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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

GRADUAÇÃO: LICENCIATURA EM FILOSOFIA


DISCIPLINA: SEMINÁRIO DE LEITURA, ANÁLISE E PRODUÇÃO DE TEXTOS
FILOSÓFICOS I
DOCENTE: ANTÔNIO EDMILSON PASCHOAL
DISCENTE: RENAM BATISTA LARENTIS
GRR: 20201185

Natureza da atividade: fichamento


Obra: Tempo Histórico e Tempo Lógico na Interpretação dos Sistemas Filosóficos
Autor: Victor Goldschmidt

Questões exigidas
1. Por que razão Goldschmidt formula o método chamado por ele de “tempo lógico”? O que
falta e o que ele toma de cada um dos métodos anteriores (genético e filosófico) e que o seu
método possuiria?
2. Como o método de Goldschmidt considera o tempo ao interpretar os sistemas filosóficos?
Em que sentido esse tempo é diferente do tempo no método genético (tempo histórico)?
3. Qual o papel do autor e qual o papel do leitor, no âmbito do método de Goldschmidt? Como
esses papéis se explicam a partir da metáfora da música?
4. Por que doutrina e método não são elementos separados? O que corrobora a ideia de que,
nas palavras de Goldschmidt, a “filosofia é explicitação e discurso”.

1. O método filosófico, "que se pode chamar dogmático, aceita, sob ressalva, a pretensão dos
dogmas a serem verdadeiros, e não separa a léxis da crença." O segundo, chamado genético,
considera os dogmas como efeitos supervenientes de certos fatos e disposições de
comportamentos, desde a ordem econômica vigente, até à própria biografia do autor, de tal
modo que se possa assinalar, o historiador, a etiologia, que é observar o que levou à consecução
teórica de tais dogmas a partir desses fatos. O primeiro se concentra na intenção do autor, o
segundo, se arrisca a explicar o sistema para além dessa intenção. Nesses dois métodos ora há
o perigo de enclausurar as filosofias em dogmas estéreis, sem qualquer descoberta, ora há o
perigo de certo "psicologismo", isto é, de reduzir as doutrinas a causas ocultas,
intencionalmente ou não, e levantadas pelo intérprete.
Daí uma formulação metodológica importante que Goldschmidt nos dá, por onde se pode
auferir um critério de interpretação mais sóbrio: “os movimentos do pensamento filosófico
estão inscritos na estrutura da obra (...), é uma mesma estrutura, que se constrói ao longo da
progressão metódica (...). Ora, falar de movimentos e progressão é, a não ser que fique em
metáforas, supor um tempo, e um tempo estritamente metodológico (...) um tempo lógico.” O
tempo lógica é a reconstituição dos movimentos realizados pelo autor, cristalizados,
explicitados na obra.
2. Assim, é necessário assinalar como esse tempo se dá, e suas distinções para com o método
genético. No tempo lógico, quando se examina um sistema sobre sua verdade, centra-se mais
no tempo intrínseco à obra, segundo as razões expostas na obra, conforme seu modo de
explicitação, como se verá ao comparar-se com a leitura duma partitura. É claro que em "certas
filosofias, o método em ato, não somente se move num tempo lógico, mas mantém relações,
implícitas ou explícitas com uma doutrina com o tempo em geral".
No método genético "põe-se, com a causalidade, o tempo (enquanto tal); além disso, o recurso
ao tempo e uma 'evolução' permite-lhe, precisamente, explicar e dissolver essas contradições".
Isto porque todas as doutrinas, tomadas intrinsecamente, pretendem-se verdadeiras. E, pois, se
consideradas em si, há tensões e contradições entre uma e outra, coisa que o método histórico
o mais das vezes atenua em benefício da exposição geral das doutrinas. Já o método pela
temporalidade lógica permite uma interpretação mais cuidadosa e mais minuciosa de acordo
com cada obra analisada enquanto tal, enquanto monumento erigido por um pensador singular.
Dessa forma, "repor os sistemas num tempo lógico é compreender sua independência, relativa
talvez, mas essencial, em relação aos outros tempos em que as pesquisas genéticas os
encadeiam." No genético se dá um quadro "cômodo" das filosofias, mas não propriamente
filosófico, já que se debruça nas motivações exteriores ou ulteriores à obra.
3. Por isso o leitor-filósofo, se se pretende reconstituir aquele projeto arquitetônico de
pensamento conforme a intenção do autor, não deverá jamais separar as teses dos movimentos
que as produziram. Porque, se se busca uma causa oculta, até aos olhos do próprio filósofo, o
leitor, considerando-se a doutrina em si, coloca-se acima do sistema. E, "em relação ao filósofo,
ao invés de adotar primeiramente a atitude de discípulo, faz-se analista, médico, confessor."
E as "asserções de um sistema não podem ter por causas senão as razões conhecidas do
filósofo e alegadas por ele (...), e a principal tarefa do intérprete é restituir a unidade
indissolúvel deste pensamento que inventa teses, praticando um método."
Aliás, a sucessão de movimentos forma uma composição, contém uma temporalidade lógica
que remete à temporalidade dialética no momento em que o autor se dedicou à feitura da obra,
e que está cristalizada, agora, na mesma obra. E essa composição pode ser lida como se fora
uma partitura, qual remete à "temporalidade musical" de sua execução em instrumentos. É
refazendo, após o autor, os movimentos que a estrutura da obra guarda em seu traçado, que se
recoloca em execução a própria estrutura da obra, num tempo lógico.
4. Portanto, assume papel importante a noção de filosofia enquanto explicitação e discurso,
uma vez que, se bem compreendida, observa-se na obra a imbricação entre doutrina e método,
explicitada ao longo do discurso. Victor Goldschmidt diz que o escopo de suas notas é a
contribuição para a "elaboração de um método, ao mesmo tempo, científico e filosófico." A
filosofia é então, explicitação e discurso, pois se manifesta numa obra após certa articulação
de pulsões, em ordem de razões às quais confere valor. Esses movimentos se dão numa escalada
discursiva (método), que se realiza naquilo que se chama tempo lógico. Essa explicitação pode
até ter pé - ou aludir remotamente - numa como "intuição original", mas o trabalho do
intérprete não é reduzir a doutrina àquele concessível momento embrionário, pois desse
embrião surgiu o corpo propriamente filosófico, atualizado, e é este que deverá ser analisado:
para uma interpretação confiável e sensata. Um cardiologista não consegue estudar o coração
na plenitude de suas operações quando a pessoa ainda é um embrião, mesmo que o coração já
esteja lá codificado, e se desenvolvendo.
Daí a importância de se considerar a doutrina e o método, que "não são elementos separados".
O "método se encontra nos próprios movimentos do pensamento filosófico", por onde se expõe
as teses, num conjunto doutrinário. Não se pode conhecer as teses se abstraídas do método de
que resultam, e também pouco se conhece de um método, se as teses não são bem entendidas
conforme sua exposição. É na obra escrita que esses movimentos se nos apresentam: e é
percorrendo-os que se pode reconstituir, pela leitura, o método e a doutrina que se manifestam
imiscuídos na obra. Aquilo seria, também, separar método e doutrina, "achar na obra um
método somente de exposição, e não de descoberta." Se não se concede que estejam intricados
na obra, a demasiada ênfase num ou noutro acaba por levar à mútua destruição.