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O Melhor Ano

de Nossas Vidas

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O Melhor Ano
de Nossas Vidas
Superação e Sonhos

Sérgio Amaro Gomes


1.a Edição
2008

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© 2007 Sérgio Amaro Gomes

Revisão de texto:
Antonio Lopes, Jonas M. Gomes, Carolina M. Gomes

Capa e Fotos:
Sérgio Amaro Gomes

Projeto Gráfico:
Sérgio Amaro Gomes

Editoração Eletrônica:
Alexei A. Woelz

Tratamento de imagens:
Alexei A. Woelz

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Gomes, Sérgio Amaro
O Melhor Ano de Nossas Vidas; Superação e Sonhos / Sérgio Amaro
Gomes. – São Paulo : Sérgio Amaro Gomes, 2008

ISBN:

1. Viagens marítimas 2. Navegação à vela 3. Aventuras 4.


Viagens com crianças I. Título

CDD – 919-5
Índices para catálogo sistemático:
1. Brasil: Descrição e viagens 919-5

[2008]
Todos os direitos desta edição reservados a Sérgio Amaro Gomes.
Site para contato: www.tresnomundo.com.br
Impressão e Acabamento: PAPERCROM Editora e Gráfica Ltda.

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Aos que, de alguma forma, ajudaram nosso
projeto.

Ao nosso anjo da guarda Marinha do Brasil.

Aos amigos e parentes que nos esperaram


pacientemente.

Aos amigos que não tiveram paciência e nos


visitaram ao longo da viagem.

Aos muitos amigos que plantamos ao longo da


costa.

Aos que trabalharam dobrado para podermos


navegar, meu irmão Celso e o amigo Cristiano.

Para Luciana, que aprendi a admirar e amar cada


vez mais, apesar das muitas milhas que nos
separavam.

Ao meu pai, que me ensinou o que é ser um bom


pai e a amar o mar.

Aos meus amados filhos, companheiros de


viagem e tripulantes eficientes, que me
incentivaram e acompanharam neste sonho.

Em memória de Mônica Aquino de Muro e


Marly Amaro Gomes. O Amor nunca morre:
transforma-se em saudade e proteção.

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“Ser feliz é deixar de ser vítima de seus
problemas, para ser autor de sua
história”.

Placa em ótica de Fortaleza.

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Sumário

Prefácio 11
Introdução 13
1. Nossa História 15
2. Preparativos 21
3. Acostumando a Viver a Bordo 25
4. A Tranqüilidade de Parati 41
5. Ilhas de Angra 51
6. Ilha Grande e Marambaia 55
7. Primeiros Percalços 59
8. Visitas em Parati 63
9. Superando Sempre 71
10. Convalescença em Parati 75
11. A Caminho do Rio 81
12. Mar Duro 93
13. Arraial e Cabo Frio 97
14. Contratempos em Búzios 103
15. Travessia Decisiva 107
16. Vitória e Chocolates 111
17. Lar das Baleias 115
18. Costa do Descobrimento 131
19. São Jorge Amado dos Ilhéus 139
20. Camamu – Paraíso Isolado 145
21. Capital dos Contrastes 151

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22. Tinharé, Boipeba e Morro 159
23. Aratu-Maragogipe – Festa Baiana 167
24. Maceió das Alagoas 181
25. Amizades Reforçadas 185
26. Noronha – Paraíso na Terra 191
27. Natal e suas Dunas 197
28. Paraíba Hospitaleira, Gente Nobre Sim Sinhô! 205
29. Barco Perfeito 213
30. Dor da Despedida 217
31. Indo Mais Longe 219
32. Muito Trabalho em Fortaleza 223
33. A Galope para o Caribe! 229
34. Que Saudade Eu Tenho da Bahia! 239
35. Retorno a Camamu 245
36. Surfando em Itacaré 249
37. Belíssima Trancoso 253
38. Paraíso dos Mergulhadores 259
39. Quinze Minutos de Fama 265
40. Torpedos Fosforescentes 271
41. Primeira Chegada 277
42. Paradoxos 283
43. Hora da Volta 287
44. Pós-Escrito 289
Apêndices 291
Glossário 293

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Prefácio

Este livro, que mescla trechos importantes de diários de nossa


viagem, artigos publicados em revistas e muitos textos explicativos, foi
escrito com um misto de alegria e dor.
Reviver os momentos felizes que tivemos a bordo do Fandango,
durante catorze meses e catorze dias, de dezembro de 2005 a fevereiro
de 2007, revendo-os em intensidade e importância, com a saudade de
quem relembra um passado agradável, foi muitíssimo bom.
Por outro lado, muitas emoções foram arrancadas a fórceps, do
fundo da alma, para se transformarem em palavras, que nem sempre dão
a idéia exata de sentimentos profundos e algumas vezes podem dar a
impressão de exagero. Perdi a conta de quantas vezes chorei para
escrever diários, artigos e este livro. Mesmo assim, as palavras saiam
fluentes, como se não viessem de mim, mas extraindo de mim tudo o que
eu precisava falar.
Gostaria de lembrar ao leitor, que este livro não é uma ficção.
Também não é um romance. É apenas a transcrição de uma realidade que
vivemos, eu e meus filhos. Uma realidade bela demais, para que fosse
maculada com invenções, exageros ou floreios. Cada caso, cada uma das
histórias, coincidências e acontecimentos contados aqui, realmente
aconteceram. As pessoas são reais e, quem navega pelo Brasil ou
navegará, com certeza as irá encontrar, conhecer e se afeiçoar a elas.
Aprendemos muito, em conhecimento, convivência e sentimentos.
Aprendemos a amar ainda mais este nosso Brasil e seu bom povo, atobás
pacíficos, que apenas desejam criar seus filhotes, conseguir seu sustento
e viver em paz, sem a sombra negra de fragatas sobre seu ninho.
Vivemos um sonho, um sonho muito belo, sonhado por muitos e
muitos anos, que se tornou realidade com o nosso esforço conjunto e
nossa alegria para realizá-lo.
Meus filhos são testemunhas.

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Introdução

Caminhava com meus filhos pela praia do Saco da Capela, juntos,


como sempre estivemos. Observávamos as estrelas, que se mostravam
todas, e os muitos veleiros, contrastando com as luzes que vinham do
mar, tranqüilos em suas poitas. Estávamos encantados com a paz da noite
e com a beleza do canal de São Sebastião e suas luzes. Alguns pescadores
lançavam suas linhas com bóias luminosas nas águas da ponta do Pequeá,
na tentativa de levar algum peixe para casa e, fora eles, a praia estava
deserta. Dobramos a ponta e passamos a caminhar na praia do Engenho
D’Água, em direção à escola de vela BL3.
Eu procurava o lugar ideal, não sabendo qual era, para fazermos
uma coisa muito, muito importante para nós. Após andarmos mais um
pouco, senti que o lugar era ali e sentamos na areia fria da praia, a pouca
distância de sermos lambidos pelo mar. Eu procurava um templo e, após
sentí-lo, percebi que ele continha todos os elementos referentes ao motivo
por estarmos ali: o mar, a praia, vela e veleiros, pesca e a paz infinita do
conjunto.
Não poderíamos ter achado templo mais belo e mais significativo!
Erigido pela natureza, poderia ser a casa de qualquer Deus, antigo ou
moderno. Até os que não crêem em Deuses, mas amam a Natureza
Criadora, sentir-se-iam em estado de graça aqui, neste momento. A mente
confirma os sentidos: o templo é aqui!

Lembrei que já estive neste exato lugar, mesmo trecho de praia, há


sete anos exatamente, procurando também um templo. Apenas a situação
era outra: sete anos atrás eu procurava conforto e um caminho. Minha
esposa havia falecido, repentinamente, poucos dias antes e nós três
acabávamos de retornar à nossa casa em Ilhabela, após os funerais em São
Paulo. Naquela noite, fui andar na praia, sozinho, para pensar. Jonas
tinha cinco anos, Carol quatro. Eu estava sem companheira, sem caminho
e sem sonhos: me sentia vazio! Só sabia e sentia que pertencia aos meus
filhos e ao amor por eles.
Não sou místico e nunca fui. Minha formação é engenharia, minha
profissão é analista de sistemas: mais “exato”, impossível! A vida e os
filhos, complementando faculdade e trabalho, me ensinaram outras
coisas importantíssimas e, entre elas, sentir e se deixar levar pelos seus
sonhos, nesse caminho desconhecido chamado “futuro”. Sonhos são a
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nossa estrada escolhida e precisamos demais deles para guiar nosso
caminho. Necessito sentir, sonhar e raciocinar.
Naquela noite de angústia, olhando o canal imenso, cheio de vida,
com bilhões de litros de água e seres, sabendo ser ele apenas uma gota
comparado aos oceanos de nosso planeta, que é um ponto minúsculo
num universo que não temos capacidade para conhecer totalmente e nem
vislumbrar sua dimensão, confortei-me, percebendo a insignificância de
minha existência e de meus sentimentos, frente à vastidão de tudo. Sou
nada! Raciocinei, senti, e, por estranho que possa parecer, essa
insignificância me confortou. Assim, com os sonhos destruídos e sem
caminho, voltei para junto do Jonas e da Carol, que precisavam de mim.

Passaram-se exatamente sete anos e, hoje, procuramos um templo


para, juntos, agradecer.
Sentado na areia da praia do Engenho D’Água, final de março de
2007, de mãos dadas com meus filhos, olhos marejados, olhando o mar e
rezando um “Pai Nosso” com eles, revi mentalmente os muitos
acontecimentos do nosso último ano vivido no mar. Estamos finalizando
um ciclo, agradecendo as maravilhas que vimos, as pessoas que
conhecemos, aprendizado alcançado e sonhos realizados. E,
principalmente, termos retornado bem! Temos muito a agradecer por
todos os momentos que vivemos.
Meus filhos me olhavam com o mesmo ar de dúvida e cara piedosa
que sempre fazem, quando me vêm chorar emocionado. Eles não têm,
ainda, noção da amplitude do que vivemos e realizamos. Talvez, nem eu.
Você, leitor, por olhar “de fora”, talvez poderá ter uma idéia mais precisa.
Quanto à importância dessa vivência em nossos futuros, só o tempo
e os acontecimentos irão mostrar. Meus filhos irão crescer, tomarão as
rédeas de suas vidas e guiarão seu futuro com o que aprenderam e com o
que ainda aprenderão. Eu perseguirei outros sonhos e estarei à disposição
deles sempre que precisarem, sustentáculo que deve ser todo bom pai,
enquanto a vida me permitir ou até ela inverter nossas posições.

Acabamos a prece, levantamo-nos e voltamos abraçados para casa,


insignificantes para o universo, mas cada um importante, extremamente
importante para os outros dois, para seguirmos nosso futuro e novos
sonhos, nessa belíssima e imprecisa estrada da vida.

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Nossa História

É estranho fazer um histórico de nossas vidas. Sempre fui mais


focado no que acontece no presente e no que precisa ser feito no futuro.
Mas agora vou parar para recordar.
Lembro, de pequeno, a paixão pela praia e pelo mar, brincando na
areia. Lembro as pescarias com varinha de bambu, na Praia Grande perto
de Santos, com meu pai, irmão e tios. Todos os finais de semana que
íamos para lá, nos divertíamos muito, saindo sempre com gosto de
“quero mais”. Crescendo mais um pouco, havia o futebol na praia e as
puxadas de rede de arrastão com toda a família, em noites frias e
memoráveis. Muitos peixes, siris e até camarões pescávamos naquela
praia, no começo dos anos 70. Depois que meu pai limpava os pescados
(eu adorava ficar ao lado dele, vendo e aprendendo), tudo era cozinhado
por minha mãe e primas, para deleite de todos. Desde então, já havia
regras: nada era pescado em excesso e tudo que se pescava se comia. Não
havia desperdícios. Os peixes pequenos eram devolvidos vivos ao mar.
Siris com ovas eram soltos. Bons tempos! Saudosos!
Crescendo mais um pouquinho, minha diversão era distinta dos
rapazes de minha idade: adorava pescar robalos no casco do navio, na
Praia Grande. Enquanto todos os rapazes de dezesseis, dezessete anos
estavam na noitada, eu estava dormindo. Antes de o sol raiar, lá ia eu com
vara de molinete, camarão vivo na isqueira e alguns anzóis, chumbadas
e encastoados reservas para a água. Via o nascer do sol na água e, em dias
bons, só saia para almoçar. Via o sol se pôr dentro da água. Vivia minhas
férias escolares no mar e sonhava em morar ao lado dele e viver da pesca.
Nessa época, comprei meu primeiro barco: um bote inflável e o batizei
com o nome de minha namorada. E a primeira namorada? Conheci na
praia, morava numa cidade de praia e eu namorava indo visitá-la na
praia.
Um bom tempo depois, o namoro acabou, os peixes acabaram, mas
não o amor pelo mar. Era hora de mudanças. Fiz um ótimo curso de
mergulho, muito voltado à segurança e comecei a mergulhar sempre,
praticando caça submarina nas águas de Ilhabela e Ubatuba. Comecei a
conhecer, ainda melhor, os segredos do mar e seus tesouros. O mundo
submarino parecia (e acho que parece até hoje) um sonho, infinito nas
suas belezas, onde sempre descobrimos algo novo. Na ânsia de estar mais
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perto do mar, fiz um curso de arrais e mestre para poder comprar um
barco. O objetivo era ter um barco para poder mergulhar, mas não só
“mergulhar”. Eu queria sair na sexta-feira à noite, entrar no barco, ir para
algum lugar e ficar até o domingo, quando tinha que retornar para São
Paulo. Nessa época, começou a surgir o sonho de morar embarcado.
Logo que comecei a trabalhar, após acabar a faculdade de
engenharia, comprei meu primeiro veleiro, um pequeno Ranger 22,
chamado Topete, que considerava o barco certo para “ir e ficar”. Detalhes:
eu não sabia velejar e nunca tinha entrado num veleiro! Quando peguei
o barco, tive uma aula de vela de quatro horas com um amigo e sigo
aprendendo até hoje.
Estar no mar, mergulhando e vivendo, nele e dele, era a vontade
maior. Para fazer esses mergulhos em segurança, tínhamos um grupo de
amigos que iam sempre juntos. Deles, muitos se preservam até hoje como
grandes amigos. E nesse grupo conheci Mônica.
A Mônica adorava o mar. Tinha recordações muito parecidas com
as minhas da mesma Praia Grande. Tinha dezenas de gostos parecidos
com os meus, mas até começarmos a namorar passaram-se uns dois anos
(a pressão do grupo para namorarmos funcionou às avessas para ambos).
Várias vezes nos encontramos nos fins de semana de mergulho. Nesse
ínterim, casei com outra moça, separei e, quando comecei o namoro com
Mônica, foi fulminante. Já começamos a falar em viver perto do mar, viver
num veleiro e começamos a encarar nossas primeiras aventuras a bordo
do Topete. Casáramos corpo, alma e sonhos!
Após uma semana a bordo de um Fast 345, que alugamos para
velejar e mergulhar em Parati, Angra e Ilha Grande, começamos a sentir
o Topete muito pequeno. Resolvemos comprar um barco maior: o
escolhido foi um Velamar 29, chamado Voodoo. Passeamos bastante com
ele, mas o sonho, então, já era pegar um barco e sair pelo mundo. Eu
largaria a informática, ela o direito e passaríamos a morar num veleiro
grande, vivendo de charter’s. Para isso, escolhemos um ótimo projeto de
cruzeiro chamado Trinidad 37 e fechamos negócio para construir o barco.
Trinta-Réis seria seu nome, nome de um pássaro, porque lemos que este
é o ser que mais migra no mundo e desejávamos viajar muito.
Só não contávamos com um imprevisto. Aliás, dois (ótimos!)
imprevistos: engravidamos! Primeiro do Jonas e, apenas quatro meses
após o Jonas ter nascido, da Carol. Em dois anos, ganhamos dois filhos.
Aliás, o mesmo tempo que durou a construção do nosso tão sonhado
barco. Mas não deixamos de fazer nossas aventuras, mesmo grávidos.
Não esqueço de uma frente fria que pegamos com o Voodoo, quando a
Mônica estava grávida de cinco meses do Jonas e sua cara de felicidade
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com o temporal e ventania, no cockpit, ao meu lado, vendo as ondas
crescerem e arrebentarem no costado. Ela adorava tempestades. Também
não esqueço quando, com oito meses de gravidez do Jonas, demos a volta
mergulhando na Ilha das Cabras, aqui em Ilhabela. E quando, um pouco
antes dele nascer, fui fazer uma caça submarina com amigos na Ilha
Vitória e pegamos uma tremenda tempestade elétrica na volta. Meu único
pensamento era: puxa, eu não vou poder ver meu filho nascer! A
tempestade nos deixou passar, as crianças nasceram e eu tive o prazer
infinito de assistir aos dois partos.
Com dois bebês para criar e a responsabilidade de pais muito forte
nos dois, sentimos que os planos de viajar tinham que ser postergados.
Mas sentíamos que o contato e a vivência no mar eram exigências para
criarmos bem nossos filhos. Com um mês e meio de idade (assim que o
pediatra permitiu descer a serra, por causa da formação do ouvido) já
levamos Jonas para velejar. Carol também, com um mês e meio de idade
fez a sua estréia. A “lavagem cerebral” começou até antes deles nascerem,
com a decoração do quarto totalmente ligada ao mar. Com um ano e meio
de idade, Jonas veio conosco de Santos para Ubatuba. Essa foi a única vez,
até hoje, que eu o vi enjoar. E também Mônica, que passou mal por ficar
preocupada e nervosa com o enjôo do Jonas. Com três e quatro anos, eles
passaram quinze dias conosco, a bordo do Trinta-Réis, em Parati e Ilha
Grande, com a companhia de Luís e Mariana, um casal de grandes
amigos. Carol sempre era a primeira a entrar na água e a última a sair.
Jonas sempre às voltas com seus barquinhos. Aliás, tudo se transformava
em barcos para ele (até os carrinhos) e bonecos viravam tripulantes. Nesse
ponto, começamos a achar que havíamos exagerado na dose da
“lavagem”! Todos nossos fins de semana eram no mar. Quando tínhamos
algum problema e não podíamos descer, a semana seguinte era muito
difícil de passar.
Morando em São Paulo, com um ritmo de vida e de trabalho
frenéticos e dois filhos pequenos para criar, sentimos que não vivíamos
com a qualidade de vida que queríamos, para eles e para nós.
Precisávamos de mudanças. Precisávamos viver e, de preferência, junto
ao mar. Construímos uma casa em Ilhabela e, conforme nossos sonhos,
nos mudamos em outubro de 98. E mais: definimos que, quando as
crianças estivessem com seis e sete anos respectivamente, em 2001,
embarcaríamos para viajar pelo mundo.
Só que, na nossa onipotência de planejamentos, esquecemos que a
vida cobra que deve ser vivida no presente e não de planos futuros. Na
forma de uma doença repentina e fulminante, um temporal veio: furacão,
ciclone, tufão, todas as forças juntas, massacraram nossa vida e levaram
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nossa amada companheira, mãe e amiga para outras dimensões. Mesmo
a força dessa forma figurativa de falar, não consegue expressar toda a
destruição causada em nossos sentimentos e nossas falsas seguranças. Era
março de 2000. Mônica tinha apenas trinta e oito anos e muitos sonhos a
concretizar.
Quando me vi sozinho, com dois filhos para criar e sem a estrutura
familiar perto para me auxiliar, pensei em fazer o mais cômodo na
situação: comprar um apartamento no prédio dos pais e irmãs da minha
esposa, sempre muito presentes para nos auxiliar quando estávamos em
São Paulo. Isso significaria retroceder a todos os problemas crônicos da
cidade grande e ficar longe dos meus filhos muito tempo, tempo meu que
eles precisavam muito mais agora. Relembrei uma conversa que tive com
Mônica, três dias antes dela falecer, quando analisamos como havia sido
ótima a mudança para Ilhabela para todos, principalmente para as
crianças.
Resolvi tentar o mais arriscado: assumi sozinho e totalmente a
educação e cuidados de meus filhos e continuei a morar em Ilhabela,
longe da família. Hoje, depois de mais de sete anos do falecimento de
minha esposa, vejo que a minha opção se mostrou certíssima. Tenho
filhos maravilhosos, muito próximos a mim, e cresci como pessoa fazendo
as duas “funções”, pai e mãe. Eles continuaram nadando e brincando na
praia, aprenderam a mergulhar, a pescar, a velejar, a preservar e a amar
o mar.
Pouco depois do falecimento da Mônica, vendemos o Trinta-Réis.
Dois motivos me levaram a isso: as despesas altas de um barco grande,
com apenas meu trabalho para manter e, principal, a impossibilidade de
velejar com ele por motivos emocionais. Hoje ele está em Ubatuba, com o
Dimitri, que acabou se tornando um grande amigo e com uma família
maravilhosa que cuida muito bem dele.
A partir daí, comecei a velejar no Quick, um Fast 23 do amigo
Ladislau, fanático por regatas. Iniciou-se o que posso chamar de
verdadeiro aprendizado. Muitas regatas, com ventos fortes e fracos,
aprendendo a técnica de bem velejar, com um ótimo e paciente professor.
Aliás, foram vários os professores, pois aprendemos com todos os
tripulantes a bordo (às vezes, aprendemos o que não deve ser feito!!!). As
crianças também velejavam conosco. Corriam regatas e ficaram fanáticas
por troféus e medalhas. Um amigo de Ubatuba, o Flávio, extremamente
competitivo em regatas, permitia que as crianças fossem conosco em
algumas delas, mesmo representando peso extra a bordo.
Após uns dois anos velejando como convidado em barcos de
amigos, Ladislau resolveu comprar um outro barco para levar para a
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represa. E eu tentei ajudar. Numa das “olhadas” nos barcos à disposição
para vender, levei as crianças. Quem disse que eles queriam sair do
barco? Começaram a dizer “que aquele barco era legal, que podíamos
comprar com o Ladis e que podíamos viajar muito com ele”. Só um
detalhe atrapalhava (um pouco!) os planos deles: o veleiro era típico de
competições, “pelado” por dentro! Nem banheiro tinha! Esse
acontecimento serviu para que eu percebesse que o caminho estava
traçado e que meus filhos o estavam cobrando. Conversei com o Ladis e
sugeri uma sociedade. Procuramos um barco que atendesse o lado
regateiro do Ladis, cruzeirista nosso e achamos o Fandango, um Schaeffer
31, aqui mesmo, em Ilhabela. Ótimo barco, forte, muito bem construído,
muito bem projetado, gostoso de velejar, muito bom de manobras e
rápido na raia. Nos primeiros quatro anos com ele, velejamos muito,
regatas e cruzeiros, e sempre com prazer. O Fandango nunca nos deixou
na mão e provou suas qualidades nas mais diversas situações.
Em 2002, fui convidado, pelo amigo Valmir, para correr a regata
Recife-Fernando de Noronha, a popular Refeno. O barco dele, o Xe-
Rocuá, ficava em Ubatuba e tínhamos que levá-lo até Recife, correr a
regata e voltar. Uma aventura e tanto, na qual entrei de cabeça. Ajeitei
minha agenda, arrumei gente de confiança para ficar com as crianças nos
meus períodos de ausência e embarquei, mesmo com o coração apertado
por deixá-los, para realizar essa maravilhosa viagem, feita em etapas. Só
não pude cumprir o percurso de Salvador a Ubatuba, no retorno, porque
as crianças precisaram de mim, na época. Na volta da viagem trouxe,
além do conhecimento da costa e amizades estreitadas, um novo sonho e
a segurança para cumpri-lo: percorrer a costa brasileira, numa viagem de
um ano e dois meses, dentro de um ano escolar mais as respectivas férias,
com meus filhos.
Pedi o aval deles e resolvemos, nós três, que era hora de retomar o
nosso projeto: realizarmos, juntos, uma viagem de barco que era nosso
sonho inicial (do qual eles já participavam intensamente, mesmo
pequenos), obedecendo nossos limites. Velejaríamos de Ilhabela a Natal
e voltaríamos, costeando nosso belo Brasil. Loucura? Muita gente pensou
assim.
Queremos conhecer o Brasil real, com sua gente, história, cultura,
sotaques, realidades, fauna, flora, paisagens, adultos e crianças. E ao
mesmo tempo, podendo parecer paradoxal, usar as ferramentas da nossa
era digital e globalizada, para informar às pessoas as nossas experiências
e mostrar o privilégio que temos, de deixar de lado a “virtualidade” das
informações e relações modernas, indo vivê-las na realidade, para que
elas possam refletir sobre o modo como vivem e como estão criando seus
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filhos. Acredito que a falta de humanidade, que se avoluma no mundo de
hoje, vem, em grande parte, do distanciamento das pessoas do mundo
real e da alienação causada pelos meios de comunicação (até as guerras,
mortes, crimes e tragédias ficam engraçados, românticos ou aventurosos
nos filmes de hoje). As pessoas se acostumam a esses eventos, deixam de
achá-los aberrações (a não ser que em alguma circunstância os vivam),
param de cobrar providências e fazer sua parte para que não aconteçam.
Conseqüentemente, permitem seu aumento indiscriminado, gerando um
grande círculo vicioso.
Hoje tomo a liberdade de fazer um convite: gostaríamos de tê-los
como tripulantes virtuais na nossa viagem. E um desejo: que você, leitor,
tome a rédea de sua vida e viva seus sonhos.
Não colocarei aqui apenas as histórias e belezas da viagem, mas
também várias informações técnicas úteis para quem quiser fazer algo
semelhante. Desejo que este o livro e o site www.tresnomundo.com.br se
tornem grandes guias para navegadores sonhadores e que o nosso
exemplo sirva para que você corra sempre atrás da realização de seus
sonhos, por mais distantes que eles pareçam estar.
E lembrem-se, sempre, que a vida cobra: DEVE SER VIVIDA AQUI
E AGORA !

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2
Preparativos

Artigo Revista da Revista Ilhabela – Outubro/2005

O tempo voa! Com um friozinho na barriga e muita ansiedade,


vemos cada vez mais próxima a data de zarparmos. Ainda temos
algumas coisas para fazer e o tempo, que antes achava ter de sobra,
parece cada vez mais curto. Mas, dos preparativos, o principal já foi feito.
Fizemos uma revisão total, removendo o barco da água, onde
todos trabalhamos: troca de estaiamento, pintura de fundo para evitar
cracas, revisão do leme e da rabeta do motor principal. Estamos
comprando as coisas que faltam e já adquiri nossa principal ferramenta
de bordo: um notebook e seus cabos de conexão com GPS. Ele será nossa
central de diversões (DVD e jogos), trabalho (manutenção do site, diários
de bordo, armazenamento de fotos/filmes da viagem e envio de
informações para jornais e revistas), navegação eletrônica (onde teremos
o GPS conectado) e estudo (recebimento e envio de materiais e provas
do colégio das crianças).
O interessante dessa revisão e compras, é que tudo foi efetuado
aqui em Ilhabela. Temos na Ilha um ótimo centro de serviços náuticos e
profissionais de primeira linha. Aliado a isso, temos boas lojas para a
compra de praticamente tudo, com bons preços (sabendo procurar). Até
a compra do computador me surpreendeu, pois arrumei um preço, em
Ilhabela, que batia todos os que eu havia conseguido em São Paulo e na
internet. Isso é uma ótima notícia para nós, que moramos na Ilha e que
evitamos ir para o “continente” (a não ser por bons motivos!).
Infelizmente, não temos um local para tirar veleiros grandes da água e,
assim, grande parte da ótima mão-de-obra da Ilha, acaba tendo que ir
trabalhar em Santos, Ubatuba ou Parati nos veleiros maiores (ainda bem
que o Fandango é pequeno!).
Pessoas da Ilha, que nos conhecem, procuram nos ajudar. Cleber,
da Speedmax, vai hospedar nosso site gratuitamente. Clauberto nos
presenteou com uma cobertura para a retranca, que cobrirá o cockpit do
barco e nos protegerá do sol tórrido de nosso verão, nas paradas. Aliás,
um verão que para nós durará muito tempo. Só voltaremos a conhecer o
inverno, de verdade, em junho de 2007. O ano de 2006 será um eterno
verão, por estarmos subindo a costa brasileira em direção à linha do
Equador.
21
Ainda fomos presenteados, por meu irmão e família, com um toca-
CD MP3 para ouvirmos música a bordo e vários CD´s . Um formato
comprimido, como o MP3, é importante para levarmos poucos CD’s no
barco, onde o espaço é limitado. Se há algo agradável durante uma
navegação, é ter boa música para os momentos de relaxamento. Nunca
esquecerei, certa vez, quando escutei “Luar do Sertão”, cantada por
Milton Nascimento, dentro do Saco do Céu em Ilha Grande, com a visão
da lua enorme, muito cheia e brilhante, nascendo por cima dos morros
(não é só no sertão que o luar é maravilhoso!!!) ou “Forever Young”,
velejando rápida e maravilhosamente com o “Solitude”, que alugávamos
aqui na Ilha, quando começamos a pensar em comprar um barco maior.
Além desses preparativos, tenho andado ocupado em deixar em
ordem meus negócios e em criar estrutura para que nada dependa de
mim durante nossa ausência. Para isso, o computador, pessoas de
confiança, bons amigos e um bom banco são fundamentais.
Também temos nos preparado para a parte sentimental. Carolina
é a mais sensível (ou a que mostra mais os sentimentos). Outro dia, a
peguei chorando e ela me disse que temia que os amigos do colégio
esquecessem dela. Eu a consolei e fui conversar com a coordenação do
Colégio São João, onde estudam, que sempre se mostrou muito presente
para nos ajudar, principalmente quando perdemos a Mônica. Eles se
comprometeram a usar o laboratório de informática, nas aulas, para que
os alunos escrevam para nós durante a viagem e também a incentivarem
o acesso ao nosso site, para criar curiosidade e comunicação espontânea.
Quanto à parte sentimental, teremos ainda a dura separação de
nossa cadelinha, a Florzinha, que será dada ao prof. Carlinhos e família.
Não temos coragem de pedir para alguém apenas tomar conta de um
bichinho de estimação como ela, pois sabemos o quão grande seria o
sofrimento da separação dessa pessoa quando voltássemos. Preferimos
ter esse sofrimento nós, agora, e, quando voltarmos, pegaremos um
filhote dela para substituí-la. Ela, com certeza, estará em boas mãos (o
professor Carlinhos, mesmo sendo professor de matemática, é um dos
mais queridos das crianças!).
Cultivamos bons amigos na Ilha e em São Paulo, com os quais nos
encontramos regularmente. Apesar da promessa de visitas ao longo da
viagem, sabemos que não será possível o encontro com todos, ao longo
dela. As visitas de pré-viagem, dos amigos e parentes, começam a
acontecer e a cada despedida fica um gostinho amargo de partida.
Começo a entender porque Amyr Klink parte de repente, sem aviso
preciso da data de saída. Espero que no dia 10 de dezembro nosso
coração agüente firme.
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Uma ótima novidade é que ganhamos o apoio da Marinha do
Brasil. Ela doará as cartas náuticas em papel para a viagem (sem as quais
eu não iria!) e vai abrir a “porta de sua casa”, para que possamos visitar
a Escola Naval no Rio de Janeiro, diversos barcos da Marinha (o Jonas já
está pulando de alegria e muito ansioso) e as instalações da Marinha do
Brasil na Marambaia. Também nos fornecerá apoio à emergências no
mar, através do Serviço de Busca e Salvamento da Marinha
(SALVAMAR) do Comando de Operações Navais, que aumentará nossa
segurança. Navegantes, acessem www.salvamarbrasil.mar.mil.br e
conheçam esse belo serviço da Marinha do Brasil, pois é para todos.
Nosso muito obrigado ao Capitão-de-Mar-e-Guerra Paulo Ricardo
Médici (Diretor do Serviço de Relações Públicas da Marinha do Brasil) e
a todos os oficiais com os quais mantivemos contato até o momento,
sempre muito receptivos ao projeto e verdadeiros amantes do mar
(alguns com o sonho de fazer o mesmo que nós).
Falta pouco, mas, desse pouco, uma coisa sei que será muito difícil:
despedir dos amigos, soltar as amarras do barco, aproar para o canal de
São Sebastião e deixar na praia as pessoas queridas acenando (até
aquelas que veremos em breve, nas paradas). Mesmo com a convicção
de que partimos para fazer algo maravilhoso e muito importante para
nós, esse momento de despedida e incertezas vem emocionando até a
mais experiente tripulação, do mais viajado veleiro, de qualquer parte
do mundo, em todos os tempos.
Levaremos as pessoas amadas no coração, apertado de saudades.

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24
3
Acostumando a Viver a Bordo

10/12/2005 - Finalmente, zarpamos. Após tantos anos de sonho e tanto


trabalho para arrumar todas as coisas para a viagem, soltamos as amarras
e partimos. As despedidas foram muitas e começaram algumas semanas
antes, com vários amigos vindo nos visitar para desejar boa viagem. Três
dias antes de zarparmos, fomos nos despedir dos Schürmann
(infelizmente, não poderiam estar na praia no dia da partida, em função
de um evento marcado), que nos presentearam com um lindo livro de
visitas, feito pelas mãos da Heloísa e da Kat, e outros mimos náuticos.
Dois dias antes de sairmos, o Jonas e a Carol fizeram uma despedida com
os colegas da escola, que foi uma mistura de palestra sobre o barco,nossa
nova casa , sobre a viagem, visita ao barco e lanche de despedida. Foi
bonito e com um astral muito alto, onde todos mataram suas curiosidades
(“- Vocês tem televisão a bordo ?”, “– Não, mas existe vida sem televisão!”) e
nadaram em volta do barco.
Após uma noite de poucas horas de sono pela ansiedade,
começamos o lindo dia de sol com um café da manhã, com os parentes e
amigos que vieram ver nossa partida, todos eles com presentes de
despedida úteis para a viagem. Entre outros, ganhamos livros, bonés,
mochilas, roupas de secagem rápida, etc. Perto do horário da partida,
outras pessoas foram chegando e muitos amigos da Ilha e de São Paulo
foram aparecendo. Eu tentava me dividir, entre os últimos preparativos
e a atenção com as pessoas que tinham vindo nos dar um “até a volta”
(não gosto da palavra “adeus”). A emoção estava grande, mas o “corre-
corre”, com algumas coisas de última hora para fazer em casa e no barco,
estava maior. Quando consegui acabar tudo e fazer uma revisão mental
se nada faltava, relaxei e curti. Levei alguns amigos que queriam conhecer
o barco, nossa pequena casa, mas com um grande e maravilhoso quintal
e começamos as despedidas. Recebemos uma homenagem da classe da
Carol, na frase muito significativa, que espero seja um de nossos lemas
de viagem e de vida: “Não tenham problemas, tenham soluções!”.
Despedimos de todos, com promessas de visitas ao longo de nossa
viagem. Muitos pedidos foram feitos para escrevermos sempre e não
perdermos contato e muitas fotos foram tiradas. No último momento,
ainda chegou a Thaís, do Colégio São João, com um presente especial para
a Carol: o original de um livro que a classe toda fez. Quando soltávamos
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o barco, chegou o Edu, com uma lanterna maravilhosa, que não precisa
de pilha e nem ser recarregada em energia elétrica, que se tornou o
“brinquedo” do Jonas uma boa parte do primeiro dia de viagem. Após
algumas lágrimas derramadas, vários amigos soltaram o cabo de terra e
o Jonas e Carol levantaram a vela, enquanto eu soltava o leme e ligava o
motor para a partida. Entre acenos de despedida, eu olhei de relance para
o canal e vi o vento forte de uma pré-frontal que começava a entrar.
Rapidamente, fiz o segundo rizo na vela mestra e o Jonas soltou nosso
cabo de poita. Eram quase duas horas da tarde, de um dia que será
inesquecível para nós. Tomamos o rumo da Ponta das Canas e,
finalmente, o rumo de nossos sonhos. Partimos com o vento a favor, votos
de boa sorte e o coração cheio de esperanças.
A primeira coisa que fizemos, quando tudo estava em ordem, no
meio do canal de São Sebastião, foi uma oração de mãos dadas, pedindo
proteção na viagem e agradecendo a graça da partida. Foi um momento
especialíssimo, onde todos ficamos com os olhos marejados.
Passamos ao lado do evento que a Família Schürmann promovia e
recebemos os votos de boa viagem deles e dos amigos que trabalhavam
nos barcos. Após algum tempo, ligamos o “Jarbas”, nosso piloto
automático, e fomos aos afazeres de viagem. A Carolina dormiu uma
hora. O Jonas procurava coisas para fazer e queria ler um livro, dentro da
cabine, de qualquer jeito. Preocupado com um enjôo, logo no início de
viagem, não deixei. Vimos atobás, peixes voadores e uma tartaruga pelo
caminho. O vento nos levava para Ubatuba, onde chegamos bem, às seis
e meia da tarde, na praia do Flamengo, com o único contratempo do
motor, que parou de refrigerar e tivemos que desligá-lo. Pegamos a poita
com o motor de popa do botinho, recebemos o “bem-vindos” dos amigos
do veleiro “Sem Fim”, ajeitamos o barco e relaxamos.
Ligamos para algumas pessoas avisando que chegáramos bem e,
pouco tempo depois, chegava nossa primeira visita: os grandes amigos
Renato, Clélia com os filhos Daniel e Guilherme, do veleiro Magellan.
Lembrei algo muito significativo para nós: foi no Magellan, com esses
mesmos amigos, que tanto o Jonas quanto a Carol, fizeram suas primeiras
velejadas, em 1994 e 1995 respectivamente, ambos com um mês e meio de
idade, enquanto esperávamos o Trinta-Réis, que estava sendo construído.
Jantamos juntos, conversamos bastante e fomos dormir esgotados, mas
felizes. Nossa aventura começou!

A primeira parada, Ubatuba, era estratégica. Pretendia que nos


acostumássemos a viver a bordo e criássemos nossa nova rotina em suas
enseadas. Não foi por acaso que a escolhi: tranqüila, protegida e
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conhecida. Dessa forma, teríamos como variáveis, apenas, estar vivendo
a bordo e nossas novas funções. Ubatuba, para nós, é o quintal de casa.
Foi onde eu, o Jonas e a Carol velejamos pela primeira vez, com a
diferença de muitos anos. Eu o considero o melhor lugar do litoral de São
Paulo para iniciantes terem barcos. Tive vários barcos em Ubatuba, por
muito tempo e, antes de nos apaixonarmos por Ilhabela, era para lá que
eu e Mônica pensávamos em nos mudar. Além do conforto do lugar
conhecido, com vários amigos na região, ainda pude realizar o desejo de
conhecer alguns lugares e refazer os passeios preferidos das crianças.

11/12/2005 - O dia amanheceu chuvoso e um pouco frio, mas, após uma


noite bem dormida, nada derrubava nosso ânimo. Tomamos o café da
manhã usando nossos perecíveis, que precisam ser consumidos
rapidamente, com os amigos do Magellan e, após algum papo e algumas
olhadas para a garoa que caia lá fora, resolvemos mergulhar. Afinal, é
domingo, dia de relaxar. A arrumação das coisas, que foram jogadas para
dentro do barco de última hora, ficaria para mais tarde.
Enquanto a Clélia ficava no barco, com frio, eu e o Renato fomos
fazer caça-submarina, vistoriados pelas crianças, que nos acompanhavam
dentro do bote e nadando. Todos eles se dão maravilhosamente bem
dentro da água, sem medos, com grande agilidade e cuidado, pois
nasceram e cresceram sabendo aproveitar o mar. Não pegamos peixe
algum (nossa pontaria estava péssima) e nadamos até a praia, onde
brincamos. Quando a palavra de ordem “PICANHA” foi dada, pegamos
os botes, fizemos uma corrida remando até o barco e começamos o
churrasco. Após um risoto e uma gostosa carne, percebemos que a hora
já ia avançada. Como o tempo corre rápido quando estamos com quem
gostamos! Ao final do churrasco, a conta: preencher o livro de visitas.
Fomos brindados com uma poesia feita pela Clélia e um desenho feito
pelo Renato, onde não faltou nem a churrasqueira do Fandango.
Obrigado, amigos!!!
Quando se foram, iniciei a tão adiada arrumação. Foram três horas
arrumando parte da bagagem, que foi jogada de qualquer jeito para
dentro do barco na última carga, na sexta. As crianças faziam seus
respectivos diários de bordo e liam um livro da Mafalda, dado pela amiga
Jane. Percebi que esqueci de trazer uma coisa importante: um cobertor
para mim! Vou ter que comprar, quando for até Ubatuba. Fizemos o
jantar, expliquei onde eu tinha guardado algumas coisas (é importante
que todos saibam onde está tudo no barco), li para eles um capítulo do
último livro do Harry Potter e fomos dormir. Nosso primeiro dia fora da
Ilha não poderia ter sido melhor!!!
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Nossa rotina alimentar de bordo começou a se definir já nos
primeiros dias. Quase sempre fazíamos um excelente café da manhã,
beliscávamos alguns petiscos durante o dia e preparávamos um bom
“almojanta” ao final da tarde, às vezes começo de noite. Dessa forma,
podíamos aproveitar melhor o dia, sem ter que quebrá-lo, com os
trabalhos de fazer uma refeição e arrumar a cozinha.
Não tínhamos geladeira a bordo. Comprei uma, um pouco antes de
viajar, mas não a instalei por medo do alto consumo de energia elétrica.
Fiz bem! Ou temos boas fontes de geração de energia elétrica a bordo, que
não era nosso caso, ou é melhor esquecer a geladeira. Mas, fora para
tomar cervejas ou refrigerantes gelados, ela não fez falta. Sempre que
desembarcávamos, tomávamos “gelados”, satisfazendo a nossa
“necessidade”. A sorveteria das cidades era sempre o primeiro lugar a ser
visitado (algumas vezes, antes da secretaria do clube!). Nos quatro
primeiros meses de viagem, eu comprava gelo. Quando comecei a
perceber que o gelo estava saindo mais caro do que as pouquíssimas
coisas que necessitavam refrigeração, basicamente presunto, requeijão e
iogurte, parei de comprá-lo. Quando íamos ao mercado, o que era
freqüente, trazíamos um pouquinho de cada uma dessas coisas e
acabávamos logo com elas. Os outros perecíveis eram todos guardados
fora da geladeira: queijos (sempre em peças), manteiga, legumes, frutas,
etc. E duravam! O costume fez o homem moderno guardar em geladeiras
coisas que não necessitam refrigeração, se consumidas em alguns dias.
Quebramos muitos paradigmas da vida moderna em nossa viagem e,
esse, talvez tenha sido o primeiro deles. Não é à toa que o homem
sobreviveu sem geladeira até 120 anos atrás!
Tínhamos muitos não-perecíveis, estocados em vários paióis, entre
enlatados, secos, grãos, farinhas e defumados.

12/12/2005 - Acordei às cinco, pensando no problema do motor. Como as


crianças dormiam, fiz diários de bordo e coisas não barulhentas. Quando
acordaram, tomamos café e desmontei todo o mecanismo de refrigeração
do motor. O rotor da bomba d’água estava amolecido e não puxava água,
talvez em função do aquecimento. Troquei-o. A válvula termostática
estava emperrada (isso deve ter causado o aquecimento) e a retirei. O
motor voltou a funcionar jorrando bastante água.
Em seguida, foi a vez de encarar a conexão da internet com celular.
Após muita briga com um programa de instalação, consegui conectar
(VIVA !!!) e puxei algumas mensagens.

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Acabamos o dia com um belo churrasco, onde as crianças ajudaram
muito: ensinei o Jonas a fazê-lo e a Carol cozinhou miojos. Fizemos uma
experiência muito satisfatória: colocamos maçãs na churrasqueira e as
comemos assadas, como sobremesa. “Apaguei” perto das dez e nem
escutei o Jonas lendo o livro para nós.

Nossa nova rotina de bordo incluía algo importantíssimo: diários!


Eu queria registrar todos os momentos vividos, para poder lembrá-los
futuramente e para poder transmiti-los para outras pessoas.
Procurávamos fazê-los todos os dias ou assim que possível. Algumas
vezes as crianças reclamaram, com preguiça de fazê-los. Mas eu insisti e,
nessa rotina, trouxemos dois “tesouros”, em folhas soltas dentro de duas
pastas, que serão encadernados e que, tenho certeza, eles os guardarão
com muito carinho pelo resto de suas vidas.
Outro objetivo dos diários era manter os amigos e parentes
atualizados com as nossas “aventuras”. Tudo era registrado, fotos eram
anexadas e sempre que eu podia, atualizava nosso site com eles. Dessa
forma, não estávamos “distantes”: os amigos sempre tinham notícias
nossas atualizadas e nos escreviam sempre. Santo mundo moderno, onde
navegação não quer mais dizer isolamento!

13/12/2005 - As crianças jogaram na água os restos do café da manhã. Qual


não foi a surpresa, quando uma gaivota veio disputar o resto do nosso
café com os peixes. Linda, flutuava e voava, enquanto jogávamos os
pedaços de pão e mortadela.
Resolvemos ir até o Saco da Ribeira. Precisávamos arrumar um
lugar para parar, abastecer e deixar nosso carro, que o Renato trouxe e
deixou na casa de um conhecido. Mostrei às crianças como colocar
defensas e cabos de atracação. Fomos até o píer da Marina Píer do Saco
da Ribeira (antiga Sudelpa) e paramos na piscina ao lado de um veleiro
antigo chamado “Swan” que, há muitos anos, eu e Mônica conhecemos e
nos apaixonamos por ele. Descemos e vimos o Trinta-Réis (nosso antigo
barco, que agora tem o nome Itamambuca) fora da água, com o fundo
recém pintado. Ele está muito bonito e bem cuidado.
Corremos as marinas pesquisando preços e me fizeram um preço
especial na própria Marina Píer do Saco da Ribeira, portanto ficamos.
Peguei o carro na casa do Adelson e fomos até Ubatuba assistir um filme.
Foi boa a idéia de carregar o carro conosco até Parati. Facilita muito as
coisas, inclusive passeios e compras.
Tomamos banho, com muita água corrente quente e fomos ao
cinema. Compramos algumas coisas, inclusive um saco de dormir, que
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deverá funcionar melhor que o cobertor que esqueci. Assistimos
“Crônicas de Nárnia” e retornamos ao barco. Após um jantar rápido,
lemos um pouco e dormimos logo, ainda amarrados ao Swan.

Aos poucos, as crianças aprenderam tudo sobre as manobras com o


barco. Todas as funções eram divididas. Em atracações, ancoragens,
preparação do barco para velejar, etc., cada um já sabia o que fazer para
a tarefa ser bem executada. Cada vez mais incentivei que eles tomassem
a iniciativa do trabalho e que não ficassem esperando minhas ordens
para, por exemplo, pegar as defensas e cabos, quando estávamos para
atracar. Tentei ensinar prontidão, atenção e pensar antes de agir, atitudes
importantes no mar e na vida.
Os outros trabalhos do barco também eram divididos. Estávamos
todos no mesmo barco e todos devíamos trabalhar para as nossas
necessidades e as dele. Todos lavávamos louça, cozinhávamos,
lavávamos roupa (quando necessário), arrumávamos e limpávamos o
barco, limpávamos o fundo do barco de cracas e algas.
Esse compartilhamento de trabalho era algo que eu queria muito.
Pretendia que isso os preparasse para uma nova fase da vida. Até hoje, as
coisas chegaram muito fáceis: a roupa aparecia lavada na gaveta, a
comida sempre estava posta na mesa e a louça suja era deixada na pia,
após o almoço. Tínhamos todas as mordomias que uma empregada
proporcionava, quando morávamos numa casa. Agora, eles viam que as
coisas não aconteciam sozinhas. Viam que, para alguma coisa estar em
ordem, era necessário alguém fazê-lo. E estavam aprendendo, realizando
cada tarefa, a ser independentes e a trabalhar em equipe.

Levar nosso carro até Parati foi uma idéia que nasceu do exemplo
dos amigos Webber e Míriam, do veleiro Acauã. Eles têm uma moto e a
levam de porto para porto, por terra, pois ficam muito tempo em cada
local. Como iríamos ficar o verão todo em Ubatuba e Parati, aguardando
o final da estação, para começar a subir lentamente a costa brasileira,
valeria a pena ter o carro conosco. Com ele, fizemos muitos passeios nas
imediações dos lugares onde estávamos.

Tínhamos apenas um cobertor para cada um no barco, para


diminuir volume. Mesmo assim, foi mais que o suficiente. Se esfriasse
muito, poderíamos colocar moletons e blusas para dormir. Os cobertores
foram pouco usados, ainda mais depois que chegamos ao nordeste. O
barco é quente e, quando fechamos as gaiutas e vigias, fica muito gostoso,
mesmo no inverno rigoroso.
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14/12/2005 - Amanheceu um maravilhoso dia de céu azul e muito sol.
Acordei com os berros e palavrões de pescadores das traineiras. Como
algumas pessoas fizeram barulho no píer até meia-noite anterior e
recebemos a visita de alguns pernilongos durante a noite, posso dizer que
não foi uma noite muito sossegada. Já havia me esquecido como é dormir
atracado na piscina do píer.
Compramos alguns mantimentos e saímos para a ilha Anchieta
(cujo nome real é ilha dos Porcos). Conhecemos a Viviane, a diretora do
Parque Estadual da Ilha Anchieta. Ela, muito simpática, pediu a um
estagiário que nos guiasse num passeio às trilhas, no dia seguinte.
Mergulhamos um pouco e começou a chover.
Saímos para o Flamengo e, na hora de levantar a âncora, tive uma
grata surpresa. Pedi ao Jonas para puxar o cabo e, quando o barco ficasse
em cima da âncora, eu iria içá-la. Quando vi, ele já a levantava sozinho!
É, as crianças crescem e rápido! No Flamengo, encontrei muitos peixes e
acertei um badejinho, que foi o jantar da Carol. O Jonas preferia feijoada
em lata e dessa forma, contentei “gregos e troianos”. Dormimos na
tranqüilidade do Flamengo, sob uma chuva gostosa.

Um dos grandes objetivos da viagem era conhecimento. Não


poupávamos esforços para conhecer lugares que acrescentassem
conhecimentos de história, geografia, biologia, ecologia e outros. Esse
conhecimento proporcionava aprendizado e respeito. A cada visita,
discutíamos, além das coisas bonitas que havíamos visto, outros detalhes,
que normalmente passam despercebidos a quem só está passeando. Eu
sabia que tinha a chance rara de complementar o estudo de meus filhos
com vivência e, também, de poder estar ao lado deles alertando para cada
detalhe do que víamos e ensinando-os a olharem o que “está por trás das
coisas”.

15/12/2005 - Acordamos cedo, pois é dia de passeio! Fomos para a Ilha


Anchieta encontrar o Elton, nosso guia. Ancoramos em frente ao prédio
do antigo presídio, desativado há décadas, onde ele já nos esperava.
Resolvemos fazer, primeiro, a trilha da represa, que é mais fácil e
levaria uns 20 minutos. A represa, que fica atrás do presídio, é
responsável por parte da energia elétrica e da água potável usada na ilha.
A trilha é fácil e a subida é leve. No alto, a recompensa: uma linda vista
da baía interna da ilha, do antigo presídio, do continente e suas praias, do
pequeno Fandango nos aguardando lá embaixo e da vegetação
maravilhosa. Na volta da trilha, vimos um lindo pássaro e paramos no
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gerador hidrelétrico. As crianças se surpreenderam com o pequeno
tamanho do gerador. A energia elétrica usada na ilha é mista, ou seja,
fornecida pelo gerador hidrelétrico e por painéis solares, que são
distribuídos sobre todas as construções da ilha. Estas energias são limpas,
ou seja, não geram resíduos poluentes. Aproveitamos para conversar
bastante sobre isso ao longo do caminho.
Fomos para a trilha do Saco Grande, que atravessa a ilha e passa
por ruínas da vila e pelo antigo quartel. Vimos as ruínas de perto e o Elton
explicou as falhas de segurança que existiam na época da sangrenta
rebelião, que aconteceu há muitos anos atrás. Após trinta minutos de
caminhada, entre paradas para ver as ruínas, beber água e ver alguns
bichos, chegamos ao outro lado da ilha. A vista é deslumbrante: ondas
estourando nas pedras e, ao longe, víamos as ilhas das Palmas, Vitória,
Búzios e a pontinha de nossa querida Ilhabela. Ficamos um tempo
curtindo a paisagem e descansando, para iniciarmos a volta. Quando
chegávamos nas ruínas, vimos um casal de quatis adultos e seus quatro
filhotes atravessando a trilha. Nos aproximamos e os filhotes se
assustaram, pois não conseguiam subir nas árvores, para chegar nas
pedras onde seus pais estavam. Não nos aproximamos para não assustá-
los, mas valeu olhar, de longe, os olhinhos brilhantes deles.
Voltando ao antigo presídio, almoçamos no barco e continuamos o
passeio na parte da tarde. Foi a vez da história do presídio. Elton explicou
suas diversas fases: correcional, político e de segurança máxima. Nesta
última, houve uma grande rebelião, considerada uma das maiores do
mundo na época. Os presidiários ganharam a confiança dos guardas ao
longo do tempo e, numa estratégia muito bem elaborada, tomaram as
armas e mataram vários guardas. Esperaram uma balsa, que trazia
mantimentos, para fugir, mas esta atrasou. Começaram a se embriagar
com o que achavam e acabou-se a organização da rebelião. Colocaram
fogo nos papéis que continham seus históricos de crimes e a fumaça
alertou a tripulação da balsa, que não atracou na ilha. Quando esta
retornou, veio com 200 soldados armados, que deram fim à rebelião.
Alguns presidiários fugiram em um barco pequeno do presídio,
superlotado, que quase afundou, fazendo com que muitos presos fossem
jogados à água, infestada de tubarões, pelos próprios companheiros.
Escutar estas histórias vendo o presídio, seus alojamentos
deteriorados pelo tempo e imaginando as condições que presidiários e
guardas tinham na ilha é fantástico! É reviver a história!
Findo o passeio, convidamos o Elton para conhecer nosso barco e
comer pêssegos em calda conosco. Demos a ele uma carona até o
continente e nos despedimos deste novo amigo, que nos tratou tão bem.
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Nosso muito obrigado à Viviane, que nos abriu as portas do parque e
falou dos planos para melhorá-lo e estruturá-lo ainda mais.
Na marina, esperamos amigos que jantariam conosco no
restaurante do Hisashi: Flávio, Rosa, Dimitri e Denis e alguns amigos
deles. O sashimi do Hisashi (ou “Hisashimi”, como dizem as crianças) é
ótimo e o lugar tem tudo a ver com peixe fresco.
Alguns caminhões descarregavam pescados. Vimos um cação-
martelo que, sem cabeça e rabo, tinha três metros de comprimento. O
tamanho total dele era quatro metros! Não conseguiram removê-lo inteiro
do barco, pois o guincho não agüentou, e tiveram que fatiá-lo.

17/12/2005 - O Flávio, do Conquest, me pegou para corrermos a última


etapa do campeonato de Ubatuba. Largamos em primeiro, paramos na
ponta da Espia sem vento e caímos para último. Recuperamos e acabamos
em terceiro, ótima colocação para vencer o campeonato.
O dia estava maravilhoso e as crianças não queriam sair da praia,
pois conheceram três meninas. Após as brincadeiras na praia, recebemos
a visita da tripulação do veleiro Lufalisa, das amigas das crianças.
Conversamos com o Orestes, Mônica, Luiza, Flávia e Isabela e eles
deixaram uma mensagem no nosso livro de visitas.

18/12/2005 - Dia de decisão de campeonato!!! Após um ano correndo essas


regatas, acordei ansioso. Estamos bem na frente do segundo colocado,
mas uma bobeada pode nos tirar o título.
O Flávio passou com o Conquest e me pegou para as regatas. Minha
alegria já começou ao ver as bandeiras do São Paulo em alguns barcos. O
São Paulo conquistou o tri-campeonato mundial de futebol! Nós, no
Conquest, tentaríamos o tri-campeonato de Ubatuba. Largamos muito
bem na primeira regata, mas, após um bordo errado, caímos para último!
Pouco depois, o vento girou e em cinco minutos estávamos em primeiro.
Resultado: o Conquest em primeiro na segunda regata da etapa e nós com
o título garantido. A outra regata não foi muito diferente: largamos bem,
fomos obrigados a um bordo para o lugar errado e montamos a primeira
bóia em quarto. Na perna de balão, o Flávio percebeu que o vento girou
e fizemos rapidamente um jibe, indo direto para a bóia, enquanto os
adversários seguiam para longe dela. A partir daí só abrimos distância
dos concorrentes. O Conquest acabou campeão da etapa e do campeonato
todo.
Após a entrega de medalhas e troféus, comemoramos com sashimi
e voltamos ao Fandango. Fomos dormir no Flamengo esgotados, mas
felizes com as conquistas (exceto, é claro, o palmeirense Jonas!!!).
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Correr regatas é uma grande escola para velejar bem. Você aprende
os limites do barco, nuances do vento e das correntes, regulagens para
otimizar rendimento, regulagens para defender o barco de vento forte e
mar grosso e a dimensionar a área vélica para cada situação de vento. Se
tiver a sorte, como eu tive, de participar de equipes que gostem de
ensinar, que discutam as várias decisões que podem ser tomadas e que,
mesmo errando, saibam tornar o erro um aprendizado, vão se divertir e
aprender muito. Se estiver estressante, mude de equipe!
Passei muitos anos apenas cruzeirando. O que aprendi no primeiro
ano correndo regatas foi bem mais do que em dez cruzeirando. Hoje sei
que a segurança e os conhecimentos adquiridos correndo regatas foram
importantíssimos para nossa viagem.

19/12/2005 - Visitamos o projeto Tamar, onde vimos várias tartarugas e


também um filme. As crianças sempre gostam de ir lá. Imaginem quando
conhecerem o Tamar da Praia do Forte! Depois das tartarugas, foi a vez
da lojinha do Tamar, que eles também adoram.
Em seguida, foi a vez do Aquário de Ubatuba. Demos sorte, pois
chegamos na hora da alimentação dos pingüins. A Carol fez questão de
dar comida para um deles. Cobram um real por peixe dado! O Jonas
preferiu apenas observar, não sei se por medo de tomar uma bicada ou
economizando o dinheiro dele! Vimos os outros peixes e as crianças
foram ao aquário de toque, onde puderam tocar em estrelas-do-mar,
pepinos-do-mar e outros. Por último, fomos ao aquário grande, onde um
tubarão-lixa e um mero, os dois com cerca de uns 80 quilos, nos
surpreendiam com seu tamanho, enquanto vários xaréus grandes (de 5 a
8 quilos) davam show com seu bailado. Raias, bagres, garoupas e badejos
completavam o belo aquário.
Fizemos compras de mercado, abastecemos o barco e deixamos
tudo preparado para irmos à Ilha das Couves amanhã e ficar por lá uns
dois ou três dias. Durante o dia, falei com o Dimitri pelo telefone, que me
deu várias dicas de lugares para ancorar, se uma frente fria entrar.
Fomos ao Flamengo já noite e as crianças adoraram ver a esteira de
noctilucas (ardentia) no mar, criada pelo deslocamento do barco.
Chegamos direitinho, com o Jonas me guiando na proa com uma
lanterna. Essa tripulação está cada vez melhor!!!

20/12/2005 - Repensei os planos para o dia, vantagem de sermos donos de


nosso tempo. Desisti de ir para a Ilha das Couves hoje (pararemos lá no

34
caminho para Parati) e deixei as crianças descansarem. Há várias praias
bonitas por aqui, que eles não conheceram ainda.
Quando acordaram, o Jonas me ajudou a instalar um suporte de
motor de popa no Fandango, sob um sol escaldante. Com ele, podemos
usar o motor de popa do bote como motor sobressalente, em caso de falta
de vento e pane no motor principal. Segurança nunca é demais!
Após uma hora de trabalho árduo, vimos que a água estava
transparente! Dava para ver todo o fundo. Fomos à praia das Sete Fontes,
que é atrás do Flamengo. Tentei pegar alguns peixes, mas o plural virou
singular: arpoei apenas um badejo, mas vi uma raia enorme passar ao
meu lado, uma pequena tartaruga que se assustou comigo e um budião,
que devia ter uns dois quilos e foi esperto o suficiente para não se
aproximar de meu arpão. Quando levantamos a âncora e seguimos em
direção à praia, a Carol gritou: “- Golfinhos!”. Chegamos perto, mas eles
estavam tímidos. Vi um pequeno, que devia ser filhote, além de dois
maiores. Desapareceram subitamente e não os vimos mais. Na praia,
pedimos porções de batatas fritas, lulas e pedi para fritarem o peixe que
eu havia caçado. Estava tudo muito gostoso e as batatas foram as
melhores que comi até hoje!
Após um passeio pela praia, fomos até a praia de Santa Tereza,
próxima ao Flamengo. Pegamos uma poita e descemos na bela praia. No
final da tarde, o tempo fechou. Voltamos ao Flamengo usando o motor de
popa, de apenas 3.3 hp, para testá-lo no suporte. Deu o esperado: com
mar liso e sem corrente, o barco se desloca a quatro nós, mais que o
suficiente para manobrarmos em uma situação de emergência.

Ser dono do próprio tempo e poder decidir o caminho a ser seguido


a cada momento, em função das nossas vontades, é bom demais! Só
devemos ter alguns cuidados: obedecer sempre os limites impostos pela
natureza (pode ter certeza, se desrespeitarmos vamos “quebrar a cara”!)
e ter os objetivos maiores em mente, para não desviar demais do rumo
final desejado.

21/12/2005 - Acordei cedo. Como não temos cortina no barco, a luz do dia
entra sempre ao nascer do dia e fica difícil dormir. Mas não reclamo, não,
pois há muita coisa para ser vivida e o tempo parece sempre curto.
Fui voto vencido para o programa do dia e descemos para fazer
uma trilha, que leva da praia do Flamengo até a praia das Sete Fontes. Ela
é muito íngreme e, no meio do caminho, dois já estavam arrependidos!
Mesmo assim, após uma trilha dura, a reconfortante praia de Sete Fontes
e uma porção das deliciosas batatas fritas, que não podíamos deixar de

35
comer, nos colocou em ordem. A curiosidade é que a volta foi bem mais
fácil.

Procurávamos acordar cedo, para aproveitar bem o dia. Mas


também respeitávamos o corpo, quando ele queria descansar um pouco
mais. Isso variava muito, com o tempo ensolarado ou chuvoso e, mais
ainda, com os passeios programados para o dia, que nos deixavam
sempre ansiosos. Mais natural, impossível!

Muitas coisas resolvíamos por votação. Algumas eram impostas


por mim, sabendo que ia ser o melhor para todos, explicando o porquê
de minha decisão. Por duas vezes, a imposição, necessária, quase gera
motim. Mas, isso é história futura...

22/12/2005 - Animei-me com a água gostosa e mergulhei para passar uma


esponja no fundo do barco. O fundo é pintado com uma tinta
antiaderente, que não permite a fixação de cracas. Periodicamente, é bom
passar uma esponja, para tirar uma “gosma” que gruda na tinta e reativá-
la. A Carol me ajudou bastante e, rapidamente, fizemos o serviço. Como
o dia estava muito quente, após o trabalho fomos para a praia e brincamos
com um monte de algas que estavam na superfície. Fizemos uma “guerra
de algas” dentro da água!

Voltar a ser criança com os filhos, relembrando brincadeiras da


infância, é como renascer! Repeti muito uma frase que escutei certa vez:
“Não percam nunca o que vocês já conquistaram de bom. Quando forem adultos,
não percam a criança e o jovem que vocês foram um dia. Devemos sempre somar
experiências, nunca subtraí-las.” Isso nos aproximou muito, em toda nossa
viagem. Relembrei “minha criança” em todos os bons momentos e eles
desenvolveram “adultos” responsáveis, auxiliando-me nas funções do
barco. Principalmente, nos turnos em longas travessias, quando a
segurança de nós três estava nas mãos de um só.

23/12/2005 - No final da manhã, descemos na praia do Flamengo e ficamos


brincando com as algas. Pouco depois, conhecemos o Eduardo e família
da lancha “Fiote 2”. Muito simpáticos, nos convidaram para um
churrasco. A sobremesa foi por nossa conta: o velho pêssego em calda
com creme de leite, muito prático no barco e não tem quem não goste.
Comemos na praia, entre banhos de mar e brincadeiras. Ao final da tarde
eles foram e nós ficamos com a praia só para nós.

36
O principal medo da Carol, a falta de amizades, já se dissipava. Era
muito fácil fazer amigos! As brincadeiras na praia sempre uniam as
crianças. Começávamos a conversar com adultos, contávamos nossos
planos de viagem e, invariavelmente, ganhávamos a simpatia e
curiosidade das pessoas. Alguns nos achavam loucos. Outros queriam
fazer o que estávamos fazendo. Indiferente, nunca ninguém ficou!

Aproveitando o carro e a segurança da marina, deixamos o


Fandango e subimos para São Paulo, para passar o Natal com a família.
No Natal de 2006, pretendemos estar muito longe!

26/12/2005 - Hoje é dia de arrumação e abastecimento para continuarmos


nossa viagem. Tomamos café no Hisashi, fomos ao mercado, mercearia,
outro mercado, compramos gelo no Hisashi, abastecemos com água no
píer, deixamos a chave do carro com o Adelson, abastecemos com diesel
e... PRONTO!!! Ufa! Quando eram três horas da tarde estávamos indo
para o Flamengo.
Aproveitamos a praia no final de tarde e fizemos um churrasco no
começo da noite. Após o churrasco, fiz a navegação para amanhã e
aproveitei para ensinar as crianças a fazê-la, utilizando-se carta náutica,
régua paralela e também os conceitos e forma de calcular rumos
verdadeiros e magnéticos. É importante que todos no barco conheçam
tudo sobre ele.

Desde o início, eu tinha uma grande preocupação: se acontecesse


algo comigo, como ficariam as crianças? Isso me afligia e a melhor
resposta para isso foi, simplesmente, dividir conhecimento. Em
pouquíssimo tempo, eles aprenderam a usar os dois GPS’s diferentes,
rádio VHF, piloto automático, fazer navegação e regular velas. Em
algumas travessias, eles faziam a navegação e eu a conferia. Na maioria
delas, eu fazia a navegação e lhes mostrava todos os waypoint’s, que eles
me ajudavam a colocar no GPS, sempre os conferindo. Dessa forma, eles
sabiam exatamente o caminho que faríamos. Poderiam retornar para me
procurar, caso eu caísse na água, ou chegariam ao porto de origem ou de
destino, caso eu estivesse desacordado. Aprenderam rápido (acho que
mais rápido do que eu!) e eu fiquei, a cada travessia, mais tranqüilo.

27/12/2005 - Levantei às sete e comecei as arrumações para podermos


seguir para a ilha das Couves. Várias coisas tinham que ser guardadas
para não caírem e, após tudo arrumado, chamei as crianças para sairmos.
Elas levantaram logo, com a ansiedade de conhecer um novo lugar, e
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começamos a trabalhar na partida: Jonas e Carol levantaram a mestra, eu
soltei o leme, liguei o motor, guardamos o remo, o Jonas passou um cabo
de segurança para rebocar o bote (já quase perdi um, porque o cabo
principal, que o segurava arrebentou) e soltou a poita.
Às oito e meia, deixamos o Flamengo, ponto de parada muito
importante da nossa viagem, onde nos acostumamos com a vida a bordo
e mudamos o ritmo de nossas vidas para nossas novas rotinas. Ansiosos
por novos lugares e pessoas, navegamos até a ponta da Espia e tomamos
o rumo da ilha das Couves. O dia estava lindo, nenhuma frente fria
prevista e sem vento. Após meia hora de navegação, chegou o vento bem
na cara, que trouxe um pouco de ondas. Como os planos, para os
próximos três dias, eram ir até Couves e conhecer também Prumirim,
Almada e ilha dos Porcos, vi que era besteira continuar com o vento na
cara para Couves. Com uma pequena mudança de planos e rumo,
seguimos para a ilha do Prumirim aproveitando o vento, o que resultou
numa bela velejada com orça folgada. Passamos na frente da cidade de
Ubatuba, praia Vermelha, praia de Itamambuca, praia do Félix e,
finalmente, chegamos em Prumirim, quando eram quase onze horas. A
praia é maravilhosa! Ela é triangular e repleta de conchas. Após
conhecermos a praia, pegamos as máscaras e ficamos catando conchas
dentro da água, onde estão as mais bonitas.
O sol se escondeu e começou a esfriar. O vento havia aumentado e
o barco jogava muito. Resolvemos ir para o barco e mudá-lo de lugar.
Chegando lá, vi que a decisão era acertada, pois ia ser difícil ficar no
barco, do jeito que ele caturrava ali. O vento estava na faixa dos dezoito
nós. Levantei a âncora, o Jonas manobrou o barco, demos a volta na
pontinha da praia, onde há um banco de areia e ancoramos do outro lado.
A diferença foi gritante! Apesar do vento continuar soprando forte,
estávamos protegidos das ondas pela praia. Ficamos no barco e as
crianças começaram a brincar de esculpir em madeira.
Após um pôr-do-sol magnífico, lemos Harry Potter no cockpit, bem
juntinhos, com cobertores em cima de nós. De vez em quando, eu
apagava a luz de leitura para ver as estrelas e o belo contorno deste
maravilhoso litoral norte de Ubatuba. Segundo nosso amigo Dimitri, do
Eco-Resort Itamambuca, portanto “suspeito”, é o mais belo de Ubatuba –
mas, começo a achar que ele tem razão!

Temos o hábito de leitura muito arraigado. Mônica adorava ler. Eu


também, mesmo tendo passado um trauma com “O Guarani” e uma má
professora de português na quinta-série. Retomei o hábito na oitava, com
bons livros para minha idade e uma professora que gostava do que fazia.
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O Jonas é um leitor voraz: lê tudo que cai em suas mãos, até bula de
remédio! A Carol é mais seletiva e lê apenas o que lhe agrada.
Esse hábito foi desenvolvido com as crianças desde que mudamos
para Ilhabela, quando passei a ter tempo para isso. Sempre, na hora de
dormir, eu pegava um livro, sentava no chão, ao lado da cama deles, e lia
algumas páginas em voz alta. Eles adoravam! A Carol acabava dormindo
logo, mas o Jonas... Quando eu menos esperava, achando que ele já havia
“apagado”, pois estava de costas e de olhos fechados, lá vinha a pergunta
sobre a frase que eu acabara de ler: “- Pai, o que é columbária?”. E lá ia eu,
com sono, escada abaixo, pegar o dicionário, me odiando por ter
escolhido o livro “Da Terra à Lua” do Julio Verne, numa tradução antiga,
com vocabulário difícil, para ler! E eu que não descesse!
Ler juntos à noite transformou-se num ritual, onde estávamos os
três concentrados naquele maravilhoso mundo imaginário contido nos
livros, sonhando acordados. Os anos foram passaram, a interação
começou a ser maior. Cada um lia algumas páginas e passava o livro para
o outro. Desde o início, eu inseria “vozes”, onde havia diálogo. Lemos os
seis livros do Harry Potter juntos. Quando saiu o primeiro filme e fomos
assisti-lo no cinema, eu escutei o comentário: “- Pai... as suas ‘vozes’ são
melhores do que as deles!”.
Por alguma coincidência, nunca li livros de viagens de barco para
eles! Tenho uma biblioteca com tudo o que já achei impresso sobre esse
assunto, mas nunca arrisquei ler nenhum, antes de viajarmos. Um de
meus planos é ler livros referentes ao lugar onde estamos ou para onde
vamos, ao longo de nossa viagem. Manter esse delicioso ritual, de uma
forma diferente: sonhar com o lugar e, depois, conhecê-lo pessoalmente.

28/12/2005 - Ao levantarmos, fomos fazer uma aventurazinha: subir numa


ponta da ilha de Prumirim, onde achei que dava para encostar o bote.
Quando nos encaminhávamos para lá, vimos alguns barcos descendo
pescadores lá. Chegamos com cuidado e subimos nas pedras. O lugar é
belíssimo: ondas estourando, poças de água sobre as pedras e uma vista
das ilhas em volta de “tirar o fôlego”! Quando retornamos ao barco para
zarpar, tive uma surpresa desagradável: o barco havia girado, a âncora
foi laçada pela corrente e ele derivou um pouco.
Ao sairmos para nosso próximo destino, vimos golfinhos, ainda em
Prumirim. Eram sete e ficamos em volta deles. Após o encontro, bem
perto desta vez, seguimos para a tão falada praia do Almada. Para mim,
era uma expectativa grande, pois me deram boas referências do lugar.
Quando cheguei, a decepção também foi grande: a praia estava
abarrotada de gente, com vários barzinhos cheios e vários carros por lá.
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Mesmo assim descemos, as crianças aproveitaram para andar de caiaque,
andei pela praia, comemos batatas fritas e voltamos ao barco. Como não
havia previsão de entrada de frente fria, dormimos lá mesmo, no que
parece ser um paraíso fora de temporada.

29/12/2005 - Levantamos às sete e meia, para ir para a Ilha das Couves


cedo e aproveitar bem. Aqui em Ubatuba, nesta época do ano, é assim: se
o tempo amanhece bom, temos que acordar logo e aproveitar bastante,
pois, às três da tarde, começa a esfriar, ventar e ficar nublado.
Novamente, encontramos golfinhos, uns dez desta vez. Seguimos para as
Couves e o motor esquentou novamente. Colocamos o motorzinho de
popa no suporte e chegamos lá sem problemas. Troquei o rotor e o motor
voltou a funcionar normalmente.
Na ilha, fizemos um mergulho, numa água com mais de dez metros
de visibilidade. Peguei um badejo, que se transformou em ceviche. Outro
caçador submarino disse ter visto uma raia jamanta. Vimos um grande
baiacu, peguei uma estrela-do-mar das grandes (pesava mais de um quilo
e meio!) para as crianças verem de perto, que foi devolvida ao fundo logo
depois e perdi um badejo grande. Fomos para a praia e as crianças
brincaram com um garotinho, pegando pequenos caranguejos, que eram
soltos depois.
Ao retornar para o barco, joguei ao mar bolachas, que molharam no
bote, e umas dez gaivotas começaram a comê-las. Elas ficaram um bom
tempo sobrevoando o barco, chegando a dois metros de nós!
Os melhores mergulhos e as melhores histórias de mergulho que
tenho foram na ilha das Couves, sempre com um grupo de amigos do
peito e muito queridos. Queria muito trazer as crianças até aqui e mostrar:
“- Olha, foi ali que aconteceu a história do Mario Celso, mergulhando com o
paralelepípedo na cintura”; “- Olha, foi ali que eu achei a costela de baleia”; “-
Olha, foi ali que nós estávamos subindo, voltando de um mergulho autônomo,
quando encontramos estranhas ‘algas brancas e compridas’, sobre nossas
cabeças” (papel higiênico usado – jogado do barco!). Eles curtiam
relembrar as histórias e conhecer os lugares. O comentário geral foi que
Couves é o lugar mais bonito pelo qual passamos até agora. Amanhã
seguiremos para Parati, onde tantas outras histórias aconteceram.

40
4
A Tranqüilidade de Parati

30/12/2005 - Acordei quando clareava. Deixei as crianças dormindo,


arrumei as poucas coisas que faltavam e subi a âncora às seis. Saímos a
motor, pois não havia nem sinal de vento. Já sabia que ia ser assim: sem
vento para ajudar, mas com o mar bem calmo. Fui premiado com um belo
nascer do sol no mar! Em pouco tempo, a ilha das Couves diminuía e um
lindíssimo litoral se descortinava: Camburi, Trindade e Laranjeiras. As
crianças acordaram às dez. Dobramos a mal-afamada Ponta da Joatinga
eram quase onze horas e relaxei. Fizemos a viagem em baixa rotação do
motor e, conseqüentemente, em baixa velocidade, pois não confiava
muito nele e só tínhamos mais um rotor reserva.
Paramos para um banho de mar, entrou um ventinho e tentamos
velejar. Foram uns quinze minutos de boa velejada e o vento sumiu. Isso
aconteceu umas quatro vezes, pela inconstância do vento. A nossa
esperança de peixe para o jantar morreu, quando tirei a vara por causa do
trânsito de barcos. Os peixes não quiseram nada com a nossa isca.
Chegamos à marina Refúgio das Caravelas, que será nossa base de
apoio nos próximos dois meses, eram quatro e meia da tarde. Ela tem boas
instalações e o pessoal é muito cordial, confirmando as informações que
eu recebera deles.
Surpresa! As crianças encontraram um garoto que estudou vários
anos com eles, o Diego, e foram pescar com ele no píer. Pouco tempo
depois, vi vários barcos e gente conhecida da ilha: o Pedro do Gipsy, que
morou em Ilhabela muito tempo; o barco Vadio, que era nosso vizinho de
poita; o Armação, concorrente de várias regatas, na marina ao lado, entre
outros, que aproveitavam as águas de Parati no Reveillon. O Diego
pescou uma bela betara (ou perna-de-moça), tão conhecida das minhas
pescarias na Praia Grande, quando pequeno.
A minha namorada, Luciana, e sua irmã, Mônica, chegaram para
passar alguns dias conosco. Trouxe o barco para o píer, onde carregamos
as “malinhas” e muitas coisas boas, que elas trouxeram para comermos.
Depois, caímos na piscina aquecida (até isso a marina tem!) e tomamos
um bom banho de água doce, luxo para qualquer velejador.

Estar em marinas era sinal de conforto. Tínhamos banho com água


doce abundante, banheiros à disposição (mesmo, algumas vezes, longe
41
do barco), mercados e, em alguns lugares, piscina, restaurante, energia
elétrica, internet sem fio, etc. Muita mordomia!
Por outro lado, onde havia marinas, a água normalmente era suja e
não conseguíamos tomar nosso reconfortante banho de mar. Isso me fazia
muita falta! Então, ficávamos, na medida do possível, alternando entre a
marina e lugares mais isolados.

31/12/2005 - Dia de Reveillon!!! Saímos com o barco para passear pela baia
de Parati. Passamos pela ilha da Bexiga, Duas Irmãs, Rasa e acabamos na
enseada de Jurumirim. Após duas tentativas frustradas de ancorar na
praia do Engenho, resolvemos mudar e parar na praia do meio. A âncora
não unhava, mas após algum tempo, deu a impressão de estar firme.
Tentei mergulhar para cravá-la, mas não se enxergava nada no fundo.
Fomos para a praia, mas, pouco tempo depois, vi o barco se deslocando e
nadei rapidamente até ele. Subi, tirei-o da situação difícil em que havia
ficado, enroscado em outro barco, e embarquei a Lu e a Mônica para me
ajudarem a ancorar outra vez. Troquei a âncora (estava com uma âncora
tipo Danforth, da Fortress) por uma tipo Bruce e esta unhou
imediatamente. Boa lição: a âncora que se mostrara tão boa em fundo de
areia e alguns tipos de lodo, não gostou do lodo de Jurumirim.
Após um bom passeio pela praia, sempre de olho no barco, fiz um
macarrão com atum (a comida predileta de onze entre dez velejadores),
que foi muito elogiado. Ficamos no barco, arrumando algumas coisas e
brincando. Arrumamos a ceia de reveillon: comemos muitíssimo bem as
coisas gostosas que as “meninas” trouxeram.
O Jonas e a Carol prepararam o “Yemanjá”, barquinho que
esculpiram para soltar na virada do ano. Perto da meia-noite, acenderam
a vela e o soltaram ao sabor do mar e do vento. Acabou-se 2005 e, no início
deste 2006, ano de viagem e aventuras, nos cumprimentamos e ficamos
vendo a luz do Yemanjá se afastando e os fogos queimando ao norte de
Parati, na lindíssima enseada protegida de Jurumirim, palco de tantas
partidas e chegadas de Amyr Klink.
Que 2006 nos leve todos ao sabor do mar e do vento, como levou o
Yemanjá, e que todos os amigos que me lêem possam sentir como é bom
e importante se deixar levar. Alguém já escreveu: “Não posso controlar o
vento, mas posso regular as velas e meu rumo”.

01/01/2006 - O primeiro dia do ano começou na preguiça: dormimos até


tarde e fomos para a praia. Brincamos muito, passeamos e almoçamos um
ótimo peixe com fritas, arroz e feijão no barzinho do Engenho, que fica
num canto da praia de Jurumirim.
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À noitinha, começou a chover e ventar muito. Ninguém estava com
muita fome e a pedida foi uma sopinha antes de dormir. A chuva
continuava e a noite estava propícia para um bom sono.

Alternávamos comer no barco e fora dele. Dessa forma, não ficava


caro e podíamos aproveitar as delícias de cada região. A alimentação faz
parte da cultura de cada lugar e, posso dizer que, nesse quesito,
aprendemos deliciosamente muito!

02/01/2006 - O tempo chuvoso não nos atrapalhou: nadamos, brincamos


e inventamos jogos. Até de pega-pega brincamos, para correr um pouco!
Ao voltar ao barco, enquanto as crianças ensinavam um joguinho que
inventaram para a Mônica, eu e a Lu fomos passear de botinho até uma
ponta da praia de Jurumirim. A água estava clara e vimos tartarugas,
peixinhos e um bom robalo. Essa ponta da praia é maravilhosa!
De volta ao barco, tomamos um bom banho. Os nossos banhos,
quando estamos em lugares de água limpa, são de água salgada. Usamos
shampoo para nos ensaboar e, quando saímos da água, nos enxugamos
rapidamente com a toalha, para retirar o sal. O único problema é que as
toalhas estão úmidas e, com a chuva, não secam.
Após o banho, fiz o jantar: risoto de curry, polenta e frango desfiado
refogado com azeite e alho, aproveitando os restos de ontem. Num barco
nada se perde, tudo se transforma!

O banho com água do mar não nos deixava “grudentos”. O segredo


era retirar, rapidamente, a água salgada do corpo com a toalha, para que
ela não evaporasse e deixasse os cristais de sal na pele, que causa
desconforto. No lugar de sabonete usávamos shampoo e, para isso,
comprei um bujão de cinco litros de shampoo usado em salões de beleza.
Barato e prático! Raras vezes jogávamos água doce no corpo depois do
banho. A Carol e a Lu jogavam uma garrafa de água doce nos cabelos,
após usar o condicionador.
Em travessias, ou parávamos o barco para o banho ou usávamos
um balde, pegando a água do mar e jogando sobre nós, no cockpit, sem
parar o barco. Posso dizer que prefiro o banho de mar ao de água doce.
Mas, reconheço, eram deliciosos os banhos com água doce abundante,
depois de quinze ou vinte dias tomando apenas banhos de mar!

03/01/2006 - Mergulhamos na ponta da praia de Jurumirim. O lugar é


lindo debaixo d’água também. Milhões de filhotes de peixes minúsculos
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flutuavam sobre as pedras. Vimos oito filhotes de lula pequenos, num
cantinho entre duas pedras. Achamos duas estrelas-do-mar grandes, vi
uma das tartarugas de perto e encontrei um cação-viola pequeno.
Voltamos para a marina para abastecer. As “meninas” (Lu e Mô)
precisavam assumir o quarto que alugaram até dia 10 de janeiro.

Nunca sabemos se uma pessoa vai gostar de passar muito tempo


dentro de um veleiro: uns adoram, outros odeiam! Como era a primeira
vez que a Mônica iria ficar conosco muito tempo, sugeri que ela
reservasse um quarto na pousada da marina. Depois de três dias juntos,
vimos que era desnecessário, pois ela se adaptou muito bem a bordo.
Mas, como tinham assumido o compromisso, foram para a marina. Daqui
para frente, nada mais de hotéis ou pousadas: mesmo com o conforto
reduzido do Fandango, é melhor estar nele do que em terra!

04/01/2006 - Tiramos o dia para passear em Parati e fazer compras.


Comprei um rotor de bomba d’água novo, para ficar com dois de reserva
e alguns presentes atrasados para as crianças. O Jonas quis um veleiro de
madeira que, esperamos, bóie e veleje, quando colocado na água. A Carol
quis um puçá, para tentar pegar peixinhos.
Eu e a Lu fomos ver o teatro de bonecos em Parati. Há muitos anos
eu desejava vê-lo, mas, como não permitem crianças menores de 14 anos,
nunca foi possível. A Mônica se propôs a ficar com o Jonas e a Carol e
consegui, finalmente, ver o tão aguardado espetáculo, que é primoroso.
Quem for até Parati não deixe de vê-lo. Ele está em cartaz desde 94, ou
seja, já tem a idade do Jonas! Depois de um bom sorvete voltamos para a
marina e, embaixo de chuva, remamos até o barco.

O principal desconforto de ficar numa poita é quando chove, pois


não temos abrigo para ir do barco para a marina e vice-versa. Quanto ao
resto, só há vantagens. Principalmente quanto à ventilação do barco, que
fica sempre aproado para o vento e o recebe pelas gaiutas maiores,
criando uma ventilação natural no barco. Nunca sentimos calor com o
barco ancorado ou numa poita. Em compensação, no píer...!

“No mar, quem tem um, não tem nenhum!” Esse ditado vale muito!
Normalmente eu tinha um item em funcionamento e um item reserva.
Peças de reposição importantes, como o rotor de bomba d’água,
procurava manter, no mínimo, duas. Planejamento é fundamental,
porque também já disseram: “Quem vai ao mar, se avia em terra”.

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05/01/2006 - Após muitas compras para abastecer o barco, voltamos à
marina. Começamos a carregar as coisas para o Fandango, mas estranhei
ele estar fora de posição, quase lado a lado com o barco que, antes, estava
atrás dele. Pouco depois, percebi que ele se movia! A manilha da poita
havia se soltado! Todo o material era novíssimo, mas a manilha
desrosqueou com o movimento. Mudamos o barco de poita e acabamos
de carregar o barco. Que sorte! Retornarmos a ele exatamente na hora que
a manilha soltou!
Acabou o gás de cozinha e troquei o bujão. Antes da viagem, eu
estimei o consumo em um bujão para 20 dias. O primeiro, bem usado,
durou 26 dias: nada mal. Nós usamos um bujão pequeno, de dois quilos.
Seguimos para a ilha da Cotia, apreciando o lindo litoral e, no final
da tarde, ancoramos atrás dela, onde já estavam vários barcos. As crianças
ensinaram navegação e nós para a Mônica.

Brincadeiras sempre viravam aprendizado e o aprendizado,


brincadeiras! Ensinando navegação e nós, criando o joguinho “Aventura
Oceânica”, fazendo barquinhos, cada vez mais complexos e com todas as
regulagens de um veleiro oceânico, eles aprendiam da forma mais
gostosa e mostravam o que aprendiam. Alguém já disse a sábia frase: “a
diferença entre homens e meninos é o preço de seus brinquedos”!

07/01/2006 - Fomos conhecer Parati-Mirim. Ancoramos perto de um


banco de areia e algumas pedras, que me deixaram receoso. A Carol e a
Mônica nadaram até a praia. Depois de um bom tempo no barco, para me
certificar que estava bem ancorado, pegamos o bote fomos todos para
terra. A praia é lindíssima! Tem vários barquinhos que transportam
turistas e ficam parados na areia. No canto oposto ao que descemos, existe
um rio e um vistoso manguezal, que vale a pena ser visitado com bote.
Também existem ruínas de várias casas antigas e uma linda igrejinha
secular, cujas paredes têm um metro de espessura.
Na volta para Parati, fomos curtindo lugares, velejando e brincando
de azucrinar os outros tripulantes do Fandango (que é a brincadeira
preferida a bordo!). Sempre tem um que é a “bola da vez” e que todos
perturbam. No meio do caminho forcei a rotação do motor para ver como
ele se portava. Resultado: o rotor da bomba d’água abriu o bico de novo!
Parece que, quando aumento a rotação e o motor precisa de mais água
para refrigerar, o fluxo de água não é suficiente, a água esquenta e estoura
o rotor. Trocado o rotor, tornei a ligar o motor, que nos levou até a marina.

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É importante saber fazer uma série de manutenções a bordo,
principalmente de motores. Há várias coisas que são muito fáceis de
arrumar e que são as causadoras de oitenta por cento dos problemas num
barco. Há cursos de motores diesel e de motores de popa no mercado, que
ensinam muito. Mas, algumas vezes, há que ser curioso: deve-se “meter
a mão”, desmontar, entender o funcionamento, arrumar e, finalmente,
“orar” muito para funcionar!
Todas as manutenções que mandei fazer no meu barco, sempre
procurei estar perto para ver o que era feito e como era feito. Dessa forma,
aprendia a fazê-las e verificava o serviço. Isso também facilita na hora do
pagamento, pois sabemos exatamente o que foi feito, tanto para reclamar
se a cobrança foi exagerada, como para aumentar o valor quando vemos
que o trabalho foi difícil ou demorado.

09/01/2006 - O dia estava maravilhoso e escolhemos a ilha Rasa para


conhecer. Sabemos que lá tem um restaurante e vimos uma linda prainha.
O lugar é lindo e surpreendeu a todos. Algumas cotias andam soltas e
toda a ilha foi bem aproveitada, criando um lugar especial para passar
algumas horas. Algumas crianças pescavam e o Jonas e a Carol ficaram
perto vendo a pescaria. Passeamos pela ilha e ficamos vidrados em um
pequeno chalé, que havia numa ponta dela. Mergulhei e vi muitos
pepinos-do-mar e, também, algo que nunca tinha visto: muitas lebres-do-
mar escondidas entre as algas.

10/01/2006 - Completamos um mês de viagem (VIVA!!!).


Às dez e meia da manhã, o dia já estava super quente. Nos disseram
que a previsão para hoje é de 37 graus! Pena as “meninas” terem que ir
embora! A Mônica escreveu no nosso livro de visitas e escolhemos um
lugar para almoçar. Fomos para um restaurante na praia de Corumbé,
com uma vista maravilhosa para o mar e a comida fenomenal. Fizemos
um brinde e comemoramos os dias maravilhosos que tivemos. Pegamos
a estrada rumo à Ubatuba junto com elas, para pegar o nosso carro na
casa do Adelson. Curtimos, da estrada, a beleza das ilhas pelas quais
passáramos de barco, escutando Legião Urbana.
Em Ubatuba, fizemos as dolorosas despedidas de quem se gosta
muito e, sentindo um vazio danado, seguimos para o Saco da Ribeira. Na
volta a Parati, foi estranho dirigir um carro, depois de quinze dias sem
guiar. Quando voltar de viagem, acho que terei que voltar para a auto-
escola!

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11/01/2006 - Escutamos um pouco de música de manhã e debatemos a
letra da música “Pais e Filhos”, do Legião Urbana. Filosofar sobre o tema
foi um momento especial e emocionante!
Conhecemos a Casa da Cultura de Parati. O lugar é especial e o
esquema que montaram para mostrar um pouco da cultura e história de
Parati é bem bolado! Vários computadores são estações para ver cada
pedaço importante da história da cidade. Objetos de cultura ficam
pendurados no teto, dentro de caixas, e podem ser puxados para baixo
para serem visualizados em detalhes. Fotos, entrevistas e filmes de
pessoas importantes de Parati estão disponíveis para serem vistos e
ouvidos. Toda a decoração do local reflete as festas populares, história e
cultura. É, sem dúvida, um lugar para ser visitado. Quem sabe Ilhabela
não se inspira e monta um local semelhante?

Desde pequenos, as crianças são fãs de MPB: Chico Buarque, Tom


Jobim, Legião Urbana e outros. São seletivos com música e curiosos com
relação às letras. Eu tentava explicar o significado de cada uma, inserindo
algumas no contexto histórico, principalmente, as de Chico Buarque na
época da ditadura militar.
Mas, esse dia da música “Pais e Filhos” foi demais! Explicar esse
“conflito” e os muitos sentimentos que acontecem por trás dele, estando
nós na situação de “pai” e “filhos”..., momento difícil de esquecer!

12/01/2006 - Ao final do dia, fomos até Parati tomar um sorvete. Quando


chegamos lá, faltou luz! Após o sorvete, procuramos uma creperia,
andando dificilmente, com a cidade às escuras. Mas então, aconteceu um
momento mágico: a lua, cheíssima e alta, iluminava as paredes das
antigas casas coloniais e as ruas de pedra. Um único músico, das dezenas
que há em Parati, não se deu por vencido com a falta de energia e, sem
microfone e amplificador, soltou a voz nas ruas, auxiliado pelo seu violão.
Achamos a creperia e nos sentamos. A noite estava magnífica e a ruazinha
sossegada, na qual estávamos sentados, com a luz da lua nas paredes e o
céu todo estrelado, transmitia uma atmosfera de paz imensa. Comemos o
crepe à luz de uma vela, conversando sobre estarmos vendo a Parati de
antigamente, sem luzes artificiais. Ao final do crepe, as luzes voltaram e,
infelizmente, acabou-se a magia.
A Carol foi escolher uma bebida e voltou falando que a dona da
creperia conhecia a Thaís, diretora do colégio São João. Pouco depois, a
Cristina, veio falar conosco e conversamos bastante sobre as pessoas
conhecidas da ilha: Thaís, Ângelo e Marília, diretora do parque estadual.
O marido da Cristina, Paulo, estava fazendo trabalhos com as
47
comunidades isoladas de Ilhabela. Antes de sairmos, ela nos apresentou
o Paulo e sua filha Thaís (que tem esse nome por causa da Thaís do São
João!). Contamos um pouquinho da nossa viagem e nossos planos. Algo
me diz que voltaremos a encontrá-los (com certeza, ao menos a Cristina
na creperia!).

A cidade de Parati é fantástica! Não cansávamos de passear por lá.


Muita música e muitos artistas de rua, espalhados nessa linda cidade
colonial, nos convidavam a caminhar sempre por suas ruas. Quando era
maré alta, as crianças adoravam ir até a cidade, para vê-la se enchendo de
água do mar, que a invadia, duplicando os antigos e coloridos casarões
coloniais e o céu azul em seus reflexos, nas grandes poças de água
salgada. Mas, nenhum passeio se comparou ao dessa noite de lua cheia,
sem luzes artificiais, a não ser algumas velas e tochas, quando vimos a
cidade mais bela, como ela deve ter sido há dois séculos.

14/01/2006 - Arrumei as coisas para irmos para a Ilha Grande. Já estou


cansado de ficar só na marina. Levei nossas roupas de 20 dias para lavar
em Parati, numa lavanderia próxima ao centro histórico, e saiu
baratíssimo.
Um dente-do-siso, que eu estou para tirar há mais de catorze anos
e que ainda não tive coragem, começou a doer. Fomos à cidade, comprei
remédios, almoçamos e tomamos sorvetes. O sol fez inchar mais a
gengivite, mas o sorvete melhorou-a. Eu não estava bem e voltamos à
marina, com a dor piorando. Gelo, antiinflamatório, nada parecia
melhorar a dor! Lembrei do filme “Náufrago” (dentro, é claro, das
devidas proporções!) e tive vontade de comprar um patim de gelo, para
arrancar o danado do dente. Tomei outro anti-inflamatório e comecei à
melhorar um pouco. Jantamos sopa, o que esquentou o local, trazendo a
dor de volta. Após uma água tônica gelada, vendo a fantástica lua cheia
que se erguia entre as ilhas de Parati, com muitas estrelas no céu, a cidade
iluminada ao fundo e os muitos barcos atracados na marina, voltei a
melhorar. Fiquei mais de uma hora sentado no píer vendo o espetáculo.
É incrível a beleza da região e a vista da marina em noites de lua cheia!
Como meu ombro esquerdo não está muito bom, dormi voltado
para o lado direito (o do dente). À uma hora da manhã acordei de novo
com muita dor e inchaço no local. Tomei dois analgésicos e percebi que
puxando o dente-do-siso para cima, a dor aliviava muito. Pequei uma
colher, fiz uma alavanca com o cabo e segurei o danado do dente,
forçando-o para cima. Funcionou maravilhosamente bem, a dor logo
aliviou e, após uma hora e meia de sofrimento, consegui dormir de
48
barriga para cima, para não forçar o ombro e nem o dente, tomando
cuidado de ficar com as pernas dobradas para não forçar as costas: coisas
de velho!!!

Imaginei, vendo o relato de outros velejadores, que iríamos lavar


roupas muitas vezes no barco. Não aconteceu. Em quase todos os lugares
onde paramos, havia lavanderias que cobravam por cesto, onde cabia
muita roupa suja, pois as peças eram pequenas (calções, shorts,
camisetas). Recebíamos a roupa lavada, seca e dobrada. E não era caro
(comecei a achar que era mais barato do que lavar roupas em casa!).
Quando não tínhamos lavanderias, em alguns portos isolados, bastava
perguntar, pois sempre havia uma senhora que lavava roupas “para
fora”. Era mais barato ainda e a roupa vinha mais limpa!

15/01/2006 - Acordei melhor, mas hoje não é dia de abusar. Eu queria


sombra e água fresca. Odeio ficar parado muito tempo, sem ter o que
fazer num lugar, mas, na situação atual, é a melhor coisa. Fábio e sua
esposa, pais do Pedro, amigo das crianças, são dentistas e foram muito
gentis me orientando e medicando.
Almoçamos em Parati e aproveitei para comer só coisas frias e
muitos sorvetes de sobremesa. É incrível como o sorvete alivia a dor!
Voltamos à marina e à piscina, conversando com as pessoas que estavam
por lá. Papo de criança dentro da piscina: “- Onde você mora?”, “- Eu moro
no mar!”.

17/01/2006 - O dia foi para visitar dentistas. Minhas “suspeitas”, de que


terei que fazer uma cirurgia e extrair o dente, foram confirmadas. Após a
cirurgia, só poderei comer coisas macias e estarei proibido de pegar sol e
fazer força por alguns dias. Ou seja, ficarei de “molho” na marina
novamente. Mas, se resolver o problema de vez, está ótimo. Já pensaram
se eu chegar em Noronha e tiver um problema desses lá, estragando o
passeio? Não dá, não é?!
No começo da noite, me ligou a Berê, de quem ouvíramos falar
muito, e marcamos um encontro. Conversamos bastante sobre os
conhecidos em comum, sobre nossa viagem e sobre Parati. Vimos fotos
de uma casa dela na Ponta Negra. O lugar é um paraíso e está
praticamente intocado! Após muito papo e brincadeiras, saímos com a
gostosa sensação de conhecer a Berê há muitos anos.

No mar, quando deixamos algo para depois, nunca dá certo! O meu


dente do siso foi um exemplo. Ainda bem que deu problemas em Parati
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e não em Noronha ou Abrolhos! Deveria tê-lo tirado há catorze anos atrás,
mas não tive coragem. Quando pensei em removê-lo, um pouco antes de
viajar, estava na correria de arrumações e não consegui tempo. Arrisquei
e dancei! Sorte nossa que aconteceu em Parati.

19/01/2006 - Acordei cedo e bem disposto. Minha intenção era sair de


barco de qualquer jeito! Apesar de todo o carinho, cuidado e simpatia do
pessoal da marina, nós não víamos a hora de conhecer lugares novos.
Fiz a navegação para a ilha do Cedro, enquanto o Jonas timoneava
o barco na saída de Parati. Saímos do canal e o vento entrou de uma
direção favorável para nossa velejada. Desligamos o motor e fomos para
a ilha do Cedro apenas velejando.
Quando chegávamos na ilha, contei para as crianças a história de
minha primeira chegada na ilha, há uns quinze anos ou mais. Em virtude
de uma caixa de som, instalada atrás da bússola de bordo de nosso antigo
barco, o Voodoo, que desviou a agulha da bússola, ficamos perdidos.
Como havíamos saído tarde do Mamanguá, chegamos na ilha com tudo
escuro. Ela tem uma longa ponta de pedras, que nos pareceu uma praia,
quando chegamos. Quase batemos na ponta! Da proa, eu gritava para o
Bill, que timoneava, dar ré e ele entendia para ir reto!!! Acabamos
dormindo do lado de fora da ilha. Essa experiência me ensinou três lições
muito importantes: nunca chegar em lugar desconhecido à noite; fazer a
navegação sempre bem feita; sempre transmitir ordens de forma clara,
mantendo uma pessoa no meio do barco para retransmiti-las, se estiver
com o motor ligado ou muito vento. Eu acabei escrevendo essa história
para a antiga revista “Offshore”, contando o lado engraçado e as lições
aprendidas e tive o gosto de vê-la editada.
Nossa chegada na ilha desta vez foi diferente. Chegamos de dia, às
seis da tarde, com um belo sol e, após ancorarmos num lugar bem
protegido, tomamos um merecido banho de água salgada. Eu estava
sentindo muita falta dele. Na marina, não dá para tomar banho de mar e
a piscina não me energiza como o mar.

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Ilhas de Angra

20/01/2006 - Logo que acordei, pulei na água. Adoro fazer isso de manhã
para despertar de verdade!
Quando eu estava no bote, preparando as coisas para irmos à praia,
vi um grande “pingo” cair na água, ao meu lado. Pensei: “- Chuva, com
esse sol?!!”. Imediatamente, outro “pingo” grande e branco caiu no bote,
a trinta centímetros de mim e outro no espelho de popa do Fandango,
perto das crianças. Olhamos para cima e vimos que estávamos sendo
sobrevoados por dezenas de fragatas, que nos “bombardeavam”! O Jonas
correu para dentro do barco e eu e a Carol pulamos na água!
Demos muitas risadas da situação ridícula e, quando nossas
“amigas” se foram, seguimos para a praia. Ela é lindíssima! Tomamos
banhos de mar, conversamos com pescadores e passeamos até a longa
ponta de pedras, na qual quase batemos há quinze anos atrás. Lá havia
uma grande árvore cheia de parasitas que lhe davam a aparência de ter
longos cabelos. As bromélias em profusão e os pássaros cantando em seus
galhos completavam o quadro deslumbrante. Enquanto a Carol olhava os
caranguejos nas pedras e o Jonas colocava barquinhos de folhas na água,
eu apreciava o espetáculo. Que lugar lindo!
No meio da tarde, levantamos âncora e saímos por trás da ilha, a
motor, em direção à ilha Sandri. Após Tarituba, o vento entrou favorável
e passamos a velejar em orça folgada. Passamos por várias ilhas e lajes,
tão comuns em Parati e Angra e chegamos à ilha Sandri às seis. Uma coisa
impressionante na ilha é a visão das usinas nucleares de Angra. Torcemos
para elas não darem problema justo agora, pois a impressão que temos é
a de estar sentados numa bomba!
A água estava transparente e fomos mergulhar na ilha Mingu.
Estávamos com cinco metros de profundidade e uma visibilidade de dez
metros! Vimos muitos peixes coloridos, muitas estrelas grandes, peguei
um pepino-do-mar, para as crianças verem de perto, e voltamos ao barco.
Fizemos um churrasco ao anoitecer, quando um manto estrelado desceu
sobre nós. Deitei no cockpit, de barriga para cima, para ver as estrelas e,
em pouco tempo, o Jonas e a Carol deitaram ao meu lado. O Jonas me
mostrou a Ursa Menor, que vira no livro de ciências. Eu e a Carol vimos
uma estrela cadente. Ela só errou na hora de fazer o pedido: “- Eu quero
que o Jonas vire Palmeirense!”, em vez de “- Eu quero que o Jonas vire São
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Paulino!”. É, parece que vamos ter de agüentar um palmeirense na família
por muito tempo!

21/01/2006 - O dia amanheceu maravilhoso, como todos estes últimos


vinte dias. De cima do barco, via-se todo o fundo e muitos peixes! Um
cardume de savelhas se aproximou. Peguei pão e joguei para elas. Elas
começaram a comer e peguei uma linha de pesca e anzol pequeno. Em
poucos minutos, pegamos dez delas, para fazer isca e comer no jantar.
Caímos na água e sua visibilidade e temperatura estavam maravilhosas.
Esta região é demais! Vimos muitas estrelas-do-mar grandes e muitos
falso-voadores, também chamados peixes-cabra. Eles são bonitos quando
abrem as “asas”, que são de um azul muito intenso. Achei uma máscara
de mergulho, trezentos metros depois achei um snorkel e perto da praia
achei uma nadadeira! Encontramos o dono da nadadeira, um menino que
mora na praia. A máscara e o snorkel não eram dele e ficamos com eles.
Conhecemos dois casais de velejadores muito simpáticos que
estavam lá. Um dos casais, o Ricardo e a Glória, nos convidou para
conhecer seu barco, o “Tao”, que é um 23 pés muito espaçoso e
marinheiro. Esse “grande barquinho” velejou da Europa até aqui! Eles
visitaram nosso barco e deixaram uma mensagem em nosso livro de
visitas. As crianças adoraram os cachorrinhos deles (três!!!), e ficaram me
cobrando, numa próxima viagem, um barco maior para levarmos um
cachorro junto.
Quando eles se foram, seguimos para Bracuhí, onde eu pretendia
comprar algumas coisas e, talvez, pernoitar. Passamos por várias ilhas
maravilhosas, cheias de lanchas e fui fazendo a navegação com cuidado,
pois nesta região existem muitas lajes. Ainda bem que estão bem
sinalizadas! Chegamos às seis e vinte e só conseguimos comprar
combustível. Como era caro o pernoite na marina, seguimos para dormir
num local sugerido pelo Ricardo: atrás da ilha de Cunhambebe. O lugar
é muito bonito e nem parece Angra, pois tem pouco movimento. Limpei
as savelhas e assei-as na brasa.
O Jonas e a Carol assistiram o “Perdidos no Espaço” (isso mesmo,
aquele antigão, com o Dr. Smith e o Robô) no computador. Enquanto eles
viam o capítulo “Uma Visita ao Inferno”, eu via o céu repleto de estrelas.
Fiquei uma hora deitado, vendo as constelações e pensando na vida. Três
estrelas cadentes riscaram o céu, ao longo dessa hora.
Dormimos bem, mas várias lanchas passavam a toda velocidade
atrás da ilha e faziam ondas que balançavam o barco. Não sei como eles
passam tão rápido à noite, com tão pouca visibilidade. Se algum barco

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pequeno, com pouca luz, estiver passando no seu caminho, com certeza
eles passam por cima.

22/01/2006 - Descemos na ilha de Cunhambebe para conhecê-la. A ilha é


bonita, mas tem muito lixo jogado. Vimos um grande lagarto teiú, com
mais de um metro de comprimento e, após um banho de mar, retornamos
ao barco. Levantamos vela, contornamos a ilha para ver o Porto Frade,
um grande condomínio, hotel e marina de luxo, e a sub-sede do Iate Clube
de Santos.
Tomamos o rumo da ilha Gipóia e, depois de meia hora a motor, o
vento apareceu. Velejamos a todo pano até a praia do Dentista, passando
entre ilhas particulares com suas casas de luxo. Na Gipóia, aconteceu a
maior decepção, pois estava abarrotada de lanchas. Nunca vi uma praia
com tantas lanchas por metro quadrado! Elas ancoram com uma âncora
de proa e outra de popa, na praia, para caberem mais barcos. Paramos
longe da praia e demos um mergulho. A visibilidade estava maravilhosa
e víamos todo o fundo, ancorados em oito metros de profundidade!
Seguimos para a enseada de Sítio Forte, em Ilha Grande. Foi outra
bela velejada e chegamos lá às quatro. Caímos na água e fomos para a
praia. Tomamos refrigerantes gelados e comemos bolinhos de aipim,
batatas fritas e pastéis, no famoso restaurante do Lelé. As crianças viram
cavalos, vários cães e a Carol foi perseguida por dois gansos bravos
(ainda bem que ela foi rápida e saiu correndo)!
Antes de dormir, saímos para ver as estrelas. Contei histórias
antigas e engraçadas para eles, sobre vela, mergulhos e pescarias.
Relembrei os amigos Renato, Mário Celso, Léa, Marcão, Bill, Edmon,
André e outros, contando nossas aventuras e desventuras (o “novilho do
pantanal”, o “mergulho em Angra”, o “mergulho na piscina do hotel em
Angra”, o “casal em lua de mel em Ilhabela”, o “burrico em Parati”, as
“rodas do carro ‘roubadas’ em Ilhabela”). Eles adoram essas histórias da
minha juventude! Com certeza nunca irão esquecê-las, contadas sob um
céu tão estrelado.

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Ilha Grande e Marambaia

23/01/2006 - Hoje é dia de mergulhos. Fomos cedo para a Lagoa Verde.


Essa “lagoa” é um local muito protegido, localizado entre a Ilha Grande
e a Ilha Longa. A água é cristalina e, no fundo, existem muitas algas
verdes, que dão o nome à “lagoa”. A fauna é muito rica. Vimos dezenas
de estrelas-do-mar grandes, peixes-frade, cardumes imensos de
sargentinhos, garoupas, badejos, budiões e dezenas de outros peixes, mas
o ponto alto do mergulho foi encontrar uma tartaruga sem medo de
mergulhadores, que nos deixou chegar bem perto (cheguei a um metro
dela!). Mergulhamos mais de uma hora e, quando começaram a chegar as
escunas de turismo, nos retiramos.
Paramos na praia de Matariz, comprei algumas coisas e seguimos
para a Lagoa Azul. Essa outra “lagoa” é uma enseada minúscula, entre
Ilha Grande, Ilha dos Macacos, Ilha Redonda e Ilha Comprida.
Mergulhamos em água cristalina, com uns doze metros de visibilidade,
muitas estrelas e peixes. Voltamos ao barco e seguimos para nosso lugar
de pernoite: a enseada da Vila Abraão. Essa vila é a “capital” de Ilha
Grande. É onde se encontra o maior número de pousadas, restaurantes e
agências de turismo.
Pouco depois de ancorarmos, entrou um sudoeste muito forte, que
não durou muito, mas atingiu trinta nós de velocidade. O Fandango ficou
firme (foi o Jonas que desceu e “unhou” a âncora e está de parabéns!),
mas um grande barco vizinho “passeou” ao sabor do vento boa parte da
noite.

24/01/2006 - Acordamos cedo e saímos para a nossa visita do dia: a Ilha


da Marambaia, onde há uma base da Marinha. O dia estava lindíssimo.
Como era cedo e, nesta região, o vento só dá as caras no final da manhã,
motoramos por duas horas, até chegarmos em frente ao CADIM (Centro
de Adestramento da Ilha da Marambaia). Aguardamos autorização para
encostar, enquanto admirávamos o belíssimo litoral da ilha e a
arrebentação em um perigoso banco de areia, próximo ao local de
desembarque. O simpaticíssimo Sub-Oficial Avelino nos recebeu. Ele
seria nosso guia pelo local. A ilha da Marambaia fica numa ponta da
Restinga da Marambaia, ao lado de Ilha Grande. Nela, existe o pico da

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Marambaia, de 641 metros de altura. A vegetação é de mata atlântica, rica
e exuberante.
A palavra “marambaia”, que em tupi-guarani quer dizer “cerco do
mar”, representa a região da Baia de Sepetiba, local totalmente protegido
entre o continente e a restinga. É um lugar maravilhoso e histórico, onde
batalhas sangrentas foram travadas para afastar intrusos holandeses,
durante a colonização do Brasil. As visitas são permitidas apenas para
convidados autorizados.
Visitamos a Praia Grande, que fica perto do CADIM e onde as
crianças entraram na água. O próximo ponto de parada foi a piscina com
água da cachoeira, onde nem eu resisti e caí na água. Em seguida, fomos
à gruta, outro lugar lindíssimo, próximo a uma cachoeira. A gruta tem
algumas imagens de santos e serve como uma pequena capela.
Todo o local está muito preservado. A proibição de pesca nas praias
internas da ilha faz dela um grande criadouro de peixes para a região.
Livre do turismo intensivo, da especulação imobiliária e sob os cuidados
constantes da Marinha e das pessoas que lá trabalham, que gostam e se
preocupam com o local, essa jóia do litoral brasileiro permanece intocada
em quase toda sua totalidade. Percebíamos carinho e cuidado, quando
cada uma das pessoas que conhecíamos, desde oficiais até as pessoas mais
simples, falavam sobre a ilha. Nas instalações militares que visitamos,
tudo é muito bem cuidado. As construções antigas estavam preservadas
e foram aproveitadas para as necessidades da base. As trilhas não têm
lixo algum e não vi nenhum sinal de erosão ao longo delas. As praias são
muito bem cuidadas, belíssimas, utilizadas apenas por moradores e
convidados.
Os únicos sinais de poucos cuidados foram, infelizmente, nas casas
dos moradores não militares da ilha. Nelas ainda vivem muitas famílias
de pescadores, que não foram desalojados por motivos sociais, quando
da instalação da base. É nos locais de moradia de várias dessas famílias,
cercados por arames e madeiras para limitar a propriedade, que impera
o caos. Sujeira, vegetação destruída e barracos são o que existem nesses
locais “particulares”. É triste que essas pessoas, nascidas na ilha e cujos
descendentes viveram centenas de anos ali, são as que menos cuidam
dela. Tomara que a base funcione lá por muito, muito tempo ou que o
governo tenha o bom senso de transformá-la em reserva ou parque
estadual, se a Marinha perder o seu controle.
Fomos convidados para almoçar com o Avelino no Hotel de
Trânsito, uma construção muito antiga, com paredes de pedras idênticas
às que vimos nas ruínas da ilha Anchieta e em Parati-Mirim. A comida
estava deliciosa: arroz, feijão, frango e seleta de legumes. O engraçado do
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almoço foi que o Jonas, louco por feijão, comeu um monte de seleta de
legumes e a Carol, louca por legumes, comeu dois pratos de arroz com
feijão! Avelino nos contou um pouco de sua vida, sua paixão por cross-
country e de lugares que conheceu participando de provas representando
a Marinha do Brasil.
Após o almoço, seguimos ao local da batalha contra os holandeses,
que fica em frente à casa do comandante. Lá há uma praia lindíssima, que
lembra demais as praias do nordeste, com seus coqueiros e areia branca,
grossa, bem solta. Nessa casa, alguns Presidentes da República passaram
suas férias.
Caminhamos até a outra ponta da Praia Grande, passando por
lindas trilhas, que lembram muito as do Parque Estadual de Ilhabela, só
que mais preservadas. Caímos novamente na água, desta vez
rapidamente, pois ela estava cheia de águas-vivas. Todos a quem fomos
apresentados foram muito simpáticos conosco, perguntando muitas
coisas sobre nossa viagem. Só sentimos que o tempo era curto demais
para conhecer melhor a ilha.
Soltamos amarras às quatro, após despedidas e agradecimentos ao
Avelino, pela atenção e paciência dispensadas conosco. Levantamos velas
para aproveitar um ventinho gostoso que começava. Vimos vários
golfinhos e nos aproximamos. Eram uns dez e deviam estar caçando, pois
vários atobás os sobrevoavam, mergulhando sobre um cardume de
peixes. Demos três voltas perto deles e seguimos para Ilha Grande.
Entrou um excelente vento, de quinze nós pelo través e velejamos
deliciosa e rapidamente até Sítio Forte.

27/01/2006 - A Lu veio nos visitar e resolvemos levá-la para conhecer Ilha


Grande. Na direção da ilha, só se viam nuvens de chuva. Fomos direto
para a Lagoa Verde e a água estava bonita, mas fria. Mergulhamos, vendo
frades, peixes-anjo e um peixe-cofre, retornando ao barco para colocar as
roupas de neoprene. Quando nadávamos para a junção da Ilha Grande
com a Ilha Longa, entrou chuva forte e muito vento. Retornamos
rapidamente ao barco e saímos de lá, para procurar abrigo em Sítio Forte.
Quando saímos, o vento e a chuva apertaram. As crianças liam dentro da
cabine. Eu e a Lu ficamos com as respectivas roupas de neoprene,
embaixo da chuva torrencial que caia e que chegava a machucar a pele.
Para poder enxergar, tivemos de usar a máscara de mergulho! Foi bonito
ver a tempestade, com muita água caindo do céu e o mar agitado.
Chegamos em Sítio Forte e tivemos que ancorar duas vezes para a âncora
unhar bem.

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28/01/2006 - Zarpamos para a Lagoa Azul, que estava repleta de lanchas.
Era sábado e o número de barcos em finais de semana nesses lugares
aumenta muito. Ancoramos o veleiro no meio da “lagoa”.
Vimos um cachorro nadando e especulamos se caíra de algum
barco, tentando chamá-lo. Ele não deu “bola” e seguiu direto para a casa
na Ilha Comprida! O cachorro atravessa toda a lagoa a nado e isso deve
ser diário! O maior perigo é ele ser atropelado, pois o trânsito de lanchas,
a toda velocidade, no local é grande.
Fomos de bote para o local de mergulho, tendo que passar com
cuidado entre as várias lanchas que fechavam a passagem. A água estava
fria e com pouca visibilidade, em comparação com a última vez que
mergulhamos ali. Vimos poucos peixes e poucas estrelas. Por outro lado,
as lanchas e pequenos barcos a motor passavam a toda velocidade ao
nosso lado, causando uma sensação de desconforto e perigo. Saímos dali
para o outro lado da lagoa e, apesar da água turva, vimos mais peixes.
Resolvemos voltar, pois o tempo fechava. Paramos,
despretensiosamente, na ponta de Aripeba. Que mergulho! A água estava
linda e vimos muitos frades, peixe-trombeta, peixe-cofre, muitas estrelas-
do-mar, uma moréia, uma tartaruga numa toca, outra nadando e uma
pedra forrada com lindas anêmonas amarelas abertas parecendo
pequenas flores. Mas, o melhor, foi uma “cobrinha” colorida que assustou
a Lu, que a confundiu com uma serpente do mar. Ela arrastou a Carol
para longe do lugar, mesmo ela explicando que era apenas uma
manduréia. A Lu virou a “bola da vez” pelo resto da noite!

29/01/2006 - Mergulhamos na Lagoa Verde logo cedo. A Carol, com seu


olho clínico, via tudo antes de nós. O Jonas ficou no bote o tempo todo,
com medo das águas-vivas. Eram poucas, mas, para ele que “não bota a
mão em cumbuca”, estavam em excesso. Retornamos a Jurumirim e,
assim que ancoramos, apareceu o Thalassa, do Maurício, com um amigo
do colégio junto: o Felipe! Que coincidência! As crianças brincaram com
ele na praia e eu arrumei um monte de coisas a bordo. À noite, tomamos
um necessário banho de mar, com um certo “stress” da “parte da
tripulação”, que não gosta de água fria.

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Primeiros Percalços

30/01/2006 - A Lu tinha que ir embora. Passamos no Thalassa para dar


adeus, mas todos dormiam. Fomos para a marina e, quando chegávamos,
batemos num tronco de dez metros de comprimento, bem na entrada da
marina! Ainda bem que estávamos devagar, em aproximação da poita. O
tronco estava submerso e, quando batemos, ele subiu. Que susto! Dei ré
devagar e ele saiu debaixo do barco.

02/02/2006 - Recebi uma má notícia sobre “gastos com celular”, que me


desanimou. Vamos ter que diminuir muito o uso do telefone e limitar as
atualizações do site. Desanimado, fomos a Parati, onde conversei com as
crianças, pois vamos limitar também a conversa com os avós ao telefone,
para diminuir o gasto com roaming, que é um absurdo. Meio calado e
pensando em alternativas, fomos até uma livraria-café, que nos mata um
pouco a saudades do Ponto das Letras, de Ilhabela. Enquanto eu lia, a
Carol veio com um presente para mim: o livro “Histórias de Robôs”! Com
um abraço, um beijo e o presente dado do fundo do coração, ela levantou
o meu astral.
Ficamos presos na livraria por uma chuva forte, que inundou todas
as ruas. Não nos alteramos e continuamos lendo livros e revistas, pois
estávamos no lugar perfeito para esperar a chuva passar! Depois,
passeamos pela cidade inundada. O céu clareou apenas em cima do
Centro Histórico, abrindo muita luz e criando um efeito muito bonito,
pois tudo em volta estava cinza e escuro.

Pensamento: “As crianças adoram ver Parati cheia de água!


Imagine se vissem as enchentes de São Paulo!!!”

03/02/2006 – Achei uma boa solução: puxei e instalei o Skype, para falar
com as pessoas queridas sem custo telefônico!
No meio da madrugada, acordei assustado, com barulho e vozes.
Pescadores recolhiam uma rede para pegar paratis ao lado do barco e a
rede enroscou no leme. Soltaram sem dificuldade e eu aproveitei para
olhar o céu estrelado, que prometia um dia bonito para um passeio.

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04/02/2006 - Vamos conhecer a Ponta Negra! Tomamos café na casa da
Berê e fomos para a praia de Laranjeiras, de onde saem os barcos para a
Ponta Negra e Praia do Sono. Pegamos uma perua do condomínio, que
nos levou para o portinho e fomos apreciando as belas casas, campo de
golfe, helicópteros e lanchas. Chegando ao porto, subimos no pequeno
barco de fibra com motor de popa e, rapidamente, chegamos na praia da
Ponta Negra. No caminho, vimos as maravilhosas praias, quase desertas
e sem acesso de carro, se descortinando: Sono, Antigos, Antiguinhos,
Galhetas e, finalmente, a praia da Ponta Negra.
Ela é uma típica praia de pescadores, muito bonita e ainda muito
isolada. Ajudamos a carregar algumas coisas para a casa da Berê e, em
seguida, andamos uns 20 minutos até uma cachoeira maravilhosa.
Tomamos um banho refrescante num poço e retornamos. Já era tarde e,
após banhos de mar e de rio, comemos peixes fritos com arroz, feijão,
farinha e salada no barzinho da praia. Enquanto o Jonas e a Carol
brincavam com outras crianças, eu dormi um pouco, sentado ali na mesa
mesmo. Só faltou uma rede! Retornamos no final da tarde, com a traineira
de pesca do Careca, que também faz transportes.

05/02/2006 - Acordamos cedo para arrumar o barco e esperar os primos e


amigos Nelson, Cristina, Ubiratã (Bira) e Amanda, que vinham de
Ilhabela. Embarcamos e saímos para mostrar-lhes a bela enseada de
Parati. Levantamos as velas, para que eles pudessem entender o que é
velejar. O vento estava fraco, mas agradável. As crianças abaixaram a
escada e ensinaram como fazer o “isca de tubarão”: ser rebocado pelo
barco, segurando firme na escada! Fomos todos para a água, um de cada
vez, velejando e nos refrescando com o banho de mar. O Bira adorou!
Velejamos até a enseada de Jurumirim, pegamos uma poita e
descemos na praia. A Carol e o Bira, que também adora água,
praticamente não saíram do mar. Retornamos velejando à marina e
seguimos para Parati para tomar sorvetes, nos despedindo em seguida.
Dormimos com o barco no píer, pois amanhã cedo farei a minha cirurgia
do dente do siso. “Deus me proteja”, ai, ai!

06/02/2006 - Acordamos e fomos a Parati. Tudo já estava pronto e, com


“um frio na barriga”, entrei na sala do dentista. Após uma série de
preparativos, ele me disse que ia balançar o dente, para soltá-lo um
pouco. Mesmo anestesiado, comecei a sentir a movimentação e, então, um
tranco rápido. Em menos de um minuto, o dente estava fora e inteiro! Que
alívio! O outro siso que tirei, há catorze anos, levou duas horas para sair
e só saiu aos pedaços.
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Depois das recomendações de não fazer esforço, descansar, não
tomar sol, comer apenas alimentos líquidos ou pastosos e apenas frios nos
dois primeiros dias, saímos de lá e fui tomar um sorvete e dar café para
as crianças. Voltamos à marina e descansei. As crianças cuidavam de tudo
e, sempre que eu precisava, pegavam água ou refrigerante gelado. Meus
filhos cuidavam de mim!

07/02/2006 - No final da tarde, tivemos nossa primeira aula a bordo:


ciências! Como eu esperava, já no primeiro capítulo dos livros dos dois,
havia coisas que vimos na viagem e que foram motivos de comentário e
exemplificação. Até uma referência ao acidente de Chernobyl havia no
livro da Carol, reforçando tudo que falamos do sobre energia limpa (não
perigosa e não poluente), quando passamos pela usina nuclear de Angra.
Resolvemos voltar lá, ver uma palestra sobre a usina e a energia nuclear,
fazer um texto e enviá-lo para a escola. Sobre seres vivos e suas
adaptações ao meio ambiente, que também fazia parte do capítulo, foi a
maior “baba” exemplificar e explicar, pois é o que vemos todos os dias:
mergulhões adaptados para submergir e nadar em busca de seus peixes;
peixes-pedra e cações-viola com seus mimetismos; o fim das grandes
estrelas-do-mar de Ubatuba (que vemos em quantidade em Angra) pela
captura para servir como “enfeite”, mostrando a interferência negativa
do homem no meio ambiente. Se fosse falar de tudo que conversamos
nessa “aula”, o livro ficaria muito longo.
Caiu uma chuva forte e ventos de vinte nós atingiram “nossa
escola” na marina, mas estávamos bem protegidos. Nossa primeira aula
tinha acontecido e um de meus medos, ser “professor” de meus filhos,
começou a diminuir.

09/02/2006 - Resolvemos ter uma aula “em campo” e fomos para Angra
visitar o centro de informações das usinas nucleares. O centro é bem
montado e muito interessante. Ele é cheio de maquetes e esquemas sobre
fissão nuclear e os componentes das usinas. Foi uma bela aula e é uma
maravilha de projeto de engenharia. As crianças adoraram e
compreenderam bem todo o esquema de geração de energia.
Mas sobram sempre algumas perguntas com respostas não
satisfatórias. Porquê o Brasil investe tanto na geração de energia elétrica,
usando um meio que gera um resíduo altamente radioativo e que leva
3.000 anos para “desaparecer”, com o enorme potencial hídrico que tem?
Quantas usinas hidrelétricas poderiam ser construídas e quanta energia
elétrica gerariam com todo o dinheiro já gasto com as usinas nucleares?
O que falam é que a usina nuclear é limpa e sem riscos. Só que usam,
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como fator de comparação, usinas movidas a diesel e carvão, que são
altamente poluentes. Usam também o “apagão”, que aconteceu há dois
anos, como desculpa para a construção de Angra 3 e para justificar Angra
1 e 2. Só não falam que, se tivessem sido construídas mais usinas
hidrelétricas com o dinheiro dessas usinas nucleares, muito
provavelmente não teria acontecido a falta de energia. Torçamos que as
defesas contra vazamentos sejam suficientes e que acidentes não
aconteçam, porque a região é bela demais para ser destruída.
Voltamos para a marina, onde as crianças fizeram um trabalho
sobre a usina para enviar ao colégio e uma aula de matemática. Eu tenho
atuado mais como orientador e tenho feito correções dos exercícios que
eles fazem. Eles mesmos tomam a iniciativa de estudar, lêem o capítulo e
respondem as questões. O papel de “professor” tem sido muito fácil.
Pouco tenho a explicar ou tirar dúvidas. Acho isso ótimo! Aprender a
estudar sozinho e gostar disso é importantíssimo nos dias de hoje, se você
não viver num grande centro.

Outra facilidade do “papel de professor”, é que ele acontecia


durante todo o dia. Conforme passeávamos, mergulhávamos ou
viajávamos, víamos coisas que eles haviam estudado e comentávamos
sobre elas. Quando estudavam, lembravam de coisas que tinham visto
durante os passeios, relembrando seus detalhes.
Aquilo que eu achava que se tornaria meu suplício, foi fonte de
muito conhecimento e divertimento. É incrível como a viagem e o estudo
se completaram: estudo de fusos horários, posicionamento global
(latitude e longitude) e pontos cardeais em geografia; classificação dos
seres vivos em ciências (o Jonas começou até a fazer fichas de classificação
de animais que encontramos pelo caminho); a importância do inglês foi
ressaltada pelo encontro com vários turistas estrangeiros e velejadores,
durante a viagem toda; o português foi usado no dia-a-dia e em nossos
diários; em matemática, números negativos foram muito fáceis de
exemplificar, usando navegação. Foram dezenas de vezes que usamos o
que vivíamos como exemplo nos estudos e vice-versa.
Eu, como pai e professor, sabendo o que eles estavam estudando e
o que iriam estudar, podia priorizar visitas e passeios, alertar para
detalhes e ressaltar as coisas que víamos (aconselho a todos os pais
estarem a par do que seus filhos estão estudando!). Eles, sempre curiosos,
gostavam da “brincadeira” de ligar estudos com o que víamos e me
explicavam muitos detalhes que haviam estudado.
Tivemos uma verdadeira vivência do aprendizado, trocando
informações e, principalmente, opiniões!
62
63
8
Visitas em Parati

11/02/2006 - Aproveitei para fazer uma coisa que estava adiando há


tempos: dobrar todas as cartas náuticas e classificá-las por região.
Dobramos todas as sessenta e nove cartas, que ganhamos como apoio da
Marinha e agora só falta classificá-las e atualizá-las.
Separamos livros lidos para devolver e alguns para emprestar para
meu irmão, que virá na semana que vem. Se não nos policiamos,
colocamos um monte de coisas dentro do barco e esquecemos de tirar
outras. O espaço diminui e a bagunça aumenta. Tirando o que não vamos
mais usar, ganhamos espaço para outras coisas e mantemos a ordem.

A organização a bordo é importantíssima. Existem coisas que têm


que estar sempre à mão, para emergências, como facas e lanternas.
Tínhamos malas para guardar nossas roupas, pois não tínhamos
armários. Em uma prateleira, ficavam livros e material de estudo. Na
proa, tínhamos um espaço para roupas sujas, velas, brinquedos e capas
do barco. Comida, material, limpeza, ferramentas, material de navegação,
cabos... tudo tinha seu lugar certo. Apesar de parecer muita coisa,
aprendemos rapidamente onde estavam guardadas e era importante que
todos soubéssemos os lugares de cada uma. Um ditado foi fundamental
a bordo: “Pegou, guardou”. E sem mudar de lugar!

14/02/2006 - Como é bom passear!!! Acordamos e soltamos as amarras


para conhecer a praia de Cajaíba.
Na saída, em virtude da maré baixa, batemos, bem devagar, na
poita do barco ao nosso lado e o Fandango “montou” nela. Resultado: não
ia para frente nem para trás, mesmo com todo o motor acelerado. A maré
ainda descia, então, tínhamos que agir rápido. Chamamos uma pessoa da
marina para nos puxar com o caíque, mas não havia espaço. Pedi para
que o rapaz amarrasse um cabo numa poita atrás de nós. Uma vez
amarrado, cacei o cabo na catraca e, em poucos segundos e sem grande
esforço, estávamos soltos.
Passamos perto da marina do Amyr Klink e vimos dois mastros
iguais, com mastreação aerorig e velas içadas. Chegamos perto e vimos o
“Parati 2”.

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Quando chegamos à praia Grande de Cajaíba, a primeira coisa que
eu fiz foi dar uma espiada na quilha. Só havia um pequeno raspão na tinta
de fundo e nem chegou a amassá-la (ela é de chumbo).
Fomos à praia com o bote. Ela é muito bonita. Nela só existem
poucas casas de pescadores e um bar no seu canto esquerdo, com um
pequeno rio saindo no meio dela. Caminhamos por toda a praia e as
crianças brincaram de escorregar nos morrinhos de areia do rio.
Perguntamos, no barzinho, como chegar até a famosa cachoeira de
Cajaíba. O pessoal, muito simpático, ensinou-nos o caminho. A trilha é
fácil e leva apenas dez minutos. A cachoeira é linda! Tomamos banho e
retornamos pela trilha. Na volta, vimos uma cobrinha passar ligeira à
nossa frente.
Levamos o barco para trás da ilha Itaoca, que nos indicaram ser
melhor para pernoitar (que eles chamam de “lugar do embate” – nunca
havia escutado esse termo!).

15/02/2006 - Levantamos âncora e fomos ver as praias da enseada do


pouso. Todas são bonitas, mas tem que se tomar muito cuidado na
navegação, pois há vários cercos colocados. Eu vi um cabo preso em terra
que avançava cerca de 200 metros mar adentro. O pior é que o cabo era
flutuante. Se pegar um hélice, está feito o estrago!
Paramos no costão ao lado da praia do Pouso para um mergulho. O
fundo é bonito e eu peguei uma tainha, mas foi só o que vi de peixe de
caça. Velejamos deliciosamente na volta, com o vento entrando desde
través até popa rasa e só ligamos o motor após a ilha do Mantimento.
Descemos âncora em Jurumirim.
Conhecemos um casal de outro veleiro, o Guido e a Priscila, que
pediram ajuda porque o barco estava “pegando fogo”. Cheguei lá e
escutei o tradicional “crepitar” de cracas, ouriços e outros bichos. Eles se
assustaram, pois nunca tinha ouvido esse barulho, que estava mais forte
no barco deles, por não ter forração no costado. Parece mesmo alguma
coisa pegando fogo! Tranqüilizei-os que isso era normal e o Guido me
levou de volta ao barco.
Deitamos cedo. Após meia hora de silêncio, com o Jonas se
mexendo para todo lado, perguntei se ele estava acordado, ao que a Carol
respondeu que também estava. Disse para eles contarem “peixes-
carneiro” para dormir. A resposta foi que “peixe-carneiro” não existe e
eles contariam “peixes-cabra”! Parece que funcionou, pois o silêncio foi
completo em pouco tempo.

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17/02/2006 - Meu irmão, Celso, chegou para nos visitar, com a Di, minha
cunhada e a Giulli, minha sobrinha. Mostramos a marina a eles e fomos a
Parati jantar na creperia. Enquanto estávamos lá, voltamos cinqüenta
anos no tempo e vimos uma banda passar duas vezes. Essa bandinha,
com as pessoas dançando, algumas fantasiadas, lembrou-nos o antigo e
inocente carnaval de rua. As crianças, que gostam tanto da música “A
Banda” de Chico Buarque, puderam viver um pouco dessa realidade, tão
distante de crianças de grandes cidades.

18/02/2006 - Logo zarpamos, para aproveitar o lindo dia. Fizemos os


passeios mais fáceis, que adoramos: a cidade de Parati vista do mar, Parati
2 na marina do Engenho, Jurumirim e ilha Rasa.
À noite, em Parati, vimos um pintor com latinhas de tinta em spray
em serviço e um pedaço de show com malabares de fogo e atabaques,
impressionantes.
Aproveitamos a hora a mais que ganhamos, com a mudança do
horário de verão, tomando um prosseco gelado no barco, conversando
com o Celso no cockpit e contando muitas histórias. Combinamos ir
amanhã para a ilha Rasa. Temos que aproveitar bem, pois amanhã terão
que ir embora.

20/02/2006 - Fui convidado para tomar uma cerveja com o vizinho, Peter,
que tem um lindíssimo “Alegro Vivace 43”. Quanto espaço!!!
Conversamos com ele e com a Edna, sua simpática esposa.
O amigo Dimitri correu a Eldorado-Brasilis. Que tentação! Ele foi a
bordo do Kanaloa e disse que a regata foi maravilhosa. Falou muitíssimo
bem de Trindade, onde foram recebidos com todas as atenções pelo
pessoal da Marinha do Brasil.
Conhecemos o Alceu, dono de um Arpege 30’ chamado Atlantis,
que nos presenteou com uma âncora danforth. Gosto de ter várias âncoras
reserva no barco. Nunca se sabe quando uma âncora vai prender em algo
no fundo e se perder.
Um senhor se aproximou do barco e me chamou, perguntando se
eu ia subir a costa. Se apresentou: Janjão, do veleiro Sweet. No mar todos
se auxiliam e procuram passar informações. Janjão vai além disso:
muitíssimo prestativo, me deu várias informações, conselhos e telefones
de contatos ao longo da costa, pelos lugares onde pretendemos passar e
que ele conhece bem. O gostoso de velejar, também está no prazer de
encontrar pessoas como o Janjão, que não são poucas no meio náutico. A
minha impressão é que, como todos já foram ajudados e respeitam
demais o mar e seus perigos, o ato de passar e receber informações é
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natural e feito com prazer, além de ser um excelente meio para se fazer
amigos.

23/02/2006 - Pegamos o carro e seguimos para Trindade, cujas praias


ficam bem perto de Parati. Saindo da rodovia, pegamos uma pequena
estrada calçada e cheia de buracos. São quase oito quilômetros, numa
estrada estreita, com sobe e desce a toda hora. Mas, se o trajeto fosse feito
a pé, também valeria a pena ter ido. As praias são maravilhosas. Fomos
na praia do Rancho e na praia do Meio, de onde visualizávamos a linda
praia do Caxadaço. O lugar é paradisíaco (Caxadaço é considerada das
praias mais bonitas do Brasil e com justiça) e está bem mais conservado
do que a última vez que eu fui, em 2002. O Jonas e a Carol brincaram
bastante nas ondas e ficaram vendo outras crianças surfando. Acharam
uma lebre-do-mar numa piscina e resgataram outras duas perdidas na
arrebentação, colocando-as junto com a primeira. Na volta, a surpresa:
todos os buracos da estrada foram consertados!
Fomos até Parati escutar MPB, num dos muitos bares com ótima
música. Escolhemos o “Café Parati”, pois lá estava tocando a Andréa
Gorgatti. Já a tinha ouvido outras vezes e nos deliciamos com o melhor
da Bossa Nova, que as crianças adoram, na linda voz e interpretação dela.
Pedimos músicas, compramos um CD e, quando fomos embora, pedimos
um autógrafo.

25/02/2006 - Encontrei o Alberto, mecânico de motores, na marina. Pedi


que ele olhasse o problema de aquecimento do motor e ele desmontou a
mufla (peça que junta o escape de água de refrigeração com os gases do
motor), que estava bem entupida. Depois de um bom tempo
desentupindo a dita cuja, ele remontou a peça e a saída de água ficou
muitíssimo maior! Problema resolvido de vez!

01/03/2006 - Depois de passarmos o Carnaval velejando pelas ilhas do


Cedro e Sandri com a Lu e a Mônica, voltamos para a marina e fizemos a
despedida.
No final do dia, as crianças foram brincar no El Shaday (barco
vizinho) com a amiguinha Déborah. Quando fui buscá-las, convidaram-
me para conhecer o barco e, papo vai, papo vem, descobrimos muitos
amigos em comum. Conversamos sobre barcos, contamos as novidades
dos amigos e, assim, passamos horas agradáveis, que se estenderam até a
meia-noite. O mundo é muito pequeno!

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03/03/2006 - Recebemos a visita da Renata e da Nishi, amigas nossas, e
seguimos para Jurumirim. Nadamos até a praia e ficamos curtindo o
lugar e conversando. Enquanto estávamos na praia, algumas pessoas
vieram falar conosco. Eram Ricardo e Fernanda do “Zatara” e pessoal do
“Mr. Jazz”. Por coincidência, Ricardo e Fernanda aprenderam a velejar
no Fandango em 2003. Gostaram e agora são os felizes velejadores
proprietários de um belíssimo Delta 36.
Resolvemos ir à praia do Engenho, onde o Ricardo disse haver uma
roda d’água enorme. O local é, realmente, bonito. Como o desejo era
mergulhar, resolvi tentar um novo lugar e seguimos para a Ilha
Comprida. A água estava boa e vimos muitos peixes.
Voltamos para a marina velejando muito bem e caímos na piscina.
Fomos convidados pelas meninas para comer uma peixada em
Parati, que estava excelente. A Carol foi dormir com a Nishi e a Rê, para
matar saudades do “Clube da Luluzinha”.

04/03/2006 - O Fandango zarpou com a tripulação maior: a Priscila e o


Renato chegaram. Demos uma passada em Jurumirim e vimos o Parati 2
encostado em um paredão e amarrado nas pedras. Quando estávamos
saindo, vimos o antigo SeaMaster, de Peter Blake, chegando na enseada
de Jurimirim, agora com o nome de Tara. É maravilhoso ver ao vivo e de
perto esses dois barcos fantásticos e históricos, um ao lado do outro.
Encontro raro!
Chegando na ilha da Cotia, descemos na praia. Cruzamos a ilha e
fomos até a prainha do outro lado, onde ficamos uma hora e meia
mergulhando e brincando dentro da água. O Jonas fez quatro ou cinco
barquinhos, usando folhas como velas, e os soltou ao vento.
Levantamos âncora e voltamos para almoçar no bom restaurante de
Jurumirim. Chegamos na marina já quase sem luz do dia. Com a
tripulação afiadíssima, colocamos rapidamente o barco na vaga. Após o
banho, fomos a Parati, onde compramos barquinhos de presente, para
enviar para o Enzo, filho do Luís e da Mariana, que deve nascer em maio.
As crianças brincaram, dizendo que era para fazer a mesma lavagem
cerebral que fizemos com eles quando pequenos. Será que é brincadeira
mesmo?!!
Uma má notícia: outra “paulada” de conta de telefone (resquícios
das contas do mês passado)! Só agora começo a entender as tarifas, a
partir da análise da conta de telefone. Não há um folheto explicativo
destas e o site da operadora tem muitas informações de duplo
entendimento. Se a próxima conta não vier muitíssimo reduzida, tenho
impressão que posso cometer o pecado contra o ambiente marinho de,
68
num acesso de fúria, enviar celular, carregador, manuais e afins para os
peixinhos usarem!!!

Fizemos alterações no uso do celular, que diminuíram nossos


custos violentamente. Deixamos de receber ligações, para não pagar
roaming. Comprei um pacote de transmissão de dados, para usar internet
e voz sobre IP. Quando queríamos ligar para matar saudades,
comprávamos cartões telefônicos. Quando alguém nos fazia ligação local,
eu deixava tocar e retornava a ligação, pois eu tinha trezentos minutos de
ligação local gratuita. Se eu atendesse essa pessoa, pagaria roaming! Os
amigos e parentes sabiam que, para ligar, só em emergências e, mesmo
assim, a ligação tinha que ser rápida.

05/03/2006 - A Rê e a Nishi iam embora. Embarcamos no Fandango com


a Priscila e o Renato, que comemoravam um ano de casados,
manobramos para sair e demos adeus às amigas. Decidimos conhecer a
ilha do Araújo. Paramos no lado abrigado dela, na praia da Tapera.
Conversamos com o sr. Walter, morador da ilha, que nos contou muitos
“causos” dela e de sua família. Também falou de cobras e aranhas do
lugar, o que deixou as crianças com medo. Mesmo assim, encaramos uma
pequena trilha para conhecer um pouco da ilha e descemos até uma
pequena praia. Lá, um grande e simpático cão veio ter conosco e
brincamos com ele um bom tempo.
Saímos em direção à ilha Rasa e, no meio do caminho, encontramos
golfinhos! Após algum tempo vendo os lindos animais, voltamos ao
nosso rumo e comentamos que a Nishi e a Rê teriam gostado de vê-los!
Brinquei, dizendo que encomendei os golfinhos como presente de
aniversário de casamento. Ficamos um pouco na ilha Rasa e retornamos
à marina já com tudo escuro. Na manobra de entrada na vaga do píer,
tivemos um problema com um cabo na água, mas saímos de novo e
entramos corretamente, fora do cabo. O Jonas se saiu muito bem na
manobra complicada! Está um marinheiro e tanto! Tomamos um banho e
lemos as belas mensagens da Pri, do Renato, da Nishi e da Rê em nosso
livro de visitas.

07/03/2006 - Tentei sacar dinheiro em Parati. Nada feito! O caixa 24 hs está


com problemas desde a semana passada e ninguém arruma (aí, o
problema sobra para quem está viajando e precisa do dinheiro!). Como
iríamos visitar os amigos Dimitri, Sirleine, Thaís e Carol em Itamambuca,
estiquei um pouco mais e resolvemos o problema em Ubatuba. Revimos
os amigos e escutamos as histórias da maravilhosa viagem até Trindade,
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de veleiro, que o Dimitri fez há pouco tempo. Essa regata não é
brincadeira: foram sete dias para chegar lá e seis para voltar. Ele correu a
regata no veleiro Kanaloa, um 50 pés de aço do comandante Torres e
levou máquina fotográfica e filmadora digital. Eles chegaram a tempo de
descer na ilha e visitaram-na, colhendo imagens (e recordações)
maravilhosas. Ele fez a edição do filme, de excelente nível, ao mesmo
tempo engraçado, bonito e emocionante. As fotos ficaram maravilhosas,
tanto que ganharam quatro prêmios da organização da regata! Quando
víamos as fotos, chegou o Flávio do Conquest. No meio de muito papo
de vela, viver a bordo, regatas e viagens, fomos chamados à realidade
pela Sirleine, para que jantássemos (se ela deixasse, éramos capazes de
esquecer de comer!).
Após seis horas de papo muito agradável (pareceram 5 minutos!) e
resistindo à tentação do convite para pernoitar na pousada e deixar o
Fandango sozinho (coitado!), nos despedimos e retornamos a Parati,
sonolentos, mas alegres. O engraçado, quando voltávamos para o barco,
foi perceber que eu me sentia mais seguro navegando no Fandango do
que dirigindo naquela estrada à noite!

Uma das minhas preocupações antes de viajar, era com o


relacionamento bancário. Com a internet a bordo e com home-banking
instalado, tudo ficou muito fácil. Eu acompanhava toda a movimentação
de minha conta corrente por ele, pagava algumas contas que não podiam
ser colocadas em débito automático e acompanhava depósitos de
aluguéis. Usávamos muito o cartão de crédito e só necessitamos ir a
bancos ou a caixas 24 horas para sacar dinheiro. Levei um pouco de
dólares que foram úteis em duas cidades onde não havia os caixas.
Encontrei agências do Banespa em todas as capitais e sempre perto
de onde estávamos.

09/03/2006 - Nós convidamos a Berê para um passeio de veleiro e


seguimos ao nosso primeiro destino: a Ilha do Sapê (nome da ilha na carta
náutica, mas apelidada com muito carinho, de “Ilha da Sapeca”). A ilha
pertence à mãe da Berê e ela já foi dona do barzinho da ilha. O lugar é
belíssimo! A ilha, apesar de pequena é muito aconchegante e a Berê nos
levou a todos os cantinhos possíveis da ilha. Ela contou histórias do lugar
e curtimos o lindo visual. Ainda velejamos até a praia do Engenho, em
Jurumirim e retornamos à marina.
Quando anoiteceu, fomos a Parati encontrar a Berê e alguns amigos
dela. Papo vai, papo vem, descobrimos que uma moça que estava

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conosco, Zulmira, é velha amiga do Ladislau e da Thereza! Êta mundinho
pequeno!

10/03/2006 - Três meses de viagem!!! Como passou rápido! E tudo está


andando da melhor forma possível, inclusive o estudo a bordo, que era
um receio meu.
O tempo virou e a cara dele não era das melhores. Para comemorar
os três meses, comprei carne moída, trigo, cebola e hortelã e fizemos um
quibe cru a bordo. O Jonas comeu três pratos!!!

11/03/2006 - Resolvemos pernoitar em Jurumirim. Quando saímos, já


anoitecia e o céu estava encoberto. No meio do caminho ficou escuro, mas
a lua apareceu, criando um “caminho de luz” exatamente na direção em
que seguíamos. Foi maravilhoso! Nossa primeira navegação noturna da
viagem (mesmo curtinha), seguindo a trilha da lua quase cheia, que
criava uma explosão de luz no mar. Ancoramos em Jurumirim e
desfrutamos a paz da lua!

16/03/2006 - Resolvemos voltar até Paraty Mirim de carro, para conhecer


o caminho por terra. A estrada está boa, foi calçada nos piores trechos e o
caminho é lindo. Ela segue ao longo de um belo rio, cheio de pedras e
pequenas corredeiras. Em dois lugares, vimos pinguelas para atravessar
o rio, daquelas que só tendo muita vontade ou nenhum amor à vida para
atravessar. Chegando na praia, tivemos o prêmio: uma praia só nossa,
bem diferente da última vez que estivemos lá. Tomamos um banho de
mar e fomos para o encontro de mar e rio (o rio que acompanhávamos na
estrada é o mesmo que deságua na praia). Lá, tomamos um banho de
água mais doce que salgada e um pouco mais fria. Vimos um pescador
jogando uma pequena tarrafa no local, para pegar manjubas. Ele se
aposentou, comprou um sítio lá e vive naquele paraíso, onde disse não
precisar nem fechar a porta de casa quando sai (que saudades da época
quando nossa Ilhabela também era assim!).
Retornamos à marina e encontrei, em mais uma coincidência, um
conhecido de Ilhabela: o Gregório, que foi dono do veleiro Maravida e do
Pouso do Grego. Gostei muito de vê-lo, disposto e animado.
No final da tarde, fomos à casa da Zulmira, para participar da
reunião de um grupo de leitura, chamado “Garrolê”. Lemos alguns
contos e pedaços de livros. Eles se impressionaram com a leitura do Jonas:
correta e expressiva!

71
9
Superando Sempre

17/03/2006 - Hoje, temos um evento “social” náutico: o aniversário do


Alceu. Pegamos o bote e o motor de popa e nos encaminhamos para a
“prainha”, que fica ao lado da marina do Amyr Klink, para a festa. Essa
praia é muito bonita, tem uma pequena casa e água limpa para banho,
apesar da proximidade de Paraty. O tempo estava maravilhoso, com céu
azul desde cedo. Logo, todos os convidados chegaram, a brasa foi acesa e
a carne e o peixe foram colocados no fogo. Todo o pessoal da marina
(moradores, dono, freqüentadores e marinheiros) é muito “boa-praça”.
Enquanto conversava, senti uma incômoda dor na virilha. Procurei sentar
e ela passou. Contaram-me que essa prainha foi a primeira marina de
Parati e que várias pessoas moravam a bordo no local. Ainda hoje é muito
procurada por velejadores que não podem gastar nas marinas de Parati.
Ao final da festa, retornamos de carona numa escuna, trazendo o bote a
reboque. Ao tomar banho, reparei que havia um “calombo” na região da
virilha, o que me preocupou.
A Lu, o Nelson, o Bira e a Amanda chegaram para passar o final de
semana conosco.

18/03/2006 - Acordei cedo e comprei o Estado de São Paulo, para ver uma
matéria sobre nós no Estadinho. A “notinha” que a Taíssa, jornalista do
Estadinho, me falou que iria sair, se transformou em uma matéria de
página inteira e com várias fotos. Ficou muito legal! Com o jornal na mão,
foi fácil acordar todos.
Logo saímos e a “pedida” para o dia foi velejar. O Nelson está
pensando em fazer curso de vela e acho que curtiu a velejada. As crianças
fizeram “isca de tubarão” e paramos na ilha Rasa para eles conhecerem e
para comermos.
De repente, alguém gritou: “golfinhos!”. Fomos vê-los e eles
passaram bem perto da ilha, caçando e brincando, com vários deles
dando saltos de alegria. Alguns, pequenos, tinham a barriga cor-de-rosa,
o que fez muito sucesso com as meninas. Após o almoço, voltamos ao
barco para tentar encontrá-los e, após quinze minutos a motor, já
começamos a vê-los. Navegamos perto deles até a ilha da Sapeca e
ficamos mais de uma hora vendo, admirando e fotografando os lindos
animais. Os gritos de alegria não eram contidos e isso parecia atrair ainda
72
mais os golfinhos, que se aproximavam. Eles passavam bem perto do
barco e cheguei a ver uns seis, vindo todos, um ao lado do outro, em
direção ao barco, no alto da onda e mergulharem quando faltavam cerca
de dois metros para atingirem o barco.
Foi fascinante e, não fossem algumas nuvens de chuva e raios que
se encaminhavam para nós, vindo da direção de Angra, teríamos ficado
mais tempo.

19/03/2006 - A torcida do dia era achar os golfinhos novamente. Pois não


demorou nada! Acabávamos de passar a ilha da Bexiga e... lá estavam
eles! Vários barcos já os seguiam e não fomos exceção. Mais gritos de
admiração, mais show de golfinhos. As crianças quiseram entrar na água
e, apesar de saber que não iriam ver nada, pois a água estava turva, deixei.
Rebocados pelo barco na escadinha, com as máscaras de mergulho, ele se
revezavam. Não puderam vê-los, mas puderam escutá-los! O golfinho faz
um barulho muito gostoso dentro d’água: agudo, vibrante, que parece
entrar na medula e que mais sentimos do que escutamos. Ficaram
entusiasmados! Ancoramos em Jurumirim, brincamos um pouco e
seguimos para a marina para as despedidas.
À noite, levamos a Lu para ver o show da Andréia Gorgatti, cujo
CD ela havia gostado. Apesar de termos visto seu show já há algum
tempo, ela começou a tocar as músicas que havíamos pedido na ocasião
(“Águas de Março” e “Maresia”) e outras, que percebi serem direcionadas
a nós. Que pessoa atenciosa!

20/03/2006 - Fui tratar do problema que me afligia: o caroço no abdômen,


na região inguinal, com toda a cara de hérnia e que continuava a doer.
Telefonei para o meu irmão, que é médico, fiz os testes que ele me indicou
e constatei que o problema era esse mesmo. Resultado: terei que ir para
São Paulo em breve e me submeter a uma cirurgia para “consertar” a
hérnia ou desistir da viagem. Não precisa nem falar o que eu escolhi, não?
Desconfio que ela apareceu pelo esforço feito para abastecer o barco com
diesel (carreguei os bujões de 10 litros e 20 litros ao mesmo tempo outro
dia). O ponto positivo é que ela apareceu na melhor hora possível:
enquanto estamos perto de Sampa.
À noite, contei para as crianças, que ficaram muito preocupadas. A
Carol, após duas crises de choro, ficou mais tranqüila e acabou dormindo.
Após a tempestade vem a bonança; após a bonança, vem a tempestade!
Esse é o ciclo da vida.

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Leitor, até aqui você já deve ter idéia da importância dessa viagem
para nós e tudo que tivemos que superar para chegar onde estamos. A
Carol, após a perda da Mônica, ficou muito ligada e preocupada comigo.
Quando tenho problemas de saúde, percebo-a sempre inquieta e o medo
de outra perda é muito grande. Ela expressa isso muito bem! O Jonas não
expressa, mas sei que também tem esse sentimento.
Os riscos eram vários. Primeiro e imediato, o risco de vida
decorrente de uma cirurgia, mesmo simples. Segundo, o risco da cirurgia
não dar muito certo e eu não ter condições de prosseguir a viagem de
nossos sonhos. Chegar até Parati, experimentar o “gostinho” de aventura
e de morar a bordo e ter que abortar a viagem, quando realmente iriam
começar as novidades, seria extremamente decepcionante para todos nós.
E terceiro, seguir a viagem e o problema reaparecer no meio do caminho,
agravado, em lugar de difícil acesso.
O primeiro risco, apesar de ser o mais preocupante, foi fácil de
definir: “- É necessário? Então, que seja o mais rápido possível!”. Eu sabia
que não poderia ficar carregando aquela arriscada hérnia inguinal pelo
resto da vida por medo de uma cirurgia, mesmo suspendendo a viagem.
O exemplo recente do dente do siso já fora suficiente! Mas, suspender a
viagem também não estava nos planos, ao menos, enquanto houvesse
esperanças de termos condições de cumpri-la bem. A determinação para
continuar a viagem me levou rapidamente para São Paulo e me colocou
em cima da mesa de operação. E o Dr. César, cirurgião muito bem
indicado, me inspirava confiança. Sei que, quando chega a nossa hora,
não há o que fazer. Pode ser atravessando uma rua, enfrentando uma
tempestade, numa mesa de cirurgia ou dormindo numa cama. E não há
o que temer: finalizado nosso ciclo, partimos. Mas, algo me dizia que meu
ciclo ainda não estava finalizado. Tranqüilizei os meus filhos, deixei-os
nos avós e segui para o hospital.
A recuperação foi lenta, dolorida e preocupante. Nela, foi
fundamental a confiança inspirada pelo Dr. César, dizendo sempre que
tudo estava bem e que a recuperação era assim mesmo. Ele me dizia: “-
Depois de quarenta e cinco dias, vida normal!”. E foi o que aconteceu!
Nessa fase, eu percebia a apreensão das pessoas queridas com
relação à continuação da viagem. Imagino que viviam um sentimento
paradoxal: preocupavam-se de seguirmos viagem após uma cirurgia e,
por outro lado, sabiam o quanto era importante continuarmos. Em
momento nenhum escutei: “- Não é melhor parar?”, nem de meus filhos,
nem de parentes, nem de amigos. Todos eram só incentivos!
O terceiro risco, o problema reaparecer agravado, era o
imponderável, que nunca aceitamos, mas com o qual temos que saber
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conviver. E a convivência com ele não pode ser deixar de realizar
objetivos por medo. Não podemos deixar de atravessar ruas por receio de
atropelamento. Devemos atravessar cada rua que cruza nossas vidas com
todo o cuidado necessário! Os imponderáveis nos cercam, nos
atormentam e, quando acontecem, destroem nossos planos, castelos
construídos carinhosamente. Cuidar para que não aconteçam, não temê-
los, pois senão nosso medo nos paralisará, e ter forças para reerguer os
castelos destruídos quando o imponderável acontece, é a maneira sábia
de lidar com eles. O restante da viagem eu tomaria cuidado para não fazer
esforços excessivos e sempre os faria na posição correta. O risco, eu o
colocaria com todos os outros, doenças, acidentes, problemas financeiros,
etc., numa “caixinha” trancada, numa região de difícil acesso no fundo da
memória.

21/03/2006 a 18/04/2006 - No dia 21, quando eu pretendia seguir com o


barco para o Rio de Janeiro, subíamos cedo para São Paulo. Após um dia
de internação e exames, “entrei na faca” e agora estou em recuperação da
cirurgia, que foi ótima (obrigado, Dr. César!). Aproveitamos para rever
os amigos, comemorar os aniversários do Jonas, do Daniel, da Giulli
(onde ri tanto que quase arrebentei os pontos), ver o casamento da Magali
e passar a Páscoa em família. Estou hospedado na casa do meu pai e as
crianças estão nos avós maternos, todos nós curtindo mimos e carinhos
de pessoas muito queridas. O Fandango está na marina Refúgio das
Caravelas, sob os cuidados de gente amiga, que está sempre nos
mandando notícias (obrigado, amigos, principalmente à Edna e Peter do
Tararaína e ao Nonoco).
Nossa viagem deverá ter seu cronograma atrasado em um mês e
meio, para minha completa recuperação. O engraçado é que eu tinha uma
folga de cronograma de exatamente um mês e meio, para “esticar”
permanência nos lugares que mais gostássemos. Foi-se a folga, mas com
a perda dela, aumentaremos as chances de encontrar baleias em Abrolhos
e estaremos em Búzios num mês ainda melhor para cruzar o cabo de São
Tomé. Planejar e replanejar: esta é a vida do ser humano!
Difícil foi a nova despedida! Depois de tanto tempo, sob os
cuidados e carinhos de meu pai, da Sãozinha, do Celso, da Luciana e a
atenção dos amigos que ligavam sempre para saber como eu estava e
marcando encontros, dar outro “até breve” foi reeditar a difícil partida do
dia 10 de dezembro. Mas o Fandanguinho nos esperava e a viagem
precisava ser retomada.
O melhor ainda está por vir!

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Convalescença em Parati

19/04/2006 - Fizemos uma ótima viagem ontem. Dirigi as cinco horas que
separam Parati de Sampa, sem problemas com a região da cirurgia. Mas
hoje, o corpo reclamou um pouco. Dormi até tarde e o local da cirurgia
doía. O Fandango estava perfeito, como nós o deixamos!
Retomamos a leitura do “Cem Dias entre Céu e Mar”, que
interrompemos quando fomos para São Paulo. É bom estar de volta!

22/04/2006 - Após três dias “de molho”, fomos ao grande teste: soltamos
do píer, levantamos âncora e seguimos para Jurumirim. Levantar a
âncora foi um problema! Como eu não podia fazer força, usamos a catraca
da genoa para isso. Mas, como o cabo da âncora havia ficado muito tempo
dentro da água, criaram-se muitas cracas, que subiam trazendo mau
cheiro, muito lodo e se estraçalhavam quando passavam na catraca. Foi a
maior sujeira!
Mesmo assim, felizes por sairmos da marina depois de um mês em
Sampa, seguimos para Jurumirim, deixando para limpar o barco lá. Notei
que o rendimento do barco estava ruim a motor e havia muita trepidação.
Poderia ser um cabo enroscado no hélice ou muitas cracas incrustadas
nele. Paramos antes da ilha da Bexiga e mergulhei para ver o que estava
acontecendo. O hélice estava abarrotado de cracas! Como o vento estava
bom, fomos velejando e deixei para limpar o hélice em Jurumirim, com a
água mais limpa.
A velejada estava deliciosa e brincamos de regata com um Fast 360,
que estava ao lado. Fiquei contente comigo mesmo: conseguia fazer tudo
que precisava a bordo, mesmo evitando os esforços maiores. Chegamos
em Jurumirim e fomos todos para a água. Que delícia, depois de tanto
tempo!!! Comecei a limpar o fundo do barco e a Carol entrou na dança,
ajudando muito. Aliás, antes de irmos para a água, ela lavou e esfregou
todo o cockpit sujo pelas cracas!
Chegou um veleiro com o nome de Toatoa, ao nosso lado. Ele tinha
uma bassetzinha e as crianças ficaram ouriçadas para brincar com ela. O
dono do barco entrou no bote e ela entrou junto! Quando chegou ao nosso
lado, reconheci o Fan, conhecido de Ubatuba de muito tempo e que
também correu várias regatas no Carapau, de um amigo nosso. Batemos
um papo e ele nos convidou para visitar o seu barco, um Jeanneau 45 pés
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maravilhoso! Conhecemos sua simpática esposa, Harumi, a Filó
(bassetzinha) e o Zehn (que será o novo nome do Toatoa). Conversamos
muito e comemos um sanduíche de forno, que a Harumi fez e que espero
aproveitar a receita.
Voltamos ao barco debaixo de uma garoa gostosa que embalou
nossos sonhos. E eu estava muito feliz! Tudo estava dando certo em
minha recuperação final, inclusive velejar e mergulhar!

23/04/2006 - Acordei como gosto: com um banho de mar assim que


levanto! O Fan e a Harumi vieram com a Filó. Após conhecerem o
Fandango (que parece uma favela perto do barco deles!), conversamos no
cockpit e eles assinaram nosso livro de visitas. Pouco tempo depois,
apareceu o veleiro Aldebaran, de amigos do Fan e da Harumi. O casal do
Aldebaran (nome de estrela) veio ao nosso barco e eles também deixaram
uma mensagem no livro. O poeta-desenhista Fan aproveitou os nomes
dos barcos para deixar a mensagem: “Queridos Sérgio, Jonas e Carol: que
vocês possam curtir cada dia desta fantástica aventura ao ritmo Fandango,
curtindo de forma Zehn cada momento e que a estrela Aldebaran lhes acompanhe
cada noite”.
Chegando o meio da tarde, todos retornaram aos seus barcos e
seguiram para as marinas, para voltar a São Paulo. Nós ficamos curtindo
a liberdade de não ter compromissos!

24/04/2006 - Levantamos bem cedo e seguimos para a marina. Ficou muito


bom e fácil levantar âncora com a catraca da genoa! As crianças a sobem
facilmente! Fomos a Parati e encontramos o Roni, primo da nossa amiga
Danielle, que estava com dengue. A epidemia está enorme!
Demos uma passada na Marina do Engenho, para ver se o pessoal
do Trawler Jade, com quem trocáramos e-mail’s, estava por lá ainda.
Demos sorte: eles esticaram um pouco a permanência em Parati e
conseguimos nos encontrar e nos conhecer pessoalmente. O Dadi, a
Denise e a Kika (sua linda cachorrinha) foram muito simpáticos conosco.
Conhecemos seu lindíssimo barco e conversamos bastante, trocando
informações sobre telefonia celular. Quando saíamos de lá, encontramos
o Rodrigo, dono do barco Cavalo Marinho, que está viajando também.
Provavelmente, nos reencontraremos em outros lugares. Voltamos à
marina e encontramos o veleiro Sagüi na ponta do píer e, pouco depois,
a Ana, velejadora conhecida nossa. O impressionante, nessa seqüência de
encontros, é que tanto a tripulação do Trawler Jade quanto a do Cavalo
Marinho foram-nos “apresentados” pela Heloísa Schürmann. O Sagüi foi
o segundo barco deles e a Ana eu conheci trabalhando num dos eventos

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dos Schürmann. Tudo na seqüência, num intervalo de duas horas. Acho
que eles estão pensando em nós e torcendo pela continuação de nossa
viagem!
Às sete e meia, pegamos o Dadi e a Denise na Marina do Engenho
e fomos a Parati jantar. Pedimos uma lula recheada à moda da casa, que
estava deliciosa. Conversamos muito, as crianças contaram um monte de
“histórias”, falamos de nós e soubemos um pouco do Dadi e da Denise,
que têm planos de fazer uma belíssima viagem. Passamos uma noite
muito gostosa e voltamos cantando MPB para a Marina do Engenho (a
Denise adora cantar também!), muito mais tarde do que prevíamos.

26/04/2006 - O telefone tocou cedo: era o Dadi, nos avisando que


poderíamos visitar o Parati 2, se fôssemos rápidos. Chamei as crianças e
elas pularam da cama. Elas se arrumaram rapidamente e nem café
quiseram tomar!
Fomos para a marina do Engenho e, lá chegando, encontramos o
próprio Amyr no píer! Conversamos rapidamente para não atrapalhá-lo
e pedimos um autógrafo no nosso exemplar de “Cem Dias entre Céu e
Mar”, que leváramos. Muito simpático, ainda perguntou sobre nossa
viagem. Depois, visitamos o fantástico Parati 2. Barco sem frescuras, com
tudo para o conforto de seus habitantes, extremamente forte e bem
equipado, é um colírio para os olhos de quem gosta de veleiros. Os
números impressionam: trezentos quilos de âncora, dois mastros
independentes de trinta metros de altura confeccionados em fibra de
carbono, cem metros de corrente grossa, cabos de ancoragem e atracação
muito grossos, oficina completíssima, mesa de navegação com vários
equipamentos reservas, etc. E tudo muitíssimo bem organizado. O Flávio
foi muito simpático conosco e, mesmo ocupadíssimo, fez questão de nos
acompanhar pelo “tour” ao barco, mostrando e explicando tudo sobre ele.
Tiramos várias fotos (só esqueci de tirar uma com o Amyr - êta cabeça
fraca!). Saímos do Parati 2 impressionados e o Jonas com um sorriso bobo
na cara (ele adora veleiros!).
O Dadi e a Denise vieram conhecer o Fandango. Mostramos nossa
pequena “casa”, que parece uma barraca de camping, comparado ao
lindo barco deles. Eles deixaram sua mensagem no nosso livro de visitas
e ficamos de manter contato.
Lemos o último capítulo, do agora autografado livro “Cem Dias
entre Céu e Mar”, meu favorito do Amyr Klink, do qual, tomo a liberdade
de extrair um parágrafo da última página: “Na quietude daquela noite, a
última, ancorado no infinito sossego da Praia da Espera, sonhando com os olhos

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abertos e ouvindo outros barcos que também dormiam, descobri que a maior
felicidade que existe é a silenciosa certeza de que vale a pena viver.”

01/05/2006 - Arrumamos as coisas para zarpar e fiquei conversando com


o Sérgio e a Eliana, enquanto as crianças brincavam com a Déborah na
piscina. Despedimo-nos dos funcionários, que foram sempre muito
atenciosos conosco (obrigado Sander, Rodrigo, Nonoco e Valéria!), e dos
amigos que fizemos na marina. Guardaremos com alegria o carinho de
todos!
O plano era seguir direto para Ilha Grande, mas o barco estava tão
sujo com o lodo que subiu na âncora, que paramos em Jurumirim para
limpá-lo. Enquanto eu e o Jonas limpávamos o convés, a Carol fez um
risoto com azeitonas, que estava delicioso. Aproveitamos o pôr-do-sol
espetacular e vimos o filme do Amyr Klink “Mar Sem Fim” (é fantástico
vê-lo em plena baia de Jurumirim!).
Como é bom estar retomando novos caminhos!

02/05/2006 - Acordamos cedo, com um dia muito bonito e fui direto para
a água tomar o banho de mar matinal. Saímos às dez e meia com destino
a Ilha Grande, instituindo turnos de uma hora. O Jonas foi o primeiro e
pegou um ventinho fraco de proa. No segundo turno, a sortuda da Carol
pegou um vento de través maravilhoso, que saía do saco do Mamanguá,
sinal de frente fria entrando. Ele nos obrigou a rizar a mestra e enrolar
um pouco a genoa. Foi uma velejada deliciosa, mas que durou apenas
vinte minutos. O vento enfraqueceu, tiramos o rizo e, quando chegou a
minha vez, estava muito fraco. Comecei a ver “carneirinhos” ao longe e,
pouco depois, o vento apertou. Começamos a velejar muito rápido,
obrigando-nos a enrolar a genoa e soltar bem a mestra. Depois de uns
vinte minutos de excelente velejada, com o mar engrossando e tendo que
fazer muita força para segurar o barco sempre que entrava uma onda na
popa, achei melhor rizar a mestra novamente. Eu sempre diminuo a
mestra diretamente para o segundo rizo, e aí manipulo o tamanho da
genoa, que é fácil com o enrolador, conforme o vento apertar ou diminuir.
O vento aumentou mais um pouco e o mar também (depois fiquei
sabendo que em Ilhabela a balsa parou!). Quem acabou se divertindo para
valer, batendo recordes de velocidade (chegamos a 10,5 nós numa
surfada!) foi o Jonas. Em quatro horas, mesmo pegando vento fraco em
boa parte da viagem, chegamos a Sítio Forte e ancoramos na frente do bar
do Lelé, onde batiam rajadas fortes de vento, mas que não eram nada em
comparação à entrada da frente fria que pegamos e que nos empurrou
maravilhosamente para a enseada. Após a arrumação do barco, pois

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várias coisas caíram ou saíram dos seus lugares, fiz um risoto de carne
seca, azeitona e milho, que ficou delicioso.
À noite recebemos uma visita inesperada: os gansos “estressados”,
que atacaram a Carol da outra vez, vieram nadando até o barco pedir
comida. Ficaram grasnando à popa do barco até resolvermos dar alguns
pedaços de pão para eles. Com isso, juntou um grande número de peixes
embaixo do barco, que víamos com a lanterna. Quando apagávamos as
lanternas, víamos uma grande fosforescência da ardentia, causada pelo
movimento dos pés dos gansos e pelo movimento dos peixes. Quando os
gansos foram embora (tivemos que apagar tudo para eles pararem de
pedir comida!), li para as crianças um pouco do livro “Do Rio à Polinésia”
e dormimos com o barco todo fechado pela primeira vez, pois estava um
pouco frio.

03/05/2006 - Seguimos para a vila Abraão velejando, entramos na enseada


e ancoramos. Como já faltava uma hora para escurecer e eu queria
mostrar a cidade para as crianças de dia, fomos para a praia. Deixamos o
bote lá (recomendaram que levássemos os remos conosco – mau sinal!) e
andamos pela beira-mar. Mostrei para as crianças os cantinhos bonitos do
Abraão e fomos até um píer novo, que permite parada de até 15 minutos
para embarque e desembarque. Ele é muito útil para quem quer
abastecer, principalmente porque há um mercadinho na entrada do píer.
Encontramos uma sorveteria chamada “Boca Gelata”, que tem salgados
maravilhosos e um sorvete de framboesa como nunca comi.

06/05/2006 - Ontem fomos buscar a Lu e a Mô em Angra, que vieram


passar uns dias conosco. Elas não deram sorte: o dia amanheceu feio e
chuvoso. Aproveitamos para dormir até tarde e descansar. Eu e a Lu
resolvemos pescar e pegamos sete peixes pequenos. A isca? Queijo
mussarela meio velho que não tive coragem de servir no café da manhã.
Na praia, limpei o peixe, passeamos e desfrutamos a tranqüilidade do
lugar.
À noite, após jantarmos peixes fritos, assistimos o documentário
sobre a última viagem de Amyr Klink: a circunavegação do continente
Antártico a bordo do Parati 2. O documentário é ótimo e foi legal termos
conhecido pessoalmente três dos cinco integrantes da viagem: o Amyr, o
simpático Flávio, que nos mostrou o Parati 2 e o Junior, irmão da Berê.

07/05/2006 - Seguimos para um lugar do qual eu escutei falar muito, mas


não conhecia: as ilhas Botinas. Lá havia poucos barcos: demos sorte! O
lugar é belíssimo para mergulhar. Água muito clara, fundo de areia com
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pedras e muita vida marinha. De mais interessante, vimos um grande
baiacu de espinhos (cujo rabo comecei a puxar – ele não foge! –,
conseguindo trazê-lo até perto da superfície nessa brincadeira!), uma
pequena tartaruga, que deu um show passeando entre nós e quatro
chocos, “parentes” da lula, muito bonitos e grandes (um devia pesar perto
de um quilo!).
Na volta ao barco, após o belo mergulho, fui presenteado por
Iemanjá, encontrando mais uma máscara de mergulho com snorkel.
Deixamos as meninas em Angra, com uma longa despedida, sabendo
que, daqui para frente, os encontros serão menos freqüentes (o coração
fica apertado nessas horas!).
Retornamos para pernoitar no Saco do Céu. Velejamos numa orça
apertada até nosso destino. O vento apertou quando chegamos perto da
enseada das Estrelas e rizamos a genoa. Entramos no Saco do Céu e o
vento parou na hora! Nada como um lugar muito abrigado para dormir
sossegado!
Fui fazer nosso jantar e, milagrosamente, o Jonas quis experimentar
requeijão no risoto. Adorou! Depois de tantos anos tentando fazê-lo
comer requeijão, finalmente conseguimos. Nada como um bom tempero
para isso: a fome!

Imagine uma enseada protegida no lado abrigado de Ilha Grande,


chamada enseada das Estrelas. Convidativo, não? Agora imagine, dentro
dessa enseada, uma enseada muito menor, chamada Saco do Céu! Porque
Saco do Céu? “Saco” é a denominação dada às enseadas muito pequenas
(as grandes se chamam baías). “Do Céu” porque, nas noites calmas e
estreladas, o mar fica tão liso que você vê o céu totalmente refletido no
mar.

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A Caminho do Rio

08/05/2006 - Subimos num mirante, atrás do restaurante Reis e Magos, de


onde se enxerga todo o Saco do Céu. A vista é lindíssima!
Saímos do Saco do Céu, com destino à enseada de Palmas, para
seguir viagem para o Rio. Fui relembrar às crianças como mexer com o
piloto automático e ele não quis funcionar de jeito nenhum. Paramos em
Abraão para tentar consertá-lo. Desmontei o “Jarbas”, mexi, raspei,
chacoalhei e nada. Após muita briga, desisti e resolvemos encarar as
horas seguidas no leme. A ansiedade de chegar ao Rio estava grande e
saímos às cinco e meia da tarde, para poder ver bem a saída durante o
dia. Logo escureceu e começamos os turnos. O Jonas e a Carol quiseram
fazer o primeiro, mas, como começou a chover forte, eu assumi. Mandei
o Jonas descansar e a Carol ficou conversando comigo, embaixo do dog-
house. A chuva persistiu por duas horas e o mar e vento entravam na
cara. Mesmo assim andávamos bem. Quando já me acostumava com a
idéia de ter uma noite horrível e xingava a meteorologia, o tempo
começou a melhorar: parou de chover, clareou e o vento torceu o
suficiente para velejarmos uma hora. Depois, o vento ficou muito fraco,
liguei o motor e mantive as velas, que ajudavam muito o andamento do
barco. Aos poucos, deixamos a magnífica baía de Ilha Grande para trás.

Nesse trecho, estreávamos nossos cintos de segurança. Esse


equipamento, que as normas não obrigam, é de fundamental importância
em travessias. Criamos três regras: com mau tempo, todos ficam de cinto;
se alguém fica sozinho no cockpit, fica de cinto; à noite, sempre de cinto.
Os equipamentos de segurança obrigatórios incluem vários itens para
ajudar um tripulante que cai no mar. Eu penso que a grande segurança é
não cair no mar, pois um resgate sempre é difícil, ainda mais à noite.
Tínhamos três cintos de segurança, dois deles presentes do amigo Luís
Puig, de Ilhabela. Foi o presente mais importante que ganhamos!

09/05/2006 - Aos poucos, começamos a encontrar navios e barcos de pesca.


Vimos o lindo litoral iluminado do início do Rio de Janeiro e entendi,
perfeitamente, o problema que alguns navegantes passavam com a
Restinga da Marambaia. Vê-se o litoral de Mangaratiba, muito longe, por
trás da restinga e temos a tentação de chegar mais perto de terra. No meio
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do caminho, há a restinga para se encalhar. Velejadores solitários e
antigos navegantes devem ter tido muitos problemas aí, antes da “era
GPS”.
Tirei rápidas sonecas no cockpit, ao lado das crianças, para
descansar um pouco. Ia fazendo a navegação e, uma certa hora, o GPS
não conseguiu pegar os sinais dos satélites. Tentei ligar o GPS reserva e
este se recusou a funcionar! Ainda bem que o GPS principal voltou a ter
sinal. Foi a travessia do “motim dos eletrônicos”! E ainda fez valer o
ditado: “No mar, quem tem um não tem nenhum, quem tem dois tem um”.
Quando nos aproximamos do Rio, o sono passou, em virtude do
grande movimento de pesqueiros na região (vimos uns quarenta ou
mais!) e também pela beleza do litoral do Rio de Janeiro, todo rendilhado
de luzes das ruas, dos prédios e das praias. Eu fazia a navegação com
todo cuidado e isso foi ótimo, pois uma montanha muito parecida com o
Pão-de-Açúcar me enganou num determinado momento, dando a falsa
idéia que devíamos aterrar antes da hora.
Quando faltavam quatro horas para chegarmos, diminui o motor.
Estávamos bem adiantados e não valia a pena chegar cedo demais: ficaria
mais difícil entrar à noite, sem conhecer o lugar e ainda perderíamos o
nascer do sol no mar. Isso foi ótimo: fomos premiados com um lindo “pôr-
de-lua”, de um alaranjado muito intenso e ainda vimos o dia nascer e
iluminar o Pão-de-Açúcar, quando entramos na baía da Guanabara.
Recordei-me da música: “O Rio de Janeiro continua lindo...”. Lindo não,
MARAVILHOSO! – ao menos visto do mar.
Nos dirigimos ao Iate Clube do Rio de Janeiro, que fica ao lado do
Pão-de-Açúcar e do bondinho. Que lugar! Nosso primeiro porto
“desconhecido” e de uma beleza incrível! Quando chegamos ao píer, já
encontramos um conhecido: o Luis Francisqueti, popular “Ligado”, de
Ilhabela! Levamos o barco para a poita e tomamos café.
Apesar de cansados, a excitação de estar no Rio era muito grande.
Não queríamos parar! Fomos ao clube e a primeira coisa que fizemos foi
tomar um banho quente! Esse é um dos prazeres da vida que toma outra
dimensão, depois de tomarmos banho de mar frio por algum tempo.
Passeamos pela redondeza e fomos ao bondinho do Pão-de-Açúcar para
pegar informações. Seguimos passeando pela Urca, retornando ao clube
para pegar o barco que nos levaria para o Rio-Boat Show.
No Rio-Boat, vimos o píer dos cruzeiristas, com os barcos
conhecidos: Rapunzel, Guardian, Kanaloa, Plâncton, etc. Seguimos para
lá, parando para conhecer um lindo Beneteau de 43 pés no caminho.
Quando chegamos, encontramos o comandante Torres, do Kanaloa.
Conhecemos o barco e sua simpática esposa, trocamos telefones e fomos
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convidados para as palestras do dia seguinte. Saímos do barco e
conhecemos o simpático e brincalhão João Sombra. Ele fez mágicas para
as crianças, que adoraram e ficaram curiosas com elas.
Tivemos que correr ao stand da Regatta, para tentar resolver nossos
dois problemas eletrônicos: GPS e piloto automático. O GPS está numa
superpromoção e reservei um. Quanto ao piloto, os preços estão muito
caros, mas ficaram de dividir em dez vezes sem acréscimo.
Na volta, encontrei o amigo Bira, da Marine Express, uma moça que
corria no Armação e conhecemos o Jefferson da Nautos. Muito simpático,
ele se ofereceu para conseguir um lugar para nós na marina da Ilha do
Paquetá.
Queríamos andar mais pela feira, mas o barco para voltar ao clube
tinha horário certo e eu estava acabado pelas quase quarenta horas
acordado, pois só descansei dois trechos de meia-hora na travessia.

Essa parada no Rio foi especial. Foi o primeiro porto desconhecido


para nós. Pela primeira vez, estávamos nos sentindo fora de casa. Eu
havia pensado em não parar no Rio, por falta de segurança. Ao contrário
do que eu havia imaginado, nos sentimos sempre seguros e ficamos
impressionados com a beleza tão cantada do lugar. Foi uma parada linda!
Linda como o Rio!

10/05/2006 - Há cinco meses zarpamos de Ilhabela! Comemoramos


conhecendo o Pão-de-Açúcar, subindo até o alto de bondinho. A Carol
estava louca para fazer este passeio! A vista é maravilhosa! Vê-se toda a
baia da Guanabara e todo o lado de mar aberto. Mostrei para as crianças
as ilhas por onde passamos e conseguimos ver o Fandango lá de cima.
Após vermos a paisagem, as lojinhas e as engrenagens dos
bondinhos mais antigos (precisava ter coragem para entrar neles
antigamente!), encontramos um grupo de uns oito sagüis super dóceis,
que vieram comer frutinhas na mão da Carol! Eles deram um show!
Almoçamos e fomos direto para a Escola Naval, para conhecê-la.
Não pude entrar, pois cometi a gafe de ir de bermuda! Saímos andando
muito rápido até o aeroporto para tentar comprar uma calça. Só
encontramos uma calça de capoeira com a bandeira do Brasil na bunda,
que achei de muito mau gosto, além de ainda correr o risco de ser preso
por aquela calça! Atravessamos, fomos até o centro e lá achei um camelô
com uma calça decente, que eu podia colocar por cima da bermuda.
Voltamos e começamos a visita com uma hora e dez de atraso, faltando
pouco para eles encerrarem o expediente.

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Mesmo assim, atrasados e com as pernas doendo, o soldado Kaslley
nos recebeu muito bem, mostrou as instalações da escola, falou um pouco
sobre como se tornar aluno dela e como é a vida dos estudantes. Mostrou-
nos o lugar onde foi celebrada a primeira missa completa do Brasil, que
fica dentro da escola e passamos num corredor com grossas portas de
madeira, que era uma prisão antigamente. Uma curiosidade é que a
Escola Naval do Rio de Janeiro foi a primeira escola de ensino superior
do Brasil. Vimos os belos veleiros da Escola Naval que correm regatas e
encerramos nossa visita.
Próxima parada: Rio-Boat Show! Chegando lá, vimos mais alguns
belos barcos em exposição e encontramos o Pêra, da “Pêra Náutica” (ex-
BL3 da Guarapiranga), onde o Jonas “navegou” num simulador de vela,
muito bom para dar cursos. Compramos o nosso novo substituto do
Jarbas, um GPS auxiliar novo e uma manilha de engate rápido para o
cinto de segurança da Carol. Encontramos ainda o Nestor Volker, famoso
projetista naval e falamos rapidamente com ele.
Quando estávamos retornando, fomos até a ponta do píer dos
cruzeiristas e tivemos uma grata surpresa: encontramos o Ricardo e a
Glória do “Tao”. Que encontro gostoso! Eles estão bem, mas o Ricardo
me mostrou uma queimadura na mão, provocada por lançamento de
álcool, fazendo um churrasco a bordo (eu tenho que tomar muito cuidado
também). Conversamos bastante no tempo curto que tínhamos para
pegar o barco de volta ao Iate Clube. Conhecemos o Marçal e a Eneida
Ceccon, do Rapunzel, que falavam com o Ricardo.

11/05/2006 – Após vários trabalhos na manhã, fomos para o clube,


tomamos banho e esperamos nosso amigo Guido, que conhecemos em
Jurumirim. Guido nasceu na Argentina, se apaixonou pelo Brasil, por
uma carioca e aqui veio morar. Os dois têm o sonho de um dia poder sair
viajando pelo mundo de barco. Ele nos levou para almoçar no Museu de
Arte Moderna com a Priscila, que trabalha lá. Os dois são simpaticíssimos
e adoram mar. Aproveitamos e conhecemos o museu. Uma das obras era
uma parede branca cheia de baratas de plástico coladas. O Guido fechou
os olhos da Carol e eu os do Jonas. A Carol, mais esperta, não chegou
muito perto antes de abrir os olhos. O Jonas foi até pertinho da parede e,
quando eu tirei a mão de seus olhos, tomou um ligeiro susto, mas se
recuperou rápido. Demos boas risadas e seguimos para o carro, para
continuar o passeio.
O objetivo final era o Cristo Redentor. Saímos e em pouco tempo
estávamos no meio da vegetação, subindo uma serra cheia de curvas,
onde em cada uma delas vislumbrávamos lindas paisagens do Rio.
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Chegamos à Vista Chinesa e paramos para fotografar. Belíssima
paisagem! Um pouco mais e chegamos no Cristo Redentor. Estava
ventando muito e subimos as escadas, aproveitando a vista em cada
curva.
Quando chegamos ao Cristo, a vista era impressionante! Trezentos
e sessenta graus de vista aérea do maravilhoso Rio de Janeiro, que é um
cartão postal! Reconhecemos as ilhas por onde passamos (Tijucas e
Cagarras), Iate Clube do Rio (o Jonas jura ter visto o Fandango lá de
cima!), Maracanã, Ponte Rio-Niterói, etc. Havia muitos turistas
estrangeiros, vendo e fotografando.
Olhar o Cristo é impressionante! Sentimo-nos minúsculos aos pés
Dele. É lindíssimo ver as nuvens passando atrás e por cima dele, dando-
nos a impressão que se move em nossa direção. Não sei se o artista tinha
essa intenção ao projetar o Cristo, mas, sem dúvida, foi uma das visões
mais espetaculares que tive até hoje. Pena que as crianças estavam
sentindo frio e tivemos que descer logo.
A proximidade da natureza, belezas naturais e praias, tornam o Rio
um lugar muito agradável para morar e passear. Ainda mais, gozando da
hospitalidade Argentina!

13/05/2006 - Acordamos bem cedo, com muitas coisas para fazer.


Trocamos o óleo de motor, o filtro de óleo e o filtro de diesel. Consegui
fazer tudo sem fazer muita sujeira (o que não é fácil!). Aproveitei para
mostrar e explicar às crianças como fazer isso e os princípios de
funcionamento de um motor a diesel.
À tarde, saímos para fazer uma visita ao navio capitânia da Marinha
do Brasil: o Porta-Aviões São Paulo. Uma palavra resume a visita: FAN-
TÁS-TI-CA!!! Chegamos ao lado do navio e já nos esperavam no alto da
escada. Ficamos impressionadíssimos com as dimensões de tudo, só
olhando de baixo. Subimos e fomos conduzidos pelos espaçosos
corredores do navio, passando por muitas portas abertas, daquelas que
lacram a passagem, até uma sala grande e confortável, com um aquário e
uma grande televisão. Logo chegou o Tenente De Paula, que nos
mostraria o navio. Muito simpático, nos presenteou com bonés e falou um
pouco sobre as dimensões principais do navio: 266 metros de
comprimento, 9,5 metros de calado, mais de sessenta metros de altura
acima da linha d’água, até o alto da torre principal, boca de mais de 50
metros! Outros detalhe interessante é que apenas 11 marinhas do mundo
têm porta-aviões. Dessas, apenas três tem aviões lançados por catapultas,
que é o caso do Porta-Aviões São Paulo. As outras, têm aviões especiais,
que sobem verticalmente. Quando em operação, ele leva duas mil pessoas
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em seu interior. Fico imaginando o trabalho de logística para abastecer
esse barco para uma viagem! Deve ser uma loucura. Como engenheiro
fiquei admirando a impressionante obra-prima de engenharia naval e
mecânica: os imensos elevadores para subir e descer os aviões e
helicópteros até o hangar (que é um convés inteiro separado!); as
catapultas, que são grandes “estilingues” para lançar os aviões de mais
de 10 toneladas; um fortíssimo guindaste móvel que pega qualquer
equipamento que esteja interrompendo a pista e o leva para onde quiser;
o próprio navio, com suas dimensões absurdamente grandes e milhares
de cabos, tubulações e conexões, todas de fácil acesso e identificadas, mas
que, mesmo assim, devem deixar maluco qualquer engenheiro de
manutenção.
Foi muito instrutivo ver a preocupação com a organização e
segurança a bordo. Existem equipamentos de segurança espalhados por
todo o navio e verdadeiras baterias de combate a incêndio nos lugares
principais, onde eles podem ocorrer. Vários cartazes de segurança
estavam espalhados por todo o navio, me lembrando uma fábrica.
Realmente, impressionante!
Começamos a visita pela Praça D’Armas, ou restaurante. Ele tem
esse nome porque, antigamente, as pessoas não podiam entrar armadas
nesse local e deixavam as armas na entrada. Daí veio a denominação
“Praça D’Armas”, muito antiga, mas até hoje usada (tradição é uma coisa
que não se perde na Marinha!).
Vimos um desenho engraçado num quadro, com a figura de Obelix
em pé, em cima do porta-aviões, arremessando aviões. Obelix era o
símbolo deste porta-aviões na França, onde ele foi construído.
Subimos mais alguns andares e entramos no hangar. Não havia
nenhuma aeronave no local, o que aumentou ainda mais a impressão de
grandes espaços. Duas tabelas de basquete chamaram a atenção do Jonas
e nosso anfitrião explicou que também jogavam futebol e faziam outros
esportes ali dentro. Desse hangar, dois elevadores imensos sobem os
aviões para decolagem.
O próximo ponto de visitação foi a pista de pouso e decolagem, de
onde descortinamos uma maravilhosa vista da baía da Guanabara, vista
“de cima”. Um petroleiro passou perto e foi engraçado saber que eu
estava embarcado e vendo-o de cima, para variar! O tenente explicou
cada item importante: como param os aviões que descem (ele brincou
dizendo que, na verdade, eles são um grande gancho onde colocaram um
avião por fora), pegando cabos que ficam na pista que seguram o avião;
grandes painéis, defletores do jato do avião, que são levantados atrás

87
dele; buracos gradeados no chão, usados para amarrar tudo que estiver
solto (aviões, helicópteros, etc.) enquanto se navega.
Subimos para o passadiço ou ponte de comando. Dezenas de
instrumentos de navegação e também de uma torre de controle de aviões
disputavam espaço no local. Sim, o navio tem que ter uma torre de
controle de pouso e decolagem, pois é um aeroporto também (o tenente
brincou, dizendo que o navio “não é uma pequena cidade, mas sim uma
grande cidade, pois tem até aeroporto”).
Achei engraçado o timoneiro do navio ficar “cego”, ou seja, não tem
visão nenhuma do que está acontecendo fora. Apenas segue ordens da
direção a seguir, dadas por quem está comandando o navio, num grande
tubo acústico.
Na seqüência, fomos à sala do COC (Comando de Operações de
Combate) e vimos as várias mesas que controlam todo o navio em
situação de combate (como o tenente disse, o “cérebro do navio”).
Diversos instrumentos, controlando o céu, a superfície do mar e as suas
profundezas, estavam organizados ali, coisa que só vimos em filmes.
Pena que o tempo era pouco para ver mais coisas, mas, segundo o
comandante Américo, que agendou para nós a visita, poderíamos ficar
uma semana andando pelo navio e não conheceríamos tudo. Fiquei
impressionadíssimo com a instituição Marinha do Brasil, pela
organização, cuidado e seriedade com que trabalham os seus homens,
além da qualidade dos equipamentos.

14/05/2006 - Hoje é dia de conhecer a famosa ilha do Paquetá. Fechei nossa


conta no clube e aproveitei para elogiar o serviço de táxi-boat. Foi sem
dúvida o melhor que vi até hoje! Sempre esperamos muito pouco e os
rapazes que fazem o transporte foram sempre muito atenciosos. Junte
ótimo serviço, ótima localização e ótima estrutura e aí está um dos
melhores (senão o melhor) clube náutico do país.
Retornamos ao barco, içamos vela e às nove horas saíamos para a
ilha do Paquetá, deixando para trás o Pão-de-Açúcar, o Cristo Redentor e
a lindíssima enseada de Botafogo. Batizamos nosso novo piloto
automático com o nome Alfredo (Jarbas está de quarentena e irá para a
assistência técnica assim que eu puder enviá-lo). Velejamos pela baia da
Guanabara, infelizmente maculada pela sujeira ao longo dela toda.
Passamos embaixo da imensa ponte Rio-Niterói (outra maravilhosa obra
de engenharia) e fizemos a navegação com cuidado, pois há muitas
pedras no local.
Chegamos à ilha eram onze e meia, tendo velejado o tempo todo.
Encostamos o barco ao píer e fomos até a secretaria do agradável Iate
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Clube do Paquetá. Não nos exigiram nada de documentos, somente nos
disseram para nos sentir à vontade no clube e aproveitar bem a ilha.
Saímos para conhecer o lugar. Parecia que tínhamos voltado no
tempo! Fomos até o píer das balsas, que é ao lado do clube e pegamos
uma charrete, pois na ilha não trafegam veículos automotores. O
Guilherme, dono da charrete, nos levou por um passeio de uma hora
mostrando todos os lugares turísticos. Passamos por um parque bem
bonito, pela praia da Moreninha (do livro de Joaquim Manoel de Macedo)
e casa de José Bonifácio.
Como as crianças leram “A Moreninha” há pouco tempo e este se
passa numa outra época, muito romântica, talvez tenham estranhado e se
decepcionado com algumas coisas. Fiz questão de frisar que já se
passaram muitos anos desde que foi escrito. Mas a ilha é muito bonita e
vale a pena ser visitada. Poderia estar mais bem conservada e a baia onde
ela se encontra deveria ser mais limpa, mas mesmo assim valeu a visita.
Realizei meu sonho de criança, que era conhecer o lugar onde meus pais
passaram a lua-de-mel e relembrei muitas histórias que minha mãe
contava.
Pegamos uma bicicleta e fomos pedalar pela ilha. Este é o melhor
meio de conhecê-la. Uma bicicleta, pelo dia inteiro, custa oito reais e você
pode andar com ela por toda a ilha, facilmente, em um dia.
No barco, relemos os trechos que mais gostamos de “A
Moreninha”, agora, com “outros olhos”.

15/05/2006 - De manhã, bem cedo, senti umas pancadinhas no barco.


Levantei e vi que a maré estava muito baixa. A tábua de marés dizia que
ainda ia baixar mais. Tentei mover o barco com a mão e o senti quase
encalhado, batendo de leve em algo, quando ia para frente. Era hora de
tirar o barco dali. Chamei as crianças, liguei o motor, puxei o barco para
trás com as mãos e saímos livres. Afastei-o lentamente e ancoramos na
frente do clube.
Nem voltamos para a cama. Estávamos animados, pois iríamos
conhecer a Fragata União da Marinha Brasileira. Descemos do Fandango
e pegamos a balsa para o Rio. A viagem dura uma hora e é bonita,
principalmente a saída de Paquetá e a chegada ao Rio. Passamos perto do
Porta-Aviões São Paulo e da Ilha Fiscal (aliás, o porta-aviões é muito
maior do que a própria ilha!).
Quando chegamos na fragata, já nos esperavam. Nos levaram à
Praça D’Armas, onde conhecemos o Tenente Hideki, que nos guiaria na
visita. Muito simpático e também velejador, não nos faltou assunto!
Profundo conhecedor do navio, nos levou para a sala de operações de
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combate da fragata, onde ficamos surpresos: os equipamentos eram
moderníssimos! Ele nos mostrou cada um deles e explicou suas funções.
Mostrou como é feita a comunicação na sala, através de fones de ouvido
e microfones e foi nos contando vários detalhes de operações de guerra e
treinamento da fragata. Foi uma aula de teoria de guerra naval, falando
como evitar “fogo amigo”, identificação de inimigos e contando casos
como o da Marinha Americana, que derrubou um avião de passageiros
por engano.
O que as crianças mais gostaram foi uma câmera infravermelha
ligada a um dos canhões, que permitia visualizar um alvo à distância,
mesmo no escuro ou sob cerração. A visão era perfeita e igual ao que
vimos na televisão na guerra do Golfo, como um dos armamentos mais
avançados dos EUA.
Motivo de orgulho para nós brasileiros: o conjunto de softwares que
comanda as operações de combate foi todo desenvolvido no Brasil e é
moderníssimo, de altíssima eficiência e facilidade de uso, o que é
importantíssimo para uma ação rápida e precisa. Lição para as crianças:
todos os botões principais e de disparo eram protegidos para evitar
acidentes e também havia vários botões para interromper ações de
disparo espalhados.
Andamos pelo navio e vimos os canhões, todos automáticos, o
disparador de mísseis exocet e o passadiço (ponte de comando). Lá,
falamos de navegação astronômica, que eles treinam em todas as saídas e
vimos toda a aparelhagem ultramoderna de navegação da fragata. As
crianças entraram em um dos canhões e gostaram muito.
Conversamos bastante sobre ninguém querer guerras, mas é
preciso estar bem armado e treinado para evitá-las e, para isso, servem as
Forças Armadas. É como nossa casa: se estiver desprotegida, a chance de
alguém querer invadi-la é grande.
Vimos o heliponto e hangar do helicóptero, muitos equipamentos e
cartazes de segurança como no Porta-Aviões São Paulo e as baterias
antiaéreas. Falamos também de velejadas e contamos casos de regatas (o
tenente comandou o Brekelé, veleiro da escola naval).
Acabamos a visita conhecendo o Comandante Pixinine, que foi
muito simpático conosco e que também velejou na sua época de escola
naval. Ele conhecera a família Schürmann na comemoração dos 500 anos
e, por coincidência, socorreu um amigo nosso, o Clauberto, que teve um
problema com o mastro do veleiro Blue Label num retorno a Ilhabela,
depois de uma regata Santos-Rio. Imaginem uma grande fragata da
Marinha, com quase trezentos homens querendo chegar em casa, no final
de uma operação de vários dias, na entrada da baia da Guanabara, na
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“porta de casa”. Recebem um pedido de socorro, fazem meia-volta e vão
para Angra acompanhar um pequeno e lento veleiro a um porto seguro,
por várias horas. Aí estão a gentileza, cuidado e respeito, característicos
dos verdadeiros homens do mar!
O Comandante nos presenteou com bonés, uma linda camisa com
o nome do navio e, principalmente com essas atitudes, que tranqüilizam
quem navega.
Falamos um pouco da nossa viagem e planos e recebemos os votos
de boa sorte. Adorei a visita e, quando acho que a Marinha do Brasil não
tem mais como me surpreender, vejo que estou errado. Até agora
visitamos uma ilha, super bem cuidada e preservada, uma escola do mais
alto nível e dois navios de superfície, que são verdadeiras cidades,
fantásticos! O que mais me alegra é que, o que faz tudo isso tão especial,
é o elemento humano por trás de tudo: feliz, consciente de seu dever,
educado, cuidadoso, responsável e que o faz com o sentimento traduzido
nas palavras do Comandante Pixinine: “- Sou apenas um fiel depositário do
navio, que é do povo brasileiro”. Quem dera os políticos tivessem essas
qualidades para a gestão dos bens públicos que estão em suas mãos!
Nos despedimos e pegamos a balsa para retornar ao Fandanguinho,
que nos esperava em Paquetá.
No caminho de volta, paradoxalmente à nossa visita, tive que tentar
explicar às crianças tudo que estava acontecendo em São Paulo, no dia de
ontem e hoje. O crime organizado dominando, muita gente sendo morta
(a maioria policiais!), e bandidos com “direitos humanos”, torturando e
assassinando carcereiros que não os tinham. Como saúde, segurança e
educação vêm sendo relegadas a segundo plano pelos nossos
governantes há muitos anos, gerando a situação atual. Como a corrupção
de nossos políticos tem contribuído para isso, tentando explicar
“mensalão” para eles e, principalmente, a impunidade que todos,
políticos e bandidos, têm no nosso país. É duro para um pai.
Desculpem o desabafo, mas realmente, o Brasil é MUITO
paradoxal. Resta confiar nos bons exemplos, que são muitos, e torcer para
que as gerações futuras saibam eleger seus representantes, levando em
conta suas aptidões, qualidades, honestidade e caráter. Aos demais, que
caiam no ostracismo, mas sem serem esquecidos, pois precisamos
aprender sempre, mesmo com os exemplos negativos. Não podemos ter
a memória curta.
Chegando ao barco, as crianças jantaram e dormiram rapidamente
seus sonos de inocência. Eu, ainda fiquei um bom tempo pensando.

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16/05/2006 - Eu e o Jonas acordamos e ficamos esperando a Carol acordar.
Assim que ela deu sinal de vida, cantamos e demos os parabéns pelo seu
décimo-primeiro aniversário!
Agradecemos a atenção do pessoal do Paquetá Iate Clube, onde nos
sentimos realmente em casa. Adoramos o lugar, mas tínhamos que seguir
viagem.
Motoramos pela baía da Guanabara, pois não havia vento e nos
dirigimos ao Clube Naval Charitas, em Niterói. Encostamos ao lado do
veleiro australiano Flame, do casal Paul e Diane, e conversamos um
pouco, com nosso pobre inglês. No restaurante do clube fizemos um
almoço de comemoração para a Carol.
Retornando ao barco, a Diane chamou a Carol e lhe deu um
presente de aniversário. Ela ficou toda contente!

17/05/2006 - O clube tem ótimas instalações, mas as barcas rápidas que


trabalham perto do clube causam uma agitação danada nos barcos
amarrados. Nós estamos atracados no píer, mas temos que ficar bem
distantes dele e, para sair, pulamos no botinho e, literalmente, escalamos
o atracadouro.
Saímos a pé para conhecer as imediações e andamos bastante pelo
calçadão. Niterói é muito agradável e parece ser muito tranqüila.
Resolvemos conhecer a bela Fortaleza Santa Cruz da Barra,
atualmente sob responsabilidade do Exército do Brasil. A fortaleza é
maravilhosa, está em perfeito estado de conservação e tem uma vista
incrível para todos os lados. A primeira instalação de canhões no local
data de 1.555. A impressão que temos é que os canhões antigos (e existem
muitos!) podem sair disparando a qualquer momento. Ela é monumental
e toda construída com grandes pedras. O guia nos contou que as pedras
foram cortadas em Portugal, numeradas e montadas quando chegaram
na fortaleza. Elas vieram nos porões dos navios portugueses como lastro
e foram aqui descarregadas. Para substituí-las, na volta a Portugal, os
porões eram carregados com ouro. Bela troca, não?! Foi usada mão-de-
obra indígena e escrava para a construção.
Uma curiosidade é que a capela foi construída com uma janela com
vista para o mar, que só o padre via. Enquanto realizava a missa, o padre
ficava de olho no mar e, se via inimigos, avisava os soldados da missa,
que saiam correndo para seus postos.
Vimos as prisões para piratas e corsários e nos foi contado em
detalhes (tétricos!) o tratamento dado a esses invasores. Além da prisão e
tortura, a morte sempre os esperava no final.

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Saímos da fortaleza e seguimos para o Parque da Cidade, um local
de 270 metros de altura, que é pista de decolagem de para-pente. A vista
de lá é maravilhosa. Via-se toda a baia da Guanabara, até a Ilha do
Paquetá e, do lado de mar aberto, todas as ilhas oceânicas.
Retornamos ao clube e jantamos um excelente prato “veleiro”
(grande, bom e barato!). Quem passar pelo Charitas, não deixe de pedir
uma refeição “veleiro” no restaurante ou lanchonete: arroz, feijão, salada,
batatas fritas e um belo ovo, “velejando” sobre um suculento bife.

93
12
Mar Duro

18/05/2006 - Tentei acordar tarde, pois provavelmente teremos uma


travessia na parte da noite, mas não consegui. Deixei as crianças
dormirem tudo que queriam, para estarem descansadas. Arrumamos as
coisas para zarpar e tiramos a tarde para aproveitar a piscina.
A previsão de tempo informava: ventos de nordeste com até 12 nós
e mar não muito grosso. Isso daria uma orça gostosa até Arraial do Cabo,
já que teríamos que seguir rumo leste para chegar lá.
Encontramos a Suzi, do veleiro Samba, que nos convidou para
conversar no seu barco. Ela e o Renato nos receberam muito bem e
conversamos um pouco. Eles nos contaram que vivem em barcos há
quase 28 anos! Mostraram-nos seu livro de visitas, já no segundo volume,
quase completo, apesar de terem começado a fazê-lo somente na
Austrália, e encontramos vários conhecidos: Valter e Regina, do Azular,
André e Rosanne, do Magia, entre outros. Conversamos sobre um amigo
comum: o Zé Paulo, de Ilhabela. Foram várias as pessoas no Rio que me
perguntaram como ele e a família estavam. Deixamos nossa mensagem
no livro deles e eles escreverem no nosso.
Despedimos do Paul, da Diane e soltamos as amarras. Eram cinco e
meia e havia um lindo pôr-do-sol.
Quando anoiteceu, fizemos o segundo rizo na mestra. Passamos as
ilhas do Pai e da Mãe, a motor e com um vento fraco, mas que ajudava o
andamento. Desliguei o motor e começamos uma gostosa velejada. O
Renato me disse que o melhor caminho seria junto à costa, para evitar
correnteza e ondas. Eu tive que escolher: motorar com o vento na “cara“
junto à costa ou seguir velejando um pouco fora do rumo, pois o vento
era leste. Optei, é claro, pela velejada!
O começo foi muito bom, mas, aos poucos o vento apertou e, o
previsto de doze nós virou vinte e cinco ou mais. Recolhi um pouco de
genoa (“santo” enrolador!) e seguimos velejando. Muitos navios
passavam longe da costa em direção ao Rio e outros navios passavam
bem aterrados, em direção à Cabo Frio. Como estávamos no meio, não
precisamos nos preocupar, o que foi bom, pois tenho “alergia” a navios!
O mar crescia, o vento não dava trégua e as ondas cobriam a proa
do Fandango até o dog-house, que nos protegia (bendita hora a que
mandei fazê-lo!). Mesmo assim, muitas vezes elas nos acertavam no
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cockpit! O interior da cabine virou um caos. Mesmo guardadas, várias
coisas saíram de seus lugares e os livros da estante, presos com um
elástico forte e apertados uns contra os outros, saíram voando. Tive que
entrar na cabine rapidamente para pegá-los, antes que molhassem. A
gaiuta do salão, que não fecha bem, permitia “duchas” dentro do barco,
a cada onda que lavava o convés. Meu caderno de anotações encharcou e
duas cartas náuticas saíram respingadas, junto com a roupa seca que
tinha acabado de trocar, após levar um banho no cockpit.
A noite foi passando, a situação estava dura, mas nos
encaminhávamos para o objetivo. Pensei em retornar e ancorar atrás de
alguma ilha, mas me sentia mais seguro velejando daquele jeito do que
ancorado num lugar que não conhecia.
Eu e o Jonas vimos algo muito interessante: luzes piscando no céu,
com milhares de luzes coloridas de vermelho e azul por baixo, como se
estivessem penduradas. Pareciam fogos de artifício, mas muito alto no
céu e em cima do mar. Imaginei tratar-se de algum avião despejando
combustível que, por algum motivo, reluzia no céu (não sei se entrava em
combustão ou algo assim). Parecia um pouco com aqueles balões
enormes, cheios de lanterninhas, mas muito, muito maior! O fenômeno
durou meia hora. O anemômetro marcava vinte e três nós de vento.

19/05/2006 - Eu esperava o vento diminuir ou virar para o nordeste


previsto, mas nada aconteceu. De madrugada, o vento apertou ainda
mais e tive que reduzir mais a genoa. Mesmo assim, com mar contra e
orçando bastante, o barco parecia voar. Os bordos eram sempre dados
com muito cuidado. Meu medo maior era alguma coisa quebrar, mas o
Fandango seguia firme e forte no seu rumo.
A Carol dormiu um bocado dentro do barco, mas, quando fizemos
o primeiro bordo, ela se sentiu “amassada” pelas malas e, ao invés de
mudar de posição, resolveu sair. Resultado: enjoou. Quando foi ao
banheiro, com tudo balançando, novamente enjoou. Ir ao banheiro com o
barco andando já é ruim, daquele jeito, então, é o maior sufoco, “tadinha”!
Eu e o Jonas usamos uma garrafa de água vazia como “banheiro” em
travessias. Pendurar-se para usar o “banheiro externo” pode ser perigoso,
se estiver balançando muito. A Carol “deitou cargas ao mar” umas três
vezes, mas não deixou a moral cair e estava sempre sorridente e disposta
a fazer tudo que precisava. Os dois, com medo de enjoarem, ficaram no
cockpit comigo, deitados no meu colo.
O “Alfredo” levava o barco com segurança e em momento nenhum
saiu do rumo. Quando o Jonas estava caindo de sono, criou coragem para
ir para a cama dele e dormiu profundamente até amanhecer. A Carol
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ficou comigo e, um pouco antes do sol sair, o vento, que havia melhorado
um pouco, apertou novamente. O sol nasceu num céu totalmente azul e
foi recebido com muita alegria e alívio. O mar continuava grosso e o vento
forte. Conforme o sol subia, seu calor esquentava nossas roupas geladas,
trazendo uma sensação de conforto.
Às oito, já víamos a ilha de Cabo Frio, mesmo longe. Quando nos
aproximamos da ilha, o vento girou para o nordeste esperado. E quando
faltavam quatro milhas para chegarmos, ele atingiu os doze nós
prometidos! Parecia ironia! Numa gostosa velejada, fizemos nosso café
da manhã com uma colomba pascal e um ovo de páscoa. Abri a genoa,
mantendo a mestra rizada, pois o barco andava bem e pouco inclinado.
Entramos pelo boqueirão da Ilha de Cabo Frio, que é um lugar
belíssimo. Vimos uma praia linda, com uma duna de areia, do lado
protegido da Ilha de Cabo Frio e as rebentações, que a carta prometia,
logo à frente. Eu pensava em parar e dormir logo que passássemos o
boqueirão, mas o local não me pareceu abrigado do nordeste. Outra
opção era a praia do Forno. Nos encaminhamos para lá, mas antes
tínhamos que cruzar as rebentações. Como são bancos de areia, eles não
se encontram mais no lugar que a carta mostra, mas lembrei das
instruções do amigo Dimitri: seguir reto após passar o boqueirão, até uma
ponta da Ilha de Cabo Frio, encostar bem nela e seguir seu contorno, bem
junto da ilha. Com o coração na mão, mas a boa visibilidade e o sol
ajudando, identificávamos os lugares mais profundos pela cor da água,
com as crianças ajudando e falando que conseguiam ver os “montinhos
de areia no fundo do mar”!
Ancoramos na praia do Forno à uma e meia da tarde, depois de
vinte horas de travessia. Nada quebrado, moral alta pela chegada e as
perdas se limitaram ao meu caderninho de anotações. Barco e tripulação
estão de parabéns, pois essa foi a pior travessia que eu já fiz até hoje!
Eu estava muito cansado, pois não dormi nem um minuto.
Colocamos as coisas para secar ao sol, com as crianças alegres, cantando.
Arrumamos o barco, tirei tudo da mesa de navegação, pois até lá entrou
água e jantamos. Após a comida quente e chocolates de sobremesa, o sono
bateu cedo e dormimos escutando o nordeste “lestado”, ainda soprando
forte lá fora, com a nítida impressão, causada pelo cansaço, que toda a
travessia havia sido um sonho.

Analisando a situação friamente, depois de muitas milhas


navegadas, vejo que a melhor decisão teria sido retornarmos ao Rio de
Janeiro. Hoje eu faria isso. Por outro lado, o reforço da confiança no barco

96
e na tripulação, depois que passamos o sufoco dessa travessia, foi
fundamental para eu seguir viagem tranqüilo.

97
13
Arraial e Cabo Frio

20/05/2006 – Depois de vários dias sem poder entrar na água, por causa
da poluição da baía da Guanabara, a primeira coisa que fiz foi tomar um
banho de mar! A água não estava tão fria quanto o “Cabo Frio” prometia.
Ele tem esse nome por ser é uma zona de ressurgência de águas cheias de
nutrientes, que vêm das ilhas Falkland. Exatamente por isso, suas águas
são frias e há muitos peixes.
Coloquei tudo para secar ao sol e fomos até a praia do Forno com o
bote. A praia é maravilhosa! Uma das mais bonitas que encontramos até
hoje. Areia fina, branca e solta, daquela que faz “barulho” quando a gente
anda. Há pouquíssimas construções na praia, que está bastante
preservada. Vimos muitas gaivotas pousadas na beira-mar e sobre os
restos de um navio bem próximo à praia. A água é transparente e fica com
um lindo tom azul claro quando as pequenas ondas quebram.
Estranhamos a vegetação de cactos, que dá a impressão de lugar que
chove pouco.
Subimos uma trilha no canto da praia, quase toda calçada de pedra
mineira, e se descortinou uma linda vista alta da praia, deixando-a mais
bonita ainda. Chegamos ao topo e começamos a descer, vendo a cidade
de Arraial do Cabo e o porto. Nele, vi um veleiro conhecido, o Moara, de
Ubatuba, e um submarino.
Voltamos para a praia, onde eu descansei e as crianças construíram
um enorme e belíssimo forte de areia: a visita à Fortaleza de Santa Cruz
da Barra mudou o conceito deles de castelos de areia!
Fomos para o barco e seguimos para a praia dos Anjos, que fica ao
lado da praia do Forno e onde há um porto. Chegando lá, passamos ao
lado do belíssimo submarino da Marinha e vimos outro veleiro conhecido
amarrado ao píer: o Tiki, também de Ubatuba.
Pegamos o bote e saímos para conhecer a cidade. Rumamos para o
Tiki, para ver se poderíamos amarrar nosso bote ao veleiro. Achei
estranho ele estar sem mastro. Quando subimos ao píer, conhecemos o
Edélcio, seu dono, e soubemos das peripécias de sua vinda para cá. Ele
veio um dia antes que nós e pegou a mesma lestada. Orçando em vento
muito forte, por fora da ilha de Cabo Frio, não conseguia avançar e,
enquanto descansava, sentiu um tranco forte e o mastro veio abaixo,
arrancando um pedaço do convés. Ele mergulhou, cortou a vela dos
98
sliders e conseguiu recuperar tudo, com mar mexido e muito vento.
Tentou ligar o motor e ele não pegou. Pediu socorro pelo rádio e a
Marinha, através do projeto Salvamar, providenciou tudo que ele
precisava para o resgate: um barco pesqueiro rebocou-o e o deixou
atracado ao píer para fazer o reparo. Quando foi agradecer, novamente a
resposta: “- Não fizemos mais do que a nossa obrigação”. Mais um exemplo
recentíssimo, que nos tranqüiliza quanto ao socorro no mar e mais um
“parabéns” à Marinha do Brasil. O custo do resgate foi zero e a estadia no
píer, enquanto ele estiver arrumando as avarias, também (gentileza do
porto).
Conhecemos também o Claudinei, do Moara, que chegou com o
Edélcio. Depois de duas noites sem dormir, enfrentando a mesma lestada,
foi ancorar na Prainha e encalhou. Na tentativa de desencalhe, um cabo
estourou e arrancou uma ponta do dedo dele. Mesmo machucado,
continuou trabalhando no desencalhe, que foi em vão. A maré desceu, o
barco ficou em seco e só foi liberado na próxima maré alta. Foram três
noites sem dormir!
Comparando nossa travessia com a deles, fizemos um passeio!
Passado o susto, ambos estão brincando com o acontecido, pois são muito
bem humorados e já planejando o próximo trecho, que deve ser o mais
duro da viagem.

21/05/2006 - Comprei lulas para pescar e fomos para perto da ilha de Cabo
Frio. Ancoramos num local fundo, bem ao lado do banco de areia do
canal, mas não pegamos nada. Uma frente fria começava a entrar e o que
se via dela era o vento sudoeste fraco e o horizonte acinzentado.
Resolvemos tentar na praia do Forno e, ancorados bem no meio da
enseada, logo começamos a pegar peixes. Então, apareceu um cardume
de cangulos, também conhecido como peroá ou peixe-porco, o popular
“porquinho”, todos enormes e nadando na tona. Era só baixar a isca e
esperar algum deles pegar o anzol. Logo estávamos com quatro lindos
“porquinhos” a bordo! Paramos de pescar, pois já era peixe suficiente.
Limpei-os e os temperei, junto com o que sobrou das lulas. Aproveitamos
o final do sol na praia, onde as crianças fizeram um novo castelo de areia.
No barco, tomamos nosso banho completo na popa. Quando o tempo está
bom e quente, é melhor do que chuveiro elétrico!
Voltamos para a praia dos Anjos, pois havíamos prometido aos
amigos que levaríamos alguns peixes para eles. As crianças pegaram o
bote e foram levá-los, contentes. A Carol, que pegou o maior peixe, ficou
toda “cheia” quando o Claudinei tirou-o do saco plástico e exclamou: “-
Olha o tamanho do peixe que ela pegou!!!”.
99
Fiz um risoto de lula para acompanhar o peixe frito e posso dizer
que nunca fiz nada tão gostoso no barco! Resolvemos comer a sobremesa
na cidade. Ao passar ao lado do Moara, o Claudinei nos chamou a bordo.
O Moara, um Cal 9.2, é muito confortável e tem soluções muito
inteligentes. Principalmente, uma bela geladeira a gás e a adaptação de
um bujão de 13 quilos na popa para isso. Após uma boa hora e meia de
papo com ele e com o Edélcio, escutando as engraçadíssimas histórias de
suas “incursões noturnas” ao longo da viagem, fomos finalmente para a
cidade tomar sorvetes e açaís.

22/05/2006 - Descemos para conhecer melhor a praia dos Anjos. Lá, vimos
alguns pescadores recolhendo uma rede de arrastão. Havia muitas
gaivotas no local e as crianças jogavam os peixes pequenos, que
escaparam da rede vivos, de volta para a água e os mortos, para as
gaivotas (às vezes, erravam e acontecia o contrário!).
Retornamos ao barco e seguimos para a ilha de Cabo Frio, para
conhecer a lindíssima praia do Farol. Muitos peixes pulavam ao longo do
caminho. Ancoramos ao lado da base da Marinha e, conseguida a
autorização para descer, fomos passear na praia. Ela é maravilhosa!
Muitas dunas, com areia branca e solta. No meio dela há “pedras”,
formadas por areia unida a outras substâncias. A vista de lá é linda!
Na cidade, matamos saudades de pizza. O pessoal por aqui é muito
simpático e sempre estão querendo ajudar. Entre eles, especialmente, o
Paulo, o Edgar, da lancha LEG 10 da Marinha e o Átila, todos
gentilíssimos. Conversando com as crianças, chegamos à conclusão que
este é um dos melhores lugares que paramos até agora: água limpa, povo
simpático e lugar lindo!
Retornamos ao Tiki, para uma aula de confecção de redes
promovida pelo Edélcio, com agulhas que compráramos na cidade.

23/05/2006 - Demos “tchau” para os amigos e levantamos âncora em


direção à cidade de Cabo Frio. O vento sudoeste nos ajudava na direção
desejada e velejamos uma hora até lá. Ao longe, distinguíamos os prédios
e as dunas de areia. A sub-sede do ICRJ fica logo após a entrada de uma
barra estreita. Deve-se entrar bem pelo meio e, de preferência, com maré
alta. Logo que se passa o canal, deve-se virar tudo à esquerda, pois há um
grande banco de areia em frente. Sem saber direito como entrar, fomos
para cima do banco, mas, como planejei a chegada para a maré alta,
demos sorte de não encalhar. Nos acenaram da sub-sede do ICRJ e
seguimos para lá, atracando ao píer. O lugar é maravilhoso! A água é
transparente e víamos todo o fundo. Mergulhadores faziam caça-
100
submarina ao lado do barco e disseram que há grandes garoupas no local.
Vimos um baiacu de espinho enorme de cima do píer!
Arrumamos as coisas, demos entrada no clube, onde todos foram
muito atenciosos conosco, e saímos para um passeio curto. De volta ao
barco, recebi uma aula de tecer redes do Jonas, que já virou professor!

24/05/2006 - O Jonas veio me falar que o “cara de um barco amarelo”


queria falar comigo e que me chamou pelo nome! Quando chegamos
ontem, um lindo veleirinho amarelo de nome “Estrela D’Alva”, passeava
fora do canal e depois entrou, permanecendo ancorado ao lado do banco
de areia. Uma bandeira brasileira no tope e uma bandeira suíça de
cortesia tremulavam no veleiro. Quem me chamava era o dono do barco,
Fernando. Ele e uma amiga suíça fizeram um charter comigo em Ilhabela
e lembro de ter-lhes contado os meus planos de viagem. Ele se aproximou
novamente, manobrando habilmente o veleirinho, e me cumprimentou
dizendo: “- Os homens são divididos em dois grupos: os que sonham e os que
realizam seus sonhos!”. Agradeci e perguntei de sua amiga suíça. Disse que
está ótima e que a bandeira de cortesia é uma homenagem a ela. Ele está
fazendo uma aventura pessoal: passar sete dias velejando com o barco na
região, sem sair dele. É muita coincidência ter-nos encontrado aqui!
Saímos para passear e andamos pela linda praia do Forte,
caminhando até chegar às dunas. A praia é muito bonita e com muitos
prédios, de até cinco andares, na orla. Caminhamos por um calçadão, com
barzinhos e restaurantes, e achamos a Secretaria de Turismo. Ganhamos
mapas da cidade e um livro sobre Cabo Frio. Mapas na mão, fomos ao
centro da cidade. Primeiro, conhecemos o Convento Nossa Senhora dos
Anjos e a sua exposição de arte sacra. Depois, fomos ao Mirante do Morro
da Guia, onde se visualiza toda a cidade. Lá havia uma pequena capela
fechada e, logo, apareceu um guarda para abri-la. Olhamos a capela e,
quando estávamos saindo, o Edson Cruz, o guarda, começou a conversar
conosco. Simpático e conversador, este carioca, que adotou Cabo Frio
como cidade do coração, transformou a chata função de tomar conta da
Capela da Nossa Senhora da Guia e, ao mesmo tempo, servir de ponte de
rádio da polícia local, para a qual trabalha, em uma mistura de professor
de história e guia turístico. Nos mostrou novamente a capela, contando
várias coisas interessantes sobre ela e nos mostrou pedras esculpidas no
local, que foram usadas pelos índios como cadeiras e para afiar
instrumentos. Após conversar muito conosco e dar aulas de história do
Brasil e história de Cabo Frio, ele contou um pouco da sua vida e falou da
importância do estudo que está fazendo agora, “depois de velho”.
Enquanto descíamos o morro, expliquei para as crianças a aula de vida
101
que tivemos indiretamente: uma pessoa que tinha tudo para ficar infeliz,
acomodado numa função chata, extrapola e faz dela objeto de prazer
próprio, ensinando para outros algo que gosta. Além disso, nos mostrou
a importância do estudo e absorção de conhecimento em qualquer idade.
Na volta, passamos na casa Charitas. Edson nos contou a história
da casa, que abrigava crianças abandonadas e tinha uma “roda”. Mães
que queriam abandonar uma criança, abriam uma porta externa da casa,
colocavam a criança na roda e a giravam, transferindo-a para dentro da
casa. Dessa forma, a mãe não se identificava e ninguém ficava sabendo
quem eram os pais daquela criança indesejada, na maioria das vezes, filha
de pai branco e mãe negra, escrava.

25/05/2006 - Fomos até o Forte São Mateus e gostamos muito. Ele foi muito
bem restaurado e é um belo cartão de visita da cidade. A vista ao redor
dele é maravilhosa. Na praia, tomamos sorvetes de graviola, açaí e
cupuaçu, aproveitando para provar os novos sabores de cada lugar.
Seguimos para a Casa dos 500 Anos, que funciona como Casa da
Cultura de Cabo Frio. Havia várias maquetes da cidade e reproduções de
mapas antigos no local. As maquetes estavam bem feitas e reproduziam
os pontos turísticos da cidade, como eram antigamente. O Jonas ficou
impressionado e começou a imaginar como foram feitas. Várias fotos
antigas da cidade compunham o restante do acervo e vimos que foi feito
um grande trabalho de restauração de vários prédios, que apareciam
totalmente destruídos nas fotos. Ainda passamos na fonte do Itajuru e na
igreja Nossa Senhora d’Assumpção.

27/05/2006 - Soltamos as amarras e rumamos diretamente para a praia do


Forno, em Arraial do Cabo. A Lu, que chegou para nos visitar, acordou
no meio do caminho e curtimos uma boa velejada com vento favorável,
aproveitando para mostrar a ela os lugares do lindo litoral. Chegando lá,
ancoramos e fomos todos para a água. Em Arraial, encontramos o
Claudinei e tive o prazer de ver o mastro do Tiki praticamente pronto.
Aproveitamos para pescar, pegando cinco cocorocas e um cação-viola,
que foi solto, pois estava mais para “cavaquinho” do que para “viola”.

28/05/2006 - Recebemos a visita do Fernando, do Estrela-D’Alva, do


Edélcio e da Carla, sua namorada, que vieram conhecer o Fandanguinho.
Acho que tomaram um susto, pois estava uma zona só!
Mergulhamos perto do bar flutuante, no costão da praia do Forno.
Estava fria e o Jonas voltou para o bote. Vimos vários peixes, duas
tartarugas e os restos de uma embarcação que afundou ali. O bar estava
102
abarrotado de gente e de barcos. Ficamos enquanto agüentamos a água
fria e depois almoçamos no Tiki um excelente peixe na brasa, com a Carol
provocando o Edélcio e vice-versa. Eles se “adoram”!

29/05/2006 - A linda cor do mar nos convidou a fazer um mergulho, mas


o frio não nos deixou ficar muito e retornamos ao calor do sol, na praia.
O Jonas estressou com “o mar”, que derrubava todos os castelos de areia
que fazia, pois a maré estava subindo! Sobrou para todo mundo!
Retornamos para Cabo Frio, aproveitando o lindo pôr-do-sol. Levamos a
Lu até a rodoviária e nos despedimos dela. Antes de dormir, recomendei
ao Jonas nunca ir contra a natureza. Devemos, sim, estudá-la e fazer o que
desejamos obedecendo a seus humores (lição importante para se
relacionar igualmente bem com as mulheres)!

30/05/2006 - Li um artigo sobre um barco que está saindo para viajar e


que, provavelmente, encontraremos no caminho: o Beduína. Pouco
depois, puxei e-mail’s e recebemos uma notícia muito triste: perdemos a
companhia da pequena/grande navegadora Kat Schürmann. Ela foi
velejar por outros mares, para os quais nós todos iremos algum dia. Isso
nos abateu bastante, mesmo sabendo que os poucos anos de vida da Kat
valeram por uma vida muito longa, em função do amor, carinho e
conhecimentos que seus pais espirituais, Vilfredo e Heloísa, lhe
proporcionaram. A ela, só podemos desejar bons ventos nesse novo
oceano, sabendo que um dia nos cruzaremos nessa viagem sem fim. Aos
pais e irmãos, nossos sentimentos, mas também os parabéns por tanto
carinho, amor e dedicação, que sempre testemunhamos para com ela.
Essa foi a tônica do nosso dia. Tomamos café tristes e saímos com
destino a Búzios, mas o mar e vento forte contrários e a forte lembrança
de como o nordeste aperta mais tarde, fizeram-nos mudar de planos.
Voltamos para Arraial do Cabo, onde visitamos o Museu do Mar,
que tem um esqueleto de orca, além de outras curiosidades. Não senti
segurança em dormir com uma âncora só, com o vento forte. Levantei a
âncora principal e amarrei na corrente, pouco acima da âncora, um cabo
com nossa âncora fortress de alumínio. Funcionou muito bem, com as
duas âncoras em linha, deixando o barco bem firme ao fundo.

103
14
Contratempos em Búzios

01/06/2006 - Saímos às nove horas, com destino a Búzios. Assim que


passamos a ilha dos Porcos, desligamos o motor. Quando saímos da
proteção da ilha de Cabo Frio, as ondas e o vento de sudoeste
aumentaram, fazendo o barco balançar bastante. Como íamos com o
vento em popa rasa, experimentei fazer uma coisa que me ensinaram:
abrir só a genoa e ir sem a vela mestra. O vento não passou da casa dos
vinte e cinco nós e o Fandango velejava muito bem, surfando ondas com
dois metros, sem perigo se acontecesse um jibe involuntário. Nem
colocamos o “Alfredo” para trabalhar, pois a velejada estava muito
gostosa. Fizemos uma ótima viagem e, apesar do vento forte e ondas altas
(mais ou menos o que pegamos na cara quando viemos para Cabo Frio),
o convés se manteve seco todo o caminho. As crianças brincaram o tempo
todo e fizemos uma “boquinha” durante a travessia.
Chegando no Cabo Búzios, vimos as lindas casas e praias do local.
Passamos pela perigosa, mas bem visível laje do Criminoso e ao lado da
Ilha Branca. Quando contornamos a Ponta do Cavalo Ruço, o sudoeste
que nos empurrava passou por cima de Búzios e entrou na cara. Ligamos
o motor e percorremos os últimos 500 metros com ele. Chegamos à uma
hora da tarde na frente da Praia dos Ossos. Apesar do sudoeste forte,
ancoramos bem e tirei uma soneca, enquanto as crianças faziam uma
“carta náutica” para brincar. Assim que acordei, fomos até a Praia dos
Ossos, onde achamos o Grilo, que aluga poitas. Ele nos indicou uma,
entre várias escunas. Dormimos cedo, deixando para conhecer Búzios
amanhã, com o sudoeste ainda soprando forte.

02/06/2006 - O Grilo nos falou para mudar o Fandango para outra poita,
mais perto da praia. Ele tentou aumentar o preço da diária da poita, que
o Dadi me disse ser de quinze reais, para vinte e cinco. Quando falamos,
com jeitinho, que ficaríamos ancorados, ele voltou atrás e deixou por
quinze (em cidades de muito fluxo turístico, temos que ficar espertos!).
Amarrado o barco à nova poita, descemos e deixamos o bote na praia.
Ontem vimos vários botes lá, inclusive com motor, e o Grilo nos falou
que, de dia, não há problemas. Caminhamos até o final da praia dos Ossos
e pegamos uma trilha. Rapidamente chegamos nas praias Azeda e
Azedinha, que são muito bonitas. Voltamos e seguimos até uma praça.
104
Lá, bem perto do barco, havia um mercadinho e vários comércios.
Procurei um mapa da cidade. Um sebo, no meio da praça, me vendeu um.
Mais tarde fiquei sabendo que o mapa é de distribuição gratuita! Fugi de
um golpe, entrei em outro!
Caminhamos pela rua principal até chegar ao centro: a famosa Rua
das Pedras. Andamos pela sucessão de lojas, que me lembraram muito a
Vila de Ilhabela, só que muito maior e com muitas lojas fechadas. Já havia
escutado falar que muitos dos comércios voltados ao turista só funcionam
no verão. Cruzamos com vários turistas estrangeiros passeando e uma
criança do local, com uniforme de escola, tentou falar em inglês com o
Jonas. Depois tiramos o sarro dele, dizendo que ele tinha cara de
“gringo”! Andamos bastante, ziguezagueando entre as ruas para tentar
conhecer tudo. Procuramos um lugar para comer e vimos que aqui é
muito parecido com Ilhabela: restaurantes caros para os turistas e poucos
restaurantes para os “locais”, com preço acessível. Achamos uma casa de
empanadas e levei as crianças para conhecerem essa delícia. Estavam
maravilhosos! Procuramos um mercado grande, mas o que encontramos
foi uma decepção: tem tudo, mas é tão caro (ou até mais) quanto os
mercados pequenos. Ainda bem que estamos bem abastecidos e só
precisamos comprar perecíveis. Caminhando pela orla, que dá a
impressão de “fervilhar” na temporada, aproveitamos para tirar as
tradicionais fotos das estátuas dos pescadores, da Brigitte Bardot e do
Juscelino Kubitschek.
Retornamos ao Fandango, onde começamos uma aula de inglês
diferente. As crianças ganharam um jogo de cartas com as instruções em
inglês. Fiz com que elas as traduzissem sozinhas. Levou três horas, mas
acabamos a noite com várias partidas do jogo, que é bem interessante.
O vento nordeste soprando promete um dia bonito para amanhã.

03/06/2006 - Resolvi fazer umas panquecas para o café da manhã. A


receita foi enviada por um garoto chamado Philipp, com o qual nos
correspondemos. Quando a primeira estava pronta, chamei as crianças,
que sentiram o cheiro e acordaram imediatamente. Comemos duas
panquecas salgadas e uma doce cada um!
Descemos em terra e fomos a pé até a praia João Fernandes, que é
bonita e cheia de restaurantes e turistas estrangeiros. Os ambulantes
tentavam nos vender coisas falando em espanhol. Quase tudo que estava
escrito nos restaurantes também era escrito em espanhol. Dá para se
sentir fora do Brasil e até top-less havia na praia!
Resolvemos ir num mirante e subimos uma grande ladeira. A cada
passo, olhávamos para trás e tudo ficava mais bonito. No mirante,
105
conseguíamos ver tudo ao redor, inclusive as ilhas pelas quais passamos
na vinda e o Fandango do outro lado! Notei que o pessoal não gosta muito
de caminhar por aqui, a não ser na Rua das Pedras!
No barco, fiz macarrão com molho de camarão para o jantar.
Brincávamos sossegadamente jogando cartas, quando a Carol deu um
grito e vi o gurupés de uma grande escuna, que estava atrás de nós,
raspando no estai de popa do Fandango. Corri para afastar os barcos, mas
o Fandango já se desvencilhava sozinho. Tivemos sorte que o estai não
prendeu em nada, senão teríamos perdido o mastro, com certeza!
Comecei a observar a escuna e ela parecia um cavalo chucro na poita. O
Fandango também estava assim, em virtude das rajadas de vento que
entravam. Mais uma vez ela se aproximou perigosamente. Corri até a
proa e cacei bem o cabo da poita, para nos afastar da escuna. Soltei o estai
de popa e o amarrei à escota da mestra, longe da nossa atacante. Passados
alguns minutos, novamente aquele gurupés avançava como um aríete,
contra o indefeso Fandanguinho e, desta vez, o alvo foi nossa antena de
VHF que fica num suporte na popa. Graças à flexibilidade da antena ela
não foi arrancada, mas vimos que não estávamos seguros. Com tudo
escuro, ligamos o motor, soltamos a poita com cuidado, para não
pegarmos o cabo com o hélice, e saímos devagar, com olhos bem abertos,
pois existem muitos cabos soltos flutuando no local. A escuna ainda
avançava, mas desta vez já não tinha nada para atacar. Nos
encaminhamos devagar para o nosso primeiro local de ancoragem. O
vento já havia virado para nordeste e isso fez entrar muitas marolas no
local. Bem ancorados, com bastante cabo, jogamos mais cartas e fomos
descansar, com o barco balançando e o vento zunindo no estaiamento.

04/06/2006 - A noite não foi boa. Acordei diversas vezes para verificar se
estávamos firmes e o barco balançou bastante. Meu alarme de muito
vento, que é a adriça da mestra que bate no mastro quando venta muito,
tocou a noite toda. As crianças dormiram bem (como é bom não ter
preocupações e ter um “grande berço” para nos embalar!). Mesmo com
as marolas e o nordeste forte de vinte nós, o barco não saiu do lugar.
Desci em terra para procurar o Grilo e ele nos indicou outra poita,
com duas escunas ao lado, mas com mais espaço. Levamos o Fandango
para lá e, quando saíamos do barco, quase batemos em uma delas! Cacei
mais os cabos de poita do Fandango e ficamos mais afastados.
Fomos até a rua das Pedras e passeamos por lá. Fiquei mais
tranqüilo quando vi a escuna que quase bateu no Fandango navegando
na frente do centro. Retornamos passeando tranqüilamente,
aproveitando um maravilhoso pôr-do-sol. Chegamos na praia, pegamos
106
o bote e, quando íamos para o Fandango, o vimos girando para bater em
outra escuna. Uma pessoa na escuna evitou o choque. Quando chegamos
perto, ele se apresentou: era o Luís, irmão do Grilo e dono das poitas. Ele
arrumou uma âncora pesada e a soltou atrás do Fandango. Amarramos a
popa de nosso barco na âncora e nos afastamos da escuna.

05/06/2006 - Quando íamos para a praia, o Jonas viu o cabo da âncora de


popa enroscado na porta de leme do Fandango. Peguei a máscara de
mergulho e fui tomar um banho forçado. Desenrosquei o cabo e lançamos
a “âncora” (era uma garatéia para roçar fundo!) mais longe.
Alugamos um buggy para conhecer melhor Búzios. Era engraçado
dirigir um carro depois de tanto tempo! Fomos para a praia do Forno.
Nos impressionamos com as ondas que arrebentavam na praia e nos
costões. Havia uma bela ressaca no mar. Lembrei de uns versinhos que vi
na administração do ICRJ, que dizem que “com o homem tem que tomar
cuidado quando está bêbado e com o mar quando está de ressaca”. A praia é
bonita eu nunca havia visto uma praia com a areia tão vermelha antes!
Em seguida, fomos para Geribá e lá estava do mesmo jeito. Pena
não podermos tomar banho, mas não podemos negar que há uma beleza
especial no mar bravio (principalmente quando estamos seguros em
terra!). Num canto da praia, havia uma quantidade enorme de mariscos
que foram arrancados das pedras pela ressaca. Um pescador nos disse
que o mar ontem estava muito pior, com ondas do dobro do tamanho das
de hoje – muito grandes por sinal. Começamos a achar muitas conchas e,
entre elas, lindos búzios, fazendo jus ao nome do local. A praia da
Ferradura estava parecida. A entrada da barra tinha ondas estourando,
que subiam dez metros de altura ao quebrarem nas pedras.
Saímos com destino à praia da Tartaruga. Ela fica no lado norte do
cabo e o mar estava calmo. A bonita praia tem vários barzinhos ao longo
dela. O sol estava gostoso e tirei uma soneca despreocupada deitado na
areia. Devolvemos o buggy e admiramos o lindíssimo pôr-do-sol na rua
das Pedras. Acho que foi um dos mais bonitos que eu já vi!
Quando chegamos no Fandango, uma surpresa ruim: um buraco de
2x4 cm no espelho de popa do barco, feito por uma peça de metal da popa
do veleiro vizinho! Amanhã improvisarei um remendo, para esperar o
conserto final. Ia ser difícil sair incólume deste lugar.
Hoje foi um dia estranho: contradição entre o mar com ressaca das
praias do lado sul e o mar calmo da praia das Tartarugas; contradição
entre a beleza do lindo pôr-do-sol e a tristeza por ver o guerreiro
Fandango ferido.

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Travessia Decisiva

06/06/2006 - Ontem durante o dia, decidi não ir para Guarapari por causa
da ressaca. Iríamos ficar mais uns dias em Búzios esperando outra frente
fria. Em virtude do buraco no Fandango e de eu haver acordado às quatro
da manhã, com outra escuna quase arrancando o estai de popa do
Fandango, mudei de idéia. Acessei a internet e vi que havia uma janela
de tempo certinha para a complicada travessia se saíssemos cedo. Resolvi
sair da “armadilha” da Praia dos Ossos e ver como estava o mar aberto.
Se o mar estivesse muito ruim, retornaríamos para Arraial do Cabo. Se
estivesse bom, aproveitaríamos a janela de tempo e seguiríamos para
Guarapari. Comecei a arrumar o barco após ter acessado a previsão de
tempo e, às seis, eu soltava as amarras, com as crianças ainda dormindo.
Quando saímos, vi que as ondas não estavam tão altas assim. Seguimos
nosso caminho para Guarapari, cento e setenta milhas à nossa frente.
Entre nós, o temível Cabo de São Tomé e seu perigoso banco de areia, que
fica entre o cabo e as plataformas de petróleo da bacia de Campos, com
grande tráfego marítimo na região.
A Carol enjoou quando foi ao banheiro, pouco depois de acordar, e
voltou a deitar. Eu e Jonas nos revezamos na vigília e “Alfredo” levava o
barco. Íamos a motor, com o vento por trás muito fraco, fazendo bater a
mestra. A manhã estava linda e o mar bonito. Nos afastamos de Búzios e
vimos vários pássaros no caminho. Prometi um sorvete para quem
avistasse a primeira baleia. Às duas da tarde o vento rondou e aumentou,
permitindo que abríssemos as velas. Isso aumentou nossa média de
velocidade, importante para cruzarmos logo o cabo. Vi alguns barcos de
pesca perto de Búzios, mas depois eles desapareceram. Já os navios,
também não foram tantos assim e sempre passaram distantes. Seguíamos
uma linha entre os quarenta e cinqüenta metros de profundidade. Apenas
um navio passou mais perto, provavelmente vindo de Macaé em direção
às plataformas de petróleo.
Às quatro e meia da tarde, desligamos o motor e colocamos diesel,
para que o tanque não ficasse baixo: se trabalharmos com menos de meio
tanque de combustível, o pescador pode puxar sujeiras ou ar, se o barco
estiver balançando muito. Tudo correu muito bem e às cinco da tarde
deixávamos para trás o farol de São Tomé, seguindo para a ponta do
banco de areia. Presenciamos um pôr-do-sol muito belo!
108
Quando chegávamos no waypoint para Guarapari, o vento rondou,
na hora exata e para a direção exata que havia sido previsto! Desde a
travessia Rio-Arraial, quando a previsão furou feio, estou usando o Buoy
Weather como site principal de previsão do tempo. Ele tem acertado tudo
até agora. Avançamos até o waypoint e guinamos cinqüenta graus,
ficando com o vento favorável novamente. Seguíamos um rumo norte
puro, que nos levava a diminuir progressivamente graus de latitude,
coisa que venho sonhando desde que os dias começaram a ficar mais frios
e mais curtos! O Jonas não agüentou e dormiu cedo. Fiquei sozinho em
companhia da meia-lua crescente, muito brilhante, das estrelas
totalmente descobertas e dos navios e barcos que passavam. No trecho
São Tomé-Guarapari apareceram vários barcos de pesca, mas foi um
trecho tranqüilo e, por isso, me deixou com muito sono.

07/06/2006 - Após os pesqueiros, logo depois do São Tomé, os barcos


desapareceram totalmente. Continuei com motor e velas, para não
arriscar chegar à noite em Guarapari. Vi um pôr-de-lua dos mais bonitos
da minha vida! Ela desceu entre nuvens escuras e ficou alaranjada. Em
certo momento, parecia o faiscante olho de um imenso dragão de nuvens,
que a circundavam. O mar cinza chumbo completava o cenário, de certo
ponto fantasmagórico, mas extremante belo. A seguir as estrelas ficaram
ainda mais brilhantes e, naquela escuridão completa, planetas e estrelas
de primeira grandeza começavam a deixar seus rastros pelo mar, da
mesma forma que a lua.
O tempo foi passando, barcos não apareciam e eu conseguia vencer
minha luta contra o sono, não sem grande esforço. O segredo é se mexer
sempre e nunca se “encostar” confortavelmente em algum canto. O dia
amanheceu e as crianças acordaram. Deixei-os de vigília e fui dormir. Me
disseram que viram um nascer do sol também maravilhoso.
Ao acordar, vi que estávamos adiantados e que o vento estava
favorável e forte o suficiente para uma gostosa velejada. Desligamos o
motor e algumas horas depois já chegávamos em Guarapari, no Espírito
Santo, nosso terceiro estado da viagem. Foram 8 horas a motor, 17 horas
com motor e vela e 5 horas velejando, num total de 30 horas de uma
viagem muito boa, com o vento virando sempre na hora certa. Lembrei
do conselho do Dimitri, antes de iniciar a viagem: “- Nesse trecho, deixe o
orgulho de lado e coloque o motor para ajudar, pois se o vento virar antes de
dobrar o São Tomé...” e o segui à risca.
Quando chegamos em Guarapari, as aventuras ainda estavam
longe de acabar. Seguimos para ancorar na praia da Cerca, quando vimos
toda a enseada do Perocão sendo varrida por ondas. A ressaca que havia
109
em Búzios, também se apresentava por aqui. Resolvi dar meia volta e
procurar outro lugar. A ponta da praia do Morro, que estava indicada
como boa para fundeio, também se apresentava ruim. Quando me
encaminhava para o porto, que devia estar protegido, um sargento da
Marinha, do apoio marítimo da região, entrou em contato conosco pelo
rádio e perguntou se éramos o Fandango! Foi muito bom saber que
estavam preocupados conosco e que a Capitania dos Portos de Vitória
estava atenta à nossa chegada. Me disseram que o porto tinha boas
condições de atracação e para pararmos onde ficam as escunas. Entramos
pelo estreito canal atentos a tudo e, antes da ponte, atracamos na vaga de
uma escuna que está em manutenção. A responsável pelas escunas foi
muito simpática e cedeu o local para ficarmos. Logo apareceram as
pessoas que falaram conosco pelo rádio, para ver se estávamos bem
instalados. Descemos e encontramos um excelente restaurante de comida
mineira bem próximo ao barco e matamos nossa fome de “comida”. Não
cozinhei no barco durante a travessia, para a Carol não ficar mais enjoada
e só comemos frutas, bolachas e chocolates.
Voltamos ao barco para jogar uma âncora lateralmente, para mantê-
lo longe do píer e, enquanto fazíamos isso, apareceu o Mauro, um
velejador da cidade e começamos a conversar. Contamos da viagem e ele
se ofereceu para ajudar se precisássemos. Saímos pela cidade para
conhecê-la e encontramos tudo que precisávamos: supermercado com
ótimos preços, diversos bancos 24 horas, lojas diversas e até um shopping
com cinema! Tudo bem perto de onde estávamos atracados! Passeamos
até uma praia e sentamos num banco, para descansar e ver as ondas fortes
quebrando nas pedras! É melhor vê-las em terra firme!
Voltamos ao barco para estudar e depois dormir gostosamente: nas
últimas quarenta e uma horas eu dormi uma hora apenas! Adoramos a
recepção em Guarapari: gente simpática e hospitaleira e cidade
agradável. E eu, que nem pretendia parar na cidade, dou a mão à
palmatória e agradeço à ressaca (do mar!) que nos fez parar aqui!
Conhecer as maravilhosas praias? Pode esperar.

Eu nunca pretendi fazer a difícil travessia do São Tomé apenas nós


três. Seria a mais difícil da viagem e a mais longa que teríamos até o
momento. O planejado era ter, ao menos, mais uma pessoa a bordo.
Convidáramos o Fernando, do Estrela D’Alva, para fazer a travessia
conosco, que aceitou entusiasmado mas, em virtude da saída urgente, ele
não pôde ser avisado a tempo. Por outro lado, a forma como a travessia
aconteceu foi ótima. Aumentou nossa confiança, principalmente a minha
nos meus filhos, minha maravilhosa tripulação, que nunca falhou quando
110
lhes foi delegada responsabilidade.
A travessia do Rio para Arraial aumentou nossa confiança no barco.
A travessia do São Tomé aumentou nossa confiança em nossas
habilidades de marinheiros. Estavam abertas as portas necessárias para o
restante da viagem. Considero essa travessia um marco familiar, pois
conheço bons navegadores que saíram para dar a volta ao mundo com a
família e não passaram de Búzios. O pior trecho previsto havia passado!

08/06/2006 - Precisávamos tomar um banho de chuveiro! Pegamos nossas


coisas e fomos até uma pousada onde, mediante uma pequena taxa,
pudemos tomar um reconfortante (e bota reconfortante nisso!) banho de
água doce. Passeamos pela cidade e pelas praias do centro. A ressaca
escondia a areia preta de uma delas, que tinha areia monazítica. Subimos
uma ladeira até uma capela construída em 1595, por ordem de José de
Anchieta e em algumas ruínas próximas. Almoçamos e seguimos para o
aquário de Guarapari. O aquário é bem montado, com muitos peixes
interessantes, ossos de baleias e golfinhos, aquário de toque e alguns
tubarões, inclusive grandes tubarões-lixa (lambarus).
Gostamos de Guarapari! Parece ser uma cidade tranqüila, ao menos
durante o dia. Falaram-me para tomar cuidado se saíssemos à noite.
Ainda bem que o que mais curtimos acontece durante o dia.

09/06/2006 - Perto do meio-dia, o Mauro, que conhecêramos na chegada,


nos pegou para almoçar. Conhecemos sua esposa, Cristina, e fomos a um
restaurante de comida mineira excelente. Conhecemos um pouco dos
nossos novos amigos: fanáticos por viagens, eles adoram acampar e o
Mauro está construindo um trailler, o “Kalunga”. Falamos bastante de
viagens e assistimos ao jogo da Alemanha, da Copa do Mundo que
começava, enquanto almoçávamos. No apartamento deles, de frente para
o mar, vimos o restante do jogo e comemos brigadeiros e empadas.
O Mauro nos mostrou sua bem montada oficina e descemos para
ver o Kalunga. Ele conseguiu soluções ótimas para ter um trailler
confortável e o está reconstruindo por dentro! Até um banheiro com box
haverá no trailler! Cortou o teto e tornou-o escamoteável, deixando o
Kalunga com um pé direito interno muito bom e ótima ventilação.
No Fandango, mostramos nossa casinha e eles assinaram nosso
livro de visitas. Nos despedimos já com saudades e planejando nos
encontrar em breve. As crianças adoraram a Cristina e o Mauro e esses
novos amigos já encontraram seus lugares em nossos corações.

111
16
Vitória e Chocolates

10/06/2006 - Seis meses de viagem, quem diria! Se alguém me perguntasse


há quanto tempo estamos viajando, diria que seriam dez anos! O tempo
se torna relativo (Einstein que o diga!), pois o que vivemos é muito
intenso, tudo é novidade e o que vivemos há seis meses atrás ficou
distante na memória.
Comecei o dia cedo, preparando o barco para zarparmos para
Vitória. Soltamos do píer, levantamos a âncora e saímos pela barra. Liguei
para a Divisão de Apoio Operacional de Guarapari da Marinha para
informar nossa saída e agradecer a atenção. O vento favoreceu-nos na
saída e pudemos velejar um pouco. Navegamos por uma hora e meia em
orça apertada e depois o vento entrou na cara. Costeamos a bela costa
capixaba, com bonitas praias e lindos morros, até começarmos a ver os
muitos edifícios de Vitória. Quando faltava pouco para chegarmos, vimos
golfinhos tímidos ao lado do barco. Eles nos acompanharam pouco
tempo, subindo muito pouco para respirar.
Pouco antes de chegar, pudemos desligar o motor e andar só à vela.
Entramos na baía de Vitória, com o porto de Tubarão ao fundo e
recolhemos nossa isca: não pegamos nada no corrico outra vez! Fizemos
um zigue-zague entre alguns bancos de areia e pedras e entramos às três
e meia no Iate Clube do Espírito Santo.
Fomos muito bem recebidos no clube e nos colocaram numa ótima
vaga no píer. Arrumamos o barco e pouco depois chegaram duas pessoas
da Marinha para conversar conosco e perguntar se havíamos feito boa
viagem e se necessitávamos algo. Mostramos o Fandango a eles e ficamos
de fazer uma visita à Capitania na próxima semana, para agradecer e
planejar nosso acompanhamento daqui para frente.
Depois de nosso almojanta de comemoração de seis meses de
viagem, tomamos um bom banho e passeamos numa feirinha, montada
todos os sábados e domingos ao lado do iate clube. Ela me surpreendeu:
dezenas de barracas de comida com coisas deliciosas e requintadas, doces
e salgadas. Dezenas de barracas com coisas interessantes, muitas fugindo
das coisas tradicionais de uma feirinha. Havia até um mágico vendendo
alguns ótimos truques, aos quais as crianças não resistiram: compraram
duas boas mágicas cada um!

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Retornamos ao Fandango exaustos. Antes de dormir, acessando a
internet, vi que nosso amigo Ricardo Anderaos, jornalista do Estado de
São Paulo, está na Alemanha cobrindo a Copa do Mundo e tem um blog
sobre ela, atualizando-o com um notebook sem fio, como nós. Deixamos
nossa mensagem para ele, torcendo para que a seleção não se embarace
com a bola. As crianças estão loucas para ver o primeiro jogo. O
sofrimento vai começar em breve. Haja coração!

Reflexão: seis meses de viagem, sendo donos de nosso próprio


tempo. Se a frase está correta e “tempo é dinheiro”, somos milionários,
pois temos todo o tempo do mundo!

11/06/2006 - Acordamos com um maravilhoso dia de sol, sem uma nuvem


no céu e fomos aproveitar nosso domingo em Vitória. Eu estava ansioso
para mostrar às crianças a bela orla ao lado do clube. Andamos por ela,
cruzando com várias pessoas que saíram de casa aproveitando o sol e que
andavam de bicicleta, corriam ou só caminhavam despreocupadamente
como nós. O lugar é muito bonito, bem planejado e bem conservado. Há
quadras de futebol, tênis, campo de futebol, e um parque cheio de
brinquedos científicos. As pessoas que não caminhavam, estavam
sentadas entre os coqueiros, aproveitando a sombra e beleza do lugar.
Caminhamos cerca de um quilômetro e paramos para tomar água de
coco. Voltamos pelo calçadão e vimos que o parque dos brinquedos
científicos estava para abrir. Entramos e as crianças brincaram bastante,
aproveitando para fazer suas novas mágicas para as crianças que também
brincavam por ali.

12/06/2006 - Demos um pulo rápido na piscina e nos arrumamos para


fazer uma visita à Capitania dos Portos do Espírito Santo, para agradecer
toda a atenção que eles nos têm dispensado. Pegamos um ônibus na
frente do clube (os ônibus aqui são bons e baratos) e descemos na frente
da Capitania. Fomos recebidos pelo Capitão dos Portos Fernando, que foi
muito simpático conosco e perguntou uma série de detalhes da viagem.
Disse que gosta de velejar e que gostaria de fazer algo semelhante.
Ganhamos presentes, que as crianças gostaram muito e logo estavam
usando: bonés, broches e canetas da CPES.
O Iate Clube do Espírito Santo nos dispensou das diárias de estadia.
Nosso muito obrigado ao ICES!

13/06/2006 - Às oito horas da manhã o despertador tocou e acordamos


animados para o dia cheio que teríamos. Após colocarmos calça e tênis,
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que faz tempo que não usamos, mas são obrigatórios para a visita à
fábrica dos chocolates Garoto, pegamos o ônibus para lá. O trajeto é muito
bonito, passando por uma ponte alta, que tem uma bela vista e passa ao
lado de um antigo e enorme convento. Mudamos de ônibus no terminal
de Vila Velha e, em pouco tempo, estávamos na porta da fábrica.
Compramos os ingressos e entramos.
O cuidado com limpeza na fábrica é enorme e nos mandaram
colocar toucas, roupas, protetores de sapato e de barba. Minha impressão
era entrar numa sala de cirurgia! A produção é quase toda automática,
com pouquíssima interferência manual. Existe o que eles chamam de
“chocoduto”, que é um tubo de seis quilômetros de extensão, que leva o
chocolate para toda a fábrica e equivale ao “rio de chocolate” do filme “A
Fantástica Fábrica de Chocolate”. Os números são impressionantes:
toneladas de açúcar são usadas por dia, máquinas que fazem até 20
bombons por segundo e duas mil pessoas trabalhando no local. A melhor
parte foi a degustação de bombons, que têm sabor muito melhor do que
os comprados, pois acabaram de ser produzidos. Paramos na lojinha da
fábrica, muito bonita e impossível resistir: compramos um monte de
chocolates para nós e para presentear amigos.
Saindo da fábrica, retornamos ao clube, onde encontramos nosso
amigo Claudinei, que acabara de chegar. Após o almoço, fomos para o
restaurante do clube ver o jogo do Brasil e bater um papo com a tripulação
do Moara: o Claudinei, o Paulo e o Edgar de Arraial do Cabo. Sofremos
bastante durante o jogo e, após o término, mostramos um pouco das
imediações aos nossos amigos.

15/06/2006 - Fomos passear na praia de Camburi, que fica perto da


marina, passando uma ponte. A praia é bonita, mas parece estar poluída,
pois não havia ninguém dentro da água. Na volta, encontramos uma
livraria e comprei “O Velho e o Mar”, nosso próximo livro de leitura (na
capital da pesca oceânica, nada melhor do que ler esse livro!).
Fomos recepcionar a Lu no aeroporto, que chegava para nos visitar.
Deixamos suas malas no Fandango e jantamos com o Dionísio, a Janaína
(amigos da Cristina de Guarapari) e a Eleonora (prima da Lu) num
rodízio de pizzas. Alguns sabores eram diferentes dos nossos “paulistas”,
entre elas, as especialíssimas pizzas de caranguejo e de caranguejo
capixaba (puxado na pimenta e no pimentão). Também experimentei
pizza de churrasco (já imaginaram?!), que estava ótima.

17/06/2006 - Fomos conhecer a praia da Costa. É uma praia belíssima, que


fica em Vila Velha. Tomamos banhos de mar e ficamos com pena de não
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termos trazido as máscaras de mergulho. Experimentamos vários
sorvetes, inclusive de araçaúna, que é delicioso (tem gosto de mistura de
açaí com limão). Cada picolé custou apenas cinqüenta centavos!
Resolvemos visitar o Convento da Penha, que enxergávamos de
qualquer lugar de Vila Velha e Vitória pelos quais passávamos.
Chegamos um pouco antes de fechar. O lugar é maravilhoso, cheira a
história e tem uma vista panorâmica privilegiada. A construção e os
ornamentos são antiqüíssimos e imaginei o trabalho insano de construir
tal monumento, no pico um morro tão alto.

19/06/2006 - Conhecemos o Aurélio, amigo do Mauro, com muitas


histórias de aviões, helicópteros e veleiros para contar. Ele e mais dois
tripulantes foram de Vitória até Abrolhos e voltaram, com seu pequeno
Skipper 21, na cabeça de uma frente fria, numa viagem alucinante.
Ficaremos novamente sem a companhia da Lu amanhã!

21/06/2006 - Puxei a previsão de tempo e vi que o nordeste previsto para


amanhã é mais forte do que marcava ontem. Resolvemos adiar a saída
para quinta-feira bem tarde. Dessa forma fugimos do vento contra,
assistimos o jogo do Brasil e saímos antes da sexta-feira. Para quem não
sabe, dizem que dá azar sair para uma viagem longa numa sexta-feira.
Não acredito nessas coisas, mas, por via das dúvidas (e ainda mais num
trecho cheio de baleias!), sairemos no final da quinta.
Saímos para visitar o Museu Ferroviário. Valeu a pena: o museu é
muito bom! Vimos muitas coisas sobre como construíam as ferrovias
antigamente e uma enorme maquete, com trenzinhos em funcionamento.
Falei da importância das redes ferroviárias e ser uma pena não terem
construído mais redes no Brasil, pois optaram estrategicamente pelo
transporte rodoviário, que é muito caro. As crianças entraram numa
“maria fumaça” e num vagão de passageiros. Expliquei o funcionamento
dela e eles se surpreenderam, pois é, basicamente, muitíssimo parecido
com a usina nuclear de Angra, a não ser pelo material que aquece a água
(madeira x fissão nuclear).
Retornamos ao clube, tomamos nosso banho e vi uma coisa que
reflete bem o povo de Vitória: um rapaz de terno e gravata pescando no
píer do clube! Trabalho e prazeres, junto ao belo mar capixaba, fazem
parte do dia-a-dia desta grande capital.
À noite, tomamos sorvetes com a Janaína, o Mauro e a Cristina. As
crianças ganharam presentes e conversamos três horas, enquanto Jonas
desenhava veleiros de regatas em guardanapos, para presenteá-los.

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Lar das Baleias

22/06/2006 - Registrei a saída do barco no clube, agradecendo a


maravilhosa estadia. Depois, foi a vez de testar o coração: jogo do Brasil!
Ainda mais quando o Japão começou ganhando por 1 a 0. Ainda bem que
o Ronaldo acordou e decidiu o jogo. Após os 4 a 1, tomamos um bom
banho e fui dormir, para estar acordado à noite.
Acordei às dez e meia e arrumei o que faltava para a saída. Avisei
o Posto de Controle de Vitória de nossa saída e, por coincidência, quem
estava no plantão era o mesmo sargento que nos recebeu, quando
chegamos. Senti uma emoção grande em sua despedida, com votos de
boa sorte e de acompanhamento Divino e me emocionei também. Eram
onze e meia e estávamos a caminho de um dos pontos altos de nossa
viagem: conhecer Abrolhos! Além disso, seria nossa travessia mais longa
até o momento, planejada para quarenta horas.
Saímos devagar, seguindo os waypoint’s que usamos para entrar.
Nunca é fácil chegar e sair de um lugar pouco conhecido à noite.
Pouco depois de sairmos, as crianças foram dormir. O trânsito de
barcos na região é grande e vários cruzaram conosco. Um grande
rebocador passou bem perto de nós. Rapidamente deixamos o porto para
trás, junto com a bela cidade de Vitória, o hospitaleiro e confortável Iate
Clube do Espírito Santo e vários amigos feitos na cidade. Foi uma estadia
memorável, muito mais agradável do que eu poderia imaginar, quando,
em 2002, pensei que gostaria de ficar vários dias por ali com meu próprio
barco. Quanto à partida, a noite seria longa, mas ela estava estrelada e
quente!

23/06/2006 - Afastando-nos um pouco do porto de Tubarão, uma série de


cheiros adocicados e (imaginem!) de pães assados invadiam a noite no
meio do mar. As estrelas não podiam ser mais bonitas e a noite de lua
nova ajudava muito nisso. Soprava o vento norte prometido pelo Jadir
Serra, quando ele me sugeriu que saísse de Vitória à noite. Como o vento
era muito fraco, navegávamos com vela e motor e o andamento era bom.
O mar tinha pequenas ondas e andávamos próximos à costa. Vi uma
estrela cadente e o pedido foi o mesmo de sempre: chegar bem ao nosso
destino! As luzes de Vitória foram ficando para trás e cada vez mais
longe. Também ao longe, eu via, pela bochecha do barco, uma luz muito
116
forte no mar, de alguma plataforma de extração de petróleo ou gás. A
noite correu tranqüila e, como eu estava bem descansado, foi deliciosa.
Amanhecendo, vi uma grande fábrica ou usina soltando muita
fumaça no litoral. Deixei as crianças dormirem bastante. Às nove da
manhã, o vento melhorou e desliguei o motor. O Jonas acordou com o
barulho e ficou comigo. Vimos a água bastante turva, pois estávamos bem
na direção da foz do Rio Doce. Passada a foz, a água clareou novamente.
Logo a Carol acordou. Ela está tomando um remédio contra enjôo
chamado Meclin, receitado pelo meu irmão. Fez um bom efeito e não deu
muito sono nela.
Dormi um pouco e deixei as crianças na vigília, com o Alfredo
levando o barco sempre. Às duas, vimos um grupo de doze pesqueiros,
todos muito próximos uns dos outros. Rebocávamos nossa linha de pesca
desde o amanhecer e fiquei na esperança de pegarmos um peixinho no
local, mas nada aconteceu.
Vimos nuvens estranhas na direção da costa, que chamaram nossa
atenção. Sempre brincamos de adivinhar com o que se parecem as
nuvens. A maior parecia a proa de um navio. Depois, o Jonas falou que
ela parecia o cabelo do Johnny Bravo. Por fim, a nuvem mudou de forma,
até ficar quadrada e vazada no meio, uma moldura perfeita! E, dentro
dessa moldura, distinguimos perfeitamente os vultos de duas pessoas de
corpo inteiro, viradas para nós, nos olhando, ou... olhando por nós? Foi
impressionante! Uma pessoa estava em primeiro plano, à esquerda e a
outra, era menor ou dava a impressão de estar mais atrás, à direita.
Ficamos espantados! Senti confiança e sei quem se mostrava ali!
O vento melhorou e vinha de uma direção muito boa: través. Ao
longo do dia, eu tentei dormir para agüentar melhor à noite. Tivemos um
pôr-do-sol muito lindo e a velejada estava maravilhosa. Reduzimos a
mestra, como faço quase sempre à noite.
Fiz um miojo para o jantar, a pedido das crianças. Ainda bem que
eles adoram, pois era o mais fácil a fazer na situação. As milhas que
faltavam para Abrolhos iam diminuindo rapidamente e eu tentava
descansar para agüentar a segunda madrugada acordado. O Jonas e a
Carol estavam muito animados e ficaram comigo no começo da noite.
O vento começou a apertou mais e reduzimos a genoa. O
anemômetro marcava vinte nós de vento e a velocidade do barco era mais
do que eu desejava. Eu não queria estar, ao amanhecer do dia, muito perto
de Abrolhos, para diminuir o risco de choque com baleias. Como elas
dormem na superfície, o acidente mais comum com velejadores é,
exatamente, atropelar baleias (imaginem um veleiro de três toneladas e
meia, em alta velocidade, atropelando uma baleia de 30 toneladas! –
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quem se “machuca” mais?). Além disso, eu queria estar de dia nessa
região, onde vimos muitas baleias em 2002, para que as crianças
pudessem vê-las – visão inesquecível!
O vento continuou aumentando e as ondas, que também entravam
de través, varriam o barco todo e nos molhavam. Decidi tirar a mestra.
Segurando-me bem e com o cinto de segurança sempre atado, entramos
um pouco no vento e eu fui ao mastro baixar a mestra. A tripulação
funcionou perfeitamente e, mesmo à noite e só com uma pequena
lanterna para ajudar, todos sabiam exatamente o que fazer para baixá-la.
Cabos foram soltos, outros presos e eu amarrei a mestra com um pequeno
cabo, para que ela não abrisse se o vento apertasse mais. Nota mil para a
tripulação: nem uma falha, nem um atraso e nem uma ordem precisou
ser repetida!
Com apenas a genoa aberta parcialmente, a velocidade do barco
diminuiu e tudo ficou mais confortável, sem grandes choques com as
ondas e sem muitos respingos no cockpit. Calculo que a velocidade do
vento, na hora que baixamos a mestra, deveria ser de vinte e cinco nós.
As crianças foram dormir. A minha noite mais longa estava
começando: sem ter dormido o suficiente durante a noite anterior e
durante este dia, o sono iria bater muito forte. Continuamos navegando
rumo à maravilhosa Bahia, loucos para atravessar a divisa dos estados. O
vento ficou forte por um bom tempo, mas eu não avistava barco algum.
De vez em quando, escutava no rádio alguém chamando outro barco, mas
devia ser longe, pois eu nada via. Graças às ondas laterais, o conforto no
barco era muito pouco. Tudo que tínhamos que fazer era com sacrifício.
A noite foi passando e o vento amainou novamente.
Como o piloto automático não conseguia levar o barco só com a
genoa no vento fraco, resolvi levantar a mestra novamente. Fui até o
mastro, sempre bem amarrado, e soltei a vela. Retornei ao cockpit e a
levantei-a facilmente. Retornávamos ao bom rumo e à boa velocidade.

24/06/2006 - A madrugada foi chegando e o vento mudou um pouco de


direção. Precisamos orçar um pouco mais e o Fandango começou a andar
numa orça folgada, rumo que ele também gosta. Só que o vento voltou a
apertar e eu tive que tirar mais genoa. O sono batia forte e eu tentava
descansar entre cada olhada no horizonte. Resolvi colocar o relógio para
despertar a cada 15 minutos, pois eu vi apenas uns dois navios passando
ao longe nas últimas horas. Dessa forma, consegui descansar para
agüentar toda a madrugada. É assim que os velejadores solitários fazem:
acordam a cada 15 minutos, verificam se há alguma embarcação nas

118
redondezas e, se não, voltam a dormir mais 15 minutos. Fiz isso umas
cinco vezes e já senti o cansaço e o sono irem embora.
O vento voltou para o través e apertou novamente. Para não
acordar as crianças, resolvi tirar toda a genoa e andar só com a mestra no
segundo rizo. Funcionou bem! O problema era só a velocidade.
Continuávamos andando a seis ou sete nós apenas com a mestra no
segundo rizo! Nessa hora, o vento já devia ter passado dos vinte e cinco
nós e as ondas tinham mais de dois metros. Era mais ou menos o que
pegamos na ida do Rio de Janeiro para Arraial, mas, desta vez, a direção
do vento fazia toda a diferença, pois era favorável.
Às quatro da manhã, avistei as luzes do farol de Abrolhos e fiquei
muito contente. Estávamos chegando e não faltava muito! Assim que o
dia clareou um pouco, mesmo sem o sol ter nascido, chamei o Jonas, pois
o sono estava insuportável. Ele acordou rapidamente e ficou no meu
lugar. Falei para ele ficar de olho em barcos e não sair debaixo do dog-
house, que o protegia totalmente dos ventos e dos respingos e que, se
houvesse qualquer mudança na situação, me chamasse.
Deitei, fechei os olhos e dormi imediatamente. Dez minutos depois,
acordei com um grito: BALEIA!!! Pulei da cama e sai imediatamente, a
tempo de ver a água voando ao lado do barco. Uma baleia tinha espirrado
um grande volume de água, bem ao lado do Fandango e foi isso que o
Jonas viu de dentro do dog-house. Saí e olhei para o lado de boreste a
tempo de ver o grande dorso da baleia a três metros do costado, naquele
acinzentado do nascer do dia, mergulhando sob o barco. Falei para
ligarem o motor, sem engatá-lo, pois dizem que o barulho as espanta.
Nisso, a Carol já estava no cockpit também, procurando as baleias, mas
nenhuma se apresentou novamente. Com o mar muito picado e o vento
ainda muito forte, era difícil ver alguma baleia à nossa volta, a não ser
que estivéssemos bem ao lado dela. Nossa visitante, assim como apareceu
foi embora e nos deixou um sentimento conflitante: ao mesmo tempo em
que estávamos um pouco assustados com a aparição tão perto do barco,
ficamos com gosto de “quero mais”! Continuamos com o motor ligado
para fazer barulho e voltei a dormir.
Dormi até as oito horas e, quando levantei, vi que a situação
continuava a mesma: vento forte, mar picado e o Fandango velejando
maravilhosamente bem, a seis nós, só com a mestra no segundo rizo.
Desligamos o motor. O dia estava bonito e o mar grosso o deixava mais
bonito. A única pena é que não avistávamos as baleias por causa disso.
Com o sol mais forte, o vento enfraqueceu e permitiu a abertura de
parte da genoa. O mar foi ficando mais liso e às nove horas avistávamos
as ilhas de Abrolhos: Santa Bárbara, Redonda, Siriba, Sueste e Guarita, as
119
belíssimas ilhas, que um dia foram a borda de um grande vulcão, estavam
à nossa espera. Estávamos todos no convés apreciando a chegada.
Enquanto conversávamos distraidamente no cockcpit, olhei para o
lado e vi jorros de baleias a uns 500 metros de distância. Vimos os dorsos
e um belo salto de costas de uma delas. Deviam ser duas ou três. Pensei
em voltar para vê-las, mas o cansaço estava grande e a vontade de chegar
imensa.
Nos aproximamos das ilhas pela rota de maior profundidade.
Informei nossa aproximação ao rádio-farol de Abrolhos e pedi instruções
para pegar uma poita. Me recomendaram pegar a poita ao norte da ilha.
Como estava batendo o sueste, tanto o lado norte quanto o lado sul ficam
desprotegidos, mas disseram que o norte estava menos ruim. Nos
aproximamos com cuidado e chegamos à poita. Um pesqueiro estava
ancorado calmamente ao lado dela. Demos a volta por trás do pesqueiro
e nos aproximamos. Como a bóia da poita era de ferro e grande, eu não
queria que o barco batesse contra ela. Juntando a isso o vento forte que
soprava e as ondulações no local, resultou que precisamos de umas seis
ou sete tentativas para conseguir pegá-la! E foi na raça, pois quando as
crianças conseguiram “pescá-la”, quase a soltaram junto com o croque,
porque não conseguiam segurar o barco com o vento e as ondas
empurrando. Consegui chegar a tempo e com grande esforço
conseguimos passar o cabo de amarração. Puxa, conseguimos!
Começamos a arrumar o barco e uma pessoa com equipamento de
mergulho saiu da praia e se aproximou. Era o sargento Iran, responsável
pelo comando da base da Marinha da Ilha de Santa Bárbara. Nos
apresentamos, começamos a contar as histórias da travessia, com o barco
balançando bastante, quando ele, meio sem jeito, falou que, enquanto
tentávamos pegar a poita, o outro lado da ilha ficou com melhor situação
de vento e que a previsão era do vento virar mais para nordeste. Ou seja,
deveríamos soltar a poita tão difícil de pegar e ir para o lado sul! Ai, ai!
Mas, como não adianta chorar pelo leite derramado, começamos a nos
preparar para isso. O sargento foi muito gentil e voltou à ilha para inflar
o bote deles e nos ajudar a pegar a poita do outro lado. Soltamos a poita,
à qual deixei um cabo amarrado, caso precisássemos voltar, e
contornamos a ilha pelo lado do farol. A correnteza era violenta (ela devia
estar entre três e quatro nós!) e mal conseguíamos andar para frente entre
a ilha da Guarita e a de Santa Bárbara. Quando acabamos de contornar, a
velocidade aumentou violentamente e rapidamente chegamos à poita. O
sargento já estava lá com o bote e passou nosso cabo dentro do olhal da
poita. Falou que seria mais seguro se colocássemos um cabo mais grosso
(o meu era de doze milímetros!) e outro de reserva, pois já aconteceu de
120
um veleiro arrebentar o cabo e ir parar nas pedras. Assim que ele se foi,
tendo feito o convite para visitarmos a Ilha de Santa Bárbara, arrumamos
nossas coisas e almoçamos.
Eram onze e meia e finalmente, após trinta e seis horas de viagem,
sendo onze a motor e vela e o restante apenas velejando (e muito bem!),
estávamos em Abrolhos, um paraíso que todo brasileiro amante de
natureza deveria conhecer um dia! E não é só um paraíso embaixo da
água, não. É bela demais na superfície também. Antes de descer para a
ilha, peguei a máscara e a nadadeira e fui até a bóia da poita, para colocar
outro cabo com uma proteção, para não ficar roçando na bóia de ferro.
Voltei ao barco e o amarrei mais curto. Dessa forma, tinha um cabo
tensionado prendendo o barco e outro mais comprido, para segurá-lo se
o primeiro arrebentasse.
Descemos em terra com o bote do sargento Iran e conhecemos o
Egno, guarda-parque do Ibama. Muito gentil, ele nos falou as regras do
Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, nos deu folhetos com
informações do parque e falou para as crianças uma série de coisas
interessantes sobre ele. Conhecemos o simpático sargento Flávio, que nos
levaria para conhecer a ilha. Extremamente gentil, ele nos levou para
conhecer tudo: geradores, instrumentos meteorológicos, cisternas..., nada
faltou mostrar. Flávio falou que, na noite em que chegáramos, o
anemômetro marcou vinte e seis nós! Ele também nos levou para ver
alguns atobás brancos, que nidificaram na ilha. Vimos um filhote de atobá
morto, com uma fêmea protegendo-o. Deu muita pena! Como as fragatas
roubam o alimento dos atobás e dos filhotes, estes morrem de inanição.
Ele pegou o filhote e o jogou longe, despenhadeiro abaixo. É muito
melhor para a mãe isso, do que ficar tentando alimentar um filhote morto,
mas acabamos ficando tristes vendo a mãe perdida, procurando-o.
Depois, fomos até um ninho com um filhote grande e, como são muito
mansos, ele pegou o filhote para que passássemos a mão. A Carol ficou
fascinada! A penugem é extremamente macia. Parece pelúcia! Ele
explicou diversas coisas sobre o desenvolvimento dos filhotes e suas
mudanças.
Por último, vimos uma das grandes belezas da ilha: seu
importantíssimo farol! Subimos até o topo e vislumbramos a linda vista
lá de cima. O Fandanguinho pulava como cavalo chucro amarrado em
sua poita e, de lá, enxergávamos até o horizonte. Ficamos sabendo, por
ele, que chegamos exatamente junto com as baleias! Hoje é o primeiro dia
do ano que as estão avistando e, do farol, nós vimos mais algumas
pulando atrás da ilha sueste, provavelmente, as mesmas que vimos
quando chegamos. É, acho que estamos com sorte!
121
Ficamos de voltar no dia seguinte, para conhecer a outra ponta da
ilha de Santa Bárbara. O Flávio nos levou de volta ao barco, onde
conversamos e ele assinou nosso livro de visitas.
Logo que ele saiu, deitei um pouco. Eram cinco horas da tarde.
Dormi imediatamente. As crianças fizeram sanduíches quentes e me
ofereceram. Comi deitado mesmo e, por duas vezes, adormeci com
pedaços do sanduíche na boca. Eles liam e faziam seus os diários. Quanto
a mim, dormia o merecido sono do qual tanto estava precisando, mesmo
com o mar mexido e o barco balançando muito!

25/06/2006 - Acordei às duas da manhã, preocupado com os cabos de


amarração. Peguei a lanterna e fui até a proa. Tudo estava em ordem.
Voltei para dentro e dormi imediatamente. Quando acordei outra vez,
eram nove horas da manhã. Dormi dezesseis horas! Acho que nunca
dormi tanto! Acordei com a sensação de estar mais descansado, mas com
dores musculares. O dia estava lindo! Fui dar uma olhadinha no cabo da
poita outra vez e... o cabo principal estava arrebentado! Quem nos
segurava era o sobressalente! Ele arrebentou por ficar roçando no próprio
barco, logo abaixo da guia! Senti bater muito à noite, mas não imaginei
que isso pudesse ocorrer. Santa prevenção e santo conselho do sargento
Iran, senão seríamos mais um veleiro naufragado em Abrolhos, pois o
vento nos jogava na direção das pedras. Pensei um pouco e resolvi acabar
com o problema de vez: usei a corrente da âncora para nos prender à bóia.
Ficou muito melhor, pois os trancos foram amortecidos pelo peso da
corrente e nós ficamos bem mais seguros.
O Egno nos convidou para ver a ilha Siriba. Inflei nosso botinho e
seguimos para lá. Quando chegamos, ele já estava com vários
mergulhadores do Rio, que também fariam a visita. Após as instruções
de praxe, começamos a andar no meio de muitos ninhos de atobás
brancos. As crianças se admiravam com cada detalhe do local e com a
quantidade de ninhos. Passamos por grandes paredões de rochas
magmáticas. Vimos alguns atobás mortos e os restos de um veleiro, cujo
cabo havia rompido. Senti um arrepio na “espinha”!
Os filhotes eram muitos, de vários tamanhos e idades. No meio
deles, alguns atobás jovens, de penagem diferente, se destacavam. Vimos
também grazinas, que fazem um barulho danado e as fragatas sempre
sobrevoando os ninhos, prontas para atacar quem está com o peixe. Me
lembram muito os políticos de hoje! O engraçado é que o atobá, sendo um
pássaro muito forte e tão numeroso, não se defende. O mesmo eu vi num
documentário sobre os pingüins imperadores. Se eles se juntassem, seria
fácil colocar seus predadores e parasitas para correr, mas não o fazem.
122
Quando olho para nossa situação e nossos políticos, vejo que a coisa
também não é tão fácil assim para nós!
Demos a volta à ilha e vimos alguns atobás marrons, que
nidificaram lá. O Egno disse que é a primeira vez que ele vê isso
acontecer, pois normalmente eles não se juntam. Os marrons são mais
ariscos, não gostam de visitas (um abandonou o ninho e dois ovos quando
chegamos perto) e, normalmente, nidificam na ilha Redonda.
Após a visita, mergulhamos ao lado da ilha com o bote. A água
estava mexida, mas mesmo assim a visibilidade era das melhores. Vimos
cardumes enormes de cirurgiões azuis, vários frades e uma tartaruga bem
perto, muito mansa. Tirei fotos submarinas e só voltamos ao bote porque
o Jonas estava morrendo de frio (isso porque a água estava quente!). Pena
que esquecemos de trazer sua blusa de neoprene.
Retornamos ao Fandango onde fizemos um lanche de bolachas e
frutas para não perder tempo, seguindo novamente para a ilha de Santa
Bárbara. Na praia, as crianças viram rochas sedimentares, que formavam
um tipo de caverna e que eram “moles”. Elas se dissolviam na nossa mão
e até o vento as molda ao seu bel prazer.
O Flávio nos buscou na praia e nos levou até a sua casa. Lá
conhecemos sua esposa, Débora, e a Flavinha, que dormia. Comemos
bolo e tomamos refrigerantes. Conversamos bastante sobre filhos e
saímos para conhecer a outra ponta da ilha. Andamos um quilômetro e
chegamos num local repleto de ninhos de atobás, com várias fragatas
sobrevoando-os. Lá havia uma cruz, para identificar o local. É a vista mais
bonita da ilha! Víamos o farol atrás de nós e o sol se pondo no horizonte.
Simplesmente divino! Junte-se a isso o barulho das aves, um bando de
cabras e bodes passando ao longe, com aquele azul incrível do mar de
Abrolhos dominando todo o horizonte e você não tem vontade de sair
mais dali.
Na ilha, moram várias famílias de pessoas da Marinha e gente do
Ibama. Moram ali períodos relativamente longos, cuidando da ilha, do
parque e, principalmente, do maravilhoso farol, cuja conservação é um
primor. Eles têm ótimas casas, construídas pela Marinha e mantidas por
eles, com uma vista da varanda incrível, de onde vêem passar as baleias
no inverno e aves migratórias o ano todo.
Após o pôr-do-sol, retornamos para perto do farol e o Flávio nos
levou para conhecer a estação de rádio. Lá eles têm internet e enviei uma
mensagem, avisando que chegáramos bem em Abrolhos. Nos
despedimos da bela família e retornamos ao Fandango, com tudo escuro.
No barco, aproveitamos para ler um livro, que eu trouxe
especialmente para a ocasião, chamado “Luzes do Novo Mundo: História
123
dos Faróis Brasileiros”. Abrindo-o, revi a mensagem da amiga que nos
deu o presente, a Simone, de Floripa, que diz o seguinte: “Sérgio, que os
faróis da nossa costa inspirem e marquem o rumo dos seus sonhos. Tenho
certeza que depois deles, continuarão a fazer isto os faróis dos outros
tantos cantos (ou costas) do mundo. Abração, Simone (maio/2002)”.
Lemos o texto do farol de Abrolhos e a introdução do livro, que fala
da importância dos faróis, do qual quero ressaltar um trecho: “Quantos
seres humanos deram parte da vida, seu suor, para construí-los nos locais
de mais difícil acesso? Quantos viveram isolados, tão longe de tudo e de
todos para fazê-los funcionar ininterruptamente, com apenas a própria
consciência como testemunha do dever cumprido? Que força é essa que
leva um homem a zelar por outros que nunca viu, nem verá, em um
trabalho silencioso e incógnito?” As crianças gostaram tanto, que
continuaram lendo sobre outros faróis pelos quais passamos, mas não
visitamos.
Enquanto liam, eu fiz o jantar: risoto, ovos fritos, salada de tomates
e cenouras. Os ovos eles ganharam de presente da “granja” do Flávio, que
cria galinhas em seu quintal. Foi a primeira vez que eles comeram “ovos
caipiras” e, incrivelmente, ovos de Abrolhos!
Depois do jantar, ficamos do lado de fora do barco, vendo o céu
todo estrelado e o lindo farol esparramando suas luzes pelas ilhas do
arquipélago que nos contornavam. O frio não nos deixou ficar muito e
entramos. O barco continuava balançando bastante, mas a tripulação já
está acostumada. Após algumas horas de trabalho e leitura, cada um caiu
em sua cama e adormeceu. Dei um pulo na proa para ver se tudo estava
bem com a amarração do barco e voltei para dormir deliciosamente
cansado.

26/06/2006 - O dia estava muito bonito e o vento havia virado mais para
nordeste, nos deixando abrigados na poita em que estávamos.
Pegamos o botinho e seguimos para uma pequena poita perto da
praia da ilha de Sta Bárbara. Caímos na água e ela estava transparente,
apenas um pouco fria. Começamos a ver muitos e muitos peixes. Vimos
vários frades, três budiões azuis que deviam ter de 4 a 5 quilos cada um
e dezenas de cardumes de peixes coloridos! O Jonas sentiu frio e voltou
ao bote. Eu e a Carol mergulhamos outro tanto! Foi um mergulho
maravilhoso, digno de Abrolhos. Vimos muitos corais diferentes e
vegetação marinha desconhecida para nós. Os grandes corais cérebro são
o destaque no local. Achamos um “mini-chapeirão”, que é uma estrutura
coralínea que cresce em forma de cogumelo, vindo do fundo e que alcança

124
grandes tamanhos (até vinte metros de altura e cinqüenta de diâmetro!).
Foi um belo mergulho e retornamos ao barco com fome.
Depois do almoço, fomos à ilha de Santa Bárbara para acessar a
previsão de tempo. Ela não está nada favorável para seguirmos viagem.
Prevê vento na cara amanhã e vento favorável muito forte na quarta-feira.
Teremos que ficar por aqui amanhã (as crianças adoraram isso!) e verei
se a previsão muda para quarta.
Conversamos bastante com o sargento Iran, que passou
experiências de vida muito importantes. Muitas vezes, as crianças firmam
mais um conceito, se não forem os pais falando e acho que foi o caso, pois
foi repetição de várias coisas que eu já havia falado, com exemplos
vividos por outra pessoa. Também falamos bastante de Abrolhos e sobre
os cuidados da Marinha com as pessoas que navegam por aqui. Se todos
os navegantes seguirem as recomendações deles, informarem quando
estão chegando, pedirem instruções para aproximação e pedirem
previsões de tempo para eles, que são extremamente gentis para dá-las,
tudo seria muito fácil e seguro, como foi conosco. Não se pode brincar
por aqui, pois as forças da natureza são imensas nesta região.
Fomos convidados para ver o jogo do Brasil amanhã com eles, já
que não poderemos seguir viagem e aceitamos prontamente. Retornamos
ao barco para arrumar algumas coisas e estudar. O Jonas “devorou” o
livro de história do colégio e o acabou hoje. Saímos um pouco da cabine
e a Carol falou que nunca viu céu tão bonito!

27/06/2006 - Deixei as crianças dormirem bastante, pois hoje à noite


poderemos fazer uma travessia até Cumuruxatiba. Assim que elas
acordaram, tomamos nosso café e descemos na ilha de Santa Bárbara,
para assistir ao jogo do Brasil com Gana. Demos uma carona com o bote
para alguns pescadores, que também iriam ver o jogo e subimos para o
local onde fica a sala de rádio. Uma grande televisão foi levada para lá e
várias pessoas já estavam no local. Porque perto da sala de rádio? Para
que todos pudessem assistir ao jogo sem parar o principal trabalho do
Rádio-Farol Abrolhos, que é a orientação àqueles que passam pelo local.
Com o rádio VHF portátil ao lado da televisão e os outros rádios
próximos, lá estávamos todos nós torcendo para o Brasil!
Com o ouvido nos rádios e os olhos na televisão, vimos como, com
um gol logo de cara e um futebol fraquinho, o Brasil ganhou por 3 a 0.
Mesmo assim, vibramos muito. Ronaldo Fenômeno se tornou o maior
artilheiro em copas com seu gol e jogou bem.
Após o jogo, vi previsões de tempo e não eram boas. Uma frente
fria estaria entrando, provavelmente, no meio da noite e o nordeste ainda
125
soprava forte. Dessa forma, não poderíamos passar de dia para o lado
norte da ilha, que é abrigado de vento sul/sudoeste. Eu estava prevenido
e já havia feito a navegação para todas as possíveis rotas necessárias.
Despedimo-nos dos amigos feitos na ilha e voltamos ao barco, para
aproveitar o final da tarde para mergulhar.
Pegamos o material de mergulho e nos dirigimos à enseada sul, do
meio da Ilha de Santa Bárbara. O Jonas ficou no bote, pois estava com frio.
Começamos a mergulhar com água turva em local fundo, mas depois
tudo mudou: a água clareou e muitos peixes começaram a aparecer, no
que se tornou um dos melhores mergulhos da minha vida. Um banco de
corais com três metros de profundidade e água muito clara, fazia fundo
para budiões azuis enormes que passavam embaixo de nós. Havia muitos
frades adultos e jovens no local, além de muitos peixes coloridos. A Carol,
que andava com o braço passado no meu, deu um grito: uma linda
tartaruga passava à nossa frente! Fomos até ela e ela não se assustou,
quase permitindo-nos tocá-la. De repente, aparece outra tartaruga menor,
mas assustada. Avançamos para o fundo da enseada e encontramos mais
uma tartaruga, um pouco maior que as outras, que permitiu que nos
aproximássemos bastante e passássemos a mão em seu casco! Passamos
a mão diversas vezes e ela não se afastava de nós! Resolvemos chamar o
Jonas. Voltamos ao bote e o viemos rebocando, enquanto ele se equipava.
Quando chegamos ao local novamente, o Jonas pulou na água. A Carol
viu uma bicuda de quase um quilo na tona. Pouco mais à frente, vimos
uma barracuda de um quilo ou dois. Isso foi o suficiente para o Jonas
voltar ao bote e ficar olhando com a cara dentro da água e o corpo dentro
do bote! Logo apareceram mais uma, duas, três, até que havia cerca de
vinte barracudas ao nosso redor! A maior não passava de três quilos. A
Carol, apesar de estar com um pouco de medo, continuou grudada
comigo dentro da água. Chegávamos perto delas e elas nos observavam.
O Jonas viu, na costa, bem na frente de onde mergulhávamos, o que
seria a maior parte dos restos do veleiro argentino, que nos contaram ter
naufragado no local, após uma frente fria ter entrado e ele não ter
mudado para o outro lado da ilha. Deu-me um frio na barriga!
Continuamos o mergulho e, logo adiante, achamos mais tartarugas. O
Jonas voltou para a água e quase passou a mão em uma. Mais à frente,
outro grito da Carol: um baiacu-arara enorme, com cerca de cinco quilos,
como eu não vi até hoje, nadava tranqüilamente à nossa frente!
Observamo-lo um pouco e seguimos adiante. Outra surpresa, outro grito:
uma enorme raia-prego se encontrava num buraco de areia no meio dos
corais. Linda, ela levitou suavemente e se afastou de nós, com a Carol
nadando sobre ela.
126
Quando a fauna rareou, subimos no bote, pois já estávamos com
frio. Foi um mergulho fantástico! Não precisei descer nem uma vez para
ver tudo isso. Tudo foi visto da tona e o mergulho não durou uma hora!
O incrível, também, é que quem viu praticamente todos os peixes
primeiro foi a Carol. Que olho!
No barco, nos secamos, colocamos roupas quentes e arrumamos as
coisas para a travessia. O Egno apareceu e nos deu um pote com ovos que
o Flávio enviara. Quanta gentileza! Quando anoiteceu, com tudo
arrumado, demos um pulo fora da cabine e vimos no horizonte, no escuro
da noite, os muitos relâmpagos da frente fria que se aproximava. Eram
oito horas da noite e deitei para dormir, para estar descansado quando
ela chegasse. Coloquei o relógio para despertar de hora em hora, para ver
o andamento da frente. Se ela entrasse até as dez horas da noite, iríamos
direto para Porto Seguro, para chegar lá no final da tarde do dia seguinte.
Se entrasse depois disso, iríamos para Cumuruxatiba, chegando na
manhã seguinte.
As crianças ficaram lendo e brincando. Toda vez que eu acordava,
via as nuvens de tempestade mais próximas e mais altas, sempre que caia
um relâmpago.

28/06/2006 - Quando acordei, às três da manhã, vi as luzes do farol


entrando pela gaiuta principal, significando que girávamos apontando
para o sul. Rapidamente me levantei, chamei a tripulação e comecei a
arrumar tudo para sairmos. O vento começava a apertar e soltamos as
amarras da poita. Quando começamos a nos afastar dela, o GPS perdeu o
sinal. Fiz meia volta e fizemos uma curva nos locais que eu sabia serem
seguros, usando como referência as luzes do farol e do barco de pesca
“Rose e Amanda”, que ancorara ao nosso lado. Liguei e desliguei o GPS
umas dez vezes, tentando fazê-lo funcionar. Quando nos aproximávamos
do farol, ele pegava sinal. Quando nos afastávamos duzentos metros,
perdia de novo, provavelmente por causa das nuvens carregadas. Pedi ao
Jonas para pegar o GPS reserva e ele não o encontrou. Começou a chover
torrencialmente e a visibilidade, que já não era muito boa, ficou pior. Eu
poderia seguir somente com a bússola, fazendo a navegação estimada,
mas se houvesse uma correnteza forte (quando mergulhamos, havia um
pouco de correnteza fora do banco de corais), poderíamos ser desviados
e lançados a alguma das ilhas. Optei pela segurança: ficamos dando
voltas na frente do farol lentamente, esperando pelo amanhecer e
conseqüente visão das ilhas. Já disseram que o maior perigo para um
barco é terra. Isso é verdade. Se estivesse livre, bastaria correr com o
tempo com as velas reduzidas, como já fizemos várias vezes, com muita
127
segurança e até algum conforto. Ficamos até as cinco da manhã dando
voltas, com o vento e a chuva indo e voltando, sem o GPS pegar o sinal.
Então, o vento começou a apertar demais e o mar começou a ficar
muito grosso rapidamente. O Flávio chamou pelo rádio e avisou que as
rajadas estavam chegando a vinte e sete nós. Comecei a pensar na minha
terceira possibilidade, que seria dar a volta e parar do outro lado da ilha,
abrigado do vento, sem seguir viagem no momento, o que ainda nos
livraria do risco de choques com baleias e navegar com pouca
visibilidade. Como passáramos por lá no dia em que chegamos, não seria
difícil, mas adorei ver as luzes de navegação do “Rose e Amanda”
acendendo! O Jonas falou com eles pelo rádio e eles confirmaram que
iriam para o outro lado da ilha. Aproveitei a “carona” e o grande
conhecimento do local dos pescadores (navegam “de olhos fechados”!) e
seguimos o pesqueiro.
Lá, eles pegaram a poita da Marinha e perguntamos se eles se
importavam se ficássemos amarrados a eles, pois seria muito mais fácil e
seguro para nós do que tentar lançar âncora. Disseram que não e, muito
gentis, nos passaram um cabo. A mudança foi da “água para o vinho”: o
vento diminuiu muito e as ondas também!
Faltava pouco para amanhecer e podermos seguir viagem, mas o
abrigo da ilha, com o vento e as ondas roncando lá fora, falaram mais alto:
resolvemos ficar!
Tirei as roupas molhadas, secamos o interior do barco e deitei
embaixo de um gostoso cobertor, aguardando a melhora do tempo em
segurança. Quando olhei o GPS, largado a um canto, havia voltado a
funcionar perfeitamente! Acho que não era para termos seguido viagem
mesmo! Quando acordei, às sete horas, quatro pesqueiros estavam ao
nosso lado, protegidos pela ilha.
Algum tempo depois, os pescadores do Rose e Amanda falaram
que iriam soltar a poita para se aproximarem da praia. Eu estava torcendo
para que ninguém houvesse tirado o cabo auxiliar, que eu havia deixado
lá no dia que chegamos, quando eles me disseram que iriam deixar o cabo
de amarração deles, para ficar mais fácil para nós pegarmos a poita.
Quanta gentileza!
Às nove e meia, peguei uma previsão de tempo que falava de
ventos ainda fortes e ressaca na costa. Pelo jeito, vamos ficar mais um dia,
no mínimo, por aqui, balançando um pouco, para não termos problemas
quando chegarmos na costa. Tomamos café, achei o GPS reserva e
aproveitamos para fazer nossos diários.
Vocês vão perguntar: e a Carol? Podem não acreditar, mas a Carol
ficou dormindo todo esse tempo, só levantando para ajudar a pegar o
128
cabo de poita que o pesqueiro deixou para nós, retornando para a cama e
“capotando” novamente! Nunca há “stress” com ela! Ela acordou,
finalmente, já era mais de meio-dia.
As crianças quiseram fazer o almoço, cujo ingrediente principal
foram os ovos presenteados pelo Flávio, mas não deixei e eu mesmo o fiz,
por medo de acidentes, pois o barco balançava demais. Escutávamos,
pelo rádio, várias mensagens de alerta de ressaca na região em que
estávamos. Como o vento fortíssimo e o balanço do barco não nos
deixavam fazer grandes coisas, passamos a tarde toda lendo o livro “O
Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. As crianças estão adorando e
curtindo cada passagem do livro.
Ao final da tarde, aprendida a lição do sargento Iran, colocamos um
cabo a mais para segurar o barco à poita. O Jonas, como sempre, foi
perfeito na difícil manobra a motor, enquanto eu e a Carol colocávamos
o cabo.
À noite, fizemos uma sopa, as crianças estudaram e lemos mais um
pouco, quase acabando o livro. Com o balanço, tudo fica difícil de ser
feito. Cozinhar e lavar a louça acabam sendo aventuras a bordo.

29/06/2006 - De madrugada, o céu estava estrelado: bom sinal! Quando


amanheceu, vi que o vento enfraquecera bastante e mudara para sul. Os
pesqueiros começaram a se mexer e, pouco depois das sete, dois deles já
saíam para a faina diária. Devolvi o cabo de atracação ao “Rose e
Amanda” e agradeci. Peguei a previsão de tempo e ela falava de ressaca
na região para onde iríamos. O Flávio telefonou para a Capitania de Porto
Seguro e disseram que a barra estava ruim para entrar. Resolvi ficar mais
um dia e esperar a previsão de amanhã. Pedi que ligassem para meu
irmão e avisassem do meu atraso, em função do mau tempo. Para dizer a
verdade, é um privilégio ficar “preso” neste paraíso!
Conversamos por rádio com o pesqueiro “Rose e Amanda”. Eles
ofereceram peixe e nós aceitamos com muito prazer. Fui com a geladeira
lá e bati um papo ótimo com eles. O mestre do pesqueiro, Martinho, tem
um filho de cinco anos, chamado Elias, e não vê a hora de trazê-lo para
conhecer Abrolhos. Ele nos deu gelo e belos peixes (dá para comermos
uns três dias!), ainda por cima limpos! No Fandango vimos um álbum de
fotos de grandes peixes que Martinho pescou e mandou para mostrar às
crianças.
Temperei o peixe e tomamos um banho de mar. Arrumei algumas
coisinhas a bordo e, quando saí para o cockpit, pensei: “- Bem que podia
aparecer uma baleiazinha por aí”. Olhei para o lado da ilha da Guarita e vi
um jorro típico de baleia perto! Chamei as crianças e ficamos olhando,
129
para ver se ela apareceria novamente. Pouco depois, ela levantou a uns
500 metros do barco. Soltamos rapidamente o Fandango da poita e fomos
para perto dela. Chegamos bem devagar, procurando o lugar onde a
tínhamos visto pela última vez, mas ela havia desaparecido. De repente,
ela se levantou a uns dez metros do barco, bem na proa! Guinei o barco e
ficamos paralelos a ela, com o motor desengatado. Ficamos parados
assim, embasbacados, ao lado dela, olhando-a muito perto, por muitos
minutos! Então, ela resolveu nos observar: voltou-se na nossa direção e
mergulhou. Passou por baixo do barco e apareceu na popa, indo para
oeste, num rumo paralelo à ilha. Fomos atrás, até que ela chegou numa
região aonde havia uma laje. Parei o barco e a observamos a uns 50
metros. Ela se afastou muito devagar. Que encontro! Ficamos olhando-a
cerca de meia hora e chegamos bem perto mesmo! As crianças adoraram,
se impressionaram muito e eu cumpri um dos meus sonhos da viagem:
mostrar esse magnífico mamífero, de perto, aos meus filhos. Talvez ainda
vejamos muitas baleias, talvez não, mas esta com certeza ficará na
memória deles para sempre, como a primeira tão perto e tão mansa ao
nosso lado. Quem está no mar deve sempre obedecer aos desígnios da
natureza. Algumas vezes, nos sentimos frustrados em planos ou
cronogramas que não se cumprem. Mas é só esperar um pouco e vem o
grande prêmio (no caso da baleia, grande mesmo!). Basta cada um de nós
viver cada dia, como ele se apresenta, e deixar as frustrações de lado. A
vida é muito bela! Basta olhar para fora de nós mesmos e vivê-la!
Depois da baleia, fizemos o almoço com o peixe que ganhamos:
peixe frito, risoto de ervas e salada de tomate! Foi um dos melhores peixes
que comi! Outros tão bons, só lembro dois: um badejo frito com arroz,
feijão e salada, comido em cima das pedras no Saco do Sombrio, em
Castelhanos, Ilhabela, depois de quatro dias mergulhando com o Topete
e comendo apenas sanduíches, com o amigo Marcão e pescadores do
lugar; outro com o Márcio, no Taata, um delicioso badejo em papillote,
que cacei na ilha das Couves, preparado pelo Márcio com temperos
sofisticadíssimos, quando ficamos quinze dias velejando e mergulhando
em Ubatuba, Ilha Grande e Parati! Os restaurantes me desculpem, mas
comer peixe no mar é fundamental!
No final do dia, estudamos, atualizei os diários e acabamos,
emocionados, de ler o livro “O Velho e o Mar”. Se o mar deixar, amanhã
seguiremos viagem. Senão, ainda há muitas coisas belas e várias
surpresas diárias neste paraíso!
Pouco antes de dormir, o sargento Iran me avisou que, segundo a
última previsão de tempo recebida, o vento iria virar para nordeste em
qualquer momento das próximas 24 horas. Onde estávamos era
130
desabrigado do nordeste, então coloquei o relógio para despertar de hora
em hora a partir da meia-noite, para verificar o vento.

131
18
Costa do Descobrimento

30/06/2006 - Acordei várias vezes de madrugada e o vento se manteve de


sul-sudeste, direção boa para seguirmos para Porto Seguro. Só que o
horário bom para sairmos para lá seria a partir do meio-dia, chegando na
manhã seguinte. Fiquei receoso do vento virar para nordeste antes disso
e que tivéssemos que esperar outra frente fria. Dessa forma, revisei
novamente os planos e decidi seguir o roteiro original e conhecer
Cumuruxatiba, pois poderia sair ao amanhecer e chegar lá ainda de dia.
Assim que o dia clareou, eu estava com tudo organizado para sair.
Acordei as crianças, avisamos o Rádio-Farol que estávamos saindo,
deixamos um abraço para os amigos e, às seis horas, soltamos a poita.
Deixamos aquele paraíso para trás e cruzamos com vários pesqueiros,
inclusive o do Martinho. Falamos pelo rádio e demos “até breve”.
Vimos uma baleia ao longe e navegamos com cuidado, de olho na
superfície do mar. O vento estava ótimo e a velejada deliciosa.
Andávamos numa média de seis nós. Velejamos por seis horas, até que
avistamos uma baleia perto. Ligamos o motor, tentamos nos aproximar,
mas ela se afastou em direção aos recifes Timbebas. Retornamos ao rumo
e, como o vento enfraquecera, podendo nos fazer chegar à noite,
continuamos com motor e velas. Deixei as crianças no turno, com o
Alfredo levando o barco e fui descansar da noite mal dormida.
Quando nos aproximamos bastante, começamos a ver terra. Era
engraçado visualizar o litoral sem a serra do mar por trás. O que víamos
era um litoral bem baixo e uma montanha, parecendo um vulcão, ao
fundo. Várias nuvens de chuva nos circundavam, com certeza com seus
pirajás embaixo, mas não passaram por nós. O Cigano nos chamou pelo
rádio. A Capitania de Porto Seguro entrou em contato com ele e pediu
que nos orientasse na entrada da barra. Ele nos passou os waypoint’s e
nos guiamos por eles. Nos aproximamos dos recifes, todos submersos
pela maré alta e só tínhamos como referência os instrumentos e um
pequeno farol na entrada da barra. Em volta, as ondas quebravam
bastante e entramos com cuidado.
Dentro da barra, ele nos orientou a ancorar ao lado da ponta de um
píer destruído e lá soltamos nossa âncora, dando bastante cabo, pois o
local, apesar de ser protegido do mar pelos recifes, é totalmente
desabrigado de ventos. Deixei na proa uma grande âncora bruce, para
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descer caso o vento aperte à noite. Era final de tarde e o sol já havia
descido, no horizonte baixo do local. Ao nosso lado passou uma linda
canoa à vela, com sua vela bem amarela no contraluz.
Liguei para o Cigano e pedi que ele ligasse para a Capitania,
avisando da nossa chegada, pois não há sinal de celular na região. Muito
atencioso, ele informou que a cidade tem farmácia, mercado e,
principalmente, SORVETERIA! As crianças (as três!) adoraram.

01/07/2006 - A excitação de descer em terra e conhecer Cumuruxatiba era


grande. Pegamos o botinho e fomos para o local indicado pelo Cigano, a
Aquamar, empresa especializada em turismo náutico ecológico. Ele nos
esperava na praia e nos levou para ver fotos de baleias e dos locais
próximos. Pelas fotos, descobrimos que a montanha que parecia um
vulcão, vista ontem, era justamente o histórico Monte Pascoal, primeiro
local da costa brasileira a ser avistada por Cabral! Eu esperava encontrá-
lo mais ao norte, mas é muito visível chegando do sul também. As
crianças compreenderam perfeitamente porque foi o primeiro lugar a ser
avistado, muito antes da costa baixa da Bahia.
A Aquamar faz passeios para visualização de baleias e o Cigano nos
disse que elas passam muito perto dali. Ele também nos orientou quanto
à vila, que faz parte do município de Prado, dizendo ser local muito
seguro e ótimo para passear a pé. Saímos para o centro da vila, onde
encontramos vários pequenos comércios, alguns misturando vários tipos
de produtos, como um “mercado-loja de materiais de construção”.
Paramos numa padaria para comer pãezinhos e sorvetes.
Embaixo de uma ponte, vimos uma lavadeira, lavando sua roupa
na beira do rio. Cumuruxatiba é uma típica vila baiana à beira-mar,
cercada de falésias e aberta para o oceano. A calma e tranqüilidade do
local são contagiantes! Cigano disse que, nas férias, recebem muitos
turistas. Pela quantidade de pousadas, devem ser muitos mesmo!
Caminhamos pela praia até as falésias, em direção ao sul. A maré
estava baixa e descobria muitas pedras grandes e pequenas, cheias de
ostras. Adoramos o local! Muito lindo, com o mar maravilhoso à sua
frente, protegido por recifes. Pescadores, com redes espalhadas no local,
recolhiam seu pescado. Pedimos para vê-lo e o rapaz, que carregava os
peixes, mostrou dois robalinhos e, para nossa tristeza, a carne de uma
pequena tartaruga. O pescador disse que ela se enroscou na rede e morreu
afogada. Vimos a cabeça e uma nadadeira, com a carne pendurada nelas.
O Jonas começou a ficar nervoso, mas eu lhe expliquei que não havia jeito
de saber se o pescador a matou ainda viva ou não. Subimos uma das

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falésias e a vista lá de cima é maravilhosa, com praias se perdendo de
vista para os dois lados.
Quando retornamos para a Aquamar, levei compras no barco e
acendi a luz de tope, para facilitar nosso retorno à noite. Na ida, reparei
que havia uma rede no caminho e quase a atropelei. Marquei bem sua
posição e os barcos que estavam perto, para desviar dela na volta.
Assistimos, na Aquamar, à humilhante derrota para a França, do
futebolzinho preguiçoso e sem vontade da milionária seleção do Parreira.
Desanimados, pegamos o bote para voltar ao barco. Estava frio e
ventando forte. Fui até a traineira que eu havia marcado para safar a rede
e depois pegamos o caminho direto para o Fandango. No meio do
caminho... atropelamos uma rede! A danada da rede deve estar solta ou
havia outra no local! O hélice do motor enganchou feio na rede e levei um
bom tempo para arrebentá-la com a mão, pois não tinha faca. É incrível
como eles soltam redes no meio do local de navegação dos próprios
barcos! Muita linha ficou presa no hélice, não permitindo que usássemos
o motor. Pegamos os remos e, com muita água dentro do bote, seguimos
para o Fandango, com o vento contra e uma correnteza lateral, os dois nos
empurrando de volta para a praia. Após muito tempo remando com força
(o Jonas vai voltar bem mais musculoso para a Ilha!), chegamos ao
Fandango. A única coisa boa nisso tudo é que passou nosso frio com as
remadas! Nos secamos e, para esquecer as redes e o futebol, começamos
a ler “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, de Jorge Amado.
Lendo em voz alta, envolvidos na leitura, acabamos o livro na mesma
noite! Fizemos comentários sobre os locais do livro, pelos quais
provavelmente iremos passar, e discutimos a “moral” do livro. Talvez
esse seja o livro mais curto e o que eu mais gosto de Jorge Amado.
Encerrado o livro, dormimos sob um céu estrelado, ao balanço do mar
baiano, sonhando com histórias da Bahia.

02/07/2006 - Arrumei o motor de popa: desmontei o hélice e removi as


linhas da rede. Nem o pino quebrou. Fomos para a praia, mas, desta vez,
levamos as ferramentas do motor e um canivete na mochila. Enquanto eu
conversava com o Cigano, as crianças foram passear com a Taís, esposa
do Cigano, e suas filhas Janaína e Marina. A Taís é bióloga marinha e a
Carol perguntou sobre sua profissão. Conversando com o Cigano e a Taís,
vi que eles têm uma bem montada empresa de turismo ecológico, com
toda a preocupação com segurança, cujo carro-chefe é a visualização de
baleias de julho a novembro. Para quem quiser ver baleias de perto, esse
é o lugar perfeito.
A Taís nos levou numa lindíssima praia na foz do rio Japará. As
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crianças brincaram no rio e descobriram que as pedras do local, de
decomposição das falésias, se desmanchavam, soltando uma tinta solúvel
em água de várias cores. Brincaram de se pintar um bom tempo! As
falésias da região são lindas. Talvez um pouco mais altas que as de
Cumuruxatiba e muito coloridas. Conversando com ela, descobrimos um
conhecido comum: o Eduardo Meurer, da escuna Don Silvano.
Retornamos para o barco no final de tarde, para não enroscarmos
na rede novamente, e nos despedimos deles. São uma linda família e
gostaríamos de poder encontrá-los novamente.

03/07/2006 - Cedo estávamos com tudo arrumado para sair. O sol nascia
no mar e chamei as crianças para auxiliarem na saída da barra. Levantei
âncora, enquanto o Jonas manobrava o barco e, às seis, deixávamos
Cumuruxatiba. O lugar vai deixar saudades!
Contornamos os recifes Itacolomis com cuidado e aproveitamos o
vento favorável que se apresentava. O dia estava bonito, mas algumas
nuvens pesadas com chuva se encontravam à nossa frente. A Carol viu
um jorro de baleia a uns trezentos metros e, alguns minutos depois, o
Jonas viu uma grande jubarte dar um salto de costas, tirando todo o corpo
da água! Por duas vezes, vimos golfinhos tímidos passarem ao lado do
barco, muito rapidamente. O vento parou momentaneamente, quando
chegamos ao lado de uma grande nuvem de chuva e mudou de direção.
São os pirajás! Andamos com o vento dessa nuvem por um bom tempo e
chegamos perto de outra nuvem. Novamente, o vento girou e continuou
nos levando muito bem para Porto Seguro. Nas manobras do gira-gira, o
fio de segurança dos meus óculos se enroscou em algo e os senti saírem
voando, arrancados do meu pescoço. Mais um par de óculos perdido!
Ainda bem que tenho um reserva no barco. Quando faltavam dez milhas
para chegarmos, o vento parou e ligamos o motor. Cumprimos as últimas
duas horas de travessia apreciando o litoral de Porto Seguro e região, com
suas barreiras vermelhas tão características.
Na chegada, a Marinha nos esperava com a embarcação do Hotel
Marina Quinta do Porto para nos guiar na barra. Levaram-nos barra
adentro e paramos no píer municipal, pois a maré estava muito baixa para
chegar à marina. Eram quatro da tarde e a travessia havia sido ótima.
Conversamos com o oficial André Gomes, que se colocou à disposição
para qualquer problema que tivéssemos.
Com o barco amarrado e Porto Seguro ao lado, descemos e fomos
conhecer a cidade. Vimos barraquinhas ao longo de uma rua e comemos
acarajés. As crianças ficaram contentes de experimentar uma das coisas
gostosas que viram nos livros de Jorge Amado e do Cabinho!
135
Enquanto comíamos, vi pessoas subindo no Fandango. Corri para
lá e encontrei três moças batendo fotos em cima do barco. Acabei dando
uma de fotógrafo e batendo uma foto das três juntas na proa.
Anoiteceu e voltamos ao barco, aguardando o Japonês, funcionário
da marina, vir nos buscar. Ele nos falou que o Dadi e a Denise, do trawler
Jade, estavam lá e ficamos ansiosos por reencontrá-los. Mudei os cabos
de atracação para soltar o barco mais facilmente, passando-os ao redor de
estacas no píer. Acho que deixei a ponta do cabo da proa muito curta e,
pouco depois, o barco se soltou. Saímos rapidamente e arrumamos o
problema, com a ajuda de uma pessoa que estava no píer.
Chegando na marina, após passar bem perto dos recifes,
amarramos o barco na vaga vizinha ao Jade. Logo, abraçamos o Dadi e a
Denise. Depois de um bom papo, conhecemos o gentil Sérgio Pessoa,
dono da marina, que se colocou à nossa disposição. O lugar é maravilhoso
e é o único apoio náutico da região. Sentimos o povo muito alegre e gentil.
O lugar, muito belo, nos lembrou Ilhabela à noite.

04/07/2006 - Dormimos muito bem! Aliás, nos últimos dez dias, foi o único
dia que dormimos com o barco sem balançar. Conhecemos a marina, que
é lindíssima, e seus funcionários são atenciosos e educados.
Na volta ao Fandango, vi o dono do Scorpion, um Tropic 1200, que
estava na marina e que me disseram ser do litoral norte de São Paulo. Fui
falar com ele, pois estava no cockpit. Ele veio a nós, sorridente, e lhe
reconheci as feições: era o Carlos, dono da Give Way de Ubatuba, que
conheço há dezessete anos! Que coincidência! Ainda mais, pois foi num
papo com ele, em Ubatuba, que eu e Mônica começamos a sonhar com
mais força numa mudança para o litoral. Na época, ele havia saído de São
Paulo para montar a empresa e nós tínhamos o Topete. Lembro
perfeitamente da nossa conversa! Ele nos falou como conseguia conviver
bastante e bem com os filhos, almoçar em casa, fazer a “sesta” e voltar ao
trabalho rapidamente. Ele nos apresentou a qualidade de vida que
buscávamos e era um exemplo vivo do que queríamos. Não é muita
coincidência reencontrá-lo em Porto Seguro, viajando de barco, depois de
tantos anos? Alguns dizem que coincidências não existem. Pode ser!
Após arrumarmos o barco, Tate Parracho, o amigo que nos ajudou
a amarrar o Fandango ontem, ligou convidando para fazermos um
passeio com ele. Fomos para Porto Seguro e o encontramos no pequeno
porto. Ele nos levou ao centro histórico, aonde vimos um museu com
objetos e informações indígenas, coisas da época do descobrimento e uma
linda igreja do século XVI. Lá também fica o farol da Marinha, que guia a
entrada de Porto Seguro e o marco de posse da terra, deixado pelos
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portugueses na sua chegada. Seguimos para Cabrália e, no caminho,
paramos na Coroa Vermelha, onde foi realizada a primeira missa no
Brasil. O lugar é belíssimo e fico imaginando a emoção de uma primeira
missa realizada em terra, naquele local. Conhecemos o centro histórico de
Cabrália, também muito bonito e com uma bela vista. O lugar todo cheira
a história! Dá a impressão que, a qualquer momento, veremos uma
caravela chegando junto aos recifes e ancorando.
Retornamos para Porto e aproveitei para mandar fazer outro par de
óculos. À noite, andamos pela “Passarela do Álcool”, nome da rua cheia
de barraquinhas, onde se passeia quando escurece.

05/07/2006 - O Tate nos levou para conhecer Arraial D’Ajuda. O caminho


para lá nos lembrava muito Ilhabela. No meio do caminho, paramos no
Eco Parque e marcamos para visitar uma criação de corais, que amigos da
Taís, de Cumuruxatiba, estão fazendo no local. Conversamos com a
oceanógrafa Renata e descobri conhecidos em comum: Ana e Danilo de
Ilhabela! Coincidências, coincidências... Marcamos a visita para amanhã
de manhã e seguimos para o centro histórico de Arraial D’Ajuda. Outro
lindo lugar, com muita história, várias lojinhas e bons restaurantes.
Fomos para a praia de Pitinga, muito bonita e com o mar
maravilhoso. Em seguida, fomos na praia do Parracho. Isso mesmo, uma
praia com o nome de nosso amigo! As praias de Arraial são maravilhosas
e amanhã pretendemos tomar um banho de mar em alguma delas. O
comércio em Arraial é bem estruturado e as construções são muito
parecidas com as de Ilhabela. Passamos num loteamento da família do
Tate, que me lembrou demais a Cocaia! Acho que estamos com saudades
da Ilha, fáceis de matar por aqui!
Retornamos para a marina e tomamos um banho de piscina.
Resolvemos levar roupa para lavar em Porto Seguro e, no caminho,
encontramos o Sérgio Pessoa. Ele não nos deixou levá-las para a
lavanderia e mandou um funcionário levá-las para lavar no hotel.
Gentilíssimo! Almoçamos num ótimo restaurante por quilo e comi
demais. É duro resistir ao vatapá, caruru e à boa comida do local! À noite,
encontramos o Tate, que nos levou para comer acarajés. Fomos ao acarajé
da Dinda, uma franquia da Dinda de Salvador, que é ótimo e barato.
Comemos um acarajé no prato e a baiana colocou um pouco de pimenta,
como pedimos. O Jonas pegou a pimenta sem misturar muito e ardeu de
verdade! Sorte foi a chegada rápida de uma pepsi, para apagar o “fogo”.
Passeamos um pouco de carro e fomos tomar um caldo, prato típico
baiano. Tomei um caldo de bugigão e a Carol tomou um sururu!
Deliciosos! Os dois são feitos com moluscos encontrados nas praias. O
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Jonas, com medo da pimenta, não quis o caldo, mas provou do meu e
gostou. Êta, comida boa! Vou engordar alguns quilos na Bahia!

06/07/2006 - Chamei as crianças cedo e saímos para o Eco Parque, para


conhecer o projeto Coral Vivo. O Romário, de Cumuruxatiba, nos recebeu
na porta e nos levou pelo parque aquático, até o local do projeto.
Começou a explicar o trabalho deles: pesquisar a reprodução de corais,
fazer com que ocorra em tanques e devolver ao mar os corais
reproduzidos em cativeiro. Ele mostrou para as crianças os tanques com
cada fase da reprodução e contou-nos que eles têm se preocupado muito
com a degradação dos recifes de coral da região, por serem pisados nas
visitas turísticas, na maré baixa. O coral leva um ano para crescer um
centímetro! Renata, que está cuidando do projeto atualmente, nos contou
muitas coisas sobre os corais também. Uma pena é a água estar turva, o
que não proporciona bons mergulhos nos recifes. Mas, se tudo der certo,
voltaremos no verão, com água limpa.
Saímos de lá e pegamos uma perua para Trancoso. Fica um pouco
longe e dá quase uma hora de perua, mas valeu a pena. A vila é
lindíssima! Muito simples, mas muito bela. Pequenas casas coloridas
circundam a linda igrejinha branca, no que chamam de “quadrado”, que
é o antigo centro histórico de colonização do lugar. Por trás da igreja, que
fica no alto da falésia, uma maravilhosa vista das praias se descortinava.
Tomamos água de coco e comemos abacaxis geladinhos, comprados de
uma senhorinha, que as crianças adoraram. O povo baiano do local
parece ser muito bom. A Carol deixou cair um pedaço, que era o último
do segundo abacaxi. A senhorinha pegou um pedaço reservado para o
almoço dela e deu para a Carol! Que delicadeza!
Almoçamos no ótimo “Portinha” de Trancoso. Em seguida,
descemos até a praia. Maravilhosa! Sem duvida a praia mais bonita da
Bahia até agora e uma das mais lindas que já vi. Um rio desaguava no
mar, fazendo curvas atrás da praia. O sol baiano aquecia nossos corpos e
uma afável brisa vinha do mar. Uma casinha de madeira e um barco
recém pintado enfeitavam o local. Realmente belíssimo e delicioso! Deitei
na toalha e, em pouco tempo, estava dormindo na praia. Devo ter
dormido uma hora, enquanto as crianças faziam castelos de areia na beira
do rio. Tomamos um banho de mar e outro de rio. Ao retornarmos, demos
a sorte de pegar o ônibus que passava na praia e, uma hora depois,
estávamos na marina. Conhecemos o Scorpion, barco do Carlos e da
Andréa. Lindíssimo, forte e pronto para qualquer mar.
08/07/2006 - Saímos do hotel em direção à praia do Apaga-Fogo, que fica
ao lado. A praia é muito bonita e os recifes, na frente do resort, são
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lindíssimos. Tentamos mergulhar, mas a água ainda estava turva.
Andamos até Arraial d’Ajuda pela praia, refazendo um caminho que a
Mônica fez quando era jovem. Lembro muito dela falando de sua
caminhada e da beleza da praia. Eu queria que as crianças fizessem esse
mesmo caminho, que a mãe tanto havia gostado! Paramos para descansar
um pouco, tomar banho de mar e fazer castelos de areia. Chegamos em
Arraial e subimos os íngremes degraus até o centro.
De lá, seguimos para o “Memorial dos 500 Anos”, em Porto, sobre
o descobrimento do Brasil e vimos a exposição, que é muito bonita.
Entramos numa réplica de caravela, em tamanho natural, e nos sentimos
os próprios “Cabrais”. Voltamos a pé, pois os ônibus não apareceram.

09/07/2006 - Fiz a navegação para o porto de Ilhéus, pois pretendemos sair


no começo da tarde. Recebemos a visita do Tate, nosso “anjo da guarda”
em Porto Seguro, a quem eu queria muito mostrar o barco e agradecer
pessoalmente, antes de zarparmos.
No final da manhã, desistimos de sair, em virtude do nordeste que
entrou. Além disso, uma ameaça de motim da tripulação, que falava em
afundar a caravela dos 500 anos na entrada da barra, para barco nenhum
entrar e sair, me ajudou a mudar de idéia. As crianças adoraram Porto
Seguro!
Após o jantar, fomos para a varanda do hotel com a tripulação do
Jade e do Scorpion tomar vinhos, conversar e jogar Imagem e Ação. Foi
muito engraçado e todos soltaram seu lado criança, surpreendendo o
Jonas e a Carol. Nos divertimos por algumas horas até chegar a meia-
noite, hora de dar parabéns ao Dadi, que faz 50 anos! Ficamos jogando e
brincando até a uma e meia da manhã. Se Porto Seguro foi tão especial
nessa viagem e as crianças não querem ir embora, muito se deve aos
amigos que lá reencontramos e conhecemos e que cada vez se tornam
mais importantes em nossas vidas.

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19
São Jorge Amado dos Ilhéus

10/07/2006 - Tomamos café no hotel, comemorando o aniversário do Dadi.


Fechei a conta na marina, agradeci a atenção e arrumamos tudo para
zarpar. Saímos à uma e dez, deixando os amigos Carlos, Andréa, Dadi e
Denise no píer, acenando. Esperamos reencontrá-los logo. As crianças
continuavam contrariadas, pois queriam ficar ainda mais.
Motoramos por duas horas, com o vento leste na cara, nos afastando
de terra e dos perigosos recifes do local. Quando os passamos, giramos o
barco e o vento entrou favorável, permitindo desligar o motor e velejar
em orça folgada, gostosa para velejar. O mar estava calmo e o dia muito
bonito.
Deitei para descansar, pois faria o turno da noite. O Jonas me
chamou para ver o pôr-do-sol. Vimos a descida do sol até o horizonte,
com o céu sem nuvens. Do outro lado, já se erguia uma lua muito cheia,
totalmente arredondada e muito grande, fenômeno que acontece quando
ela está baixa no horizonte. Após o sumiço do sol, lentamente o céu
laranja foi passando para um avermelhado, até chegar ao arroxeado,
enquanto do outro lado, tudo prateava, lua e mar. O Jonas e a Carolina
ficaram inspirados e escreveram:
Pôr-do-Sol Luar
Navegando estava eu O luar, com seu brilhar,
Quando, dando lugar ao breu, É mais bonito visto do mar.
O pôr-do-sol ocorreu. Tão alegre e faceiro,
Numa mistura de cores, Eterno companheiro,
Alegres amores, Nos faz sonhar.
Tristezas, Sonhos de beleza sem igual,
Belezas, Pois afinal,
Tudo num só lugar. No mar,
Acabou de repente, Nada é mais belo que o luar.
Se desfazendo em pleno ar.
Depois de colorir o mar,
Sumiu este belo farol
Como sempre pôr-do-sol.

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Descansei mais um pouco e voltei às oito para meu longo turno. A
noite estava perfeita! Mar de poucas e pequenas ondas, vento leste de 8 a
10 nós e o Fandanguinho andando a cinco nós, em orça folgada. A lua,
com sua luz muito forte, jogava nossas sombras em cima do convés
branco do Fandango, que também se iluminava pela lua.
Chegamos ao través de Belmonte rapidamente e guinamos alguns
graus para bombordo. O vento começou a entrar por través e aumentou
um pouco, indo para 12 nós. O Fandango respondeu imediatamente,
aumentando nossa média de velocidade para 6 nós.

11/07/2006 - Começamos a passar por muitos pesqueiros, em sua faina


constante. Desviei deles, procurando passar longe, para não enroscar em
suas redes e espinhéis. O vento aumentou mais um pouco, sempre da
mesma direção. Isso fez com que o mar fosse crescendo aos poucos,
enquanto nos dirigíamos para Ilhéus. A velejada estava perfeita e, se o
vento continuasse, iríamos chegar muito antes do previsto. O vento ficou
mais forte e chegou a quase vinte nós, pouco antes do amanhecer. O
Fandango andava muito bem, a todo pano, e fazia picos de nove nós nas
surfadas das ondas. O Alfredo levava o barco perfeitamente e só me
restava regular as velas.
A lua completou seu círculo sobre nossas cabeças, sem desaparecer
durante a noite toda, sempre forte a iluminar nosso caminho. Só
esmaeceu quando o sol começou a se erguer, num nascer do sol
fulgurante, enquanto a lua, nossa companheira da noite, tímida, se
deitava no horizonte, já se confundido com as poucas nuvens do céu. A
luz do dia mostrou um mar com ondas altas, mas favoráveis. Eu havia
sentido que o mar crescera bastante, mas como entrava por trás e não
arrebentava, eu não tinha noção do quanto aumentara.
Chamei o Jonas às seis e meia e ele ficou no comando. Fiz a
navegação e me deitei para dormir ao seu lado, no convés. Coloquei o
boné na cara e apaguei. Depois de uma hora acordei e continuávamos
desviando de barcos de pesca. Vimos pequenos peixes voadores saltarem
e voarem por muitos metros, assustados com a nossa passagem.
Começamos a enxergar os prédios de Ilhéus. Seguimos em direção
ao porto, onde entramos com facilidade, seguindo as instruções do
excelente guia náutico do Hélio Magalhães. Fomos para o iate clube e
pegamos uma poita. Havíamos feito a viagem de 110 milhas náuticas em
21 horas, sendo três horas a motor e dezoito velejando maravilhosamente
bem. Travessia perfeita!
Um funcionário do clube nos pegou no Fandango, para descermos
em terra. O Capitão-dos-Portos, Tenente Fernandes e o sargento Moreira,
141
nos esperavam para dar boas-vindas em nome da Marinha do Brasil.
Fomos apresentados ao comodoro do clube e à Regina, que administra o
clube e que foi muito simpática conosco.
Estávamos morrendo de “vontade de comida”, pois só comemos
frutas e lanches durante a travessia. Seguimos sugestão do Rubens,
garçom do restaurante, que sugeriu um “aratu catado” (carne do
caranguejo aratu, temperada e frita, servida com farinha passada na
manteiga) e um “bife a parmegianna” com purê. O Jonas também quis
uma porção de feijão. As crianças não gostaram muito do aratu, mas eu
adorei! Pedimos duas porções e eu as comi sozinho. Maravilhoso! O bife
também estava ótimo e o feijão foi um dos melhores que eu comi. As
crianças adoraram a comida e, após o cafezinho, resolvemos passear. Se
eu ficasse parado em qualquer lugar que fosse, iria dormir com certeza!
Fomos para o centro de Ilhéus caminhando, falando de Bahia, Luis
Eduardo Magalhães (vimos um lugar com o nome dele) e ACM, até
chegarmos ao centro. Lá conhecemos o famoso Vesúvio, ao lado da
Catedral, palco de um dos romances mais famosos de Jorge Amado.
Compramos o “Gabriela, Cravo e Canela” para ler e fomos na Casa da
Cultura de Jorge Amado, antigo casarão, onde ele morou quando jovem
e onde escreveu seu primeiro romance. Tudo muito bonito e cheirando a
história. Andamos pela rua Jorge Amado e demos uma volta pelas
imediações do centro. O lugar me lembrou bastante Salvador.
A chuva chegou e ficamos no clube, com as crianças brincando e eu
tentando não dormir sentado. Quando parou, fomos para o barco onde
deitei e dormi imediatamente. Eram cinco horas da tarde!

12/07/2006 - Acordei às sete horas da manhã depois de merecidas catorze


horas de sono! Chamei logo as crianças para podermos aproveitar Ilhéus.
Descemos e encontramos a Regina, que nos ofereceu uma carona para o
centro e nos deixou numa feirinha de artesanato. É muito agradável
passear pelos quarteirões antigos de Ilhéus.
Fomos ao Bataclan e tivemos uma aula de história local. Lá funciona
um centro cultural, onde as crianças aprenderam os fundamentos do
berimbau com um professor de capoeira, compramos alguns licores e
geléias de cacau, tomamos café e visitamos o “quarto da Maria
Machadão”, personagem de um livro de Jorge Amado. Contaram-nos
que os coronéis da época pagavam ao padre para estender a missa por
várias horas. Enquanto suas esposas rezavam e ouviam os longos
sermões do padre, os coronéis visitavam o Bataclan, antigo bordel, por
uma passagem secreta, que saia dos fundos do Vesúvio e ia até os fundos
do Bataclan. Vimos muitas fotos antigas de Ilhéus nas paredes do
142
Bataclan e sentimos “cheiro” de Jorge Amado no ar. Na saída, as crianças
compraram um pequeno berimbau numa loja.
Paramos no Vesúvio para beliscar alguma coisa (quibe, tradicional
do Nacib, e carne-de-sol com farofa e banana frita) e tirar fotos ao “lado
de Jorge Amado” (uma estátua numa mesa).
Andamos pela cidade e procuramos a famosa casa do coronel
Misael Tavares. Hoje, lá funciona uma Casa Maçon. Foram muito
simpáticos conosco e nos deixaram entrar para vê-la. O pé-direito da
construção é imenso e os espaços são todos grandes. Imagino as festas
que eram dadas ali. Tivemos um banho de história, sobre coronéis
poderosos, visionários e autoritários, cacau e grandes fortunas feitas e
desfeitas, e ficamos com a sensação de que Ilhéus tem tudo para explodir
no turismo. Faltam: reformar alguns lugares históricos, organizar o
turismo e divulgá-lo na mídia. Ela tem tudo o que precisa: beleza, história
e um grande romancista (o maior brasileiro) a contá-la.
Voltamos para a marina, onde comemos uma nova comida típica
baiana: o “arrumadinho” (carne-de-sol, purê de aipim e saladinha de
tomate picado). Após uma forte chuva, voltamos para o Fandas, onde as
crianças ficaram treinando berimbau.

Dois meses depois de regressarmos de viagem, descobri que uma


das superstições náuticas diz que dá azar levar berimbau a bordo. Para
nós, essa superstição não fez efeito, talvez por não sabermos dela,
protegidos pela santa (“santa ignorância”!).

13/07/2006 - Durante a noite ventou bastante e acordei várias vezes. De


manhã, o vento diminuiu um pouco e, quando olhei em volta, estávamos
com novos “vizinhos”: vários pesqueiros grandes ancoraram perto de
nós. O mar deve estar feio lá fora! Ontem eu já havia visto a arrebentação
na praia e nos recifes e hoje deve ter piorado.
Ganhamos mais uma carona da Regina até o Bataclan. Chegando lá,
nos recebeu o “Coronel” (artista no papel de um coronel de um livro de
Jorge Amado). No salão da frente do Bataclan, ele nos contou mais
histórias de Ilhéus e do famoso bordel. Mostrou as paredes originais feitas
de pedra, conchas e óleo de baleia e as vigas de madeira-de-lei, que
sustentavam o segundo andar, onde funcionava o bordel. A parte de
baixo era um bar com um palco, onde se dançavam o can-can e outras
danças da época. Nos fundos, enquanto nos mostrava as entradas secretas
dos coronéis, uma voz feminina chamou: “- Suba, Coronel”! Era uma das
meninas de Maria Machadão. Subimos as escadas e ele nos mostrou
novamente as fotos antigas, com maior riqueza de histórias e detalhes do
143
que vimos ontem. Depois, foi a vez da representação da moça, que
contava histórias da vida das meninas que moravam no lugar. Tudo
muito leve, engraçado e familiar. Esses dois artistas deram uma visão
especial e diferente da vida de Ilhéus daquela época. Recomendo, a
qualquer um que vá a Ilhéus, que veja essa pequena apresentação de vinte
minutos, que enriquece enormemente a lembrança de uma época. O
“coronelzinho do olho de bola de gude” (como ela chamou o Jonas) e a
Carol adoraram a apresentação.
De lá saímos sem direção. Andamos pelo centro até que avistamos
uma igreja no alto. Subimos uma rua íngreme e chegamos na frente de
uma igrejinha antiga, ao lado de um cemitério. A vista era muito bonita.
Vimos uma outra torre, que nos chamou atenção e nos dirigimos para lá.
Era o Convento e Igreja Nossa Senhora da Piedade, que foi construído em
1918 pelas freiras Ursulinas e onde funciona um grande colégio. Lá, a
vista era ainda mais bonita. Pedimos autorização para visitá-lo e
entramos na igreja. Ela é belíssima e a imagem do altar, uma escultura da
Virgem Maria com Jesus crucificado nos braços e uma pintura ao fundo
é um dos mais belos altares que eu já vi!
Voltando para a marina paramos na biblioteca municipal e,
novamente, lá estava o nome do coronel Misael Tavares na placa de
inauguração. A biblioteca é grande e bem organizada. O prédio é muito
interessante e nos chamou a atenção várias frutas do cacau, representadas
na decoração do edifício, em alto relevo.
Questionamento do Jonas: “- Como não tem ciclo do Cacau no meu livro
de história?!!!”.

14/07/2006 - Separei as cartas náuticas que usaremos para o próximo


trecho de viagem e acessei a internet para ver a previsão de tempo. Tirei
xerox de uma página do “Guia Náutico da Bahia – De Ilhéus a Morro de
São Paulo” para deixar no Iate Clube, pois lá fala: “O Ilhéus Iate Clube é
reconhecido como um dos que melhor recebem os navegantes na costa brasileira”,
e é verdade.
Achei que o mar diminuiu um pouco e, depois de falar com dois
pescadores que acabaram de chegar do mar, resolvemos sair amanhã.
Comemos o “Kibe do Nacib”, numa pracinha ao lado da biblioteca, que é
ótimo e voltamos ao clube.
Enquanto as crianças brincavam com várias crianças que estavam
lá, fiquei conversando com o comodoro e alguns sócios. Estava contando
que as crianças são responsáveis e que não tivemos nenhum acidente
ainda no barco, quando o Jonas veio correndo e nos disse que a Carol
havia caído dentro da piscina do clube! Assim eu fico desmoralizado!
144
Ela trocou de roupa no barco e retornamos para o jantar, tudo isso,
é claro, depois da bronca. Toda sexta-feira há um buffet diferente no clube
e hoje é dia de comida árabe. A cozinha do clube é ótima e com bom preço.
Após o jantar, eu fiz a navegação para nossa próxima parada, um lugar
que estamos ansiosos para conhecer: baia de Camamu.

145
20
Camamu – Paraíso Isolado

15/07/2006 - Acordei antes das quatro e comecei a arrumar tudo para


nossa saída. Chovia. Para não tirar as crianças da cama quente, saí
sozinho com o barco às quatro e meia. Saímos devagar, com vento
favorável na enseada protegida e tomamos o rumo de Camamu. Quando
saímos do abrigo do quebra-mar, o mar começou a engrossar e o vento a
aumentar, os dois de direção favorável, mas velejávamos com mestra e
genoa plenas. O dia amanheceu. As ondas tinham de dois a três metros
de altura e o vento devia estar na casa dos quinze nós, com vinte nas
rajadas, que nos levavam rapidamente para Camamu. Surfávamos bem
as ondas e chegamos a onze nós de velocidade em algumas! Passamos o
Rio das Contas, deixando Itacaré por bombordo.
As crianças acordaram e tomamos um lanche. Passamos por alguns
barcos de pesca e, como o vento empopou, tiramos a genoa, que batia
muito, encoberta pela mestra na maioria das vezes. Mesmo assim,
continuamos andando a sete nós de velocidade média.
Quando faltavam cerca de duas horas para o través do farol de
Taipus, dei uma olhada geral no barco, coisa que faço sempre e vi uma
trinca na retranca, ao lado da fixação do burro. Descemos a mestra para
preservar a retranca e abrimos a genoa. Mesmo assim, continuamos a
andar entre seis e sete nós de média e sem as batidas que aconteciam com
a mestra. A trinca aconteceu na região mais solicitada da retranca, que
sofre todo o esforço quando o vento está em popa e o burro precisa
segurar a mestra para não subir. Verei se soldam alumínio em Camamu.
Senão, improvisarei um burro em outro ponto de fixação da retranca.
Chegamos na entrada da tão elogiada baia de Camamu! Seguimos
os waypoint’s e passamos por várias lajes e bancos de areia, onde havia
arrebentação. A maré subia e a corrente nos favorecia. Soltamos âncora
em Campinho, onde muitas pessoas nos falaram para parar.
Entramos para fazer um lanche e, quando eu saí para dar uma
olhada se tudo estava bem, estávamos nos afastando do lugar onde
ancoráramos. Levantamos âncora, voltamos para mais perto da praia e
soltamos âncora novamente. Pouco depois, novamente nos afastávamos,
com a âncora enroscada na quilha. Mergulhei, desenrosquei o cabo e
ficamos observando: como a correnteza estava subindo e o vento vinha
do outro lado, ora o barco ia para frente, ora para trás, se enroscando toda
146
hora no cabo de âncora! Eu queria dormir tranqüilo. Vi poitas ao lado e
fomos até lá perguntar se poderíamos pegar uma. Nos falaram que
custavam quinze reais por dia e pegamos uma. Ufa, chegar a Camamu
até foi fácil, duro foi segurar o Fandango, que queria conhecer o fundo da
baia por conta própria!
Após a aventura, inflamos o bote e colocamos o motor. O local das
poitas se chama “Sítio Sabiá”. No píer, nos esperava o dono do lugar, o
simpático Juvêncio, de muitas histórias e muitas fotos de grandes peixes,
pescados em caça-submarina. Grandes peixes? Grandes mesmo!!! Vários
meros, um com mais de duzentos quilos, muitos robalos, garoupas,
olhos-de-boi e outros. Conversamos um bom tempo com ele e escutamos
várias histórias. A que mais impressionou as crianças, foi a de uma
barracuda que o mordeu, enquanto caçava. O Jonas falou: “- Viu, Pai!!!”,
fazendo referência ao nosso encontro com pequenas barracudas em
Abrolhos. Um amigo havia arpoado o peixe e pediu para ele dar o
segundo tiro. Quando ele desceu, puxando o cabo do arpão, a barracuda
o viu e se defendeu: partiu para cima dele, mordendo-o na cabeça. Ele
ficou com um pedaço da orelha pendurada e com um pedaço do couro
cabeludo aberto. Deu a sorte de haver dois médicos com ele, passando
férias no lugar, um deles cirurgião plástico, que o costuraram. Antes de o
levarem para “costurar”, ainda puxaram a barracuda de sete quilos, que
foi embarcada e serviu de jantar, após o socorro médico! Voltamos ao
barco, pegamos nossas coisas e tomamos um bom banho de água quente
no Sítio Sabiá, com toda a mordomia que eu não esperava encontrar em
Camamu.

16/07/2006 - Quando a maré baixou, descemos em terra. Andamos por


dentro de Campinho, vendo as casinhas espaçadas do lugar. É um lugar
muito simples, mas muito belo. Paramos para beber um refrigerante e
sentir o pessoal do lugar em um barzinho. Perguntando o preço das
coisas, sempre a pessoa que servia não o sabia e olhava para o dono, que
percebíamos, nitidamente, fazer o preço pela nossa cara. Seguimos até um
píer com navios de pesca e que deve ter sido usado para grandes barcos.
Depois, fomos procurar a praia que leva a Barra Grande. Perguntando
aqui e acolá, descobrimos uma trilha que nos levou para dentro do
mangue e para uma linda praia deserta, cheia de coqueiros, com a maré
baixa descobrindo muitos bancos de areia. Caminhamos admirando a
paisagem e pegando conchas. Achamos um ouriço de espinhos grossos e
uma lebre-do-mar dentro das poças. Caminhando pela praia da
Mangueira, chegamos até o rio do Cruz. Subimos o rio com uma canoa
para conhecer o mangue. Foi um passeio bonito e cerca de quarenta
147
minutos depois, voltamos. O Nelson, canoeiro, contou que há muitas
propriedades para vender, mas pelos valores que ele falou, posso dizer
que estão muito valorizadas.
Retornamos pela mesma praia, só que com o sol mais baixo, o que
a deixava com uma luz ainda melhor. O lugar é muito belo e muda
conforme o dia vai passando. Paramos em Campinho para conhecer a
Soninha, da pousada Lótus, levando-lhe um abraço de nossos amigos
comuns, Regina e Walter, ex-donos do Azular. Soninha é uma simpatia e
muito caprichosa com sua linda pousada. No restaurante, dezenas de
pequenas velas de tecido, bordadas com os nomes de muitos barcos que
passaram por ali, enfeitavam o local. Encontramos os nomes de muitos
veleiros conhecidos: Azular, Sweet, Domani e outros. Conversando,
descobrimos muitos conhecidos em comum. Saímos de lá contentes por
tê-la conhecido e prometemos voltar.

17/07/2006 - O programa de hoje é um passeio de seis quilômetros a pé


até Barra Grande. Saímos com a maré vazando, mas um pouco mais alta
do que ontem. Passamos no mangue com um pouco de água, mas que
não chegava ao tornozelo. Logo estávamos na praia da Mangueira. Como
ontem, éramos as únicas pessoas na praia! Se alguém sonha com praias
com coqueiros, desertas, muito sol e lindas paisagens, tem que conhecer
Barra Grande fora de temporada. Chegamos ao rio e o Nelson nos
atravessou com a canoa. Na outra ponta do rio, um banco de areia
avançava entre o rio e o mar, formando uma belíssima paisagem, onde
um hippie montou uma barraca e assumiu o lugar. Andando pela praia e
catando conchas, vimos as gamboas, armadilhas de peixes dos
pescadores da região, e nos admirávamos com tanta beleza.
Chegamos numa pequena pousada e perguntamos onde
poderíamos beber algo. O dono, Adriano, falou que chegamos ao lugar
certo e veio com uma cerveja gelada (não a pedi, mas não resisti a ela
naquele sol maravilhoso!) e refrigerantes. Batendo papo com ele,
soubemos de vários peixes grandes que pegou fazendo caça e que
conhecia o Juvêncio, trabalhou para ele e mergulhou com ele. Contou-nos
novamente a história da orelha e da barracuda e falou dos grandes peixes
da região. Quando estávamos para sair, veio com um prato com alguns
pedaços de carne, para que experimentássemos. Comemos, gostamos
(achei que parecia cupim) e, depois, ele nos disse que era língua bovina!
Olhei para as crianças, esperando aquela cara de nojo, mas só veio a de
curiosidade, com a frase: “- Hum, que bom!”.
Seguimos até chegar em Barra Grande e fomos conhecer o vilarejo,
que é bonito e me lembrou um pouco a praia do Forte, com menos
148
construções e mais simples. Andando pelo vilarejo, encontramos algo
inusitado: no meio da rua de terra, uma enceradeira branca estava
postada na frente da igreja. Qual o motivo daquilo? Não descobrimos!
Paramos numa padaria, comemos doces e compramos mais uma geléia
de cacau, que é uma delícia e foi aprovada pela tripulação.
Estava ficando tarde e tínhamos horário marcado para atravessar o
rio na volta. No retorno, vimos os pescadores recolhendo os peixes presos
nas gamboas. Eles entravam no cerco com uma pequena rede e a
passavam dentro do pequeno espaço onde os peixes estavam presos. Os
dois primeiros não pegaram muita coisa (uma ou outra tainha grande e
algumas pequenas), mas o terceiro fez uma ótima pesca. Entre os peixes,
havia um lindo linguado, de uns dois quilos. Negociamos o peixe por dez
reais e o levamos para “nos fazer companhia no jantar”!
Fiquei feliz, pois os dois primeiros pescadores disseram ter liberado
um filhote de mero cada um. Isso significa que a consciência deles, como
pescadores, está excelente e que há vários meros, ameaçados de extinção,
se reproduzindo na região.
Voltamos, aproveitando a praia deserta e a linda luz de fim de tarde
para a caminhada de retorno. Atravessamos o rio e paramos para tomar
um banho de mar. A água estava quente, deliciosa! Continuamos
andando, mas não entramos pela trilha normal de volta. Eu queria
conhecer a outra ponta da praia, que dá em Campinho. A praia vai
ficando cada vez mais bonita até lá e não encontramos nenhuma pegada
na areia. Quando chegamos na ponta, atravessamos por lá mesmo.
Chegamos no barco e nosso “convidado” foi limpo (ou “tratado”,
como dizem por aqui) e temperado. Tomamos banho no Sítio Sabiá e
assamos o peixe no forno, comendo-o com um risoto de cenouras. Deixei
o peixe assar demais e ficou um pouco mole, mas nunca vi as crianças
comerem tanto peixe! Demos conta de seus dois quilos de carne apenas
nós três e, do nosso “convidado”, só sobraram a espinha dorsal e seu
sabor em nossas bocas. Adivinhem o que aconteceu após o jantar, com a
barriga cheia e as pernas doloridas, depois de termos andado, por baixo,
uns quinze quilômetros durante o dia? “- Zzzzzz”!

18/07/2006 - Pegamos uma carona com o Juvêncio até a cidade de


Camamu. Foi a primeira vez que as crianças andaram de lancha! Numa
viagem rápida, pelo manguezal da região, chegamos em cerca de vinte
minutos. Soubemos, pelo Juvêncio, que é o segundo maior manguezal do
país. Para minha grande satisfação, as crianças falaram: “- Veleiro é muito
mais gostoso, pai!” (ainda bem!). Andamos pela cidade, que tem cara de
antiga e é muito bonita para fotografar. Subimos uma rua e saímos no
149
centro velho, bem alto, aonde vimos a linda igreja, que dominava a
paisagem. Retornando ao porto, vimos lanchas modernas de passeio e
canoas de pena muito antigas, contrastando. No mercado de peixes,
percebemos que a realidade da pesca vai por um mau caminho: muitos
filhotes de peixe sendo vendidos para serem usados como iscas para siris
ou para jogar fora. Havia robalos, peixes que chegam a 25 quilos e mais
de um metro e trinta de comprimento, sendo vendidos com menos de dez
centímetros! Estão pescando de arrasto com malhas muito finas dentro
dos criadouros e matando o futuro da pesca, o mesmo que aconteceu com
a pesca no litoral sudeste! E depois usam o caçador-submarino como bode
expiatório!
No meio da rua, um vendedor passava com muitos guaiamuns
vivos para vender. Passamos pelo mercado de frutas, de peixes salgados,
de secos (com muito azeite de dendê!) e de carnes e farinhas (a preferência
baiana!). Esses mercados são lugares bem típicos da Bahia!
No cantinho do porto, havia muitas canoas e um pescador mexia
com armadilhas para siris. Outro dava manutenção numa gamboa.
Vimos um mercado de artesanato, que tinha poucas lojas abertas.
Um restaurante nos chamou a atenção e resolvemos almoçar lá.
Comemos muito bem e por um preço ótimo. Comi siri catado, que é muito
gostoso, mas acho que prefiro o aratu catado. Havia um arroz com
camarão e abacaxi, que não sei se é prato típico, mas estava divino. Santa
comida baiana! Encerramos com sorvetes de mangaba, fruta que dá um
sorvete delicioso e é uma pena não ir para o sudeste.
Voltamos numa lancha rápida. Como era cedo, fiz um reforço na
retranca, com duas chapas de alumínio e parafusos. Não pretendo usá-la
para ir até Salvador, mas, caso necessitemos, já está reforçada.
As crianças queriam ir à Soninha e lá fomos nós de bote. Ela
mostrou para a Carol a vela que fez com o nome do Fandango, que vai
plastificar e pendurar com as outras. Ficou linda e vai colocar o Fandango
junto a muitos veleiros famosos!

19/07/2006 - Pegamos o bote e, deixando o Fandango na poita, fomos para


a Ilha do Sapinho e a Ilha do Goió. Sapinho é um vilarejo pequeno, mas
acolhedor. A rua principal é bem estreita e as casas, apesar de simples,
são bem cuidadas. Vimos duas casinhas cujas paredes eram forradas de
conchinhas! Andamos pelo lugar, com galinhas soltas nos quintais
abertos e várias pessoas sentadas na frente de suas casas.
Procuramos o Jorge, dono de um restaurante local. Eu era portador
de um abraço para ele, da Heloísa e do Vilfredo Schürmann. Logo o
encontramos e, após as apresentações, conversamos e bebemos um
150
refrigerante gelado. Vários moradores chegaram e logo estávamos
conversando com todos, contando e escutando histórias de cada um. O
povo de Sapinho é muito receptivo e adora um bom papo! Voltamos pela
rua principal, aonde vimos algo interessante: uma mistura de ponte,
atracadouro e banco para apreciar a paisagem.
Pegamos o bote e atravessamos o estreito canal para a Ilha de Goió.
Pequena, andamos por ela, quase a contornando. O lugar é belíssimo:
praia deserta, vegetação de mangue com alguns coqueiros e um bar
desativado no meio (deve abrir apenas na temporada).
Quando chegamos até o limite que podíamos andar na praia,
resolvi tomar um banho de mar. Entrei na água e, quando estava
relaxado, sentado na areia, um pequeno baiacu pintado, de cerca de 15
cm, veio para cima de mim. Como conheço bem os dentes desse peixinho,
dei um pulo para trás. Minha surpresa foi que ele continuou avançando!
Fui saindo e tentando espantar o peixe, mas ele não ia embora. Saí da
água e ele quase encalhou, tentando me pegar. Quando ele voltou para
um lugar mais fundo, eu entrei novamente na água e outra vez ele virou
e veio até mim. Nunca vi isso! Com um graveto, a Carol quase o tirou da
água, quando ele encalhou pela segunda vez. Ele deve ter achado que
estava ficando perigoso e se afastou de vez. Começaram a chamar de a
“vingança do baiacu”, relembrando as ilhas Botinas, quando puxei o rabo
de um grande baiacu de espinhos!
No final de tarde, retornamos ao Fandango, para preparar nossa ida
a Salvador, amanhã. Guardei o motor do bote, que, pela primeira vez,
“dormiu” todos os dias no próprio bote – o Juvêncio garantiu que
ninguém “mexe” em nada por aqui! Aproveitei a disposição e a água
limpa, com pouca correnteza e limpei o fundo do Fandango. Quando
estava no fundo e quase acabando, escutei passos correndo no cockpit e
subi para ver o que acontecia. O Jonas e a Carol gritavam: “- Golfinhos!!!”
e subi para vê-los. Eram apenas dois, mas passaram ao lado do barco, com
o sol se pondo por trás deles. Um deles pulou completamente fora da
água. Camamu é fantástica!
Enquanto eu fazia o jantar, lá fora escurecia e as estrelas cobriram
totalmente o céu sem nuvens. Fiz farinha de mandioca com manteiga
(uma delícia baiana!), usando uma farinha especial amarela que comprei
em Camamu. O dia foi perfeito, descontando apenas alguns pernilongos
(ou “muriçocas”, como os chamam os baianos) que apareceram no final
dele, para fazer uma visita e nos trazer de volta à realidade! Lemos
“Capitão de Longo Curso” do Jorge Amado, antes de dormir.

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21
Capital dos Contrastes

20/07/2006 - Acordamos às cinco horas, ainda escuro. Pegamos roupas


quentes para enfrentar o frio da manhã e nossos cintos de segurança.
Soltamos o barco e saímos da maravilhosa e receptiva Camamu com o dia
nascendo. Com todos concentrados na navegação, rapidamente saímos
da barra. O mar estava calmo e apenas uma brisa fraca soprava. O sol
começava a se erguer no horizonte e muitos barcos de pesca já estavam
trabalhando. Navegamos entre eles e, quando estava tudo em ordem, as
crianças voltaram para a cama. Íamos a motor, pois o vento não deu as
caras e queríamos chegar em Salvador antes do anoitecer. Após três horas
de navegação, vi baleias perto de nós e chamei as crianças. Ficamos
vendo-as, não muito distantes. Acompanharam-nos um pouco e, quando
comecei a guinar para perto delas, se afastaram.
O dia muito bonito e o mar liso facilitavam ver baleias. As crianças
ficaram no cockpit e eu fui descansar um pouco, mas antes, coloquei a
vara para corricar. Quando acordei para fazer a navegação, vi que
estávamos em profundidades de mil metros e a água estava num tom
“azul profundo”. Peguei um balde e tomamos um gostoso banho de mar
no cockpit. Passamos ao lado das ilhas de Tinharé e Boipeba e vimos
grandes plataformas de petróleo ou gás na região. Continuamos
navegando e deixamos Morro de São Paulo pelo través.
Pouco depois, o Jonas, que estava com o binóculo, falou sem muita
certeza: “Baleias?!”. Olhamos e vimos uma grande jubarte saltar, tirar o
corpo todo fora da água e cair de lado, causando uma grande explosão de
água! Eram duas e vinham em nossa direção. Diminui a velocidade e
guinei alguns graus para cruzarmos nossos rumos. Quando estavam mais
perto, a Carol pegou a máscara e queria cair na água para vê-las. Mandei
que aguardasse. A uns cinqüenta metros do barco, novamente uma
saltou. Foram chegando mais perto e, de repente, desapareceram.
Esperamos um bom tempo, com a Carol doida para cair na água. Elas
apareceram do outro lado do barco, já mais longe, se afastando de nós. A
Carol ficou chateada porque não a deixei entrar na água, mas expliquei
que, naquela situação, não era seguro. Continuamos a viagem. Vimos
quatro vezes baleias e contamos seis baleias no total!
Quando faltavam vinte e cinco milhas para chegarmos, vimos uns
“barcos estranhos” pela proa e, logo, o Jonas os identificava corretamente
152
como sendo prédios! A visibilidade estava muito grande e já víamos os
altos prédios da entrada da baia de Todos os Santos! Aproximamo-nos,
desviando de vários espinhéis pelo caminho. Entrou um ventinho fraco
por boreste e aproveitei para abrir as velas. Foi bom, porque temia não
chegar de dia e o vento nos auxiliou muito. Começamos a distinguir o
Farol da Barra, prédios e pontos notáveis. Às quatro e meia, passamos
pelo farol e começamos a ver o que eu considero mais interessante em
Salvador: os contrastes! Víamos um antigo saveiro à vela sofrendo com
as marolas feitas por uma moderna lancha, os prédios chiques por cima
de casinhas pobres na costa, enfim, a Bahia em toda sua essência. Rico e
pobre, antigo e moderno, brasileiro e estrangeiro, baiano e turista,
catolicismo e umbanda vivem em harmonia nesta terra maravilhosa.
Contactei a Capitania dos Portos para avisar de nossa chegada e
entramos no CENAB (Centro Náutico da Bahia). Colocaram-nos numa
vaga bem em frente ao elevador Lacerda e as crianças ficaram muito
impressionadas com o que viam. Estavam ansiosas! Tomamos um banho
e partimos para o Pelourinho. Passamos ao lado do Mercado Modelo,
prestando muita atenção a tudo e todos que estavam perto de nós, para
evitar assaltos e fomos até o elevador Lacerda. Subimos para a Cidade
Alta e, saindo do prédio do elevador, as crianças exclamaram: “- Uau!!!”.
Os prédios antigos, imponentes e muito bem conservados, causaram uma
admiração profunda nelas. Passeamos vendo as estátuas, fontes e
prédios. Jantamos num restaurante simpático. Depois, demos uma volta,
descendo até o largo do Pelourinho, passando em frente à Casa da
Cultura de Jorge Amado e subindo por outra rua.
Vimos algumas mulheres de um grupo “Olodum Cover” e as
crianças se impressionaram com o som. Eram oito tocando. Quero ver
quando escutarem um grupo de cinqüenta pessoas juntas na percussão!
Cansados, descemos o elevador e andamos com cuidado até o
CENAB. Antes de dormir, lemos “Capitão de Longo Curso”, com o
privilégio de ver citações diretas aos lugares pelos quais acabáramos de
passar. Jorge Amado começava a ter outra dimensão!

21/07/2006 - Passamos no Mercado Modelo para conhecê-lo e adoramos


as lojas de artesanato e comidas. Procuramos uma lavanderia, que é
muito perto do CENAB, e também uma bomba para a pia do banheiro,
que havia quebrado. Compramos um cabo grosso para atracação, do qual
senti falta em Abrolhos, uma tarrafa e a bomba. Em todas as lojas, o papo
corria solto e a simpatia baiana nos contagiava.
Pegamos o Elevador Lacerda e subimos até a Cidade Alta.
Visitamos o Museu da Câmara Municipal e andamos pelo lugar. Peguei
153
um mapa da cidade e encontrei uma igreja que eu queria muito mostrar
para as crianças: a Igreja e Convento da Ordem Primeira de São Francisco.
Ela é, de longe, a mais bela igreja ou obra de arte que eu já vi em minha
vida. Eu ficara muito impressionado em 2002, quando a conheci, e ela não
podia faltar no nosso roteiro. Demos sorte: chegamos bem no começo de
um espetáculo de som e luz, que se realiza na igreja vários dias da
semana. O espetáculo explica a igreja, a importância dos jesuítas e
desvenda detalhes contidos na maravilhosa obra-prima que é essa igreja.
Fora o efeito das luzes variadas, que dão uma beleza e realce a esses
detalhes. Esse espetáculo é imperdível!
Saímos em direção à Casa da Cultura de Jorge Amado. O lugar é
muito bonito e as crianças se fartaram de informações e fotos dele. Não
pudemos deixar de tomar um café e comer salgados no café-teatro Zélia
Gattai. No andar superior, há explicações e resumos de cada livro de
Jorge Amado, que as crianças quiseram ver um a um. Resultado: a Casa
fechou e não conseguimos ver tudo! Teremos de voltar amanhã.
Aprendemos algo interessante: as lutas da Bahia pela
independência. No dia dois de Julho se comemora a Independência
Baiana, que auxiliou muito a Independência do Brasil! Muitos lutaram e
morreram nesse dia, expulsando os portugueses da Bahia.
Retornávamos ao barco, quando pensei em fazê-los experimentar
um prato que adoro: o “arrumadinho”. Mistura de farofa, carne-de-sol,
feijão-frade e vinagrete, tudo em camadas! Acho esse prato delicioso!
Pena as crianças não terem achado o mesmo. O Jonas não é fã de tomate,
que havia muito no vinagrete e a Carol não gostou do feijão-frade e da
cebola do vinagrete. Não é sempre que se acerta!

22/07/2006 - Retirei a vela mestra e desmontei a retranca, com a ajuda do


Jonas. Pegamos um táxi e levamos a retranca para soldar no dique do
Itororó (aquele mesmo da música “Eu fui no Itororó, beber água e não
achei....”). Os rapazes fizeram um ótimo trabalho de solda e até pintaram
o lugar soldado. Ficou nova!
Conhecemos o Nelson e sua filha Nádia, do veleiro “Salmo 33”. Eles
fizeram a mesma viagem que nós, tendo ficado dois anos viajando.
Depois, pararam em Salvador, onde estão há dois anos.
Deixamos a retranca no barco, e fomos até a praça Castro Alves, que
tem uma bela vista e onde estão guardadas as cinzas do poeta.
Conversamos sobre ele e sua importância para a libertação dos escravos.
Depois, fomos ao museu Jorge Amado para acabar nossa visita de ontem.
Vimos mais alguns resumos de livros e retornamos ao barco.

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Para o jantar: minha primeira lentilha! Fiz a lentilha e o arroz
separados, pois não sabia quanta água colocar para os dois juntos.
Acrescentei lingüiça defumada e alguns temperos e... ficou maravilhoso!
As crianças adoraram e temos um novo prato de bordo. Nas travessias,
posso fazer com antecedência e deixar dentro da panela de pressão.
Assim, não precisamos cozinhar com o barco em movimento. Depois
demos um pulo até o Pelourinho. É uma delícia passear por lá!

23/07/2006 - Fomos passear no Mercado Modelo e, na volta, um casal nos


chamou e se encaminhou até nós. Eram o Alexandre e a Maria Alice, que
eu conheci em Parati em 2001 e que moram em um veleiro. Que
coincidência! Encontrei o Alexandre diversas vezes, em lugares diferentes
e foi muito bom reencontrá-los por aqui! Tomamos refrigerantes e
colocamos novidades em dia. Ele trabalhará por aqui um tempo, na
manutenção de duas lanchas e uma escuna, na Bahia Marina.
Voltamos ao Fandango e recebemos a visita de André e Adriana
Hagge, com os filhos Victor e Marcelo, que nos escreveram sabendo de
nossa viagem. Convidamo-los para conhecer o Fandango e falamos
bastante de barcos. Eles são simpaticíssimos e a sintonia foi rápida e
perfeita. O Jonas, em pouco tempo, estava se entendendo com o Victor e
ambos tem muitas características em comum. Enquanto conversávamos
com eles, outra surpresa: o André (outro André!), do “Magic Too”, de
Parati, nos chamou do píer. Acabara de chegar em um barco onde está
trabalhando! E dizem que o mundo é grande!
André e Adriana contaram algumas histórias de suas saídas de
barco e falaram de alguns lugares para os quais desejamos ir. Depois de
uma boa hora conversando no Fandango, eles nos convidaram para
assistir o novo filme “Piratas do Caribe 2”. Era tudo que as crianças
queriam! Fomos até o Aeroclube, onde assistimos ao filme, e depois
comemos pizzas e tomamos sorvetes na casa deles. Eles estão
empenhados em viver em um barco futuramente e, nosso sonho comum,
acaba fazendo com que a sintonia seja muito grande. Falamos bastante de
filhos, crianças no barco, equipamentos, custos, etc. Tentei passar o
máximo que eu podia de informações para eles, mas o tempo foi curto.
Ainda nos encontraremos mais, se Deus quiser, talvez até velejando, em
Aratu. Eles nos deixaram no CENAB passava da meia-noite e eu fiquei
com o sentimento que temos muito para conversar.

24/07/2006 - Pegamos um táxi e seguimos para o Mercantil Rodrigues, um


grande supermercado. Fiquei impressionado com o tamanho do dele.
Devia ter vinte metros de altura, com prateleiras que iam até o teto. Os
155
preços são ótimos e o táxi até lá barato. É um ótimo local para grande
abastecimento, pois os mercados próximos ao CENAB são caros.
A Lu e a Mô chegaram, com vários presentes para as crianças, delas
e de outros parentes e amigos de São Paulo. Após ajeitarem as malas e
colocarem uma roupa melhor para o calor baiano, fomos direto ao
Pelourinho. Comemos uma tradicional carne-de-sol com farinha e
acompanhamentos. Passeamos por lá e elas se impressionaram com os
prédios antigos e beleza do lugar.

25/07/2006 - Para o café da manhã fiz tapiocas. Todos gostaram muito. Só


não gostei da sujeira que elas causam!
Fomos até a lagoa do Abaeté, homenageada por Dorival Caimmy
(“No Abaeté tem uma lagoa escura, ‘arrodeada’ de areia branca...”) e
conhecemos o lindo lugar. Adoro levar as crianças em lugares que eles
conhecem de canções, filmes ou histórias. Andamos pelas dunas
próximas à lagoa e tomamos água de coco.
Depois, seguimos para a praia de Itapuã, outra praia muito cantada!
Desta vez, quem se surpreendeu fui eu. Fomos até um canto da praia,
onde há um farol, e o lugar é lindíssimo! Fizemos quase tudo que a música
fala e “passamos a tarde em Itapuã”, com direito a arco-íris e tudo mais.
Experimentamos o queijo coalho na brasa, do qual ficamos fãs. Após o
banho de mar com o “velho calção de banho” (até puído no traseiro!),
vadiar muito e mais uma água de coco, numa tarde linda e quente,
retornamos para a marina.

26/07/2006 - Nos arrumamos para ir até a praia da Barra, ao lado do farol


da Barra. A praia é muito gostosa e boa para banho. Havia recifes na
frente e mergulhamos por lá, vendo vários peixes.
Comemos queijos na brasa e conhecemos um engraçado e alegre
vendedor de queijos, que fazia os queijinhos cantando paródias de
músicas de sucesso, que já foi até no Jô Soares. Uma figura! Pensando
bem, não conhecemos nenhum baiano triste. Todos são muito alegres e as
únicas feições de tristeza são as dos pedintes do Pelourinho (feição que
logo muda, quando se afastam de nós).
À noite, jantamos acarajés na Dinha, no Rio Vermelho. Até a Carol,
que não gostou muito da primeira vez, comeu com gosto. Encerramos
com uma cocada do lugar, que deu para os cinco comerem!

27/07/2006 - Acordamos cedo para fazer um passeio longo: ir até a praia


do Forte, que fica a 85 km de Salvador. Fomos de ônibus e demoramos
duas horas para chegar, mas sem a preocupação em dirigir. A praia do
156
forte é BELÍSSIMA! Chegamos com maré baixa, o que permitiu visualizar
todos os maravilhosos recifes de coral. Fomos para a água, dentro de uma
das piscinas que se formam na maré baixa. Mergulhamos bastante e
vimos muitos peixes. As crianças brincaram muito nas poças de água
morna do local e encontraram várias lebres-do-mar. Andamos pela praia
e aproveitamos muito o belo dia de sol.
Quando a maré começou a subir e os recifes ficaram encobertos,
fomos ao projeto Tamar. Vimos os tanques com tartarugas, grandes
tubarões-lixa e até meros, entre outros. Após algumas “comprinhas” na
loja do Tamar, voltamos para pegar o ônibus.
Chegando no barco, largamos as coisas e subimos para o Pelô, para
o jantar. Pedimos pratos tradicionais para as meninas experimentarem: o
“escondidinho” e o “arrumadinho”. Adoraram!

28/07/2006 - Arrumamos as coisas para seguir para Itaparica. Deixamos


Salvador para trás, admirando o visual da maior, e talvez mais bela, baia
do país. A navegação foi fácil e, seguindo o guia do Hélio Magalhães,
chegamos em segurança lá. Aconselho a chegar com maré alta, pois há
vários bancos de areia na região, que podem assustar.
Atracamos na marina de Itaparica e um funcionário nos recebeu.
Ele nos orientou com relação à cidade e disse que podíamos andar
tranqüilos por lá. A cidade é pequena, segura e bem bonita. Me lembrou
bastante a ilha de Paquetá, apesar de haver automóveis no local. A
diferença é que ela tem uma água maravilhosa! Descendo do barco, vimos
cardumes de tainha, barracudas e bons robalos ao lado do píer.
Fomos até uma praia onde há um antigo forte que não pode ser
visitado. Aproveitamos a praia e vimos um belíssimo pôr-do-sol. O Jonas
colocou um veleirinho, que ganhou das meninas, para velejar. O
barquinho é demais! Veleja muito bem e tem várias regulagens de um
veleiro oceânico. Jonas brincava e aprendia, aplicando as teorias de vela!
Após o banho, jantamos no Namastê, restaurante da marina. Nos
surpreendemos com os preços: ótimos! Pedimos um caldo de camarão,
lagostas com batatas sauteé e uma paella com lagosta! Além de barato é
super bem servido. Comemos maravilhosamente bem! Foi a primeira
lagosta do Jonas e da Carol em restaurante (eu já pesquei algumas e fiz
em casa) e eles gostaram bastante.

29/07/2006 - Mergulhamos perto do banco de areia ao lado da marina.


Não vi os peixes grandes que esperava, mas foi um mergulho gostoso. No
banco de areia, que vira uma grande praia, conhecemos um italiano que

157
está viajando de veleiro, sua amiga e o filho. As crianças brincaram juntas
e se entenderam bem, mesmo não falando a mesma língua.
Conhecemos a bica, fonte de água mineral que abastece o local. A
água é excelente e abastece a marina toda, até os banheiros. Isso significa
que tomamos banho e lavamos o barco com água mineral! Na fonte, há
uma frase engraçada: “Êh, água fina, faz velha virar menina”. As crianças
aproveitaram para tirar um sarrinho da Lu e da Mô!

30/07/2006 - Tomamos água na bica e fomos para a praia da Ponta de


Areia. É uma bela praia, muito tranqüila nesta época. As crianças ficaram
horas brincando com os barquinhos e se divertiram muito. Comemos
queijos-coalho na praia, dos quais viramos fãs.
No final da tarde retornamos à marina. Por conta de um
“desentendimento” entre as crianças, elas ficaram de castigo no barco.
Demos uma volta pela cidade e a conhecemos um pouco: lindas casinhas
bem cuidadas, uma bela igreja, outra pequena ao lado e um comércio
razoavelmente desenvolvido. Comemos pastéis e levamos alguns para as
crianças, que fizeram a maior festa com eles.

31/07/2006 - Acordamos cedo e saímos para Salvador. A Lu arrumou as


malas e a levei ao aeroporto. Nos despedimos (sniff!) e retornei ao barco.
A Mô ficaria mais alguns dias conosco.
Subimos para o Pelourinho e fomos conhecer a outra igreja da
Ordem de São Francisco, que tem a frente toda feita de pedras esculpidas.
Internamente é muito linda, mas o que mais me chamou a atenção foi o
maravilhoso órgão que há no piso superior. Pena estar fechado e não
podermos vê-lo! Visitamos o seu museu e saímos.
Seguimos para a Casa Jorge Amado, para que a Mô a conhecesse.
Vimos as fotos do andar inferior e subimos para ver os resumos das obras.
Ficamos um bom tempo lá, como sempre. Quando descemos, perto do
horário de fechar, nos deparamos com um movimento incomum: muita
gente, câmeras de TV, luzes e uma pequena senhora, com um lindo e
simpático sorriso, sentada numa cadeira. Era o inconfundível sorriso de
Zélia Gattai! Estávamos no meio do lançamento de um livro sobre ela:
“Zélia de Euá – Rodeada de Estrelas”. Ela dava uma entrevista para a
Rede Globo e nós ficamos por lá. A porta estava fechada: éramos “bicões”
sem querer!
Quando pensamos em tirar uma foto dela, ela se levantou e a
ajudaram a entrar no café. As crianças quiseram conhecê-la, mas eu fiquei
com pena de invadir a privacidade da bela senhora, ainda mais no meio
de tanta gente. Fiquei vendo a lojinha de livros, mas a Mônica e a Carol

158
foram atrás dela. Daí a pouco, escutei a Carol chamando: “- Pai, vem tirar
uma foto com a Zélia!”. Fui para lá com o Jonas, enquanto uma moça,
percebendo nossa intenção, se ofereceu para bater a foto com a máquina
da Mô. De repente, enquanto nos aproximávamos, a moça chamou Zélia:
“- Mãinha, vamos tirar uma foto com seus amigos de São Paulo”. Era ninguém
menos que Paloma Amado, filha de Jorge e Zélia, que segurava a
máquina! Extremamente simpática, Zélia começou a conversar com a
Carol, que contou que estávamos velejando pelo Brasil. Ela perguntou se
a Carol não tinha medo. Contei um pouquinho de nossa viagem, naqueles
segundos que nos foram permitidos, e falamos que estávamos lendo
“Capitão de Longo Curso”. Enquanto isso, Paloma tirava fotos nossas.
Tivemos que sair, pois começava o lançamento e a Globo cobrava a
atenção da Zélia.
Saímos emocionados com o encontro, eu talvez mais, por conhecer
bastante da vida dessa senhora, de uma juventude e força admiráveis,
através do livro “Navegação de Cabotagem”, de Jorge Amado. Nesse
livro de memórias, ele conta muitas passagens de sua vida com Zélia.

01/08/2006 - Colocamos nossa melhor roupa e fomos até a Capitania dos


Portos, ao lado do CENAB. Lá, conhecemos o jovem Capitão-dos-Portos
Miranda. Muito simpático, conversamos sobre nossa viagem, mergulhos
e a beleza do litoral baiano. Agradecemos a atenção que eles estão nos
dispensando e demos os parabéns pelo projeto “Legal no Mar”, de
conscientização e educação dos navegadores baianos. O Jonas lembrou
bem: desde que entramos na Bahia, nenhuma lanchona desviou seu
caminho para passar próximo ao Fandango e balançar nosso barco, como
normalmente acontece. Ganhamos presentes da Capitania e também o
utilíssimo “Roteiro Náutico do Litoral da Bahia”. Conversando sobre o
guia e sua qualidade, o Capitão-dos-Portos nos disse que devíamos
conhecer o Zacharias, do CENAB, que o idealizou.
Seguimos para o CENAB e fomos recebidos pelo Zacharias.
Elogiamos o guia e a estrutura de Bases de Apoio Náutico (BAN’s) por
trás dele. Falamos das BAN’s que nos receberam, todas atenciosas. Esse
projeto deveria ser estendido por toda costa. Você já pensou: em todo
lugar que chegasse de barco, existir um apoio náutico, que o orientaria
com atracação, ancoragem, condições locais, lugares para visitar, lugares
para compras e onde fazer alguma manutenção necessária?

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22
Tinharé, Boipeba e Morro

02/08/2006 - Saímos às nove horas em direção à ilha de Tinharé e, antes


do Farol da Barra, já estávamos velejando. Deixamos Salvador para trás,
com um excelente vento nos levando. A Mônica estava louca para ver
baleias e estávamos atentos. Deixamos o Alfredo “descansando” e nos
revezamos nos quartos de uma hora.
Algum tempo depois, a Carol viu um jorro. Nos aproximamos e
vimos uma baleia ao longe. Ela sumiu e não a vimos mais. A Mônica ficou
animada, mas a visão foi rápida e não tão próxima quanto gostaríamos.
Passamos por bóias de espinhéis e redes, atentos para não enroscar. A
Mônica foi para o turno dela e aproveitei para descansar.
De repente, escutei o grito dela: “- Baleia!”. Levantei e, ao sair da
cabine, vi um grande dorso escuro mergulhando bem atrás do Fandango,
a uns vinte metros. Soltei um pouco as velas para diminuir a velocidade
e ela apareceu novamente atrás do barco. Continuamos devagar e
subiram dois dorsos juntos, um ao lado do outro! Era um casal de jubartes
e nos acompanhavam a pequena distância. Ficamos excitadíssimos e
indecisos, entre olhar as baleias e fotografá-las. A Carol colocou o biquíni
e pegou a máscara de mergulho, mas, quando acabou de se preparar para
mergulhar com elas, as jubartes já se afastavam. Ainda as vimos subir
mais três vezes, ao longe, e depois sumiram.
Continuamos alegres, em direção a Morro de São Paulo, com a
Mônica com cara de êxtase! Nos aproximamos, desviando de alguns
barcos e entramos pela barra de Morro de São Paulo, passando pelas
ruínas do forte antigo e, sobre nós, um lindo farol na encosta do morro.
Seguimos rumo a Gamboa e alugamos uma poita (ou “amarração”,
como dizem por aqui). Eram quatro horas da tarde.
O telefone tocou: era a filha de Genival, o apoio náutico de
Canavieirinhas, para combinar nossa ida para lá. Gostei da atenção e da
preocupação deles. Pouco depois, dormíamos tranqüilamente.
No meio da noite, acordei com alguns barulhos. A bóia de poita
começou a bater no casco, em virtude da mudança da maré. Quando
amarrei a bóia ao Fandango, vi que o cabo da poita ficava todo brilhante
quando era dobrado. Como a noite estava muito escura, pois a lua já havia
descido no horizonte, e havia muita ardentia no local, o cabo se
iluminava. Brinquei com ele, dobrando-o e esticando-o, vendo as luzes se
160
acenderem e apagarem. Entrei na cabine e não acendi a luz para não
acordar a tripulação. Ao lavar a mão na pia, usei a água salgada por
engano. Luzes jorraram da torneira da pia! Só não acordei todos para
verem, pois sabia que estavam muito cansados.

03/08/2006 - Partimos às sete e meia de Gamboa, passando perto do


Curral, que parece ser muito bonito. Navegamos canal adentro, onde a
paisagem era de mangue nas duas margens. De vez em quando, víamos
alguns coqueiros e, encravados entre eles, uma ou duas casinhas. Eu ia
muito atento, pois a zona pela qual navegávamos não era hidrografada,
ou seja, não há carta náutica para o local. Passamos na frente de Galeão e
vimos, ao longe, a cidade de Valença. Seguimos desviando das bóias de
redes e vendo muitas canoas à vela navegando pela região.
Chegamos em Cairu e esperamos o Genival chegar. Nos
apresentamos e seguimos para Canavieirinhas, com o Genival ao leme do
Fandango. Relaxei e comecei a apreciar a linda região e os barcos. Às dez
e meia, chegávamos a Canavieirinhas. O pequeno vilarejo é muito bonito
e bem arrumado. Nos lembrou muito Sapinho. Descemos e fomos
conhecer o vilarejo com Tânia, filha de Genival, como guia. Vimos onde
Genival defuma os camarões, que vende em Salvador, a nascente de água
que fica no fundo da vila e as árvores locais: fruta-pão, graviola,
coqueiros, dendê, cacau e muitas outras.
Voltamos para a casa do Genival, onde almoçaríamos. Serviram um
prato que nos recomendaram muito: moqueca de siri catado, camarão
seco e ovos de quintal! Que delícia! Começamos a brincar com Dna.
Carminha, esposa do Genival, que ela o prendeu pelo estômago.
Comemos e ficamos conversando na varanda da casa. Contamos e
escutamos histórias, conversamos sobre barcos e velejadores conhecidos:
nos sentíamos em casa. Após o almoço, ainda comemos um pouco de
amendoim, tomamos café e comemos laranjas! A Carol, que estava
ajudando a plantar cocos, veio com três cocos e ainda ganhou um cacau.
Tomamos a água de dois cocos e Tânia deixou o outro descascado.
Genival nos mostrou várias revistas e livros falando dele e de
Canavieirinhas e assinamos seu livro de visitas. No livro, encontramos
alguns conhecidos e, entre eles, o Janjão, do Sweet, que foi o primeiro a
nos recomendar Canavieirinhas.
Voltamos ao barco quando o sol já se punha no horizonte baixo do
local, que mais parece o pantanal mato-grossense do que propriamente
mar, impressionados com a simpatia, calor humano e receptividade dessa
família, que conhecemos hoje e que já queremos bem.

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04/08/2006 - O irmão e o filho de Genival nos levarão para conhecer
Boipeba. Subimos na traineira e, após Canavieirinhas, entramos num
braço de mar estreito. Andamos por quase uma hora naquele braço, que
tinha de vinte a cem metros de largura.
Ao longo do caminho, vimos várias garças azuis e a bela vegetação
de mangue, com suas raízes estruturais, conforme ia descrevendo a
“enciclopédia” Jonas. A profundidade variava muito e, em alguns
trechos, a embarcação raspava no lodo do fundo. Começamos a ver uma
ponta de areia e o mar aberto. Chegamos à praia do Pontal, com a bela
Boipeba Velha na frente. O lugar é maravilhoso! De um lado do braço de
mar, uma grande ponta de areia cheia de coqueiros avança, ameaçando
invadir o canal. Do outro, uma pequena vila, quiosques de praia e várias
belas pousadinhas dividem seu espaço, numa praia parte dentro do canal
protegido e parte voltada para mar aberto. Enquanto cruzávamos a barra,
conseguimos ver coqueiros para os dois lados, em praias desertas que se
perdiam no horizonte.
Na saída da barra, várias ondas nos esperavam e algumas
quebraram na proa da traineira. Nosso destino era Cueira. Essa praia é
considerada uma das mais belas do Brasil e o “título” é merecido.
Descemos na praia deserta e encontramos vários búzios na areia.
Caminhamos até uma ponta próxima, de onde víamos praias e coqueiros
se perdendo dos dois lados. Na nossa frente, havia a sombra dos recifes
de coral, que se estendiam por quase dois quilômetros na direção do mar.
Pena não termos a maré certa para mergulhar neles! Caminhamos pela
praia até um lindo vilarejo. As crianças brincaram com um cachorro, que
adorava buscar pedaços de madeira.
No retorno, entramos novamente na barra só que, desta vez,
surfando. Apenas uma onda deu um pouco mais de emoção, mas para
mim foi o suficiente! Uma coisa é surfar ondas em lugares profundos com
o veleiro. Outra é surfar com uma traineira, em lugares rasos, onde, se o
barco atravessar, capota!
Descemos em Boipeba Velha e andamos pela praia. Sentamos na
sombra de um quiosque, aproveitando o início da tarde. Comemos
batatas fritas, tomamos uma água de coco e, eu e a Mônica, não resistimos
a tomar uma “rósca” (caipirinha de vodka – pronuncíasse com o primeiro
“r” fraco). Como é bom não ser o comandante do barco, de vez em
quando! Estendemos até as duas horas nessa praia. Tomamos banho de
mar, curtimos o delicioso sol do inverno baiano, mas chegou a hora de
voltar, por causa da maré que descia.
O retorno foi feito em outro canal, um pouco mais profundo, mas
muito mais estreito. Passamos por lugares onde os galhos das duas
162
margens batiam ao mesmo tempo dos dois lados da embarcação, cuja
boca era cerca de três metros e meio! Quando o canal alargava, vinha o
perigo: a profundidade diminuía. Em vários lugares passamos “arando”
o fundo e, mesmo com o motor em alta rotação, nos arrastávamos pelo
lodo. Não havia perigo, mas não gostaríamos de ficar encalhados ali,
esperando a subida da maré. Finalmente, vimos a saída e enxergamos o
Fandango nos esperando. Agradecemos o passeio e fomos para terra.
Estávamos com muita fome e nos sentamos à mesa da casa do
Genival. Uma grande travessa de feijão, cheia de carnes (carne seca,
costela e paio!), foi colocada a nossa frente. Olhei para o Jonas e seus olhos
brilharam! Pouco depois, veio o arroz e a deliciosa moqueca de camarão
da Dna. Carminha. Nos servimos e tudo estava delicioso! Como cozinha
bem essa mulher! O Jonas, especialista em feijão, disse que o local deveria
ser famoso, também, por causa dele, “talvez até acima das moquecas”.
Comemos maravilhosamente bem. Quem comeu menos foi a Carol, que
fez “só” três pratos! O incrível é que, depois de satisfeitos (ou deveria
dizer “abarrotados”), ainda comemos uma cocada que uma menina
passou vendendo.
Depois de meia hora de descanso, conversando com Dna. Carminha
e Tânia, nós começamos a brincar com uma tarrafa. Treinamos em terra
e, com a orientação da Tânia, começamos a acertar. O Jonas pegou o jeito
e seguimos para o píer, na esperança de pegar algum peixe para estreá-
la. Não o pegamos, mas conseguimos jogá-la cada vez melhor, sempre
caindo bem aberta.
Quando o sol se pôs, retornamos ao barco. Curtimos o belo visual
do anoitecer, com a lua e as estrelas espelhadas no mar calmo, totalmente
liso. Que lugar! Que paraíso! Que gente boa!

05/08/2006 - Hoje tiramos o dia para descanso e para curtir


Canavieirinhas. Seguimos até a casa do amigo Genival, demos bom dia e,
enquanto a Carol brincava com as meninas, eu e o Jonas tentávamos jogar
tarrafa. Fomos ao restaurante flutuante de ostras da Tânia e ficamos
batendo papo, com as crianças brincando na água, pulando do flutuante.
Comemos ostras e o Jonas e a Carol adoraram (foi a primeira vez que
comeram!). Até a Mônica, que não tinha coragem, comeu duas e gostou.
Um menino, o Pepito, fez uma declaração de amor para a Carol, do
flutuante ao lado. Ela ficou toda envergonhada e bem brava conosco! Foi
engraçado!
Conversamos com o Genival sobre valores, pois ainda não
havíamos tocado no assunto. Os preços foram super justos: passeio de

163
barco, serviço de guia, ostras e refeições. Nos despedimos de Dna.
Carminha, Tânia e das outras pessoas do local, pois amanhã partiremos.
Recebi uma ligação de Ilhabela com ótimas notícias: nasceu o casal
de gêmeos, filhos de nossos amigos Edmon e Yara, de Ilhabela, que há
mais de doze anos tentavam tê-los. De quebra, eles são netos da Dna.
Cida, que por uma coincidência muito grande citamos ontem no almoço,
pois é muito parecida com a Dna. Carminha. Foi a Dna. Cida que me
ajudou a cuidar das crianças na pior fase de nossas vidas.

06/08/2006 - O despertador tocou faltavam dez minutos para as quatro.


Eu ia ajudar o Genival a recolher os manzuás (armadilhas para siris) que
ele colocou ontem. Navegamos pelos canais no escuro, com ele guiando
o barco pelos pontos de referência há muito conhecidos. Chegamos no
local das armadilhas, que era longe, e entramos por um canal raso e
estreito. Com o gancho na mão e grande prática no leme, que era dirigido
com o pé, ele pegava as armadilhas uma a uma e as lavava, soltando a
isca que era composta de peixinhos mortos. Saímos do canal raso e ele
pegou a canoa, para recolher os manzuás mais próximos. Enquanto isso,
no barco, eu desatava o nó de um canto do manzuá, abrindo um buraco,
e despejava os siris dentro do cesto.
Retornamos com um grande cesto de siris, que foram fervidos para
serem “catados” (removida a carne de dentro). Tomei um café na casa da
Dna. Carminha, despedimo-nos novamente e voltei ao barco.
Saímos em direção a Cairu. O vento ajudou e logo chegamos lá. Nos
despedimos do amigo Genival, que nos recebeu tão bem em sua casa, já
com saudades. Nunca os esqueceremos! Obrigado!
Passeamos por Cairu e conhecemos seu convento. Depois, fomos
com a Mônica numa lanchinha de alumínio até Graciosa, onde ela pegaria
o ônibus para ir embora. Nos despedimos e retornamos para Cairu, com
as crianças com lágrimas nos olhos e a maior “cara de enterro”, já com
saudades da “Mozilda”. Despedidas são sempre duras!
Quando chegamos em Cairu, vimos o Fandango longe de onde o
ancoramos. Pegamos o bote e “corremos” para lá. Chegando perto, vi que
estava encalhado num banco de lodo, com a âncora enroscada na quilha.
Provavelmente, ele girou com o vento, enroscou o cabo e saiu arrastando
a âncora. Liguei o motor, dei ré e, facilmente, ele saiu em direção ao canal
profundo.
Ancoramos novamente e voltamos para Cairu. No restaurante
Beira-Mar, com um olho no barco e outro na comida, comemos nossa
primeira moqueca de arraia. Estava deliciosa! Mesmo assim, vou
continuar soltando as arraias quando as pesco.
164
Aproveitamos a maré, que começava a descer e retornamos em
direção a Galeão, parando lá para conhecer a cidade. Dois garotos, Cacau
e Bira, nos levaram para ver a igreja no alto do morro. O conjunto de
igrejas da região tem contato visual entre elas, que era usado para dar
alarme quando acontecia alguma invasão ou chegavam piratas. À noite,
no barco, vimos a bela igreja de Galeão iluminada sobre nós.

07/08/2006 - Acordamos cedo para sairmos no horário propício de maré,


seguindo para a praia do Curral. Uma hora depois, ancorávamos na
frente do Curral, perto de cinco casinhas existentes na praia. O vento
estava forte, mas a âncora segurou muito bem.
Curral é uma ponta de areia que avança sobre o canal existente
entre a Ilha de Tinharé, na região de Morro de São Paulo, e o continente.
Como chegamos na maré baixa, pudemos andar por ela até contornar a
ponta. Da ponta se enxerga Gamboa, o farol no topo do Morro de São
Paulo, parte do canal e uma praia que se perde de vista na direção de
Salvador. A praia, cheia de lindos coqueiros, era só nossa!
Saímos de Curral no estofo da maré alta e seguimos para Gamboa.
Minha idéia é deixar o barco lá, que é mais protegido, e visitar Morro de
São Paulo com os barcos de transporte normais. Descemos para conhecer
Gamboa quando já escurecia. Depois de um passeio rápido pela cidade,
paramos ao lado do píer para comer na creperia Tupy, de um francês que
se apaixonou pelo Brasil e por uma brasileira.

08/08/2006 - Pegamos um barco de transporte para Morro de São Paulo e


em quinze minutos estávamos lá. Visitamos o forte antigo, muito bonito,
mas que precisa melhor conservação, pois seu muro está partindo e
caindo em vários pontos. Está muitíssimo mais degradado do que eu vi
há quatro anos atrás! Ao lado dele, há uma praia, que na maré baixa fica
com várias piscinas naturais pequenas e de onde vemos a primeira praia
de Morro de São Paulo. As praias de Morro são “numeradas”: primeira,
segunda, terceira e quarta praia. As únicas que levam nome são a praia
do Forte e a praia do Encanto (belo nome, não!).
Fomos para a vila, com ruas de areia e muitos comércios, entre lojas,
restaurantes, pousadas e empresas de turismo. A maioria dos turistas
eram estrangeiros. Vimos várias mulas e jumentos. Como os únicos
veículos aqui são tratores, eles usam os animais para transportar coisas
pesadas. As mais leves são carregadas com carrinho de mão, por
carregadores que você contrata no píer.
Descemos a ladeira e passamos pela primeira praia, que é pequena,
até chegarmos na segunda. A segunda praia é muito bonita! Há várias
165
pousadas, lojas e restaurantes na praia, mas retiradas, permitindo que os
turistas possam aproveitar bem toda a praia. Tudo custa dinheiro lá. Até
cadeiras de praia são alugadas. Temos que tomar muito cuidado para não
sermos explorados em Morro de São Paulo.
Chegamos na terceira praia, bela, que tem alguns barcos ancorados
na frente e mais comércio. Pena que este avançou bastante na areia e,
quando a maré sobe, não sobra praia!
A quarta praia é muito longa. Andamos uns quatro quilômetros e
quando perguntamos se ainda estávamos longe da praia do Encanto, a
resposta foi: “- Bastante!”. Voltamos, pois vimos chuva vindo na nossa
direção. Paramos para comer um abacaxi, mas nos pediram cinco reais
por ele! Viramos as costas e seguimos. Trinta metros depois, nós
estávamos comendo um abacaxi maior por três reais. Havia vários
cavalos para locação na quarta praia e também charretes, que permitem
a ida mais fácil até a praia do Encanto.
Seguimos para as barracas que vendiam pastéis, mas desistimos,
pois achei caro demais seis reais por um pastel. Nos informaram que um
restaurante simples, chamado “PF da Pretinha”, tinha boa comida e era
barato. Fomos até lá e pedimos uma moqueca de camarão e um bife
acebolado. Acompanhamentos: farofa, salada, feijão e arroz. Comemos
muito bem! Tudo muito gostoso, com um feijão que até a Carolina repetiu
várias vezes. O preço total? Catorze reais, com bebida!
Paramos no Café das Artes, que nos lembrou muito o Ponto das
Letras, de Ilhabela. Tomamos café e comemos bolos de chocolate com
cenoura, tranqüilamente, curtindo o movimento do lugar.

Em cidades turísticas, que normalmente são caras, é importante


procurar bem para fazer compras e para comer em restaurantes,
principalmente com o caixa de bordo limitado. Perguntar é essencial!

09/08/2006 - A maré estava baixa e resolvemos ir andando até Morro. A


caminhada foi muito gostosa e a paisagem é muito bonita. No meio do
caminho, vimos os destroços de um veleiro na praia. Chegamos a Morro
e fomos direto para a segunda praia. Aproveitamos a linda praia, com
direito ao top-less de uma italiana ao nosso lado. O sol saiu forte e nos
proporcionou ótimos banhos de mar.
Resolvemos conhecer o grande farol. Subimos ao lado do píer e,
após muitos degraus, estávamos na frente dele. Seguimos para a direita e
chegamos num mirante, onde há uma tirolesa. A vista é muito bonita:
vemos a primeira, segunda e terceira praia! Do outro lado do farol,

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víamos Curral, a igreja de Galeão e Salvador, com o sol se pondo sobre o
continente. Linda vista, com várias pessoas apreciando o pôr-do-sol!

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23
Aratu-Maragogipe – Festa Baiana

10/08/2006 - Soltamos a poita faltando quinze para as oito e seguimos para


a saída da barra, com destino a Salvador. Seguimos muito rápido, pois a
maré descia com grande vazão. Ao sair da barra, as ondas cresceram
muito e o vento aumentou, permitindo que desligássemos o motor.
Quando nos afastamos de Morro, as ondas diminuíram de tamanho e
velejávamos bem.
Avistamos nossas amigas baleias, no mesmo lugar que as vimos
quando viemos para Morro de São Paulo! Passamos por elas e vimos uma
cauda mergulhando à nossa popa. O vento vinha de leste, o que
proporcionava uma orça folgada muito gostosa, com o vento variando de
dez a quinze nós e o Fandango velejando a todo pano. O sol, maravilhoso,
nos acompanhou em toda a travessia.
Quando eram duas horas da tarde estávamos perto de Salvador.
Resolvi cortar caminho, consultei a carta náutica e vi profundidades
mínimas de dezenove metros, se seguíssemos direto para o waypoint
perto do CENAB. Mudei o rumo, mas, algum tempo depois, comecei a
ver rebojos na água, como se existissem bancos de areia muito rasos no
caminho. Liguei o ecobatímetro e acompanhamos a profundidade,
desviando dos rebojos maiores. Ela estava louca! Pulava de vinte metros
para sessenta, para trinta, para nove, etc. O mínimo que vimos foi nove
metros, mas a carta prometia no mínimo dezenove! Não sei se o banco
era raso mesmo ou se era só efeito da correnteza, com a maré que subia
rapidamente. Na dúvida, retomamos o caminho mais longo, indo até o
Farol da Barra e seguindo encostado a Salvador.
Pouco depois do Farol da Barra, três golfinhos passaram ao lado do
barco, sumindo na nossa popa. Chegamos ao CENAB e lemos o final do
excelente “Capitão de Longo Curso”.

11/08/2006 - Recebemos a visita da Patrícia e da Pilar, duas moças que as


crianças conheceram em Itaparica. Mostramos a elas nossa “casa” e
conversamos sobre nossa viagem.
Elas nos levaram para conhecer a Igreja do Senhor do Bonfim.
Driblamos os ambulantes e pedintes na porta e entramos. A igreja é
belíssima e está extremamente bem conservada. Muitos fiéis e turistas
estavam no local. Vimos a sala onde fiéis, com pedidos realizados,
168
colocavam fotos, pedaços de corpo em plástico ou cera e outras coisas. A
fé se encontra presente com mais força naquela impressionante sala.
Ganhamos patuás e fitas do Senhor do Bonfim das amigas e as
amarramos às grades da igreja, fazendo três pedidos (não posso contá-
los, mas acho que vocês já imaginam!). As duas moças são muito
atenciosas e simpáticas! Nos despedimos e marcamos outro passeio.
Seguimos para o Solar do Unhão, onde fica o Museu de Arte
Moderna da Bahia. Fiquei impressionado com o local. É belíssimo! Um
antigo e enorme casarão colonial, extremamente bem cuidado, recebe
exposições de arte e tem uma exposição permanente do fotógrafo Pierre
Verger. Não gostamos muito da exposição de arte, mas as fotos...UAU!
Fotos em preto e branco da Bahia dos anos 50 e de suas festas populares.
Quem for à Salvador deve visitar o Solar, pois vai gostar muito.
Começamos a ler um novo livro: “A Revolução dos Bichos”.

12/08/2006 - Aproveitamos o tempo livre para fazer um passeio até o Farol


da Barra. O Farol é maravilhoso e tem um excelente museu anexo. Muitos
instrumentos náuticos antigos e muitas maquetes de naus, caravelas,
galeões, saveiros e canoas fizeram a alegria total do Jonas.
A visita foi muito interessante. Ainda vimos um cartaz com a
incrível história de uma estátua de Santo Antonio, para o qual, as pessoas
da cidade e do forte, pediam proteção. Como “agradecimento”, a estátua
recebeu o cargo de tenente, do Imperador Dom Pedro I, com respectivo
soldo. Para quem ia o dinheiro, ninguém disse! Apenas em 1909, alguém
do governo acabou com a alegria de quem recebia o soldo de Santo
Antonio, que, a essa altura, já tinha sido promovido a capitão!
Encontramos o André, do “Magic Too”, e aproveitamos para
conversar melhor e assinar nossos livros de visita respectivos.
André e Adriana Hagge ligaram, nos convidando para dormir na
casa deles. As crianças ficaram eufóricas para ver o Vitor e o Marcelo.
Deixamos o “Fandas” sozinho pela primeira vez desde minha cirurgia,
mas tranqüilos, pois o CENAB é muito seguro. Na casa deles, as crianças
brincaram o tempo todo e nós, após comermos pizzas, conversamos e
vimos muitas fotos.

13/08/2006 - Chamei cedo as crianças, que me deram os beijos de dia dos


Pais. Íamos a Aratu, que fica longe de Salvador e é isolado. O dia estava
lindo e conhecemos o lindo Brasília 32 de nossos amigos, o Gabushí, que
está na Marina Aratu. Também fomos até o Aratu Iate Clube. O clube é
bonito e tem uma excelente estrutura. Só é uma pena que ele fique numa
área muito pobre e não tenha nada para fazer por perto. O comércio é
169
muito fraco e para pegar ônibus para Salvador, tem que andar um bom
pedaço a pé. O que eles cobram para ficar numa poita é o mesmo que para
ficar em Salvador, no píer.
Nossos amigos nos deixaram no CENAB, agradecemos o passeio e
telefonamos para alguns pais, parabenizando-os.
Retornamos ao Elevador Lacerda, aproveitamos para tomar
sorvetes e ver o sol descendo no horizonte. Qual não foi minha surpresa,
ao ver o maravilhoso “Cisne Branco” ancorado ao longe.

14/08/2006 - A Patrícia e a Pilar nos levariam para passear por Salvador.


Saímos em direção ao Monte Serrat, uma ponta de terra com um antigo
forte, muito bem conservado. Ele está sob cuidados do exército e tem
alguns canhões modernos em seu jardim. Dentro do forte, há um canhão
antigo, que ainda funciona. É usado com pólvora, apenas, para dar tiros
de comemoração. Ao lado do Monte Serrat, um linda praia com alguns
recifes e água transparente faz a alegria dos moradores do bairro.
Fomos para uma igrejinha perto do Monte Serrat. Um senhor
jogava uma tarrafa, tentando pegar alguns peixes, ao lado da igreja. Os
soteropolitanos são felizardos pela linda cidade, com história, cultura e o
bem cuidado mar que têm ao redor. Talvez venha daí a alegria de viver,
estampada no rosto e nas ações de cada um.
Tomamos sorvetes na Ribeira, onde a Patrícia e a Pilar nos
honraram, assinando nosso livro de visitas. Tenho que falar um pouco de
cada uma de nossas amigas: Pilar é a alegria em pessoa! Sempre
sorridente e brincalhona, não tem parada e está sempre arrumando algo
divertido para fazer ou falar. Patrícia é a moça das soluções. Com o ar
mais sério, mas sem perder o sorriso baiano, está sempre atenta ao que
acontece e às necessidades de todos. As duas são fantásticas!
Paramos na frente da igreja de Nosso Senhor dos Navegantes. Fiz
uma rápida prece, em silêncio, pedindo proteção na viagem. Seguimos
para o Rio Vermelho, para experimentar o acarajé da Cira. É ótimo e acho
que vou ter de comer mais uns vinte, na Dinha e na Cira, até resolver qual
é o melhor! Experimentamos também o abará, que é o acarajé cozido, em
vez de frito. Fica muito bom também, mas acho que prefiro o acarajé.

15/08/2006 - Acordamos com uma bela novidade! O Navio-Veleiro Cisne


Branco, da Marinha do Brasil, estava bem próximo a nós e podíamos ver
sua linda proa e mastros da rampa da marina. Liguei para o Rio de
Janeiro, para ver se poderíamos visitá-lo. Permitiram e lá fomos nós, para
o Cisne Branco de bote, mesmo com ameaça de chuva.

170
Chegamos ao lado do lindo veleiro (como nos sentimos pequenos
dentro do botinho, ao lado dele!) e vimos todos os detalhes de sua proa e
costado. Além de muito bem construído, ele é rico em detalhes e belos
acabamentos. Subimos a escadinha quebra-peito e fomos recebidos pelo
simpático Comandante Leonardo Puntel e pelo atencioso Imediato Paolo
Coriolo. Seguimos para uma linda sala, toda em madeira e ficamos
conversando sobre o navio e suas viagens e sobre o sonho que estamos
realizando. Presenteamos o Comandante e o Imediato com bandanas e
uma revista de Ilhabela, com uma matéria nossa.
Vimos um filme sobre o barco e fomos presenteados com bonés,
camisas, um CD com o filme e fotos do veleiro e um livro muito bonito
sobre o Cisne Branco. Este último foi fruto de disputas, para ver quem o
lia primeiro, quando voltamos para o Fandango (resolvemos lê-lo os três
juntos!). Fizemos uma visita completa, inclusive sala de máquinas, neste
“maravilhoso navio do século XVIII do convés para cima e com a alta tecnologia
do século XXI do convés para baixo”, como disse o imediato.
Ficamos impressionados com os números de visitantes deste
cartão-postal da Marinha do Brasil: quinze mil em um único dia! Todos
os lugares por onde ele passa chama a atenção, pela beleza e elegância,
transformando-o num embaixador brasileiro em cada porto que chega. A
visita foi maravilhosa e esperamos vê-lo muitas vezes ainda (foi a nossa
quarta visita, mas sempre ficamos impressionados). Tomo a liberdade de
transcrever versos de Álvaro Campos, do livro “Passagem das Horas”, de
1916 da Editora Nova Fronteira que se encontram no livro “Cisne Branco
– Uma Ode Marítima”:
“Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que não se pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero...”
Retornamos ao Fandango felizes e logo saímos para encontrar
Marcelo Estraviz, que está acompanhando nossa viagem na internet e que
se encontra visitando Salvador. Em poucos minutos de papo, parecia que
nos conhecíamos há anos. Convidou-nos para ver a missa na Igreja de
Nossa Senhora do Rosário dos Negros, no Pelourinho, que é realizada
utilizando-se instrumentos musicais do Candomblé. Vimos uma boa
parte da missa, muito mais alegre e musical do que as nossas tradicionais,
retratando bem o que é o espírito baiano.

171
Visitamos o Nelson, a Sônia e a Nádia do barco “Salmo 33”.
Enquanto conversávamos tranqüila e alegremente, escutamos pedidos de
socorro. Um senhor estrangeiro, que está num barco na ponta do píer, que
sempre víamos retornar “bebaço”, abusou da sorte e da ajuda dos “anjos-
da-guarda dos bêbados”, despencando dentro da água. Foram
necessários quatro homens para tirá-lo da água! Mesmo o susto e o banho
frio, não o fizeram melhorar. Ele seguiu cambaleando para o seu barco,
com duas pessoas atrás para não deixá-lo cair novamente, sob o efeito,
provavelmente, de muitas “róscas” da Bahia.

16/08/2006 - Visitamos o Forte São Marcelo, bem ao lado da marina onde


estamos. Ele é conhecido como o “Umbigo da Bahia”, apelido dado por
Jorge Amado num de seus livros, em virtude do formato circular do forte
e de sua localização. Ele fica dentro do mar, é muito bonito e está muito
conservado, pois acabou de ser restaurado. Cada sala dele foi montada
com um assunto diferente, sobre o mar, o forte e Salvador. Em algumas
salas foram colocados aparelhos de última geração, como um simulador
de mergulho, simulação de tiros de canhão e outros. A vista de cima do
forte, na linda tarde ensolarada, era fantástica em todos seus trezentos e
sessenta graus.
Retornamos ao Fandango e, pouco depois, a Patrícia veio nos
visitar, trazendo um lindo presente: o livro “3 a. Volta ao Mundo do
Veleiro Três Marias”, de Aleixo Belov. Adoramos o presente!
No CENAB, encontramos o Rolim, dono do barco Compostela, que
conhecêramos em Ilhabela em 2003. Ele e a esposa viajam de veleiro
desde aquela época. Coincidências...

17/08/2006 - Nos arrumamos para outra visita ao Cisne Branco,


acompanhando nossas amigas Patrícia e Pilar. Enquanto as esperávamos,
olhei para o andar de cima da marina e quem eu vejo? Aleixo Belov,
dando uma entrevista para a rede Globo! Chamei as crianças, pegamos o
livro e logo estávamos ao lado dele conversando, contando de nossa
aventura e pedindo um autógrafo no livro! É muita coincidência! Ele foi
simpático conosco, mas a Rede Globo, pela segunda vez, nos enxotou (a
primeira foi com a Zélia Gattai, lembram?).
As meninas chegaram e fomos de bote para o imenso veleiro. Desta
vez nos recebeu o sargento Gil, que nos levou a todos os cantos do barco
novamente. Para elas tudo era novidade. Para nós, era a chance de olhar
com outros olhos, percebendo ainda mais detalhes do maravilhoso barco.
Eu me prendi mais nos detalhes dos cabos das velas (por sinal, são
dezoito quilômetros de cabos para serem trabalhados!) e todas as
172
reduções necessárias para içá-las, mareá-las e mexer com as vergas.
Voltamos ao Fandango e nossas amigas seguiram para o trabalho.
Saímos para ir à ANATEL, pois eu precisaria resolver um problema
da licença do rádio. Na saída do CENAB, outra grande surpresa:
encontramos o Carlão, dono do outro Fandango (o Fandango II), um
Brasília 27’ S, que era nosso vizinho em Ilhabela e que se mudou para a
Bahia há três anos. Eu quase trouxe o barco com ele, naquela época, mas,
por causa do atraso com uma manutenção no motor, não pude vir.
Batemos um papão e ganhamos uma carona do Carlão, que ia para o
mesmo lado que nós. Foi bom vê-lo, contente e satisfeito com a vida na
Bahia. Nos disse que é muito difícil vir para o lado do CENAB e que foi
uma grande coincidência. Coincidência? Bahhh! Acho que já não acredito
mais em coincidências!
Voltamos para o CENAB e, mal chegamos, nos arrumamos para ir
ao Cisne Branco. Havíamos sido convidados para assistir a cerimônia de
arriamento da Bandeira do Brasil, ao pôr-do-sol. Colocamos nossa melhor
roupa e lá fomos nós. O barco estava todo arrumado e tivemos a chance
de vê-lo do píer, pois das outras chegamos de botinho. Vimos o
arriamento da bandeira, com o sol se pondo maravilhosamente belo, do
convés do Cisne Branco. Cantamos o Hino Nacional e foi emocionante
(acho que, nessa ocasião, as crianças compreenderam a importância e a
beleza de tê-lo decorado). A bandeira foi novamente içada e mantida com
luz artificial. Muitas autoridades estavam presentes e, entre elas, Aleixo
Belov. Conversamos mais um pouco com ele, conhecemos o Comandante
do 2o. Distrito Naval e aproveitamos para agradecer a acolhida que nos
tem sido dada. Conversamos um pouco com o Comandante Coirolo e
com o Comandante Puntel e tivemos um longo papo com o Sargento Gil,
sobre as coisas que as crianças estão aprendendo com essa viagem.
Cansados do longo e agradável dia, nos despedimos, agradecendo o
convite para tão bela cerimônia.
Na saída, ainda parei no píer para admirar a linda mastreação do
veleiro, com seus infindáveis cabos e as lindas vergas iluminadas,
sustentando as velas que descansavam. O Pavilhão Nacional tremulava,
sob a luz dos holofotes e à brisa quente da Bahia.

19/08/2006 - Zarpamos para Aratu, para passar o final de semana lá. O


vento apareceu e velejamos o tempo todo. Passamos em frente ao Monte
Serrat, vimos um saveiro à vela (apenas dois ainda velejam pelas águas
da Baia de Todos os Santos), passamos em frente a Periperi, que as
crianças conheceram através do livro “Capitão de Longo Curso” e
chegamos na Ilha da Maré. Entramos num canal estreito, muito fundo,
173
aonde vimos vários navios grandes e uma base naval da Marinha.
Seguimos a sinalização do canal bem balizado e chegamos numa grande
e tranqüila baia, com muitos mastros de veleiro à frente (Marina Aratu) e
à direita (Iate Clube de Aratu).
Chegando à Marina Aratu, duas horas e meia depois de termos
saído do CENAB, o primeiro barco que vimos foi o “Fandango II”, do
Carlão. Pegamos uma poita ao seu lado e lá ficaram os dois Fandangos,
lado a lado, virando curiosidade para as pessoas que passavam. Fomos
ao barco dele e conversamos com ele e com sua esposa, a Sandra. O
“Loro”, papagaio deles, muito mansinho, fez sucesso com as crianças.
Fomos ao Gabushí encontrar os Hagge. As crianças brincaram o
tempo todo com o Marcelo e o Victor. Como se identificaram! O Victor
veio dormir no Fandango e acabamos de ler “A Revolução dos Bichos”.

20/08/2006 - Saímos para passear com o Fandango e o Gabushí. O motor


do Gabushí esquentou e, como não havia vento, o rebocamos para a
Prainha, que ficava perto. Ancoramos os barcos e descemos.
As crianças brincaram com barquinhos, enquanto eu conversava
com o André e seus convidados. Foi uma deliciosa tarde na praia!
Na volta, havia vento e, mesmo contra, abrimos as velas. Velejamos
em orça, dando bordos, sempre rebocando o Gabushí!
Na Marina, eu conversava com o André e a Adriana quando, de
repente, o Alexandre aparece ao lado do Gabushí. Ele trouxe as lanchas e
a escuna que estavam na Bahia Marina, para acabar o serviço de
manutenção aqui, na Marina Aratu. Acham pouca coincidência? Ao ver
o barco dos Hagge, ele disse o antigo nome dele e disse que ajudou a
colocar o mastro no veleiro! Conhece o Poesia, antigo dono e uma das
pessoas mais conhecidas no meio náutico na Bahia, de longa data e nos
contou uma engraçada história do “Poesia e o Papa”.
Os Hagge deixaram uma bela mensagem no nosso livro de visitas e
foi um momento emocionante para nós. Torcemos para que eles venham
nos visitar em Ilhabela. Tomara que eles consigam atingir seus sonhos,
inclusive o de viajarem e viverem num barco. Pelo que vi até agora, são
pessoas que definiram esse tipo de vida como meta e trabalham duro para
isso. A ligação entre nós tem crescido muito e eles se redobram em
atenção para tudo que possamos precisar.

21/08/2006 - Desmontei a retranca com as crianças e deixamos com uma


pessoa que iria fazer uma luva de aço inox para ela, pois a solda começou
a abrir novamente. Retornamos a Salvador, para pegar o documento do
rádio e soubemos que o Trawler Jade acabou de chegar na cidade. O
174
motor falhou algumas vezes no caminho.
Conhecemos o Reinaldo e a Bernadete, do veleiro Leoa Louca, de
Parati. O barco é um Velamar 45, muito espaçoso e seguro.

22/08/2006 - Nos disseram que o Denis, do programa Bahia Náutica,


estava nos procurando. Falei com a Flávia, editora do programa e
marcamos uma entrevista para as duas e meia. Voltei ao barco e
começamos a arrumá-lo, pois estava uma “zona”! No horário marcado, lá
estavam o Dênis e seu cinegrafista. A entrevista foi muito gostosa e acho
que ficou legal.
Saímos meio atrasados, para Aratu. O motor, que falhara na vinda,
se portou bem grande parte do caminho. Aí eu fiz a besteira: falei
baixinho ao ouvido do Jonas, que o motor estava ótimo (para o motor não
escutar!). O problema é que o motor tem um bom ouvido. Um minuto
depois, lá estava ele baixando de rotação novamente! Isso aconteceu
umas três vezes, uma delas quase parando o motor.
Chegamos ao Aratu Iate Clube de noite e foi difícil achar alguém
para nos receber. Depois de um tempo procurando, achamos o caíque,
com um funcionário que nos levou até uma poita. Arrumamos o barco e
descemos para conhecer o clube. Não havia praticamente ninguém, mas
conhecemos suas boas instalações e vimos informações da regata Aratu-
Maragogipe. Na lista de barcos inscritos, vários conhecidos.

23/08/2006 - Recebemos a retranca consertada e a montamos. Fiz a nossa


inscrição na regata e curtimos o dia de sol na piscina.
Numa volta pelo píer, achamos o famoso “Três Marias”, do Aleixo
Belov, que já fez três voltas ao mundo. Perto dele, o “Aleluia”, do Edson
de Deus, que fez uma circunavegação do Atlântico Norte em um ano, com
a esposa e filhas, viagem na qual eu me inspirei para montar a viagem
que estamos fazendo.
Retornando ao barco, eu estava cansado. Pouco depois eu estava
mal, completamente sem energia, com dor no corpo e dor de cabeça.
Deitei e dormi logo, achando que eu estava com febre.

24/08/2006 - Após uma noite bem ruim, na qual acho que tive febre e
delirei, acordei sem disposição e continuei na cama. Pela primeira vez na
viagem, eu queria estar na minha casa tranqüilo e com a empregada para
cuidar das coisas. As crianças fizeram o nosso café da manhã. Tomei
remédios e continuei na cama.
Três horas da tarde, as crianças foram até o clube brincar e eu
aproveitei para levantar um pouco. Mais disposto, troquei os filtros de
175
diesel para ver se resolvia o problema de falhas do motor e, quando
acabei, deitei novamente. Pouco tempo depois, as crianças voltaram e
fizeram o jantar. À noite, o Jonas assumiu meu lugar na leitura.

25/08/2006 - Acordei bem melhor e animado. Fiz a navegação para a


Aratu-Maragogipe e montamos toda a aparelhagem do balão, pois, se
houver oportunidade, pretendemos levantá-lo.
No clube, vimos a chegada dos velejadores, inclusive os lindos
saveiros de pena. Conhecemos o Antonio Lopes, que é sócio do Pindá Iate
Clube e veio no “Kaká-Maumau”, veleiro de Ilhabela, e dois velejadores
do barco “Pangea”. Um deles é paulista e muito divertido.
Começamos a encontrar conhecidos. Os primeiros foram os amigos
Edmar e Zezinho, de Ilhabela. Foi ótimo encontrá-los! Conversamos
bastante com eles, contando várias histórias da viagem. Eles me falaram
que as crianças mudaram bastante, coisa que eu não percebo muito, pela
convivência diária. Procuramos uma mesa para ficar e encontramos o
Torres, do Kanaloa. “Um dedo de prosa” e sentamos à mesa. Ao nosso
lado, havia uma mesa com duas moças conhecidas da Carol. Também
perto, outra moça e um rapaz de camisa verde. O rapaz levantou e veio
até nós: era o Valmir, do Fast 345 Radum, de Ilhabela! Ele é muito amigo
do Nelsinho e, apesar de eu já ter conversado com ele por telefone várias
vezes, nunca havia conseguido conhecê-lo pessoalmente. Muito
simpático, ele nos apresentou a namorada Mariana, que conheceu no
Cruzeiro Costa Leste. Conhecemos o Antônio e o Maguila, da escuna
Horizonte, e a Cristina, que velejou com o Dimitri na regata Vitória-
Trindade, todos muito simpáticos. Cumprimentamos o Aleixo Belov e o
comandante Miranda, da Capitania dos Portos, que também estavam no
coquetel. Em pouco tempo chegavam o Carlos e a Sandra do outro
Fandango, com o Bruno, que foi nosso tripulante em várias regatas em
Ilhabela. Encontramos o Alexandre e a Maria Alice, sempre muito
simpáticos e atenciosos.
Encerrada a reunião de comandantes, resolvi sair da mesa em que
estávamos e fomos para o local do churrasco. Lá, conhecemos o Hugo,
Gislaine e a Talita do Beduína e revimos o Rodrigo do Cavalo Marinho,
conhecendo sua esposa Márcia e filhos. O pessoal é muito simpático e,
como estamos todos na mesma situação, começando a viver a bordo,
trocamos experiências, falando de nosso modo de viver atual. Os Hagge
chegaram e formamos um grupo animado, com as crianças brincando e
os adultos em longas conversas, inclusive filosóficas. Falamos muito de
“valores”, não monetários, mas aqueles que anexamos dia-a-dia nas
nossas vidas, com as experiências que estamos tendo. Todos deveremos
176
voltar bem mudados de nossas respectivas viagens e sentimos que
estamos conseguindo encontrar o que viemos procurar, nesse nosso
modo de viver diferente e “marginal” (como diz o Rodrigo, com seu
sotaque mineiro, “- Marginal de à margem da sociedade de consumo, ‘bêêêêêêm’
na beiradinha!”).
Já era quase meia-noite quando fomos para o barco. Conhecemos
muita gente! Muita gente parecida, não na aparência ou no modo de se
vestir, mas na alegria, onde o sorriso no rosto é uma constante e a vontade
de ajudar está sempre presente. Enfim, gente de bem com a vida, essa
“tribo” de velejadores.
Chegando no barco, mesmo cansados e com sono, a primeira coisa
que fizemos foi colar no livro de visitas, uma foto que os Hagge nos
trouxeram e um presente do Victor: a história de como ele nos conheceu!
Da história, tomo a liberdade de transcrever o final: “Se vocês (Sérgio,
Jonas e Carol) estiverem lendo essa história, saibam que vocês são meus
melhores amigos, e que nunca esquecerei vocês. Com carinho, do amigo
Victor”. Nós também nunca o esqueceremos, Victor, e esperamos nos
encontrar muitas e muitas vezes!

26/08/2006 - Hoje é dia de festa e regata! Fomos para a raia ver a largada
da primeira bateria, onde escunas e saveiros dariam o show. O dia estava
lindo e prometia vento e sol.
A primeira largada foi muito bonita e vimos os barcos desfilarem
na frente da ilha de Maré. Esperamos treinando e vimos a largada da
segunda bateria, um pouco mais concorrida, às onze horas.
Não vimos o barco dos Hagge e ficamos preocupados, mas com
quase duzentos barcos na raia, não era fácil achar os barcos. Estávamos
nos preparando para nossa largada, quando vimos os Hagge chegando à
reboque. O motor esquentou de novo! Eles largaram atrasados, mas
seguiram em direção a Maragogipe, num bom vento.
Preparamo-nos para nossa primeira regata, apenas os três, largando
muito bem e fora da confusão. A primeira perna foi de contravento forte,
mas tivemos que fazer apenas dois bordos. Chegando na primeira bóia,
arribamos para a entrada do canal que dá para Maragogipe, mas não
levantamos balão. O vento estava muito forte e, se houvesse algum
problema com o balão, não teríamos mãos suficientes para arriá-lo. Vários
barcos o levantaram. Alguns sabiam usá-lo. Outros atravessavam,
colocavam-no para “pescar” e faziam outras trapalhadas.
Seguimos as marcas do percurso, mas nem todos o fizeram. Isso é
assim mesmo: em regatas festivas nem todos cumprem as regras direito.
Com medo de não chegar, alguns não contornam marcas ou ligam
177
motores, mas, mesmo assim, cruzam a linha de chegada! Isso não tirou o
brilho da festa, que foi muito bonita, apesar de alguns comandantes
ficarem estressados no rádio. Noronha é a mesma coisa. No meio da noite,
muitas embarcações ligam o “vento de porão” para chegar mais rápido.
Lembro que, em 2002, um barco ganhou o terceiro lugar, mas foi
“reclassificado”, porque um dos tripulantes não achou justo e contou que
o comandante ligou o motor boa parte do tempo.
Subimos o canal para Maragogipe, que é lindíssimo. Muitas praias
bonitas, mar liso, muita vegetação e história. Vimos um forte, numa curva
do rio que, sozinho, segurou uma esquadra portuguesa inteira na luta
pela independência. Passamos pelos lugares onde João das Botas, com
rápidos e leves saveiros, atacou as naus portuguesas que, sem
mobilidade, eram alvos fáceis. Nós também, leves e ágeis subíamos o rio
com pouco vento, ultrapassando vários barcos. Passamos os Hagge perto
da linha de chegada. Cruzamos a linha passava das cinco da tarde e
voltamos para rebocá-los, após eles cruzarem a linha.
Arrumamos um lugar para ancorar em frente ao píer, no meio de
trezentos barcos, entre lanchas e veleiros. Nossa âncora não quis segurar
de jeito nenhum. Amarramos a contra-bordo do Gabushí e, com duas
âncoras, ficamos firmes. A maré começou a virar e vimos um bloco, com
uma grande escuna e umas sete lanchas amarradas ao lado dela, vindo
para cima de nós. A lancha mais externa passou raspando e tivemos sorte,
coisa que faltou a um Fast 310, perto de nós. O bloco foi para cima dele e
não sei como se safou, mas quando olhei já estava tudo resolvido.
Chamamos um barquinho de transporte, que pegou a todos nós.
Afastamos de nossos barcos e, logo, o barquinho passava embaixo de
uma lancha, quase enroscando no cabo da âncora dela. Bem, “- Foi uma
pequena distração do timoneiro”, pensei. Não passou um minuto e meio e,
novamente, ele estava embaixo de outra lancha, só que desta vez não teve
sorte: enroscou o leme no cabo dela. Comecei a ficar preocupado. Soltou,
mas logo depois foi de encontro a uma canoa a remo, com dois
pescadores. Não parou e não desviou até bater nela! Mas fiquei
preocupado mesmo, quando vi algo chapinhando na água e o barco indo
direto para cima daquilo sem desviar. Ele passou a menos de meio metro
de um nadador, ao lado de uma lancha! Vocês acham que estávamos
passivos a isso tudo? Não! Todos avisávamos, apontávamos e
iluminávamos com uma lanterna potente, mas o cara, ou era cego ou
estava fazendo de propósito. Quando chegamos foi um alívio! O
timoneiro foi o primeiro a pular do barco e sumir!
Comemos, bebemos e demos uma volta pela cidade. Era a festa do
padroeiro e havia muita gente e muitos tipos de música tocando. Subimos
178
até a Igreja Matriz, muito bonita, onde se realizava uma missa. Passamos
num parque de diversões e voltamos ao píer, admirando as casas, que já
identifico como típicas das pequenas cidades baianas.
Chegamos no começo da premiação, mas, enquanto eu procurava
os resultados, um maluco soltou fogos bem em cima do pessoal. Retornei
e todos estavam traumatizados com o susto, barulho e pequenas
queimaduras. O maluco voltou com outro foguete e, protestando, quando
o mandaram para longe, soltou-o novamente, sobre a cabeça de outros,
ao lado do palanque! Resolvemos voltar para a segurança e tranqüilidade
do barco.
Subimos em outra lanchinha, que nos obrigou a entrar no mangue
para subir e queria ir embora deixando metade da tripulação em terra,
mesmo havendo muito espaço. Só parou depois de uns berros meus, que
já havia perdido a paciência de vez!
No barco, conversamos um pouco sobre a velejada e as aventuras
do dia. Mesmo com todas as confusões, valeu!

27/08/2006 - Recolhemos as âncoras e começar a descer a correnteza,


retornando para Aratu. Rebocávamos o Gabushí pela popa e o André foi
no Fandango. Os simpáticos velejadores do “Pangea” passaram por nós
e jogaram dois pacotes de M&M’s para as crianças! O André me mostrava
os lugares legais para visitar e ancorar da região. O vento não aparecia e
atravessamos a Baia de Todos os Santos a motor. Quando chegamos perto
da bóia de entrada do canal para Aratu, o vento entrou gostoso e
levantamos as velas. O Gabushí quis velejar sozinho: estourou o cabo de
reboque e saiu navegando, bonito! O André viu, pela primeira vez, o seu
barco velejando “de fora”.
Chegamos na Ilha de Maré e paramos para conhecê-la. Descemos,
andamos pela ilha e tomamos cocos. Na hora de ir embora, eu quase
provoco um acidente. Primeiro, ao me aproximar rápido demais para
passar o cabo de reboque, com os barcos quase batendo e, depois, com o
cabo que não agüentou o tranco da velocidade e estourou. Girei
novamente, passei outro cabo, desta vez devagar, e tudo correu bem.
Entramos no canal e antes do final da tarde estávamos na Marina
Aratu. Despedimos dos Hagge e encontramos o Alexandre e a Maria
Alice na linda escuna verde, onde correram a regata.
Pegamos, na portaria da marina, um lindo presente, que o Carlão e
a Sandra deixaram para a Carol: três novos biquínis, que ela adorou!
28/08/2006 - Pegamos um vento de través delicioso até Itaparica. Nos
revezamos no leme, apostando quem fazia o Fandango atingir a maior
velocidade no percurso. O campeão foi o Jonas, com 8,5 nós! O dia estava
179
maravilhoso. Muito sol e um vento ótimo para velejar, como sempre
acontece nesta baía maravilhosa.
Chegamos em Itaparica eram quatro da tarde e conhecemos uma
pessoa da qual já havíamos escutado falar muito: o Luís Poesia!
Realmente, ele é a simpatia que todos falam!
Fomos para a praia para tomar um banho de mar e curtir o pôr-do-
sol. Quando retornávamos ao barco, conhecemos a Sandra, que está
viajando com o Poesia. A incrível coincidência é que ela é irmã do
Marcelo, do Rio de Janeiro, que nos convidou para ficar no Iate Clube do
Rio de Janeiro! Êta mundo pequeno!

29/08/2006 - Aproveitamos para abastecer: enchemos 46 garrafas com a


água mineral do píer! Nos despedimos do Poesia e largamos as amarras.
No CENAB, nos arrumaram uma vaga perto do Cavalo Marinho,
Beduína e Radum e as crianças foram brincar com a Talita, Nick e Rafinha.
Bati um papo com o pessoal e fui ao mercado sozinho, pois minha
tripulação me abandonou, preferindo brincar. Tomamos sorvetes com o
Rodrigo, o Nick e o Rafinha e passeamos pelo Pelourinho.
Paramos para ver o conjunto de percussão infantil da Didá. O
Rodrigo se surpreendeu ao ver as crianças tocando, pois, quando nos
aproximamos, o som parecia ser de adultos. As crianças tocam bem!

30/08/2006 - Liguei para o Dadi, do Trawler Jade, e ele veio nos visitar.
Apresentei-o ao Hugo e ao Rodrigo, pois todos vão para o Caribe. Eles
ficaram me “tentando” a ir também! Enquanto isso, as crianças brincaram
muito com o Nick e a Talita. Amanhã seguiremos viagem.
Patrícia veio se despedir de nós e prometemos ligar na volta. Os
Hagge chegaram para as despedidas cheios de presentes, inclusive
comida para a nossa travessia! Gentileza é o que não falta neles! Levaram-
nos para um restaurante chamado “Centola”, onde comi caranguejos e
lambretas pela primeira vez. São ótimos! Eu já havia comido patinhas de
caranguejo e muitos siris na minha vida, mas acho o caranguejo inteiro
melhor.

31/08/2006 - Durante a noite balançou um bocado! Acordei com um tranco


forte e levantei rapidamente. O suporte de motor de popa havia sido
esmagado contra o píer! Cacei o cabo de proa e voltei a dormir.
Acordei cedo, com muito balanço ainda. Um dos cabos de popa
havia arrebentado também. Troquei-o por um bem mais grosso. Comecei
a arrumar tudo para sair. Peguei a previsão de tempo e vi que o mar está
grosso, devendo melhorar amanhã, com o vento caindo de 25 para 15 nós.
180
O André Hagge me ligou, preocupado, avisando que estava vendo o mar
e que estava muito grosso. Como o Jonas também está meio gripado,
deixamos a saída para amanhã.
As crianças brincaram com os amigos do Beduína e do Cavalo
Marinho e recebemos a visita do Valmir e da Mariana, que deixaram
mensagens em nosso livro de visitas. O tempo melhorou e, no final da
tarde, a ondulação já era bem menor e o vento havia caído.
Comemos cachorros-quentes no Cavalo Marinho e ficamos sabendo
mais de nossos novos amigos, que estão realizando sonhos parecidos com
o nosso. As crianças se identificaram muito e nós, adultos, também. Eles
tentaram me convencer de novo a ir para o Caribe, mas acho que para nós
não dá (ainda!).
Após uma noite gostosa, com bom papo e muitas risadas, fui
dormir sozinho no Fandango, pois o Jonas, já bem melhor, ficou no
Cavalo Marinho e a Carol foi para o Beduína, com a Talita.

181
24
Maceió das Alagoas

01/09/2006 - Acordei cedo, com o dia nublado e arrumei as coisas para a


partida. Passei no Cavalo Marinho e no Beduína para chamar as crianças,
que ainda dormiam. Fechamos as gaiutas e pegamos as roupas de tempo
e cintos de segurança. Estava difícil sair daquele porto! Salvador vai ficar
em nossos corações. As crianças falaram que era sexta-feira (dizem que
não se deve começar grandes viagens numa sexta, lembram?) e que era
melhor deixar para sair amanhã, mas preferi entender que era nossa
continuação da viagem. Liguei o motor e...!!! Não circulava água de
refrigeração! Puxa, até o Fandango estava se recusando a sair! Motim
total? A praga da sexta-feira já começava? Sabotagem da tripulação?!!!
Troquei o rotor de bomba d’água e a água começou a circular bem. Antes
que acontecesse mais alguma coisa, com a tripulação “de bico”, pois não
queriam deixar os amigos que estavam no píer para soltar nossas
amarras, zarpamos!
Deixamos para trás o CENAB, Forte São Marcelo e os grandes
prédios e pequenas casas coloridas, que são o retrato fiel de Salvador.
Seguimos para a barra, onde passamos entre o perigoso banco de Santo
Antonio e a costa. Vimos, do mar, os lugares pelos quais passamos em
terra: Barra, Farol da Barra, Rio Vermelho, Abaeté e Itapuã.
A saída da barra não foi fácil. O mar estava alto e jogava muito o
barco. Ainda bem que não tentamos sair ontem! Certamente teríamos
retornado. Nos afastamos da costa com muitas ondas balançando o barco
e nós, orçando num vento fraco, usávamos o motor. Duas horas depois,
entrou um vento gostoso e o desligamos.
De tarde, o sol abriu de verdade e o vento girou para través, a
melhor direção para nós. O Fandango velejava muito bem e, no través de
Itapuã, cruzamos com algumas baleias tímidas, que se mantiveram
distantes. Comemos a torta que os Hagge nos deram. É ótimo ter alguma
coisa já pronta para comer em travessias!
A Carol assumiu e dormi um pouco. No começo da noite, assumi o
meu longo turno. Uma meia lua nos acompanhou metade da noite,
iluminando nosso caminho. Quando ela sumiu, deixou o céu todo
estrelado, com estrelas cadentes riscando-o constantemente. O vento
continuou excelente, em torno de quinze nós pelo través. Estávamos com
todo o pano e andando muito. Eu me surpreendia toda vez que ligava o
182
GPS, com surfadas de quase dez nós. Quando fazia navegação, a média
de quase todas as pernas era sete nós e meio, nunca abaixando de sete.
“Voamos baixo” a noite toda, mas confortavelmente, sem mar nos
chacoalhando.

Fazíamos nossa navegação de uma forma muito simples. Antes de


sair, estudávamos as cartas, traçávamos as rotas e colocávamos todos os
waypoint’s no GPS. Quando estávamos saindo ou entrando em um porto,
o GPS ia ligado e nós acompanhávamos a rota dele, conferindo tudo
visualmente. Quando estávamos longe de terra, o GPS era desligado. Em
intervalos de duas ou três horas, eu ligava o GPS, plotava nossa posição
na carta, corrigia o piloto automático se necessário e o desligava. Dessa
forma, não corríamos riscos, as pilhas duravam muito e, se houvesse
algum problema com nossos dois GPS’s, poderíamos continuar com a
navegação estimada, pois tínhamos nossa última posição e nossa
velocidade média em cada trecho anterior. Simples e seguro!

02/09/2006 - Após uma noite de velejada tranqüila, chamei a Carol para


assumir o turno da manhã, quando o sol se levantava. Durante a noite, eu
fico aguardando ansiosamente o começo do dia, para poder dormir. O dia
amanheceu bonito e entrei para a cabine. Dormi uma hora e meia e
acordei com o Jonas me chamando, pois o vento havia acabado. Ligamos
o motor e continuamos navegando.
Às nove, levantei novamente e ficamos impressionados com a cor
do mar. O “azul profundo do mar” ou “Moana”, como os polinésios o
chamam, nos cercava. Fiz a navegação e vi que a profundidade no local
era de 1.880 metros. Paramos o barco, pegamos nossas máscaras e
entramos na água, um de cada vez. É impressionante! O barco parecia
levitar e nós víamos os raios de luz do sol entrarem na água, em fachos, e
se perderem no azul infinito! A água estava quente.
Após esse gostoso banho de mar, as crianças ficaram mais dispostas
e aquela preguiça inicial de travessias se foi. O Jonas pegou o livro de
ciências dele e veio me mostrar um texto falando desse tom azul de água
e o seu porquê. Gostaria de saber quantas crianças, das milhares que
usam esse livro, tiveram a chance de ver pessoalmente esse fenômeno e
constatar o seu motivo!
Coloquei a vara com a isca para corrico e voltei para dormir mais
um pouco. Acordei com o Jonas gritando, pois, finalmente, fisgamos um
peixe no corrico! Desaceleramos o motor, peguei a vara e fui puxando
com cuidado. Após muito esforço, vimos a linda silhueta azul e dourada
de um grande dourado, que estava preso à nossa linha. Devia ter uns
183
quatro ou cinco quilos. Trabalhei o peixe até encostá-lo no barco. Ainda
briguei mais uns quinze minutos com ele, vendo-o direitinho na água
transparente. Quando o Jonas pegou o puçá para embarcá-lo, ele tentou
pegá-lo pela frente e não por trás. O anzol enroscou no puçá, o peixe deu
um tranco assustado, arrebentou o anzol e foi-se embora! Da próxima vez,
vou pegar o arpão e dar um tiro no peixe quando ele estiver próximo,
para evitar a perda! Consolamos o Jonas, que queria comer peixe fresco e
seguimos viagem.
Às duas horas da tarde, o vento entrou novamente. Velejamos a
todo o pano, mas, no início da noite, diminuímos as velas, para não
chegarmos de noite em Maceió. Mesmo com a mestra no segundo rizo e
a genoa muito enrolada, velejávamos rapidamente.

03/09/2006 - Tive muito sono à uma da manhã e chamei o Jonas, que


assumiu meu turno. Quando velejamos à noite, todos ficam com o cinto
de segurança atado. Confirmei se o Jonas prendeu seu cinto devidamente
e fui dormir, com a recomendação de ele não soltar o cinto sem me
chamar. Acordei com o meu despertador tocando, uma hora depois, e
voltei ao turno. Estávamos aterrando e, pouco depois, comecei a ver
alguns barcos de pesca. Como fizemos a travessia com mais de mil metros
de profundidade, não encontramos barcos de pesca até aqui. Apenas
poucos navios passaram por nós, sempre muito fáceis de visualizar. Em
profundidades de 50 a 60 metros, os barcos pesqueiros reapareceram,
pequenos e com suas luzes muito fracas.
O vento continuava bom, mas a velocidade do barco já estava
compatível para chegarmos de dia em Maceió. Às cinco da manhã, com o
dia nascendo, o vento acabou. Víamos toda a cidade bem à nossa frente.
Liguei o motor e nos aproximamos com o auxílio do GPS, reconhecendo
o litoral com o uso da carta náutica. Meia hora depois pegávamos uma
poita. Chegamos e, após quarenta e cinco horas de navegação, sendo nove
a motor e trinta e seis velejando magnificamente bem, confirmamos que
o “azar” de zarpar numa sexta-feira não acontece em continuações de
viagem (ufa!)!
Dormi mais um pouco e liguei para a Capitania dos Portos, que nos
esperava apenas no final da tarde, para avisar da nossa chegada. Também
avisei a Federação de Vela Alagoana e liguei para o Bira, que auxilia todos
os velejadores de passagem por Maceió. O seu sobrinho, Bruno, veio nos
buscar e, quando chegamos em terra, nossas amigas Simone e Laura nos
esperavam.
Fazia muito tempo que não as víamos e foi ótimo rever a Laura, que
cresceu muito e está um “xerox” da mãe. Matamos saudades, contamos
184
novidades, falamos dos amigos e parentes e fomos passear. Elas nos
levaram para a hípica (a Laura é louca por cavalos e pratica saltos) e
depois fomos para a Praia do Francês. Vimos as lagoas que geraram o
nome “Alagoas” e tomamos um banho de mar na bela praia.
Maceió é uma bela cidade e as praias que ficam perto da cidade são
bonitas e limpas. A exceção é feita ao cantinho onde desembarcamos, pois
todo o lixo da cidade parecia estar concentrado ali. É incrível que, aquele
pedaço, ao lado do principal iate clube da cidade, tenha sido esquecido
pelo pessoal de limpeza pública. O porto também não é muito bonito,
mas o resto da cidade compensa muito! Comemos pizzas e retornamos
ao iate clube. Despedimos de nossas queridas amigas. Mesmo depois de
tanto tempo sem vê-las, tive a impressão que o tempo não passou, pois a
amizade é forte.

04/09/2006 - Dormimos bastante, até o calor do dia nos acordar. Nos


apresentamos na secretaria da federação e eles foram muito gentis
conosco, não nos cobrando diárias da poita.
Após o banho, fizemos uma visita à Capitania dos Portos de
Alagoas. Fomos recebidos pelo sub-oficial Brito, que nos mostrou toda a
Capitania, um prédio de 1955, muito bonito e muitíssimo bem
conservado. Conhecemos o gentil Capitão-dos-Portos Henrique Tadeu
dos Santos. Conversamos muito sobre nossa viagem e agradecemos a
ajuda prestada, de acompanhar nossa saída e chegada. É muito bom ver
Capitães-dos-Portos jovens, cheios de energia e atuantes, como tem
acontecido em todos os portos onde paramos.
Na federação nos esperava o João Sombra, do veleiro Guardian. Foi
bom revê-lo! Conversamos bastante e, tomando cervejas e refrigerantes,
escutamos suas histórias sobre os maravilhosos lugares por onde ele
passou. João nos presenteou com seu último livro “Conversando com o
Guardian” e o Jonas começou a ler. Desta vez, as crianças tinham uma
surpresa para ele: mágicas! As crianças fizeram várias e ele aproveitou
para fazer algumas também.
O Bira nos levou de volta para o barco. Agradecemos a atenção que
ele nos deu e fomos dormir, ainda cansados da última travessia. Amanhã
pretendemos seguir para Recife.

185
25
Amizades Reforçadas

05/09/2006 - Acordei cedo. É sempre assim em dias de travessia: o sono


foge! Arrumamos o barco para seguir viagem e aguardamos um pouco,
pois o vento estava forte de nordeste. Saímos faltando quinze minutos
para onze horas. O Bira entrou no rádio e nos desejou boa viagem.
Soltamos a poita e, assim que viramos o barco, já desligamos o motor,
pois o vento nos empurrava forte.
Quando contornamos a entrada do porto, para seguir nosso rumo
previsto, o vento ficou quase na cara e fomos em direção ao mar alto, nos
afastando da costa, em rumo perpendicular a ela. Quando nos afastamos
o suficiente, após duas horas e meia de velejada, demos um bordo para
começar a avançar em direção a Recife. O vento forte e a correnteza, não
permitiam que avançássemos quase nada.
Vimos duas baleias bem em frente a Maceió e o que é mais incrível:
duas jubartes! Que legal que elas estão subindo até aqui.
Continuamos em orça apertada, com a mestra rizada e o
anemômetro marcando vinte nós! Estava desconfortável e avançávamos
pouco. Entrei para descansar, me preparando para o longo turno da noite.
Senti o barco ficar menos inclinado e perguntei para as crianças como
estava o vento. Elas disseram que mudara e, quando saí, vi o que a
previsão tinha prometido: o vento girara para leste, favorecendo nosso
avanço. Giramos vinte graus e seguimos paralelamente à costa.
No final da tarde, o vento e as ondas diminuíram, sobrando apenas
pequenas ondas curtas. Anoiteceu e uma lua linda, quase totalmente
cheia, acompanhou a nossa noite de viagem. Com o vento gostoso, o
tempo quente e a noite estrelada e enluarada, avançávamos. Não
conseguimos nos afastar da costa tanto quanto eu queria, para fugir dos
barcos de pesca. Mesmo assim, os que vimos estavam bem iluminados e
a noite clara e mar liso nos ajudavam a vê-los. Como é bom e confortável
velejar à noite no nordeste do país!

06/09/2006 - A noite foi muito tranqüila e o avanço todo à vela. Quando


amanheceu, fiz a navegação e chamei a Carol. Ela estava disposta e
assumiu o comando, para eu dormir. O Jonas acordou e ficou com ela.

186
Às sete, o vento diminuiu muito e girou, ficando fraco pela popa.
Ligamos o motor, pois eu escutara no rádio uma chamada geral, feita pela
rádio Maceió, falando de ventos muito fortes na próxima noite.
Vários navios passaram perto de nós e nos aproximamos da costa.
Quando estávamos bem perto de Recife, outra surpresa: duas jubartes ao
lado da cidade! Entrando no porto protegido, vi dois golfinhos nadando
na água turva, bem ao lado do farolete de boreste.
Entramos no porto e passamos pelos navios, pelas docas e pelas
esculturas de Brennand. Demos a sorte de chegar no ponto mais alto da
maré enchente, permitindo que entrássemos diretamente para o
Cabanga, sem esperar ancorados no porto pela subida dela.
Procuramos as balizas e entramos devagar, sem problemas. No
clube, o senhor Hélio nos recebeu e nos colocou numa vaga. Enquanto eu
arrumava o barco, as crianças fizeram o almoço. Nesta travessia, de orça
e mar agitado, comemos apenas frutas, bolachas e chocolates.
Remamos os quarenta metros que nos separavam da rampa do
clube e comecei a mostrá-lo para as crianças, que estavam ansiosas para
conhecê-lo. Passamos ao lado de uma piscina infantil. Eles falaram: “- É
essa a grande piscina do Cabanga que tinham falado, Pai?”, com cara de
decepção. Eu disse, disfarçando, que sim.
Vi um barco conhecido fora da água: o Nativo, que foi de um
conhecido nosso, o Beto de Ilhabela. De cima do barco me chamam. Era o
sobrinho do Beto, que administrou uma marina onde o Fandango ficava.
Reconheci no “mascarado”, que fazia um trabalho com resina no barco, o
Jorge. Contei sobre nossa viagem e continuamos nosso “tour”.
Chegamos na frente do clube, onde um suspiro de alívio e satisfação
partiu das crianças: viram a belíssima e grande piscina! Enquanto eu fui
na secretaria, para dar entrada do barco, eles foram para a água. Quando
voltei, tomei uma ducha e mergulhei! É muito bom, depois de uma
travessia, água doce em abundância! Brincamos, eles fizeram alguns
amigos e fomos tomar um banho de verdade. A água do chuveiro, apesar
de não ser aquecida, era morna, deliciosa. O mesmo acontecia na ducha
de fora e na piscina. Santo Nordeste!
Quando retornamos ao barco, deixamos o cansaço dominar e
dormimos satisfeitos. Estávamos em Recife, atravessamos vários estados
na última semana e nossa próxima grande travessia seria para um dos
lugares mais lindos do mundo: Fernando de Noronha!

07/09/2006 - Pegamos um ônibus para buscar a Lu no aeroporto, que


chegava para nos visitar. O ônibus passou pelo centro velho, aonde vimos
algumas construções interessantes, além das antigas pontes e um bonito
187
forte. O ônibus fez o retorno e seguiu paralelo à praia de Boa Viagem. Um
surfista entrou no ônibus com sua prancha. Não sei como ele tem coragem
de surfar lá, com tantos ataques de tubarão!

09/09/2006 - Resolvemos ir à praia de Boa Viagem. A praia é bonita! Havia


muita gente na areia e dentro da água. Apesar dos avisos sobre tubarões,
como a maré estava baixa e os recifes represaram água do mar em
piscinas, entramos nelas, nos sentindo seguros.
Retornamos ao clube e vimos pescadores descarregando o barco.
Todos estávamos admirando os grandes peixes, quando o galho, onde
eles estavam amarrados, quebrou. Um dos pescadores levou uma
pancada na cabeça e o sangue começou a jorrar. Ainda bem que foi
superficial e, após três pontos na cabeça, tudo voltou ao normal.

10/09/2006 – Comemoramos os nove meses de viagem comendo tapiocas


na praça da Boa Viagem, onde há uma feirinha com coisas gostosas.

11/09/2006 - Resolvemos conhecer Porto de Galinhas. Só não fizemos o


programa corretamente. Saímos tarde, demoramos quarenta minutos no
ponto de ônibus e mais duas horas viajando. Mas valeu a pena! O lugar
belíssimo! Lembra a praia do Forte, com seus recifes próximos à praia e
várias piscinas naturais. Quando nos preparávamos para mergulhar,
despencou a maior chuva, encharcando tudo. Aproveitamos a praia e
fomos até um restaurante muito fresco, chamado Peixe na Telha. Queriam
cobrar até a água para nós, clientes, tirarmos a areia dos pés. E ainda
teríamos que comer o que eles quisessem, pois não podíamos mudar
acompanhamentos dos pratos! Absurdo! Saímos e fomos num outro,
muito bom, bem na frente do mar. Fizemos a comemoração do
aniversário da Lu em grande estilo. Praia e boa comida!

12/09/2006 - Acordei às quatro e meia da manhã para levar a Lu no


aeroporto (chuiff!). Voltei para o Cabanga de ônibus e fui lavar roupas.
Como a grana está curta e a lavanderia é longe, peguei baldes de água e
comecei a lavá-las. O duro é que a torneira é longe do “Fandas”. Os
“vizinhos” emprestaram a mangueira, o que facilitou o trabalho.
À tarde, visitamos a Capitania dos Portos de Pernambuco e
conhecemos o Capitão-dos-Portos. Como estávamos no centro, passamos
no Marco Zero de Pernambuco e vimos os vários prédios antigos do
centro velho.
Aproveitei para imprimir documentos para a vistoria da Marinha,
obrigatória para a regata, que pretendo fazer amanhã. O pessoal da
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secretaria do Cabanga é muito simpático e nos auxilia em tudo que
precisamos. Estou surpreso com a organização e eficiência deles.

13/09/2006 - Arrumamos o Fandango para a vistoria da Marinha. Os dois


responsáveis pela vistoria foram muito simpáticos e fizeram-na
rapidamente. O sargento, quando soube que morávamos no barco,
gentilmente, ficou preocupado com as crianças. Questionou assim: “- O
que vai ser dessas crianças com uma vida destas? Jonas, o que você vai querer ser
na vida?”, ao que o Jonas respondeu imediatamente: “- Quero ser
engenheiro naval!”. A Carol emendou: “- Quero ser bióloga marinha ou
veterinária!”. O sargento, surpreso pela rapidez e adequação da resposta
com a nossa vida atual, só pode responder: “- Ahhhh, então tá!”.
Apareceram duas moças da ANVISA para fazer a vistoria do barco.
Ficamos uma hora com elas, entre vistoria e bate-papo, e resolvemos mais
esta obrigação para a Refeno.

Muitas pessoas, quando éramos apresentados, tinham uma


primeira impressão de “inconseqüência” sobre nós e só a perdiam
(completamente ou em parte!) após nos conhecer melhor. Quando
começávamos a contar nossa história de vida, os lugares pelos quais
passáramos e as crianças entravam na conversa demonstrando educação,
vivacidade, maturidade, conhecimento e inteligência, normalmente eu
via uma mudança para “admiração”. Talvez percebessem que nossa vida
“diferente” só somava coisas boas à vida normal. Não abandonamos
estudo, trabalho, relações familiares, amorosas e de amizades, mas os
cultivamos de um modo mais agradável e fortalecemos cada vez mais o
relacionamento entre nós: pai e filhos. Não éramos inconseqüentes que
deixaram tudo para trás. Éramos companheiros de viagem que
somávamos, a cada dia, conhecimentos, amizades e experiências.

14/09/2006 - O Márcio, um grande amigo, que será nosso tripulante na


Refeno, chegou às três da manhã. Conversamos no cockpit até
amanhecer, contando as novidades. As crianças acordaram e vieram
conversar conosco. Ganhamos dele uma máquina fotográfica, para
substituir a nossa, que “abriu o bico”. Tomamos um bom café da manhã
e fomos para a piscina do clube para tomar os excelentes cocos daqui.
Passeamos em Olinda, onde comemos tapiocas na barraca da dona Tânia.
Voltamos ao clube e fomos para o barzinho tomar cervejas (fazia muito
tempo que eu não tomava três latinhas no mesmo dia e acabei ficando
tonto!), enquanto as crianças brincavam, com o último veleirinho de
sucata do “projetista naval” Jonas, na piscina.

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15/09/2006 - Fomos ao “palhoção”, bar onde se reúnem os velejadores,
para aguardar a assessora de imprensa do Cabanga. Ela chegou com a
equipe da Rede Globo (desta vez, não nos expulsariam!). No barco, eles
nos filmaram e entrevistaram para um programa que passará no
domingo. Ficamos duas horas com eles e acho que a matéria ficou legal.
Quando deixamos o pessoal da Globo no píer, apareceu um
jornalista do Jornal do Comércio. Lá fomos nós para o barco, repetir nossa
história para ele. Após uma hora e meia com ele, quando o deixamos no
píer, apareceram mais um repórter e um fotógrafo, de outro jornal.
Conversamos no “palhoção”, para deixar o sol abaixar, e lá fomos nós
outra vez para o barco, repetir as mesmas histórias, já cansados de repeti-
las. Acabamos a entrevista e fomos para a piscina.
Retornando ao barco, encontramos os amigos do Nativo. Convidei-
os para conhecer o Fandango e ficamos conversando até a meia-noite,
contando e escutando histórias divertidas.

17/09/2006 - Os barcos do rali de Salvador-Recife começaram a chegar. Ao


nosso lado, ficou o Radum, do Valmir. Conhecemos o pessoal do veleiro
Tess, canadenses que estão viajando com os filhos e também o Serginho
de Itacaré, que velejou com o amigo Mauro, de Guarapari.
Voltamos ao Fandango eram onze horas da noite. A tripulação do
“Radum” nos convidou para tomar cervejas e comer pipocas (ou
“pochoclo”, como um amigo argentino ensinou às crianças), até passar a
matéria na Globo. Ficou bonita! Foi engraçado nos ver na “telinha”.

18/09/2006 - As crianças estavam ansiosas, pois sabiam que o Beduína e o


Cavalo-Marinho haviam chegado e estavam para entrar no clube. No
começo da tarde eles apareceram. Logo estávamos todos juntos, falando
de nossas travessias e curtindo a piscina e o toboágua. Só o Jonas não
queria descer (ele é meio “travado” para algumas coisas de “ação”). Carol
foi convidada para dormir no Beduína e não recusou!

19/09/2006 - Saí com o Márcio para comprar alguns filtros, deixando as


crianças brincando com os amigos do Beduína e Cavalo-Marinho.
Retornando ao clube, tive o prazer de ver que o Jonas vencera o
medo e que descia no toboágua. O Hugo veio me chamar, dizendo que a
Carol havia machucado a boca. Corri até a enfermaria e lá estava ela, com
um buraquinho lábio! Ela estava na piscina, foi girar perto da borda e
bateu a boca. Agradecemos o atendimento da enfermaria e a atenção da
Gislaine, do Beduína, que estava “de olho” e socorreu a Carol.
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Voltei para a piscina e aproveitei o toboágua também, pois o Jonas
estava louco para descer comigo! No final da tarde, as crianças fizeram
uma regata de barcos de sucata.
À noite, fomos todos para o Beduína, onde juntamos as comidas e
jantamos. Conversamos sobre vida, barcos e informática até tarde. Tive o
prazer de conhecer o interior do “Beduína” (lindo, espaçoso e
confortável!) e o incrível Plânkton, um Vini 42 pés, do Fabinho, barco de
alumínio extremamente robusto, mas com uma área vélica enorme! O
Plânkton tem um conceito diferente e inteligente, onde a simplicidade
impera sem perder o conforto. Brinquei com as crianças dizendo que o
Fabinho queria trocar o Plânkton pelo Fandanguinho e a resposta das
crianças foi “- Não!”. Isso é que é tripulação fiel ao nosso querido
“Fandas”!!! A Carol nos abandonou e dormiu no Beduína, com a Talita.

20/09/2006 - No final da tarde, a Sílvia, uma amiga nossa de São Paulo,


que é natural de Recife, apareceu para nos visitar. Por coincidência (isso
existe?), ela encontrou uma moça com quem trabalhou algum tempo: a
Cecília, esposa do Fabinho, do Plânkton!!! Houve um churrasco e, no final
dele, bolos para comemorar o aniversário do Hugo, do Beduína! Após os
parabéns, deram um jeito de jogá-lo na piscina! As “crianças” (algumas
com mais de trinta anos!) fizeram regatas com seus barcos de sucata. O
Jonas ganhou a série e ficou todo contente. A premiação aconteceu e o
primeiro prêmio foi um pedaço de bolo do aniversário!

21/09/2006 - O Edu, nosso amigo e tripulante para a Refeno, chegou.


Conhecemos a simpática Tânia, que está a passeio em Recife e irá
para Noronha. Tomamos nosso banho e fomos para o jantar da regata.
Foi ótimo e conversamos com os amigos dos outros veleiros até tarde.
Antes de dormir, li as instruções de regata. O tempo está passando e a
ansiedade aumentando. Já estamos todos em clima de largada!

22/09/2006 - Acordamos e fomos direto para o mercado comprar as


últimas coisas. Riscamos cada item, da longa lista de pendências.
Voltamos para o barco, carregamos tudo e organizamos as coisas.
Fui para a reunião de comandantes. Nela, proibições e mais
proibições, além das instruções úteis sobre a regata. O Márcio comprou
duas garrafas de pinga para dar de presente e, uma delas, quebrou no
píer. Foi o “presente” para Iemanjá, para dar sorte na viagem.

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26
Noronha – Paraíso na Terra

23/09/2006 - Dia de largada de Refeno! Acordamos com o dia raiando.


Levamos o barco para fora do clube, aproveitando a maré alta.
Ancoramos perto da linha de largada e arrumamos tudo para a regata,
aguardando ansiosos. Dez e meia da manhã, levantamos âncora e fomos
para a linha. Passamos em frente ao Marco Zero, fazendo o “check in”, e
aguardamos o sinal de partida, que foi dado às onze horas. Largamos bem
e saímos do porto devagar, com um vento fraco com rajadas.
Quando chegamos na saída do porto, olhamos para cima e vimos a
mestra rasgada a uns três metros do tope, da testa até a valuma. Não
poderíamos parar ali e forcei a orça com a vela desse jeito, até a bóia norte,
que teríamos de contornar. Depois dela, teríamos vento favorável e
poderíamos mexer na vela. Fizemos dois bordos e, quando chegamos na
bóia, a valuma estourou, fazendo com que a mestra não trabalhasse mais
nada. Mesmo assim, conseguimos montar a bóia e, logo após, abaixamos
a vela. Ela não havia rasgado: a costura havia cedido! Eu e o Edu ficamos
duas horas costurando-a a mão, com o Márcio ajudando e o Jonas levando
o barco só com a genoa. Vimos todos os concorrentes nos ultrapassando
e perdemos muito tempo de regata. Depois de arrumada, levantamos a
vela e seguimos nosso rumo planejado, orçando mais que os outros. Caso
o vento virasse, pegaríamos todos no final da regata.
O vento, que estava fraco, aumentou um pouco no final da tarde.
Velejávamos bem, fazendo nossos turnos e vendo os grandes barcos, que
largaram depois de nós, passando. A noite caiu e a velejada estava muito
gostosa, com o vento quente que sempre sopra por aqui.
Vimos uma coisa muito curiosa: de vez em quando, passavam pelo
barco grandes manchas luminosas dentro da água. A primeira me deu
um susto, pois era grande como uma baleia e a vi bem ao lado do barco!
Não sei o que causava essas manchas, mas vimos muitas delas,
principalmente quando chegamos nos quatro mil metros de
profundidade (isso mesmo, quatro quilômetros de profundidade!).

24/09/2006 - A madrugada transcorreu normal. A tripulação se revezava


nos turnos, sem precisar estabelecer horários e respeitando os limites de
cada um. O Márcio, enferrujado por quatro anos sem navegar,
reaprendeu rapidamente a levar o leme do barco. Quando amanhecia, o
192
vento apertou e a velejada ficou ainda mais gostosa. Achamos pequenos
peixes voadores mortos sobre o convés. As crianças leram isso em vários
livros e esperavam que caísse um grande, para comê-lo.
Velejamos bem o dia inteiro, com o vento um pouco mais fraco e
aproveitando o sol gostoso no convés. Passamos vários barcos nesse dia.
Quando anoiteceu, começou a ventar um pouco mais forte e vimos luzes
de vários barcos perto de nós. Alguns navios cruzaram nosso rumo e
sempre eram chamados pelos navios-patrulha da Marinha, que
acompanhavam a regata, pedindo que prestassem atenção e mudassem
de rumo. O vento apertou durante a noite, arribamos um pouco, indo
bem na direção do arquipélago, fazendo ótimas singraduras.
O fenômeno luminoso se repetiu muitas vezes e era lindo!

25/09/2006 - A madrugada foi de vento forte e cheguei a pensar em fazer


um rizo. Como o barco andava muito bem e eu estava com mais dois bons
tripulantes a bordo, deixei-o seguir com todo o pano. Fizemos várias
singraduras com mais de sete nós de média e “voávamos baixo”.
Amanheceu e começou a expectativa de ver Noronha. Eu olhava o
horizonte, procurando-a. Fizemos nosso café com a última torta que
havíamos comprado, comendo-a no convés. Todas as refeições foram
feitas lá, pois, dentro do barco, jogava muito e era difícil se locomover. Às
sete horas da manhã, vimos a silhueta do morro do Pico nitidamente! Que
satisfação, estávamos chegando! A ilha foi crescendo lentamente, num
dia de sol, com um vento forte de través nos levando até ela!
O Jonas e a Carol estavam sentados na lateral do barco, quando veio
uma onda grande, bateu no costado, subiu e deu um banho na Carol,
molhando-a completamente. Ela ficou com os cabelos escorrendo e todos
rimos da “pontaria” da onda, principalmente o Jonas. Passados alguns
minutos, outra onda inesperada fez o mesmo com o Jonas e a Carol juntos!
Benção de Netuno! Colocamos nossos calções e fomos para aquele lugar,
esperando um banho para refrescar. Pena que as ondas não apareceram
mais! Queriam era pegar alguém desprevenido.
A ilha ficava cada vez mais nítida e fiz a navegação para passar a
ponta da Sapata e sua laje. Assim que passamos, descortinou-se o “lado
de dentro” da ilha, com as ilhas Dois Irmãos aparecendo. O vento sumiu
por instantes e começou a descer do morro em rajadas. Com o Edu
controlando a genoa, o Márcio a mestra e eu no leme, usamos as rajadas
para avançar até a linha de chegada. O Jonas e a Carol encontraram o
barco que era uma das pontas da linha, e nos dirigimos para lá. Cruzamos
a linha ao meio dia e onze, com um tempo de quarenta e nove horas e
onze minutos, comemorando muito a nossa chegada.
193
Nos aproximamos do porto e vimos muitos barcos. Arrumamos um
lugar para ancorar entre eles. Só estavam lá mais dois barcos do tamanho
do nosso e muitos barcos grandes não haviam chegado! Montamos o bote
e o Edu desceu para uma pousada. Jogamos uma segunda âncora para
dormir tranqüilos, pois o vento estava forte.
Fomos convidados pelos amigos do “Cavalo Marinho” para comer
um peixe a bordo: um dourado, de uns quinze quilos, que eles pegaram
na travessia! Contamos histórias da regata, bebemos, comemos e o
Beduína chegou. Após um ótimo banho de mar, não sem grande
reclamação por parte do Jonas, às seis, deitei para descansar um pouco.
Não vi mais nada e dormi profundamente, satisfeito pela realização de
um sonho: chegamos a Noronha, o lugar mais distante da nossa viagem!

26/09/2006 – Cedo, todos estavam de pé para conhecer Noronha! Fomos


para o porto e esperamos os amigos, com os quais iríamos fazer um
passeio pela ilha. Encontramos muitos conhecidos e todos nos davam
parabéns, por deixarmos muitos veleiros grandes para trás. Tomamos
cocos, conversamos bastante e pegamos um ônibus com a tripulação do
Beduína para ir à praia do Sancho, talvez a mais bonita do Brasil.
Descemos na estrada e completamos o caminho na carona de uma
caminhonete escolar. Logo chegaram o Rodrigo, a Márcia e as crianças,
do Cavalo Marinho. Fomos até o mirante do Sancho e descemos a
escadaria vertical, num buraco nas pedras, até a praia.
Aproveitamos a bela praia e emocionei-me muito lhes contando,
enquanto boiávamos nas quentes águas da praia do Sancho, a vontade
que eu tive, quatro anos atrás, de tê-los comigo ali naquele lugar. Nisso,
o tempo mudou de dimensão e me pareceu que tempo nenhum havia
decorrido entre aquele longínquo setembro do ano de 2002 e o momento
em que estávamos os três juntos, abraçados, naquele lugar. Você que já
sonhou com muita vontade e realizou seu sonho sabe o que eu senti.
A água transparente, quente, cheia de peixinhos, e lindos morros,
com uma maravilhosa falésia atrás, compõem um cenário fantástico.
Encontramos vários conhecidos: o Dênis e a Flávia do Bahia Náutica, o
rapaz do Pangea que conhecemos em Aratu, a tripulação do Tess e outros.
As crianças fizeram castelos de areia e brincaram com as mabuias
(lagartinhos). Mergulhamos e vimos vários peixes, pequenas arraias e
muitos budiões gordos e grandes, muito mansos.
No final da tarde, retornamos por onde viemos, conseguindo uma
carona até a estrada para as crianças. Lá, ficamos esperando o ônibus e
tentando uma carona. Como o grupo era grande, era difícil. De repente,
apareceu um caminhão, com uma grande carroceria e parou! Subimos
194
todos na carroceria, junto com os funcionários de uma empresa local e
seguimos, nos divertindo com a aventura diferente. Paramos num
mercado, onde comemos pães de queijo, e voltamos a pé para o porto,
não muito distante. Tomamos banho, visitamos lojinhas e encontramos o
Márcio, que estava investindo em seu projeto de mudança para a ilha de
Noronha, arrumando uma “noiva” local.
Voltamos cansados ao barco e levei a Carol para o Beduína, pois ela
recebeu um convite para dormir lá. O Hugo e a Gislaine estavam
desconsolados, pois o bote deles havia desaparecido. Os dois cabos que o
amarravam partiram com os trancos constantes, pois era muito pesado.
Lá se foi ele, para algum lugar no Atlântico. Provavelmente, chegará no
Caribe antes deles. Duro é ver um prejuízo que não esperavam, mas a
vida é assim mesmo, no mar ou em terra. Conversei bastante com eles.
Falamos de nós e de nossas restrições financeiras, mas também da
felicidade de estarmos ali, cumprindo nosso sonho.
Voltei ao barco com muitos respingos de água pelo vento forte. Em
virtude do acontecido aos amigos, fui verificar o cabo de amarração de
nosso bote. Surpresa! Precisei trocá-lo, pois estava muito puído! Dormi
ao som do vento assobiando nos estais.

27/09/2006 - Mergulhei para verificar as âncoras e vi que as duas estavam


presas na ponta de uma laje. Voltando ao barco, dei de cara com uma
pequena tartaruga. A visibilidade estava em torno de oito metros, mesmo
com o vento mexendo o mar! O Rodrigo passou com um monotipo do
barco “Tess”, velejando com o Nick. Pararam no Fandango, conheceram
nosso barco e o Jonas foi velejar com eles.
Descemos em terra e fomos para a praia do Sueste. Que praia
maravilhosa e de fácil acesso! Fica difícil decidir qual é a melhor, ela ou o
Sancho! As crianças brincaram na praia, fazendo castelos de areia e nós
conseguimos relaxar bastante, com o sol, a maravilhosa vista e a deliciosa
praia. Ficamos lá até o final da tarde, quando voltamos para a Vila dos
Remédios e jantamos num restaurante por quilo.
Eu, o Ken, do veleiro “Tess” e o Márcio fizemos a inscrição para a
regata Noronha-Natal. Depois, encontramos com o resto do pessoal no
forte da Vila dos Remédios. Perdemos o pôr-do-sol, pois havia nuvens,
mas ganhamos o maravilhoso e inesquecível visual do forte: entre as
ruínas, ver o céu avermelhado e, do outro lado, cem veleiros ancorados
na baia sob o forte! Retornamos para o jantar de premiação. A festa foi
bonita, tirando um “locutor” horrível! Encontramos muitos conhecidos e
comemoramos com os que ganharam prêmios.

195
Retornamos ao barco e levei a Carol no Beduína. Para essa
operação, visto o vento forte soprando e empurrando para o Caribe,
fizemos comunicação por rádio, para monitorar minha saída e chegada
nos barcos. Adoraria fazer essa travessia, mas não de bote!

28/09/2006 - Acordamos com a Márcia chamando no rádio, com a frase


mágica: “- Golfinhos ao lado do barco!”. Fomos para fora e vimos um grande
bando de golfinhos entre os veleiros. Peguei a máscara da Carol, que
estava no Beduína, e comecei a remar até ela. Aí, apareceu um bote a
motor e passou bem no meio dos golfinhos, espantando-os! Ficamos
chateados e a Carol não pôde vê-los dentro da água.
Descemos, na sempre molhada travessia barco-porto, e pegamos
um ônibus para a Praia do Sueste, para conhecer a praia do Atalaia.
Chegando em Sueste, tivemos uma série de “problemas”. Primeiro, o
fiscal do Ibama, chamado Macedo, que permite a passagem de apenas
cem pessoas por dia, desaconselhou a “longa” caminhada de um
quilômetro e meio para lá e nos mandou entrar a pé, no final de uma fila
de buggy’s vazios, sob o sol escaldante, se quiséssemos ir. Ele se recusou
a colocar nossos nomes na lista quase vazia e disse que os buggy’s vazios
estavam na nossa frente. Disse também que poderíamos ficar de pé, no
sol, mais de duas horas e acabar não indo. Conversamos com algumas
pessoas no local e descobrimos a “mutreta”: os buggueiros locais chegam
com os buggy´s cedo e “reservam” vagas na fila, para depois as venderem
para os que querem conhecer a praia do Atalaia. Tudo isso com a
conivência do fiscal do Ibama, que não inibe essa atitude e ainda a auxilia,
não preenchendo a lista de espera com as pessoas que estão chegando!
Ficamos com raiva e resolvemos não ir. Isso ainda vai acabar com
Noronha e mostra bem o que é a “reserva de mercado” que o sr. Ibama
causa com certas proibições. São vários os lugares pelos quais passamos
onde presenciamos o Ibama criar, não uma reserva biológica, mas um
“mercado exclusivo” de turismo, movido apenas a dinheiro. E dizer que
eu já fui a favor de Alcatrazes deixar de ser da Marinha! Por todos os
lugares que passamos, as áreas sob cuidados da Marinha estavam muito
melhor cuidadas e vigiadas do que os parques estaduais e federais. Não
havia especulação imobiliária e nem as “ene” empresas “autorizadas” a
fazerem os passeios, cobrando o que querem, por terem a reserva de
mercado. Escutamos muitos velejadores estrangeiros falando que não
iam a Noronha, pois era muito caro e tudo era proibido. Entendemos o
que eles queriam dizer na prática. Fica meu alerta, o nome do fiscal e o
aviso para que as pessoas não se decepcionem quando forem para
Noronha.
196
Bem, “absorvido” o problema, ficamos em Sueste, onde
encontramos o Edu. Conversamos bastante, enquanto as crianças
brincavam. Retornamos ao porto, para nos despedir dos amigos do
Cavalo Marinho e Beduína. Enquanto o Rodrigo, Hugo e Gislaine faziam
mercado, passeamos com a Talita até o Buraco da Raquel, Forte de Sto.
Antonio e igrejinha. Lugares lindos e próximos ao porto, com vistas
maravilhosas. Quando os amigos voltaram do mercado, foi a hora da
despedida. A Carol e a Talita se abraçaram e deixaram algumas lágrimas
no solo de Noronha. Provavelmente, ainda nos veremos, mas ficamos
tristes pelo fim dos ótimos dias que passamos juntos.
Fomos ao Mirante do Boldró, ver a largada da regata Noronha-
Cabedelo, onde os amigos partiriam. O mirante é lindíssimo! Estávamos
numa ponta da linha de partida e curtimos a largada, que gerou uma bela
e inesquecível paisagem dos veleiros saindo de Noronha, no contra luz
do final do dia.
Chegamos atrasados para a reunião de comandantes da Noronha-
Natal. O pessoal de Natal é muito simpático e nos acolheu muito bem.
Houve um coquetel e, depois passeamos na vila dos Remédios.
Retornamos ao porto e pegamos o bote, mas o motor parou no meio
do caminho para o barco! Eu havia esquecido de abrir a gasolina e,
rapidamente, resolvemos o problema. Que susto!

29/09/2006 - Fomos cedo para terra, para pegar um buggy e conhecer


melhor Noronha. Seguimos para a Praia do Sueste. Chegando lá, fomos
até a ponta das Caracas, onde havia um visual belíssimo: um costão
íngreme, com lajes e ondas estourando e vários pássaros marinhos,
sobrevoando o lugar. Seguimos para um forte próximo, de onde
avistávamos a praia de Sueste toda. Na praia do Leão, onde há desovas
de tartarugas marinhas, conhecemos o simpático pessoal do veleiro
Bravo, de Ubatuba. De lá, seguimos para a Cacimba do Padre, onde
comemos alguns pastéis. O mar estava muito agitado e o guarda-vidas
recomendou que não entrássemos na água. Andamos até os “Dois
Irmãos” e, depois, seguimos para o Boldró.
Conhecemos praticamente todas as praias do lado protegido da ilha
e seguimos para a praia do Cachorro, onde conseguimos tomar um banho
de mar e um de ducha. Seguimos para a outra ponta da ilha. Tiramos
muitas fotos e retornamos à Vila dos Remédios quando, finalmente,
conseguimos ver um lindíssimo pôr-do-sol no Forte.
Amanhã teremos que acordar cedo, mas foi muito proveitoso nosso
último dia em Noronha, conhecendo todos os seus cantinhos. Já estamos
com saudades da ilha!
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Natal e suas Dunas

30/09/2006 - Acordamos cedo para a partida de Noronha (chuiff!!!). Íamos


deixar o lugar de menor latitude e longitude que planejávamos conhecer,
talvez o mais belo e mais distante da nossa viagem. Arrumamos tudo e
tentamos soltar as âncoras, que estavam presas na laje. Soltaram
facilmente!
Fomos para a linha de largada e esperamos os barcos concorrentes.
Foi dada a partida e largamos muito bem. Enquanto deixávamos a
fantástica Noronha, cruzando sua costa de sotavento, pegamos muitas
rajadas, mas andávamos muito bem, com o mar liso. Ao deixar a proteção
da ilha, o mar levantou, o vento firmou e entrou de través, fazendo o
barco quase atravessar muitas vezes. Estávamos com todo o pano, mas,
após três horas de navegação, fizemos o segundo rizo na mestra. O barco
se tornou imediatamente dócil.
Colocamos o piloto automático e entrei para descansar um pouco.
De repente, em cinco minutos, várias coisas pifaram: o piloto automático
apitou e parou de funcionar, o GPS do Márcio caiu e parou também e, de
repente, quebrou manilha do estai de popa! Um pouco antes eu estava
me segurando no estai para usar o banheiro externo! Se quebrasse àquela
hora...! Baixamos a mestra rapidamente, troquei a manilha e subimos a
vela. Liguei meu GPS, testamos o “Alfredo” e tudo voltou a funcionar.
Após algumas horas de navegação, desligamos o “Alfredo”, pois
não levava bem o barco com ondas de través. Outro motivo é que estava
delicioso levar o leme do barco com aquele ventão.
A noite chegou, fizemos um miojo e nos revezamos nos turnos, com
o vento sempre constante. Víamos as luzes dos outros barcos perto de nós
e uma meia-lua começou a nos acompanhar. Repetiu-se o fenômeno das
grandes fosforescências no mar.

Nossa vida é uma brisa! Tudo pode mudar em cinco minutos ou


menos, independentemente de quanto cuidado se tome. A vida sempre
mostra isso, quase diariamente, e insistimos em não aprender, presos às
nossas falsas seguranças, que nos confortam. Volto a dizer: nossa vida é
uma brisa! Façamos dela uma brisa perfumada e intensa, diariamente,
pensando em nós e nos outros, com ações das quais não nos
arrependamos, pois não sabemos o dia em que ela cessará.
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01/10/2006 - Fui premiado com um lindo nascer do sol: nuvens flocadas
sobre nós ficaram totalmente rosadas com o sol que nascia, iluminando-
as. Curti o visual meio torto, pois ele acontecia às minhas costas.
Andávamos perto de dois barcos, sendo um deles o “Delícia”, de 37
pés. Aproximando-nos de Natal, o “Delícia” nos passou.
Soltei a carta náutica na mão do Jonas e da Carol para eles fazerem
a aproximação e navegação de entrada no canal. Entramos pelo canal bem
balizado, passamos por uma grande ponte em construção e chegamos.
Eram quase três horas da tarde. Após trinta e uma horas de navegação,
cumprimos as duzentas milhas que nos separavam de Noronha e
cruzamos a chegada, ao lado do Iate Clube do Natal, numa grande
velejada. Cumprimentamo-nos, muito felizes!
Um barco do clube nos levou até uma poita, soltamos uma âncora
para segurar o barco quando a maré desce, arrumamos algumas coisas e
descemos para terra.
Antonio, um velejador que tem acompanhado nossa viagem na
internet, já nos esperava para dar boas vindas. O diretor de vela do clube
mandou trazer água de coco e caipirinhas! Que recepção!
Conversamos um pouco e corremos para uma escola próxima, para
justificar nosso voto, pois era dia de eleição.
Voltamos e ficamos conversando com o Antonio e amigos dele.
Jantamos, no clube, filés a parmeggiana e carne de sol com macaxeira.
O sono e o cansaço bateram cedo. Fomos para o barco e “apaguei”,
com a alegria de ter chegado ao “ponto extremo” de nossa proposta de
viagem: a linda e quente Natal!

02/10/2006 - Deixamos a roupa para lavar com a Dna. Zuleide, simpática


funcionária do clube, cuja filha lava roupa para os velejadores.
Aproveitamos a cortesia do clube, que alugou uma van para o
transporte do pessoal da regata e fomos ao shopping center. Almoçamos
lá e comemos muitos camarões. O camarão aqui é bem barato e faz parte
do cardápio de quase todos restaurantes por quilo da região. O dono da
van, Rogério, é velejador e marcamos com ele um passeio para conhecer
o litoral sul de Natal.

03/10/2006 - Conhecemos o Marco, do Sadal Suud, fantástico barco de


bandeira portuguesa que está no Iate Clube de Natal. O barco dele é
idêntico ao Suahili, do Robin-Knox Johnston, que fez a primeira
circunavegação solitária sem escalas. Também conhecemos o Nelson e
Lúcia, do veleiro Avoante, que têm uma história interessante: num
200
aeroporto, no atraso de um vôo, o Nelson comprou o livro da primeira
viagem da família Schürmann. Leu-o e achou muito interessante a vida
no mar. Hoje moram a bordo, viajando pela costa brasileira.

04/10/2006 - Levantamos cedo para fazer um passeio à região sul de Natal.


Chegaram os amigos do Tess, que nos acompanhariam e saímos.
As praias se descortinavam, uma mais bela que a outra. Fomos até
o “maior cajueiro do mundo”, um grande cajueiro de 115 anos, que ocupa
uma área de mais de sete mil metros quadrados. Ao lado dele, tomamos
sucos naturais de frutas nordestinas e uma água de coco.
Seguimos para a bonita praia do Pirangi, típica praia nordestina,
com o vento soprando sem parar, um recife de corais protegendo-a e a
vista das dunas ao longe. As praias de Natal são belíssimas! As crianças
brincaram bastante na praia, com as crianças do Tess, Jesse e Rilley.
Paramos num mirante para ver golfinhos. Eles não apareceram,
mas pudemos ver uma enseada fantasticamente bela, com falésias, dunas
e uma ponta de recifes, protegida do vento.
Na lagoa do Arituba, conhecemos o outro lado da bela Natal: lagoas
de água doce, com água cristalina, localizadas no meio das dunas! O lugar
é um paraíso! A lagoa refletia o sol, que começava a baixar, e nós ficamos
dentro da água doce e fresca. Na margem, uma linda praia e, mais em
cima, vários barzinhos.
Após um bom tempo dentro da água, tomamos cervejas e comemos
pastéis num dos barzinhos. Havia pedalinhos, caiaques e tirolesas, mas
as crianças estavam brincando tão bem que não quiseram fazer mais
nada. Aproveitamos a deliciosa praia de água doce e sem ondas até o final
da tarde.
No retorno, paramos numa lojinha de artesanato, onde várias
senhoras faziam “rendas de bilro” e nos impressionamos com a
habilidade delas! É impressionante! Fiquei com vontade de comprar
várias coisas, de tão bonitas que eram, mas o caixa de bordo, apesar das
coisas não serem caras, permitiu apenas a compra de porta-copos.
Chegamos no clube, jantamos e ficamos conversando com o Nelson
e a Lúcia, do Avoante. O Rogério, que mexe com eletrônica, levou o
“Jarbas” para dar tentar “curá-lo”.

05/10/2006 - O Marco nos convidou para conhecer o Sadal Suud, fabricado


pelo histórico estaleiro “Colin Archer”. O barco é maravilhoso, está como
novo e tem a robustez dos anos 60 com a tecnologia do ano 2000. A
Margarida, simpática esposa do Marco, mostrou para as crianças fotos
dos lugares por onde passaram.
201
No final do dia, ficamos sabendo dos absurdos da nossa “política”:
Collor se elegeu senador por Alagoas, Maluf deputado federal por São
Paulo e Genoíno também. Pobre país, que elege reconhecidos políticos
corruptos e corruptores para comandá-lo!

06/10/2006 - Acordamos muito cedo, para visitar o estaleiro do Zeca.


Quando olhei para a popa do Fandango, tive uma surpresa: um bote
estava amarrado atrás do nosso bote. Imaginei que algum pescador achou
o bote flutuando, viu que era importado e, como não tinha nome escrito,
amarrou ao primeiro barco do Iate Clube de Natal que achou. “- Puxa!”,
pensei “- Que pescadores honestos!”. Começamos a procurar os barcos
conhecidos que estavam sem bote e vimos o catamarã de um italiano
solitário, que estava ao nosso lado, sem ele. A correnteza estava muito
forte. O Márcio reparou que havia algo parecido com um saco de vela no
fundo do bote. Começamos a puxá-lo, para levá-lo ao barco do italiano
quando, do fundo do bote, emergiu o rosto dele, com cara de sono!!! Ele
estava dormindo no bote! Explicou-nos que, quando tentava retornar ao
barco, a fortíssima correnteza o arrastou e ele se agarrou ao nosso bote.
Na manobra, o remo escapou e foi embora com a correnteza. Em vez de
nos chamar, para não nos acordar, ele se amarrou ao motor do nosso bote
e foi dormir, embaixo do saco de vela! Cada uma que acontece! Foi
surpreendente e engraçadíssimo, ver o jovem italiano, com o comprido
cabelo cheio de “tererês”, emergindo do fundo do bote! Levei-o ao barco
dele, onde entrou imediatamente, pois acho que a noitada havia sido
muito cheia.
Pegamos a balsa para conhecer o estaleiro. Atravessamos o rio
Pirangi e chegamos na outra margem. No estaleiro havia um belíssimo e
bem acabado catamarã de 42 pés em construção. Nos surpreendemos com
o espaço interno! Demos os parabéns ao Zeca e retornamos ao clube. Lá
conheci o Zig, amigo do Eduardo Meurer, da escuna Don Silvano,
personagem do livro “Segredos Submersos do Atlântico”.
Resolvemos conhecer o Forte Reis Magos. Fora alguns corrimões de
tubos de aço inox, ele está muito bem restaurado. Contaram-nos sobre
diversas proteções do forte, vimos a parede de fuzilamento, contaram-
nos terríveis castigos praticados contra os prisioneiros (repetição das
histórias da Fortaleza de Santa Cruz da Barra), visitamos o belo corredor
superior, com uma vista de fazer inveja e tomamos um lanche lá dentro.
Foi um prato cheio para fotografias!

07/10/2006 - Bem cedo chegou o Rogério, nosso convidado para correr as


regatas do campeonato Norte-Rio-Grandense de Vela. Deixamos nosso
202
bote amarrado à poita e saímos a motor. O vento estava forte e com
rajadas. Saindo da barra, as ondas estavam altas e quebrando na crista.
Não era uma situação nada confortável para correr regatas e fizemos o
segundo rizo na mestra. Largamos mal, atrás dos outros. Aos poucos,
passamos todos os barcos e montamos a primeira bóia já liderando.
Erramos a navegação e caímos para terceiro. Quando recuperamos o
primeiro lugar, aconteceu o inesperado: a vela mestra descosturou em
outro painel, desde a testa até a valuma, como na Refeno! Não tínhamos
mais nada a fazer, a não ser desistir.
Voltamos ao clube comendo pastéis e tomando Coca-Cola. Foi
muito divertido enquanto durou e o Fandango mostrou como anda bem
com bastante vento. Quem gostou da desistência foi a Carol. Mareada,
deu “Graças a Deus” quando escutou a frase: “- Vamos desistir”.
No clube, soubemos que foi uma regata acidentada, coisa normal
quando há muito vento. Nós descosturamos a mestra, um Supercat 17
quebrou leme, traveller e estai, houve um choque entre o Tutancamon e
o Super-Bebê e um tripulante do Musa caiu e trincou o braço, tendo ido
parar no hospital. A segunda regata programada não aconteceu por falta
de barcos em condições de competir e todos voltaram ao clube.
Tiramos a mestra e pedi ao Zeca para recosturá-la toda. Muitas
histórias foram contadas no clube e a regata foi o assunto do dia.

08/10/2006 - Ficamos no clube conversando. As crianças brincavam com


muitas crianças na piscina. Houve um churrasco de comemoração da
regata. O Antonio e sua esposa, Rô, estavam no clube e conversamos com
eles a tarde inteira. Contaram-nos sua história de vida, a mudança para
Natal e como estão adaptados à cidade.
Às três da tarde começou a premiação, numa tarde linda. Nós
ganhamos o primeiro lugar na travessia Noronha-Natal e ficamos em
terceiro na etapa do XV Circuito Norte-Rio-Grandense de Vela. Foi uma
festa bonita e o grande responsável por ela foi o Érico, do Musa.
O Comandante Conte, do Navio Patrulha Grajaú, que nos
acompanhou de Noronha até Natal, nos deu um boné do navio de
presente. Aproveitei a ocasião e agradeci o Capitão-dos-Portos, que havia
sido convidado para a festa.
No final da tarde, chegou uma lancha de pesca esportiva cheia de
dourados e cavalas. O Érico pegou um dourado e mandou cortar em
fatias. Fui no barco e peguei o shoyo. Comemos sashimi de dourado
fresquíssimo, usando limão para “apimentar” um pouco o gosto. As
crianças “detonaram” o peixe e foi preciso fazer uma segunda bandeja.

203
09/10/2006 - Pegamos a balsa para Redinha e fomos conhecer o lugar. A
praia tem um lindo visual das dunas. Havia muita gente no local e, pelo
jeito, segunda-feira é a folga do pessoal da região. Experimentamos um
prato local: tapioca com ginga! Eles fazem o beiju de tapioca com
manteiga e trazem uma porção de ginga frita, que é um pequeno peixe
que parece nossa manjubinha.
Passeamos na passarela do grande quebra-mar que protege o porto.
De lá, vemos as dunas de Genipabu, o forte e o rio Potengi.

10/10/2006 - A Rô e o Rodrigo, seu filho, nos convidaram para passear.


Eles trouxeram quinze livros para as crianças! O Jonas e a Carol adoraram
e começaram a ler os livros imediatamente. Atravessamos a balsa e
seguimos pelas praias ao lado das dunas, perto de Genipabu. Subimos a
pé numa duna, onde faziam passeios de dromedário. A vista era
belíssima! As crianças andaram de sky-bunda, passeamos nas dunas e
tomamos banhos de mar. Retornamos ao clube, onde me entregaram um
presente do Érico: um livro escrito por ele!
Seguimos para o restaurante Mangai, passeando um pouco pela
cidade. Nos surpreendemos com o restaurante: ele é muito bonito, todo
decorado de forma regional. Chegaram o Márcio e o Antonio para jantar
conosco. A comida é excelente, com muita coisa diferente. Comi pernil de
bode, carne de sol na nata, feijão verde, lasanha de macaxeira, macaxeira
cozida, paçoca (que é carne picadinha misturada com farofa salgada) e
outras coisas. Tomamos sucos de graviola e mangaba, deliciosos! A
sobremesa foi bananas fritas cobertas com açúcar e achocolatado, para a
qual eles dão o nome de cartola. O restaurante é por quilo, o preço é bem
razoável e por isso está sempre cheio. Conversamos sobre vela e
comemoramos nossos dez meses de travessia num ótimo lugar e com
ótima companhia.

12/10/2006 - O Antonio e Rô nos buscaram para conhecer o restante do


maravilhoso litoral norte de Natal. Saímos cedo e atravessamos a balsa
para Redinha, nos dirigindo a Genipabu. Chegando lá, vimos porque a
praia é tão famosa: é uma praia belíssima, com jangadas na areia, dunas
ao fundo e recifes protegendo-a.
Após tomarmos água de coco, seguimos para a barra do rio Ceará-
Mirim. Lá, o carro foi atravessado por pequenas balsas sem motor, onde
cabe apenas um carro em cada travessia. São movidas com uma haste,
que o balseiro “espeta” no fundo do rio e empurra a balsa. É muito
interessante, mas dá um certo “receio”!

204
Seguimos para a praia de Graçandu, onde tomamos um banho.
Conversamos bastante sobre Natal e sobre as diferenças entre o Rio
Grande do Sul (terra natal de Antonio e Rô) e o Rio Grande do Norte.
Após o banho de mar, seguimos para a Lagoa do Pitangui, para um
banho de água doce. Essas lagoas são uma maravilha! Em Ilhabela,
quando o dia fica muito quente, saímos da praia e vamos para as
cachoeiras nos refrescar. Aqui, as deliciosas lagoas são o correspondente
de nossas cachoeiras, com bares em suas beiradas e diversões aquáticas.
A vontade era continuar ali o resto do dia, mas tínhamos mais para ver.
Fomos à praia de Pitangui, onde várias piscinas naturais nos
esperavam, na maré baixa. Andamos por elas, descobrindo pequenos
peixes coloridos dentro delas. Os recifes são bonitos nessa praia e, dela,
avistávamos Genipabu ao longe.
Estávamos com vontade de conhecer os sky-bundas que iam dar na
água e seguimos para o parque de Jacumã. O parque é bem estruturado
e foi muito bem aproveitado. Uma grande duna acaba num lago de água
doce, onde fizeram uma pista de sky-bunda. Ao lado dela, outro lago e
uma tirolesa grande. Para subir ao alto da duna, há um carrinho de
madeira num trilho, puxado por um cabo de aço, acoplado ao chassi e
motor de um fusca. Um “motorista” controla a subida e descida do
improvisado “bondinho”. O Jonas e Carol desceram duas vezes no sky-
bunda e uma no aero-bunda, curtindo bastante.
Jantamos no Camarões, um excelente e caro restaurante. O jantar
foi ótimo e eles deixaram uma mensagem em nosso livro de visitas,
prometendo nos visitar em Ilhabela. Essas despedidas não são fáceis!

13/10/2006 - Saímos com o Rogério e dois de seus filhos com o Fandango,


para testar o “Jarbas” e fazer um pequeno passeio dentro do rio. Jarbas se
“recuperou” completamente, graças ao “cuidados” do “doutor” Rogério.
Agora temos dois pilotos em boas condições!
Jantamos no Tess. A Ângela é uma excelente cozinheira e fez um
camarão com curry inesquecível! Na mesa de navegação do Ken, havia
um teclado. Quando perguntamos quem tocava, Ken começou a tocar
uma música de Tom Jobim e muito bem tocada! Depois, ele colocou um
CD com músicas de Vinícius de Moraes!

O Jonas e a Carol brincaram muito com as crianças do Tess, que só


falavam inglês. Também conheceram outras crianças de barcos
estrangeiros, de vários países, e todas, independente do país de origem,
falavam inglês. Isso ressaltou a importância de se aprender outras
línguas, principalmente o inglês, nos dias de hoje. Acredito que as
205
brincadeiras com essas crianças, falando, jogando e brincando, quase um
curso de imersão, foi melhor que um ano de inglês numa escola
especializada, pois o estímulo era enorme!

206
28
Paraíba Hospitaleira,
Gente Nobre Sim Sinhô!

14/10/2006 – Após esperarmos vários dias de previsão boa, hoje sairemos


para Cabedelo, ao lado de João Pessoa, na Paraíba. O Rogério e a Ana, sua
esposa, nos trouxeram um grande pote de pastéis para a viagem! As
crianças adoraram! Agradecemos a força que ele nos deu e nos
despedimos, combinando nos rever em Ilhabela.
Arrumamos tudo, soltamos a poita, levantamos nossa âncora, que
estava bem suja, depois de muitos dias no fundo do rio, e fomos para o
píer. Após um banho de piscina, nos despedimos dos amigos do Tess.
Eram três e dez, quando deixamos a linda e acolhedora cidade de
Natal, saindo pelo rio Potengi em direção ao mar, com a expectativa de
uma dura travessia: vinte horas motorando e mar contra!
Saímos pela barra e o mar não tinha muitas ondas. Estávamos com
a mestra toda em cima e o motor ligado. A velocidade era de apenas
quatro nós, mas no rumo desejado. O vento estava na casa dos doze nós,
quase na cara. Costeávamos entre duas e quatro milhas do litoral. Com
as ondas e a orça apertada, estava muito desconfortável navegar. Junte-
se a isso o calor provocado pelo motor dentro da cabine e nossas melhores
camas serem ao lado dele, e posso dizer que navegávamos montados num
cavalo chucro dentro de uma sauna em pleno nordeste.
Depois de cinco horas desse jeito, achei que poderíamos tentar algo
diferente. Rizamos a mestra para diminuir as adernadas, abrimos a genoa
e desligamos o motor. A velocidade caiu pouco, o barco esfriou, as ondas
embarcavam menos e ficou mais confortável a bordo, sem tantos choques
contra as ondas. Velejávamos bem e no rumo desejado.
Anoiteceu e o vento aumentou um pouco, aumentando nossa
velocidade para cinco nós de média. Velejamos a noite toda e revi o
fenômeno das grandes manchas de luz dentro da água, perto da costa. A
lua era crescente e só nasceria mais tarde. Enquanto isso, as estrelas
cadentes davam um show no céu todo estrelado. Durante a noite, eu e o
Márcio nos revezamos nos turnos, enquanto as crianças dormiam.

15/10/2006 - A noite transcorreu tranqüila e, quando amanheceu, já


estávamos próximos a Cabedelo. Chegando ao nosso waypoint, folgamos
as velas e giramos para a entrada da barra. Ganhamos velocidade, o barco

207
adernou e seguimos o rumo dos prédios de Cabedelo, que já víamos ao
longe. Às oito da manhã, entrávamos pela barra do rio Paraíba, seguindo
direto para Jacaré, onde fica o Iate Clube da Paraíba. O rio é muito bonito
e vimos várias praias de areia branca ao longo do caminho. Navegamos
cerca de seis milhas no rio e chegamos a Jacaré, pegando uma poita do
clube. A travessia foi ótima! Fizemo-la em dezessete horas, sendo cinco a
motor e doze velejando bem!
A Talita nos chamou no rádio e a Carol logo atendeu. Que bom
rever os amigos! Vimos o Kanaloa, o Radum e outros barcos conhecidos.
Infelizmente, nem todos estavam lá: o pessoal do Cavalo Marinho havia
ido para São Paulo, o Valmir não estava no Radum e o Plânkton partira.
Tomamos um “café da manhã” diferente, preparado pelas
crianças: miojo! Eu estava muito cansado, mas com vontade do danado
do “quinojo”. O Hugo buscou as crianças para brincarem com a Talita e
eu aproveitei para dormir três horas, mesmo com o calor forte. Matamos
saudades dos amigos do Beduína e do Kanaloa e levamos o Fandas para
uma vaga no píer. Jantamos no Beduína e conhecemos um pouco do
lugar: Jacaré é cheio de lojas de artesanato, restaurantes à beira do rio, que
tocam o “Bolero de Ravel” ao pôr-do-sol, e pequenos comércios. Tudo
fecha cedo e só poderemos ver o lugar funcionando amanhã.
Retornamos ao Beduína, onde comemos pêssegos em calda
GELADOS! Meu próximo barco terá uma geladeira e painéis solares para
mantê-la. Que bom rever as pessoas que aprendemos a gostar!

16/10/2006 - À tarde, conhecemos o comércio do Jacaré. As lojas abrem às


quatro horas da tarde e fecham às oito da noite! Tomamos cafés numa
pequena cafeteria, bem em frente a um dos restaurantes do Bolero de
Ravel. Vimos o pôr-do-sol e escutamos o músico, que tocava o Bolero com
saxofone, em pé numa canoa no meio do rio, com um microfone sem fio
ligando-o às caixas de som no restaurante. Ele se aproximou do
restaurante, subiu da canoa para o píer do restaurante, subiu as escadas
de um púlpito e se colocou, de frente para o sol, sem parar de tocar!
Achamos que era gravação, mas depois vimos que não era, por causa da
sincronia de seus movimentos quando descia da canoa e subia as escadas,
exatamente nos intervalos da música. O lindo espetáculo se encerrava
quando o sol desaparecia. Aplausos e, então, iniciou-se “Asa Branca”, em
ritmo de jazz. Quem vier à Paraíba, não perca o espetáculo, orquestrado
pela natureza e pelo bom músico.
Retornamos ao barco, e conhecemos a Beta, esposa do simpático
comodoro Bernardo. Todos os velejadores foram convidados para jantar
com eles: nós, o pessoal do Beduína, o Hélio e a Mara, que estão no Kaká-
208
Maumau, o Torres e a Eliza do Kanaloa. Fomos em um pequeno
restaurante, com rodízio de camarão. Excelente! O tipo do lugar que só o
pessoal da região conhece e onde se come maravilhosamente bem.
Empanado, ao coco, ao alho e óleo, na manteiga, bobó, na salada, foram
muitos tipos de camarão para se experimentar. Conversamos sobre
viagens e cogitaram um rally de veleiros até o Caribe.
Na volta, retornamos pela beira-mar e paramos na praia de
Tambaú, onde há barracas de artesanato. João Pessoa me surpreendeu
muito! É uma cidade bem estruturada, tranqüila, segura, com espaço para
crescer, belíssima, com vento constante o ano todo e ótima estrutura
náutica. Continuando a política atual de desenvolvimento e a divulgação
que tem sido feita, em breve será um dos melhores pólos turísticos do
nordeste. Tem tudo para isso, juntando-se, ainda, um povo extremamente
simpático e acolhedor, desde o mais simples morador e comerciante, até
as pessoas que comandam o estado.

18/10/2006 - Aqui amanhece às cinco da manhã. João Pessoa está no


extremo oriental das Américas e, conseqüentemente, recebe as luzes do
sol mais cedo do que as cidades a oeste. Saímos cedo para Tambaú e
andamos pela beira-mar. A praia é bonita e, após um hotel, que fica no
meio da praia, pudemos ver as falésias do Cabo Branco, o lugar mais
oriental do Brasil. Passeamos pelas lojas de artesanato e almoçamos no
Mangai de João Pessoa, tão bom quanto o de Natal. Este, que é o
restaurante que o Jonas mais gostou na viagem, é uma pedida sempre
certa. Passamos num grande shopping de artesanato, muito organizado
e com muitas coisas bonitas. Compramos camarões, mangas e outras
coisas para o jantar, que o Márcio fará no Beduína.
Voltamos ao clube e pedi para a Gislaine um pedaço de tule, que
coloquei em todas as vigias e gaiutas do Fandas, para não deixar entrar
os pernilongos, única coisa que não gostei em Jacaré, até agora!
Conversamos no Beduína até sair o jantar: camarão flambado com
macarrão ao molho rose! Delicioso! A sobremesa foi por minha conta:
mangas flambadas! Foi uma pena ter esquecido o sorvete de creme!
O horário já ia avançado e o Márcio arrumou suas coisas. Pouco
depois da meia-noite, o táxi chegou e nos despedimos do grande amigo e
ótimo companheiro de viagens, que nos acompanhou nas últimas 550
milhas navegadas. Voltamos ao barco tristes (ah, essas despedidas...!).

19/10/2006 - Fiz o café da manhã com goma de tapioca, que comprei no


dia anterior. Comemos três tapiocas cada um! A Frida, gatinha do clube,
teve filhotes. As crianças acharam o ninho e a Gi fez uma caixa para ela.
209
Serão diversão garantida para as crianças nos próximos dias!
O Rodrigo, do Cavalo Marinho, chegou de São Paulo e o Jonas ficou
chateado, pois o Nick não veio. No final da tarde, fui ver e fotografar o
pôr-do-sol fantástico que há em Jacaré, com direito ao Bolero de Ravel.
Comecei a ler para as crianças o livro “Capitães de Areia”, de Jorge
Amado, que ganhamos do Antonio e da Rô.

20/10/2006 - Acordei com a Talita nos chamando para dar pães frescos,
que a sempre atenciosa Gislaine foi buscar de bicicleta na padaria. As
crianças foram para a piscina brincar. O Jonas acabou de fazer uma
“escuna” de material reciclado para a Talita e lhe deu o nome de
“Horizonte”, em homenagem à escuna do Antonio de Ilhabela.
O Hugo e a Gi tiraram o barco da água para fazer o fundo. Aqui,
em Jacaré, há o estaleiro do Brian, com ótimos profissionais e boa
estrutura para manutenções. Dei uma força para raspar as cracas, pois, se
demorar para raspar, elas endurecem e o trabalho quintuplica. Depois do
trabalho, conversamos com o Hugo e ele nos contou um pouco de sua
infância e sua iniciação na vela, com ótimas histórias!
Tomamos banho e esperamos o churrasco argentino com
“choripan”, que o Henrique, do Huayra faria. Conversamos sobre mar,
escutamos histórias náuticas, com as quais aprendemos muito, só de
ouvir, comendo carnes (o “choripan” é nosso pão com lingüiça!), bebendo
cervejas e refrigerantes até uma hora da manhã!
Das histórias que escutei, algumas não podem ser esquecidas: o
primeiro barco do Hugo e sua primeira regata, a ida de Santos a Parati do
Cavalo Marinho, com um skipper contratado e o apuro do Torres em
Itaparica, com o vento empurrando-o para as pedras. Contamos o
primeiro charter do Márcio (um funeral!) e nossa “ancoragem” em
Jurumirim, com a âncora Fortress. Essas histórias deviam ser escritas,
pois geram grande aprendizado e são engraçadíssimas!

21/10/2006 - Levei o Jonas para ver os barcos do estaleiro do Brian, entre


eles o Jacaré 28, catamarã que o Brian está construindo. O Jonas adorou,
pois viu divinicell de perto e vários processos construtivos diferentes.
O final de tarde foi dedicado a bater fotos do pôr-do-sol sempre
lindo da região e escutar o Bolero de Ravel. Um pequeno veleiro deu um
show, cruzando nosso pôr-do-sol, deixando-o mais belo.

23/10/2006 - Acordei com chuva! Puxa, chove por aqui!!! Encontramos o


Fabinho e Cecília, que chegaram para visitar a todos. Vieram de carro e
deixaram o Plânkton em Atapus, que dizem ser um lugar bonito. O
210
Valmir e a Mariana também chegaram ontem e resolvemos fazer um
churrasco para comemorar o encontro. Comprei o que precisávamos e
voltamos ao Jacaré, parando para tomar um café na nossa cafeteria
preferida, com pastéis de Belém e bolo de macaxeira. Preparamos o
churrasco em grupo: Cecília fez a salada, Mariana fez pães de alho e eu
fui para a churrasqueira. Logo chegaram todos: Valmir e Mariana do
Radum, Torres e Eliza do Kanaloa, Fabinho e Cecília do Plânkton,
Gislaine, Hugo e Talita do Beduína e Rodrigo do Cavalo Marinho.
Foram muitas horas de boa comida, bebida, várias histórias, piadas
e adivinhações. Pensei: “- Quando iremos reunir novamente um grupo de
amigos tão especiais e unidos, num lugar tão bonito e todos tão bem?”. Temos
que aproveitar cada segundo, porque ele não volta!
Encerrado o churrasco, ficamos muito tempo conversando. Tomei
meu merecido banho, pois eu estava “defumado” da churrasqueira e as
pessoas começaram a se retirar, devido ao horário avançado. Dei um pulo
até o Radum para devolver um livro. Resultado: conversei até as duas da
“madruga” com o Valmir e o Rodrigo. Valmir está voltando para Sampa
e para o trabalho em novembro. Trabalhará com o objetivo específico de
criar condições financeiras para uma viagem mais longa. É assim que
acontece: quem provou do “melado”, não se contenta com menos.
Pretendo estar fazendo o mesmo a partir do começo de 2007.

24/10/2006 - Escrevemos mensagens nos livros de visitas do Plânkton e do


Cavalo Marinho. Tivemos a honra de abrir o livro do Plânkton! Nos
despedimos do Fabinho e da Cecília, que retornarão a Parati, e saímos
com o Valmir e a Mariana em direção ao Cabo Branco, o ponto mais
oriental das Américas. A vista é bela e, na água clara, vemos muitos
recifes na orla. Tomamos o “coco mais oriental das Américas”,
interessante propaganda de um divertido vendedor de cocos. Seguimos
para a praia do Seixas, que fica ao lado do Cabo Branco. Ela é bonita e fica
bem perto de João Pessoa. Apresentamos à Mariana o “arrumadinho”,
um dos nossos pratos locais preferidos.
Após banho de mar, cervejas e “beliscos”, seguimos para o sul, sem
destino. De repente, entre a vegetação que beirava a estrada à nossa
esquerda, vimos mar e praia. Mesmo sem placas, saímos da estrada para
conhecer o lugar. Andamos por uma estrada de terra ruim e chegamos
em barzinhos de praias, construídos com madeira e sapê. Uma placa com
os dizeres “Venha ver o caranguejo amestrado” chamava a atenção.
O lugar era maravilhoso!!! Com certeza, uma das praias mais
bonitas que vimos! Um rio desaguava no mar, criando um banco de areia,
onde jangadeiros jogavam suas tarrafas na enchente, aproveitando os
211
peixes que entravam para o rio. Para o sul, a praia se estendia até algumas
falésias, que víamos ao longe. Para o norte, víamos a ponta de praia criada
pela areia do rio e mais praias. O rio era calmo e vários barzinhos de sapê
circundavam suas margens! Lembrou-me Trancoso.
Vimos o tal “caranguejo amestrado”, que era um grande guaiamun
azul, que podíamos pegar com as mãos. Fomos para a água e descobrimos
uma diversão diferente: pulávamos na entrada da barra do rio, que enchia
rapidamente, e flutuávamos rio adentro com a forte correnteza, até parar
no banco de areia mais adiante.
Pedimos comida: charque com macaxeira e “frango ao molho”, que
pensávamos ser algo exótico, mas era o nosso “frango ensopado”.
Adoramos esse lugar, a barra de Gramame, deserto na terça-feira, mas
que fica cheio nos finais de semana. Esse paraíso fica a treze quilômetros
de João Pessoa, que cada vez me surpreende mais com suas belezas.
Amanhã cedo o Valmir e a Mariana sairão rumo a Salvador.

28/10/2006 - O dia amanheceu lindo e resolvemos conhecer o forte que


fica em Cabedelo. Convidamos a Talita e lá fomos nós quatro, de ônibus.
Em pouco tempo estávamos em Cabedelo, na ponta de terra que
separa o rio Paraíba do mar (Cabedelo significa “pequeno cabo”).
Andamos até a Fortaleza de Santa Catarina, cujo início de construção foi
em 1589, um bem conservado forte, transformado em museu. Visitamos
todo o forte com a guia Júlia. Ela contou algumas histórias dele, onde não
faltou nem assombração. Falou que a esposa de um comandante foi
assassinada lá, por tê-lo traído com um soldado e que muitas pessoas
viram o fantasma dela, que foi retratado num quadro. As crianças ficaram
impressionadas! Como estão naquela idade de “gostar” dessas histórias,
acharam super legal (mas ninguém quis ficar sozinho perto do quadro!).
Visitamos uma sala do forte que é um museu sobre caça às baleias. Fotos
e equipamentos da caça moderna, que a tornavam uma covardia, estavam
ali: canhões, aparelhos elétricos para desacordar a baleia ferida e
equipamentos para “inflá-las”, facilitando o corte. Andamos pelo forte e
vimos o corredor de fuga da fortaleza. O forte, palco de muitas lutas, foi
atacado diversas vezes pelos holandeses, sediados em Recife.
Voltamos ao Jacaré, onde o Jonas, a Carol e a Talita foram
convidados para dormir no Kanaloa, para onde foram todos contentes!

29/10/2006 - Dia de eleição! Segundo turno da eleição para presidente,


onde teremos que escolher entre o “Nhô Ruim” e “Nhô Pior”. Fomos com
as outras tripulações justificar nosso “direito obrigatório” (outro
absurdo!). No começo da noite, tomamos capuccinos e ficamos
212
conversando. Apesar de considerarmos esses momentos “ócio”, muitas
informações técnicas são passadas. Hoje foi a vez de falarmos sobre rádios
SSB, que o Rodrigo está pensando em colocar no Cavalo Marinho.
Acabamos a noite vendo “O Código Da Vinci” no Beduína.

30/10/2006 - No começo da noite, fomos todos ao Kaká-Maumau, pois as


crianças foram convidadas para brincar lá. Aproveitei e conheci o
fantástico barco. São 46 pés de puro conforto, com quatro quartos de casal
e beliches para mais dois tripulantes! É enorme e navega muito bem. É
um barco brasileiro, fabricado em Aracaju. As crianças brincaram com
vários jogos com o Hélio. Vários conhecidos chegaram e umas quinze
pessoas ficaram no cockpit (como é grande!) batendo papo. Os amigos
fizeram a reunião do “Primeiro Rally Cabedelo-Caribe”. Com muita
alegria, datas de chegada e partida nas várias paradas foram definidas.
Os participantes deram ao Bernardo um sino com os nomes das
embarcações. O mais bonito era o trabalho em cabos, que o Torres e a
Eliza fizeram, para o puxador do badalo.
Adorei a reunião! Torço para que os amigos tenham uma boa
viagem e já me vejo num dos futuros rally’s Cabedelo-Caribe!

31/10/2006 - Acordamos cedo, para passear. Fomos para Camboinha, que


fica na frente de um banco de areia, chamado Areia Vermelha. Essa praia,
como todas as que vimos na Paraíba, é muito bonita! Andamos por ela e
tomamos banhos de mar em suas águas mornas. As praias da Paraíba são
muito melhores para banho do que as de Natal. Os recifes são mais
distantes e não existem pedras na beira-mar. Um grande pirajá veio em
nossa direção, trazendo muita chuva e resolvemos fugir.
Seguimos para Tambaú e comemos tapiocas na famosa feirinha
(ainda gosto mais da tapioca do Jacaré!). Andamos até a metade do
caminho para o Cabo Branco e paramos para outro banho de mar.
Novamente, nuvens negras, com suas fraldas acinzentadas vieram em
nossa direção. Deixamos chover e, dentro da água quente, esperamos a
chuva passar. Após nos saciarmos de praia e eu ter recarregado minhas
“baterias” com água salgada, que sempre me faz falta, retornamos.
Fizemos panquecas com molho de salsichas no Beduína para o
jantar. Ficamos um bom tempo no Cavalo Marinho, conversando com o
Rodrigo, que vai para Sampa. Senti um nó na garganta, sabendo que,
provavelmente, demoraremos muito para nos ver. O Rodrigo nos
convidou para fazer o trecho Fortaleza-Caribe no Cavalo Marinho, mas
acho que será difícil. O táxi que o levaria ao aeroporto chegou. Essas
despedidas são de matar! Não me acostumo a isso!
213
01/11/2006 - João Carlos, um velejador do Iate Clube da Paraíba, que
conhecemos outro dia, nos buscou para um passeio pela cidade. Muito
atencioso, ele trouxe para as crianças a explicação da palavra “Nego”, da
bandeira da Paraíba. Essa palavra, do verbo “negar”, vem de João Pessoa,
um governador da Paraíba, que discordou da política café-com-leite na
década de vinte. A Paraíba foi um dos principais apoios de Getúlio
Vargas, gaúcho, para quebrar a hegemonia Minas-São Paulo na
presidência. Contou-nos várias histórias da Paraíba: a origem da frase
“Paraíba masculina, mulher macho, sim senhor”, quando mulheres
lutaram ao lado dos homens pela defesa de uma cidade na década de
trinta; falou sobre João Pessoa, assassinado por sua opção política, e sobre
Epitácio Pessoa, único a ser presidente dos três poderes até hoje.
Ele nos levou à Estação Ciência, patrocinada pela empresa elétrica
local. O lugar é muito instrutivo e a explicação sobre energia elétrica é
fascinante. Experiências elétricas são feitas para as crianças, incluindo um
comparativo do uso de energia nas casas antigas e modernas. De lá,
seguimos para o Centro de Cultura São Francisco, dentro de uma igreja
barroca. Esta foi uma das igrejas mais bem conservadas que vimos.
Amanhã, o Beduína, com o Hugo, a Talita e a Gislaine irão fazer um
charter na Baia da Traição, ao norte e nós estaremos indo para o sul, para
Atapus. Talvez, só voltemos a nos ver daqui a muito tempo.

02/11/2006 - Chamei as crianças para aproveitarem os últimos momentos


com a Talita, em Cabedelo, e comecei as arrumações para viajar. Peguei
os waypoint’s para Atapus com o sempre gentil Torres. Ele me perguntou
se eu queria outros e respondi que, dentro de alguns anos, precisarei dos
waypoint’s do Caribe! Pretendo aproveitar que o Beduína e a Talita
ficarão fora alguns dias e seguir para Atapus, para evitar “motins” na
tripulação, pois separar as crianças seria correr esse risco! O Hugo teve
problemas no motor e não saiu. Dessa forma, também esperamos, com
tudo preparado para seguir viagem.

03/11/2006 - O Beduína saiu para o charter. As crianças ficaram com


“carinha triste”, já com saudades da Talita. Isso, mais a variação de maré
muito grande, por causa da lua cheia e a correnteza forte que isso causa,
me fizeram mudar completamente de planos e desistimos de seguir para
Atapus agora. Vamos aproveitar os amigos até o limite do limite!

214
29
Barco Perfeito

04/11/2006 - Eram cinco horas da manhã, já com luz do dia, quando senti
um pequeno tranco no barco. Alguém soltara o cabo de proa do
Macanudo preso ao píer e ele e o Cavalo Marinho vieram para cima do
Fandango, prensando-o quando a maré começou a baixar violentamente.
O Fandango estava servia de defensa para dois barcos que, juntos,
pesavam vinte e cinco toneladas! Não consegui puxar os barcos e pedi
socorro ao Torres. Logo, estávamos os dois puxando o Macanudo. Para
isso, precisamos soltá-lo do Cavalo Marinho. Com muito esforço,
conseguimos levá-lo no lugar. Na hora de puxar o Cavalo Marinho, um
barco maior e mais pesado, não conseguimos fazê-lo com as nossas forças.
Levamos um cabo comprido do Cavalo Marinho ao Macanudo e o
puxamos usando a catraca. O Fandango veio facilmente. Os barcos
ficaram de frente para a correnteza e o problema foi resolvido.
Afrouxei o cabo que prendia o Fandas ao outro lado do píer, para
levá-lo para frente. Péssima idéia: todos os barcos começaram a tombar
para o outro lado! Novamente, tivemos que acertá-los. Finda a operação,
após uma hora e meia de trabalho, tomei café com o Torres e a Eliza.
Na piscina conheci o Cleidson, popular “Torpedinho”, e o Camilo,
do “Curumim”. Conversamos e conheci o lindo barco do Cleidson. Tirei
uma soneca rápida no Fandas. Ao levantar, olhei pela vigia e vi o Beduína
retornando do charter. Nosso cabo de âncora iria prejudicar a manobra
do Hugo. Então, fui até a proa e o soltei para ele entrar safo.
A maré vazava muito e o Hugo manobrou para soltar a âncora,
prejudicado por um catamarã atracado no píer da frente. Ao manobrar,
ele lembrou do meu cabo (não percebera que eu o havia soltado) e evitou
engatar o motor de boreste. O barco girou um pouco e o acidente
aconteceu: o Beduína foi pego lateralmente pela forte correnteza e
arremessado para cima do Fandango! As seis toneladas do Beduína
bateram na bochecha do Fandas, que o segurou. Com a correnteza
pressionando-o, não conseguíamos removê-lo dali! O Fandango servia de
defensa, agora entre o Beduína, o Cavalo Marinho e o píer.
Passamos um cabo e várias pessoas tentaram puxá-lo sem sucesso.
Todos que estavam nos outros barcos e no clube vieram ajudar, com
idéias e ações. O grande catamarã, que atrapalhara a manobra sem
querer, pegou o cabo e tentou rebocar o Beduína, com força. Puxado para
215
frente, ele girou a popa e raspou sua lateral na ferragem de proa do
Fandas. Deu, então, uma forte batida no Cavalo Marinho e parou,
enganchado na corrente de âncora dele! Era tolice tentar removê-lo de lá,
pois, apesar dos barcos estarem prensados, estavam seguros. Fora os
raspões, nada havia quebrado. O único problema era a popa do Fandas,
que entrou por baixo do píer, onde havia uma viga. Deixaríamos o
Beduína amarrado ao píer em frente e esperaríamos a correnteza parar.
No outro lado do píer, quem segurava todos os barcos era o costado do
Kaká-Maumau. Ainda bem que ele voltou hoje, pois estava fora d’água!!!
Foi uma longa espera! Tomamos refrigerantes e batemos papo para
distrair o arrasado Hugo. O Rodrigo dizia que “o barco perfeito” tinha
que valer pouco, ter seguro e não ter frescura, pois não nos preocupamos
com ele. Era minha situação! Quando a maré parou, sem esforço o
Beduína foi removido, fez a ancoragem e amarração. Quanto ao Fandas,
estava com um buraco no espelho de popa com dez centímetros. Mais
uma “cicatriz de guerra”, somando-se à de Búzios.
A Gislaine me convidou para jantar no Beduína, enquanto as
crianças passeavam num shopping. Falaram que a Baia da Traição é
bonita e que o passeio foi bom, mas não dormiram direito, pois as ondas
passavam por cima dos recifes que protegiam a ancoragem na maré alta.
Falando sobre o acidente, chegamos à conclusão que, o mais seguro,
num lugar com tanta correnteza, é ficar numa poita até a correnteza parar.
Mas, se o Hugo tivesse a possibilidade de soltar a âncora ou eu o tivesse
avisado pelo rádio que eu removera o cabo, dificilmente algo teria
acontecido. As crianças voltaram contentes, já passava da meia-noite. Nós
todos fomos dormir com mais algumas lições aprendidas (no mar,
estamos sempre aprendendo!) e contentes, porque o prejuízo foi mínimo
e ninguém se machucou, apesar do susto.

Reflexões (1): Conviver com a possibilidade de errar sempre é


muito importante. Somos falíveis, mesmo se somos excelentes no que
fazemos. Convivendo com essa possibilidade, ficamos mais atentos para
evitá-la, revisando sempre nossas ações ou procurando soluções
alternativas. Comunicação é importantíssima para evitar erros em ações
de grupo. Acontecido o erro, não podemos nos abater, cobrando demais
de nós mesmos ou dos outros. Precisamos refletir no que erramos e no
que poderíamos ter feito para evitá-lo. Dessa forma, aprendemos com ele.
Não podemos, nunca, deixar de agir por medo de errar.
Reflexões (2): Se o choque acontecesse contra alguns barcos “de
ouro”, tratados como “filhas donzelas” pelos cuidadosos e neuróticos

216
donos, que quase nunca saem com eles, eu não gostaria de estar na pele
do Hugo! Quanto a mim, pretendo ter sempre “barcos perfeitos”!

05/11/2006 - Após os acontecimentos de ontem, acordei às cinco da manhã


para verificar as amarrações. Tudo bem! Às seis horas, tudo tranqüilo.
Relaxei e acordei pouco depois, com uma leve pancada na proa do
Fandango. Olhei pela gaiuta e vi o Beduína vindo para cima do
Fandango! A âncora dele garrou por causa da correnteza! O Hugo e a Gi
já estavam com o cabo esticado até uma das estacas do píer, pois
perceberam que escapava e quase evitaram que ele corresse. A proa do
Beduína ficou a dois centímetros do Fandas!!! Com o “Bedú” amarrado
ao píer, em outra longa espera, aguardamos a maré parar.
Entrei para descansar e escutei alguém falar no píer: “- Olha, o
Beduína está novamente no maior ‘affair’ com o Fandango!”. Tomamos nosso
café e, quando a maré parou, acertamos o Beduína. O catamarã grande
saiu para um passeio e o Hugo subiu a âncora, lançando-a bem mais à
frente. Também amarrou o Beduína a uma estaca e na proa do Cavalo
Marinho. Com toda essa amarração, seguimos para o nosso
“compromisso” do dia: aproveitar a companhia e hospitalidade do
Bernardo, comodoro do clube, e toda sua família. Fomos, todas as
tripulações, para a praia do Poço, onde comemos caranguejos, agulhas
fritos e ensopados de caranguejo, acompanhados de cervejas bem
geladas. O dia estava muito bonito e a praia muito gostosa.
Dei minha primeira velejada decente de Hobbie Cat 16. Como anda
o barco! Fomos até “Areia Vermelha”, o grande banco de areia na frente
da praia de Camboinha. O lugar é bonito e “diferente”. Na maré alta, o
banco some. Na baixa, vira uma grande praia!
Quando a maré subiu, fomos à casa do Bernardo, onde nos esperava
uma surpresa: um almoço preparado pelo irmão dele. Peixe assado,
cozido de frutos do mar, pirão e arroz! As crianças brincavam e nós
papeávamos. O sol caiu. Café com dois bolos saindo do forno fizeram a
alegria de todos. A alegria e hospitalidade desse povo são enormes!
Agradecemos o carinho com que nos receberam e voltamos ao clube para
a próxima descida de maré, quando tudo correu muito bem!
O Torres e a Eliza deixaram uma linda mensagem no nosso livro de
visitas, nos lisonjeando muito. Após lermos a mensagem deles, fomos
rever as mensagens antigas e vi a mensagem do Beduína, escrita pela
Gislaine há muito tempo, que dizia em seu final: “Bons Ventos!!
(Favoráveis, é claro!) Que as correntezas façam a gente se esbarrar
sempre!”. Fui direto com o livro lá, para eles verem. Após muitas risadas,
relembramos a velha frase: “Cuidado com o que você deseja!”.

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06/11/2006 - Acordei com a voz do Brian. Pedi que fizesse um orçamento
para arrumar o Fandas, que foi bem razoável e mandei fazer o serviço. O
Hugo aprovou previamente, por saber que o Brian é sério e honesto.
O Rodrigo havia chegado na madrugada. Logo, o Nick, o Rafinha e
a Márcia acordaram. Que saudades! Foi uma surpresa para eles, pois não
sabiam que havíamos mudado de planos e ficado, para esperá-los.
Às onze horas, o Fandango já estava arrumado e ficou melhor do
que antes, pois mandei arrumar também a “cicatriz” de Búzios!
À noite, fomos ao Cavalo Marinho tomar vinhos, junto com as
tripulações do Kanaloa, Beduína e o Fernando, do Kaká-Maumau.
Histórias pessoais foram contadas. Os momentos de alegria com esses
amigos são muito intensos, talvez, por sabermos que logo acabarão.

07/11/2006 - Acordamos cedo para aproveitar nosso último dia, antes dos
amigos partirem. De repente, chamaram pelo meu nome, com um
sotaque carregado! Eram o Paul e a Diane, que conhecêramos em Niterói!
Que bom revê-los! Soubemos que irão para Noronha. Dei-lhes as dicas do
lugar e falei para tomarem cuidado com a “taxa de ancoragem” que
tentam cobrar dos barcos para ancoragem, que é proibida pela Marinha.
Avisamos, na Capitania, a nossa saída rumo a Atapus e Recife.
O clube foi arrumado para um jantar festivo: hoje será a abertura
do primeiro rally Cabedelo-Caribe (quando o Bernardo faz, faz bem
feito!). Logo estávamos todos “chiques”: as mulheres todas arrumadas e
os homens colocaram tênis e dock siders, abandonando a tradicional
sandália havaiana. Que diferença! Muitas pessoas chegaram, além da
imprensa. A Talita chorou sentida, abraçada à Carol, dando um nó na
garganta de todos. O jantar foi excelente! Comida nordestina, com carne
de sol, frango, porco, farofa, feijão verde, inhame e macaxeira.
No final da festa, com a alegria contagiante da largada para o Caribe
contrastando com a tristeza da separação dos amigos, o Jonas puxou um
abaixo-assinado, para que o Fandango fosse junto para o Caribe, tentando
me fazer mudar de idéia. TODOS assinaram!!!
Fiquei triste por não poder realizar esse desejo deles agora. Por
outro lado, fiquei feliz que as crianças estavam gostando tanto da viagem,
desejando estendê-la! Recebi vários convites para ir ao Caribe nos barcos
dos amigos e fiquei de pensar, sem muita esperança.
Fomos dormir à meia-noite, tendo que acordar amanhã às quatro.
Após deitarmos, a Talita chegou com um presente para a Carol, que
já dormia. Elas sentirão muita falta uma da outra!

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Dor da Despedida

08/11/2006 - Ainda era noite e em todos os barcos eu via luzes acendendo.


A Carol abriu o presentinho da Talita. Havia um colar e um bilhete que
dizia: “Carol, não sei como explicar o que estou sentindo. Só sei que você foi uma
pessoa muito especial para mim. Nunca me esqueça. Te adoro. Talita”. Acho
que, em poucas palavras, ela explicou o que todos estávamos sentindo.
Tentando distrair a tristeza, evitamos dar “adeus” e abraços de
despedida, como se saíssemos para o mesmo lado.
Zarpamos às cinco horas da manhã. Demoramos para chegar na
barra, pois a maré subia e a correnteza ainda era forte. Chegando na barra,
nos despedimos de todos pelo rádio, emocionados. Acenamos e seguimos
na direção sul, enquanto eles iam para o norte. Era o momento decisivo!
O Jonas e a Carol entraram para dormir e fiquei sozinho no cockpit, vendo
as velas dos barcos dos amigos se afastando e vendo o Kanaloa sair na
barra. Posso dizer que bateu “doída” a emoção e repensei essa chance,
como disse o Hugo, “única de ir ao Caribe com um grupo tão unido” e com
pessoas tão especiais.
Quando pensava nisso, vi um rastro acinzentado rápido dentro da
água, indo em direção à proa do Fandango e um grande golfinho solitário
apareceu! Gritei para as crianças e ele ficou conosco, brincando na nossa
proa, por poucos minutos. Ele deve ter se separado do bando. Ficou
pouco tempo, mas deixou sua marca. O Fandango continuou avançando
rumo ao sul, solitário, como o nosso amigo golfinho.
Coloquei a vara de pesca, para tentar pegar um peixe (a esperança
é a última que morre!). O dia estava lindo e a água transparente.
Cruzávamos com vários barcos de pesca e o Jonas escutou a fricção
cantar! Corri, puxei e pegamos uma sororoca de mais de um quilo!
Finalmente a pescaria de corrico deu resultado e teremos peixe para o
jantar! Eu a “tratei” para assar no forno. Algum tempo depois, a fricção
cantou outra vez e pegamos outra sororoca, um pouco maior que a
primeira! Cortei-a em quatro filés. Um virou sashimi e o devoramos. Com
os outros três, fiz o que queria fazer desde que li o livro do Hélio Setti:
salguei-os e coloquei-os para secar ao sol. Vamos ver como fica!
Às quatro da tarde nos aproximamos da entrada da barra de
Atapus, que fica entre a ilha de Itamaracá e de Itapessoca. O lugar é bonito
e nos lembrou Camamu. Soltamos âncora em frente ao povoado, assamos
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o peixe e fizemos um risoto para acompanhá-lo. Divino! Depois, fomos
dormir, pois eu estava “acabado”.
Dormi duas horas e saí para ficar de olho na virada de maré. Com
o vento e maré contrários, ficamos sempre num perigoso equilíbrio. O
barco girou para cima do cabo de âncora e este se enroscou na quilha.
Soltei e, com o barco aproado para o vento e para a correnteza, fui dormir
tranqüilamente até a próxima virada de maré, lembrando dos amigos que
já devem ter chegado a Natal.

09/11/2006 - As crianças levantaram entusiasmadas para conhecer o lugar.


Inflamos o bote, fomos para a prainha de Atapus e conhecemos a pequena
vila. Atravessamos o canal para conhecer uma linda praia, na ponta da
ilha de Itamaracá, chamada praia do Pontal. Enquanto atravessávamos,
vimos muitos pescadores de rede e de linhada pegando seu sustento. A
pesca aqui é farta e, pelo que vi, totalmente artesanal.
A praia é fantástica e tranqüila. O Jonas e a Carol tomaram banhos
de mar, numa água deliciosamente quente, e fizeram castelos de areia. Eu
dei uma volta para conhecer o lugar. Perto da praia, há um condomínio
de boas casas. Do outro lado do canal, eu via a ilha de Itapessoca e, à
minha frente, o mar aberto, com bancos de areia dos dois lados da barra.
Andei quinze minutos e não vi ninguém na praia.
No Fandas preparei o peixe salgado com leite de coco, legumes e
arroz. Adoramos e tive que fazer mais arroz para acabar com o peixe e o
caldo delicioso! Vou salgar peixe sempre! Ele fica muito parecido com
bacalhau, mesmo salgado apenas de um dia para o outro!

10/11/2006 - O barco atropelou o cabo de âncora e este se enroscou


novamente. Após soltá-lo, limpei o fundo do barco. Onze meses de
viagem! Será mais um aniversário de viagem navegando!
Às dez da manhã, levantamos âncora. O vento nordeste estava
firme, na casa dos doze nós, e o dia maravilhoso. Saímos da barra,
deixando Atapus e as belas ilhas de Itapessoca e Itamaracá para trás.
Às duas da tarde, nos aproximávamos da bóia de entrada do canal
e, pouco depois, baixávamos âncora em frente ao rio Beberibe. Esperamos
a maré subir para entrar no Cabanga. Almoçamos e, às cinco, seguimos
para o Cabanga, apreciando um lindíssimo pôr-do-sol. Recife, nos
últimos meses, é o primeiro porto que já conhecemos. Isso aumentou a
impressão de “fim de festa”. Retornávamos e, de agora em diante, quase
todos os lugares onde iremos parar não terão mais o encanto de lugares
desconhecidos.

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Indo Mais Longe

12/11/2006 - A Mô veio para Recife a trabalho e aproveitou para nos


visitar. Fomos à praia de Boa Viagem, onde experimentei o bom caldinho
de feijão e comemos queijo coalho. Mesmo com a maré alta, tomamos um
banho de mar, bem na beirada, por causa dos tubarões.
Aconteceram mudanças nos meus compromissos pessoais e
financeiros e fomos à Polícia Federal para nos informar dos documentos
necessários para obter nossos passaportes. Agora poderíamos aceitar um
convite para ir ao Caribe. Precisaríamos do meu certificado de reservista
e eu não o trouxe. Decepção! Desisti da idéia, mas o Jonas, muito
chateado, começou a reclamar e a chorar, frustrado em suas esperanças!
Enquanto eu o acalmava, a coincidência aconteceu: a Márcia, do Cavalo
Marinho, ligou para meu celular, dizendo que gostariam muito que
fôssemos com eles para o Caribe. Não sairiam de Natal sem ter alguém
para ir com eles e se propuseram a ajudar, no que fosse possível, para que
fôssemos nós! Com as crianças chorosas e os amigos insistindo, botei a
cabeça para funcionar para conseguir meu documento. Liguei para o
Márcio que, por coincidência, estava em Ilhabela. Disse que poderia pegá-
los e nos enviaria pelo correio.
Nos despedimos da Mônica (pena ter ficado tão pouco tempo!), e
voltamos ao clube, onde encontramos os atenciosos Karina, Hans e
Marina, do Aventureiro, e o Cleydson (Torpedinho), do Curumin.
No barco, li “História do Mundo em 6 Copos”, tentando tirar da
cabeça a possível viagem ao Caribe, para não ficar muito ansioso. Parece
que tudo está conspirando para irmos e, quando a coisa começa assim...

14/11/2006 - Pegamos uma excursão para conhecer a ilha de Itamaracá,


Forte Orange e Projeto Peixe-Boi. Excursões, só para nós três, são muito
mais baratas e seguras do que alugar um carro ou pegar um táxi.
Após quarenta minutos de viagem, paramos na cidade histórica de
Igarassu. É uma linda cidade colonial, bem preservada, com as casas
pintadas de cores diferentes. Visitamos um convento, com a tradicional
“roda de doações”, onde também colocavam as crianças abandonadas.
Em seguida, fomos à igreja de São Cosme e Damião, tida como a
mais antiga do Brasil. Isso se deve ao fato dela ter sido inaugurada como
igreja, diferente das outras, que eram capelas na época de sua construção.
221
Isso, mais a construção do forte Orange, na entrada da barra, mostram
como a cidade foi importante no começo do século XVI.
Seguindo para Itamaracá, passamos pela ponte que liga a ilha ao
continente. Vimos a entrada do Projeto Peixe-Boi, em seguida o forte
Orange e paramos numa praia, que seria nosso ponto de apoio.
Descemos e vieram oferecer passeios de barco até a Coroa do Avião,
um grande banco de areia na frente da praia, e comida no restaurante,
bem caros. Preferimos tomar banho na bela praia do local. A água era
quente e limpa e vimos peixes nadando bem na beirada.
Passeamos pela praia em direção aos muros do forte. Chegando na
ponta do forte, o contornamos e andamos mais um pouco, achando um
simpático barzinho de praia, bem atrás do Projeto Peixe-Boi. Os preços
eram bons e pedimos um “escondidinho”, muito grande e gostoso!
Comemos os três e ainda sobrou!
Visitamos o Projeto Peixe-Boi, principal motivo do passeio. Um
guia nos deu as principais informações sobre esses interessantes
mamíferos. No Brasil, só existem quinhentos exemplares do peixe-boi
marinho e o Projeto trabalha na preservação, salvamento, cuidados e
readaptação deles ao meio ambiente. Vimos um esqueleto, vários cartazes
com informações sobre eles e fomos para os tanques. Ficamos
impressionados com o tamanho e tranqüilidade dos bichos! Onze peixes-
boi estavam separados em dois tanques e vinham sempre para a
superfície. Podíamos vê-los de cima e de grandes vidros na parte inferior
do aquário. São muito bonitos e, só por eles, já valeu o passeio!
Vimos um filme sobre a preservação da espécie e o trabalho bonito
da equipe. Aprendemos como é feito o resgate, os cuidados com os
peixes-boi feridos e como são devolvidos à natureza. No final do filme, a
boa notícia: peixes-boi criados em cativeiro e devolvidos à natureza
estavam se adaptando perfeitamente, inclusive se reproduzindo!
Seguimos para o forte Orange, que fica bem ao lado do Projeto
Peixe-Boi. O forte, construído pelos holandeses, historicamente muito
importante, está preservado graças aos esforços de José Amaro, um ex-
presidiário, que “adotou” o forte e cuidou de sua preservação com seus
próprios esforços. Ele já foi até ao programa do Jô Soares contar a sua
história. Estão sendo feitas muitas pesquisas arqueológicas no local e o
passeio vale a pena, pela história e beleza do lugar. A Carol pôde ver o
forte que estudara em seu livro de história, além de aprender uma grande
lição de vida, com o exemplo de José Amaro. Uma das coisas mais
interessantes da viagem é a oportunidade das crianças conhecerem a
história “ao vivo e em cores” (desta vez, com a cor “orange”!).
O retorno foi com o coração acelerado: soube, por telefone, que o
222
documento chegou ao clube. A Márcia sugeriu que encontrássemos com
eles em Natal e tirássemos nossos passaportes em Fortaleza. Liguei para
a rodoviária e soube que havia um ônibus para Natal à meia-noite. No
clube, pegamos nossas malas com toda a roupa para um ano de viagem,
pois não teríamos tempo de selecioná-las àquela hora, e todas as coisas
que precisaríamos para uma longa temporada fora do Fandango.
Avisei ao clube da nossa ausência e contamos sobre a possibilidade
de ir ao Caribe para o Cleidson, do Curumim. Muito gentis, ele e a esposa
nos ofereceram uma carona até o metrô.
Lá fomos nós, com muita bagagem, para o metrô e rodoviária.
Esperamos a meia-noite e embarcamos para encontrar nossos amigos.
Hoje foi um dos dias “mais longos” e bem aproveitados da viagem!

15/11/2006 - Após uma hora e meia de viagem, o ônibus parou. Começou


um entra e sai de gente e, logo depois, de policiais. A Polícia Rodoviária
Federal parou o ônibus e achou uma moto desmontada no bagageiro, em
vários pacotes. Ninguém se apresentou como dono dela e eles pegaram
os documentos de todas as pessoas que estavam a bordo. Quarenta
minutos depois, devolveram os documentos e removeram um casal do
ônibus. Os policiais voltaram, vasculharam o banco onde eles estavam e
acharam os comprovantes de bagagem referentes às partes da moto! A
moça voltou chorando e o ônibus partiu sem o rapaz. Fiquei
impressionado com a eficiência e a educação da Polícia com todos.
Mais uma hora de viagem e nova parada: um automóvel bateu em
um caminhão e parou toda a estrada. O acidente foi feio e não sobrou
ninguém no carro. Chegamos com duas horas de atraso em Natal, com a
sensação de que vivíamos mais seguros no mar que em terra!
Fomos para o clube. O Rodrigo e o Nick vieram nos buscar com o
bote. Carregamos as bagagens e paramos no Beduína, para ver o pessoal.
Eram seis horas da manhã e todos já estavam acordados, pensando em
seguir viagem imediatamente: só estavam nos esperando!
Tomamos café, esperamos a chuva diminuir (puxa, estava
chovendo em Natal!!!) e saímos devagar da barra, com ondas altas. O
vento estava forte e na cara, com mar grosso e chuva. Rizamos a mestra e
navegamos seis horas bem ruins. Enquanto isso, matávamos saudades de
nossos amigos e curtíamos o conforto do Cavalo Marinho.
A Carol dormiu o dia inteiro. A Márcia também não passou muito
bem. Escutamos avisos de ressaca, entre Natal e a Paraíba. Quando
dobramos o Cabo Calcanhar, no final da tarde, mudamos nosso rumo
mais para oeste e tudo ficou melhor a bordo para a tripulação, pois o
barco nem sentia o tempo ruim! Fizemos nossos turnos durante a noite e
223
os famosos alísios do Atlântico Norte, apesar de ainda não termos
cruzado a linha do Equador, se apresentaram para nos levar a Fortaleza.
Velejávamos a sete nós, com vento favorável na casa dos dezoito. As
crianças acabaram a noite vendo DVD, estilo “cineminha”, na sala do
“cinco estrelas” Cavalo Marinho! Quanta mordomia!!!

16/11/2006 - A noite foi calma e amanheceu um dia bonito. Andávamos


bem e o mar ficou mais calmo quando atingimos grandes profundidades.
Tivemos um dia excelente! Cozinhamos, as crianças brincaram com Lego
o dia todo e tentamos pescar. Tudo fica diferente com mar calmo e vento
favorável. Nossos turnos foram tranqüilos e a velejada deliciosa, sentindo
o gostinho de uma travessia para o Caribe.
No começo da noite, tudo começou a mudar. O Beduína, que estava
à nossa frente, avisou que passava por muitos barcos de pesca e muitas
bóias de espinhel. A profundidade diminuía e os problemas
aumentavam. Atentos, também passamos por elas. O vento aumentou e
as ondas também. Reduzimos a genoa e o barco ameaçava atravessar toda
hora, por causa das ondas que quebravam na popa.
Com o vento chegando na casa dos trinta nós, resolvemos deixar só
a genoa e tirar a mestra. Quando tentamos baixá-la, com o vento em popa,
ela forçou o lazy-jack e ele arrebentou. Se descêssemos a vela, ia ser difícil
arrumá-la. Mudamos de tática: fizemos o segundo rizo na mestra e
removemos a genoa. Dessa forma, continuamos navegando perto dos sete
nós, mas confortavelmente!

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Muito Trabalho em Fortaleza

17/11/2006 - Na madrugada o vento apertou mais, chegando a trinta e


cinco nós nas rajadas. O barco andava muito bem com pouco pano, mas
o que incomodava eram as ondas. Quando a profundidade chegou perto
dos vinte metros, muitas apareciam roncando e quebrando atrás dele.
Uma veio de lado e deu um banho no Rodrigo, que dormia no cockpit.
Quem conhece um Velamar 45 e sabe como o costado é alto, pode
imaginar a onda! Quando eu fazia o meu turno na madrugada, sentado
atrás do leme, escutei uma onda bater na popa e senti os respingos dela
na cabeça! Detalhe: o barco tem cockpit central e eu estava longe da popa!
O barco jogava demais. A Carol e a Márcia não estavam bem e
quase enjoaram. Íamos muito rápido e temíamos chegar à noite em
Fortaleza. Tentávamos segurá-lo, mas o vento forte e as ondas altas, nos
fazendo surfar, queriam nos fazer chegar logo. O Jonas caiu do beliche
numa das sacudidas e me deu um susto enorme, mas não se feriu.
Com tudo escuro ainda, fizemos a aproximação do porto. O dia
clareou e distinguimos o contorno do perigoso navio naufragado na
entrada do porto de Fortaleza, onde, soubemos depois, o Hugo quase
bateu quando chegou. Com a luz do dia, tudo ficou mais fácil.
O Torres veio com o bote ao nosso encontro, nos explicou como
entrar e onde colocar a âncora. Fizemos a manobra, descemos a âncora e,
quando dávamos ré para atracar, sentimos um tranco e o Rodrigo ficou
sem manobra no motor! O Torres e o Hélio pegaram seus botes e
manobraram o Cavalo Marinho com eles, levando-o para a vaga.
Agradecemos e cumprimentamos todos os amigos que estavam no
píer para nos receber, surpresos e contentes com a nossa presença como
novos tripulantes do Cavalo Marinho. Retornamos aos barcos para o sono
merecido. Após quarenta e oito horas e duzentas e cinqüenta milhas
navegadas, dormimos felizes pela chegada em Fortaleza.
Nosso sono foi rápido. Às nove e meia já estávamos acordados e,
após o café, eu, a Márcia e as crianças saímos correndo para ajeitar as
“papeladas”. A primeira parada foi a Polícia Federal, para tentar tirar
nossos passaportes, a única coisa que ainda nos impedia de ir ao Caribe.
Fomos super bem tratados e, após três horas de preenchimento de papéis,
banco e outras burocracias, estávamos com nossos passaportes nas

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mãos!!! Atendimento de primeira, profissionalíssimo e... JÁ PODEMOS
IR AO CARIBE!!! Todos ficaram muito contentes!
A próxima fase era tomarmos as vacinas contra febre amarela para
as carteiras internacionais de vacinação. Aconteceu o oposto da Polícia
Federal: má vontade de funcionários, que atrapalhavam usando a
“burrocracia”. A Márcia, com “jeitinho”, contornou tudo. Até “uma tia”
e “uma casa” em Fortaleza ela “arrumou”, para podermos tomar as
vacinas. Aprendi uma lição: nunca jogar pôquer ou truco contra ela!
Com a vacina tomada, a carteira internacional só poderia ser
conseguida na Secretaria de Saúde. Por sorte, era perto e lá fomos nós,
correndo três quadras, carregando o Rafinha nos ombros, para chegar a
tempo. Quando chegamos, o guarda nos disse que já havia fechado, mas,
olhando melhor para nossas caras decepcionadas, suadas e aquele monte
de crianças, falou para subirmos rápido, pois o funcionário ainda não
havia descido. Deixamos as crianças no saguão e subimos quatro andares
de escadas, correndo novamente, pois o elevador demorava. Valeu a
pena!!! Um funcionário gentil, o Raul, nos recebeu e fez nossas carteiras,
em plena sexta-feira, já encerrado seu horário de trabalho!
Com tudo resolvido, no limite exato do tempo, voltamos à marina,
onde tomei cervejas com o Rodrigo, Hélio e Fernando, falando da vida e
sentindo estar com tudo pronto. Jantamos no barco e fomos dormir, na
minha primeira noite de bom sono, depois de três noites mal dormidas.
Os quatro últimos dias foram uma loucura e mudaram muito
nossos planos. Foi um sono tranqüilo, com mais nada nos impedindo de
realizar o sonho impensado de chegar ao Caribe navegando!

Impensado, mas lá estávamos nós, nos deixando levar pelo fluxo da


vida. Nosso sonho se estendia, crescia em tamanho e nos levava para
lugares nunca imaginados. Para isso, precisamos nos permitir sair da
segurança de um roteiro pré-fixado e perder alguns lugares do roteiro
que não poderiam ser visitados. Tudo na vida tem um preço e o
pagaríamos com um sorriso nos lábios

Que bela estrutura tem o “cinco estrelas” Marina Park! Salões de


jogos, diversas atividades, monitoras e... praticamente não precisávamos
cuidar das crianças! O grupinho, Jonas, Carol, Talita, Nick e Rafinha, saia
de manhã e voltava ao final do dia. Passavam o tempo brincando,
cuidando uns dos outros e fazendo suas atividades, sem briga alguma.
De vez em quando os procurávamos, para ver como estavam e dávamos
as refeições nos horários certos. No mais, “esquecíamos” deles!

226
Nós trabalhávamos o dia inteiro nos barcos, consertando,
instalando, limpando, comprando e carregando coisas, para a longa
viagem que teríamos pela frente. Arrumando meus óculos numa ótica, vi
uma frase que me tocou, pois é o que vivemos.
Só tive uns “probleminhas” com o Jonas no primeiro dia que, com
a brincadeira, não fez quase nada dos seus deveres. Resultado: o pessoal
saiu para passear e nós ficamos no barco, acabando as obrigações. Após
botar “ordem na casa”, tudo foi “de vento pelo través”!
Tudo se organizava: o Bernardo e a Beta, que iriam no Kaká-
Maumau, chegaram e reuniões alegres foram feitas, para se definir as
paradas do rally. Não pudemos conhecer Fortaleza e imediações, mas
vimos o suficiente para ficar com muita vontade de voltar um dia!

20/11/2006 - O Rodrigo saiu para comprar parafusos para o acoplamento


reversor-eixo, que haviam caído, por isso o motor não engatava em nossa
chegada. Eu e a Márcia percebemos que o Cavalo Marinho estava se
aproximando demais do píer, pois jogava muito com as marolas que
entravam na marina. Caçamos a corrente da âncora, mas logo ele estava
perto do píer outra vez! Fomos caçando a corrente, até termos recolhido
quinze metros dela. Mesmo assim, ainda havia muita corrente na água.
Começamos a nos preocupar, pois, sem o motor, não poderíamos
sair para soltar novamente a âncora, se precisássemos. Isso durou duas
horas, caçando a âncora e mexendo com os cabos de atracação, até que ela
parou de ceder. Provavelmente, a corrente não estava esticada e, com os
trancos, escapou de algum lugar no fundo onde estava presa. Quando
esticou de verdade, o problema acabou. Precisamos amarrar um cabo na
corrente, pois ela saltava fora do guincho pela violência dos trancos. Para
aumentar a segurança, soltamos uma segunda âncora com o bote e o Tim,
do veleiro inglês Rose Rumbled, nos ajudou na operação. O Rodrigo
chegou na hora que acabamos! É a velha “lei de Murphy”!

25/11/2006 - Depois de tantos dias de trabalho, hoje é dia de zarpar para


o Caribe! O Cláudio, um amigo do Hugo, com o qual nos identificamos
muito e que nos ajudou bastante, chegou para as despedidas e trouxe o
livro Kon-Tiki de presente para o Jonas. Enchemos o tanque de água,
lavamos o barco e soltamos os cabos. Quando o Rodrigo tentou engatar o
motor, um barulho forte começou a vir dele. Tentamos sair, mas após
andar trinta metros, vimos que não daria para navegar, por causa da
vibração. A melhor opção era voltar e resolver o problema.
Despedimo-nos do Beduína, que seguiu viagem e, atracamos
frustrados, com a ajuda do Cláudio e de um bote de apoio, por causa do
227
forte vento lateral. O eixo parecia estar desalinhado ou empenado, o que
causava uma forte vibração e barulho quando o motor era engatado.
Sendo tarde de sábado e sem mais o que fazer, tomamos cervejas e
comemos esfihas. O Rodrigo falou pelo SSB com o Torres, que estava em
Lençóis. As condições de ancoragem lá não eram boas e ele logo sairia.
Fomos ao Dragão do Mar, um centro cultural com restaurantes
perto da marina, para esquecer a decepção da “quase partida”.

26/11/2006 - Conhecemos o “Boy”, um amigo do Ladislau e da Thereza,


no hotel. Ele dá apoio a muitos velejadores famosos nas competições.
Ao ligar para um mecânico, o Rodrigo chegou à conclusão que o
problema é que o eixo empenou por causa dos parafusos que caíram.
Fomos ao “Colher de Pau”, um restaurante de comida típica da
região, indicado por meu irmão. Comemos carne-de-sol, paçoca e o
famoso baião-de-dois, mistura de arroz, feijão verde e temperos. O Jonas,
nosso especialista em feijão, aprovou-o com méritos. Passeamos pelo
Dragão do Mar, onde tomamos sorvetes e as crianças brincaram.

27/11/2006 - Logo cedo, o Rodrigo foi atrás do Bitonho, recomendado pelo


Cláudio, um “faz tudo” em barcos e que conhece todos do estaleiro
INACE. Com ele, fomos até o estaleiro, único lugar da região aonde o
barco poderia ser levantado. Conversamos com o Robert, responsável
pelo estaleiro, amigo do comodoro Bernardo e velejador de Hobbie Cat.
Coincidência: ele conhece o Ladislau e a Tereza e, atrás de sua mesa, há
uma foto de Ilhabela, do último ano que o Ladis correu de Hobbie Cat!
Infelizmente, o guindaste que seria usado para puxar o Cavalo
Marinho sairia para fazer um serviço fora. Enquanto conversávamos com
o Robert, o João do Guincho apareceu, dizendo achar melhor sair no dia
seguinte, para o guincho não dormir fora. Que sorte! Marcamos, a subida
do barco no começo da tarde.
Retornamos contentes, passando pelas dezenas de barcos de pesca
e navios parados no estaleiro. Na hora combinada, seguimos para lá e
esperamos. Parados entre uma grande balsa com mais de cem metros de
comprimento e vários pesqueiros, vimos que a operação ia ser difícil.
O responsável pela subida, o Popô, mergulhou para coordenar a
operação de dentro d’água. O grande guindaste foi até a ponta do píer e
os pesqueiros foram afastados. O Cavalo Marinho foi posicionado ao lado
do píer e grandes cintas desceram para serem passadas por baixo do
barco. Foi preciso remover o estai de popa do mastro principal e recolher
a antena de SSB, o amantilho da retranca e os lazy-jack’s da mestra, para
que a grande roldana com dois ganchos pudesse entrar para prender as
228
cintas. Eram necessários dois homens para segurar a ponta da cinta!
Qualquer erro poderia provocar um grande estrago, em virtude dos
grandes pesos e esforços que eram exercidos.
Depois de um bom tempo de preparação, com as cintas passadas,
descemos e fomos observar do bote. O Cavalo Marinho começou a subir
e os funcionários do INACE o controlavam com cabos. O Rodrigo estava
com o “coração na mão” e, depois de dois leves toques no concreto sem
estragar nada, o Cavalo Marinho estava em cima do píer!
Após a manobra, com sobras de emoção para quem via da água,
encostamos o bote num pesqueiro, galgamos seu costado, pulamos para
o píer e escalamos o guincho para chegar ao barco. Desmontar o eixo não
foi coisa fácil! Ele estava emperrado, pois entrou sob pressão na cruzeta.
Após duas horas de trabalho duro na casa de máquinas apertada,
conseguimos soltá-lo! Ao removê-lo totalmente, notamos que estava
muito empenado e soubemos que só seria arrumado amanhã. Foi um
balde de água fria, só de imaginar uma nova subida do barco!
Nos arrumaram um pedaço de eixo para ser encaixado no buraco
para não entrar água, fechamos o selo mecânico e o barco foi recolocado
na água. O hélice também precisava de reparos e ficou com os
funcionários do INACE. Sem eixo e, conseqüentemente, sem motor,
rebocamos o barco com dois botes para a enseada entre o estaleiro e a
marina. Ancoramos e fomos buscar o pessoal em terra para contar todas
as peripécias de um dia cheio de emoções e muito atribulado.

28/11/2006 – Logo cedo, fomos ao INACE para ver como estavam o eixo e
o hélice. Surpresa!!! Os dois estavam prontos! Ainda seria fabricada uma
porca para substituir a porca do hélice, que estava fora de medida e que
quase causou a perda dele! Voltamos contentes ao barco.
No final da tarde, peguei o Jonas e visitamos o fantástico estaleiro,
o maior particular do Brasil, e vimos os lindos barcos que fabricam.
Trawler’s luxuosíssimos, extremamente bem acabados e um novo barco
patrulha da Marinha do Brasil, dividiam espaço na área de construção. O
lugar é ótimo para fotografar e a visita valeu muito para o Jonas, que quer
ser engenheiro naval. Tivemos a boa notícia que o guincho está voltando
e amanhã poderemos tirar o barco para acabar o serviço!
A Márcia levou o Rafinha no médico. Descobriu que ele está com
infecção de ouvido e garganta e terá que tomar antibióticos.

Santo empenamento! Se tivéssemos seguido com o Beduína,


teríamos perdido o hélice no meio do caminho, ficando sem motor, e

229
teríamos o Rafinha bem doente na longa viagem, sem contato com
médicos. Nada acontece por acaso!

29/11/2006 - Como tudo que se faz pela segunda vez fica mais fácil, às dez
da manhã já subíamos o barco, com tudo em ordem. Desta vez, a tensão
foi menor e até fotografei a subida. Eu e o Rodrigo escalamos o barco e
removemos o eixo emprestado. O eixo desempenado foi recolocado e, ao
meio-dia, descíamos o barco arrumado. O Rodrigo ligou o motor,
manobramos o Cavalo Marinho e o levamos até a marina. O motor não
vibrava nada! Estava melhor do que antes.
Manobramos o barco e encostamos ao píer. Não havia ninguém lá
e tive de laçar o cabeço para amarrar o barco. O Rodrigo desceu para
amarrar direito os cabos e aconteceu o único acidente de todo o conserto:
lá foi o Rodrigo para dentro da água, quando tentou subir no píer!
Arrumamos tudo e resolvemos seguir para o Caribe amanhã.
O Cláudio apareceu para se despedir novamente e demos um
grande abraço no novo amigo, prometendo não perder comunicação.

230
33
A Galope para o Caribe!

30/11/2006 - Dia de ir para o Caribe, FINALMENTE!!!


Acordamos tarde e tomamos o café em alto estilo no hotel.
Arrumamos as últimas coisas no barco e soltamos as amarras ao meio-
dia. Passamos ao lado dos windsurf’s, do Campeonato Mundial, que
estavam para largar, e rumamos para mar aberto, deixando Fortaleza.
A navegação foi feita para chegarmos o mais cedo possível em
grandes profundidades, o que diminui o tamanho das ondas e nos coloca
fora dos pesqueiros do local. Golfinhos brincalhões vieram até o barco e
ficaram na proa, fazendo seu sempre belo balé. A Carol dormia e não
acordou para vê-los. Todos se acostumavam novamente ao mar e eu
ajudava no que podia. Ao anoitecer, comemos coisas gostosas que a
Márcia fez antecipadamente e começamos nossos turnos da noite, sem
ver muitos barcos, em função da rota que fazíamos.
A nota engraçada da noite foi do Rodrigo: ele dormia
tranqüilamente no cockpit, quando despertou com um “bicho” em cima
dele. Deu um grito, saltou para o outro acento e o “bicho” caiu em cima
do Nick, que dormia no chão. Era um peixe voador, que se debatia
freneticamente!!! O Nick nem acordou e o peixe foi devolvido ao mar.
Começamos bem nossa viagem de mais de mil e seiscentas milhas
até Tobago, com ventos pelo través de vinte nós e correnteza de dois nós
ajudando! Estamos na “auto-estrada” dos ventos e correntes, que há
centenas de anos leva os navegadores ao Caribe.

01/12/2006 - Meu turno da noite transcorreu tranqüilamente e a única


novidade é que o lazy-jack quebrou novamente! Fui para a cama às cinco
da manhã e acordei eram quase dez. Ao sair para o cockpit, estava
armada uma festa! Vi vários balões coloridos, com “carinhas” feitas em
papel pelas crianças e vários cartazes de “Feliz Aniversário”, para
comemorar o meu quadragésimo quinto ano de vida.
Ganhei o livro “Pai Rico, Pai Pobre” como presente da tripulação
do Cavalo Marinho. Também ganhei um bom vento de Éolo e um bom
mar de Netuno, que fez a moral da tripulação crescer muito.
Com um sol bonito brilhando, fomos para a proa e lá, com um balde
e shampoo, tomamos banho de mar! Normalmente, isso tira o “bode” do
começo de viagem e dá uma disposição extra para todos.
231
A Carol e a Márcia, que sofreram um pouco de enjôo no primeiro
dia de viagem, melhoraram totalmente. Fora a saudade das pessoas
queridas, passar esse aniversário no mar foi muito bom! Para o almoço
comemorativo, comemos lasanhas e, no começo da noite, beliscamos
pães, patês, tomates secos, berinjela refogada e queijos.
Um pássaro pequeno veio atrás do barco e pousou sobre o painel
solar. Cheguei a dois metros dele!
Soube que, durante a noite, uma luva pendurada no “dog-house”
caiu sobre o Rodrigo, que dormia no cockpit. Assustado, ele deu um pulo
e um grito, achando que era outro peixe voador!

02/12/2006 - Ao acordar, estávamos perto da linha do Equador. Ficamos


esperando ansiosos, olhando o GPS, e a cruzamos às cinco e quarenta da
manhã. Eu, o Jonas, a Carol e a Márcia estávamos acordados e
comemoramos o acontecimento.
O vento diminuiu e nossa velocidade caiu para seis nós. Passamos
um dia agradável e, no meio da tarde, as crianças cobraram outro banho
de balde (você já viu criança pedir para tomar banho em casa?!!!). Lá
fomos nós para a proa do Cavalo Marinho, com shampoo e toalhas.
No começo da noite, o vento caiu mais um pouco. A noite
transcorreu muito tranqüila, sem nenhum navio à vista.

03/12/2006 - Navegávamos para noroeste, quase a direção onde a lua


descia. O mar, à frente, ficou todo brilhante por várias horas. Quando
alguma nuvem grande passava, eu via manchas negras no mar prateado.
Bonito demais!
Acabei meu turno às duas e meia da manhã e chamei o Rodrigo.
Acordei às seis e meia e a Márcia falou para eu descansar mais um pouco,
pois estava dando café para as crianças. Levantei às oito! Esta viagem está
sendo uma grande mordomia! Como a tripulação é grande, todos
dormimos bastante. Não há “fominhas” e todos pensam nos outros,
muitas vezes estendendo seus turnos quando não estão com sono, para
os outros descansarem. Tripulação perfeita e responsável, inclusive as
crianças, que aprendem pelo exemplo!
Tomei meu café e fiz um turno com as crianças. O vento estava
ainda mais fraco e o mar mais liso. As crianças quiseram ir para a proa,
sentar na cadeirinha no bico do barco. Lá, vimos muitos peixes voadores,
que a toda hora saiam da água. O Jonas disse que viu um grande, do
tamanho de uma tainha! Neste terceiro dia, todos estão bem mais
acostumados ao barco e aproveitando mais nossa travessia. No almoço,
espigas de milho verde cozidas e macarrão com molho de tomate e frango
232
defumado fizeram a alegria de todos! A sobremesa foi bolo de chocolate
feito na hora que, apesar de não ter crescido, por causa do chacoalhar do
fogão, estava ótimo.

No nosso quarto dia de viagem, ainda faltando seis dias pela frente,
a água do tanque acabou, por causa de algum vazamento. O que poderia
ser um problemaço para alguém desacostumado ao mar, não nos causou
stress algum. Ninguém se incomodou! Tínhamos muita água mineral
para beber, em galões de vinte litros. Tomávamos banho e passamos a
lavar louça com água do mar. Para escovar os dentes, passamos a usar
meio copo de água mineral.
Se me dissessem, antes de sairmos de viagem com o Fandango, que
eu iria ficar seis dias num barco sem água doce no tanque, eu posso dizer
que ficaria muito preocupado. Aprendemos, depois, que tudo é simples
e fácil e que o mar é nosso grande provedor!

04/12/2006 - À noite, o vento aumentou e o turno da madrugada foi


lindíssimo, com uma lua muito cheia indicando nosso caminho. No final
do meu turno, após a lua se pôr e o dia raiar, dormi e só acordei às dez.
O dia de sol nos chamou para a proa, bem na frente do dog-house,
que se tornou o cantinho para conversarmos. Os assuntos são vários:
família, barcos, trabalho, planos de vida, educação das crianças, etc.
A média de singraduras é de 160 milhas por dia, o que dá cerca de
6,8 nós de velocidade média. Ainda não tivemos sinal dos doldruns e sua
total falta de vento.

05/12/2006 - O Jonas, sempre atento, viu um grande navio vindo na


mesma direção e que passou a duas milhas e meia de nós.
O dia estava meio encoberto e havia muitas nuvens na direção de
mar alto. O Rodrigo conseguiu falar no SSB e pegou as posições do
Beduína e Kanaloa, os dois à nossa frente. Todos estão muito bem a
bordo. As crianças ficam horas brincando com Lego e não dão trabalho
algum. Nenhum deles passou mal de enjôo. Dediquei minha tarde à
leitura do “Pai Rico, Pai Pobre”.
No final da tarde, entrou um pirajá forte, que levou o vento para a
casa dos vinte e oito nós. Como o Cavalo Marinho é muito robusto,
simplesmente arribamos para pegar o vento por alheta e abrimos um
pouco as velas. A chuva, que veio com o pirajá, molhou todo o cockpit,
mesmo com bimini e dog-house! Quinze minutos depois, tudo acabou.
Durante o turno da noite, outros pirajás semelhantes entraram.

233
06/12/2006 - Quando acabei meu turno da madrugada, o vento
enfraquecera muito. Acordei às oito, com o dia ensolarado, mas com
muitas nuvens em toda nossa volta. Tomamos o café e coloquei as
crianças fazendo diários e estudando (não sem algum esforço!).
Durante a tarde, mais alguns pirajás entraram e, quando eram cinco
horas, entrou um mais forte, que não nos deixou tomar o tradicional
banho de mar no final da tarde. Este, além de forte, com rajadas de trinta
nós, não parou. Recolhemos a mezena, para passar a noite tranqüilos, mas
deixamos a mestra toda em cima. Nos defendíamos e aproveitávamos o
vento para avançar na direção de Tobago.
De repente, entrou uma rajada muito forte, com mais de quarenta
nós de velocidade aparente e nos fez dar um jibe involuntário e
atravessar, pois veio de outra direção! Foi o maior pandemônio! Ficamos
aquartelados no sentido contrário para o qual íamos, com o barco
adernado (ainda bem que o Cavalo Marinho é bem pesado e não deitou
demais). Escutei barulho de coisas caindo dentro do barco e começamos
a agir: soltamos a genoa para ela passar para o outro lado e panejar; e
soltamos, aos poucos, o preventer para não danificar mastro e retranca.
Com as velas do lado certo e o vento assobiando a trinta e quatro
nós constantes, fechamos a genoa e olhei para dentro para ver se todos
estavam bem. O que eu vi foi hilário! As crianças continuavam assistindo
a um filme, deitados, do mesmo jeito que estavam antes, só que com um
travesseiro em cima da cabeça por causa das coisas que caíram! Nem
perder a atenção do filme, eles perderam!
O vento soprava forte, com trinta nós constantes e trazia nuvens de
chuva com rajadas mais fortes. Ficamos com o vento entre través e alheta,
folgando as velas quando era necessário.
Quando houve condições, fizemos o segundo rizo na mestra. A
partir daí, tudo melhorou. Com a mestra bem menor e a genoa
parcialmente enrolada, podíamos correr facilmente com o vento, que
soprou, na rajada mais forte, quarenta e um nós de vento aparente
(calculo uns quarenta e cinco nós de vento real nessa rajada!).
A noite foi longa! O vento e a chuva só arrefeceram perto do
amanhecer e, enquanto isso, eu e o Rodrigo nos revezávamos ou
ficávamos juntos no cockpit. A Márcia cuidava das crianças, que
dormiam tranqüilamente. O mar também ficou bem grosso e acho que as
ondas chegavam a três metros de altura ou mais, pois as víamos chegando
na altura dos painéis solares da targa do Cavalo Marinho.
Fora a atravessada do início da noite, tudo correu normalmente e o
barco se mostrou muito marinheiro em mar grosso e vento forte. Quando
amanheceu, com o vento bem mais fraco, mas com o mar ainda grosso,
234
pude dormir, enquanto a Márcia e o Rodrigo assumiram o comando. Tirei
a roupa de tempo e, gelado e molhado, peguei uma manta para deitar.
Nunca gostei tanto de um cobertor!

07/12/2006 - Após três horas de sono, acordei ainda gelado. Só comemos


uma caixa de Bis durante a noite e eu estava louco por algo salgado. O
vento diminuíra muito, a chuva parou e o mar estava bem mais calmo. A
Márcia fez pizzas, que estavam divinas com o apetite que estávamos.
Ligamos o motor, pois o vento acabou de vez. Passamos o dia
velejando com vento fraco e motorando. Analisando com o Rodrigo,
chegamos à conclusão que deveríamos ter feito o rizo na mestra quando
o sol se pôs, em virtude dos pirajás que sopravam.
Comemos, dormimos e descansamos bastante, para nos recuperar
da noite mal dormida. No final da tarde, golfinhos apareceram e
brincaram na proa do barco por muito tempo. Corremos todos para lá e,
desta vez, a Carol era a primeira da fila.
Começou a cair uma garoa fina, que não evitou nosso banho de mar
no cockpit. Mesmo estando frio, precisávamos dele! Anoiteceu e o
Rodrigo conseguiu contato com o Torres. O Kanaloa pegou quarenta nós
de vento e ondas de cinco metros, mas tudo correu bem.

08/12/2006 - A noite foi de ventos inconstantes e não muito fortes.


A Márcia estava animada e fez um strogonoff para o almoço. Picou
a carne toda, que foi comprada inteira, e fez a comida, com vinte e cinco
nós de vento e ondas de três metros, com o barco jogando o tempo todo
e as panelas escorregando pela pia de um lado para o outro! Só quem já
cozinhou num barco, sabe o que é isso!
Durante o dia vimos um navio, que passou em rumo cruzado com
o nosso e bem perto. Velejamos bem o dia inteiro e o vento se manteve
entre quinze e vinte e três nós. Antes de anoitecer, fizemos o segundo rizo
na mestra, com medo dos pirajás.
Quando escureceu, cruzamos com outro barco. Os turnos da noite
foram com ventos entre dezessete a vinte e três nós e mar com ondas de
dois a três metros de popa, nos empurrando para nosso destino.

09/12/2006 - De manhã, um pássaro pousou nos painéis solares e depois


mudou para o bote. Ele é branco, pequeno e parece uma pequena garça.
Não imagino como ele veio parar aqui, mas não é pássaro para estar tão
longe da costa. Parecia estar muito cansado. A Márcia tentou dar comida
para a ave e ela deixou-a por o prato de comida sob o seu bico! Pena que
não comeu. A ave só permitia que a Márcia se aproximasse menos de dois
235
metros. Qualquer outra pessoa que tentava, ela se assustava e voava! Que
engraçado!
As crianças fizeram seus diários e suas lições, mesmo com o mar
agitado, pois estão bem acostumadas, depois de nove dias no mar.
Numa rajada, depois de ficar o dia inteiro conosco, nossa amiga ave
se soltou da churrasqueira, onde se empoleirara, tomou uma chicotada
da escota da genoa e caiu na água. Decidiu que a carona não estava segura
e resolveu ir embora.

10/12/2006 - Acordei às duas e meia para meu turno e o vento acabou.


Ligamos o motor e motoramos até as sete horas da manhã. Durante o
percurso, passamos por quatro ou cinco pesqueiros e precisei desviar de
um deles. Estamos cada vez mais perto de Tobago e o trânsito de barcos
está aumentando. Quando o vento voltou, desliguei o motor e o Rodrigo
acordou. Tiramos o rizo da mestra e fui dormir balançando bastante.
Quando acordei às dez, lembramos que hoje faz um ano que saímos
de Ilhabela! Ficamos muito contentes, pois, provavelmente,
comemoraremos o aniversário chegando ao Caribe! Tive o prazer de
escutar o Jonas falar que este foi o melhor ano da vida dele! Acho que, na
verdade, foi o melhor ano na vida de todos nós.
As crianças fizeram as lições e ficamos todos na expectativa de
avistar a ilha, que demorou a aparecer. O tempo estava nublado e onde
deveria haver a ilha, víamos apenas nuvens. Eram três horas da tarde
quando o Rodrigo avistou terra! Um pouco à direita da direção em que
seguíamos, apareceu um contorno pouco nítido de uma costa pouco
elevada. Comemoramos muito e não perdemos mais a ilha de vista.
Ela se tornou cada vez mais nítida e a vontade de chegar, depois de
dez dias no mar, aumentou muito. Chegando mais perto da ilha,
colocamos as camisetas do rally Cabedelo-Caribe. A costa ao norte era
mais elevada e ao sul ia abaixando, onde se localizava o aeroporto.
Com o coração aos pulos, nos aproximamos do ancoradouro, numa
bonita praia ao sul da ilha, chamada Milford Bay. Falamos com os outros
barcos, que estavam nos esperando. Eram quase seis horas da tarde no
Brasil, cinco horas locais, quando entramos no ancoradouro!
Na hora de baixar a mestra, o único acidente da viagem aconteceu:
por ansiedade, soltei muito o freio da catraca da vela mestra, que desceu
com tudo, girando a manicaca que estava presa na catraca. Não consegui
segurá-la e levei três pancadas fortes na mão. A vela caiu sem maiores
problemas, mas minha mão ficou doendo, parecendo quebrada. Mesmo
com dor, arrumamos a vela e fui curtir a chegada.

236
Os barcos Kanaloa, Kaká-Maumau, Beduína e Tess já estavam no
local. Passamos por eles e eles tocaram suas buzinas e sinos, nos dando
boas vindas. O Rodrigo deixou o timão, foi para a proa. Nos demos as
mãos e as elevamos, em sinal de alegria, agradecimento e vitória, por
termos chegado bem, depois de dez dias e seis horas de viagem.
O Hugo pulou na água e veio a bordo nadando. O Bernardo e o
Hélio vieram com o bote, trazendo uma caipirinha, talvez o maior
símbolo brasileiro depois do futebol, que foi consumida rapidamente.
Soltamos a âncora e recebemos todos no Cavalo Marinho, para
contar as novidades das travessias. Foram momentos inesquecíveis na
nossa vida! As crianças encontraram a Talita e fizeram a maior festa! A
mão doía menos e percebi que não havia fratura, ficando sossegado.
Tentei me lembrar, mas não me recordei da última vez que vi um
grupo tão feliz e realizado. O objetivo de todos estava realizado ali: ter
seus barcos, suas “casas”, ancorados numa pequena ilha paradisíaca do
Caribe! O sonho de chegar estava realizado. Agora só resta aproveitar
essa nova realidade, que mais parece um sonho. Quanto a nós, ter feito
essa travessia com pessoas tão especiais foi um presente e tanto!
Todos se surpreenderam que as crianças não deram trabalho
nenhum no barco (ao menos, nenhum a mais do que dariam
normalmente em terra!) e riram muito com a história dos travesseiros na
cabeça, após nosso jibe involuntário.
Quando começou a escurecer, tomamos banho de mar na popa e
fomos para terra. Escutamos reagge num barzinho e conversamos,
enquanto as crianças brincavam de esconde-esconde ao lado do bar.
Pedimos um “roti” de carne, comida típica local, para o jantar. Era
um tipo de panqueca de milho dobrada, com carne e batatas cozidas,
preparada com muito curry e pimenta. Adorei, o Jonas também, mas a
Carol não comeu muito, pois não gosta de coisas apimentadas.
Conhecemos um brasileiro, que mora na ilha e trabalha com
mergulho, e o Bill, americano que viaja num catamarã com a filha de doze
anos. Após papearmos muito e as crianças matarem as saudades da
Talita, Jesse e Riley, e de brincarem com espaço, voltamos ao barco.
Nossa comemoração de aniversário de viagem foi de um jeito que
eu nunca poderia ter sonhado, quando saímos de Ilhabela um ano antes:
chegar numa ilha paradisíaca do Caribe, todos bem e alegres, encontrar
esse grupo de velejadores amigos, tomar um banho no mar caribenho e
escutar, de meu filho, que este foi o melhor ano da vida dele!
Obrigado, Papai do Céu! Obrigado Rodrigo, Márcia, Nick e
Rafinha! Obrigado Cavalo Marinho!

237
Nunca imaginamos ir tão longe! Nunca imaginamos fazer amizades
tão intensas durante nossa viagem! Cada tripulação tem sua história de
vida e suas dificuldades, mas todas essas pessoas têm as características
de “sonhar” e “ousar tornar seu sonho realidade”, o que faz dessa tribo
dos “vagabundos do mar”, como são carinhosamente chamados, pessoas
especialíssimas.

11/12/2006 - Acordamos cedo para aproveitar o Caribe e fazer nossa


papelada de entrada no país. Fui com o Rodrigo, o Torres e a Eliza para
Scarborough. Os preços de táxi variam muito e há carros particulares que
fazem esse serviço bem mais barato. E têm autorização para isso!
Scarborough, onde há um porto, é feia e muito tumultuada (ainda
bem que não ficamos lá!). Passamos pela imigração e pela alfândega, onde
preenchemos vários papéis, mas foi fácil e relativamente rápido. Em cerca
de três horas tudo estava resolvido.
Procuramos um restaurante pela cidade e almoçamos no KFC
sanduíches de frango apimentado (só se vê carne de frango aqui!).
Compramos nossas passagens aéreas para Trinidad, onde pegamos
uma fila enorme. As pessoas têm mania de dar broncas nos outros. Dá
para sentir uma certa “tensão” no ar. O Rodrigo tomou uma, por apoiar
num balcão na companhia de aviação. Pode ser coincidência, mas a
bronca era sempre de um branco num negro ou vice-versa.
Voltamos no final da tarde e fomos para a linda praia, na frente dos
barcos. O pôr-do-sol foi lindíssimo, descendo atrás dos veleiros.
Anoiteceu e ficamos na praia, com o Hugo, Gi e Talita.
Jantamos macarrão com a tripulação do Beduína, vendo o céu
estrelado do Caribe, tomando vinhos e conversando sobre nossas
viagens. Eles adoraram a ilha de Lençóis! Deu vontade de conhecê-la.

12/12/2006 - Fiz tapiocas para o café da manhã. O pessoal gostou muito!


Pena que não vão achar goma de tapioca no Caribe e a que levamos
acabou.
Todas as tripulações foram mergulhar em Bucoo Reef, com os botes
de apoio. O lugar é muito bonito e a água é quente e transparente. Vimos
muitos peixes, quase todos iguais aos nossos e muitos corais que não
temos no Brasil. Quando mudamos de lugar, o Rodrigo viu uma ilhota de
areia e fomos para lá. Que lugar incrível! A ilhota tem uns dez metros de
comprimento por quatro de largura e, de lá, se vê a parte interna de Bucoo
Reef. Simplesmente, via-se todas as cores possíveis de água, pois, ao lado
do banco, a profundidade varia muito. É lindíssimo! Mergulhei ao lado
do banco e encontrei várias conchas, parecendo os nossos pregoaís, só
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que bem maiores, do tamanho de um punho fechado. Sempre que eu
sonhava com alguma coisa do Caribe, era com um lugar desses! Depois
do mergulho, voltamos para a praia do ancoradouro.
Fui ao barco com o Rodrigo, para a dura tarefa de arrumar as malas.
Quando retornamos para a praia com o bote, havia muitas ondas. O
Rodrigo entrou no tempo errado, na frente de uma grande onda. Ela veio
por trás e levantou o bote, que atravessou e nos jogou na praia! Rodrigo,
que estava atrás, deu um salto digno da Daiane dos Santos e caiu em pé,
no seco. Eu fiquei no bote e levei um bom banho!
Curtimos a gostosa praia caribenha e voltamos ao barco para buscar
as malas. Nossa entrada na água com o bote foi digna da saída, com outra
onda nos pegando e outro pulo do Rodrigo (sem estilo desta vez, pois
caiu dentro da água!). Desembarcamos as malas na outra praia, para não
haver riscos, e as levamos ao restaurante onde jantaríamos.
Foi engraçado entrarmos no chique “Coco-Café” só de sunga, com
areia nos pés e carregados de malas! Para piorar, a sunga de banho fora
do Brasil leva o termo genérico “speedo” e, pelo que contaram, só gays
usam. O Ken e o Bill ficaram nos “perturbando” na praia, com isso. Como
diziam: “Speedo? Ou é gay ou é brasileiro!”.
Após o delicioso jantar, no qual fomos convidados do Rodrigo e da
Márcia, fizemos a parte mais dura da travessia: despedir dos amigos, pois
todos vieram ao restaurante. Com lágrimas querendo vir aos olhos,
abraçamos o Ken, a Ângela e as crianças do Tess, o Bill e a Katherine do
barco americano, o Torres e a Eliza do Kanaloa, o Hugo, a Gi e a Talita do
Beduína (com direito a lágrimas das meninas pela terceira vez!) e nossos
anfitriões Rodrigo, Márcia, Nick e Rafinha. Esse grupo de amigos
queridos soube nos cativar completamente, nesses muitos dias que
passamos juntos, e esperamos que eles tenham excelentes dias em suas
navegadas pelo Caribe.
O Jonas quis passar outro abaixo-assinado para ficarmos mais, mas
não deixei!
O Rodrigo, Hugo, Nick e Talita foram conosco ao aeroporto.
Despedimo-nos e entramos no pequeno avião a hélice, que nos levou para
Trinidad em vinte minutos. Dormimos num hotel próximo ao aeroporto,
ruim e muito caro. Já sentíamos falta dos amigos, que queriam que
ficássemos para as festas de final de ano de qualquer jeito. Mas a viagem
para o Caribe já valeu! E Muito!!!

239
34
Que Saudade Eu Tenho da Bahia!

Retornar de avião para Recife foi muito desconfortável. Espera


grande em aeroportos e viagens em aviões pequenos, sem espaço entre
os bancos. Perderam nossas malas, mas conseguimos recuperá-las. Foi
uma aventura! E, com certeza, muito mais desconfortável e arriscada do
que a ida para o Caribe no Cavalo Marinho.

14/12/2006 - O Fandango nos esperava no Cabanga, totalmente em ordem,


sob os cuidados do sr. Hélio.
Encontramos o Cleidson e sua esposa no clube, contamos da nossa
viagem e soubemos a origem do apelido dele, “Torpedinho”. Ele vem de
um tio, que tem a engraçada história de ter entrado feito um “torpedo”,
com um day sailer zerinho, no costado de um Brasília 32, por não saber
manobrá-lo. O tio, que fez essa trapalhada, ficou conhecido como
“Torpedo” e o Cleidson herdou o apelido no diminutivo.

15/12/2006 - Conhecemos o Felipe, dono do Kilimandjaro, que está com a


esposa e a filha retornando para Angra, após terem corrido a Refeno. Ele
está sem motor e instalou um painel solar para o piloto automático, para
poder voltar velejando.
O Torpedinho nos trouxe o computador, o Jarbas e o Alfredo, que
ele, gentilmente, guardou para nós.

16/12/2006 - Arrumamos tudo e, no começo da tarde, deixamos Recife. Na


saída, um susto: removeram as balizas de sinalização do canal e
encalhamos duas vezes! Saímos com cuidado (ainda bem que o fundo é
lama mole) e seguimos para o porto.
Velejávamos com um bom vento leste e coloquei a linha de pesca
na água. Na frente da praia de Boa Viagem, o molinete “cantou” e
pegamos uma bonita cavala, com uns três quilos! Salguei dois grandes
filés e outros dois viraram sashimi, que comemos ao pôr-do-sol! Tem que
ter sempre shoyo e limão no barco para essas ocasiões!
O dia e a noite foram de boa velejada. Cruzamos com muitos barcos
de pesca. À noite, o vento apertou e fiz o rizo na mestra, para as crianças
dormirem bem. O céu estava todo estrelado e a noite sem luar.

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17/12/2006 - Desistimos de parar em Maceió para dormir, pois consegui
descansar bastante durante o dia. Fiz um risoto, com um filé do peixe
salgado, leite de coco e ervilhas.
Outra noite totalmente estrelada se apresentou, após um belo pôr-
do-sol. O vento continuou de nordeste e fazíamos seis nós de média.
Assumi meu turno à noite e passamos bem perto, a cem ou duzentos
metros, de um grande navio e desviamos para evitar o choque. Apesar de
tê-lo visto bem longe, só consegui entender para onde ele ia quando
estávamos perto. Nós tínhamos prioridade de passagem, mas não dá para
discutir com um monstro daqueles!
Dá gosto navegar nestas noites estreladas e quentes do nordeste,
quando o vento sempre dá os ares de sua graça!

18/12/2006 - O vento continuava de nordeste, com doze a quinze nós,


proporcionando uma velejada muito tranqüila. Colocamos a genoa em
asa de pombo, armada com pau-de-spi.
As crianças se divertiram o dia inteiro, criando joguinhos de
palavras e outros. A velocidade média do barco é de seis nós e meio.
Ao anoitecer, outro céu totalmente estrelado e sem nuvens se
apresentou. Junte-se a isso o mar sem ondas e vento constante e temos a
velejada perfeita! Queria que muita gente estivesse aqui para ver isso.
Acho que esta é a melhor travessia que já tivemos, até o momento.
Uma pequena ave marinha preta nos visitou. Ela pousou no pau-
de-spi, só que ele balançava demais por causa da genoa.
Quando era meia-noite, um grande navio passou ao nosso lado,
rumo à Salvador. Desviei um pouco para ter mais segurança.
O turno foi tão tranqüilo que consegui acabar de ler o livro “Pai
Rico, Pai Pobre”, o que era meio paradoxal, sob o céu estrelado e a
simplicidade da vida que levamos.

19/12/2006 - A noite transcorreu tranqüila. Quando amanheceu, chamei o


Jonas para assumir o turno, já perto de Salvador. Acordei duas horas mais
tarde com chuva caindo, que não durou dois minutos. Já se viam de perto
todos os prédios da orla. Nos aproximamos do farol da Barra e passamos
entre ele e o banco de Santo Antonio.
Como é bom rever Salvador! Já estamos ansiosos para encontrar os
amigos que temos na cidade. Na chegada ao CENAB, vimos o
Compostela e muitos barcos franceses, do rally “Iles de Soleil”.
Eram quase dez da manhã quando chegamos e o Nelson, do Salmo
33, nos ajudou a encostar. Batemos um papo contando as novidades.
Nossa travessia durou sessenta e oito horas e foi deliciosa!
241
Após o café da manhã e um bom banho, tomamos sorvetes na
Cubana. Vimos algumas novidades no alto do Elevador Lacerda: um
trenzinho para passeios, charretes e carrinhos parecendo de golfe!
Retornamos ao barco e tivemos o prazer de reencontrar o Edélcio,
do Tiki! Fazem alguns dias que ele está em Salvador com a Meire, e
ficamos no Fandango contando histórias. É ótimo rever amigos!

20/12/2006 - O Edélcio nos convidou para um churrasco no Tiki. Ele


cozinha muito bem! Conversamos a tarde toda. Velejadores, quando se
encontram, sempre têm muito o que falar: lugares novos para ir, notícias
de outros velejadores, caixa de bordo (preocupação constante) e as
aventuras de cada travessia, com muitas informações sendo passadas!
Ficamos lá até anoitecer e saímos para encontrar os Hagge, ansiosos
para vê-los. Levei o computador, para mostrar fotos dos lugares pelos
quais passamos.
Eles tomaram um susto faz pouco tempo, com a travessia de
catamarã de Morro de São Paulo para Salvador. O catamarã em que eles
viajavam fez uma travessia péssima, com quase todos os passageiros
passando mal. O catamarã seguinte quase afundou, os passageiros
tiveram que abandonar o barco e um senhor de sessenta anos faleceu.
Tentei mostrar para a Adriana que, cruzeirando, nossa maior segurança
é não ter compromissos. Se o mar está ruim ou a previsão de tempo não
é favorável, não saímos. Se sentimos que a viagem não está boa, voltamos.
Outra diferença fundamental, é que você conhece seu próprio barco e
sabe como está a manutenção, o que não acontece quando entramos num
barco de outra pessoa ou de uma empresa de turismo.
Vimos muitas fotos, contamos histórias, mas o tempo foi curto para
tudo que tinha que ser falado. Eles nos levaram de volta ao clube e
convidamos o Victor para dormir conosco. Adivinha se ele não aceitou?
Fomos com nosso convidado para o Fandas e a única coisa difícil foi fazer
as crianças dormirem, pois elas queriam matar as saudades de alguns
meses em poucas horas. E já era mais de meia-noite!!!

21/12/2006 - Fomos passear no Pelourinho, que está enfeitado para o


Natal, e vimos palanques onde haverá um show hoje à noite. Levamos o
Victor na Casa Jorge Amado e ele, leitor voraz, gostou muito desse templo
de cultura de Salvador. Conhecemos o Museu do Dinheiro, muito
interessante, e acho que as crianças aprenderam bastante sobre a
“virtualidade” do valor do dinheiro.
Anoiteceu, enquanto as crianças brincavam com joguinhos,
desenhos, e inventavam histórias no barco. Eles se dão super bem!
242
Às oito horas, fomos para a cidade alta ver o coral de 150 crianças,
cantando músicas natalinas. O espetáculo foi bonito e a praça estava cheia
de gente. Sentamos num banco ao lado do elevador Lacerda para esperar
o fluxo de pessoas diminuir. É difícil descrever a beleza do lugar, numa
linda noite de véspera de Natal: os prédios enfeitados com luzes, a linda
baia negra limitada pelas luzes de Itaparica ao longe, os navios
iluminados no meio dela, contrastando com o negro, e os prédios antigos.
Tudo regado com a alegria do povo baiano passeando pelo local, com o
espírito natalino. Salvador é muito, muito bela!
Os Hagge chegaram e nos despedimos do Victor.
Acessei a internet e li um e-mail que o André me enviou, com o
relato de algumas pessoas que estavam a bordo do catamarã que quase
afundou. O primeiro pedido de socorro para a Capitania dos Portos foi
feito através de um celular, por um mergulhador que estava a bordo do
catamarã, diretamente para o Capitão-dos-Portos Miranda. Isso mostrou
duas coisas: a importância desse eletrônico a bordo na navegação costeira
e a importância de se ter uma pessoa acessível num cargo dessa
importância. O socorro foi imediatamente disparado e o acidente não se
transformou numa tragédia de grandes proporções por causa disso.
Quando conhecemos o Comandante Miranda, ele também nos passou seu
celular pessoal para qualquer urgência que tivéssemos! Parabéns
Comandante!

23/12/2006 - Ontem a Lu chegou, para passar quarenta dias conosco!


Assim que acordamos, ela começou a entregar os presentes que trouxe,
dos amigos e parentes. Foi uma festa! Ganhamos muitas coisas bonitas e
as crianças logo começaram a brincar com os presentes.
Com o dia muito quente, pegamos uma mangueira e tomamos um
banho de água doce no cockpit do Fandango. Que refresco! Queríamos ir
para a praia, mas o dia estava tão quente e a preguiça era tão grande que
ficamos no barco mesmo, na sombra e água fresca!

24/12/2006 - Queríamos ir a uma praia e escolhemos a da Barra, ao lado


do farol. Como é bom ter uma linda praia, no centro de uma enorme
capital! A água estava limpa e mergulhamos. Achamos uma grande
âncora coberta de coral e vimos louças quebradas entre as pedras. A louça
parecia nova, mas a âncora devia estar lá há muito tempo.
Retornamos à marina e nos arrumamos para ir à casa dos Hagge
para a ceia de Natal. Sem entrar em detalhes, foi uma deliciosa noite de
paz e alegria, no seio de uma família querida e feliz, que nos recebeu
maravilhosamente bem, como se fôssemos seus irmãos. As crianças
243
brincaram muito, comemos as delícias que a excelente cozinheira da
Adriana fez, trocamos presentes e, como tudo que é bom acaba logo, a
noite passou como se fossem cinco minutos! Pensamos em nossos amigos
e parentes, pessoas queridas com quem gostaríamos de estar também,
mas isso vai ter de ficar para o ano que vem, porque o “sotaque” deste
Natal é baiano e adoramos a alegria deste povo! Muito obrigado família
Hagge!!!

26/12/2006 - O programa de hoje é ir até a praia do Forte, uma das nossas


preferidas da Bahia. Chegamos lá num ótimo horário de maré. As
piscinas naturais estavam fantásticas, com maré baixa e água muito
quente, num gostoso dia de muito sol e céu azul. Mergulhamos muito e
vimos centenas de pequenos peixes coloridos, alguns que brilhavam
tanto que pareciam fosforescentes. Achamos várias estrelas-serpente e
muitas lebres-do-mar, além de ver uma manduréia bem pequena!
Brincamos numa das piscinas naturais e curtimos o visual.
Chegou o final da tarde e precisávamos voltar, mas as maravilhas
não acabaram. Retornando pela praia, vimos um grande aglomerado de
pessoas no projeto Tamar. Dezenas de tartaruguinhas estavam nascendo,
num dos ninhos protegidos! Os funcionários do Tamar ajudavam-nas a
sair das cascas, depois colocavam-nas numa caixa e levavam-nas para a
beira-mar. Vimos quando saiam correndo pela praia, procurando a água,
algumas mais espertas e rápidas e uma que ficou para trás, pois perdeu a
direção. Ajudaram-na a chegar ao mar, mas tomou alguns “caldos” e foi
levada, exausta, de volta ao Tamar.
As crianças adoraram o espetáculo da soltura e a Carol conseguiu
passar a mão numa das tartaruguinhas. Praia do Forte: imperdível para
quem vem para a Bahia, mas procure sempre o horário da maré baixa!

28/12/2006 - Despedimo-nos do pessoal do CENAB, principalmente do


Hamilton, sempre muito gentil e seguimos para Itaparica. Lá, vimos o
Tiki, o Leoa Louca e o Compostela ancorados. Quando chegamos na
marina, vimos o Radum! Que bom! Iremos rever o Valmir e a Mariana!
Atracamos na ponta do píer e fomos ver o pôr-do-sol. Revimos os amigos
e matamos as saudades!
O Valmir nos falou das dificuldades de readaptação a São Paulo,
pois voltou a trabalhar duro na capital, e que seu consolo é a foto do barco
de seus sonhos, colocada em sua mesa de trabalho. Acho que os maiores
medos de um velejador são, na ordem: naufrágio, homem ao mar,
pirataria e ter que voltar a trabalhar numa cidade sem mar!

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29/12/2006 - Com um lindo dia de sol, começamos a trabalhar. Enquanto
eu e a Lu trocávamos o óleo do motor e apertávamos a correia do
alternador, o Jonas e a Carol lavavam as muitas garrafas que estamos
guardando, há meses, para encher com a água da fonte da bica, “que faz
velha virar menina”. Após uma hora nesses trabalhos, fomos para o
próximo, que, com o calor que estava, se tornou agradável: limpar o
fundo do Fandango. Como navegamos muito, os bordos de ataque de
leme, quilha e a proa do Fandango estão pegando cracas. O resto do
fundo está bom e acho que durará mais meio ano.
Após o trabalho, nos lavamos com água doce para remover os
minúsculos crustáceos que grudam no nosso corpo, cabelos e, às vezes,
entram no ouvido, sempre que limpamos o fundo.
Encontramos com o Carlão e a Sandra, do outro Fandango, que
passarão o reveillon aqui em Itaparica! Eles, como sempre, estavam com
o Loro, o manso papagaio deles, que sempre faz sucesso aonde chega.
O pôr-do-sol foi lindíssimo e o assistimos sentados no píer.
Passaremos o reveillon em Itaparica, pois o lugar é agradabilíssimo.

31/12/2006 - Acordamos tarde. Estamos aproveitando para dormir e


descansar bastante. Enviei e-mail’s desejando um feliz ano novo para
todos os amigos. O Jonas teve seu último “stress” do ano, justo na Bahia
e por um cortador de unha! Após um bom papo, tudo virou piada.
A marina estava cheia e o clima era festivo. Telefonei para algumas
pessoas e pensei naquelas que não temos contato telefônico (amigos do
Cavalo Marinho, Beduína, Kanaloa e Kaká-Maumau).
Fomos até a praia, admirando a cidade enfeitada, e esperamos o ano
novo deitados na areia, onde estávamos apenas nós, vendo a lua cheia
brilhando no mar. O Jonas fazia um barquinho para soltar no mar, com
uma flor para Iemanjá. Acabei dormindo alguns minutos e acordei pouco
antes da virada do ano, com os fogos já pipocando. Fomos para a água e
pulamos as sete ondas. A Carol, só de biquíni, fez seu primeiro mergulho
de 2007. Comemoramos bastante a virada do ano, torcendo que o ano que
vem tenha, no mínimo, um pouquinho das belas coisas que aconteceram
e vimos em 2006. Esse ano será inesquecível para nós!

245
35
Retorno a Camamu

02/01/2007 - O despertador tocou às duas da madrugada. Com muita


“força de vontade”, levantei e arrumei as coisas para sair. A Lu acordou
e me ajudou com os últimos preparativos.
A noite estava maravilhosa e a lua, muito cheia, descia em direção
à ilha dos Frades. Soltamos as amarras. Com a luz da lua foi fácil achar o
canal de saída. As bóias de sinalização sem luzes eram fáceis de serem
avistadas. A Lu voltou a dormir e coloquei o “Alfredo” para trabalhar.
Nos afastamos de Itaparica, muito linda, com as luzes das ruas
iluminando as casas e igrejas. Cruzamos a Baia de Todos os Santos em
direção à Salvador e, quando chegamos no Farol da Barra, o dia clareou e
o trânsito de navios cresceu. O vento girou e começamos a velejar bem.
A maré descia com força e o mar ficou muito agitado, com ondas
curtas e freqüentes. O vento enfraqueceu e eu tentava velejar, mas tudo
batia demais! Liguei o motor e cruzamos com dois navios de passageiros
e três cargueiros na entrada da barra, um após o outro. Acho que terão
que colocar um semáforo no local em breve!
Conforme nos afastávamos da entrada da baia, o mar alisava. De
vez em quando, se aproximavam nuvens de chuva, que molhavam tudo
e traziam vento. Eu levantava a mestra, abria a genoa, velejávamos quinze
minutos e o vento morria outra vez. Levantei e abaixei as velas seis vezes
nesses pirajás! A tripulação acordou e assumiu os turnos.
A Carol foi ao banheiro, enjoou, tomou um dramin e apagou! Esse
banheiro na proa, pequeno e claustrofóbico, judia dela com mar agitado!
O vento melhorou e velejávamos bem. Coloquei a vara de pesca,
pois víamos muitos pássaros e peixes pulando. A fricção do molinete
cantou e embarcamos um atum com dois quilos! Jantar garantido!
Soltamos novamente a isca, pensando em como deveria ser bom o
atum salgado. Falei para o Jonas que o próximo peixe ele puxaria. Algum
tempo depois, a fricção cantou novamente e o peixe levou muita linha.
Reduzimos o motor e o Jonas começou a puxá-lo, sem conseguir
recuperar linha. Ele cansou e passou a vara para a Lu, que também não
conseguiu. Eu peguei a vara e só então vi o tamanho da briga: o peixe era
muito pesado! O vento apertou e precisamos orçar e soltar as velas para
trazê-lo. Fiz muita força para puxar o danado. O molinete fez um barulho
estranho e, de repente, o carretel estourou! Mesmo assim, consegui
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recolher a linha e, depois de muito tempo e muita força, um atum de
quatro quilos chegava à popa do barco. Pedi ao Jonas um arpão, armei e
acertei-o. O arpão entrou firme e o puxei para bordo, deixando-o sangrar
dentro da água, para não sujar o barco.
Ao recolocar o piloto automático, o Alfredo não quis funcionar.
Pegamos o Jarbas, que estava de “férias” há um bom tempo e ele começou
a trabalhar “feliz da vida”! É bom ter dois pilotos a bordo!
Nos aproximamos de Camamu e, ao chegarmos na entrada dessa
maravilhosa baia, chamei todos. A Carol acordou bem e ficou surpresa
com os peixes. Víamos Barra Grande e curtíamos o lindo visual. Um
pouco antes do Sítio Sabiá, caiu outra chuvarada rápida, mas logo
pegávamos a poita. Eram cinco da tarde e a viagem foi excelente!
Limpei o peixe pequeno e o coloquei no forno, com batatas, tomates
e cebola. Detalhe: não temperei o peixe, pois não precisa. Limpei o atum
grande, separando um dos quatro grandes filés para um sashimi. Estava
divino! Sashimi de atum já é muito bom, com ele super fresco então, nem
se fale!
Com uma hora no forno, o atum pequeno estava pronto. E como
ficou gostoso!!! Pegamos sal, azeite, shoyo, limão e colocamos o que
queríamos, que é a vantagem de assá-lo sem temperos.
Após o jantar, barriga cheia, sentamos no cockpit e vimos a lua,
totalmente cheia, nascendo atrás dos coqueiros da ilha de Campinho.
Muitas tainhas pulavam e o rio era uma paz só! A vontade era não dormir,
mas não demoramos a apagar quando deitamos!

03/01/2007 - Descemos ao Sítio Sabiá para ver o Juvêncio e, depois, fomos


na Soninha, para matar saudades. Vimos a “velinha do Fandango”, que
ficou linda, pendurada junto às outras. Na ponta da Ingazeira tomamos
um banho de mar e mergulhamos.
Voltamos ao Fandango, onde comemos o resto do atum grande
salgado, com leite de coco, cebolas, tomate e batatas. Ficou ótimo!

04/01/2007 - Hoje vamos para Taipus de Fora, uma das três praias do
Brasil considerada “seis estrelas” (as outras duas são em Noronha!).
A viagem foi tranqüila e rápida, numa boa estrada de terra e areia
que, quando chove, dizem ficar intransitável. A praia é realmente
fantástica! Muitos coqueiros ao longo da orla, mar agitado ao longe e bem
calmo perto da praia, sob a proteção dos recifes de coral. O horário para
mergulhar estava perfeito, no final da vazante de lua cheia, deixando as
piscinas naturais com pouco volume de água. Colocamos o equipamento
e fomos para a água, quente e com boa visibilidade.

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Nadamos até os recifes e vimos vários peixes coloridos.
Acompanhamos os recifes nadando para o sul, até chegarmos a um lugar
que chamam de “piscina”, onde o recife tem uma entrada e forma uma
região abrigada. Vimos muitos peixes, de vários tipos: cirurgiões azuis,
budianos, com o corpo meio azul e meio amarelo, muitas viuvinhas e
muitas marias-da-toca. Descobrimos coisas inéditas! Coloquei a mão no
coral, perto de uma viuvinha, que fez algo que eu nunca vira: ela se
aproximou da minha mão, virou “de costas” e tentou afastá-la com a
nadadeira caudal, batendo nos meus dedos! Fez isso várias vezes, até que
desistiu. Mostrei para a Carol e para a Lu o acontecido e, logo, estávamos
fazendo isso com várias viuvinhas, cujo comportamento era semelhante.
Vimos, também, um pequeno peixe, com três centímetros e o corpo azul
escuro com manchas azuis claras fosforescentes. Havia vários deles, mas
um, especificamente, tinha muitas manchas e chamava demais a atenção.
Outra coisa, talvez mais bonita e rara, era um molusco, parecendo uma
lebre-do-mar, branco com as abas amarelas, com três centímetros e
carregando uma bela conchinha bege com listras marrons! Eu nunca vi
esse ser em nenhum lugar, nem em livros! Admiramos o bichinho e o
deixamos sossegado. Foi um belíssimo mergulho! O lugar faz jus à fama.
Em seguida, fomos a uma praia ao lado da Lagoa Azul. Subimos
um morro (que subida dura!), onde apreciamos uma linda vista da região,
com o farol de Taipus de Fora perto de nós e a praia se perdendo de vista
para ambos os lados, com o coqueiral abaixo de nós. Passeamos na praia,
fomos a pé para a lagoa e entramos na água quente e doce. Ao lado da
lagoa, um barzinho servia tapiocas e cocos. Experimentei uma tapioca de
siri catado com molho de tomate (deliciosa!). O coco estava refrescante e
o tomamos dentro da água, com peixes nos rodeando. Quando
começamos a comer a polpa do coco, vimos que eles ficaram muito
excitados e a cada pedacinho de coco que caia na água, era um frenesi
para cada um pegar sua parcela.
Retornamos ao Fandango e, após o banho, com todos morrendo de
fome, falei para irmos à Soninha, pois eu havia ficado de “passar” lá, no
final da tarde. Todos ficaram desgostosos, com cara de que queriam o
jantar antes, mas ninguém ousou contrariar o “capitão”. Devo ter sido
muito incisivo, pois minha tripulação não se “deixa levar” facilmente!
Chegando lá, o Jonas, a Carol e a Lu acharam estranho colocarem a
mesa para nós e, só então, eu contei a surpresa: a Soninha vai fazer seu
famoso filé para nosso jantar de hoje! O sorriso surgiu em todas as bocas,
que automaticamente começaram a salivar. Foram servidos suculentos
filés, arroz com salsa e um delicado molho de cebolas, puxado no molho
de fritura da carne! Com o apetite que estávamos, nem precisava estar tão
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gostoso! Não sobrou nem um pedaço de cebola para contar a história (e
olha que foi muito bem servido!).

05/01/2007 - Dia de chuva, dia de trabalho! “Ataquei” o Alfredo e arrumei


um mau contato. Completei o tanque de diesel e arrumei as luzes de
navegação que estavam oxidadas. Lembrei de um ditado do Rodrigo:
“Velejar é consertar o barco em lugares paradisíacos!”.

06/01/2007 - O dia amanheceu melhor que ontem, com sol e algumas


garoas rápidas. Saí com o Jonas para Barra Grande para comprar algumas
coisas. A Lu preferiu descansar e a Carol ficou com ela.
Andamos pela praia até a ponta da Ingazeira. A maré estava tão
baixa, que atravessamos sem ir até o mangue. Na praia da Mangueira, eu
esperava encontrar muita gente, mas tive uma boa surpresa: a praia
estava como a vimos da outra vez, vazia, mesmo sendo alta temporada!
Chegamos ao rio e um casal nos informou que dava para atravessá-
lo a pé perto do banco de areia. Fomos para lá e atravessamos com a água
abaixo da cintura. Deixamos a mochila na areia e voltamos para um
banho, numa água muito quente. Que delícia!
Andamos até Barra Grande, passando pelas gamboas na beira da
praia. Entramos na cidade, que está muito movimentada, bem diferente
da outra vez. Na padaria, comemos salgados e compramos queijo e pão.
Resolvemos voltar de barco. Um saía para Camamu e poderia parar
em Campinho. Que boa idéia! Os seis quilômetros de volta, mesmo
agradáveis, iam ser duros, com a maré que já subira bastante.
Passamos na Soninha e tivemos a sorte dela estar comprando
camarões de um pescador. Eles estavam fresquíssimos e comprei um
quilo. No barco, “nos lambemos” com camarões fritos à provençal!

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Surfando em Itacaré

07/01/2007 - O dia bonito estava bom para a travessia até Itacaré.


Arrumamos tudo, despedimos do Juvêncio e fomos para a saída da barra.
As condições eram ótimas. Só o vento nos abandonara.
Lá fomos nós, motorando, com as velas em cima, mais panejando
do que armadas. Coloquei a linha na água para tentar pegar um peixe,
mesmo com o carretel do molinete quebrado. Algum tempo depois, a
vara vergou violentamente e a fricção cantou uma ou duas vezes. Quando
peguei a vara, já não havia peso na linha. Recolhi para ver como estava a
isca artificial e, para minha surpresa, só havia meia isca! A garatéia de trás
foi arrancada com metade do peixe de plástico! A garatéia da frente tinha
dois anzóis normais e outro torto pela puxada! Devia ser um peixe bem
grande! Está incrível! Em todas as nossas últimas travessias tivemos
peixes mordendo a isca.
Quatro horas da tarde, já perto de Itacaré, entrou um vento fraco.
Desliguei o motor e fomos devagar, para chegar mais perto do final do
dia, entrando no estofo da maré. O Serginho telefonou e disse que nos
auxiliaria a entrar na barra. Quando chegamos na boca da barra, lá estava
ele com um bote. Que bom vê-lo! Não o encontrávamos desde Noronha.
O Serginho é o BAN (Base de Apoio Náutico) de Itacaré e conhece muito
bem o lugar. Colocou-nos dentro do rio das Contas e ancoramos em frente
à sua bela casa, numa enseada protegida. Batemos papo, contamos as
novidades e nos arrumamos para conhecer a cidade.
Deixamos o bote na praia de sua casa e o ele nos levou para o centro
com a Luna, sua linda labradora. A cidade é bonita e o comércio é bem
forte. Escutávamos o sotaque paulista em todos os lados e comemos
numa pizzaria rodízio.
Vimos várias lojas de pranchas de surf e voltamos ao barco, pois
estávamos cansados. Na praia, vimos o Fandango “navegando” para lá e
para cá, passando bem próximo a ela. Como demos muito cabo e a maré
abaixou muito, ficávamos com a má impressão dele estar perto das
pedras. Como estávamos num poço com muita correnteza, o barco
passeava ao sabor dela. Achamos melhor mudar o barco de lugar e o
atencioso Serginho veio conosco e nos auxiliou a escolher outro.
Nesta ancoragem, descobri um método para o cabo de âncora não
enroscar na quilha: pendurei um cinto lastro de mergulho no cabo de
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âncora a cerca de três metros de profundidade. Quem ancorar em lugar
onde o barco possa girar, procure ter um peso no barco para prendê-lo ao
cabo, com mais profundidade do que a quilha, e evitará problemas!

08/01/2007 - Acordamos com vozes chamando o Fandango. Levantei e vi


o Aventura, um lindo 43 pés na nossa proa e o Abel, gaúcho que
conhecemos no CENAB, segurando a proa do Fandango. Como a maré
parou, o Fandas foi para cima do Aventura. Aproveitamos para conversar
e contar as novidades. Conhecemos o casal dono do barco, que está
viajando com seus filhos, que gostam de surfar.
Afastamos o Fandango e ancoramos ao lado do antigo “Trismus”,
do Patrick Van God, cujos livros li já faz muito tempo. Pouco antes do
meio-dia, saímos com destinos às praias. Deixamos o bote na casa do
Serginho, que em breve virará uma bem localizada marina, e saímos
andando.
Estávamos ao lado de uma praia bonita, chamada praia da Concha,
que fica voltada para o rio e com o farol em sua ponta de pedras.
Andamos quinze minutos e chegamos na praia do Resende. Que surpresa
boa! Uma trilha de terra muito curta levava para a linda praia, que é
circundada por morros e mata atlântica. As praias de Itacaré são as únicas
da Bahia que fogem do relevo plano e do tradicional coqueiral.
Nos chamou a atenção uma trilha pelas pedras e, por ela, chegamos
à praia da Tiririca, também muito bela. A vista, de cima das pedras entre
as duas praias, é fantástica! Havia muita gente nelas, mas sem excesso.
Muitos surfistas pegavam ondas, nestas que são consideradas as
melhores praias da Bahia para surf. Tomamos banhos de mar, com água
quente e transparente, num mar com muitas ondas.
Encontramos o Francisco, a Jussara e seus filhos, do Aventura.
Sentamos para conversar um pouco sobre nossas viagens.
Conhecemos a praia do Costa, por cima das pedras também, com
outra vista lindíssima. Pela estrada, seguimos para a praia da Ribeira, que
é ainda mais bonita que as outras! Sentamos em cadeiras numa barraca
de tapiocas, pedimos tapiocas salgadas e tomamos mais banhos de mar.
Muita gente surfava e percebemos que a praia é para iniciantes. Um rio
desaguava no lado esquerdo da praia, onde as crianças ficaram brincando
de fazer barquinhos com cascas de coco e folhas.
O fim de tarde foi maravilhoso com o sol baixando atrás da mata.
Voltamos a pé para a cidade, pois é bem perto. Paramos numa loja de
pesca e comprei um molinete e iscas artificiais novas, para a pescaria na
ida para Porto Seguro. Tomamos banho na casa do Serginho, aonde
vimos fotos das viagens dele. As que mais gostamos foram dos Açores,
251
que parece ser um lugar fantástico. Dormimos com o barco rodando
doidamente, por causa da estranha correnteza da entrada da barra.

09/01/2007 - Fomos direto para a praia da Ribeira, nossa preferida, e


alugamos uma prancha de surf. A Lu foi surfar e as crianças brincaram
de fazer barquinhos. Depois do descanso, foi a minha vez de tentar surfar!
Fiz o maior esforço para ficar em pé, mas só consegui ficar de joelhos e
pegar jacarés. A Carol e o Jonas pegaram muitos jacarés e gostaram da
brincadeira.
Retornamos à cidade e pedimos baguetes com picanha, numa
pequena lanchonete. O único problema era a espera! Fizemos o pedido e
passeamos por uma rua, que ainda não conhecêramos. Acabamos
achando o restaurante Mediterrâneo, da Ester, amiga de uma conhecida
nossa de Ilhabela. Quando retornamos, os sanduíches estavam saindo.
Valeu a espera!
Retornamos ao barco a tempo de ver a lua minguante nascer atrás
de farol de Itacaré, com Itacaré toda iluminada atrás de nós.

10/01/2007 - Na praia da Ribeira, pegamos o guia Valdemir para nos levar


até a Prainha, considerada uma das dez mais bonitas do Brasil (em todo
lugar que vamos, há uma das dez praias mais bonitas do Brasil!).
Partindo da Ribeira, seguimos por uma trilha estreita, que nos
lembrou muito as trilhas de Ilhabela. Muita vegetação de mata atlântica
em plena Bahia, passando por vários rios. Paramos numa pequena
cachoeira, que caia dentro de uma piscina natural. Foi providencial para
descansarmos! A surpresa foi que a água do rio não era fria. Passamos
por pontes e troncos, que nos permitiam cruzar os riozinhos do lugar e
admiramos o visual da mata e do rio. Chegamos num descampado, com
um belo mirante para o mar e para a arrebentação das ondas nas pedras.
Após quarenta minutos de caminhada, chegamos a Prainha.
Realmente muito bela, essa praia é protegida, em suas pontas, por morros
que parecem gêmeos. A praia faz uma curva suave e, atrás, muitos
coqueiros e um pequeno barzinho completam o cenário. A simetria é
perfeita e isso nos causa uma sensação de beleza e bem estar muito
grande. Tomamos banhos de mar e pegamos jacarés.
Retornamos pela trilha, fazendo uma parada na cachoeirinha.
Na cidade, fomos ao Mediterrâneo para conhecer a Ester. Ela nos
pareceu ser uma pessoa especial e nos convidou para jantar amanhã. Uma
italiana legítima nos contou que Ester é a brasileira que faz a melhor
comida italiana do mundo!

252
Voltamos ao barco, deitei no cockpit e apaguei. De madrugada,
acordei com um cobertor em cima de mim e as crianças dormindo nos
bancos, ao meu lado. Como a noite estava gostosa e sem chuva, deixei-os
dormindo lá, pois pediam isso desde o começo da viagem.

11/01/2007 - A Carol foi ao banheiro e disse que o vaso sanitário estava


cheio de bichos! Eram minúsculos camarões que entraram pelas
tubulações! Pegamos o bote e fomos para a praia, mas a saída de água do
motor estava entupida. Tentei desentupir com um arame, mas não
consegui. Eu e o Serginho desmontamos o tanque e removemos o tubo de
saída da água. Quando ele saiu, vimos o rabinho de um camarão dentro
do buraco! Removemos o danado e voltou a circular água!
Pegamos um ônibus para conhecer a praia de Itacarezinho. Ele nos
deixou na estrada e descemos, a pé, um quilômetro e meio de uma rua
íngreme. Paramos num mirante, de onde se enxerga grande parte da
praia. É maravilhosa! Talvez mais bela que a prainha! O lado esquerdo
tem um morro de mata atlântica, a orla é toda de coqueiros e a praia se
perde de vista para a direita. Havia bastante gente na praia, um
restaurante e várias barracas de lanches, camisetas e massagens.
Pegamos “jacarés” e as crianças fizeram castelos de areia.
Ao retornar, preferimos pagar um “trenzinho” (na verdade, uma
Toyota puxando uma carreta), para não encarar a ladeira imensa.
Chegando na cidade, abusamos novamente da casa do Serginho,
tomando um banhão. Ficamos “nos trinques” e fomos ao Mediterrâneo.
O restaurante é lindíssimo e a comida melhor ainda. Por
coincidência, a Ester estava com uma saia e a Lu com uma calça, as duas
pintadas por uma conhecida nossa! Quanto ao jantar, em respeito aos
leitores, vou omitir o cardápio. Como Noronha, não há palavras para
descrevê-lo! Se alguém vier para Itacaré e não passar para jantar no
Mediterrâneo, pode ter certeza que perdeu uma das maravilhas daqui!
Nos impressionou a delícia da comida, sua beleza e a sensibilidade da
Ester. Digo isso, pois preferimos que ela escolhesse o cardápio (“colocamo-
nos nas mãos dela”, como ela disse!) e ela acertou os gostos pessoais em
cheio! Na sobremesa, aconteceu o mesmo!
Tivemos a impressão que a conhecíamos há muito tempo, enquanto
conversávamos. Papeamos até meia-noite e meia e só saímos porque a
Carol estava morrendo de sono!

253
37
Belíssima Trancoso

13/01/2007 - Às dez horas levantamos âncora, um pouco antes do estofo


de preamar. Saímos seguindo os waypoint’s do Roteiro Náutico e tudo
correu muito bem. O vento era forte e as ondas altas na saída da barra,
mas nada de assustar. Esta barra com mau tempo deve ser terrível!
Abrimos todo o pano, colocamos a vara de pesca e nos afastamos
de Itacaré, que deixará saudades. Quando passávamos na praia da
Ribeira, a carretilha começou a cantar. Freamos o barco e a linha ficou
bamba. Quando recolhi, vi que ela havia sido cortada! E olha que havia
um encastoado grande preso na isca! Colocamos outra na água.
Velejávamos muito bem, com média de sete nós e vento forte. À
tarde, a fricção cantou outra vez e puxamos um atum com três quilos!
Limpei-o e o guardei. Lavei o convés, que ficou com sangue do peixe.
Fizemos o segundo rizo na mestra, pois o vento ficara mais forte.
Aproveitei a tarde para dormir e me preparar para o turno da noite, já
que todos vigiavam no cockpit. O vento apertou mais e, como estávamos
adiantados para chegar em Porto Seguro, retirei a mestra. Continuamos
andando bem e o piloto passou a corrigir menos o rumo.
Anoiteceu, recolhemos o material de pesca e, antes das sete, a
tripulação dormia e eu assumia meu longo turno. As ondas entravam
pela alheta e o barco balançava a cada onda. Uma mais forte derrubou a
mala da Lu do sofá da sala. Ela recolheu as coisas e voltou a dormir.
A noite foi tranqüila. Vi apenas um navio e quatro barcos de pesca.
O mar foi se acalmando e o vento diminuindo. Dessa forma, apesar de
ainda chacoalhar um pouco, todos puderam dormir bem.
A Lu acordou e assumiu o turno. Enquanto eu dormia, escutei-a
chamar assustada! Saí e o que ela achava ser um grande navio vindo em
nossa direção, eram, simplesmente, as duas pontas da lua minguante
aparecendo por cima do horizonte, bem amareladas. Aproveitamos para
admirar o belo luar.

14/01/2007 - Amanheceu e chamei o Jonas. Nossa navegação estava em


cima e já nos aproximávamos de Porto Seguro. Liguei para a Quinta do
Porto, que nos mandaria um prático para entrar na barra, avisando da
nossa breve chegada. O prático atrasou bastante! Quando eu pensava em

254
arriscar a entrada, para esperar o prático dentro do quebra-mar, pois o
vento aumentara e o mar estava cada vez mais agitado, ele chegou.
Chegamos na marina e encostamos. Quase batemos no píer, pois o
Jonas não conseguiu caçar o cabo de proa por causa de um nó! Corri para
frente e foi a conta justa de caçá-lo para safar a popa.
Conversamos com o funcionário que nos recebeu e soubemos que a
marina foi terceirizada. Os preços triplicaram e o serviço de praticagem
está sendo cobrado! Como não nos avisaram antes, não cobrariam. O
funcionário justificou o preço dizendo que o serviço havia melhorado,
mas quando o sempre atento Jonas desceu do barco, viu que não travaram
nosso cabo de atracação com a última virada do nó oito. Para piorar, no
meio da tarde, enquanto eu descansava, o barco vizinho, que estava
vazio, arrebentou seu cabo de popa e bateu no Fandango. Subi no barco
e passei outro cabo para o Jonas, que o amarrou ao píer, pois não havia
funcionários. As luzes no píer foram a única melhora. Quanto aos
serviços, da outra vez ele foi muito bom.
Fomos à “Passarela do Álcool”, onde tomamos cocos e comemos
acarajés. Vimos as esculturas “eólicas”, feitas em arame, que já víramos
da outra vez. O artista tem idéias fantásticas e sempre há novidades.

15/01/2007 - O barco vizinho, novamente, deu uma pancada em nosso


costado. Desta vez, foi o cabo de proa que se soltou quando uma lancha
saiu. Um funcionário da marina puxou-o, enquanto eu ajeitava as
defensas e segurava o barco com os pés.
Enquanto o Jonas e a Carol brincavam no hotel, fui com a Lu até a
praia. Tomamos banho de mar, mas não conseguimos mergulhar.
Andamos pela praia e vimos dois windcar’s, que o Jonas vai adorar!
Fomos a Porto Seguro almoçar. Procuramos nosso velho conhecido
“Portinha” e demos sorte: dia de comida mineira! Enquanto
almoçávamos, os Hagge telefonaram. Estão de férias e vieram passear em
Porto Seguro! Encontramo-nos em frente ao píer municipal, matamos
saudades e tomamos sorvetes.

16/01/2007 - Saímos para passear com os Hagge no Centro Histórico.


Andamos muito pelo lindo lugar. Fomos ao museu e pudemos apreciar
melhor desta vez. As crianças adoraram o “banho” de história do Brasil!
Fizemos uma grande compra de mercado. Os sempre atenciosos
funcionários da Quinta do Porto nos ajudaram a levá-la. Arrumamos
tudo e relaxamos nas poltronas do hotel, vendo Porto Seguro iluminada.

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17/01/2007 - Saímos para andar na praia até Arraial D’Ajuda, um passeio
imperdível. O Jonas adorou os windcar’s, examinando detalhadamente a
construção. Andávamos, conversávamos e olhávamos os corais
quebrados na praia. Só cansamos ao chegar no Eco-Parque. Tomamos
banhos de mar e subimos para almoçar em Arraial.
Após tomarmos sorvetes, para minha surpresa, todos preferiram
voltar a pé para o hotel! Descemos para a praia e retornamos por ela.
Vimos o dia se encerrar na praia!

18/01/2007 - Logo cedo, meu pai ligava avisando do falecimento de meu


tio Vicente, irmão de meu pai. Esse tio era muito querido e, quando eu
era pequeno, era o tio “preferido”. Muito brincalhão, gostava de pescar e
sempre nos divertíamos com ele na Praia Grande. Meus primeiros
“caldos” no mar, foi ele quem deu. As primeiras brincadeiras maliciosas
de começo de adolescência, também foi ele quem fez. Pescávamos muito,
juntos. Senti saudades e lembrei muitas coisas vividas com ele.
Antes do meio dia, pegávamos o ônibus para ir a Trancoso, uma
das praias mais bonitas da viagem. Após uma hora de viagem, no
confortável ônibus (fujam das peruas de lotação, que são desconfortáveis
e inseguras!), chegamos ao “quadrado”. A Lu se surpreendeu com a
beleza do lugar, com a igrejinha branca contrastando com o céu azul, bem
no alto e na ponta da falésia. Encontramos, ao lado da igreja, a senhorinha
que nos vendera abacaxis da outra vez e não resistimos a eles. Tomamos
água de coco e fomos ver a linda da praia dos Nativos, com seu riozinho
e sua cabana de madeira. Descemos e encontramos os Hagge, que
estavam na praia dos Coqueiros. Deixamos as crianças brincando e
levamos a Adriana e o André para ver a dos Nativos. Eles se
impressionaram com a beleza.
Eles foram embora e nós fomos para os Nativos. Aproveitamos o
banho de rio e, quando anoitecia, retornamos a Arraial.
Jantamos com os Hagge e o Jonas deu, ao Victor e ao Marcelo,
veleirinhos de sucata. Demos “até breve” aos amigos, com a promessa de
nos encontrarmos em Ilhabela, no final do ano.
Voltamos ao hotel e conversamos na varanda, admirando a
maravilhosa Porto Seguro, sentados em confortáveis poltronas,
aproveitando este lugar abençoado! Apesar de ter lembrado o dia inteiro
de meu tio, com um misto de saudade e tristeza, tivemos um dia alegre,
alegria que o tio Vicente sempre nos ensinou.

19/01/2007 - Acordei com um tranco fortíssimo no barco, parecendo que


outro barco havia dado uma pancada muito forte no Fandas! Que susto!
256
Saltei correndo de dentro do barco (não sei como “desencaixei” tão rápido
da cama de popa, apelidada pela tripulação de “sarcófago”!), a tempo de
ver uma lancha se desvencilhando do nosso cabo de proa. Olhei para trás
e vi um de nossos cabos de popa arrebentado. A lancha, ao sair, bateu em
nosso cabo de proa, pois a maré estava baixa e os píeres são muito
próximos. Isso deu um tranco violento no barco e quebrou nosso cabo.
Liguei para o gerente da marina, que apareceu rapidamente e contei
o acontecido. Acabamos relacionando os outros problemas, a batida
lateral com o barco vizinho e o estouro do cabo de popa do mesmo barco,
com as saídas descuidadas do marinheiro da lancha.
Mudamos o Fandango para o outro lado do píer para fugir do
“barbeiro”, colocando-o com a proa para o píer para ter mais ventilação.
É a primeira vez que encosto o Fandas assim.
Deram-nos um desconto no valor da estadia. Ainda é caro, em
comparação com os outros lugares, mas ao menos estamos seguros e
temos a estrutura e bom atendimento do excelente Quinta do Porto.
O Marcos, skipper do “Gabi”, um Dolphin 46 de Ilhabela, nos
deixou conhecer o lindo barco. Fiquei impressionado como ele é
completo. Até compressor para cilindros de mergulho ele tem!
À noite, a Carol resolveu sair do Fandango, mas, contrariando todas
as regras do barco, não avisou ninguém, tentou sair sem ajuda e sem
colocar os chinelos. Resultado: escorregou e caiu na água, com a maré
vazando. Por sorte, o Japonês e o Marcos estavam lá e a tiraram da água.
Quando eu retornava ao píer, com pressa, sentindo que algo estava
errado (não venham me falar que “sexto sentido” é privilégio exclusivo
de mulheres!), a vi encharcada de alto a baixo, recém saída da água, mas
ferida apenas no seu orgulho de “marinheira”. O descuido poderia ter
acabado mal. A primeira coisa que farei amanhã é virar o barco com a
popa para o píer, para facilitar o embarque e desembarque.
Após uma boa bronca, um banho coletivo e corrermos para pegar a
barca para Porto Seguro, chegamos ao Portinha para encontrar o Tate
Parracho. Revimos o amigo e matamos as saudades, contando nossas
histórias e sabendo novidades da Renatinha e do pai dele.

20/01/2007 - Estamos ansiosos para mergulhar nos Recifes de Fora, um


banco de recifes de coral ao lado de Porto Seguro e rever a Priscila e o
Renato, que estão de férias por aqui e irão conosco. Embarcamos numa
escuna de turismo e, no caminho, matamos as saudades dos amigos e
soubemos as novidades dos que não puderam vir.
Dino, o capitão do barco que nos levava, me mostrou todas as
marcações em terra, para poder sair do canal de Porto Seguro.
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Chegamos nos recifes já preparados e saltamos para dentro da
água. A visibilidade era de cinco metros apenas, mas suficiente para ver
muitas coisas. Desci perto de um coral fogo, bem alaranjado, que estava
ao lado do barco. A Lu descobriu um baiacu-arara enorme dentro de uma
toca. Ele tinha cerca de cinco quilos, uma cabeça maior que a minha e
olhos enormes! Vimos muitos cirurgiões azuis, budiões e dois sargos-de-
beiço com uns três quilos! Um peixinho que vemos muito por aqui e que
adoramos é a viuvinha-de-rabo-amarelo, aquele de pintas azuis
fosforescentes. Mergulhamos duas horas e só saímos por frio!
Retornamos à marina e fomos para Arraial D’Ajuda almoçar com
nossos amigos. A Carol não passou bem e voltamos ao barco, para
medicá-la. No retorno apressado, tivemos problemas com uma van e
acabamos pegando um ônibus, melhor e muito mais rápido.

21/01/2007 - A Carol deve estar com uma virose, pois virou a “rainha” do
Fandango: passou a noite inteira no “trono”! Ficaremos mais dois dias em
Porto Seguro, para ela melhorar. Por isso, infelizmente, não pararemos
em Cumuruxatiba, para rever o Cigano, a Thaís e suas filhas.
Ficamos no barco e, no final do dia, a Carol já estava melhor.

23/01/2007 - Dia de passeio! Fomos a Trancoso, conhecer o sul da praia


dos Coqueiros. Adoramos o lugar! Fugimos dos barzinhos e ficamos
tranqüilos, sem aglomeração, numa praia lindíssima.
Conhecemos o sr. Manoel e seu burrinho “Motorzinho”. Esse
senhor vive vendendo abacaxis na praia e dá gosto o tratamento que ele
dá ao Motorzinho. Ele tem até um cesto amarrado às ancas para recolher
os resíduos do “escapamento” do Motorzinho!
À tarde, voltamos à praia dos Nativos, onde contemplamos o rio e
o mar, com o sol descendo atrás da falésia. Esse lugar é lindíssimo! Não
canso de dizer que é uma das praias mais lindas da viagem.
Quando o sol estava quase se pondo, subimos para o quadrado e
jantamos no Portinha. Anoitecia e o comércio local começou a acender
suas luzes. O Portinha de Trancoso é o mais “especial” de todos! Jantamos
desfrutando a visão do “quadrado”, com a igrejinha ao fundo, hippies
vendendo artesanatos e as casinhas iluminadas, cada uma de uma cor!

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Paraíso dos Mergulhadores

24/01/2007 - Soltamos as amarras às sete e vinte da manhã, aproveitando


o estofo da preamar. Sem correnteza, tiramos facilmente o Fandango da
vaga. Com cuidado, saímos da difícil barra de Porto Seguro sozinhos,
graças às dicas do Dino e usando os waypoint’s do Roteiro Náutico.
Velejávamos devagar, pois tínhamos muito tempo para percorrer
as noventa milhas até Abrolhos. O vento fraco de sudeste não ajudava.
O vento melhorou no começo da tarde, mas não fazíamos mais que
quatro nós na orça apertada. Perdemos duas fisgadas de peixes durante
o dia. A velejada estava tranqüila e o mar liso. O Jonas comparou: “-
Parece que estamos navegando dentro do canal de Ilhabela!”. Navegamos perto
da costa, vendo todo o litoral pelo qual passeamos.
Ao final da tarde, bateu um atum grande. Paramos o barco e o Jonas
puxou-o facilmente, pois ele nadava na direção do barco. Ao chegar
perto, começou a brigar de verdade. Numa das suas fugas, correu para
baixo do barco e cortou a linha no leme. O Jonas ficou decepcionado, mas
colocamos outra isca. Dez minutos depois, mais um peixe. O Jonas pegou
a vara e, desta vez, não deixei o barco tão parado. Após boa briga, ele
embarcou uma bicuda com um metro de comprimento e um quilo e meio
de peso! Logo veio a brincadeira da tripulação: “- O Jonas tinha que pegar
um peixe como ele: comprido e magro!”.
Limpei, temperei, empanei e jantamos peixe frito com arroz. O
Jonas sentiu o “gostinho especial” dele mesmo o haver pescado!
Após o jantar, todos foram dormir e eu fiquei no turno. A noite
estava deliciosa e uma lua crescente, linda, jogava seus raios prateados
no mar. Com o mar bem calmo, velejamos até o vento acabar. Liguei o
motor e apontei para Abrolhos, ansioso pela chegada nesse paraíso.

25/01/2007 - Um pouco antes do amanhecer, fomos invadidos: algumas


libélulas pousaram na popa do Fandango! Estávamos muito longe de
terra e não imaginava que esses insetos voassem tanto.
O vento só apareceu quando chegamos às ilhas. Pegamos a poita às
nove e meia da manhã e recebemos a visita da Bernadete, a guarda-
parque mais conhecida do Brasil. Eu queria que as crianças a
conhecessem e conversamos com ela, escutando histórias de Abrolhos.

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Quando ela saiu, almoçamos e fomos mergulhar na ilha de Sta.
Bárbara, no cantinho que mais gostamos. Desta vez, a maré estava mais
baixa e não deu para ir à grande laje, aonde vimos tartarugas da outra
vez. Mas também não precisava: os peixes estavam no paredão antes da
laje! Muitos budiões e cirurgiões azuis passeavam tranqüilamente pelo
local. Vimos dois grandes badejos, um com cerca de cinco quilos e outro
bem maior, com uns dez quilos. A Lu deu um grito: dentro de uma toca
havia um lambaru (tubarão-lixa)! Entramos para vê-lo. Ele, manso, não
se mexia. Ainda vimos uma pequena arraia e muitos outros peixes.
Minha cabeça começou a doer e pedi para voltarmos ao barco.
Cheguei ao barco, num final de tarde lindo, com cabeça estourando,
tomei remédios e dormi. Acho que, com a ansiedade, não esperei o tempo
necessário para mergulhar após o almoço.

26/01/2007 - O despertador tocou às sete horas e pulamos da cama.


Tomamos o tradicional banho de mar para acordar. Que delícia estar
aqui! A água estava quente e mais transparente do que ontem.
Consegui contato pelo rádio com os pescadores amigos do “Rose e
Amanda”, e soubemos que estão bem.
Pegamos o bote e seguimos para a Ilha Siriba, onde
desembarcamos. Cumprimentamos o Egno e fomos andar pela ilha. Não
vimos tantos filhotes e os que vimos já estavam bem crescidos, mas os
Atobás lá estavam, começando a nidificar. Mesmo assim, o passeio pela
linda ilha é sempre fantástico. Contornamos a ilha toda e a Lu se
maravilhava com o que via. Quando acabamos o passeio, pegamos o
material de mergulho e fomos para a água. Encontramos muitos
cirurgiões azuis, budiões azuis, frades e a Carol viu uma barracuda
grande. Num parcel, encontramos uma toca com grandes budiões.
Dentro dela, estava um enorme badejo, que acredito ter quase trinta
quilos! Cheguei a segui-lo e fiquei bem perto dele, tão manso que era!
Vimos outros badejos, que variavam entre cinco e dez quilos.
Para nossa surpresa, encontramos a Priscila e o Renato no barco
Jubarte. Eu achava que eles viriam amanhã e ficamos felizes em vê-los.
Mergulhamos perto da ilha Redonda e, no caminho, vimos várias
tartarugas na tona. Na ilha Redonda, novamente muitos budiões,
cirurgiões e badejos. Que lugar para mergulhar!
Retornamos ao Fandas e, logo, chegaram a Pri e o Renato, que
pernoitarão conosco, curtindo um pouco mais este maravilhoso lugar. No
final da tarde, fomos todos à ilha de Sta. Bárbara. A maré estava baixa e o
desembarque foi feito em cima dos corais. Conhecemos o Sgto. Gonzaga,
que nos acompanharia até o farol e revimos o Sgto. Irã, que continua
261
comandando a base na ilha. Seguimos para o farol, subimos até o topo e
vimos um pôr-do-sol magnífico. O sargento ligou o farol e tivemos o
prazer de vê-lo funcionando de perto. Nos surpreendeu a luz dele, vista
de perto, não ser tão forte quanto pensávamos.
Encontramos a “Bé”, a cabra domesticada. Pena que o Flávio está
de férias. Nós lhe deixamos abraços.
No barco, a Pri e o Renato resolveram dormir no cockpit,
desfrutando o céu estrelado, fascinados com a beleza deste lugar, que eu
considero o mais bonito e selvagem de todos pelos quais passamos.

27/01/2007 - Acordamos cedo e fizemos um café da manhã caprichado


para nossos amigos. A Pri ficou mareada e pedi para desembarcá-la na
praia de Sta. Bárbara, até ela melhorar. Levei-a para lá com o Renato e
eles aproveitaram a praia, com muitos peixes nadando na beirada.
Na volta ao barco, passei num pesqueiro e perguntei se eles tinham
peixe para vender. Tiraram de dentro da geladeira um grande peroá-rei
e dois outros peixes. Perguntei quanto custavam e disseram que não era
nada: era um presente! Argumentei que era o trabalho deles, mas eles não
quiseram receber. Os pescadores que andam por aqui são assim: gente
simples, trabalhadora, sofrida e com um coração enorme.
Fomos mergulhar perto da praia. Bem na beirada, num lugar que
não tinha mais de trinta centímetros de profundidade, encontramos dois
tubarões-limão e uma pequena barracuda. Os tubarões tinham cerca de
cinqüenta centímetros e viraram o centro das atenções. Mergulhamos
mais para fora, aonde vimos um badejo com quase dez quilos e muitos
budiões azuis. Encontramos uma grande moréia verde fora da toca e
passamos a mão numa manduréia, que passeava tranqüila. Retornamos
à praia e aproveitamos o sol com nossos amigos.
Eu e o Renato nadamos até o bote, para preparar o almoço no
Fandango. Quando estávamos chegando nele, vimos um badejo enorme,
que calculo ter uns trinta quilos, nadando tranqüilamente sobre o fundo
de areia. Desci e nadei junto a ele, sem assustá-lo. Que peixe!
Chegando ao barco, cortamos os legumes e fiz o peixe assado no
forno. Após o almoço, a Pri e o Renato foram embora no Jubarte,
contentes por terem conhecido este paraíso.
Soube depois, que a Lu e a Carol mergulharam junto aos cações,
observando seus hábitos. Elas perceberam várias técnicas de caça, que
devem ser instintivas, e a Lu chegou a passar a mão no rabo de um deles!
Quem diria: a Lu, que tinha tanto medo de encontrar um tubarão,
encontrou um tubarão-lixa numa caverna e voltou para observá-lo e,
ainda, nadou com tubarões-limão, chegando a tocar em um deles!
262
Tomamos banho no final do dia, olhando bem para ver se a “mãe”
dos filhotes de tubarão não passeava por ali. O barco balançou muito
durante a noite, com vento de nordeste e mar de leste.

28/01/2007 - Acordei antes das seis da manhã, com a voz do Sgto. Irã
chamando no rádio todos os pesqueiros trabalhando em Abrolhos.
Pensando ser algum aviso de mau tempo, fui escutar. Após algumas
tentativas, ele conseguiu contatar o barco de pesca “Rodrigo”. Escutei o
Sgto. Irã informando, ao comandante da embarcação, que o pai dele havia
falecido ontem e que o enterro seria hoje. Imaginei a tristeza da pessoa
que recebeu o recado e percebi a grande importância desta base na
comunicação para esses trabalhadores do mar e todos que navegam por
aqui. Meio “down”, voltei para a cama e dormi até tarde.
Tomamos um café leve e fomos mergulhar. O “café leve” não foi
suficiente para o adolescente Jonas, que preferiu ficar no barco e comer
mais, em vez de mergulhar. Fomos para a ponta oeste da ilha de Sta.
Bárbara e também foi um lindo mergulho. Vimos um cardume de budiões
azuis que me impressionou: mais de trinta! Numa toca, encontramos um
baiacu-arara cego de um olho e vários badejos grandes. Cruzamos com
uma pequena tartaruga e, logo após, outra maior, que deixava passar a
mão e era bem mansinha. Havia vários sargos grandes no local e muitos
frades, cirurgiões e dezenas de peixes coloridos de vários tipos. Após uma
hora e meia de mergulho, que pareceram ser dez minutos, retornamos ao
Fandas. Descansamos na parte da tarde e, após a sesta, voltamos ao
mergulho.
Repetimos a nossa enseada preferida de Sta. Bárbara, que fica
próxima ao veleiro. Fomos para uma poita com o bote e eu caí na água.
Vi, nitidamente, um pregador de roupas no fundo do mar, num local com
seis ou sete metros de profundidade, que algum barco perdeu! Desci e o
recuperei, para compensar a perda de quatro dúzias de pregadores ao
longo do ano, nosso maior item de “poluição marinha”.
Nos dirigimos à enseada e paramos no meio do caminho, com a
visão de um grande badejo, de uns dez quilos, no alto de um coral! Lindo!
Fomos vê-lo de perto e, então, vimos outro, outro e mais outro. Quatro
grandes badejos nadavam juntos no local e eram muito mansos, deixando
que nos aproximássemos bastante deles. Ficamos um tempão olhando-os
e mergulhando com deles. O primeiro grande badejo sempre voltava para
seu “ninho”, no alto do coral, um mini-chapeirão.
Seguimos para a enseada e a maré estava baixa. Mergulhamos no
paredão, vendo os sempre belos peixes, entre eles um peroá muito bonito,
escuro, com pintas redondas mais claras e uma parte do corpo alaranjada.
263
Escutei o grito: “- Tartaruga!”, e nadamos ao encontro de uma assustada
tartaruguinha, que se afastou rapidamente. Em compensação,
encontramos mais uma, “de pente”, mansa e maior, que nos deixou
acariciá-la. Vimos mais uma, ainda maior que as outras, com um metro
de comprimento. Ela circulou entre nós, nos observando. Deixou que
todos passássemos a mão nela e eu nadei com o rosto a trinta centímetros
de sua cabeça. Linda e muito mansa!
Retornamos ao bote e, no caminho, revimos os badejos e achamos
uma pequena arraia, que passeava no fundo de areia. Dentro da água,
vimos o maravilhoso pôr-do-sol, ao lado da ilha Redonda, muito
alaranjado e com o sol descendo diretamente dentro do mar, sem nuvens
para atrapalhar a visão do espetáculo. Chegamos ao Fandango extasiados
e, após o banho, uma sopinha quente e estudos, dormimos com o
nordeste soprando forte o estaiamento.

29/01/2007 - A água estava muito clara, talvez a melhor de todas e fomos


mergulhar. Procurei os badejos de ontem, mas eles mudaram de lugar.
Mergulhamos no paredão, procurando peixes nas tocas que já
conhecíamos, mas encontramos apenas alguns frades e cirurgiões.
Tentei ir para o parcel da enseadinha, apesar de estar muito raso.
Passei facilmente e avistei a primeira tartaruga. Todos vieram atrás e
nadamos perto dela, acariciando seu casco e pescoço. Essa tartaruga tinha
três pequenas manchas brancas nas costas, sendo fácil identificá-la.
Ficamos um bom tempo com ela, que não se assustava! Deixamo-la
sossegada e fomos ver o resto do parcel.
Avistamos pequenas barracudas e bicudas. O parcel estava cheio
de peixes coloridos! Muitos frades, cirurgiões azuis, peixes-anjo e
badejos. Vi a técnica de caça interessante de um badejo: ele “azulava”
(mimetismo é um de seus pontos fortes) e entrava no meio do cardume
de cirurgiões. Disfarçado, ele atacava presas que passavam tranqüilas ao
lado do cardume. Lembrei do ditado: “Lobo em pele de ovelha”.
Avistamos a tartaruga das manchas novamente. Ela nos
acompanhava e, sempre que a víamos, a tocávamos. Esse encontro se
repetiu oito vezes, com ela nos deixando aproximar, sem se assustar.
Ao fundo do parcel, na costa de Sta. Bárbara, vimos os restos do
veleiro que me deu calafrios da outra vez. Está mais destruído e vimos
muitos pedaços dele no fundo da enseada. Tudo isso que conto, acontecia
com, no ponto mais fundo, um metro e meio de profundidade! Uma
barracuda, de setenta centímetros, começou a nadar atrás da Lu, que se
assustou. Nadei na direção da barracuda e ela se afastou.

264
Saímos do parcel maravilhados e continuamos nosso mergulho no
paredão. Numa toca, vimos um grande baiacu-arara e chegamos em
outro recife. Desci para ver uma toca e a Lu foi para o recife.
Estava tranqüilo, olhando um lindo vermelho-cioba na toca,
quando senti pancadas de nadadeira na minha cabeça e subi. Quando
chegava à tona, percebi que o Jonas, a Carol e a Lu estavam bem em cima
de mim e o “circo estava armado”! A Lu gritava “- Tubarão!” e pedia para
voltarmos rapidamente ao barco. As crianças estavam com cara de
assustadas e eu resolvi perguntar qual o tamanho do tubarão que ela viu,
antes de “corrermos”. Ela abriu os braços, numa distância aproximada de
oitenta centímetros, e disse que ele estava no recife. Para desespero da Lu,
resolvi dar uma olhada nele e o Jonas e a Carol vieram atrás de mim!
Quando chegamos lá, vimos um tubarão-limão com o tamanho exato que
ela falara. Ele era pouco maior que os filhotes que ela e a Carol estudaram
bem de perto, outro dia. Como caçava, estava agitado e isso a assustou.
Tentei me aproximar, mas ele “deu no pé”, saindo em alta velocidade na
direção da arrebentação. Voltamos e tranqüilizamos a Lu, que virou a
“bola da vez”, com as crianças tirando o sarro dela toda hora. Eu fiquei
quieto: “- Dá de aparecer a mãe deles, eu hein!”.
Ao final da tarde, retornamos para outro mergulho. A água estava
turva e o mergulho perto da praia de Sta. Bárbara, não foi bom como os
outros. Entretanto, o “pior” foi muito belo. Abrolhos é “FANTÁSTICO”!
Voltamos ao Fandas e arrumamos as coisas para seguir viagem.
Agradeci a acolhida ao Sgto. Irã e pedi que avisasse a Capitania dos
Portos que zarparíamos à meia-noite, com destino a Vitória.
Abrolhos vai ficar na saudade! Como é duro sair daqui! Acho que
ainda renderá muitos sonhos com água limpa, quente, muitos peixes e,
talvez, alguns pequenos pesadelos com tubarões!

265
39
Quinze Minutos de Fama

30/01/2007 - Levantei (não posso dizer que “acordei”) era zero hora, início
de um novo dia. Coloquei o piloto automático, soltei a poita e liguei o
GPS. Saímos, com ótima visibilidade, ajudada pelo farol e pela lua que
crescia, já faltando pouco para estar cheia. Deixamos as ilhas e aproamos
para sair pelo canal de Abrolhos. A lua descia na alheta de boreste e o
farol se afastava pela alheta de bombordo, deixando entrever o contorno
de Sta. Bárbara, Redonda, Siriba e Sueste. O vento estava fraco e abri a
genoa. Andamos a motor até as duas da manhã para carregar as baterias,
ajudados pela genoa toda aberta. Desliguei o motor e o silêncio voltou a
reinar na cabine, onde todos dormiam. Andávamos entre três e quatro
nós, só com a genoa e não levantei a mestra para deixar a tripulação
descansar bem.
Às três e meia senti sono e chamei a Lu, que assumiu o turno.
Passamos ao lado de um barquinho de pesca (há muitos nesta região) e,
quando amanheceu o dia, o Jonas assumiu. Quando levantei às sete,
colocamos a vara de pesca e adriçamos a mestra no segundo rizo, fazendo
uma asa de pombo. O vento apertou e andávamos na casa dos seis nós. O
molinete começou a cantar como louco e, quando diminuímos a
velocidade e pegamos a vara, ele parou: o peixe escapara!
A genoa começou a bater muito e a enrolamos, pois o vento ficara
mais forte. Só com a mestra no segundo rizo, andávamos perto de sete
nós. Calculo que, no começo da tarde, o vento estava na casa dos vinte e
cinco nós e o mar cresceu para dois metros, ficando muito bonito, cheio
de carneirinhos. O céu estava com poucas nuvens e o sol delicioso.
No meio da tarde perdemos mais dois peixes grandes, pois os
anzóis abriram. Antes do anoitecer, recolhemos a vara, descemos a mestra
e abrimos toda a genoa, pois, se o vento aumentasse, bastaria ir enrolando
a genoa, mantendo uma área vélica compatível com o vento.
Durante a noite o vento diminuiu e fiz um belo turno, com a lua
quase cheia. Saímos da maravilhosa e acolhedora Bahia e da nossa linda
região nordeste. Isso foi sentido “na pele”, pois voltei a usar blusa nas
travessias noturnas, coisa que não precisava há muito tempo.

31/01/2007 - Quando chegamos perto de Regência, uma nuvem escura


muito grande apareceu na frente do barco e veio em nossa direção.
266
Estávamos com pouco pano e não me preocupei muito, senão teria rizado.
Ela chegou e mudou a direção do vento, fazendo-nos orçar, além de
aumentá-lo de intensidade. Após meia hora, tudo voltou ao normal.
A Lu fez um turno de duas horas na madrugada, me permitindo
dormir um pouco. Quando acordei, o vento havia sumido e o mar alisado,
obrigando-nos a ligar o motor. Passamos vinte e oito horas velejando
muito bem, mas motoramos o resto do caminho até Vitória. Nos
alternamos em turnos curtos e, às dez e meia da manhã, ancorávamos no
Iate Clube do Espírito Santo.
Não nos deixaram ficar no píer e todos os veleiros visitantes
estavam em poitas ou ancorados do lado de fora do clube. Mudou a
comodoria e, com isso, também mudou a recepção aos barcos de fora. Por
outro lado, não teremos mais que escalar o píer do clube, o que me
deixava sempre preocupado, e teremos mais ventilação no barco.
Fomos a uma padaria tomar nosso café da manhã. É muito bom,
depois de dias no mar, comer comidas diferentes, mesmo sendo lanches.
No clube, dei entrada da embarcação. Agora cobram por pessoa que
utiliza as instalações do clube, não mais por barco. Dessa forma, fica bem
mais barata a estadia. Por outro, o barco ficou mais desprotegido.
Encontramos no clube o Aurélio e a família. Tomamos um banho
delicioso de chuveiro, com água abundante!

01/02/2007 - Acordamos cedo e fui ao mercado com a Lu, comprar coisas


gostosas para nosso café da manhã: pães franceses, queijo branco,
presunto, picles em conserva, iogurte, etc. Que delícia! Essas coisas
pequenas se tornam tão boas, depois de tanto tempo sem tê-las!
Passamos a manhã colocando em ordem o nosso “mundinho” e as
crianças estudaram (está chegando a hora da prova de reclassificação!). O
tempo passa rápido e me sinto cada vez mais “estranho” quanto à nossa
volta a Ilhabela. Falta menos de um mês para estarmos de volta à nossa
casa. Será muito bom rever os amigos e parentes, mas esta sensação de
liberdade, a chance de estarmos sempre conhecendo coisas novas e o
domínio de nosso tempo são coisas difíceis de perder.
As crianças queriam ir à lojinha da Garoto e aproveitamos a tarde
para isso. Compramos um estoque de chocolate de fazer inveja a qualquer
chocólatra e outros para enviar para pessoas queridas.
Jantamos num restaurante rodízio japonês, para fazer uma
“despedida”, pois a Lu vai embora amanhã. Comemos fantasticamente
bem e tudo estava muito gostoso! As crianças pagaram meia, mas, “em
compensação”, comeram por dois (cada um deles!!!).

267
02/02/2007 - Ajudei a Lu a arrumar suas coisas e desembarcamos suas
“malinhas” (tivemos que pedir ajuda ao bote grande da marina!).
Chegamos cedo ao aeroporto e esperamos o vôo. Ela e as crianças
aproveitaram para comprar coisas bonitas na lojinha do Tamar. Depois
de quarenta dias de muitas aventuras e lugares bonitos, demos “até
breve” à nossa amada tripulante.
Retornamos ao clube, onde conhecemos o pessoal do veleiro “Hot
Day”, de Floripa. É um pessoal bem animado e simpático.

03/02/2007 - Chovia muito e as crianças aproveitaram para estudar. A


Carol teve problemas com matemática e estressei com ela, pois não
entendeu e não pediu ajuda. Estudando no barco, temos que estar atentos
às lições, pois são nelas que encontramos as falhas de aprendizado.
No final da tarde, começaram a chegar as lanchas que participam
do campeonato de pesca esportiva. Descemos e ficamos embaixo de um
toldo, vendo os barcos chegarem. Muitas não trouxeram peixes. Algumas
trouxeram wahoo’s (um muito bonito, de dezenove quilos), atuns e vimos
um dourado de nove quilos. Todos esperavam uma lancha, que informou
haver pescado um marlim, mas não disse o tamanho do peixe. A
expectativa era grande e a lancha não chegava.
Escutamos boatos que o marlim tinha duzentos quilos. Depois
cresceu para duzentos e cinqüenta, chegando a trezentos! A lancha não
chegava e o peixe crescia na imaginação das pessoas. Quando chegou, foi
a última, como noiva na igreja! Visualizamos o bico do peixe para cima,
sinal que não cabia na largura da lancha. Ela encostou e começou a
comemoração. Os pescadores estavam muito contentes e o guincho foi
posto em ação para levantar o peixe. Era enorme! O maior marlim que eu
já vi! Com dificuldade, o removeram da lancha, o içaram e depositaram
na balança do campeonato. Para aumentar a expectativa, o medidor
oficial cobriu a balança, para que ninguém visse o peso até ela estabilizar.
Quando descobriu, a surpresa: quatrocentos e trinta quilos!!! É um dos
maiores marlins pescados no clube e, com certeza, a foto dele irá para o
painel de fotos no restaurante.
As crianças adoraram ver o peixe tão bonito, mas a Carol chorou,
com pena do lindo marlim. Fico imaginando esse belo peixe nadando e
não sei se eu teria coragem de matá-lo. Quem leu o “Velho e o Mar”,
somente entende os sentimentos do velho Santiago quando visualiza um
peixe destes! Um rei morto! Mesmo assim, não deixa de ser extremamente
belo. Desceram o peixe, troféu retirado num carrinho, como um boi
abatido indo para o corte, o que me deixou mais triste.

268
Tomamos banho e esperamos os amigos Mauro e Cristina. Eles
chegaram com o Kalunga, seu motor-home. O Mauro é extremamente
cuidadoso e caprichoso e a casa ambulante deles ficou excelente.
Conversamos na “sala” do Kalunga, esperando o Aurélio e sua família.
Fomos para um restaurante tomar vinhos e comer queijos, além de
conversar sobre peixes, ventos, mar, viagens e barcos.

04/02/2007 - Recebemos uma equipe da TV Tribuna, para fazer uma


matéria sobre nossa viagem. Contamos nossa história, enquanto
filmavam tudo no barco. Saímos para velejar na frente do clube e
retornamos direto para o píer, para desembarcá-los e encher o tanque de
água. Acho que gostaram de velejar, pois voltaram animados!
No píer, conhecemos o casal do barco Namastê, um Velamar 31, que
acompanha nossa viagem. Conversamos um pouco, mas não pudemos
estender o assunto, pois tínhamos de voltar para a ancoragem.
Fomos passear e vimos uma Blazer 4x4 “encalhada” na areia, ao
lado do clube. O dono entrou na praia para puxar seu jet-ski e acabou
enterrando todas as rodas na areia fofa, com a maré subindo
rapidamente. Já vi tanto isso! Eles querem entrar com o carro até a
beiradinha da água para terem menos trabalho e acabam quase perdendo
o carro. Se levarem um cabo comprido, acaba o problema! Tentaram de
tudo (e tudo da forma errada, pelo que presenciei) e não conseguiram
sequer mexer o veículo. Quando as ondas já batiam nas rodas traseiras,
os funcionários do Iate Clube, muito gentis, chegaram com o trator para
rebocar o carro do sujeito.
Fiquei assustado por duas coisas: o primeiro cabo usado nas
tentativas infrutíferas e que estourou várias vezes, foi “emprestado” por
um lavador de carros de um carro que ele lavava, sem autorização do
dono. A segunda foi que os lavadores, que tentavam ajudar o sujeito,
entraram embaixo de uma Mercedes novinha, que também estava sendo
lavada por eles, para ver se havia algum lugar para amarrar o cabo, para
rebocar o motorista descuidado. Ainda bem que não acharam onde
amarrá-lo! Deixe a chave de seu carro com lavadores!
Ao final da tarde, recebemos a visita da amiga Janaína. Estávamos
com saudades e fomos tomar sorvetes com ela e contar histórias.
Retornamos ao clube com uma chuva torrencial se iniciando.
Sentamos na varanda da piscina. As crianças juntaram várias cadeiras e
deitaram. Dormimos ali, pois não dava para ir ao barco. Só parou de
chover após a meia-noite. Com o bote encharcado e o motor falhando,
retornamos ao Fandas. Nem tudo são flores na vida dos velejadores!

269
06/02/2007 - Quando era quase meio-dia, fomos ao clube, dar uma olhada
no jornal da TV Tribuna. Anunciaram a nossa matéria e as crianças
ficaram sorridentes e ansiosas, aguardando o início dela (como ficam
compridos os comerciais nessa hora!). A matéria ficou ótima e a filmagem
da nossa curta velejada ficou bonita. Profissionais de primeira!
Eu não havia visto o que a repórter gravou com as crianças dentro
do barco. Então, diverti-me em dobro, quando ela perguntou à Carol, “que
estava viajando pelo Brasil, conhecendo lugares, vendo golfinhos, baleias e
aprendendo muito”, o que ela achava das meninas da mesma idade, “que se
divertiam indo a salões de cabeleireiros e atrás de namorados”. A Carol se
ajeitou melhor no sofá, parecendo incomodada com a pergunta, mas
respondeu “na lata”: “- Algumas meninas são meio frescas!!!”. Dei muitas
risadas com a resposta e como foi colocada na matéria, propositalmente,
para que alguns expectadores pudessem “rever seus valores”.
Pouco depois, fomos ao shopping. No ônibus, uma moça olhava
muito para nós. Quando descemos, ela se virou para a Carol e disse: “-
Carol, eu vi você na televisão... e adorei a resposta das ‘meninas frescas’!”.
Fomos para a praça de alimentação, pois a fome estava grande.
Almoçávamos, quando chegou uma senhora para falar conosco sobre a
matéria. Era de São Paulo e freqüentou Ilhabela desde antes de existirem
as balsas, quando, para se ir à Ilha, tinham que contratar pescadores com
canoas para levá-los. Ela sentou conosco e conversamos bastante.
Isso ainda se repetiu em outras duas lojas e ficamos nos sentindo
“importantes”! Após comprar um dock sider e aproveitar os “quinze
minutos de fama”, retornamos ao clube a pé, curtindo o lindo calçadão.
No caminho, uma bicicleta, que vinha em nossa direção, passou por
nós, fez meia volta e veio conversar conosco. Pensei: “- Outro que nos viu
na TV!”, mas me enganara. Era um marinheiro do clube, que nos
informou que o cabo de âncora do “Fandas” partiu, que ele deu uma
pequena encalhada na praia, sem deitar, e que já estava tudo bem. Ele foi
amarrado à popa do barco que o rapaz é marinheiro. Agradecemos e
voltamos rapidamente ao clube. Soubemos que, na hora em que o cabo
de âncora partiu, um bote do clube passava por lá e retirou o Fandango
da leve encalhada. Agradeci o gerente do clube pela rápida ação.
Chegando no Fandango, vi que o cabo partira no fundo. O cabo de
âncora deve ter roçado em algo, talvez uma pedra ou um bloco de poita.
Vasculhamos o fundo por uma hora, com uma garatéia e o bote, mas não
achamos nossa âncora. Só enroscamos em algo que não se movia,
provavelmente o bloco de cimento ou pedra que partiu o cabo.
Desistimos de recuperar a âncora e fomos para fora do clube.
Soltamos nossa âncora reserva, bem mais pesada, mas sem corrente.
270
Avisamos o clube e a Capitania dos Portos de nossa saída amanhã
e dormimos cedo. A travessia de amanhã será tensa, pois passaremos pelo
pior lugar para se navegar de nossa viagem.

271
40
Torpedos Fosforescentes

07/02/2007 - Saímos às seis da manhã, com o dia raiando. As crianças me


ajudaram na manobra de levantar âncora e voltaram para a cama.
Quando estávamos fora da barra, coloquei a linha de pesca e baixei as
velas, pois o vento era muito fraco, de popa.
Quando eram oito horas, a vara ficou pesada e o molinete se
deslocou um pouco. Chamei a Carol para puxar o “peixe”, pois ela queria
pegar um. Ela levantou da cama a contragosto, puxou, puxou, puxou e
pescou um saco plástico! Ficou brava e voltou para a cama!
Perto de Guarapari, chamei o Jonas para seu turno. Eu estava na
cama, mas de olho nele. De repente, ele fez cara de surpresa e ficou em
pé. Saí e ele disse ter visto um tubarão ou um grande marlim. Não era
nem uma coisa, nem outra. De repente, subiu um grande golfinho ao lado
do barco e depois mais outro. Chamamos a Carol e eles ficaram
acompanhando o barco, nadando na proa. Eram enormes! Deviam ter
quase três metros de comprimento e, comparando com o marlim, diria
que teriam uns duzentos quilos! Nunca vi golfinhos tão grandes! Outros
vieram e ficamos rodeados por uns trinta golfinhos, vários deles muito
grandes. Eles iam para a popa e retornavam em alta velocidade,
aproveitando para dar saltos fora da água, num lindo balé. Adoramos!
O vento aumentou de intensidade e abrimos as velas em asa de
pombo, desligando o motor. Escutamos no rádio uma chamada geral,
informando o desaparecimento de um pesqueiro chamado “Pitbull”,
desde o dia 18 de janeiro. Isso faz parte do serviço do projeto Salvamar,
da Marinha do Brasil, para salvaguarda da vida humana. Todos os barcos
fazem parte do serviço, ficando atentos a sinais do barco desaparecido.
Redobramos nossa atenção na vigília.
“Voamos baixo” durante todo o dia, pois o vento aumentou e nossa
média pulou para mais de sete nós. Quando anoitecia, fizemos o segundo
rizo na mestra para termos uma noite tranqüila.
Quando eram dez da noite, chamei as crianças, que dormiam, para
ver algo novo para elas: um bando de golfinhos acompanhando o barco
à noite! Levantaram correndo e ficamos os três em pé, na entrada da
cabine, vendo vários golfinhos acompanhando o barco. Eles pareciam
torpedos fosforescentes e brincavam em volta do Fandango. É lindo ver
seus grandes corpos brilhantes, por causa da ardentia, cortando a água,
272
numa noite muito escura, pois a lua ainda não se levantara! De repente,
alguns começaram a pular fora da água, bem ao lado do barco! Vê-los, à
noite, é uma das coisas que mais gosto navegando!
Eles se foram e o vento aumentou (ainda bem que rizei a mestra!).
Cruzamos com muitos navios, barcos de trabalho e pesqueiros.
Estávamos nos aproximando da “esquina” onde dobram todos os barcos:
o cabo de São Tomé. Era meia-noite, quando dobramos este sempre
preocupante cabo, me fazendo sentir mais perto de casa.

08/02/2007 - No meio da madrugada, vi uma luz forte e vários barcos ao


lado. Chegando mais perto, distingui uma grande plataforma de petróleo,
com vários rebocadores e barcos de serviço. Ela estava fora da área das
plataformas e procurei passar longe, desviando nosso rumo.
Quando amanheceu, depois de nove horas e meia de turno, chamei
o Jonas e fui dormir. Ele e a Carol se revezaram nos turnos e, às dez e
meia da manhã, o Jonas avistou Búzios e a Ilha de Cabo Frio. Chequei a
vara de pesca e cadê a isca? Havia sido arrancada!
Conforme nos aproximávamos de nosso destino, admirávamos o
maravilhoso visual das ilhas e cabos, que ficam entre Arraial do Cabo e
Búzios. Realmente, muito lindo! Chegamos em Arraial, com forte
nordeste nos empurrando, às duas da tarde. Foi uma travessia excelente
e levamos trinta e duas horas para cumprir o trajeto!
Na praia dos Anjos, ancoramos perto das escunas e barcos de pesca.
A ancoragem estava desabrigada do nordeste, mas a âncora unhou bem.
Aproveitamos para fazer nosso almoço. Após comermos, me bateu
aquele “soninho” e, antes de me deitar, dei uma olhada em volta para
conferir nossa posição. Achei que estávamos mais perto de um barco de
passeio atrás de nós. Saí e observei, até ter certeza que a âncora estava
garrando, em virtude do forte vento e do mar encrespado. Liguei o motor
e chamei a tripulação para sairmos dali imediatamente. Nisso, outra
rajada virou o barco de lado e a âncora deu uma grande escorregada!
Engatei, ajeitei o barco e passei o leme para o Jonas, que o manobrava,
enquanto eu erguia a âncora, rapidamente. Quando a âncora subiu, o
Jonas acelerou e nos tirou do enrosco.
Achei melhor mudar de ancoradouro e nos dirigimos à nossa praia
preferida de Arraial: a praia do Forno. Ela, apesar de não possuir o
quebra-mar, é muito mais protegida do nordeste. Mesmo com rajadas, o
mar fica totalmente liso. Desta vez, coloquei a nossa âncora fortress
amarrada na âncora bruce, dando uma segurança extra à ancoragem.
Acabando a manobra, abateu-se sobre mim todo o cansaço do
mundo e me deitei, passando as obrigações de arrumação do barco às
273
crianças. Mais tarde, elas me chamaram para tomar uma sopa, que
fizeram com carinho, e voltei a dormir.

09/02/2007 - Levantei durante a noite para observar nossa ancoragem,


pois sonhei haver encalhado, mas tudo estava em ordem. Dormi quinze
horas e, acho, estava para pegar alguma gripe ou algo parecido!
Quando eu fazia o café da manhã, acabou o gás. Troquei-o e me
veio à lembrança que, se não houver vazamentos, foi a última troca da
viagem. A sensação foi estranha, com gosto de fim de festa.
O dia estava maravilhoso e tomamos um banho na popa. Nessa
hora, relembramos porque o nome da região é “Cabo Frio”!
Fomos à praia e eu fui até Arraial para comprar camarões para
pescar. Aproveitamos a praia, de água transparente e fria, mas com o sol
delicioso a nos bronzear. Voltamos ao Fandango para pescar, onde fiz
arroz com camarões e açafrão, que ficou fantástico e foi logo devorado.
Pegamos vários peixinhos. Selecionamos dois linguados e um sargo
e soltamos os outros. As crianças quiseram aprender a limpar peixes e
cada um limpou um linguado.
Anoiteceu e esfriou bastante. No final da noite fritei os peixes e os
comemos um pouco antes de ir para a cama. Fazia tempo que não
sentíamos esse friozinho gostoso para dormir!

10/02/2007 - O tempo amanheceu muito nublado. Não conseguíamos ver


a ilha de Cabo Frio e quase não conseguíamos ver o morro da praia do
Forno. Já escutei falar de névoas fortes aqui, mas nunca as presenciara.
As crianças quiseram pescar e a Carol pescou uma corvina de meio
quilo. Fomos para a praia e o dia ficou magnífico, de céu azul e muito sol.
Talvez, a praia do Forno seja a mais “caribenha” da nossa costa,
diferenciando-se apenas na temperatura da água.
Fui para a cidade comprar uma corrente para a âncora e camarões,
para comer e pescar (mais comer do que pescar!). Vi a previsão de tempo
e conclui que não poderemos sair daqui amanhã, como eu pretendia.
Quando retornei para a praia e falei que iríamos ficar mais alguns dias
aqui, a resposta foi: “- Obaaa!!!”. As crianças brincaram com outras
crianças que estavam na praia cheia, em pleno sabadão.
Puxa! Um ano e dois meses de viagem! Para ser sincero, quem
lembrou foi a Carol, no final da tarde, quando fez o diário. Para
comemorar: camarão e corvina!
Selecionei as cartas náuticas para o próximo trecho a navegar e,
cada vez que faço isso, vejo como estamos cada dia mais perto de nosso
destino. No começo da viagem, eu as selecionava com muito entusiasmo,
274
doido para ver os lugares que nos esperavam e como chegar lá, mas
também com um pouco de medo do desconhecido. Agora, o entusiasmo
é menor, mas o sentimento de estar cada vez mais perto de casa não deixa
de ser gostoso também. Há um ano e dois meses atrás, eu não podia nem
imaginar o que estou sentindo agora, mas já previa o conflito de
sentimentos na nossa volta.

11/02/2007 - Acordei com o sol iluminando meu rosto, sinal de que o barco
estava virado ao contrário, de proa para a praia e popa para a ilha de Cabo
Frio. O vento mudara e já soprava de sudoeste, indicando que a frente
fria já está chegando. Começamos mudar o barco de lugar, mais para
perto da praia, onde é mais abrigado do sudoeste. Levantei as âncoras e
coloquei a corrente, que eu comprara em Arraial. Quando fui descer a
âncora, tive uma surpresa: um metro da corrente estava emendado, ao
restante dela, por um araminho de fechar sacos de pães! Se eu não
estivesse atento, estaríamos numa roubada, pois as duas âncoras iriam se
perder e o barco ficaria solto! Como o vendedor ou fornecedor teve a
“grande” idéia de emendar a corrente com aquilo, eu não sei, mas os
prejudicados (e bem prejudicados) seríamos nós.
Fomos para a praia, que estava cheia de gente. Tomamos banho de
mar, as crianças brincaram com barquinhos e castelos de areia e a tarde
transcorreu gostosa. Observei as pessoas na praia: “tribos” muito
heterogêneas aproveitavam sua praia, seu churrasco, sua cervejinha e o
ambiente era de alegria total. Apesar de muitas brincadeiras, não vi
nenhuma confusão e o clima era de descontração total. Nuvens de chuva
chegaram e o tempo esfriou, fazendo-nos retornar ao Fandas.
Para acompanhar o jantar, fiz as primeiras batatas fritas da viagem,
a pedido das crianças! Eles pediram com muito “afinco” ontem e resolvi
fazê-las (sempre é bom prevenir um motim!).
O Jonas acabou seu estudo cedo e tivemos um bom “atrito”, para
que ele adiantasse mais algumas páginas. É difícil fazer com que os
argumentos vençam a preguiça e também ensiná-los que imprevistos
acontecem e que, nesta noite chuvosa, ele pode adiantar estudos para
aproveitar melhor um outro dia.

12/02/2007 - Resolvemos dar um pulo até a praia dos Anjos. Erguemos a


âncora e havia tanta vegetação pendurada nela, que achei que havíamos
perdido a âncora fortress, que estava na ponta. Tirei uns quatro quilos de
vegetação e achei o cabo da fortress.
O amigo Edgar apareceu numa lancha. Contamos um pouco da
nossa viagem e ele nos convidou para conhecer melhor a ilha de Cabo
275
Frio, amanhã. Quando ele se foi, fomos à cidade. Fizemos compras, cortei
meu cabelo, aparei a barba (quero chegar descente na Ilha!) e compramos
o “Mineirinho”, refrigerante que estávamos com saudades. No barco, o
penduramos com um cabo dentro da água, para gelá-lo.
A Carol acabou de estudar todos os livros e agora faremos um
resumo. Após uma chuvarada, começou um cheiro de esgoto muito forte,
que trouxe pernilongos para o barco. Parecia que toda a Baia da
Guanabara tinha vindo passear em Arraial do Cabo!

13/02/2007 - Acordamos cedo, com um lindo dia ensolarado. Quando fui


tirar a água do bote, o remo escapou da minha mão e foi direto para o
fundo. Mais um presente para Iemanjá! Engraçado, não perdemos nada
no começo da viagem e agora estamos perdendo várias coisas: âncora,
corrente, remos, fora os tradicionais pregadores, que bastam para
pendurar as roupas de um exército da Deusa!
Algumas gaivotas sobrevoaram o Fandango e jogamos pedaços de
pão para elas, que fizeram a maior festa.
Edgar chegou e trouxe uma boa surpresa com ele: o Paulo e mais
um amigo, chamado Ângelo. Seguimos para a praia do Farol e
aproveitamos para conversar, contar as novidades e dar notícias dos
amigos em comum: Claudinei do Moara e Edélcio do Tiki.
Seguimos o caminho mais curto, que todos os barcos de passeio
fazem, diretamente para a praia, sem dar toda a volta perto da ilha de
Cabo Frio. A água estava escura e cheia de águas-vivas, mas também
cheia de filhotes de peixes, entre eles muitos peroás minúsculos.
Ancoramos ao lado do atracadouro da Marinha e descemos no píer.
Subimos por uma trilha íngreme e a visão que se descortinava era cada
vez mais bela. Primeiro, a enseada entre Cabo Frio e Arraial. Depois, a
grande praia do continente. Por último, o lado de mar aberto, com sua
beleza selvagem. Andamos até ver a ponta do Focinho e ter uma vista
parcial do farol de Cabo Frio. Muito bonito mesmo e muito bem cuidado!
Voltamos cedo, pois o Edgar tinha um compromisso na cidade.
Retornamos para Arraial e nos despedimos dos amigos.
Fiz um cozido para o almoço, com batatas, cenouras, tomate, cebola
e carne seca, usando a panela de pressão. Ficou excelente e as crianças
adoraram! Se nossa viagem começasse agora, estaríamos comendo
melhor que no ano passado. O treinamento faz o cozinheiro!

276
277
41
Primeira Chegada

14/02/2007 - Acordei às duas e meia da manhã e não consegui dormir


mais! É a expectativa da volta, pois fiquei pensando em muitas coisas que
quero fazer e amigos que quero reencontrar. Também pensei em como ter
entrada de recursos financeiros que nos possibilitem a compra de outro
barco, mais confortável. Esse é o objetivo que estarei perseguindo. Eu
gostaria muito de um barco semelhante ao Fandango, com 34 pés, pé
direito maior e camarotes com mais privacidade. Rolei na cama até as sete
e meia e resolvi me levantar. A previsão de tempo era boa, com promessa
de bons ventos no início da tarde.
Arrumamos tudo e saímos de Arraial do Cabo antes das dez.
Adoramos este lugar e, sempre que pudermos, voltaremos para cá.
Demos a volta na Ilha de Cabo Frio, para conhecer seu lado mais
selvagem, no mar aberto. Baixamos nossa isca artificial na água,
esperando pegar algo para o almoço. Costeamos a ilha e vimos o antigo
farol, no alto de um dos maiores picos da ilha. Fico imaginando o trabalho
insano para construí-lo lá. Hoje ele está inacessível, pois a trilha que dá
acesso a ele fechou. O mar, do lado de fora da ilha, estava muito agitado,
com muito refluxo (as ondas batem na ilha e voltam, criando um mar
desencontrado, com ondas que vão e outras que voltam), ótimo para se
enjoar. Ainda bem que tenho bons marinheiros!
Passamos pelo Focinho do Cabo, uma ponta de pedra que parece
um focinho e sobre a qual se vê o Farol de Cabo Frio. As ondas quebravam
no “focinho” e subiam muito alto. Quando deixamos a ilha para trás, o
mar mudou totalmente e ficou bem mais tranqüilo. O vento estava
fraquíssimo e o motor continuava ligado.
Nos afastamos da ilha e o molinete “cantou”! Peguei a vara e
trabalhei o peixe, enquanto o Jonas recolheu a genoa e reduziu o motor.
O peso estava grande e a briga boa. Quando chegou perto, depois de um
bom tempo, vimos que era um dourado grande! Que bonito ver aquele
peixe reluzente, cortando a água e fazendo jus ao seu nome! O Jonas
pegou a vara para eu embarcar o peixe, o que não foi fácil. Tentei usar o
arpão manual, mas este não furava a cabeça dele. Nessas tentativas, o
peixe recuperava suas forças e levava um bocado de linha, que o Jonas
tinha que recolher novamente. Peguei um pequeno bicheiro e, após
algumas tentativas, consegui cravar no peixe e arrancá-lo da água. Era
278
lindo! O maior peixe que pegamos na viagem! Com sete ou oito quilos,
mede 112 centímetros, da cabeça até a ponta do rabo! Acho que foi
presente de Iemanjá, em troca de nosso remo e nossa âncora!
Fotografamos (o Jonas não conseguia levantar o peixe!) e comecei a
“tratá-lo”. Tirei dois imensos filés, dos quais também arranquei a pele,
sobrando só a firme, branca e saborosa carne, de um dos peixes que mais
gosto. Jogamos a carcaça ao mar e cortei os filés em vários pedaços.
Salguei muitos, reservei alguns para assar mais tarde e fiz, de um filé das
costas, um sashimi para aperitivo. As crianças adoraram a carne do
dourado. O sashimi ficou divino, temperado com limão e shoyo.
Quando acabei tudo, inclusive a limpeza do cockpit, o vento entrou.
Abrimos velas, desligamos o motor e iniciamos uma gostosa velejada,
com vento de alheta. Vimos vários golfinhos atrás do barco, a cerca de
cem metros. Dormi um pouco e, quando acordei, o vento mudara de
direção. Abrimos asa de pombo e seguimos devagar, em silêncio, só com
o barulho da água e a risada das crianças.
O resto da tarde foi todo assim e, quando anoiteceu, mantivemos o
pano todo em cima, pois a previsão era de ventos fracos. Fiz o
“almojanta”: dourado assado com batatas, cebolas e tomate! As crianças
adoraram, ainda mais porque não fiz arroz!
Anoiteceu quando chegávamos perto da cidade do Rio. Vários
golfinhos cercaram o barco. Desta vez não foi tão bonito, por falta de
ardentia e excesso de luzes da cidade grande. Não víamos seus rastros
fosforescentes, mas escutávamos sua respiração e víamos suas barbatanas
no contra-luz da cidade. Quando eles foram embora, fiquei sozinho, para
minha noite de turno. Noite linda, muito estrelada e sem lua, com as luzes
do Rio a me servirem de guia. Mesmo muito longe da costa, consegui
distinguir claramente o Pão-de-Açúcar e o morro da Urca, por seu relevo
característico e a pequena luz da estação de bondinhos em seu topo. É
muito belo ver o Rio do mar, também! Era meia noite e estávamos cada
vez mais perto de casa.

15/02/2007 - Às duas da manhã, o sono bateu forte e pedi para a Carol


assumir. Ela estava bem acordada e queria ver as luzes do Rio, saudade
que trazia da subida da costa. Ela me deixou dormir uma hora e meia.
Estávamos numa boa posição, pois os navios passavam por fora de
nós e os pesqueiros se concentravam perto da costa. Isso só mudou
quando chegamos na Ilha Rasa da Guaratiba, quando os barcos se
concentraram, no que parece ser uma “curva” da costa. Vi um enorme
transatlântico todo iluminado passar perto. Ele fica mais bonito à noite.

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Faltando pouco para amanhecer, vi um “barquinho alaranjado”
navegando no horizonte. Era a lua, quase nova, que vinha velejar
conosco! Ela subiu pouco a pouco, perdeu a cor alaranjada e, algum
tempo depois, o dia raiava. Eu estava acostumado a ver o céu clarear pelo
través de bombordo, onde estava tudo escuro. “- Ué, esqueceram de acender
o sol ou vai vir uma tempestade daquelas?!!”. Esqueci-me que já fazíamos um
curso leste-oeste e, quando olhei para trás, tudo clareava.
Deixamos a restinga da Marambaia e chegamos em Ilha Grande.
Resolvemos passar por fora dela, pois não conhecíamos seu o lado
externo. Conversamos com o “Hot Day II” pelo rádio. Fizeram boa
travessia e combinamos nos encontrar em Parati amanhã.
Passamos na frente da praia de Lopes Mendes e da lindíssima ilha
de Jorge Grego. O lado abrigado dela é muito bonito e centenas de
pássaros marinhos a sobrevoavam, principalmente os atobás, retornando
de sua pescaria, e as fragatas, tentando roubar-lhes o alimento.
Distinguimos, também, Dois Rios e a praia do Aventureiro.
O vento apertou muito e as ondas cresceram, tornando o barco
difícil de ser levado, mas o “Alfredo” resistia bravamente. Quando
chegamos no través da Ponta Alta da Parnaioca, a peça de plástico de
encaixe do piloto na cana de leme se partiu. Eu estava dentro do barco e,
antes que o Fandango atravessasse com o vento forte, a Carol já havia
soltado o piloto e o Jonas assumido o leme! Que tripulação! Saí, peguei o
leme e aproveitei a empopada de vento forte, com ondas para surfar! Não
adiantava colocar o outro piloto, pois quebraria, a menos que tirássemos
vela, mas a velejada estava deliciosa. Navegávamos vendo grandes
paredões de pedra, que as ondas tentavam galgar, e nos defendendo do
refluxo do mar e das grandes ondas que vinham pela popa. Deixamos a
ilha para trás e o mar se acalmou. As ondas, mesmo grandes, eram mais
organizadas e previsíveis.
Deixei o Jonas no leme, que curtiu muito a velejada e não quis sair
do turno quando este acabou, para continuar levando o barco. Ele leva
muito bem o leme! Continuamos assim até chegar à ilha do Mantimento.
Falei com a Capitania dos Portos pelo celular e avisei sobre nossa
chegada, agradecendo o acompanhamento da travessia. Passando a ilha
do Mantimento o vento acabou e motoramos até Jurumirim, nossa
ancoragem preferida. Eram sete da noite e tínhamos feito uma ótima
travessia, com trinta e três horas de duração e pouco uso do motor.
Ancoramos no “paraíso” e pulei na água. Estava deliciosamente
quente! Um pescador, de um barco de pesca vizinho, estragou minha
diversão, pois nos avisou para não nadar ali. Disse que pegaram um
grande tubarão na baia outro dia e que ele viu um tubarão ali mesmo, que
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chegou a dar um “encontrão” no barco dele! Por via das dúvidas, meio
contrariado e desolado, saí da água. Agradeci ao homem e peguei o balde.
Tomamos banho no cockpit, sonhando com mergulhos no mar.
Fiz nosso jantar: filés do grande dourado fritos no azeite, com
macarrão na manteiga. O peixe não foi temperado, apenas salgado, seco
e re-hidratado. Quando foi frito no azeite, ficou fantástico!
Um barco com luzes fortes se aproximou. Era uma lancha da
Capitania dos Portos, que veio nos dar boas vindas e ver se chegamos
bem. O Sgto. Nóbrega, muito simpático, com mais dois comandados,
mostrou-nos a lancha da Capitania e vieram a bordo para conhecer o
“Fandas”. Conversamos um pouco sobre nossa viagem e eles, curiosos,
perguntaram vários detalhes de nossa vida a bordo.
Finalmente, voltamos a Parati! O amigo Vilfredo Schürmann me
escreveu, nos incentivando a seguir viagem, meses atrás: “- Há muitas
‘Paratis’ para serem conhecidas na costa brasileira”. Nós as conhecemos,
adoramos, mas não perdemos o carinho e admiração por esta “Parati”,
tão bela e acolhedora. É muito bom estar de volta!
Só esperamos que os tubarões não tenham todo este carinho e
admiração e se mudem logo daqui!

16/02/2007 - Não dormi bem e acordei cedo. A expectativa da volta é


muito grande! Hoje é nossa primeira “chegada”.
Seguimos para a marina Refúgio das Caravelas, nosso “refúgio” em
Parati. Vimos o Plânkton, do Fabinho e da Cecília, na marina do Engenho.
O “Itamambuca”, do Dimitri, que é nosso antigo “Trinta-Réis”, também
veio nos recepcionar em Parati!!! Ao lado dele, estava o “Hot Day II”.
Passamos perto para conversar com sua tripulação, que agora está
curtindo a bela enseada de Ilha Grande.
Nos aproximamos da marina e, logo, vimos rostos conhecidos.
Encostamos à ponta do píer e descemos, para abraçar a Edna e o Peter.
Pouco depois, encontrávamos o Nonoco e os marinheiros que trabalham
ali. Fomos para o Tararaína e conversamos bastante sobre nossa viagem.
Entrou a bordo, um senhor que me pareceu conhecido: era o Leonard, que
construía os barcos Alegro Vivace, Contripoint e Opus. Eu o conheci há
vinte anos atrás e, posso dizer, que não mudou nada! Encontra-se com
setenta e nove anos e está preparando um pequeno veleiro para velejar
até a Europa. Não há dúvidas que o mar rejuvenesce!!!
Após matar as saudades, pegamos uma carona até a cidade, com os
amigos do veleiro Jataí. Seguimos para a Capitania dos Portos, com o
intuito de agradecer ao comandante Valdir a acolhida. Conhecemos mais
um belo exemplo de homem do mar, de caráter reto e que gosta muito de
281
história. Conversamos sobre nossa viagem, história do Brasil, filhos,
problemas da adolescência e de Parati e suas belezas. Foram duas horas
e meia de papo gostoso, que pareceram cinco minutos!
A Lu chegou para nos visitar! Almoçamos no “Sabor da Terra” e
comemos tortas no “Café com Arte”, que encontramos mais bonitinho
ainda. Passeamos em Parati e voltamos ao barco cansados.
É muito bom estar de volta! Esta “primeira chegada” ao seio dos
amigos foi emocionante. Prepara-te coração, pois, em breve, será na Ilha!

17/02/2007 - Dormimos até tarde. Tomamos banho de piscina e


encontramos o Sérgio, a Eliana e a Déborah, do “El Shadai”. As crianças
estavam com saudades da Déborah e ficaram brincando. Conversamos,
na beira da piscina, com o Sérgio e a Eliana, contando coisas da viagem.
Seguimos para a marina do Engenho, para visitar o Fabinho e a
Cecília, do “Plânkton”. Como foi bom revê-los! Contamos da nossa
travessia para o Caribe e as novidades dos amigos em comum. Quanto a
eles, estão ótimos!!! Ainda mais agora, que serão três! A Cecília está
grávida e pretende viver a bordo com o bebê. Fiquei contente, pois são
um casal positivo e alegre e, tenho certeza, serão ótimos pais “náuticos”.
Esperamos a Mônica, irmã da Lu, que vem nos visitar. Como é
véspera de Carnaval, a estrada estava péssima. As crianças ganharam
presentes, que adoraram. Principalmente, um brinquedo que fazia sons
de “puns” e que foi a diversão do resto da noite.

18/02/2007 - Seguimos velejando em orça até a praia do Engenho, em


Jurumirim, e ancoramos lá. O local estava cheio de barcos, com muitas
pessoas na água e, esquecendo a história do tubarão (se houvesse algum
por ali, já estaria de estômago cheio!), fomos para a água também. Ela
estava maravilhosa: quente e limpa! Fomos para a praia e, na beirada,
estava mais quente ainda, não deixando a gente sair.
A noite estava muito bonita, sem lua, com o céu repleto de estrelas.
Um pouco antes de dormir, deitei com a Carol no cockpit, olhando o céu.
Ela perguntou o nome das estrelas e eu não soube responder. Essa é a
desvantagem do GPS: perde-se o encantamento de conhecer as estrelas,
apesar de continuarmos admirando-lhes a beleza!

19/02/2007 - Ancoramos na praia de Jurumirim, onde fica a casa do Amyr


Klink. Mais dois veleiros chegaram à enseada e ancoraram ao nosso lado.
Um deles era o “Pulsar”, de Ilhabela, cujo dono conhecemos quando
estávamos nos preparativos para a viagem. Contamos que realizamos
nosso sonho e que tudo foi ótimo na viagem.
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Mergulhamos seguindo o costão oeste, onde vimos as grandes
estrelas-do-mar, que só encontramos na enseada de Ilha Grande e
Ubatuba. Muitos barcos estavam ali e várias escunas paravam na praia,
descarregando muitas pessoas. O Amyr não tem sossego nesta época!
Fomos à praia quando ela ficou vazia. É lindíssima! Um riacho de
um lado, várias canoas na areia e uma casa simples, no meio de muito
verde e um jardim bem cuidado. O dia se encerrava e muitas cigarras
cantavam à nossa volta. Saímos a contragosto, pois a paz ali era imensa.

20/02/2007 - A água estava melhor do que ontem e se via o fundo de cima


do barco. Fizemos outro mergulho bonito, com muitas estrelas e peixes.
Descobrimos uma caverna, onde havia vários peixes e grandes pedras
encavaladas que se sustentavam. Por um vão, do alto, caiam raízes e
folhas da vegetação. Na paisagem, só faltavam uma caveira com roupa
de pirata, uma grande espada e um baú de tesouro!
Retornamos à marina, pois a Lu e a Mô vão embora. Nos
despedimos delas e ficamos na piscina, conversando com as tripulações
dos outros veleiros. A camaradagem aqui é muito grande e acho difícil
encontrar um velejador que não seja amistoso e alegre.
Posso dizer que estou com “overdose” de filhos. Tenho andado
irritado, dado broncas, mas isso já era esperado, depois de tanto tempo
juntos sem uma folguinha sequer. Acho até que demorou a chegar. Por
outro lado, pode ser a ansiedade da volta e a pressão dos últimos dias de
estudo das crianças. Vou saber apenas quando estivermos na Ilha.
Quando anoiteceu, fomos a Parati com os amigos do “Jataí”.
Tomamos sorvetes na Miracolo e conversamos bastante. Eles têm vontade
de fazer uma viagem longa de barco e falamos bastante dos bons locais
de parada e de finanças. Ficaram animados e, pelo jeito, vão mesmo. Os
dois gostam bastante de velejar e sinto cumplicidade e carinho no casal,
que é fundamental para realizar algo. Infelizmente, de cada cem pessoas
que têm esse sonho, apenas uma segue o caminho sonhado.

283
42
Paradoxos

21/02/2007 - Convidamos a Berê para tomar café da manhã conosco, mas


ela não pôde vir. Que pena! Não pudemos encontrar nossa amiga!
Fizemos as despedidas, dando “até breve” ao pessoal da marina.
Soltamos as amarras eram onze horas da manhã, acenamos para os
amigos e nos afastamos do nosso “refúgio”.
Passamos em frente a Jurumirim, que vai deixar saudades,
deixamos a ilha do Mantimento para trás e seguimos na direção da
famigerada ponta da Joatinga. No caminho, meu boné preferido, do
porta-aviões A12, foi arrancado de minha cabeça pelo vento e não deu
para pegá-lo! Puxa, esse boné passou por tantas travessias, muitos ventos
fortes e foi se perder justamente na baia da Ilha Grande?! É um sinal, para
não descuidarmos nunca: “Vão-se os bonés, fique a cabeça!”.
Quando nos aproximamos da ponta da Joatinga, a Carol chamou
nossa atenção para a figura perfeita de uma baleia cachalote imensa
esculpida na montanha. Muito legal!!! O Jonas comentou: “- Xi, tinha que
ser cachalote!!!” (é a única que tem a garganta grande e que poderia ter
engolido o Jonas bíblico). Provavelmente, será a última baleia da viagem!
Contornamos a Joatinga, passamos pela ilha de Cairuçu e pela bela Ponta
Negra, que conhecêramos com a Berê. O mar estava calmo e só havia
ondas na frente dos grandes paredões dessas pontas.
O final de tarde e o pôr-do-sol foram belíssimos!!! Conseguíamos
enxergar a ilha Anchieta, a ilha Vitória e vislumbrar uma sombra, que
devia ser a ilha de Búzios. Não enxergamos a “nossa” Ilha, mas sabemos
onde ela está e que está esperando nos aproximarmos mais para se
mostrar! Vimos o sol se pôr ao lado da ilha das Couves. O reflexo
alaranjado da luz do sol, com o contorno da ilha escura em contra-luz, foi
esplêndido! Para completar, uma lua crescente já descia, pouco depois do
sol, alaranjando também, quando escureceu.
Redobramos nossa atenção, distribui tarefas para cada um e nos
aproximamos da ilha das Couves, passando perto de alguns barcos de
pesca. Faríamos nossa primeira chegada à noite! A Carol foi para a proa
e se tornou “nossos olhos”; o Jonas ficou ao lado do piloto, controlando-
o, também de olhos abertos; eu fazia a navegação pelo GPS. Quando
contornamos o ilhote das Couves, a Carol tomou um grande susto:
pequenos golfinhos começaram a pular ao lado dela, na proa!!! Ela ficou
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alucinada e queria que nós fôssemos para a proa, para vê-los também!
Não pudemos fazer isso, pois tínhamos que fazer a manobra de
aproximação cuidadosamente. Entramos na enseada protegida e
soltamos âncora ao lado de um veleiro e perto de alguns pesqueiros.
Eram oito e meia da noite e a travessia, foi quase toda feita a motor.
Voltamos ao estado de São Paulo, de onde saímos em dezembro de 2005
e fomos recebidos pela típica falta de vento de Ubatuba!

22/02/2007 - Acordamos no paraíso! A água das Couves estava


“caribenha”, com vinte metros de visibilidade e deliciosa! Caí na água,
para despertar de verdade.
Fomos com o bote para o ilhote das Couves, tentando pescar com
isca artificial. Num dos lances, a isca enganchou no fundo e eu caí na água
para soltá-la. Não voltei ao bote e a Carol também pulou na água. Vimos
uma bela arraia e dois frades. Apesar da água maravilhosa, a fauna estava
pobre. Nadamos até a praia e ficamos brincando ao sol. Quando
começaram a chegar barcos de turismo, seguimos viagem. Levantamos a
âncora e abrimos as velas, pois o vento resolveu aparecer. Soltamos a isca
artificial e seguimos em direção ao Saco da Ribeira.
Numa das saídas da cabine, olhei para trás e vi algo branco,
flutuando ao longe, na popa do barco. Recolhi a isca, imaginando ter
pescado um saco de plástico. Era um peixe! Içamos uma pequena
barracuda (ou bicuda, como chamam por aqui) de um quilo! O Jonas se
sentiu vingado das barracudas, que o assustaram em Abrolhos.
Nos aproximamos da ilha Anchieta e, quando atingimos o
boqueirão, pudemos ver Ilhabela inteira, que se mostrava ao longe, nos
esperando pacientemente! Guinamos para o Saco da Ribeira e fomos
vendo as praias de Ubatuba, que tanto gostamos.
Na hora de baixar a mestra, pedi ao Jonas para liberar “o cabo azul”.
Ele perguntou qual cabo era e respondi: “- A adriça da mestra”. No começo
da viagem, isso acontecia ao contrário, mostrando como eles vieram bem
mais “marinheiros”.
Fomos para o píer e atracamos às seis e meia da tarde. Passamos no
Hisashi e cumprimentamos o amigo, que já nos esperava. Após o banho,
tomamos sucos gelados de graviola e cupuaçu, para matar saudades do
Nordeste. Logo chegaram o Flávio e a Rosa e, pouco depois, o Dimitri e
as meninas. Como elas estão grandes e lindas! Vemos o tempo passar,
realmente, quando olhamos os nossos filhos e como cresceram!
Montamos uma mesa e, algum tempo depois, chegaram a Lucila e a
Sirleine. Conversamos muito, contando histórias de viagens e de regatas.

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As crianças, na mesa ao lado, também contavam suas histórias e todos
comentaram que o Jonas voltou bem mais falante.
Ao final do sashimi, estouramos um dos dois champanhes, que o
Dimitri nos trouxe de presente, para comemorarmos a chegada. O outro,
ele nos disse para estourar quando chegarmos na Ilha.

23/02/2007 - “- Quem quer ir tomar café da manhã no Hisashi?”, palavras


mágicas, que levantaram rapidamente a tripulação. Despedimos do
Hisashi e da Emília e navegamos para o Flamengo. Caí na água, que
estava transparente e com uns trinta graus de temperatura. Essa enseada
é deliciosa! Fomos para a praia com o botinho e ficamos ali, na beirada da
praia, a tarde toda, até o sol sumir. Brincamos, nadamos, mergulhei e o
Jonas velejou com seu nautimodelo. Desfrutamos essa delícia de praia,
que nos relaxou no primeiro dia de viagem e, agora, permitiu que
gozássemos o último dia dela, em profundo descanso.
Telefonaram-me da Capitania dos Portos, perguntando sobre um
veleiro desaparecido. Pouco depois, o genro do velejador desaparecido,
que é de Santa Catarina, me ligou também. Deveríamos ter cruzado com
ele na quarta ou quinta-feira, mas não o vimos. Provavelmente, afastou-
se de terra, onde ficou sem vento e sem motor. Mesmo não havendo
situação de tempo ruim, é preocupante alguém não dar notícias.
Quando escurecia, o genro do velejador me telefonou, dizendo que
ele chegou bem em Parati. O vento fraco de Ubatuba tem o péssimo
costume de dar sustos nos familiares de velejadores!
As crianças acabaram seus estudos. Agora é só chegarem na escola
e fazerem a prova de reclassificação.
Vários amigos, que estão ansiosos para chegarmos, perguntaram
como está o “coração” para a volta ao porto de origem. A Carol está louca
para chegar (queria ter ido hoje!), pois está ansiosa para rever todos. O
Jonas quer encontrar os amigos e parentes, mas acho que preferia
continuar a viagem. Eu estou num paradoxo de sentimentos: se é muito
bom voltar, encerrar o ciclo e rever os amigos, também é muito bom
viajar, conhecer lugares e fazer amigos. Tudo tem sua hora. Agora é a
hora da volta. Acho que não vou dormir de hoje para amanhã!
A noite é de paz completa e não sopra nem uma brisa lá fora. O mar
está espelhado, o céu todo estrelado e as luzes da praia da Enseada e dos
outros barcos fundeados enfeitam a noite. Fiz muitas coisas hoje com o
sentimento de “última vez”: último jantar, últimos legumes, última noite
a bordo, etc. Apesar disso, não há melancolia: só a profunda sensação de
um ciclo terminando. E, talvez, tenha sido o melhor de todos até hoje!

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Hora da Volta

24/02/2007 - Acordamos com uma manhã perfeita: sol, céu azul e água
transparente! Quando eu disse: “- Vamos arrumar as coisas para irmos para
a Ilha?”, a resposta foi um sonoro “- Obaaaa!!!”. Tomamos um bom café
da manhã, o último da viagem (como essa sensação persegue a gente!).
Quando estávamos prontos, recebemos uma visita inesperada: a
Daniela, do barco vizinho, veio conversar conosco. Contamos nossa
história e alguns detalhes da nossa viagem. Ela e o marido são
apaixonados pelo mar e têm uma poita perto do Fandango, em Ilhabela.
Uma tartaruga grande veio se despedir de nós, passando sob o barco.
Soltamos as amarras faltavam vinte para o meio-dia. O vento dava
o ar de sua graça, lestado. Estávamos com toda a aparelhagem de balão
armada: será que, finalmente, levantaremos o balão na nossa viagem? O
vento, com oito a dez nós, vindo de través, permitiu que o levantássemos
e tivéssemos bom rendimento. Demos folga ao “Jarbas” e ao “Alfredo” e
timoneamos o “Fandas”, nos revezando.
Nossa Ilha crescia no horizonte e se mostrava totalmente. As ilhas
Anchieta e Mar Virado iam ficando pequenas e cada vez menos nítidas.
Estávamos chegando!!! Aconteceu um último “stress”, para fazer as
crianças comerem alguma coisa. Elas estavam tão ansiosas e com tanta
vontade de comer no Cheiro Verde, que não queriam almoçar.
A Ponta das Canas nos recebeu em alto estilo, com uma lestada forte
e muitos kite’s e wind’s cortando a nossa frente, enfeitando
perigosamente o mar. Ao nosso lado, passou o Betão Pandiani, que já foi
da Antártica ao Ártico com seus fantásticos catamarãs pequenos sem
cabine. Adoramos ver a incrível performance de seu veleirinho.
E a Ilha, como estava bonita!!! O coração batia mais forte! Os amigos
começaram a nos telefonar e contatar por rádio: Denir, Márcio, Lu e
outros estavam todos à nossa espera. Liguei para a Delegacia dos Portos
de São Sebastião e avisei da nossa chegada, agradecendo o apoio. Foi o
Capitão-dos-Portos daqui que me orientou para conseguir o apoio da
Marinha do Brasil, fundamental para a execução de nosso projeto.
Passamos em frente à Vila, bem defronte ao píer. Gostamos do que
vimos: parece estar muito bonita e vimos muitas árvores. Tínhamos medo
de achá-la sem verde algum, pelo que nos contaram.

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Abaixamos o balão na entrada do canal do Pindá, chegando em alto
estilo, e fomos para nossa antiga poita, emprestada pelo amigo Luis Puig,
que nos esperava. Eram cinco horas da tarde e chegamos todos bem,
realizando de uma vez só os três desejos feitos ao Nosso Senhor do
Bonfim, quando foi amarrada ao meu pulso a fita dele, na nossa primeira
chegada a Salvador. Agora posso dizê-los: “Voltarmos a salvo, voltarmos a
salvo e voltarmos a salvo!”.
Quando pegávamos a poita, gritos de “- Carol, Carol...” nos chamou
a atenção e lá vinham três amigas dela a nado. Fui buscar as meninas com
o bote (a praia de onde saíram era longe!!!) e logo elas matavam saudades.
A Marina, a primeira a chegar, escreveu para a Carol a viagem toda e
sempre queria saber notícias dela. Pouco depois, o André, um amigão do
Jonas, também chegava nadando, grandão e com voz grossa. Como é
engraçado ver o crescimento e mudança dessas crianças-adolescentes! A
mesma surpresa todos tiveram com o Jonas e a Carol, que cresceram e se
desenvolveram muito no último ano.
Fomos rapidamente para a praia. Foram muitos beijos e abraços,
num emocionante reencontro com vários amigos queridos. Estouramos o
champanhe do Dimitri e o tomamos na praia. Tiramos o que era
imprescindível do barco, vimos o pôr-do-sol, espetáculo do qual não nos
cansamos um dia sequer em nossa viagem e fomos para nossa casa.
Como foi bom entrar em casa! Apesar de tudo estar igual, a
impressão de tudo estar muito longe no tempo é grande. Em alguns
momentos, parece que saímos há dez anos! Outros, parece que faz um
dia! Um banho restaurador nos elevou mais o astral e, como é dia de
comemorações, fomos direto comemorar o aniversário da Camila, uma
amiga nossa, com direito a churrasco, violão, histórias e cantorias.
Passamos uma noite muito agradável, vimos duas vezes a meia-
noite (é final de horário de verão!), finalizando duas vezes este dia
especial! Retornamos à nossa casa e às nossas camas. De tão cansados,
não estranhamos a mudança e também não sentimos tudo balançando,
como acontece quando desembarcamos de uma viagem longa.
Completamos nossa viagem, vivemos intensamente nosso sonho e,
agora, cá estamos de volta, ao carinho dos amigos, belezas de Ilhabela e
conforto do lar. Dormi profundamente, profundamente, mas... sei que
sonhei! Com navegadas por novos mares e novos lugares. Novos amigos
e novas coisas para ver, aprender e apreciar. Eu já disse que a maior
beleza da vida é que ela se renova continuamente. E a maior beleza do ser
humano é que seus sonhos também se renovam sempre. Resta, a nós,
perseguir vivê-los, sempre e sempre!

289
44
Pós-Escrito

Domingo dormimos muito e curtimos a delícia de nossa casa. No


final da tarde, fizemos a “via sacra” por nossa Ilhabela querida: jantar no
Cheiro Verde, sorvetes no Rocha, café e doces no Ponto das Letras. Vimos
a Vila de perto e está muito bela em sua nova roupagem. Encontramos
muitos amigos e foi uma constante receber os parabéns e elogios,
admirados, pelo desenvolvimento das “crianças”.
Na segunda-feira, levei-os à escola e os colegas e professores os
receberam com muita alegria. Eles estudam no São João desde 98, quando
nos mudamos para a Ilha, ou seja, dois terços da vida deles! Conhecem
todos pelo nome e todos os conhecem desde pequenos.
À tarde, tivemos um “parto” difícil: remover todas os nossos
pertences do “Fandas”. O Pindá Iate Clube, muito gentil, permitiu-nos o
uso do píer, mesmo sem sermos sócios. Foi uma tarde inteira de trabalho,
num vai-e-vem interminável, onde lotamos o carro várias vezes e
transportamos tudo para casa!!! Nunca imaginei ter tantas coisas a bordo!
E não acabou: ainda ficaram faltando algumas.
Dentro do Fandas, enquanto trabalhava, “caí na real”. Nossa casa
flutuante dos últimos catorze meses e catorze dias, se desmanchava. Nós
estávamos desmontando o objeto de nosso sonho e, conseqüentemente, o
próprio. Foi a coisa mais difícil da viagem. Talvez mais difícil do que
dobrar para o sul na saída do rio Paraíba, vendo os amigos dobrarem para
o norte, momento decisivo da volta. Quanto mais o coração apertava,
mais esforços eu fazia, para tentar esquecer.
Levamos o Fandango de volta à poita, onde ele esperará sua “roupa
nova” para voltar às raias, na sua melhor característica: barco de regatas!
Deve estar com saudades! Mas não decepcionou nada como “barco casa”
e nos levou em segurança absoluta, mesmo com algumas condições de
mar e ventos adversos, à realização de nosso sonho.
Na escola, as crianças sentem a complementação do estudo com a
“vivência”. Discutem com os professores o clima do nordeste, relacionam
osmose de transporte celular com osmose em barcos e dessalinizadores e
falam dos chapeirões de Abrolhos, crescendo para a luz. Palavras para os
outros, são sensações para eles: imagens, sons, cheiros e paladares! Isso é
aprendizado e conhecimento!

290
Dois dias depois da chegada, já senti a Carol mais “mocinha”, talvez
pelo contato com as amigas, que estão bem mudadas.
As crianças fizeram provas na escola, para ver se tinham condições
de acompanhar a antiga turma. E não foram apenas as duas provas de
reclassificação, de português e matemática, combinadas anteriormente.
Foram de todas as matérias! Em duas semanas, eles fizeram doze provas:
seis referentes às matérias completas do ano passado, e mais seis
referentes às matérias deste ano letivo, que já havia iniciado e cujas aulas
eles haviam perdido. Apesar de, nessas duas semanas doidas, alguns dias
eles terem ido dormir às onze e meia da noite e terem acordado às quatro
da manhã para estudar, valeu o sacrifício. O rendimento foi ótimo e só
receberam elogios de professores e diretores! Fiquei muito orgulhoso de
meus filhos, principalmente, pela responsabilidade que demonstraram.
Quanto a mim, estou colocando a casa em ordem e os negócios em
dia. Novos sonhos vão se delineando, todos ligados ao mar. Sempre
gostei de trabalhar por objetivos e estes não faltam. Quero aproveitar
muito o contato com amigos e parentes, dos quais estamos matando
saudades. Espero receber muitos amigos, que nos receberam tão bem
durante a viagem, para apresentar-lhes um pouco do nosso litoral.
Esperamos ansiosamente a família Hagge, o Mauro e a Cristina, o
Aurélio, a Simone, o Edgar, a Patrícia e a Pilar, a Soninha, o Antônio e a
Rô, o Rogério e família, a Berê, a Esther, o Serginho e outros tantos
amigos, que prometeram aparecer para nos ver. Como disse a Simone,
“uma espiral de amigos, que nos torna andarilhos para aplacar a saudade do
coração”. E torcemos, do fundo do coração, para que Rodrigo, Márcia,
Nick e Rafinha, Hugo, Gi e Talita, Torres e Eliza, Claudiney, Edélcio e
outros que conhecemos, aproveitem essa maravilha que é viver viajando,
por muito tempo. Que “o mar sempre os deixe passar”! Quem sabe, não
nos encontraremos em breve por esse marzão de Deus (de preferência,
sem as “correntezas nos fazendo esbarrar”, não é Gi!!!).
Sei que só saberemos a real dimensão desta viagem em nossas vidas
dentro de alguns anos, mas, tenho certeza, será positiva. Foi um ano feliz,
muito feliz mesmo, que desejamos repartir com todos!

Só sinto que temos que fazer mais uma coisa, para encerrar
definitivamente a nossa viagem: procurar um “templo” para agradecer!

Espero que tenham apreciado “navegar” conosco e, também, ter


conhecido o melhor ano de nossas vidas... por enquanto!

291
Apêndices

Para não inchar demais este livro, coloquei diversos apêndices


técnicos no nosso site www.tresnomundo.com.br. Lá também há artigos
falando de custos de nossa viagem e da legislação de educação usada para
as crianças fazerem as provas quando retornamos de viagem e não
perderem o ano escolar, coisas que todos me perguntam.

Para aqueles que gostam de imagens, há uma seção com fotos e


filmes, separadas por capítulos do livro. Dessa forma, você pode ler um
capítulo e visualizar todas as imagens referentes a ele que possuímos.

A navegação para se encontrar os apêndices é a seguinte:

Menu principal, Livro “O Melhor Ano de Nossas Vidas”:


- Seção de imagens
- Artigos gerais, incluindo custos e educação.

Menu principal, Projeto Três Visões do Brasil:


- Nossos Diários (diários completos da viagem sem revisão).

Menu principal, Projeto Três Visões do Brasil, Descrição do Projeto:


- O Barco (descrição do barco e seus componentes).
- Lista de Medicamentos.
- Lista de Roupas.
- Lista de Comidas Conserváveis sem Gelo.
- Publicações e Livros Levados.

292
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Glossário Simplificado

As explicações dos termos do glossário se referem ao uso empregado


dentro do livro e fazem parte, em sua maioria, do vocabulário náutico. Tentei
fazer uma descrição bem simples, para auxiliar o entendimento do leitor não
acostumado aos termos.
Em vários lugares do livro apareceram os termos sudoeste, nordeste, leste,
sul, etc., referindo-se às direções do vento. Essa direção é sempre a de onde o
vento vem. Portanto, “sul” é o vento o que está vindo do sul e indo para o norte.

Acoplamento Peça de união do eixo do motor com o eixo do hélice.


Adernar Inclinar lateralmente.
Adriça Cabo usado para subir as velas ou outro objeto.
Aerorig Tipo de mastreação auto-portante (sem necessitar de cabos
de aço para segurar o mastro).
Alheta Parte do barco entre a popa o meio do barco.
Amantilho Cabo usado para sustentar a retranca e pau-de-spi.
Amarra Cabo para atracação.
Ancorar Soltar a âncora para manter o barco parado.
Anemômetro Instrumento para medir a velocidade do vento.
Aparelhagem Conjunto de peças (roldanas, cabos, etc.).
Aproar Apontar a proa (ficar com o barco de frente).
Aquartelar Situação em que as velas e o vento ficam do mesmo lado,
fazendo com que o barco não se mova.
Ardentia Luz no mar provocada por organismo fosforescente.
Arrais Habilitação para navegar em águas abrigadas.
Arribar Ir mais a favor do vento.
Asa de Pombo Formação de velas usada no vento de popa, onde cada vela
fica aberta para um lado.
Atobá Pássaro marinho pescador.
Atracar Encostar a um barco ou a um píer.
Atravessar Mudar de rumo violentamente de forma acidental.
Balão Vela grande e colorida usada em ventos favoráveis.
Barlavento Lado de onde vem o vento.
Bicheiro Haste com uma espécie de anzol na ponta, usada para
puxar peixes para o barco.
Boca Largura de um barco.
Bochecha Parte do barco entre a proa e o meio do barco.

294
Bomba D’água Bomba de puxar água. Pode ser usada nas pias, para trazer
água salgada ou doce. O motor tem uma para puxar água
salgada para resfriá-lo.
Bombordo Lado esquerdo do barco de quem olha para a proa.
Boqueirão Passagem estreita.
Bordo Manobra onde giramos o barco apontando-o para o vento
e continuamos girando até receber o vento pelo outro lado.
Bordo de Ataque Parte da quilha, rabeta e leme que recebem primeiro a
água quando estamos navegando.
Boreste Lado direito do barco de quem olha para a proa.
Bruce Tipo de âncora boa para vários tipos de fundo.
Burro Peça que impede que a retranca suba em ventos por trás.
Cabeço Lugar para amarração de cabos num píer.
Cabine Parte interna de um veleiro.
Cabo É a popular “corda”, usada para amarrar algo.
Caíque Pequeno barco de apoio, para subir e descer do barco
maior.
Calado Distância vertical entre a água e a parte mais submersa do
barco.
Carneirinhos Ondas brancas causadas pelo vento.
Catamarã Barco com dois cascos.
Catraca Peça para auxiliar a efetuar grandes esforços em cabos
(basicamente um carretel com uma alavanca).
Caturrar Bater nas ondas no sentido longitudinal do barco.
Centro Vélico Ponto onde está concentrada toda a força do vento
aplicada nas velas.
Cerco Rede circular para prender peixes.
Ceviche Peixe cru com limão, sal e alho.
Chapeirão Formação de coral que sobe do fundo do mar no formato
de um cogumelo.
Charter Aluguel de barcos.
Cockpit Convés protegido de um barco de onde a tripulação o
manobra.
Convés Parte superior de um veleiro.
Corrico Pescar arrastando uma linha com uma isca.
Costado Lateral do casco de um barco.
Craca Organismo que se prende ao casco e cria uma concha dura.
Cruzeta Peça transversal ao mastro para mudar a direção dos
esforços dos estais.
Cunho Peça para amarração de cabos.
Danforth Tipo de âncora boa para fundos de areia e vento constante.
Day Sailer Pequeno veleiro de passeio.
Defensa Material mole para evitar choques contra outros barcos ou
píeres, permitindo que se encoste a eles.

295
Dessalinizador Aparelho que remove o sal da água do mar e a torna
própria para o consumo.
Divinicell Material muito leve para a construção de barcos.
Dog-House Proteção da entrada da cabine, como se fosse uma tenda.
Doldruns Região sem vento próxima à linha do Equador.
Encastoado Arame ou fio de aço ao qual o anzol fica preso.
Enrolador Peça composta de um carretel e distorcedor usada para
enrolar as velas.
Escada Quebra- Escada de cabo, mole e difícil de subir, usada em barcos
peito grandes.
Escota Um dos punhos da vela. Também indica o cabo que caça
esse punho, que permite esticar a vela.
Escuna Tipo de embarcação usada para passeios.
Espelho de Popa Fechamento da popa de um barco.
Espinhel Cabo com muitos anzóis para pesca profissional.
Estai de Popa Cabo de aço, localizado na popa de um veleiro, que não
deixa o mastro cair para frente.
Estaiamento Conjunto de cabos de aço que sustentam o mastro.
Estais Cabos de aço que sustentam o mastro no sentido
longitudinal.
Fortress Fabricante de uma âncora especial de alumínio.
Fragata Pássaro marinho parasita dos atobás.
Freio da Catraca Alavanca para travar a catraca especial para cabos de aço.
Frente Fria Massa de ar frio que vem dos pólos, trazendo muito vento.
Fundeio Ancorar.
Gaiutas Peças que fecham grandes aberturas num barco.
Gamboa Armadilha para peixes.
Garrar Arrastar a âncora no fundo, sem estar firme.
Genoa Vela da frente, que não vai presa ao mastro.
GPS Aparelho eletrônico que informa sua posição no globo
(latitude e longitude).
Guia Peça para desviar um cabo.
Gurupés Haste comprida na proa de alguns veleiros e escunas.
Iate Clube Clube reservado voltado ao mar, com associados que os
mantém e que podem receber visitantes ou não.
Jibe (Jaibe) Manobra onde giramos o barco levando a proa a favor do
vento e continuamos girando até recebê-lo pelo outro lado.
Lazy-jack Conjunto de cabos para manter a mestra em cima da
retranca quando ela desce.
Leme Conjunto de peças que permitem dar direção ao barco.
Linha D’água Linha de flutuação do barco.
Luva Peça que envolve a retranca e a reforça.
Manicaca Alavanca para ser usada na catraca.
Manilha Peça de aço usada para prender algo.

296
Marcações Alinhamentos com estruturas fixas em terra para realizar
navegação.
Marear Efetuar regulagem.

Marina Estrutura náutica que recebe clientes, independente de


associação.
Marolas Pequenas ondas.
Mastreação Conjunto de mastros.
Mestra Vela principal que vai presa ao mastro.
Mestre Habilitação para fazer navegação costeira.
Mezena Vela que fica no mastro de ré em veleiros com mais de um
mastro.
Milha Uma milha náutica equivale a um quilômetro e oitocentos
metros aproximadamente.
Monotipo Pequenos barcos iguais construídos para regatas.
Nó (velocidade) Medida de velocidade: uma milha náutica por hora.
Noctilucas Organismo marinho fosforescente.
Olhal Buraco reforçado para permitir amarração de cabo.
Orçar Ir mais contra o vento.
Osmose Movimento da água entre meios com concentrações
diferentes, separados por uma membrana semipermeável.
Painel Solar Aparelho que capta energia solar e a transforma em
energia elétrica.
Paiol Espaço para armazenar objetos e alimentos.
Panejar Bater de uma vela solta, como uma bandeira tremulando.
Pau-de-Spi Travessa perpendicular ao mastro para manter velas
abertas.
Pé (comprimento) Um pé equivale a aproximadamente trinta centímetros.
Perna Um trecho de viagem.
Píer Estrutura avançada sobre o mar para atracar um barco.
Piloto Automático Piloto eletrônico para dirigir um barco. Usa uma bússola
interna ou um GPS para esse controle.
Pirajá Vento resultante da aproximação de uma nuvem.
Poita Bloco de cimento no fundo do mar ao qual um barco é
preso por cabos.
Popa Parte de trás de um barco.
Popa Rasa Rumo seguido com o vento vindo exatamente da popa.
Prático Pessoa que conhece muito bem um lugar e presta serviços
para entrada e saída de um porto abrigado.
Preamar Maré alta.
Pré-Frontal Vento forte que chega antes de uma frente fria.
Preventer Peça ou cabo para evitar que a retranca passe em grande
velocidade, de um bordo ao outro, num jibe involuntário.
Proa Parte de frente de um barco.
Puçá Rede com cabo para pegar peixes e siris.

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Quebra-mar Estrutura fixa para absorver o impacto de ondas e proteger
um porto.

Quilha Estrutura pesada no fundo de um veleiro, que lhe dá


estabilidade e capacidade de avançar contra o vento.
Rabeta Conjunto de transmissão do motor para um hélice sob a
água.
Rádio SSB Rádio de longo alcance (mundo inteiro).
Rádio VHF Rádio de curto alcance (20 milhas).
Retranca Travessa perpendicular ao mastro para regular o formato
da vela mestra.
Reversor Equipamento para poder engatar e desengatar o motor de
um barco.
Rizar Diminuir o tamanho de uma vela.
Rotor Peça mole de borracha que puxa a água numa bomba.
Rumo Magnético Rumo apontado por uma bússola.
Rumo Verdadeiro Rumo real, sem o desvio magnético.
Safo Livre, desembaraçado, esperto.
Salão Sala de um veleiro.
Saveiro Embarcação típica da Bahia.
Savelha Pequeno peixe parecido com a sardinha.
Selo mecânico Peça para evitar entrada de água pelo eixo do hélice.
Singraduras Deslocamentos.
Skipper Capitão.
Slider Peça que prende a vela mestra ao mastro.
Sotavento Direção para onde o vento sopra.
Targa Estrutura de aço inox na popa de um veleiro para a
instalação de instrumentos.
Tarrafa Rede de pesca circular para ser lançada.
Testa Face da vela que recebe o vento.
Tope Ponta superior do mastro.
Traineira Barco de pesca.
Traveller Aparelho para deslocar o ponto onde a retranca é presa ao
convés.
Través Direção perpendicular ao barco.
Trawler Barco a motor de grande autonomia e baixa velocidade.
Unhar Firmar a âncora ao fundo.
Valuma Face da vela por onde o vento sai.
Válvula Válvula do motor que permite a entrada de água de
Termostática refrigeração quando esta é necessária.
Vergas Travessas de barcos antigos onde eram presas as velas
redondas.
Vigia Pequenas aberturas num veleiro para entrada de ar.
Waypoint Ponto. Uma determinada latitude e longitude.
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Zarpar Deixar um porto.

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