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O MAIOR

PORTUGUÊS DE
SEMPRE?

INFORMAÇÃO IMPORTANTE

O texto que se segue é uma reprodução escrita,


com pequenas adaptações e esclarecimentos, do
Salazar: O Maior Português de Sempre?

documentário exibido pela Rádio e Televisão de


Portugal, “O Maior Português de Sempre – António
de Oliveira Salazar”, integrado no programa
“Grandes Portugueses”, de 2006-2007.
Como tal, cumpre-me esclarecer que toda a
informação constante deste documento foi
apresentada pelo Prof. Dr. Jaime Nogueira Pinto,
aquando da exibição do documentário referido.
Resta-me recordar, em último lugar, que o Prof.
Dr. Jaime Nogueira Pinto “defendeu” o estadista
português António de Oliveira Salazar, vencedor do
dito concurso.

Introdução do documentário:
18 de Julho de 1936. Com o levantamento das tropas de Marrocos,
seguido pelas guarnições das principais cidades da Península,
começa a Guerra Civil Espanhola.
Aqui, neste bastião do forte de Santa Luzia, em Elvas, passa a linha
invisível da fronteira com Espanha. É fácil de perceber a grande
preocupação da política externa de Salazar: defender a

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Salazar: O Maior Português de Sempre?

independência do “rectângulo” nacional português, numa


península desde os finais do século XV dominada por Castela1.
Salazar é, na ocasião, o homem forte do Regime criado há 10 anos
pelo movimento militar de 28 de Maio de 19262. A sua tomada de
posição na Guerra Civil Espanhola é o seu primeiro grande
gesto de política externa. Uma tomada de posição em que
se joga a independência de Portugal. uma independência
antiga, mas constantemente em risco. Salazar foi, nesta hora crítica
da História Europeia e da História da Península Ibérica, como vai
ser noutras, o grande defensor de Portugal e dos interesses
portugueses. Por isso, esta figura polémica da História recente de
Portugal foi um Grande Português.

(genérico do programa)

Reflexão do autor acerca do convite para


“defender” Salazar:
A pessoa que me convidou para defender Salazar neste programa
usou comigo daquele tom de cumplicidade embaraçada que, nalguns
filmes de acção, têm os chefes operacionais que vão enviar os seus
colaboradores ou subordinados para missões impossíveis. Algumas
reacções que verifiquei depois de ter aceite, publicamente,
tal incumbência, reacções de perplexidade, de surpresa, de
agressividade e até de hostilidade levaram-me a pensar
que a missão, se não era impossível, era pelo menos difícil.
Ora, devo confessar que basta o facto desta dificuldade, o facto de
1O Reino de Castela foi um dos antigos reinos da Península Ibérica formados durante a
Reconquista Cristã. O seu território faz, actualmente, parte de Espanha (Fonte: Wikipédia)

2A Revolução de 28 de Maio de 1926 ou Movimento do 28 de Maio foi um


pronunciamento militar de cariz nacionalista e antiparlamentar que pôs termo à Primeira
República Portuguesa, levando à implantação da auto-denominada Ditadura Nacional, depois
transformada, após a aprovação da Constituição de 1933, em Estado Novo, regime que se
manteve no poder em Portugal até à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974. (Fonte:
Wikipédia)

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uma personalidade que desapareceu há 40 anos da vida portuguesa


continuar a suscitar tanta polémica, bastaria esse facto e bastou esse
facto para que a tivesse aceite.

A política externa de Salazar


Salazar esteve à frente dos destinos de Portugal de 1932 a 1968, ou
seja, durante quase 40 anos. Durante todo esse tempo, a sua
máxima preocupação foi defender e manter a
independência de Portugal. Hoje, no princípio do século XXI,
membros da NATO3 e da União Europeia, os riscos de tal
independência podem-nos parecer longínquos, mas nos conturbados
anos 30, eles estavam aqui ao nosso lado. Éramos mesmo vizinhos
da catástrofe!
Para um país pequeno, de recursos limitados, saído de um período
de instabilidade e com as Forças Armadas em reorganização, o
conflito em Espanha colocava graves problemas. E Salazar sabia-o
melhor do que ninguém. Nesse Verão quente e longo de 1936,
Espanha está dividida em duas: de um lado, o governo da Frente
Popular, uma coligação de esquerdas e, do outro, os militares
chefiados por Franco4, apoiado por uma coligação de direitas
políticas. Estas “duas Espanhas” lutam sem quartel.

3A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO ou OTAN, em português) é uma


organização internacional de colaboração militar estabelecida em 1949 em suporte do Tratado
do Atlântico Norte assinado em Washington a 4 de Abril de 1949. (Fonte: Wikipédia)

4Francisco Franco foi um militar, chefe-de-estado, ditador espanhol e Regente do Reino de


Espanha desde Outubro de 1936 até à sua morte, em 1975. (Fonte: Wikipédia)
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Figura 1 – A divisão da Espanha em duas zonas

A Guerra Civil é uma ameaça para Portugal. Que fazer? Salazar tem
que encontrar resposta. Rapidamente e de forma decisiva e certa.
Podia deixar a situação da Espanha deteriorar-se, transformar-se
numa imensa anarquia, em que cada região e partido lutassem pelos
seus interesses, criando focos de permanente instabilidade política e
social. Mas Salazar decide apoiar os nacionalistas desde a
primeira hora. Estes usam Portugal como base logística. Por
Portugal, vão passando as suas armas e suprimentos. Para Salazar,
a razão de Estado da nação portuguesa, isto é, o interesse
nacional português é, e há-de ser sempre, o grande
condutor da sua política e da sua estratégia.
Ora, neste caso do conflito espanhol, uma vitória das esquerdas,
uma vitória da Frente Popular, em Madrid, dominada pelos
comunistas, significaria, também, o regresso ao centro da política de
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Madrid da ideia de união ibérica, isto é, de uma união entre Portugal


e Espanha, de que, é evidente, a Espanha seria o principal
beneficiário e poder dominante.

Figura 2 – Cenário de União Ibérica em que prevalece a vontade espanhola

Mas quem é, afinal, este homem que defende tão energicamente


a identidade e a independência portuguesas? É um político
realista que sabe que sem liberdade de Portugal, não há liberdade
dos portugueses. É um político de formação cristã, por isso sabe
que a política é, também, um “Reino do Mal”, mas que é também a
realidade, o dia-a-dia e que, nesta, há que unir os amigos e os
aliados e dividir e neutralizar os inimigos. Salazar escolhe
apoiar Franco, com todos os meios à sua disposição:
diplomaticamente, logisticamente e com voluntários – os
Viriatos5. Franco ganha a Guerra Civil a 1 de Abril de 1939 e ficará,
para sempre, devedor e grato a Salazar.
A Segunda Guerra Mundial é outro grande cenário da
actuação desta política externa de Salazar. Mais uma vez, a
equação é complexa: de um lado, está a Alemanha de
Hitler, do outro lado estão os Aliados6 liderados pela Grã-
Bretanha. Para Salazar, a discussão não se põe. Portugal
não pode deixar de ser aliado da Grã-Bretanha, porque
esta controla o acesso ao Império. “Senhora dos Mares”,
cortar-nos-á o contacto com as colónias, no caso de a

5Viriatos foi o nome dado ao grupo de voluntários portugueses do Tércio da Legião


Portuguesa (fundada em 1936) que participaram na Guerra Civil de Espanha (1936-1939), por
afinidade com o lusitano Viriato, guerreiro que no século II a. C. resistiu à ocupação dos
romanos. Chegaram a atingir a cifra de 20 000 homens. (Fonte: Infopédia)

6O grupo dos Aliados era constituído pela Grã-Bretanha, França, Estados Unidos da América e
União Soviética.
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termos como inimiga. Por isso, a escolha está feita: a geopolítica


comanda a política.
A situação não era fácil. No Verão de 1940, a Alemanha nazi estava
no auge do seu poder. Depois da derrota da França em seis semanas,
Hitler só precisava de vencer a Grã-Bretanha para acabar a Guerra
vitorioso. Franco, por seu lado, tem a pressão dos países do Eixo
(Alemanha e Itália), seus aliados militares e ideológicos na Guerra
Civil. Salazar e Franco assumem a estratégia comum de
salvaguardar a neutralidade da Península. Franco vai
empatando Hitler: se por um lado, não quer hostilizar a Alemanha e
a Itália, por outro não quer entrar na Guerra. Encontra-se com
Hitler em Hendaye, na fronteira franco-espanhola, em Outubro de
1940. Num ambiente tenso, Franco desfia as dificuldades da entrada
de Espanha na Guerra. O galego astuto enfrenta o “senhor da Guerra
germânica”. Investe numa estratégia de adiamento, relativamente ao
envolvimento espanhol no conflito, limitando-se a enviar a Divisão
Azul7 para a campanha da Rússia.

Figura 3 – Franco e Hitler juntos em Hendaye

No meio de tudo isto, o que faz Salazar? Salazar explica aos Aliados o
jogo de Franco e garante, junto destes, o desejo de neutralidade de
Madrid. Na realidade, a Inglaterra, país beligerante, e os Estados
Unidos da América, a potência que a ajuda a sobreviver, desconfiam
de Madrid. A criação de um clima de confiança entre

7Divisão Azul foi uma unidade de voluntários espanhóis que serviu a partir de 1941 (e
oficialmente até 1943) no lado alemão durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente na
frente oriental contra a União Soviética. (Fonte: Wikipédia)
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Espanha e as democracias anglo-saxónicas vai ser


assegurada por Portugal. É Salazar quem desenha a
“ponte” entre todos. E Salazar vê a sua estratégia triunfar
em toda a linha. A Península ficou neutra e Portugal
guardou o seu Império. Tudo o que sempre quis.
Mas a história do homem que conduz Portugal no grande jogo da
política mundial começou muito antes. Salazar nasceu na
freguesia de Santa Comba Dão, em Abril de 1889, há 79
anos.

Também disponível em:


http://www.youtube.com/watch?v=CDBtgA-81D4
(© RTP 2007 – Todos os direitos reservados)

As origens e formação de Salazar


É nesta casa que nasce António de Oliveira Salazar, em 28 de Abril
de 1889. Nasce numa família modestíssima de agricultores.
“Pobre, filho de pobres”, e “devo à Providência a graça de
ser pobre” são expressões em que mais tarde se vai rever.
Estamos na aldeia de Vimieiro, em Santa Comba Dão, entre as
cordilheiras da Estrela e do Caramulo e o mar.
(Jaime Nogueira Pinto visita a casa de Salazar)
Bom, tinha a ideia que isto estava bastante abandonado, mas
confesso que não pensei que estivesse tão abandonado e degradado.
E eu estava a pensar, olhando para tudo isto, quando a gente
compara com os palácios doutros governantes, autoritários e com
todo o estado, digamos, de grande pompa e ostentação e luxo, das
contas dos exílios, com as fortunas acumuladas, de facto, enfim, sem
nenhuma espécie de demagogia, acho que se pode dizer que

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Salazar foi um homem de uma honestidade e de uma


probidade extraordinária.
Nesse ano de 1889, o mundo em Portugal era bem diferente do de
hoje. Portugal, em Angola e Moçambique, reembarcava na aventura
africana. Nascia uma nova geração de heróis do Império, os
africanos. E Portugal vivia, habitualmente, na memória do grande
poder que fora no século XVI, no contraste do pequeno país, na
ponta ocidental da Europa. Todos estes factores marcarão, para
sempre, Salazar. A paisagem bela e agreste das Beiras, de Coimbra a
Viseu, a religiosidade, a modéstia, as raízes na gente do
campo, a percepção desconfiada das hierarquias do nascimento e
do dinheiro e da humilhação que podem trazer aos pobres. Quando
confrontado pela História e os seus riscos, este homem, educado
na sabedoria rural e no seu senso comum, sabe tomar
decisões, sabe enfrentar os riscos, sabe correr os perigos.
Na verdade, ele que opôs, em certo sentido, o viver habitualmente ao
famosíssimo “viver perigosamente” do filósofo alemão8, também ele
sabe viver perigosamente, quando estão em jogo os
interesses nacionais ou convicções e valores que ele põe
acima de tudo. E, nesses momentos, é capaz de ser grande
como os maiores.
Filho de camponeses, o académico de Coimbra, reservado, de fato
escuro e modos protocolares, sente-se, na sua modéstia tímida, o
guardião desse legado de grandeza histórica. O legado dos
grandes portugueses que construíram e defenderam a
independência da nação. De todos, Salazar se sente o sucessor,
por direito e por missão: do “Rei fundador”, D. Afonso
Henriques, guerreiro incansável, político voluntarioso e lúcido, do
Infante D. Henrique, solitário criador das naus do novo Império e
principal responsável da Expansão9, de D. Nuno Álvares10, o
cavaleiro místico e idealista que, em Aljubarrota, salvou a

8Friedrich Nietzsche (1844-1900), influente filósofo alemão do século XIX.

9Expansão portuguesa dos séculos XV e XVI – Descobrimentos

10D. Nuno Álvares Pereira, também conhecido como “Santo Contestável”, foi um nobre e
um guerreiro português do século XIV que desempenhou um papel fundamental na crise de
1383-1385, onde Portugal jogou a sua independência contra Castela. São Nuno foi canonizado
pelo Papa Bento XVI em 26 de Abril de 2009. (Fonte: Wikipédia)
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independência de Portugal, de D. João II, o “Príncipe Perfeito”11,


unificador do poder do Estado, o estratega nacional que sacrificou os
próprios familiares por razão de Estado.
É, em 1899, que Salazar vai a Viseu para fazer o exame de instrução
primária, ingressando, no ano seguinte, no Seminário12, para os
estudos secundários, Um seminarista igual a tantos portugueses, no
começo do século XX, que viam no serviço da Igreja também uma
porta para os pobres ascenderem neste mundo, à dignidade, numa
sociedade fechada e socialmente estratificada.
Em 1910, está inscrito no curso de Direito da Universidade de
Coimbra, no início da República. Foi este destino singular que o
trouxe do Vimeiro e de Viseu, aqui, para Coimbra. E é, também aqui,
em Coimbra, no CADC (Centro Académico de Democracia Cristã13)
que ele vai, de certo modo, encontrar e consolidar as suas raízes
doutrinárias.
Desde a proclamação do Liberalismo, em Portugal, em 183414,
podemos dizer que os católicos tinham sido um “bombo da festa” e
um bode expiatório da Revolução e dos revolucionários. Mas, com a
República democrática, em 1910, tornaram-se mesmo cidadãos de
segunda classe. Logo no 5 de Outubro, houve sacerdotes
assassinados. Mais tarde, seguiram-se as expulsões das ordens
religiosas, perseguições, vexames e humilhações sem conta contra os
bispos, contra os padres e contra os próprios católicos. Salazar vai
reflectindo sobre tudo isto. Mas o seu grande choque do
quotidiano da 1.ª República é a “ditadura da rua”. A nível
político, fora das ruas, os governos duravam pouco tempo e
reinavam as quarteladas sucessivas e a fraude eleitoral.

11“Príncipe Perfeito” é o seu cognome.

12Seminário é o nome que é dado, na Igreja Católica aos centros de formação dos seus
ministros sagrados: subdiáconos, diáconos e presbíteros, vulgarmente chamados padres.
(Fonte: Wikipédia)

13O Centro Académico da Democracia Cristã é uma associação de inspiração cristã,


pertencente à Diocese de Coimbra, que dá apoio aos estudantes universitários, que se
encontram a estudar em Coimbra. (Fonte: Wikipédia)

14Com a assinatura da Convenção de Évora-Monte, acordo assinado entre liberais e


miguelistas.
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Para Salazar, a grande prioridade era criar um Estado


ordeiro, monárquico ou republicano não importava muito, mas
que estivesse acima das divisões dos partidos, que fosse
“pessoa” de bem, que mantivesse a ordem e a lei,
defendesse as colónias que, numa palavra, defendesse o
prestígio nacional e impusesse o nome de Portugal no
Mundo. As sucessivas crises governamentais criaram, em meados
dos anos 20, um clima de crise permanente, gerador de enorme
instabilidade social.
Salazar torna-se professor da Faculdade de Direito, em 1916. Os
seus principais estudos concentram-se, entretanto, na área
da Economia e das Finanças. Aí, vai publicar a “Questão
Cerealífera” e, mais tarde, o “Ágio do Ouro”. Em 1917, é Doutor em
Direito, pela Faculdade de Coimbra.
A sua primeira experiência política concreta aconteceu em 1921.
Quando foi eleito deputado pelo Centro Católico15, vai a Lisboa, entra
no Parlamento, mas fica só um dia, segundo reza a lenda. A vida
parlamentar não o seduz. A influência da tradição
antiparlamentarista é óbvia em Salazar. Diz-se que
confidenciara ao cardeal Cerejeira16 ver a situação ideal do exercício
do poder ser primeiro-ministro de um rei absoluto. Não se vê
como origem do poder, mas como executor de um desígnio
superior.

15O Centro Católico Português (CCP) foi fundado num congresso realizado em Braga em 8
de Agosto de 1917.
16Cardeal Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1888 - 1977), foi o décimo-quarto Patriarca
de Lisboa (nomeado em 18 de Novembro de 1929). Foi o Patriarca que dirigiu a Igreja Católica
Portuguesa durante o Estado Novo; íntimo de Salazar (conheceram-se no Centro Académico da
Democracia Cristã e foram vizinhos cerca de 11 anos), procurou salvaguardar e restaurar os
privilégios que o Catolicismo perdera durante o regime republicano (I República). Como tal, e a
fim de apaziguar as tensas relações entre o Estado e a Igreja, foi um dos principais concorrentes
e apoiantes para a assinatura da Concordata com a Santa Sé em 1940 (Concordata entre a Santa
Sé e Portugal, em 1940). (Fonte: Wikipédia)
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Figura 4 – Salazar e o Cardeal Cerejeira

Também disponível em:


http://www.youtube.com/watch?v=vIJiReHLaeE
(© RTP 2007 – Todos os direitos reservados)
Este é o primeiro volume dos “Anuais da Revolução Nacional”, uma
obra, hoje, bastante rara. Eu tinha-a, aqui, em casa, veio de um tio
meu e é uma obra muito interessante, porque tem contados e
ilustrados os vinte primeiros anos do Estado Novo, onde se vê a
acção e o papel de Salazar e explica também, enfim, a forma como
ele vai conseguir depois dominar a partir do momento em que entra
no Governo (está, aqui, penso que é a primeira vinda dele a Lisboa).
Os militares tomam conta do poder em Maio de 1926. Quando eles
vão convidar Salazar, a Coimbra, eles sabem que ele é um dos
grandes financeiros do país, é um professor de Finanças
Públicas, é um homem que não é político, não está envolvido na
política. Portanto, eles convidam-no para o Governo, aliás Salazar
mais tarde dirá, determinantemente: “Eu não vim para a
Política, eu vim para o Governo”.
E vem para Lisboa como Ministro das Finanças, com dois outros
professores de Coimbra – Mendes dos Remédios17 e Manuel

17Joaquim Mendes dos Remédios (1867 — 1932) foi um professor universitário, político e
escritor português que, entre outras funções, foi reitor da Universidade de Coimbra e Ministro
da Instrução Pública. (Fonte: Wikipédia)
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Rodrigues18. O poder entre os militares está longe de estar definido,


e Gomes da Costa19 entra em conflito com Mendes Cabeçadas20.
Perante a confusão, os catedráticos retiram-se com uma nota breve e
seca, dirigida a Gomes da Costa:
"Os ministros civis foram chamados a exercer uma determinada
acção administrativa e essa acção só se lhes afigura possível depois
de resolvido o problema político. Ora este problema, nos termos que
foi posto, não é a eles que compete resolvê-lo. Nestes termos, os
destinatários depõem nas mãos de V. Exa. os lugares que lhes
confiaram, aguardando a solução definitiva do problema político".

Salazar esteve 5 dias no governo. Volta a Coimbra e às suas rotinas.


Mas tudo mudara. Vai seguir, de perto, o problema das Finanças,
tornando público o seu pensamento através de artigos colocados em
jornais, como Novidades21 e O Século. E é, ao mais tempo, o
Presidente da Comissão que procede à revisão das Contribuições e
Impostos.
Nos finais de Abril de 1928, o chefe de Governo, o coronel Vicente de
Freitas, convida Salazar para Ministro das Finanças. Agora, definido
o poder político, o problema do Estado fixava-se à volta das

18Manuel Rodrigues Júnior (1889 — 1946) foi um professor universitário de Direito e


político português que se destacou como Ministro da Justiça do Estado Novo. Para além de
ministro, foi deputado à Assembleia Nacional e fez parte da União Nacional, da Câmara
Corporativa, do Conselho Político Nacional, do Conselho de Estado e da comissão encarregada
de organizar a União Nacional Republicana, como partido de apoio à Ditadura Nacional. (Fonte:
Wikipédia)

19Manuel de Oliveira Gomes da Costa (1863 — 1929) foi um militar e político português,
décimo presidente da República Portuguesa e o segundo da Ditadura Nacional. (Fonte:
Wikipédia)

20José Mendes Cabeçadas Júnior (1883 – 1965) foi um oficial da Armada Portuguesa,
maçom e político republicano convicto, que teve um papel decisivo na preparação dos
movimentos revolucionários que conduziram à criação e à extinção da Primeira República
Portuguesa: a Revolução de 5 de Outubro de 1910 e o Golpe de 28 de Maio de 1926. Exerceu o
cargo de 9.º Presidente da República Portuguesa (o 1.º da Ditadura Nacional) e de Presidente do
Conselho de Ministros no breve período entre 31 de Maio de 1926 e 16 de Junho do mesmo ano.
Afastado do poder pela estabilização do regime à direita e pelo salazarismo, transformou-se
num feroz opositor da autocracia de Óscar Carmona e de Oliveira Salazar, conspirando em, pelo
menos, duas tentativas insurreccionais (1946 e 1947). Como derradeiro gesto político,
subscreveu o Programa para a Democratização da República (1961).

21Órgão da hierarquia católica que apoiava o Centro Católico Português.


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Finanças, o domínio especial de Salazar. Vai para Lisboa, ajusta-se


com Vicente de Freitas e toma posse a 27 de Abril. O discurso 22 que,
então, pronuncia é um clássico de um estilo que durante muitos
anos o país vai admirar conhecer.
Dirigindo-se a Vicente de Freitas diz:
"Não tem que agradecer-me ter aceitado o encargo, porque
representa para mim tão grande sacrifício que por favor ou
amabilidade o não faria a ninguém. Faço-o ao meu País como
dever de consciência, friamente, serenamente cumprido".

E, mais adiante, quase a finalizar, proferirá outra frase que ficará


célebre:
"Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se
me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que
o País estude, represente, reclame, discuta, mas que
obedeça quando chegar a altura de mandar".

Figura 5 – Salazar explica as condições da reforma financeira

Salazar, desta vez, tem o apoio firme dos militares; tem o


apoio dos católicos e da Igreja; tem o apoio dos
republicanos conservadores, da maior parte dos
monárquicos, dos sidonistas; tem o apoio das classes altas
e médias das cidades e tem, sobretudo, o apoio do campo
conservador, patriota, católico. Para os seus partidários,
tornou-se o homem providencial, aquele que pode
22Discurso disponível, na íntegra, em http://www.arqnet.pt/portal/discursos/abril01.html.
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harmonizar as instituições com os interesses do país. É


isto que querem as Forças Armadas, é isto que querem as
elites, é isto que quer o país e a população em geral cada
vez simpatiza mais com o novo dirigente, porque este, para
além de mais, mantém estável o preço do pão, o crítico
preço do pão.

Também disponível em:


http://www.youtube.com/watch?v=msczUEWGKbY
(© RTP 2007 – Todos os direitos reservados)

Para entender o apoio que Salazar e o Estado Novo23 vão ter entre os
portugueses, é preciso, para além da reacção à “ditadura
democrática” da 1.ª República, conhecer também o clima político
europeu e internacional.

A revolução comunista de 191724, que depois da guerra civil25 e da


repressão sanguinária tomara o poder na Rússia, foi vista pelas
classes médias e altas da Europa como uma grande e próxima
ameaça. Os nascentes partidos comunistas propunham-se repetir,
23Estado Novo é o nome do regime político autoritário e corporativista de Estado que vigorou
em Portugal durante 41 anos sem interrupção, desde 1933, com a aprovação de uma nova
Constituição, até 1974, quando foi derrubado pela Revolução do 25 de Abril. (Fonte: Wikipédia)

24A Revolução Russa de 1917 foi uma série de eventos políticos na Rússia, que, após a
eliminação da autocracia russa, e depois do Governo Provisório (Duma), resultou no
estabelecimento do poder soviético sob o controle do partido bolchevique. O resultado desse
processo foi a criação da União Soviética, que durou até 1991. (Fonte: Wikipédia)

25A Guerra Civil russa opôs o Exército Branco (aristocrático-burguês, apoiado pelos
moderados e pelos já referidos países) ao Exército Vermelho, defensor da Revolução. É neste
momento que Lenine, perante a delicadeza da situação, aprova medidas políticas de rigor a que
se deu o nome de "comunismo de guerra": proíbe os partidos políticos, com excepção do Partido
Bolchevique; reprime os inimigos da revolução, criando uma polícia política, a Tcheka, embrião
do futuro KGB. É ainda para resolver a guerra interna que os comunistas abandonam
oficialmente o conflito mundial assinando uma paz desvantajosa com a Alemanha - Tratado de
Brest-Litovsk, Março de 1918 -, pela qual reconheciam a independência da Ucrânia e
renunciavam a territórios da Polónia, Países Bálticos e Finlândia. O facto é que estas medidas
permitiram uma recuperação de posições e o fortalecimento das forças comunistas que,
habilmente dirigidas por Trotsky, derrotam o Exército Branco em toda a linha. A guerra civil
chegava ao fim com a rendição total dos contra-revolucionários em 1920. Dois anos depois a
Rússia mudava oficialmente de nome, passando a chamar-se União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas. (Fonte: Infopédia)
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por toda a Europa, o modelo soviético. O “terror dos bolcheviques”


pairava sobre o continente, a esquerda revolucionária, a partir de
Lenine26 e da Internacional Comunista27, escolhera a violência como
forma principal de conquista de poder. E o terror como forma de o
manter. Concluem muitos que, só pela violência, podia ser parada.

Chegado ao Governo, Salazar ataca o problema financeiro


com um controlo rigoroso da despesa e a melhoria da
colecta da receita. E conta com a confiança política que lhe
inspira para fazer voltar os capitais emigrantes. Finanças
em primeiro lugar. Salazar conhecia bem a história política e
financeira de Portugal do século XIX para saber que a dívida e o
déficit28 eram o grande problema do Estado em Portugal. Por isso,
logo que chega ao Governo, a sua primeira preocupação
vai ser exigir um total controlo das despesas de todos os
ministérios. O ritmo de amortização quanto à Dívida Pública
Externa, avaliada em percentagem do PIB29, é rápido. Ela vai passar
de 44% do PIB em 1926, para 32% em 1930; em 1935 é 19%; em
1940, estabiliza em 5%. A partir do momento em que há
recursos financeiros, podem começar as políticas de
fomento e de obras públicas; antes, na década de 30,
Salazar dedica-se a desenvolver a produção agrícola
alimentar para baixar as importações, mantendo os preços
dos produtos base. Seguir-se-ão os grandes planos de

26Lenine (1870 – 1924) foi um revolucionário russo, responsável em grande parte pela
execução da Revolução Russa de 1917, líder do Partido Comunista, e primeiro presidente do
Conselho dos Comissários do Povo da União Soviética. Influenciou teoricamente os partidos
comunistas de todo o mundo, e suas contribuições resultaram na criação de uma corrente
teórica denominada leninismo. (Fonte: Wikipédia)

27Organismo coordenador das organizações socialistas e das classes trabalhadoras, foi fundado
em 1864, em Londres, com a designação de Associação Internacional de Trabalhadores. A III
Internacional (Komintern) foi criada por Lenine e Trotsky, pelo Congresso de Moscovo, em
1919. Reunia todos os partidos comunistas, funcionando como um órgão de controlo soviético.
O Komintern seria dissolvido por Estaline, em 1943, e substituído pelo Kominform (1947-1956),
criado na Polónia, criado para servir de organismo coordenador dos partidos comunistas.
(Fonte: Infopédia)

28Déficit ou Défice é um termo contabilístico de origem latina, que se caracteriza por um


saldo negativo resultante de, num orçamento, ter mais gastos, ou despesas do que ganhos, ou
receitas. Tal orçamento é chamado de deficitário. (Fonte: Wikipédia)

29O Produto Interno Bruto (PIB) representa a soma (em valores monetários) de todos os
bens e serviços finais produzidos numa determinada região (quer seja, países, estados, cidades),
durante um período determinado (mês, trimestre, ano, etc.). O PIB é um dos indicadores mais
utilizados na macroeconomia com o objectivo de mensurar a actividade económica de uma
região. (Fonte: Wikipédia)
Discutir Salazar Página 16
Salazar: O Maior Português de Sempre?

electrificação e do fomento hidroeléctrico, da construção e


reconstrução das infra-estruturas rodoviárias, portuárias
e ferroviárias, algumas das quais vinham ainda da
Regeneração. E há um grande investimento em obras
públicas e construções sociais em Lisboa e no resto do
país, sob a égide do ministro Duarte Pacheco30. Assim estão
lançadas as bases materiais para as políticas a jusante –
ligadas à industrialização – que entretanto ficam para
grupos privados industriais e financeiros.

Muitas vezes, os críticos e os adversários de Salazar


acusam-no de ter “atrasado” economicamente o país. Eu
penso que esta crítica tem que ser vista à luz de algumas outras
realidades: nomeadamente, tem que se fazer uma comparação
histórica e relativa, quer dizer, hoje as pessoas vivem,
evidentemente, melhor hoje do que há 50 anos, mas vivem em
Portugal, na Alemanha, na Itália, na Grã-Bretanha. Houve um
grande crescimento económico em todo este período. Por outro lado,
Portugal também foi sempre um país “atrasado” economicamente,
independentemente dos regimes políticos, em relação a estas áreas
da Europa Ocidental e Central, onde a industrialização foi mais cedo.

O que também é importante, é que nos 40 anos de governo


de Salazar, o Rendimento Nacional cresceu, em termos
reais, cerca de oito vezes: quase duplicou entre 1926 e 1939,
estagnou e retraiu-se durante os anos de Guerra (1939-1945), mas, a
partir dos anos 50, beneficiando da conjuntura internacional, mas
também das políticas internas de fomento e obras públicas, cresceu
aceleradamente, para, nos últimos anos do anterior regime, alcançar
as taxas “asiáticas” de 7% a 8% de crescimento real ao ano. A média
foi altíssima e o país aproximou-se, em termos relativos,
dos níveis europeus.

A imagem é essencial na política contemporânea e Salazar


dava de si próprio uma excelente imagem, imagem de
austeridade, de aplicação, de estudo, de capacidade de
decisão. Portanto, estava nos antípodas daquilo que era a imagem
30Ministro das Obras Públicas de Salazar, Duarte Pacheco modernizou o País. Hábil a fintar
os esquemas asfixiantes do regime, reestruturou os serviços dos correios e telecomunicações e
revolucionou o sistema rodoviário. Executou obras essenciais na cidade de Lisboa, como o
Parque de Monsanto e o Aeroporto. Falar de Duarte Pacheco é falar, ainda, de uma nova política
de habitação, planos de urbanização, ensino, cultura. É o exemplo de como a modernidade é
sempre factor de progresso. Uma obra de “actualidade desconcertante”, diz Maria de Assunção
Júdice, bibliotecária da Câmara Municipal de Cascais. (Fonte: Sítio na Internet do programa
“Grandes Portugueses” da RTP)
Discutir Salazar Página 17
Salazar: O Maior Português de Sempre?

que a população portuguesa tinha do político médio da 1.ª


República. Ora, isto reforçou muito a sua capacidade de agir e a sua
capacidade de guiar o país. E temos, aqui, um exemplo interessante
disso, até pela sua raridade, que é uma manifestação de regozijo,
de afecto e de agradecimento ao Ministro das Finanças.
Normalmente, os ministros das Finanças não são alvo deste tipo de
manifestações, deste tipo de popularidade.

Assim, Salazar agarrou o país, como já agarrara os


militares e as elites. E criou o mito. Graças à confiança do
exército e ao instrumento orçamental, tem o controlo da
classe política. Agora, vai adaptar a Portugal uma doutrina
– o nacionalismo autoritário e conservador – para resolver
a crise do Estado e levantar a nação.

(Salazar disse: Não discutimos Deus e a virtude; não


discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a
autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a
sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu
dever. Assim, se assentaram os grandes pilares do
edifício e se construiu a paz, a ordem, a união dos
portugueses, o Estado forte, a autoridade prestigiada, a
administração honesta, o revigoramento da economia, o
sentimento patriótico, a organização corporativa e o
Império Colonial.)
Os historiadores dividem-se bastante, até por razões
ideológicas, quanto à caracterização política deste regime
criado e institucionalizado por Salazar. Alguns inclinam-se
para lhe chamar um Fascismo31, uma forma portuguesa de
Fascismo, outros dizem que essencialmente era a
realização da famosíssima democracia orgânica dos Papas
sociais. Sem dúvida, que o regime foi nacionalista,
autoritário, conservador, tendo uma economia de
mercado, embora com um certo dirigismo, ou seja, uma
certa autoridade política sobre a economia. Eu,
pessoalmente, sempre achei que o regime não tinha

31O Fascismo é uma doutrina totalitária desenvolvida por Benito Mussolini na Itália, a partir
de 1919 e durante seu governo (1922 – 1943 e 1943 – 1945). (Fonte: Wikipédia)
Discutir Salazar Página 18
Salazar: O Maior Português de Sempre?

características essenciais ao Fascismo: não era


revolucionário, não pretendia usar o Estado, a Política
para mudar a sociedade. O professor Borges de Macedo32,
que considero uma autoridade nesta matéria, costumava
dizer que o regime, essencialmente, era a reprodução, a
institucionalização do pensamento político de Salazar.
A trilogia “Deus, Pátria, Família”33 reflectia esse ideário,
que ainda é, para o bem e para o mal, o da direita portuguesa, cristã,
patriótica, solidarista, às vezes mesmo desconfiada do capitalismo
liberal.

32Jorge Borges de Macedo (1921 - 1996) foi professor catedrático de História Moderna na
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e historiador de reconhecido mérito. (Fonte:
Wikipédia)

33Para assinalar os dez anos de governo de Salazar, é editada, em 1938, uma série de sete
cartazes intitulada “A Lição de Salazar”, distribuída por todas as escolas primárias do país. Estes
cartazes faziam parte de uma estratégia de inculcação de valores por parte do Estado Novo,
destinando-se a glorificar a obra feita até então pelo ditador, desde o campo económico-
financeiro às obras públicas. Durante muitos anos, estes cartazes didácticos foram utilizados
como forma de transmitir uma ideia central: a superioridade de um Estado forte e autoritário
sobre os regimes demoliberais. O último cartaz da série, “Deus, Pátria, Família: a Trilogia
da Educação Nacional” é uma esplêndida síntese da pedagogia e moral salazaristas: a
imagem revela o lar perfeito, rústico, humilde, analfabeto, patriarcal, cristão. É a apologia da
saudável e simples vida do campo, por oposição aos vícios gerados pela vida urbana. Lar
simples, aconchegado, sem água nem electricidade, sem um jornal ou aparelho de rádio, nada
que faça lembrar a indústria, a modernidade. A mulher que, submissa, cumpre a sua missão de
esposa e mãe; o pai, chefe de família, que chega do campo onde labuta para angariar o sustento
da casa; o crucifixo, o pão e o vinho sobre a mesa, fazendo lembrar o sacrifício da missa; os
filhos que, reverentemente saúdam o pai, ali o Chefe; ao fundo, o castelo com a bandeira
nacional revela a gloriosa história da pátria. É o mundo perfeito, sem violência, sem vícios, sem
protestos, perfeitamente ordenado, traduzindo uma ordem económica, política e social que o
Estado Novo considerava perfeitas. (Fonte: Sítio na Internet da Escola Secundária Ferreira de
Castro)
Discutir Salazar Página 19
Salazar: O Maior Português de Sempre?

Figura 6 – A Lição de Salazar: “Deus, Pátria, Família” – A Trilogia da Educação Nacional


Foi
este espírito de solidariedade humana que inspirou
também a política de refugiados na 2.ª Guerra Mundial. Da
Europa, devastada e ocupada, afluíram a Portugal cerca de
um 1 milhão de refugiados, entre eles mais de 100 mil
judeus, incluindo os que tinham recebido os vistos do
consulado de Bordéus34. Há repetidas provas do interesse de
Salazar pelo acolhimento e condições de saúde e bem-estar destas
pessoas. E Lisboa foi, assim, nestes anos da Guerra Mundial, um
oásis de paz, uma miragem e um ponto de esperança no extremo
ocidental da Europa.

Também disponível em:

34Recusando-se a seguir as ordens do Governo liderado por Salazar, Aristides de Sousa


Mendes (1885-1954), diplomata português, concedeu vistos a refugiados de todas as
nacionalidades que desejavam fugir da França em 1940, ano da invasão da França pela
Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial. Aristides salvou dezenas de milhares de pessoas do
Holocausto. A 8 de Julho de 1940, Aristides, de volta a Portugal, será punido pelo governo de
Salazar, que priva o diplomata de suas funções por um ano, diminuindo em metade o seu
salário, antes de o enviar para a reforma. Para além disso, Sousa Mendes perde o direito de
exercer a profissão de advogado. A sua licença de condução, emitida no estrangeiro, também lhe
é retirada.
Discutir Salazar Página 20
Salazar: O Maior Português de Sempre?

http://www.youtube.com/watch?v=ztqpjowYyCk
(© RTP 2007 – Todos os direitos reservados)

Foi daqui, deste edifício (Residência Oficial35 de S. Bento), sua


residência como Primeiro-Ministro, que Salazar governou Portugal.
O estilo e a forma de governo de Salazar coadunam-se
muito com a sua personalidade. Era um estilo altamente
centralizador, muito organizado, com as decisões
baseadas, geralmente, em informações de colaboradores
de grande confiança. Lembra, em muitos aspectos, segundo um
dos seus biógrafos, o estilo de Filipe II36, Rei de Espanha e que
também foi Rei de Portugal. O despacho minucioso, a decisão
ponderada, o comando do Império sem emoções, pelo
menos perceptíveis aos seus próximos.

35Por desconhecimento ou mero lapso, confunde-se, não raras vezes, Palácio de S. Bento, sede
do Parlamento Português, com Residência Oficial de S. Bento, designação correcta do
edifício referido.

36Décimo oitavo rei de Portugal, nasceu a 21 de Maio de 1527, em Valladolid, e faleceu a 13 de


Setembro de 1598, no Escorial. Rei de Portugal desde 1581 até 1598, era rei de Espanha desde
1556. (Fonte: Infopédia)
Discutir Salazar Página 21
Salazar: O Maior Português de Sempre?

O Padrão das Descobertas37 é, com outros monumentos da Foz do


Tejo, como a Torre de Belém38 e os Jerónimos39, um dos grandes
símbolos da Expansão Portuguesa. Salazar considerava o Infante D.
Henrique e os seus companheiros das navegações40 entre os grandes
heróis de Portugal. Mas Salazar acreditava que Portugal, sem
Ultramar, além de perder grande parte da sua
importância, corria o risco, num futuro de médio a longo
prazo, vir a ser absorvido na Península Ibérica, deixando
de existir como Estado independente. E que essa perda do
Estado punha em questão a sobrevivência da nação. Por isso, ele
lutou no seu tempo como pôde e com todas as armas para defender o
que considerava o legado dos grandes portugueses que o tinham
precedido. Mas ter um Império Ultramarino, até aos anos 50, era
normal na Europa. Tinham-no, muito maior, os ingleses e os
franceses. Mas é precisamente nesses anos 50 que tudo vai
começar a mudar com os famosos “ventos da mudança”
mencionados por Mack Miller. E, aí, Portugal vai ficar
mais isolado.

(Depois de nas últimas semanas ter realizado uma poderosa


concentração de forças, a União Indiana iniciou, hoje, a agressão
contra o Estado Português na Índia …)

37O Monumento aos Descobrimentos, popularmente conhecido como Padrão dos


Descobrimentos, localiza-se na freguesia de Belém, na cidade e Distrito de Lisboa. Em
posição destacada na margem direita do rio Tejo, o monumento foi erguido para homenagear os
elementos envolvidos no processo dos Descobrimentos Marítimos Portugueses. (Fonte:
Wikipédia)
38A Torre de Belém é um dos monumentos mais expressivos da cidade de Lisboa. Localiza-se
na margem direita do rio Tejo, onde existiu outrora a praia de Belém. Inicialmente cercada pelas
águas em todo o seu perímetro, progressivamente foi envolvida pela praia, até se incorporar
hoje à terra firme. Classificada como Património Mundial pela UNESCO, em 7 de Julho de 2007
foi eleita como uma das Sete maravilhas de Portugal. (Fonte: Wikipédia)
39O Mosteiro dos Jerónimos é um mosteiro manuelino, testemunho monumental da
riqueza dos Descobrimentos portugueses. Situa-se em Belém, Lisboa, à entrada do Rio Tejo.
Constitui o ponto mais alto da arquitectura manuelina e o mais notável conjunto monástico do
século XVI em Portugal e uma das principais igrejas-salão da Europa. Destacam-se o seu
claustro, completo em 1544, e a porta sul, de complexo desenho geométrico, virada para o rio
Tejo. Os elementos decorativos são repletos de símbolos da arte da navegação e de esculturas de
plantas e animais exóticos. O monumento é considerado património mundial pela UNESCO, e
em 7 de Julho de 2007 foi eleito como uma das sete maravilhas de Portugal. (Fonte: Wikipédia)
40Nun'Álvares Pereira, Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque.
Discutir Salazar Página 22
Salazar: O Maior Português de Sempre?

1954, um ano antes da Conferência de Bandung41, vai marcar o inicio


do movimento anti-colonial. As coisas começam, também a mudar
para os portugueses. Na Índia, Nehru42 ordena o ataque aos
“enclaves” de Dadrá e Nagar Aveli43. E, em Dezembro de 1961, o
exército indiano conquista a Índia Portuguesa.
(Mas, um dia, em Angola, foi-nos imposta a Guerra mais
cruel. Ódios que não merecíamos …)
Em Luanda, a 4 de Fevereiro, vários grupos armados de
militantes do MPLA (Movimento Popular de Libertação de
Angola)44 atacam cadeias, esquadras de polícia e outros
edifícios públicos, causando grande perturbação e alarme
em toda a cidade. Começara a Guerra de África. Mas é, a 15
de Março, que o grande ataque se abate sobre o Norte de Angola,
quando milhares de seguidores da UPA45, de Holden Roberto46,

41Entre 18 e 24 de Abril de 1955, reuniram-se na Conferência de Bandung, na Indonésia, os


líderes de vinte e nove Estados asiáticos, perfazendo uma população total de 1 350 milhões de
habitantes. O patrocínio cabia à Indonésia, Índia, Birmânia, Ceilão (Sri Lanka) e Paquistão. O
objectivo era a promoção da cooperação económica e cultural afro-asiática, como forma de
oposição ao que era considerado colonialismo ou neocolonialismo dos Estados Unidos da
América, da União Soviética ou de outra nação considerada imperialista. (Fonte: Wikipédia)

42Jawaharlal Nehru (1889 — 1964), foi um líder da ala socialista no congresso nacional
indiano durante e após o esforço da Índia para a independência do império britânico. Tornou-se
no primeiro-ministro da Índia na independência, de 15 de Agosto de 1947 até sua morte. (Fonte:
Wikipédia)

43Dadrá e Nagar-Aveli são territórios da Índia. Dadrá é um enclave no Estado do Gujarat e


Nagar-Aveli fica na fronteira entre este e Maharashtra. Pertenceu, entre 1779 e 1954, ao Império
Português, tendo sido a primeira colónia a desmembrar-se do Império pela ocupação da União
Indiana. Fazia parte do antigo distrito de Damão.
44O MPLA ou Movimento Popular de Libertação de Angola foi um movimento de luta
pela independência de Angola de inspiração comunista e apoiado pela URSS, que se
transformou num partido político após a Independência. (Fonte: Wikipédia)

45A União dos Povos de Angola (ou apenas UPA), anteriormente designada de União dos
Povos do Norte de Angola (UPNA), foi a designação dada a um dos movimentos de
libertação da província ultramarina portuguesa de Angola sob o regime português desde 1484.
(Fonte: Wikipédia)

46Holden Roberto (1923 — 2007) foi um dirigente nacionalista angolano durante a Guerra
Colonial portuguesa. Iniciou a sua actividade política em 1954 com a fundação da União dos
Povos do Norte de Angola (UPNA), mais tarde designada UPA. Assina em 1960 um acordo com
o MPLA que não iria cumprir, para assumir sozinho a liderança na luta contra o colonialismo
português. (Fonte: Wikipédia)
Discutir Salazar Página 23
Salazar: O Maior Português de Sempre?

atacam fazendas de café e povoações, assassinando milhares de


pessoas.
(Todos em força para Angola, ordenou Salazar, e os soldados de
Portugal responderam “Presente!”.)
Com as derrotas e desaires de franceses e ingleses, na Indochina, em
Suez e na Argélia, confirmava-se o fim do mundo eurocêntrico.
Mudara o xadrez político mundial e chegava uma nova ordem
bipolar soviética e americana. No Ocidente, acabara o Império
Britânico e eram os Estados Unidos, agora, os novos donos do
grande jogo. E Salazar, apesar de contrariado, estava consciente
destas novas regras da ordem mundial. Tudo isto, concluía – leva-
nos a pôr em primeiro lugar a defesa e existência
portuguesa do nosso Ultramar e acima de tudo do
Ultramar africano, como a própria razão de ser da
independência nacional, sendo tudo o mais secundário
em face dessa necessidade”.

Para Salazar e para o seu Ministro dos Negócios


Estrangeiros, Franco Nogueira47, a defesa militar do
Ultramar impunha-se, pois, sem a soberania política e sem
a ocupação político-administrativa dessas áreas, ficaria
reduzido ao “rectângulo” europeu. E ao “rectângulo”
europeu situado numa península onde a Espanha era
forte, unida e desenvolvida. E numa Europa onde a
Inglaterra perdera muito do seu prestigio e da sua força.

47Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira (1918-1993) foi um político e diplomata


português durante o Estado Novo. Em 16 de Abril de 1961 (apenas três dias depois do fracasso
do golpe de Botelho Moniz), o Presidente do Conselho reúne-se com Nogueira, convencendo
este a aceitar o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, no qual toma posse em 4 de Maio.
Até abandonar a pasta, em 5 de Outubro de 1969, Alberto Franco Nogueira enfrenta uma
conjuntura marcada pela guerra em África e pelo crescente isolamento internacional de Portugal
que o conflito provoca. Interna e externamente, ataca as Nações Unidas e denuncia aquilo que
considera como os interesses imperialistas das grandes potências nas “províncias ultramarinas”
portuguesas. Em numerosas visitas oficiais e presenças nas reuniões da NATO, procura, com
algum sucesso, ganhar apoios internacionais, deslocando-se ainda a Angola (1964) e
Moçambique (1966). Colaborador próximo de Salazar e fiel seguidor da estratégia deste,
Nogueira ganha peso no interior do regime.
Discutir Salazar Página 24
Salazar: O Maior Português de Sempre?

Mas, no plano diplomático, Portugal estava longe de ser um lugar


isolado, marginalizado, longe das nações civilizadas.
“Orgulhosamente sós!” foi uma fórmula lapidar, mas para
uso interno. Na realidade, as relações externas do país, nos
anos 5o e 60, mantiveram-se normais. Portugal era
membro das Nações Unidas e das suas agências: da NATO,
da EFTA48, da OCDE49, do Banco Mundial50, do Fundo
Monetário51.
A questão da defesa política, militar e diplomática do
Império foi a grande batalha de Salazar e do Portugal que
ele governou. A sua última crise, o seu último combate. A
situação militar em Angola recuperou-se e, a partir daí,
houve um extraordinário período de desenvolvimento
económico e social, que só parou em 1974. Também em
Moçambique, apesar de condições económicas e sociais
mais difíceis, a guerrilha da FRELIMO52 foi contida a norte
do Zambeze. A Guiné foi sempre o mais difícil. Mas as
Forças Armadas cumpriram os seus objectivos defensivos.
Quando veio o 25 de Abril de 1974, com a excepção do

48Associação Europeia de Livre Comércio — AELC (em inglês, EFTA) é uma


organização europeia fundada em 1960 pelo Reino Unido, Portugal, Áustria, Dinamarca,
Noruega, Suécia e Suíça, países que não tinham aderido à Comunidade Económica Europeia
(CEE). A Finlândia foi admitida em 1961, a Islândia em 1970 e o Liechtenstein em 1991. O
Tratado foi assinado em 4 de Janeiro, na cidade de Estocolmo. Hoje a EFTA é apenas
constituída por quatro países: Suíça, Liechtenstein, Noruega e Islândia. (Fonte: Wikipédia)
49A Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económicos (OCDE)
Organização internacional fundada em 1961 com o objectivo de promover o desenvolvimento
económico e o comércio internacional. A OCDE foi criada em 30 de Setembro de 1961,
sucedendo à Organização para a Cooperação Económica Europeia, criada em 16 de Abril de
1948. Também é chamada de "Grupo dos Ricos" porque os 30 países participantes produzem
juntos mais da metade de toda a riqueza do mundo. A OCDE influencia a política económica e
social de seus membros. (Fontes: Wikipédia e Infopédia)
50O Banco Mundial é uma agência do sistema das Nações Unidas, fundada a 1 de Julho de
1944 por uma conferência de representantes de 44 governos em Bretton Woods, New
Hampshire, EUA. É composto por 184 países membros e a sua sede é em Washington DC, EUA.
A adesão de Portugal ocorreu em 29 de Março de 1961. (Fonte: Wikipédia)
51O Fundo Monetário Internacional foi criado em 1944, na Conferência de Bretton
Woods, e que se tornou operacional a partir de 1947. Tem como objectivo promover o bom
funcionamento do sistema financeiro mundial pelo controlo das taxas de câmbio e da balança de
pagamentos, através de assistência técnica e financeira. (Fontes: Wikipédia e Infopédia)

52A FRELIMO, acrónimo da Frente de Libertação de Moçambique foi uma força política
oficialmente fundada em 25 de Junho de 1962, com o objectivo de lutar pela independência de
Moçambique do domínio colonial português. (Fonte: Wikipédia)
Discutir Salazar Página 25
Salazar: O Maior Português de Sempre?

Estado da Índia, Portugal mantinha o controlo territorial


de todo o Império.

Também disponível em:


http://www.youtube.com/watch?v=IHOg_oSbrJw
(© RTP 2007 – Todos os direitos reservados)

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Salazar: O Maior Português de Sempre?

Em Setembro de 1968, Salazar sofreu um grave acidente vascular


cerebral e fica incapacitado de exercer funções. O presidente da
República, depois de ouvidos vários especialistas e o Conselho de
Estado, com alguma relutância, decide substituí-lo pelo professor
Marcello Caetano53.
Só podemos entender a "grandeza” e os "grandes homens"
historicamente, isto é, no tempo que viveram, face aos
condicionalismos culturais e políticos, internos e externos, que
encontraram.

Como patriota e como católico, Salazar viveu e conheceu a


República Democrática como um regime negativo para a
nação. Ele não era um democrata ou um liberal em
política. Mas tão pouco foi um totalitário: o Estado Novo
exerceu uma censura prévia em relação aos jornais e procedeu à
detenção preventiva de opositores, como fariam, aliás, os governos
provisórios e o COPCON54, até ao Verão de 197555. Mas, entre 1936 e
1954, centenas de presos políticos passaram pela Colónia Penal do

53Marcello José das Neves Alves Caetano nasceu em 1906. Respeitado professor de
direito, jornalista e historiador, iniciou-se na política seguindo a ideologia do Estado Novo,
tendo mesmo ocupado cargos de alta responsabilidade, a nível partidário (enquanto Presidente
da Comissão Executiva da União Nacional) e a nível governamental (Ministro das Colónias e
Ministro da Presidência). Em 1968, por motivo de doença de Salazar, o Almirante Américo
Thomaz, presidente da República, escolheu-o para subir à chefia do governo. Marcello Caetano
introduziu algumas alterações a fim de efectuar uma "renovação na continuidade": extinguiu a
PIDE e criou a Direcção Geral de Segurança (DGS), apesar de as pessoas e dos métodos não
terem mudado; alterou o nome da União Nacional para Acção Nacional Popular (ANP);
"aligeirou" a acção da censura, permitindo também o regresso de alguns exilados políticos. Foi a
chamada "Primavera Marcelista", onde Caetano tentou acalmar as diversas facções da sociedade
portuguesa: aos mais conservadores prometeu continuidade e aos mais liberais deu esperança
de renovação. Após o 25 de Abril de 1974 e com o fim do Estado Novo, Marcello Caetano seguiu
para o exílio no Brasil, onde viria a falecer em 1980. (Fonte: Centro de Investigação para
Tecnologias Interactivas – CITI)
54O COPCON - Comando Operacional do Continente, foi uma estrutura de comando
militar para Portugal continental (enquadrado no Estado-Maior General das Forças Armadas)
criada pelo MFA no período que se seguiu à revolução de 25 de Abril de 1974 e extinto após o 25
de Novembro de 1975. Na prática coincidiu também com o comando da Região Militar de
Lisboa. O COPCON foi criado em 8 de Julho de 1974 por decreto-lei assinado pelo Presidente da
República, António de Spínola, com o objectivo de fazer cumprir as novas condições criadas pela
Revolução dos Cravos. Era constituído por forças especiais militares como os fuzileiros, pára-
quedistas, comandos, polícia militar, Infantaria de Queluz e pelo Regimento de Artilharia de
Lisboa (RALIS). O seu comandante era o major Otelo Saraiva de Carvalho. (Fonte: Wikipédia)
55Período conturbado conhecido como “Verão Quente de 1975”, caracterizado por uma
certa anarquia no Governo, Forças Armadas e sociedade. . Tiveram lugar uma série de acções
violentas contra as sedes dos partidos e organizações políticas de esquerda, sobretudo no norte e
centro do país, violência essa que justifica o surgimento de rumores acerca de uma possível
guerra civil. (Fonte: CITI)
Discutir Salazar Página 27
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Tarrafal56, em Cabo Verde, onde vieram a morrer, de doença, cerca


de três dezenas. Nos territórios africanos, sobretudo até às reformas
de 1961, verificavam-se situações graves, de exploração, de
brutalidade e até de supremacia racial, comuns às "situações
coloniais”, mesmo nos estados democráticos. Não podemos nem
devemos dar por inexistentes ou menos significativos estes factos. E
vivendo, hoje, num regime de liberdades, isto choca e é
compreensível que choque, ainda mais, àqueles cujos familiares,
amigos ou correligionários passaram por elas.

Figura 7 – Colónia Penal do Tarrafal

Mas temos que entender à época e ao conjunto: estamos no período


em que os comunistas na União Soviética de Estaline57 prenderam e
massacraram milhões de famílias; em que em Espanha uma guerra
civil matou meio milhão de pessoas, muitas abatidas por listas na

56A Colónia Penal do Tarrafal, que incluía o campo de concentração, foi criada em 1936.
Até 1954, recebeu os presos políticos portugueses inimigos do regime de Salazar. Em 1961, por
decreto do ministro do Ultramar, reabriu e foi o destino de presos nacionalistas africanos. A 1 de
Maio de 1974, saíram os últimos reclusos.

57Josef Estaline (1878 – 1953) foi secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética e
do Comité Central a partir de 1922 até a sua morte em 1953. Sob a liderança de Estaline, a União
Soviética desempenhou um papel decisivo na derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra
Mundial (1939-1945) e passou a atingir o estatuto de superpotência, e a expandir seu território,
para um tamanho semelhante ao do Antigo Império Russo.
Discutir Salazar Página 28
Salazar: O Maior Português de Sempre?

retaguarda; em que muitos milhões de civis na Europa, foram as


vítimas colaterais das razões de Estado das potências e das políticas
europeias com a Guerra, a oposição, a resistência e o genocídio 58.
Quanto ao regime que fundara, Salazar não tinha grandes
ilusões sobre a sua duração, uma vez ele desaparecido.
Pessimista ou realista, resignara-se a não poder ter
influência nem poder para além da morte. Como quanto à
Ponte sobre o Tejo, "Ponte Salazar"59, teria tido um comentário,
desenganado na ocasião da sua inauguração, de que o seu nome não
ficaria ali muito tempo. Previu e não proveu? Ou sabia que, para
além da sua morte, a sua "vontade", essa vontade que o "atara ao
leme" do país, como nos versos de Pessoa, Bartolomeu fora atado
pela vontade de "El-Rei D. João II", já não contaria nada.

Salazar não foi um político populista e nem sequer quis ser


um político popular. Também, na verdade, as circunstâncias em
que chegou ao poder e as circunstâncias em que o exerceu
permitiam-lhe, perfeitamente, dispensar a “política espectáculo” e a
retórica que lhe está ligada. Por isso, exerceu o seu poder de
um modo, por vezes, distante, protocolar, sem grandes
manifestações de simpatia ou de popularidade. O seu
valor, a sua missão, o seu fim único era Portugal, a nação
portuguesa, vista como um ser histórico, mas bem vivo,
uma comunidade no tempo e no espaço, uma comunidade
feita de história, de memória, de sonhos, de projectos
colectivos, na qual se considerava responsável e primeiro
servidor. E Portugal, para ele, valia e justificava tudo,
inclusive as práticas, consequências e custos de um regime
autoritário e limitador das liberdades públicas e que
podia, também, dar a nível de execução lugar aos abusos e
arbítrios do poder. Mas sendo rigoroso e até, às vezes,
mesmo tudo, quando estava em jogo o interesse público,
Salazar nunca abusou do poder, nem nunca usou esse
enorme poder que teve para caprichos pessoais ou
58Genocídio (por vezes designado por “limpeza étnica”, embora esta última designação
tenha vindo a ser preterida devido à conotação positiva da palavra "limpeza") tem sido definido
como sendo o assassinato deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas, nacionais,
raciais, religiosas e (por vezes) políticas. (Fonte: Wikipédia)

59No dia 6 de Agosto de 1966, decorreu a cerimónia de inauguração da primeira travessia sobre
o Tejo, na presença das mais altas individualidades portuguesas, das quais se destacam o
Presidente da República, Almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás, o Presidente do
Governo, António de Oliveira Salazar e o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves
Cerejeira, passando a ser chamada Ponte Salazar. Logo a seguir à Revolução de 25 de Abril de
1974, o seu nome é mudado para Ponte 25 de Abril.
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Salazar: O Maior Português de Sempre?

vinganças. E muito menos para a prática de algum acto


menos honesto, por ele ou por algum dos seus familiares
ou amigos. Nisso era também inflexível.

Não há, até 1968, escândalos de alta corrupção em Portugal. O


argumento de que havia Censura, que os encobria, já não vinga aqui,
pois, depois do 25 de Abril, tais escândalos teriam aparecido e bem
que os procuraram.

Salazar está, aqui, sepultado, nesta campa rasa, do Cemitério do


Vimieiro. Foi um patriota e um grande português que, para
bem e para mal, a partir de um certo momento, decidiu
não mudar. Preferiu resistir a adaptar-se ao mundo que o
rodeava. O seu lema podia ter sido o de Guilherme, o Taciturno60,
“Je maintiendrai”: eu manterei, eu guardarei, eu conservarei. Foi
isso que ele entendeu ser o melhor: manter e guardar Portugal
como o tinha recebido. Foi isso que ele fez. O futuro, ele tinha a
consciência que já não pertencia a ele, mas a Deus e aos outros
portugueses.

Figura 8 – Campa rasa onde se encontra sepultado Salazar

60Guilherme, o Taciturno (1533 – 1584) foi o grande impulsionador da independência dos


Países Baixos.
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Também disponível em:


http://www.youtube.com/watch?v=J0xhdQPpdfI
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