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REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E ENSINO SUPERIOR


UNIVERSIDADE PÚBLICA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO E COMUNICAÇÃO (ISEC)

CURSO: Licenciatura em Educação de infância ANO: 2º


SALA: 4 (manhã) CADEIRA: Língua Portuguesa II
DOCENTE: Gika da Cruz SEMESTRE: 2º

Discente: Keita ANO LECTIVO: 2019/2020

ACTIVIDADE: ficha de leitura sobre “Quem me dera ser onda” de Manuel Rui

1. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Rui, Manuel. (1991). Quem me dera ser onda. Lisboa: Edições Cotovia, Lda.

2. BIOBIBLIOGRAFIA DO AUTOR

Manuel Rui Alves Monteiro, mais conhecido por Manuel Rui pode ser considerado um dos escritores
angolanos (Huambo, Angola 1941) de maior vulto tendo-se em conta os contributos significativos que
deu à sua pátria, sobretudo ao nível literário. Como prova disso, colocaria no topo da lista a concepção
da letra do Hino “Angola Avante”.
A sua carreira literária marcada pela produção dos mais variados géneros, de contos a poesia e de
romances a obras de teatro fazem fé à sua tão falada versatilidade, que por sua vez poderá ter sido fruto
de sua larga experiência humana, académica e política. Neste último prisma, tem-se registo de que em
1963 Manuel Rui foi um dos activistas angolanos fundadores daquele que viria a ser considerada o
trampolim dos que lutaram pela causa da independência de Angola, como António Agostinho Neto, por
exemplo.
Em 1969 forma-se me Direito pela Universidade de Coimbra, Portugal, aonde exerce a advogacia por
um período considerável, para além de colaborador da revista “Vértice”. Em 1974, já de regresso à sua
terra natal, exerce vários cargos na política, dentre os quais, Ministro da Informação do Governo em
Transição.
Foi também professor universitário e Reitor da Universidade de Huambo, um dos principais
ficcionistas Angolanos, assim como o primeiro representante de Angola na Organização da Unidade
Africana e nas Nações Unidas.Manuel Rui é membro fundador da União dos Artistas e Compositores
Angolanos, da União dos Escritores Angolanos e da Sociedade de Autores Angolanos.

3. CLASSIFICAÇÃO LITERÁRIA

A obra “Quem me dera ser onda” de Manuel Rui pertence ao modo narrativo e ao género novela.

4. TEMA

A obra em estudo, apesar de num primeiro momento não ficar assim tão evidente, procura denunciar de
maneira bastante cómica o período de grande instabilidade político-social que Angola teve que
atravessar no pós-independência.

5. CITACÕES RELEVANTES

I) ”Eu na minha pessoa de assessor popular não posso admitir este desrespeito pela disciplina.
E você também, camarada Nazário. Ou é ou não é o responsável máximo pelo prédio?
Amanhã temos que mandar o fiscal em casa do gajo e descobrir esse porco para lhe multar
ou mesmo correr com esta gente do prédio.” (P.4);
II) “Estás-te a aburguesar-se. Quem te viu e quem te vê. É a luta de classes!” (p.17)
III)  “Conquistas da revolução! Estás politizado! Isto é o que a comissão de moradores devia
ver” (P.19);
IV) “Os dois miúdos tratavam o porco como membro da família. Limpavam o cocó dele,
davam-lhe banho e, todos os dias, passavam na traseira do hotel a recolher dos contentores
pitéus variados com que o bicho se giboiava” (p.20);
V) “– Ataque camarada Nazário. É lombinho e não é marítimo. – Espere um momento. Vou
buscar a minha mulher, trago uma grade e na volta chamo o Faustino com a aparelhagem.
Veja se precisam de louças e talheres.” (p.60);
VI) “E Ruca, cheio daquela fúria linda que as vagas da Chicala pintam sempre na calma do mar,
repetiu a frase de Beto: – Quem me dera ser onda!” (p.60).

6. RESUMO

O “Quem me dera ser onda” narra a história de uma família que vive num prédio onde é proibido ter
animais domésticos. Porém, infringindo grosseiramente as tais regras, o pai Diogo decide levar um
porco às escondidas na varanda do seu apartamento, com o objectivo de criá-lo, engordá-lo e abatê-lo
no Carnaval, data em que pretendia realizar um grande churrasco. Mas Zeca e Ruca, os filhos de Diogo
acabaram por contrair um tal apego fraternal pelo animal que até nome lhe deram – “Carnaval da
Vitória”. Basicamente, mesmo sabendo que o destino que se lhe reservava era morte, os meninos
tentam de todas as formas possíveis dissuadir o pai, procurando adiar um veredicto que já tinha sido
enunciado desde o início. Os miúdos tratavam o porco como mais um membro da família, protegendo-o
e escondendo-o dos que representavam ameaça, como o eram os fiscais responsáveis pela manutenção e
cumprimento das regras do prédio. Em véspera de carnaval a altura acordada para a morte do animal, os
irmãos Ruca e Zeca tinham medo perde um dos seus melhores amigos, os rapazes foram ate o
apartamento do camarada Nazário contar a verdade, de que vivia um leitão no apartamento…Mais não
foram a tempo de evitar a morte do leitão, quando chegaram a casa encontraram quatro fogareiro
crepitantes e febras bem “Ajindungadas sobre ele”. E no fim, o Ruca só conseguiu dizer: “Quem me
dera ser onda”.

7. APRECIAÇÃO CRÍTICA

Conforme já havia referido no tema, “Quem me dera ser onda” é, a meu ver, uma história com um
enredo bastante simples, diria até infantil, mas que, pelas leituras complementares que pude fazer,
aborda temas sérios presentes na sociedade angolana, após a independência, como sejam: as
consequências da guerra, a condição humana, as classes sociais, a corrupção, os preconceitos, a
liberdade.
Como disse acima, trata-se de uma história aparentemente infantil, até porque temos como
protagonistas duas crianças (Zeca e Ruca) e um animal - um porco – O Carnaval da Victória. O
argumento principal centra-se exatamente nestas figuras, onde nasce uma relação que era perfeitamente
possível num tempo já esquecido pelos adultos. 
 Contudo, um estudo mais perspicaz do texto leva-nos a uma outra figura fundamental que perpassa
todo este texto - a ironia. E é-o exatamente porque incorpora a este texto, aparentemente simples e
despretensioso, uma incrível mescla política e uma crítica à sociedade de Luanda da época, que
esqueceu e apagou todos os valores antigos. 
  Esta obra deve ser encarada como um autêntico relatório dos problemas e evidências que merecem
atenção pela preocupação que despertam: ao longo da leitura somos embalados e como que convidados
a entrar num mundo citadino definitivamente alienado, em que reina a confusão de situações sociais,
culturais e vivenciais que há que revelar, estudar e entender como factos a rever - a alienação cultural,
social e política é-nos dada através da figura do pai das crianças que não entende certas preocupações
humanas e se revela completamente desintegrado do espaço social representado pelo prédio e mesmo
pela cidade em que vive. E acho ainda que uma análise comparativa das sociedades angolana, são-
tomense e outras dos PALOP no período pós independência bem nos poderia surpreender com as
semelhanças.
Em suma, achei a história extremamente interessante, envolvente e criativa, sobretudo, com já disse,
pelo facto de recorrer a elementos tão simples e inocentes para se referir a uma realidade tão
marcadamente dura.
 

8. PRINCIPAIS DIFICULDADES ENCONTRADAS NA LEITURA DA OBRA

As minhas principais dificuldades se prenderam com a decifração de certos termos de cunho político
empregues pelo autor ao longo do texto, como “aburguesar”, por exemplo. Por outro lado, não
conseguia perceber a relação entre o título do texto e o seu enredo até ao final quando o Ruca usa a
mesma máxima e pude perceber que maior ligação não podia haver – ser livre como as ondas.

Muito obrigada pela atenção e por aceitar o meu trabalho tão em cima do tempo, senhora professora
Ana Varela.