diz quem és, conta-me
o que fizeste à criatura que estava comigo porque não te conheço, até os
teus gestos mudaram, até a voz diferente, a verdadeira nunca me perguntou
— Estás parvo?
com essa surpresa nas pestanas, a cor de olhos mais escura e boca
zangada, o peito diferente, os braços mais magros, a voz de súbito aguda
— Estás parvo?
que eu não conhecia, a zanga cheia de lágrimas com que me empurraste
— Sai daqui
impedindo-me de me aproximar eu que aliás não queria aproximar-me,
tentava calcular o tempo que demorava a apanhar a camisa, as calças, a
entrar nos sapatos que eu não conhecia e que por tua causa se calhar já não
me servem, aposto que a sola do esquerdo deixou de gemer, coitada, e eu
com saudades do som que até então me enervava, um passo normal, o passo
a seguir um ai e eu com vergonha, palavra, o dono da loja que mos vendeu,
sem entender
— Deve ter nascido assim com uma doença qualquer há sapatos assim
conforme há pessoas imperfeitas desde o início, com uma vesícula
preguiçosa ou seis dedos na mão esquerda, o padre a hesitar
experimentando um, experimentando outro
— Em qual se põe a aliança?
de modo que acabei por me ir embora num ruído infernal enquanto ela se
tapava com as palmas
— Que parvo
e a impressão confusa que um brilho de desgosto descia as bochechas,
empurrou-me com a voz quando hesitei na porta
— Estás à espera de quê?
num tom tão agudo que se me cravou numa nádega obrigando-me a um
pulinho para diante que me desequilibrou, o meu tio para a minha mãe,
vitorioso
— Não vos disse desde o princípio que ele não era normal?
a mostrar-me com o queixo o embaraço da família e é por essas e por
outras que ancorou no Namibe com uma albina, palavra, quem senão ele
teria a ideia de arranjar uma albina, ainda por cima não uma albina branca,
que já seria um susto, uma albina preta que é uma aberração sem fim, cheia
de manchas na pele, com uma órbita vermelha e a outra cor-de-rosa, quem
imagina isto, os dois sentados num cafezito que alguém idiota plantou no
deserto perto do qual volta e meia umas bezerras magríssimas e um
escarumba de calções a empurrá-las na direção de nada diminuindo ao
longe porque a areia eterna, com o mar de um lado e uma palmeira seca a
borbulhar do outro, numa lentidão sem fim dado que tudo sem fim naquele
lugar, são necessários meses para lhe chegar ao termo e no termo ninguém
salvo uns vitelos famélicos e uns mabecos perdidos, silenciosos, sem rumo,
somente as algas de uma margem que não existe e os mabecos estendidos a
fitarem-nos numa resignação imóvel perguntando
— E agora?
eles que dantes não tinham pena de quem quer que fosse, até crias de
hiena lhes serviam, até os mandris idosos, meio cegos, que os outros
abandonam sem remorsos numa colina de algodão onde os caules secos
restolham, e eterna ao pé de mim nos degraus do café a albina não me
tocando nunca, aceitando-me apenas conforme aceitou a maçaroca de milho
do quimbanda só que agora nem quimbanda nem cânticos nem mulheres em
torno nem o povo lá fora aguardando-a, nós dois apenas no cubículo atrás
do balcão, sobre a esteira que desenrolamos junto à janela para que uma
claridadezinha me permitisse ver-te, quer dizer mais adivinhar-te que ver-te
no cinzento esbranquiçado da noite, imitando a cor da tua pele que não se
aproxima nem afasta de mim, aguarda imóvel que eu te toque no peito,
aceitando-me como aceitaste o feiticeiro na Baixa do Cassanje, não com a
tua idade de agora, aquela que tinhas quando te comprei ao teu pai, e te
desfiz o nó do pano do Congo na raiz do pescoço e vi as cicatrizes do púbis
tatuado, os olhos abertos a mirarem o teto, as pernas afastadas, a boca
aberta a respirar sem pressa, eu para ti
— Sou eu
no teu ouvido, eu para ti
— Sou eu
de cara sobre a tua, eu para ti quase a gritar
— Sou eu
encontrando-te no interior de ti mesma e depois tudo confuso, entendes, o
que pensava o meu corpo, o que pensava o teu corpo nesta ruína perdida no
meio do Namibe, com uma única onda cor-de-rosa a aproximar-se mas não
chegando nunca, uma única onda translúcida que se estendia na areia junto
às vacas sem pressa que passavam lá fora, uma delas com um vitelo quase
encostado aos quadris procurando-a sem fim da mesma forma que te
procuro sem fim dado que tu, dado que eu, dado que nós dois não é
verdade, o meu tio virando-me as costas
— Tornou-se um preto este
e tem razão senhor, tornei-me um preto a sério, o governador de Malanje
— Se você não fosse preto agora nomeava-o para chefiar a circunscrição
de Marimba outra vez
isto é as mangueiras, a escola, as duas cantinas, o posto de socorros com
a balança avariada, dúzias de prateleiras com frascos vazios e o enfermeiro
coxo
(esqueci o nome dele)
a distribuir as pastilhas que sobravam enquanto eu me separava da albina
refugiando-me na minha metade da esteira, a minha mãe prevenia
— Vou apagar a luz do quarto agora não quero ouvir nem um som
e eu tentava escutar no fim do corredor os meus pais que conversavam
ainda, a minha mãe dava ideia que preocupada
— O que é que sentes aí?
o meu pai num tonzinho casual que não era casual
— Deve ter sido um jeito sei lá
ratos sob as telhas, lagartixas, ouriços, bichos pequenos assim, um
focinho de texugo, um pássaro equilibrando-se a custo numa pata quebrada
e um leproso sem um olho, o pobre, a tentar apanhá-lo, enquanto as cabras
iam roendo a liamba, o meu avô a apontar-me às minhas tias, orgulhoso
— No que respeita a mulheres saiu a mim o maroto
feliz por o seu sangue ir continuar muitos anos, a do circo para ele,
admirativa, a mirar-me de banda
— Saiu a ti esse jovem?
o meu avô a afastar-me um passo
— Claro que saiu a mim há mais alguém aqui perto que tenha sangue na
guelra?
à medida que a minha mãe apagava a luz e eu, cheio de medo, me
escondia sob os cobertores na esperança que ninguém viesse rondar-me
enquanto a voz do meu pai, cheia de urgências que eu não entendia
— É para hoje ou quê?
de modo que os chinelos da minha mãe a baterem com mais força contra
os calcanhares
— Já estou aí não vês?
cruzando-se, sem dar por eles, com os ciganos que me roubariam, um
deles um saco já com uma criança dentro porque lhe escutava os soluços, o
mar do Namibe mais transparente, mais lento, a contorcionista para o meu
avô, apontando-me o queixo
— Gostava de o conhecer melhor
o meu avô, feliz
— Trago-to para a semana se te portares bem comigo
e nenhuma vaca no Namibe agora, só o silêncio da noite, estrelas
minúsculas, geladas, sobre as nossas cabeças, o meu avô a aperfeiçoar o
casaco
— Se te portares bem comigo
enquanto ela lhe torcia a orelha
— Seu maroto
e a albina e eu estendidos lado a lado, de olhos abertos no teto, escutando
sempre a mesma onda que nunca chega a desfazer-se, forma-se muito ao
longe e avança para nós devagarinho, de uma ponta a outra do areal, com
uma segunda atrás dela e uma terceira atrás da segunda, todas infinitas,
pálidas, eternas enquanto sentia o ombro da albina a roçar o meu ombro e a
presença do joelho dela enquanto o cheiro da sua carne, tão diferente, ia
entrando em mim, enquanto a voz do meu pai para a minha mãe, no
extremo oposto do corredor
— Que me lembre é a primeira vez que ele adormece sem luz
e a minha mãe a perguntar
— Será que de repente cresceu?
sem entenderem que eu não sozinho nem em casa, eu na outra margem do
mar, sem armazém, sem gaivotas, sem guindastes, sem gente, eu no cafezito
em ruína tão longe de Luanda, tão longe do Cassanje, tão longe da guerra,
eu no globo amolgado, de lata, na prateleira da sala, no quadrado a que
chamavam Angola, a contorcionista para o meu avô, a sorrir-me
— Este teu neto é aquele que quer ir para África?
e era realmente aquele que queria ir para África, que viajou para África,
que desapareceu daqui, o meu tio a afastar a minha recordação com um
gesto
— Não vale um chavo sempre foi pateta coitado
enquanto a minha mãe apontava o meu quarto
— Afinal não se foi embora olha está aqui a dormir
e eu na cama, com seis ou sete anos, a olhar para ela garantindo
— Afianço que um dia destes volto do Namibe senhora
a tempo de ajudar no almoço de popós do meu avô, com a colher no ar
— O carro ainda cabe na garagem vai ver abra só mais um bocadinho o
portão da boca
e o meu avô, de guardanapo ao pescoço, feliz de estar comigo
— Deixo-te entrar porque gosto de ti
a mastigar que tempos, de queixo elástico, sem ossos, mostrando-me a
boca finalmente vazia
— Já está
a apertar a minha mão minúscula com a sua enorme, de olhos fechados,
quase a dormir, a dormir, prevenindo-me antes de desaparecer em si mesmo
— Não te esqueças miúdo que prometeste levar-me.
21
Não há dúvida que a tropa me pregou uma malandrice das boas, sim
senhor, raios a partam, quem não tem ganas de aplaudir em pé, iluminado
de felicidade e gratidão, tudo já pronto para o curso de altos estudos em
Lisboa, quer dizer a papelada em ordem, a casa dos Olivais desalugada, as
despedidas aqui em Angola feitas, a minha mulher e eu de malinhas
fechadas, que pesam sempre muito mais do que parecem, quem meteu
chumbo lá dentro mas as dores nas costas ficam para os soldados que as
carregam até ao jipe se lembrarem durante uns dias de nós, a esfregarem
creme nos ossos, a eterna sensação de que esquecemos, num fundo de
gaveta ou num canto de armário, qualquer coisa vital que um último exame
apressado não descobre, o fato de não descobrir transforma a sensação em
certeza e a certeza inquieta-nos, a visita da esposa do general, combinada
para dali a dois meses, na altura de um exame mais minucioso às glândulas,
adiada, ela que ultimamente engordou, olha este rabo, estas coxas, nada me
serve já, tudo me aperta, dois meses uma eternidade que não sei como
— Ai querida
vamos aguentar até lá, com os olhos de cada uma de nós fundidos nos
olhos da outra e nisto o comandante chefe daqui, de certeza mais decidido
que os patetas em Lisboa, a alterar tudo à última hora por intermédio de um
major embaraçado, que as chatices cabem sempre aos inferiores, é para isso
que eles servem
— Peço desculpa meu coronel mas são ordens só me avisaram agora que
o mandasse seguir de imediato para as Terras do Fim do Mundo
porque no estado em que o leste se encontra, com os pretos a entrarem
constantemente pela Zâmbia não direção do Huambo, necessitamos de um
adjunto enérgico visto que quem lá tem estado é brando demais na opinião
daqueles que decidem, um militar sério e honesto, isso fora de dúvida, mas
quando se torna necessário cortar a direito, e no Exército é fundamental
cortar a direito, volta e meia hesita e hesitando, desculpe querer ensinar o
Padre Nosso ao vigário, perdeu, fica-se para ali de mão no queixo a medir
os prós e contras, e se a gente isto, e se a gente aquilo, de modo que ao
decidirem se tornou tarde demais, perderam-se viaturas, perdeu-se pessoal,
perderam-se aldeias, corre-se atrás do prejuízo e correr atrás do prejuízo,
perdoe dizer evidências que o meu coronel conhece melhor que eu, nunca
deu resultado, não há manual de estratégia, até para cadetes, olhe, que não
deixe isso claro, quando a generalidade se transforma em patetice temos
logo o caldo entornado que só se apanha com a língua e suja o queixo e as
bochechas, a minha mulher a ouvi-lo em silêncio pensando na ausência da
outra arregalando-se de fúria, nunca imaginei que um par de olhos se
pudessem amarrotar assim, despedaçando-se de zanga numa facilidade de
trapos, enquanto para mim um indicador espetado, mais duro que um pau
— Não te atrevas a tocar-me ouviste bem o que eu disse?
de canino a faltar-lhe porque a gengiva rejeitou o implante ou seja um
dinheirão para o boneco e adivinhem quem pagou, o médico arranjou-lhe
uma ponte móvel mas os ganchos não conseguiram prender-se aos dentes
de suporte de modo que estava sempre a empurrar aquilo num estalido de
encaixe que me dava cabo dos nervos, podes não acreditar mas há alturas, a
meio da noite, em que te confundo com a amiga do general de Malanje e
me apetece, sei lá porquê, abraçar-te apesar do teu corpo sem graça e do
calcanhar que me afasta
— Nem sequer posso dormir?
magoando-me a canela, a mim a quem apetecia escutar
— Filho
e a minha mãe, com um copo de leite, debruçada para mim
— Não tens fome menino?
invisível no escuro mas a voz dela, a palma na minha testa ou a amiga do
general a sacudir-me devagarinho
— Estavas a chamar?
e não estava a chamar, escutava a professora impaciente comigo
— A frase assim perde o nexo falta uma vírgula aqui
e que difícil, que complicado viver, o meu pai um barulho lá ao fundo
— O miúdo está bem?
e a minha mãe a endireitar-se para o corredor porque o meu pai a
chamava estalando uma tábua da cama
— Já vou
e claro que estou bem senhor, não se preocupe comigo, amanhã escrevo
do leste a contar maravilhas, na próxima ida a Portugal fico na vossa casa,
no quarto onde dormia em pequeno e vamos ter tempo para conversar, dar
uma volta por aí, ser felizes por mais que o médico diga ao meu pai
— É o pâncreas
e não há problema nenhum, aos setenta anos, compreende, não existe um
órgão sem caprichos de coquete no interior da gente mas daqui até à morte,
meu Deus, que pensamento absurdo, nem sonhem que deixo que vos
sucedam maçadas, nessa altura já devo ser general, uma criatura importante
a quem todos obedecem, previno logo o doutor
— Olhe que quero o meu pai em forma amigo
a espalmar-lhe a mão no ombro
— Quero o meu pai novo em folha
e o meu pai a acreditar em mim porque o meu filho manda na tropa e nos
pretos, se por acaso a professora
— Vírgula aqui menino
levanta um olho severo
— De vírgulas sei eu
e a professora a recuar de imediato, concordando
— É verdade
tudo lhe obedece, percebe, por isso é que há generais e o mundo nos
carris, quem se atreve a desafiá-lo nesta vida, a minha mulher acerca de
mim para os meus pais, ela tão diferente agora
— O vosso filho tem sempre razão
é evidente que já esquecida da amiga, a compreender as coisas, as duas
margens do mar iguaizinhas, aquele homem, com uma mulher de cor
estranha, a admitir
— É verdade
uma outra que vive com uma preta na margem de lá, a perguntar à
senhora da casa a seguir
— Conheceu por acaso algum general que não saiba tudo?
e expulse os caranguejos, apavorados com ele, num gestozinho breve sem
necessitar de palavras, o gestozinho apenas e tudo bem, tudo bem, nenhum
de nós morre descansem, permanecemos vivos para sempre, o médico para
o meu pai
— Afinal o seu pâncreas não tem doença nenhuma
e a minha mãe tão contente
— Fernando
enquanto o meu pai de pijama na sala, lhe sorria feliz, apontando-me
— Tivemos sorte com ele
e claro que tiveram sorte comigo, tudo se conserta, se arranja, tudo em
ordem senhores, a minha mãe agradecida
— Vou fazer-te uma sopinha
soprando cada colher
— Não queima a língua pois não?
e não queima a língua descanse, vírgula aqui já agora, não queima a
língua quem quer, Angola em paz porque eu disse, os escarumbas,
obedientes
— Patrão
a francesa, maravilhada
— Que homem
o general de Malanje
— Você pôs tudo nos eixos
a minha mãe, orgulhosa
— Posso apagar as luzes da sala porque já não tens medo pois não?
comigo com um bocadinho de medo mas a concordar com ela
— É evidente que pode senhora
de início ainda tive receio mas depois receio algum, uma ou duas vezes
pensei chamar
— Pai
a fim de ter a certeza que eles ali mas compreendi que sim por um suspiro
do colchão, a vida que as coisas inanimadas têm, meu Deus, de modo que
sosseguei logo, fechei os olhos e pronto sem me esconder nos lençóis a fim
de que os ciganos não dessem por mim e não era preciso, mesmo que
dessem quem se aproximava de nós, eles uns para os outros
— É o general cuidado
não general ainda, general daqui a pouco logo que acabe o curso mas
para todos os efeitos quase general agora, o comandante das Terras do Fim
do Mundo para mim
— Ocupe-se você dos pretos que está mais a par desses assuntos que eu
indeciso, pequeno, tímido, com uma mulher mais nova que a minha,
diziam que filha da empregada em Portugal, não sei, a mulher do general
morreu, acho que vírgula aqui, e a empregada meteu-lhe a rapariga, em que
o general nem reparava à frente, uma ocasião, quando se deitava, tantas
vírgulas aqui não é, encontrou-a estendida na cama dele à espera a sorrir-
lhe, o general atrapalhadíssimo
— Deito-me não me deito
com a ideia da finada a culpabilizá-lo, ainda há uma semana aqui a tinha,
o que faço agora com esta, o general sem entender muito bem
— É o meu quarto não é?
a olhar a cômoda com o retrato da esposa, a abrir os armários com a
roupa da esposa, a cheirar a tampa de um frasco de perfume com o cheiro
da esposa, a perguntar numa voz que não reconheceu como sua
— Tenho ideia que costumo dormir neste sítio
enquanto a filha da empregada o seguia em silêncio até que a boca dela a
crescer, a crescer
— Descanse que há espaço para continuar a dormir
e de fato continuou a dormir ali porque um braço mais forte que o seu o
puxou devagarinho, porque o início de um decote com laçarotes o obrigou a
inclinar-se para a frente, porque um corpo mais enérgico o puxou para cima
do colchão, porque um joelho a prendê-lo, porque um relento a província,
mas com densidade de carne, a algemá-lo sem pressa, a lembrança da
mulher apareceu e desapareceu, tornou a aparecer e desaparecer mas mais
difusa, mais vaga, a minha mãe para o meu pai no quarto duas portas a
seguir
— A esta hora já ele dorme ferrado anda cá meu herói
umas vezes meu herói, outras vezes meu tigre comigo deslizando para o
fundo de um poço onde o início de um sonho começava a nascer até que a
minha mãe de pé ao meu lado
— Estás a dormir há séculos parece que queres chegar tarde à escola não
é?
e não queria chegar tarde à escola, só queria continuar um sonho onde a
vizinha de cima levantava de repente a saia ordenando-me
— Olha isto
que por culpa da mãe não cheguei a perceber o que era, havia de demorar
até aos quinze anos para dar fé do que tinha sido e tinha sido uma espécie
de sonho turvo, um nada esquisito de que os colegas falavam mirando-me
com desprezo
— Já experimentaste palerma?
e experimentar o quê, como, o que se sente durante, o que se sente
depois, a messe de oficiais do Luso metade da messe de Malanje, cadeiras
desconfortáveis, uma ordenança pouco limpa a servir bebidas atrás de um
balcãozito de fórmica, uma mesa de bilhar que parecia inclinada, os pilotos
de helicóptero sul-africanos muito maiores que nós, com fatos macacos
diferentes, a conversarem numa língua que nunca ouvira, obrigando os
pelotões a saltarem sobre uma aldeia, a cinco metros do chão, e fugindo no
sentido do rio, catangueses de lenço vermelho ao pescoço que batiam a
mata a gritar, serviam-se de cafecos de sete anos abrindo os camuflados e
puxando-os à força dos quimbos, o general para nós
— Há qualquer problema que não faço ideia o que seja a passar-se em
Lisboa
mensagens, cartas, reuniões, conversas, há quanto tempo não vejo o mar,
senhores, a mulher do general de Malanje adiou a visita porque uma
maçada nos ovários e uma consulta em Luanda que se transformou numa
consulta em Lisboa, telefonou uma ou duas vezes nas semanas seguintes
— Vão ter de operar-me sabias?
os olhos da minha mulher, que não me procuravam há séculos, vírgula
aqui, perdidos em mim, uma ocasião acordei com a mão dela a segurar a
minha
— Ajuda-me
numa voz parecida com a de quando namorávamos, a mãe da minha
mulher, por seu turno, passou a falar por um tubito que custava a entender,
soprando sílabas gigantescas sem nenhum ruído dentro, apenas bolhas de
vogais imensas que flutuavam em torno da boca e o meu sogro a tentar
decifrá-las interpretando os olhos saídos
— Diz que está melhor hoje
embora o corpo mais magro, a hesitar nos passos primeiro e estendida na
poltrona depois, a medir-nos a todos numa pergunta que se me afigurava
— Porquê?
e cuja resposta não lhe interessava saber, alheada de nós a flutuar
longíssimo, a minha mulher baixinho
— Já não existimos para ela pois não?
visto que nos fitava sem se demorar em ninguém rodeada de estranhos
que não lhe interessavam, de vez em quando respondia com um
— Quem são vocês?
assistia ao tempo alheada de tudo, com um ou outro sopro pelo tubinho
do pescoço até que sopro nenhum, a pálpebra do lado direito mais descida e
pronto, o meu sogro deitou os primeiros torrões para a cova enquanto o
irmão o equilibrava segurando-lhe as costas e a minha mulher, de braço
dado comigo, me cravava as unhas na manga de modo que ainda hoje penso
— Acho que gostei de ti
ou
— Acho que gosto de ti
porque tanto faz não é, o que é gostar afinal, quem me responde a isto, da
única ocasião, há uns anos, ainda estava em Malanje, em que fui ao Namibe
para conhecer o deserto, dei com um café mal amanhado frente às ondas
que não acabam nunca e aos pretos quase nus que passavam com vacas
magríssimas a caminho de nada e no café um homem sentado nos degraus
que foi chefe de posto na Baixa do Cassanje, acompanhado por uma albina
que se ocupava de uma lavrazita de mandioca nas traseiras, a
acompanharem em silêncio a ausência de ruído da água nesta margem do
mar, sem olharem para mim quando me fui embora e o homem, percebia-se
pela fala, nascido em Portugal, não aqui, mas que de certeza não voltaria a
Lisboa, ia permanecer o resto da vida a olhar as palmeiras debaixo deste
céu sem limites enquanto a família, quem sabe, continua à sua espera
julgando ouvir passos na escada, é ele, mãe, é ele e a campainha um sorriso,
um globo amolgado de metal, um quadradinho cor-de-rosa junto ao azul do
mar, se ampliássemos aqui viam-se barcos, pássaros, traineiras de pesca, as
palmeiras da margem, no Namibe nem palmeiras nem barcos, a albina
somente, de olhos imóveis, quase sem respirar, sem respirar mesmo, para
quê respirar, de que serve respirar, de que serve estar vivo, eternamente à
espera, enquanto os pretos da Zâmbia continuam a entrar em Angola pelas
aldeias desfeitas e as cicatrizes do napalm na mata, que utilidade tem
África, se eu fosse Deus o mar só possuía uma margem e o mundo acabava
em Lisboa, com este sol barato que se confia a qualquer vendedor
ambulante, deixavam-se os angolanos aqui, a morrerem de fome que é a
ocupação deles, e nós a envelhecermos em paz ou a limparmos os retratos
nos cemitérios para que os mortos mais contentes com o mundo, a mulher
do general de Malanje, entre a clínica e a cama em casa, de tempos a
tempos uma carta de caligrafia cada vez mais difícil e de frases cada vez
mais confusas, esquecida das vírgulas, a minha mulher ainda telefonou mas
a enfermeira disse que não podia chamá-la, parece que ela conversava em
palavras sem nexo no gênero da mãe do meu pai que se calhar nem ela
mesma entendia, é tão rápida a vida, como tudo se desgasta e se distancia,
mais uns anos e o mar nenhuma margem e pronto, os pretos cada vez mais
perto do planalto do Huambo expulsando-nos daqui, pergunto-me se ainda
haverá a rua das putas em Malanje, ao menos, se a minha mãe não viesse
acender o candeeiro do meu quando e eu a fingir que dormia, informava o
meu pai
— Já não tenho medo do escuro
e de fato, quase general, tenho mais medo da luz que só me mostra a
passagem do tempo e as rugas que a morte me inscreve na cara, o meu pai
que agora, quando tossia, a minha mãe logo
— Tens de ver essa tosse
enquanto ele com medo
— Não quero
a afastá-la com os braços, outrora sempre tão delicado
— Não quero
enquanto a minha mãe o obrigava a chupar os rebuçados da farmácia
— São de mentol e açúcar não fazem mal a ninguém
embora ao desembrulhá-los o papel crepitasse estrondos sem fim, ele
tardes e tardes em silêncio a olhar os próprios dedos
— Tive uma vida bera
e não tente enganar-se porque teve, paizinho, o cansaço ao fim do dia, o
ordenado minúsculo, a úlcera no duodeno a falar por si volta e meia, isto é
um
— Ai Jesus
mais suspirado que dito e a botija de água quente que não acalmava a
barriga, o que se passará aqui dentro que até a alma me dói, a minha mulher
menos difícil, já nem sequer me enxotava, esquecida de odiar-me, mais de
uma vez, palavra de honra, um
— Querido
inesperado, ainda tentamos uma ou duas ocasiões mas o meu corpo
falhava, de início parecia corresponder e logo a seguir desistia, eu um
— Perdoa
de boca na almofada a morder a vergonha, ela a virar-se para o outro
lado, animando-me
— Há de voltar de certeza
eu
— Se continuar a pensar nisso é que não volta mesmo
até com a mão, às escondidas, até na rua das putas em Malanje, uma
ocasião em que lá fui preparar um contra-ataque, não com uma preta, uma
branca dos Açores que não se compreendia porque as vogais esquisitas
— Aparece amanhã com dois tintos no bucho
tomei os tintos para me alegrar
(não me alegrei)
e não deu, experimentei na esplanada, de dedos nos bolsos das calças, e
nenhuma resposta, comigo a compreender que principiava a transportar a
minha agonia em mim, a gente vai falecendo aos poucos, não é, sobra
esquecimento e sono, as perninhas que falham, descer as escadas, por
exemplo, com a mão na parede e uma atenção aos degraus que dificulta a
marcha, o meu pai surpreendido
— Queres ser tropa tu?
o general para mim, a mudar bandeirinhas no mapa
— Felizmente temos conseguido que os escarumbas acalmem
mas qualquer coisa em Lisboa porque os tenentes e os capitães aos
cochichos nos cantos, havia papéis entre os oficiais, discussões em voz
baixa, menos respeito por nós, o chefe da polícia política para mim
— Já viu esta circular?
e eu sem entender, a tosse do meu pai afinal outra coisa, um brônquio ou
assim, a minha mãe ao telefone
— Ele emagreceu e anda rouco
a minha mulher a acalmar-me
— Estás farto de saber que a primavera e os velhos nunca se deram bem
e sem me chamarem para o curso em Lisboa, devem estar à espera que
morramos todos aqui e acabem de vez as despesas com a tropa, o meu pai
para a minha mãe no hospital
— Diz ao miúdo que me sinto bem isto vai
a minha mãe a escrever
— Isto vai
e eu sabendo que mentira, o homem do Namibe
— Se eu pudesse ir-me embora
e não vai porque África nos agarra pelas tripas, não deixa, há de passar o
resto da vida a olhar vacas e ondas, de vez em quando uma barraca caída,
de vez em quando uma palmeira a morrer que se ia inclinando, inclinando,
as nossas companhias à espera nas Terras do Fim do Mundo e os
guerrilheiros vindos da Zâmbia a passarem por nós, quando muito
ouvíamos o ruído do próprio sangue nas têmporas, a minha mãe comprou
uma camisa de dormir com rendas e folhos, porque o médico deixou o meu
pai passar o fim de semana em casa e ela foi ao cabeleireiro arranjar-se, até
as unhas, até os pés, até o cabelo tingido e um penteado novo, o meu pai
apoiado a ela pelos degraus acima
— Tão linda
a esquecer-se um momento da fraqueza e das dores, aposto que até à
noite preso ao som dos saltos da minha mãe nos degraus, fechava os olhos
no travesseiro e lá estavam eles outra vez, a minha mãe foi para a cama
calçada e a excitação do velho, palavra de honra
— Não imaginas a quantidade de sábados em que sonhei com isto
comoveu-me, as pernas tão bonitas, os peitos dos pés, as coxas e depois a
pintura, e depois o sorriso, e depois nos olhos dela o que ele pensava que
alegria e lágrimas apenas que ela ia agarrando não nas pálpebras, sobre a
cor das íris, o meu pai para a minha mãe quando ela o beijou
— Achas que o miúdo não ouve?
esquecido que eu em África e todavia atento ao meu quarto onde eu à
cata do corredor porque as paredes negras, a minha mãe a tocar-lhe
devagarinho aconselhando-o
— Deixa o rapaz e pensa só na gente
e portanto esqueceu o hospital, a doença, noites sem fim, até que uma cor
lenta na janela, pálida, fraca, tão inútil quanto ele, a minha mãe a custo,
porque a aflição lhe estreitava a garganta
— Amor
enquanto escondia a cara na fronha para que o meu pai não ouvisse, nem
a ela nem aos pretos da Zâmbia que iam aumentando com estrangeiros entre
eles e armas novas e botas, o meu pai para si mesmo
— Acho que sou capaz
num suspiro contente enquanto adormecia sem lhe ter tocado como sem
dar pelos tiros, os aviões, os gritos, um pássaro qualquer numa sanzala
próxima que chamava, chamava, o meu pai a desculpar-se envergonhado
— Desculpa demorar mais tempo mas já não sou muito novo
as unhas dele tão cinzentas agora, as orelhas translúcidas, a voz a
tropeçar nas palavras
— Não mudamos assim tanto pois não?
e a minha mãe de testa contra a sua
— Estamos melhor agora
comigo, apesar das Terras do Fim do Mundo, a sossegar finalmente, a
minha mãe tão nova, o cabelo do meu pai tão preto, o pijama cobria-lhe a
ausência de músculos e os ossos saídos, os tornozelos inchados lá em baixo,
a usura da pele
— Marota
e não precisa de me escrever, já escutei tudo, já sei, vamos ficar os três
que tempos, disso tenho a certeza, mesmo que uma rajada, uma mina, uma
saltadora, ponha mais vezes essa camisa com folhos senhora e essas rosas
de tule, não ficava mal um casaco prateado para ele estrear no domingo a
fim de passearem na avenida como dantes, vendo lá à frente, à direita, esta
margem do mar, enfiava o braço no braço do meu pai e eu atrás de vocês,
todo vaidoso, contente, com vontade de os mostrar aos pescadores e aos
aleijados dos triciclos
— Sou filho deles sabiam?
o filho deles que às vezes acompanhava os soldados no mato explicando
baixinho aos telhados para que os turras não ouvissem
— Os meus pais obrigavam-me a apagar a luz na esperança de me
tirarem o medo
e os pretos, simpáticos comigo, a pararem por educação enquanto
— Ai sim?
e um sem recuo disparava sobre as árvores que perdiam ramos, folhas,
bichos miúdos que tentavam fugir, sobrava o meu pai a sentar-se na sala ao
voltarmos do Tejo, não sei porquê tão pálido
— Dá-me ideia que estou um bocadinho cansado
e a minha mãe a enfiar-lhe os pés num alguidar de água morna, já sem
sapatos, descalça, com o roupão desbotado do costume em lugar de vestido,
diferente sem maquilhagem, com uma prega aflita na testa como se
fôssemos morrer quando a gente não morre, senhora, com a tropa que aqui
temos, e a bazuca, e os lança-foguetes, são só os pretos que pifam, vêm da
Zâmbia para o planalto do Huambo, pensam eles, quando na realidade vão
ficando por aí de bruços na terra, o meu pai a sorrir-lhe
— Não me tragas outro copo de água que já estou bem rapariga
e mais animado de fato, com uma corzinha na cara embora as olheiras
continuassem mas quem não tem olheiras aos cinquenta não é, vinte anos
toda a vida nenhum médico dá, mas quando me pisca o olho a insistir
— Estou bem
disfarçando caretas fica igualzinho ao sujeito que conheci quando era
pequeno e escondia atrás das costas um presente barato, a desafiar-me lá de
cima
(era enorme você)
— Se adivinhares o que tenho aqui dou-te
e não um morteiro nem uma metralhadora nem um lança-foguetes porque
o tchuca-tchuca, tchuca-tchuca, tchuca-tchuca do motor dos pulmões cada
vez mais intenso, mais forte, mais próximo de modo que a minha mãe
preparou o mais depressa que pôde uma muda de roupa abrindo e fechando
gavetas, procurou um guarda-chuva porque por vezes, mesmo em julho, as
nuvens mudam de ideias, o meu pai para ela, a levantar-se devagarinho
porque ainda havia um incômodo
(a desfazer-se, claro)
num sítio que não sei bem do seu corpo, o meu pai para nós
— Não podemos fazer o comboio esperar toda a vida pois não?
já com os outros passageiros, nas molduras dos retratos dos parentes
mortos, instalados à nossa espera lá dentro
— É para hoje preguiçosos?
até a bisavó Alice, até o primo Nivaldo, contentes de partirmos, contentes
pelo passeio, contentes de almoçarmos sanduíches à beira de um pinhal, o
vizinho Custódio, que era como se fosse da família, a assobiar uma valsa,
os pretos que vieram da Zâmbia, tão amigos, a acenarem da mata
— Esperamos aqui por vocês
e a gente a acenar também porque só nos matamos uns aos outros daqui a
quatro ou cinco horas quando, tão felizes, já tivermos voltado.
Revisado por Joroncas, apud António Lobo Antunes,
A outra margem do mar, 1ª edição,
Publicações Dom Quixote, Alfragide - Portugal, 2019.