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A Maçonaria e o Brasil Independente – Por Vitor Manuel AdriãoSexta-

feira, Abr 7 2017 


Sem categoria lusophia 18:16

A presença da Maçonaria na Independência do Brasil é facto histórico incontornável. Desde a


Inconfidência Mineira até ao Grito do Ipiranga – Independência ou Morte! – passando pelo corte
político de subordinação às Cortes de Lisboa e a Abolição da Escravatura, a Maçonaria teve papel
determinante na formação do Brasil Independente. Não se pode deixar de falar dela.

Para uma nação a ser em toda a sua potencialidade, tal como o filho em relação ao progenitor,
precisa libertar-se da dependência paterna, no caso, Portugal. O pai ensinou o filho, depois o filho
teve que seguir o seu curso natural na vida, livre e independente, evoluindo pelos seus próprios
esforços e méritos, e se possível até ajudar o velho pai, como este o ajudou em sua infância e
adolescência. Foi assim que a Maçonaria Luso-Brasileira, em seus primórdios e aparte todas as
vicissitudes psicossociais próprias de qualquer movimento novo, inexperiente nas madurezas da
vida sociopolítica independente, entendeu essa acção determinante da que é hoje a maior
potência nacional da América do Sul rivalizando mesmo com as potências socioeconómicas
mundiais: o Brasil, o jovem filho mais querido de seu pai ancião, Portugal.

Tanto assim é que os primeiros maçons em solo brasileiro eram portugueses, depois naturalizando-
se e assumindo-se de corpo e alma inteiros maçons brasileiros. De maneira que, apesar das
relações tempestuosas com as Cortes de Lisboa havidas nesse conturbado período de transição,
elas não foram tanto assim no seio da Maçonaria, encoberta e calmamente lavrando o terreno da
pátria livre, inclusive com a Maçonaria Brasileira, criada a partir de Portugal, influenciando depois
a Portuguesa, prova clara do intercâmbio entre as duas partes que se complementavam, que nunca
estiveram separadas e só distintas no processo de Independência, nisto naturalmente implicando
crises político-social ameaçando com a militar que, também graças à Maçonaria, nunca descambou
em conflito bélico com Portugal. Isso mesmo diz Oliveira Marques[1], num breve resumo da
História da Maçonaria Brasileira, que transcrevo por inteiro:
“BRASIL – Embora tivesse havido maçons em terras brasileiras desde meados do século XVIII – na
sua maior parte vindos de Portugal – só em 1800 surgiu na América Portuguesa a primeira Loja
maçónica, devidamente estruturada. Foi a Loja União, instalada nesse ano perto do Rio de
Janeiro, em Niterói (ao tempo chamada Vila Real da Praia Grande). Seguia o Rito Adoniramita e
extinguiu-se logo em 1801, sem nunca se ter integrado em qualquer Obediência.

“Em 1801, apareceu uma segunda Loja do mesmo Rito, de nome Reunião, talvez por
transformação da primeira. Funcionou no Rio de Janeiro e colocou-se, a partir de 1803, sob os
auspícios do Oriente da então Ilha de França (hoje Maurícia). Durou até 1805.

“Por seu turno, em 1802, foi instalada na Bahia, a Loja Virtude e Razão, do Rito Francês.

“A intervenção do Grande Oriente Lusitano verificou-se pouco depois da sua criação em Lisboa, em
1803. No ano imediato, patrocinou a instalação no Rio de Janeiro, sob a sua égide, das duas
Lojas Constância e Filantropia, que considerou as únicas legítimas e que logo entraram em
competição com as restantes. Mas, em 1806, a perseguição desencadeada pelo Vice-Rei, Conde dos
Arcos, levou ao encerramento das duas Lojas, sobrevivendo apenas a da Bahia.

“A partir de 1807-08, a Maçonaria pôde renascer, graças ao regime de maior tolerância alcançado.
A presença da Corte Portuguesa e de numerosos maçons vindos de Portugal ajudou a alicerçar as
sucessivas Lojas que se foram constituindo: no Rio de Janeiro, a Beneficência, a Emancipação, a S.
João de Bragança e, mais tarde, a Comércio e Artes; na Bahia, a Virtude e Razão
Restaurada (depois chamada Humanidade) e a União; em Pernambuco, onde a Maçonaria teve
enorme desenvolvimento, a Regeneração, a Guatomosim, a Iguarassu, a Firme União,
a Universidade Democrática, a União Campista, a Pernambuco do Oriente, a Pernambuco do
Ocidente, a Filantropia e Moral, a Restauração e a Patriotismo, muitas delas efémeras; e em
Niterói, a Distintiva. Seguiam quer o Rito Adoniramita, quer o Rito Francês. Em 1813, constituiu-se
um primeiro Grande Oriente Brasileiro, restrito às três Lojas da Bahia Virtude e Razão, União
e Razão Restaurada e à Loja Beneficência do Rio de Janeiro. Como Grão-Mestre, foi escolhido
António Carlos Ribeiro de Andrada[2].
“Por seu turno, o Grande Oriente Lusitano conseguiu colocar sob a sua Obediência as
Lojas Emancipação e Comércio e Artes, do Rio de Janeiro.

“A perseguição de 1817-18, no rescaldo dos acontecimentos de Portugal, fez encerrar


momentaneamente todas as Lojas maçónicas no Brasil e extinguir o Grande Oriente Brasileiro.

“A partir de 1820-21, as medidas tomadas pelas Cortes de Lisboa e o regresso de D. João VI a


Portugal provocaram um renascimento da Maçonaria que adoptou uma política claramente anti-
portuguesa e independentista. As Lojas Comércio e Artes (renascida) e União e Tranquilidade, do
Rio de Janeiro, juntamente com a Esperança de Niterói, de Niterói, fundaram, em 1822, sob o
supremo malhete de José Bonifácio de Andada e Silva, o Grande Oriente do Brasil, cujo papel se
mostrou relevante na proclamação da Independência, ocorrida em 7 de Setembro desse ano.
“A Maçonaria Brasileira, criada a partir de Portugal, veio depois a ter alguma influência na
Portuguesa e, em especial, nos dois pontos seguintes:

“1. O primeiro Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite foi constituído em
Portugal, em 1841, integrado no Grande Oriente do Rito Escocês, por carta do Supremo Conselho
do Brasil – ao tempo já regularmente constituído – a que presidia o Soberano Grande Comendador
Montezuma[3], e o segundo, anexo ao Grande Oriente Lusitano, surgiu também por carta patente
de 1841, concedida por outro Supremo Conselho do Brasil, de que era Soberano Grande
Comendador o Conde de Lajes[4].

“2. Entre os primeiros guias e rituais usados na Maçonaria Portuguesa do Rito Escocês Antigo e
Aceite contaram-se alguns vindos do Brasil, editados em 1833 (Cathecismo dos tres primeiros
gráos do R∴ Escocez, Rio de Janeiro, 5833, 64 pp.) e 1834 (Guia dos Maçons Escocezes ou
Reguladôres dos tres gráos symbolicos no rito antigo e acceito, Rio de Janeiro).

“As relações entre as Maçonarias dos dois Países foram sempre cordiais, tendo havido tratados
entre o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente do Brasil em 1865 e 1907.”

Por sua vez, Joaquim Gervásio de Figueiredo também faz uma resenha histórica do surgimento e
desenvolvimento da Maçonaria no Brasil, cujo texto completo transcrevo, pelo seu grande
interesse histórico ao entendimento sociopolítico da Arte Real actuando em prol da independência
e na formação do país independente[5]:
“BRASIL, I – Período Colonial. Permanecem algo nebulosos e caóticos os primórdios da Maçonaria
no Brasil; todavia não resta dúvida de que a sua introdução neste país deve ter ocorrido no século
dezoito, em consonância com o despertar da consciência nacional brasileira e o seu crescente
desejo de independência, avolumados depois das derrotas que desde o começo desse século
vinham os brasileiros infligindo aos seus colonizadores estrangeiros, mormente os holandeses, e
não raro com a ajuda mínima de seus colonizadores lusos. Para agravar, estes se mostravam
implacáveis e cruéis em estrangular qualquer sentimento nativista de emancipação política do jugo
estrangeiro. Segundo insuspeitos historiadores (ver A Maçonaria e a Grandeza do Brasil, de A. T.
Cavalcanti[6], uma obra bem documentada), não só Tiradentes, o protomártir de nossa
Independência, como outros inconfidentes, eram todos maçons. O alferes Joaquim José Xavier (o
Tiradentes) chegou mesmo a fundar uma Loja maçónica no Tijuco (hoje Diamantina), Minas
Gerais[7]. No Norte, os primeiros passos decisivos para a implantação da Maçonaria no país foram
dados em Pernambuco e Bahia pelo Grande Oriente da França, com o Rito Moderno ou Francês, e
no Sul, isto é, no Estado do Rio de Janeiro, pelo Grande Oriente de Portugal, com o Rito
Adoniramita. Em 1801 e 1802 havia maçons dispersos em Olinda, Salvador, Rio de Janeiro, Campos,
Niterói e Minas Gerais. Em 1801 fundou-se em Salvador a Loja Virtude e Razão, que todavia teve
curta duração, devido às perseguições do governo português, enquanto que em Pernambuco,
beirando a mesma época, foram fundadas as Lojas Guatimosim, Firme União, União
Campista e Filantropia e Moral. Alguns membros remanescentes da Loja Virtude e Razão fundaram
em 30 de Março de 1807 a Loja Virtude e Razão Restaurada, que passou a denominar-se
Loja Humanidade, e a seguir surgiu a Loja União. Com essas Lojas se fundou o primeiro Grande
Oriente Brasileiro, com sede na Bahia, porém teve vida efémera, por ter desaparecido com as
Lojas na voragem punitiva que se seguiu à fracassada Revolução Pernambucana de 1817. Ao passo
que no Sul, em 1804, fundou-se a primeira Loja no Rio de Janeiro, denominada Reunião, filiada ao
Grande Oriente Lusitano e funcionando no Rito Adoniramita, atraindo os maçons até então
dispersos. Nesse mesmo ano chegou ao Rio de Janeiro um delegado do Grande Oriente Lusitano,
portador da Constituição e Regulamento dessa Ordem, com o fim de obrigar todos os maçons
brasileiros a se filiarem àquele Grande Oriente. Frustrado em seu intento, esse delegado enviou
um mensageiro a Lisboa, a expor ali os motivos da recusa dos brasileiros em aceitarem aquela
Obediência. Ante a impossibilidade de um acordo com a Loja Reunião, o delegado português
fundou no Rio de Janeiro as Lojas Constância e Filantropia, e Emancipação, também filiadas ao
Grande Oriente Lusitano. Com o advento das cortes portuguesas para o Brasil, em 1808, surgiu
depois a Loja S. João de Bragança, da qual fizeram parte muitos funcionários do Paço. Seguiu-se-
lhe a Distintiva em 1812, a qual em seu selo tinha por emblema um índio de olhos vendados e em
cadeias, qual um génio prestes a libertar-se. Em 1815 fundou-se a Loja Comércio e Artes que, após
cair em letargia, foi reerguida em 1821, e ainda subsiste. Esta Loja chegou a contar 94 membros
activos em 1822, pelo que se decidiu criar duas Lojas suplementares: a União e Tranquilidade e
a Esperança de Niterói. A principal tarefa dessas Lojas consistiu então em promover a campanha
de libertação política do Brasil. A 2 de Agosto desse mesmo ano, o príncipe D. Pedro é iniciado
ritualisticamente na Loja Comércio e Artes, sob o nome histórico de Guatimosim, e a 5 do mesmo
mês é exaltado a Mestre maçom. Em 17 de Junho de 1822, convocou-se uma Assembleia Geral, que
criou e instalou o Grande Oriente do Brasil, com o fim de tornar completamente autónoma a
Maçonaria no país. As primeiras potências maçónicas a reconhecê-lo foram a França, a Inglaterra e
os Estados Unidos da América do Norte.
“II – Período Monárquico. O Grande Oriente do Brasil foi fechado pelo seu Grão-Mestre, o
imperador D. Pedro I, quatro meses após a sua instalação. Mas em 1827 alguns irmãos iniciaram
outro movimento para reacender a Maçonaria no país, e em 1828 criaram um corpo director
denominado Grande Oriente Brasileiro, porém, apenas simbólico e com uma Loja funcionando no
Rito Escocês Antigo e Aceito. Em 1831, depois da abdicação de D. Pedro I, abriu-se nova pugna
entre maçons brasileiros, pois, com a reinstalação, em 23 de Novembro desse ano, do anterior
Grande Oriente Brasileiro, passaram os dois Orientes a tratar-se como inimigos, não obstante
trabalharem ambos no Rito Moderno ou Francês. O Grande Oriente do Brasil esteve quase sempre
em luta com outras potências maçónicas, e em funcionamento irregular, a não ser nos breves
períodos em que viveu à sombra do Supremo Conselho para os Estados Unidos do Brasil. Em 12 de
Novembro de 1832 o antigo embaixador brasileiro Montezuma, munido de plenos poderes do
Supremo Conselho da Bélgica, fundou um Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, no
Rio de Janeiro, onde instalou uma Loja a que denominou Educação e Moral. Este ilustre irmão era
filiado a uma Loja do Grande Oriente do Brasil e a uma outra do anterior Grande Oriente
Brasileiro, e com o advento desta nova situação, passaram os dois Grandes Orientes a criar
Capítulos e Consistórios, cada qual com um Supremo Conselho. Em 23 de Fevereiro de 1834, foi
celebrado em Paris o Traité d’Union d’Alliance et Confédération Maçonnique entre os Supremos
Conselhos dos Estados Unidos da América do Norte, França e Brasil, este último representado pelo
Grande Lugar-Tenente Comendador Machado E. Silva. Em 23 de Outubro de 1835, alguns membros
do Supremo Conselho do Brasil, reunidos irregularmente em Supremo Conselho, sem processo e em
sua ausência, demitiram de suas funções o Soberano Grande Comendador Montezuma. Este reagiu
contra acto tão irregular, sancionando os rebeldes, e continuou a exercer suas funções até 18 de
Fevereiro de 1844, quando cessou de o ser por força do Tratado de Paris, em razão do afastamento
de grande número de irmãos, segundo o manifesto do Supremo Conselho da França. Por esse
Tratado, o Supremo Conselho do Brasil, então mais conhecido por Supremo Conselho Montezuma,
deixou de fazer parte da Federação de Paris. Do verdadeiro Supremo Conselho do Brasil, assim
feito adormecer, surgiram três novos Supremos Conselhos, dois dos quais, de vida efémera,
fundiram-se no Grande Oriente do Brasil. O outro grupo, emanado do Supremo Conselho de
Montezuma desde 1842, reuniu-se ao anterior Grande Oriente Brasileiro, tomando o nome de
Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito do Grande Oriente Brasileiro, o qual aboliu
inteiramente o Rito Moderno ou Francês. Rompido o Tratado de União de 1842, apareceu um
Grande Oriente e Supremo Conselho sob a direcção do Marquês de Caxias, que, porém, logo
aconselhou sua extinção. Depois, surgiu um outro Supremo Conselho, presidido pelo Conde de
Lajes, com dezassete membros, mas também teve pouca duração. Reinando a anarquia em todas
estas Ordens, cada multiplicação sua redundava em novo fracasso. Em 1843, foi fundada a
Companhia Glória de Lavradio, com novo Grande Oriente, que também acabou se cindindo em dois
grupos. Um dos grupos aclamou seu Grão-Mestre de Lavradio o Barão de Cairu, ao passo que um
dos dignitários do outro grupo, tendo monopolizado todos os poderes, provocou o afastamento de
mais de 1.500 maçons, os quais, sob a direcção do grande irmão Dr. Joaquim Saldanha Marinho,
fundaram em 1863 o Grande Oriente e Supremo Conselho dos Beneditinos. Em 1865 os Grandes
Orientes da França e de Portugal resolveram reconhecer o Grande Oriente dos Beneditinos como o
único legal, e renovaram o Tratado de Aliança de 16 de Maio de 1865; graças aos esforços de seu
Grão-Mestre, o Grande Oriente e Supremo Conselho dos Beneditinos chegaram a contar 49 Lojas
em 1869. O Grande Oriente do Vale do Lavradio promulgou em 20 de Abril de 1865 a sua
Constituição e Estatutos Gerais, e o do Vale dos Beneditinos promulgou a sua em 25 de Setembro
de 1866, ambas admitindo o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Moderno ou Francês, e o Adoniramita,
e mesmo “todos os Ritos que estejam em harmonia com os princípios maçónicos e disposições da
presente Constituição”. Em 1870, o Visconde do Rio Branco foi eleito Grão-Mestre do Grande
Oriente do Lavradio, ao passo que Saldanha Marinho sempre deteve esse cargo na Ordem dos
Beneditinos. Em 1872, mercê dos esforços do Grande Oriente de Lisboa, esses dois Grandes
Orientes foram reunidos sob a denominação de Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do
Brasil, e a sua Constituição provisória foi promulgada em 23 de Setembro de 1872, no Vale do
Lavradio. Na ocasião da fusão havia 122 Lojas, das quais 68 Capitulares: 99 eram do Rito Escocês
Antigo e Aceito, 11 do Rito Moderno ou Francês, 9 do Rito Adoniramita, 1 da Grande Loja de
Hamburgo, 1 de York e 1 de Adopção (mulheres). Delas, 51 provinham do Grande Oriente dos
Beneditinos, 31 dos de Lavradio e 40 cujas colunas foram erguidas depois da constituição do
Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil. A família maçónica brasileira estava de novo
pacificada e a Ordem prosperou até à reeleição do Grão-Mestre, a qual decorreu acidentada, pois
o candidato dos Beneditinos obteve grande maioria de votos sobre o do Grande Oriente do Brasil.
Então o Grande Oriente de Lavradio declarou nula a unificação dos dois Grandes Orientes, feita em
Setembro de 1872. Este caso foi submetido às potências estrangeiras, as quais, por grande maioria,
decidiram que o Visconde do Rio Branco não se achava qualificado para anular uma fusão e deram
ganho de causa a Saldanha Marinho. Como nenhum acordo fora obtido entre os dois ex-Grandes
Orientes, Saldanha retornou aos Beneditinos, mas continuando a dirigir o Grande Oriente Unido e
Supremo Conselho do Brasil, e desta vez com o reconhecimento de quase todas as potências
mundiais. Saldanha Marinho deteve esse primeiro malhete até 1880, e o Visconde do Rio Branco
permaneceu Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil até 1878, quando o sucedeu o Grão-Mestre
Adjunto, Dr. F. J. C. Júnior.
“III – Período Republicano. Daí em diante a Maçonaria no Brasil prosseguiu mais ou menos
normalmente suas actividades, sem lances historicamente notáveis, a não ser algumas alterações
em sua Constituição, tendentes a definir, restringir ou ampliar poderes, até que em Junho de 1927
o Supremo Conselho, convocado pelo Grande Comendador Dr. Otávio Kelly, resolveu romper o
Tratado de União com o Grande Oriente do Brasil, que havia sido firmado em 1864, para constituir-
se uma potência maçónica mista. Este acto provocou a fundação de Grandes Lojas Soberanas em
vários Estados do Brasil, com jurisdição nas Lojas de seu território: Lojas de Perfeição, Capítulos,
Conselho de Kadosh e Consistórios de Príncipes do Real Segredo, obedientes ao Supremo Conselho.
Todas as Grandes Lojas fundadas trocaram representantes com as Grandes Lojas do Mundo, muitas
das quais deixaram de reconhecer o Grande Oriente do Brasil como potência maçónica regular. Ao
passo que o Supremo Conselho, funcionando no Grande Oriente do Brasil, fundado ao arrepio das
Grandes Constituições e Resoluções da Confederação dos Supremos Conselhos, é julgado espúrio e
irregular pelos demais Supremos Conselhos, não tendo por isso sido recebido no Congresso dos
Supremos Conselhos, realizado em Paris, em 1928, e em Bruxelas, em 1935. Por esses motivos, o
Grande Oriente do Brasil tem sofrido contínuas fragmentações, pois muitas Lojas têm se retirado
de sua jurisdição para fundar novas potências, umas regulares e outras não.”

Quanto ao que no presente seja o vigor da Maçonaria Brasileira, Kent Henderson e Tony Pope
descrevem[8]:

“A Arte Real no Brasil parece um pot-pourri. A maior e mais antiga Grande Loja no Brasil é o
Grande Oriente do Brasil, com um Grande Oriente subordinado em cada Estado. Além disso, há 27
Grandes Lojas, baseadas nos limites dos Estados brasileiros; e 17 Grandes Orientes Estaduais
Independentes; mais uma Grande Loja Distrital sob a Grande Loja Unida da Inglaterra; e alguns
outros Corpos não reconhecidos por qualquer dos anteriores. Há, portanto, três ramos da
Maçonaria Simbólica no Brasil, representados pelo Grande Oriente do Brasil; as várias Grandes
Lojas baseadas nos Estados brasileiros; e os Grandes Orientes Independentes baseados nos Estados.

“A mais antiga das Grandes Lojas Estaduais foi composta por Lojas que saíram do Grande Oriente
depois de 1927, durante vários períodos de problemas internos. Estas, por sua vez, certificaram
Lojas em outras partes do país e, progressivamente, cada Estado ganhou a sua própria “Grande
Loja”. Desnecessário dizer que o Grande Oriente não viu com bons olhos esse desenvolvimento.
Claramente havia um problema territorial, com o Grande Oriente reivindicando a autoridade
maçónica por todo o país. Porém, seguindo um “conclave” geral de todas as Grandes Lojas
existentes em 1957, foram assinados Tratados de Amizade Fraternal entre a maioria delas. Isto não
inferia no completo reconhecimento mútuo, mas permitia intervisitação e diálogo contínuos.
Actualmente, o Grande Oriente do Brasil mantém Tratados de Amizade com todas as Grandes Lojas
e, ao que tudo indica, excepto com as Grandes Lojas do Acre e do Amapá.

“O Grande Oriente do Brasil é algo como uma Grande Loja “ápice”, controlada por um “Grão-
Mestre Geral” e Grandes Oficiais, com suas Lojas em cada Estado brasileiro sob uma “Federação”
(análogo ao estilo britânico de Grande Loja Provincial), cada uma com o seu Grão-Mestre Estadual
e seus Grandes Oficiais Estaduais.

“Além disso, há um “terceiro ramo” da Maçonaria Brasileira na forma de Grandes Orientes


independentes baseados nos Estados (GOIs). Todos descendem de cismas com o Grande Oriente do
Brasil ou das Grandes Estaduais. Os GOIs existem em 17 Estados brasileiros: Alagoas, Bahia, Ceará,
Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná,
Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Em pelo menos
alguns Estados, todos os três Grandes Corpos (o Grande Oriente local do Brasil “Federado”, a
Grande Loja Estadual e o GOI) geralmente estão em boas condições e os maçons podem,
comumente, transferir-se de um a outro sem refazer Graus.

“Fora do Brasil, outras Grandes Lojas têm sido reconhecidas. A situação é que a maioria das
Grandes Lojas dos EUA e das Grandes Lojas canadianas reconhecem uma variedade de Grandes
Lojas Estaduais, mas não o Grande Oriente do Brasil (em 1996, somente dez Grandes Lojas dos EUA
do Grupo Principal mantinham relações fraternais com elas), enquanto as Grandes Lojas inglesas,
irlandesas e escocesas só reconhecem o Grande Oriente. Os GOIs normalmente não são
reconhecidos fora do Brasil. As várias Grandes Lojas europeias, na maior parte, reconhecem o
Grande Oriente e várias das Grandes Lojas Estaduais. Assim, depende unicamente da Grande Loja
de onde o visitante vem para saber qual das Lojas brasileiras pode visitar legalmente.

“Além das anteriores, há várias Lojas no Brasil mantendo Cartas Constitutivas da Grande Loja
Unida da Inglaterra, resultado de um Tratado entre a Inglaterra e o Grande Oriente do Brasil.

“Embora o Grande Oriente do Brasil tenha Lojas em todos os cantos do país, a sua concentração
maior de Lojas está no Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores cidades do Brasil. O
magnífico Palácio Maçónico do Rio de Janeiro está tombado pelo Departamento do Património
Histórico Nacional Brasileiro, por seu valor histórico.

“A vestimenta para todas as Lojas brasileiras é um terno social escuro, e os visitantes são
convidados a usar os seus próprios paramentos. As Lojas do Grande Oriente reúnem-se
semanalmente, ou bimensalmente, com algumas tendo uma reunião mensal. O Grande Oriente
reconhece oficialmente o uso de sete Rituais de Loja Simbólica: os Graus Simbólicos do Rito
Escocês (aproximadamente 80% de todas as Lojas), o Rito Adonhiramita, o Rito Moderno (Francês),
o Rito Brasileiro, o Rito de York, o Rito de Schroeder e o Rito Lusitano. O Rito de York é o Ritual de
Emulação inglês traduzido para o português.”
As fontes históricas para o Rito Brasileiro dispõem a sua origem no Rito Maçónico Adoniramita
ou Adonhiramita, com especial ênfase para o 12.º Grau de Príncipe Rosa+Cruz, estágio Místico ou
Crístico como o mais afim à Tradição Esotérica Ocidental. Ainda assim, quase emulava com ele
o Rito Moderno ou Francês, igualmente presente na origem histórica da Maçonaria no Brasil.
O Rito Adonhiramita foi exportado pelos maçons lusitanos para Vera Cruz, nesta em breve
adaptado ao peculiar simbolismo esotérico brasileiro mas cuja Tradição Primordial recapitulou, ao
tomar por assento e início Niterói, pomo de venustas tradições recuando à Pré e Proto-História do
Brasil. Contudo, a Potência Suprema da Maçonaria Brasileira, seguidora inicial do Rito
Adonhiramita, esteve durante larguíssimos anos instalada no Rio de Janeiro.
Além de outros escritores de nomeada da História da Maçonaria Brasileira, com especial enfoque
para o dr. Rizzardo da Camino, com obras publicadas de grande valia ao entendimento do tema,
cito ainda a interessante colecção em cinco volumes, dedicada a “Hiram e Adonhiram”, do
caríssimo dr. Orlando Soares da Costa[9], revelando-se-me “Mestre Instalado, Deputado Federal e
Deputado Constituinte perante a Soberana Assembleia Federal Legislativa do Grande Oriente
Brasileiro, onde exerço a Presidência da Comissão de Educação e Cultura. Sou decorado Sublime
Iniciado e Grande Preceptor – Grau 31.º, sendo Presidente do Insigne Sodalício de Sublimes
Iniciados e Grandes Preceptores do Grande Vale Central do Excelso Conselho da Maçonaria
Adonhiramita para o biénio 1998/ 2000”.

Também Joaquim Roberto Pinto Cortez[10] e Eleutério Nicolau da Conceição[11], sem esquecer
Morivalde Calvet Fagundes[12], João Ferreira Durão[13], José Castellani e William Almeida de
Carvalho[14], dedicaram estudos de grande utilidade à presença e acção da Maçonaria no Brasil,
reiterando ser o Rito primitivo o Adonhiramita, usando na argumentação dialéctica sustentada na
documentação, até desfechar na data da famosa reunião em que a Independência do Brasil foi
ultimada: 20 de Agosto, desde então passando a ser o dia nacional do Maçom.

O Ritual do Adonhiramita (Adam, Hiram e Ita, Mita ou Mitra), por sua natureza Solar ou Crística


acaba tendo severas vizinhanças a esse outro Rito de Melki-Tsedek, exercido pela Ordem do Santo
Graal. Tal Rito é o que ainda possui mais de simbologia tradicional herdada dos grimórios
medievais de Kaballah judaico-cristã, que no século XVIII foi compilada pelo escocês Andrew
Michael Ramsay (1686-1743), escritor religioso ex-quietista convertido ao catolicismo romano[15].

Foi Ramsay o criador do Sistema Maçonista Escocês, tendo impresso forte cunho cabalístico aos
graus superiores do mesmo, notoriamente inspirados na literatura gnóstica referente às antigas
tradições heterodoxas dos Patriarcas de Israel. Por sua vez, o também escocês James Anderson
(1679-1739), pastor presbiteriano e maçom desde cedo, escreveu a Constituição dos
Maçons ou Livro das Constituições, entre 1721 e 1723, ano da sua edição, e nessa “bíblia” da
Maçonaria Especulativa ele dá esta como inspirada na fonte judaico-cristã[16].

Contudo, o Ritual de Adoniram ou Adonhiram revela algum parentesco simbológico e ritualístico


com aquele outro, onde acaso poderá ter reconhido a sua inspiração, Egípcio ou Copta instituído
por Cagliostro no século XVIII, cerca de 1762, em Paris, França, quando fundou o Rito de Adopção
sob a presidência de sua esposa, Serafina Feliciani, e depois ele mesmo o Rito Andrógino na sua
Loja Sabedoria Triunfante, em 1786, em Lyon, no sul desse país, de certa forma adoptado por
Martinets de Pasquallys adaptando-o ao seu Rito dos Elus-Cohens (“Sacerdotes Eleitos”),
prosseguido depois por Louis Claude de Saint-Martin sob o designativo de Martinismo, linha para-
maçonista, mista de cabalística e mágica que no século XIX foi reformulada por Gerard Encausse
(Papus), ainda assim influenciando em muitos aspectos o sistema maçónico contemporâneo[17].

Dá-se como data oficial de nascimento da Maçonaria Adonhiramita o ano 1744, quando o abade
Leonard Gabanon editou em França a sua obra Cathécisme des Francs Maçons ou Le Secret des
Francs Maçons, contendo as bases desse Rito que seria desenvolvido pelo barão Théodore de
Tschoudy em 1787, já tendo sido antes editada a compilação com o título Recuil Précieus de la
Franc-Maçonnerie Adonhiramite, que se diz ter sido escrita por ele ou em parceria com outro
famoso maçom francês, Louis Guillaume Saint-Victor[18].
Ilustração do Rito Adonhiramita por Louis Guillaume Saint-Victor (1785)

Segundo Jules Boucher[19], a Maçonaria Adonhiramita baseia o seu Grau de Mestre na lenda do


chefe de obreiros do Templo de Salomão, Adonhiram ou Adon-Hiram. Em conformidade ao texto
na Bíblia prosseguido pela tradição dos construtores-livres (liberi muratori), foram três
os Hirams envolvidos no processo de construção do Templo de Jerusalém, como sejam:

1.º) Hiram de Tiro, rei da Fenícia, filho de Abchal, contemporâneo e aliado de David e Salomão;

2.º) Hiram Abiff, o arquitecto fenício ao serviço de Salomão, originário de Tiro, capital da Fenícia,
e filho de Abda, da tribo de Dan;

3.º) Adon-Hiram ou Adonhiram, intendente e chefe dos operários encarregados da construção do


Templo, vassalo do rei Salomão mas às ordens do mestre Hiram Abiff.

A Bíblia, no 1.º Livro de Reis, cap. IV, dá a lista dos altos funcionários ao serviço do rei Salomão,
mencionando: “Adoniram, filho de Abda, preposto às corveias”. Mais adiante, no mesmo Livro,
cap. VII, vers. 27, têm-se outros detalhes: “O rei Salomão escolheu entre todos os israelitas
homens de corveia, e os homens de corveia eram em número de trinta mil. Ele os mandou ao
Líbano, dez mil por mês alternadamente; eles ficavam um mês no Líbano e dois meses em suas
casas; Adoniram era preposto sobre os homens de corveia”.

Sendo-lhe dado por tradição o parentesco de irmão do arquitecto Hiram Abiff, Adonhiram
(“Consagrado pelo Senhor”) vem a ser o fundador ou iniciador da Linha de Companheiros,
enquanto aquele outro, cabeça da Linha dos Mestres, será o seu inspirador por deter os segredos
da Arte Real. Consequentemente, não haverá diferença maior
entre adonhiramitas e hiramitas senão a especulada por alguns teóricos dos séculos XIX-XX, posto
uns esquissarem (hiramitas) e outros aplicarem (adonhiramitas) o conhecimento d´Arte.

Aventa-se a hipótese do Rito Adonhiramita ter sido o inicial praticado pelas Lojas portuguesas
antes da introdução do Rito Moderno (Francês) em 1801, na época constituído de somente treze
Graus. Somente após a separação da Maçonaria Brasileira, onde os Graus Simbólicos ficaram sob a
jurisdição do Grande Oriente do Brasil e os Altos Graus jurisdicionados às respectivas Oficinas
Chefes dos Ritos, em 2 de Junho de 1973, é que os 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite foram
introduzidos pelo governo das Oficinas Litúrgicas do Rito Adonhiramita, antes exercido pelo Grande
Capítulo, ao ficarem afectos ao Supremo Conselho da Maçonaria Adonhiramita.

Os treze Graus originais do Rito Adonhiramita, eram:

1 – Aprendiz
2 – Companheiro
3 – Mestre
4 – Antigo Mestre
5 – Eleito dos Nove
6 – Eleito de Pérignan
7 – Eleito dos Quinze
8 – Pequeno Arquitecto
9 – Grande Arquitecto
10 – Mestre (ou Cavaleiro) Escocês
11 – Cavaleiro do Oriente
12 – Rosa+Cruz
13 – Noaquita ou Cavaleiro Prussiano

É possível que o 13.º Grau não se praticasse em Portugal, terminando a escala no Rosa+Cruz, como
mais tarde veio a acontecer com o Rito Francês, permitindo uma fácil fusão entre os dois [20]. No
Rito Francês esse Grau é o 18.º do Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosa+Cruz reconhecido pelo
sinal e palavra sagrada: mãos cruzadas sobre o peito, pronunciando Emmanuel[21].

Isso se relacionará a essa Igreja Invisível ou Secreta de Melki-Tsedek, o Rei do Mundo, lapidada no
significado cabalístico da própria sigla do arquitecto fenício H.I.R.A.M., com o sentido latino de
HIC JACET REX ADVENTURUS MUNDI, que é dizer, “Aqui jaz o futuro Rei do Mundo”. Neste caso, o
futuro Emmanuel que é Akdorge.

Legalmente foi o juiz Sebastião José de Sampaio e Melo e Castro Luzignano, ou Lusignan (Lisboa,
13.2.1764 – Lisboa, 2.2.1826), neto do marquês de Pombal e segundo filho do 1.º conde de
Sampaio, o tenente-general António de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignan,
governador das Armas de Trás-os-Montes, e de D. Teresa Violante Eva Judite Van Daun, filha do 1.º
Marquês de Pombal, dizia, foi ele, com o nome simbólico Epicteto depois mudado para Egas Moniz,
mercê do Tratado de Amizade entre o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente Francês, o 1.º
Grão-Mestre da 1.ª Loja estabelecida em Lisboa nos inícios de 1804, funções que exerceu até 1809,
possivelmente seguindo o Rito Simbólico Regular, nome dado ao Rito onde se reconheciam apenas
os 3 primeiros Graus, portanto, Maçonaria Azul. Em 1816, o tenente-general Gomes Freire de
Andrade foi nomeado Grão-Mestre do Grémio Oriente Lusitano, fixando a Obediência no Rito
Escocês Antigo e Aceite.

No Brasil, entretanto, o imperador D. Pedro I, filho de D. João VI, rei de Portugal, já havia sido
iniciado maçom pela mão do seu ministro José Bonifácio de Andrada e Silva (com o nome
simbólico Pitágoras), o “patriarca da Independência” e a quem a Maçonaria Brasileira tanto deve,
senão tudo, a começar pela Constituição do Grande Oriente Brasileiro[22].
Constituição do Mestre Maçom José Bonifácio de Andrada e Silva

Tudo começou no dia 17 de Junho de 1822, quando os maçons cariocas reunidos em sessão magna
e extraordinária presidida por João Mendes Viana (Graccho), Venerável Mestre da Loja Comércio e
Artes, decidiram da criação e instalação do Grande Oriente Brasílico ou Grande Oriente do Brasil,
tendo escolhido José Bonifácio de Andrada e Silva (Pitágoras) para seu Grão-Mestre. Estavam
lançados os dados: José Bonifácio assumia o poder da potência mas destinava-o a D. Pedro de
Alcântara, príncipe-regente, para que tomando as rédeas do país o tornasse independente e
assegurasse a “República Maçónica”. Só a primeira parte aconteceu, a segunda não, pois D. Pedro
até chegou depois a suspender temporariamente a Maçonaria no país, por motivos menos
ideológicos e mais políticos, garantindo a separação de poderes e a neutralidade na “coisa
pública” ou respública.

Da acta da nona sessão do Grande Oriente do Brasil, realizada em 2 de Agosto de 1822, consta “ter
o Grão-Mestre da Ordem proposto para ser iniciado nos mistérios da Ordem, Sua Alteza D. Pedro de
Alcântara, Príncipe Regente do Brasil e seu defensor perpétuo. Aprovada de forma unânime, D.
Pedro foi imediata e convenientemente comunicado, que dignando-se aceitá-la, compareceu na
mesma sessão, e sendo iniciado conforme prescrevia a liturgia maçónica, prestou juramento e
adoptou o nome heróico de Guatimozim”.

Para a historiografia maçónica, a 17.ª sessão do Grande Oriente do Brasil reveste-se de um


significado particular. Realizada em 4 de Outubro de 1822, na Loja Comércio e Artes, D. Pedro foi
aclamado Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil em substituição a José Bonifácio, tendo a
sessão sido presidida pelo Grão-Mestre Adjunto Joaquim Gonçalves Ledo (Diderot). Isso consta na
acta da mesma sessão: “… e logo expôs o 1.º Grande Vigilante que o objectivo da presente
convocação da Assembleia Maçónica era a prestação do Juramento do nosso muito amável e muito
amado Irmão Guatimozim, eleito Grão-Mestre da Maçonaria Brasileira, por geral Aclamação, em
plena reunião do Povo Maçónico, e sendo conduzido do Oriente, onde estava, ao sólio, por uma
deputação de Irmãos Cavaleiros Rosa+Cruzes, prestou o Juramento da Ordem e imediatamente
recebendo o Grande Malhete, subiu ao sólio e tomou a direcção dos trabalhos”.
Talvez menos da parte de José Bonifácio e mais da de Joaquim Ledo, interessado em manipular os
interesses gerais da política nacional restringindo-os aos particulares da Maçonaria através do
imperador D. Pedro já agora “irmão maior” da Ordem, contudo entende-se que este não se deixou
manipular e, talvez devido aos jogos e influências de poder naquela, determinou, ainda nesse
mesmo mês, em 21 de Outubro de 1822, a suspensão das actividades maçónicas, afiançando a Ledo
que a suspensão seria breve: “Meu Ledo. Convindo fazer certas averiguações, tanto públicas como
particulares, na Maçonaria. Mando: primo como Imperador, segundo como Grão-Mestre, que os
trabalhos Maçónicos se suspendam até segunda ordem minha. É o que tenho a participar-vos; agora
resta-me reiterar os meus protestos como Irmão – Pedro Guatimozim Grão-Mestre. P.S. Hoje
mesmo deve ter execução e espero que dure pouco tempo a suspensão, porque em breve
conseguiremos o fim que deve resultar das averiguações”.

De facto, quatro dias depois, em 25 de Outubro de 1822, Pedro Guatimozim, como o imperador
assinava a sua correspondência maçónica, deixando marcada a sua posição de líder político neutro,
determinou o fim da suspensão dos trabalhos em função do término das averiguações: “São
Cristóvão, 25.10.1822. Meu Irmão – tendo sido outro dia suspendido nossos augustos trabalhos pelos
motivos que vos participei, e achando-se hoje concluídas as averiguações, vos faço saber que
segunda-feira que vem, os nossos trabalhos devem recobrar o seu antigo vigor, começando a
abertura pela Loja em Assembleia Geral. É o que tenho a participar-vos para que, passando as
necessárias ordens, assim o executeis. Queira o Supremo Arquitecto do Universo dar-vos fortunas
imensas como vos deseja o – Vosso Irmão – Pedro Guatimozin – Grão-Mestre – Rosa Cruz”.

A adopção do nome simbólico Guatimozim por D. Pedro I merece o registo de figurar entre os


nomes dos paladinos da independência e liberdade, sobretudo como homenagem ao último
imperador asteca do México, Guatimozim, que resistiu em 1522 ao conquistador espanhol
Hernando Cortez[23]. Mas Guatimozim também era o nome histórico adoptado por Martim
Francisco Ribeiro de Andrada, irmão carnal e maçónico de José Bonifácio, que perfilava ao lado
de Falkland (António Carlosn Ribeiro de Andrada), Tibiriçá (José Bonifácio de Andrada e
Silva), Caramuru (António Telles da Silva), Aristides (Caetano Pinto de Miranda Montenegro)
e Claudiano (Frei Sampaio – Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio) nas alas maçónicas e
registos do Apostolado e Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz. Além disso, no Recife existiu
uma Loja Maçónica denominada Guatimozim, fundada em 1816 e que em 1821 mudou o seu nome
para Loja 6 de Março de 1817, em homenagem aos maçons sacrificados na Revolução
Pernambucana de 1817, movimento emancipacionista que opôs iluministas e absolutistas, tendo
estes conseguido vencer aqueles mas não os dominar em sua vontade de independência, a qual
aconteceria poucos anos depois por iniciativa de D. Pedro I.

Da passagem e rápida ascensão de D. Pedro pela Maçonaria, ficaram alguns dos seus objectos
maçónicos na posse da família Cavalcanti, os quais D. Amélia Machado de Coelho e Castro (1852-
1946), viscondessa de Cavalcanti, fez oferta ao Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro, em 15
de Novembro de 1927, constando de uma faixa, um avental, um malhete e uma espada, dentre os
principais objectos doados[24]. Nas fichas técnicas do acervo, constam[25]:

“Faixa maçónica – Confecionada em seda e fios de ouro, 69 x 60 cm, apresenta a águia bicéfala
coroada, com espada nas garras e um delta luminoso, símbolos que compõem o emblema do Grau
33 do Rito Escocês Antigo e Aceite.
Faixa maçónica de D. Pedro I

“Avental maçónico – Manufaturado em seda e veludo, 34 x 36 cm, apresenta, bordado na abeta,


um delta luminoso; abaixo, ostenta um pelicano alimentando os seus filhotes encimado por uma
cruz com a rosa mística no centro, ladeado por símbolos e palavras do Grau. Portanto, poderá ser
um avental do Grau 7 de Cavaleiro Rosa+Cruz do Rito Moderno na época.

Avental maçónico de
D. Pedro I
“Malhete maçónico – Fabricado em bronze dourado, 25 x 13,5 x 2,5 cm, apresenta as iniciais “P.
1º” (Pedro I) gravadas em relevo.

Malhete maçónico de D. Pedro I

“Espada maçónica – Acompanhada da respectiva bainha. Trata-se de um espadim, 9 larg. x 89,50


cm comp., de aço e cobre cuja lâmina e punho foram trabalhados em metal dourado e filigrana. O
pomo circular, tem num lado o triângulo raiado com um olho inscrito, e no outro o compasso e o
esquadro circundados por coroa de louros. O punho raiado com o número 33 inscrito; na outra
face, a águia bicéfala coroada e pousada sobre espada. Guarda-mão em cruzeta, tendo num dos
lados martelo e trave ladeados por decoração fitomorfa; no outro lado, a estrela de cinco pontas
ladeada por decoração fitomorfa tendo ao centro a letra G. A lâmina é de três faces côncavas, e a
bainha apresenta bocal com decoração fitomorfa. O corpo é de forma triangular com ponteira com
decoração semelhante à do bocal, sendo a sapata esferóide.”
Espada e
restantes alfaias maçónicas de D. Pedro I

Também o imperador D. Pedro II (Rio de Janeiro, 2.12.1821 – Paris, 5.12.1891) andou de


proximidades com a Maçonaria, mesmo não sendo maçom, por certo reconhecendo ela conter a
potencialidade necessária ao desenvolvimento sociocultural do país. Daí as relações havidas entre
ele e o G.O.B., inclusive tendo feito várias ofertas a diversas Lojas do Estado do Rio de Janeiro: à
Loja Independência e à Loja Luz de Barra Mansa, no Vale do Paraíba, ofereceu uma espada a cada
uma, nessa última tendo gravada na empunhadura a inscrição “P. II” (Pedro II), e à Loja  Lealdade
de Brio de Resende, então província do Rio de Janeiro, em 1874 presenteou-a com um lindo florete
da sua Guarda Real.
Florete oferecido por D. Pedro II à Loja maçónica Lealdade de Brio de Resende (1874)

Tendo a Maçonaria Especulativa sido fundada em 24 de Junho de 1717 com a criação da Grande
Loja de Londres, Inglaterra, cedo ela se instalou no Brasil. Neste, de maneira alguma a
Loja Comércio e Artes, do Rio de Janeiro, foi a sua Loja primaz, tendo sido fundada sem Carta
Constitutiva em 1815 trabalhando de forma irregular até 1818, quando foi fechada; somente
quando do seu reerguimento, em 1821, ela se filiou ao Grande Oriente Lusitano. Até mesmo a
Loja União, também fundada no Rio em 1800, era irregular, e só após a adesão de algumas
autoridades públicas foi refundada aparentemente de forma regular, modificando o seu nome para
Loja Reunião. O próprio Areópago de Itambé, Pernambuco, fundado em 1796 e que alguns autores
consideram a primeira Loja do Brasil, apareceu de forma irregular e foi mais uma associação
maçonista simpática ao Rito Francês do que propriamente uma Loja justa e perfeita, tendo sido
fundada por Manuel Arruda Câmara, ex-frade carmelita, botânico e médico formado em França na
Faculdade de Medicina de Montpellier[26]. Essa Loja irregular veio a depender da primeira Loja
regularmente estabelecida no Brasil, em 1797, como seja a dos Cavaleiros da Luz, fundada em São
Salvador da Bahia e que foi a principal chama da Conjuração Baiana, indo influenciar o nordestino
Estado vizinho de Pernambuco[27]. Em 1809, na mesma cidade do Salvador, atendendo às
inúmeras Lojas que já existiam, foi fundado o Governo Supremo ou simplesmente Grande Oriente,
a primeira Obediência Maçónica brasileira.

A influência maçónica no Brasil foi tão grande que chegou a influenciar a constituição do tecido
urbano de certas cidades, sendo Paraty, no Estado do Rio de Janeiro, o exemplo mais notável.
Ainda no século XVIII, as portas e janelasda maioria das suas casas foram pintadas em branco e
azul, o chamado azul-hortência da Maçonaria Simbólica (constituída dos três primeiros Graus de
Mestre, Compa-nheiro, Aprendiz). O seu arruador, António Fernandes da Silva, apesar de informar
ter feito esse traçado “para evitar o vento encanado das casas e distribuir equitativamente o sol
nas residências”, o facto é que deixou inúmeros sinais da presença e influência maçónica[28].

Nas ruas de Paraty, encontram-se em algumas esquinas três pilares (cunhais) de pedra lavrada indo
formar o triângulo maçónico, o que explicará as ruas “entortadas” do arruador. Também as
colunas das suas ruas formam um pórtico, uma à direita e outra à esquerda da porta de entrada
das casas, em guisa de informar o visitante que essas eram moradas de maçons, e através da
simbologia exposta poderia até saber-se do grau do maçom de cada residência. Outro exemplo
típico é a proporção dos vãos entre as janelas, em que o segundo espaço é o dobro do primeiro, e
o terceiro é a soma dos dois anteriores, isto é, A+B=C, ou seja, a soma das partes é igual ao todo,
que se resume no rectângulo áureo da concepção maçónica.

Até as plantas das casas, feitas na escala 1:33.33, têm a marca da simbologia maçónica, desta
feita da Ordem Filosófica cujo Grau máximo é o 33.º.

Por fim, Paraty possui 33 quarteirões e, na administração municipal da época, existia o cargo de
Fiscal de Quarteirão, exercido por 33 fiscais.

A Loja União e Beleza, de Paraty, apesar de fundada em 1983, a lenda assegura que a sua
fundação recua a 1700, ano em que ainda não existia a Maçonaria Especulativa ou Moderna mas
que dispõe essa em estado ideal pré-criador da mesma encomiando a condição operática da
Ordem, que o projecto da urbe tão bem testemunha.
Casa de
Paraty (RJ)

Com tudo o dito, observa-se, pois, a Teosofia e a Maçonaria como as duas Colunas mantendo firme
e resistente o majestoso Templo da Verdade, como esclarece o Professor Henrique José de
Souza[29]:

“A Teosofia é a Sabedoria dos Deuses, no seu duplo aspecto de Amor e de Verdade. A Maçonaria,
por sua vez, é a gloriosa Mensageira da Verdade e do Bem, que através dos séculos vem abrindo
largo sulco de Caridade e de Justiça. Ambas se fundem numa só Força e Poder, porquanto
representam as mais valiosas correntes para a organização do edifício social, os meios mais
eficientes para a realização do sublime ideal da Hierarquia Oculta, a Fraternidade Humana, e
ainda, o poder mágico e infalível de cada homem poder decifrar o misterioso enigma da sua
Esfinge interna.”
Depois, em 28 de Setembro de 1962, em magnífica alocução oral voltou a referir-se ao assunto:

“Os Grandes Seres que dirigem o destino da Humanidade, principalmente Aquele que se acha à
frente da Grande Obra para a América Latina, servem-se de todos os grandes centros de actividade
espiritualista. A Maçonaria será, talvez, a que maiores serviços prestará à Causa que nos empolga,
porém… já está entendido, passando pela grande reforma de que se vem ressentindo há tanto
tempo…”

A preparação do Ecce Occidens Lux, a irromper com as futuras Independências dos países do
continente americano, muito particularmente do Brasil, neste foi processo iniciado com o exílio de
D. João VI para aí, indo estabelecer no Rio de Janeiro a capital do Império Português, substituindo
temporariamente Lisboa, e com isso o Ex Oriens Lux tornando-se cada vez mais Umbra… Soerguia-
se a Luz ou Sol do Ocidente, cujo eco maior ficaria no Grito do Ipiranga pelo futuro imperador do
Brasil, desfecho de todos os esforços no país da Maçonaria: Independência ou Morte!

Independência de todas as formas de esclavagismo, sobretudo de si mesmo, desse “podre e gasto”


homem velho, pelo ressuscito do Homem Novo, mais Justo e Perfeito, construtor e povoador de
uma Nova Raça mais Fraterna e Humana, capaz de unir o Mundo numa Concórdia Universal. Este
foi, é e será sempre, até à sua realização, o sonho dos Maiores da Raça desejando-a divinamente
humana e humanamente divina. Utopia? Talvez seja. Mas também a maioria das utopias do Passado
são hoje realidades usufruídas que ninguém as discute, nem sequer pensa quanto foi difícil e
moroso realizá-las.

Para realização maior caminha hoje o Brasil Independente, e aparte todos as convulsões sociais
próprias de um ciclo recém-finado, sem dúvida o seu destino último será a de realizar e partilhar a
maior a maior das utopias: a Felicidade Humana.

NOTAS

[1] A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. I, pp. 208-212. Editorial


Delta, Lisboa, 1986.

[2] De nome completo António Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva – São Paulo, 1.1.1773 –
Rio de Janeiro, 5.12.1845. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, advogado, escritor e
político, deixou publicados escritos de economia, poesia, política, etc. Partidário da separação
entre o Brasil e Portugal, participou na Revolução Republicana de 1817, tendo estado preso até
1821. Deputado pelo Brasil às Cortes de 1821, teve papel de relevo na preparação da
Independência do Brasil, vindo a ser, neste seu país natal, deputado, senador e ministro. Iniciado
em Loja e data desconhecidas, foi o Grão-Mestre do primeiro Grande Oriente Brasileiro (1813-
1818).

[3] De nome completo Francisco Gomes Brandão Montezuma (Bahia, 1794 – 1870). Jornalista e
político, foi perseguido e expulso do Brasil por D. Pedro, tendo regressado em 1831 e vindo a
desempenhar posteriormente funções diplomáticas em Inglaterra, e a ser senador e conselheiro de
Estado. Recebeu o título de Visconde de Jequitinhonha. Em 1822, mudou o nome para Francisco
Gé Acayaba de Montezuma. Fundou no Brasil (1832) o Supremo Conselho do Grau 33, reconhecido
pela França no ano imediato e uma das potências signatárias do Tratado de Paris (1834).
Desempenhou o cargo de Soberano Grande Comendador de 1832 a 1844, resistindo, durante nove
anos, à cisão que instaurou no Brasil um segundo Supremo Conselho (1835) e mantendo o seu em
regular funcionamento. Por decretos de 28.7.1840, concedeu o Grau 33 a Silva Carvalho,
autorizou-o a fundar um Supremo Conselho em Portugal e confirmou o Consistório que por aquele
acabara de ser instalado.

[4] João Vieira de Carvalho, Conde de Lajes (Olivença, 1781 – 1847). Oficial do Exército e fidalgo
da Casa Real, foi educado no Colégio dos Nobres em Lisboa, e emigrou durante a 1.ª invasão
francesa para o Brasil aonde se fixou e veio a atingir o posto de marechal de campo. Interveio na
vida política brasileira, sendo senador e várias vezes ministro. Recebeu o título de 1.º Conde e 1.º
Marquês (1845) de Lajes. Como Soberano Grande Comendador de um dos Supremos Conselhos do
Grau 33 existentes no Brasil, autorizou (Novembro de 1840) Joaquim Elias Rodrigues da Costa,
membro do Supremo Conselho a que presidia, a conferir o Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite
aos maçons portugueses que o merecessem, “a fim de fundar um Supremo Conselho do Grau 33.º
do Rito Escocês Antigo e Aceite no Reino de Portugal”. Do facto resultou o Supremo Conselho Costa
Cabral (junto ao Grande Oriente Lusitano), cujos trabalhos tiveram início em 1844.

[5] Joaquim Gervásio de Figueiredo, Dicionário de Maçonaria, pp. 80-84. Editora Pensamento,


São Paulo, 1974.

[6] A. T. Cavalcanti Dalbuquerque, A Maçonaria e a Grandeza do Brasil. Editora Aurora, Rio de


Janeiro, 1955.

[7] Esta informação carece de comprovação, e a ter acontecido essa fundação maçónica da parte
do Tiradentes seria só por benfeitoria e afeição ao patriotismo da Maçonaria, pois como maçom
filiado ele não consta nos Anais do Grande Oriente do Brasil (nota VMA).

[8] Kent Henderson e Tony Pope, Maçonaria Universal (Um novo Guia para o Mundo Maçónico –
As Américas). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2001.

[9] Orlando Soares da Costa, Maçonaria Adonhiramita, cinco volumes. Editora Europa, Rio de


Janeiro, 1999.

[10] Joaquim Roberto Pinto Cortez, Fundamentos da Maçonaria. Madras Editora Ltda., São Paulo,
2001.

[11] Eleutério Nicolau da Conceição, A Maçonaria na História e no Mundo (Origens-Lutas-


Actuação). Madras Editora Ltda., São Paulo, 2004.

[12] Morivalde Calvet Fagundes, A Maçonaria e as Forças Secretas da Revolução. Editora Aurora,


Rio de Janeiro, 1982.

[13] João Ferreira Durão, Pequena História da Maçonaria no Brasil. Madras Editora Ltda., São
Paulo, 2008.

[14] José Castellani, William Almeida de Carvalho, História do Grande Oriente do Brasil. A


Maçonaria na História do Brasil. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2009.

[15] George David Henderson, Chevalier Ramsay. Ed. Thomas Nelson e Filhos, Londres, 1952.

[16] James Anderson, As Constituições dos Franco-Maçons. Editora do Grande Oriente do Brasil,


Brasília, 1997.

[17] Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Edição Dinapress, Lisboa,


2002.

[18] Louis Guillaume Saint-Victor, Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite. Contenant


les trois Points de la Maçonnerie Ecossaise, le Chevalier de l´Orient e le vrai Rose-Croix, qui
n´ont jamais été imprimes. Philarethe, Philalelphie, 1785.

[19] Jules Boucher, A Simbólica Maçónica (Segundo as regras da Simbólica Esotérica e


Tradicional). Editora Pensamento, São Paulo.

[20] . H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, vol. II. Editorial Delta,


Lisboa, 1986.
[21] Michel Monereau, Les Secretes Hermétiques de la Franc-Maçonnerie e les Rites de Misraim
& Memphis, suivi de Crata Repoa – Initiations aux anciens mystères des prêtes d’Egypte.
Éditions Axis Mundi, Paris, 1989.

[22] José Bonifácio de Andrada e Silva, Manifesto do Grande Oriente Brasileiro (Constituição).


Rio de Janeiro, 1832.

[23] Isa Ch´an (Kurt Prober), Achegas para a História da Maçonaria no Brasil, volume I de III.
Edição do autor, Paquetá, São Paulo, 1968.

[24] Gustavo Barroso, O Imperador e a Maçonaria. Revista O Cruzeiro, Dezembro de 1955.

[25] Maria Laura Ribeiro, D. Pedro I e a Maçonaria, volume VIII. Anais do Museu Histórico
Nacional, Rio de Janeiro, 1972.

[26] Micheline de Souza Lira, A Confraria Maçónica de Itambé. Goiana, 1999.

[27] Sérgio Corrêa da Costa, As quatro coroas de D. Pedro I. Casa do Livro, Rio de Janeiro, 1972.

[28] Diuner José de Mello, Paraty: Roteiro Histórico do Visitante. Edição do autor, Paraty, 1976.

[29] Henrique José de Souza, A Minha Mensagem ao Mundo Espiritualista. Revista Dhâranâ, n.º


25 a 28, p. 40, 1928.

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Comentários Desativadosem A Maçonaria e o Brasil Independente – Por Vitor Manuel Adrião

Brasília e o Brasil Futuro (Alvorada da Nova Era) – Por Vitor


Manuel AdriãoTerça-feira, Abr 4 2017 
Sem categoria lusophia 17:59

Deste Planalto Central, desta solidão que será em breve o cérebro de onde partirão as altas
decisões nacionais, lanço um olhar, mais uma vez, sobre o futuro do meu País e antevejo essa
Alvorada com a fé inquebrantável e confiança sem limites na grandeza do seu destino. – Proféticas
e vibrantes palavras do grande homem Juscelino Kubitschek de Oliveira, Presidente da República
Federativa do Brasil, ao contemplar, em visão do porvir, as terras onde iria ser fundada a nova
capital brasileira.

Foi a Ideia, o Ideal que se materializou, a concretização da Esperança tomando forma, plasmada
pela decisão firme de um realizador intrépido, indo corporificar um sonho há tanto acalentado,
imortalizando-se numa obra de titã aliada à de um obreiro ciclópico para quem o impossível ou
difícil não passava de letra morta, criando em plena selva o Brasil Futuro, caminho aberto para a
melhor das esperanças da Humanidade.

O Brasil, em momento tão avassalador como o actual, na encruzilhada intercíclica entre o Passado
tenebroso e o Amanhã radioso, não traiu o seu destino, não renegou a sua vocação. Efectivamente,
ele entrou pelo portal das angústias e dificuldades na grande estrada que o conduzirá ao Tabor das
transfigurações históricas e ao Olimpo das galas e das glórias, que hão-de coroar a juventude, o
vigor e a beleza de uma civilização que desponta no alvorecer de um Novo Ciclo.

Teve o grande presidente a intuição iluminada dos Iniciados que se desdobram, que avançam para
além de si mesmos, para além do tempo, conquistando novos rumos para um povo que acredita no
seu destino último. Esta realização rasgou para a Humanidade o proscénio de novos mundos, e
para a civilização espaços geográficos onde ela poderá criar raízes, brotar, florescer, frutificar, na
benesse das ideias que as Idades transformam, para servir de veste espiritual às raças que se
sucedem no plano evolutivo da Vida Universal.

Era o anseio de várias gerações convertido em realidade viva, a afirmação cabal de um povo que
confia na pujança da sua capacidade criadora, que desde as mais remotas Eras tinha já o seu
encontro marcado com o Futuro, vaticínio que se projecta de modo velado nas próprias cores da
sua bandeira, onde a cor vermelha (tamásica ou da matéria densa) se omite por determinação
mesma da Divindade.

A constelação do Cruzeiro do Sul – portal celeste das excelsas manifestações da Lei Suprema na
Terra de Vera Cruz – que inspirou um povo confiante na vontade férrea do seu timoneiro a plantar
naquele vasto planalto, onde o sertão cerrado tinha a morte à espreita atrás de cada tronco e de
cada rocha, uma cidade fascinante para servir de capital política, servindo também de inspiração
ao grande poeta Cassiano Ricardo, que no seu poema Sinal do Céu teve a premonitória visão do
que representará a pátria brasileira ante o Homem do porvir[1]:

E uma cruz misteriosa de estrelas


abriu no céu os seus braços de luz
como uma enorme profecia:
… quatro raças virão, algum dia,
de quatro caminhos distantes
marcados por estas estrelas
que ficam nas pontas da cruz
p’ra constituir uma só raça
marcada por outra estrela
que é a que fica no centro da cruz.
Eu sou a cruz do firmamento!
O cruzeiro do amor universal.
E nos dias de sol, na glória da colheita,
Os homens que virão dos pontos mais
[distantes
se reunirão aqui, nativos e emigrantes,
para a festa nupcial de uma outra
[humanidade
que será feita de alegria e de bondade!
Porque eu sou o caminho ainda obscuro
Por onde finalmente
desfilará a humanidade do futuro!

Essas são palavras proféticas indicativas das quatro raças (europeia, africana, asiática, oceânica)
reunidas em uma só (brasileira americana) no centro da Cruz, como seja o Planalto Central onde
nasceria de Brasília, destinada a irradiar ao Mundo o espírito de Paz no alvorecer do Novo Ciclo,
onde “sobre as ruínas materiais da força bruta pairará o Direito apoiado na Justiça”[2].

Chega o momento tão esperado. É a Hora da Alvorada!

20 de Abril de 1960. São 17 horas, a 15º47´de latitude Sul e 45º55´de longitude Oeste: “Aqui onde
só havia, há 43 meses, a solidão e o grito dos jaguares na noite…”, no Planalto de Goiás, o
presidente da República Juscelino Kubitschek recebe das mãos do prefeito, senhor Israel Pinheiro,
as chaves simbólicas de uma cidade nova.

Às 23.30 h desse dia, aos pés da Vera Cruz diante da qual o Padre Henrique Soares de Coimbra
rezou, no ano de 1500, a primeira missa celebrada em terra brasílica, o legado do Papa João XXIII,
o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, patriarca de Lisboa, celebra uma missa solene, enquanto do
Vaticano o próprio Papa dirige saudações efusivas à Nação Brasileira. Toda a cidade está
mergulhada na obscuridade. Apenas um raio de luz ilumina o altar.

No instante da elevação eucarística, quanto o cardeal-patriarca eleva acima da multidão a hóstia


consagrada, subitamente todas as luzes se acendem, os holofotes percorrem o céu, o Hino
Nacional do Brasil ressoa empolgando os corações: “E o sol da Liberdade… Brilhou no céu da Pátria
nesse instante… Ó Pátria amada, idolatrada… E o teu futuro espelha essa grandeza”!

Brasília nasceu! Zero hora, 21 de Abril de 1960. O Brasil mudava de capital ao mesmo tempo que o
Sol mudava de signo e entrava em Taurus, indicador de fecundidade psicossocial, fertilidade na
fundação dos alicerces políticos de uma Nova Civilização urgindo como urgiu Brasília, conformada
à marcha precessional do Sol do Oriente ao Ocidente no que se intui o prenúncio do V Império do
Mundo[3], por certo Juscelino Kubitschek sabedor disso ao dar a notícia alvissareira, nesse mesmo
dia da inauguração da cidade nova, ao Presidente da República de Itália:

“Eu inauguro hoje a nova capital do Brasil, na mesma data em que se comemora a fundação de
Roma; a mais jovem cidade do Mundo se volta, neste momento, para contemplar a mais antiga
cidade da Terra, centro e berço da latinidade, onde o génio dos romanos fixou as raízes da
civilização ocidental.”

Dessa maneira ia ao encontro da consumação da profecia pressupostamente atribuída a esse


mesmo Papa João XXIII, no vaticínio de haver de aparecer “[…] a terceira Itália. Hoje, Roma já não
tem este nome. É uma recordação. Os seus palácios estão no Norte. Aqui há ruínas, ruínas de
homens e de coisas”[4]. “Ruínas de homens e de coisas” poderá valer por desmoralização, e
quanto aos “palácios do Norte” e não se tratando da Península Itálica, obviamente que só poderão
ser os do Norte do Brasil, a “Nova Itália”, neste caso, a cidade de Brasília, a quem João XXIII
endereçou encómios apologéticos como se fosse um filho da terra, um “Jina Antigo” (Xavantino)
do escol dos desses ocultados nas entranhas do Roncador, como diria o Professor Henrique José de
Souza.

Os antecedentes histórico-políticos para a edificação de Brasília vão desde José Bonifácio de


Andrada e Silva, em 1823, apresentando à Assembleia Constituinte um projecto para a necessidade
de mudança da capital, a Holanda Cavalcanti, que, em projecto apresentado ao Senado, em 1825,
escolhia para tal mudança o Planalto goiano entre os paralelos 15º e 20º, até que, em 1891, a
Primeira Constituição da República estabeleceu: “Fica pertencendo à União, no Planalto Central
da República, uma área de 14.400 quilómetros quadrados, que será demarcada para nela se
estabelecer a futura Capital Federal”. Em 1892, Floriano Peixoto constituiu comissão para estudar
e demarcar a área da futura capital federal; em 1920, o Presidente Epitácio Pessoa assinou o
decreto prevendo o início da construção; em 1940, o Presidente Getúlio Vargas lançou a cruzada
rumo ao Oeste; em 1955, o Presidente Café Filho aprovou a área da nova capital; finalmente, em
1957, o Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira deu início à construção de Brasília, o que
terminou em 1960, portanto, cinco anos a partir de 1955, ano em que aprovou a construção de
Brasília e a mudança da capital para o Planalto Central, dando concretização à profecia de
Tiradentes, quando escreveu em seu testamento: “A capital será no coração do Brasil, longe das
populações e dos portos marítimos.”[5]

Também o cristão-novo Gonçalo Anes, o Bandarra (Trancoso, Portugal, 1500 – Trancoso, 1556),
acaso terá previsto em suas trovas proféticas a aparição futura da cidade nova do Ocidente,
aquando se refere obscuramente à “semente no Poente”, como se depreende nas suas quadras
seguintes[6]:

70

Vem de mui alta a semente


De todos quatro costados,
Todos reis, de primos grados
Do Levante até ao Poente.

71

Serão os reis concorrentes


Quatro serão e não mais,
Todos quatro principais
Do Levante ao Poente.

72

Os outros reis mui contentes


De o verem Imperador,
E havido por Senhor
Não por dádivas nem presentes.

Os “quatro costados principais do Poente” para um único “Imperador”, poderão ser as quatro
Bandeiras que no Passado se encontraram em Xavantina ou “Nova Brasília” já como augúrio das
quatro nações ou continentes que se iriam reunir aqui, em Brasília, unidas em uma única Bandeira
Federal expressiva da Raça Brasileira Americana agregada pelo esforço do “Imperador”, neste
caso, o Presidente da República Federativa do Brasil como “quinto princípio”, com isso
expressando esotericamente os Quatro Senhores da Lei Única que a tudo e a todos rege agindo
pelos quatro elementos ou princípios universais (Ár, Fogo, Água, Terra) animados pelo quinto
príncipio (Éter), síntese e ánima deles e sintetizado na Pessoa do Imperador Universal ao centro,
como seja Ardha-Narisha ou o mesmo Chakravarti ou Melkitsedek, que geograficamente
predispõe-se ideal-mente em Brasília (capital política a fim ao Governo Oculto do Mundo) para
outros dois eixos geográficos vertical e horizontal, cujo ponto de intercessão ficará sobre Minas
Gerais, propriamente São Lourenço (capital espiritual a fim à Grande Fraternidade Branca), a
saber:

De maneira que na região central do Brasil tem-se Brasília constituída como centro de um sistema
geográfico social e político-administrativo. À sua volta, em pequeno raio, surgem as cidades
satélites, e em grande raio, as capitais dos Estados da Federação. Brasília é um Sol Central
gerador, um Núcleo magnético de atracção e irradiação da tónica da Vida Humana no Grande
Ocidente face ao grande movimento externo da acção social colectiva, tal como São Lourenço é o
Sol Oculto da acção espiritual colectiva, na mística complementação dual de uma só coisa: a  Nova
Civilização, disposta sob a égide de Melki-Tsedek em seu Aspecto Temporal ao Norte e Espiritual
ao Sul, completando-se entre si o que gera o sacrossanto nome de  Maitreya, “Senhor dos Três
Mundos”, identificado ao Cristo Universal precisamente na cúspide da Nova Raça Dourada, e que
já hoje se aponta figurado na estátua colossal do Cristo Redentor no Rio de Janeiro.
Para essa realização sublime abarcando a toda a Humanidade numa unidade, é que a antiga
Sociedade Teosófica Brasileira edificou os seus três Templos de São Lourenço (Pai – 1), de Itaparica
(Mãe – 2) e de Xavantina (Filho – 3), configurando um triângulo de realização no mapa do Brasil
sinalético da Obra do Eterno à Face da Terra, em actividade permanente para o ambicionado
dealbar do Grande Dia de Maitreya e a consequente Vitória da Obra de Deus, o que depende de
todos os homens e mulheres de boa e firme vontade em criar o Bem, o Bom e o Belo.

Duas linhas de forças estão intimamente relacionadas a essa triangulação: o Paralelo 15 ao Norte,
e a Latitude Sul, nos 22 para 23 graus no Trópico de Capricórnio. Toda a região norte do Brasil,
cujo Paralelo 15 atravessa a zona do Planalto Central de Goiás onde se fundou Brasília, pomo
venturoso de inúmeras profecias vaticinando-a berço da Nova Civilização, está sob a influência
vitalizadora de Kundalini, o Fogo Quente Terrestre ascendida do ventre da Terra ao seio jucundo
do Céu – todo o Norte é vermelho fogo (assinalado na sua terra vermelha pujante) até ao ponto
meridiano ou separador que é a Bahia. Desta para o Sul é todo verde esmeralda (assinalado na sua
vasta área florestal) como o Fogo Frio Celeste, Fohat descendido do Céu à Terra, até ao Rio
Grande do Sul.
Volvendo aos “quatro costados” da profecia bandárrica incarnando os “quatro princípios
universais”, igualmente poderão representar os quatro Sistemas Geográficos já realizados no Brasil
e desfechados em Brasília, como Quinto.

Por outra parte, desfolhando o volume das profecias de Michael de Nostradamus[7], encontra-se a
seguinte centúria que parece ter a ver com o presidente Juscelino Kubitschek e a fundação de
Brasília:

XCII

Depois do trono mantido dezassete anos,


Cinco mudarão em tal volvido termo:
Depois será eleito de mesmo tempo,
Quem dos Romanos não estará muito conforme.
A última linha da quadra terá a ver com a transferência dos valores espirituais de Roma ao Brasil, o
Grande Ocidente, a quem cabe a afirmação do verdadeiro Catolicismo, que no seu significado
etimológico é Universalismo, tendo-se que em princípio Brasília é cidade destinada à
universalidade do Pensamento Humano. A segunda linha poderá referir-se aos cinco anos
necessários à concretização de Brasília, em conformidade ao lema pessoal de JK: “50 anos em 5”.
Por fim, aquele “do trono mantido dezassete anos” pode muito bem indicar o próprio Kubitschek,
como o 17.º Presidente da República desde Deodoro da Fonseca[8]. Nisto é agraciado pela Estrela
dos Magos do Tarot, o Arcano 17 a ver com o biorritmo de Portugal. Também por isto a Terra
Portuguesa teve papel predominante na consagração espiritual de Brasília, e na planta da sua
arquitectura foi-lhe igualmente dada relevância meritosa. De maneira que Brasília é o desfecho do
ciclo ibero-ameríndio e o início do período universalista ou transcontinental.

Acerca do Arcano 17 – a “Estrela dos Magos” para São Germano, “As Sete Trombetas, como Voz do
Logos Criador” para JHS, sendo “A Imortalidade” no Tarot Sacerdotal – tal número não deixa de
apresentar grande importância simbólica. Na tradição islâmica, 17 é o número de  rak’as (gestos
ritualísticos), sendo também o número das palavras (17) que compõem o chamado à oração
(salah). Nas alegorias muçulmanas, o simbolismo do número 17 aparece em vários delas,
principalmente na dos “17 conselhos murmurados ao ouvido do rei quando da sua coroação” e nos
“17 componentes do estandarte”.
É sobretudo no Xiismo – e por influência dele na literatura épico-religiosa dos turcos da Anatólia –
que é dada uma importância quase mágica ao número 17. Os místicos xiitas possuem desde priscas
eras uma autêntica veneração pelo número 17, e tal veneração tem origem nas antigas
especulações pitagóricas que se fundavam nas letras do alfabeto grego, sendo que 17 representava
o número daqueles que seriam ressuscitados. Cada um desses “ressuscitados” deveria receber uma
das 17 letras do alfabeto, das que compõem o Nome de Deus, não deixando de ter relação com o
Arcano 17 cuja lâmina evoca a transformação, o renascimento e a libertação kármica. Por outro
lado, segundo o Livro da Balança, de Gabir Ibn Hayyan, místico e alquimista árabe, a forma (sura)
de todas as coisas do mundo assenta no valor 17, número que representa a própria  base da teoria
da Balança, sendo co nsiderado cânone do equilíbrio de toda e qualquer coisa.

Ainda no Islão, o número 17 tem importância particular na tradição das corporações de ofícios, que
reconhecem 17 companheiros iniciados por Ali, 17 patronos dos fundadores das corporações
muçulmanas iniciados por Selman-i-Farsi, e 17 corporações maiores. É o número-mor do
Companheirismo, a original Maçonaria Operativa, essa mesma construtora dos mais sumptuosos e
significativos, sobretudo no plano iniciático, templos e palácios da Antiguidade europeia e
mediterrânea.

Para os antigos gregos, 17 representava o número das consoantes do alfabeto. Ele divide-se, por
sua vez, em 9 (número das consoantes mudas) e em 8 (número das semivogais e semiconsoantes).
Esses números estavam igualmente em estreita relação com a teoria musical e a da Harmonia das
Esferas.

Já a Antiguidade latina considerava este número funesto, necrolático a fim aos manes, por isso o
receava, ademais porque as letras que o compõem, XVII, são as que, mudada a sua ordem, dão a
palavra VIXI, eu vivi. Tem nisso uma função fúnebre indicadora do vir-a-ser além-túmulo e de qual
o motivo ou fim da existência humana, como seja a da libertação da peia de encadeamentos de
causas-efeitos e todo o homem finalmente se tornar imortal, fim a que se destinava a celebração
dos Mistérios na Antiguidade.
Estão exclusivamente nomeados os presidentes da República que exerceram funções efectivas no
cargo, estando excluídos todos aqueles de governos de transição e os que não tomaram posse
efectiva do cargo, embora empossados no mesmo, como Tancredo Neves, por exemplo.

A ver com o soerguimento futuro de Brasília, a grande profecia, porém, continua a ser o sonho-
visão ou sonho profético que Dom Bosco teve[9], na noite de 3 para 4 de Setembro de 1883. O
Presidente Juscelino Kubitschek conhecia de antemão a profecia, como diz nas suas memórias [10],
reportando-se a episódio passado consigo no início de 1958, num momento da madrugada em que
estava à janela do Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro:

A PROFECIA DE DOM BOSCO

“Eram duas horas da manhã. O Laranjeiras estava em silêncio. Ouvia-se apenas o ranger dos passos
do guarda na areia do jardim. Cansado, guardei a papelada, preparando-me para me recolher ao
leito. Mas, antes de deixar o gabinete, abri uma janela para ver a noite. Não sei porque lembrei-
me de repente da profecia de Dom Bosco: No dia 30 de Agosto de 1883, tive um sonho-visão. Mas
isso não era tudo. Entre os paralelos 15º e 20º havia um leito muito largo e muito extenso, que
partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repentinamente: “Quando
escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a
Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível! E essas coisas
acontecerão na terceira geração.”

“Recordei, palavra por palavra, o que lera no volume XVI das Memórias Biográficas[11]. Era a
famosa profecia sobre a Grande Civilização que iria surgir entre os paralelos 15º e 20º – a área em
que Brasília estava sendo construída. O lago, da visão do santo, já figurava no Plano-Piloto de
Lúcio Costa.

“Ainda debruçado à janela, ergui os olhos e contemplei a luz vermelha que brilhava no alto da
torre da Igreja da Glória. E veio-me à mente, outra vez, a frase do santo de Becchi: “E essas coisas
acontecerão na terceira geração”. Dom Bosco falecera em 1888. Computando-se o período de
vinte anos para cada geração, era óbvio que a década dos 50 seria a da “terceira geração”. As
forças misteriosas que regem o mundo haviam agido no sentido de que as circunstâncias se
articulassem e criassem a “oportunidade” para que o velho sonho se convertesse em realidade.
Justamente na década dos 50 a ideia havia chegado à maturação, requerendo execução.

“Naquela madrugada, olhando as árvores do Parque Guinle, procurava tirar ilações da profecia de
Dom Bosco. Existia uma curiosa coincidência de local e de datas. O importante, porém, era que a
construção da nova capital estava em andamento. Foi aí, mergulhado no devaneio imposto pelo
silêncio da noite, que concebi a ideia de denominar a construção de Brasília – ‘Meta-Síntese’.”

Foi para essa “Meta-Síntese”, para o dealbar do Brasil Ibero Ameríndio e depois desfechar com o
soerguimento de Brasília, que as navegações portuguesas concorreram, em Quatrocentos e
Quinhentos, para a “Terra Prometida” na pressuposta execução secreta do Plano Sinárquico
Templário, de que a Ordem de Cristo era herdeira. Sobre isto, diz com muita propriedade Manuel
Joaquim Gandra[12]:

“A expansão portuguesa não foi fruto do acaso, nem um feito político do Rei: antes uma tarefa de
Ordens Iniciáticas.
“A Península Ibérica – Cabeça da Europa – foi preparada para realizar as grandes descobertas (ou
redescobertas) da Terra, tendo, para esse efeito, afluído a ela almas escolhidas, ondas de vida
heterogéneas, povos das mais diversas raças, que, em torno de Centros Iniciáticos protegidos por
Ordens monásticas religiosas e guerreiras – guardiãs de conhecimentos transcendentais que, na
época, não possuíam condições para sobreviverem fora dos templos -, desenvolviam a sua
actividade.

“Atingir a Índia, numa viagem de regresso à Casa do Pai, constituía um dos objectivos, pois não era
nessas paragens que habitava o Preste João, Rei e Sacerdote, Presbítero da Igreja Oculta e
Paraclética de João? Porém, para além da abertura de um caminho a Oriente, interessava
confirmar a existência de um mundo a Ocidente, conhecido desde “sempre”[13], e campo de
futuras vivências com particular importância para toda a Humanidade.

“A (re)descoberta do Brasil insere-se na actividade missionária Franciscana e da Ordem de Cristo,


cujo fito principal era: descobrir o paradeiro das tribos perdidas de Israel [14], encontrar o Paraíso
Terreno[15], renovar a Europa e instaurar, à face da Terra, a Sinarquia Universal, ou Reino do
Espírito Santo (o Quinto Império).

“A “certidão de nascimento” do Brasil, a Carta de Pêro Vaz de Caminha, foi redigida em presença
dos ideais dos fraticelli franciscanos[16].

“Os escritos de Gerónimo Mendieta provam que os franciscanos consideravam os nativos


americanos superiores aos europeus, atitude que se reflectiu no seu procedimento, de perto
seguido pelo dos jesuítas, apenas com algumas dissemelhanças[17].”

Estou em crer que o ponto de aproximação entre judeus, jesuítas e franciscanos está precisamente
nisso mesmo: a identificação das tribos perdidas de Israel nos reminiscentes humanos do
continente americano, mormente na sua parte sul. Daí, talvez, o cuidado dos judeus sefarditas,
dos jesuítas e dos franciscanos portugueses no trato dado aos autóctones ameríndios, como que
reconhecendo neles os sobreviventes humanos do povo de Deus. Menasseh Ben Israel, por exemplo,
estava atento aos sinais gerais sem desprezar os singulares. Sinal singular foi o acontecimento,
ocorrido em Amsterdão, de 18 de Julho de 1644. Um judeu marrano de Vila Flor, Aarão Levi, aliás,
António de Montezinos (m. 1647), tinha chegado da América do Sul e dava parte, na sinagoga, do
que vira, com enorme gáudio do auditório. Numa Europa perplexa e perturbada, Montezinos trazia
uma boa nova.

Ele narrou as viagens que fizera nas Índias, onde fora cativo da Inquisição, até encontrar a tribo de
Ruben consubstanciada em uma tribo de índios da América do Sul, na região entre o Yukatan e o
Brasil, que além de falar uma língua incorporando vocabulário deuteronómico, praticava rituais
hebraicos, como a circuncisão. O que Bandarra prognosticara, do aparecimento prévio da tribo de
Ruben, vinha a conformar-se no relatório de Montezinos. Menasseh decidiu registar o relato e
assumir a defesa da autenticidade e veracidade do testemunho, em ordem ao finalismo
soteriológico do seu messianismo[18]. O movimento messiânico judaico mostrava-se, uma vez mais
e cada vez mais intensamente, inteiramente favorável à colonização espiritual do Ocidente, à
derradeira fundação da Nova Israel, do Terceiro Templo da Nova Idade, na “Índia do
Ocidente”[19].

Manasseh dispôs-se a atender o testemunho do judeu de Vila Flor, com o propósito de demonstrar
que as dez tribos perdidas da antiga Israel tinham transmigrado para as Índias Ocidentais pelo
Norte, tomando como provas as analogias relatadas por Montezinos, relato este que ocupa a
primeira parte do capítulo I da sua Spes Israelis (“Esperanças de Israel”), contendo 72 capítulos, a
qual tinha o propósito de animar os judeus na esperança de advento do  Messiah, o Messias, e no
reencontro com a Pátria Perdida, o Paraíso Terreal a “Ocidente da Jerusalém Celeste”. A verdade
é que o marranismo norte-americano, florescente desde o século XVIII, tem uma forte base
sefardita e tradicionalista, inicialmente reconhecendo a mais que discutível origem judaica dos
índios americanos, reconhecimento esvanecendo-se com o tempo e ficando esse legado de
descendência bíblica exclusivo ao próprio judaísmo hispano-americano dos marranáticos puritanos
e ultraconservadores, povoadores e dominadores da espiritualidade actual norte-americana, com
isso não raro inflectindo no desrespeito a outras etnias e crenças. Trata-se da prevalecência
ambígua do espírito rácico judaízante.

Mas o valor desse acontecimento anunciado por Montezinos é enorme, por confirmar o pensamento
de Manasseh Bem Israel – de quem o padre António Vieira retomaria as ideias da  translatio
imperii dando-lhes a forma nova dos cinco Impérios do Mundo, o derradeiro o Português – de que a
restauração de Israel só seria possível com a reunião do mundo judaico num Mundus Novus, como o
consignou Américo Vespúcio em 1502, o que era um sinal claro da proximidade do Messias. No seu
entender, a Bíblia estava certa, porém, a interpretação falhara. Com efeito, os Setenta haviam
traduzido a palavra Hamat por “Oriente”, e com razão, porque Hamat é o mesmo que Hamah, o
“Sol” ou o “Oriente”. O profeta fala dos judeus esparzidos no Oriente e na Terra Santa, na Ásia,
nas Índias Orientais e na China, enquanto Isaías assegura que os judeus sairão das ilhas do mar, tal
como traduzem vários intérpretes.

“Ilhas do Mar” é, no entanto, termo a traduzir por “Ilha do Ocidente”, desse modo referindo os
judeus que habitavam certa porção da América, livres do jugo inquisitorial, e que só podia ser o
Brasil onde a Inquisição inexistiu, porque todas as tentativas de aí a instalarem redundaram em
fracasso, em grande parte graças ao bandeirante piratininga. De maneira que a convergência da
Israel Bandárrica e do Portugal Sebástico para a América do Sul, denodadamente o Brasil, era o
derradeiro Finisterra, a Quezê-ha-Arez, a alcançar antes do último sinal do Encoberto, do Messias.
Não será demais apontar esse “último sinal” do Redentor do Mundo como o possível e ultra-
simbólica soerguimento de Brasília, em pleno Planalto Central do país, donde discorre para as sete
partes do continente.

O facto é que antes de António de Montezinos um outro cristão-novo português, Ambrósio


Fernandes Brandão (1555-1618), que viajou pelo Brasil durante vinte e cinco anos tendo-se
estabelecido em Olinda e depois na Paraíba, perfilhou da mesma tese da presença judaica na
Antiguidade brasileira a qual noticiou no seu livro Diálogos das Grandezas do Brasil, datado de
1618, tendo permanecido ignorado no acervo da Biblioteca de Leiden, Holanda, até ser descoberto
por Francisco Adolfo de Varnhagen. A cópia desse manuscrito, composta em 1874, serviu para a
edição brasileira de 1930, iniciativa da Academia Brasileira de Letras, com introdução de
Capistrano de Abreu e notas de Rodolfo Garcia[20]. Escreveu Ambrósio Fernandes Brandão:

“Confesso que os primeiros pais deveram de mostrar e ensinar a seus filhos e netos o uso das artes
e policia que tinham; mas essa como havia de ser ensinada de palavra, não podia passar à memória
de tão comprida geração, em gentes a que lhe faltaram logo as escrituras e o mais necessário para
a conservação das artes e policia, em terras tão remotas e incógnitas, como eram as que
habitavam, e assim como a continuação do tempo se lhe havia de ir varrendo da memória o que os
seus avós lhes tinham amostrado, como ficarem do estado em que de presente os conhecemos.
Mas, contudo, ainda hoje em dia se acha entre eles muitas palavras e nomes pronunciados na
língua hebreia e da mesma maneira, costumes como é tomarem as suas sobrinhas por suas
verdadeiras mulheres, que nem uma coisa nem outra fariam se os não houvessem aprendido de
quem os sabia. E com toda a sua barbaridade têm conhecimento das estrelas dos céus de que nós
temos notícia, posto que lhes aplicassem nomes diferentes, pelo que tenho por sem dúvida,
descenderem estes moradores naturais do Brasil daqueles israelitas que navegaram primeiro pelos
seus mares.”

Antes disso, em 1581, o dominicano espanhol frei Diego Durán igualmente deixara afirmado na sua
crónica Historia de las Indias de la Nueva España y Islas de Tierra Firme que os indígenas sul-
americanos eram de origem hebraica[21]. Diz ele:

“Para tratar da correcta e verdadeira relação da origem e início destas nações indígenas, a nós
abscondida e duvidosa, que para pôr a mera verdade é necessária alguma revelação divina, o
Espírito do Eterno que ensine e dê a entender; faltando isto, será necessário chegarmos a suspeitas
e conjecturas, à demasiada ocasião onde esta gente não dá com o seu baixíssimo modo e maneira
de tratar, e de sua conversa tão baixa, tão própria dos judeus, que poderíamos ultimamente serem
naturalmente judeus e gente hebreia, […] o seu modo de viver, as suas cerimónias, os seus ritos e
superstições, os seus agouros e hipocrisias, tão parecidas e próprias dos judeus, que em nenhuma
coisa diferem. […] Com a qual confirmo a minha opinião que estes naturais sejam aquelas dez
tribos de Israel, que Salmaneser, rei dos assírios, levou cativas… […] Outra autoridade da Sagrada
Escritura se pode trazer para provar esta opinião, é que a estas dez tribos, que abaixo deixo dito,
teria o Eterno prometido por Oseias, cap. I-XIII, que as iria multiplicar como as areias do mar, o
qual claro e obviamente se vê quão grande se multiplicou, pois tem ocupado grande parte do
mundo…”

Apesar da valoração geográfica e positivista, o termo Novo Mundo redunda em simbólica sobretudo


na origem. O Mundus Novus, mencionado na carta de 1502 do controverso Américo Vespúcio, não é
apenas um continente, é o suposto Oriente, de onde o nome de Índias. Em 1513, a América é a
Terra Incógnita e, para Pedro Anghiera, é o Alter Orbis, enquanto, em 1569, América se lê sive
Índia Nova. Para os judeus da diáspora, inicialmente “policiados” pela Ordem de Cristo, a
designação Mundo Novo acarreta a sinalética messianológica, na medida em que o descobrimento
do Finisterra permitiria o encontro inevitável com as tribos perdidas e o advento do Messias.

Todas essas suspeições formalizadas crenças vêm ao encontro da pressuposta presença fenício-
hebraica na Proto-História brasileira. Quase de certo também iriam ao encontro do que saberia
Juscelino Kubitschek de Oliveira, muito mais pelas suas intimidades com a antiga Sociedade
Teosófica Brasileira, com alguma troca epistolar com o fundador e dirigente, Professor Henrique
José de Souza. Como se não bastasse e em guisa de visitação de algum membro do Governo Oculto
do Mundo ao então Presidente da República, deu-se o caso insólito do frade misterioso, como é
narrado no interessante livro de Miguel Henrique Borges, escritor, jornalista, cineasta e secretário
pessoal do ex-Presidente da República Fernando Collor de Melo[22]:

“Impressionante, o caso do frade que misteriosamente entrou no Palácio das Mangabeiras numa
certa noite pachorrenta de 1954.

“O Governador é avisado de que um religioso veio visitá-lo e se encontra lá embaixo à espera.


Juscelino, que estava relaxado, descansando, resolve ir conferir. Não há nada marcado pelo
cerimonial, nem sequer agendado pessoalmente. Desce as escadas e eis a figura. Já não se fazem
frades como antigamente. Aquele era dos bons, usando hábito completo com morrinha e tudo. JK
dá-lhe corda, convida-o a se sentar, mas a conversa é rápida. A figura só quer que ele nunca deixe
de pensar no bem da Humanidade, do País. E que se prepare para ser Presidente da República,
pois vai chegar lá. Diante do pré-candidato perplexo, o do hábito se levanta, abençoa-o, despede-
se e se retira, enquanto o Governador continua naquele enleio. Refeito, manda verificar o que
houve. A guarda e a portaria garantem que não entrou nem saiu ninguém.

“O episódio foi ouvido do próprio Juscelino e hoje é repassado pelo Coronel Afonso Heliodoro,
actual Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília, aos 85 anos de idade. Ele e o
Presidente foram da Polícia Militar de Minas Gerais, tornaram-se amigos da vida toda, tinham
grande intimidade. O Coronel não tem dúvida de que aquilo aconteceu.

“Mas se alguém duvida, há uma confirmação que, sendo indirecta, não deixa de ser categórica.
Decorre de outra lembrança do Coronel Afonso Heliodoro e não veio propositalmente como apoio à
primeira. Apenas, como se refere ao início de 1955, veio depois da insólita visita, tratando afinal
do mesmo assunto.

“Novamente no Palácio das Mangabeiras, JK foi procurado por um político amigo que
mineiramente lhe manifestou dúvidas sobre a oportunidade de sua candidatura à Presidência, já
então consumada. A visita insinua que Juscelino devia abrir mão de concorrer à eleição. Conversa
vai, conversa vem, finalmente o próprio candidato, para sair do desconforto daquela conversa
constrangida, toma a iniciativa de explicitar e fechar o assunto que tinha sido apenas tangenciado.
Aponta para o belo céu estrelado que fazia na ocasião e diz: “Não adianta, Zé. Está escrito nas
estrelas”.

“Afinal, o frade inesperado já lhe tinha dado o toque.

“Ambos os episódios constam do depoimento do Coronel Heliodoro a Costa Couto, publicado no


livro deste[23]. Embora fosse desnecessário, o autor do presente trabalho confirmou as
informações junto do Coronel.”

Segundo informação recolhida pelo já falecido Miguel Henrique Borges, um dentre inúmeros com
quem tive o privilégio de relacionar-me, na sua obra citada “JK era místico, mas um místico
prático, objectivo. Ele nasceu para ser Presidente da República, para ser Governador. Um homem
extraordinário e, no entanto, de origem humilde”. Corroborando com informações esse
sentimento, regista o livro Presidentes do Brasil (De Deodoro a FHC), organizado por Fábio
Koifman, editado em São Paulo no ano 2002:

“PAI

“Diz a lenda que, quando Juscelino nasceu, o caixeiro-viajante João César de Oliveira enviou
bilhete a um amigo de Araguari, Eufrosino de Oliveira, no qual dizia: “Não posso encontrar-me com
você, porque a Júlia deu à luz o futuro Presidente da República”.

“Não viveu para ver a realização da profecia. João César de Oliveira morreu com 34 anos de
tuberculose em 1904, quando o filho tinha apenas dois anos. Trabalhou no garimpo, foi delegado
de polícia e fiscal de rendas, mas, na maior parte de sua vida, ganhou o sustento como caixeiro-
viajante.

“Grande boémio, gostava muito de dançar, características que foram comuns ao filho Juscelino.
“MÃE

“Júlia Kubitschek, de quem JK herdou o sobrenome que adoptou na vida política, era professora
primária e leccionou no distrito de Palha, Minas Gerais. Ela só teve dois filhos: Maria da Conceição,
conhecida como Naná, e Juscelino, o Nonô.”

Juscelino Kubitschek de Oiveira, formado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais,
em 1927, nasceu em Diamantina em 12 de Setembro de 1902 e faleceu em Resende, num trágico
acidente de viação, em 22 de Agosto de 1976.

Como já disse, estabeleceu-se amizade recíproca, fincada no ideal de amor comum à mesma
Pátria-Mãe, entre o Presidente Juscelino Kubitschek e o Professor Henrique José de Souza. Por
volta de 1963, tendo aquele já saído do cargo de dirigente supremo da República, e estando este
seriamente acamado, ainda assim combinou-se um encontro pessoal entre os dois, em São
Lourenço, na residência do segundo, a Vila Helena, o que não veio a acontecer por o Professor ter
falecido dias antes da data marcada. Por essa altura, Henrique José de Souza recebeu um
exemplar de oferta do livro A Marcha do Amanhecer[24], com uma dedicatória do punho do
próprio JK: “Ao caro amigo, Professor Henrique José de Souza, a homenagem da admiração e do
apreço de Juscelino Kubitschek. Rio, 1-6-1963”. Na mesma época, o Professor recebeu o Diploma
de Amigo de Brasília, em reconhecimento do seu combate à ideia de retorno da capital federal ao
Rio de Janeiro.

Mas já vinha muito de detrás a relação JK – JHS, este que o considerava um “Ser Aghartino”,
antes, um “enviado da Agharta com Missão especial para o Brasil”. Eles interagiam intensamente,
embora nunca chegasse a haver um encontro pessoal entre ambos. Desfolhando as antigas cartas
pessoais do Professor em minha posse, observo que ele se referia aos actos e factos pertinentes a
JK na segunda pessoa do plural: “Nós fizemos isto, nós estamos fazendo aquilo, alguém disse algo
de nós”, etc. Contam os discípulos ainda vivos do Professor que, certa vez, diante da notícia de um
ataque de Carlos Lacerda na tribuna da Câmara Federal, num discurso onde afirmou que o próximo
presidente não prosseguiria com as obras de JK, o Professor replicou rindo:

– Nós vamos inaugurar Brasília no nosso Governo, e passaremos o cargo ao sucessor lá!

Realmente, o Professor Henrique José de Souza tinha grande apreço pela figura de Juscelino
Kubitschek. Este, por sua vez, tanto na presidência como depois, na fase de desgraça civil da
cassação e da perseguição militar, também denotava alta consideração por aquele. Tanto que o
Professor tratou de enviar àquele, que as recebeu com agrado e interesse, mensagens de estímulo
conceitual e político, no plano objectivo, e de potencialização espiritual. Ou seja, à distância  JHS
iniciou JK!

A primeira dessas mensagens foi em Setembro de 1958, saudando e apoiando a Operação Pan-
Americana, por representar “uma convocação dos esforços de todos os países para a solução dos
seus mais prementes problemas sociais e económicos”. E principalmente porque “dá ao Brasil a
prioridade política de uma tentativa em larga escala de coordenação dos ideais, sentimentos e
interesses da formação democrática”.

Por fim, no final de 1960 ao apagar das luzes do Governo de Kubitschek, o Grão-Mestre Henrique
José de Souza decidiu homenageá-lo, conferindo-lhe a Comenda e Grã-Cruz da Ordem do Santo
Graal, fundada por ele, e que é a mais alta condecoração outorgada pela mesma a um Chefe de
Estado, pelos relevantes serviços prestados ao País e à Humanidade.

No impedimento da presença do Professor Henrique José de Souza por motivo de saúde, a


Comenda e o respectivo Diploma foram entregues pelo Director-Social da Sociedade Teosófica
Brasileira, Dr. César do Rego Monteiro Filho, tendo a cerimónia de entrega sido realizada no
Palácio Laranjeiras, Rio de Janeiro, no dia 9 de Setembro de 1960.

Em nome de JHS, da STB e da OSG, falou o Dr. Pizarro Loureiro, denotando-se em várias partes do
seu discurso indícios históricos e esotéricos relacionados à Missão de Portugal ante o Brasil Futuro,
transcontinental, por fim plasmado em Brasília:

– Vem à presença de Vossa Excelência, por meio desta delegação, a Sociedade Teosófica
Brasileira, Sociedade Nacional sem fronteiras políticas, religiosas, sociais ou raciais, fundada há
quase quatro décadas. (…) Com uma Missão a cumprir, a Sociedade honra a Tradição milenária
que informa a estrutura de seu trabalho espiritual e constitui o objectivo principal colimado
pelas suas doutrinas patrióticas e fraternas. Corroboramos, desta forma, o conceito do grande
sociólogo mexicano José de Vasconcelos ao afirmar que das bacias do Amazonas e do Prata sairia a
Raça Cósmica do Futuro, fruto das dores e das esperanças de toda a Humanidade; a palavra do
grande polígrafo espanhol Roso de Luna, ao assinalar a cidade de São Lourenço, sede da nossa
Instituição, como a Capital Espiritual do Mundo; e a profecia do Presidente Teodoro Roosevelt ao
declarar, quando nos visitou, que o século XXI pertenceria ao Brasil.

Pregamos ao povo brasileiro, Senhor Presidente, todas essas verdades, buscando criar nele a
consciência cívica e espiritual do histórico papel que lhe caberá desempenhar amanhã, quando a
sua liderança mundial será bênção de paz e fraternidade para todas as nações. Temos a certeza
dessa liderança, certeza que se baseia na nossa fé nos destinos da Pátria e na Sabedoria das
Idades, na Tradição milenária que nos aponta como Povo Eleito – fruto dos cruzamentos de todas
as raças e de todas as virtudes humanas – para dar, pelo exemplo, as linhas estruturais de uma
nova sociedade, num mundo que amanhece sobre os horizontes da Humanidade.

A nossa Missão tem, por isto, dado o seu carácter iniciático, as características da triplicidade, que
está na base de todos os mistérios e de todas as doutrinas que comandam a Evolução Humana
através dos tempos. Não têm outra significação as tríades sagradas das culturas antigas, das
tradições que vieram a objectivar-se na Trimurti indiana e a servir de matriz à Trindade cristã:
Pai, Mãe, Filho – Pai, Filho e Espírito Santo.

Essa triangulação, Senhor Presidente, está impressa na Missão e retratada na actividade nacional
de nossa Sociedade. Tivemos nossa primeira sede em Niterói, cobrindo a etapa inicial de nosso
Movimento, ou seja, o lançamento, há quarenta anos, das primeiras sementes do nosso trabalho.
A segunda sede coube ao Rio de janeiro, quando ampliámos e demos corpo orgânico à Instituição e
maior densidade e harmonia à nossa mensagem. E a actual, em São Lourenço, Minas Gerais, onde
levantámos um Templo dedicado a todas as religiões e raças do Mundo, numa síntese luminosa da
nossa Obra anunciadora de uma sociedade nova, espelho fiel do Brasil de amanhã.

Mas a nossa Obra devia ser um espelho fiel da evolução do Brasil. Tivemos também uma primeira
capital, na cidade do Salvador, Bahia, que presidiu ao início da expansão geográfica do Brasil e da
integração técnico-linguística do povo brasileiro. A segunda, no Rio de Janeiro, que presidiu a
três eventos da maior importância histórica para os destinos do País: a Independência Política, a
Abolição da Escravatura e a Proclamação da República.

Faltava, porém, uma terceira capital que fechasse o triângulo mágico da destinação brasileira,
que fosse o fulcro de um novo bandeirismo, dando base física para a grande arrancada do Brasil
rumo ao Futuro, para empunhar o facho da sua mensagem e a dádiva do seu poder na gloriosa
tarefa de liderar o Mundo do Futuro. Essa terceira capital, Senhor Presidente, tem sido um dos
pontos principais da nossa evangelização cívico-espiritual, de quase quarenta anos (…).

Felizmente para todos os brasileiros, surgiu no cenário nacional a figura de Vossa Excelência, o
homem providencial que realizaria a imortal tarefa da terceira capital – Brasília – concretizando o
nosso sonho, a esperança de milhões de patrícios e completando, no cenário do século XX, aquilo
que está escrito para milénios no Livro da Eterna Sabedoria. Vossa Excelência, não medindo
sacrifícios, não poupando energias, sem desfalecimentos, arrostando ainda a incompreensão, a
injustiça e até a injúria, meteu ombros à Obra e construiu Brasília, a empresa do século – numa
prodigiosa aventura que pode emular com as façanhas mitológicas do Hércules grego.

E ainda agora, Senhor Presidente, durante a visita que fez a Portugal, para participar, como co-
anfitrião, nas comemorações do V Centenário do imortal Génio dos Descobrimentos, o Infante D.
Henrique, teve ocasião Vossa Excelência de dar o toque final na estrutura da comunidade luso-
brasileira, com a qual ampliamos a área geográfica e política em quatro continentes.

A nossa Missão, Senhor Presidente, objectiva-se na Sociedade Teosófica Brasileira; mas tem os
seus alicerces subjectivos na Ordem do Santo Graal, que perpétua e revive uma Tradição que está
na raiz dos grandes Movimentos Espirituais que comandam a Evolução do Homem e da Sociedade.

Quis o nosso Grão-Mestre, Professor Henrique José de Souza, que fosse Vossa Excelência a
primeira personalidade a receber a consagração honorífica da nossa Ordem no seu mais alto grau:
a Grã-Cruz, pelos notáveis serviços prestados ao Brasil, à Humanidade e ao Mundo, ao lançar-se à
imortal empresa de Brasília. Desejamos que Vossa Excelência sinta, no ouro e nas pedras preciosas
que ornam esta condecoração, não o valor material de uma jóia, mas o símbolo da gratidão e do
reconhecimento de todos os brasileiros, de todos aqueles que, como nós, da Sociedade Teosófica
Brasileira, antecipamos no tempo a semente que frutificará em Brasília, na certeza de que está
inaugurada a jornada final que nos levará à meta da grandeza do Brasil, que queremos seja farol
de luz intensíssima a iluminar os caminhos da paz, da fraternidade, da justiça e da liberdade para
todos os povos do Mundo.
Sensibilizado, o Presidente Juscelino Kubitschek agradeceu de forma eloquentemente concisa:

– Dentre as inúmeras manifestações que recebi pela construção de Brasília, nenhuma me tocou
mais ao coração do que esta, por partir de uma Instituição que não se acha vinculada a nenhum
grupo político ou religioso, nem possui nenhuma discriminação racial, e por ter sido talvez aquela
que melhor entendeu o meu esforço na consecução desta grande obra.
Finalmente, no dia 25 de Fevereiro de 1972, Juscelino Kubitschek de Oliveira é consagrado no
Templo de Maitreya, em São Lourenço (MG), pela viúva do Professor Henrique José de Souza, D.
Helena Jefferson de Souza, tendo JK pouco antes da consagração falado num improviso brilhante:

– Eu me sinto, neste momento, profundamente emocionado, porque vejo em torno de mim


homens, mulheres e crianças que me saúdam com um afecto especial, afecto que se tem
transformado numa verdadeira protecção contra os temporais que me assaltaram neste mundo e
na minha vida pública.

(…) erguemos a cidade que vai ser a Sede Espiritual da Civilização no Terceiro Milénio. Considero-
me feliz porque pude realizar, em vida, a profecia de um santo, feita em 1883, na qual afirmava
que, na terceira geração, surgiria naquele Planalto, entre os paralelos onde justamente se
encontra Brasília, a cidade que viria a ser a capital do mundo latino no Terceiro Milénio. Toda a
área espiritual, não só do Brasil mas também do Mundo, acompanhou-me naquela grande,
audaciosa e sagrada aventura de transportarmos para o centro do País a chama que há quatro
séculos procurava atravessar as cortinas difíceis que isolavam o Brasil da sua integração e do seu
contacto com todo o seu território.

Ao chegar certa vez a Paris, fui procurado por pessoas da mais alta responsabilidade, que me
convidavam para uma reunião de cunho espiritual. Compareci. E lá me disseram eles que vinham
estudando a marcha da Civilização no Mundo. Da Grécia, de Roma, da França, e que, num
determinado momento, esta Civilização saltaria o Atlântico e desabrocharia num território até
então desconhecido, inteiramente misterioso para eles. Suponham que eles estavam errados nas
previsões que haviam feito, mas, subitamente, aparece um homem que anuncia a construção de
uma cidade e, mais do que uma cidade – diziam eles – é esta área que vai conter toda a
Espiritualidade no Terceiro Milénio, e que esta cidade era Brasília. Verificaram então que eles
tinham razão nos estudos. Nas suas pesquisas, nas suas preocupações, e ali estavam para saudar o
homem que havia realizado uma aspiração de tantos e tantos milhões de pessoas distribuídas não
apenas no Brasil, mas em toda a superfície da Terra.

A minha vida pública, movimentada como foi, tomava-me inteiramente o tempo e só depois que a
adversidade interveio no meu caminho é que eu pude sentir todas estas Forças Espirituais se
reunindo em torno de mim, para me confortar e para me ajudar na caminhada difícil. Em todos os
pontos do Mundo em que estivemos, de há oito anos para cá, fui sempre procurado por pessoas,
como as que aqui se encontram, e que estão reunidas apenas por um elo espiritual que as torna
fortes, poderosas, porque sonham, acima de tudo, com o bem-estar, com a paz e com a
tranquilidade da Humanidade. Ao ser recebido hoje, percorro o caminho que fiz em toda a minha
vida e posso evocar aqui uma figura que desapareceu o ano passado, na idade de 98 anos, e que
viveu uma vida pura e espiritual – foi a minha mãe – que durante 50 anos, todas as manhãs se
levantava para ir à missa, comungar e rezar em homenagem e intenção do seu filho.

Eu acredito sinceramente no primado dessas Forças Espirituais que são mais poderosas do que as
estruturas de ferro e de aço ou de cimento. Porque elas têm em si essa força imanente que vem
das idades mortas, vicejam hoje e prosseguirão até ao fim dos tempos e, quando me vejo cercado
por pessoas que assim pensam, eu me dou verdadeiramente por feliz e com a minha missão
plenamente cumprida, porque o poder é um instrumento extraordinário para se fazer o bem ou
para se fazer o mal. Tive sempre a preocupação, quando nas minhas mãos empunhava o ceptro do
Brasil, de ter a maior atenção e o maior cuidado com as liberdades, com os direitos dos meus
concidadãos e sobretudo com aquela ideia que vem de longe, que vem da Grécia, de que não se
deve praticar uma injustiça, e repetia sempre, como Platão fazia, que preferia receber uma
injustiça antes do que praticá-la. Esta foi uma norma que procurei seguir. Devo ter praticado
inúmeros erros, mas a minha intenção foi sempre generosa no sentido de respeitar estas Forças
imanentes do Espírito que aqui agora estão reunidas, no momento em que vamos praticar esse
acto simbólico com o filho de um nosso ilustre companheiro, querido amigo e velho companheiro
que é Adriano (Climério Sidney). Eu agradeço esta oportunidade que Deus me proporcionou, de
aqui estar no meio de todos os senhores e senhoras da Ordem do Santo Graal, e volto para o Rio
de Janeiro mais fortalecido no meu íntimo, convencido de que estas Forças que aqui estão, estas
palavras que aqui ouvi, não vão ser em vão. Elas vão desabrochar em frutos e flores, não só para
mim mas para todos aqueles que querem servir ao Brasil, querem fazer o bem e proporcionar a
paz à Humanidade.

Agradeço muito pelas magníficas palavras que acabo de ouvir e podem estar certos, meus caros
amigos, que eu estava evocando ali há pouco, ali fora, um acontecimento comigo em Washington,
no ano de 1963, quando, durante um banquete no Departamento de Estado do Governo
Americano, o Ministro de Estado, que me saudava, dizia que a letra mais poderosa no Mundo no
momento, era a letra K, que ela representava três homens que tinham nas suas mãos quase que o
destino da Humanidade: Kennedy, Kruschev e Kubitschek.

Um ano depois, Kennedy já não existia, Kruschev já estava apeado do poder e eu estava no
caminho da minha adversidade, com todos os temporais que os senhores conhecem. Mas nem um
momento sequer eu senti a tristeza ou a dor de me sentir divorciado do meu País, porque onde
vou, aqui, no norte, no sul, no centro e onde chego, sempre encontro estes corações generosos
que me procuram, me dão o conforto da sua palavra, o estímulo da sua amizade e a esperança do
que eles querem para mim.

De modo que ao deixar São Lourenço, depois de uma solenidade tão encantadoramente espiritual,
eu levo mais uma vez a convicção de que vale a pena a gente lutar para não errar, ter sempre a
intenção de praticar o bem, porque teremos connosco e atrás de nós estas filas de corações
amigos que estarão sempre diante da sua consciência e diante de Deus, pedindo para ajudar a
gente nas lutas, nas dificuldades e nos temporais de que é tão fértil a existência.
Independentemente das ideologias pouco ou nada espiritualistas da maioria dos arquitectos de
Brasília, ainda assim a espiritualidade fez-se inspirar na concepção urbanística e arquitectural da
cidade, com muitos dos seus projectistas e arquitectos confessando não saberem donde lhes
vinham esses rasgos súbitos de inspiração iluminada. Acerca disto, é dito que os preclaros Membros
do G.O.M. (Governo Oculto do Mundo) têm como melhores para serem por Eles guiados, com total
desconhecimento disso e consequentemente sem perigos físicos e sobretudo psicomentais, assim
descartando deturpações lesivas do pretendido em arquétipo, são os “intelectuais materialistas
crónicos”. Nisso, lá terão as suas razões, como essa da casta mais elevada (brahmane ou
sacerdotal) inspirar directamente a casta menos elevada (shudra ou popular), evitando assim,
devido ao mental quase virgem, alterações psicomentais do que pretendem induzir.

Adazir Martins Ortiz escreveu um estudo valioso descritivo da planta e arquitectura da cidade de
Brasília[25], que me irá servir de guia pelas artérias e monumentos desta Capital Federal do Brasil
Presente-Futuro, vibrando sob a égide do Arcano 15 (A Grande Luz, Astaroth) a ver com o paralelo
do mesmo número, e igualmente com o valor do ano da chegada dos lusos ao Porto Seguro de  Vera
Cruz (nome que se quis dar a Brasília em 1956, depois substituído por este).

Inicio pela análise do seu plano urbanístico, chamado Plano Piloto. Em 1957 (soma Arcano 22),
Lúcio Costa venceu, com verdadeiros rabiscos, o concurso para a construção do plano urbanístico
da cidade, concorrendo contra projectos caríssimos minuciosamente apresentados. O número de
inscrição do seu projecto foi o 22 (novamente aparece o Arcano 22, indicativo de  A Vitória, de o
Poder no sentido elevado da consciência e da inteligência, portanto, significa aquele que possui
todo o Poder, só limitado pela sabedoria e a inteligência).

A letra hebraica desse Arcano tem o valor 400, é o Thau, que nesse alfabeto primitivamente se
representava por uma cruz, e foi assim que Lúcio Costa explicou o seu projecto: “Nasceu do gesto
primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse; dois eixos cruzando-se em ângulo recto,
ou seja, o próprio sinal da cruz”. Cabalisticamente, a Cruz é a signa da Terra.

Lúcio Costa imaginou para Brasília o formato de um avião. Seria, sem o saber, uma antevisão do
Homem Alado do futuro Quinto Sistema de Evolução Universal?
Colocou as suas asas no eixo Norte-Sul, com a frente para o Leste; levando-se em consideração o
movimento de rotação da Terra, poderá dizer-se que esse Homem Alado caminha, antes, voa em
demanda do seu grande destino. Colocou a suprema direcção do país – Palácio do Planalto,
Congresso Nacional e Supremo Tribunal de Justiça – na cabeça do projecto, pois é do cérebro que
partem todas as directrizes. Essas três construções, dispostas estrategicamente, formam um
triângulo perfeito, sendo a primeira vez no Brasil que o funcionamento das suas instituições
políticas encontrou no urbanismo e na arquitectura a harmonia que a própria Constituição
estabeleceu entre os Três Poderes da República.

Chegando-se à Praça dos Três Poderes, ninguém fica insensível, ante o conjunto dos seus edifícios,
à mais alta expressão do Poder emanado para todo o Povo brasileiro. A praça firma a consciência
cívica do cidadão e leva-o a sentir toda a plenitude, a força e a majestade do Governo que,
apercebe-se, não é só física.
Eixo Monumental, que parte da Praça dos Três Poderes, tem 12 quilómetros de extensão, com o
seu início na Esplanada dos Ministérios. Ao longo do trajecto estão o Palácio do Itamari, a
Catedral, o Teatro Nacional, o cruzamento com o Eixo Rodoviário, sectores de diversões, sectores
hoteleiros, Torre da TV, Cruzeiro de Brasília e finalmente a Estação Rodoferroviária. Em 1960,
existiam onze ministérios. A Catedral, embora esteja no Eixo Monumental, está localizada numa
praça particular, como a indicar que a Igreja e o Estado devem estar separados, porque a
Autoridade Espiritual (a Formação) é uma e o Poder Temporal (a Direcção), bem outro. Quando,
invés de estarem equilibrados entre si e, todavia, distintos, misturam-se confundindo-se
caoticamente, inevitavelmente acontecem as ditaduras político-sociais, onde o povo é quem mais
sofre. Portugal e o Brasil conhecem bem essa triste realidade de um passado recente, para ser
necessário adiantar mais alguma coisa a respeito.

Em frente à Catedral, porém do outro lado do Eixo, encontra-se o Teatro Municipal, e um pouco
mais adiante, na asa Norte, tem-se a Universidade Federal – isso para completar a tríade iniciática
Escola, Teatro, Templo.

O Eixo Rodoviário, que abrange as asas de avião levemente curvas, tem 11 quilómetros de
extensão e destina-se à parte residen-cial. Em que melhor lugar Lúcio Costa poderia ter colocado o
povo, visto que são as asas que mantêm o vôo e é o povo que faz um país?

Em cada asa tem-se 4 grupos de 16 superquadras, e nisso se tem 16×4 = 64 e 6+4 = 10. Este
algarismo é considerado o do Mundo Perfeito na Kaballah judaico-cristã. Em cada superquadra
existem 11 prédios, cujos andares são sempre divisões de 12. Desde logo se realça a presença
destacada dos Arcanos 11 e 12, respectivamente, A Coragem e O Sacrifício segundo o Tarot
Sacerdotal.

Se no plano urbanístico está plantada simbologia esotérica, na arquitectura ela se firma


definitivamente. Oscar Niemeyer, notável projectista nada afeito a metafísicas e ainda assim por
certo veículo inconsciente de Forças Inspiradoras bem mais elevadas na excelsitude da Sabedoria
Iniciática das Idades, deixou à posteridade os mais significativos sinais esotéricos. A mais
importante arquitectura do Planalto é, sem dúvida, o Congresso Nacional, transformado no
emblema-mor de Brasília, conhecido no Mundo inteiro.

O corpo dessa construção é composto de dois edifícios gémeos, voltados um para o outro (como se
expressassem o simbolismo dos Gémeos Espirituais). Cada um possui 28 andares (este o número
prodigioso dos asterismos lunares, ou duas vezes 14 do mistério solar; 12+2 signos ocultos do
Zodíaco, representados por Urano e Neptuno = ao mito iniciático dos 14 “pedaços” de Osíris).
28+28 = 56, o número dos Arcanos Menores; 5+6 = 11, o Arcano Maior expressando a Força, a
Energia, o Trabalho e a Acção sob a égide do Sol. É o edifício mais alto de Brasília, nenhum outro
pode ser mais elevado do que ele, para que nada esteja acima do Poder Maior. Esses dois edifícios
ligam-se nos andares 13, 14 e 15 formando um H, representativo do Homem Divino, do Plano
Vertical da Evolução. Tais prédios centrais são ladeados por duas conchas: o Senado e a Câmara
dos Deputados. Se se unir essas conchas, ter-se-á o círculo, simbólico do Eterno, de “Aquele que
não tem Princípio nem Fim”. Se traçarem-se rectas em função das conchas, ter-se-á dois triângulos
opostos configurando o hexalfa, indicativo da manifestação dos Mundos Espiritual e Material neste
mesmo último plano horizontal. Isso para significar que as decisões do Congresso Nacional devem
estar baseadas na interligação dos Planos Espiritual (Purusha) e Material (Prakriti). Segundo
Niemeyer, as conchas representam: a virada para cima a Câmara, como seja o recebimento da Luz
Divina e do calor do Sol; a virada para baixo o Senado, e onde se deposita a Luz Divina e o calor do
Sol sobre o povo que aqui habita. Para a Tradição Iniciática, elas também representam a Lei da
Polaridade que, juntamente com o H, expressa o Homem Primordial no Terceiro Trono na sua
plenitude de “Andrógino em Separado”, Adam-Heve.

Tudo isso tem como base um andar no subsolo, representando os Mundos Subterrâneos, alicerce de
toda a estrutura do imóvel e, mais que isso, alicerce Aghartino donde deve afluir toda a inspiração
coordenadora ao Governo Político do Brasil. Esses edifícios gémeos parecem boiar sobre um
espelho de água adiante, onde deveriam vivem cisnes brancos e negros. A água é simbólicas das
“Águas Celestes” ou Akáshicas (quinto elemento, quintessência) da Divindade do Segundo
Trono, Adam-Kadmon, e os cisnes nas cores branca e negra expressam a natureza dual dessa
mesma Divindade: a Polaridade criada a partir do momento em que a Evolução foi impulsionada,
em que a própria Divindade se sacrificou ao projectar-se a si mesma como Espírito, no acto de
criar a Matéria, simultaneamente participando das duas naturezas: a Mãe no Filho e o Filho na Mãe
– eis o Mistério do Espírito Santo!

A Cosmogénese e a Antropogénese do Deus Akbel subentendem-se acharem-se gravadas nas linhas


dessa arquitectura. Expressa o Mundo das Leis (Segundo Trono), ou segundo as palavras de
Juscelino Kubitschek: “É o cérebro das mais altas decisões nacionais”. Posto assim, é o Deus feito
Homem Uno-Trino.

Ao candango, trabalhador braçal de Brasília, para distinguir essa construção das demais, deu-se-lhe
o número 10 – número do Mundo Perfeito, aqui Brasília ou “Pequeno Brasil”, semente da original
Política Sinárquica perante o Futuro do Mundo. Como Arcano é essa mesma Necessidade, o que
expressa a Roda da Fortuna ou Samsara, fortuna essa representada na felicidade do ser que se
imortalizou ao superar essa mesma roda ou ciclo dos renascimentos e mortes e passado a viver na
felicidade contínua dos Mundos Interiores.

Atrás do Congresso, na Praça dos Três Poderes, vão-se encontrar novamente os Gémeos
Espirituais, na escultura de Bruno Giorgi, Os Guerreiros. Segundo o autor, representam os
pioneiros que, atendendo a JK, construíram Brasília. Mas bem posso acrescentar: que melhor nome
poderiam ter senão Os Guerreiros, os Gémeos Espirituais brasílicos que, atendendo ao apelo cíclico
do Eterno, vêm construindo a Humanidade, vêm preparando a Mónada Humana desde a Alvorada
dos Tempos?

Isso mesmo é assinalada nesta mesma praça por um imenso pombal, posto a Pomba do Santo Graal
expressar-se como símbolo do Espírito Santo criador de Helius e Selene, Sol e Lua, como
sejam Adam e Heve, para não dizer, El Rike e El Lena.

Como não podia deixar de ser, a Bandeira Nacional tremula nesta Praça dos Três Poderes. O
mastro é feito com 24 hastes metálicas dispostas em círculo (2+4 = 6, Arcano A Beleza). Tem
também o sentido de “União ou Desunião dos dois Poderes”; é sinalético do Amoroso Akbel, cujo
Amor em favor da Evolução da Humanidade por meio da sua Sabedoria conduz a esta de volta à
Suprema Unidade, à “Casa do Pai”, o Primeiro Trono. Que melhor Arcano poderia vibrar na
Bandeira desta Taba de Brasília? É o símbolo do diálogo de convergência de todas as unidades
federais do país e dos três poderes da República, esta que é, apesar de todas as suas
insuficiências, “uma Sinarquia exotérica” (JHS). A mensagem no mastro diz: “Sob a guarda do Povo
Brasileiro, nesta Praça dos Três Poderes, a Bandeira, sempre do alto, visão permanente da Pátria”.

É bem verdade por expressar a integridade do Poder Nacional, uno, trino e sétuplo, a saber:
Segundo os caríssimos Lupércio Gonçalves e Aulus Ronald Cirillo[26], na Bandeira do Brasil contém-
se todos os princípios sinergéticos e meios psicossociais constituintes do mesmo, como elementos
indispensáveis à sua Ordem e Progresso como Nação independente. Todo esse maravilhoso
metabolismo está realmente ajustado nas proporções do símbolo máximo do país, como se pode
observar:
Em Brasília, a bandeira é hasteada no primeiro dia de cada mês por meio de torpedos e de um
tubo-guia de 86 metros de altura (afim ao valor do Arcano 14 que assinala  O Equilíbrio:
Transformação, Superação, Metástase), o qual apoia-se em 10 dobradiças que permitem um ângulo
de 160º. A Bandeira tem 286 metros quadrados, com tal valor também assinalando o Arcano 16:  A
Rebeldia Celeste, esta que é um processo dinâmico de romper a inércia universal, tanto colectiva
como singular.

A bandeira de Brasília, criada por Guilherme de Almeida e oficializada no dia 26 de Agosto de


1969, é assim descrita pelo seu idealizador: “Sobre um campo branco, símbolo de paz, nas auras
dos tempos que hão-de vir, opõe-se escudo quadrangular de sinople, com uma caderna de setas de
ouro em cruz, farpadas e emplumadas moventes do centro”. As quatro setas representam os
pontos cardeais, como a dizer que tudo se emanará de Brasília, a Capital do III Milénio, a Cidade
do Futuro no Presente e, segundo o Professor Henrique José de Souza, igualmente significativo do
arranque do 5.º Sistema de Evolução Universal em formação já assinalado pela futura 5.ª Ronda da
Terra, afinal o V Império do Mundo aqui tendo a sua arrancada, como bem demonstra ou tão-só
sugere o seu lema: Venturis ventis! – Aos Ventos que virão!

Foi de quatro pontos cardeais que vieram os pioneiros, os candangos – palavra africana que
significa “homem branco”, mas para o brasileiro, “bandeirante moderno”. Eles vieram do Norte,
Nordeste, Sul, Oeste e Sudeste atrás da grande esperança, chamados por uma voz interna para que
em Brasília se desse o mesmo fenómeno que construiu o Brasil: o caldeamento racial, já não
somente luso-tupi mas de todos os povos da Terra.

Deve observar-se também o Memorial JK, construído na Praça do Cruzeiro, no mesmo lugar onde
foi rezada a primeira missa em Brasília, em 3 de Maio de 1957. O Memorial é sem dúvida o melhor
lugar para o descanso eterno de JK, na Praça que possui o símbolo sideral brasileiro: o Cruzeiro do
Sul. Ele é uma pirâmide truncada repousando sobre um espelho de água. A sua placa
comemorativa diz: “Aos 12 dias do mês de Setembro de 1981…”, dia do aniversário de Juscelino,
pelo que nasceu sobre a influência do Arcano 12, O Sacrifício, a expiação que é bem patente na
difícil arte de governar. Dirigir um país é dar-se em sacrifício, é renunciar a si mesmo, é ter
preocupações constantes, é ter vitórias e derrotas. Este Arcano vale no sentido Divino e Humano. A
Divindade em forma Humana sacrifica-se mais do que se possa imaginar.

O Memorial tem 120 metros de comprimento (ainda o Arcano 12). Sobre a plataforma de 28 metros
(o prodigioso número), Juscelino acena para a cidade. Essa escultura tem 4,5 metros de altura, o
que transpondo dá o Arcano 9, A Superação, designativo da Perfeição Humana, e mesmo que
Juscelino como ser humano não tenha alcançado a Perfeição deste Arcano, todavia ele ouviu a voz
que lhe segredou, lhe inspirou e induziu a realizar tão gigantesca obra; a escultura pesa 1,5
tonelada (o que transfere ao Arcano 15 de A Grande Luz ou a Inteligência em acção). A entrada no
Memorial é subterrânea, lá está a sua biblioteca (lembrando aquelas outras Bibliotecas do Mundo
de Duat, diria um teósofo) com mais de três mil volumes; no primeiro andar está a câmara
mortuária, e ao alcançá-la tem-se a sensação de se ter mudado de Plano, tal é o impacto que
oferece ao visitante com a sua penumbra, somente quebrada pelas luzes das vitrines onde se
encontram as suas condecorações, dentre elas a Grã-Cruz da Ordem do Santo Graal.

Observe-se agora a Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida, com altura e capacidade
para quatro mil pessoas (como Arcano 4 é O Reflexo de Deus). Possui a forma de um cálice
emergindo da terra, com parte subterrânea ligando a Cúria, a Sacristia e o Baptistério. A sua
entrada é feita por um túnel escuro e ao chegar-se à nave, fantasticamente iluminada por luz
natural, fica subentendido o significado do V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terris Rectificando
Ocultum Lapidem): o homem deixa o mundo de treva para penetrar no Mundo da Luz. A sua forma
circular é sustentada por 16 colunas (novamente o Arcano 16, como A Casa de Deus) que, por sua
vez, sustentam no alto um círculo menor (é o Infinito, o Macrocosmos, como sustentáculo do
Finito, do Microcosmos), onde está plantada uma cruz, símbolo astrolático da Terra indicativo do o
Templo ser a expressão estática do Homem Cósmico Adam-Kadmon, o Segundo Trono projectado
na Terra como Terceiro, o Adam-Heve caído no “pecado original” ou a mortal contracção do
Karma ou Débito que leva, desde então, o Homem a peregrinar pela Terra e a conquistar
sabedoria, maior consciência, pelas experiências do sofrimento.

Toda a estrutura repousa sobre um espelho de água, como as águas azuis e doces do  Akasha, que
se reflecte, pelas paredes envidraçadas, para dentro da nave (é o próprio  Reflexo de Deus do
Arcano 4 que aí se faz materializado). Ela possui no tecto, dependurados, três Anjos em alturas
diferentes, representativos das Hierarquias Criadoras – Arqueus, Arcanjos, Anjos – cada uma em
seu Plano – Mental, Emocional, Vital – expressando a Trindade Eterna de que o Homem é a síntese,
ou, segundo o seu idealizador Oscar Niemeyer, representam os Mistérios da Anunciação,
Ressurreição e Redenção (da Humanidade) e os três Arcanjos: Miguel, Rafael, Gabriel. Fora do
Templo, no seu portal, como Guardiões da Palavra, estão os quatro Evangelistas: à esquerda
Mateus, Lucas e Marcos, que escreveram sobre a vida pública de Jesus, e à direita está João, que
escreveu sobre a individualidade espiritual do Cristo.
O santuário de Nossa Senhora de Fátima, de formato triangular, foi o primeiro templo de Brasília,
mandado erguer para pagamento de uma promessa feita por D. Sara Kubitschek, esposa do
Presidente. Foi construído em 400 dias (de novo o Arcano 4, também fazendo lembrar os 40 anos
da peregrinação de Moisés e o seu povo pelo deserto; os 40 dias sobre o Monte Sinai em meditação
para trazer os Mandamentos do Deus Manu; os 40 dias de jejum de Jesus, meditando no deserto
sobre o sofrimento que O esperava como Ele sabia antecipadamente; os 40 dias e as 40 noites do
Dilúvio a que sobreviveu Noé e os seus… Quarenta, ainda, é a idade da razão, em que se determina
a criação activa, o poder da vontade). Foi inaugurado no dia 28 de Junho de 1958. Para esse
templo o Papa Pio XII enviou uma bênção especial, dada a importância da relação entre Brasília e
Nossa Senhora de Fátima. Em Brasília, é interessante notar que na rua onde ela está é a única que
ganhou um nome, visto aí todas as restantes terem números: Rua da Igrejinha, assim chamada pelo
povo.

A igreja de Dom Bosco destaca-se por sua incrível beleza. Tem a forma quadrangular e as paredes
são compostas por 80 vitrais (o Arcano 8 é A Lei, o Equilíbrio, é a Justiça emanada de Deus, a
reacção equilibrante que constitui a ordem entre o Direito e o Dever. Segundo o Professor
Henrique José de Souza, é “a luta da cegueira contra a iluminação”). Esses vitrais estão
confeccionados em 16 tons de azul e em 16 tons de púrpura. No final da tarde, em dias límpidos
quando Brasília se cobre de dourado da luz do Sol poente, a igreja torna-se azul luminosa. Este
templo de Dom Bosco, construído em homenagem ao padroeiro no lugar por ele predeterminado –
entre os paralelos 15º e 20º, às margens do lago Paranoá, como na sua visão – é de construção
simples, obedecendo a linhas piramidais.

De entre todos os palácios de Brasília, responsáveis pelo surgimento da arquitectura moderna


brasileira (pois são de padrões vocacionados ao Futuro), o Palácio da Alvorada é sem dúvida o que
mais chama a atenção, de imediato pelas suas 22 colunas com a forma de asas de cisnes. E com a
mesma leveza com que eles nadam, o palácio parece pousado sobre a relva. É a residência oficial
do Presidente da República e foi erguida em apenas 14 meses. Consta de três pavimentos: subsolo,
térreo e superior (sinaléticos de Inferno, Terra, Céu); o hall de entrada mede 22×11 metros. A
respeito dele, Lúcio Costa disse: “Casa grande com varanda corrida e capela anexa; tomou conta
do lugar e lhe marcou, de saída, os tonos: cidade moderna, voltada para o futuro, mas com raízes
na tradição”. Isto para confirmar que todo o avanço só subsistirá se conservar as suas bases na
experiência do Passado.

Na parte posterior do palácio encontra-se uma escultura, de Maria Martins, intitulada  Ritmo dos
Ritmos, o que lembra o Ritmo do Universo – o Ritmo dos Ciclos, o Ritmo sem fim dos Tempos, e,
por analogia, faz pensar na Melodia das melodias, na Harmonia das harmonias, o que leva à Música
das Esferas, que é a Música das músicas.

O Arcano 22 significa A Vitória, é a síntese de todos os Arcanos Maiores, a Mónada Vitoriosa a


caminho da Unificação ou “Retorno à Casa do Pai”, donde havia saído como “Filho pródigo” para
as experiências do Mundo. O Arcano 14 leva à Transformação, Superação, Metástase. O Arcano 11
é força, energia, trabalho, acção, vitalidade e coragem, todas estas qualidades necessárias para
ser um bom governante.

Mas o facto mais interessante é que, embora quase todos os palácios tenham espelhos d´água,
somente aí surgiu o costume de atirar moedas na água. Este facto é encontrado em Roma, na
Fonte de Trevi, e ele conduz directamente ao Arcano XXI, A Libertação, onde se vê o Criador
lançando as pelotas, monedas, moedas ou Mónadas inconscientes ao palco da Manifestação
Universal, para as recolher, conscientes, no final dos Tempos.

O Memorial Tancredo Neves, o último a ser construído, é um projecto de Oscar Niemeyer. O prédio
todo tem a forma de uma pomba alçando vôo, todo branco, no mais puro mármore. Forma o
quarto elemento da Praça dos Três Poderes, é o próprio símbolo do Espírito Santo descendo sobre
a Terra Brasileira. E, para completar a simbologia do lugar, foi construída, ao lado, uma Pira, onde
o Fogo Sagrado da Pátria arde sem nunca se apagar. Para se alcançar a Pira, deve-se subir 57
degraus (5+7 = 12, novamente o Arcano 12, que fala de Sacrifício, a Divindade sacrificada para
impulsionar a Evolução da Humanidade que, sem o Seu Amor e Sabedoria, jamais evoluiria.
Sacrifício humano daquele que se dispôs a alcançar a Iluminação e, alcançando-a, sacrifica-se
novamente por seus irmãos em Humanidade, como também aspecto todo o político deve sacrificar-
se pela “coisa pública”, pelo bem comum dos seus concidadãos).

O cemitério de Brasília é espiralado. Espiral é símbolo do que se evola na evolução, é símbolo


dinâmico, sempre em movimento. As suas avenidas formam um “Y” sobre a espiral, e nisso tem-se
o Itinerário de YO ou a Mónada evoluinte através do corolário de vidas sucessivas, de raça em raça,
de continente em continente, até desembocar finalmente na brasílica São Lourenço, de que
Brasília é o seu aspecto político-temporal.
Defronte ao Palácio Itamarati existe uma escultura que bem demonstra a função do Brasil neste III
Milénio: é o Meteoro, de Bruno Giorgi, cujas cinco partes representam os cinco continentes,
estando sobre a água. É interessante notar que essa, como símbolo da Divindade em sua expressão
Feminina, é o único elemento possuidor dos três estados: gasoso (humidade), líquido (água), sólido
(gelo), assim representando a Trindade Eterna (gasoso = a Mãe no Pai; líquido = a Mãe na Mãe;
sólido = a Mãe no Filho) assinalada em nome de mulher BRA-SÍ-LIA.

Existem mais dois monumentos significativos, como sejam o Mercúrio, que está no Colégio La
Salle, como uma homenagem a Brasília, e o Monumento ao Infante Dom Henrique situado na Praça
Portugal, sendo o monumento (da autoria do escultor português Salvador Barata Feyo) inaugurado
em 13 de Novembro de 1960, em homenagem aos 500 anos do Infante D. Henrique, pelo Presidente
Juscelino Kubitschek e o Embaixador de Portugal, Manuel Rocheta. A praça seria inaugurada quase
doze anos depois, em 25 de Abril de 1972, pelo Presidente da República Portuguesa, Américo
Thomaz.

Por fim, como cidade monumental de vocação futurista, deu-se o tombamento de Brasília como
Património da Humanidade no dia 7 de Dezembro de 1987, o que vem provar que a Lei Maior zela
pela preservação da capital do país assim a defendendo da especulação imobiliária e a preservando
intacta em sua originalidade.

É neste lugar privilegiado que mais se sentem e calam fundo na alma as palavras proféticas de
Henrique José de Souza:

– BRASIL! TU ÉS O SANTUÁRIO DA INICIAÇÃO MENTAL E MORAL DO GÉNERO HUMANO, A CAMINHO DA


SOCIEDADE FUTURA. TEU NOME O DIZ: É EM TEU SEIO, NAS PROFUNDEZAS DO TEU SOLO, QUE SE
MANTÊM VIVAS E CREPITANTES AS BRASAS DE AGNI, O FOGO SAGRADO!

NOTAS

[1] Cassiano Ricardo, Meu caminho até ontem (poemas escolhidos). Edição Saraiva, São Paulo,
1955.

[2] Valdemar H. Portela e Hernani Monteiro Portella, Brasília, Capital da Era de Aquário.


Revista Dhâranâ, ano LVII, n.º 12, 1982, São Paulo.
[3] Yves Christiaen, La Mutation du Monde (De nouveaux cieux… Une nouvelle Terre – Essai d
´une nouvelle conscience historique. La Roue Celeste, Dervy-Livres, Paris, 1978. Esta obra foi
editada em português no mesmo ano, A Mutação do Mundo. Editora O Pensamento, São Paulo,
1978.

[4] Pier Carpi, As Profecias do Papa João XXIII. Edições António Ramos, Lisboa, 1977.

[5] Ronaldo Costa Couto, Brasília Kubitschek de Oliveira. Edições Nova Fronteira, Rio de Janeiro,
2001.

[6] Profecias e Trovas de Gonçalo Annes de Bandarra, Sapateiro de Trancoso. 2.ª edição –


actualizada. Livraria Universal, Lisboa, 1942.

[7] Nostradamus, Profecias. Editorial Vega, Lisboa, 1978.

[8] Fábio Koifman (organizador), Presidentes do Brasil (De Deodoro a FHC). Rio: Universidade


Estácio de Sá / Editora Rio. São Paulo: Cultura. 2002.

[9] João Bosco, homenageado pela Igreja a 31 de Janeiro. Filho de humildes camponeses, nasceu
em Becchi, Itália, em 1815, e morreu em Turim em 1888. Ordenado sacerdote em 1841,
interessou-se pela sorte dos jovens pobres e pela sua formação profissional, fundando para eles,
em 1851, a Congregação dos Padres de S. Francisco (Salesianos), e em 1862 a das Filhas de Maria
Auxiliadora (Salesianas). É o padroeiro dos operários aprendizes, e considerado o apóstolo da
juventude. Foi canonizado em 1934. – In Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos, 2.ª edição.
Lello & Irmão Editores, Porto, 1990.

[10] Juscelino Kubitschek, Meu caminho para Brasília, volume III – 50 anos em cinco, p. 171.
Edições Bloch, Rio de Janeiro, 1974.

[11] “Tras il grado 15 e il 20 grado vi era un seno assai lungo e assai largo que partiva di un punto
che formava un lago. Allora unna você disse ripetutamente, quando si verrano a scavare le miniere
nascoste in mezzo a questi monti di quel seno apparitirà qui la terra promessa fluente latte e
miele, sarà una ricchezza inconcebilie. – Memorie Biografiche, t. XVI, p. 385-394. Giovanni Battista
Lemoyne, Memorie Biografiche di Don Bosco, 20 v. Escuela Tipográfica Salesiana, San Benigno
Canavese, 1898-1948.

[12] Manuel Joaquim Gandra, Martinets de Pasquallys e a Tradição Quinto-Imperial. Prefácio


ao livro de Martinets de Pasquallys, Tratado da Reintegração dos Seres Criados. Edições 70,
Lisboa, 1979.

[13] Jean de Varende, no seu livro Les Gentilhommes, afirma que desembarcavam em La Rochelle


os metais preciosos provenientes da América, com a qual os Templários mantinham contactos
comerciais e culturais. A credibilidade do facto fica atestada pelas Cartas de Piris Reis. Cf. Teoria
Nova da Antiguidade, Ed. Minerva, Lisboa, onde Sampaio (Bruno) traça a rota de Ulisses, de acordo
com a Odisseia, passando pelas Américas…

[14] Menasseh Ben Israel (Manuel Dias Soeiro) escreveu uma obra intitulada Esperanças de Israel,
ex Jerm. 14, 8 – publicada em Amsterdão em 1698 e reeditada, em edição limitada de Santiago
Perez Junquera, em Madrid em 1881 – baseando-se no relato de um português que viajou pelas
Américas nos princípios do séc. XVII, e que de lá regressou, perseguido por Judaísmo, afirmando
ter encontrado, entre os indígenas, descendentes das tribos perdidas de Israel…

[15] O Paraíso Terreno, associado à Ilha Encoberta, foi um tema persistente, que tomou forma
cristianizada na lenda de S. Brandão: cf. Miguel Asín Palacios, Dante y el Islam, Madrid, 1927. As
mais remotas lendas irlandesas, e não esqueçamos as relações entre a Península Ibérica e a Irlanda
desde as épocas mais recuadas, falam de uma ilha encantada, situada a Ocidente – que ora era
visível, ora o não era –, denominada O’Brazil.

[16] Cf. Margarida Barradas de Carvalho, L’Ideologie religieuse dans la “Carta de Pêro Vaz de


Caminha”, in Bolletin des Études Portugaises et de l’Institut Français au Portugal, n.º 22, 1960,
pp. 24 e segs.

[17] Cf. José António Maravall, La Utopia político-religiosa de los Franciscanos en Nueva


España, in Estudios Americanos, 1 (1949), pp. 197-227. Não esqueçamos a extraordinária
actividade desenvolvida pelo Padre António Vieira, arauto do Reino de Deus à face da Terra, cujo
anúncio fez na História do Futuro, in Obras Escolhidas, Col. Clássicos Sá da Costa, vols. VIII e IX.

[18] Pinharanda Gomes, História da Filosofia Portuguesa – A Filosofia Hebraico-Portuguesa.


Lello & Irmão – Editores, Porto, 1981.

[19] Benjamin Schmidt, A esperança dos Países Baixos: Menasseh Ben Israel e o Ideal Holandês
da América. Em Paolo Bernardini e Norman Fiering (editores), Os judeus e a expansão da
Europa para o Ocidente, 1400-1800. Nova York, 2001.

[20] Ambrósio Fernandes Brandão, Diálogos das Grandezas do Brasil, 1618. Edição com


introdução de Capistrano de Abreu e notas de Rodolfo Garcia, Livraria Progresso Editora, Rio de
Janeiro, 1930.

[21] Fray Diego Durán, Historia de las Indias de la Nueva España y Islas de Tierra Firme.
Conaculta, México, 2007.

[22] Miguel Henrique Borges, JK JK! A Conexão Esotérica. Editora Aquarius 2005, Rio de Janeiro,
2002.

[23] Afonso Heliodoro, JK exemplo e desafio. Edições Thesaurus, Brasília, 1991.

[24] Juscelino Kubitschek, A Marcha do Amanhecer. Bestseller, São Paulo, 1962.

[25] Adazir Martins Ortiz, Brasília e seus Mistérios. Revista Dhâranâ n.º 4, ano LXIII, 1989, São
Paulo.

[26] Lupércio Gonçalves e Aulus Ronald Cirillo, A Doutrina da Escola Superior de Guerra à luz
das Leis e Princípios Universais. Edição dos autores, São Paulo, 1978.

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