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PARTE 2

Interesse Nacional e Bem Universal. Quando um proeminente nacional-socialista


(alemão nazista) propôs a mesma identificação de
Caso o realista queira não seria difícil desmontar a
interesse nacional com direito universal que anglo-
estrutura de papelão do pensamento utópico, para
saxões haviam já estabelecido, seu comentário
isso deve-se usar a relatividade do pensamento
parecia forçado e não convincente. Para isso há
para demolir o conceito de um padrão fixo e
duas explicações, primeira (usada em países de
absoluto.
língua inglesa) a política das nações anglo-
O utópico quando prega a harmonia de interesse saxônicas eram de fatos mais virtuosas e
toma que seu próprio interesse é o interesse desinteressada do que países continentais, de
universal. Esses não estão dispostos a colocar o modo que Cecil, Wilson e Roosevelt estavam certos
interesse mundial acima do interesse do seu país, quando usavam o discurso de eu o interesse de
ao contrário, eles argumentam que o interesse seus países era sim o interesse da humanidade, já
nacional ao favorecer sua pátria estaria também a segunda explicação (usada em países
favorecendo o mundo como um todo. Para os continentais) é que nações de língua inglesa são
utópicos as proposições “o que é melhor para o profissionais em ocultar seus interesses nacionais
mundo é melhor para o seu país” e “o que é melhor sob o manto do bem geral e que essa hipocrisia é
para seu país é melhor para o mundo” teriam igual típica da mente anglo-saxônica.
equivalência.
Com isso em vista, seria ilusório tentar estabelecer
Ex. desse pensamento “Eu sustento que somos a qual a explicação mais adequada já que, as teorias
primeira raça do mundo [...] e que, quanto maior da moral social são sempre produto de um grupo
for a parcela do mundo habitarmos, melhor será dominante, que se identifica com a comunidade
pra a raça humana” Cecil Rhodes com um todo e assim impõe sua visão na
comunidade. As teorias da moral internacional são
Momentos eminentes de guerra estimularam a
pela mesma razão e em virtude do mesmo
identificação de interesse nacional como moral.
processo, o produto das nações ou grupo de
Além disso, o mesmo fenômeno, até então forte na
nações dominantes.
Inglaterra, tornou-se endêmico nos EUA,
presidentes como Roosevelt e Woodrow Wilson
agiram de acordo a harmonia de interesses
utópica.

Ex. de frases “estes são os princípios americanos,


políticas americanas... São os princípios da
humanidade” Wilson.
A Crítica da Harmonia de Interesse Portanto, fica claro que, na medida que a faz fosse
mantida, não haveria nenhuma mudança no status
A harmonia de interesses pressupõe que os quo, que fosse prejudicial a França e a Grã-
interesses de uma classe privilegiada são também Bretanha. Contudo, em 1938 a Alemanha tornou-
os interesses do resto da comunidade, assim, tem- se suficientemente dominante para usar o
se como premissa que qualquer um que ataque os interesse da paz ao seu favor. Hitler argumentava
interesses do grupo dominante também atacará os por exemplo que a Alemanha era um sustentáculo
interesses da comunidade e esse será julgado. da paz. É importante lembrar que Mussolini
A doutrina serve então para a manutenção da também se posicionou a favor da paz dizendo que
posição de grupos dominantes, mas também é era possível resolver todos os problemas europeus
necessário pontuar que frequentemente a de forma pacífica.
supremacia do grupo dominante é tão esmagadora “A propaganda contra a guerra é, ela própria, uma
que de fato seus interesses beneficiam o restante forma de propaganda da guerra.” Havély.
da comunidade e assim seu colapso poderia levar a
um colapso geral.

Para ilustrar Carr da dois exemplos, um em âmbito A Crítica Realista do Internacionalismo.


nacional e outro em internacional,
A harmonia de interesses também está presente
respectivamente, um fabricante britânico ao
no conceito de Internacionalismo. Assim como os
aplicar o laissez-faire promovia sua própria
apelos por "solidariedade nacional", em política
prosperidade e esse então assume que seus
interna, sempre partem de um grupo dominante,
interesses também são interesses dos seus
que pode usar essa solidariedade para fortalecer
empregados e logo beneficiam ambos e a
seu controle da nação como um todo, os apelos por
Inglaterra, assim líderes sindicais ao atacar os
solidariedade internacional e união mundial
empregadores estariam prejudicando a
partem das nações dominantes, que têm
prosperidade britânica como um todo. Já em meio
esperança de exercer controle sobre um mundo
internacional isso se dá basicamente da mesma
unificado. Tem-se como exemplo o
forma, porém tratando agora de países, como o
Internacionalismo moderno que iniciou-se na
comércio livre promovia a prosperidade britânica
França dos séculos xvii e xviii (época de hegemonia
os ingleses convenceram-se de que esse também
do país), o país pregava o "Projet de Paix
promovia a prosperidade mundial, e até certo
Perpétuelle", que visava perpetuar um status quo
ponto é possível assumir que o sucesso da
internacional favorável à monarquia francesa, ou
Inglaterra também beneficiava o mundo e então
seja, o mundo deveria se unir e ter a França como
caso essa colapsasse o mundo entraria em crise,
principal "líder".
contudo essa harmonia prejudicava países pobres,
aos quais cabiam somente uma insignificante Contudo, os países que lu-tam para forçar seu
parcela do comercio exterior. caminho para o grupo dominante natural-mente
tendem a invocar o nacionalismo, contra o
Além de pressupor que seus interesses também
internaciona-lismo das potências hegemônicas.
são interesses mundiais, a paz internacional torna-
Isso significa que, caso o país não seja naquele
se, também, objeto de interesse das potências
momento o dominante ele então se posicionará
dominantes. Isso significa que, ao monopolizar o
contra o Internacionalismo que as potências
interesse pela paz esses países estabelecem que
dominantes tentarão aplicar. Em outras palavras,
quem atacar sua prosperidade – e assim a
Ordem internacio-nal" e "solidariedade
prosperidade mundial – perturbará a paz
internacional" serão sempre slogans dos que se
internacional, já que a moral é na verdade a
sentem suficientemente fortes para se imporem
estabelecida pelo dominante e quem não a
sobre outros.
respeita é imoral ou estupido.
De forma concisa, a crítica realista aos utópicos não
está empregada ao suposto fato de que eles não
consigam viver de acordo com seus princípios, ou
seja, pouco importa que Briand, que pensava que
a paz vem antes da justiça, falhe em induzir seus
concidadãos a aplicarem esses princípios
consis-tentemente. O que importa é que esses
princípios, supostamente universais e absolutos,
não eram princípios e sim reflexos da política
nacional baseados em interesses nacionais. Em
certo sentido, a paz, cooperação entre as Nações e
manutenção da ordem são fins comuns e
universais, independente de interesses e políticas
conflitantes. Porém, quando Nações dominantes
tentam monopolizar o interesse nesses princípios,
eles se revelam apenas como disfarces que deixam
transparecer interesses egoístas.