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O Corpo enquanto “Primeiro” Território de

Dominação: O Biopoder e a Sociedade de Controle


Marcos Leandro Mondardo
Universidade Federal da Grande Dourados

Índice biopoder. Assim, compreender que os cor-


pos são territórios e, em que, a ordem espa-
1 Introdução 2 cial burguesa impõe sua maneira e sua forma
2 Considerações Finais 9 destes se movimentarem e se moldarem
3 Referências 10 dentro de limites estabelecidos e impostos
através de uma nova política de controle
Resumo sócio-territorial, o biopoder. Através da so-
ciedade de segurança o controle do tempo
Desde os primórdios o corpo foi neces- e do espaço dos corpos dos trabalhadores
sariamente o “primeiro” território de con- tendência à busca em legitimar e “natu-
strução das relações e, portanto de domi- ralizar” a ordem espacial e territorial bur-
nação e controle dos indivíduos. Contudo, guesa e, portanto, estatal das relações dos in-
à medida que a sociedade disciplinar dos divíduos. Os “indivíduos-corpos” são con-
corpos-indivíduos dos séculos XVII e XVIII trolados enquanto territórios de apropriação
se transformou em sociedade de controle de (pelo consumo e status) e dominação (con-
massas de corpos nos séculos XIX e XX, trole, disciplina e coerção), imposto muitas
esta passou a desenvolver uma nova forma vezes pelo ordenamento/disposição espacial
de dominação e controle do território-corpo do Estado em relação aos indivíduos e da so-
desenvolvendo-se o biopoder, ou seja, o con- ciedade burguesa em função das relações de
trole/agenciamento da vida. Nessa perspec- disciplinarização territorializadas.
tiva, buscamos analisar aqui a mobilidade e
o controle territorial dos corpos, exercidos
especialmente pelo Estado, através de suas Abstract
instituições de ordenamento e de coerção Since the early days the body was necessar-
socioespacial. A discussão nesse aspecto ily the first area of construction of relations
aponta perspectivas de autores que refletem, and hence of domination and control of in-
direta ou indiretamente, sobre o corpo en- dividuals. However, as the disciplinary so-
quanto espacialização de modos de vida e de ciety of individuals, bodies of the XVII and
território marcado de relações de poder e de XVIII became a society of control of masses
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of bodies in the XIX and XX centuries, it alma. Desde então foi fácil considerá-
has developed a new form of domination lo uma instigante fronteira a ser vencida,
and control of the territory-body-building the explorada e controlada.
biopower, or control/agency of life. From
this perspective, we analyze here the mobil- Corpos de passagem -
ity and control of the territorial bodies, es- Denise Bernuzzi de Sant’anna
pecially exercised by the State, through its O corpo está no centro de toda relação
institutions of planning and socio coercion. de poder.
The discussion in this respect shows perspec-
tive of authors who reflect, directly or indi- (PERROT, 2005, p. 447)
rectly on the body as a space of ways of life
and territory marked the relations of power Desde os primórdios o corpo foi nec-
and biopower. So, understand that the bodies essariamente o primeiro território de con-
are and territories in which the bourgeois or- strução das relações e, portanto de dom-
der space requires its own way and his way inação e controle dos indivíduos. Con-
of moving it and shape it within limits es- tudo, à medida que a sociedade de disciplina
tablished and imposed by a new policy of dos corpos-indivíduos dos séculos XVII e
social and territorial control, the biopower. XVIII se transformou em sociedade de con-
Through the security company to control the trole e segurança de massas de corpos nos
time and space of bodies of workers tend to séculos XIX e XX, esta passou a desen-
legitimize the search and “nationalize” the volver uma nova forma de dominação e con-
bourgeois order and territorial space, and trole do território-corpo desenvolvendo-se o
therefore state of the relations of individu- biopoder, ou seja, o controle/agenciamento
als. The "people-bodies" are controlled ter- da vida.
ritories as of ownership (by the consump- Nesse sentido, buscamos especialmente
tion and status) and dominance (control, dis- demonstrar aqui algumas das formas de con-
cipline and coercion), often imposed by the trole e dominação dos “indivíduos-corpos”
planning/provision of the state space for in- entre os séculos XVII a XX, através de práti-
dividuals and the bourgeois society in terms cas e de formas sociais do controle do corpo
of relations territorialized of disciplining. através de estratégias de dominação e do
estabelecimento do biopoder: o poder de
controle sobre a vida. Objetivamos apreen-
1 Introdução
der elementos através da relação corpo e re-
Foi necessário transformar o corpo num lação com a perspectiva do território que im-
território privilegiado de experimen- põe fronteiras de domínio e disciplinariza-
tações sensíveis, algo que possui uma ção; disciplina do corpo e fronteiras de agen-
certa inteligência que não se concentra ciamento das relações; mobilidade do corpo
apenas no cérebro. Foi preciso libertá- e controle territorial das relações através da
lo de tradições e moralismos seculares, sociedade de segurança.
fornecer-lhe um status de prestígio, um Neste sentido, entendemos que o controle
lugar radioso, como se ele fosse uma dos corpos se dá para controlar a forma de

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produzir as relações e, portanto, a própria di- cas cotidianas da vida dos “sujeitos-corpos”
reção que a vida dos seres humanos toma. que se tornam territórios. Estes territórios
Para o controle do território são controla- estão ligados, fundamentalmente, a partir da
dos os corpos, para o controle das massas idéia de ordenamento, isto é, da ordem es-
controla-se a vida através do biopoder. pacial burguesa do controle dos corpos, pelo
controle dos objetos e das práticas cotidianas
1.1 Da sociedade disciplinar a dos “sujeitos-corpos”. Para Moreira (2002,
p. 49), “Toda sociedade funciona por meio
sociedade de controle: o de mecanismos de ordenamento determina-
biopoder e controle do corpo dos. É isto o arranjo do espaço. (...) O or-
enquanto “primeiro” denamento se faz por meio da regulação, que
território de dominação aparece na forma da regra e da norma”1
A mobilidade dos corpos, portanto, se
O corpo como elemento material e inerente à torna muito importante enquanto estratégia
existência dos seres humanos, sempre foi de de controle de indivíduos ou grupos destes, a
fundamental importância para a produção e partir, da ordem burguesa, como através das
reprodução espacial. Assim, o corpo é pro- leis do Estado (LA BOÉTIE, 1982, p. 52), e
duto e produtor das relações sociais e terri- do controle territorial das empresas sobre os
toriais. O corpo é um elemento sui generes trabalhadores, isto é, da classe-que-vive-do-
nas relações sociais estabelecidas sobre uma trabalho (ANTUNES, 1999, p. 32).
base material, isto é, a terra. Nestes aspec- A classe social trabalhadora é controlada
tos, o corpo é elemento que cria relações, pela classe burguesa através das estratégias
cria espaços e é espaço em constante movi- do Estado pelas leis, pelas imposições, pela
mento, vida e reprodução das relações. Cria- força e pelo controle do tempo social dos
se criando espaços. Ao mesmo tempo em trabalhadores. Pelo controle dos corpos das
que cria seu espaço de vivencia “está se pessoas através do seu tempo é que estas
criando” espacialmente. organizações podem controlar os territórios
A partir disso, o corpo criador de relações (RAFFESTIN, 1993, p. 22). Os espaços são
e de espaço, re-cria relações de poder e, a controlados através de relações de poder, que
partir destas, cria relações políticas, criando podem se expressar concretamente a nível
recortes no espaço que se constituem ter- político, econômico e simbólico formando e
ritórios. Como afirma Moreira, (2002, p. 53) (trans)formando os “territórios-corpos”. Es-
“o território é um recorte espacial. (...) É o
1
espaço de poder de um corpo, é o ponto de Moreira neste sentido, faz uma distinção entre
regra e norma. “Diferem na regulação a regra e a
referência da regulação e da hegemonia no
norma. A regulação é a prescrição do controle, feita
plano global do arranjo (...) Cada recorte ter- através da regra e da norma. A regra diz o que deve
ritorial é um plano de domínio, pluralizando e não deve ser feito, define e qualifica valores me-
o poder dentro da sociedade e do Estado”. diante os quais se orientam os movimentos e a dis-
Assim, estes territórios de poder são, tanto tribuição dos lugares no espaço. (...) A regra age pela
sanção e o interdito, a norma pelo discurso” (MOR-
o corpo que se torna território, como tam-
EIRA, 2002, p. 54).
bém, a espacialização dos modos, das práti-

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tas formas, podem ocorrer multifacetadas como “naturais” e para o “bem comum” da
e/ou imbricadas buscando manter a ordem sociedade.
burguesa (MOREIRA, 2002, p. 50), e, desta Deste modo, o poder de controlar os ter-
maneira, através da servidão dos corpos, ritórios e as formas de territorialização dos
pela maneira de se deslocar, de se movimen- corpos se dá a partir da mobilidade e da i-
tar sobre os variados espaços, ou, até mesmo, mobilidade. Tanto na mobilidade os cor-
na im-possibilidade e/ou na i-mobilidade ter- pos devem ser controlados, quanto na i-
ritorial. mobilidade os mesmos devem ser pensados
Nestes aspectos, o poder assume através estrategicamente para o controle, a domi-
do ordenamento territorial uma importância nação. Por isso, a mobilidade é definida de
estratégica e coercitiva no controle, pois: acordo com Lévy (2001, p. 1), “como a re-
lação social ligada à mudança de lugar, isto
A ação sobre o corpo, o adestramento, é, como o conjunto de modalidades pelas
a regulação do comportamento, a nor- quais os membros de uma sociedade tratam a
malização do prazer, a interpretação do possibilidade de eles próprios ou outros ocu-
discurso, com o objetivo de separar, parem sucessivamente vários lugares”.
comparar, distribuir, avaliar, hierarquizar, Neste sentido, a mobilidade vinculada ao
tudo isso faz com que apareça pela poder de controle dos corpos, isto é, do con-
primeira vez na história esta figura singu- trole do espaço, e assim dos inúmeros ter-
lar, individualiza – homem – como pro- ritórios, se dá de forma estratégica, pois,
dução do poder (FOUCAULT, 1985, p. “O poder possui uma eficácia produtiva,
20). uma riqueza estratégica, uma positividade.
E é justamente esse aspecto que explica o
Portanto, a ação do poder sobre o corpo fato de que tem como alvo o corpo hu-
atua para a normatização do comportamento, mano, não para suplicá-lo, mutilá-lo, mas
a partir do adestramento e da imposição na para aprimorá-lo, adestrá-lo” (FOUCAULT,
forma de movimento dos sujeitos. O obje- 1985, p. 16). Portanto, é no adestramento,
tivo é controlar as inúmeras formas territori- no controle dos hábitos e na naturalização
ais que se formam para administrar os cor- dos meios de controle que se dá o ordena-
pos. A produção do poder, nesse sentido, é mento social e territorial. O adestramento se
de suma importância para a manutenção dos liga, portanto, ao “castramento” da mobili-
comportamentos dos corpos através da mo- dade livre, liberdade de ordens e imposições.
bilidade adestrada, buscando torná-la cada A mobilidade se dá através de uma série
vez mais “limitada”, e desta forma, contro- de regras e ordens para controle dos cor-
lada. As ações dos corpos devem ser en- pos. Através dessa riqueza estratégica é que
quadradas dentro de regras e de normas im- o controle se dá para a reprodução de um de-
postas pelos territórios, que também, devem terminado sistema e a manutenção da ordem
transparecer ideologicamente para o cont- espacial burguesa, ordem essa que atua prin-
role, a forma cada vez mais “natural” da cipalmente, com o Estado.
imposição e do ordenamento, para se apre- Para Lênin (1983, p. 11) “o Estado se car-
sentarem, dessa maneira, como “normais”, acteriza, em primeiro lugar, pela divisão dos

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súditos segundo o território”, pois, através Foucault narra a mobilização dos microp-
desta distribuição dos corpos pelo território oderes na constituição disciplinar do espaço
é que se tem a localização dos sujeitos e, do século XVIII, período de surgimento da
assim, pode-se estrategicamente manter o sociedade civil, da sociedade política, do pri-
controle e a dominação dos corpos sabendo vado e do público burgueses. E mostra como
onde cada “sujeito-corpo” se localiza. A im- o saber médico, asilar, carcerário, escolar e
portância de distribuir através das divisões militar atuam remodelando os arranjos do es-
do território feito através do Estado é uma paço vigente, no sentido de uma nova ordem
maneira de poder atuar mais firmemente no e ordenamento. O caminho é o controle dos
planejamento de controle, de imposição de corpos. Corpos dos trabalhadores, corpos
regras, de formas de coerção e de controle das mulheres, corpos dos atores perigosos
dos corpos. Controle através do tempo e do (MOREIRA, 2002, p. 59, [grifo nosso]).
espaço, controle dos territórios criados pelas Ao caminho do controle dos corpos Haes-
instituições do Estado e pelos corpos da so- baert (2004), se posiciona, reportando-se a
ciedade. Foucault, afirmando que o controle dos cor-
De acordo com Engels, citado por Lênin pos atualmente muda de foco: do controle do
(1983, p. 12), “o Estado além de ser um “indivíduo-corpo” na sociedade moderna, ao
poder público e portador de um exército controle das massas de corpos na sociedade
que é sua “força” armada, “compreende não chamada pós-moderna. Assim:
só homens armados, como também elemen-
tos materiais, prisões e instituições coerci- Reportando a Foucault, podemos dizer
tivas de toda espécie (...)”. Neste sen- que vivenciamos hoje uma renovada im-
tido, além do poder da força através de seu portância do “controle dos corpos”, mas
exército, o Estado tem em seu favor para o não mais simplesmente de “corpos in-
controle dos corpos, os chamados elemen- dividualizados”, controle típico da so-
tos materiais, isto é, as instituições coerci- ciedade disciplinar moderna, onde a
tivas do toda espécie, como por exemplo, as figura do indivíduo e a construção de sua
prisões que servem para deslocarem aqueles “autonomia” eram elementos centrais, e
“baderneiros” que não se submeter a ordem sim, sobretudo, do controle da “massa” e
social e espacial burguesa. As instituições da própria vida que a reprodução do con-
são de suma importância, pois são partes do junto destes corpos, as “populações”, im-
Estado pensadas de forma a atenuar as ten- plica (HAESBAERT, 2004, p. 40).
tativas de rebeliões e das “badernas” contra
a lei social, contra a ordem espacial imposta Do controle do indivíduo, através da dis-
como “verdadeira”. ciplinarização, ao controle das massas, en-
Reportando-se a Foucault, Moreira (2002, quanto controle da reprodução do conjunto
p. 59), afirma que a disciplinarização dos desses corpos através de suas vidas cotidi-
espaços através das instituições e dos corpos anas. Através, das práticas e das relações
da sociedade ocorre há muito tempo na or- de poder que certos grupos de corpos que se
dem espacial e que reflete, assim, um orde- estabelecem criando territórios, na maioria
namento territorial. Nesse sentido: das vezes estigmatizados e controlados pela

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“sociedade oficial”. Este controle se deve, lações de controle, que parte da “terra” –
por criar um fortalecimento e uma forma ou, se quisermos, da base física do ter-
de organização dos sujeitos através da or- ritório e suas repartições – para a “pop-
ganização territorial das massas de corpos, ulação”, o conjunto de seus habitantes
que podem comprometer, a qualquer mo- enquanto entidades biológicas (HAES-
mento, a disciplina espacial da ordem bur- BAERT, 2004, p. 41).
guesa. Ainda, nesse sentido:
Assim, se passa do controle da terra,
Para Foucault, já na segunda metade do isto é, da base física e/ou concreta do ter-
século XVIII começa a se manifestar ritório, para o controle cada vez mais es-
uma mudança de foco em relação às téc- trategicamente pensado para a população,
nicas de controle, que passam do con- para os corpos dos sujeitos, para os corpos
trole do corpo individual para o cont- dos trabalhadores, para os corpos do “atores
role “da vida”, ou seja, estas técnicas perigosos”. Assim, controla-se acentuada-
dirigem-se prioritariamente não mais ao mente o movimento e o não-movimento dos
“homem-corpo”, mas ao “homem-vivo”, sujeitos. Planeja-se as instituições e os el-
ao homem-espécie (HAESBAERT, 2004, ementos que compõe os espaço, e assim,
p. 40). que formam os inúmeros territórios para uma
maior “gestão” dos corpos. A manutenção
Assim, podemos dizer que se passa do
do tempo, da ordem, da vida como ela
controle mais “mecânico” e disciplinar dos
está, para aqueles que estão no poder, para
corpos, para um controle das subjetividades
os atores hegemônicos, para a classe domi-
dos seres humanos (ANTUNES, 1999).
nante. É do controle da terra ao controle da
Através do controle dos modos de vida, dos
população. Da classe da população domi-
desejos e ambições são criadas e recriadas
nada é que são pensadas as formas de con-
formas para alimentar as “almas” dos tra-
trole, de dominação, de imposição e de co-
balhadores e trabalhadoras para que a or-
erção sobre os corpos. Controlar espacial-
dem espacial, e assim territorial das empre-
mente os corpos, controlar os espaços, os
sas, dos lares, enfim, da sociedade burguesa
corpos daqueles que são dominados.
seja mantida. É a exacerbação do controle
Segundo Foucault (1985) a medicina
dos corpos através do controle das vontades
como controle das doenças, se torna uma
mais íntimas dos sujeitos, que são criadas e
maneira de disciplinarização do espaço
recriadas os desejos, os consumos, as neces-
através da disciplina dos corpos no e pelo es-
sidades, tudo aquilo que o Estado em con-
paço. Através do poder que emana, que é
junto com as empresas realiza para uma boa
parte do Estado é que as instituições, como
manutenção da ordem e, de uma “servidão
por exemplo, o hospital normatiza as re-
voluntária” dos corpos (LA BOÉTIE, 1982,
lações dos corpos, as relações do e no es-
p. 54) para que a ordem espacial seja man-
paço. Ligado a isso, podemos compreender
tida. Neste contexto:
que produção de determinados saberes legit-
O que ocorre, podemos dizer, é uma ima a normatização da ordem espacial bur-
mudança dos elementos centrais nas re- guesa. A ordem se dá pela produção do saber

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militar e escolar que são, fundalmentamente, “Se o poder fosse somente repressivo, se
conhecimentos para legitimar a manutenção não fizesse outra coisa a não ser dizer não
de determinado arranjo espacial. Assim, so- você acredita que seria obedecido? O que
bre o saber: faz com que o poder se mantenha e que
seja aceito é simplesmente que ele não
“Se ele é forte, é porque produz efeitos
pesa só como uma força que diz não, mas
positivos a nível do desejo – como se
que de fato permeia, produz coisas, in-
começa a conhecer – e também a nível
duz ao prazer, forma saber, produz dis-
do saber. O poder, longe de impedir o
curso. Deve-se considerá-lo como uma
saber, o produz. Se foi possível consti-
rede produtiva que atravessa todo o corpo
tuir um saber sobre o corpo, foi através
social muito mais do que uma instância
de um conjunto de disciplinas militares e
negativa que tem por função reprimir.”
escolares. É a partir de um poder sobre
(FOUCAULT, 1985, p. 8).
o corpo que foi possível um saber fisi-
ológico, orgânico.” (FOUCAULT, 1985, Assim, o poder é utilizado ideologica-
p. 119, [grifo do autor]). mente buscandonaturalizar as ordens im-
Contudo, Moreira (2002, p. 20), afirma postas pelo Estado, e também, buscando dar
que “Mediante esse controle espacial do falsos prazeres aos corpos através de uma
corpo da população, regula-se a adminis- vida muitas controlada, mas que se pode
tração da sociedade civil pelo Estado”. Neste ter coisas através do consumo e, isto sim,
contexto, a produção do saber e a dis- gerar a falsa felicidade, o falso prazer diluído
tribuição/localização dos corpos e das insti- pela mídia, pelo comércio que se vincula
tuições são elementos pensados estrategica- a manutenção da ordem espacial burguesa,
mente para a manutenção da ordem espa- pois faz parte da classe dominante.
cial burguesa, da administração regulada da Como afirma Foucault (1985, p. 162),
sociedade civil pelo Estado. Assim, a or- “O indivíduo, com suas características, sua
dem espacial civil, pública e privada con- identidade, fixado a si mesmo, é o produto
strói o seu ordenamento territorial, mas que, de uma relação de poder que se exerce so-
no entanto, é controlada, pensada e dis- bre corpos, multiplicidades, movimento, de-
tribuída através das leis, das normas e da sejos, forças”. Neste sentido, o poder tem
imposição/coerção realizada pela força de importância pelas relações que constroem
repressão/opressão do Estado. Controlar e e des-constroem, concomitantemente, para
gerenciar os corpos é controlar e gerenciar a criar uma ordem territorial dos sujeitos, que
ordem espacial, e é, controlar os territórios. devem estar “fixados” a pontos distribuídos
Entretanto, essa força de re- no espaço, e se moverem como peças de
pressão/opressão de ordenamento dos xadrez pensadas de acordo com seu “jo-
corpos e assim do espaço que se chama Es- gador”, isto é, o Estado. O Estado pensa a
tado, busca legitimar através das ideologias mobilidade dos corpos buscando o controle
seu poder. O poder, nesse contexto assume e o domínio do espaço. Constrói instituições
fundamental importância para a manutenção para controlar a mobilidade e o tempo dos
da ordem sobre os corpos:

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corpos no espaço. Assim, sobre o poder e os “Rearranjo (...) é feito em (...) microes-
indivíduos: paço: o cemitério, o asilo, o cárcere, a
escola e o exército, por fim, o conjunto
“O poder deve ser analisado como algo da cidade. Em cada um deles, a reg-
que circula, ou melhor, como algo que ulação disciplinar consiste num arranjo
só funciona em cadeia. Nunca é apro- da cidade. Em cada um deles, a regu-
priado como uma riqueza ou um bem. lação disciplinar consiste num arranjo or-
O poder funciona e se exerce em rede. denado em fileiras e distribuição individ-
Nas suas malhas os indivíduos não só cir- ualizada, de modo a adequá-lo ao cont-
culam mas estão sempre em posição de role das regras e normatizações burgue-
exercer este poder e de sofre sua ação; sas, em rápido consenso.” (MOREIRA,
nunca são o alvo inerte ou consentido do 2002, p. 61).
poder, são sempre centros de transmis-
são. Em outros termos, o poder não se Portanto, as formas espaciais expressam
aplica aos indivíduos, passa por eles. (...) conteúdos específicos que revelam determi-
Efetivamente, aquilo que faz com que um nada ordem espacial que se vincula ao or-
corpo, gestos, discursos e desejos sejam denamento dos corpos. É através do mi-
identificados e constituídos enquanto in- croespaço, isto é, dos cemitérios, asilos, das
divíduos é um dos primeiros efeitos de prisões, da escola, do exército etc., que são
poder. Ou seja, o indivíduo não é o outro expressadas pelo conjunto de arranjos espa-
do poder: é um de seus primeiros efeitos. ciais para disciplinar a manter a ordem dos
O indivíduo é um efeito do poder e si- corpos. A ordem disciplinar sobre os cor-
multaneamente, ou pelo próprio fato de pos impõe formas de convivência espacial
ser um efeito, é seu centro de transmis- através dos modos de convivência cotidiana.
são. O poder passa através do indivíduo Assim é que, “Cada localização guarda o
que ele constituiu. ” (FOUCAULT, 1985, poder da vida. Referencia do corpo, a lo-
p. 184). calização é o lugar ontológico da sua con-
stituição como espaço” (MOREIRA, 2002,
Assim, é a relação do poder e do indivíduo p. 52), de onde percebemos a importância
estão atreladas às relações sociais. Estas re- do controle do corpo, pelo controle da vida
lações se dão fundalmentamente através da dos sujeitos, das subjetividades daqueles e
política, onde o Estado e as classes domi- daquelas que são corpos e são espaços, são
nantes impõem suas formas-conteúdos de or- espaços de vida e que devem ser disciplina-
ganização dos corpos e assim dos arranjos do dos e controlados.
espaço. Ainda, neste sentido, Moreira (2002)
Segundo Moreira (2002), os arranjos lo- reportando-se a Thompson, afirma que a dis-
calizados através da distribuição na cidade ciplinarização do trabalho nas manufaturas
é que dão as formas-conteúdos (SANTOS, inglesas dos séculos XVII-XVIII consiste
1997) do espaço, ou melhor, pelo microes- num arranjo disciplinar do tempo e do es-
paço. Assim: paço sobre os trabalhadores. Nesse sentido:
“Enfileirados e individualizados dentro

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da manufatura segundo sua tarefa, os ainda, são focos de atenção do pensamento


artesãos são obrigados a sincronizar os estratégico do Estado e das empresas, das re-
ritmos espaciais do seu corpo no ritmo do lações de coerção, de domínio e disciplina
tempo do relógio. Sobranceiro na parede, no interior de uma sociedade que busca cada
o relógio mede e entroniza o movimento vez mais em nome da “pseudosegurança”, o
do relógio.” (MOREIRA, 2002, p. 62). controle da massa da população, sobretudo,
a massa dos corpos perigosos, isto é, daque-
Assim, é que o controle dos corpos se dá les que pode colocar em risco a ordem espa-
pelos microespaços como, por exemplo, a cial burguesa e estatal que se construiu sobre
fábrica, mas que, no entanto, esta forma de o primado político-ideológico da chamada
controle disciplinar do trabalho e do trabal- democracia e com a implementação do poder
hador pelo tempo e pelo espaço não para no sobre a vida, do poder sobre a espécie hu-
arranjo dentro da fábrica. Este arranjo dis- mana: o biopoder.
ciplinar se dá à escala da organização da so-
ciedade civil, que é controlada pelo tempo
do trabalho, pelo tempo do lazer, pelo tempo 2 Considerações Finais
das férias, pelo tempo da escola, pelo tempo O biopoder constitui o novo paradigma de
dos bancos etc. São inúmeras as organiza- poder vigente na sociedade de controle, o
ções que controlam o tempo dos “indivíduos- corpo social tende a ser totalmente engolido
corpos”, e assim, controlam e mantêm a or- pela máquina do poder (do Estado e do Mer-
dem espacial. Através dos arranjos espaciais cado) que se manifesta e se estende pelas
é que o controle dos corpos ocorre de forma consciências e pelos corpos dos indivíduos,
eficiente e transparece “naturalidade”. fazendo uso de todo o aparato das novas tec-
“Então, posta ao lado do hospital, do nologias de informação e comunicação. Es-
asilo, do cárcere, da escola na rede capi- tas constituem o cerne da sociedade da in-
lar dos espaços disciplinares, a fábrica formação e/ou sociedade do conhecimento e
potencializa os demais micro-espaços, também mediatizam as trocas materiais soci-
levando o padrão do seu arranjo disci- ais e simbólicas, desde a produção da infor-
plinar a reproduzir-se por todas as áreas mação, passando pelos processamentos de
da cidade” (MOREIRA, 2002, p. 62). tratamento até os seus diversos usos e fluxos.
Assim, cada vez mais na sociedade de
Neste contexto, o controle espacial se dá controle que tem como máquina de agen-
pelo controle dos corpos enquanto territórios ciamento o biopoder, o corpo aparece im-
que comportam vida e que devem ser “ade- preterivelmente como “primeiro” território
stradas” e disciplinadas para uma maior pro- a ser dominado/disciplinado/controlado pelo
dutividade e domínio, além, de se manter Estado e pelo Mercado. Estado que através
uma determinada forma de organização e de seus aparelhos ideológicos e de poder atua
projeção espacial dotada de normas, regras no sentido de legitimar uma determinada or-
que não permitem a anomia. Os territórios- dem e um sentido para a vida. Mercado que
corpos são elementos inerentes a organiza- atua no sentido de construir uma “imagem
ção espacial e reprodução da sociedade, e correta” daquilo que deve ser apreendidos e

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seguidos pelos sujeitos através das coerções Assim, o corpo-território se reproduz no


materiais (como o emprego e o desemprego, interior da sociedade de controle a partir do
o controle sobre o tempo de trabalho e o biopoder. Controle que é produzido através
tempo do não trabalho) e simbólica (como do controle do tempo, do modo de vida, das
no jogo de enunciados produzidos e repeti- práticas e da forma de ver e ser o mundo dos
dos pela mídia). indivíduos. São formas que vão desde ao
Compreendemos que este tema é de fun- uso da força até mesmo a busca pelo cont-
damental importância para discussão no âm- role da alma, da subjetividade dos “sujeitos-
bito social por estar ligado diretamente aos corpos”, dos lugares freqüentados do tra-
“indivíduos-corpos”, que são e que pro- balho e do não trabalho, do consumo, das in-
duzem relações, relações estas de poder e, formações que trafegam pela sociedade, en-
que se espacializam a partir de uma determi- fim, pela produção de uma ordem simbólica
nada relação de controle que na sociedade de e gnosiológica de manutenção do status quo
controle aparece de maneira muito mais su- e da construção de um poder, o biopoder que
til e que visa naturalizar as coerções e as re- atua sobre a vida nua, isto é, sobre a espécie
lações de poder circunscrita nos corpos, nas humana, seus corpos formados por elemen-
relações, na “vida nua”. No entanto, essas tos psíquicos, biológicos e socioespaciais.
relações quanto mais “naturais” aparecem,
maior o poder de domínio e disciplinamento
3 Referências
estão inerentes ao corpo-indivíduo, maior a
violência sobre o corpo-território da popu- ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho. São
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